Ginecologia e ObstetríciaParto e assistência ao nascimento

Estreptococo do grupo B

A prevenção que só funciona se a logística funcionar: a bactéria não adoece a mãe, o antibiótico é o mais barato da farmácia, e quase toda falha é de processo — a cultura que não foi pedida, o resultado que não chegou e a dose que começou tarde demais para valer.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Manual de gestação de alto risco. Brasília: Ministério da Saúde; 2022. 692 p. ISBN 978-65-5993-312-9

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas para prevenção da transmissão vertical de HIV, sífilis e hepatites virais. 2ª ed. rev. Brasília: Ministério da Saúde; 2022

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Atenção ao pré-natal de baixo risco. 1. ed. rev. Brasília: Editora do Ministério da Saúde; 2013. 318 p. (Cadernos de Atenção Básica, n. 32). ISBN 978-85-334-2043-4

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Caderneta brasileira da gestante. Brasília: Ministério da Saúde; 2026. 108 p. ISBN 978-85-334-2907-9

Brasil. Ministério da Saúde. Diretrizes nacionais de assistência ao parto normal, aprovadas pela Portaria SAS/MS nº 353, de 14 de fevereiro de 2017. Brasília: Ministério da Saúde; 2017

01

Responda antes de ler

Você acompanha o pré-natal de uma gestante de baixo risco numa unidade básica de saúde e revisa a caderneta brasileira da gestante para conferir os exames do terceiro trimestre. Sobre o rastreamento do estreptococo do grupo B na rotina federal brasileira, qual afirmação é correta?

02

O paciente que você vai ver

São 2h40 e Zuleica Meneghel chegou à maternidade há quarenta minutos. Vinte e sete anos, segunda gestação, 39 semanas e 1 dia contadas pela ultrassonografia do primeiro trimestre, trabalho de parto com 5 cm de dilatação. O cartão de pré-natal dela é o melhor que você viu na semana: nove consultas, todas anotadas com letra legível pela enfermeira Delzuite, tipagem sanguínea, sorologias dos dois painéis com data, urocultura do primeiro trimestre tratada e controle negativo, ultrassonografias, vacinas em dia. Não falta nada.

Falta uma coisa. Em nenhuma linha do cartão há um resultado de cultura para estreptococo do grupo B — nem positivo, nem negativo, nem "aguardando". A técnica Gorete pergunta se você quer que ela procure num papel solto dentro da pasta. Não há papel solto. O exame não foi perdido: ele não foi pedido, e ninguém falhou por isso, porque não existe campo para ele na caderneta que essa mulher carregou por nove meses.

A bolsa rompeu. Zuleica diz que "molhou a cama" antes de dormir e que dormiu mais um pouco antes de chamar o marido — pode ter sido às onze, pode ter sido antes. A temperatura axilar que Gorete acabou de medir é 37,4 °C. O foco fetal está em 148 batimentos por minuto e o líquido é claro. Ela pergunta, entre uma contração e outra, se precisa de alguma coisa, porque na primeira gestação "tomaram um monte de soro" nela.

Este capítulo é sobre a decisão que você toma nos próximos dez minutos, e sobre por que ela é mais difícil no Brasil do que deveria ser. Nada aqui é clinicamente obscuro: a bactéria é conhecida há sessenta anos, o antibiótico que a bloqueia é o mais barato da farmácia, e o esquema cabe em duas linhas de prescrição. O que é obscuro é a régua — porque não há uma só, e as que existem estão todas em vigor ao mesmo tempo, dizendo coisas diferentes.

Há uma segunda dificuldade, e é dela que o capítulo se ocupa mais. A colonização pelo estreptococo do grupo B não adoece a mãe. Zuleica não tem sintoma nenhum relacionado à bactéria e nunca vai ter; se ela for portadora, o corpo dela é apenas o caminho. Quem adoece é o recém-nascido, nas primeiras horas de vida, e adoece rápido demais para que o diagnóstico etiológico chegue antes do desfecho. Isso significa que tudo o que se faz aqui é feito por alguém que não vai ver o benefício e a favor de um paciente que ainda não nasceu.

E há a terceira, que é a razão de este capítulo existir no meio de uma apostila sobre parto. A profilaxia funciona por um mecanismo trivial — antibiótico no sangue da mãe atravessa a placenta e ocupa o canal de parto antes de o bebê passar por ele — e por isso ela depende inteiramente de tempo. Existe um número mínimo de horas entre a primeira dose e o nascimento, abaixo do qual a prescrição foi feita, a droga foi infundida, o prontuário registra tudo certo, e a profilaxia não valeu. A maior parte das falhas deste tema não é clínica: é a cultura que não foi pedida, o resultado que não chegou à maternidade e a dose que começou tarde.

O que vem a seguir é, nesta ordem: o que se rastreia e por que a colonização não se trata; qual é a régua brasileira, que é a parte incômoda; quando e como se colhe, e por que os dois sítios não são detalhe; quem recebe profilaxia sem ter cultura e quem não recebe mesmo tendo; o esquema, com as contas do frasco; a alérgica à penicilina, onde mora a decisão que mais se erra; e o que se escreve para a neonatologia antes de sair da sala.

03

Quem adoece disso

Comece pelo denominador, porque ele explica o incômodo de todo o resto. Entre as gestantes brasileiras, a colonização vaginal e anorretal pelo estreptococo do grupo B varia de 14,1% a 27,6%, segundo o manual federal de gestação de alto risco; na literatura internacional a faixa é ainda mais larga, de 1,6% a 36%, e o documento da sociedade brasileira de pediatria registra de 5% a 41%. Traduzindo para o plantão: entre uma em sete e uma em quatro das mulheres que passam pela sua maternidade são portadoras, e nenhuma delas tem qualquer sintoma que a denuncie.

Agora o numerador. Dessas portadoras, de 35% a 69% transmitem a bactéria ao recém-nascido durante o parto — a média habitualmente citada é de metade. E, dos recém-nascidos colonizados, apenas 1% a 2% desenvolvem a doença invasiva. A cadeia inteira, multiplicada nas pontas que o próprio manual federal declara, produz de 0,49 a 3,81 casos por mil gestações, ou seja, algo entre um caso em 2.026 e um caso em 263. É uma faixa de quase oito vezes, e ela vem de um documento só: nenhum dos números da cadeia é preciso, e a imprecisão se multiplica.

A doença que se previne é a sepse neonatal de início precoce, e a sua marca é a velocidade. Ela ocorre na primeira semana de vida, com 90% dos casos nas primeiras 24 horas após o parto. A instalação e a evolução são rápidas a ponto de o óbito acontecer antes de o diagnóstico etiológico ser estabelecido — o que significa que o resultado da hemocultura frequentemente chega depois de tudo. A letalidade declarada chega a 20% entre os que desenvolvem a doença, e a frequência de sequelas entre quem sobrevive é estimada de 15% a 30%.

A mortalidade não se distribui por igual, e o subgrupo que mais importa numa maternidade é o prematuro: abaixo de 33 semanas, a letalidade declarada pelo mesmo manual chega a 30%. É o único ponto da epidemiologia que muda a sua conduta imediata — o prematuro é ao mesmo tempo o que mais adoece, o que mais morre e o que mais frequentemente chega sem cultura, porque nasceu antes da semana em que a cultura seria colhida.

Os números brasileiros de doença existem e são poucos. Uma série de dez anos com 111.241 nascimentos, publicada em 2002, encontrou incidência de doença precoce de 0,39 por mil nascidos vivos com letalidade de 60% — e registra que, apesar de todas as gestantes terem feito pré-natal, nenhuma foi investigada quanto à colonização e nenhuma recebeu profilaxia adequada. O mesmo grupo relata depois incidência de 0,14 por mil e letalidade de 30%, após campanhas de sensibilização de obstetras, enfermeiras obstétricas e neonatologistas. Nos Estados Unidos, onde o rastreio universal virou política nacional em 1996 e foi revisado em 2002 e 2010, a incidência da forma precoce caiu de cerca de 1,7 para cerca de 0,3 por mil nascidos vivos.

Há um número de processo que decide mais coisa do que todos os anteriores, e é a razão de este capítulo ter um bloco de conduta longo. Quando não existe cultura e se usa a estratégia de fatores de risco, ela identifica de 60% a 67% das parturientes colonizadas. O complemento é o que interessa: de um terço a 40% das portadoras não têm nenhum fator de risco e passam despercebidas por essa estratégia. Uma série brasileira citada pela sociedade de pediatria mede a falha em 33% dos casos. Não é uma diferença de opinião entre escolas — é a diferença entre duas políticas com desempenhos medidos.

Por fim, o número que fecha a discussão sobre custo. Usando o próprio exemplo aritmético do caderno federal de atenção básica, com prevalência de 20%, mil gestantes rastreadas geram 200 positivas que recebem antibiótico para evitar dois casos de sepse — cem mulheres tratadas por caso evitado, se a profilaxia fosse perfeita. Aplicando a eficácia que o manual federal de alto risco declara, de 86% a 89%, o número necessário a tratar sobe para 112 a 116. Aplicando a eficácia bem menor que a nota técnica municipal declara, de 25% a 30%, sobe para 333 a 400. É a mesma pergunta com três respostas, e o bloco de critério mostra de onde vem a discrepância.

04

Por que acontece o que acontece

O Streptococcus agalactiae, ou estreptococo do grupo B na classificação de Lancefield, é um diplococo gram-positivo cujo reservatório humano é o trato gastrointestinal. A vagina é colônia satélite, não sede: o terço distal da mucosa vaginal é colonizado a partir do canal anorretal, de forma contínua e repetida. Essa é a primeira coisa a entender, porque dela decorrem duas consequências práticas que aparecem em todo o resto do capítulo — a razão de a coleta ter dois sítios, e a razão de tratar a mulher durante a gestação não funcionar.

A colonização é transitória, crônica ou intermitente, e a palavra que importa é a terceira. A bactéria vai e volta ao longo dos meses; a mulher que é portadora em julho pode não ser em setembro, e vice-versa. Uma cultura, portanto, não descreve um estado permanente: ela descreve uma fotografia com prazo de validade. Os documentos convergem nesse prazo — cerca de cinco semanas —, e é ele, e não uma convenção de calendário, que fixa a semana da coleta. Antecipar demais entrega, na sala de parto, um laudo cuja validade já venceu; adiar demais entrega ao ambulatório um laudo que chega depois de a criança ter nascido.

Daí a coleta nos dois sítios. Um swab introduzido cerca de 2 cm no terço inferior da vagina, com movimentos giratórios por toda a circunferência da parede, e depois um swab introduzido cerca de 0,5 cm ultrapassando o esfíncter anal. Não se usa espéculo, e não se colhe do colo. A amostra anal não é opcional nem complementar: como o reservatório é intestinal, a mulher pode estar com o terço distal da vagina momentaneamente negativo e o canal anorretal carregado. Swab só vaginal subestima a colonização, e subestimar aqui significa deixar de indicar a profilaxia.

A transmissão ao recém-nascido tem duas rotas. A principal é a passagem pelo canal de parto colonizado, o que explica por que o parto vaginal e a cesariana com trabalho de parto ou membranas rotas carregam risco, e a cesariana eletiva com membranas íntegras não. A segunda é ascendente, através das membranas rotas, e é a razão de a rotura prolongada ser fator de risco e de a infecção poder acontecer ainda intraútero, sendo considerada uma das causas de óbito fetal. O manejo da rotura em si é do capítulo Os dois relógios da bolsa rota, nesta apostila; aqui fica só a rota de transmissão.

O que separa o recém-nascido colonizado do recém-nascido doente é imunológico e tem calendário. Os anticorpos maternos contra os polissacarídeos capsulares da bactéria atravessam a placenta nas últimas dez semanas de gestação. O prematuro nasce antes de receber essa carga e, por isso, é de dez a quinze vezes mais suscetível à doença invasiva precoce do que o recém-nascido de termo. O risco também depende do número absoluto de bactérias no canal de parto no momento do nascimento — não da simples presença, mas da densidade. Essa é a chave que explica a regra da urocultura.

Bacteriúria por estreptococo do grupo B, em qualquer contagem de colônias e em qualquer idade gestacional, é lida como marcador de colonização maciça. O raciocínio é de densidade: para a bactéria aparecer na urina, o inóculo perineal precisa ser grande. Por isso a urocultura da primeira consulta pode responder, meses antes, a uma pergunta que só será feita na madrugada do parto — e por isso essa mulher recebe profilaxia esteja ou não tratada a infecção urinária, e sem necessidade de colher a cultura do terceiro trimestre. A discussão da bacteriúria como doença é do capítulo A única bactéria que se trata sem queixa; a consequência intraparto é deste.

Tratar a colonizada durante a gestação não previne nada, e essa é a frase que mais precisa ser dita em voz alta. O antibiótico erradica temporariamente, o reservatório intestinal recoloniza o períneo, e grande parte das mulheres tratadas no pré-natal chega ao parto recolonizada. A única exceção é a infecção urinária pela bactéria, que é doença e se trata como tal — mas trata-se a infecção urinária, e não a colonização, e a profilaxia intraparto continua indicada depois. Colonização não é infecção: não tem sintoma, não tem cura no pré-natal e não é diagnóstico da mulher.

Resta o mecanismo da profilaxia, que é o que fixa a regra do relógio. O antibiótico intravenoso administrado à mãe atinge concentração eficaz no sangue fetal e no líquido amniótico e reduz a densidade bacteriana no canal por onde o bebê vai passar. Isso não é instantâneo: é preciso tempo para a droga distribuir, atravessar a placenta e alcançar o compartimento fetal. O intervalo adotado como suficiente é de quatro horas entre a dose e o nascimento, e a régua pediátrica é ainda mais explícita ao definir a profilaxia adequada como duas doses de penicilina ou ampicilina com intervalo de quatro horas antes do parto. Abaixo disso, a prescrição existiu e a proteção não.

05

Como se apresenta de verdade

A prevenção do EGB depende de reconhecer a indicação intraparto, escolher antibiótico adequado e transmitir horários à neonatologia. Você deve separar colonização, bacteriúria e infecção materna e interpretar alergia de modo específico. Um tempo menor de profilaxia precisa ser documentado; não autoriza atrasar uma intervenção obstétrica necessária.

Antes das quatro, um esclarecimento que evita a confusão mais comum. A bactéria também causa doença na mulher — infecção urinária, corioamnionite, endometrite puerperal e infecção de sítio cirúrgico —, e nesses casos ela é agente de infecção e se trata como infecção. Nada disso é o que se rastreia. O rastreio procura a portadora sadia, e o tratamento que ele desencadeia é para outra pessoa.

Percurso clínico: Decidir profilaxia com informação disponível

Confira cultura, data, antecedentes relevantes, alergia e contexto do trabalho de parto. Status desconhecido exige o ramo próprio do percurso; não equivale a resultado negativo. Registre indicação, fármaco e horários e comunique à neonatologia. A decisão sobre o recém-nascido depende também de sua condição clínica.

As quatro maneiras de a mulher chegar ao parto

A primeira é a mulher com cultura positiva na gestação atual, colhida dentro da janela e com resultado no cartão. É a situação simples, e é a que menos aparece: profilaxia indicada a partir do diagnóstico de trabalho de parto ou da rotura de membranas, sem discussão adicional.

A segunda é a mulher com cultura negativa, e ela esconde uma armadilha de data. A cultura negativa só protege enquanto vale — cerca de cinco semanas. Dentro desse prazo, a régua é forte e contraintuitiva: a profilaxia fica vetada ainda que exista fator de risco. Fora do prazo, o papel é histórico, e a mulher passa a ser tratada como a terceira categoria. A pergunta que separa as duas leituras não é o resultado, é a data da coleta.

A terceira é a mulher sem cultura — não colhida, colhida sem resultado, resultado desconhecido ou incompleto. É a categoria mais frequente na rede brasileira, e é para ela que existe a estratégia por fatores de risco, que o bloco de critério destrincha. Zuleica está nela.

A quarta dispensa a cultura inteiramente, e é a que mais se perde por falta de leitura. São duas situações: bacteriúria pelo estreptococo do grupo B em qualquer momento da gestação atual e em qualquer contagem, e recém-nascido anterior acometido por doença invasiva pela bactéria. Nas duas, a profilaxia está indicada e a cultura do terceiro trimestre não precisa nem ser colhida: nenhum dos dois resultados possíveis mudaria a decisão, porque ela já está tomada por outro caminho.

O que não conta, e por que se confunde

Colonização em gestação anterior, isolada, não indica profilaxia agora. A colonização é intermitente, e o estado de dois anos atrás não descreve o de hoje. A exceção é a colonização que persiste e é documentada na gestação atual — o que já recai na primeira categoria. Essa é uma distinção que se perde com frequência, e ela erra para mais: a mulher recebe antibiótico que não precisava.

Cultura positiva com cesariana eletiva programada também não indica profilaxia, desde que a cirurgia aconteça em gestação a termo, antes do início do trabalho de parto e com as membranas íntegras. O motivo é mecanístico: se não há passagem pelo canal e não há via ascendente aberta, não há a rota que a profilaxia bloqueia. A antibioticoprofilaxia cirúrgica da cesariana continua, porque é outra coisa, para outro fim, contra outros agentes — e é assunto do capítulo Cesariana e parto vaginal operatório, nesta apostila.

Febre intraparto numa mulher com cultura negativa recente não muda a decisão sobre o estreptococo, mas muda outra decisão inteiramente. Febre em trabalho de parto levanta a hipótese de corioamnionite, que é diagnóstico e prescrição à parte, com espectro próprio. Prescrever penicilina "para o estreptococo" nessa mulher não trata a corioamnionite e não substitui a avaliação, e o protocolo do serviço universitário de Campinas registra a ressalva de forma explícita. O manejo da febre intraparto pertence ao capítulo que trata dela.

O que a doença faz no recém-nascido, e o que a profilaxia não alcança

A forma precoce responde por cerca de 80% dos casos, ocorre nos primeiros sete dias e se apresenta como desconforto respiratório em 35% a 55% dos acometidos, com quadro clínico que imita a doença de membrana hialina. Sinais de sepse aparecem em 25% a 40%, com evolução rápida para choque nas primeiras 24 horas. A meningite ocorre em 5% a 15%. O óbito, quando acontece, costuma acontecer no segundo dia de vida. Os sintomas começam, na maioria das vezes, poucas horas após o nascimento ou nas primeiras 24 a 48 horas.

A forma tardia acomete dos sete dias às doze semanas de vida, apresenta-se sobretudo como meningite e bacteremia sem foco, e a transmissão é horizontal ou hospitalar, raramente vertical. A consequência prática é dura e precisa ser sabida: a profilaxia intraparto não previne a forma tardia, e a incidência da forma tardia se manteve constante nas décadas em que a precoce despencou. Rastrear e profilaxiar não zera o risco da criança — reduz uma das duas formas.

Nenhuma estratégia previne todos os casos, e os documentos federais dizem isso literalmente. O manual de alto risco registra que a melhor estratégia de rastreio ainda não está completamente definida e que, seja qual for a escolhida, não é possível prevenir todos os casos de sepse neonatal de início precoce por esse patógeno. Essa frase não é um argumento contra rastrear; é o aviso de que uma profilaxia correta e completa não autoriza ninguém a relaxar a vigilância do recém-nascido.

A cena que engana: o cartão completo

O quadro clínico deste capítulo, se existisse, seria o de Zuleica: uma mulher saudável, com pré-natal exemplar e um cartão sem falhas, em quem falta exatamente o dado que decide. É enganoso porque tudo indica competência — e é competência mesmo. A equipe da unidade fez o que a caderneta federal manda fazer, e a caderneta federal não pede este exame.

Por isso o reflexo correto na admissão não é procurar o resultado, e sim procurar o campo. Se não há linha de cultura no cartão, a pergunta seguinte não é "onde está o papel", é "esta mulher tem algum dos critérios que dispensam a cultura?" — e a resposta muitas vezes está numa urocultura de dezesseis semanas cujo germe ninguém leu. Depois disso, e só depois, entra a régua dos fatores de risco.

Há um lugar do cartão que resolve boa parte disso e quase nunca é olhado: o nome do germe das uroculturas anteriores. Não a contagem, o nome. Uma urocultura com 40.000 unidades formadoras de colônia por mililitro de Streptococcus agalactiae não fecha infecção urinária pelo corte habitual e por isso é lida como "negativa" — e é, para a pergunta que o laboratório respondeu. Para a pergunta que a maternidade faz, ela é positiva e definitiva.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação deste capítulo tem uma anomalia: antes de perguntar como se colhe o exame, é preciso perguntar se ele existe na rede em que você está. Em quase todos os capítulos desta apostila a régua brasileira é uma só e a dúvida é sobre um corte ou um prazo. Aqui a dúvida é anterior, e ela é o achado central: há cinco documentos federais em vigor ao mesmo tempo e eles não dizem a mesma coisa sobre rastrear.

Por isso a ordem deste bloco não é a do calendário. Primeiro a régua, que muda tudo o que vem depois. Depois a janela e a validade, que explicam a semana. Depois a coleta e o pedido ao laboratório, que é onde mora uma linha esquecida que decide a droga da alérgica. Depois a estratégia que se usa quando não há cultura, que é a situação real da maior parte dos partos brasileiros. E, por fim, o que não se investiga.

A régua brasileira: cinco documentos federais, quatro respostas

O manual federal de gestação de alto risco, de 2022, recomenda rastreio universal por cultura vaginal e endoanal entre 36 0/7 e 37 6/7 semanas, e desenvolve o assunto num capítulo próprio de doze páginas com dez recomendações numeradas — de longe o texto brasileiro mais completo sobre o tema.

O protocolo federal de prevenção da transmissão vertical, também de 2022, lista a pesquisa entre os exames do pré-natal e fixa a faixa da 35ª à 37ª semana, com uma ressalva de três palavras que muda o sentido da frase: "quando disponível". No quadro de exames por trimestre ele repete a faixa e acrescenta a conduta: cultura positiva, penicilina G cristalina intravenosa durante o trabalho de parto.

O caderno federal de atenção ao pré-natal de baixo risco, de 2013, diz o contrário. Registra que no Brasil não existe consenso nem recomendação técnica sobre o tema e conclui a sua própria seção com uma recomendação formal: não há elementos suficientes para recomendar a realização sistemática da coleta nem o uso de antibiótico intraparto, com grau de recomendação A e nível de evidência I. Os argumentos declarados são três — expor muitas mulheres a antibiótico para evitar poucos casos, induzir resistência antimicrobiana e não haver estudos brasileiros de custo-efetividade. O documento nunca teve segunda edição e continua circulando.

As diretrizes nacionais de assistência ao parto normal, de 2017, não decidem: excluem. Na delimitação do próprio escopo, listam entre as situações não cobertas pelas diretrizes as mulheres que necessitem de cuidados adicionais por infecção por estreptococo do grupo B. A única aparição operacional do tema no documento é a tabela 12, que inclui "fatores de risco para estreptococo do grupo B com necessidade de uso de antibióticos durante o trabalho de parto" entre as condições clínicas de alto risco que indicam planejar o parto em maternidade.

A caderneta brasileira da gestante de 2026 — o documento mais novo, tirado em 3.238.630 exemplares, o papel que a mulher carrega na bolsa por nove meses — não menciona o exame em lugar nenhum. Ele não está na lista de exames de rotina do terceiro trimestre, não está na lista dos que podem ser realizados com indicação clínica, não está entre os exames complementares do pré-natal de alto risco e não está no painel do parto. Uma busca insensível a espaço, hífen e acento por "estreptococo", "agalactiae" e "grupo B" em todo o texto devolve zero ocorrências.

A leitura honesta desses cinco documentos é esta: o rastreio universal de estreptococo do grupo B não faz parte da rotina de pré-natal do Sistema Único de Saúde tal como ela é descrita ao próprio usuário. Ele é recomendado por dois protocolos federais temáticos, um deles com a ressalva da disponibilidade; é desaconselhado por um caderno federal que continua no ar; e não aparece no instrumento oficial que organiza o pré-natal na ponta. Na prática, quem colhe são as redes municipais e os serviços que escreveram protocolo próprio, e a decisão de colher acaba dependendo de onde a mulher mora.

A consequência para o interno é direta e não é retórica. Você vai atender, com frequência, mulheres sem cultura — não por falha de ninguém, mas porque o exame não foi oferecido. Isso significa que a estratégia por fatores de risco, que em país com rastreio universal é a exceção, aqui é a regra de trabalho. Saber a régua dos fatores de risco de cor não é preparo para a situação rara: é preparo para a segunda-feira.

A janela, e por que ela é onde é

A janela não é convenção de calendário: é consequência do prazo de validade da cultura. A colonização é intermitente e a predição de uma cultura dura cerca de cinco semanas — o manual federal registra valor preditivo de 95% a 98% para gestantes que fizeram o exame até cinco semanas antes do parto. Colher cedo demais entrega um papel expirado no dia do parto; colher tarde demais entrega um papel que chega depois do parto.

Some as cinco semanas ao início de cada janela e veja o que cada uma cobre. Coleta em 36 0/7 mais cinco semanas alcança 41 0/7 — que é exatamente a cobertura que o manual federal afirma no seu quadro 2, e a conferência fecha. Coleta em 35 0/7 mais cinco semanas alcança 40 0/7, o que deixa descoberta a semana 40 a 41, em que uma parcela relevante das mulheres ainda pare. Coleta no fim da janela mais tardia, em 37 6/7, alcança 42 6/7 e cobre qualquer nascimento plausível — ao custo de a mulher poder ter parido antes da coleta.

Duas faixas convivem nos documentos brasileiros e a diferença não é decorativa: a semana 35 está dentro da janela num protocolo federal de 2022 e fora dela noutro documento federal do mesmo ano. A explicação é rastreável. A faixa de 35 a 37 semanas vem da revisão norte-americana de 2010, que é a base da nota técnica municipal, do protocolo do hospital universitário de Campinas e do documento da sociedade brasileira de pediatria. A faixa de 36 0/7 a 37 6/7 vem da revisão de 2019 e da correção publicada em 2020 pelo colégio americano — que é justamente a referência mais nova citada na bibliografia do capítulo brasileiro de alto risco. Os dois documentos de 2022 pegaram réguas de gerações diferentes.

Há uma inconsistência interna que vale conhecer antes de citar o manual de memória. A faixa aparece escrita com precisão de dias uma única vez, na seção que recomenda o rastreio universal; nas outras cinco aparições do mesmo capítulo — na introdução, no quadro da recomendação 1, no da cesariana eletiva, no da urocultura positiva e no do filho anterior acometido — ela aparece como "entre 36 e 37 semanas", que lido ao pé da letra é uma janela de uma semana e não de duas. Quem cita o manual pela introdução e quem cita pela seção 39.3 sai com duas condutas diferentes para a mulher de 37 semanas e 2 dias.

Há ainda uma situação em que a janela se antecipa e quase ninguém sabe. Na gestação gemelar, o mesmo manual federal manda colher com 32 semanas nas gestações dicoriônicas e com 30 semanas nas monocoriônicas, porque o parto acontece mais cedo. A régua pediátrica vai além e sugere coleta a partir de 28 semanas na gestação múltipla e a partir de 24 semanas quando há perda fetal ou natimorto anterior, repetindo a cada cinco semanas. É a mesma lógica de validade aplicada a uma data provável de parto diferente.

A coleta, os dois sítios e a linha que decide a droga da alérgica

A técnica de coleta e o agendamento pertencem ao capítulo Os exames do pré-natal desta apostila, que trata do calendário inteiro e é onde essa coleta vive. O que este capítulo assume é o que a maternidade precisa saber para ler o resultado, e há três pontos.

O primeiro são os dois sítios. Swab no terço inferior da vagina, sem espéculo, e swab ultrapassando o esfíncter anal. Pode ser o mesmo swab, primeiro o vaginal e depois o anal, ou um para cada sítio; se forem dois, os meios de transporte precisam vir identificados separadamente. Meio de transporte de Stuart, temperatura ambiente, envio ao laboratório em até três dias. Um resultado que diga apenas "secreção vaginal" não é uma cultura para estreptococo do grupo B e não pode ser lido como tal.

Dois sítios de coleta para cultura de estreptococo do grupo B: vagina inferior e reto, atravessando o esfíncter anal
Dois sítios de coleta para cultura de estreptococo do grupo B: vagina inferior e reto, atravessando o esfíncter anal. Esquema do procedimento.

O segundo é o preparo, que é simples e quase nunca é dito à mulher: não tomar banho nem evacuar até o momento da coleta, e se isso já aconteceu pela manhã, colher no fim da tarde. Não é preciosismo — a lavagem e a evacuação reduzem o inóculo perineal e produzem falso negativo num exame cuja única serventia é detectar quem carrega.

O terceiro é a linha esquecida, e ela é a mais importante deste bloco. O manual federal escreve, com todas as letras, que é essencial que o profissional de saúde relate ao laboratório uma alergia materna à penicilina quando solicitar a triagem. O motivo aparece semanas depois, na madrugada: em alérgica de alto risco, a escolha entre clindamicina e vancomicina depende do antibiograma do isolado, e o laboratório só testa sensibilidade a clindamicina se souber que precisa. Sem essa linha na requisição, a cultura volta positiva e sem antibiograma, e a mulher acaba recebendo vancomicina por falta de informação, não por resistência bacteriana.

Uma nota sobre método, para quem lê laudo. O crescimento em caldo seletivo leva de 18 a 24 horas, com reincubação quando não há crescimento, e o resultado sai em 48 a 72 horas. Existem meios cromogênicos que reduzem esse tempo e existe amplificação de ácido nucleico com resposta em minutos, mas a disponibilidade é irregular na rede brasileira. Saber a que método o seu laboratório responde muda o quanto se pode contar com um exame pedido no dia da admissão — e, na maioria dos serviços, a resposta é: não conte.

Quando não há cultura: a régua dos fatores de risco

Sem cultura conhecida, a decisão passa a ser tomada por fatores de risco, e um único fator basta para indicar a profilaxia. O problema é que os documentos brasileiros listam conjuntos diferentes, e a diferença tem consequência.

O quadro operacional do manual federal — a recomendação 2, que é a que se usa à beira do leito — traz três itens: idade gestacional menor que 37 semanas, rotura das membranas corioamnióticas por 18 horas ou mais, e temperatura intraparto igual ou superior a 38 °C. O protocolo federal de transmissão vertical traz quatro: idade gestacional inferior a 37 semanas, febre acima de 38 °C durante o parto, rotura de membrana em período superior a 18 horas, e ocorrência de infecção fetal pela bactéria em gestações anteriores. E a nota técnica municipal traz um conjunto ainda mais largo, somando bacteriúria e filho anterior acometido aos três intraparto.

Três diferenças merecem atenção. A primeira: o protocolo de transmissão vertical escreve "infecção fetal (...) em gestações anteriores", enquanto todos os demais escrevem "recém-nascido anterior com doença invasiva" — infecção fetal e doença neonatal não são a mesma coisa, e a formulação mais restritiva deixaria de fora justamente a mulher cujo filho anterior adoeceu depois de nascer, que é o caso clássico. A segunda: a bacteriúria e o filho anterior acometido não são propriamente fatores de risco a serem checados na ausência de cultura, e sim indicações autônomas que valem tenha havido cultura ou não — trata-las como itens de uma lista de emergência é o caminho para esquecê-las quando há cultura negativa em mãos. A terceira está na palavra de comparação, e o bloco de critério mostra o que ela faz com um termômetro.

A contrapartida da régua é o que ela proíbe, e essa é a parte que mais causa desconforto. Mulher com cultura negativa colhida dentro do prazo de cinco semanas não recebe profilaxia, mesmo com fator de risco presente — mesmo com bolsa rota há vinte horas, mesmo com parto antes de 37 semanas, mesmo com febre. O manual federal escreve isso numa caixa de atenção e o protocolo do serviço universitário escreve no corpo do texto. A febre nessa mulher continua sendo um problema, e é um problema maior: ela levanta corioamnionite, que exige avaliação e prescrição próprias e que a penicilina do estreptococo não trata.

Duas situações do pré-termo merecem menção porque o relógio muda. Em trabalho de parto prematuro, colhe-se a cultura na admissão e inicia-se a profilaxia enquanto se aguarda o resultado; se a inibição tiver sucesso e a cultura vier negativa, suspende-se. Em rotura prematura de membranas pré-termo, colhe-se e inicia-se, mantendo por 48 horas na conduta expectante e reavaliando pela cultura. O detalhe que os dois compartilham é a validade: se o parto não acontecer em cinco semanas, colhe-se de novo. O manejo obstétrico dessas duas situações é dos capítulos Os dois relógios da bolsa rota e As horas que o corticoide precisa, os dois desta apostila.

O que não se investiga

Não se pede cultura de controle depois de tratada uma infecção urinária pela bactéria para decidir a profilaxia: a indicação já está estabelecida pela bacteriúria e não se desfaz. Não se pede cultura de estreptococo do grupo B para a mulher que vai à cesariana eletiva a termo com membranas íntegras esperando que o resultado mude a conduta cirúrgica — embora se colha, e o manual federal explica por quê: o trabalho de parto ou a rotura podem acontecer antes da data marcada, e aí a cultura passa a valer.

Não se repete a cultura de uma gestação anterior nem se resgata resultado de dois anos atrás: a colonização é intermitente e o papel velho não descreve a mulher de hoje. E não se pede hemograma, proteína C reativa ou qualquer marcador na mãe assintomática para "avaliar" a colonização — não há o que avaliar, porque não há doença materna. Todo exame pedido aqui com a intenção de graduar a colonização é exame que não responde nada.

Não se colhe cultura da mulher já em trabalho de parto ativo esperando que ela decida a prescrição daquele parto. Colhe-se, sim, quando o serviço tem protocolo para isso e o resultado servirá a uma internação futura ou ao manejo do recém-nascido; mas a decisão da noite se toma pela régua dos fatores de risco, e esperar 48 a 72 horas por um laudo enquanto a mulher pare é a definição operacional de perder a janela.

O que este capítulo cede e o que assume

Cede o calendário do pré-natal, o agendamento da coleta, a técnica de colher e a orientação dada à paciente ao capítulo Os exames do pré-natal — é lá que a janela vive dentro do conjunto dos exames, e é lá que está a leitura do cartão como instrumento. Cede o número e o ritmo das consultas ao capítulo A consulta que se repete. Cede a bacteriúria como doença, o corte de contagem de colônias e o tratamento da infecção urinária ao capítulo A única bactéria que se trata sem queixa, e assume apenas a consequência que aquele achado produz meses depois, na sala de parto.

Cede a admissão da parturiente, o partograma e a condução do trabalho de parto ao capítulo Assistência ao trabalho de parto, que abre esta apostila e onde a leitura do cartão na porta está descrita como rotina; aqui fica somente o que essa leitura procura quanto a esta bactéria. Cede o manejo da rotura de membranas, o período de latência e os antibióticos que o prolongam ao capítulo Os dois relógios da bolsa rota, e assume dele o rastreio e o esquema de profilaxia. Cede a técnica cirúrgica e a antibioticoprofilaxia da cesariana ao capítulo Cesariana e parto vaginal operatório, ficando aqui apenas a regra de dispensa da cesariana eletiva.

Assume, e declara que assume, aquilo que não tem dono. A régua brasileira do rastreio — a comparação entre os cinco documentos federais — não aparece inteira em nenhum outro capítulo do nível. A árvore da alérgica à penicilina, com as três drogas e o antibiograma que decide entre duas delas, é deste capítulo. E o que se transmite à neonatologia é assumido de forma limitada e por ausência de dono: a única entrada de Neonatologia no nível é Reanimação neonatal em sala de parto, que trata de outra coisa, e não há capítulo de sepse neonatal precoce nem de recém-nascido exposto. Este capítulo, portanto, escreve o que o obstetra entrega e para de escrever ali — a decisão sobre exames e antibiótico do recém-nascido é da equipe neonatal.

Cede ainda a inibição do trabalho de parto prematuro, a corticoterapia antenatal e a neuroproteção fetal ao capítulo As horas que o corticoide precisa, guardando daqui somente a regra de colher a cultura na admissão e iniciar a profilaxia enquanto se aguarda o resultado. E vale um contraste com o capítulo Sífilis na gestação, que é o outro rastreio desta apostila com consequência neonatal: lá o achado positivo se trata na gestação e o tratamento materno cura o feto; aqui o achado positivo não se trata na gestação de jeito nenhum, e a única intervenção acontece com a mulher já em trabalho de parto. São dois rastreios que se parecem no papel e se comportam ao contrário na prática.

07

Quem recebe, quem não recebe, com o que e em quanto tempo

Este bloco reúne o que decide, e ele tem uma característica incomum nesta apostila: quase nada aqui é julgamento clínico. As decisões são de elegibilidade e de relógio, e por isso são auditáveis. O fluxo abaixo é a sequência da madrugada. A primeira tabela responde à pergunta central — quem recebe e quem não recebe. A segunda põe lado a lado as réguas brasileiras que estão em vigor ao mesmo tempo, porque quem cita "o Ministério da Saúde" está citando um de cinco documentos que discordam. A terceira mostra o que acontece com três medidas — um termômetro, um relógio e uma idade gestacional — quando o valor cai exatamente em cima do corte, porque as palavras de comparação dos documentos não coincidem. E a quarta é a tabela de conversão: dose, apresentação, frascos e volume, recalculada contra a bula, porque prescrição decorada erra no frasco e não na indicação. As notas ao fim trazem as conferências, as que fecharam e as que não.

  1. 1Leia o cartão inteiro antes de perguntar qualquer coisa, e procure três coisas nesta ordem: resultado de cultura para estreptococo do grupo B com data de coleta; nome do germe de todas as uroculturas da gestação; e antecedente de filho anterior com doença invasiva pela bactéria.
  2. 2Bacteriúria pela bactéria em qualquer momento e em qualquer contagem, ou filho anterior acometido: profilaxia indicada, e a cultura do terceiro trimestre é irrelevante para essa decisão. Não procure mais nada.
  3. 3Cultura positiva na gestação atual: profilaxia indicada a partir do diagnóstico de trabalho de parto ou da rotura de membranas.
  4. 4Cultura negativa: olhe a data antes do resultado. Colhida há cinco semanas ou menos, não se faz profilaxia — nem com bolsa rota prolongada, nem com prematuridade, nem com febre. Colhida há mais de cinco semanas, trate como cultura desconhecida.
  5. 5Sem cultura, ou resultado desconhecido: aplique a régua dos fatores de risco. Um único item basta — parto ou rotura antes de 37 semanas, rotura há 18 horas ou mais, temperatura materna intraparto de 38 °C ou mais.
  6. 6Antes de prescrever, faça a pergunta da alergia — e faça a segunda pergunta, que é qual foi a reação. Sem história de anafilaxia, angioedema, dificuldade respiratória ou urticária após penicilina ou cefalosporina, o risco é baixo. Com qualquer uma delas, é alto.
  7. 7Risco baixo de anafilaxia: cefazolina. Risco alto: clindamicina se o antibiograma do isolado mostrar sensibilidade; vancomicina se mostrar resistência ou se a sensibilidade for desconhecida.
  8. 8Cesariana eletiva a termo, antes do trabalho de parto e com membranas íntegras: não se prescreve profilaxia para o estreptococo, qualquer que seja o resultado da cultura. A antibioticoprofilaxia cirúrgica da cesariana continua, porque é outra indicação.
  9. 9Anote a hora exata da primeira dose no prontuário. É esse horário, e não a hora da prescrição, que define se a profilaxia foi adequada.
  10. 10Mantenha as doses no intervalo até o nascimento — de 4 em 4 horas para penicilina e ampicilina, de 8 em 8 horas para cefazolina, clindamicina e vancomicina. A profilaxia não termina na dose de ataque.
  11. 11Se o nascimento for acontecer em menos de quatro horas, prescreva assim mesmo e registre. Uma duração mais curta não é inútil: reduz a chance de o recém-nascido receber diagnóstico clínico de sepse, e a decisão do berçário muda com o horário que você escreveu.
  12. 12Antes de sair da sala, escreva para a neonatologia: se havia indicação, qual antibiótico, a hora da primeira dose, quantas doses e o intervalo até o nascimento — e escreva também o que não se sabe. A equipe do recém-nascido decide a partir desse texto.
Situação da mulher na admissãoProfilaxia intrapartoPor quêO que mais muda
Bacteriúria por estreptococo do grupo B em qualquer momento da gestação atual e em qualquer contagemIndicada, tratada ou não a infecção urináriaA presença na urina é lida como marcador de colonização maciça; a densidade no períneo é o que determina o risco do recém-nascidoDispensa a coleta da cultura do terceiro trimestre para esta decisão
Recém-nascido anterior com doença invasiva pela bactériaIndicadaAntecedente de doença neonatal marca uma mulher de risco alto e persistente, independentemente do estado atual de colonizaçãoDispensa a coleta da cultura do terceiro trimestre
Cultura vaginal e endoanal positiva na gestação atualIndicada, a partir do diagnóstico de trabalho de parto ou da rotura de membranasÉ a portadora identificada; a profilaxia bloqueia a rota de transmissão pelo canal de partoNão se trata a colonização durante a gestação: a recolonização a partir do reservatório intestinal é a regra
Cultura negativa colhida há 5 semanas ou menosNão indicada, ainda que haja fator de riscoO valor preditivo da cultura dentro do prazo é de 95% a 98%; o resultado negativo prevalece sobre a régua de emergênciaFebre intraparto nessa mulher levanta corioamnionite, que é diagnóstico e prescrição à parte
Cultura negativa colhida há mais de 5 semanasTrate como cultura desconhecida e aplique a régua dos fatores de riscoA colonização é intermitente e a predição expira; o papel passa a ser registro históricoSe ainda houver tempo de pré-natal, colhe-se nova cultura entre 36 e 37 semanas
Sem cultura, ou resultado desconhecido, com ao menos um fator de riscoIndicadaA estratégia por fatores de risco identifica de 60% a 67% das portadoras; um único fator bastaRegistre no prontuário que a decisão foi por fator de risco, e não por cultura
Sem cultura e sem nenhum fator de riscoNão indicadaÉ o limite conhecido da estratégia: de um terço a 40% das portadoras não têm fator de risco e passam despercebidasÉ a lacuna que justifica a vigilância clínica do recém-nascido mesmo sem indicação materna
Cesariana eletiva a termo, sem trabalho de parto e com membranas íntegrasNão indicada, qualquer que seja a cultura ou a idade gestacionalSem passagem pelo canal e sem via ascendente aberta, não existe a rota que a profilaxia bloqueiaMantém-se a antibioticoprofilaxia cirúrgica da cesariana, que tem outra indicação e outro alvo
Colonização documentada em gestação anterior, sem cultura positiva agoraNão indicadaA colonização é intermitente; o estado de uma gestação passada não descreve o atualA exceção é a colonização que persiste e é documentada na gestação em curso

As réguas brasileiras sobre a mesma pergunta, todas em vigor

DocumentoAnoO que diz sobre rastrearJanela de coletaComo está a vigência
Manual de gestação de alto risco, Ministério da Saúde2022Recomenda rastreio universal por cultura vaginal e endoanal, com capítulo próprio e dez recomendações numeradas36 0/7 a 37 6/7 semanas na seção que recomenda; "entre 36 e 37 semanas" nas outras cinco menções do mesmo capítuloEdição única de 2022, sem substituto; a referência mais nova do capítulo é de 2020
Protocolo de prevenção da transmissão vertical, Ministério da Saúde2022Lista a pesquisa entre os exames do pré-natal, com a ressalva "quando disponível"Da 35ª à 37ª semana2ª edição revisada, citada como régua em uso pelos documentos federais posteriores do tema
Caderno de atenção ao pré-natal de baixo risco n. 32, Ministério da Saúde2013Recomenda formalmente não coletar sistematicamente nem usar antibiótico intraparto, com grau A e nível de evidência I, e registra que no Brasil não existe consenso sobre o temaNão se aplica; cita a faixa de 35 a 37 semanas apenas como recomendação estrangeiraNunca teve segunda edição e segue hospedado e distribuído; vigência por ausência de substituto
Diretrizes nacionais de assistência ao parto normal, Portaria SAS/MS nº 353/20172017Exclui expressamente do escopo as mulheres que necessitem de cuidados adicionais por infecção pela bactéria; trata o tema só como critério de local de partoNão se aplicaPortaria sem revogação publicada; comissão de revisão instituída em 2022 sem texto substituto — vigência por ausência de substituto
Caderneta brasileira da gestante, Ministério da Saúde2026Não menciona o exame em nenhuma das quatro listas de exames, nem na de rotina, nem na de indicação clínica, nem na de alto risco, nem na do partoNão se aplicaÉ o instrumento em distribuição, tiragem declarada de 3.238.630 exemplares
Prevenção da doença perinatal pelo estreptococo do grupo B, Sociedade Brasileira de Pediatria2011Recomenda expressamente triagem universal de todas as gestantes, e amplia a coleta para gestação múltipla e perda fetal anterior35 a 37 semanas; a partir de 28 semanas na gestação múltipla e de 24 semanas após perda fetal, repetindo a cada 5 semanasSem edição posterior no acervo da sociedade; vigência por ausência de substituto

Quando o valor cai em cima do corte: as palavras de comparação não coincidem

MedidaManual de gestação de alto risco (2022)Protocolo de transmissão vertical (2022)Onde cai o valor exato
Temperatura materna intrapartoTemperatura intraparto igual ou superior a 38 °CFebre acima de 38 °C durante o período do parto38,0 °C exatos indicam profilaxia por um documento federal e não indicam pelo outro; a diferença é uma palavra e vale uma prescrição
Tempo de bolsa rotaRotura das membranas por 18 horas ou maisRotura de membrana em período superior a 18 horasExatamente 18 horas entra na indicação por um e fica de fora pelo outro; e o horário da rotura é quase sempre estimado pela paciente
Idade gestacionalIdade gestacional menor que 37 semanas como fator de risco; a recomendação do pré-termo cobre até 36 semanas e 6 diasIdade gestacional inferior a 37 semanasAs duas formulações coincidem: 36 6/7 é pré-termo e 37 0/7 não é. É a única das três medidas em que os documentos fecham
Semana de coleta da cultura36 0/7 a 37 6/7 na seção 39.3; "entre 36 e 37 semanas" em cinco outras passagens do mesmo capítuloDa 35ª à 37ª semanaA semana 35 é dentro da janela num documento federal e fora no outro; e 37 6/7 é dentro pela seção 39.3 e fora pela leitura literal das outras cinco passagens do mesmo capítulo

Dose, apresentação, frascos e volume — recalculado contra a bula, mulher de 70 kg

Fármaco e esquemaApresentação realQuanto se abre por doseVolume, diluição e tempoConsta da Rename 2024?
Penicilina G cristalina — ataque 5.000.000 UI, manutenção 2.500.000 UI de 4/4 h até o nascimentoFrasco-ampola de 5.000.000 UI em pó; reconstituição com 2 mL de água para injetáveis por milhão, ou seja, 10 mL, com volume final declarado de 12 mLAtaque: 1 frasco inteiro. Manutenção: metade do frasco. Em 24 horas de trabalho de parto, ataque mais 6 doses somam 20.000.000 UI, ou 4 frascosO frasco reconstituído fica a 416.667 UI/mL, e não a 500.000: a manutenção de 2.500.000 UI são 6 mL, não 5. Para infusão, diluir a 50.000 UI/mL — 100 mL no ataque e 50 mL na manutençãoSim. Benzilpenicilina potássica 5.000.000 UI, pó para solução injetável, componentes básico e estratégico
Ampicilina — alternativa de primeira linha; ataque 2 g, manutenção 1 g de 4/4 hFrasco-ampola de pó para solução injetávelAtaque: 2 frascos de 1 g. Manutenção: 1 frasco por doseDiluição e tempo conforme a bula do produto disponívelNão. Busca exata sobre o texto normalizado de duas cópias independentes da Rename 2024 devolve zero ocorrências
Cefazolina — alergia de baixo risco; ataque 2 g, manutenção 1 g de 8/8 hFrasco-ampola de pó para solução injetávelAtaque: 2 frascos de 1 g. Manutenção: 1 frasco por doseDiluição e tempo conforme a bula do produto disponívelNão. Zero ocorrências de cefazolina e zero de cefalotina na Rename 2024
Clindamicina — alergia de alto risco com isolado sensível; 900 mg de 8/8 hAmpola de 4 mL a 150 mg/mL, ou seja, 600 mg de clindamicina base por ampola900 mg é uma ampola e meia: abrem-se 2 e descartam-se 300 mg, ou 1 ampola mais 2 mL da segundaBula: concentração não deve exceder 18 mg/mL e velocidade não deve exceder 30 mg/min. A linha da própria bula para 900 mg em 50 mL em 30 minutos toca os dois tetos ao mesmo tempo; em 100 mL fica a 9 mg/mL e sobra margemA cápsula oral de 150 mg e a de 300 mg constam. A solução injetável de 150 mg/mL aparece na Rename 2024 apenas no anexo de exclusões
Vancomicina — alergia de alto risco com resistência ou sensibilidade desconhecida; 20 mg/kg de 8/8 h, máximo 2 g por doseFrasco-ampola de 500 mg; reconstituição com 10 mL, volume final de cerca de 10,2 mL a cerca de 49 mg/mLA 70 kg, 1.400 mg: 2 frascos inteiros mais cerca de 8 mL do terceiro. O teto de 2 g passa a valer a partir de 100 kg, quando são 4 frascosBula: máximo 5 mg/mL e máximo 10 mg/min, infusão nunca menor que 60 minutos. A 70 kg isso obriga a pelo menos 280 mL de diluente e a pelo menos 140 minutos de infusão; a 100 kg, 400 mL e 200 minutosNão. Zero ocorrências de vancomicina na Rename 2024

A conferência da janela fecha para 36 0/7 e não fecha para 35 0/7. O quadro 2 do manual federal afirma que a idade gestacional recomendada para triagem fornece uma janela de cinco semanas de validade, cobrindo nascimentos até pelo menos 41 0/7 semanas. Coleta em 36 0/7 mais 5 semanas dá exatamente 41 0/7 e a afirmação se sustenta. Mas o outro documento federal manda colher a partir da 35ª semana, e 35 0/7 mais 5 semanas dá 40 0/7 — a mulher que colheu no primeiro dia da janela mais precoce e pariu com 40 semanas e 3 dias tem uma cultura vencida sem que ninguém tenha errado nada.

O mesmo capítulo federal escreve a janela de duas formas. Na seção 39.3 ela aparece como 36 0/7 a 37 6/7 semanas; na introdução do capítulo e em quatro quadros de recomendação ela aparece como "entre a 36ª e 37ª semana" ou "entre 36 e 37 semanas". Lida ao pé da letra, a segunda forma é uma janela de sete dias e não de catorze, e exclui toda a semana 37. A mulher de 37 semanas e 2 dias está dentro da janela por uma passagem e fora por outras cinco do mesmo capítulo.

Duas tabelas do mesmo capítulo federal listam fatores de risco diferentes para a mesma decisão. O quadro 1 traz seis fatores, divididos em anteparto e intraparto, e o texto acima dele afirma que a identificação de um único fator basta para indicar a antibioticoprofilaxia intraparto. O quadro 3, que é a recomendação operacional para a parturiente sem cultura, traz apenas três — os três intraparto. Dois dos itens que somem do quadro operacional, bacteriúria e filho anterior acometido, reaparecem como indicações autônomas em quadros próprios, o que resolve. O terceiro não reaparece em lugar nenhum.

Esse terceiro item é "raça negra", listado no quadro 1 como fator de risco anteparto. Somado à frase de que um único fator basta, ele significaria, lido literalmente, que a cor da pele indica antibiótico intravenoso em trabalho de parto. Nenhuma das outras réguas brasileiras consultadas — o protocolo federal de transmissão vertical, o caderno de atenção básica, o documento da sociedade de pediatria, a nota técnica municipal e o protocolo do serviço universitário — inclui raça entre os critérios, e o próprio quadro operacional do mesmo manual não a inclui. A origem é uma associação epidemiológica descrita em população norte-americana; o que se transporta dela para uma decisão clínica individual no Brasil é questão que este capítulo expõe e não resolve.

A conta do caderno de atenção básica fecha internamente e briga com a frase de abertura da própria seção. O exemplo de mil gestantes com prevalência de 20% dá 200 positivas, e o documento diz 200; metade colonizando o recém-nascido dá 100, e 2% de quadro grave dão 2 sepses, e o documento diz duas. Aritmética correta. Só que dois casos em mil nascimentos é 1 para 500, e a mesma seção abre afirmando que apenas 1 em 2.000 recém-nascidos tem a infecção. São quatro vezes de diferença, e no sentido impossível: o agregado — toda infecção — ficaria menos frequente que a sua própria parcela, o quadro grave.

A eficácia da profilaxia é declarada com uma discrepância de mais de três vezes entre duas fontes brasileiras. O manual federal registra eficácia de 86% a 89% para evitar a colonização ou a doença precoce. A nota técnica municipal registra eficácia "em torno de 25 a 30% dos casos, reduzindo a mortalidade em 10%". Aplicadas ao mesmo exemplo de mil gestantes triadas, as duas cifras produzem números necessários a tratar de 112 a 116 mulheres por caso evitado, ou de 333 a 400 — a diferença entre uma política defensável e uma política difícil de defender, decidida por um número que os dois documentos escrevem sem mostrar a conta.

Uma faixa que se sustenta e outra que não. As três cifras da cadeia declarada pelo manual federal — colonização de 14,1% a 27,6%, transmissão vertical de 35% a 69% e doença em 1% a 2% dos colonizados — multiplicadas nas pontas produzem de 0,49 a 3,81 casos por mil gestações, isto é, de 1 em 2.026 a 1 em 263. O extremo otimista dessa faixa coincide com o 1 em 2.000 do caderno de 2013 e o meio dela coincide com o 1 em 500 da conta do mesmo caderno: as duas afirmações do caderno cabem dentro da faixa federal, o que significa que os dois documentos não discordam sobre a aritmética. Discordam sobre o que fazer com ela.

As duas escadas de letalidade do manual federal não encaixam. O texto declara que até 20% dos recém-nascidos que desenvolvem a doença precoce evoluem para óbito, e na frase seguinte informa que abaixo de 33 semanas a taxa de letalidade atinge 30%. Um teto declarado com a expressão "até" não comporta um subgrupo dez pontos percentuais acima dele; ou o teto é maior que 20%, ou o número do subgrupo não pertence à mesma população.

O documento da sociedade de pediatria traz duas quedas percentuais que não batem com os números da mesma frase. De 1,7 para 0,7 por mil nascidos vivos há uma queda de 58,8%, e o texto escreve "caiu para 80%". De 0,7 para 0,3 por mil há uma queda de 57,1%, e o texto escreve "declínio de 34%" — um declínio de 34% sobre 0,7 daria 0,46 por mil, e não os 0,3 por mil que o mesmo período afirma. O mesmo documento traz ainda a série brasileira com duas letalidades iniciais diferentes para a mesma incidência de 0,39 por mil: 60% num parágrafo e 66% noutro.

Um erro de unidade por fator mil no esquema da alérgica. O documento da sociedade de pediatria escreve, entre as opções para a gestante com risco de anafilaxia, "eritromicina 500g a cada 6 horas". A dose é de 500 mg. A grafia com "g" aparece uma única vez no documento e é isolada, mas está numa linha de prescrição. Vale ainda registrar que a eritromicina saiu das opções de profilaxia intraparto na revisão de 2010 que o próprio documento descreve, e que a Rename 2024 traz apenas estolato de eritromicina em apresentações orais — não há apresentação injetável no elenco.

Duas ordens de grandeza separam as doses brasileiras de vancomicina. O documento pediátrico de 2011 prescreve 1 g de 12 em 12 horas, o que dá 2 g por dia. O manual federal de 2022 prescreve 20 mg/kg de 8 em 8 horas com teto de 2 g por dose, o que dá 3 g por dia numa mulher de 50 kg, 4,2 g numa de 70 kg e 6 g a partir de 100 kg — de uma vez e meia a três vezes a dose diária do documento anterior, para o fármaco de menor margem terapêutica da lista. Os dois textos estão em uso no Brasil.

A tabela de infusão da bula de clindamicina roda inteira no teto que ela mesma declara. As quatro linhas de dose e tempo — 300 mg em 10 minutos, 600 mg em 20, 900 mg em 30 e 1.200 mg em 40 — dão todas exatamente 30 mg por minuto, que é o valor que a mesma bula diz não dever ser excedido. E a linha de 900 mg em 50 mL dá exatamente 18 mg/mL, que é o outro teto declarado. Não é erro de conta: é uma tabela cujos valores usuais coincidem com os seus próprios limites, de modo que qualquer aceleração ou qualquer redução de bolsa viola a bula.

A conferência que mais muda conduta é a do elenco do Sistema Único de Saúde, e ela foi feita com busca exata sobre o texto normalizado quanto a espaço, hífen e acento, em duas cópias independentes da Rename 2024. A benzilpenicilina potássica de 5.000.000 UI consta, nos componentes básico e estratégico. Ampicilina não consta. Cefazolina não consta, e cefalotina também não. Vancomicina não consta. Clindamicina consta em cápsula de 150 e de 300 mg, e a solução injetável de 150 mg/mL aparece somente no anexo de exclusões. Ou seja: dos cinco fármacos do esquema clássico, apenas o de primeira linha está no elenco nacional — a alternativa de primeira linha e as três opções da alérgica não estão.

A leitura clínica dessa conferência precisa ser dita com cuidado, porque a Rename não é a lista do hospital. Não constar do elenco nacional não significa não haver o medicamento na maternidade: hospitais compram por padronização própria, e cefazolina e vancomicina são itens comuns de farmácia hospitalar. Significa outra coisa, e menos confortável: a única droga do esquema cuja disponibilidade tem garantia de política nacional é a penicilina, e todo o desvio do esquema — a alternativa, a alérgica de baixo risco e a alérgica de alto risco — depende da padronização local. É mais um motivo para a pergunta da alergia ser feita cedo, e não com a mulher em período expulsivo.

Uma conferência de bula que fecha e resolve um erro de aspiração. O frasco de 5.000.000 UI de penicilina recebe 10 mL de diluente e a bula declara volume final de 12 mL — o pó desloca 2 mL. A concentração real é de 416.667 UI/mL e não de 500.000. Metade da dose de ataque, portanto, são 6 mL e não 5. Quem aspira 5 mL entrega 2.083.333 UI, isto é, 16,7% a menos do que a prescrição diz. O erro é invisível porque a conta "metade de 5 milhões são 2,5 milhões, logo metade de 10 mL são 5 mL" parece correta, e só falha porque o volume final não é o volume do diluente.

Um dado de bula que ninguém cita e que vale conhecer: cada milhão de unidades de benzilpenicilina potássica contém 1 mEq de potássio, e a mesma bula adverte que a infusão de 10 mEq ou mais de potássio por hora exige acompanhamento adequado. A dose de ataque carrega 5 mEq. Infundida em 30 minutos, isso é um ritmo de 10 mEq por hora — exatamente o limiar da advertência; em 15 minutos, o dobro dele. Nenhum dos documentos brasileiros consultados especifica o tempo de infusão da dose de ataque, e a conta acima é deste capítulo, não deles.

A aritmética do relógio de quatro horas contra o tempo de infusão de cada droga fecha para quatro das cinco e aperta para a quinta. Penicilina, ampicilina, cefazolina e clindamicina infundem em cerca de 30 minutos e deixam 3,5 horas de margem dentro da janela. A vancomicina, com o teto de 10 mg por minuto da bula, leva pelo menos 140 minutos numa mulher de 70 kg e pelo menos 200 minutos a partir de 100 kg — restam, respectivamente, 100 e 40 minutos de margem. A alérgica de alto risco obesa é a paciente em que a única opção validada pode literalmente não caber na janela, e isso não está escrito em nenhum dos documentos: é a conta deste capítulo.

08

A conduta, hora a hora

Revisar cultura, bacteriúria prévia, antecedente neonatal e fatores intraparto que definem indicação quando o resultado falta. Escolher esquema conforme alergia e suscetibilidade quando necessárias. Iniciar prontamente e registrar cada dose. Febre exige avaliar infecção intra-amniótica, cujo tratamento não se resume à profilaxia para EGB. Informar à neonatologia indicação, agente e intervalo até o nascimento.

Há duas regras que atravessam a linha inteira. Uma: o horário que conta é o do início da infusão da primeira dose, nunca o da prescrição, e ele só existe se alguém escrever. Outra: nada aqui depende de exame colhido naquela noite — quem espera uma cultura para prescrever num parto em curso já decidiu, por omissão, não prescrever.

  1. No pré-natal — a consulta em que a coleta se decide

    O calendário do pré-natal e o agendamento da coleta pertencem ao capítulo Os exames do pré-natal desta apostila, e é lá que estão a técnica e a orientação à paciente. O que cabe aqui é a decisão de pedir, e ela depende de onde você está: se o seu serviço ou o seu município tem protocolo de rastreio, siga-o; se não tem, o exame não vai aparecer sozinho, porque a caderneta federal não o pede. Antes de agendar, confira as duas situações que dispensam a cultura — bacteriúria pela bactéria em qualquer urocultura da gestação e filho anterior acometido —, porque nelas a coleta é desnecessária e a profilaxia já está garantida. E, se houver alergia à penicilina registrada, escreva isso na requisição: é o que faz o laboratório testar sensibilidade a clindamicina.

    Prescrição
    • Solicitar cultura de swab vaginal e endoanal para estreptococo do grupo B entre 36 0/7 e 37 6/7 semanas, com os dois sítios identificados, meio de transporte de Stuart e envio ao laboratório em até três dias — Manual de gestação de alto risco, Ministério da Saúde, 2022, seção 39.3 e quadro 2. O protocolo federal de prevenção da transmissão vertical, 2022, fixa a faixa da 35ª à 37ª semana.
    • Na gestação gemelar, antecipar a coleta para 32 semanas nas dicoriônicas e 30 semanas nas monocoriônicas — Manual de gestação de alto risco, 2022, capítulo de gestação múltipla.
    • Anotar na requisição, quando houver: alergia materna à penicilina, para que o laboratório teste a sensibilidade do isolado à clindamicina — Manual de gestação de alto risco, 2022, seção 39.3.
    • Não prescrever antibiótico para a gestante com cultura positiva fora do trabalho de parto: não se trata a colonização durante a gestação — Manual de gestação de alto risco, 2022, quadro 2, item 1a.
  2. Admissão — a leitura do cartão, antes de qualquer prescrição

    Leia o cartão inteiro e procure quatro coisas, nesta ordem. Primeira: resultado de cultura, com a data de coleta ao lado — a data importa tanto quanto o resultado. Segunda: o nome do germe de todas as uroculturas da gestação, e não a contagem; Streptococcus agalactiae em qualquer contagem decide sozinho. Terceira: antecedente de filho anterior com doença invasiva pela bactéria, que é pergunta a fazer em voz alta e não item a procurar no papel. Quarta: alergia a penicilina, e a segunda pergunta que a acompanha. Só depois disso apure o tempo de bolsa rota, a idade gestacional e a temperatura. Faça essa leitura antes de a mulher entrar em período expulsivo, porque a mesma pergunta feita com dez centímetros de dilatação recebe outra qualidade de resposta.

    Prescrição
    • Registrar no prontuário, com estas palavras, o resultado da triagem e a sua origem: cultura positiva, cultura negativa com a data de coleta, cultura desconhecida, ou indicação autônoma por bacteriúria ou filho anterior acometido.
    • Registrar o horário estimado da rotura das membranas e a temperatura axilar da admissão, porque são os dois critérios que serão reavaliados ao longo do trabalho de parto.
  3. A decisão de indicar — com cultura, sem cultura, e a que dispensa cultura

    Com cultura positiva na gestação atual, a profilaxia começa ao diagnóstico de trabalho de parto ou à rotura de membranas, o que vier primeiro. Com cultura negativa, olhe a data: dentro de cinco semanas, não se faz profilaxia mesmo com fator de risco, e essa regra vale contra a intuição de todo mundo na sala; passadas as cinco semanas, o papel é histórico e a mulher entra na régua dos fatores de risco. Sem cultura, um único fator basta. E, em qualquer das três situações, bacteriúria pela bactéria nesta gestação ou filho anterior acometido decidem sozinhos e por cima de tudo. Zuleica está sem cultura: a decisão dela sai da régua dos três fatores, e a apuração do tempo de bolsa rota deixa de ser detalhe de anamnese para virar o dado que prescreve.

    Prescrição
    • Sem cultura conhecida, indicar profilaxia diante de qualquer um destes: trabalho de parto ou rotura de membranas antes de 37 semanas; rotura há 18 horas ou mais; temperatura materna intraparto de 38 °C ou mais — Manual de gestação de alto risco, 2022, quadro 3.
    • Indicar profilaxia, independentemente de cultura, na bacteriúria por estreptococo do grupo B em qualquer momento da gestação atual e em qualquer contagem de unidades formadoras de colônia — Manual de gestação de alto risco, 2022, quadro 5.
    • Indicar profilaxia, independentemente de cultura, quando houver recém-nascido anterior com sepse pela bactéria — Manual de gestação de alto risco, 2022, quadro 6.
    • Não indicar profilaxia quando a cultura vaginal e endoanal for negativa e tiver sido colhida há cinco semanas ou menos, ainda que haja parto antes de 37 semanas ou rotura por 18 horas ou mais — Manual de gestação de alto risco, 2022, caixa de atenção após o quadro 4.
  4. A prescrição de primeira linha — e a conta do frasco

    Penicilina G cristalina é a primeira escolha, e a razão é de espectro: é a droga mais estreita da lista, e estreita significa menos pressão de seleção sobre a flora que vai colonizar aquele recém-nascido. Ampicilina é alternativa aceitável, e há um motivo declarado para preferir a penicilina no pré-termo, que é o aumento de sepse neonatal por gram-negativos resistentes à ampicilina observado depois que a profilaxia se generalizou. A parte que se erra não é a escolha, é o preparo: o frasco reconstituído tem 12 mL e não 10, de modo que a manutenção de 2.500.000 UI são 6 mL da solução, e não 5. Prescreva o volume junto da dose e o erro desaparece.

    Prescrição
    • Penicilina G cristalina (benzilpenicilina potássica) 5.000.000 UI por via intravenosa como dose de ataque, seguida de 2.500.000 UI por via intravenosa de 4 em 4 horas até o nascimento — Manual de gestação de alto risco, 2022, seção 39.4; protocolo federal de prevenção da transmissão vertical, 2022. O documento da sociedade brasileira de pediatria escreve a manutenção como 2,5 a 3 milhões de unidades, seguindo a revisão de 2010.
    • Preparo: reconstituir o frasco de 5.000.000 UI com 10 mL de água para injetáveis, obtendo 12 mL a 416.667 UI/mL. Ataque: o frasco inteiro, 12 mL. Manutenção: 6 mL. Diluir para infusão em soro fisiológico a 0,9% até a concentração de 50.000 UI/mL, o que dá 100 mL no ataque e 50 mL em cada manutenção — bula do produto.
    • Alternativa: ampicilina 2 g por via intravenosa como ataque, seguida de 1 g por via intravenosa de 4 em 4 horas até o nascimento — Manual de gestação de alto risco, 2022, seção 39.4.
    • Registrar no prontuário a hora exata de início da infusão da primeira dose, e não a hora da prescrição.
  5. A alérgica — as duas perguntas que separam três condutas

    A primeira pergunta é se há alergia à penicilina. A segunda, que quase ninguém faz, é qual foi a reação — e é ela que decide. Sem história de anafilaxia, angioedema, dificuldade respiratória ou urticária após penicilina ou cefalosporina, o risco é baixo e a droga é a cefazolina. Com qualquer uma dessas quatro, o risco é alto, e aí a escolha depende do antibiograma: clindamicina se o isolado for sensível, vancomicina se for resistente ou se a sensibilidade for desconhecida. Note o que isso significa na prática brasileira: como a requisição raramente informa a alergia, o antibiograma raramente existe, e a mulher acaba recebendo vancomicina por lacuna de informação, e não por resistência. Note também o relógio: a vancomicina é a única droga da lista cuja infusão sozinha come uma parte relevante da janela de quatro horas.

    Prescrição
    • Risco baixo de anafilaxia: cefazolina 2 g por via intravenosa como ataque, seguida de 1 g por via intravenosa de 8 em 8 horas até o parto — Manual de gestação de alto risco, 2022, quadro 7.
    • Risco alto com isolado sensível à clindamicina no antibiograma: clindamicina 900 mg por via intravenosa de 8 em 8 horas até o parto. São uma ampola e meia de 600 mg. Diluir em 100 mL e infundir em 30 minutos, o que mantém a concentração em 9 mg/mL e a velocidade em 30 mg/min — Manual de gestação de alto risco, 2022, quadro 7; bula do produto.
    • Risco alto com isolado resistente à clindamicina, ou com sensibilidade desconhecida: vancomicina 20 mg/kg por via intravenosa de 8 em 8 horas, máximo de 2 g por dose, até o parto — Manual de gestação de alto risco, 2022, quadro 7. Numa mulher de 70 kg são 1.400 mg: ao menos 280 mL de diluente pelo teto de 5 mg/mL e ao menos 140 minutos de infusão pelo teto de 10 mg/min da bula.
    • Não prescrever eritromicina para esta indicação: ela saiu das opções na revisão de 2010, e não há apresentação injetável no elenco nacional.
  6. Quando NÃO se prescreve — e por que isso também é conduta

    Três situações não recebem profilaxia e as três geram desconforto na equipe, porque parecem omissão. A cesariana eletiva a termo, sem trabalho de parto e com membranas íntegras, não recebe — nem com cultura positiva, nem com fator de risco: a rota que a profilaxia bloqueia não existe ali. A cultura negativa colhida há cinco semanas ou menos não recebe, mesmo com fator de risco, porque o valor preditivo dentro do prazo é de 95% a 98% e a régua de emergência existe para quem não tem informação, não para quem tem. E a colonização documentada só em gestação anterior não recebe, porque a colonização é intermitente. Diga em voz alta o motivo de cada não, porque a alternativa é a equipe achar que você esqueceu.

    Prescrição
    • Não prescrever profilaxia intraparto para estreptococo do grupo B na cesariana eletiva realizada em gestação a termo, antes do início do trabalho de parto e com membranas corioamnióticas íntegras, independentemente do estado de colonização — Manual de gestação de alto risco, 2022, quadro 4.
    • Manter a antibioticoprofilaxia cirúrgica da cesariana, que tem indicação, alvo e esquema próprios — Manual de gestação de alto risco, 2022, quadro 4.
    • Colher a cultura entre 36 e 37 semanas mesmo na gestante com cesariana eletiva programada, porque o trabalho de parto ou a rotura podem acontecer antes da data marcada — Manual de gestação de alto risco, 2022, quadro 4.
    • Diante de febre intraparto em mulher com cultura negativa recente, avaliar corioamnionite e prescrever para ela: não prescrever profilaxia para estreptococo não altera essa decisão — protocolo do Caism/Unicamp.
  7. O relógio das quatro horas, e o que fazer quando ele não fecha

    A profilaxia é considerada adequada quando há pelo menos quatro horas entre a dose e o nascimento — e a régua pediátrica é mais exigente ao definir adequação como duas doses de penicilina ou ampicilina com quatro horas de intervalo, ou uma dose de cefazolina com oito. Quando o parto vai acontecer antes disso, a resposta é prescrever assim mesmo, e não desistir: o próprio manual federal registra que uma duração mais curta é benéfica para reduzir a frequência de diagnóstico clínico de sepse neonatal. Mas prescrever não é tudo. O que muda o desfecho do recém-nascido, quando a janela não fechou, é o berçário saber disso — e saber pelo horário escrito, não por uma frase vaga de corredor. Um caso especial e comum: mulher que chega com cesariana em curso ou com parto iminente e nunca recebeu nada. Faça a dose, registre o horário e avise antes de o bebê nascer.

    Prescrição
    • Iniciar a profilaxia ao diagnóstico de trabalho de parto ou à rotura de membranas, o que vier primeiro, e manter até o nascimento — Manual de gestação de alto risco, 2022, quadro 2.
    • Prescrever a dose ainda que o nascimento seja previsto para menos de quatro horas, e registrar o horário — Manual de gestação de alto risco, 2022, seção 39.4.
    • Não interromper a profilaxia por progressão rápida do trabalho de parto nem por transferência para o centro cirúrgico: a indicação termina no nascimento.
    • Comunicar à equipe neonatal, antes do nascimento, sempre que o intervalo até o parto for menor que quatro horas.
  8. Depois do nascimento — o que o obstetra transmite e o que ele não decide

    O manejo do recém-nascido exposto e da sepse neonatal precoce não tem capítulo próprio no nível Internato: a única entrada de Neonatologia é Reanimação neonatal em sala de parto, que trata de outra coisa. Este capítulo assume, portanto, apenas o que o obstetra transmite, e declara isso: a decisão sobre exames e antibiótico do recém-nascido é da neonatologia e a régua dela é a da sociedade brasileira de pediatria. O que você entrega é informação, e ela tem cinco campos. Se você entregar menos que isso, a equipe do berçário vai decidir por pior, porque a ausência de informação é lida como profilaxia inadequada — e é correto que seja. Vale saber, para conversar: o recém-nascido de termo assintomático de mãe adequadamente profilaxiada não precisa de exame e é observado clinicamente por pelo menos 48 horas antes da alta; sinais de sepse ou corioamnionite materna mudam tudo, e prematuridade abaixo de 35 semanas ou bolsa rota por 18 horas ou mais rebaixam a categoria mesmo com a mãe tratada.

    Prescrição
    • Escrever no prontuário do recém-nascido, antes de sair da sala: havia indicação de profilaxia e por qual critério; qual antibiótico foi usado; a hora exata da primeira dose; quantas doses foram administradas; e o intervalo entre a última dose e o nascimento.
    • Escrever também o que não se sabe: cultura não realizada, resultado desconhecido, ou horário de rotura estimado pela paciente — a ausência de informação é dado clínico para quem vai decidir a seguir.
    • Registrar no cartão da mulher, para a próxima gestação, se houve bacteriúria pela bactéria ou se o recém-nascido apresentou doença invasiva: as duas mudam a conduta do próximo parto e dispensam a cultura.
    • Comunicar verbalmente à equipe neonatal, e não apenas por escrito, sempre que a profilaxia tiver sido inadequada, ausente, ou quando houver febre materna intraparto.
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Como saber se está funcionando

Reavaliar aqui não é acompanhar uma doença — não há doença materna a acompanhar. É vigiar um relógio e uma lista de intervalos, e é por isso que a reavaliação deste capítulo se parece mais com a de uma prescrição do que com a de um quadro clínico. Os parâmetros abaixo são os que mudam a conduta durante o trabalho de parto.

Há um critério de fracasso que atravessa todos eles, e ele é de registro. Se ao fim do parto ninguém consegue dizer, olhando o prontuário, a que horas a primeira dose entrou e quantas foram, então a profilaxia foi inadequada para todos os efeitos práticos — porque a equipe que decide a seguir vai ter de assumir o pior. Profilaxia sem horário registrado não é profilaxia parcial: é profilaxia desconhecida.

Intervalo entre a primeira dose e o nascimentoCalculado continuamente a partir do horário registrado de início da infusão, e recalculado a cada reavaliação da progressão do parto

Esperado: Quatro horas ou mais até o nascimento, com pelo menos duas doses de penicilina ou ampicilina administradas com quatro horas de intervalo

Se não melhora: Parto iminente com menos de quatro horas de profilaxia: mantenha a prescrição, registre o horário e comunique a equipe neonatal antes do nascimento. Não se corrige o relógio antecipando dose nem encurtando intervalo — o que se corrige é a informação que chega ao berçário

Intervalo entre dosesA cada dose, com horário anotado; de 4 em 4 horas para penicilina e ampicilina, de 8 em 8 horas para cefazolina, clindamicina e vancomicina

Esperado: Doses no horário até o nascimento, sem intervalo estendido por troca de plantão, transferência de leito ou ida ao centro cirúrgico

Se não melhora: Atrasar ou pular dose é o defeito mais frequente desta prescrição, e o menos visível: a primeira dose costuma sair com atenção e a terceira não. Prescreva por horário fixo, e não como "de 4 em 4 horas" em aberto. A ida ao centro cirúrgico não suspende a prescrição

Temperatura materna intrapartoConforme a rotina de sinais vitais do trabalho de parto, e sempre que houver mudança clínica

Esperado: Manutenção abaixo de 38 °C

Se não melhora: Febre numa mulher sem cultura muda a indicação: passa a haver fator de risco e a profilaxia entra. Febre numa mulher com cultura negativa recente não muda a indicação de profilaxia e muda outra coisa — levanta corioamnionite, que exige avaliação e esquema próprios e que a penicilina do estreptococo não cobre

Tempo de bolsa rotaRecontado a cada avaliação, a partir do horário estimado pela paciente

Esperado: Registro explícito do horário e do fato de ele ser estimado

Se não melhora: Ao cruzar 18 horas numa mulher sem cultura, a indicação nasce naquele momento, e é comum ninguém perceber porque o marco passa durante a madrugada. Prescreva um horário-alvo de reavaliação em vez de confiar na memória da equipe. Registre a estimativa como estimativa: entre 17 e 19 horas de bolsa rota, a decisão é clínica e não aritmética

Reação à droga durante a infusãoNos primeiros minutos de cada infusão, e continuamente na vancomicina

Esperado: Ausência de rash, prurido, broncoespasmo, hipotensão ou angioedema

Se não melhora: Anafilaxia materna é um risco declarado e não nulo desta profilaxia. Na vancomicina, rubor de tronco superior, prurido e hipotensão durante a infusão sugerem reação relacionada à velocidade, e a conduta é reduzir a velocidade e a concentração, respeitando o teto de 10 mg por minuto e 5 mg/mL — não é motivo para abandonar a droga, mas é motivo para não a correr rápido

Progressão do trabalho de parto contra o relógio da profilaxiaA cada avaliação obstétrica

Esperado: Que a equipe saiba, a qualquer momento, quanto tempo de profilaxia haverá até o provável nascimento

Se não melhora: Progressão mais rápida do que o previsto é a causa mais frequente de profilaxia inadequada em mulher corretamente indicada. Não se retarda um parto por causa da profilaxia. O que se faz é avisar antes, e não depois: a informação de que a janela não vai fechar tem valor clínico maior enquanto o bebê ainda não nasceu

O que está escrito para a equipe neonatalAntes de sair da sala de parto, e conferido na passagem de plantão

Esperado: Indicação e critério, antibiótico, hora da primeira dose, número de doses e intervalo até o nascimento — os cinco campos, escritos

Se não melhora: Registro incompleto faz o recém-nascido ser classificado como exposto sem profilaxia adequada, o que significa coleta de exames e, conforme o caso, antibiótico empírico. O custo de não escrever cinco linhas é uma punção venosa e uma internação a mais, e ele recai sobre outra pessoa

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Onde o erro machuca

Ler "cultura negativa" sem olhar a data da coleta

O dano: A cultura descreve um estado intermitente e vale cerca de cinco semanas; o valor preditivo de 95% a 98% que o manual federal declara é para quem colheu dentro desse prazo. Uma cultura negativa de 32 semanas numa mulher que pare com 40 tem oito semanas de idade e não informa nada — mas ela lê como "negativa" e desliga a discussão inteira, inclusive a régua dos fatores de risco, que era a que deveria estar valendo.

Como pegar a tempo: Escreva sempre a data de coleta ao lado do resultado, e trate a data como parte do resultado. Passadas cinco semanas, a mulher entra na categoria de cultura desconhecida e a régua dos três fatores volta a valer. O inverso também é regra e igualmente contraintuitivo: dentro das cinco semanas, o negativo prevalece sobre o fator de risco e não se prescreve.

Prescrever antibiótico para a gestante colonizada durante o pré-natal

O dano: Erradicar a colonização no pré-natal não protege o recém-nascido: o reservatório é intestinal e a recolonização do períneo é a regra — grande parte das mulheres tratadas chega ao parto recolonizada. O dano é duplo — exposição sem benefício e a sensação, na mulher e na equipe, de que o problema foi resolvido, o que faz a profilaxia intraparto ser esquecida justamente em quem tem indicação.

Como pegar a tempo: Diga à mulher, no momento em que entrega o resultado, que não há tratamento agora e por quê. A única exceção é a infecção urinária pela bactéria, que é doença e se trata como tal — e note que tratá-la não retira a indicação de profilaxia no parto, que continua valendo por causa da bacteriúria.

Prescrever profilaxia na cesariana eletiva com membranas íntegras

O dano: É o erro que mais parece cuidado. A mulher tem cultura positiva, vai para o centro cirúrgico, e alguém prescreve penicilina "por precaução". Não há a rota que a profilaxia bloqueia: sem trabalho de parto e sem membranas rotas, o recém-nascido não passa pelo canal colonizado nem está exposto por via ascendente. O que se faz é expor mãe e recém-nascido a antibiótico sem benefício, e confundir a antibioticoprofilaxia cirúrgica com uma coisa que ela não é.

Como pegar a tempo: As três condições precisam estar todas presentes para dispensar: gestação a termo, ausência de trabalho de parto e membranas íntegras. Se qualquer uma faltar, a profilaxia volta a ser indicada. Mantenha a antibioticoprofilaxia cirúrgica, que tem outro alvo. E colha a cultura mesmo assim no pré-natal, porque a cesariana programada pode não acontecer como programada.

Rotular a mulher como alérgica sem perguntar qual foi a reação

O dano: "Alergia a penicilina" é uma etiqueta que a maioria das pessoas carrega sem nunca ter tido reação mediada por imunoglobulina E — desconforto gástrico e história familiar viram alergia no cartão. O custo aqui é específico: o rótulo tira a mulher da primeira linha e a joga na árvore da alérgica, onde as opções são de espectro mais largo, mais caras, ausentes do elenco nacional e, no caso da vancomicina, mais lentas de infundir. A etiqueta não conferida vira uma prescrição pior.

Como pegar a tempo: Faça a segunda pergunta, e faça-a com as palavras dos documentos: houve anafilaxia, angioedema, dificuldade respiratória ou urticária depois de penicilina ou de cefalosporina? Sem nenhuma das quatro, o risco é baixo e a cefazolina está liberada. Faça essa pergunta no pré-natal ou na admissão, não com a mulher em período expulsivo.

Prescrever clindamicina à alérgica de alto risco sem antibiograma

O dano: A resistência do estreptococo do grupo B à clindamicina é frequente o bastante para que o antibiograma tenha deixado de ser detalhe e virado condição. O manual federal só autoriza a clindamicina quando o antibiograma do isolado documenta sensibilidade; sem essa informação, a única opção validada é a vancomicina. Prescrever clindamicina "porque é alérgica" pode significar quatro horas de antibiótico que não age, com o agravante de que ninguém vai descobrir, porque não há desfecho para medir naquela noite.

Como pegar a tempo: O antibiograma tem de ser pedido meses antes, e o gatilho é a linha de alergia na requisição da cultura. Sem isso, a cultura volta positiva e sem teste de sensibilidade. Na admissão, se a alergia é de alto risco e não há antibiograma, a droga é a vancomicina — e comece a infusão cedo, porque ela sozinha consome pelo menos 140 minutos numa mulher de 70 kg.

Não escrever a hora da primeira dose

O dano: É a falha mais banal e a de maior consequência, porque toda a régua neonatal se articula em torno de um único número que só existe se alguém o escrever. Sem o horário, a equipe do berçário classifica o recém-nascido como exposto sem profilaxia adequada, o que significa hemograma, proteína C reativa, hemocultura e, conforme a categoria, antibiótico empírico e mais tempo de internação. A prescrição correta, a droga certa e a dose certa não valem nada se o relógio ficou fora do papel.

Como pegar a tempo: Registre a hora de início da infusão da primeira dose, e não a hora da prescrição — são coisas diferentes e podem distar uma hora. Registre também quantas doses foram feitas e o intervalo entre a última e o nascimento. E, quando o intervalo for menor que quatro horas ou quando não houver profilaxia, avise verbalmente antes do nascimento, além de escrever.

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O que dizer ao paciente e à família

As conversas deste capítulo são difíceis por um motivo pouco usual: você está explicando um tratamento que não é para a pessoa com quem está falando. A mulher não tem doença, não vai sentir nada e não vai perceber benefício algum — e é ela quem vai receber o antibiótico. Toda vez que isso não é dito com clareza, a conversa vira uma negociação sobre um remédio que ninguém explicou para quê.

Duas regras cobrem quase tudo. Diga desde a primeira frase que não se trata de uma infecção dela, porque a palavra "bactéria" no resultado de um exame produz susto imediato. E não prometa proteção total: a profilaxia reduz muito uma das duas formas da doença e não previne todos os casos, e isso está escrito nos próprios documentos federais.

Entregando o resultado positivo no pré-natal

"Deu positivo para uma bactéria chamada estreptococo do grupo B. Ela mora no intestino de muita gente e chega até a vagina — entre uma em cada quatro e uma em cada sete mulheres tem. Isso não é uma infecção, você não está doente e não vai sentir nada por causa disso. O que a gente faz é o seguinte: no dia do parto, assim que a senhora entrar em trabalho de parto ou a bolsa romper, a senhora vai receber um antibiótico na veia. É para o bebê, não para a senhora. Vou escrever isso aqui no seu cartão, em letra grande, porque quem vai ler é a equipe da maternidade."

Não diga: Chamar de "infecção" ou dizer que ela "está com uma bactéria" sem completar a frase. Também não diga "não é nada", porque em seguida você vai prescrever antibiótico intravenoso e a mulher vai concluir, corretamente, que alguma coisa era.

Quando ela pergunta por que não trata agora

"É a pergunta certa, e a resposta é que não funciona. Se eu tratar a senhora agora, a bactéria some por alguns dias e volta, porque ela mora no intestino e recoloniza. Já foi testado e não previne nada. O que funciona é o antibiótico entrando na veia durante o trabalho de parto, porque aí ele passa para o bebê e ocupa o caminho antes de ele nascer. Por isso o remédio tem hora marcada, e a hora é o dia do parto."

Não diga: Explicar com "é assim que se faz" ou com o nome do protocolo. Essa pergunta merece o mecanismo, porque sem ele a mulher sai achando que está sendo mal tratada — e porque é essa explicação que faz ela lembrar de mostrar o cartão na maternidade.

Perguntando sobre a alergia à penicilina

"A senhora já teve alguma reação a penicilina ou a antibiótico da mesma família? E, se teve, me conta o que aconteceu: foi enjoo e dor de barriga, ou foi inchaço no rosto, falta de ar, mancha vermelha pelo corpo? Pergunto porque as duas coisas mudam completamente o remédio que a senhora vai receber no parto, e a segunda me obriga a pedir um exame extra no laboratório desde agora."

Não diga: Aceitar "sou alérgica" e anotar. Também não pergunte só "tem alergia a alguma medicação?", porque a resposta genérica não separa o que precisa ser separado. E não faça essa pergunta pela primeira vez com a mulher em trabalho de parto avançado.

À mulher sem cultura, na madrugada

"Existe um exame que se faz no fim da gravidez, para uma bactéria que pode passar para o bebê no parto. A senhora não fez, e não é falha sua nem da equipe do posto — esse exame não faz parte da rotina em todo lugar. Como a gente não sabe se a senhora tem, a gente decide por outros sinais. A sua bolsa rompeu há algumas horas, e por isso eu vou fazer o antibiótico. É preventivo, é na veia, e vai ser repetido de quatro em quatro horas até o bebê nascer."

Não diga: Dizer que "faltou um exame" com tom de cobrança, e dizer que "deveriam ter pedido". Também não diga que é "só uma precaução", porque isso desautoriza a própria prescrição e faz a mulher recusar. Diga o critério que você usou.

À mulher com cultura positiva que vai fazer cesariana eletiva

"A senhora tem o exame positivo, e mesmo assim não vai receber o antibiótico daquela bactéria. Isso não é esquecimento. Ele serve para quando o bebê passa pelo canal ou quando a bolsa rompe, e na sua cirurgia marcada, com a bolsa inteira e sem trabalho de parto, esse caminho não existe. A senhora vai receber um antibiótico antes da cirurgia, mas é outro, para outra coisa: para prevenir infecção do corte. Se a senhora entrar em trabalho de parto ou a bolsa romper antes da data, aí muda, e aí a senhora recebe."

Não diga: Não explicar. Numa mulher que leu o próprio resultado, a ausência do antibiótico é interpretada como erro, e é uma das queixas que chegam à ouvidoria. Também não diga apenas "a cesárea protege", que é impreciso e não cobre o caso da bolsa romper antes.

Passando o caso para a equipe neonatal

"Paciente do leito 4, parto vaginal às 6h20. Indicação de profilaxia para estreptococo do grupo B por bolsa rota de mais de 18 horas, sem cultura. Penicilina cristalina, primeira dose às 3h05, três doses no total, última às 11h05 — não, corrijo: última dose às 5h05, uma hora e quinze antes do nascimento. Deu três horas e quinze do início ao parto, então não fechou as quatro horas. Sem febre materna. Idade gestacional 39 e 1."

Não diga: Dizer "fez profilaxia" e parar. Também não arredonde o intervalo para cima nem diga "deu quase quatro horas": o berçário decide por faixa, e "quase" não é faixa. Se você se confundir com o horário, corrija na hora — como acima — em vez de deixar passar.

Quando a profilaxia não deu tempo

"O bebê nasceu antes de o antibiótico completar o tempo que a gente queria. Isso não significa que alguma coisa deu errado — significa que o trabalho de parto foi mais rápido do que o remédio. A equipe da pediatria já sabe, e por isso eles vão observar ele com mais atenção nas primeiras horas e podem colher alguns exames. Se aparecer qualquer coisa, eles agem cedo. A senhora vai ficar com ele o tempo todo."

Não diga: Pedir desculpas como se tivesse havido falha, e prometer que "não vai acontecer nada". Também não omita: se você não contar, alguém do berçário vai contar de um jeito que soará a erro escondido.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Rastrear todas as gestantes por cultura, decidir por fatores de risco, ou não rastrear

Rastreio universal por cultura — manual federal de gestação de alto risco, 2022, e Sociedade Brasileira de Pediatria, 2011

Recomenda-se cultura vaginal e endoanal em todas as gestantes, com o objetivo declarado de identificar as colonizadas e instituir a profilaxia intraparto, reduzindo a transmissão e a incidência da doença neonatal. O manual federal dedica ao assunto um capítulo com dez recomendações numeradas e fixa a janela em 36 0/7 a 37 6/7 semanas; a sociedade de pediatria recomenda triagem universal entre 35 e 37 semanas e amplia a coleta para a gestação múltipla e para quem teve perda fetal anterior. O argumento é de desempenho comparado: a estratégia por fatores de risco identifica apenas 60% a 67% das portadoras, e a análise de custo citada mostra que ela deixou de prevenir cerca de um terço dos casos — proporção reproduzida por uma série brasileira, com falha em 33% dos casos. O documento pediátrico acrescenta um argumento de política e o escreve em primeira pessoa do plural: o problema existe no país e é preciso pleitear junto às autoridades de saúde que um programa de prevenção seja efetivamente implantado.

Manual de gestação de alto risco, Ministério da Saúde, 2022, capítulo 39, seções 39.3 e 39.4 e quadros 2 a 10; Costa HPF, Prevenção da doença perinatal pelo estreptococo do grupo B, Departamento de Neonatologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, atualizado em 25/11/2011.

Rastreio quando disponível, com decisão por fatores de risco no restante — protocolo federal de prevenção da transmissão vertical, 2022

O protocolo lista a pesquisa entre os exames do pré-natal, com a faixa da 35ª à 37ª semana e a coleta por swab vaginal e endoanal, e acrescenta ao fim da linha a expressão "quando disponível". Nas situações em que a pesquisa não pôde ser feita, ele manda considerar a administração de penicilina G cristalina segundo a avaliação de quatro fatores de risco. A posição não é intermediária por indecisão: ela reconhece que a cultura não é uniformemente ofertada na rede e escreve uma conduta que funciona nos dois cenários, mantendo a mesma droga e a mesma via. O efeito prático é que o rastreio deixa de ser obrigação do sistema e passa a ser possibilidade local, enquanto a profilaxia permanece obrigatória sempre que houver critério.

Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas para prevenção da transmissão vertical de HIV, sífilis e hepatites virais, Ministério da Saúde, 2ª ed. rev., 2022, seção de testagem no pré-natal, quadro de exames por trimestre e seção de trabalho de parto pré-termo.

Não rastrear sistematicamente — caderno federal de atenção ao pré-natal de baixo risco n. 32, 2013

O caderno registra que no Brasil não existe consenso nem recomendação técnica sobre o tema e conclui, em recomendação formal com grau A e nível de evidência I, que faltam elementos para recomendar a coleta sistemática e o antibiótico intraparto. Antes de recomendar, exige três coisas: medidas locais de quanto se coloniza, medidas locais de quanto se adoece, e evidência de custo-benefício. Os argumentos que apresenta para não recomendar agora são a exposição em massa para evitar poucos desfechos, a pressão de seleção sobre a flora, e a inexistência de estudo brasileiro de custo-efetividade. O documento apoia-se numa revisão sistemática que, ao avaliar desfechos neonatais e maternos, não encontrou redução significativa de mortalidade neonatal pela doença nem por todas as causas, e apontou alto risco de viés nos estudos disponíveis.

Brasil, Ministério da Saúde, Atenção ao pré-natal de baixo risco, Cadernos de Atenção Básica n. 32, 1. ed. rev., 2013, seção 6.3.20, p. 193-194.

Como decidir

Nenhum dos três documentos revoga os outros e os três estão no ar, o que significa que a discussão não se resolve citando "o Ministério da Saúde". Decida pelo que você controla. Você não decide se o seu município rastreia — isso é política, e a caderneta de 2026 mostra que a política federal ainda não incorporou o exame ao pré-natal de rotina. Você decide três coisas: pedir a cultura quando o seu serviço tem protocolo e o exame está disponível; ler o nome do germe das uroculturas de toda gestante que você atende, porque essa é a única via de identificação que já existe na rotina do Sistema Único de Saúde e não custa nada; e aplicar a régua dos fatores de risco com precisão na mulher sem cultura, porque no Brasil essa é a situação frequente e não a exceção. E note o que os três lados concordam: uma vez identificada a indicação, ninguém discute a profilaxia intraparto. A divergência é sobre rastrear, nunca sobre tratar quem tem critério.

A semana em que se colhe: 35 a 37 ou 36 0/7 a 37 6/7

Da 35ª à 37ª semana — protocolo federal de transmissão vertical de 2022, nota técnica municipal, protocolo do Caism/Unicamp e Sociedade Brasileira de Pediatria

É a faixa que circula na maior parte dos documentos brasileiros e a que está impressa nos protocolos de rede e de serviço. A origem é a revisão norte-americana de 2010, que manteve a faixa de 35 a 37 semanas fixada em 2002 e que os documentos brasileiros descrevem item a item. O argumento a favor é operacional: uma janela que começa mais cedo dá três semanas de folga entre a coleta e o termo, o que aumenta a chance de o resultado chegar antes do parto numa rede em que a cultura leva de 48 a 72 horas e o retorno da paciente depende de agendamento.

Protocolo de prevenção da transmissão vertical, Ministério da Saúde, 2022; nota técnica da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo; protocolo do Caism/Unicamp; documento da Sociedade Brasileira de Pediatria, 2011.

De 36 0/7 a 37 6/7 semanas — manual federal de gestação de alto risco, 2022

É a faixa da revisão internacional de 2019, corrigida em 2020, que o manual federal adota e cuja referência consta da sua bibliografia. O argumento é de validade: como a predição da cultura dura cerca de cinco semanas, uma coleta iniciada em 36 0/7 cobre nascimentos até pelo menos 41 0/7 semanas, ao passo que uma coleta em 35 0/7 expira em 40 0/7 e deixa descoberta a faixa em que ainda nasce parcela relevante das gestações. Deslocar a janela uma semana para a frente troca folga operacional por cobertura no fim da gestação.

Manual de gestação de alto risco, Ministério da Saúde, 2022, seção 39.3 e quadro 2, com a bibliografia do capítulo 39 citando a correção do parecer 797 do colégio americano, abril de 2020.

Como decidir

O impacto é menor do que a discussão sugere, e o critério de decisão é o calendário daquela mulher, não a preferência do serviço. Pergunte quando o resultado voltaria e quando ela provavelmente vai parir. Numa mulher com pré-natal regular, retorno marcado e laboratório que responde em três dias, colher em 36 semanas cobre melhor o fim da gestação. Numa mulher que falta a consultas, que mora longe, ou num serviço em que o resultado demora, colher em 35 semanas compra a folga que evita perder a coleta inteira — e uma cultura colhida em 35 semanas vale mais que uma cultura não colhida. O que não muda em nenhum dos dois lados é a regra de validade: passadas cinco semanas, o papel expira, e quem pare com 41 semanas tendo colhido em 35 é tratada como sem cultura.

A dose de vancomicina na alérgica de alto risco

1 g de 12 em 12 horas até o parto — Sociedade Brasileira de Pediatria, 2011

Dose fixa, independente do peso, seguindo o esquema da revisão internacional de 2010 que o documento descreve. São 2 g por dia, dois frascos de 500 mg por dose, e cada dose infunde em cerca de 100 minutos respeitando o teto de 10 mg por minuto da bula. O argumento implícito é de simplicidade e de segurança: dose fixa não erra por cálculo de peso e mantém a exposição total baixa num fármaco de janela terapêutica estreita, usado numa indicação profilática e por poucas horas.

Costa HPF, Prevenção da doença perinatal pelo estreptococo do grupo B, Sociedade Brasileira de Pediatria, atualizado em 25/11/2011, figura 5.

20 mg/kg de 8 em 8 horas, máximo de 2 g por dose — manual federal de gestação de alto risco, 2022, e protocolos de serviço recentes

Dose por peso e intervalo mais curto, com a justificativa declarada de que a dosagem deve se basear no peso e na função renal basal para alcançar concentração adequada no compartimento fetal. O mesmo esquema aparece em protocolo de hospital universitário federal publicado por portaria em 2024. Numa mulher de 70 kg são 1.400 mg por dose e 4,2 g por dia, mais que o dobro do esquema anterior; a partir de 100 kg, com o teto de 2 g, são 6 g por dia, o triplo. Cada dose exige ao menos 280 mL de diluente e 140 minutos de infusão a 70 kg, e 400 mL e 200 minutos no teto.

Manual de gestação de alto risco, Ministério da Saúde, 2022, quadro 7; protocolo PRT.UMUL.007 do Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados, portaria nº 062, de 4 de março de 2024.

Como decidir

Esta é a única divergência do capítulo em que a escolha errada tem toxicidade própria, e ela chega ao interno como uma dose já escrita no protocolo do serviço — o que a torna, na prática, uma decisão do serviço e não sua. O que é seu: usar o esquema padronizado na sua maternidade e não misturar os dois, porque a combinação mais perigosa é a dose por peso do documento mais novo com o intervalo de 12 horas do mais antigo, ou o contrário. E o que decide pelo paciente à frente não é a dose, é o relógio: qualquer dos dois esquemas exige infusão longa, e a alérgica de alto risco é a mulher em que a profilaxia precisa começar assim que a indicação for reconhecida. Numa mulher com 8 cm de dilatação, a diferença entre iniciar agora e iniciar em vinte minutos é a diferença entre haver e não haver profilaxia. Se a sua maternidade não tem vancomicina padronizada — e ela não consta do elenco nacional —, essa é uma pergunta a fazer antes do plantão, e não durante.

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O raciocínio, em voz alta

Zuleica Meneghel, 27 anos, segunda gestação, 39 semanas e 1 dia por ultrassonografia de primeiro trimestre. Chegou à maternidade às 2h com contrações e está com 5 cm de dilatação às 2h40. Cartão de pré-natal completo, com nove consultas, sorologias dos dois painéis não reagentes e urocultura do primeiro trimestre tratada com controle negativo. Não há resultado de cultura para estreptococo do grupo B em nenhuma linha do cartão. Refere que "molhou a cama" antes de dormir, entre nove e onze da noite. Temperatura axilar 37,4 °C, foco fetal 148 bpm, líquido claro. Nega alergias.

  1. o que penso agora

    Não tenho cultura, e a ausência dela aqui não é falha do pré-natal: o exame não está na caderneta. Então a decisão vai sair da régua dos fatores de risco, e os três itens dela são idade gestacional abaixo de 37 semanas, rotura há 18 horas ou mais, e temperatura de 38 °C ou mais. À primeira vista, Zuleica não tem nenhum: está com 39 semanas, a bolsa rompeu há no máximo cinco horas e a temperatura é 37,4 °C. Só que ainda falta procurar as duas indicações que dispensam a cultura, e uma delas está dentro do próprio cartão.

  2. 2h42 — a pergunta que não está no papel

    Pergunto diretamente: o primeiro filho teve alguma infecção grave nos primeiros dias, ficou internado, precisou de antibiótico na veia? Ela diz que não, que ele mamou e foi para casa em dois dias. Antecedente de recém-nascido acometido é pergunta a fazer em voz alta, porque não existe campo para ela no cartão — e, se houvesse, decidiria sozinha.

  3. 2h45 — o nome do germe, não a contagem

    Volto à urocultura do primeiro trimestre. O laudo diz Escherichia coli, 100.000 unidades formadoras de colônia por mililitro, tratada com nitrofurantoína, controle negativo. Não é a nossa bactéria. Se dissesse Streptococcus agalactiae, em qualquer contagem, a discussão terminaria aqui e a profilaxia estaria indicada — inclusive porque foi tratada, que é o detalhe que faz muita gente concluir o contrário.

  4. 2h50 — apurando a bolsa, que é o critério em disputa

    Refaço a história da rotura com calma, porque ela é o único critério que pode virar. Zuleica diz que jantou, assistiu televisão, molhou a cama e depois dormiu. O marido lembra que o programa que estava passando termina às 22h30 e que ela levantou para trocar a roupa de cama antes do fim. Fixo o horário em cerca de 22h e registro que é estimativa. Às 2h50, isso dá cerca de 5 horas: não chega perto de 18. Anoto que o critério deve ser reavaliado, porque se este parto se arrastar até as 16h de amanhã ele passa a existir.

  5. 2h52 — a temperatura, que também pode virar

    37,4 °C não é febre e não indica nada. Mas prescrevo aferição de temperatura na rotina do trabalho de parto com registro, porque 38,0 °C exatos é o valor que separa duas condutas — e, entre os dois documentos federais, é o valor que cai em cima do corte de um e fora do corte do outro. Se aparecer 38,0 °C, eu prescrevo, e digo por quê.

  6. 2h55 — a conclusão, que é não prescrever, dita em voz alta

    Sem cultura, sem bacteriúria pela bactéria, sem filho anterior acometido e sem nenhum dos três fatores de risco: não há indicação de profilaxia intraparto neste momento. Digo isso para a equipe com essas palavras e escrevo no prontuário — "sem indicação de profilaxia para estreptococo do grupo B às 2h55: sem cultura, sem fator de risco presente; reavaliar temperatura e tempo de bolsa rota". Não prescrever também é conduta, e conduta sem registro parece esquecimento.

  7. 6h10 — o critério aparece

    O trabalho de parto está mais lento do que o previsto e a temperatura de agora é 38,2 °C. Isso muda tudo em duas frentes ao mesmo tempo. Primeira: existe fator de risco e a profilaxia passa a estar indicada. Segunda, e mais importante: febre intraparto levanta corioamnionite, que é outro diagnóstico, com outra avaliação e outro esquema — e a penicilina do estreptococo não a trata. Chamo a Dra. Anísia Canabrava, prescrevo a profilaxia e abro a avaliação da febre, que é dela.

  8. 6h12 — a prescrição, com o volume junto

    Penicilina G cristalina 5.000.000 UI por via intravenosa em dose de ataque: um frasco reconstituído com 10 mL de água para injetáveis, que resulta em 12 mL, diluído em 100 mL de soro fisiológico. Manutenção de 2.500.000 UI de 4 em 4 horas, que são 6 mL do frasco reconstituído — e não 5, porque o frasco tem 12 mL e não 10. Escrevo o volume ao lado da dose. Anoto a hora exata de início da infusão: 6h18.

  9. 9h40 — o nascimento e o cálculo

    Parto vaginal às 9h40. Da primeira dose às 6h18 até o nascimento foram 3 horas e 22 minutos, com duas doses administradas — a segunda às 10h18 não chegou a existir. Não fecharam as quatro horas. Não arredondo para cima e não digo "quase quatro horas": digo o número.

  10. 9h45 — o que escrevo, que é o que decide o berçário

    No prontuário do recém-nascido, cinco linhas: indicação de profilaxia para estreptococo do grupo B por febre materna intraparto de 38,2 °C, sem cultura prévia; penicilina G cristalina; primeira dose às 6h18; duas doses administradas; intervalo entre a primeira dose e o nascimento de 3 horas e 22 minutos, portanto inferior a quatro horas. Acrescento a linha que não é número: corioamnionite em investigação materna. E aviso a neonatologia verbalmente, porque febre materna muda a categoria do recém-nascido independentemente da profilaxia — a decisão sobre exames e antibiótico dele é da equipe deles, e a régua é a da sociedade brasileira de pediatria.

  11. Variação do caso — resposta e reavaliação

    Variação do caso de Zuleica: o parto acontece antes de completar o intervalo ideal. Registrar exatamente o que recebeu e quando e comunicar as condições maternas e do bebê para definição da avaliação neonatal. Não classificar apenas como fez profilaxia, apagando o tempo.

  12. Variação do caso — quando mudar o plano

    Se a febre persiste ou se associam sinais de infecção intra-amniótica, reavaliar e iniciar tratamento materno apropriado com a equipe. Não manter penicilina profilática como se cobrisse qualquer infecção. A indicação neonatal deve ser comunicada junto da hipótese materna.

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Faça você

Nailde Toscano, 33 anos, terceira gestação, 38 semanas e 4 dias, 78 kg. Chega às 23h20 em trabalho de parto com 6 cm de dilatação, membranas íntegras, sem febre. Traz o cartão de pré-natal com uma linha escrita à mão: "cultura vaginal/anal EGB — POSITIVO — coletado em 36s3d". A coleta foi há doze dias. Na primeira consulta do pré-natal, na lista de alergias, está escrito "alérgica a penicilina". Perguntada, ela conta que quando tinha vinte anos tomou uma injeção de penicilina para uma infecção de garganta, e que "em uns minutos o rosto inchou todo, a boca inchou e faltou ar" — foi levada ao pronto-socorro e recebeu medicação na veia. Nunca mais tomou. No verso do laudo da cultura não há antibiograma: o campo de teste de sensibilidade não foi preenchido, e a requisição, que está grampeada ao laudo, não menciona alergia.

  1. o que já sei

    Cultura positiva na gestação atual, colhida há doze dias, portanto dentro do prazo de validade de cinco semanas. A indicação de profilaxia intraparto está estabelecida e começa agora, ao diagnóstico de trabalho de parto. Membranas íntegras e ausência de febre não retiram a indicação: elas só importariam se o caso fosse de cesariana eletiva sem trabalho de parto, e não é.

  2. a resposta que muda a droga

    Angioedema de face e boca com dificuldade respiratória minutos após penicilina parenteral, com atendimento de urgência. Isso não é rótulo de alergia: é história compatível com reação de alto risco, e ela fecha a primeira linha e a segunda ao mesmo tempo.

  3. o que falta no papel, e por quê

    Não há antibiograma. A requisição não informou a alergia, e por isso o laboratório não testou sensibilidade — a falha aconteceu há doze dias, num formulário, e chega a mim agora como uma decisão terapêutica com uma opção a menos.

  4. conduta

    — sua vez —

Ver como fecharíamos

A profilaxia está indicada e começa imediatamente, sem esperar rotura de membranas nem qualquer outro critério: cultura positiva na gestação atual, colhida dentro das cinco semanas, com trabalho de parto diagnosticado. Penicilina e ampicilina estão fora, e cefazolina também: a história de angioedema com dificuldade respiratória minutos após penicilina parenteral define risco alto de anafilaxia, e a árvore do manual federal manda, nesse ramo, escolher entre clindamicina e vancomicina de acordo com o antibiograma. Como não há antibiograma — o laboratório não testou porque a requisição não informou a alergia —, a sensibilidade é desconhecida, e nessa situação a vancomicina é a única opção validada. Prescrever clindamicina aqui seria o erro do caso: ela só está autorizada com sensibilidade documentada, e a resistência do estreptococo do grupo B a ela é frequente o bastante para que a escolha às cegas possa significar quatro horas de antibiótico que não age. A dose é de 20 mg/kg, o que em 78 kg são 1.560 mg, de 8 em 8 horas, abaixo do teto de 2 g por dose — quatro frascos de 500 mg, dos quais um usado pela metade. Pela bula, a concentração não pode passar de 5 mg/mL, o que obriga a pelo menos 312 mL de diluente, e a velocidade não pode passar de 10 mg por minuto, o que obriga a pelo menos 156 minutos de infusão, ou seja, duas horas e trinta e seis minutos. Some isso ao relógio: são 23h20, ela está com 6 cm na terceira gestação, e o intervalo desejável entre a dose e o nascimento é de quatro horas. A infusão sozinha consome mais de duas horas e meia dessa janela, e por isso a ordem correta é prescrever e instalar antes de qualquer outra providência — não depois de reavaliar a dilatação, não depois da passagem de plantão. Chame a obstetra de plantão e a farmácia na mesma frase, porque a vancomicina não consta do elenco nacional de medicamentos essenciais e a disponibilidade depende da padronização da casa; se ela não existir na maternidade, isso precisa ser sabido às 23h20 e não às 2h. Monitore a infusão: rubor de tronco superior, prurido e hipotensão indicam reação relacionada à velocidade, e a conduta é reduzir a velocidade, não suspender a droga. Registre a hora exata de início da infusão. E escreva desde já, no prontuário do recém-nascido, os cinco campos, com uma linha adicional que o berçário precisa ler: a profilaxia foi feita com vancomicina, e a definição de profilaxia adequada por tempo, nas réguas pediátricas, é escrita para penicilina, ampicilina e cefazolina — o que significa que a equipe neonatal vai avaliar este recém-nascido pela categoria mais conservadora, e é correto que avalie. Por fim, uma linha para a próxima gestação, escrita no cartão dela: alergia à penicilina de alto risco, colonização por estreptococo do grupo B nesta gestação, e a instrução de que a requisição da cultura seja feita com a alergia declarada, para que o antibiograma venha junto.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Este é o achado que organiza o capítulo, e ele é incômodo: não há uma régua brasileira única. O manual de gestação de alto risco de 2022 recomenda rastreio universal por cultura vaginal e endoanal e dedica ao tema um capítulo com dez recomendações numeradas. O protocolo de prevenção da transmissão vertical, do mesmo ano, lista o exame entre os do pré-natal com a ressalva "quando disponível". O caderno de atenção ao pré-natal de baixo risco de 2013 conclui, com grau de recomendação A, que não há elementos suficientes para recomendar a coleta sistemática nem o uso de antibiótico intraparto — e nunca teve segunda edição, seguindo hospedado e distribuído. As diretrizes nacionais de assistência ao parto normal excluem expressamente o tema do próprio escopo. E a caderneta em distribuição, o instrumento que a mulher carrega, não menciona o exame em nenhuma das suas listas. Nenhum desses documentos revoga os outros. A consequência prática para o plantão é que a mulher sem cultura é a situação frequente, e não a exceção.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Reconstrua de memória, sem consultar: as três situações em que a profilaxia intraparto está indicada sem que exista cultura, e os três fatores de risco que decidem quando a cultura é desconhecida. Depois escreva as quatro situações em que ela NÃO está indicada, que são as que mais se erram. Em seguida, a árvore da alérgica em três ramos, com a pergunta que separa risco baixo de risco alto e o exame que decide entre as duas drogas do ramo de risco alto. Por fim, escreva a dose de ataque e a de manutenção da penicilina com o volume ao lado — se você escreveu 5 mL na manutenção, releia a tabela de conversão: o frasco tem 12 mL. Aplicação comentada: A gestante diz ter alergia à penicilina. Pergunte reação e gravidade antes de escolher alternativa; intolerância gastrointestinal e anafilaxia não têm a mesma consequência.

Em 30 dias

Pegue o cartão de pré-natal de três gestantes que você atendeu e responda, para cada uma, em que categoria ela chegaria à maternidade hoje: cultura positiva, cultura negativa dentro do prazo, cultura negativa vencida, sem cultura, ou indicação autônoma. Se alguma delas tiver urocultura na gestação, leia o nome do germe e não a contagem. Depois, procure no seu serviço três coisas e anote as respostas: se existe protocolo escrito de rastreio; se a requisição de cultura tem campo para declarar alergia à penicilina; e se a maternidade tem vancomicina padronizada. As três perguntas levam dez minutos e mudam o que você vai conseguir fazer no próximo plantão.

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Agora atenda

Gestante a termo em trabalho de parto, admitida de madrugada, com cartão de pré-natal completo e sem nenhum resultado de cultura para estreptococo do grupo B. Conduza a admissão: leia o cartão e diga o que procura nele, faça as perguntas que não estão no papel, decida se há ou não indicação de profilaxia intraparto e diga por qual critério, prescreva o que for seu prescrever com dose e volume, e diga exatamente o que você escreveria para a equipe neonatal antes de sair da sala.

Estreptococo do grupo B — Internato | OsceLabs