Cirurgia Geral › Pré e Pós-operatório
Sessenta minutos, e nem um dia a mais
Antibioticoprofilaxia cirúrgica e classificação de feridas
Escolher profilaxia pelo procedimento e pelo paciente, garantir dose e horário adequados e encerrar sem transformar dreno ou conversão em indicação automática.
Agência Nacional de Vigilância Sanitária — Medidas de Prevenção de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde. Série Segurança do Paciente e Qualidade em Serviços de Saúde, caderno 4. Brasília: Anvisa, 2017, 2ª edição. Capítulo 4 (Medidas de Prevenção de Infecção Cirúrgica), Anexo V (Profilaxia antibiótica por tipo de cirurgia) e Anexo VII (Conceito e Classificação de Ferida)
Agência Nacional de Vigilância Sanitária — Nota Técnica GVIMS/GGTES/DIRE3/ANVISA nº 03/2026: Critérios Diagnósticos das Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde de Notificação Nacional Obrigatória, ano 2026. Brasília-DF, 02 de janeiro de 2026, versão de 14 de julho de 2026
Agência Nacional de Vigilância Sanitária — Programa Nacional de Prevenção e Controle de Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (PNPCIRAS) 2026-2030. Brasília: Anvisa, janeiro de 2026
Agência Nacional de Vigilância Sanitária — Diretriz Nacional para Elaboração de Programa de Gerenciamento de Antimicrobianos em Serviços de Saúde, revisão de 13 de junho de 2023
Ministério da Saúde — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Rename 2024), estabelecida pela Portaria GM/MS nº 6.324, de 26 de dezembro de 2024
Bula profissional de Kefazol® (cefazolina sódica), pó para solução injetável 1 g, ABL Brasil, texto aprovado pela Anvisa em 04/03/2026
Ministério da Saúde / Anvisa / Fiocruz — Protocolo para Cirurgia Segura, aprovado pela Portaria GM/MS nº 1.377, de 9 de julho de 2013, no âmbito do Programa Nacional de Segurança do Paciente
ASHP/IDSA/SIS/SHEA. Clinical Practice Guidelines for Antimicrobial Prophylaxis in Surgery, 2013. [Acessar fonte](https://www.ashp.org/surgical-guidelines)
SHEA e sociedades colaboradoras. Strategies to prevent surgical site infections: 2022 Update, publicada em 2023. [Acessar fonte](https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10867741/)
Responda antes de ler
Paciente submetida a implante de prótese de quadril primária recebe alta no quinto dia de pós-operatório sem intercorrências. No sexagésimo dia após a cirurgia procura o serviço com dor, secreção purulenta e cultura positiva em material profundo periprotético. Segundo a Nota Técnica GVIMS/GGTES/DIRE3 nº 03/2026, como esse caso se enquadra na vigilância nacional?
O paciente que você vai ver
São sete e dez da noite de uma segunda-feira, e a enfermaria de cirurgia geral tem dezoito leitos com dezessete ocupados. Você é o interno da tarde e já devia ter ido embora, mas ficou para escrever as prescrições dos três pacientes que operam amanhã. Duas saíram rápido. A terceira está aberta na sua frente há oito minutos, e o que trava é uma linha só.
O leito 12 é do senhor Adelmo Jucá, 61 anos, 104 quilos, 1,74 metro, motorista de caminhão-tanque aposentado por invalidez depois de uma hérnia de disco. Está internado desde a manhã para colecistectomia videolaparoscópica eletiva, marcada para amanhã em segundo tempo — o que na prática significa entre nove e onze da manhã, dependendo de quanto demorar a cirurgia da frente. Tem diabetes tipo 2 em uso de metformina, hipertensão, e uma colelitíase que já lhe rendeu três idas ao pronto-socorro em oito meses.
A prescrição tem doze itens e você sabe onze. O que falta é a linha do antibiótico. O residente passou pelo posto há vinte minutos, olhou a folha por cima do seu ombro e disse quatro palavras: "põe a cefazolina aí". Depois foi para o centro cirúrgico e não voltou.
Quatro palavras que não respondem nada. Cefazolina em que dose, num homem de 104 quilos? A que horas, se a cirurgia é "em segundo tempo" e ninguém sabe a hora da incisão? Por quantos dias? E — a pergunta que o interno raramente faz porque parece boba demais — por que cefazolina, e por que neste paciente e não em outro?
A última pergunta é a que abre este capítulo, e a resposta é desconfortável: quem decide não é o paciente: é a ferida. E a ferida do senhor Adelmo ainda não existe. Ela vai existir amanhã, entre nove e onze, e vai ser classificada por quem estiver segurando a pinça, não por você hoje à noite com a pasta aberta.
Você vai prescrever, mesmo assim. Tem de prescrever: a dose precisa estar disponível na sala antes de a incisão acontecer, e ninguém prepara antimicrobiano no meio de uma indução anestésica. O que se faz aqui é uma aposta calculada sobre uma classificação que ainda não foi feita — e a arte deste capítulo é fazer essa aposta direito, deixando escrito o que muda se a aposta estiver errada.
Há uma segunda coisa que trava a linha, e ela não é técnica. Amanhã à tarde, com o senhor Adelmo já no leito e a vesícula num pote de formol, alguém vai perguntar se "mantém o antibiótico". A resposta certa é quase sempre não, e quase nunca é a que sai. Este capítulo termina exatamente aí — no momento em que ninguém para —, porque é lá que o erro mora.
Vale reparar em quem está envolvido nessa linha de doze caracteres. Você a escreve; a farmácia a dispensa; a técnica de enfermagem decide a que horas subir; o anestesista infunde; o cirurgião determina, dentro da sala, a classe da ferida que justifica ou não a continuidade; e um residente diferente do de hoje decide amanhã se para. Seis pessoas, cinco delas fora do seu alcance. A profilaxia cirúrgica é, por unidade de tempo, a decisão clínica com mais mãos envolvidas de todo o hospital — e por isso a parte que falha quase nunca é a escolha da droga.
A cena de amanhã tem quatro relógios diferentes correndo ao mesmo tempo: o da hora da incisão, o da duração da cirurgia, o do sangramento, e o do fim. Nenhum dos quatro está na cabeça de uma pessoa só. Se você não escrever os quatro, ninguém escreve.
Quem adoece disso
A infecção de sítio cirúrgico é a complicação mais comum do ato cirúrgico. O caderno 4 da Anvisa dimensiona o problema em três números que vale carregar: elas ocorrem em cerca de 3% a 20% dos procedimentos realizados; no Brasil aparecem em terceiro lugar entre o conjunto das infecções relacionadas à assistência, encontradas em aproximadamente 14% a 16% dos pacientes hospitalizados; e prolongam a internação, em média, de sete a onze dias.
O número que muda a maneira de encarar o assunto é outro, e está na mesma página: até 60% delas são passíveis de prevenção com as medidas já conhecidas. Isso significa que a maior parte da diferença entre um serviço com taxa baixa e um com taxa alta não está na sorte nem no perfil dos pacientes — está em coisas que se fazem ou não se fazem, e várias delas passam pela linha que você está escrevendo hoje à noite.
A escala do denominador ajuda a entender por que uma linha de prescrição vira política pública. O mesmo caderno estima entre 187 e 281 milhões de cirurgias de grande porte por ano no mundo, o equivalente a uma cirurgia para cada 25 seres humanos. Complicações variam entre 3% e 16%, e os óbitos podem alcançar entre 5% e 10% em países em desenvolvimento.
O Brasil tem uma meta nacional explícita para infecção de sítio cirúrgico, e ela é mais estreita do que se imagina. O programa nacional em curso, o PNPCIRAS 2026-2030, traz na Meta 12 o compromisso de, até 2030, reduzir para 4% ou menos a taxa nacional de infecção de sítio cirúrgico relacionada às cirurgias cardíacas para revascularização do miocárdio. É a única meta de resultado do programa para sítio cirúrgico, e ela cobre uma cirurgia só.
Isso não é descuido: é como a vigilância nacional está montada. A notificação obrigatória de infecção de sítio cirúrgico, segundo a Nota Técnica 03/2026, alcança sete procedimentos — cesariana, implante de prótese mamária, artroplastia primária de quadril, artroplastia primária de joelho, revascularização do miocárdio, derivação interna neurológica e cirurgia de catarata. A colecistectomia do senhor Adelmo não entra em nenhuma estatística nacional. A colectomia do leito ao lado também não.
Guarde a consequência prática, porque ela é contraintuitiva: a esmagadora maioria das cirurgias do país não é vigiada nacionalmente, e a qualidade da profilaxia nelas depende inteiramente do protocolo da casa e de quem prescreve. Não há painel que cobre. O que existe é uma Meta 7, no mesmo programa, que exige apenas que o hospital tenha um protocolo de prevenção de infecção de sítio cirúrgico implantado — não que ele seja seguido caso a caso.
Há um detalhe de linguagem que diz muito sobre onde a profilaxia mora no arranjo brasileiro. O PNPCIRAS 2026-2030 tem 83 páginas e nenhuma ocorrência da palavra "profilaxia". O programa que fixa as metas de infecção cirúrgica até 2030 encaminha tudo que é uso de antimicrobiano para outro documento: os Programas de Gerenciamento de Antimicrobianos, regidos pela diretriz nacional da própria Anvisa.
E essa diretriz é clara sobre a prioridade. Ao listar o que o protocolo institucional precisa cobrir, ela manda estabelecer droga, dose e duração para, "no mínimo, antibioticoprofilaxia cirúrgica" — antes das infecções comunitárias, antes das infecções relacionadas à assistência. A profilaxia cirúrgica é o primeiro item obrigatório de todo programa de uso racional de antimicrobianos do país.
A razão é aritmética. Profilaxia cirúrgica é o antimicrobiano prescrito mais vezes num hospital geral, para o maior número de pessoas, com a menor supervisão infectológica e a maior taxa de prolongamento indevido. Cada dia a mais que você deixa correr num paciente é multiplicado pelo número de cirurgias da casa. O caderno 4 da Anvisa fixa o teto em 24 horas com uma frase de nove palavras, e o Anexo V do mesmo caderno o ultrapassa em 23 linhas — a conta está no bloco de critérios.
Vale ter uma referência externa para não achar que o problema é só brasileiro. O mesmo caderno registra que, nos Estados Unidos, estima-se a ocorrência de 150 mil a 300 mil infecções de sítio cirúrgico por ano, responsáveis por 8.205 óbitos anuais, e que a infecção de sítio cirúrgico é apontada ali como a infecção relacionada à assistência mais comum e de maior custo. O custo assistencial estimado do tratamento chega a 1,6 bilhão de dólares por ano. O problema é da cirurgia, não de um sistema de saúde em particular.
Duas consequências disso aparecem em decisões que o interno toma sem perceber que são decisões. A primeira é que a profilaxia bem-feita não compete com as outras medidas: ela é uma das dez recomendações básicas do caderno 4, ao lado da tricotomia sem lâmina, do controle glicêmico, da normotermia, do preparo alcoólico da pele, da lista de verificação, do uso de protetores plásticos de ferida em cirurgias do trato gastrointestinal e biliar, da vigilância ativa e da educação do paciente. Quem faz a profilaxia impecável e deixa o paciente hipotérmico não compensou nada.
A segunda é que quatro abordagens estão listadas no mesmo capítulo como explicitamente não recomendadas, e três delas seguem sendo praticadas: utilizar vancomicina como droga profilática de rotina, postergar a cirurgia para prover nutrição parenteral, usar suturas impregnadas com antissépticos de rotina e usar curativos impregnados com antissépticos de rotina. A primeira é a que este capítulo encontra mais vezes, e ela quase nunca é uma decisão: é a consequência de um rótulo de alergia que ninguém apurou.
Uma última nota de escala, porque ela reaparece na conversa com a família. Quando a profilaxia é feita direito, ela é uma dose. Uma. O paciente entra no centro cirúrgico com o antimicrobiano circulando, sai sem ele, e vai para casa sem receita de antibiótico. Para um paciente que já foi ao pronto-socorro três vezes e recebeu antibiótico em duas delas, isso soa como descuido. Explicar por que não é vai custar dois minutos de conversa e evita a compra na farmácia.
Por que acontece o que acontece
A pergunta que organiza toda a farmacologia da profilaxia cirúrgica é curta: contra o quê, exatamente, ela protege? Não contra a bactéria do hospital, não contra o ar da sala, não contra a mão de quem opera — contra a que já está no paciente. O caderno 4 da Anvisa diz isso na segunda recomendação do item de profilaxia: determinar a microbiota provável, "uma vez que as infecções pós-operatórias são causadas geralmente pela microbiota do paciente".
Daí sai a primeira consequência, e ela decide a escolha da droga sem que ninguém precise pensar em antibiograma. A microbiota provável depende do que a incisão atravessa. Pele íntegra devolve cocos Gram-positivos, e por isso a cefazolina cobre 90% das cirurgias do Anexo V. Uma incisão que abre trato digestório baixo devolve enterobactérias e anaeróbios, e por isso as linhas de cólon e de trauma abdominal saem da cefazolina para a cefoxitina. A escolha da droga é geografia, não microbiologia individual.
A segunda consequência é temporal, e é o coração deste capítulo. A contaminação da ferida não acontece ao longo do pós-operatório: acontece enquanto a ferida está aberta, com pico no momento da incisão e durante a manipulação. O que a profilaxia precisa garantir é concentração tecidual acima da concentração inibitória do provável agente no instante em que a lâmina entra, e mantê-la enquanto os planos estiverem abertos. Isso muda tudo sobre a hora: um antimicrobiano intravenoso leva tempo para sair do plasma e chegar ao interstício da parede abdominal, de modo que a dose que entra depois da incisão tem o seu pico quando a contaminação já ocorreu, e a que entra cedo demais já está caindo quando a lâmina entra. A janela existe porque a curva de concentração tem subida e descida, e não porque alguém escolheu um número redondo.
A meia-vida explica a descida e explica o repique. A bula da cefazolina registra meia-vida sérica de aproximadamente 1,8 hora após administração intravenosa. O caderno 4 da Anvisa transforma isso numa regra que se aplica a qualquer droga, sem precisar de tabela: em cirurgias longas, repetir o antimicrobiano após um intervalo igual a duas vezes a meia-vida, contado a partir da infusão da primeira dose. Para a cefazolina, duas meias-vidas são 3,6 horas — e o Anexo V arredonda para 4 em 4 horas.
Há um segundo gatilho de repique, e ele não tem relógio: o sangramento. Sangue perdido é volume de distribuição perdido com droga dentro. Quando a perda é grande, a concentração tecidual cai antes do tempo previsto, e o intervalo calculado pela meia-vida deixa de valer. Na prática, sangramento importante e reposição volêmica vigorosa são indicação de repique independentemente de quanto tempo passou — a conta de meia-vida pressupõe um compartimento que não está sendo esvaziado.
O peso entra pela mesma porta. A dose de indução tem de encher um compartimento, e o compartimento de um homem de 104 quilos é maior que o de uma mulher de 52. O caderno 4 lista o ajuste de dose no obeso entre as dez recomendações básicas e o repete na seção de fatores de risco. O Anexo V opera esse ajuste de modo explícito na cirurgia bariátrica, onde a dose de indução da cefazolina sobe de 2 g para 3 g.
Falta a pergunta que ninguém faz: por que continuar não funciona? Porque, depois de a ferida ser fechada, não há mais inóculo novo entrando. A contaminação que houve, houve; a que não houve, não vai haver por uma incisão que já está suturada. A partir do fechamento, cada dose adicional não previne nada e faz três coisas: seleciona flora resistente no paciente e na unidade, expõe a toxicidade da droga, e consome um dia de terapia que a diretriz de gerenciamento conta como dia inteiro mesmo que a dose seja única.
É por isso que profilaxia e tratamento são categorias diferentes, e não graus da mesma coisa. Profilaxia tem data de término escrita antes de começar; tratamento tem data de término que depende da resposta do paciente. O caderno 4 formaliza a fronteira numa frase que vale decorar: se uma infecção for identificada durante a cirurgia, o antimicrobiano passa a ter cunho terapêutico, deve ser reformulado de acordo com a infecção encontrada e estendido até quando clinicamente indicado.

Como se apresenta de verdade
O pedido que chega até você é sempre a mesma frase — "faz a prescrição de amanhã" — e a linha do antimicrobiano é diferente em cada uma das situações abaixo. O que as separa não é a gravidade do paciente nem o porte do procedimento: é a classificação da ferida operatória, que o Anexo VII do caderno 4 da Anvisa organiza em quatro classes segundo o grau de contaminação.
Vale dizer de saída o que essa classificação é e o que ela não é. Ela descreve o que a incisão atravessa e o que aconteceu durante o ato. Por isso é uma classificação do intraoperatório: só quem esteve na sala sabe se a víscera foi aberta, se houve extravasamento, se a técnica asséptica foi quebrada. O que se faz na véspera é prever a classe. A previsão erra com frequência suficiente para que a prescrição tenha de dizer o que muda quando ela erra.
Seis situações, seis linhas diferentes. A primeira e a última são as que mais confundem o interno.
A ferida limpa sem implante — a que divide opinião
Homem de 40 anos, saudável, herniorrafia inguinal eletiva com tela. Não se abre trato digestório, geniturinário nem respiratório; a incisão atravessa pele, subcutâneo e aponeurose, e a probabilidade de infecção que o Anexo VII atribui à classe limpa é de 1% a 5%.
Este é o único ponto do capítulo em que as fontes brasileiras não convergem, e a divergência está registrada no bloco próprio. O caderno 4 abre a seção de profilaxia antimicrobiana dizendo que deve haver indicação apropriada "pois ensaios clínicos sugerem benefícios mesmo em cirurgias limpas, nas quais não se indicava profilaxia". O Anexo V do mesmo caderno escreve "opcional" para hérnia de baixo risco e para as cirurgias plásticas estéticas. E a bula da cefazolina registrada no Brasil restringe a indicação profilática a procedimentos classificados como contaminados ou potencialmente contaminados, abrindo exceção apenas para as cirurgias em que a infecção seria devastadora.
Fatores de risco do paciente e da operação orientam a indicação. Quando se usa cefazolina no esquema ASHP, a dose adulta é 2 g, ou 3 g com peso ≥120 kg, com redose geralmente após quatro horas e ajuste por perdas e particularidades. O caso de 104 kg recebe 2 g na dose inicial e na redose. O objetivo é cobertura adequada durante a contaminação operatória, com término ao fechamento no percurso SHEA adotado.
A frase que resolve na prática: se você não consegue nomear qual desses critérios o seu paciente tem, provavelmente ele não tem nenhum, e a discussão volta a ser a divergência da literatura — que se decide pelo protocolo da casa, não pelo interno na véspera.
Há um detalhe da definição que confunde e vale corrigir agora. A classe limpa não quer dizer ferida estéril. O Anexo VII a define, literalmente, como condições assépticas sem microrganismos, mas o que a torna limpa é não ter sido aberto sistema digestório ou geniturinário — a pele continua colonizada, e é dela que vem o Staphylococcus aureus que infecta uma prótese. Se ferida limpa fosse ferida sem bactéria, não haveria razão para discutir profilaxia nela.
A ferida limpa com implante — onde ninguém discute
Mulher de 68 anos, artroplastia total de joelho eletiva. A ferida é limpa exatamente pelo mesmo critério da anterior: nenhuma víscera colonizada é aberta. E ainda assim ninguém discute a profilaxia aqui.
A razão não está na probabilidade de infecção, que é baixa, mas na consequência dela. Um corpo estranho implantado reduz drasticamente o inóculo necessário para que a infecção se estabeleça e transforma um evento tratável com antibiótico numa cirurgia de revisão, com retirada da prótese. O Anexo V trata artroplastia primária e revisão de artroplastia em linhas próprias, e a própria bula da cefazolina nomeia a artroplastia protética como um dos dois exemplos de cirurgia em que a infecção "pode representar um grave risco".
Há uma segunda razão, e ela é de vigilância. Implante de prótese de quadril e de joelho primárias estão entre as seis cirurgias que a Nota Técnica 03/2026 manda monitorar por 90 dias, e não pelos 30 habituais. O paciente que infecta a prótese no 70º dia de pós-operatório continua sendo um caso notificável, e a busca ativa após a alta tem de cobrir esse período inteiro.
A implicação para quem prescreve na véspera: em cirurgia com implante, a checagem da hora e da dose não é burocracia. É a diferença entre uma reabilitação de seis semanas e uma revisão em dois tempos com espaçador de cimento.
É também nesta faixa de cirurgias que o caderno 4 abre uma frente que não existe nas demais: a busca de portadores nasais de Staphylococcus aureus no pré-operatório, com descolonização por mupirocina intranasal a cada 12 horas por cinco dias associada a banho de clorexidina degermante no corpo todo pelo mesmo período. É uma medida de véspera, não de sala, e depende de o paciente ter sido investigado com antecedência — o que raramente acontece quando a cirurgia é agendada com dez dias. Vale saber que ela existe, e que o próprio documento não é consistente sobre quem deve recebê-la; a divergência interna está registrada nas notas do bloco de critérios.
A ferida potencialmente contaminada — o caso do senhor Adelmo
Colecistectomia videolaparoscópica eletiva. A via biliar é um sistema colonizável e a vesícula será aberta ou manipulada dentro da cavidade, o que coloca a ferida na segunda classe do Anexo VII: limpa-contaminada, também chamada de potencialmente contaminada, com risco de infecção declarado de 3% a 11%.
Aqui aparece a primeira armadilha real da tabela nacional. O Anexo V não trata toda colecistectomia igual: para a colecistectomia aberta, prescreve cefazolina 2 g na indução com repique de 1 g a cada 4 horas e nada no pós-operatório; para a laparoscópica, distingue baixo risco — em que a profilaxia não é indicada — de alto risco, com sete gatilhos nominados: colangiografia intraoperatória, vazamento de bile, conversão para aberta, pancreatite ou colecistite aguda, icterícia, gravidez, imunossupressão e inserção de prótese. Esses valores reproduzem o documento histórico comparado; não usar sua redose de 1 g como prescrição principal. No percurso atual deste capítulo, a redose de cefazolina mantém a dose adequada ao peso, 2 g no caso de 104 kg.
Leia a lista de novo e note o que ela tem de estranho para quem prescreve na véspera: cinco dos oito gatilhos só se conhecem dentro da sala. Vazamento de bile, conversão para aberta e colangiografia são eventos intraoperatórios. Não há como saber na noite anterior se o senhor Adelmo vai ser um caso de baixo ou de alto risco.
A decisão pré-operatória deve registrar indicação, droga, dose pelo peso, janela, redose e término. Durante a operação, achados novos podem exigir revisão. Ao fechar a pele, a equipe distingue profilaxia encerrada de eventual tratamento por infecção, sem transformar toda intercorrência em mais 24 horas preventivas.
Um segundo dado do senhor Adelmo muda a dose e não a indicação: 104 quilos com 1,74 metro dão índice de massa corporal de 34,4. O ajuste no obeso é uma das dez recomendações básicas do caderno 4, e o único lugar em que o Anexo V o quantifica é a bariátrica, onde a indução sobe para 3 g.
A ferida que muda de classe dentro da sala
Mesma colecistectomia, mesmo paciente, e às 10h20 a vesícula se rompe durante a dissecção do leito hepático, com saída de bile e cálculos para a cavidade. A ferida que entrou na sala como potencialmente contaminada saiu como contaminada.
A definição do Anexo VII para a terceira classe é ampla e mistura dois mundos: feridas que apresentam reação inflamatória, que tiveram contato com material contaminado, ou em que já se passaram seis horas entre o ato que produziu a ferida e o atendimento. O risco declarado sobe para 10% a 17%.
O Anexo V histórico prevê até 24 horas em determinadas linhas de alto risco. Esse prazo não é obrigação diante de qualquer extravasamento biliar. No percurso SHEA adotado, encerrar profilaxia ao fechamento e separar eventual tratamento de infecção por indicação explícita. Registrar contaminação, controle realizado e decisão permite que a enfermaria compreenda por que o antibiótico terminou ou foi reformulado.
Mudança da classe da ferida exige rever os achados e o risco, mas não determina automaticamente prolongamento preventivo. Infecção suspeita ou estabelecida pede tratamento apropriado e controle do foco; contaminação durante um procedimento não autoriza chamar qualquer duração de profilaxia.
A ferida infectada — em que isto deixa de ser um capítulo sobre profilaxia
Apendicite aguda com perfuração e peritonite purulenta difusa. A quarta classe do Anexo VII descreve presença de agente infeccioso no local, com evidência de intensa reação inflamatória e destruição de tecidos, podendo haver secreção purulenta. É a única das quatro classes que o anexo descreve sem atribuir faixa de risco.
E é a única em que o antimicrobiano que você prescreve não é profilaxia. O caderno 4 fecha a seção de profilaxia com a regra: identificada infecção durante a cirurgia, o antimicrobiano passa a ter cunho terapêutico, deve ser reformulado conforme a infecção encontrada e mantido até quando clinicamente indicado. O relógio muda de dono — sai do bloco cirúrgico e vai para a beira do leito.
O diagnóstico e a conduta da apendicite são do capítulo de apendicite aguda; a peritonite estabelecida e a escolha e a duração do esquema na enfermaria são do capítulo de antibioticoterapia na enfermaria, e o reconhecimento de sepse é do capítulo de sepse e choque séptico. O que fica aqui é só a fronteira: o momento em que a palavra profilaxia deixa de se aplicar, e a obrigação de escrever isso na prescrição para que quem receber o paciente saiba qual dos dois relógios está correndo.
Há um caso intermediário que merece nome próprio, porque ele não é nem uma coisa nem outra e é onde o Anexo V se perde. Fratura exposta, ferida traumática com mais de seis horas, perfuração de víscera oca sem peritonite estabelecida: nessas situações não há infecção instalada e há contaminação maciça já ocorrida. O antimicrobiano ali não previne a contaminação, que já aconteceu, e não trata uma infecção, que ainda não existe — é tratamento preventivo, uma terceira categoria com lógica própria. O Anexo V acomoda essas linhas na mesma tabela de profilaxia, com durações de 48 horas e de 5 dias, e é daí que sai boa parte da impressão de que profilaxia longa existe.
A confusão nesse ponto tem um custo específico e mensurável. Um esquema iniciado como tratamento e rotulado na folha como "profilaxia" nunca é revisto no terceiro dia, porque profilaxia não se revisa — se suspende. E um esquema iniciado como profilaxia e rotulado como "tratamento" nunca termina, porque tratamento tem alta e não tem prazo.
O paciente que já está em antibiótico quando desce para a sala
Situação corriqueira e mal ensinada: o paciente está internado há cinco dias em cefepima por pneumonia associada à assistência, melhorou, e agora vai à sala para uma cirurgia não relacionada — uma colecistectomia, uma redução de fratura, um debridamento.
A pergunta que a equipe faz é se "precisa da cefazolina". A pergunta correta é outra: o esquema em curso cobre a flora provável do sítio que vai ser incisado, e há concentração adequada no momento da incisão? São duas perguntas, e a segunda quase sempre é esquecida. Um antimicrobiano prescrito de 12 em 12 horas cuja última dose foi às 8h da manhã não garante concentração numa incisão às 14h.
A regra operacional que fecha as duas: alinhe a dose do esquema em curso com a hora da incisão, em vez de acrescentar uma droga. Se a cobertura for adequada ao sítio, o que se faz é programar a dose para a indução, e não somar cefazolina a cefepima. Se a cobertura não for adequada — esquema anti-Gram-negativo puro numa cirurgia de pele e partes moles, por exemplo —, então há indicação de acrescentar a droga que falta, com janela e redose apropriadas e término definido pelo procedimento, em geral no fechamento no percurso adotado.
O caderno 4 não escreve essa regra em uma frase única, e este capítulo a assume: ela é dedução direta de duas coisas que o documento afirma — que a profilaxia se define pela microbiota provável do sítio, e que a dose efetiva precisa estar presente no momento da incisão. O que o documento diz explicitamente, e que reforça a conduta, é a recomendação de evitar drogas úteis no tratamento de infecções graves e de escolher o antimicrobiano menos tóxico e de menor custo entre os de igual eficácia.
Como fechar o diagnóstico
Este é um capítulo de prescrição, não de diagnóstico, e por isso a investigação não pede exames — pede dados. São seis, todos disponíveis na véspera, e cada um decide uma parte diferente da linha. Um dado que falta não atrasa a cirurgia: produz uma prescrição errada que ninguém percebe.
A avaliação clínica pré-operatória, o cálculo de risco cirúrgico e a decisão de adiar são do capítulo de avaliação pré-operatória, nesta mesma apostila. O que segue pressupõe que essa avaliação foi feita e colhe dela apenas os campos que a antibioticoprofilaxia consome.
A classe prevista da ferida — e a consciência de que é uma previsão
O primeiro dado não está em exame nenhum: é o nome do procedimento marcado, traduzido para uma das quatro classes do Anexo VII. Herniorrafia sem abertura de víscera é limpa. Colecistectomia, gastrectomia, histerectomia e ressecção pulmonar são potencialmente contaminadas. Colectomia sem preparo, ferida traumática com mais de seis horas e reoperação sobre cavidade inflamada são contaminadas. Peritonite, abscesso e tecido desvitalizado infectado são infectadas.
A tradução é sua, e é uma previsão. O que o Anexo V faz por você é uma parte dela: quinze tabelas por especialidade, com o procedimento nominado à esquerda. Encontrar o seu procedimento na tabela resolve a droga e a dose sem que você precise raciocinar a flora.
Um cuidado ao ler essa classificação, porque ela não nasceu no bloco cirúrgico. O Anexo VII é um anexo sobre feridas em geral, dentro da seção de avaliação de curativos, e por isso mistura critérios de dois mundos: define a classe limpa-contaminada por abertura de víscera colonizável, que é critério cirúrgico, e no mesmo parágrafo inclui a ferida produzida acidentalmente por arma branca com menos de seis horas, que é critério de trauma. As duas coisas convivem na mesma linha. Para a cirurgia eletiva, o que decide é a primeira metade da definição; a segunda existe para as feridas que chegam pela porta e é onde o relógio de seis horas passa a valer.
A descrição deve comunicar: achados de contaminação, medidas de controle, doses efetivamente administradas e término. Um exemplo é: extravasamento biliar controlado, sem evidência de infecção estabelecida, profilaxia encerrada ao fechamento. Se houver indicação terapêutica, documentar o foco, o esquema e quando será reavaliado; conversão não substitui essa justificativa.
O peso, aferido e não estimado
Segundo dado, e o mais frequentemente inventado. A dose de indução é ajustada ao peso, e o caderno 4 lista esse ajuste duas vezes: entre as dez recomendações básicas e entre os fatores de risco, onde escreve "obesidade: ajuste da dose de antibióticos profiláticos".
O documento nacional só quantifica esse ajuste na cirurgia bariátrica, em que a indução da cefazolina passa de 2 g para 3 g. Para as demais cirurgias no obeso, o Anexo V mantém 2 g nas suas tabelas e não escreve um limiar de peso. Este capítulo não inventa um: registra que a régua brasileira manda ajustar sem dizer a partir de quantos quilos, e que a decisão fica com o protocolo institucional.
O que muda a conduta é operacional. Peso referido pelo paciente erra, e erra mais no extremo que importa. Pese na admissão, escreva o número na folha, e escreva a dose em miligramas e não em "ampolas" — a conversão está na tabela do bloco de critérios e ela não é trivial: uma dose de 2 g são dois frascos-ampola de 1 g e 21,2 mL de solução reconstituída para infusão.
O que está escrito no campo de alergias
Terceiro dado. O interrogatório da alergia — separar reação verdadeira de intolerância, e exantema tardio de anafilaxia — é do capítulo de avaliação pré-operatória, que o trata em detalhe. O que este capítulo assume é a consequência: qual droga entra quando o rótulo está lá.
O caderno 4 responde numa frase só, na seção 5.1.8: em pacientes alérgicos aos betalactâmicos, pode-se utilizar clindamicina 600 mg por via intravenosa de 6 em 6 horas ou vancomicina 15 mg/kg por via intravenosa de 12 em 12 horas para cobertura de Gram-positivos; havendo indicação de cobertura para Gram-negativos, ciprofloxacino 400 mg ou gentamicina 240 mg por via intravenosa.
Quando um documento mistura intervalos de tratamento em uma seção de profilaxia, não basta aproveitar a dose e ignorar o restante por conta própria. Conferir recomendação específica do procedimento, peso, alergia, redose e término com equipe e farmácia. O percurso principal distingue dose perioperatória apropriada de manutenção terapêutica, cuja indicação e duração são outras.
Há ainda uma orientação de tempo específica que se perde com facilidade: vancomicina e ciprofloxacino não entram na janela de 60 minutos como as cefalosporinas. O caderno 4 manda iniciar a infusão de 1 a 2 horas antes da incisão para essas duas, porque a infusão é lenta e o pico tecidual demora. Trocar cefazolina por vancomicina sem mudar a hora da prescrição produz um paciente sem profilaxia efetiva.
E uma recusa explícita, que o mesmo caderno lista entre as abordagens não recomendadas: não utilizar vancomicina como droga profilática de rotina. O rótulo de alergia mal apurado é a via mais comum pela qual a vancomicina vira rotina num serviço.
Vale ainda saber que a cobertura muda de forma quando se sai da cefazolina. As alternativas do documento cobrem Gram-positivos — clindamicina ou vancomicina — e, havendo indicação de cobertura para Gram-negativos, o documento acrescenta uma segunda droga em vez de substituir a primeira. Ou seja: numa cirurgia colorretal em paciente com alergia verdadeira a betalactâmico, a cefoxitina não é trocada por uma droga só, e o esquema passa a ter duas linhas para o que antes tinha uma. Isso muda o tempo de preparo, o número de acessos e o risco de a segunda droga não entrar a tempo — três coisas que precisam estar escritas na prescrição da véspera, e não combinadas na porta da sala.
A hora da incisão, que ninguém sabe na véspera
Quarto dado, e o que mais estraga profilaxia boa. A cirurgia do senhor Adelmo é "em segundo tempo". Isso significa uma hora estimada, e estimativa de mapa cirúrgico erra por horas, não por minutos.
Uma prescrição que diz "cefazolina 2 g às 7h" transforma a estimativa em decisão. Se a incisão for às 10h30, o antimicrobiano foi administrado três horas e meia antes — quase duas meias-vidas de queda antes de a lâmina entrar. O paciente recebeu antibiótico e não recebeu profilaxia.
A forma que resolve é prescrever pelo evento e não pelo relógio: "cefazolina 2 g por via intravenosa, dose única, na indução anestésica", com a dose dispensada e enviada junto com o paciente. É assim que o Anexo I do caderno 4 espera encontrá-la, aliás: a confirmação do antimicrobiano profilático nos últimos 60 minutos antes da incisão é um item da Lista de Verificação de Segurança Cirúrgica, conferido em voz alta na sala. A lista e as suas três fases são do capítulo de avaliação pré-operatória; o que interessa aqui é que existe um momento formal em que alguém vai perguntar a hora da sua dose, e a resposta precisa ser um horário real.
Uma segunda armadilha de horário, restrita à ortopedia e à cirurgia vascular de membro: o torniquete. O caderno 4 pede atenção especial ao uso de torniquetes e manda administrar a dose total antes de insuflá-lo. Insuflado o manguito, o membro fica sem circulação — e sem droga. A dose que entra depois disso não chega ao sítio.
A duração prevista e o sangramento previsto
Quinto dado, e o único que exige conversar com quem opera. Os dois gatilhos de repique intraoperatório são o tempo e a perda sanguínea, e nenhum dos dois é decidido por quem escreve a prescrição na véspera.
O tempo é o gatilho tabelado. A regra geral do caderno 4 é repetir a dose após um intervalo igual a duas vezes a meia-vida do antimicrobiano, contado da primeira infusão; as tabelas do Anexo V operam isso como 4 em 4 horas para cefazolina e cefuroxima e 2 em 2 horas para cefoxitina. Uma colecistectomia laparoscópica de rotina não chega lá; uma que converte para aberta e dissecção difícil, chega.
O sangramento é o gatilho não tabelado, e o Anexo V não o menciona nas colunas de repique. A justificativa fisiológica está no bloco de mecanismo: sangue perdido leva droga junto e reduz a concentração antes do tempo previsto. Este capítulo assume a conduta — repicar diante de perda sanguínea importante ou reposição volêmica vigorosa, independentemente do relógio — e declara que é leitura, não citação: a régua brasileira quantifica o repique por tempo e não por volume.
O que se faz com isso na véspera é uma frase na prescrição e uma frase na passagem: dose de repique disponível na sala, com a hora da primeira dose anotada em local visível. O repique que não aconteceu quase nunca foi recusado — foi esquecido porque ninguém sabia a hora da primeira dose.
Há uma cirurgia em que a véspera carrega mais do que uma dose de repique guardada, e ela merece nota própria porque é a única deste capítulo cuja prescrição principal acontece antes do dia da cirurgia. Na linha de cólon, o Anexo V registra preparo mecânico como opcional e prescreve descontaminação oral com neomicina 1 g mais metronidazol 500 mg em três tomadas na véspera, às 13h, às 14h e às 23h, além da cefoxitina intravenosa na indução no dia seguinte. O horário não é arbitrário: as três tomadas são calibradas para uma cirurgia da manhã seguinte, e antecipar ou atrasar o mapa desmonta o esquema inteiro. Se a cirurgia do seu paciente escorrega da manhã de terça para a tarde de quarta, a descontaminação oral prescrita para a véspera de terça não serve mais.
O que o hospital tem, e como ler a Rename sobre isso
Sexto e último dado. A droga certa é a que existe na casa, e é aqui que muitos internos aprendem uma leitura errada do sistema de saúde brasileiro.
A Rename 2024, elenco nacional instituído pela Portaria GM/MS nº 6.324/2024, foi varrida por busca exata com espaço e hífen normalizados. Resultado: zero ocorrência de cefazolina, zero de cefalotina. Também zero para cefoxitina, cefuroxima, vancomicina, ampicilina, norfloxacino e mupirocina. A gentamicina aparece só como pomada e solução oftálmicas; a neomicina, só dentro de uma solução otológica combinada; a clindamicina, em cápsulas de 150 e 300 mg e em apresentação tópica; o ciprofloxacino, em comprimidos de 250 e 500 mg; o metronidazol, em comprimidos e gel vaginal. Nenhuma dessas três tem apresentação injetável na lista.
A conclusão que o interno tira disso, quase sempre, é que o SUS não fornece a droga da profilaxia cirúrgica. A conclusão está errada, e a razão está na natureza do documento. A Rename organiza componentes de financiamento da Assistência Farmacêutica — Básico, Estratégico e Especializado —, isto é, quem paga por qual medicamento dispensado ao paciente. Ela não descreve o que a farmácia hospitalar compra.
Confira pelo próprio texto: em 254 páginas, a palavra "cirurgia" e suas variantes não aparecem nenhuma vez, e "hospitalar" aparece uma única vez, numa observação sobre misoprostol de uso restrito a estabelecimentos cadastrados. O documento simplesmente não trata do hospital. Medicamento consumido dentro de um procedimento hospitalar é custeado pelo próprio procedimento, e não por componente de assistência farmacêutica — por isso não tem linha na Rename.
A leitura correta para levar à beira do leito, então, é dupla. Primeira: a ausência de cefazolina na Rename não diz nada sobre a disponibilidade dela no seu hospital, e a fonte para essa pergunta é a padronização da comissão de farmácia e terapêutica da casa. Segunda: o que a Rename diz sobre os antimicrobianos que estão nela é útil e costuma passar batido — ela marca cada antimicrobiano do elenco com a categoria AWaRe da Organização Mundial da Saúde — Acesso, Alerta ou Reservado, na tradução que a própria Rename adota — e põe ceftriaxona, cefotaxima e ciprofloxacino em Alerta, contra clindamicina, amoxicilina e cefalexina em Acesso. Escolher droga de categoria Alerta para uma profilaxia que a de categoria Acesso resolveria é uma decisão que o próprio elenco nacional desencoraja.
A ferida decide se tem; o relógio decide como; e o fim se escreve antes de começar
A profilaxia atua no período de inoculação cirúrgica. Decida indicação, agente, dose, momento, redose e término; infecção estabelecida exige outra avaliação e plano terapêutico.
- 1Avaliar procedimento, implante, flora esperada e riscos do paciente. Classe da ferida ajuda, mas não decide sozinha toda indicação.
- 2Conferir alergia pela reação real, risco microbiológico e protocolo; escolher espectro apropriado sem substituir raciocínio por tabela isolada.
- 3Para cefazolina no adulto, usar em geral 2 g e 3 g quando peso ≥120 kg segundo ASHP; o ajuste não se restringe à cirurgia bariátrica.
- 4Administrar na janela antes da incisão, em geral até 60 minutos, com tempo maior para infusão de alguns agentes. A indução só serve como marco se respeitar essa janela.
- 5Redosar cefazolina em geral após quatro horas com a mesma dose adequada ao peso, ou antes quando perdas importantes justificarem; conferir função renal e protocolo.
- 6Registrar achados e contaminação reais. Conversão para cirurgia aberta ou colangiografia não mudam, por si, a classe da ferida nem obrigam prolongamento.
- 7Na profilaxia habitual, encerrar no fechamento conforme a recomendação SHEA atualizada. Derramamento biliar isolado não cria automaticamente tratamento; se houver infecção, definir indicação, espectro e duração próprios.
- 8Documentar doses efetivamente administradas, horários, redoses e término e conferir com a equipe; dreno, sonda ou cateter não justificam prolongar profilaxia.
As quatro classes de ferida do Anexo VII, e o que cada uma decide
| Classe | O que a define | Risco declarado pelo documento | O que muda na prescrição |
|---|---|---|---|
| Limpa | Ferida produzida em ambiente cirúrgico sem que sistema digestório ou geniturinário tenha sido aberto | 1% a 5% | Sem implante: zona de divergência entre as fontes brasileiras; decide-se pelos oito critérios de alto risco do Anexo V e pelo protocolo da casa. Com implante: profilaxia sem discussão |
| Limpa-contaminada (potencialmente contaminada) | Abertura de sistema digestório ou geniturinário; também a ferida por arma branca com menos de 6 horas e sem contaminação significativa | 3% a 11% | Profilaxia indicada. Dose única de indução mais repiques; linha de pós-operatório só nas cirurgias em que a tabela a prevê |
| Contaminada | Reação inflamatória presente, contato com material contaminado, ou mais de 6 horas entre o ato que produziu a ferida e o atendimento | 10% a 17% | Profilaxia apropriada ao procedimento e achados, com término ao fechamento no percurso SHEA. Contaminação não equivale automaticamente a infecção; prolongamento ou tratamento exigem indicação específica documentada. |
| Infectada | Agente infeccioso no local, com intensa reação inflamatória e destruição de tecidos, podendo haver secreção purulenta | Sem faixa declarada | Não é profilaxia: é tratamento. Reformular conforme a infecção encontrada e manter até quando clinicamente indicado |
Os quatro relógios da profilaxia, e onde cada um está escrito
| Relógio | O que a régua nacional determina | Onde está |
|---|---|---|
| Antes da incisão | Dose efetiva de 0 a 60 minutos antes da incisão cirúrgica. Vancomicina e ciprofloxacino: iniciar a infusão de 1 a 2 horas antes. Antes de insuflar torniquete, administrar a dose total | Caderno 4 da Anvisa, capítulo 4, recomendações básicas e item 5.1.8 |
| Durante a cirurgia — por tempo | Repetir após intervalo igual a duas vezes a meia-vida do antimicrobiano, contado da infusão da primeira dose. As tabelas operam isso como 4 em 4 horas para cefazolina e cefuroxima e 2 em 2 horas para cefoxitina | Caderno 4, item 5.1.8, e colunas de intervalo do Anexo V |
| Durante a cirurgia — por sangramento | Não tabelado. Este capítulo assume: repicar diante de perda sanguínea importante ou reposição volêmica vigorosa, independentemente do intervalo previsto, porque a conta de meia-vida pressupõe um compartimento que não está sendo esvaziado | Leitura deste capítulo a partir do mecanismo; a régua brasileira quantifica repique por tempo, não por volume |
| O fim | No percurso SHEA, suspender ao fechamento. Prazos de até 24 horas em documentos históricos ou protocolos específicos devem ser contextualizados, sem continuação automática por dreno ou conversão. | Caderno 4, item 5.1.8, números 6 e 7, e recomendação básica 1 |
Cefazolina em miligramas, mililitros e frascos-ampola — num adulto de 104 kg
| O que se prescreve | Frascos-ampola de 1 g | Volume da solução reconstituída para infusão | Sódio contido na dose |
|---|---|---|---|
| Apresentação de 1 g: cálculo do frasco, não dose preferida deste adulto de 104 kg | 1 | 10,6 mL a aproximadamente 94 mg/mL | 50,6 mg, ou 2,20 mEq |
| 2 g: dose inicial e redose no esquema adotado para este adulto de 104 kg | 2 | 21,2 mL | 101,2 mg, ou 4,40 mEq |
| 3 g: dose do esquema ASHP para peso ≥120 kg, independentemente do tipo de cirurgia | 3 | 31,8 mL | 151,9 mg, ou 6,61 mEq |
| 2 g de redose intraoperatória após 4 horas neste adulto de 104 kg | 2 por redose | 21,2 mL por redose neste produto | 101,2 mg por redose neste produto |
| Apresentação intramuscular de 1 g: informação farmacêutica; não é a via escolhida para a profilaxia deste caso | 1 | 3,2 mL a aproximadamente 312,5 mg/mL, reconstituído com 2,5 mL | 50,6 mg |
Profilaxia e tratamento: cinco perguntas que separam as duas
| Pergunta | Profilaxia | Tratamento |
|---|---|---|
| Contra o que age? | Contra uma contaminação que ainda não ocorreu, no momento em que ela vai ocorrer | Contra uma infecção que já existe e tem sinais |
| Quando termina? | Término ao fechamento no percurso adotado; registrar antes da administração e conferir na transição para a enfermaria | Quando a resposta clínica e o controle do foco permitem; a data se decide durante |
| O que dispara revisão? | Rever indicação, peso, alergias, horário, duração da cirurgia e perdas; suspender no término previsto, sem doses por inércia | Reavaliação em 48 a 72 horas, com cultura e descalonamento |
| Quem decide a droga? | A flora provável do sítio que será incisado, pela tabela do procedimento | O foco, a gravidade, o perfil epidemiológico da unidade e o antibiograma quando houver |
| O que faz mudar de categoria? | Achado de infecção durante o ato: aí passa a ter cunho terapêutico e deve ser reformulado | Nada a transforma de volta em profilaxia |
A redose considera meia-vida, duração da cirurgia e perda sanguínea. Para cefazolina, a meia-vida intravenosa de 1,8 hora descrita na bula é compatível com o intervalo aproximado de 4 horas. A dose de redose deve seguir o percurso principal, que já a ajusta ao peso, e não a linha antiga de 1 g do anexo.
Na linha pediátrica de cirurgia cardíaca com circulação extracorpórea, cefuroxima 50 mg/kg em uma criança de 30 kg corresponde a 1.500 mg, igual à indução adulta de 1,5 g apresentada no anexo. Esse cálculo exemplifica a necessidade de conferir dose por peso e limite da recomendação utilizada.
As linhas de redose de cefuroxima do anexo usam doses e intervalos diferentes para adultos e crianças. Em 30 kg, 50 mg/kg corresponde a 1.500 mg por dose, acima dos 750 mg da linha adulta. Não extrapole entre populações; confirme o esquema pediátrico com a equipe responsável.
O caderno 4 recomenda limitar a profilaxia, mas seu anexo reúne várias linhas com duração superior a 24 horas. Entre elas há situações rotuladas como tratamento e outras apresentadas como profilaxia. O percurso principal deste capítulo define término ao fechamento; qualquer continuação exige indicação própria, documentada e reavaliada.
Uma tabela por tipo de cirurgia pode reunir profilaxia e tratamento de situações contaminadas ou infectadas. Identifique a finalidade da prescrição antes de copiar o prazo. Dreno, conversão da técnica ou extravasamento não justificam automaticamente prolongar a profilaxia do percurso; infecção estabelecida exige plano terapêutico separado.
As fontes descrevem a janela pré-incisão com redações distintas: até 60 minutos, de 0 a 60 minutos e, na bula da cefazolina, de 30 a 60 minutos. O objetivo prático é coordenar a administração para haver concentração adequada no momento da incisão. Registre o horário e confirme a administração na checagem.
O caderno distingue um limiar de definição de hipotermia, abaixo de 35 °C, de uma meta térmica acima de 35,5 °C. Não confunda ausência da definição com alcance da meta. Registre a temperatura e mantenha a estratégia de aquecimento prevista pela equipe durante o procedimento.
As faixas de infecção apresentadas para feridas limpas (1%–5%), limpas-contaminadas (3%–11%) e contaminadas (10%–17%) se sobrepõem. Elas ilustram diferenças de risco entre populações. A classificação da ferida depende das condições operatórias, não da taxa de infecção observada posteriormente.
Use as quatro classes de contaminação do Anexo VII. A descrição abreviada com três classes no trecho de curativos omite a potencialmente contaminada e não deve substituir a classificação completa. Registre o achado operatório que fundamenta a classe escolhida.
Vancomicina 1 g fixo equivale a 15 mg/kg apenas em aproximadamente 66,7 kg. Acima ou abaixo desse peso, os regimes deixam de coincidir. Quando houver indicação desse agente, confira o cálculo por peso e o esquema adotado pela equipe, sem assumir equivalência com a dose fixa do anexo.
Gentamicina 240 mg corresponde à faixa de 3–5 mg/kg apenas entre 48 e 80 kg. Portanto, a dose fixa e a faixa por peso do anexo não são intercambiáveis para todos. Confira peso, indicação e condições do paciente antes de aplicar o esquema apresentado.
A linha antiga de profilaxia de endocardite em procedimentos urológicos traz rodapé que contesta a própria indicação. Não a interprete como prescrição atual autônoma. Diferencie prevenção de infecção do sítio cirúrgico e profilaxia de endocardite, que exige avaliação específica em seu capítulo.
A linha citada de ampicilina apresenta uma via oral discrepante do restante do esquema parenteral. A inconsistência precisa ser esclarecida antes de qualquer uso. Confira indicação, formulação, via e horário na prescrição, em vez de reproduzir uma linha isolada.
A bula de cefazolina citada traz orientações diferentes sobre duração: interrupção usual em 24 horas e manutenção de 3–5 dias em algumas operações. Essas linhas antigas não substituem o término ao fechamento adotado no percurso. Se houver indicação de tratamento, registre-a separadamente da profilaxia.
A bula citada apresenta limite por idade acima de 75 anos que conflita com esquemas perioperatórios do anexo. Não combine automaticamente a dose de uma seção e o intervalo de outra. A equipe deve conferir finalidade, função renal e regime específico antes de prescrever.
No trecho de eficácia da bula, 16% aparece como taxa de infecção em um grupo e como redução de risco em outro estudo. São medidas distintas, apesar do mesmo número. Na comparação apresentada, 14/182 corresponde a 7,7% e 32/200 a 16,0%; mantenha seus denominadores ao interpretar os resultados.
Na Nota Técnica 03/2026 citada, algumas chamadas de rodapé do critério de órgão ou cavidade estão deslocadas. Leia o conteúdo das notas sobre coleta asséptica e métodos não baseados em cultura, sem depender apenas da numeração. Os critérios superficiais e profundos apresentam as chamadas correspondentes.
Para os critérios de sítio específico de órgão ou cavidade, a remissão útil na edição citada está nos quadros 39–55. A referência adicional ao Quadro 35 aponta para o próprio quadro geral. Confira o título do destino antes de interpretar a remissão.
Na edição citada da Nota Técnica 03/2026, o período de vigilância de 30 ou 90 dias é vinculado ao procedimento e aparece nas três categorias de infecção do sítio cirúrgico. Use a lista correspondente à operação e não deduza o prazo apenas da profundidade da infecção.
Os volumes finais de reconstituição da cefazolina citados produzem concentrações diferentes: 1 g em 10,6 mL resulta em aproximadamente 94 mg/mL; em 3,2 mL, 312,5 mg/mL. Calcule o volume pela preparação efetivamente utilizada e confira a via indicada para ela.
A Rename não funciona como inventário da farmácia hospitalar. Ausência de um antimicrobiano no elenco citado não demonstra indisponibilidade no SUS ou no serviço. Para executar o esquema, confirme padronização, apresentação e estoque com a farmácia e a comissão responsável do hospital.
O caderno apresenta rastreamento de portadores nasais de S. aureus sensível e resistente à oxacilina, mas varia a redação sobre quem deve receber descolonização. Identifique a população, o procedimento e o protocolo adotado pelo serviço antes de aplicar a medida. Rastreamento e tratamento precisam formar um plano coerente.
A descolonização nasal depende da disponibilidade local do medicamento indicado. A ausência de mupirocina no elenco citado não comprova falta no hospital. Confirme sua obtenção e a apresentação de clorexidina prevista para o banho antes de orientar o preparo ao paciente.
Preparo intestinal, tricotomia e aquecimento aparecem aqui como medidas associadas à prevenção de infecção. A decisão sobre preparo de cólon e descontaminação oral pertence ao planejamento cirúrgico e depende dos agentes disponíveis. Quando necessária, a tricotomia segue a orientação de não usar lâmina. Técnica e manejo térmico são desenvolvidos nos percursos correspondentes.
A conduta, hora a hora
O relógio deste capítulo tem quatro ponteiros e nenhum deles é o calendário. O que segue é o senhor Adelmo Jucá: 61 anos, 104 kg, 1,74 m, índice de massa corporal de 34,4, diabetes tipo 2 em uso de metformina, hipertensão, colecistectomia videolaparoscópica eletiva marcada para o dia seguinte em segundo tempo. Sem alergia declarada e sem uso de antimicrobiano nos últimos três meses.
Cada marco traz o que se faz, por quê, e o que se escreve. Note que a prescrição do antimicrobiano tem três linhas e não uma — a dose, o repique e o término —, e que a terceira é a que o interno esquece e a que decide o resultado.
Véspera, 19h10 — a prescrição, com a hora amarrada ao evento e não ao mapa
A classe prevista é limpa-contaminada: a via biliar é colonizável e a vesícula será manipulada dentro da cavidade. O procedimento está nominado na tabela de cirurgia gastrointestinal do Anexo V, na linha da colecistectomia laparoscópica, que separa baixo risco de alto risco. Nenhum dos oito gatilhos de alto risco é conhecido hoje, e cinco deles só se conhecem dentro da sala. O senhor Adelmo, porém, tem dois marcadores que a mesma tabela usa em outras linhas — diabetes e índice de massa corporal acima de 30 —, e é isso que resolve a dúvida a favor de prescrever. A dose vai amarrada ao evento: na indução anestésica, e não às sete da manhã. Peso aferido na balança da enfermaria, não referido.
Prescrição- Cefazolina 2 g por via intravenosa, dose única, na indução anestésica (0 a 60 minutos antes da incisão) — dispensar e enviar com o paciente ao centro cirúrgico; não administrar na enfermaria
- Cefazolina 2 g IV disponível para redose após 4 horas desde a administração inicial neste adulto de 104 kg; antecipar quando perdas importantes justificarem, conforme protocolo e função renal. Para peso ≥120 kg, o esquema ASHP utiliza 3 g.
- Encerrar profilaxia ao fechamento, conforme o percurso SHEA adotado. Extravasamento biliar, conversão, colangiografia ou dreno não autorizam automaticamente prolongar. Se houver infecção suspeita ou estabelecida, registrar e prescrever tratamento específico.
- Peso aferido: 104 kg. Sem alergia a betalactâmico declarada
Véspera, 19h30 — a conversa de dois minutos que evita a compra na farmácia
Ainda na véspera, antes de o paciente dormir, explique o que vai acontecer com o antibiótico. Ele já recebeu antibiótico em duas das três idas ao pronto-socorro por cólica biliar, e a experiência dele diz que antibiótico é uma caixa que se toma por sete dias. Se essa conversa não acontece agora, ela acontece na alta, com a família convencida de que faltou alguma coisa. O conteúdo é curto: uma dose antes da cirurgia, talvez uma repetição durante, e nada depois; e a razão é que a proteção serve para o momento do corte, não para os dias seguintes.
Prescrição- Registrar em evolução: paciente e acompanhante orientados sobre profilaxia em dose única e sobre alta sem antimicrobiano
Dia da cirurgia, 6h40 — a hora em que a maior parte da profilaxia se perde
A técnica de enfermagem passa com o carrinho da manhã e pergunta se pode subir a cefazolina. Esta é a pergunta mais importante do dia inteiro e parece administrativa. A resposta é não. O mapa diz segundo tempo, e a cirurgia da frente é uma gastrectomia que começou às sete. A incisão do senhor Adelmo não vai acontecer antes das dez. Uma dose administrada agora estaria mais de três horas e meia à frente da incisão, quase duas meias-vidas de queda: o paciente teria recebido antibiótico e não teria recebido profilaxia. A dose desce com ele e é infundida na sala.
Prescrição- Reforçar na passagem de plantão e no aprazamento: dose não administrada na enfermaria; segue com o paciente para o centro cirúrgico
- Abrir no prontuário, em local visível, o campo para registro da hora real da infusão
Centro cirúrgico, 10h05 — a dose entra, e a hora vira dado
Paciente na sala, monitorizado, anestesista posicionando o acesso. A cefazolina 2 g é infundida na indução, e o horário exato é anotado: 10h05. Essa anotação não é burocracia — é o dado de entrada de todos os repiques que virão. Um instante depois, na pausa antes da incisão, a Lista de Verificação de Segurança Cirúrgica pergunta em voz alta se o antimicrobiano profilático foi administrado nos últimos 60 minutos. A resposta é sim, e só é possível porque alguém escreveu a hora. A lista e as suas três fases são do capítulo de avaliação pré-operatória, nesta mesma apostila; aqui ela é o momento em que a sua prescrição é auditada por outra pessoa.
Prescrição- Registrar hora da infusão da dose de indução: 10h05
- Incisão às 10h18 — intervalo de 13 minutos, dentro da janela
Intraoperatório, 12h50 — extravasamento, controle local e reavaliação da contaminação
Às 12h50 a vesícula se rompe, há saída de bile e cálculos e a equipe aspira, remove os cálculos, lava e converte para cirurgia aberta. Registrar achados e medidas tomadas; a classe da ferida depende da contaminação real. Conversão isolada não muda a classe, e extravasamento não demonstra infecção estabelecida por si só. Rever necessidade de controle do foco e cobertura adequada, mas não prolongar profilaxia automaticamente até 24 horas. Se os achados sustentarem infecção, formular plano terapêutico com indicação explícita.
Prescrição- Comunicar os achados e discutir classificação pela contaminação efetiva; a conversão de via, isoladamente, não define ferida contaminada nem indica antibiótico pós-operatório.
- Pedir registro explícito na descrição cirúrgica: hora do extravasamento, hora da conversão, lavagem realizada
Intraoperatório, 14h05 — o repique, pelos dois gatilhos ao mesmo tempo
Às 14h05 completam-se quatro horas desde a dose das 10h05 e a cirurgia continua. A redose de cefazolina é de 2 g para este adulto de 104 kg no esquema ASHP, e não redução automática para 1 g. Sangramento importante também pode indicar redose antes do intervalo usual; avaliar perdas e protocolo. Registre horário real e próxima necessidade, mantendo cobertura durante o procedimento.
Prescrição- Cefazolina 2 g IV às 14h05: redose por quatro horas de procedimento; considerar antecipação por sangramento importante conforme protocolo e função renal.
- Registrar a hora; próximo repique, se necessário, a partir das 18h05
Sala de recuperação, 15h40 — a prescrição do pós-operatório, com término escrito
Cirurgia encerrada às 15h10. O dreno subhepático e a conversão não são indicação de antibiótico pós-operatório. Conferir a descrição: houve derramamento biliar, mas isso não demonstra por si infecção estabelecida nem obriga 24 horas de cefazolina. No caso apresentado, sem outra indicação terapêutica documentada, a profilaxia termina com o fechamento. Se forem identificadas colecistite complicada, colangite, perfuração infectada ou outra infecção, a equipe define tratamento específico e seu controle de foco, em vez de chamar de profilaxia prolongada.
Prescrição- Profilaxia encerrada ao fechamento às 15h10; não programar doses pós-operatórias apenas por dreno, conversão ou derramamento biliar isolado.
- Registrar doses e horários efetivos: cefazolina 2 g às 10h05 e redose de 2 g às 14h05.
- Conferir descrição operatória e documentar se existe indicação independente de tratamento antimicrobiano.
- Reconciliar a prescrição na recuperação e comunicar o término à enfermagem e farmácia.
Enfermaria, dia seguinte, 15h40 — o momento em que ninguém para
No dia seguinte, Adelmo está afebril, alimentando-se e deambulando, com dreno seroso de 40 mL. A profilaxia já foi encerrada no fechamento e a presença do dreno não indica reiniciá-la. Se a equipe estiver preocupada com infecção, deve procurar sinais e a fonte, avaliar necessidade de exames e controle do foco e prescrever tratamento quando indicado. Não existe garantia de ausência de infecção apenas porque a ferida fechou; o que não se justifica é antibiótico preventivo prolongado sem indicação.
Prescrição- Manter profilaxia encerrada, conferindo que não restaram doses automáticas. Não reiniciar por dreno; investigar e tratar separadamente se surgir suspeita de infecção.
- Registrar o que dispara reavaliação: febre nova, dor desproporcional, eritema, calor ou secreção purulenta na incisão, mudança no aspecto ou no volume do débito do dreno
- Alta sem antimicrobiano; orientar paciente e família sobre sinais de infecção de sítio cirúrgico e sobre o retorno
- Registrar na alta o período de vigilância de 30 dias e o contato do serviço
Como saber se está funcionando
Profilaxia cirúrgica tem um problema de retroalimentação parecido com o da avaliação pré-operatória: quem prescreve raramente fica para ver o resultado, e o resultado costuma acontecer depois da alta. Sete parâmetros permitem saber se o que você escreveu funcionou — e seis deles se medem no mesmo dia.
Nenhum deles é a temperatura do primeiro pós-operatório. Febre nas primeiras 48 horas tem causas que não são infecção, e o assunto tem dono próprio: o capítulo de febre no paciente internado e no pós-operatório.
Há uma razão para essa lista ter tantos parâmetros de processo e tão poucos de desfecho, e ela vem da estrutura da vigilância nacional. A infecção de sítio cirúrgico, quando acontece, aparece dias ou semanas depois, quase sempre longe de quem prescreveu; e a notificação obrigatória cobre sete procedimentos, entre os quais não está a maioria das cirurgias de um hospital geral. Não existe um número no fim do mês que devolva ao interno a qualidade das suas prescrições. O que existe é auditar o processo, e a diretriz nacional de gerenciamento de antimicrobianos diz exatamente como: a taxa de adequação da antibioticoprofilaxia cirúrgica se calcula item a item — indicação, dose e duração —, ou considerando todos os itens juntos.
Esperado: Entre 0 e 60 minutos pela régua do caderno 4; entre 30 e 60 minutos pela bula brasileira da cefazolina. Para vancomicina e ciprofloxacino, infusão iniciada de 1 a 2 horas antes
Se não melhora: Passou de 60 minutos: houve antibiótico sem profilaxia efetiva, e o paciente entra em vigilância clínica mais atenta da ferida. Se o padrão se repete no serviço, o problema não é do prescritor — é do aprazamento, e se resolve trocando horário fixo por evento (na indução)
Esperado: Dose de indução da tabela do procedimento, com ajuste no obeso. Cefazolina 2 g é a dose adulta padrão do Anexo V; 3 g na bariátrica
Se não melhora: Se a dose foi calculada sobre peso referido, corrija o registro e verifique se as doses de repique seguem o mesmo erro. Em paciente acima de 100 kg com dose de 1 g, registre a subdose e leve a padronização à comissão de farmácia e terapêutica
Esperado: Uma dose a cada intervalo de duas meias-vidas da droga, contado da primeira infusão. Cefazolina, 4 em 4 horas; cefoxitina, 2 em 2 horas
Se não melhora: Repique esquecido quase nunca foi recusado — foi esquecido porque ninguém sabia a hora da primeira dose. A correção é de processo: hora da primeira infusão anotada em local visível na sala, e dose de repique separada antes de a cirurgia começar
Esperado: Uma dose adicional, independentemente de quanto tempo se passou desde a anterior
Se não melhora: Este parâmetro não está tabelado pela régua brasileira, e por isso depende de alguém lembrar dele em voz alta na sala. A frase que funciona é curta e cabe no momento em que se pede sangue: repicou o antibiótico?
Esperado: A classe efetiva — limpa, potencialmente contaminada, contaminada ou infectada — nomeada, com o evento que a determinou quando difere da prevista
Se não melhora: Classe não registrada é a causa mais comum de antimicrobiano que não termina: quem recebe o paciente não sabe por que ele está em antibiótico e, na dúvida, mantém. Se a descrição não traz, peça antes de o cirurgião sair do bloco, não no dia seguinte
Esperado: Horário de término registrado e respeitado, em geral no fechamento no percurso adotado. Qualquer tratamento posterior deve ter indicação própria, não apenas o nome profilaxia.
Se não melhora: Prescrição de profilaxia sem data de término é a definição operacional do antimicrobiano que não acaba. Se o serviço tem farmácia clínica, peça a suspensão automática — a diretriz nacional de gerenciamento de antimicrobianos prevê essa ação especificamente para as prescrições de profilaxia cirúrgica
Esperado: Trinta dias para a maioria dos procedimentos e para a cesariana; noventa dias para implante de prótese mamária, artroplastia primária de quadril e de joelho, revascularização do miocárdio, derivação interna neurológica e cirurgia de catarata
Se não melhora: Havendo nova abordagem cirúrgica no mesmo sítio dentro do período, a contagem reinicia do zero a partir da nova cirurgia, embora a data da infecção continue sendo a do procedimento inicial. O diagnóstico e o tratamento da infecção de sítio cirúrgico já instalada não são deste capítulo
Onde o erro machuca
O dano: É o erro mais frequente e o mais invisível, porque tudo parece certo: o antibiótico foi prescrito, dispensado, administrado e checado na folha. Só que a concentração tecidual no momento da incisão é a de quase duas meias-vidas depois do pico. O paciente recebeu antimicrobiano, com toda a exposição que isso implica, e não recebeu proteção
Como pegar a tempo: Prescreva pelo evento e não pelo relógio: dose única na indução anestésica, dispensada e enviada com o paciente. Escreva na prescrição, com todas as letras, que a dose não deve ser administrada na enfermaria. E confira a hora anotada da infusão contra a hora da incisão no dia seguinte — é a única maneira de o serviço descobrir que tem esse problema
O dano: Alguns miligramas por quilo a menos não causam nada visível: causam concentração tecidual insuficiente numa fração dos pacientes, que aparece semanas depois como uma taxa de infecção um pouco mais alta e nunca é rastreada até a origem. O caderno 4 lista o ajuste no obeso duas vezes, e o Anexo V só o quantifica na bariátrica, o que deixa a decisão nas demais cirurgias por conta do protocolo local
Como pegar a tempo: Pese o paciente na admissão e escreva o número na folha. Prescreva a dose em miligramas, nunca em ampolas, e confira a conversão para mililitros — 2 g de cefazolina são dois frascos-ampola e 21,2 mL de solução reconstituída. Com índice de massa corporal acima de 30, verifique o que o protocolo da casa padroniza, porque a régua nacional manda ajustar sem dizer a partir de quantos quilos
O dano: O membro isolado da circulação também está isolado do antimicrobiano. A dose está no paciente e não está no sítio operatório, que é exatamente onde precisaria estar. Em cirurgia ortopédica de membro, com ou sem implante, o efeito é perder a profilaxia inteira sem que nada apareça na folha
Como pegar a tempo: O caderno 4 pede atenção especial a isto e manda administrar a dose total antes de insuflar o torniquete. Na prática, a dose entra na indução e a equipe confirma em voz alta que terminou de correr antes de o manguito subir. É item para a pausa da lista de verificação, e cabe ao interno lembrar quando ele não estiver na lista da casa
O dano: Dois danos numa decisão só. O primeiro é de tempo: vancomicina e ciprofloxacino precisam ter a infusão iniciada de 1 a 2 horas antes da incisão, e não nos 60 minutos das cefalosporinas; mantida a hora antiga, o paciente entra na sala sem concentração adequada. O segundo é de ecologia: o mesmo caderno 4 lista, entre as abordagens explicitamente não recomendadas, utilizar vancomicina como droga profilática de rotina — e o rótulo de alergia mal apurado é a via pela qual ela vira rotina
Como pegar a tempo: Apure o rótulo antes de trocar a droga; o interrogatório da alergia é do capítulo de avaliação pré-operatória e é rápido. Se a troca for necessária, mude a hora junto com a droga. E lembre que a alternativa para cobertura de Gram-positivos no caderno 4 tem duas opções, não uma: clindamicina 600 mg é a primeira delas
O dano: Nenhuma frase converte tantas doses únicas em cinco dias quanto esta, e ela não se apoia em documento nenhum. A ferida já está fechada e não há inóculo novo a prevenir. O que se ganha é seleção de flora resistente no paciente e na unidade, e um dia de terapia adicional que a diretriz nacional de gerenciamento de antimicrobianos conta como dia inteiro mesmo quando a dose é única
Como pegar a tempo: Escreva a data e a hora do término no dia em que inicia, e peça a suspensão automática à farmácia clínica. Quando a pergunta vier, devolva a pergunta certa: o que mudaria se o dreno saísse hoje? Dispositivo que inquieta a equipe se resolve revendo a indicação dele, e não estendendo cobertura
O dano: Os dois rótulos errados produzem esquemas errados em direções opostas. Um esquema iniciado como tratamento e rotulado como profilaxia nunca é revisto no terceiro dia, porque profilaxia não se revisa. Um esquema iniciado como profilaxia e rotulado como tratamento nunca termina, porque tratamento não tem prazo fixo. O caderno 4 fixa a fronteira numa frase: identificada infecção durante a cirurgia, o antimicrobiano passa a ter cunho terapêutico e deve ser reformulado conforme o achado
Como pegar a tempo: Escreva a palavra na prescrição. A linha começa com a palavra profilaxia ou com a palavra tratamento, e o que vem depois é diferente em cada caso: profilaxia leva data de término; tratamento leva data de reavaliação e o foco nomeado. Quem receber o paciente na enfermaria vai decidir com base nessa palavra
O que dizer ao paciente e à família
Quatro das sete conversas abaixo não são com o paciente: são com a equipe. Profilaxia cirúrgica é a decisão clínica com mais mãos envolvidas por unidade de tempo — o interno prescreve, a farmácia dispensa, a enfermagem administra, o anestesista infunde, o cirurgião determina a classe, e alguém, no dia seguinte, decide se para. Quase todo erro deste capítulo mora numa dessas junções.
As três conversas com o paciente têm um problema comum: elas contrariam a experiência prévia dele. Quem já teve uma infecção tratada com sete dias de antibiótico aprendeu que antibiótico é uma caixa que se termina, e uma dose única soa como versão incompleta da mesma coisa. Nenhuma dessas conversas funciona dizendo o quanto — todas funcionam dizendo o porquê, e o porquê cabe em uma frase: o remédio protege o momento do corte, não os dias seguintes.
Explicando ao paciente por que a proteção é uma dose só
“O senhor vai receber um antibiótico na veia bem na hora em que a anestesia começar, e pode ser que recebam mais uma dose durante, se a cirurgia demorar. Depois disso acaba. Não é economia e não é descuido: esse remédio serve para o momento do corte, quando existe risco de bactéria entrar na ferida. Depois que a pele está fechada, ele não protege mais nada — só faz as bactérias que o senhor já tem no corpo ficarem mais difíceis de tratar da próxima vez que precisar. Por isso o senhor não vai para casa com antibiótico.”
Não diga: É só uma dose mesmo. Dito assim, soa como se fosse pouco, e o paciente escuta que estão poupando. A frase precisa dizer a razão, não a quantidade
Com a família, na alta, quando perguntam pela receita de antibiótico
“Não tem receita de antibiótico, e isso é o esperado numa cirurgia que correu bem. O que a senhora leva é a orientação do que olhar: se a ferida ficar vermelha, quente, dolorida de um jeito que estava melhorando e piorou, ou se sair secreção, ou se ele tiver febre, vocês voltam. E isso vale por trinta dias, não só nesta semana. Antibiótico agora não previne nada e pode atrapalhar se ele precisar de tratamento de verdade lá na frente.”
Não diga: Se precisar a gente passa depois. Deixa a porta aberta para a automedicação e para a ligação pedindo receita por telefone. Dê os sinais concretos e o prazo
Com o residente que quer manter mais um dia por causa do dreno
“Conferi a descrição e não há infecção estabelecida que justifique tratamento. A profilaxia foi encerrada ao fechamento; o extravasamento e as medidas de controle ficaram registrados. Se aparecerem sinais de infecção, vamos avaliar foco e gravidade e formular um novo plano com indicação própria.”
Não diga: Deixa mais um dia então, por segurança. É a frase que cria a maior parte dos esquemas de cinco dias do hospital, e ela nunca é escrita por alguém que tenha decidido: é escrita por alguém que não quis discutir
Com a enfermagem, às seis da manhã, quando perguntam se pode subir a dose
“Essa não sobe aqui. Ele é o segundo tempo e a incisão não deve ser antes das dez; se a gente der agora, quando o cirurgião cortar já vai ter caído quase tudo. Deixa separada e manda junto com ele para a sala — a anestesia infunde na indução. Eu escrevi na prescrição que é para administrar na indução, mas queria falar contigo direto, porque essa é a parte que mais se perde.”
Não diga: Pode subir sim, é o horário da prescrição. Se a prescrição tem horário fixo, o problema está na prescrição, não em quem a cumpre
Com o cirurgião, ao fim do ato, pedindo o registro da classe
“Doutor, para eu prescrever certo lá em cima: houve extravasamento de bile e conversão, então a ferida sai como contaminada, é isso? Se for, eu preciso que isso esteja escrito na descrição, porque é o que justifica manter até amanhã às 15h40 e é também o que impede alguém de estender depois. Sem essa frase, quem pegar o plantão amanhã não vai saber por que ele está em antibiótico.”
Não diga: Perguntar isso no dia seguinte, por telefone. A classificação é do intraoperatório e se registra enquanto quem operou ainda está no bloco
Com a farmácia clínica, para transformar a decisão em trava
“A profilaxia termina ao fechamento. Podemos deixar a suspensão registrada e conferir na passagem da sala para a enfermaria, para evitar doses por continuação automática? Se a equipe indicar tratamento, deve constar o diagnóstico e a reavaliação prevista.”
Não diga: Contar com a memória de quem vier depois. Trava vale mais que lembrete, e a farmácia clínica tem a ferramenta
Com o próprio paciente, quando a cirurgia encontrou infecção
“Na cirurgia, a gente encontrou infecção já instalada, e isso muda o plano. O antibiótico que o senhor está recebendo agora não é mais aquele de proteção que eu tinha explicado: é tratamento de uma infecção que existe, e vai durar mais dias, com a gente reavaliando a cada dois ou três dias se dá para diminuir ou trocar. Vou explicar de novo à sua esposa, porque a informação que eu dei ontem mudou.”
Não diga: Não mencionar a mudança e simplesmente estender. O paciente foi informado de que receberia uma dose; quando ele receber a nona, o que se perde é a confiança na primeira explicação
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
De 0 a 60 minutos antes, incluindo a administração simultânea à incisão
A régua nacional de prevenção de infecção cirúrgica manda administrar dose efetiva de 0 a 60 minutos antes da incisão, e reforça a mesma janela nas recomendações básicas do mesmo capítulo, com a formulação de até 60 minutos. Nessa leitura, o limite que importa é o superior: o erro a evitar é a dose adiantada demais, e uma dose que entra na indução, minutos antes da lâmina, está dentro da regra.
Anvisa — caderno 4, Medidas de Prevenção de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde, 2017, capítulo 4, recomendação básica 1 e item 5.1.8, número 3
De 30 a 60 minutos antes, com o limite inferior fechado
A bula profissional da cefazolina registrada no Brasil prescreve a dose pré-operatória de 30 a 60 minutos antes do início da cirurgia e repete a exigência em frase própria, dizendo ser importante que a dose seja administrada exatamente nesse intervalo, de modo que níveis adequados estejam presentes no sangue e nos tecidos no momento da incisão inicial. Nessa leitura, a dose que entra junto com a incisão chega tarde: o pico tecidual ainda não aconteceu.
Bula profissional de Kefazol (cefazolina sódica), ABL Brasil, texto aprovado pela Anvisa em 04/03/2026, item 8 — Posologia e modo de usar
Coordene a administração pré-incisão com a equipe e registre o horário. A janela deve permitir concentração adequada no momento da inoculação cirúrgica. Confirme a dose efetivamente administrada na checagem; intenção de prescrever não confirma que o medicamento foi recebido.
A cada duas meias-vidas — 4 em 4 horas para a cefazolina
A régua nacional define o repique por uma regra farmacológica geral, aplicável a qualquer droga: repetir após um intervalo igual a duas vezes a meia-vida do antimicrobiano, contado da infusão da primeira dose. As quinze tabelas do anexo operam essa regra como 1 g de 4 em 4 horas para a cefazolina, o que corresponde a 1,11 vez as 3,6 horas que duas meias-vidas de 1,8 hora produzem.
Anvisa — caderno 4, 2017, item 5.1.8, número 6, e colunas de intervalo intraoperatório do Anexo V
A partir de duas horas de cirurgia
A posologia da bula brasileira da cefazolina prescreve dose durante a cirurgia em procedimentos com duração de duas horas ou mais, de 500 mg a 1 g. É um limiar de tempo absoluto, pouco mais da metade do intervalo que a regra das duas meias-vidas produz, e vale desde a segunda hora de ato.
Bula profissional de Kefazol (cefazolina sódica), ABL Brasil, 2026, item 8 — profilaxia cirúrgica por infusão intravenosa
O benefício demonstrado aparece acima de 400 minutos
A seção de resultados de eficácia da mesma bula sustenta o repique com um estudo em que o benefício foi observado em procedimentos com duração superior a 400 minutos — quase sete horas —, com infecção em 14 de 182 pacientes que receberam repique contra 32 de 200 que não receberam. A frase seguinte, sobre cirurgia cardíaca, menciona associação favorável inclusive em procedimentos com menos de 240 minutos, sem fixar limiar.
Bula profissional de Kefazol (cefazolina sódica), ABL Brasil, 2026, item 2 — Resultados de eficácia
O percurso usa cefazolina 2 g, ou 3 g para peso ≥120 kg, com redose pela mesma dose adequada ao peso, em geral após 4 horas. Considere também os critérios apresentados de perda sanguínea. Registre a hora da dose anterior para planejar a próxima durante a cirurgia.
Há benefício mesmo em cirurgia limpa
A régua nacional abre a seção de profilaxia antimicrobiana afirmando que deve haver indicação apropriada para o uso, pois ensaios clínicos sugerem benefícios mesmo em cirurgias limpas, nas quais não se indicava profilaxia. A frase inverte a orientação clássica e é a primeira do item.
Anvisa — caderno 4, 2017, item 5.1.8, número 1
A indicação é para ferida contaminada ou potencialmente contaminada
A bula brasileira da cefazolina restringe a indicação profilática a pacientes submetidos a procedimentos classificados como contaminados ou potencialmente contaminados, e abre exceção apenas para cirurgias em que a infecção representaria grave risco, citando como exemplos a cirurgia cardíaca a céu aberto e a artroplastia protética. A ferida limpa sem implante fica fora.
Bula profissional de Kefazol (cefazolina sódica), ABL Brasil, 2026, item 1 — Indicações, Profilaxia Cirúrgica
Opcional, e a lista de fatores é que decide
O Anexo V da mesma régua nacional escreve a palavra opcional para a hérnia de baixo risco e para as cirurgias plásticas estéticas, e nomeia oito critérios que tiram a hérnia dessa faixa: hérnia volumosa, duração prevista acima de duas horas, idade acima de 65 anos, diabetes, neoplasia, imunossupressão, índice de massa corporal acima de 30 e desnutrição. A decisão sai do procedimento e vai para o paciente.
Anvisa — caderno 4, 2017, Anexo V, tabela de cirurgia gastrointestinal, linha de hérnia, e tabela de cirurgia plástica
Defina a indicação conforme procedimento, implante e fatores do paciente apresentados no capítulo. A classificação “limpa” isoladamente não substitui essa avaliação. Quando indicada, cumpra dose e momento; no percurso principal, encerre ao fechamento. Infecção estabelecida requer uma decisão terapêutica própria.
O raciocínio, em voz alta
Volte ao senhor Adelmo Jucá: 61 anos, 104 kg, 1,74 m, diabetes tipo 2 em metformina, hipertensão. Colecistectomia videolaparoscópica eletiva por colelitíase sintomática, marcada para amanhã em segundo tempo, sem hora definida. Sem alergia declarada, sem antimicrobiano nos últimos três meses. Você é o interno e tem de escrever a linha do antibiótico agora, às sete e dez da noite.
antes de escolher a droga, classifico a ferida — e reconheço que é uma previsão
Colecistectomia abre a via biliar, que é um sistema colonizável, e manipula a vesícula dentro da cavidade. Isso põe a ferida na segunda classe do Anexo VII: limpa-contaminada, com risco declarado de 3% a 11%. Essa é a classe prevista. A classe efetiva vai ser decidida amanhã, entre nove e onze, por quem estiver segurando a pinça — e a tabela do Anexo V para colecistectomia laparoscópica lista oito gatilhos de alto risco, dos quais cinco só se conhecem dentro da sala.
decido se prescrevo, e não deixo a decisão para o intraoperatório
Adelmo tem fatores de risco do paciente, incluindo diabetes, que entram na avaliação da colecistectomia laparoscópica. A indicação de profilaxia deve ser resolvida no pré-operatório com o protocolo e os riscos reais, sem esperar só achados de sala nem ensinar que qualquer dúvida autoriza antibiótico. Neste caso, a equipe indica profilaxia e garante disponibilidade da dose adequada.
Escolho a droga pelo procedimento, flora esperada e protocolo
Cefazolina é opção do protocolo para este procedimento e perfil. Relaciono sua cobertura à flora mais provável e confiro alergias e particularidades; a tabela apoia esse raciocínio. Vancomicina não é substituto rotineiro de espectro mais amplo e só entra quando houver indicação específica.
escolho a dose pelo peso aferido, e a converto antes de escrever
O peso aferido é 104 kg: cefazolina 2 g no esquema adotado. A dose de 3 g para peso ≥120 kg não depende de a operação ser bariátrica. Prescrevo em massa, confiro apresentação e reconstituição do fabricante com a equipe e não transformo o volume de uma marca em regra para todos os frascos.
amarro o horário ao evento, porque a hora da incisão não existe ainda
Esta é a decisão que mais muda o resultado, e é a que parece administrativa. Cirurgia de segundo tempo significa uma estimativa que erra por horas. Prescrever para as sete da manhã seria transformar a estimativa em decisão e, com incisão às dez e vinte, o paciente teria recebido a dose quase duas meias-vidas antes da lâmina. Escrevo: dose única na indução anestésica, dispensar e enviar com o paciente, não administrar na enfermaria. E converso com a técnica que faz o carrinho da manhã, porque é ali que a regra se perde.
escrevo o repique com os dois gatilhos, e não só com o do relógio
Deixo disponível redose de 2 g em quatro horas, contando desde a administração inicial, e registro o gatilho de perdas importantes que pode antecipá-la. No caso, dose às 10h05 e redose às 14h05; se a operação continuasse, seria preciso reavaliar a dose seguinte.
escrevo o término hoje, junto com o início, e digo o que o prorroga
Escrevo o término no fechamento. Conversão, colangiografia e dreno não são critérios automáticos para prolongar; derramamento é descrito e avaliado no contexto. Infecção identificada exige decisão terapêutica própria, com agente, controle de foco e duração documentados.
o que aconteceu, e por que a prescrição aguentou
Cefazolina 2 g às 10h05, incisão às 10h18 e redose de 2 g às 14h05. O derramamento biliar e a conversão das 12h50 são registrados, mas não geram por si tratamento. Ao fechamento às 15h10, sem indicação terapêutica adicional no caso, encerra-se a profilaxia. Na recuperação, a equipe remove doses automáticas e comunica o plano; no dia seguinte, o dreno seroso não é motivo para reiniciar.
Faça você
Agora é dona Leocádia Sarmanho, 79 anos, 52 kg, 1,52 m. Artroplastia total de quadril eletiva por coxartrose, marcada para as sete e meia da manhã de quinta-feira, primeiro tempo da sala 2. Hipertensa, com fibrilação atrial em anticoagulante oral já suspenso pela avaliação pré-operatória. No campo de alergias do prontuário há uma frase de quatro palavras, escrita há doze anos: alergia a penicilina, urticária. Nunca foi apurada desde então. A cirurgia deve durar cerca de duas horas e meia, com uso de torniquete não previsto. Escreva a linha do antimicrobiano.
classifico a ferida e vejo o que o implante muda
A ferida é limpa: nenhuma víscera colonizada é aberta, e o risco declarado pelo Anexo VII é de 1% a 5%. Mas há prótese, e prótese não muda a probabilidade — muda a consequência. Um corpo estranho implantado reduz o inóculo necessário para a infecção se estabelecer e transforma um evento tratável numa cirurgia de revisão. É o caso em que as três posições da divergência sobre ferida limpa convergem: implante é indicação, e não há o que discutir.
vejo o que o implante muda também na vigilância
Artroplastia primária de quadril é uma das seis cirurgias que a Nota Técnica 03/2026 manda monitorar por 90 dias, e não pelos 30 habituais, contando o dia da cirurgia como dia 1. A busca ativa depois da alta tem de cobrir esse período inteiro, e a orientação de alta precisa dizer isso à paciente e à família com o prazo explícito.
olho o rótulo de alergia antes de trocar a droga
Urticária há doze anos, sem apuração posterior, é exatamente o tipo de rótulo que faz a vancomicina virar rotina num serviço — e o caderno 4 lista o uso rotineiro de vancomicina como profilaxia entre as abordagens explicitamente não recomendadas. O interrogatório da alergia é do capítulo de avaliação pré-operatória e leva minutos: quando foi, o que aconteceu, quanto tempo depois da dose, houve necessidade de atendimento. Se a apuração não for possível antes da cirurgia, a alternativa para cobertura de Gram-positivos que o caderno 4 nomeia primeiro é a clindamicina 600 mg.
se a troca for por vancomicina, mudo a hora junto com a droga
Aqui está o erro que passa despercebido: trocar a droga e manter o horário. Cefalosporina entra na janela de 0 a 60 minutos antes da incisão; vancomicina e ciprofloxacino têm de ter a infusão iniciada de 1 a 2 horas antes, porque a infusão é lenta e o pico tecidual demora. Uma vancomicina prescrita na indução chega tarde, e a paciente entra na sala com prótese e sem profilaxia efetiva.
checo a idade contra a bula, e registro o conflito que encontro
Ela tem 79 anos, e a bula brasileira da cefazolina fixa para maiores de 75 um limite de 500 mg a cada 8 horas — 1.500 mg por dia, mesmo com depuração de creatinina normal. O esquema do Anexo V para ortopedia geral soma, numa cirurgia de quatro horas, 6.000 mg no primeiro dia. Numa cirurgia de duas horas e meia sem repique, o esquema completo de indução mais 24 horas de pós-operatório ainda soma 5.000 mg. Os dois documentos são brasileiros, estão em vigor, e não se mencionam. Este é um ponto para levar ao protocolo da casa e à farmácia clínica, com o conflito escrito, e não para resolver sozinho na véspera.
escrevo a linha do torniquete, mesmo sem previsão de uso
Torniquete não está previsto, mas artroplastia de quadril às vezes surpreende. A regra do caderno 4 é administrar a dose total antes de insuflar o manguito, porque membro isolado da circulação está isolado da droga. Uma frase na prescrição custa nada e resolve a exceção.
Continuidade do caso e prática do internato
Reconstrua a linha de Adelmo com 2 g na dose inicial e na redose e término no fechamento, explicando separadamente os achados da operação.
Questão integrativa 1
A dose de cefazolina de 3 g pertence apenas à bariátrica?
Questão integrativa 2
Para Adelmo de 104 kg, a redose cai automaticamente de 2 para 1 g?
Questão integrativa 3
Conversão para aberta transforma sozinha a ferida em contaminada?
Questão integrativa 4
Dreno subhepático exige profilaxia até ser retirado?
Questão integrativa 5
Qual a diferença entre prolongar profilaxia e tratar infecção?
Questão integrativa 6
Que horários precisam ser recuperáveis no prontuário?
Ver como fecharíamos
A proposta é cefazolina 2 g IV na janela pré-incisão, após a equipe esclarecer a história de alergia. Urticária antiga atribuída a penicilina não basta para impor vancomicina: registrar fármaco, cronologia, gravidade, reexposição e presença de reação grave tardia ou reação à própria cefazolina. A escolha final segue avaliação e protocolo; se a cefazolina estiver contraindicada, selecionar alternativa adequada, em geral clindamicina 900 mg IV quando indicada e apropriada à flora local, ou outro esquema conforme o risco. Deixar redose de cefazolina de 2 g disponível para quatro horas desde a dose inicial, ou antes por perdas importantes; ajustar por peso e particularidades. Completar administração antes da insuflação do torniquete quando utilizado. No percurso SHEA adotado, encerrar ao fechamento e não manter por prótese, dreno ou intercorrência isolada. Suspeita de infecção exige avaliação e plano terapêutico específico. Na passagem, conferir horários reais, dose e término; na alta, orientar cuidados com a ferida e sinais de retorno. O período de vigilância epidemiológica não define a duração do antibiótico. Limites de dose de bula por idade e protocolos devem ser discutidos com farmácia e equipe, sem impor subdose perioperatória apenas pela idade cronológica. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. O esquema ASHP considera peso ≥120 kg, independentemente do nome da cirurgia. 2. Não. No esquema adotado, a redose é de 2 g; conferir protocolo e particularidades. 3. Não. Classe depende de achados e contaminação reais, não apenas da via de acesso. 4. Não. Dispositivo não é indicação para prolongamento preventivo. 5. Tratamento depende de infecção suspeita ou estabelecida, fonte, agente e duração próprios; não é uma continuação automática da prevenção. 6. Administração efetiva, incisão, redoses e término; esses dados mostram se houve cobertura no período necessário.
A nota técnica define o período de vigilância pelo procedimento, e não pela classificação ou pela profundidade da infecção. São seis os procedimentos monitorados por 90 dias: implante de prótese mamária, artroplastia primária de quadril, artroplastia primária de joelho, revascularização do miocárdio, derivação interna neurológica e cirurgia de catarata; a cesariana é monitorada por 30 dias. O dia 1 é a data da cirurgia, de modo que o sexagésimo dia está dentro da janela. A vigilância pós-alta é justamente o método de busca ativa em pacientes já liberados, e não depende de reinternação. Infecção envolvendo tecidos profundos periprotéticos é infecção de sítio cirúrgico, não de corrente sanguínea. E o documento é explícito ao recusar resultados de cultura colhidos por swab, o oposto do que afirma a alternativa que exige coleta por swab.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Sem consultar nada, escreva as quatro classes de ferida do Anexo VII e, ao lado de cada uma, o que ela muda na prescrição. Depois pegue três prescrições reais de pacientes que operaram esta semana no seu serviço e confira, em cada uma, se existe a terceira linha — a do término, com data e hora escritas. Anote quantas das três tinham.
Em 30 dias
Pegue o senhor Adelmo e mude um dado por vez, escrevendo qual linha da prescrição muda em cada mudança. E se ele tivesse 79 anos em vez de 61? E se pesasse 62 kg em vez de 104? E se a cirurgia fosse uma colectomia esquerda em vez de uma colecistectomia? E se o campo de alergias trouxesse anafilaxia a cefalosporina? E se ele já estivesse em cefepima por outra infecção quando descesse para a sala? Em seguida, procure no seu hospital quem é o dono da suspensão automática das profilaxias — se existir, o nome dessa pessoa vale mais que qualquer tabela deste capítulo.
Agora atenda
Agora atenda: homem de 54 anos, 88 kg, internado para herniorrafia inguinal eletiva com tela, marcada para amanhã de manhã em primeiro tempo. Hipertenso, sem diabetes, sem imunossupressão, sem desnutrição, hérnia de pequeno volume, duração prevista de uma hora. O residente pediu que você escrevesse a prescrição da véspera e disse que 'nesse aí nem precisa de antibiótico'. Decida se prescreve, escreva a linha completa se prescrever, e diga em voz alta qual critério você usou — porque é isso que vai permitir ao serviço auditar depois.
