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Clínica MédicaPneumologia

Tromboembolismo pulmonar: a probabilidade antes do exame, a gravidade antes da droga

Estimar a probabilidade com um escore antes de pedir qualquer exame, usar o D-dímero só em quem ele pode descartar, confirmar com angiotomografia ou com o que houver no lugar dela, classificar a gravidade antes de escolher o anticoagulante, prescrever o que o paciente vai conseguir manter em casa, reservar o trombolítico para o paciente clínico em choque e decidir, aos três meses, se a anticoagulação para ou continua.

Fontes deste capítulo

Albricker ACL, Freire CMV, Santos SN, et al. Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso – 2022 (DIC/SBC, CBR, SBACV e SBMN). Arq Bras Cardiol. 2022;118(4):797-857. doi:10.36660/abc.20220213

Amado VM, Fernandes CJCS, Salibe-Filho W, Gazzana MB, Rocha AT, Yoo HHB, Bernardo WM, Tanni S. Diretrizes brasileiras para o tratamento farmacológico do tromboembolismo pulmonar. Documento oficial da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia baseado na metodologia GRADE. J Bras Pneumol. 2025;51(2):e20240314. doi:10.36416/1806-3756/e20240314

de Barros e Silva et al. Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência – 2025 (SBC e FLAME). Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250620. doi:10.36660/abc.20250620

Sobreira ML, Marques MA, Paschoa AF, et al. Diretrizes sobre trombose venosa profunda da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular. J Vasc Bras. 2024;23:e20230107. doi:10.1590/1677-5449.202301071

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024. Portaria GM/MS nº 6.324/2024

01

Responda antes de ler

Mulher de 60 anos, estável, com pressão arterial de 124 por 76 mmHg, frequência cardíaca de 108 e saturação de 93%, tem embolia pulmonar confirmada por angiotomografia com relação entre os ventrículos direito e esquerdo de 1,2 e troponina acima do limite de referência. Não tem câncer, doença cardíaca ou pulmonar crônica, e está lúcida. Seguindo a classificação de gravidade adotada neste capítulo, qual é a conduta inicial?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira, 15h20, pronto-socorro de um hospital geral numa cidade de porte médio. A classificação de risco mandou para a sala amarela uma mulher de 58 anos com falta de ar, e a técnica de enfermagem já prendeu na prancheta a folha dos sinais: frequência cardíaca 112, frequência respiratória 24, saturação de 91% em ar ambiente, pressão arterial 126 por 78, temperatura axilar 37,4 °C. Jacinta Tibau, 74 quilos, cozinheira de restaurante, conta que a falta de ar começou há quatro dias, que piora quando sobe a ladeira de casa e que desde ontem sente uma pontada do lado direito, embaixo das costelas, quando puxa o ar fundo.

O dado que ela não traz como queixa aparece quando você pergunta pelas últimas semanas. Há 25 dias torceu o tornozelo esquerdo no piso molhado da cozinha, saiu da unidade de pronto atendimento com uma bota imobilizadora e passou dez dias no sofá, levantando só para ir ao banheiro. Tirou a bota há duas semanas e voltou ao trabalho. A panturrilha esquerda está mais grossa que a direita — a fita métrica, dez centímetros abaixo da tuberosidade da tíbia, marca três centímetros e meio de diferença — e dói quando você aperta o trajeto das veias profundas. Ela achou que era do tombo.

O plantonista, que tem outros onze pacientes na sala, passou pela maca antes de você e deixou dois pedidos assinados: D-dímero e radiografia de tórax, com um recado escrito à caneta no canto da folha — “se o dímero vier alto, pede a tomo”. A radiografia já voltou e não mostra consolidação, derrame nem alargamento de mediastino. O D-dímero ainda não saiu; o laboratório promete para daqui a uma hora e meia, porque a máquina está calibrando. O tomógrafo, por acaso, está livre agora.

Antes de o resultado chegar, faça a conta que ninguém fez. Sinais clínicos de trombose venosa profunda valem 3 pontos no escore de Wells; frequência cardíaca acima de 100, 1,5; imobilização recente, 1,5; e nenhum diagnóstico alternativo mais provável que embolia, mais 3. São 9 pontos: TEP provável em qualquer uma das leituras do escore. Nessa probabilidade o D-dímero não tem trabalho a fazer. Um valor baixo não autorizaria mandá-la para casa, e um valor alto não acrescentaria nada ao que a conta já disse. Esperar uma hora e meia por um exame que não muda a decisão é o erro que o recado da caneta ia produzir.

A angiotomografia de artérias pulmonares sai às 16h05. O laudo descreve falhas de enchimento em ramos lobares e segmentares dos dois pulmões e uma relação entre os diâmetros do ventrículo direito e do esquerdo de 1,2 no plano axial. A troponina colhida na chegada volta acima do limite de referência do laboratório. Jacinta continua com pressão de 124 por 76, conversando, e pergunta se já pode ir embora, porque precisa buscar o neto na escola às cinco e meia.

É aqui que o capítulo começa de verdade, porque diagnosticar foi a parte fácil. Ela não está em choque, e trombolítico não é o que se oferece a quem conversa com pressão normal. Mas também não é a paciente que se despacha com uma receita: tem ventrículo direito dilatado e troponina alta, e é justamente nesse grupo que uma parte dos doentes piora depois de chegar bem. Que heparina começa agora, em que leito ela vai ficar, quem mede a pressão de madrugada, e o que você faz se ela cair às três da manhã?

E há a pergunta que ela mesma vai fazer no dia da alta. A diretriz brasileira de tratamento recomenda, com força, um anticoagulante oral de ação direta. Nenhum deles consta da Rename 2024. O único anticoagulante oral do elenco nacional é a varfarina, que precisa de heparina junto por pelo menos cinco dias, de exames de INR para chegar à faixa certa e de uma unidade básica que faça esse controle. O que Jacinta vai conseguir tomar em casa faz parte da prescrição — não é um detalhe para resolver no corredor. Na transição para varfarina, os cinco dias são de sobreposição dos dois medicamentos; os dias de heparina antes da primeira dose de varfarina não preenchem esse mínimo.

Este capítulo percorre essa trajetória na ordem em que ela acontece: estimar a probabilidade antes do exame, usar o D-dímero só em quem ele pode descartar, confirmar com a imagem certa ou com a alternativa que houver, classificar a gravidade antes de escolher a droga, anticoagular com o que o paciente vai conseguir manter, reservar o trombolítico para o paciente clínico em choque e decidir, aos três meses, se a anticoagulação para ou continua.

03

Quem adoece disso

O número brasileiro que dá a escala vem do Ministério da Saúde e está na Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso de 2022: entre 2010 e 2021 houve mais de 520 mil internações relacionadas ao tromboembolismo venoso no país, e entre 2010 e 2019 foram mais de 67 mil óbitos. A consequência para o interno é simples: não é doença de enfermaria especializada. Qualquer pronto-socorro geral e qualquer enfermaria de clínica médica recebe esses pacientes, e a primeira pessoa a desconfiar costuma ser quem está de plantão, não o pneumologista.

A mesma diretriz registra que cerca de 34% dos acometidos morrem subitamente ou em poucas horas depois da primeira manifestação, antes de receber qualquer tratamento. Esse número muda o que se entende por atraso. Para um terço dos doentes não há conduta hospitalar possível — a única intervenção que os alcança é a profilaxia, que tem capítulos próprios neste nível. Para os que chegam vivos ao hospital, cada hora entre a suspeita e a anticoagulação é tempo em que o trombo pode crescer ou um novo êmbolo pode subir.

Quase dois terços dos casos de tromboembolismo venoso se manifestam como trombose venosa profunda isolada, e um terço como embolia pulmonar, segundo a diretriz conjunta. Os dois são a mesma doença em lugares diferentes, com os mesmos fatores de risco. A consequência prática está na cena: a perna faz parte do exame de quem tem falta de ar, e uma trombose proximal encontrada no ultrassom é, em mais de uma situação, o atalho para decidir quando a tomografia não pode ser feita.

A diretriz conjunta registra que a incidência cresce de forma exponencial com a idade, mesmo com prevenção; que as mulheres são mais acometidas na juventude, sobretudo no puerpério; e que imobilidade prolongada, obesidade, câncer, cirurgia de grande porte com tempo anestésico prolongado, politrauma, varizes dos membros inferiores, terapia hormonal e doença cardiovascular são situações de risco. A consequência é que a pergunta pelas últimas quatro semanas — cama, gesso, internação, cirurgia, hormônio, câncer — precisa ser feita a todo adulto com falta de ar ou dor pleurítica sem causa evidente, e a resposta entra primeiro no escore e depois na duração do tratamento.

Entre 25% e 50% dos pacientes com o primeiro episódio de tromboembolismo venoso não têm fator de risco facilmente identificável, segundo a mesma diretriz. Não é um número acadêmico: é a fração de pacientes em que a consulta dos três meses vai terminar em anticoagulação estendida, e em que a história precisa procurar o câncer que ainda não apareceu. A mortalidade precoce se concentra no acometimento pulmonar e, entre os doentes, nos idosos, nos que têm câncer e nos que têm doença cardiovascular de base; e quem sobrevive pode ficar com hipertensão pulmonar da embolia crônica — que é o motivo de a consulta dos três meses perguntar pela falta de ar.

Para a embolia pulmonar não existe protocolo clínico e diretriz terapêutica do Ministério da Saúde — a própria diretriz de tratamento da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), de 2025, registra isso — e os anticoagulantes orais diretos entram no sistema público de modo desigual, a depender de cada secretaria estadual. Nenhum desses fármacos consta da Rename 2024, e nenhum trombolítico consta também. A consequência é que duas perguntas entram na prescrição de todo paciente do SUS com embolia: o que o estado dele dispensa, e o que o hospital tem na farmácia no dia em que for preciso trombolisar.

A régua brasileira que governa cada decisão deste capítulo tem data e dono. Para o diagnóstico e a imagem, a Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso de 2022, do Departamento de Imagem Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia com o Colégio Brasileiro de Radiologia, a Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular e a Sociedade Brasileira de Medicina Nuclear — vigente só por ausência de substituto, e sem nenhuma seção de tratamento. Para a probabilidade pré-teste no pronto-socorro, a Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência de 2025. Para o tratamento farmacológico, a diretriz da SBPT de 2025, construída com metodologia GRADE sobre seis perguntas, que substituiu a recomendação da mesma sociedade de 2010. Para as doses das heparinas, da varfarina e dos orais diretos, as Diretrizes sobre Trombose Venosa Profunda da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular de 2024 e as bulas. Onde essas réguas discordam, o capítulo diz qual adota e por quê.

04

Por que acontece o que acontece

Na maioria dos casos o êmbolo nasce numa trombose venosa profunda dos membros inferiores, e a trombose proximal — a que envolve as veias femorais ou a poplítea — é a de maior potencial emboligênico, como registra a diretriz conjunta. Os fatores que a produzem são os da tríade de Virchow: estase, lesão endotelial e hipercoagulabilidade. A bota de Jacinta produziu estase; dez dias de sofá fizeram o resto. Por isso a pergunta pelas últimas quatro semanas vale mais que a pergunta pelo sintoma: é nela que aparecem a imobilização, a internação, a cirurgia, o estrogênio e o câncer.

Quando o trombo se solta e se aloja numa artéria pulmonar, a região que ele deixa sem sangue continua ventilada. O ar entra em alvéolos que não trocam gás, o sangue desviado passa depressa por regiões que já estavam perfundidas, e a relação entre ventilação e perfusão se desorganiza: o resultado é hipoxemia, taquipneia e sensação de falta de ar desproporcional ao que a radiografia mostra. Êmbolos pequenos e periféricos fazem outra coisa: podem infartar o parênquima junto à pleura, e a dor passa a ser pleurítica, às vezes com hemoptise. Na tomografia o infarto aparece como opacidade periférica de base pleural, com focos hipertransparentes de permeio e sem broncograma aéreo.

O que mata não é o pulmão, é o ventrículo direito. Ele é uma câmara de parede fina, feita para bombear contra uma resistência baixa. Quando uma fração grande do leito arterial pulmonar é obstruída de repente, a pós-carga sobe mais do que ele consegue vencer, e ele dilata. O septo interventricular é empurrado para a esquerda, o ventrículo esquerdo enche menos e o débito cai. A tomografia vê essa sequência como relação entre ventrículo direito e esquerdo acima de 1,0 no plano axial, que a diretriz conjunta aponta como o sinal prognóstico mais importante; o ecocardiograma vê a retificação do septo, a dilatação da câmara e, às vezes, a hipocinesia da parede livre com o ápice preservado.

O ventrículo direito dilatado e sob pressão recebe menos sangue coronariano justamente quando precisa de mais, e sofre isquemia. É por isso que a troponina sobe na embolia, sem nenhuma lesão coronariana, e é por isso que a combinação de ventrículo direito comprometido na imagem com troponina ou peptídeo natriurético elevado identifica o grupo que pode descompensar mesmo com pressão normal. A diretriz da SBPT registra para esse grupo, o de risco intermediário alto, mortalidade precoce em torno de 9% e mortalidade em 30 dias duas vezes maior que a dos pacientes sem sinal de disfunção do ventrículo direito.

Se a obstrução é grande o bastante, a queda da pressão arterial reduz ainda mais a perfusão coronariana do ventrículo direito, que falha mais, e o ciclo se fecha em minutos — é o choque obstrutivo, cujo mecanismo completo e cujo manejo no paciente operado estão no capítulo Diferenciar os tipos de choque e conduzir cada um, da apostila de Pré e Pós-operatório. A síncope aparece em cerca de 17% das embolias, segundo a diretriz conjunta, e se associa a alta prevalência de instabilidade e de falência do ventrículo direito: um desmaio numa história de falta de ar é sinal de obstrução grande, não de ansiedade.

O D-dímero aparece quando a fibrina já formada e estabilizada é quebrada. Toda vez que o organismo forma e dissolve coágulo ele sobe — por isso o teste quantitativo tem sensibilidade próxima de 95% para tromboembolismo venoso e especificidade de só 40%, e sobe também no infarto, no acidente vascular cerebral, na inflamação, no câncer ativo e na gravidez. A especificidade cai com a idade e, no idoso, pode ficar em 10%. A consequência mecânica é a regra de uso: um valor abaixo do corte é informativo quando a probabilidade não era alta; um valor acima do corte quase nunca informa nada sozinho.

O anticoagulante não dissolve o trombo. Ele segura o trombo onde está e evita que outros apareçam, e quem dissolve o que já se formou é a fibrinólise do próprio organismo — é essa a lógica que a diretriz de trombose venosa profunda da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular descreve para o tratamento. O trombolítico faz outra coisa: ativa a fibrinólise de forma sistêmica e dissolve o coágulo em horas, com o preço de dissolver também o coágulo que estiver tampando qualquer lesão do paciente. A diretriz da SBPT descreve o conflito com essas palavras no risco intermediário alto: o risco de hemorragia grave, em especial de acidente vascular hemorrágico, se contrapõe ao benefício. Por isso o trombolítico é para quem vai morrer da obstrução, e não para quem apenas tem uma obstrução grande.

Cada anticoagulante tem uma regra de início que decorre de como ele age e de como foi estudado. A varfarina bloqueia a síntese dos fatores dependentes de vitamina K e demora dias para anticoagular de forma eficaz: por isso começa no primeiro dia junto com uma heparina, que só sai depois de pelo menos cinco dias e de INR entre 2 e 3 em dois dias seguidos. Começar só com varfarina se associa a recorrência e a necrose de pele, e a diretriz de trombose venosa profunda recomenda não fazê-lo em hipótese alguma. Rivaroxabana e apixabana começam sozinhas, com uma dose de ataque nas primeiras semanas; dabigatrana e edoxabana só entram depois de cinco dias de anticoagulante parenteral.

Êmbolos na bifurcação e em ramos da artéria pulmonar, trombo em veia profunda e corte ventricular com VD dilatado e VE comprimido.
A obstrução vascular pode elevar a pós-carga do ventrículo direito, com dilatação, retificação do septo e redução do enchimento esquerdo. No corte à direita, o VD ocupa a esquerda da imagem e o VE menor tem formato em D. Gravidade integra hemodinâmica, função ventricular e contexto; um êmbolo em sela não determina sozinho a categoria de risco. Ilustração didática original.
05

Como se apresenta de verdade

Os sinais da embolia pulmonar são inespecíficos por natureza — dispneia, dor torácica, hemoptise, síncope ou pré-síncope — e, em alguns casos, ela é assintomática e aparece por acaso numa tomografia pedida por outro motivo. A diretriz conjunta de 2022 escreve isso de propósito, porque a consequência é a regra do capítulo inteiro: nenhum achado isolado confirma ou afasta, e a suspeita, uma vez levantada, precisa ser confirmada ou refutada para evitar os dois danos, o de anticoagular quem não tem a doença e o de mandar para casa quem tem.

Este capítulo é dono do tromboembolismo pulmonar do paciente clínico, do momento em que a suspeita existe até o paciente estável anticoagulado e à decisão dos três meses: a probabilidade pré-teste, o uso do D-dímero, a imagem, a estratificação de gravidade, a escolha e a duração da anticoagulação, a trombólise sistêmica do paciente clínico instável e o que o SUS oferece para cada passo. Cede a trombose venosa profunda isolada, com o Wells de membro e o ultrassom, a Trombose venosa profunda e diagnóstico (escore de Wells), da apostila de Cirurgia Vascular; a embolia maciça do paciente operado e o choque obstrutivo a Diferenciar os tipos de choque e conduzir cada um, da apostila de Pré e Pós-operatório; a gestante e a puérpera a Cardiopatia e tromboembolismo venoso na gestação, da Obstetrícia; a profilaxia a Profilaxia de tromboembolismo venoso no perioperatório e a Profilaxias da prescrição: TEV, lesão de estresse e broncoaspiração; a dor torácica e a dispneia como síndromes de porta, com a regra PERC e a decisão de anticoagular antes da tomografia, a Dor torácica no pronto-socorro: excluir as que matam e a Dispneia aguda indiferenciada; os primeiros cinco minutos da dessaturação a Dessaturação aguda na enfermaria; e o ajuste de dose pela função renal, com a escolha da equação, a Ajuste de dose na disfunção renal e hepática.

Percurso de aprendizagem

Primeiro, probabilidade pré-teste e investigação: um exame útil em um grupo pode ser inadequado em outro.

Depois, gravidade e suporte: pressão, ventrículo direito e biomarcadores entram depois de reconhecer instabilidade.

Por fim, anticoagulação inicial, transição e manutenção. Confira concentração e mL/h nas infusões e sobreposição quando usar varfarina; aprofunde trombólise e situações especiais com o supervisor.

O quadro que sugere, e por que ele não basta

A apresentação mais comum é a que Jacinta trouxe: falta de ar de instalação recente, que piora com esforço pequeno, taquicardia, taquipneia e saturação um pouco baixa numa radiografia que não explica a hipoxemia. A dor pleurítica, em pontada, que piora na inspiração profunda, sugere êmbolo periférico e irritação da pleura; a hemoptise, pequena, acompanha o infarto pulmonar. Nenhum desses dados, sozinho, tem acurácia para decidir, e é por isso que eles entram num escore em vez de entrarem numa impressão.

O eletrocardiograma da embolia costuma decepcionar quem espera o padrão de livro. A diretriz de dor torácica de 2025 registra que, nos casos menos graves, o achado mais comum é a taquicardia sinusal, presente em cerca de 40%, e que o padrão S1Q3T3 — onda S larga em DI, onda Q e T invertida em DIII — esteve presente em 8,5% dos casos de embolia na emergência. As alterações de sobrecarga do ventrículo direito, com inversão de onda T de V1 a V4 e bloqueio de ramo direito, aparecem nos casos mais graves. O eletrocardiograma serve, então, para duas coisas: sugerir gravidade quando mostra sobrecarga e procurar o diagnóstico alternativo, sobretudo o infarto.

A radiografia de tórax pode ser normal, e um paciente hipoxêmico com radiografia que não explica a hipoxemia é exatamente quem precisa ter a embolia na lista. Quando altera, a mesma diretriz lista como mais frequentes as áreas de atelectasia, a elevação da hemicúpula diafragmática, o derrame pleural e a dilatação do tronco e dos ramos da artéria pulmonar. O que a radiografia faz de melhor é afastar pneumotórax, consolidação extensa ou congestão que expliquem o quadro por outro caminho — e esse é exatamente o item de 3 pontos do Wells, o do diagnóstico alternativo.

Síncope, hipotensão e o paciente que chega em choque

A diretriz da SBPT de 2025 define instabilidade hemodinâmica na embolia com três situações, e vale decorar as três porque elas mudam a classe de risco e a conduta. A primeira é o choque obstrutivo: pressão sistólica abaixo de 90 mmHg, ou necessidade de vasopressor para mantê-la em 90 ou mais apesar de volemia adequada, com sinal de disfunção orgânica — rebaixamento do nível de consciência, pele fria e pegajosa, oligoanúria ou lactato elevado. A segunda é a hipotensão persistente: sistólica abaixo de 90, ou queda de 40 mmHg em relação à habitual do paciente, por mais de 15 minutos, sem arritmia, hipovolemia ou sepse que a expliquem. A terceira é a parada cardiorrespiratória.

Teotônio Dantas, 67 anos, 58 quilos, internado há seis dias na enfermaria de clínica médica por pielonefrite, afebril desde o terceiro dia e quase sem sair do leito, é encontrado às 5h40 sentado na beira da cama, pálido, com pressão de 84 por 60, frequência de 124, saturação de 86% e as mãos frias. Não tem cirurgia recente, não sangra, e a pressão não sobe com uma pequena prova de volume. Ele é o paciente que este capítulo trata no ramo da instabilidade: suspeita de embolia com choque, em que a diretriz conjunta de 2022 torna o ecocardiograma à beira do leito exame obrigatório e em que a decisão sobre trombólise não pode esperar pela tomografia no fim do corredor.

A síncope merece uma frase à parte, porque costuma ser registrada como um desmaio que passou. Na embolia, ela se associa a instabilidade e a falência do ventrículo direito, e o paciente que desmaiou e acordou normotenso deve ter a gravidade medida — imagem do ventrículo direito e biomarcador — antes de qualquer decisão sobre leito ou alta.

O internado: a embolia que aparece no meio de outra doença

No paciente internado a embolia raramente é a hipótese da admissão. Ela aparece como uma taquicardia nova, uma dessaturação sem causa pulmonar evidente, uma falta de ar desproporcional à doença que motivou a internação, ou uma dor pleurítica no quinto dia de repouso. Os primeiros minutos desse paciente — oxigênio, monitorização, o que olhar primeiro — estão no capítulo Dessaturação aguda na enfermaria; este capítulo entra quando a suspeita de embolia está formada e é preciso decidir o exame e o tratamento.

As ferramentas funcionam pior aqui, e é importante saber o quanto. Para a trombose venosa profunda, a diretriz conjunta cita acurácia de 0,56 do escore de Wells em internados, medida como área sob a curva, contra desempenho melhor em pacientes ambulatoriais. O D-dímero sofre mais: inflamação de qualquer causa, câncer ativo e a própria idade o elevam, e no internado um valor acima do corte informa pouco. Na prática, o D-dímero só ajuda o internado quando vem baixo e a probabilidade não era alta; nos demais, a decisão é imagem.

Duas perguntas da enfermaria mudam a leitura e quase nunca constam do pedido: se o paciente estava recebendo profilaxia e em que dose, e se houve interrupção dela por procedimento ou sangramento. Embolia sob profilaxia correta acontece, e o dado precisa estar escrito, porque a decisão sobre a heparina de tratamento parte dessa informação.

Câncer: a embolia que complica o tratamento e a que revela a doença

A diretriz da SBPT reúne os números que explicam por que o paciente com câncer é tratado de outra forma. O risco de tromboembolismo venoso é de 4 a 7 vezes o da população sem câncer, 20% dos pacientes oncológicos desenvolvem a doença ao longo da evolução, ela é a segunda causa de morte nesse grupo e, em até 10% dos casos, a trombose é o primeiro sinal de um câncer ainda não diagnosticado. As taxas de recorrência e de sangramento são duas a três vezes maiores que as da população sem câncer, e manter o INR na faixa é difícil nesses pacientes.

Duas consequências vão para a prescrição. A primeira é a escolha do anticoagulante: a diretriz sugere anticoagulante oral direto no paciente com câncer, e registra que edoxabana e rivaroxabana sangraram mais que a heparina de baixo peso molecular, sobretudo no trato digestivo de pacientes com lesão não controlada nesse sítio, enquanto a apixabana foi tão eficaz e segura quanto a heparina de baixo peso molecular independentemente do sítio primário. A segunda é a duração: a maioria dos estudos tratou por seis meses, e a diretriz considera esse um mínimo razoável quando o câncer já foi resolvido ou controlado. Os resultados globais desses ensaios não tornam todo tumor digestivo seguro para apixabana. A orientação operacional nesta revisão é avaliar lesão luminal ativa, sangramento, absorção, interações e rim; em alto risco de sangramento digestivo, considerar preferência por heparina conforme ITAC 2022. Essa qualificação também rege o caso de Abelardo e a questão sobre tumor gástrico friável.

A terceira consequência é diagnóstica. Uma embolia sem fator desencadeante num adulto não termina na receita: a história e o exame físico precisam procurar ativamente o câncer que ainda não apareceu — perda de peso, sangramento, alteração de hábito intestinal, nódulo, adenomegalia —, e os rastreamentos que estiverem atrasados para a idade entram no plano da alta. Os documentos brasileiros usados neste capítulo não fixam um roteiro de investigação de câncer oculto; o que se escreve aqui é a leitura mínima do dado de 10%.

A gestante e a puérpera

O diagnóstico e o tratamento da embolia na gestação e no puerpério pertencem ao capítulo Cardiopatia e tromboembolismo venoso na gestação, da apostila de Obstetrícia, que trata do dímero dentro de algoritmo gestacional validado e das doses por peso. Três fatos, porém, precisam estar na cabeça de quem atende uma mulher em idade fértil no pronto-socorro geral, porque mudam o primeiro pedido e a primeira prescrição.

Os escores de probabilidade não foram validados em gestantes, como registra a diretriz de dor torácica de 2025 — Wells e Genebra não servem para decidir se ela vai para a imagem. Tanto a angiotomografia quanto a cintilografia podem ser usadas na gestante, segundo a recomendação da diretriz conjunta, que lembra que as técnicas modernas expõem pouco a mãe e o feto. E na gestação e na amamentação os orais diretos estão contraindicados; para essas mulheres, a diretriz da SBPT indica a heparina de baixo peso molecular. Por isso a pergunta sobre atraso menstrual e o teste de gravidez entram antes da primeira dose de qualquer oral direto em mulher em idade fértil.

O idoso, o obeso e o renal crônico: o mesmo quadro com outros riscos

No idoso a dificuldade é dupla. O D-dímero perde especificidade — pode chegar a 10%, segundo a diretriz conjunta —, e por isso a diretriz de dor torácica de 2025 permite o corte ajustado pela idade a partir dos 50 anos: idade multiplicada por 10, em ng/mL. Um homem de 78 anos com probabilidade não alta tem corte de 780, não de 500. Ao mesmo tempo, a idade acima de 75 anos está entre os fatores de risco de sangramento listados pela diretriz de trombose venosa profunda, junto com sangramento prévio sem causa tratável, câncer ativo, acidente vascular prévio, uso de antiplaquetário ou anti-inflamatório, insuficiência renal ou hepática crônica, fragilidade e controle ruim do INR.

No obeso, a diretriz da SBPT registra que o perfil favorável dos anticoagulantes orais diretos se manteve e que eles são opção. No renal crônico, a diretriz conjunta é explícita: insuficiência renal em tratamento conservador não é contraindicação absoluta à angiotomografia, a hidratação prévia é preferível quando dá tempo e, na urgência, o exame pode ser feito sem preparo; a cintilografia e o ultrassom seriado dos membros inferiores ficam como alternativas. O que muda de verdade no renal é a escolha do anticoagulante, e isso está no bloco de conduta, com os cortes de depuração de cada droga.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação da embolia tem uma ordem fixa, e a primeira bifurcação é a pressão arterial. No paciente estável, a sequência é probabilidade, depois D-dímero ou imagem conforme a probabilidade, depois gravidade. No instável, a diretriz conjunta de 2022 inverte a ordem: o ecocardiograma à beira do leito vem primeiro, porque a tomografia pode matar o paciente no caminho, e o resultado dele decide se há tempo e condição de confirmar ou se a reperfusão começa sem a confirmação.

Os exames que dependem da decisão de anticoagular — hemograma, creatinina, coagulograma — são colhidos junto com o primeiro pedido e não esperam a imagem. O que espera a imagem é a dose de tratamento, a menos que o TEP seja provável e não haja contraindicação, situação em que a anticoagulação começa antes, como está no capítulo de dor torácica no pronto-socorro.

Primeiro a probabilidade: Wells ou Genebra, em dois níveis ou em três — nunca misturados

O escore de Wells soma sete itens, e as duas diretrizes brasileiras que o reproduzem usam os mesmos pesos: sinais clínicos de trombose venosa profunda, 3 pontos; nenhum diagnóstico alternativo mais provável que embolia, 3; trombose venosa profunda ou embolia prévias, 1,5; frequência cardíaca acima de 100, 1,5; imobilização por mais de dois dias ou cirurgia nas últimas quatro semanas, 1,5; hemoptise, 1; câncer em atividade, tratado nos últimos seis meses ou em cuidado paliativo, 1. O Genebra revisado troca o julgamento do diagnóstico alternativo por dados objetivos, como idade acima de 65 anos e faixas de frequência, e tem uma versão simplificada em que todo item conta 1 ponto e só a frequência de 95 ou mais conta 2. A diretriz conjunta registra área sob a curva de 0,778 para o Wells e de 0,693 para o Genebra.

Cada escore pode ser lido de dois modos, e a diretriz de dor torácica de 2025 põe os dois na mesma tabela. Em três níveis, o Wells abaixo de 2 é probabilidade baixa, de 1% a 3%; de 2 a 6 é intermediária, de 16% a 28%; acima de 6 é alta, acima de 40%. Em dois níveis, até 4 é TEP improvável, cerca de 3%, e acima de 4 é provável, cerca de 28%. No Genebra simplificado em dois níveis, até 2 é improvável e 3 ou mais é provável. A mesma diretriz diz que as duas formas podem ser usadas, cada uma seguindo seu protocolo específico.

O problema aparece quando as duas leituras se misturam no mesmo paciente. Um Wells de 5 ou de 6 é intermediária em três níveis e provável em dois: pela primeira leitura ele dosa D-dímero; pela segunda, vai direto à imagem. Esta apostila adota a leitura em dois níveis para os dois escores, pelos motivos que estão no bloco de critérios e nas divergências: é a única que a diretriz conjunta traz para o Wells, é a que os capítulos de porta deste nível usam e é a que dá a cada pontuação um destino só. Pela mesma tabela da diretriz de dor torácica, um Wells de 4,5 — sinais de trombose venosa profunda e taquicardia, por exemplo — é provável.

Os escores não foram validados em gestantes nem em portadores de trombofilia, e a gestante vai para o algoritmo do capítulo de Obstetrícia. Na outra ponta, no paciente com probabilidade baixa — Wells abaixo de 2 — a diretriz de dor torácica permite aplicar a regra PERC, de oito itens: se todos estiverem ausentes, a embolia pode ser afastada sem exame complementar. Os itens e o uso na porta estão no capítulo Dor torácica no pronto-socorro: excluir as que matam.

O D-dímero: quem ele descarta e quem ele engana

O D-dímero serve para descartar, e só descarta quando a probabilidade não é alta. Na leitura adotada por esta apostila, o paciente com TEP improvável dosa D-dímero: abaixo do corte, a embolia está afastada e se procura outro diagnóstico; acima, vai para a imagem. O paciente com TEP provável vai direto para a imagem, sem D-dímero. O corte é de 500 ng/mL, ou ajustado pela idade a partir dos 50 anos, multiplicando a idade por 10, como está na diretriz de dor torácica de 2025. A diretriz conjunta de 2022 registra que o risco de embolia em três meses, em pacientes de baixa probabilidade não tratados depois de D-dímero negativo, é menor que 1%.

A diretriz conjunta é mais restritiva: pelo texto e pelo fluxograma dela, só a probabilidade baixa dosa D-dímero, e a probabilidade diferente de baixa vai direto à imagem. A diferença pega exatamente os pacientes do meio, e a decisão desta apostila, com os dois lados, está nas divergências.

O D-dímero engana em três direções. Em quem já tem probabilidade alta, um valor baixo produz falso alívio e um valor alto não acrescenta nada, porque a imagem será feita de qualquer forma. Em quem tem motivo para tê-lo alto — idoso, paciente com câncer, com inflamação de qualquer causa, o que inclui boa parte dos internados, com infarto ou acidente vascular recente, gestante —, o valor acima do corte é esperado e não informa; nesses, ou a probabilidade é improvável e o valor veio baixo, ou a decisão é imagem. E o valor muito alto: a diretriz conjunta registra que níveis muito altos se associam a probabilidade quatro vezes maior de embolia, o que ajuda a dar peso à suspeita, mas não substitui a imagem para diagnosticar.

Um cuidado de laboratório que muda a leitura: confira a unidade e o corte que o seu laboratório imprime no laudo antes de aplicar a regra da idade. A regra de multiplicar por 10 foi escrita para o corte de 500 ng/mL; se o laudo vem em outra unidade, a conta precisa ser convertida antes, e não depois, de decidir.

Angiotomografia: o que é diagnóstico, o que é prognóstico e o que fazer com o resultado

Para a diretriz conjunta, o exame de imagem preferencial é a angiotomografia de artérias pulmonares. Os critérios diagnósticos são três: falha de enchimento oclusiva, que aumenta o calibre do vaso; falha de enchimento não oclusiva central, margeada pelo contraste; e falha não oclusiva aderida à parede, formando ângulo agudo com ela. A mesma diretriz lista o que simula embolia: artefatos de fluxo ou de movimento, leitura errada da anatomia, vasoconstrição reflexa, embolia crônica, êmbolos não trombóticos, alterações congênitas das artérias pulmonares, vasculites e mediastinite fibrosante, e neoplasias.

O laudo carrega também o prognóstico. O sinal mais importante de disfunção do ventrículo direito na tomografia é a relação entre os diâmetros do ventrículo direito e do esquerdo acima de 1,0 no plano axial. Peça que ele esteja escrito: é esse número que, junto com a troponina, separa o intermediário baixo do intermediário alto, e nem todo laudo o traz sem que alguém pergunte.

A diretriz conjunta fecha duas situações com recomendação forte: rejeita-se a embolia no paciente de probabilidade baixa ou intermediária com angiotomografia negativa, e aceita-se no paciente de probabilidade intermediária ou alta com trombo em ramo segmentar ou mais proximal. Duas situações ficam fora dessas frases e pedem conversa com a radiologia antes de concluir: a probabilidade alta com tomografia negativa, em que vale considerar um segundo método, e o achado isolado em ramo subsegmentar num paciente de baixa probabilidade. Essa leitura das lacunas é desta apostila, não do documento.

A única contraindicação absoluta à angiotomografia, para a diretriz conjunta, é a alergia grave ao contraste iodado; reações leves e moderadas podem ser contornadas com pré-medicação. A insuficiência renal em tratamento conservador não é contraindicação absoluta. Na mulher jovem, para poupar a mama da radiação, sobretudo com radiografia normal, a cintilografia ou o ultrassom seriado dos membros inferiores são alternativas. No paciente de terapia intensiva sem condição de transporte, ficam o ecocardiograma e o ultrassom dos membros à beira do leito. E a angiotomografia venosa dos membros inferiores, somada ao exame do tórax, não é recomendada, pela radiação: quem procura trombose na perna usa ultrassom.

Quando a tomografia não pode ser feita: cintilografia, ultrassom dos membros e ecocardiograma

A cintilografia de ventilação e perfusão substitui a angiotomografia na alergia grave ao iodo, na gestante e na insuficiência renal grave, segundo a diretriz conjunta, que registra que a técnica praticamente não tem contraindicações e produz carga de radiação substancialmente menor. O que ela exige é disponibilidade — é exame de medicina nuclear —, e no hospital geral isso costuma decidir mais que a indicação.

O ultrassom dos membros inferiores entra como alternativa quando nem tomografia nem cintilografia são possíveis, e de forma seriada, segundo a mesma diretriz. Encontrar trombose venosa proximal num paciente com suspeita de embolia já basta para a anticoagulação plena, porque a trombose proximal por si só é tratada assim. O ultrassom negativo, por outro lado, não afasta embolia: o trombo pode ter se soltado inteiro ou ter nascido em outro território.

O ecocardiograma não é obrigatório na investigação do paciente estável, mas ajuda no diagnóstico diferencial; no instável, é obrigatório à beira do leito. Nele, a diretriz conjunta não deixa margem: no instável com suspeita, o ecocardiograma normal descarta de vez a embolia maciça; e, sem outra causa óbvia, o ventrículo direito sobrecarregado e disfuncionante basta para firmar o diagnóstico e reperfundir em caráter de emergência, ainda que não haja tomografia nem cintilografia. O único achado patognomônico é o trombo móvel em cavidades direitas ou nas artérias pulmonares, visto em só 4% das embolias em geral.

Os sinais indiretos têm valor preditivo alto quando presentes e baixa frequência: o sinal 60/60 — tempo de aceleração do fluxo pulmonar abaixo de 60 ms com gradiente tricúspide abaixo de 60 mmHg — aparece em 12% dos pacientes não selecionados, e o sinal de McConnell, hipocinesia dos segmentos basal e médio da parede livre com ápice normal, em 20%. Um detalhe muda o diagnóstico: parede livre espessada, velocidade do jato tricúspide acima de 3,8 m/s ou gradiente acima de 60 mmHg sugerem que a hipertensão pulmonar é antiga, e a hipertensão pulmonar tromboembólica crônica entra no diferencial.

Gravidade: instabilidade, PESI, ventrículo direito e troponina

Confirmada a embolia, a classificação de gravidade vem antes da escolha da droga, e a diretriz da SBPT a faz em quatro perguntas, na ordem. A primeira é se há instabilidade — choque obstrutivo, hipotensão persistente ou parada —; havendo, o paciente é de alto risco, e nada mais precisa ser calculado para decidir a reperfusão. As outras três só se fazem no estável: o índice clínico de gravidade, a imagem do ventrículo direito e o biomarcador.

O índice clínico que a diretriz usa é o PESI, na forma original ou simplificada. O original soma a idade em anos e acrescenta pontos: sexo masculino, 10; câncer, 30; insuficiência cardíaca, 10; doença pulmonar crônica, 10; pulso de 110 ou mais, 20; pressão sistólica abaixo de 100 mmHg, 30; frequência respiratória de 30 ou mais, 20; temperatura abaixo de 36 °C, 20; alteração do estado mental, 60; saturação arterial abaixo de 90%, 20. Até 65 pontos é classe I; de 66 a 85, II; de 86 a 105, III; de 106 a 125, IV; acima de 125, V. Jacinta soma 58 da idade e 20 da frequência: 78, classe II.

A imagem do ventrículo direito vem da própria angiotomografia, com a relação acima de 1,0, ou do ecocardiograma. O biomarcador é a troponina, T ou I, ou o peptídeo natriurético do tipo B ou sua fração N-terminal. Com as quatro respostas, a diretriz da SBPT separa quatro classes: baixo risco, com PESI I ou II e, se medidos, biomarcador e imagem normais; intermediário baixo, com PESI III a V e sobrecarga do ventrículo direito por um dos dois critérios; intermediário alto, com os dois alterados; e alto risco, o instável.

A nota que classifica e o texto que recomenda não dizem a mesma coisa sobre o intermediário alto. O texto da recomendação sobre trombólise define esse grupo só pela imagem do ventrículo direito somada ao biomarcador, sem citar o PESI; a nota da tabela exige PESI III a V. Jacinta, com PESI II, ventrículo direito dilatado e troponina alta, é intermediário alto pelo texto e não cabe em classe nenhuma pela nota. Esta apostila adota a definição do texto, porque é sobre ela que a recomendação foi escrita e porque a outra deixa a paciente sem classe; o raciocínio completo está nas divergências e a conta, nos critérios.

Os exames que acompanham a decisão de anticoagular

Antes da primeira dose de tratamento, cinco dados precisam estar no prontuário, porque cada um muda a droga ou a dose. O peso aferido na balança. O hemograma com plaquetas, que a diretriz de trombose venosa profunda pede no acompanhamento das heparinas de baixo peso molecular. A creatinina com a depuração estimada, que decide entre as heparinas e entre os orais diretos; a equação e o peso a usar estão no capítulo Ajuste de dose na disfunção renal e hepática. O tempo de tromboplastina parcial ativada basal, para quem vai receber heparina não fracionada, e o INR basal, para quem vai receber varfarina.

Dois dados dependem do paciente à frente. Na mulher em idade fértil, o teste de gravidez, porque os orais diretos são contraindicados na gestação e na lactação. No paciente com doença hepática conhecida ou suspeita, a avaliação da função do fígado, porque a diretriz de trombose venosa profunda registra os orais diretos como contraindicados na doença hepática avançada.

A síndrome do anticorpo antifosfolípide muda a droga e precisa ser lembrada na história. A diretriz da SBPT lista quando suspeitar — trombose em sítio incomum, tromboses de repetição, perda gestacional tardia, pré-eclâmpsia ou eclâmpsia, síndrome HELLP — e registra que, no paciente com o diagnóstico, a varfarina é a melhor opção, com base num estudo em pacientes triplo positivos para anticoagulante lúpico, anticardiolipina e anti-beta-2-glicoproteína I, interrompido antes do fim por mais eventos trombóticos e mais sangramento no grupo da rivaroxabana.

07

Quatro decisões, a régua de cada uma e o que a farmácia do SUS entrega

O percurso tem três decisões separadas: probabilidade de TEP, gravidade do TEP confirmado e estratégia de anticoagulação. Você deve justificar cada uma e conferir dose, apresentação, função renal e continuidade do tratamento com a equipe. Quatro decisões carregam o capítulo, cada uma com a sua régua. Para decidir quem vai à imagem: a Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência de 2025 e a Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso de 2022, que discordam sobre a probabilidade intermediária. Qual é a gravidade: a diretriz da SBPT de 2025, com o PESI do artigo original. Qual anticoagulante e por quanto tempo: a diretriz da SBPT para a escolha e a duração, as Diretrizes sobre Trombose Venosa Profunda da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular de 2024 e as bulas para as doses. Quem recebe trombolítico: a diretriz da SBPT para a indicação e a bula do alteplase para a dose e as contraindicações. Nenhum anticoagulante oral direto e nenhum trombolítico constam da Rename 2024, e essa ausência entra em todas as decisões a partir da terceira.

  1. 1Pressão arterial primeiro: choque obstrutivo, hipotensão persistente ou parada levam ao ecocardiograma à beira do leito e ao ramo de alto risco, sem esperar tomografia.
  2. 2No estável, somar Wells ou Genebra antes de qualquer exame e escrever o total no prontuário; ler sempre em dois níveis.
  3. 3TEP provável — Wells acima de 4, Genebra simplificado 3 ou mais: imagem direto, sem D-dímero; sem contraindicação, anticoagular enquanto a imagem não sai.
  4. 4TEP improvável: D-dímero com corte de 500 ng/mL, ou idade × 10 a partir dos 50 anos; abaixo do corte, procurar outro diagnóstico; acima, imagem.
  5. 5Imagem de escolha: angiotomografia de artérias pulmonares, com a relação entre ventrículos direito e esquerdo pedida no laudo.
  6. 6Sem angiotomografia possível: cintilografia de ventilação e perfusão; se também não, ultrassom dos membros inferiores e ecocardiograma — trombose proximal já indica anticoagulação plena.
  7. 7Embolia confirmada no estável: PESI, imagem do ventrículo direito e troponina ou peptídeo natriurético, e só então a classe.
  8. 8Ventrículo direito alterado e biomarcador alto, qualquer que seja o PESI: intermediário alto — leito monitorizado, heparina não fracionada, sem trombólise de rotina.
  9. 9Um só dos dois sinais: intermediário baixo — internação e anticoagulação, sem alta no mesmo dia.
  10. 10PESI I ou II com os dois sinais normais: baixo risco — tratamento domiciliar se o paciente tiver suporte, retorno garantido e o anticoagulante na mão.
  11. 11Instabilidade em qualquer momento: conferir contraindicações da bula e trombolisar com alteplase; sem trombolítico ou com contraindicação, transferir para centro que faça embolectomia.
  12. 12Escolher o oral pela realidade do paciente: oral direto se ele consegue manter; senão, varfarina com heparina desde o primeiro dia, por pelo menos 5 dias e até INR entre 2 e 3 em dois dias seguidos. Na transição para varfarina, os cinco dias são de sobreposição dos dois medicamentos; os dias de heparina antes da primeira dose de varfarina não preenchem esse mínimo.
  13. 13Antes de anticoagulante oral direto, conferir gestação/lactação, síndrome antifosfolípide, interações, absorção, função renal e risco hemorrágico. Depuração abaixo de 30 mL/min exige decisão individual com bula e equipe; a presença de tumor digestivo friável acrescenta cautela e pode favorecer anticoagulação parenteral.
  14. 14Aos três meses: fator transitório maior — parar; embolia não provocada — anticoagulação estendida por tempo indeterminado; câncer — pelo menos seis meses.

Probabilidade pré-teste: os dois escores, as duas leituras e o destino que esta apostila adota

LeituraWellsGenebra revisadoGenebra simplificadoDestino
Itens e pontosSinais clínicos de TVP 3; nenhum diagnóstico alternativo mais provável 3; TVP ou TEP prévios 1,5; FC acima de 100 1,5; imobilização por mais de 2 dias ou cirurgia nas últimas 4 semanas 1,5; hemoptise 1; câncer ativo, tratado há até 6 meses ou em cuidado paliativo 1Idade acima de 65 anos 1; TVP ou TEP prévios 3; cirurgia ou fratura no último mês 2; câncer ativo 2; dor unilateral no membro inferior 3; hemoptise 2; dor à palpação venosa profunda com edema unilateral 4; FC 75 a 94 3; FC 95 ou mais 5Os mesmos itens do revisado, 1 ponto cada; FC 95 ou mais vale 2Somar antes de pedir exame e registrar o total
Três níveis: baixaAbaixo de 2 (1% a 3%)0 a 3 (8%)0 a 1Leitura não adotada; se o serviço a usa, seguir o protocolo de três níveis inteiro
Três níveis: intermediária2 a 6 (16% a 28%)4 a 10 (28%)2 a 4Leitura não adotada: Wells 5 ou 6 é intermediária aqui e provável em dois níveis
Três níveis: altaAcima de 6 (acima de 40%)11 ou mais (acima de 60%)5 ou maisImagem direto, sem D-dímero
Dois níveis: TEP improvávelAté 4 (cerca de 3%)0 a 50 a 2D-dímero: 500 ng/mL, ou idade × 10 a partir dos 50 anos; abaixo afasta, acima vai à imagem
Dois níveis: TEP provávelAcima de 4, inclusive 4,5 (cerca de 28%)6 ou mais3 ou maisImagem direto, sem D-dímero; anticoagular antes da imagem se não houver contraindicação

Gravidade: a classe, o critério e o que muda no leito, na heparina e na reperfusão

ClasseCritérioOnde ficaAnticoagulação inicialReperfusão
Alto riscoChoque obstrutivo, hipotensão persistente (sistólica abaixo de 90 ou queda de 40 mmHg por mais de 15 minutos, sem outra causa) ou parada cardiorrespiratóriaSala de emergência ou terapia intensivaHeparina não fracionada; depois da trombólise, retomada quando o TTPa estiver abaixo de 2 vezes o limite superior do normalTrombólise sistêmica sugerida pela SBPT (condicional, evidência muito baixa); contraindicação ou falha: embolectomia por cateter em centro que a faça
Intermediário altoEstável, com ventrículo direito alterado na imagem e troponina ou peptídeo natriurético elevado — pelo texto da SBPT, sem exigir PESI; a nota da tabela exige PESI III a VLeito com monitorização contínua enquanto houver risco de pioraHeparina não fracionada em infusão, que se desliga se a trombólise for necessária (leitura desta apostila)A SBPT sugere não trombolisar (condicional, evidência moderada); trombolisar se evoluir para instabilidade
Intermediário baixoEstável, PESI III a V com um dos dois sinais; por leitura desta apostila, também o PESI I ou II com um só sinalEnfermariaHeparina de baixo peso molecular, ou oral direto sem ponte; heparina não fracionada se a depuração estiver abaixo de 30Não
Baixo riscoPESI I ou II (ou PESI simplificado zero) e, se medidos, imagem e biomarcador normaisCasa, se houver suporte, retorno rápido e acesso ao anticoagulante; senão, internação curtaOral direto sem ponte, ou heparina com varfarinaNão

Os anticoagulantes e o trombolítico do capítulo: dose, regra de início, quando evitar e a Rename 2024

FármacoDose no tratamentoRegra de início e de trocaQuando evitarRename 2024
Heparina não fracionada, endovenosaBolo de 80 UI/kg ou 5.000 UI; infusão de 18 UI/kg/h ou 1.300 UI/h, ajustada para TTPa de 1,5 a 2,5 vezes o basalVarfarina desde o 1º dia; heparina por pelo menos 5 dias e até INR entre 2 e 3 em dois dias seguidos Na transição para varfarina, os cinco dias são de sobreposição dos dois medicamentos; os dias de heparina antes da primeira dose de varfarina não preenchem esse mínimo.Sangramento ativoPara infusão, apresentação própria para IV, por exemplo 5.000 UI/mL; confirmar estoque e bula. A ampola de 5.000 UI/0,25 mL citada no elenco destina-se à administração SC.
Enoxaparina1 mg/kg por via subcutânea a cada 12 horasVarfarina desde o 1º dia, com a enoxaparina por pelo menos 5 dias e até INR entre 2 e 3 em dois dias seguidos; ou 5 dias antes de dabigatrana ou edoxabanaDepuração abaixo de 30: a diretriz de TVP sugere heparina não fracionada40 mg/0,4 mL e 60 mg/0,6 mL, componente Especializado, vinculadas ao PCDT de gestantes com trombofilia
Varfarina5 mg por via oral uma vez ao dia no início (10 mg chega antes ao INR, sem diferença de recorrência ou sangramento); alvo de INR entre 2 e 3Nunca sozinha no começo: sempre com heparina desde o 1º diaGestante: capítulo de Obstetrícia; na síndrome antifosfolípide ela é a escolha1 mg e 5 mg, comprimido, componente Básico; a fitomenadiona não consta
Rivaroxabana15 mg por via oral a cada 12 horas por 21 dias, depois 20 mg uma vez ao diaComeça sem heparinaSíndrome antifosfolípide; gestação e lactação; depuração de 30 ou menos; câncer com lesão digestiva não controladaNão consta
Apixabana10 mg por via oral a cada 12 horas por 7 dias, depois 5 mg a cada 12 horas; após 6 meses, 2,5 mg a cada 12 horas se a anticoagulação continuarComeça sem heparinaEvitar em gestação/lactação e síndrome antifosfolípide de alto risco; conferir bula e função renal. Na insuficiência renal grave ou lesão digestiva tumoral friável, não escolher automaticamente: discutir alternativa parenteral e manutenção com a equipe.Não consta
Dabigatrana e edoxabanaDabigatrana 150 mg a cada 12 horas; edoxabana 60 mg uma vez ao diaSó depois de pelo menos 5 dias de heparinaSíndrome antifosfolípide; gestação e lactação; dabigatrana com depuração abaixo de 30Não constam
AlteplasePeso de 65 kg ou mais: 100 mg em 2 horas, 10 mg em bolo em 1 a 2 minutos e 90 mg em infusão; abaixo de 65 kg: 10 mg em bolo e infusão em 2 horas até 1,5 mg/kg no totalHeparina iniciada ou retomada quando o TTPa estiver abaixo de 2 vezes o limite superior do normalContraindicações da bula: hemorragia intracraniana, AVC isquêmico ou AIT em 6 meses, cirurgia de grande porte ou trauma grave em 10 dias, sangramento ativo e as demais do bloco de condutaNão consta; nenhum trombolítico consta

Conversão para os pacientes do capítulo: Jacinta, 74 kg, e Teotônio, 58 kg

PrescriçãoContaNa apresentação disponívelObservação
Heparina não fracionada, bolo de 80 UI/kg (74 kg)80 × 74 = 5.920 UIApresentação própria para IV: 5.000 UI/mL. Bolus fixo de 5.000 UI = 1 mL; se escolhido o nomograma de 80 UI/kg em 74 kg, 5.920 UI = 1,184 mL. Usar um único nomograma, sem misturar doses.A diretriz aceita 80 UI/kg ou 5.000 UI
Heparina não fracionada, infusão de 18 UI/kg/h (74 kg)18 × 74 = 1.332 UI/h25.000 UI (5 ampolas, 1,25 mL) em soro fisiológico até 250 mL = 100 UI/mL: 13,3 mL/h; a bolsa dura cerca de 18,8 horasA 18 UI/kg/h em 74 kg: 1.332 UI/h, 31.968 UI/dia. Na solução final de 100 UI/mL: 13,32 mL/h. Preparar as bolsas com a apresentação própria para IV e conferir dose e volume.
Enoxaparina 1 mg/kg a cada 12 horas (74 kg)1 × 74 = 74 mg por dose; 148 mg por diaSolução de 100 mg/mL: 0,74 mL por dose; com as seringas da Rename, uma de 60 mg mais 0,14 mL de uma de 40 mg, descartando 0,26 mLAs seringas da Rename são do componente especializado, para gestantes; o hospital usa as que compra
Varfarina 5 mg ao diaDose fixa de início1 comprimido de 5 mg; ajustes finos com o comprimido de 1 mgHeparina só sai depois de pelo menos 5 dias e de INR entre 2 e 3 em dois dias seguidos Na transição para varfarina, os cinco dias são de sobreposição dos dois medicamentos; os dias de heparina antes da primeira dose de varfarina não preenchem esse mínimo.
Rivaroxabana, fase inicial15 mg × 2 × 21 dias = 630 mg42 comprimidos de 15 mg; depois 1 comprimido de 20 mg por diaFora da Rename: confirmar compra ou dispensação estadual antes da alta
Apixabana, fase inicial10 mg × 2 × 7 dias = 140 mg28 comprimidos de 5 mg, dois por tomada; depois 1 comprimido de 5 mg a cada 12 horasCom o erro de 5 dias seriam 20 comprimidos: quatro tomadas de ataque a menos
Alteplase (74 kg)65 kg ou mais: 100 mgDois frascos de 50 mg a 1 mg/mL: 10 mL em bolo em 1 a 2 minutos; 90 mL em 2 horas = 45 mL/hNunca acima de 100 mg na embolia
Alteplase (Teotônio, 58 kg)Abaixo de 65 kg: 1,5 × 58 = 87 mg10 mL em bolo; 77 mL em 2 horas = 38,5 mL/h; frascos de 50, 20 e 20 mg, descartando 3 mLO esquema do AVC isquêmico (0,9 mg/kg) é outro e não se aplica

A Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso de 2022 dá o Wells de embolia só em dois níveis no Quadro 3 — provável acima de 4, improvável até 4 —, mas o fluxograma do Quadro 5 e o texto da seção 7.1.12 ramificam em probabilidade baixa, que dosa D-dímero, contra probabilidade diferente de baixa, que vai direto à imagem. Quem usa o Wells não tem como entrar no fluxograma. Conta: Wells de 3 (frequência acima de 100, 1,5, mais imobilização, 1,5) é improvável no Quadro 3 e intermediária na leitura de três níveis (2 a 6) da diretriz de dor torácica de 2025; pelo texto da diretriz conjunta, intermediária vai à tomografia sem D-dímero; lida como improvável, dosa D-dímero e, abaixo de 500, sai sem imagem. O mesmo paciente recebe contraste ou não conforme a leitura.

A Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência de 2025 manda dosar D-dímero na probabilidade baixa ou “intermediária (TEP improvável numa avaliação em 2 níveis)” e mandar direto à imagem a “alta numa avaliação em 3 níveis (ou provável numa avaliação em 2 níveis)”. A equivalência entre parênteses não fecha com a Tabela 20 do próprio documento. Conta: Wells de 5 (sinais de TVP, 3, mais hemoptise, 1, mais câncer, 1) está entre 2 e 6, portanto intermediária, e acima de 4, portanto provável: cabe no marcador que dosa D-dímero e no que manda à imagem. Wells de 6 também. Esta apostila adota a leitura em dois níveis, que dá um destino só a cada pontuação.

Na mesma diretriz de dor torácica, o texto diz que o TEP é provável quando o paciente pontua “5 ou mais” no Wells e improvável com “menor ou igual a 4”; a Tabela 20 põe o provável em “> 4”. O Wells anda em meios pontos. Conta: sinais clínicos de TVP (3) mais frequência acima de 100 (1,5) somam 4,5 — nem 5 ou mais nem 4 ou menos pelo texto, e provável pela tabela. Lido pelo texto e arredondado para baixo, esse paciente dosaria D-dímero e poderia sair sem imagem; pela tabela, vai direto à tomografia. Esta apostila segue a tabela.

A diretriz da SBPT de 2025 define o risco intermediário alto de dois modos. O texto da pergunta 5 o define pelo ventrículo direito alterado na imagem associado a biomarcador elevado, sem citar índice clínico; a nota do Quadro 4 exige, além dos dois sinais, PESI III a V ou PESI simplificado de 1 ou mais, e reserva o baixo risco a quem tem os dois sinais normais. Conta: mulher de 58 anos com frequência de 112 e nenhum outro item soma 58 + 20 = 78, PESI classe II; com relação entre ventrículos de 1,2 e troponina alta, ela é intermediário alto pelo texto e não pertence a classe nenhuma pela nota. O PESI I ou II com um só sinal também fica sem classe. É o grupo em que se decide monitorização e prontidão para trombólise de resgate.

As Diretrizes sobre Trombose Venosa Profunda da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular de 2024 prescrevem para a apixabana, na fase aguda do tromboembolismo venoso, “a dose de 10 mg, via oral, duas vezes ao dia por 5 dias, depois, 5 mg, duas vezes ao dia”. O resumo das características do medicamento, na seção de posologia, e o esquema do estudo AMPLIFY, descrito no mesmo documento regulatório, dão 10 mg duas vezes ao dia durante os primeiros 7 dias. Conta: 5 × 2 = 10 tomadas de 10 mg contra 7 × 2 = 14; o paciente perde quatro tomadas de ataque e recebe 20 mg a menos nos dias 6 e 7 (10 mg por dia em vez de 20 mg em cada um deles). Esta apostila prescreve os 7 dias.

A bula do alteplase dá o alvo da heparina depois da trombólise de dois modos na mesma frase: TTPa “entre 50-70 segundos (1,5 a 2,5 vezes do valor de referência)”. As duas expressões não coincidem para nenhum valor de referência: a ponta inferior fecha com referência de 33,3 s (50 ÷ 1,5) e a superior com 28 s (70 ÷ 2,5). Conta: com referência de 30 s, a faixa em vezes vai de 45 a 75 s; um TTPa de 72 s está dentro do alvo por uma expressão e acima dele pela outra, e a enfermagem reduz ou mantém a infusão conforme a que leu. Esta apostila usa a expressão em vezes, sobre o valor de referência do laboratório, que é a forma de razão que a diretriz de trombose venosa profunda também usa para a heparina.

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A conduta, hora a hora

A conduta da embolia se mede em minutos no primeiro dia e em meses depois dele, e seus dois defeitos típicos estão nas pontas. Na ponta de dentro, tratar a imagem e esquecer a classe: o laudo diz embolia, a heparina é prescrita no automático e ninguém escreve o que fazer se a pressão cair. Na ponta de fora, prescrever na alta a droga que o paciente não vai conseguir tomar, ou suspendê-la aos três meses sem perguntar se a embolia foi provocada.

O que o SUS entrega para cada passo é parte da conduta, e a Rename 2024 responde por nome. A apresentação de heparina 5.000 UI/0,25 mL citada no componente básico é destinada a SC; a infusão do caso requer a apresentação própria para IV, com acesso confirmado na farmácia; a enoxaparina de 40 mg e de 60 mg consta só no componente especializado, vinculada ao protocolo de prevenção do tromboembolismo em gestantes com trombofilia. Para a fase oral, a varfarina de 1 mg e de 5 mg, do básico — e nenhum anticoagulante oral direto, nem fondaparinux. Para a reperfusão, nenhum trombolítico. Para reverter, a protamina, do básico; a fitomenadiona não consta. O que o hospital usa além disso depende da farmácia do próprio serviço, e a disponibilidade é uma pergunta que se faz antes de precisar.

Há um paciente que nenhum marco abaixo cobre: o que tem embolia e não pode ser anticoagulado. As diretrizes de trombose venosa profunda da SBACV de 2024 listam as situações — sangramento ativo incontrolável, alto risco de sangramento maior, como defeito de coagulação, plaquetopenia grave, hemorragia intracerebral recente ou lesão cerebral com alto risco de sangrar, e cirurgia urgente que obrigue a interromper a anticoagulação. Nelas, o filtro de veia cava inferior é a alternativa, e a própria diretriz recomenda que a anticoagulação convencional comece assim que o risco de sangramento se resolver. O filtro não é reforço para quem pode ser anticoagulado: a diretriz recomenda contra a inserção no paciente com embolia aguda em uso de anticoagulante, e descreve o estudo em que o filtro removível somado à anticoagulação, em embolia grave, não reduziu a recorrência sintomática em três meses — 3,0% com filtro, todas fatais, contra 1,5% sem ele.

Os marcos seguem Jacinta Tibau, de intermediário alto, da porta até a consulta dos três meses, e um deles segue Teotônio Dantas, o paciente clínico que ficou instável na enfermaria. Onde o caminho do paciente de baixo risco ou de intermediário baixo se separa do dela, o marco diz.

  1. 15h30 — antes da imagem: a conta, os exames e a primeira heparina

    O Wells de 9 já decidiu o exame: TEP provável vai direto à angiotomografia, e o D-dímero pendente deixa de importar. Os exames que condicionam a anticoagulação são colhidos agora, antes da primeira dose, porque depois dela o TTPa já não é basal. Com probabilidade provável, sem sangramento ativo e sem contraindicação, a anticoagulação começa antes da imagem — é a decisão de porta que está no capítulo Dor torácica no pronto-socorro: excluir as que matam. Aqui a escolha recai sobre a heparina não fracionada, e não sobre a enoxaparina, por um motivo que o resto do dia confirma: se o ventrículo direito vier comprometido, é ela que se desliga numa bomba.

    Prescrição
    • Peso aferido na balança: 74 kg, escrito no alto da prescrição
    • Wells 9, TEP provável, registrado no prontuário; não aguardar o D-dímero para pedir a imagem
    • Hemograma com plaquetas, creatinina com depuração estimada, TTPa e INR colhidos antes da primeira dose; troponina da chegada anexada
    • Angiotomografia de artérias pulmonares agora, com pedido de relação entre ventrículos direito e esquerdo no laudo
    • Heparina não fracionada 5.000 UI IV em bolus pelo esquema escolhido, após avaliação de sangramento e contraindicações. Na apresentação própria para IV de 5.000 UI/mL, aspirar 1 mL; conferir a via na embalagem. A ampola de 5.000 UI/0,25 mL destinada a SC não é a apresentação usada nesta infusão.
    • Monitorização contínua de ritmo e oximetria; oxigênio e cuidados iniciais da hipoxemia conforme o capítulo Dessaturação aguda na enfermaria
  2. 16h05 — a imagem confirma: classificar antes de escolher a droga

    Angiotomografia com trombos lobares e segmentares bilaterais e relação entre ventrículos de 1,2; troponina acima da referência; pressão de 124 por 76. Ela não é de alto risco, porque não tem instabilidade. O PESI soma 78, classe II, e por isso a tentação é chamá-la de baixo risco — mas o baixo risco exige imagem e biomarcador normais, e os dois estão alterados. Pelo texto da recomendação da SBPT, ventrículo direito comprometido com biomarcador elevado é intermediário alto, e é assim que esta apostila a classifica. A classe responde de uma só vez a três perguntas: hoje ela não tem alta, com a pressão normal não recebe trombolítico, e passa a noite num leito onde alguém a veja piorar.

    Prescrição
    • Registrar a classe e os três dados que a sustentam: PESI 78 (classe II), relação entre ventrículos 1,2, troponina acima da referência — intermediário alto
    • Ecocardiograma não obrigatório no paciente estável; pedir se houver dúvida sobre o ventrículo direito ou necessidade de diagnóstico diferencial
    • Conferir e escrever agora, com a paciente estável, as contraindicações da bula do alteplase, para não fazer essa lista às três da manhã
    • Perguntar à farmácia do hospital se há alteplase disponível e registrar a resposta; se não houver, deixar escrito o fluxo de regulação para o centro de referência
  3. 16h30 — a heparina da fase inicial: infusão, porque pode precisar ser desligada

    No intermediário alto, esta apostila prefere a heparina não fracionada em infusão nos primeiros dias. A razão não está escrita como recomendação em nenhuma das diretrizes brasileiras usadas aqui; é leitura desta apostila a partir de dois fatos que elas trazem. O primeiro: a SBPT sugere não trombolisar esse grupo, mas uma parte dele piora, e quem piora passa a precisar de trombólise. O segundo: a bula do alteplase condiciona o reinício da heparina ao TTPa abaixo de 2 vezes o limite superior do normal e lista como contraindicação o anticoagulante oral efetivo, com INR acima de 1,3. Uma infusão desligada sai de cena em horas; uma varfarina iniciada no primeiro dia pode, nos dias seguintes, levar o INR acima de 1,3 e fechar a porta da trombólise de resgate. Por isso a varfarina e o oral direto esperam a estabilização, que é também o momento em que a SBPT posiciona o oral direto no intermediário alto.

    Prescrição
    • Heparina não fracionada 25.000 UI: usar 5 mL da apresentação para IV de 5.000 UI/mL e diluir até volume final de 250 mL, conforme compatibilidade e padronização da farmácia. Concentração final: 100 UI/mL, em bomba; não usar automaticamente a ampola destinada a SC.
    • Infusão de 18 UI/kg/h: 1.332 UI/h = 13,3 mL/h; bolo já feito às 15h30
    • Monitorar e ajustar pelo nomograma validado do serviço, com TTPa calibrado para o reagente local ou anti-Xa quando indicado. Um múltiplo do TTPa basal pessoal não é alvo universal, sobretudo se ele já estiver alterado.
    • Hemograma com plaquetas no acompanhamento da heparina
    • Varfarina e oral direto ainda não: entram quando o risco de piora tiver passado
    • Leito com monitorização contínua; frequência de aferição de pressão, frequência cardíaca, saturação e perfusão escrita na prescrição
  4. Primeiros dias — vigiar a piora que muda a classe

    A diretriz da SBPT registra que cerca de 9% dos pacientes de risco intermediário alto evoluem mal. As duas recomendações dela sobre trombólise não brigam: a que manda não trombolisar vale para o paciente estável, e a que manda trombolisar vale para o instável. São momentos diferentes do mesmo doente, e o que liga um ao outro é um critério de chamada escrito, que a enfermagem reconhece sem precisar de interpretação. Se o critério aparecer, Jacinta deixa de ser intermediário alto e passa ao ramo do alto risco, com o mesmo roteiro do marco seguinte.

    Prescrição
    • Critério de chamada médica imediata, escrito na prescrição: sistólica abaixo de 90 mmHg ou queda de 40 mmHg em relação à habitual, pele fria e pegajosa, confusão ou sonolência nova, diurese que cai, saturação em queda apesar do oxigênio
    • Critério presente: ecocardiograma à beira do leito, contraindicações da bula conferidas, trombólise conforme o marco de Teotônio
    • Critério ausente e sinais vitais estáveis sem necessidade crescente de oxigênio: iniciar a transição para o anticoagulante oral
  5. 5h40, outro leito — Teotônio: o paciente clínico que ficou instável

    Teotônio, 67 anos, 58 kg, internado por pielonefrite já sem febre e quase sem sair do leito, está com pressão de 84 por 60 que não sobe com volume, extremidades frias e saturação de 86%. É instabilidade pelos critérios da SBPT. A tomografia no fim do corredor fica para depois: a diretriz conjunta torna obrigatório o ecocardiograma à beira do leito, e ele mostra ventrículo direito dilatado, septo retificado e nenhum derrame pericárdico. Sem outra causa óbvia, esse achado permite o diagnóstico de embolia maciça e a reperfusão de emergência sem tomografia. A SBPT sugere trombólise sistêmica no alto risco — recomendação condicional, com evidência muito baixa, e a única recomendação brasileira para esse paciente. Ele não é operado: a embolia maciça do paciente cirúrgico, em que a cirurgia recente costuma fechar a trombólise, fica com o capítulo de choque do Pré e Pós-operatório. Nenhum trombolítico consta da Rename 2024, e se a farmácia não tiver alteplase ou se houver contraindicação, a decisão real é transferir para um centro que ofereça trombolítico ou embolectomia por cateter.

    Prescrição
    • Ecocardiograma à beira do leito: ventrículo direito dilatado, septo retificado, sem derrame pericárdico — registrado com a hora
    • Contraindicações da bula conferidas uma a uma e escritas: sangramento significativo atual ou nos últimos 6 meses, ou diátese hemorrágica; anticoagulante oral efetivo, como varfarina com INR acima de 1,3; qualquer dano prévio do sistema nervoso central, como neoplasia, aneurisma ou cirurgia intracraniana ou espinhal; hemorragia intracraniana, inclusive subaracnóidea; AVC hemorrágico ou de origem desconhecida em qualquer época; AVC isquêmico ou AIT nos 6 meses anteriores; hipertensão arterial grave não controlada; cirurgia de grande porte ou trauma grave nos últimos 10 dias, ou trauma recente de crânio; reanimação prolongada ou traumática, acima de 2 minutos; parto nos últimos 10 dias; punção recente de vaso não compressível, como jugular ou subclávia; hepatopatia grave; endocardite bacteriana ou pericardite; pancreatite aguda; úlcera gastrintestinal nos últimos 3 meses; aneurisma arterial ou malformação arteriovenosa; neoplasia com alto risco de sangramento
    • Suspender a enoxaparina profilática
    • Alteplase, peso abaixo de 65 kg: dose total máxima de 1,5 mg/kg = 87 mg — 10 mg (10 mL a 1 mg/mL) por via endovenosa em bolo em 1 a 2 minutos, seguidos de 77 mg (77 mL) em infusão de 2 horas, a 38,5 mL/h, em acesso exclusivo e sem heparina no mesmo acesso
    • Heparina não fracionada em infusão só depois da trombólise, iniciada quando o TTPa estiver abaixo de 2 vezes o limite superior do normal e ajustada para 1,5 a 2,5 vezes o valor de referência
    • Sem alteplase no hospital ou com contraindicação: regulação imediata para centro com trombolítico ou embolectomia por cateter, com a hora do pedido registrada
    • Vigilância de sangramento e do nível de consciência durante e depois da infusão; equipamento de reanimação à beira do leito
  6. Dia 3 ou 4 — Jacinta estável: a passagem para o oral, pela realidade dela

    Sem critério de chamada desde a admissão, pressão estável e oxigênio em redução, Jacinta sai do risco de piora e o anticoagulante oral entra. A diretriz da SBPT recomenda, com força, o oral direto por pelo menos três a seis meses depois da estabilização. Nenhum oral direto consta da Rename 2024, e a dispensação estadual varia. A pergunta que decide a droga é feita a ela, e não à diretriz: o estado dispensa, ou você consegue comprar e manter por três meses? Jacinta responde que não consegue comprar, e a secretaria do estado dela não dispensa para essa indicação. O caminho é a varfarina, com a heparina junto desde o primeiro dia de varfarina, por pelo menos cinco dias de uso concomitante e até dois INR seguidos entre 2 e 3. A enoxaparina da Rename está vinculada ao protocolo de gestantes com trombofilia e não chega à farmácia básica para esse uso: se a ponte precisar continuar fora do hospital, ela depende de compra. Por isso, sem compra, a alta espera o INR.

    Prescrição
    • Registrar a resposta sobre acesso: oral direto não dispensado pelo estado e sem condição de compra
    • Varfarina 5 mg por via oral uma vez ao dia, às 18 horas, a partir de hoje
    • Manter a heparina — infusão de heparina não fracionada ou, sem necessidade de monitorização contínua, enoxaparina 74 mg (0,74 mL) por via subcutânea a cada 12 horas — até completar pelo menos 5 dias de uso concomitante de heparina e varfarina e dois INR seguidos entre 2 e 3
    • INR seriado até dois valores seguidos na faixa
    • Se houvesse acesso ao oral direto: rivaroxabana 15 mg a cada 12 horas por 21 dias e depois 20 mg ao dia, ou apixabana 10 mg a cada 12 horas por 7 dias e depois 5 mg a cada 12 horas, com a transição da heparina feita pela bula do produto
    • Antes de anticoagulante oral direto, conferir gestação/lactação, síndrome antifosfolípide, interações, função renal, absorção e risco hemorrágico. Na depuração inferior a 30 mL/min, a escolha exige avaliação individual e bula específica; não existe uma regra geral de que apenas a apixabana seria sempre apropriada.
  7. Alta — quando o INR fecha, ou quando o baixo risco cumpre as premissas

    Jacinta tem alta no dia do segundo INR seguido na faixa, com a heparina suspensa nesse dia. O paciente de baixo risco segue outro relógio: a SBPT sugere tratamento domiciliar desde o início, desde que ele tenha suporte social, entenda a doença e as complicações, tenha acesso rápido ao serviço se piorar e tenha o anticoagulante na mão — e registra a internação curta como alternativa quando as premissas não se cumprem. No SUS, a última premissa é a que mais depende de fora do hospital: sem oral direto dispensado e sem enoxaparina para levar para casa, o baixo risco também espera o INR. A alta de todos, porém, tem os mesmos quatro componentes: a droga com a dose, o controle marcado, os sinais que trazem de volta e a data da decisão dos três meses.

    Prescrição
    • Suspender a heparina somente após pelo menos 5 dias concomitantes com varfarina e INR terapêutico sustentado, operacionalizado aqui por dois controles em dias consecutivos entre 2 e 3.
    • Varfarina na dose que levou o INR à faixa, com controle de INR marcado na unidade básica e o resultado levado ao retorno
    • Orientação escrita: avisar antes de começar qualquer remédio novo, inclusive anti-inflamatório e chá; não mudar a alimentação de repente; nenhuma injeção intramuscular sem avisar que usa anticoagulante
    • Voltar no mesmo dia se houver falta de ar maior, dor no peito, desmaio, escarro com sangue, fezes pretas, urina escura ou vermelha, sangramento que não para, dor de cabeça forte e súbita, ou perna que incha mais
    • Consulta marcada em 3 meses para decidir a duração
    • Relatório de alta com classe de risco, fator desencadeante, droga, dose, data de início e data prevista da reavaliação
  8. Três meses — parar ou continuar

    A duração é decidida pela causa, e a causa precisa ter sido escrita no primeiro dia para ser lida no nonagésimo. Pela SBPT, quem teve embolia com fator de risco transitório maior — cirurgia com anestesia geral de mais de 30 minutos, trauma ou fratura, internação de mais de três dias com restrição de mobilidade — pode suspender a anticoagulação depois de três meses; a diretriz de trombose venosa profunda acrescenta que, no tromboembolismo provocado por fator transitório, a prevenção secundária não precisa ser considerada. Quem teve embolia sem fator desencadeante e completou pelo menos três meses recebe anticoagulação estendida, por tempo indeterminado — recomendação forte da SBPT, com evidência de alta qualidade —, com reavaliação periódica do risco de sangramento. No câncer, pelo menos seis meses, quando a doença está resolvida ou controlada. Jacinta teve trauma com imobilização: suspende aos três meses.

    Prescrição
    • Jacinta, embolia provocada por trauma com imobilização: suspender a varfarina ao completar 3 meses
    • Embolia não provocada: manter a anticoagulação por tempo indeterminado, reavaliando o risco de sangramento a cada consulta; no oral direto, a dose reduzida é opção na fase estendida — rivaroxabana 10 mg ao dia, ou apixabana 2,5 mg a cada 12 horas depois de 6 meses de tratamento
    • Câncer: pelo menos 6 meses quando resolvido ou controlado; com o câncer em atividade, a SBPT não fixa o fim, e a decisão é revista a cada consulta
    • Falta de ar ou limitação que não voltou ao que era antes: ecocardiograma; velocidade do jato tricúspide acima de 3,8 m/s, gradiente acima de 60 mmHg ou parede livre espessada levam à investigação de hipertensão pulmonar tromboembólica crônica em centro de referência
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Como saber se está funcionando

Reavaliar na embolia é responder, em cada fase, a uma pergunta diferente. Nas primeiras horas e dias do intermediário alto, a pergunta é se o paciente está mudando de classe. Na sobreposição da heparina com a varfarina, é se o INR já permite tirar a heparina. Aos três meses, é se a causa permite parar e se a respiração voltou ao que era.

Cada um dos sete parâmetros a seguir, quando sai do esperado, muda o passo seguinte. O ajuste das doses pela função renal ao longo da internação fica com o capítulo Ajuste de dose na disfunção renal e hepática, e a leitura de cada teste do coagulograma, com Coagulograma: o que cada teste mede e quando pedir.

Pressão arterial e perfusãoNa frequência escrita na prescrição durante a infusão de heparina, e a qualquer chamada da enfermagem

Esperado: Sistólica estável acima de 90 mmHg e sem queda de 40 mmHg em relação à habitual; extremidades quentes, consciência preservada, diurese mantida

Se não melhora: É instabilidade: ecocardiograma à beira do leito, contraindicações da bula do alteplase conferidas e trombólise; sem alteplase ou com contraindicação, regulação imediata para centro com trombolítico ou embolectomia por cateter

Saturação, frequência respiratória e oxigênioEm cada aferição, e na decisão de passar para o anticoagulante oral

Esperado: Necessidade de oxigênio em queda ao longo dos primeiros dias, com frequência respiratória em redução

Se não melhora: Saturação que cai com oxigênio subindo é piora até prova em contrário: reavaliar a classe, olhar o ventrículo direito de novo e procurar a complicação — sangramento, pneumonia, derrame pleural, nova embolia

TTPa na heparina não fracionadaNos horários do nomograma do serviço e depois de cada mudança de velocidade

Esperado: Entre 1,5 e 2,5 vezes o valor basal

Se não melhora: Abaixo da faixa: subir pelo nomograma, sem bolo extra por conta própria. Acima: reduzir ou pausar pelo nomograma e examinar sangramento. Fora da faixa apesar dos ajustes: conferir diluição, bomba e acesso antes de mudar a dose de novo

PlaquetasAntes da primeira dose e durante todo o uso de heparina

Esperado: Contagem estável em relação à de antes da heparina

Se não melhora: Queda da contagem durante a heparina é motivo para rever a droga no mesmo dia, com o hematologista, antes da dose seguinte

INR na varfarinaSeriado durante a sobreposição com a heparina; depois, nos controles marcados na unidade básica

Esperado: Entre 2 e 3; dois valores seguidos na faixa, depois de pelo menos 5 dias de heparina, para suspendê-la

Se não melhora: Abaixo de 2 no quinto dia: manter a heparina, porque a regra tem duas condições e o calendário é só uma delas. Acima de 3: rever dose, remédios novos e mudança de alimentação, e examinar sangramento

SangramentoEm todo dia de internação e em toda consulta de retorno

Esperado: Nenhum sangramento; hemoglobina estável

Se não melhora: Sangramento grave: suspender o anticoagulante, estabilizar e decidir a reversão com o protocolo do serviço — a protamina, que reverte a heparina não fracionada, consta da Rename 2024; a fitomenadiona, não

Falta de ar e tolerância ao esforçoNa consulta dos três meses

Esperado: De volta ao que eram antes da embolia

Se não melhora: Ecocardiograma. Velocidade do jato tricúspide acima de 3,8 m/s, gradiente acima de 60 mmHg ou parede livre espessada levam à investigação de hipertensão pulmonar tromboembólica crônica em centro de referência

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Onde o erro machuca

Pedir D-dímero em quem já tem TEP provável e esperar o resultado para pedir a imagem

O dano: Nessa probabilidade, o valor baixo dá falso alívio e pode mandar para casa quem tem embolia, e o valor alto não acrescenta nada. Enquanto se espera, a imagem e a anticoagulação atrasam numa doença em que cerca de um terço dos doentes morre em poucas horas.

Como pegar a tempo: Some o Wells antes de qualquer pedido e leia em dois níveis: provável vai direto à angiotomografia, e a heparina começa antes da imagem se não houver contraindicação. D-dímero alto, sozinho, nunca é diagnóstico.

Chamar de baixo risco pelo PESI sem olhar o ventrículo direito e a troponina

O dano: Jacinta tinha PESI classe II com ventrículo direito dilatado e troponina alta — intermediário alto pelo texto da SBPT. Liberada para casa, ela fica fora de qualquer monitorização no grupo em que cerca de 9% evoluem mal.

Como pegar a tempo: Classifique com as quatro perguntas na ordem: instabilidade, PESI, imagem do ventrículo direito, biomarcador. Baixo risco exige imagem e biomarcador normais quando medidos; um sinal alterado tira o paciente do baixo risco, qualquer que seja o PESI.

Trombolisar o paciente estável porque o ventrículo direito está dilatado

O dano: A SBPT sugere não trombolisar o intermediário alto: o risco de hemorragia grave, em especial de acidente vascular hemorrágico, se contrapõe ao benefício, e a própria diretriz lembra a maior chance de sangramento grave em mulheres acima de 75 anos.

Como pegar a tempo: Trombólise é para instabilidade. No estável com ventrículo direito comprometido: heparina não fracionada em infusão, leito monitorizado, critério de chamada escrito e contraindicações da bula conferidas com antecedência, para trombolisar se ele mudar de classe.

Suspender a heparina no quinto dia pelo calendário, com INR fora da faixa, ou começar só com varfarina

O dano: A varfarina demora dias para anticoagular: o paciente fica desprotegido justamente no começo, e iniciar só com ela se associa a recorrência e a necrose de pele, segundo a diretriz de trombose venosa profunda, que recomenda não fazê-lo em hipótese alguma.

Como pegar a tempo: Varfarina sempre junto com heparina desde o primeiro dia, e a heparina só sai quando as duas condições estiverem cumpridas: pelo menos 5 dias de uso concomitante de heparina e varfarina e dois INR seguidos entre 2 e 3.

Copiar a apixabana com 5 dias de ataque, ou prescrever oral direto sem conferir gestação, síndrome antifosfolípide e depuração

O dano: Cinco dias em vez de sete tiram quatro tomadas de 10 mg do esquema estudado. O oral direto é contraindicado na gestação e na lactação; na síndrome antifosfolípide triplo positiva, o estudo com rivaroxabana foi interrompido por mais trombose e mais sangramento; e com depuração abaixo de 15 a apixabana é contraindicada.

Como pegar a tempo: Apixabana 10 mg a cada 12 horas por 7 dias, depois 5 mg a cada 12 horas. Antes de qualquer oral direto, teste de gravidez na mulher em idade fértil, pergunta dirigida pela síndrome antifosfolípide e depuração escrita na prescrição.

Suspender aos três meses a anticoagulação de uma embolia sem fator desencadeante

O dano: A SBPT recomenda, com força e evidência de alta qualidade, anticoagulação estendida por tempo indeterminado nesse paciente. Parar no terceiro mês o devolve a um risco de recorrência que a tabela da diretriz de trombose venosa profunda põe em 3% a 8% ao ano para o tromboembolismo sem fator identificável.

Como pegar a tempo: Escreva o fator desencadeante no primeiro dia e releia-o na consulta dos três meses: fator transitório maior para, embolia não provocada continua com reavaliação do sangramento, câncer vai a pelo menos seis meses.

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O que dizer ao paciente e à família

A conversa com o paciente de embolia tem dois momentos difíceis: explicar por que ele fica internado quando já se sente melhor, e entregar um anticoagulante que vai tomar por meses e que pode sangrar. Nenhum dos dois se resolve com a palavra coágulo dita de passagem, e os dois decidem se a prescrição vai ser cumprida.

As falas são com Jacinta Tibau, no primeiro dia e na alta, e com a filha de Teotônio Dantas, antes da trombólise.

Explicando a Jacinta o diagnóstico, sem assustar e sem diminuir

“Dona Jacinta, a falta de ar e a pontada vieram de coágulos que se formaram na veia da sua perna esquerda, nos dias em que a senhora ficou parada com a bota, e subiram até o pulmão. Isso se chama embolia pulmonar. O exame mostrou coágulos nos dois lados e mostrou também que o lado direito do coração está fazendo força a mais para empurrar o sangue. A senhora está conversando e com a pressão boa, e o tratamento de agora é para continuar assim.”

Não diga: Dizer “embolia maciça” ou “o coração está falhando” a uma paciente estável; e, no outro extremo, “foi só um coagulozinho”, que tira dela o motivo para ficar.

Quando ela pede para ir embora buscar o neto

“Eu entendo, e vamos resolver a escola do seu neto agora, por telefone. Ir embora hoje eu não posso liberar: o exame de sangue do coração veio alterado e o lado direito está dilatado. A maior parte das pessoas com esse resultado melhora com o remédio na veia, mas uma parte piora nos primeiros dias, e quando piora precisa de um tratamento que só se faz aqui dentro, rápido. Por isso a senhora vai para um leito com monitor. Quem pode buscar o menino hoje?”

Não diga: Negociar a alta pelo horário da escola, ou negar a alta sem dar o motivo concreto: o exame alterado e o risco de piora que só se trata dentro do hospital.

Explicando a heparina na bomba e quando chamar

“O remédio que está entrando por essa bomba impede o coágulo de crescer e dá tempo para o seu próprio corpo ir dissolvendo o que já existe. Ele não desentope na hora. Se a falta de ar piorar de repente, se vier tontura, a vista escurecer ou o peito apertar, não espere a próxima visita: aperte a campainha na hora. A equipe sabe o que fazer com esse aviso.”

Não diga: Prometer que o remédio “dissolve o coágulo”, ou pedir que ela fique tranquila sem dizer quais sintomas mandam chamar.

Perguntando pelo acesso antes de escolher o anticoagulante oral

“Para casa existem dois caminhos. Um é um comprimido que não precisa de exame de sangue para acertar a dose, mas que precisa ser comprado, porque o SUS do nosso estado não fornece para esse caso. O outro é a varfarina, que a unidade de saúde fornece, mas que pede exames de controle, e que a senhora começa ainda aqui, junto com a injeção, até o exame mostrar que chegou na dose certa. A senhora conseguiria comprar o primeiro todos os meses, por três meses, sem faltar nenhum dia?”

Não diga: Prescrever o oral direto sem perguntar e descobrir no retorno que ele foi interrompido por falta de dinheiro, ou deixar de oferecê-lo por supor, sem perguntar, que ela não pode pagar.

Na alta, com a varfarina: sangramento e o que muda o efeito dela

“A varfarina funciona bem, mas pode sangrar se passar da conta, e muita coisa muda o efeito dela. Antes de tomar qualquer remédio novo, inclusive para dor, anti-inflamatório ou chá, fale com a unidade. Não mude a alimentação de uma hora para outra. Volte hoje mesmo ao pronto-socorro se tiver fezes pretas, urina vermelha, sangramento que não para, dor de cabeça forte de repente, ou se a falta de ar voltar.”

Não diga: Entregar a receita com “qualquer coisa, volte”, sem separar os sinais de sangramento dos sinais de nova embolia.

Dizendo por quanto tempo, e por quê

“A senhora vai tomar por três meses. O coágulo veio de um motivo que já passou, os dias parada com a bota, e nesse caso a regra é parar no fim desse prazo. Na consulta dos três meses a gente confirma essa decisão e vê se a falta de ar voltou ao que era antes. Se um dia aparecer outro coágulo sem motivo, essa conversa muda.”

Não diga: Dizer “é para sempre”, ou deixar o fim do tratamento para quando alguém achar melhor, sem a data e o motivo escritos no relatório de alta.

Com a filha de Teotônio, antes da trombólise

“O seu pai tem um coágulo grande no pulmão, e a pressão caiu porque o coração não está conseguindo empurrar o sangue. Existe um remédio que pode desfazer esse coágulo rápido. Ele é forte e pode causar sangramento, inclusive dentro da cabeça, que é o risco mais grave. Conferimos a história dele e não encontramos nada que proíba o uso. Nessa situação, as recomendações brasileiras sugerem usar o remédio, porque o perigo de não desfazer o coágulo é muito alto. Vamos começar agora. Quando a infusão acabar, eu venho contar à senhora como ele respondeu.”

Não diga: Pedir que a família escolha sozinha entre “o remédio perigoso” e “não fazer nada”, ou esconder o risco de sangramento para ganhar tempo.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

D-dímero na probabilidade intermediária: dosar ou ir direto à imagem

Só a probabilidade baixa dosa D-dímero — Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso, 2022

O fluxograma do paciente sem repercussão hemodinâmica manda a probabilidade baixa para o D-dímero e a moderada ou alta direto para angiotomografia ou cintilografia. O texto do algoritmo clínico diz que, quando a probabilidade for diferente de baixa, parece mais apropriado pular o D-dímero e encaminhar o paciente à imagem. A recomendação de rejeitar a embolia com tomografia negativa na probabilidade intermediária é coerente com esse caminho.

Albricker ACL et al. Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso – 2022. Arq Bras Cardiol. 2022;118(4):797-857 — Quadro 5, seções 6.9 e 7.1.12

Probabilidade baixa ou intermediária, TEP improvável em dois níveis, dosa D-dímero — Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência, 2025

A diretriz de 2025 manda dosar D-dímero na probabilidade baixa, sobretudo com algum item do PERC presente, e na intermediária, equiparada ao TEP improvável da leitura em dois níveis, usando 500 ng/mL como corte, ou o corte corrigido pela idade a partir dos 50 anos; acima dele, imagem. A imagem direta, sem D-dímero, fica para a probabilidade alta em três níveis ou para o TEP provável em dois.

de Barros e Silva et al. Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250620 — seção de tromboembolismo pulmonar, Tabelas 20 e 23

Como decidir

Os dois documentos foram escritos para o adulto estável com suspeita de embolia que precisa de probabilidade pré-teste, e o escopo não os separa para o paciente em geral; no pronto-socorro com dor torácica, o de 2025 é ainda mais específico. Pela data, vence a diretriz de 2025, e esta apostila adota: TEP improvável dosa D-dímero, com o corte ajustado pela idade; TEP provável vai direto à imagem. A leitura é sempre em dois níveis, porque a própria diretriz de 2025 equipara intermediária a improvável de um modo que não fecha com a tabela dela — Wells de 5 e de 6 cairiam nos dois ramos —, e porque o Wells da diretriz conjunta só existe em dois níveis. Para o paciente à sua frente: some o escore, escreva a leitura e, se ela é improvável, um D-dímero abaixo do corte encerra a investigação de embolia. Se o serviço onde você está usa o fluxograma de 2022, o paciente intermediário vai à imagem: não é erro, é a régua anterior, que gasta mais contraste e mais radiação.

Risco intermediário alto: basta o ventrículo direito com biomarcador, ou é preciso também PESI III a V

Ventrículo direito alterado na imagem com biomarcador elevado, sem índice clínico — SBPT, 2025, texto da pergunta 5

O texto que fundamenta a recomendação sobre trombólise define como risco intermediário alto o paciente sem instabilidade que tem sinais de insuficiência do ventrículo direito no ecocardiograma ou na angiotomografia associados a elevação de troponina T ou I ou de peptídeo natriurético, com mortalidade precoce em torno de 9% e mortalidade em 30 dias duas vezes maior que a do paciente sem disfunção do ventrículo direito.

Amado VM et al. Diretrizes brasileiras para o tratamento farmacológico do tromboembolismo pulmonar. J Bras Pneumol. 2025;51(2):e20240314 — comentários da pergunta 5

PESI III a V ou PESI simplificado de 1 ou mais, somado aos dois sinais — SBPT, 2025, nota do Quadro 4

A nota de classificação de risco, reproduzida da diretriz europeia de 2019, põe no intermediário alto o paciente com PESI III a V ou PESI simplificado de 1 ou mais e sobrecarga do ventrículo direito por biomarcador e por imagem, e reserva o baixo risco ao PESI I ou II com biomarcador e imagem negativos quando avaliados. O PESI I ou II com sinal alterado não recebe classe na nota.

Amado VM et al. Diretrizes brasileiras para o tratamento farmacológico do tromboembolismo pulmonar. J Bras Pneumol. 2025;51(2):e20240314 — nota do Quadro 4

Como decidir

Os dois lados saem do mesmo artigo, publicado na mesma data e com o mesmo peso; quem desempata é a coerência interna: pela nota, a paciente com PESI II, ventrículo direito dilatado e troponina alta não pertence a classe nenhuma — não é baixo risco, porque os sinais estão alterados, nem intermediário, porque o PESI é baixo. Pelo texto, ela é intermediário alto, e a recomendação de não trombolisar e de vigiar foi escrita para esse grupo. Esta apostila adota o texto: ventrículo direito comprometido na imagem com biomarcador elevado é intermediário alto qualquer que seja o PESI. E trata como intermediário baixo o PESI I ou II com um só sinal alterado — essa segunda frase é leitura desta apostila, porque nenhum dos dois lados a escreve. Para o paciente à sua frente: um PESI baixo nunca manda para casa quem tem sinal de sofrimento do ventrículo direito, e dois sinais alterados pedem leito monitorizado e critério de chamada escrito.

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O raciocínio, em voz alta

Quarta-feira, 10h40, pronto-socorro do mesmo hospital. Assunção Pires, 44 anos, 66 kg, auxiliar administrativa, conta dois dias de dor em fisgada à direita do peito, pior na inspiração profunda, e cansaço ao subir escada. Há três semanas ficou internada cinco dias por colecistite tratada sem cirurgia, quase sem sair da cama. Tem tosse seca e coriza há uma semana. Frequência cardíaca 104, respiratória 20, saturação 96% em ar ambiente, pressão 118 por 74, temperatura 36,8 °C. Panturrilhas simétricas, sem dor à palpação venosa. Não usa hormônio, não tem câncer, nunca teve trombose, não está grávida. Radiografia de tórax normal; eletrocardiograma com taquicardia sinusal.

  1. o que a pressão já decide

    Pressão normal, perfusão boa, nenhum sinal de choque: é paciente estável, e o caminho começa pela probabilidade, não pelo ecocardiograma.

  2. a conta antes do pedido

    Wells: frequência acima de 100, 1,5; imobilização de mais de dois dias nas últimas quatro semanas, 1,5. Sem sinais de trombose venosa profunda, sem hemoptise, sem câncer, sem trombose prévia. O diagnóstico alternativo não é menos provável — a tosse e a coriza tornam a pleurite viral tão plausível quanto a embolia —, então não soma os 3. Total de 3: TEP improvável na leitura em dois níveis. Em três níveis ela seria intermediária, e pelo fluxograma da diretriz conjunta iria direto à tomografia; esta apostila lê em dois níveis e dosa D-dímero. A regra PERC não se aplica: a probabilidade não é baixa e a frequência passa de 100.

  3. o D-dímero que decide

    Ela tem 44 anos, então o corte é o padrão, 500 ng/mL; o ajuste pela idade só começa aos 50. O resultado volta 1.180 ng/mL, acima do corte, e a embolia não está afastada: vai para a angiotomografia.

  4. a imagem e a classe

    Angiotomografia com falha de enchimento em ramo segmentar do lobo inferior direito e relação entre ventrículos de 0,8. Troponina normal. PESI: 44 da idade, nenhum item a mais — a frequência de 104 não chega a 110 e a saturação é de 96% —, total 44, classe I. PESI I, imagem e biomarcador normais: baixo risco.

  5. onde ela vai se tratar

    A diretriz da SBPT sugere tratamento domiciliar no baixo risco se as premissas se cumprem. Assunção mora com o marido a dez minutos do hospital, tem telefone, entende a doença e os sinais de piora, e diz que consegue comprar o anticoagulante oral direto pelos três meses. As quatro premissas estão cumpridas, e ela vai para casa hoje.

  6. a droga, conferida antes

    Antes do oral direto: teste de gravidez negativo, nada na história que sugira síndrome antifosfolípide, creatinina de 0,8 mg/dL com depuração bem acima de 30. Rivaroxabana 15 mg a cada 12 horas por 21 dias, 42 comprimidos, seguidos de 20 mg diários; não há heparina inicial.

  7. a duração escrita no primeiro dia

    O fator desencadeante foi a internação de cinco dias com restrição de mobilidade, que a SBPT lista entre os fatores transitórios maiores. A duração prevista é de três meses, e o relatório de alta diz isso com a causa ao lado, para que a consulta de retorno não precise adivinhar.

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Faça você

Sábado, 21h15, enfermaria de clínica médica. Abelardo Lavrinhas, 71 anos, 62 kg, aposentado, tem adenocarcinoma de cólon sigmoide com a lesão primária ainda no lugar e está no segundo ciclo de quimioterapia. Internou ontem por desidratação e hoje refere falta de ar nova. Pressão 128 por 80, frequência cardíaca 104, respiratória 22, saturação 93% em ar ambiente, temperatura 36,6 °C, sem confusão. Angiotomografia: trombos em ramos segmentares dos dois pulmões, relação entre ventrículos de 1,1. Troponina normal. Creatinina 2,1 mg/dL, estável. Hemoglobina 11,2 g/dL, plaquetas 210 mil. Ele não tem sangramento visível, mas a colonoscopia do diagnóstico descreveu lesão friável. O estado dele não dispensa anticoagulante oral direto; a família diz que consegue comprar.

  1. o que já sei

    Sei que é embolia confirmada num paciente estável, com câncer em atividade e lesão digestiva não controlada, com depuração que preciso calcular e com acesso ao oral direto por compra.

  2. complete: a classe

    Complete: calcule o PESI item a item, diga quais dos dois sinais do ventrículo direito estão presentes e escreva a classe de risco com os dados que a sustentam.

  3. complete: o anticoagulante e a dose

    Complete: calcule a depuração de creatinina, diga qual anticoagulante você escolhe considerando o câncer com lesão no cólon e a função renal, qual evitaria e por quê, e escreva a prescrição com dose, via e frequência, incluindo o que muda depois da primeira semana.

  4. complete: a duração e o seguimento

    Complete: por quanto tempo, no mínimo, e o que reavaliar a cada consulta; e o que você faria se a família deixasse de conseguir comprar o remédio.

Ver como fecharíamos

A classe. O PESI soma 111: 71 da idade, 10 do sexo masculino e 30 do câncer, classe IV. Pressão preservada, alteração do ventrículo direito e troponina normal sustentam o percurso de risco intermediário baixo descrito: internação e anticoagulação, sem trombólise de rotina. Reavaliar imediatamente se houver deterioração. A droga. A depuração estimada por Cockcroft–Gault é (140 − 71) × 62 ÷ (72 × 2,1) = 28,3 mL/min. Esse dado, somado à lesão digestiva tumoral não controlada, impede transformar a preferência geral por anticoagulantes diretos em receita automática de apixabana. O caso deve ser discutido com a equipe; heparina não fracionada monitorizada é uma opção inicial que permite ajustes na disfunção renal e interrupção rápida, seguida da estratégia de manutenção compatível com risco, acesso e tratamento oncológico. A cautela com anticoagulantes diretos em alto risco de sangramento digestivo está explicitada nas diretrizes ITAC de 2022. A duração e a continuidade. Planeje pelo menos seis meses no tromboembolismo associado ao câncer, com revisão periódica de atividade tumoral, sangramento, função renal, interações e preferências. Câncer ativo pode justificar extensão, mas a decisão permanece reavaliável. Se a manutenção escolhida for varfarina por acesso, explique a dificuldade de estabilizar INR e mantenha anticoagulante parenteral por no mínimo cinco dias concomitantes, além de INR terapêutico sustentado. O plano deve informar quem verifica o resultado, quando rever a função renal e como obter o medicamento; falta de acesso exige organizar uma alternativa antes de interromper o tratamento.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

O PESI soma 60, classe I, mas o baixo risco exige imagem e biomarcador normais, e os dois estão alterados. Pelo texto da recomendação da SBPT de 2025, ventrículo direito comprometido na imagem com biomarcador elevado é risco intermediário alto: não se tromboliza o paciente estável e vigia-se a piora de perto. Nesta apostila, a heparina da fase inicial é a não fracionada em infusão, que pode ser desligada se a trombólise se tornar necessária.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Use um caso para decidir se D-dímero é útil antes de pedir o exame. Após a confirmação, classifique risco clínico e proponha destino e anticoagulação com as contas e a apresentação conferidas.

Em 30 dias

Compare o mesmo TEP em pessoa sem comorbidades, com câncer digestivo e com disfunção renal. Explique como muda a escolha e organize a reavaliação de duração, risco hemorrágico, acesso e preferências.

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Agora atenda

Um adulto chega ao pronto-socorro com falta de ar há alguns dias e uma pontada ao respirar fundo, e a história guarda uma semana de cama que ninguém perguntou. Some o escore antes de pedir qualquer exame, decida entre D-dímero e imagem, classifique a gravidade quando a embolia se confirmar e escolha o anticoagulante que ele vai conseguir manter em casa — com a dose escrita, o critério de chamada e a data da reavaliação.

Tromboembolismo pulmonar: a probabilidade antes do exame, a gravidade antes da droga — Internato | OsceLabs