Cirurgia Geral › Pré e Pós-operatório
Abrir antes que abra sozinha
Infecção de sítio cirúrgico e deiscência de ferida
Distinguir infecção superficial, infecção profunda e falha da aponeurose, organizar controle de foco e acompanhar a evolução da ferida.
Agência Nacional de Vigilância Sanitária — Nota Técnica GVIMS/GGTES/Dire3/Anvisa nº 03/2026: Critérios Diagnósticos das Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde de Notificação Nacional Obrigatória — ano 2026. Brasília: Anvisa, 2026. Item 4 (Conceitos e critérios diagnósticos das infecções de sítio cirúrgico) e Quadros 35 e 36
Agência Nacional de Vigilância Sanitária — Nota Técnica GVIMS/GGTES/Dire3/Anvisa nº 03/2025: Critérios Diagnósticos das Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde de Notificação Nacional Obrigatória — ano 2025. Brasília: Anvisa, 2025. Quadro de classificação e critérios definidores de infecção de sítio cirúrgico
Agência Nacional de Vigilância Sanitária — Medidas de Prevenção de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde. Série Segurança do Paciente e Qualidade em Serviços de Saúde, caderno 4. Brasília: Anvisa, 2017, 2ª edição. Itens 5.3.1.5 a 5.3.1.11 (avaliação de curativos e de feridas) e Anexo VII (Conceito e Classificação de Ferida)
Agência Nacional de Vigilância Sanitária — Programa Nacional de Prevenção e Controle de Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (PNPCIRAS) 2026-2030. Brasília: Anvisa, janeiro de 2026. Metas 7 e 12 e respectivos indicadores
Ministério da Saúde — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Rename) 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024
TOMASI, J. F.; TOLFO, F. M.; CONSTANTINO, L. M.; CACCIATORI, F. A. Eviscerações são evitáveis? Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, v. 52, e20253814, 2025. DOI 10.1590/0100-6991e-20253814
Bula profissional de KEFAZOL (cefazolina sódica), pó para solução injetável 1 g. ABL Antibióticos do Brasil. Texto de bula com identificador de 26 de fevereiro de 2026
Bula profissional de fosfato de clindamicina, solução injetável 150 mg/mL, ampolas de 4 mL. Hipolabor Farmacêutica
Sociedade Brasileira de Infectologia — recomendações sobre infecção de pele e partes moles
Responda antes de ler
Homem de 66 anos, quinto dia de pós-operatório de sigmoidectomia por adenocarcinoma de sigmoide, laparotomia mediana. Temperatura de 37,9 °C, frequência cardíaca de 88, pressão arterial de 128 por 76, sem confusão, comendo e deambulando. Ao descobrir a incisão, há 5 cm com hiperemia que se estende 1,5 cm para cada lado da linha de sutura, calor local, endurecimento com centro amolecido e flutuação nítida; à compressão sai secreção purulenta moderada. O restante da incisão está coaptado e o abdome está flácido, com ruídos presentes. Qual é a conduta correta?
O paciente que você vai ver
São sete e vinte da manhã de uma quinta-feira e a enfermaria de cirurgia geral está no meio da visita. Você é o interno e leva a prancheta. O leito 7 é do senhor Cacílio Jaguarão, 66 anos, quinto dia de pós-operatório de sigmoidectomia por adenocarcinoma de sigmoide, laparotomia mediana, sem intercorrência na sala. Estava de dieta líquida desde ontem, andou até o corredor duas vezes, e a folha de sinais vitais mostra 37,9 °C às cinco da manhã — a primeira temperatura acima de 37,5 desde a cirurgia.
A técnica de enfermagem, Oriana, já falou com o residente e repete para você: o curativo amanheceu marcado. Não encharcado — marcado. Uma mancha amarelada do tamanho de uma moeda no terço inferior da incisão, que não estava lá na troca de ontem à tarde.
O senhor Cacílio está sentado, tomando chá, e diz que dormiu bem. Quando você pergunta da dor, ele responde a frase que muda a manhã: "melhorou até anteontem, mas ontem à noite voltou a incomodar aqui embaixo". Ele aponta o terço inferior da cicatriz. Não é a dor difusa do abdome operado; é uma dor com endereço.
O residente está no centro cirúrgico com o primeiro caso da sala e volta ao meio-dia. A decisão da manhã é sua, e ela tem três partes que costumam ser tomadas na ordem errada. A primeira é olhar: descobrir a incisão inteira, com luz, e não decidir nada antes disso. A segunda é escolher entre abrir a ferida e não abrir. A terceira — a única que os internos costumam tomar primeiro — é se prescreve antibiótico.
Este capítulo é o dessa manhã. Ele começa no curativo que se descola e termina em duas frases escritas na evolução: uma que descreve a ferida de um jeito que o plantonista de amanhã possa comparar, e outra que diz o que foi decidido e por quê. No meio, mora a diferença entre um paciente que vai para casa no sétimo dia com a ferida aberta e limpa e um paciente que fica mais doze dias no hospital porque recebeu antibiótico em vez de um bisturi de ponta romba.
Quem adoece disso
Nenhuma complicação cirúrgica é tão frequente quanto a infecção da ferida, e os números de frequência do caderno 4 da Anvisa já estão no capítulo vizinho de antibioticoprofilaxia. O que interessa aqui é outra coisa, e é mais desconfortável: o Brasil quase não conta a ferida que você vai abrir hoje.
A Nota Técnica 03/2026 da Anvisa, que é a régua nacional de critério diagnóstico, não é um manual de infecção cirúrgica em geral — o título dela diz o escopo: critérios das infecções de notificação nacional obrigatória. E as infecções de sítio cirúrgico de notificação obrigatória em 2026 são as que ocorrem depois de sete procedimentos, e só desses sete: cesariana, implante de prótese mamária, artroplastia primária de quadril, artroplastia primária de joelho, revascularização do miocárdio, derivação interna neurológica e cirurgia de catarata.
Conte o que ficou de fora. Apendicectomia, colecistectomia, herniorrafia, colectomia, gastrectomia, histerectomia por via abdominal, laparotomia de urgência — o volume inteiro do hospital geral. A infecção da ferida do senhor Cacílio, se você a diagnosticar hoje, não vai para nenhum denominador nacional. Ela existe no prontuário, existe na comissão de controle de infecção do seu hospital se ela vigiar por conta própria, e não existe em nenhuma estatística federal.
O programa nacional em curso, o PNPCIRAS 2026-2030, confirma o desenho. A única meta de resultado que ele tem para sítio cirúrgico é a Meta 12: até 2030, reduzir para 4% ou menos a taxa nacional de infecção de sítio cirúrgico relacionada às cirurgias cardíacas para revascularização do miocárdio. Uma cirurgia. Para todo o resto existe a Meta 7, que cobra apenas que o hospital tenha um protocolo de prevenção de infecção de sítio cirúrgico implantado — protocolo implantado, e não protocolo seguido caso a caso —, com escalonamento de 60% dos hospitais avaliados em 2026 para 90% em 2030.
A consequência prática é dupla e o interno precisa das duas. Primeira: se o seu serviço tem uma taxa de infecção de ferida em cirurgia abdominal, ela é dele, não do país, e foi medida com o método dele. Segunda: quando você lê um número de infecção de sítio cirúrgico numa aula, num artigo ou num relatório, a primeira pergunta é qual cirurgia, e a segunda é quantos dias de vigilância — porque a mesma ferida, olhada por trinta dias ou por noventa, produz taxas diferentes.
A deiscência de aponeurose é o outro lado da mesma escassez, e ali a lacuna é maior. A série brasileira contemporânea mais numerosa que este capítulo encontrou é uma coorte retrospectiva de 252 pacientes ressuturados por evisceração entre 2010 e 2023 num hospital terciário de Santa Catarina. Ela dá três números que orientam a expectativa à beira do leito: a incidência de evisceração relatada na literatura fica entre 0,4% e 3,5%; o evento acontece na maioria das vezes entre o quarto e o décimo quarto dia de pós-operatório; e a mediana entre a cirurgia índice e a ressutura, naquela série, foi de oito dias.
Oito dias. É por isso que este capítulo é o do quinto dia e não o do primeiro: o interno que examina a ferida no quinto, no sexto e no sétimo dia está exatamente dentro da janela em que as duas coisas acontecem — a infecção incisional se declara e a aponeurose falha. O paciente que vai deiscer amanhã está hoje na sua enfermaria, com um curativo por cima, e você é quem vai abri-lo.
O perfil daquela coorte também não é o do paciente jovem e magro: 74,2% eram homens, a mediana de idade foi de 64 anos, a hemoglobina mediana de 11,1 g/dL, 47,2% tinham neoplasia e 32,1% eram tabagistas. Nenhum desses dados prova causa, porque é uma série de casos sem grupo de comparação, e o próprio artigo é claro quanto a isso. Serve para outra coisa: a evisceração não é acidente de sorte, ela tem um retrato, e o senhor Cacílio — 66 anos, homem, neoplasia de cólon, laparotomia mediana — está dentro dele.
Por que acontece o que acontece
Uma ferida operatória é uma cavidade fechada que o corpo está tentando colar. Tudo o que este capítulo decide depende de três perguntas mecânicas sobre essa cavidade: o que está dentro dela, em que plano, e sob que pressão.
O primeiro mecanismo é o do espaço morto sob pressão. Quando bactéria se multiplica entre a pele e a aponeurose, o produto não é só inflamação: é volume. Pus é líquido em compartimento fechado, e compartimento fechado não tem para onde ceder — a pressão sobe, a perfusão do tecido em volta cai, e o antimicrobiano, que chega pelo sangue, deixa de chegar exatamente onde a bactéria está. É a razão pela qual uma coleção não responde a antibiótico enquanto estiver fechada, e é a razão pela qual a conduta mais eficaz deste capítulo não é uma droga: é abrir. Quando os pontos são retirados e o subcutâneo se separa, a pressão vai a zero, o conteúdo drena, e o tecido volta a ser perfundido. Muita infecção incisional superficial se resolve aí, sem que nenhuma dose entre no paciente.
O corolário é o engano mais repetido da enfermaria e vale enunciá-lo já: antibiótico não drena coleção. Prescrever antimicrobiano para uma ferida que precisava ser aberta troca um procedimento de cinco minutos por dias de exposição a droga, seleção de flora e um paciente que continua com a coleção dentro. O inverso também é verdadeiro e menos lembrado: quando a infecção deixou de estar contida no espaço e passou a caminhar pelo tecido em volta — celulite que avança na parede, febre, resposta sistêmica —, aí abrir não basta, porque não há coleção a esvaziar e sim tecido invadido.
O segundo mecanismo é o do plano. A parede abdominal não é um bloco: é pele, subcutâneo, aponeurose, músculo e peritônio, e a infecção se comporta de modo diferente em cada camada porque a resistência mecânica está toda numa só. Pele e subcutâneo não seguram a víscera; quem segura é a aponeurose. Por isso a mesma bactéria produz três doenças distintas conforme onde estiver: acima da fáscia, uma ferida que se abre no leito e cicatriza por segunda intenção; na fáscia e no músculo, uma infecção que ameaça a continência da parede; abaixo da fáscia, um abscesso de cavidade que nenhuma tesoura de enfermaria alcança. É esse fato anatômico — e não uma exigência burocrática — que faz a classificação em superficial, profunda e de órgão ou cavidade decidir quem opera, o que se prescreve e em que dia o paciente vai para casa.
O terceiro mecanismo é o da falha da sutura aponeurótica. Ele é mecânico antes de ser infeccioso. O fio não arrebenta quase nunca; o que cede é o tecido em volta do fio. Nos primeiros dias, a resistência da linha de sutura é inteiramente a resistência do ponto, porque o colágeno novo ainda não tem força de tração — e é justamente entre o quarto e o oitavo dia que a colagenase local está em pico e a cicatriz está no seu ponto mais fraco. De um lado, o material biológico enfraquecido; do outro, tudo o que aumenta a pressão intra-abdominal: tosse, vômito, esforço para evacuar, íleo com alças distendidas, obesidade, ascite. Quando a pressão vence a ancoragem, o fio corta o tecido e a aponeurose se separa. Desnutrição, hipoalbuminemia, anemia, tabagismo, doença pulmonar obstrutiva crônica e uso de corticoide entram por baixo, reduzindo a resistência que deveria estar sendo construída.
Aqui está o elo entre as duas metades deste capítulo: infecção da ferida é ela própria fator de risco para a falha da aponeurose. A coleção purulenta digere o tecido em torno do ponto, e a mesma ferida que hoje só precisava ser aberta pode, dois dias depois, ser a ferida que cede na fáscia. A vigilância que este capítulo ensina não termina no diagnóstico da infecção — ela continua no dia seguinte, procurando outra coisa.
O quarto mecanismo explica o líquido cor de água de carne. Quando a aponeurose se separa mas a pele ainda está unida pelos pontos, forma-se uma comunicação entre a cavidade peritoneal e o espaço subcutâneo. O líquido peritoneal, que é seroso e claro, passa a se acumular sob a pele misturado a pequena quantidade de sangue da separação, e aparece no curativo como um líquido rosado, translúcido, abundante e sem cheiro — nada parecido com pus. É a drenagem serossanguinolenta que precede a evisceração, e ela é o único sinal que aparece antes de a parede abrir. O interno que a interpreta como "o curativo molhou" e troca a gaze perde o único aviso que o corpo dá.
O quinto mecanismo é o da infecção necrosante, e ele é de outra ordem de velocidade. Aqui a bactéria não fica no espaço morto: ela produz toxinas e enzimas que destroem a fáscia superficial e trombosam os pequenos vasos que a atravessam. A consequência clínica é uma dissociação — o plano profundo já está morto enquanto a pele por cima ainda parece quase normal, porque a pele é irrigada por outro sistema e morre depois. A dor que o paciente sente vem do tecido profundo em destruição, e por isso ela é desproporcional ao que se vê; quando a pele finalmente escurece, faz bolha ou anestesia, o processo já se superficializou e o relógio já correu muito. Nenhum antimicrobiano perfunde tecido cujos vasos estão trombosados: por isso o tratamento é a remoção cirúrgica do tecido morto, e o antibiótico é acompanhamento, não solução.

Como se apresenta de verdade
As seis situações abaixo chegam até você com a mesma frase — "o curativo está sujo" — e exigem seis condutas diferentes. O que as separa não é a temperatura nem o resultado do hemograma: é o que se encontra quando a incisão é descoberta inteira, com luz, e palpada de ponta a ponta.
Antes delas, o que este capítulo não faz. A antibioticoprofilaxia cirúrgica e a classificação da ferida operatória quanto ao grau de contaminação — limpa, potencialmente contaminada, contaminada e infectada — não são deste capítulo: são de "Sessenta minutos, e nem um dia a mais", nesta mesma apostila, que é o dono delas e cujo texto declara, na outra ponta, que o diagnóstico e o tratamento da infecção de sítio cirúrgico já instalada não são dele. As duas frases foram escritas para se encontrarem: aquele capítulo decide se há profilaxia e este decide o que fazer quando ela não bastou.
A investigação da febre no paciente internado sem foco definido — o inventário dos dispositivos, as duas hemoculturas de sítios distintos, a ordem em que se percorrem os quatro grandes sítios de infecção relacionada à assistência — é de "Febre no paciente internado", na apostila de Síndromes do Paciente Internado. Aqui o foco já está achado e é a ferida: este capítulo começa depois daquele fluxo, no momento em que o curativo sai. Quando a febre do seu paciente ainda não tem endereço, o capítulo a ler é o de lá, não este.
A escolha, o descalonamento e a duração do esquema antimicrobiano são de "O antibiótico que ninguém para", na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado. O que este capítulo decide é anterior e mais importante: se há indicação de antimicrobiano.
A ferida do quinto dia: o que se vê, o que se palpa, o que se cheira
A ferida operatória tem uma trajetória previsível, e conhecê-la é o que permite reconhecer o desvio. Nas primeiras 48 horas ela está na fase inflamatória e é normalmente um pouco vermelha, um pouco endurecida e um pouco dolorida: um halo estreito de vermelhidão ao longo da incisão, de um a dois centímetros para cada lado, sem calor local exuberante e sem drenagem. A partir do terceiro dia essa faixa deveria estar diminuindo, e a dor deveria estar cedendo — não se mantendo, e muito menos aumentando.
É por isso que a pergunta clínica mais discriminante deste capítulo não é "a ferida está vermelha?", e sim "a ferida está pior do que ontem?". Uma foto isolada da fase inflamatória é indistinguível do começo de uma infecção. Duas observações separadas por 24 horas não são: o processo fisiológico regride, o infeccioso avança.
O exame se faz com o curativo retirado e a incisão inteira à vista, das duas extremidades, com boa luz e com o paciente deitado. Retirar o curativo com luva de procedimento; gaze que aderiu à linha de sutura se umedece com soro fisiológico até se desprender sozinha, porque puxá-la seca leva junto a crosta e reabre o que já havia colado. O que se procura, na ordem:
O que se vê. Extensão da hiperemia — não a presença dela, mas até onde vai, medida em centímetros a partir da linha de sutura e comparada com o registro de ontem. Edema que apaga o relevo dos pontos. Bordas afastadas em algum segmento. E a drenagem: quantidade (pequena, moderada, abundante), característica (serosa, hemática, serossanguinolenta, purulenta, seropurulenta, fibrinosa) e coloração — os eixos que o caderno 4 da Anvisa usa para descrever ferida, e que são o vocabulário mais próximo de um padrão nacional que existe.
O que se palpa. Calor local comparado com a pele a dez centímetros de distância. Endurecimento, e se ele é difuso ou tem um centro. E, sobretudo, flutuação — a sensação de líquido que se desloca entre dois dedos quando se comprime alternadamente de um lado e de outro. Flutuação é coleção, e coleção sob a pele tem uma única resposta. Crepitação é outra coisa e vem depois, nesta lista de propósito, porque quem a encontra deixa de estar neste parágrafo e passa para a quinta seção.
O que se cheira. É a parte que ninguém escreve no prontuário e todo cirurgião usa. O caderno 4 registra o odor como item da avaliação, distinguindo fétido de característico. Um odor fecaloide ou pútrido numa ferida abdominal levanta duas hipóteses de uma vez, e as duas são graves: anaeróbio na parede ou comunicação com a alça. A ausência de odor não afasta nada; a presença muda a conversa com o cirurgião de "passa aqui quando puder" para "preciso que você veja agora".
Uma armadilha de calendário fecha esta seção. A janela clássica da ferida vai do quinto ao sétimo dia, mas isso é a moda da distribuição, não o limite dela. A infecção de órgão ou cavidade pode se manifestar por todo o período de vigilância do procedimento, e no paciente com prótese esse período é longo: a régua nacional monitora por 90 dias seis cirurgias — implante de prótese mamária, artroplastia primária de quadril, artroplastia primária de joelho, revascularização do miocárdio, derivação interna neurológica e catarata — e por 30 dias a cesariana. Ferida de quadril protético com secreção no dia 60 continua sendo infecção de sítio cirúrgico.
A ferida que só precisa ser aberta
Este é o cenário mais comum e o mais mal conduzido do país. Paciente que está bem: come, anda, conversa, sem taquicardia, sem hipotensão, sem confusão. Febre baixa ou nenhuma. Na incisão, um segmento de três a cinco centímetros com hiperemia, calor, endurecimento e um ponto de flutuação, ou drenagem francamente purulenta saindo entre dois pontos.
O que essa ferida tem é uma coleção presa entre a pele e a aponeurose. E coleção não responde a antimicrobiano enquanto estiver fechada, pelo motivo mecânico da seção de mecanismo: pressão que sobe, perfusão que cai, droga que não chega. O tratamento é abrir — retirar os pontos do segmento comprometido, separar as bordas com uma pinça de ponta romba, deixar sair, lavar com soro fisiológico morno em jato até que saiam os debris e o exsudato, e deixar a ferida aberta para cicatrizar por segunda intenção.
Abrir não é fracasso e não é castigo: é o tratamento. É útil ter isso claro antes de conversar com o paciente, porque ele vai perguntar se "vai ter que costurar de novo", e a resposta é que a ferida vai fechar sozinha, de dentro para fora, e vai levar semanas em vez de dias.
Antibiótico aqui não tem indicação, e essa é a frase que mais economiza dia de internação neste capítulo. O aluno pergunta, com razão, como é que se justifica não tratar uma infecção. A resposta é que o tratamento foi feito: o controle do foco é o tratamento da infecção localizada, e o antimicrobiano existe para o que a drenagem não alcança — o tecido invadido em volta e o sangue. Se não há celulite avançando, nem febre, nem repercussão sistêmica, não há o que o antimicrobiano faça que o bisturi não tenha feito melhor.
Duas exceções, e elas são de risco do paciente e não de aparência da ferida: imunossupressão relevante e presença de material protético no sítio operado. Nessas duas, a decisão sobre acrescentar antimicrobiano é do cirurgião e não do interno, e a razão de o interno não decidir é que a segunda muda a operação inteira — infecção em prótese é assunto de sala, não de curativo.
Depois de aberta, a ferida entra em outro regime de cuidado. Ela passa a ser uma ferida de cicatrização por segunda intenção, com bordas separadas, e o caderno 4 da Anvisa dá as coberturas por aspecto do leito: hidropolímero, hidrogel, alginato de cálcio e rayon com petrolato para leito de granulação; alginato e hidropolímero para ferida cavitária; rayon com petrolato e silicone para hipergranulação. Trocas diárias, e cada troca é uma oportunidade de olhar — não de repetir gaze por cima.
A ferida que precisa de antibiótico, e a que precisa de sala
Duas coisas mudam a conduta da seção anterior, e é preciso saber distingui-las porque uma acrescenta uma droga e a outra chama o centro cirúrgico.
A primeira é a infecção que saiu do espaço e entrou no tecido. Hiperemia que ultrapassa dois centímetros da linha de sutura e continua avançando; linfangite; febre com repercussão; taquicardia; leucocitose com desvio; paciente que não está bem. Aqui existe celulite de parede além da coleção, e a celulite é território que a drenagem não trata. Abre-se a ferida do mesmo jeito, colhe-se material antes da primeira dose, e acrescenta-se antimicrobiano sistêmico. A escolha e a duração do esquema pertencem a "O antibiótico que ninguém para"; o que este capítulo fixa é o gatilho — infecção que caminha, não infecção que está presa.
Antes de acrescentar a droga, uma correção de vocabulário que muda comportamento. A régua nacional de critério diagnóstico, na nota de rodapé dos critérios incisionais, manda não considerar inflamação mínima e drenagem de secreção limitada aos pontos de sutura como infecção incisional. É uma frase escrita para a vigilância epidemiológica, mas ela descreve com precisão a ferida do terceiro dia que provoca prescrições desnecessárias todos os dias em todos os hospitais do Brasil.
A segunda é a infecção que está abaixo da aponeurose. Ferida com drenagem purulenta que não vem do subcutâneo e sim de mais fundo; abscesso identificado ao exame de imagem; dor abdominal que não é da incisão; febre alta persistente com a ferida superficialmente pouco alterada; débito turvo ou fecaloide no dreno. Nada disso se trata na enfermaria. Coleção profunda ou intracavitária exige tomografia e drenagem — percutânea guiada por imagem ou cirúrgica —, e a conversa é com o cirurgião agora, não na visita de amanhã.
A pergunta que separa os dois casos é anatômica e se responde com o dedo: quando você abre o subcutâneo e drena, você vê a aponeurose íntegra no fundo? Se vê, e ela está fechada, contínua e sem ponto que ceda, o processo é incisional e a conduta é a da seção anterior. Se o fundo não é aponeurose contínua — se o dedo entra, se há saída de líquido de outro caráter, se se sente a separação — você não está mais tratando uma infecção de ferida, está diante da próxima seção.
Duas populações têm capítulo próprio e não são deste. A ferida de cesariana e a episiotomia infectadas pertencem a "A puérpera com febre", na apostila de Parto e assistência ao nascimento, que ensina a percorrer os territórios do puerpério e a lista do que precisa de procedimento. A ferida traumática suturada no pronto-socorro pertence a "A parte que decide não é o ponto", na apostila de Procedimentos e Vias de Acesso, cujo texto registra que os critérios de infecção de sítio cirúrgico não se aplicam a ela.
O líquido cor de água de carne: deiscência de aponeurose e evisceração
Esta seção é a razão de o capítulo existir, e o motivo é simples: nenhum documento brasileiro em uso define, gradua ou nomeia a deiscência de ferida operatória. A afirmação foi verificada, e a verificação está nas notas: a Nota Técnica 03/2026 da Anvisa, que é a régua nacional de critério para infecção, usa a palavra "deiscência" exatamente duas vezes em 104 páginas, e as duas dentro dos critérios de endocardite, falando de deiscência de prótese valvar. O caderno 4 da mesma agência menciona o termo uma vez, numa instrução para a equipe de enfermagem comunicar à equipe médica "em casos de sangramento excessivo, deiscências e sinais flogísticos" — comunicar, não conduzir. É tudo.
Como não há régua nacional e como nenhum outro capítulo deste nível é dono do assunto, este capítulo assume a deiscência de aponeurose e a evisceração do pós-operatório e declara que assumiu. O abdome deixado aberto de propósito, como dispositivo, e o fechamento definitivo da parede depois dele pertencem a "Cirurgia de controle de danos e tríade letal", na apostila de Trauma. A evisceração traumática, por ferimento penetrante, pertence a "Trauma abdominal penetrante", da mesma apostila. O que sobra — a parede que foi fechada e depois cedeu — é daqui.
Os nomes, porque a literatura brasileira os usa sem uniformidade e a confusão atrapalha o pedido de ajuda. Deiscência nomeia a separação, parcial ou completa, das camadas que a incisão havia unido. Quando a aponeurose se separa mas a pele permanece coaptada pelos pontos, o quadro costuma ser chamado de eventração ou deiscência contida. Quando todas as camadas cedem e a víscera fica exposta ao meio externo, é evisceração. Ao telefone com o cirurgião, o que importa não é escolher o nome certo: é dizer se a pele está aberta e se há alça à vista.
O aviso vem antes, e é líquido. O sinal que precede a evisceração é a drenagem serossanguinolenta abundante pelo curativo: líquido rosado, translúcido, sem odor, que os cirurgiões brasileiros descrevem como cor de água de carne. Ele é líquido peritoneal chegando ao subcutâneo por uma aponeurose que já se separou. As diferenças que importam à beira do leito são três: é claro e não turvo; é volumoso o bastante para encharcar o curativo, e não uma mancha; e não tem cheiro. Encharcamento súbito do curativo entre o quarto e o oitavo dia, num paciente que estava evoluindo bem, é deiscência de aponeurose enquanto não se demonstrar outra coisa, e essa demonstração acontece no centro cirúrgico.
O que se faz enquanto o centro cirúrgico é acionado, na ordem, e nada disso depende de autorização: paciente em decúbito dorsal com os joelhos ligeiramente fletidos, para relaxar a parede; jejum absoluto; acesso venoso calibroso e hidratação; analgesia; sonda nasogástrica se houver distensão ou vômito; e a ferida coberta com compressas estéreis umedecidas em soro fisiológico, reumedecidas conforme secarem. Avise o cirurgião, avise a anestesia, avise a família. Peça os exames que a sala vai querer e colha a amostra para a reserva de sangue.
O que não se faz, e cada item já foi feito por alguém: não se tenta recolocar a alça exposta dentro da cavidade — a manobra é a mesma que "Trauma abdominal penetrante" ensina para a evisceração traumática, e o motivo é o mesmo, contaminação e lesão; não se cobre a víscera com gaze seca, que adere e arranca serosa na retirada; não se aplica antisséptico sobre a alça; não se puxa o que está exposto para "ver melhor"; não se pede tomografia para confirmar o que já está à vista; e não se manda o paciente sentar ou andar até a sala.
Um dado de calibração de expectativa, da coorte brasileira de 252 ressuturas: a mediana entre a cirurgia índice e a ressutura foi de oito dias, com metade dos casos entre o quinto e o décimo segundo dia. Se você está examinando uma laparotomia mediana no sexto dia, está no meio da janela.
A que não pode esperar: infecção necrosante da ferida operatória
A fasciíte necrosante tem capítulo próprio — infecções necrosantes de partes moles, na apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica —, dono da sala, do antimicrobiano e da primeira hora; o capítulo de infecções bacterianas cutâneas, na apostila de Dermatologia, assume o reconhecimento a partir da erisipela; o capítulo de infecção puerperal, na apostila de Parto, trata a forma perineal e abdominal do puerpério dentro do seu próprio fluxo. A forma que nasce numa incisão de pós-operatório não é de nenhum dos dois. Este capítulo fica com o reconhecimento dessa forma na incisão; a primeira hora e o desbridamento são do capítulo de infecções necrosantes de partes moles, na apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica.
Ela é rara e é a única coisa desta lista em que a demora se mede em vidas. Duas apresentações interessam ao interno. A primeira é precoce e agressiva: a infecção necrosante por estreptococo do grupo A ou por clostrídio, que aparece nas primeiras horas ou nos primeiros dois dias de pós-operatório, quando ninguém está esperando infecção de ferida. A segunda é a que se instala sobre uma ferida abdominal contaminada, com flora mista, e progride ao longo de dias.
A bandeira é uma dissociação, e vale decorá-la nesta forma: dor desproporcional ao que se vê. O paciente tem dor intensa, crescente, que não cede com a analgesia que vinha cedendo, num sítio cuja aparência não justifica aquilo. Nas primeiras horas a pele pode estar quase normal, porque o plano que está morrendo é o profundo. Depois vêm os achados que já são tardios: edema tenso que ultrapassa a área de eritema, bolhas — sobretudo as hemorrágicas —, pele acinzentada ou violácea, crepitação, e o sinal mais traiçoeiro de todos, que é a anestesia da área central. Dor que dá lugar a dormência não é melhora: é nervo cutâneo que morreu.
Ao lado do local, o sistêmico: taquicardia desproporcional à febre, hipotensão, confusão, oligúria. A combinação de dor desproporcional com instabilidade em paciente de pós-operatório recente está entre as raras ocasiões em que o certo é abandonar a visita no meio dela.
O relógio é o conteúdo desta seção. Suspeitou, chame o cirurgião agora e diga a palavra: suspeita de infecção necrosante. Não peça exame de imagem para confirmar — imagem normal não exclui, e o tempo gasto é o que vai faltar na sala. Não peça radiografia de partes moles procurando gás como triagem, porque a ausência de gás não afasta nada. Não circule a borda com caneta e reavalie em quatro horas: essa é a conduta da celulite, e aqui quatro horas é muito tempo. O diagnóstico se faz na exploração cirúrgica, e o tratamento é a remoção do tecido morto, repetida quantas vezes for preciso.
O antimicrobiano acompanha e não substitui, e aqui a lista essencial brasileira produz um resultado que vale conhecer: a benzilpenicilina potássica em pó para solução injetável, frasco de 5.000.000 UI, consta da Rename 2024; a clindamicina injetável, não — a Rename traz clindamicina apenas em cápsulas de 150 mg e 300 mg e em apresentações tópicas. A dupla clássica está metade dentro e metade fora da lista nacional, e a metade que falta é justamente a que se usa pela ação sobre a produção de toxina. O motivo e a consequência estão na última seção e nas notas.
O que não é infecção: seroma, hematoma e granuloma de fio
Nenhum capítulo deste nível é dono do seroma — a palavra não aparece em lugar nenhum do Internato. Este capítulo o assume, junto com os outros dois diagnósticos que fazem o interno prescrever antibiótico sem precisar.
Seroma é acúmulo de líquido seroso claro no espaço morto entre a pele e a aponeurose, sem bactéria. Aparece tipicamente entre o terceiro e o décimo dia, e é mais comum onde houve descolamento amplo de retalho ou onde havia muito tecido adiposo: parede abdominal de paciente obeso, mama, região inguinal. O que se encontra é abaulamento liso, flutuante, com pele de aspecto normal ou discretamente rosada, sem calor local relevante, indolor ou pouco doloroso — e é a dor, mais do que qualquer outra coisa, que separa seroma de abscesso. Quando drena espontaneamente, o líquido é citrino ou levemente rosado, claro e sem odor.
A conduta do seroma pequeno e assintomático é nenhuma: ele reabsorve. O seroma volumoso, tenso ou que desconforta se aspira com técnica asséptica, e a aspiração pode precisar ser repetida, porque o espaço morto volta a encher enquanto existir. Se o líquido aspirado vier turvo, purulento ou com odor, o diagnóstico estava errado e a ferida passa a ser da segunda seção deste capítulo. Antibiótico para seroma não tem indicação nenhuma, e a punção repetida de um seroma limpo é justamente uma das maneiras de transformá-lo em abscesso.
Hematoma é sangue, e por isso aparece mais cedo — nas primeiras 48 a 72 horas. Abaulamento tenso, doloroso, com equimose da pele em volta, e queda de hemoglobina quando o volume é grande. A maioria é conduzida de forma conservadora. Três coisas mudam isso: hematoma que cresce, hematoma que compromete a viabilidade da pele por tensão, e hematoma em sítio onde o volume é perigoso por vizinhança — a loja tireoidiana é o exemplo clássico, e o hematoma cervical compressivo pertence ao capítulo de tireoidectomia, na apostila de Cirurgia de Cabeça e Pescoço. O que interessa aqui é que hematoma é meio de cultura: coágulo no espaço morto aumenta o risco de infecção, e o hematoma de hoje é candidato à coleção purulenta da semana que vem.
Granuloma de fio, ou reação de corpo estranho ao ponto, é o mais tardio dos três: aparece semanas a meses depois, quase sempre em ferida que já cicatrizou. Um nódulo pequeno, endurecido, sobre um ponto da linha de sutura, que às vezes abre e drena secreção escassa e às vezes expõe um fragmento de fio. Cura quando o fio sai — e sai com uma pinça, no ambulatório. Recidiva no mesmo ponto até que o material seja removido, e é isso que faz o paciente colecionar ciclos de antibiótico ao longo de meses para uma coisa que nunca foi infecção sistêmica.
A ferida crônica não cirúrgica e as coberturas dela pertencem a "Lesão por pressão no paciente internado", na apostila de Síndromes do Paciente Internado. A higienização das mãos e as precauções por via de transmissão, que atravessam tudo o que se faz neste capítulo, pertencem a "As mãos que circulam entre os leitos", na apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática. A antissepsia, a paramentação e o campo estéril são de "O tempo é parte do produto", na apostila de Procedimentos e Vias de Acesso.
Como fechar o diagnóstico
A investigação deste capítulo tem uma peculiaridade que vale enunciar antes de qualquer lista: o exame que decide é o exame físico da ferida, e quase tudo o que se pede de exame complementar serve para outra coisa que não a decisão de abrir. É o inverso da maioria dos capítulos de enfermaria, e é a razão de tantos pacientes esperarem um resultado para uma conduta que já estava indicada.
A ordem das cinco seções é a das perguntas que se sucedem na manhã do senhor Cacílio.
O exame da ferida, e a única régua nacional que existe para descrevê-la
Não há no Brasil um documento federal que ensine a examinar uma ferida operatória infectada. O que existe é o item 5.3.1 do caderno 4 da Anvisa, escrito para orientar a avaliação de curativos, e ele é bom o bastante para servir de vocabulário comum entre plantões. Vale usá-lo por isso: quando dois médicos descrevem a mesma ferida com os mesmos eixos, a comparação entre dois dias passa a significar alguma coisa.
Os eixos, na ordem em que o documento os põe: morfologia — local, número de lesões, dimensão e profundidade, medidas com régua de papel descartável; grau de contaminação — odor, fétido ou característico, e exsudato avaliado em quantidade (pequeno, moderado, abundante), característica (seroso, hemático, serossanguinolento, purulento, seropurulento, fibrinoso) e coloração (esverdeado, esbranquiçado, amarelado, achocolatado, acastanhado); leito da ferida — fibrinoso, necrótico, em granulação ou em epitelização, com os espaços mortos mensurados; bordos — maceração, contorno regular ou irregular, retração e coloração; e área periferida — íntegra, fragilizada, avermelhada, ressecada, papel de seda, descamativa ou eczematosa.
Cinco eixos, e o interno consegue percorrê-los em noventa segundos. A vantagem prática aparece no terceiro dia, quando alguém escreve "ferida com secreção" e ninguém sabe se piorou: com os eixos, "exsudato purulento, moderado, amarelado, leito com fibrina, borda macerada em dois centímetros do terço inferior" é uma frase que o plantonista de amanhã compara.
Duas orientações do mesmo item devem ser conhecidas porque redirecionam o caso para fora das suas mãos, e as duas são discutíveis: o documento manda solicitar avaliação da comissão de controle de infecção nos casos de ferida com suspeita de infecção, para orientação da antibioticoterapia e coleta de amostras; e manda solicitar avaliação da cirurgia plástica nos casos de necrose. A segunda soa estranha numa ferida de laparotomia recente, cujo dono é o cirurgião que operou — e é um dos pontos que este capítulo deixa em aberto no lugar de resolver.
O exame termina com o teste do fundo, que não está em documento nenhum e é o que separa este capítulo do anterior. Depois de aberto o subcutâneo, olhe e palpe o fundo da cavidade: aponeurose contínua, branca e brilhante significa infecção incisional; fundo que cede, que se separa, que deixa o dedo entrar, ou saída de líquido claro em volume, significa que a parede está comprometida e que o caso mudou de seção.
A cultura: quando colher, de onde, e o material que a régua nacional recusa
A regra brasileira é explícita e vale para todos os planos: não se colhe cultura de ferida com swab. A Nota Técnica 03/2026 da Anvisa põe em nota de rodapé, nos critérios incisional superficial, incisional profundo e de órgão ou cavidade, que não serão considerados os resultados de culturas positivas quando coletadas por meio de swabs, ou seja, hastes com ponta de algodão. Do ponto de vista epidemiológico o resultado é descartado; do ponto de vista clínico, ele colhe a flora da pele e induz tratamento de colonizante.
O material aceito é secreção ou tecido obtido assepticamente, ou aspirado de coleção com seringa e agulha. Na prática da enfermaria: ao abrir a ferida, aspire a coleção antes de lavar, ou colha um fragmento de tecido da parede da cavidade. Antes da primeira dose de antimicrobiano, sempre que houver indicação de antimicrobiano — depois da dose, a cultura perde metade do valor e o paciente não ganha nada em compensação.
Quando não colher: ferida com coleção localizada, paciente bem, sem febre e sem repercussão, que vai ser aberta e drenada sem antimicrobiano. Não há decisão que o resultado mude, e uma cultura pedida sem pergunta produz um relatório que alguém vai tratar dali a dois dias.
Hemocultura pertence a outro capítulo e por isso entra aqui só como fronteira: a indicação, o número de amostras, o volume e os sítios de punção são de "Febre no paciente internado", na apostila de Síndromes do Paciente Internado. O que este capítulo acrescenta é o caso particular — no paciente com infecção de ferida localizada, sem febre e sem repercussão sistêmica, hemocultura não está indicada, e a probabilidade pré-teste baixa faz do resultado provável uma contaminação.
O sangue: o que ele mede, e o que ele não decide
Hemograma, proteína C reativa e lactato têm papel neste capítulo, e nenhum deles é decidir se a ferida se abre. A decisão de abrir é do exame físico, e ela é a mesma com leucometria normal ou alterada.
O que os exames de sangue fazem é diferente e vale nomear com precisão. Primeiro, medem repercussão sistêmica — a variável que separa a ferida que só precisa ser aberta da ferida que também precisa de antimicrobiano. Leucocitose com desvio, elevação expressiva da proteína C reativa em paciente que vinha caindo, lactato acima do normal e disfunção orgânica em exames que estavam normais mudam a categoria do caso. Segundo, dão linha de base para a reavaliação: a curva importa mais que o ponto, e a curva só existe se houver o primeiro exame.
Terceiro, e menos lembrado, dão os fatores que decidem a cicatrização e que a coorte brasileira de eviscerações encontrou em massa naqueles pacientes: hemoglobina — mediana de 11,1 g/dL naquela série, com um quarto dos pacientes abaixo de 9,6 — e albumina, dosada em menos de um quinto dos prontuários. Anemia e hipoalbuminemia não mudam a conduta de hoje; mudam a expectativa de fechamento e a prioridade nutricional da semana.
Duas armadilhas de interpretação. A proteína C reativa sobe fisiologicamente no pós-operatório e atinge o pico por volta do segundo ou terceiro dia: um valor alto no terceiro dia não diz nada, e o que informa é o valor que não cai depois disso ou que volta a subir. E o paciente neutropênico não faz pus: ausência de secreção purulenta numa ferida dolorosa de paciente com quimioterapia recente não afasta infecção, afasta neutrófilo.
A imagem: qual, quando, e as três vezes em que ela atrapalha
A ultrassonografia de partes moles à beira do leito responde à pergunta certa quando o exame físico ficou em dúvida: há coleção no subcutâneo, e qual o volume dela? É barata, rápida, sem radiação e serve para guiar a aspiração de um seroma ou confirmar uma coleção que a palpação não decidiu. Não substitui a palpação: quando há flutuação evidente e drenagem purulenta, a ferida se abre sem esperar exame nenhum.
A tomografia de abdome com contraste é o exame da infecção de órgão ou cavidade, e a pergunta que ela responde é outra: existe coleção abaixo da aponeurose, onde, qual o volume, e ela é drenável por punção guiada? Indicada quando há febre persistente com ferida pouco alterada, dor abdominal desproporcional à incisão, débito turvo ou fecaloide no dreno, ou íleo que não resolve. Ela também é o exame que documenta a separação da aponeurose quando o quadro é ambíguo — mas não quando ele é evidente.
As três vezes em que a imagem atrapalha. Primeira, na suspeita de infecção necrosante: imagem normal não exclui, e cada minuto no aparelho é um minuto a menos de desbridamento precoce. Segunda, na evisceração com alça exposta: não há o que confirmar, e o paciente que vai para a tomografia não está indo para o centro cirúrgico. Terceira, na coleção superficial evidente: a ultrassonografia adia por horas um procedimento de cinco minutos.
Uma nota sobre o dreno, porque ele é fonte constante de confusão na visita. Débito que muda de caráter — de seroso para turvo, purulento ou fecaloide — é informação de alto valor e obriga a repensar a anastomose. Débito seroso que aumenta de volume não é infecção. E cultura de ponta de dreno, como cultura de ponta de cateter, não é exame diagnóstico de infecção de ferida.
O que a régua brasileira não responde
Duas perguntas que o interno faz e para as quais não existe resposta nacional. Vale saber que não existe, em vez de procurá-la.
Primeira: por quantos dias depois da cirurgia uma infecção de ferida ainda conta como infecção de sítio cirúrgico? A Nota Técnica 03/2026 fixa o período de vigilância em 30 ou 90 dias "a depender do procedimento cirúrgico" — e então enumera apenas seis procedimentos com 90 dias e a cesariana com 30. Para a colectomia do senhor Cacílio, para a apendicectomia, para a herniorrafia, o documento não fixa janela nenhuma, porque não é o objeto dele: o título diz que se ocupa das infecções de notificação nacional obrigatória. A prática consolidada usa 30 dias para procedimento sem implante e 90 quando há material protético, mas isso é convenção internacional adotada pelos serviços, não regra brasileira publicada — e este capítulo diz que é leitura sua, não citação.
Segunda: quantos dias de antimicrobiano? Não há resposta nacional para infecção de sítio cirúrgico, e a decisão é do capítulo "O antibiótico que ninguém para", na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado, que é o dono da escolha, do descalonamento e da duração.
Vale registrar aqui, porque é o que muda a prescrição de verdade no hospital público brasileiro, o que a Rename 2024 traz e o que não traz. Não constam da lista nacional: cefazolina, oxacilina, vancomicina, ampicilina e polivinilpirrolidona iodo. Constam cefalexina em cápsula e comprimido de 500 mg e suspensão, amoxicilina com clavulanato em comprimido e suspensão, ciprofloxacino em comprimido, sulfametoxazol com trimetoprima em comprimido, suspensão e solução injetável, ceftriaxona em pó para solução injetável de 250 mg, 500 mg e 1 g, metronidazol em comprimido de 250 mg e 400 mg, clindamicina em cápsula de 150 mg e 300 mg, e benzilpenicilina potássica em frasco de 5.000.000 UI.
Leia a lista de novo e note o padrão: falta o injetável e sobra o oral. Não há metronidazol injetável, não há clindamicina injetável, não há gentamicina sistêmica — só a apresentação oftálmica. Isso não significa que o hospital não tenha essas drogas: significa que elas não vêm pelos componentes da assistência farmacêutica que a Rename organiza. Antimicrobiano de uso hospitalar é comprado pela instituição e padronizado pela comissão de controle de infecção dela, e é por isso que a pergunta "o que eu prescrevo aqui?" tem resposta local, não nacional. O interno que chega a um serviço novo deve pedir a padronização de antimicrobianos da casa no primeiro dia — ela decide mais a prescrição dele do que qualquer diretriz.
Três planos, três decisões — e o que as fontes oficiais erram no meio do caminho
Antes de abrir uma ferida, avalie a condição geral, a profundidade provável e a possibilidade de deiscência fascial ou infecção necrosante. Procedimentos exigem equipe habilitada e supervisão.
- 1Avaliar sinais vitais, perfusão, dor e trajetória, além do dia pós-operatório. Complicações podem aparecer fora das janelas típicas.
- 2Expor a incisão com técnica, descrever extensão, secreção, hiperemia e tecidos e comparar com registros anteriores.
- 3Dor desproporcional, progressão rápida, bolhas, crepitação, necrose ou disfunção exigem avaliação cirúrgica urgente; não esperar todos esses sinais.
- 4Saída serossanguinolenta abundante ou suspeita de falha fascial exige avaliação imediata. Na evisceração, proteger vísceras com cobertura estéril umedecida e chamar cirurgia, sem tentar redução às cegas.
- 5Coleção superficial pode requerer abertura e drenagem por profissional habilitado, após avaliar planos e analgesia; o interno não deve explorar profundamente sozinho.
- 6Durante o procedimento, qualquer dúvida sobre a aponeurose ou profundidade encerra a exploração à beira do leito e exige avaliação cirúrgica apropriada.
- 7Antimicrobianos dependem de extensão, repercussão sistêmica, profundidade, hospedeiro e controle de foco. Cultura deve ter indicação e técnica adequadas, sem atrasar tratamento urgente.
- 8Prescrever curativo e analgesia, manter cuidados gerais conforme segurança e definir quando reavaliar e quais mudanças exigem chamada imediata.
Os três planos, e o que cada um decide
| Plano | O que se encontra ao descobrir a ferida | Onde se resolve | Quem decide | Efeito na alta |
|---|---|---|---|---|
| Incisional superficial — pele e subcutâneo | Drenagem purulenta da incisão; ou hiperemia, dor, edema e calor com coleção palpável; ou o cirurgião abre deliberadamente a incisão diante desses sinais | No leito: retirada dos pontos do segmento, abertura, lavagem e curativo aberto | O interno abre, com o cirurgião avisado; não precisa de sala | Costuma atrasar dias, não semanas; a alta pode sair com a ferida aberta e curativo domiciliar |
| Incisional profunda — fáscia e músculo | Drenagem purulenta que não vem do subcutâneo; incisão profunda aberta ou aspirada por médico com dor, sensibilidade ou febre; abscesso em tecido profundo ao exame clínico, à anatomia patológica ou à imagem | Centro cirúrgico na maioria das vezes: exploração, desbridamento e reavaliação da parede | O cirurgião, hoje — a integridade da parede está em jogo | Atrasa semanas; muda o plano de fechamento e a expectativa de hérnia incisional |
| Órgão ou cavidade — abaixo da fáscia | Drenagem purulenta por dreno colocado no órgão ou espaço; microrganismo em secreção ou tecido do órgão obtido assepticamente; abscesso ou outra evidência de infecção profunda à imagem, à reoperação ou ao exame anatomopatológico | Tomografia e drenagem: percutânea guiada por imagem ou cirúrgica | Cirurgião e radiologia intervencionista; nada disso é da enfermaria | Atrasa semanas e frequentemente muda o prognóstico oncológico ou funcional |
| Deiscência de aponeurose — sem infecção necessária | Drenagem serossanguinolenta abundante, clara, sem odor, encharcando o curativo entre o 4º e o 8º dia; ou bordas que se separam; ou alça exposta | Centro cirúrgico, agora; na enfermaria só se protege e se prepara | O cirurgião, acionado imediatamente — não se espera a visita | Reoperação; e a hérnia incisional a médio prazo passa a ser esperada, não excepcional |
| Infecção necrosante da ferida | Dor desproporcional ao que se vê, em crescimento; edema além do eritema; bolha, sobretudo hemorrágica; crepitação; anestesia da área central; instabilidade sistêmica | Exploração cirúrgica imediata e remoção do tecido morto, repetida quantas vezes for preciso | O cirurgião, chamado pelo nome da suspeita; nenhum exame precede | Determina a sobrevida antes de determinar a alta |
As três perguntas da manhã, na ordem
| Situação à beira do leito | Abre a ferida? | Antimicrobiano sistêmico? | Para onde o caso vai |
|---|---|---|---|
| Faixa estreita de hiperemia acompanhando a sutura, estável ou diminuindo, sem drenagem, paciente bem | Não | Não — a régua nacional manda não considerar inflamação mínima e drenagem limitada aos pontos como infecção incisional | Reavaliação em 24 h, com a extensão da hiperemia anotada em centímetros |
| Coleção palpável ou drenagem purulenta em segmento da incisão; paciente bem, sem febre, sem repercussão | Sim, no leito | Não | Curativo aberto e reavaliação diária; alta possível com a ferida aberta |
| O mesmo achado, mas com celulite que avança além de dois centímetros, febre, taquicardia ou leucocitose com desvio | Sim, no leito | Sim — colher cultura de secreção ou tecido antes da primeira dose | Esquema e duração pertencem a O antibiótico que ninguém para; reavaliação em 24 h |
| Paciente imunossuprimido ou com implante protético no sítio operado, com coleção | Sim | Decisão do cirurgião, não do interno | Prótese infectada é assunto de sala, não de curativo |
| Febre persistente com a ferida superficialmente pouco alterada, dor abdominal, dreno turvo ou íleo que não resolve | Não resolve nada abrir só a pele | Sim, depois de colher | Tomografia com contraste e drenagem guiada ou cirúrgica; conversa com o cirurgião hoje |
| Curativo encharcado de líquido claro, rosado, abundante e sem odor entre o 4º e o 8º dia | Não — não se explora deiscência na enfermaria | Não é a pergunta agora | Centro cirúrgico acionado; jejum, acesso, compressas úmidas estéreis |
| Dor desproporcional ao que se vê, crescente, com bolha, crepitação ou instabilidade | Não na enfermaria | Sim, mas depois de acionar a sala e nunca no lugar dela | Exploração cirúrgica imediata; nenhum exame de imagem antes |
O que não é infecção — e como se distingue à beira do leito
| Quadro | Quando aparece | O que se palpa | O líquido, quando há | Conduta |
|---|---|---|---|---|
| Seroma | 3º ao 10º dia; mais comum após descolamento amplo e em parede espessa | Abaulamento liso e flutuante, pele normal ou pouco rosada, indolor ou pouco doloroso, sem calor relevante | Citrino ou levemente rosado, claro, sem odor | Pequeno: nenhuma, reabsorve. Volumoso ou tenso: aspiração asséptica, repetível. Antimicrobiano não tem indicação |
| Hematoma | Primeiras 48 a 72 h | Abaulamento tenso e doloroso, com equimose em volta; queda de hemoglobina se volumoso | Sangue, quando drena | Conservador na maioria. Drenagem se cresce, se tensiona a pele a ponto de comprometê-la, ou pela vizinhança do sítio |
| Granuloma de fio | Semanas a meses, em ferida já cicatrizada | Nódulo pequeno e endurecido sobre um ponto da linha de sutura | Secreção escassa, intermitente; às vezes com fragmento de fio à vista | Retirar o material com pinça no ambulatório. Recidiva no mesmo ponto enquanto o fio ficar |
| Fase inflamatória normal | Primeiras 48 h, regredindo a partir do 3º dia | Faixa estreita de hiperemia junto à sutura, discreto endurecimento, dor que cede | Nenhum, ou mínimo nos orifícios dos pontos | Nada. Observar e comparar em 24 h — piora entre duas observações é o que muda a conduta |
| Infecção incisional superficial | 5º ao 7º dia tipicamente | Hiperemia que se alarga, calor, endurecimento com centro, flutuação | Purulento; quantidade e cor descritas pelos eixos do caderno 4 | Abrir, drenar, lavar, curativo aberto. Antimicrobiano só se houver celulite que avança ou repercussão |
Conversão mg, mL, frasco e ampola — adulto de 78 kg, recalculada contra a apresentação de bula
| Fármaco e apresentação real | Regime | mg por dose | Volume ou fração da apresentação | Por dia | Teto declarado na mesma bula |
|---|---|---|---|---|---|
| Cefazolina 1 g, pó para solução injetável (frasco-ampola com 1,048 g de cefazolina sódica equivalentes a 1 g de base). Não consta da Rename 2024 | Infecção moderada a grave: 1 g a cada 8 h | 1.000 mg | 1 frasco inteiro por dose | 3 g = 3 frascos | 6 g/dia para adultos |
| Cefazolina 1 g (mesma apresentação) | Infecção moderada a grave: 1 g a cada 6 h | 1.000 mg | 1 frasco inteiro por dose | 4 g = 4 frascos, ou 67% do teto | 6 g/dia para adultos |
| Cefazolina 1 g (mesma apresentação) | No idoso, individualizar pela indicação, função renal estimada, gravidade e protocolo; idade isolada não deve impor subdose. Conferir divergências entre bula, recomendação clínica e produto com farmácia e equipe. | 500 mg | Meio frasco por dose — metade do pó reconstituído é desprezada | 1,5 g = 1,5 frasco | 1,5 g/dia acima de 75 anos, teto da própria bula |
| Fosfato de clindamicina 150 mg/mL, ampola de 4 mL (600 mg de clindamicina base por ampola). Injetável não consta da Rename 2024 | Infecção grave: 2.400 mg/dia em 4 doses | 600 mg | 1 ampola por dose | 4 ampolas | 1.200 mg por infusão; 600 mg por injeção intramuscular |
| Fosfato de clindamicina, mesma ampola | Infecção grave: 2.700 mg/dia em 4 doses | 675 mg | 1,12 ampola por dose | 4,5 ampolas | 600 mg por injeção intramuscular — este regime estoura o teto intramuscular da própria bula |
| Fosfato de clindamicina, mesma ampola | Infecção grave: 2.700 mg/dia em 2 doses, permitido no texto da bula | 1.350 mg | 2,25 ampolas por dose | 4,5 ampolas | 1.200 mg por infusão — este regime estoura o teto de infusão da própria bula |
| Ceftriaxona 1 g, pó para solução injetável. Consta da Rename 2024, componente Básico, classificação AWaRe Alerta | 2 g/dia em dose única | 2.000 mg | 2 frascos de 1 g, ou 8 frascos de 250 mg | 2 g | Sem teto único; ajustar por indicação |
| Benzilpenicilina potássica 5.000.000 UI, pó para solução injetável. Consta da Rename 2024, componente Estratégico | 18.000.000 UI/dia em 6 doses a cada 4 h | 3.000.000 UI | 0,6 frasco por dose | 3,6 frascos | Sem teto único na apresentação; a limitação prática é a carga de potássio |
A edição citada da Nota Técnica 03/2026 aplica vigilância de 30 ou 90 dias conforme o procedimento também à infecção incisional superficial, diferentemente da redação de 2025. Ao comparar séries do hospital, registre a definição usada em cada período: mudança de critério pode alterar a contagem sem representar mudança da assistência.
As chamadas de rodapé do critério de órgão ou cavidade ficaram deslocadas na edição citada. Leia diretamente as notas sobre coleta asséptica e métodos não baseados em cultura, incluindo as restrições à coleta por swab. A numeração isolada não permite interpretar corretamente esse trecho.
O Quadro 36 repete a revascularização do miocárdio com a mesma lista de sítios. Considere-a uma única categoria ao consultar a relação de procedimentos. A duplicação e os erros tipográficos do quadro não criam indicações clínicas ou categorias adicionais de infecção.
Os documentos nacionais consultados classificam infecção do sítio cirúrgico, mas não oferecem nesse conteúdo um algoritmo de deiscência fascial. Separe as perguntas: infecção envolve critérios próprios, e falha mecânica exige avaliar profundidade, integridade da fáscia e exposição de vísceras. A classificação de vigilância não substitui essa avaliação cirúrgica.
A Nota Técnica citada apresenta datas distintas de elaboração e versão. Identifique a edição efetivamente consultada ao registrar critérios ou comparar períodos, pois o mesmo endereço pode disponibilizar revisão posterior. Neste capítulo, a referência é a versão de 2026 descrita nas fontes.
Na coorte de eviscerações, a tabela de indicação de tela soma 253 pacientes, enquanto a amostra declarada é de 252. O resultado de 164 casos corresponderia a 72,2% com denominador 227 ou 72,6% com 226. A diferença é pequena, mas limita a reprodução exata da estimativa.
Na tabela de procedimentos dessa série, os percentuais de intestino delgado e laparotomia exploradora não correspondem às contagens apresentadas. Com denominador 250, 40 casos equivalem a 16,0% e nove a 3,6%. Interprete a frequência desses procedimentos pelos números absolutos, sem reproduzir os percentuais discrepantes.
Algumas variáveis da coorte usam denominadores diferentes dos totais de casos com informação disponível. Por isso, pares de percentuais não somam 100%. Ao interpretar neoplasia, tabagismo, ascite, DPOC e caráter da operação, confira a contagem e a existência de dados ausentes, sem atribuir precisão maior à tabela.
O texto e as tabelas da coorte variam nos limites inclusivos dos escores para tela profilática, especialmente em 2,2 e 4,0, e algumas faixas se sobrepõem. Esses pontos impedem usar a tabela como indicação automática. A decisão do cirurgião deve considerar o risco global e a recomendação adotada.
A introdução do artigo apresenta incidência de evisceração entre 0,4% e 3,5%; o resumo destaca apenas o limite superior. Este capítulo mantém a faixa. Os 3,5% não devem ser interpretados como estimativa central para qualquer população cirúrgica.
As divergências da bula de cefazolina sobre dose por idade e duração são tratadas no capítulo de antibioticoprofilaxia. Não use essas linhas para prolongar automaticamente um esquema diante de alteração da ferida. Diferencie profilaxia, infecção estabelecida e deiscência mecânica; cada situação exige decisão própria.
Na clindamicina injetável, confira a dose por administração além do total diário. A bula citada limita a infusão única a 1.200 mg e desaconselha dose intramuscular acima de 600 mg. Dividir 2.700 mg/dia em duas tomadas produz 1.350 mg por dose, ultrapassando o primeiro limite. Verifique também concentração, diluição e velocidade.
A tabela de infusão da clindamicina mantém 30 mg/min: 300 mg em 10 minutos, 600 mg em 20, 900 mg em 30 e 1.200 mg em 40. Na coorte, as categorias de escore apresentadas totalizam 227 casos, e a distribuição de IMC soma 252. A obesidade corresponde a 23 dos 200 pacientes com informação disponível (11,5%). Esses denominadores distintos devem acompanhar cada percentual; um total válido em uma tabela não corrige outra.
A classificação da ferida por contaminação é desenvolvida no capítulo de profilaxia. Aqui, descreva os achados da avaliação: quantidade, aspecto e odor do exsudato, estado da pele, profundidade e sinais de falha fascial. A descrição objetiva orienta a reavaliação e a comunicação com o cirurgião.
No prontuário, prefira “drenagem serossanguinolenta” e registre volume, início e evolução. A expressão informal “água de carne” pode ajudar na comunicação, mas não substitui esses dados. Drenagem clara e abundante exige atenção à possibilidade de deiscência, conforme o contexto e o exame.
A conduta, hora a hora
O que segue é a manhã do senhor Cacílio Jaguarão: 66 anos, 78 kg, 1,72 m, quinto dia de pós-operatório de sigmoidectomia por adenocarcinoma de sigmoide, laparotomia mediana, sem intercorrência intraoperatória e sem antimicrobiano em curso — a profilaxia foi encerrada ao fechamento, conforme o percurso do capítulo de antibioticoprofilaxia. Temperatura de 37,9 °C às cinco da manhã, dor com endereço no terço inferior da incisão, mancha amarelada no curativo.
São oito marcos e nenhum deles é um exame de sangue. O relógio deste capítulo se conta em minutos na primeira hora e em dias depois dela — a diferença entre um paciente que fica bem e um que fica doze dias a mais está quase toda nos primeiros noventa minutos.
07h20 — antes de tocar no curativo
Termine a anamnese antes de abrir qualquer coisa, porque a resposta muda o que você vai procurar. Três perguntas: a dor está pior, igual ou melhor do que ontem, e onde exatamente. Evacuou ou eliminou flatos, e quando. Tossiu, vomitou ou fez esforço nas últimas 24 horas — porque isso pertence à outra metade deste capítulo. Depois, os sinais vitais completos da folha, com a frequência respiratória contada e não estimada, e a curva térmica das últimas 48 horas, não só a última medida. Higienize as mãos antes de encostar no paciente; as precauções por via de transmissão são de As mãos que circulam entre os leitos, na apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática.
Prescrição- Nenhuma alteração de prescrição ainda — a decisão vem depois do exame
- Solicitar à enfermagem material para curativo: soro fisiológico 0,9% aquecido em frasco de 500 mL com ponteira de irrigação, pacote de curativo, gaze estéril, luva estéril e de procedimento, e uma pinça de ponta romba
07h35 — o curativo sai, e a incisão inteira aparece
Paciente deitado, luz sobre a ferida, curativo removido com luva de procedimento. A gaze aderiu no terço inferior: solta com soro fisiológico, não com tração. A incisão mediana tem 18 cm. Os dois terços superiores estão com bordas coaptadas e uma faixa fina de hiperemia que não passa de meio centímetro. O terço inferior tem 5 cm de hiperemia que se estende cerca de 1,5 cm para cada lado, calor local evidente à comparação com a pele a dez centímetros, endurecimento com centro amolecido e flutuação nítida entre dois dedos. Ao comprimir, sai secreção purulenta amarelada, moderada, sem odor fétido. O restante do abdome está flácido, com ruídos hidroaéreos presentes, sem dor à descompressão. Descreva agora, mentalmente, pelos cinco eixos — porque em vinte minutos você vai escrever isso e a memória já terá suavizado.
Prescrição- Manter o curativo aberto até a conclusão do procedimento
- Não recolocar gaze sobre a coleção antes de decidir
07h50 — abrir, e como se abre
A suspeita é de coleção subcutânea, sem repercussão importante. Antes de abrir, comunicar ao responsável, avaliar profundidade e sinais de falha fascial e garantir analgesia, técnica e supervisão. A abertura e drenagem limitadas ao segmento comprometido podem ocorrer à beira do leito por profissional habilitado quando a avaliação sustenta esse plano. Não introduzir dedo ou instrumento profundamente para testar a integridade da aponeurose. No desfecho do caso, a avaliação supervisionada confirma coleção superficial e fáscia íntegra, permitindo cuidado local. Aspecto brilhante isolado não prova ausência de infecção profunda, e drenagem não encerra o acompanhamento. Dúvida sobre plano, saída de líquido serossanguinolento abundante, evisceração ou deterioração muda o local e a urgência do tratamento.
Prescrição- Retirada dos pontos do terço inferior da incisão, cerca de 5 cm
- Abertura e drenagem de coleção superficial por profissional habilitado, com analgesia, técnica asséptica e supervisão; interromper exploração se houver dúvida sobre profundidade ou fáscia.
- Lavagem com soro fisiológico 0,9% morno em jato
- Ferida deixada aberta para cicatrização por segunda intenção; curativo com gaze umedecida em soro fisiológico
- Curativo a cada 24 horas e sempre que molhar, sujar ou soltar
08h05 — o que se colhe, e o que não se colhe
Decida cultura pela pergunta que o resultado pode responder, pelo hospedeiro e pela gravidade, não apenas por ter ou não escrito antibiótico. Quando indicada, prefira material representativo, como pus aspirado ou tecido, obtido com técnica adequada; swab superficial de pele ou secreção contaminada tem baixo valor. Obter amostras antes do antimicrobiano quando isso não atrasar tratamento necessário. Hemocultura se orienta por suspeita de infecção sistêmica, não por febre alta obrigatória. Hemograma e outros exames devem responder a uma necessidade clínica; não são pré-requisito para drenar nem rotina diária obrigatória após todo procedimento simples.
Prescrição- Solicitar hemograma e exames adicionais conforme repercussão, comorbidades e dúvida clínica; evitar repetição automática sem pergunta definida.
- Discutir cultura de material representativo conforme gravidade, recorrência, hospedeiro e possibilidade de mudar a conduta.
- Hemoculturas se houver suspeita de infecção sistêmica; ausência de febre alta não a exclui.
- Quando indicada cultura, priorizar pus aspirado ou tecido antes do antimicrobiano, sem atrasar terapia urgente; evitar swab superficial contaminado.
08h15 — a prescrição, e a linha que não se escreve
Neste caso a avaliação favorece infecção superficial localizada, adequadamente drenada, sem celulite progressiva, repercussão sistêmica ou condição do hospedeiro que mude o risco. A equipe pode conduzir com controle local e vigilância, sem antibiótico sistêmico automático. A extensão em centímetros não é critério isolado de decisão: progressão, profundidade, sinais sistêmicos, imunossupressão e resposta importam. Se o quadro mudar, reexaminar foco e necessidade de antibiótico. Manter analgesia para as trocas, nutrição, mobilização e profilaxia de tromboembolismo quando ainda indicada e sem contraindicação nova.
Prescrição- Sem antimicrobiano sistêmico — registrar na evolução o motivo da não prescrição
- Analgesia mantida, com dose de resgate prevista trinta minutos antes da troca de curativo
- Dieta mantida conforme evolução do trânsito
- Profilaxia de tromboembolismo venoso mantida sem alteração
- Deambulação assistida três vezes ao dia
- Comunicar imediatamente ao médico: febre acima de 38 °C, calafrio, aumento da área avermelhada, dor que aumenta, ou saída de líquido claro e abundante pelo curativo
08h30 — a conversa, que é com duas pessoas
Com o senhor Cacílio, a pergunta que ele vai fazer é se a ferida vai ser costurada de novo, e a resposta honesta é que não — que ela vai fechar de dentro para fora, que isso leva semanas e não dias, e que ele provavelmente vai para casa com o curativo. Com a enfermagem, o que precisa ser combinado é o que vale mais do que a prescrição: quem troca, com que frequência, e o que faz chamar o médico antes da próxima visita. E com o cirurgião, uma ligação de trinta segundos, porque a ferida é dele: o que você encontrou, o que fez, e que a aponeurose estava íntegra ao toque.
Prescrição- Registrar em prontuário o conteúdo da conversa com o paciente sobre cicatrização por segunda intenção
- Passagem verbal à enfermagem com os quatro gatilhos de chamada imediata
- Comunicação ao cirurgião assistente, com o achado do fundo da ferida
09h00 — o que se escreve, e por que a descrição vale mais que o diagnóstico
A evolução deste dia tem de servir para uma coisa só: permitir que o plantonista de amanhã, que não viu esta ferida, decida se ela piorou. Diagnóstico sem descrição não permite isso — "infecção de ferida operatória" é uma frase que não se compara com nada. Escreva pelos cinco eixos, com números, e termine com o que você espera encontrar. Registre também, explicitamente, a decisão de não prescrever antimicrobiano e o motivo dela, porque decisão negativa não registrada é lida como esquecimento e alguém prescreve à noite. E registre a classificação em incisional superficial, com a data da cirurgia — porque a data da infecção, pela régua nacional, é a data do procedimento, e não a de hoje.
Prescrição- Evolução com: extensão da hiperemia em centímetros, quantidade e característica do exsudato, aspecto do leito, aspecto dos bordos e da área periferida
- Registro do achado do fundo da ferida: aponeurose contínua, sem deiscência ao toque
- Registro da conduta: retirada de pontos em 5 cm, drenagem, lavagem, curativo aberto
- Registro da decisão de não prescrever antimicrobiano, com o motivo
- Classificação registrada: infecção de sítio cirúrgico incisional superficial; data da infecção é a data da cirurgia
- Comunicação à comissão de controle de infecção do serviço conforme rotina local
Do 6º dia em diante — a vigilância que procura outra coisa
A partir de amanhã, o exame da ferida continua, mas a pergunta muda. A primeira metade da pergunta é a esperada: a área de hiperemia diminuiu, o exsudato reduziu, o leito começou a granular? A segunda metade é a que quase ninguém faz e é a razão de este capítulo ter duas partes: esta ferida infectada agora tem risco aumentado de falhar na aponeurose, porque a coleção purulenta digeriu o tecido em volta dos pontos e porque o senhor Cacílio já tem o retrato de risco — homem, 66 anos, neoplasia, laparotomia mediana. Procure diariamente, no curativo, o líquido que não é pus: claro, rosado, abundante e sem odor. E procure, ao trocar, se as bordas do segmento aberto estão apenas separadas na pele ou se o fundo mudou de aspecto.
Prescrição- Reavaliação diária da ferida com o curativo aberto e a incisão inteira à vista
- Registro diário da extensão da hiperemia em centímetros, para permitir comparação
- Reavaliar o fundo da ferida a cada troca: aponeurose contínua, ou não
- Curva térmica e frequência cardíaca com atenção especial entre o 5º e o 12º dia
- Hemograma e proteína C reativa em 48 a 72 h, ou antes se houver piora clínica
Como saber se está funcionando
Sete parâmetros dizem se o que foi feito hoje funcionou, e seis deles se medem à beira do leito com o curativo aberto. Nenhum é a temperatura isolada.
Vale um aviso de calendário antes da tabela. A melhora de uma ferida aberta não é rápida nem espetacular: a hiperemia recua devagar, o exsudato passa de purulento a seroso ao longo de dias, e o leito leva quase uma semana para começar a granular de verdade. O que se procura na reavaliação de 24 horas não é cura — é direção. Ferida que está igual em 24 horas é aceitável; ferida que está pior não é.
Esperado: Estável em 24 h e menor em 48 a 72 h. Anotar o número, não o adjetivo
Se não melhora: Hiperemia em progressão, dor crescente ou nova repercussão exigem reavaliar profundidade, coleção residual e necessidade de antimicrobiano e controle do foco. Não esperar cruzar uma medida fixa em centímetros para pedir ajuda.
Esperado: Transição de purulento para seropurulento e depois seroso, com redução do volume ao longo de três a cinco dias
Se não melhora: Secreção persistente ou crescente pede reavaliação por profissional habilitado, procurando coleção residual, foco profundo ou comunicação entérica. Não reabrir e explorar profundamente de forma automática. Conteúdo fecaloide ou suspeita de falha da parede exige avaliação cirúrgica urgente.
Esperado: Aponeurose contínua, branca e brilhante, sem ponto que ceda
Se não melhora: Fundo que cede, que deixa o dedo entrar, ou saída de líquido claro em volume: o caso deixou de ser infecção incisional e passou a ser deiscência de aponeurose. Acionar o centro cirúrgico, não reavaliar amanhã
Esperado: Redução progressiva depois da drenagem; dor de troca de curativo é esperada e cede com o resgate analgésico
Se não melhora: Dor que aumenta enquanto o aspecto local melhora, ou dor desproporcional ao achado, é a bandeira da infecção necrosante. Dor que dá lugar a dormência na área central é pior ainda, e não é melhora
Esperado: Queda da temperatura em 24 a 48 h após a drenagem, com frequência cardíaca acompanhando
Se não melhora: Febre que persiste além de 48 h com a ferida drenada e de bom aspecto desloca a suspeita para o plano de baixo: infecção de órgão ou cavidade. Tomografia com contraste, e a investigação de febre sem foco é de Febre no paciente internado
Esperado: Queda da proteína C reativa e normalização progressiva do leucograma
Se não melhora: Marcador que não cai ou volta a subir não indica trocar antimicrobiano: indica procurar foco não controlado. A pergunta é sempre o que não foi drenado, e não qual droga falta
Esperado: Ausência. Curativo que encharca de líquido claro não é evolução esperada de ferida nenhuma
Se não melhora: Encharcamento súbito de líquido claro, rosado e sem odor é deiscência de aponeurose até prova em contrário. Paciente em decúbito dorsal com joelhos fletidos, jejum, acesso venoso calibroso, compressas estéreis umedecidas em soro fisiológico, e o cirurgião acionado. Não se explora deiscência na enfermaria
Onde o erro machuca
O dano: É o erro que mais se repete e o que sai mais caro, justamente porque tudo nele parece correto: há infecção, foi prescrito antibiótico, o paciente está sendo tratado. Só que a coleção continua fechada, a pressão dentro dela continua alta, a perfusão do tecido em volta continua baixa e a droga não chega onde a bactéria está. O paciente recebe dias de exposição, com toda a seleção de flora e o risco de colite que isso implica, e a ferida evolui exatamente como evoluiria sem nada — até que alguém a abra, quase sempre mais tarde e maior. Some-se o custo de internação prolongada, que no Brasil recai sobre o mesmo serviço que pagaria dez minutos de procedimento.
Como pegar a tempo: Transforme a decisão em duas perguntas independentes, nesta ordem e nunca ao contrário. Primeira: há coleção? Se há, ela se abre, e isso independe de qualquer outra coisa. Segunda: a infecção está caminhando pelo tecido em volta ou repercutindo sistemicamente? Só essa segunda pergunta autoriza a linha do antimicrobiano. Um paciente pode ter a primeira resposta sim e a segunda não — e é o caso mais comum.
O dano: O curativo que se troca por cima, ou que se reforça com mais gaze, esconde exatamente o segmento que decide a conduta. O interno que olha só a mancha da gaze vê a drenagem e não vê a extensão da hiperemia, não palpa a flutuação, não compara com ontem e não olha o fundo. Feridas inteiras de dezoito centímetros foram avaliadas por uma janela de três, e o segmento que estava se abrindo estava fora dela. A regra tem versão institucional: a régua federal de prevenção manda avaliar o local da incisão a cada curativo, não repor cobertura.
Como pegar a tempo: Toda troca de curativo é uma reavaliação da ferida inteira, das duas extremidades, com o paciente deitado e com luz. Gaze aderida sai com soro fisiológico e nunca com tração. Se você não viu os dois ângulos da incisão, você não examinou a ferida — anotou que trocou o curativo, que é outra coisa.
O dano: Duplo. Do lado epidemiológico, o resultado é descartado: a régua nacional de critério diagnóstico diz, em nota de rodapé dos três planos, que não serão considerados os resultados de culturas positivas coletadas por meio de swabs. Do lado clínico é pior, porque o resultado não é ignorado — ele volta com uma bactéria da pele, alguém a trata, e o paciente recebe um esquema dirigido a um colonizante enquanto a coleção real segue sem drenagem.
Como pegar a tempo: Ao abrir a ferida, aspire a coleção com seringa e agulha antes de lavar, ou colha um fragmento de tecido da parede da cavidade. Colha antes da primeira dose, e só quando houver decisão que o resultado mude. Ferida que vai ser aberta e não vai receber antimicrobiano não precisa de cultura nenhuma.
O dano: É o erro que custa a parede abdominal. A drenagem serossanguinolenta abundante, clara, rosada e sem odor é o único aviso que o corpo dá antes da evisceração, e ela chega disfarçada de problema de enfermagem. Trocada a gaze, o paciente segue com a aponeurose separada por horas ou por um dia inteiro, muitas vezes deambulando e fazendo esforço, até que a pele ceda. Quando a alça aparece, a cirurgia deixou de ser eletiva.
Como pegar a tempo: Faça a pergunta do caráter antes da pergunta do volume: é purulento ou é claro? Curativo encharcado de líquido claro, abundante e sem odor entre o quarto e o oitavo dia é deiscência de aponeurose enquanto não se demonstrar outra coisa, e quem demonstra é a sala. Estabeleça esse gatilho com a equipe de enfermagem por escrito, porque quem vai ver primeiro é ela.
O dano: Cada gesto desta lista já foi feito e cada um agrava. Recolocar a víscera dentro da cavidade contamina o peritônio e pode lesar a alça — é a mesma proibição que o capítulo de trauma abdominal penetrante ensina para a evisceração traumática, pelo mesmo motivo. Cobrir com gaze seca faz o curativo aderir à serosa e arrancar tecido na retirada. Aplicar antisséptico sobre a alça produz lesão química. Puxar o que está exposto para ver melhor aumenta a exteriorização. E pedir tomografia para confirmar o que já está à vista tira o paciente da fila do centro cirúrgico.
Como pegar a tempo: Decore a sequência do que se faz, porque na hora não dá para consultar: decúbito dorsal com joelhos fletidos, jejum, acesso venoso calibroso, analgesia, sonda nasogástrica se houver distensão ou vômito, e compressas estéreis umedecidas em soro fisiológico sobre a víscera, reumedecidas conforme secarem. Depois: cirurgião, anestesia, família, exames e reserva de sangue. Nada mais.
O dano: "Ferida operatória com sinais flogísticos e secreção" é uma frase que o plantonista de amanhã não consegue comparar com nada, e a comparação entre dois dias é o instrumento diagnóstico mais poderoso deste capítulo. O segundo dano é mais silencioso: quando a decisão de não prescrever antimicrobiano não está registrada com o motivo, ela é lida como esquecimento, e alguém a corrige de madrugada. A prescrição que você evitou às oito da manhã entra às onze da noite, por um plantonista que agiu com prudência diante de um prontuário incompleto.
Como pegar a tempo: Descreva pelos cinco eixos, com números: extensão da hiperemia em centímetros, quantidade e característica do exsudato, aspecto do leito, dos bordos e da área periferida — e o achado do fundo da ferida. Escreva o que espera encontrar amanhã. E escreva, com todas as letras, que não foi prescrito antimicrobiano e por quê.
O que dizer ao paciente e à família
Só três das sete conversas abaixo são com o paciente; as outras quatro são com quem cuida dele. Poucas decisões da enfermaria passam por tantas mãos quanto a de uma ferida operatória complicada — o interno abre, a enfermagem troca, o cirurgião responde pela parede, a família interpreta o que vê, e o plantonista da noite decide sobre um registro que não escreveu.
As três primeiras têm um problema comum: o paciente está sendo informado de que a coisa piorou, e a maneira de dizer isso decide se ele vai ou não avisar quando piorar de novo.
Ao decidir abrir a ferida, antes de retirar o primeiro ponto
“"Seu Cacílio, a parte de baixo do corte juntou líquido por dentro, e ele precisa sair. Vou tirar alguns pontos dessa parte e abrir uns cinco centímetros, aqui embaixo — o resto do corte fica como está. Vai sair secreção e vai incomodar por uns segundos. Depois disso a ferida fica aberta de propósito, com curativo, e vai fechar por dentro, sozinha, ao longo de algumas semanas. Não vou costurar de novo, e isso não é problema: é assim que ela cicatriza melhor."”
Não diga: Evite "vou limpar a ferida", que descreve outra coisa e faz o paciente esperar um curativo. Evite anunciar a abertura como fracasso da cirurgia. E não prometa que não vai doer.
Quando o paciente pergunta por que não vai tomar antibiótico
“"O antibiótico serve quando a infecção está andando pelo tecido em volta ou já foi para o sangue. A sua está presa num bolso, e o bolso a gente abriu — o remédio não chegaria lá dentro de qualquer jeito. Se aparecer febre, calafrio, se a vermelhidão começar a crescer ou a dor aumentar, aí muda, e a gente começa na hora. Por isso vou querer olhar essa ferida todo dia."”
Não diga: Evite "não precisa" seco, que soa a economia. Evite prometer que não vai precisar nunca. E não use "é só uma infecçãozinha": o paciente que ouve isso não liga a campainha quando piora.
Quando o paciente ou a família pergunta se houve erro do cirurgião
“"Infecção da ferida é a complicação mais comum de qualquer cirurgia, e ela acontece mesmo quando tudo foi feito certo — o antibiótico antes da incisão, a técnica, o cuidado da equipe. No caso do senhor, a cirurgia foi no intestino, que é uma área com bactéria por natureza. O que a gente faz agora é tratar, acompanhar de perto e explicar tudo o que for aparecendo. Se em algum momento eu achar que houve algo errado, eu vou dizer."”
Não diga: Evite defender a equipe antes de entender a pergunta, e evite prometer que não houve falha antes de saber. Se a família estiver formalizando uma queixa ou se houver evento adverso de fato, a conduta é de A hora seguinte, na apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática — não desta conversa.
Com a família, quando o paciente volta ao centro cirúrgico por deiscência
“"A parede da barriga tem uma camada firme por dentro, que é a que segura tudo no lugar, e nela os pontos cederam. A pele por fora não mostra isso — o que apareceu foi um líquido claro no curativo, e é esse líquido que nos avisou. Ele precisa voltar para o centro cirúrgico hoje para essa camada ser fechada de novo. Não é uma cirurgia nova da doença dele; é o fechamento da parede. Vou avisar vocês assim que ele sair da sala."”
Não diga: Evite a palavra "abriu" sem explicar o que abriu, porque a família imagina a barriga aberta. Evite prometer horário de término. E não diga que "é rápido".
Com a equipe de enfermagem, ao deixar a ferida aberta
“"Ferida aberta no terço inferior, curativo com gaze úmida em soro, troca uma vez ao dia e sempre que molhar ou soltar. Quatro coisas me chamam antes da próxima visita: febre acima de 38, calafrio, vermelhidão que aumenta, ou curativo encharcado de líquido claro e sem cheiro. Esse último é o mais importante e é o que menos parece grave — se acontecer, me chamem mesmo de madrugada."”
Não diga: Evite deixar isso só na prescrição escrita: a passagem verbal é o que faz o gatilho funcionar. E evite listar dez sinais — quatro se lembram, dez não.
Ao telefone com o cirurgião, na suspeita de infecção necrosante
“"Preciso que você venha agora. Suspeita de infecção necrosante de ferida operatória. Segundo dia de pós-operatório, dor desproporcional ao que se vê e crescendo apesar da analgesia, edema que passa da área vermelha, uma bolha escura no bordo, e ele está taquicárdico com 122 e confuso. Já pedi vaga na unidade de terapia intensiva e avisei a anestesia. Não pedi imagem."”
Não diga: Evite começar pela história e chegar ao ponto no fim. Diga a suspeita pelo nome na primeira frase. Evite pedir exame para "ir adiantando" — e evite qualquer formulação que permita a resposta "passo aí quando terminar".
Na alta, com a ferida ainda aberta
“"O senhor vai para casa com a ferida aberta, e isso está certo. A troca é uma vez ao dia, do jeito que a enfermagem ensinou, e o senhor tem consulta marcada para daqui a cinco dias. Volta antes se: febre, se a vermelhidão em volta aumentar, se a dor aumentar em vez de diminuir, se a secreção mudar de cor ou ganhar cheiro, ou se sair líquido claro em quantidade. Está tudo escrito nesta folha, e o telefone do serviço está embaixo."”
Não diga: Evite alta com orientação apenas verbal. Evite "qualquer coisa procure um pronto-socorro", que não diz o que é qualquer coisa. O conteúdo formal da alta — receita, retorno, sinais de alarme e relatório — é de Os quatro papéis, na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Indicar quando o escore aponta risco alto
A coorte brasileira de 252 ressuturas por evisceração aplicou retrospectivamente o escore de Rotterdam modificado aos seus próprios pacientes e concluiu que 164 deles, ou 72,2% dos classificáveis, teriam tido indicação de tela profilática antes da cirurgia índice — e que, portanto, a maior parte daquelas eviscerações seria potencialmente evitável. O argumento é de magnitude: se três em cada quatro pacientes que eviscerarão já são identificáveis antes de operar, deixar de identificá-los é o desperdício.
Rev Col Bras Cir 52:e20253814, 2025 (coorte retrospectiva, hospital terciário de Santa Catarina)
Não indicar rotineiramente, sobretudo em campo contaminado
A objeção é de material: tela é prótese, e prótese em campo potencialmente contaminado ou contaminado — que é a condição de boa parte das laparotomias de urgência — carrega risco próprio de infecção, de fístula e de reoperação para retirada. O desenho do estudo brasileiro não permite responder a isso: é uma série de pacientes que já eviscerou, sem grupo de comparação, e aplicar o escore a posteriori mede quantos eram de alto risco, não quantos teriam sido salvos. O próprio artigo usa a palavra "potencialmente".
Leitura do desenho do estudo (coorte retrospectiva sem controle); a objeção sobre prótese em campo contaminado é raciocínio clínico e não citação
Não há régua brasileira, e a decisão é do serviço
Não existe posição de sociedade nacional nem documento do Ministério da Saúde ou da Anvisa sobre indicação de tela profilática em fechamento de parede — este capítulo procurou e não encontrou. O escore usado na série brasileira é uma adaptação nacional de escores europeus, aplicada num serviço. Quem sustenta esta posição diz que, na ausência de régua, a decisão é do cirurgião e do serviço, com o insumo que ele tem.
Ausência de documento nacional, verificada nas fontes deste capítulo
A tela profilática é decisão do cirurgião antes ou durante a operação. Na enfermaria, use os fatores de risco apresentados para orientar vigilância: idade, neoplasia, tabagismo, anemia, hipoalbuminemia, doença pulmonar e tipo de incisão. Acompanhe especialmente mudanças da ferida entre o quarto e o décimo quarto dia e comunique novos achados.
Fechar — o fechamento primário retardado existe e é subutilizado
Existe uma terceira via entre suturar e deixar aberto, e ela está num documento federal brasileiro que este capítulo não abriu no original: o caderno 30 do Ministério da Saúde. Quem o leu e o discute é A parte que decide não é o ponto, na apostila de Procedimentos e Vias de Acesso, e o que aquele capítulo registra é o fechamento primário retardado — a via que quase ninguém usa, com limpeza e desbridamento rigorosos, cobertura estéril, inspeção diária e sutura por volta do terceiro ou quarto dia se não houver sinal de infecção. Quem sustenta esta posição argumenta que a ferida limpa e granulando não ganha nada em ficar aberta por semanas, e que o fechamento reduz tempo de curativo, dor de troca, custo e afastamento.
Caderno 30 do Ministério da Saúde — não aberto no original por este capítulo; lido e discutido em A parte que decide não é o ponto, na apostila de Procedimentos e Vias de Acesso
Não fechar — segunda intenção na ferida que já teve infecção estabelecida
A objeção é que o fechamento primário retardado foi descrito para a ferida traumática contaminada e não para a ferida operatória que já teve infecção declarada e drenada. Nesta, o espaço morto que se recria ao aproximar as bordas é o mesmo espaço onde a coleção se formou, e fechar sobre tecido que ainda tem carga bacteriana troca semanas de curativo por dias de reinternação. Quem sustenta esta posição prefere aceitar a cicatriz mais larga e o tempo mais longo.
Raciocínio mecânico do espaço morto, discutido na seção de mecanismo deste capítulo; não há documento brasileiro que decida o ponto
Discuta fechamento com o cirurgião após avaliar granulação, drenagem, condições do paciente e capacidade de realizar curativos e retornar. Registre quando a ferida deixou de drenar; o capítulo usa ausência de exsudato por 48 horas como um dos elementos dessa discussão. Apoio insuficiente exige organizar o cuidado, além de escolher a técnica.
Reoperar — parede sem continência é problema mecânico e não espera
Quem sustenta esta posição lembra que a deiscência contida é instável por definição: a pele não tem resistência de tração, e o que hoje é eventração pode ser evisceração amanhã, com contaminação, isquemia de alça e uma operação de urgência num paciente pior do que está agora. Fechar de forma programada, hoje, é sempre melhor do que fechar de urgência depois — e a série brasileira mostra que 10,1% dos pacientes ressuturados precisaram de uma terceira abordagem, o que é argumento tanto a favor quanto contra.
Rev Col Bras Cir 52:e20253814, 2025, quanto ao dado da terceira abordagem; o restante é raciocínio mecânico
Não reoperar — no paciente muito frágil, a operação pode ser pior que a doença
Quem sustenta esta posição observa que o paciente típico da deiscência é o mesmo que tolera mal outra anestesia: idoso, com neoplasia, anêmico, hipoalbuminêmico, com doença pulmonar. Fechar aponeurose sob tensão num tecido que já falhou tem alta chance de falhar de novo, e a alternativa de faixa de contenção, controle da pressão intra-abdominal, suporte nutricional e hérnia incisional programada é um desfecho aceitável e não um fracasso — a mesma lógica que o capítulo de cirurgia de controle de danos usa para a parede depois do abdome aberto.
Cirurgia de controle de danos e tríade letal, na apostila de Trauma, quanto à hérnia ventral programada como desfecho aceitável
Suspeita de falha fascial exige avaliação cirúrgica urgente, e alça exposta impõe proteção e encaminhamento imediato ao tratamento descrito. Pele íntegra não exclui deiscência profunda. Informe início e volume da drenagem, integridade da pele, condição geral e fatores que aumentam a pressão abdominal; a equipe define a abordagem.
O raciocínio, em voz alta
Volte ao senhor Cacílio Jaguarão: 66 anos, 78 kg, quinto dia de pós-operatório de sigmoidectomia por adenocarcinoma de sigmoide, laparotomia mediana de 18 cm, profilaxia encerrada em 24 horas. Temperatura de 37,9 °C às cinco da manhã, dor que voltou ontem à noite no terço inferior da cicatriz, mancha amarelada do tamanho de uma moeda no curativo. O residente está no centro cirúrgico e volta ao meio-dia. São sete e vinte: você avalia, comunica os achados e organiza a conduta com supervisão, acionando outro responsável se houver urgência.
Primeiro: termine a história antes de abrir o curativo
A dor está pior que ontem e tem endereço — isso já separa a fase inflamatória, que regride, do processo que avança. Ele eliminou flatos anteontem e evacuou ontem, o que afasta íleo e reduz muito a preocupação com o plano de baixo. Não tossiu, não vomitou, não fez esforço. Frequência cardíaca de 88, pressão arterial de 128 por 76, frequência respiratória de 16 contada, saturação de 96% em ar ambiente, sem confusão. A curva térmica mostra 37,9 hoje e nada acima de 37,4 nos quatro dias anteriores. Traduzindo: paciente estável, com um foco que apareceu, e nenhuma repercussão sistêmica.
Segundo: descubra a incisão inteira e percorra os cinco eixos
Dois terços superiores coaptados, com faixa de hiperemia de meio centímetro que não mudou. Terço inferior com 5 cm de extensão comprometida, hiperemia de 1,5 cm para cada lado da linha, calor evidente à comparação, endurecimento com centro amolecido e flutuação nítida. À compressão sai exsudato purulento, moderado, amarelado, sem odor fétido. Leito ainda não visível. Bordos com maceração no segmento inferior. Área periferida íntegra. Isso é uma coleção subcutânea, e coleção tem uma resposta só.
Terceiro: classifique, e note que a classificação não é burocracia
Pelos critérios da Nota Técnica 03/2026, há drenagem purulenta da incisão superficial com envolvimento de pele e subcutâneo — critério 1 do plano incisional superficial, fechado sem precisar de cultura, de imagem ou de febre. A data da infecção, pela mesma régua, é a data da cirurgia, não a de hoje. E vale saber o que essa classificação não aciona: sigmoidectomia não está entre os sete procedimentos de notificação nacional obrigatória em 2026, de modo que este caso não vai para nenhum denominador federal. Ele vai para a comissão de controle de infecção do serviço se ela vigiar por conta própria — e vai, obrigatoriamente, para o prontuário.
Quarto: abra, e olhe o fundo
Após avaliar profundidade e analgesia, o profissional habilitado, com técnica asséptica, abre o segmento comprometido e drena cerca de 15 mL de pus; o interno auxilia sob supervisão. A avaliação local favorece acometimento subcutâneo, sem evidência de falha fascial. Não se faz exploração profunda cega ou teste vigoroso de resistência; dúvida sobre fáscia, extensão ou comunicação encerra a exploração à beira do leito e exige avaliação cirúrgica. Lavagem e curativo seguem o serviço. A hipótese superficial permanece sujeita à evolução e ao exame completo, pois aparência do fundo isolada não exclui foco profundo concomitante.
Quinto: a linha do antimicrobiano, que não se escreve
Aplique a segunda pergunta, que é independente da primeira: a infecção está caminhando pelo tecido em volta ou repercutindo? A hiperemia é de 1,5 cm e não avança; não há linfangite; a temperatura é de 37,9 sem calafrio; a frequência cardíaca é de 88; não há disfunção. A resposta é não, e por isso não há indicação de antimicrobiano sistêmico. O controle do foco foi o tratamento. Sem indicação de antimicrobiano, também não há indicação de cultura — não existe decisão que o resultado mudaria. Hemograma e proteína C reativa hoje, mas como linha de base para a curva de amanhã.
Sexto: escreva de um jeito que amanhã possa comparar
Evolução com os cinco eixos e com números: 5 cm de extensão comprometida, hiperemia de 1,5 cm para cada lado, exsudato purulento moderado amarelado, bordos macerados no terço inferior, área periferida íntegra, fundo com aponeurose contínua. A conduta: retirada de pontos em 5 cm, drenagem de cerca de 15 mL, lavagem, curativo aberto. E a decisão negativa com o motivo: não prescrito antimicrobiano sistêmico por ausência de celulite progressiva e de repercussão sistêmica, com reavaliação diária. Sem essa última frase, alguém prescreve à noite.
Sétimo: combine os gatilhos, e diga qual deles é o que mais importa
Com a enfermagem, quatro gatilhos de chamada imediata: febre acima de 38 °C, calafrio, aumento da área avermelhada, e curativo encharcado de líquido claro e sem cheiro. Diga que o último é o mais importante e o que menos parece grave. Com o senhor Cacílio, a explicação de que a ferida vai fechar de dentro para fora ao longo de semanas. Com o cirurgião, uma ligação de trinta segundos com o achado do fundo.
Oitavo: a partir de amanhã, a pergunta muda
O senhor Cacílio agora tem duas vigilâncias em paralelo. A primeira é a esperada: a hiperemia recua, o exsudato reduz, o leito começa a granular. A segunda é a que este capítulo insiste: ele é homem, tem 66 anos, tem neoplasia e fez laparotomia mediana — o retrato exato da coorte de eviscerações, cuja mediana entre a cirurgia e a ressutura foi de oito dias. Ele está no quinto. A infecção que acabou de ser drenada digeriu tecido em volta dos pontos da aponeurose. Do sexto ao décimo quarto dia, todo curativo é também uma busca por líquido claro e abundante — e o fundo da ferida se reexamina a cada troca.
Faça você
Agora é dona Marfisa Lajedo, 74 anos, 54 kg, 1,58 m. Sétimo dia de pós-operatório de laparotomia mediana por obstrução intestinal por brida, com enterólise e sem ressecção. Tabagista de longa data, com doença pulmonar obstrutiva crônica e tosse produtiva diária, hemoglobina de 9,8 g/dL na véspera da cirurgia, albumina não dosada. Vinha bem: dieta líquida desde ontem, andando pelo corredor. Às seis da manhã a técnica de enfermagem chama você porque o curativo, trocado às vinte e duas horas de ontem, está encharcado. O líquido é rosado, translúcido, sem cheiro, e escorreu pela lateral do abdome molhando o lençol. Dona Marfisa diz que "estourou alguma coisa" quando ela tossiu, de madrugada, e que desde então sente a barriga "solta". A pele da incisão está íntegra, com todos os pontos no lugar; não há hiperemia, não há calor local e a palpação não dói mais que ontem. Frequência cardíaca de 96, pressão arterial de 118 por 70, temperatura de 36,8.
Primeiro: nomeie o líquido antes de qualquer outra coisa
A pergunta correta não é quanto molhou, é o que é. Purulento, ou claro? Aqui é claro, rosado, translúcido, abundante e sem odor — drenagem serossanguinolenta, o que a enfermaria brasileira chama de cor de água de carne. Isso não é infecção de ferida e não tem nada a ver com a hiperemia, que não existe neste caso. É líquido peritoneal chegando ao subcutâneo por uma aponeurose que já se separou.
Segundo: some os fatores, e note que eles estavam todos lá desde o começo
Setenta e quatro anos, tabagismo, doença pulmonar obstrutiva crônica com tosse produtiva diária, anemia com hemoglobina de 9,8, provável desnutrição com albumina que ninguém dosou, laparotomia mediana de urgência. É o retrato do paciente da coorte brasileira de eviscerações quase item por item — e o sétimo dia está dentro da janela em que aquela série concentrou os casos, cuja mediana foi de oito dias. A tosse da madrugada foi o gatilho mecânico, não a causa.
Terceiro: decida o que a pele muda, e o que ela não muda
A pele está íntegra e com os pontos no lugar. Isso muda o nome — é deiscência contida, ou eventração, e não evisceração — e muda a urgência de minutos para horas. Não muda o destino: a camada que dá continência à parede se separou, e pele não tem resistência de tração. O que hoje está contido pela pele pode não estar amanhã, sobretudo numa paciente que tosse todo dia.
Quarto: o que se faz na enfermaria, na ordem, sem esperar autorização
Decúbito dorsal com os joelhos ligeiramente fletidos para relaxar a parede. Jejum absoluto — a dieta líquida de ontem é suspensa agora. Acesso venoso calibroso e hidratação. Analgesia. Sonda nasogástrica se houver distensão ou vômito. Curativo com compressas estéreis umedecidas em soro fisiológico, sem compressão e sem esparadrapo tracionando a pele. Nada de deambulação, nada de sentar, nada de esforço. E controle da tosse, que é o que continua puxando a parede.
Quinto: quem se aciona, e nesta ordem
O cirurgião assistente, com a informação completa e curta: sétimo dia de laparotomia mediana, drenagem serossanguinolenta abundante iniciada após episódio de tosse, pele íntegra com pontos no lugar, paciente estável. A anestesia, para a avaliação pré-anestésica. O centro cirúrgico, para a vaga. A família, antes de a paciente sair do leito. E os exames que a sala vai querer, incluindo a amostra para reserva de sangue.
Sexto: o que não se faz, e por quê
Não se explora a ferida na enfermaria para "ver se abriu mesmo": abrir a pele transforma uma deiscência contida em evisceração dentro da enfermaria. Não se pede tomografia quando o quadro é este — o diagnóstico é clínico e o exame só atrasa. Não se prescreve antimicrobiano por causa do líquido, porque não há infecção: a decisão sobre antimicrobiano é da sala, conforme o achado. E não se troca o curativo de hora em hora reforçando gaze por cima, o que já foi o erro que atrasou o diagnóstico até as seis da manhã.
Continuidade do caso e prática do internato
No caso de Cacílio, apresente a hipótese e seus limites antes de propor a drenagem, e combine quais achados mudariam a conduta.
Questão integrativa 1
O quinto dia confirma que toda secreção é infecção superficial?
Questão integrativa 2
O interno deve introduzir o dedo profundamente para testar a fáscia?
Questão integrativa 3
É preciso esperar bolhas e crepitação para suspeitar de infecção necrosante?
Questão integrativa 4
Drenagem encerra a conduta da infecção superficial?
Questão integrativa 5
Antibiótico depende apenas de vermelhidão além de dois centímetros?
Questão integrativa 6
Como agir diante de evisceração?
Ver como fecharíamos
A hipótese principal é deiscência de aponeurose com pele íntegra — deiscência contida. A ausência de hiperemia, calor, dor local nova, exsudato purulento e febre reduz os sinais clínicos de infecção, mas não exclui infecção profunda ou concomitante. O líquido claro, rosado, abundante e sem odor é um sinal de alarme para falha da parede; não é o único aviso possível nem precisa estar presente antes de uma evisceração. A conduta é preparo imediato para o centro cirúrgico com a paciente em decúbito dorsal e joelhos fletidos, jejum absoluto, acesso venoso calibroso, analgesia, controle da tosse, compressas estéreis umedecidas em soro fisiológico sobre a incisão, e o cirurgião acionado agora — não na visita. Não se explora a ferida na enfermaria, não se pede imagem para confirmar e não se prescreve antimicrobiano pelo líquido. Se a pele tivesse cedido e houvesse alça exposta, mudaria o nome para evisceração e o único acréscimo à conduta seria a proibição absoluta de recolocar a víscera na cavidade e de cobri-la com gaze seca ou antisséptico. Duas coisas ficam para depois e vale registrá-las no prontuário: a albumina que nunca foi dosada numa paciente com este perfil, e a discussão sobre tela profilática, que é do cirurgião e é anterior à incisão — assunto tratado nas divergências deste capítulo. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. O dia ajuda a formular hipóteses, mas não determina profundidade nem exclui deiscência. 2. Não. A avaliação e eventual drenagem exigem supervisão e técnica; dúvida sobre plano demanda cirurgia. 3. Não. Dor desproporcional, progressão e deterioração podem anteceder sinais tardios. 4. Não. É preciso curativo, analgesia, reavaliação e vigilância de progressão ou falha fascial. 5. Não. Considerar extensão, repercussão, profundidade, controle de foco e condições do paciente. 6. Chamar cirurgia imediatamente, proteger vísceras com cobertura estéril umedecida e manter suporte; não tentar redução às cegas.
O quadro favorece infecção incisional superficial com coleção: abrir o segmento comprometido, drenar, irrigar e avaliar extensão e integridade fascial. Sem resposta sistêmica importante ou celulite extensa, antibiótico sistêmico não é rotineiramente necessário após controle adequado do foco. Antibioticoterapia isolada não substitui drenagem. A decisão de cultivar não depende exclusivamente de prescrever antibiótico; material purulento coletado adequadamente pode orientar tratamento se houver evolução desfavorável. Suspeita de extensão profunda ou complicação abdominal exige investigação adicional. Programar reavaliação da ferida.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Sem consultar nada, escreva os três planos da infecção de sítio cirúrgico e, ao lado de cada um, três coisas: o que se encontra ao descobrir a ferida, onde aquilo se resolve, e quem decide. Depois escreva, em uma frase, o que separa a ferida que só precisa ser aberta da ferida que também precisa de antimicrobiano. Em seguida, vá à enfermaria e descreva três feridas operatórias reais pelos cinco eixos do caderno 4 — morfologia, grau de contaminação com odor e exsudato, leito, bordos e área periferida —, com a extensão da hiperemia em centímetros. Compare a sua descrição com a que está na evolução daquele paciente. Conte em quantas delas seria possível, lendo só o prontuário, dizer se a ferida piorou.
Em 30 dias
Pegue o senhor Cacílio e mude um dado por vez, escrevendo qual conduta muda e por quê. Primeiro: a hiperemia mede 4 cm de cada lado e cresceu desde ontem. Segundo: ele tem prótese de quadril à direita colocada há dois meses e a ferida infectada é a da coxa, não a do abdome. Terceiro: ao abrir, o fundo não é aponeurose contínua e sai líquido claro. Quarto: ele está no segundo dia de pós-operatório, não no quinto, e a dor é desproporcional ao que se vê. Quinto: o exsudato é purulento e tem odor fecaloide. Sexto: ele tem 79 anos e a única cefalosporina disponível na farmácia é cefazolina — releia o teto de dose por idade da bula antes de escrever a linha. Depois, peça a padronização de antimicrobianos do seu serviço e confira quais das drogas deste capítulo existem lá, em que apresentação e com que restrição de prescrição.
Agora atenda
Agora atenda: homem de 68 anos, sexto dia de pós-operatório de gastrectomia subtotal por adenocarcinoma, laparotomia mediana. Está com febre de 38,4 °C desde ontem à noite, taquicárdico com 108, um pouco prostrado. A incisão tem hiperemia discreta que não mudou, sem calor, sem flutuação, sem drenagem — o curativo está limpo. Tem um dreno na loja cirúrgica cujo débito, que era seroso e de 80 mL por dia, virou turvo e caiu para 20 mL nas últimas 24 horas. A dieta líquida foi liberada anteontem e ele referiu "empachamento" ontem à tarde. O interno da noite anotou "ferida sem sinais flogísticos" e prescreveu dipirona. Decida o que fazer com esta ferida, o que fazer com este dreno, e qual exame você pede antes de conversar com o cirurgião — e explique por que a ausência de achado na incisão, neste caso, aumenta a preocupação em vez de diminuí-la.
