Cirurgia GeralPré e Pós-operatório

Cento e vinte, sem febre

Complicações pós-operatórias (febre pós-op, íleo, fístula)

Reconhecer uma trajetória pós-operatória desfavorável, pedir avaliação precoce e integrar exame, drenos, função orgânica e controle do foco.

Fontes deste capítulo

DE-AGUILAR-NASCIMENTO JE, SALOMÃO AB, WAITZBERG DL, DOCK-NASCIMENTO DB, CORREA MITD, CAMPOS ACL, CORSI PR, PORTARI FILHO PE, CAPOROSSI C; Comissão de Cuidados Perioperatórios do Colégio Brasileiro de Cirurgiões; Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral. Diretriz ACERTO de intervenções nutricionais no perioperatório em cirurgia geral eletiva. Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, v. 44, n. 6, p. 633-648, 2017

AGUILAR-NASCIMENTO JE, RIBEIRO JUNIOR U, PORTARI-FILHO PE, SALOMÃO AB, CAPOROSSI C, COLLEONI NETO R et al. Perioperative care in digestive surgery: the ERAS and ACERTO protocols — Brazilian College of Digestive Surgery Position Paper. ABCD Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva, v. 37, e1794, 2024

DE-AGUILAR-NASCIMENTO JE, SALOMÃO AB, CAPOROSSI C, DOCK-NASCIMENTO DB, PORTARI-FILHO PE, CAMPOS ACL, IMBELLONI LE, SILVA-JR JM, WAITZBERG DL, CORREIA MITD. Projeto ACERTO — 15 anos modificando cuidados perioperatórios no Brasil. Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, v. 48, e20202832, 2021

Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Nota Técnica GVIMS/GGTES/Dire3/Anvisa nº 03/2026: Critérios Diagnósticos das Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde de Notificação Nacional Obrigatória — ano 2026. Brasília: Anvisa, 2026. Capítulo de infecção de sítio cirúrgico e Quadros 35 e 36

Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024

01

Responda antes de ler

Homem de 55 anos, oitavo dia de pós-operatório de laparotomia por trauma, evolui com saída de conteúdo entérico por um ponto da incisão mediana. Está estável, afebril, com débito somado de 250 mL em 24 horas. Qual das condições abaixo, se presente, mais fortemente decide contra o fechamento espontâneo da fístula?

02

O paciente que você vai ver

Seis e cinquenta de uma quinta-feira, enfermaria de clínica cirúrgica de vinte e dois leitos, num hospital de porte médio que atende a cidade e mais quatro municípios da região. O centro cirúrgico tem duas salas e o tomógrafo funciona, com técnico na escala das sete às dezenove. Quem passa visita nesta hora é você: o residente desceu para a primeira cirurgia às sete, o cirurgião assistente chega às onze, e a rotina da casa é que o interno veja todos os leitos antes das oito e apresente na volta.

O leito 11 é do senhor Telésforo Icatu, 64 anos, 78 quilos, motorista de ônibus aposentado. Está no quarto dia de pós-operatório de retossigmoidectomia por adenocarcinoma de reto alto, laparotomia mediana, anastomose colorretal mecânica, sem ostomia de proteção. Tem um dreno tubulolaminar na pelve. A evolução de ontem, escrita pelo plantonista da noite, diz três palavras: pós-operatório sem intercorrências.

Você mede. Frequência cardíaca de 118. Pressão arterial de 118 por 74. Temperatura axilar de 36,8 °C. Frequência respiratória de 20. Saturação de 96% em ar ambiente. Diurese de 900 mL nas últimas vinte e quatro horas. Volta ao prontuário e procura os números de ontem: frequência de 112 às vinte e duas horas, 108 às dezesseis, 104 na visita da manhã. Anteontem, 92 e 88. A curva sobe há dois dias e ninguém escreveu isso em lugar nenhum, porque cada plantão viu um número, e um número isolado sempre cabe em alguma explicação.

Ele diz que está bem. Diz que dói, sim, mas que dói menos do que doía. Que está cansado. Que não conseguiu dormir direito. A barriga está distendida, timpânica, dolorosa difusamente à palpação — o que, no quarto dia de uma laparotomia mediana, é exatamente o que se espera encontrar. Não eliminou flatos. O dreno da pelve tem 140 mL nas vinte e quatro horas, e o conteúdo do frasco é serossanguinolento, um pouco mais turvo que o de ontem, sem cheiro que você consiga distinguir do cheiro da enfermaria. A ferida está coberta e o curativo está limpo. A prescrição tem morfina de resgate, e ele usou duas nas últimas doze horas.

Há três explicações prontas na sua cabeça, e todas as três são verdadeiras: ele está com dor, está desidratado, e a morfina que recebeu de madrugada não impede taquicardia — se algo faz, é o contrário. Qualquer uma delas fecha o raciocínio, cabe numa linha de evolução e permite passar ao leito 12 antes das oito. É por isso que este é o capítulo que se escreve. Existe uma quarta explicação, e ela é a única em que o tempo custa caro: a anastomose vazou. Ela não vai se anunciar com febre alta nem com dor localizada nem com um exame alterado — não hoje. Ela já se anunciou, e o anúncio é aquele 118 que subiu de 88 em quarenta e oito horas.

03

Quem adoece disso

O pós-operatório é o único período da internação em que o paciente piora por causa daquilo que foi feito para melhorá-lo. Isso muda a estatística de um jeito que o interno precisa entender antes de qualquer número: a complicação pós-operatória não é um evento raro que às vezes acontece com quem tinha comorbidade — é o desfecho esperado de uma fração conhecida de operações, e a diferença entre os serviços não está em quantas complicações nascem, está em quantas são reconhecidas cedo. O que este capítulo mede, portanto, não é a chance de vazar. É a distância entre o momento em que vazou e o momento em que alguém escreveu no prontuário que vazou.

O Brasil tem um projeto nacional de cuidado perioperatório, e ele tem nome, data e endereço. O projeto ACERTO — sigla de aceleração da recuperação total no pós-operatório — foi criado como projeto de pesquisa em 2004 e implantado no segundo semestre de 2005 na enfermaria de clínica cirúrgica do Hospital Universitário Júlio Müller, da Universidade Federal de Mato Grosso, depois de uma auditoria de seis meses feita sem que docentes e residentes do serviço soubessem que estavam sendo auditados. Os achados foram apresentados num workshop de dia inteiro em julho de 2005. A primeira publicação de resultados, no primeiro semestre de 2006, mostrou dois dias a menos de internação e queda da taxa de infecção de sítio cirúrgico. O estudo de 2011, com cerca de cinco mil pacientes, foi o primeiro a mostrar redução de mortalidade pós-operatória.

Vale reparar no desenho daquela auditoria, porque ele diz mais sobre a rotina brasileira do que o resultado. Auditar seis meses sem avisar a equipe é a única forma de medir o que de fato se faz, e o que se fazia era jejum pré-operatório longo, volume alto de cristaloide e realimentação tardia. O position paper do Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva de 2024 descreve a mesma rotina como ainda corrente: o paciente de cirurgia digestiva costuma passar de dois a quatro dias sem receber nada por boca, recebendo de dois a três litros de cristaloide endovenoso por dia, não raro com uma sonda nasogástrica drenando. Vinte anos separam a auditoria da descrição, e a descrição é a mesma.

A régua brasileira sobre quando realimentar é explícita e é forte. A Diretriz ACERTO de 2017, assinada pela Comissão de Cuidados Perioperatórios do Colégio Brasileiro de Cirurgiões junto com a Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral, recomenda realimentação oral ou enteral em até vinte e quatro horas de pós-operatório após operação abdominal eletiva, desde que o paciente esteja hemodinamicamente estável, e diz com todas as letras que a recomendação se aplica mesmo em casos de anastomoses digestivas. Grau da recomendação: forte. Força da evidência: alta. Não é uma sugestão de escola; é a régua nacional desde 2017, reafirmada em 2024.

Isso importa para este capítulo por um motivo que não é nutricional. Enquanto a casa mantiver o paciente em jejum até eliminar flatos, o retorno da função intestinal deixa de ser um sinal e passa a ser uma permissão administrativa: ninguém observa o intestino, todo mundo espera por ele. Quando a dieta entra cedo, a tolerância à dieta vira o parâmetro mais precoce e mais barato que existe no pós-operatório — o paciente que estava comendo e parou de comer disse alguma coisa. Perde-se esse sinal ao adotar o jejum de rotina, e perde-se de graça.

Sobre a complicação que este capítulo persegue, o país não tem número próprio, e a razão é estrutural. A vigilância nacional obrigatória de infecção relacionada à assistência à saúde é definida pela Nota Técnica GVIMS/GGTES/Dire3 nº 03/2026 da Anvisa, que fixa os critérios diagnósticos e as listas de procedimentos monitorados. Ela conta infecção de sítio cirúrgico em três planos — incisional superficial, incisional profunda e órgão-cavidade — com janela de trinta ou noventa dias conforme o procedimento. A deiscência de anastomose, quando evolui para coleção infectada, é contada dentro do plano órgão-cavidade. Quando não infecta, ou quando ainda não infectou, não é contada em lugar nenhum: o sistema nacional não tem campo para ela.

Duas ordens de grandeza ajudam o interno a calibrar a expectativa, e as duas vêm da mesma lógica de denominador. Primeiro: a taxa de vazamento anastomótico não é uma só — ela depende de onde está a anastomose, e a mesma equipe tem taxas diferentes num íleo e num reto baixo. Falar em taxa de deiscência sem dizer a altura da anastomose é como falar em taxa de infecção sem dizer o grau de contaminação da ferida. Segundo: quanto mais tarde o reconhecimento, pior o desfecho, e essa é a única variável do conjunto que está inteiramente nas mãos de quem passa visita. A operação já aconteceu; o atraso ainda não.

Há, por fim, um dado de processo que este capítulo assume como seu porque nenhum indicador nacional o captura: o número de plantões que um paciente atravessa antes de alguém ligar os pontos da curva de frequência cardíaca. No caso do leito 11, são quatro medidas em quarenta e oito horas, cada uma anotada por uma pessoa diferente, cada uma explicável isoladamente, nenhuma comparada com a anterior. Não existe registro epidemiológico dessa falha porque ela não é um evento — é a ausência de um evento. É também, na prática de enfermaria, a causa mais comum de diagnóstico tardio de complicação pós-operatória, e a única que se corrige com o que se escreve na evolução.

04

Por que acontece o que acontece

Toda operação abdominal produz, por si só, uma resposta inflamatória sistêmica proporcional ao trauma cirúrgico. Nas primeiras vinte e quatro a quarenta e oito horas o paciente pode ter febre baixa, leucocitose, taquicardia leve e dor — e nada disso significa infecção. É a resposta esperada, e o interno precisa conhecê-la para não tratá-la. O que distingue a resposta esperada da complicação não é a presença dos sinais: é a trajetória deles. A resposta ao trauma cirúrgico decresce; a complicação cresce. Um número isolado não separa as duas; dois números em dias diferentes separam.

A taquicardia vem antes da febre por uma razão mecânica. O contato do conteúdo entérico com o peritônio desencadeia liberação de mediadores que produzem vasodilatação e aumento da permeabilidade capilar: cai a resistência periférica, cai o retorno venoso efetivo, e a única resposta compensatória disponível de imediato é o aumento da frequência cardíaca. O deslocamento do ponto de ajuste térmico no hipotálamo, que é o que produz febre, depende de outra cascata e de outra concentração de mediadores — leva mais tempo. Por isso o pulso sobe primeiro, e por isso ele sobe mesmo em quem não vai ter febre nenhuma.

Três coisas atrasam ou apagam a febre em quem mais precisaria dela como aviso, e as três estão na prescrição de quase todo pós-operatório. O analgésico antitérmico usado de horário mascara a curva térmica. O opioide reduz a percepção da dor visceral e a expressão facial do desconforto, de modo que o paciente que vazou pode parecer confortável. E a idade avançada, por si só, atenua a resposta febril. O que nenhum dos três apaga é a taquicardia — ela é o sinal mais teimoso do conjunto, e é por isso que ela é a trava deste capítulo.

A anastomose intestinal tem um calendário próprio de fragilidade, e ele explica por que o vazamento tem hora para aparecer. Nos primeiros dias a resistência da sutura é dada pelo material de síntese e pelo coágulo de fibrina; a resistência do tecido em si depende do colágeno, que nesse período está sendo simultaneamente degradado e produzido. Entre o terceiro e o sétimo dia a degradação supera a síntese na margem da anastomose, e é ali que a linha de sutura tem a menor resistência mecânica que terá em toda a sua vida. Vazamento clínico antes do terceiro dia costuma ser falha técnica; vazamento entre o quinto e o oitavo dia costuma ser falha de cicatrização — e essa é a janela em que o paciente já saiu da sala de recuperação, já está na enfermaria e já foi considerado um pós-operatório sem intercorrências.

O que decide se a cicatrização vence a degradação é perfusão, tensão e contaminação — nessa ordem de importância prática. Anastomose com aporte sanguíneo marginal, anastomose sob tração, anastomose em campo contaminado e anastomose em paciente desnutrido, hipoxêmico ou em uso de corticoide partem com desvantagem. Nada disso está nas suas mãos na visita da manhã. O que está é a consequência: quanto mais desses fatores o paciente carrega, mais baixo deve ser o seu limiar para desconfiar de uma taquicardia que não cede.

O íleo pós-operatório tem mecanismo distinto e não é uma doença: é uma resposta fisiológica. A manipulação das alças e a abertura do peritônio disparam um reflexo inibitório de origem simpática que interrompe a atividade motora coordenada, e a inflamação da parede intestinal que se segue sustenta essa parada por mais algum tempo. Os segmentos recuperam em ordem previsível — o intestino delgado em horas, o estômago em um a dois dias, o cólon em dois a quatro dias — e é a recuperação do cólon que o paciente percebe como eliminação de flatos. Íleo nesse intervalo é o esperado. Íleo que ultrapassa esse intervalo, ou íleo que já tinha resolvido e voltou, deixou de ser resposta fisiológica e passou a ser sintoma de outra coisa.

Duas coisas prolongam o íleo e as duas são prescritas por nós. Os opioides reduzem a motilidade por ação direta sobre receptores do plexo mioentérico, de modo que a analgesia bem-intencionada compra distensão. E o excesso de cristaloide endovenoso produz edema de parede intestinal: as duas fontes brasileiras abertas neste capítulo convergem nesse ponto — quanto maior o volume infundido no dia da operação, maior o período de íleo, maior a intolerância à dieta precoce e maior o tempo de internação, e o excesso de solução salina, com a acidose hiperclorêmica que a acompanha, tem efeito demonstrado sobre a função gastrointestinal e sobre a cicatrização da anastomose. O paciente que recebeu três litros por dia e está distendido no terceiro dia não é um mistério; é uma conta.

A fístula é o que acontece quando o vazamento encontra um caminho. Se o extravasamento fica contido por alças e epíplon, forma-se uma coleção — abscesso, se infectar. Se encontra o trajeto de um dreno, sai pelo dreno, e o dreno passa a exibir conteúdo entérico. Se encontra a incisão, sai pela ferida, e o que era uma ferida operatória passa a ser um orifício externo de fístula enterocutânea. Se não encontra caminho nenhum, espalha-se pela cavidade e produz peritonite difusa. Essas quatro saídas explicam por que o mesmo evento — a anastomose que abriu — se apresenta ao interno de quatro maneiras completamente diferentes, e por que a mais silenciosa delas, a coleção contida, é justamente a que só se anuncia pelo pulso.

Ilustração de alça intestinal com pequena falha na linha de anastomose, vazamento para coleção extraluminal e ponta de dreno na coleção.
A falha de uma anastomose pode causar vazamento e coleção, como no exemplo, ou contaminação mais difusa. Taquicardia e piora clínica podem preceder febre ou sinais peritoneais claros. O dreno desenhado ilustra uma possibilidade de drenagem; sua presença ou débito não exclui complicação nem define sozinho o tratamento.
05

Como se apresenta de verdade

Este capítulo tem uma fronteira que precisa ser dita antes de qualquer coisa, porque ela recorta metade do que o título promete. A investigação da febre no paciente internado e no pós-operatório — a cronologia por dia de pós-operatório, o inventário dos dispositivos, quando colher hemocultura e quantos frascos, quando colher urocultura, o que fazer quando não se acha foco nenhum, e a controvérsia sobre a atelectasia como causa da febre das primeiras quarenta e oito horas — pertence inteira a Febre no paciente internado, na apostila de Síndromes do Paciente Internado, que é o dono dela e a trata como assunto principal, não como citação. Quando o seu paciente tem febre e a febre ainda não tem endereço, o capítulo a ler é o de lá, não este.

O que sobra para cá, e é o que este capítulo assume e declara que assumiu, é a complicação cirúrgica como diagnóstico: a anastomose que vazou, o íleo que deixou de ser esperado, a obstrução precoce do pós-operatório, a coleção intra-abdominal e a fístula. Nesses quadros a febre entra como um sinal entre outros — muitas vezes o mais tardio deles — e nunca como o problema a investigar. Quando o vazamento se anuncia, ele se anuncia primeiro pelo pulso; a febre, quando vem, vem confirmar o que a frequência cardíaca já dizia há dois dias.

Três outras fronteiras se fecham aqui, e as três se fecham com todas as letras porque são vizinhas próximas demais para ficarem implícitas. A infecção de sítio cirúrgico nos três planos, a deiscência de aponeurose, a eventração, a evisceração, o seroma, o hematoma e a fasciíte necrosante da incisão são de Abrir antes que abra sozinha, o capítulo anterior desta mesma apostila, que é o dono da parede e declarou por escrito que a assumiu. Deiscência, aqui, significa sempre deiscência de anastomose; a deiscência de parede é de lá. A obstrução intestinal estabelecida — a brida antiga, o volvo, a decisão de operar, a sonda nasogástrica na obstrução e o critério radiológico que separa íleo de obstrução mecânica — é de A pergunta não é se obstruiu, na apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica. E a avaliação de risco cirúrgico, a profilaxia de tromboembolismo venoso e a antibioticoprofilaxia são dos capítulos 1, 2 e 3 desta apostila, que são os donos delas.

Duas fronteiras menores completam o cerco, e valem porque este capítulo termina em duas ações que parecem dele e não são. A forma da evolução médica — o que se escreve, o que não se escreve, como se estrutura — é de Evolução médica, o capítulo 16 daquela mesma apostila, que é o dono dela; o que fica aqui é apenas qual conteúdo o pós-operatório obriga a registrar para que o próximo plantonista consiga comparar. E a régua geral de quando pedir ajuda, como acionar e como escalonar é de Chamar antes de ter certeza, na apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática, que é o dono do gesto; o que este capítulo fixa é o gatilho cirúrgico específico e o que se diz ao telefone.

O que este capítulo faz, então, cabe numa frase: ensina o interno que passa visita a distinguir o pós-operatório que está indo bem do pós-operatório que saiu do trilho, a reconhecer os três modos pelos quais ele sai do trilho por dentro — vazamento, íleo prolongado e fístula —, e a saber a hora exata de parar de escrever evolução e começar a telefonar.

O pós-operatório que vai bem: o que é esperado, dia a dia

Não se reconhece o anormal sem ter o normal na cabeça, e o normal do pós-operatório é a única coisa deste capítulo que se aprende decorando. Seis parâmetros compõem o quadro, e todos eles são medidos ou perguntados na visita: frequência cardíaca, temperatura, dor, distensão e função intestinal, débito e aspecto de dreno, e aspecto da ferida. Nenhum vale isolado. Todos valem comparados com os de ontem.

A frequência cardíaca sobe no dia da operação e no primeiro dia, tipicamente até a faixa dos noventa a cem, e depois desce dia a dia rumo ao valor prévio do paciente. É a variável mais sensível e a que tem a trajetória mais confiável. Uma curva que desce é tranquilizadora mesmo com números ainda altos; uma curva que sobe é preocupante mesmo com números ainda baixos. Um paciente que fazia 70 em casa e faz 96 no quarto dia não está normal só porque 96 é menos de 100.

A temperatura pode subir nas primeiras quarenta e oito horas como parte da resposta ao trauma cirúrgico, geralmente em faixa baixa, e depois normaliza. Febre que aparece pela primeira vez a partir do terceiro dia, ou febre que reaparece depois de ter cedido, é evento novo e exige explicação. O restante da investigação da febre é do capítulo dono; o que interessa aqui é só a forma da curva.

A dor tem uma característica que o interno subestima: ela também tem trajetória. Dor de incisão diminui a cada dia. Dor que aumenta depois de ter diminuído, dor que muda de caráter — de dor de ferida para dor difusa, em cólica ou em peso —, e dor que passa a exigir mais resgates do que exigia ontem são achados, não queixas. A soma dos resgates das últimas vinte e quatro horas é um número, e um número que cresce é um sinal. O ajuste da analgesia em si — dose fixa, resgate como fração da dose diária, rodízio de opioide, recálculo — é de Analgesia no paciente internado, na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado, que é a dona do assunto; o que se usa aqui é a contagem, não o esquema.

A distensão abdominal e a função intestinal seguem o calendário do íleo fisiológico: delgado em horas, estômago em um a dois dias, cólon em dois a quatro dias. O que se pergunta na visita é se eliminou flatos, se evacuou, se está tolerando o que está sendo oferecido por boca, e se o abdome está mais ou menos distendido que ontem. A resposta esperada no terceiro ou quarto dia de uma laparotomia é abdome distendido, timpânico e difusamente doloroso, com flatos aparecendo por volta desse intervalo. Isso, sozinho, não diz nada — nem a favor nem contra.

O débito e o aspecto do dreno são a informação mais desperdiçada da enfermaria brasileira, porque quase sempre se anota o volume e quase nunca se descreve o conteúdo. Débito costuma cair dia a dia. O que importa mais que o volume é a mudança de caráter: serossanguinolento que clareia é o esperado; serossanguinolento que fica turvo, que ganha cor entérica, biliosa ou fecaloide, ou que ganha cheiro, é achado maior. O capítulo anterior desta apostila já registra a regra em uma frase que vale repetir aqui porque ela aponta exatamente para este capítulo: débito que muda de caráter obriga a repensar a anastomose.

O aspecto da ferida completa o quadro e é o único item cuja interpretação inteira pertence ao capítulo vizinho. Descubra a incisão na visita, olhe, palpe, cheire — e, para o que encontrar ali, o texto a ler é Abrir antes que abra sozinha. O que este capítulo pede da ferida é apenas isto: se sai líquido entérico por ela, não é infecção de sítio cirúrgico, é fístula, e a conduta é outra.

Cento e vinte, sem febre: a trava do capítulo

Taquicardia persistente no pós-operatório abdominal é deiscência de anastomose até prova em contrário. Essa frase é a única coisa deste capítulo que se aplica sem pensar, e ela é assim porque as alternativas todas são cômodas e uma delas mata. Persistente quer dizer duas coisas somadas: sustentada por mais de algumas horas e sem tendência de queda entre uma medida e a seguinte. Não é o valor absoluto que define — é a curva.

Há quatro explicações prontas que o pós-operatório oferece, e todas são clinicamente verdadeiras: dor, hipovolemia, febre e ansiedade. É exatamente por serem verdadeiras que elas atrasam o diagnóstico. Cada uma delas pode ser testada em minutos, e o teste é o que separa o raciocínio da acomodação. Se é dor, a taquicardia cede quando a dor cede — dê o resgate e meça de novo em trinta minutos. Se é hipovolemia, ela cede com volume — infunda e meça de novo. Se é febre, há febre; se não há febre, essa explicação está descartada por definição. Se nenhum dos testes derruba a frequência, restou uma explicação, e é a cirúrgica.

A frase que mais atrasa é é a analgesia. Ela é atraente porque encadeia duas verdades — o paciente tem dor e o opioide está prescrito — numa conclusão falsa. O opioide não causa taquicardia; se causasse alguma coisa na frequência, causaria o contrário, por reduzir o tônus simpático da dor. O que a analgesia faz é apagar a dor que seria o segundo sinal, deixando a taquicardia sozinha em cena. Ou seja: a analgesia é razão para valorizar mais a taquicardia, e não menos, porque ela removeu o outro aviso.

A segunda frase que atrasa é ele está bem, dita depois de olhar o paciente. Ela é sincera e frequentemente correta, e é justamente esse o problema: o paciente com coleção contida no quarto dia costuma estar acordado, orientado, conversando, sem fácies de dor, com pressão arterial normal. A pressão arterial não é sinal precoce — ela é o último a cair, e cai quando o mecanismo compensatório da taquicardia se esgota. Esperar a pressão para acreditar na frequência é esperar o compensador falhar.

A terceira frase que atrasa é o exame não mostrou nada. Um hemograma normal, uma proteína C-reativa que ainda não subiu ou uma tomografia precoce sem achado não excluem vazamento. Uma tomografia feita no segundo ou terceiro dia pode não distinguir a coleção do líquido e do ar que a própria operação deixou; um exame negativo em quem tem a curva subindo não fecha a suspeita, apenas atrasa a decisão em algumas horas. Exame que não confirma não é exame que exclui.

O que se faz é curto, e a ordem importa. Meça de novo, você mesmo, com o paciente em repouso e contando por um minuto inteiro. Traga os valores das últimas quarenta e oito horas para uma única linha de evolução, na sequência em que foram medidos — esse ato, sozinho, é o que transforma quatro números soltos em um diagnóstico. Descubra e examine o abdome e a ferida. Olhe o frasco do dreno, não o número dele. Peça hemograma, lactato, função renal, eletrólitos e gasometria venosa. E telefone para quem operou, ainda na visita, dizendo a curva e não o último valor.

Telefonar não é escalonar por insegurança, e o interno precisa ouvir isso com todas as letras: quem operou é a única pessoa que sabe como estava a anastomose quando ela foi feita, se havia tensão, se a perfusão era boa, se o campo estava contaminado, se houve dificuldade técnica. Essa informação não está no prontuário e muda a probabilidade pré-teste de tudo o que você vai pedir depois. A ligação de dois minutos no quarto dia substitui a reoperação de emergência no sexto.

O íleo esperado, o íleo prolongado e a obstrução precoce

Íleo pós-operatório é a parada transitória e fisiológica da motilidade que se segue a toda operação abdominal, e nesse sentido ele não é complicação nenhuma: é o preço previsto. Vira problema quando ultrapassa o calendário esperado ou quando reaparece depois de ter resolvido. Este capítulo assume o íleo pós-operatório porque nenhum outro do nível ensina o que fazer com ele — A pergunta não é se obstruiu ensina o sinal radiológico que o separa da obstrução mecânica e ensina que laparotomia em íleo adinâmico é dano puro, mas para no reconhecimento; O repouso que ninguém prescreveu, na apostila de Síndromes do Paciente Internado, é dono da constipação, da impactação fecal e da pseudo-obstrução colônica aguda no internado. O íleo do pós-operatório propriamente dito ficava sem dono, e passa a ser daqui.

O primeiro corte é temporal e ele é simples de guardar: até por volta do terceiro ou quarto dia após uma laparotomia, ausência de flatos com abdome distendido e ruídos diminuídos é o esperado. A partir daí, cada dia que passa sem retorno de função exige uma explicação, e a explicação tem de ser buscada em duas listas. A primeira é a lista do que nós estamos fazendo: opioide em dose alta, volume excessivo de cristaloide com edema de parede, potássio baixo, imobilidade no leito. A segunda é a lista do que o paciente desenvolveu: vazamento com peritonite, coleção intra-abdominal, obstrução mecânica precoce.

Existe uma armadilha de sequência que vale mais que qualquer critério: o íleo que resolveu e voltou não é íleo. O paciente que eliminou flatos no terceiro dia, começou a comer no quarto e voltou a distender e a vomitar no quinto tem uma explicação nova, e as duas mais frequentes são o vazamento anastomótico e a obstrução precoce do pós-operatório. Íleo fisiológico não recidiva. Quem trata a recidiva como continuação do íleo perde o intervalo mais valioso que existe nessa história.

A obstrução precoce do pós-operatório é a obstrução mecânica que aparece dentro das primeiras semanas de uma operação abdominal, tipicamente por aderências ainda inflamatórias, mais frouxas e mais edemaciadas que a brida madura de uma operação antiga. Este capítulo a assume, porque A pergunta não é se obstruiu trata de brida antiga, volvo e hérnia encarcerada, e não da obstrução que nasce dentro do próprio pós-operatório. Duas consequências práticas: ela é difícil de separar do íleo prolongado no exame e na radiografia, e ela quase nunca se opera cedo — a maior parte resolve com tratamento não operatório, e reoperar um abdome de duas semanas em plena fase inflamatória tem risco alto de enterotomia. O que muda essa conduta conservadora é o mesmo que muda em qualquer obstrução: sinal de sofrimento de alça ou instabilidade.

Separar íleo de obstrução no leito depende de três perguntas, e nenhuma delas é a radiografia. Primeira: houve intervalo de função? Íleo é contínuo desde a operação; obstrução precoce costuma vir depois de um período em que o intestino funcionou. Segunda: o vômito tem caráter obstrutivo, com volume e conteúdo entérico, ou é náusea de distensão? Terceira: há dor em cólica com períodos de acalmia, ou é dor difusa e constante? Íleo dói de forma difusa e monótona; obstrução dói em ondas. A radiografia é o passo seguinte e a leitura dela — a fronteira entre alça cheia e alça vazia, o gás na ampola retal — pertence por escrito a A pergunta não é se obstruiu.

Uma última observação de calendário, que é a que mais muda conduta: íleo prolongado é sinal de vazamento até que se prove o contrário, e essa frase tem o mesmo peso da trava sobre a taquicardia. A peritonite química ou infecciosa produzida por conteúdo entérico livre paralisa o intestino. Um paciente que não retoma função no quinto dia sem uma causa iatrogênica evidente na prescrição está pedindo uma tomografia, não mais um dia de espera.

O dreno que muda: como a fístula se anuncia

A fístula digestiva pós-operatória se anuncia de quatro maneiras, e três delas passam pela visita da manhã. Pelo dreno, quando o extravasamento encontra o trajeto que já existia. Pela ferida, quando encontra a incisão. Pela deterioração sistêmica sem sinal local, quando fica contida e infecta. E pela peritonite difusa, quando não fica contida — e essa é a única que não exige perspicácia diagnóstica, porque o paciente chega ao seu leito com abdome em tábua e instabilidade.

Pelo dreno, a sequência é sempre a mesma e vale decorar: muda de cor, muda de cheiro, muda de volume — nessa ordem, e a cor vem primeiro. Serossanguinolento que se torna turvo, depois acastanhado ou esverdeado, depois francamente entérico ou fecaloide. O cheiro chega junto ou logo depois e é o achado que ninguém registra porque ninguém abaixa para cheirar. O volume pode até cair antes de subir, se o trajeto estiver parcialmente obstruído por fibrina. Um dreno que muda de cor com volume estável já é achado; esperar o volume subir é esperar o pior cenário.

Há um teste barato que resolve a dúvida do aspecto quando ela é honesta: dosar no líquido do dreno. Amilase alta no líquido, comparada com a do sangue, indica conteúdo pancreático ou de delgado alto; bilirrubina alta indica conteúdo biliar; conteúdo com aspecto fecaloide e cheiro característico dispensa dosagem. A dosagem no líquido é um pedido de laboratório comum, feito no mesmo frasco em que se colheria qualquer outro material, e o interno pode solicitá-la enquanto aguarda o retorno da ligação. Ela não substitui a imagem; ela antecipa a conversa.

Pela ferida, o achado que define é saída de conteúdo entérico por um ponto da incisão. Isso não é infecção de sítio cirúrgico e não se conduz como tal: abrir mais a ferida na enfermaria, na expectativa de drenar pus, pode ampliar o orifício de uma fístula. O reconhecimento é simples se a pergunta certa for feita: o que sai da ferida cheira e parece conteúdo intestinal, ou parece secreção purulenta? Purulento é do capítulo vizinho. Entérico é daqui, e a conduta imediata é proteger a pele, medir o que sai, e telefonar.

O débito é o número que organiza o resto do raciocínio, e o interno precisa saber medi-lo antes de saber classificá-lo. Mede-se em vinte e quatro horas, somando tudo o que sai por todas as vias — dreno, ferida, bolsa de ostomia improvisada — e anotando junto o aspecto. Fístulas de débito baixo têm chance razoável de fechar com tratamento não operatório; fístulas de débito alto perdem volume e eletrólitos em quantidade que muda a prescrição do dia e raramente fecham sozinhas. O trajeto importa tanto quanto o débito: fístula com trajeto longo, sem abscesso associado, sem corpo estranho, sem obstrução distal e sem doença na alça de origem é a que fecha; a que tem qualquer um desses obstáculos não fecha por espera.

Um esclarecimento de vocabulário que evita erro de registro: fístula é comunicação com trajeto; deiscência é a abertura da linha de sutura; vazamento é o evento. O mesmo paciente pode ter os três termos corretamente aplicados no mesmo dia. O que não se deve escrever é deiscência sem dizer de quê — a de parede é do capítulo vizinho e tem outra conduta inteira.

As três coisas que matam na fístula

Fístula não mata por si. Mata por três caminhos, e eles se resolvem em ordem: sepse, distúrbio hidroeletrolítico e desnutrição. A ordem não é retórica — é a sequência temporal em que cada um se torna letal e, portanto, a ordem em que se cuida deles. Quem inverte a ordem e começa pela nutrição de um paciente com coleção não drenada está tratando o terceiro problema enquanto o primeiro trabalha.

A sepse vem da coleção que o conteúdo extravasado forma. Antibiótico não drena coleção — essa frase é do capítulo da febre e vale integralmente aqui. Uma fístula com coleção não drenada é uma fonte contínua, e nenhum esquema antimicrobiano fecha o caso enquanto o material não sair. O reconhecimento da sepse e o pacote da primeira hora — as duas hemoculturas, o antimicrobiano na primeira hora, o volume, a noradrenalina, o segundo lactato — pertencem a Sepse: reconhecer e tratar na primeira hora, na apostila de Medicina Intensiva e Emergências, que é a dona deles e a quem este capítulo cede o manejo. O que fica aqui é o passo que aquele capítulo não dá: reconhecer que, num pós-operatório, a fonte com maior probabilidade de ser a certa é a cirúrgica, e que o controle dela não se faz com prescrição.

O controle do foco cirúrgico tem dono no Internato: o capítulo de choque séptico e sepse cirúrgica, nesta apostila, assume o roteiro inteiro — via, prazo, preparo, reabordagem e o que fazer quando o controle falha. Este capítulo fica com a parte que decide à beira do leito — reconhecer que há coleção, saber que ela precisa sair, saber que a saída pode ser percutânea ou cirúrgica, e saber que essa conversa é com o cirurgião e é agora — e entrega o resto para lá.

O distúrbio hidroeletrolítico é o segundo relógio e é o mais previsível dos três, porque é aritmética. O que sai pela fístula é conteúdo digestivo, e conteúdo digestivo carrega sódio, potássio, cloro e bicarbonato em concentrações que dependem do segmento de origem — perdas altas, de estômago e duodeno, tendem a alcalose e hipopotassemia; perdas baixas, de delgado distal e cólon, tendem a acidose. O princípio de reposição é medir o volume por turno e repor conforme o que saiu, e não conforme a rotina da prescrição. As regras de correção de sódio e de potássio, com velocidade, concentração e teto de infusão, são de Potássio na enfermaria e dos capítulos de sódio da apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado, que são os donos delas; este capítulo usa a dose e não a rediscute.

A desnutrição é o terceiro relógio, o mais lento e o que decide se a fístula fecha. Paciente com fístula de alto débito em jejum prolongado perde massa magra depressa, e massa magra perdida é cicatrização que não acontece. A régua brasileira sobre via e momento está na Diretriz BRASPEN de Terapia Nutricional no Paciente Grave, que lista a fístula de alto débito sem sonda enteral distal entre as contraindicações à nutrição enteral e indica a via parenteral precoce quando a enteral é inviável por fístula de alto débito em intestino delgado. O esquema e as metas são de A linha que ninguém revisa, na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado; a decisão de escalar de enteral para parenteral no operado, inclusive com fístula, está no capítulo de terapia nutricional no paciente cirúrgico, nesta apostila; o que o interno precisa saber aqui é que essa conversa começa no primeiro dia da fístula, e não na segunda semana.

O quarto item, que não mata mas define a qualidade dos outros três, é a pele. Conteúdo entérico digere pele em horas. Proteção da pele periostomal com barreira, coleta em bolsa em vez de gaze, e medida do que se coleta são cuidados de enfermagem que o interno prescreve e acompanha, e são a diferença entre um paciente com uma fístula e um paciente com uma fístula mais uma úlcera química que dói mais que a operação.

As comuns que o interno resolve, e quem é dono de cada uma

O pós-operatório produz um punhado de complicações frequentes, quase todas benignas, que consomem a maior parte do tempo da visita e que o interno resolve sozinho. Quase todas têm dono em outro capítulo do nível, e esta seção existe para mandar o leitor ao dono certo em vez de reensinar mal — com uma exceção, que fica.

A retenção urinária pós-operatória é de Sondagem vesical, na apostila de Procedimentos e Vias de Acesso, que é a dona dela e cujo próprio exemplo é um pós-operatório: o globo vesical, a régua de ausência de diurese com dor, o ultrassom de bexiga e o cateterismo de alívio estão lá com critério e volume. O que este capítulo acrescenta é apenas contextual: raquianestesia e opioide são causas frequentes, a bexiga cheia é causa frequente de agitação em idoso, e um paciente que não urina no pós-operatório precisa ser distinguido de um paciente que não produz urina — palpar e medir resolve, pedir função renal antes de palpar não.

A atelectasia e a dessaturação são de Dessaturação aguda na enfermaria, na apostila de Síndromes do Paciente Internado, que é a dona delas, prescreve fisioterapia respiratória e mobilização, e cujo próprio caso de treino é um quarto dia de laparotomia. E a questão de se a atelectasia causa ou não a febre das primeiras quarenta e oito horas está discutida, com as duas posições e as datas, no capítulo da febre — este aqui não a reabre.

O delirium pós-operatório é de Delirium no paciente internado, na mesma apostila, com o rastreio, o pacote não farmacológico e a dose. A observação que este capítulo faz é de sequência e não de manejo: no pós-operatório, confusão nova é sinal de complicação até que se prove o contrário, e a lista de causas a excluir antes de chamar de delirium inclui exatamente as três deste capítulo — hipóxia, sepse de foco abdominal e distúrbio hidroeletrolítico por perda de dreno.

A imobilidade e a constipação são de O repouso que ninguém prescreveu, também na apostila de Síndromes do Paciente Internado, que é o dono da mobilização precoce, da impactação fecal e da pseudo-obstrução colônica aguda. Sobre mobilização vale registrar o que as duas fontes brasileiras deste capítulo dizem: os protocolos de recuperação acelerada recomendam deambulação nas primeiras vinte e quatro horas, e o position paper de 2024 é explícito ao dizer que a mobilização precoce isolada falhou em reduzir morbidade e tempo de internação — ela funciona como parte do conjunto, não como item avulso. Prescrever deambulação e mais nada não é aderir a protocolo.

A náusea e o vômito pós-operatórios ficam neste capítulo, e ficam porque não têm dono em nenhum capítulo do nível. O "se necessário" da madrugada, na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado, é dono da redação da linha condicional e ensina a escolher o antiemético pelo mecanismo e não pelo hábito, e a não associar ondansetrona e metoclopramida na mesma prescrição condicional — regras que se usam aqui sem reescrever. O que este capítulo assume é o específico do pós-operatório: que náusea e vômito nas primeiras horas costumam ser efeito de anestésico e opioide, que náusea e vômito que aparecem depois de o paciente já ter tolerado dieta são achado obstrutivo ou de vazamento até prova em contrário, e que a escolha do antiemético no Brasil esbarra numa restrição de elenco que muda a prescrição — a ondansetrona consta da Rename apenas em comprimido e comprimido orodispersível, e a apresentação injetável, que existe e é registrada no país, não está no elenco. Quem vomita não engole comprimido; a apresentação parenteral disponível no elenco básico é a metoclopramida.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação do pós-operatório que saiu do trilho tem uma característica que a distingue de quase todas as outras deste nível: o exame mais importante já foi feito, está no prontuário, e ninguém o leu. São os sinais vitais das últimas quarenta e oito horas. Antes de pedir qualquer coisa, transcreva-os em sequência. Quatro medidas de frequência cardíaca em ordem cronológica decidem mais do que um hemograma.

O segundo princípio é que exame nenhum exclui a suspeita cirúrgica quando a clínica sobe. O papel dos exames aqui é dizer o quanto o paciente já se deteriorou e ajudar a escolher entre drenar e operar — não é dizer se vazou. Quem vazou e tem exames normais vazou do mesmo jeito, só que mais cedo na história. Essa assimetria é o que separa a investigação do pós-operatório da investigação diagnóstica que o aluno aprendeu no ambulatório.

O que se pergunta e o que se toca, antes de pedir

Cinco perguntas ao paciente, e nenhuma delas é como você está. A primeira: eliminou flatos? Se sim, quando pela primeira vez, e continuou eliminando? A segunda: está aceitando o que está sendo oferecido, e vomitou? A terceira: a dor está melhor, igual ou pior do que ontem, e mudou de lugar ou de tipo? A quarta: dormiu? A quinta, feita ao acompanhante e não ao paciente: ele está diferente de ontem? A última é a que mais rende em idoso, porque confusão nova costuma ser o primeiro sinal percebido por quem convive.

Três coisas na folha de prescrição e três na de enfermagem. Na prescrição: quanto de opioide ele recebeu nas últimas vinte e quatro horas em resgates, quanto de cristaloide está correndo, e o que foi suspenso ou introduzido ontem. Na de enfermagem: o balanço hídrico, o débito de cada dreno com o aspecto descrito, e as medidas de sinais vitais de todos os turnos. O balanço hídrico e a leitura da oligúria em si são de Oligúria e balanço hídrico, na apostila de Síndromes do Paciente Internado, que é o dono do assunto; o que se usa aqui é o número, não o raciocínio completo.

No exame, quatro gestos e nada de sofisticado. Meça a frequência cardíaca você mesmo, contando um minuto inteiro, com o paciente em repouso — o valor do monitor num paciente que acabou de sentar não serve. Descubra o abdome inteiro e a incisão inteira, e palpe começando longe do lugar que dói. Ausculte, sabendo que ruídos hidroaéreos são o achado menos confiável do exame abdominal e não separam íleo de obstrução. E vá até o frasco do dreno: olhe o conteúdo contra a luz, veja a cor, e cheire.

O sinal de peritonite no pós-operatório merece um parágrafo próprio porque ele é atípico e engana. Descompressão dolorosa e defesa clássicas podem faltar num abdome recém-operado, e a dor da incisão confunde a palpação. O que substitui esses sinais é a comparação com ontem: um abdome que estava depressível e ficou tenso, uma dor que era localizada na incisão e virou difusa, uma percussão que perdeu a macicez hepática. E, em cima de tudo isso, o dado sistêmico — a frequência que não desce.

Os exames que decidem no leito, e os que só decoram o prontuário

O conjunto inicial é curto e cabe em uma coleta: hemograma, lactato, função renal, eletrólitos, gasometria venosa e proteína C-reativa. Cada um responde a uma pergunta diferente e nenhum responde à pergunta vazou ou não vazou.

O lactato é o único do grupo que muda a velocidade da conduta. Lactato elevado num pós-operatório com taquicardia sustentada é hipoperfusão até prova em contrário e coloca o paciente na régua da sepse, que é de Sepse: reconhecer e tratar na primeira hora. Lactato normal não tranquiliza em relação ao vazamento; tranquiliza em relação ao tempo que você tem.

O hemograma ajuda pela tendência e engana pelo valor. Leucocitose é esperada no pós-operatório imediato e não separa nada. O que separa é leucocitose que sobe depois de ter caído, desvio à esquerda que aparece, e — o achado mais subestimado — plaquetopenia nova, que costuma ser sinal precoce de infecção grave e passa despercebida porque ninguém olha a terceira linha do exame. A leitura completa do hemograma é de Hemograma, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito.

A proteína C-reativa tem um uso legítimo e um ilegítimo. O ilegítimo é decidir com o valor isolado. O legítimo é a tendência em medidas seriadas: no pós-operatório não complicado ela sobe até um pico nos primeiros dias e cai a partir daí, e é o padrão que não cai, ou que cai e volta a subir, que levanta a suspeita. Ela é um sinal tardio comparado à frequência cardíaca e não deve ser esperada para agir.

A gasometria venosa entrega três coisas úteis de uma vez: o lactato, o bicarbonato e o potássio, e entrega rápido. Acidose metabólica nova num pós-operatório abdominal é achado maior, e a interpretação do distúrbio acidobásico em si é de Gasometria arterial, na mesma apostila de exames, que é o dono do raciocínio.

Dois pedidos que decoram o prontuário e não decidem nada nesse cenário: cultura de secreção colhida com swab da superfície do dreno ou da ferida, e repetição diária de exames sem evento novo que a justifique. O que se colhe de útil é o que sai por dentro do trajeto, e a hemocultura, quando indicada, obedece à régua do capítulo da febre — número de amostras, volume e sítios são de lá.

O líquido do dreno: o exame mais barato que existe aqui

Quando o aspecto do líquido levanta a dúvida mas não a resolve, dosa-se no próprio líquido. É coleta de rotina, feita pelo frasco do dreno, e o resultado chega no mesmo tempo de um exame comum de bioquímica.

Amilase no líquido do dreno, comparada com a amilase do soro colhida no mesmo dia, é o teste para conteúdo pancreático ou de delgado alto: valores muito acima do sérico indicam comunicação com o trato digestivo. Bilirrubina no líquido, comparada com a sérica, é o teste para conteúdo biliar. Creatinina no líquido, comparada com a sérica, responde à outra pergunta que às vezes se confunde com esta: se o líquido é urina, por lesão de trato urinário, a creatinina do líquido é muitas vezes maior que a do sangue.

Existe um teste de beira de leito que dispensa laboratório e que vale conhecer pela simplicidade: oferecer ao paciente um líquido oral corado — do tipo que se usa em preparo de exame — e observar se a coloração aparece no dreno nas horas seguintes. É um teste com valor apenas quando dá positivo: aparecer é diagnóstico de comunicação; não aparecer não exclui nada, porque o trajeto pode estar tamponado ou o segmento pode estar distante do dreno. Use-o para confirmar, nunca para tranquilizar.

O que se faz com o número do débito é medir e registrar em vinte e quatro horas, somando todas as vias, com o aspecto descrito ao lado. Débito de fístula sem descrição de aspecto é um número sem unidade clínica: 300 mL de líquido seroso e 300 mL de conteúdo fecaloide são dois pacientes diferentes.

A imagem: quando pedir, com que contraste, e o que ela não responde

A tomografia de abdome e pelve com contraste endovenoso é o exame que decide a conduta cirúrgica em quase todos os cenários deste capítulo. Ela responde a três perguntas de uma vez: há coleção, onde ela está, e ela é drenável por punção percutânea. Nenhum outro exame responde às três.

O contraste oral ou pelo trajeto acrescenta informação quando a pergunta é se existe comunicação com a alça: o contraste que extravasa da luz para a coleção fecha o diagnóstico de vazamento. Em anastomose colorretal baixa, o contraste por via retal é o que mostra o extravasamento, e ele não é pedido de rotina — precisa ser pedido nominalmente, dizendo à equipe da tomografia o que se procura. Um pedido escrito como tomografia de abdome, sem dizer que se investiga deiscência de anastomose colorretal, tem chance real de voltar sem a informação que importava.

O que a tomografia não responde: ela não exclui vazamento quando é feita cedo. Ar livre e líquido livre são achados esperados do próprio ato operatório nos primeiros dias, e a distinção entre o líquido da operação e o líquido do vazamento pode ser impossível no segundo ou terceiro dia. Uma tomografia sem achado num paciente cuja curva está subindo compra algumas horas, não a alta.

Um alerta de segurança que este capítulo faz questão de deixar por escrito: estabilize antes de transportar. O paciente com taquicardia sustentada e hipotensão que vai para a sala de tomografia sem acesso adequado, sem monitorização e sem alguém que saiba conduzir uma intercorrência está no pior lugar do hospital para piorar. Se a decisão de operar já está tomada pelos achados clínicos, a tomografia pode ser o exame que atrasa a sala.

A radiografia de abdome tem papel restrito e ele é o do diferencial entre íleo e obstrução. A leitura — a fronteira entre alça cheia e alça vazia, o gás na ampola retal, a distribuição do gás — pertence por escrito a A pergunta não é se obstruiu, na apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica, que é o dono dela. A radiografia de tórax, e o pneumoperitônio visto nela, é de Radiografia de tórax, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito. Há uma armadilha específica do pós-operatório que vale registrar aqui porque nenhum dos dois capítulos precisa dela: pneumoperitônio residual é esperado depois de uma laparotomia e pode persistir por dias; ele não serve como argumento de perfuração nova nesse contexto, e usá-lo assim produz tanto falso alarme quanto falsa tranquilidade.

Quando a resposta não é exame, é telefone

Há um ponto na investigação em que continuar pedindo exame é uma forma de adiar. Ele chega quando a curva sobe, o exame físico mudou em relação a ontem, e as explicações benignas já foram testadas e não derrubaram a frequência. Nesse ponto, a próxima conduta não é laboratorial.

Quem operou tem informação que não está escrita em lugar nenhum: como estava a perfusão da alça, se houve tensão na anastomose, se o campo estava contaminado, se houve dificuldade técnica, se ficou dreno e onde ficou. Nada disso entra no relatório de cirurgia com a granularidade que muda a sua decisão de hoje, e tudo isso muda a probabilidade pré-teste do que você está investigando.

A ligação tem forma. Diga quem você é e de qual paciente está falando, com a operação e o dia de pós-operatório. Diga a curva, não o último valor: as frequências das últimas quarenta e oito horas, em sequência. Diga o que mudou no exame em relação a ontem. Diga o débito e o aspecto do dreno. Diga o que já pediu e o que já voltou. E termine com a pergunta concreta, não com um relato: o senhor quer que eu peça tomografia com contraste retal agora, ou o senhor vem ver?

A régua geral de quando pedir ajuda e como escalonar é de Chamar antes de ter certeza, na apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática, e o interno que tem dúvida sobre o gesto deve ler aquele capítulo. O gatilho específico deste é objetivo e não precisa de autorização de ninguém: taquicardia sustentada e sem explicação testada, no pós-operatório abdominal, é motivo suficiente para telefonar ao cirurgião fora do horário de visita, e não é exagero fazê-lo.

07

As réguas do pós-operatório, e o que elas não cobrem

Taquicardia persistente merece explicação. Ausência de febre não afasta complicação, e analgesia ou reposição não devem ser testes obrigatórios antes de chamar ajuda.

  1. 1Avaliar imediatamente sinais vitais, perfusão, consciência, dor e respiração; recuperar a curva em paralelo, sem atrasar atendimento para transcrevê-la.
  2. 2Comunicar precocemente ao responsável a combinação de taquicardia, distensão, dor ou mudança do dreno. Se houver instabilidade, acionar resposta de urgência já.
  3. 3Examinar abdome, incisão, drenos, pulmões e membros e rever ficha operatória, medicamentos e balanço; considerar sangramento, infecção, vazamento, tromboembolismo, causas cardíacas e outras hipóteses.
  4. 4Tratar dor e corrigir alterações identificadas com reavaliação. Resposta ao analgésico ou a fluidos não exclui complicação, e ausência de resposta não define sozinha sua causa.
  5. 5Colher exames dirigidos à hipótese e repercussão. Análises do líquido de dreno dependem da operação e da suspeita, sem painel automático de amilase e bilirrubina em toda cirurgia.
  6. 6Discutir TC com contraste e protocolo adequado se o paciente puder ser transportado com segurança e se o resultado mudar a decisão; peritonite com indicação operatória não deve esperar imagem.
  7. 7Ressuscitação, antimicrobianos quando indicados e controle de foco ocorrem em paralelo. Drenagem percutânea ou operação dependem da lesão, fisiologia e acesso.
  8. 8Depois da intervenção, registrar metas e tendência, revisar dispositivos, nutrição, mobilidade, profilaxias e plano de alta; integrar cuidado de estomia quando presente.

O pós-operatório de laparotomia, dia a dia: o esperado e o que faz soar o alarme

Dia de pós-operatórioFrequência cardíacaDor, abdome e função intestinalDreno e feridaO que faz soar o alarme neste dia
Dia da operação e dia 1Elevada, tipicamente na faixa de 90 a 100, com tendência de queda a partir do 1º diaDor de incisão intensa, com necessidade previsível de resgate; abdome distendido e timpânico; sem flatos; náusea comumDreno com débito maior e conteúdo serossanguinolento; curativo com pequena sujidade sanguinolentaTaquicardia acima de 120 sem sangramento aparente, hipotensão, dor desproporcional ao esperado, débito de dreno francamente sanguinolento e crescente
Dia 2Descendo em relação ao dia 1; qualquer subida é evento novoDor diminuindo; abdome ainda distendido; ruídos escassos; sem flatos ainda é esperadoDébito caindo; conteúdo serossanguinolento clareando; curativo limpoCurva de frequência que para de descer ou volta a subir; vômito de grande volume; distensão que aumenta
Dias 3 a 4Aproximando-se do valor prévio do pacienteDor bem menor; flatos começam a aparecer; dieta sendo tolerada se foi oferecida; abdome menos distendidoDébito pequeno; conteúdo seroso e claroAusência total de flatos com abdome que não desinsufla; taquicardia sustentada; dreno que fica turvo; dor que volta a crescer
Dias 5 a 7Deveria estar no valor prévioFunção intestinal estabelecida; alimentação em progressão; dor residualDreno em vias de ser retirado; ferida na janela de maior risco de infecção incisionalJanela de maior risco do vazamento por falha de cicatrização: febre nova, dreno com conteúdo entérico, íleo que reaparece, deterioração sem foco na parede
Depois do dia 7Estável no valor prévioAlimentação plena; evacuação estabelecidaSem dreno; ferida em cicatrizaçãoVômito e distensão que reaparecem levantam obstrução precoce do pós-operatório; coleção que se organizou tardiamente; conteúdo entérico saindo pela incisão

Íleo prolongado, obstrução precoce e vazamento anastomótico: as perguntas que separam

A perguntaÍleo pós-operatório prolongadoObstrução precoce do pós-operatórioVazamento de anastomose
Houve intervalo de função intestinal?Não — a parada é contínua desde a operaçãoSim, na maioria — o intestino funcionou e depois parou de novoFrequentemente sim; a parada que volta é um dos modos de apresentação
Como é a dor?Difusa, monótona, sem picosEm cólica, com ondas e períodos de acalmiaDifusa e crescente, podendo virar dor de peritonite; pode ser pouca em quem recebe opioide
Como está a frequência cardíaca?Acompanha a dor e o volume; costuma descer quando ambos são corrigidosPode subir com a distensão e com a desidratação; costuma responder a volumeSustentada e sem resposta a analgesia nem a volume — é o achado que define
O que costuma explicar?Opioide, excesso de cristaloide com edema de parede, hipopotassemia, imobilidadeAderências ainda inflamatórias das primeiras semanas; muito raramente hérnia internaFalha técnica nos primeiros dias, ou falha de cicatrização entre o 5º e o 8º dia
O que muda primeiro na condutaRever a prescrição: reduzir opioide, corrigir potássio, reduzir cristaloide, mobilizarTratamento não operatório na maioria; reoperar cedo em abdome inflamatório tem risco alto de enterotomiaImagem dirigida e telefonema ao cirurgião no mesmo turno; controle do foco é o que resolve
O que não se fazNão se leva íleo adinâmico à laparotomia — é dano puroNão se indica cirurgia só pelo tempo de evolução, sem sinal de sofrimento de alçaNão se espera febre para agir, e não se aceita exame normal como exclusão

Conversão de dose em volume, num adulto de 78 kg, contra a apresentação real e contra o elenco do SUS

Fármaco ou soluçãoConcentração declaradaDose de referênciaVolume correspondenteSituação na Rename 2024
Ondansetrona injetável2 mg/mL de ondansetrona base; ampola de 2 mL contendo 4 mg de base (bula profissional lida no original)4 mg em dose única, intramuscular ou intravenosa lenta em não menos que 30 segundos2 mL, ou seja, 1 ampola inteiraA apresentação injetável está fora do elenco. Constam apenas comprimido e comprimido orodispersível, de 4 mg e de 8 mg, no Componente Básico
Metoclopramida injetável5 mg/mL10 mg2 mL — confira o volume impresso na ampola do seu serviço antes de aspirarConsta no Componente Básico, com solução injetável, comprimido de 10 mg e solução oral de 4 mg/mL
Dipirona injetável500 mg/mL1 g2 mL — confira o volume da ampola do serviçoConsta no Componente Básico, com solução injetável, comprimido e solução oral
CeftriaxonaPó para solução injetável, frascos de 250 mg, 500 mg e 1 g1 g1 frasco de 1 g, reconstituído conforme a bula do frascoConsta no Componente Básico, sinalizada como antimicrobiano de alerta
MetronidazolComprimidos de 250 mg e de 400 mgVia oral apenasNão se aplicaConsta somente por via oral e como gel vaginal; a apresentação injetável está fora do elenco, medida já feita por capítulo vizinho
Cloreto de potássio 19,1%191 mg/mL, declarado como 2,56 mEq/mLReposição conforme a régua de Potássio na enfermaria, que é a dona delaCada 10 mL contêm 25,6 mEq — nunca em bolus, sempre diluídoConsta no Componente Básico
Cloreto de sódio 20%200 mg/mL, declarado como 3,4 mEq/mLReposição conforme os capítulos de sódio, que são os donos delaCada 10 mL contêm 34 mEqConsta no Componente Básico
Cloreto de sódio 0,9%9 mg/mL, declarado como 0,154 mEq/mLReposição de perdas medidas por dreno ou fístula, volume a volume1.000 mL contêm 154 mEq de sódioConsta no Componente Básico
Solução de Ringer com lactatoLactato de sódio 3 mg/mL, cloreto de sódio 6 mg/mL, cloreto de potássio 0,3 mg/mL e cloreto de cálcio 0,2 mg/mLReposição de perdas entéricas, por ser mais próxima da composição do líquido perdido1.000 mL fornecem cerca de 129 mEq de sódio, 4 mEq de potássio e 109 mEq de cloretoConsta no Componente Básico
OctreotidaPó e solução para suspensão injetável, de 0,1 mg/mL a 30 mgUso discutido no bloco de divergências deste capítuloDepende da apresentação dispensadaConsta, porém no Componente Especializado — o que a torna indisponível na prescrição de enfermaria da maioria dos serviços

A fístula pelo débito: o que muda na prescrição e o que decide contra o fechamento espontâneo

Débito somado em 24 h, por todas as viasO que costuma sair e de ondeO que isso muda na prescrição do diaO que decide contra o fechamento espontâneo
BaixoConteúdo seroso a levemente entérico; trajeto costuma ser distal ou de segmento de menor secreçãoProteção de pele e coleta medida; reposição habitual; via oral em geral mantidaPresença de qualquer um dos obstáculos abaixo, independentemente do débito
IntermediárioConteúdo entérico definido, com cor e cheiro característicosBalanço hídrico por turno; reposição volume a volume com solução próxima da composição do que se perde; controle de potássio e de equilíbrio acidobásicoObstrução distal ao trajeto — o conteúdo não tem para onde ir e sai por onde encontra caminho
AltoConteúdo de delgado alto, biliar ou gástrico, em volume que domina o balançoReposição torna-se a tarefa principal do dia; via de nutrição precisa ser decidida com o capítulo de terapia nutricional no paciente cirúrgico, e a diretriz brasileira lista a fístula de alto débito sem sonda enteral distal entre as contraindicações à nutrição enteralAbscesso não drenado adjacente ao trajeto; corpo estranho no trajeto, incluindo tela; doença ativa na alça de origem; trajeto muito curto ou epitelizado; desnutrição instalada
Qualquer débito, com deterioração sistêmicaIrrelevante — o que manda é a repercussãoRegra da sepse: o pacote da primeira hora é do capítulo dono, e o controle do foco não se faz com prescriçãoColeção não drenada é fonte contínua; antibiótico não drena coleção

Roteiro da visita cirúrgica supervisionada

PerguntaO que conferir e registrar
Como evoluiu?Operação e dia, intercorrências, dor, sinais vitais e tendência.
Há disfunção ou complicação?Respiração, perfusão, diurese, consciência, abdome, ferida e resultados dirigidos.
O que entra e o que sai?Ingestão efetiva, fluidos, diurese, vômitos, drenos e estomia; comparar com peso e exame.
Cada dispositivo ainda precisa ficar?Indicação, aspecto, débito, permeabilidade e plano de retirada com a equipe.
Como recupera função?Analgesia, náusea, mobilidade, fisioterapia, alimentação e trânsito.
Qual é o plano de hoje?Medicações e profilaxias, pendências, supervisão, gatilhos de chamada e preparo para alta.

A bula citada distingue ondansetrona base e seu sal di-hidratado: 2,49 mg do sal equivalem a 2 mg de base por mL. Para a apresentação de 2 mg/mL de base, a dose de 4 mg corresponde a 2 mL. Calcule pelo componente em que a dose está expressa e confirme a concentração da ampola; não misture massa do sal e da base.

Os critérios nacionais de infecção do sítio cirúrgico não são uma definição de vazamento anastomótico. Uma falha da anastomose pode exigir diagnóstico e tratamento antes de preencher critérios de infecção de órgão ou cavidade. Use a evolução clínica e a investigação dirigida, sem aguardar enquadramento no indicador de vigilância.

A Nota Técnica 03/2026 citada define infecção incisional superficial, profunda e de órgão ou cavidade, com janela de 30 ou 90 dias conforme o procedimento. Essa classificação atende à vigilância. Para suspeita de complicação anastomótica, a avaliação clínica continua necessária independentemente do registro epidemiológico.

O posicionamento do CBCD descreve benefício da alimentação precoce e restrições diante de íleo. A interpretação adotada neste capítulo distingue ausência de flatos de intolerância demonstrada. Vômitos, resíduo e distensão progressiva exigem reavaliação; ausência isolada de flatos em quem aceita a dieta não tem o mesmo significado.

Confira as concentrações das soluções antes de calcular reposição: KCl 19,1% corresponde a aproximadamente 2,56 mEq/mL; NaCl 20%, a 3,4 mEq/mL; e NaCl 0,9%, a 154 mEq/L. O Ringer com lactato contém vários eletrólitos. Use a composição da apresentação disponível e o percurso específico de reposição.

A Rename citada não reúne todas as apresentações utilizadas no hospital. Confirme com a farmácia a disponibilidade de antimicrobianos, antieméticos, soluções e suporte nutricional antes de executar o plano. Ausência no elenco nacional não demonstra ausência na instituição nem define, isoladamente, a alternativa terapêutica.

Os três documentos nacionais examinados neste capítulo não oferecem uma definição completa de vazamento de anastomose digestiva. Essa limitação do conjunto consultado não reduz a necessidade de reconhecer a complicação. Acompanhe frequência cardíaca, aspecto do dreno, tolerância digestiva e exame, usando imagem dirigida quando indicada.

O controle do foco é desenvolvido no capítulo de choque séptico e sepse cirúrgica desta apostila. Aqui, a prioridade é reconhecer a coleção ou o vazamento, avaliar repercussão e comunicar ao cirurgião. Drenagem percutânea ou operação dependem da condição clínica, anatomia e recursos disponíveis.

A diretriz ACERTO 2017 usa GRADE e consenso por Delphi adaptado, com concordância mínima de 60%. Considere a força e a qualidade da evidência de cada recomendação, além da concordância do painel. A realimentação em até 24 horas é apresentada como recomendação forte com evidência alta; outras orientações têm suporte diferente.

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A conduta, hora a hora

O que segue é a manhã do senhor Telésforo Icatu, hora a hora, do momento em que você mede 118 no leito 11 até o momento em que ele entra no centro cirúrgico. É uma linha do tempo de enfermaria, com o que se faz, o que se prescreve e o que se diz — inclusive as horas em que a única conduta correta é esperar de propósito, com relógio marcado, e remedir.

Repare, ao ler, que a decisão que muda o desfecho não é a mais técnica: é a de transformar quatro números soltos em uma curva às sete da manhã. Tudo o que vem depois decorre disso.

  1. 06h50 — a medida e a curva

    Você mede 118 no leito 11 e não passa ao leito 12. Volta ao prontuário e busca os sinais vitais dos três turnos anteriores: 88 e 92 anteontem, 104, 108 e 112 ontem, 118 agora. Escreve a sequência num papel. Essa é a única coisa que ninguém tinha feito nas últimas quarenta e oito horas, e ela custa dois minutos. Com a curva na mão, examina: abdome distendido e difusamente doloroso, sem sinal de peritonite franca, ferida coberta e limpa, dreno pélvico com 140 mL serossanguinolentos e mais turvos que ontem, sem flatos desde a operação.

    Prescrição
    • Medir frequência cardíaca, pressão arterial, temperatura e frequência respiratória de 4 em 4 horas, com registro em folha própria
    • Anotar débito de dreno por turno, com descrição obrigatória do aspecto e do odor, e não apenas o volume
  2. 07h05 — testar as explicações benignas, com relógio

    Às 07h05, a combinação de taquicardia persistente, distensão, dor e mudança do dreno já justifica contato com o responsável, feito em paralelo à avaliação. Analgesia e eventual reposição por indicação clínica podem ser necessárias, mas não são provas obrigatórias para só então telefonar. Reavalie a resposta em intervalo curto e continue procurando causas, mesmo se a frequência melhorar. Se o residente estiver indisponível e houver urgência, acione outro médico responsável ou a equipe de resposta do hospital.

    Prescrição
    • Dose de resgate do analgésico já prescrito, agora, com reavaliação da frequência cardíaca em 30 minutos
    • Prova de volume com cristaloide isotônico, 500 mL em 30 minutos, com nova medida de frequência ao término
    • Manter dieta oral líquida já iniciada, sem aumentar a oferta até a reavaliação
  3. 07h40 — os testes não derrubaram a frequência

    Às 07h40, a persistência das alterações reforça a necessidade de avaliação cirúrgica à beira do leito e investigação dirigida. Falha de analgesia ou reposição em normalizar a frequência não descarta definitivamente dor ou hipovolemia, nem demonstra vazamento por si. O conjunto e a trajetória determinam o próximo passo; mantenha suporte e comunicação, sem rodadas repetidas de soro para cumprir um teste.

    Prescrição
    • Hemograma completo, lactato, ureia, creatinina, sódio, potássio, gasometria venosa e proteína C-reativa, agora
    • Amilase e bilirrubina no líquido do dreno, pareadas com amilase e bilirrubina séricas da mesma coleta
    • Suspender progressão da dieta e manter o paciente sem nova oferta oral até definição
  4. 08h10 — atualização e escalonamento do contato já iniciado

    Você atualiza o contato já iniciado às 07h05 com o Dr. Gorgônio Itanhém, que operou. Não relata a manhã: entrega a curva. "Doutor, o senhor Telésforo Icatu, quarto dia da retossigmoidectomia. Frequência de 88 anteontem, 104 e 112 ontem, 118 hoje e 114 depois de 500 mL. Sem febre. Dor controlada com resgate e a frequência não caiu. Sem flatos desde a operação. Dreno com 140 mL, serossanguinolento mais turvo que ontem, sem odor definido. Exames colhidos, ainda sem resultado. O senhor quer tomografia com contraste endovenoso e retal agora, ou o senhor vem ver?" Ele pede a tomografia com contraste retal e diz que chega em quarenta minutos. Anote o horário da ligação e o que foi combinado.

    Prescrição
    • Tomografia de abdome e pelve com contraste endovenoso e contraste por via retal, com indicação escrita no pedido: investigar deiscência de anastomose colorretal no 4º dia de pós-operatório
    • Registro em evolução do horário do telefonema, do interlocutor e da conduta combinada
  5. 09h30 — os exames voltam e a régua muda de faixa

    Leucócitos de 18.400 com desvio à esquerda, contra 12.100 no segundo dia. Plaquetas de 122 mil, contra 268 mil no pré-operatório — a queda que ninguém olha. Lactato de 3,4. Creatinina de 1,6, contra 0,9 no pré. Gasometria venosa com bicarbonato de 18. Amilase no líquido do dreno muito acima da sérica. O paciente está com disfunção orgânica e o foco tem endereço. A partir daqui o relógio é o da sepse, e o pacote da primeira hora — as hemoculturas, o antimicrobiano, o volume, a meta de perfusão, o segundo lactato — é de Sepse: reconhecer e tratar na primeira hora, na apostila de Medicina Intensiva e Emergências, que é a dona dele e cujo roteiro este capítulo segue sem reescrever.

    Prescrição
    • Acionar o protocolo de sepse do serviço com o horário zero anotado
    • Antimicrobiano de amplo espectro conforme o protocolo institucional para foco abdominal, na primeira hora, em dose plena e sem ajuste na primeira dose
    • Ressuscitação volêmica e monitorização conforme o capítulo dono do pacote
    • Repetir lactato no intervalo previsto pelo protocolo
  6. 10h20 — a tomografia responde

    Coleção pélvica de aproximadamente 8 cm ao redor da anastomose, com bolhas de gás no interior, e extravasamento do contraste retal para a coleção. O extravasamento é o achado que fecha o diagnóstico: não é líquido residual da operação, é comunicação. O paciente voltou da sala de tomografia acompanhado, com acesso calibroso e monitorizado, porque foi levado assim — a decisão de transportar foi tomada com ele já em ressuscitação e com equipe junto.

    Prescrição
    • Manter jejum absoluto e sonda vesical de demora para medida horária de diurese
    • Reserva de hemoderivados conforme rotina do centro cirúrgico da casa
    • Comunicar a coordenação de enfermagem e o centro cirúrgico da provável necessidade de sala
  7. 11h00 — a decisão entre drenar e operar

    Essa decisão não é do interno, e a sua parte nela é entregar os dados certos. Ela se resolve por três perguntas que o cirurgião faz: o paciente está estável, a coleção é acessível por punção percutânea, e há sinal de peritonite difusa ou de sofrimento sistêmico progressivo? Coleção contida, acessível, em paciente que responde à ressuscitação, admite drenagem percutânea guiada por imagem. Peritonite difusa, instabilidade que não responde, ou coleção não acessível levam à sala. No caso do senhor Telésforo, a coleção é acessível, mas ele está com lactato de 3,4, creatinina em elevação e abdome que ficou tenso na reavaliação das dez e meia. Vai para a sala.

    Prescrição
    • Consentimento informado obtido pelo cirurgião, com registro; o conteúdo e a forma do consentimento são do capítulo dono do assunto
    • Otimização pré-operatória mantida até a indução, sem interromper a ressuscitação para transportar
  8. 14h00 e o dia seguinte — o que fica escrito

    Ele volta da sala com a anastomose desfeita, lavagem da cavidade, colostomia terminal e dreno na pelve. O que este capítulo pede de você agora é a evolução — e ela é o que permitirá ao plantonista da noite comparar. A forma da evolução médica é de Evolução médica, na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado; o conteúdo obrigatório do pós-operatório complicado é este: a curva de frequência com horários, o débito e o aspecto de cada dreno, o balanço do turno, o que foi feito e a que horas, a hipótese pelo nome, e o que o próximo turno deve chamar. Escrever pós-operatório sem intercorrências num paciente desses é o mesmo que apagar a curva que salvou a manhã.

    Prescrição
    • Evolução com sinais vitais em sequência horária, balanço por turno e descrição do aspecto de cada dreno
    • Critérios explícitos de chamada para a enfermagem: frequência cardíaca acima de 110 sustentada, queda da pressão arterial, diurese abaixo do alvo por 2 horas, mudança de aspecto do dreno
    • Comunicação com a família conforme o capítulo dono do boletim diário, com interlocutor definido e registro
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Como saber se está funcionando

Reavaliar, no pós-operatório, é comparar — e comparar exige que alguém tenha registrado o valor anterior num formato comparável. Os sete parâmetros abaixo são os que se olham em toda visita, com o intervalo em que se olham, o que se espera encontrar e o que fazer quando o esperado não acontece.

Uma observação que atravessa os sete: o intervalo de reavaliação não é fixo, é função da suspeita. O mesmo paciente que é reavaliado uma vez por dia quando tudo desce passa a ser reavaliado de quatro em quatro horas no minuto em que a curva de frequência muda de direção. Encurtar o intervalo é, em si, uma conduta, e é a mais barata deste capítulo.

Frequência cardíaca, em sequênciaA cada turno na rotina; de 4 em 4 horas quando a curva muda de direção; imediatamente após cada teste terapêutico

Esperado: Pico no dia da operação e no 1º dia, com queda diária progressiva até o valor prévio do paciente por volta do 3º ao 4º dia

Se não melhora: Comunicar prontamente tendência persistente ou associada a outros sinais, enquanto avalia dor, perfusão, oxigenação, sangramento e complicações. Analgesia e reposição quando indicadas ocorrem em paralelo; não exigir falha de dois testes antes de telefonar. Melhorar após uma intervenção não exclui complicação.

Retorno da função intestinalPerguntado em toda visita, com registro do dia e da hora em que os flatos apareceram pela primeira vez

Esperado: Flatos entre o 2º e o 4º dia após laparotomia; tolerância à dieta oferecida precocemente conforme a régua brasileira de realimentação em até 24 horas

Se não melhora: Ausência de flatos além do 4º dia obriga a duas revisões antes de qualquer exame: a da prescrição, procurando opioide em dose alta, cristaloide em excesso e potássio baixo, e a da hipótese de vazamento. Função que retornou e desapareceu não é íleo: é obstrução precoce ou vazamento, e pede imagem, não mais um dia de espera

Tolerância à dietaA cada oferta, com registro do que foi aceito e do que foi devolvido

Esperado: Aceitação progressiva desde as primeiras 24 horas em operação abdominal eletiva, com o paciente hemodinamicamente estável — inclusive quando há anastomose digestiva

Se não melhora: Paciente que estava comendo e parou de comer disse alguma coisa, e essa frase é o parâmetro mais precoce e mais barato do pós-operatório. Vômito de conteúdo entérico, resíduo alto e distensão progressiva depois de tolerância estabelecida deslocam a suspeita para obstrução ou vazamento. A escolha da dieta e a progressão dela são do capítulo dono da dieta hospitalar

Débito e aspecto do drenoPor turno, com volume e descrição de cor, turvação e odor

Esperado: Queda progressiva do volume e clareamento do conteúdo serossanguinolento até líquido seroso claro

Se não melhora: Mudança de cor precede mudança de volume e já é achado suficiente. Conteúdo que fica turvo, ganha cor entérica ou biliosa, ou ganha odor, obriga a repensar a anastomose. Dose amilase e bilirrubina no líquido, pareadas com as séricas. Débito que cai abruptamente não é necessariamente melhora — pode ser trajeto obstruído por fibrina, e o teste é a perviedade do sistema

Dor: intensidade, caráter e número de resgatesEm toda visita, somando os resgates das últimas 24 horas

Esperado: Redução diária da intensidade e do consumo de resgates; dor localizada na incisão

Se não melhora: Dor que cresce depois de ter diminuído, dor que muda de localizada para difusa, e número de resgates que aumenta são achados objetivos, não queixa. O reajuste do esquema é do capítulo dono da analgesia; o que este capítulo faz com o número é usá-lo como sinal. Atenção à combinação silenciosa: dor controlada com frequência cardíaca alta é mais preocupante que dor mal controlada com frequência alta

Balanço hídrico e diureseFechado por turno e somado em 24 horas, contando o débito de drenos e fístulas como perda

Esperado: Balanço tendendo ao equilíbrio a partir do 1º ou 2º dia, com diurese adequada e sem necessidade de volumes altos de manutenção

Se não melhora: Balanço acumulado muito positivo produz edema de parede intestinal e prolonga o íleo — é causa iatrogênica antes de ser sinal de doença. Balanço negativo com oligúria e taquicardia num paciente com dreno de alto débito é perda não reposta. A leitura da oligúria em si é do capítulo dono do balanço hídrico; o que se acrescenta aqui é contar o dreno, que é a perda mais esquecida da enfermaria

Estado mental e aparência geralEm toda visita, perguntando ao acompanhante e não apenas ao paciente

Esperado: Orientação preservada, interação progressivamente melhor, paciente que senta e deambula

Se não melhora: Confusão nova no pós-operatório é sinal de complicação até prova em contrário, e as três causas a excluir antes de chamar de delirium são as deste capítulo: hipóxia, sepse de foco abdominal e distúrbio hidroeletrolítico por perda de dreno. Bexiga cheia e dor não tratada completam a lista curta. O manejo do delirium, depois de excluídas essas causas, é do capítulo dono

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Onde o erro machuca

Explicar a taquicardia pela dor ou pela analgesia, e passar ao leito seguinte

O dano: É o erro que mata neste capítulo, e ele mata devagar. A taquicardia é o primeiro sinal do vazamento e costuma preceder a febre em dias. Cada plantão vê um número, encontra uma explicação verdadeira para aquele número isolado e não compara com o anterior; ao fim de quarenta e oito horas há quatro medidas ascendentes, quatro explicações plausíveis e nenhum diagnóstico. Quando a pressão arterial finalmente cai, o compensador se esgotou e a janela de drenagem percutânea já passou

Como pegar a tempo: Trate a explicação benigna como hipótese a ser testada, e teste com relógio: resgate de analgesia e remedida em 30 minutos, prova de volume e remedida. Se a frequência não obedecer, a explicação foi descartada, não adiada. E escreva a curva na evolução — quatro números soltos em quatro folhas diferentes não são uma curva, e é a curva que faz o diagnóstico

Aceitar exame normal como exclusão de vazamento

O dano: Hemograma sem leucocitose, proteína C-reativa ainda baixa e tomografia precoce sem achado nítido produzem uma sensação de segurança que não corresponde ao risco. Nos primeiros dias, ar livre e líquido livre são achados do próprio ato operatório, e distinguir o líquido da operação do líquido do vazamento pode ser impossível. O paciente volta para a enfermaria com um laudo tranquilizador e perde as horas em que a coleção ainda era pequena e drenável

Como pegar a tempo: Guarde a assimetria: exame que confirma decide; exame que não confirma apenas atrasa. Num paciente com curva ascendente, tomografia sem achado significa repetir a avaliação clínica em poucas horas e discutir de novo com quem operou, não dar alta do problema. Peça a imagem nominalmente pela suspeita, com contraste retal quando a anastomose for colorretal

Tratar o íleo que voltou como continuação do íleo que já existia

O dano: O paciente eliminou flatos no terceiro dia, começou a comer no quarto e voltou a distender e a vomitar no quinto. Registrar isso como íleo pós-operatório persistente apaga o dado mais informativo da história, que é o intervalo de função. Íleo fisiológico não recidiva; o que recidiva é vazamento ou obstrução precoce. A conduta que se segue ao registro errado é esperar mais um dia, e é exatamente o dia que faltava

Como pegar a tempo: Registre em toda evolução a data e a hora em que os flatos apareceram pela primeira vez. Com esse dado escrito, a recidiva se torna visível para qualquer plantonista. Diante de função que retornou e desapareceu, peça imagem no mesmo turno

Anotar o volume do dreno e não descrever o conteúdo

O dano: É a informação mais desperdiçada da enfermaria brasileira. A sequência do vazamento é cor, depois cheiro, depois volume, e quem registra apenas o volume perde os dois primeiros avisos. Pior: um débito que cai é lido como melhora, quando pode ser trajeto tamponado por fibrina — a mesma queda de número que significa resolução num paciente significa obstrução do dreno em outro

Como pegar a tempo: Escreva cor, turvação e odor ao lado de cada volume, e vá você mesmo olhar o frasco contra a luz em vez de copiar o número da folha de enfermagem. Prescreva a descrição do aspecto como item da observação de enfermagem, para que ela seja obrigatória e não opcional. Diante de dúvida honesta, dose amilase e bilirrubina no líquido, pareadas com as séricas

Manter jejum prolongado esperando a eliminação de flatos

O dano: A rotina de manter o paciente sem nada por boca por dois a quatro dias, com dois a três litros de cristaloide ao dia e não raro com sonda nasogástrica, ainda é descrita como corrente em documento brasileiro de 2024, e contraria a régua nacional desde 2017. O dano é duplo: o volume excessivo produz edema de parede e prolonga o próprio íleo que se está esperando resolver, e a espera apaga o sinal mais precoce e barato do pós-operatório, que é o paciente que estava comendo e parou

Como pegar a tempo: Ofereça via oral ou enteral em até 24 horas após operação abdominal eletiva no paciente hemodinamicamente estável, inclusive com anastomose digestiva, conforme a Diretriz ACERTO de 2017, que classifica a recomendação como forte com evidência alta. Ajuste o volume de cristaloide para próximo do balanço zero. A escolha e a progressão da dieta são do capítulo dono da dieta hospitalar

Prescrever antimicrobiano e considerar o foco tratado

O dano: Coleção não drenada é fonte contínua, e nenhum esquema fecha o caso enquanto o material não sair. A prescrição do antimicrobiano produz uma sensação de conduta tomada que desmobiliza a busca pela drenagem, e o paciente passa dias sob esquema de amplo espectro com febre que oscila, deteriorando devagar. O mesmo raciocínio vale para a ferida que drena conteúdo entérico e é conduzida como infecção de sítio cirúrgico

Como pegar a tempo: Guarde a frase inteira: antibiótico não drena coleção, não retira cateter e não desobstrui via. Diante de coleção, a pergunta seguinte é sempre como esse material sai, por punção ou por sala, e essa conversa é com o cirurgião no mesmo turno. Ferida que drena conteúdo entérico não é infecção de sítio cirúrgico — é fístula, e abrir mais a incisão na enfermaria pode ampliar o orifício

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O que dizer ao paciente e à família

Sete conversas, e as três primeiras são as que o interno faz sozinho todos os dias. Duas coisas atravessam todas elas. A primeira: no pós-operatório que sai do trilho, quem fala com a família precisa ter combinado antes com quem operou o que vai ser dito — a família que ouve duas versões deixa de acreditar nas duas. A segunda: dizer que não se sabe ainda é uma resposta legítima, desde que venha acompanhada do que se está fazendo para saber e de quando haverá notícia.

A comunicação diária com a família, o boletim, o interlocutor único e o registro são de Cada um fala uma coisa, na apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática, que é a dona do assunto. A revelação de evento adverso, quando houver, é de A hora seguinte, na mesma apostila. O que segue são as falas específicas do pós-operatório complicado, que aqueles capítulos não têm por que ter.

Ao paciente, na visita, quando você decidiu investigar e ainda não sabe

Seu Telésforo, o senhor está com o coração batendo mais rápido do que devia para o quarto dia, e isso vem subindo há dois dias. Pode ser coisa simples, mas eu não vou tratar como simples sem conferir. Vou colher alguns exames agora e já vou falar com o cirurgião que operou o senhor. Assim que eu tiver resposta, eu volto aqui e conto — não vou deixar o senhor sabendo pela metade.

Não diga: Evite dizer está tudo bem, vamos só conferir uma coisinha. Se depois ele for para a sala, a frase vira uma quebra de confiança justamente no momento em que ele mais precisa acreditar em você. Evite também explicar o mecanismo em detalhe agora — ele não vai reter, e o tempo é melhor gasto conferindo

À enfermagem, ao mudar o intervalo de monitorização

Minervina, o leito 11 sai de uma vez por turno e passa para sinais de 4 em 4 horas. Preciso de duas coisas por escrito: a frequência cardíaca com o horário, e o aspecto do dreno, não só o volume — cor, se está turvo, e se tem cheiro. E me chame na hora, sem esperar a visita, se a frequência passar de 110 e ficar, se a pressão cair, se ele urinar menos de meio copo em duas horas, ou se o dreno mudar de cor.

Não diga: Evite pedir vigilância sem dar número. Fique de olho não é prescrição e não é chamável. Evite também pedir só o volume do dreno: o volume é o dado que o serviço já anota por rotina, e o aspecto é o que muda a conduta

Ao cirurgião que operou, por telefone, fora do horário de visita

Doutor Gorgônio, aqui é o interno da enfermaria. Seu Telésforo Icatu, quarto dia da retossigmoidectomia. Frequência de 88 anteontem, 104 e 112 ontem, 118 hoje, e 114 depois de resgate de analgesia e 500 mL. Sem febre. Sem flatos desde a operação. Dreno com 140 mL, serossanguinolento e mais turvo que ontem. Já colhi hemograma, lactato, função renal e gasometria, e pedi amilase no líquido do dreno. O senhor quer tomografia com contraste endovenoso e retal agora, ou o senhor vem ver?

Não diga: Evite entregar o último valor em vez da curva — 118 sozinho autoriza a resposta é a dor, dá o resgate. Evite pedir desculpas por ligar; a ligação é a conduta correta e ela não precisa de justificativa. E evite terminar com um relato aberto: termine com a pergunta concreta que obriga a uma decisão

À família, quando o pós-operatório saiu do trilho e ainda não há diagnóstico fechado

A senhora sentou porque eu preciso dizer uma coisa que mudou. O seu pai não está evoluindo como esperávamos: a frequência do coração dele vem subindo há dois dias e o intestino não voltou a funcionar. Isso pode significar que a emenda que foi feita no intestino não cicatrizou bem. Estamos fazendo uma tomografia agora para saber. Se for isso, ele vai precisar de um procedimento hoje. Eu vou ter notícia em cerca de uma hora e volto para falar com a senhora, independentemente do resultado.

Não diga: Evite antecipar o desfecho cirúrgico que ainda não foi decidido, e evite usar deu problema na cirurgia — a frase sugere erro técnico onde ainda não se sabe nada, e a conversa sobre evento adverso, quando houver, tem capítulo próprio e forma própria. Evite também prometer horário que você não controla; prometa retornar, não prometa hora exata do exame

À família, depois da reoperação, quando o paciente voltou com ostomia

A cirurgia terminou. Foi encontrado o que suspeitávamos: a emenda tinha aberto e havia infecção acumulada ali. O que a equipe fez foi desfazer a emenda, lavar, e trazer o intestino para fora, na barriga — é uma bolsa. Ele vai acordar com ela e ela é o que está protegendo a vida dele agora. Na maioria dos casos ela é temporária, mas essa é uma conversa para semanas à frente, com o cirurgião. Hoje o que importa é a infecção.

Não diga: Evite prometer que a ostomia será revertida — o prazo e a possibilidade dependem de fatores que ninguém conhece hoje. Evite também descrever a bolsa como um detalhe menor: para a família ela costuma ser a informação mais impactante da frase, e passar por ela depressa faz o resto não ser ouvido

Ao paciente com fístula, que pergunta quando vai poder comer e quando vai fechar

O que abriu foi uma comunicação entre o intestino e a pele, e é por isso que sai esse líquido. Ela pode fechar sozinha, e para isso três coisas precisam estar certas: nenhuma infecção acumulada por dentro, o senhor bem alimentado, e a passagem do intestino livre lá adiante. É por isso que estamos medindo tudo o que sai e cuidando tanto da sua pele. Sobre comer: essa decisão depende de onde a comunicação está, e nós vamos revê-la todo dia — não é um sim nem um não definitivo.

Não diga: Evite dar prazo de fechamento. Evite também dizer que ele não pode comer como regra genérica, porque a via depende do segmento e do débito, e o assunto tem capítulo dono. O que se promete é a revisão diária, não o desfecho

Na passagem de plantão, transmitindo um pós-operatório que preocupa

Leito 11, seu Telésforo Icatu, 64 anos, quarto dia de retossigmoidectomia. O que me preocupa é uma curva: 88, 104, 112, 118, sem febre, sem resposta a analgesia nem a volume. Dreno mudou de aspecto hoje. Tomografia solicitada com contraste retal, cirurgião ciente desde as oito e dez. Se a frequência passar de 120 ou a pressão cair, o plano combinado é acionar o cirurgião direto, não esperar a visita.

Não diga: Evite passar o paciente como estável só porque a pressão está normal. Evite também transmitir a conduta sem transmitir o plano de contingência: o valor da passagem está em dizer o que fazer se piorar, e a quem ligar. A forma completa da passagem de plantão é do capítulo dono do assunto

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Dreno profilático após anastomose colorretal: manter a rotina ou abandoná-la?

Não se deve drenar de rotina. Os protocolos multimodais de recuperação acelerada, que no Brasil têm no projeto ACERTO o seu braço nacional, incluem entre os seus componentes o abandono de dispositivos de rotina — sondas e drenos colocados por hábito e não por indicação — sob o argumento de que eles prolongam a imobilidade, aumentam o desconforto e não demonstraram reduzir a necessidade de reintervenção. O dreno que não é necessário é uma via de entrada e uma âncora que mantém o paciente no leito.

Posição dos protocolos de recuperação acelerada, sustentada no Brasil pela Diretriz ACERTO de intervenções nutricionais no perioperatório (Colégio Brasileiro de Cirurgiões e SBNPE, 2017) e reafirmada pelo position paper do Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva sobre os protocolos ERAS e ACERTO (2024)

Deve-se manter o dreno em anastomoses de maior risco, sobretudo as baixas. O argumento não é que o dreno previna o vazamento — é que ele o denuncia. Numa anastomose colorretal baixa, o dreno pélvico é frequentemente o primeiro lugar em que o conteúdo entérico aparece, e num serviço sem tomografia disponível a qualquer hora ele pode ser o único sinal precoce ao alcance do plantonista. Retirar a rotina do dreno num hospital que não tem a estrutura diagnóstica que a substitui transfere risco para o paciente.

Posição de prática cirúrgica corrente em serviços brasileiros, refletida na própria estrutura deste capítulo, que trata o aspecto do dreno como parâmetro de reavaliação; nenhum documento brasileiro aberto aqui fixa regra nacional sobre drenagem profilática em anastomose colorretal

Como decidir

A indicação de dreno cabe a quem opera. Quando ele estiver presente, registre débito e aspecto por turno e comunique mudanças; exames do líquido podem ajudar conforme a suspeita. A ausência de dreno exige o mesmo acompanhamento clínico e acesso à investigação. Confirme recursos para imagem, drenagem e cirurgia e não use aspecto tranquilizador do dreno para excluir uma complicação.

Deiscência de anastomose com coleção contida em paciente estável: drenagem percutânea ou reoperação?

Drenagem percutânea guiada por imagem, sempre que a coleção for acessível e o paciente responder à ressuscitação. Reoperar um abdome de quinto a oitavo dia significa operar tecido inflamado, friável e aderido, com risco alto de enterotomia inadvertida e de nova falha de sutura; a punção resolve a fonte sem esse preço, e preserva a possibilidade de a anastomose cicatrizar em torno de uma fístula controlada. Nessa lógica, a sala fica reservada para quem falha na punção.

Posição sustentada pela prática de radiologia intervencionista e pelo mesmo princípio que orienta o tratamento não operatório da obstrução precoce do pós-operatório; sem documento brasileiro que a fixe como norma nacional

Reoperação, quando há qualquer sinal de que a contenção não está funcionando. O argumento é de margem de erro: a coleção contida que se drena por punção continua alimentada pela mesma comunicação, e a punção não desfaz a anastomose que está vazando. Num paciente que já tem disfunção orgânica, apostar em contenção significa aceitar horas de fonte aberta. A sala resolve o foco e a comunicação no mesmo ato, ao custo de uma ostomia que a punção teria evitado.

Posição sustentada pela prática cirúrgica de controle de foco; nenhum dos documentos brasileiros abertos neste capítulo fixa critério nacional para a escolha entre as duas vias, e o roteiro do controle de foco tem dono no capítulo de choque séptico e sepse cirúrgica, nesta apostila

Como decidir

Entregue à equipe três informações: resposta à ressuscitação, características e acesso à coleção na imagem e presença de peritonite. Registre frequência, pressão, diurese e lactato em série. Deterioração ou peritonite difusa exige avaliação cirúrgica imediata. A escolha entre drenagem percutânea e operação depende desse conjunto, sem atrasar o controle do foco.

O íleo é contraindicação à realimentação precoce, ou a realimentação precoce é parte do tratamento do íleo?

O íleo contraindica alimentar. Alimentar um intestino que não se contrai acrescenta volume a um sistema parado, aumenta o risco de vômito e de broncoaspiração e não traz benefício até que a motilidade retorne. Nessa leitura, a ausência de flatos é motivo para aguardar, e a oferta só começa depois do primeiro sinal de retorno de função.

Position paper do Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva sobre os protocolos ERAS e ACERTO (2024), que lista o íleo entre as contraindicações à realimentação precoce, ao lado de gastroparesia, obstrução intestinal, uso de semaglutida ou antiespasmódico e paciente crítico

Alimentar cedo encurta o íleo. A oferta oral ou enteral precoce promove a integridade da mucosa, mantém a função de barreira, reduz o tempo de íleo e diminui o tempo de internação; a rotina de esperar a resolução do íleo é justamente o que mantém o paciente de dois a quatro dias sem nada por boca recebendo volume alto de cristaloide, que por sua vez prolonga o íleo. Nessa leitura, esperar flatos é perpetuar o problema que se está esperando resolver.

O mesmo position paper do Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva de 2024, dois parágrafos adiante, e a Diretriz ACERTO de 2017, que recomenda realimentação em até 24 horas após operação abdominal eletiva no paciente hemodinamicamente estável, inclusive com anastomose digestiva, com grau de recomendação forte e força de evidência alta

Como decidir

Avalie tolerância, além da presença de flatos. No paciente estável que aceita e retém a oferta, o percurso permite progressão com reavaliação. Vômitos, resíduo ou distensão crescente indicam interromper a oferta e investigar a causa, incluindo íleo prolongado, obstrução ou vazamento. Registre o achado que motivou a decisão e o momento da próxima avaliação.

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O raciocínio, em voz alta

Senhor Telésforo Icatu, 64 anos, 78 quilos, motorista de ônibus aposentado, hipertenso em uso de losartana, ex-tabagista. Quarto dia de pós-operatório de retossigmoidectomia por adenocarcinoma de reto alto, laparotomia mediana, anastomose colorretal mecânica, sem ostomia de proteção, com dreno tubulolaminar na pelve. Quinta-feira, 6h50, enfermaria de clínica cirúrgica de vinte e dois leitos. O residente desceu para a primeira cirurgia; o cirurgião assistente chega às onze. A evolução da noite diz, na íntegra: pós-operatório sem intercorrências. Você mede: frequência cardíaca 118, pressão arterial 118 por 74, temperatura 36,8 °C, frequência respiratória 20, saturação 96% em ar ambiente. Diurese de 900 mL em 24 horas. Ele diz que está bem, só cansado. O abdome está distendido, timpânico e difusamente doloroso; não eliminou flatos. O dreno pélvico tem 140 mL, serossanguinolentos e mais turvos que ontem. A ferida está coberta e o curativo, limpo.

  1. Passo 1 — o exame que já estava feito

    Antes de tocar o paciente, você busca no prontuário todas as medidas de frequência cardíaca desde a operação e as escreve em sequência: 88 e 92 anteontem, 104, 108 e 112 ontem, 118 agora. A curva sobe há quarenta e oito horas. Nenhum plantonista errou — cada um viu um número e cada número tinha explicação. O que faltou foi alguém pôr os seis lado a lado. Esse ato, que custa dois minutos, é o exame mais decisivo da manhã, e ele não aparece em nenhuma conta de custo.

  2. Passo 2 — descartar as explicações cômodas por teste, não por opinião

    A curva de frequência e os achados associados justificam avisar a equipe desde a primeira avaliação. Enquanto isso, tratar dor e considerar reposição se houver elementos de hipovolemia, com doses tituladas e reavaliação. No exemplo, dor cai de 4 para 2 e a frequência permanece 116; depois de 500 mL, está 114. Essa resposta não exclui dor ou hipovolemia e não prova deiscência. Ausência de febre não exclui infecção; analgesia pode tornar a dor menos evidente, e efeitos de drogas e abstinência também entram na avaliação.

  3. Passo 3 — nomear a hipótese

    Restou um paciente no quarto dia de anastomose colorretal, com taquicardia sustentada que não respondeu a analgesia nem a volume, íleo que não resolveu no prazo e dreno que mudou de aspecto. A trava do capítulo se aplica sem margem: taquicardia persistente no pós-operatório abdominal é deiscência de anastomose até prova em contrário. Você escreve a hipótese com esse nome na evolução, e não como quadro a esclarecer — hipótese sem nome não mobiliza ninguém.

  4. Passo 4 — os exames que dizem o quanto, e não o se

    Colho hemograma, lactato, função renal, eletrólitos e exames adicionais conforme as hipóteses e a gravidade. Exames do líquido do dreno são dirigidos à operação e à suspeita; neste contexto, alteração do aspecto e sinais abdominais já justificam avaliação. Não espero resultados para comunicar. A coleta ocorre junto ao suporte e ao contato cirúrgico precoce, sem atrasar controle do foco necessário.

  5. Passo 5 — o telefonema, com a curva e não com o último valor

    Às 8h10 você atualiza o contato já iniciado na avaliação das 7h05 e fala para o Dr. Gorgônio Itanhém, que operou, e entrega a sequência de frequências, a ausência de resposta aos dois testes, a ausência de febre, a ausência de flatos e o aspecto do dreno — nessa ordem. Termina com pergunta concreta: tomografia com contraste endovenoso e retal agora, ou o senhor vem ver? Ele pede a tomografia e diz que chega em quarenta minutos. Você registra o horário da ligação e o que foi combinado, porque essa linha é o que permitirá a qualquer pessoa reconstruir a decisão depois.

  6. Passo 6 — os exames voltam e o relógio muda

    Leucócitos de 18.400 com desvio, contra 12.100 no segundo dia. Plaquetas de 122 mil, contra 268 mil no pré-operatório — a queda que quase ninguém olha e que é sinal precoce de infecção grave. Lactato de 3,4. Creatinina de 1,6 contra 0,9 no pré. Bicarbonato de 18. Amilase do líquido do dreno muito acima da sérica. Há disfunção orgânica e o foco tem endereço: o paciente entrou na régua da sepse, e a partir daqui o pacote da primeira hora é conduzido conforme o capítulo dono dele, sem reescrita.

  7. Passo 7 — a imagem dirigida responde

    A tomografia, pedida nominalmente pela suspeita e com contraste retal, mostra coleção pélvica de cerca de 8 cm ao redor da anastomose, com gás no interior, e extravasamento do contraste retal para a coleção. É o extravasamento que fecha o diagnóstico: líquido e ar livres, sozinhos, seriam achados possíveis do próprio ato operatório. O paciente foi transportado já em ressuscitação, com acesso calibroso, monitorizado e acompanhado — a régua de estabilizar antes de transportar foi cumprida.

  8. Passo 8 — a decisão, e o que fica escrito

    A coleção é acessível a punção, mas ele tem lactato de 3,4, creatinina em elevação e um abdome que ficou tenso na reavaliação das dez e meia. Peritonite em progressão decide a favor da sala. Ele é operado às onze e meia: anastomose desfeita, lavagem da cavidade, colostomia terminal, dreno na pelve. Na evolução da tarde você escreve a curva de frequência com horários, o aspecto de cada dreno, o balanço do turno, a hora do telefonema, a hipótese pelo nome e os critérios de chamada para a enfermagem. Escrever pós-operatório sem intercorrências ali seria apagar a única coisa que fez diferença nesta manhã.

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Faça você

Dona Fidelina Caiçara, 72 anos, 54 quilos, viúva, mora com a filha. Sétimo dia de pós-operatório de gastrectomia subtotal por adenocarcinoma gástrico, laparotomia mediana, com anastomose gastrojejunal. O pós-operatório foi bom: eliminou flatos no terceiro dia, evacuou no quarto, vinha aceitando dieta líquida completa desde o quarto e passou para pastosa no sexto. O dreno subfrênico foi retirado ontem, com débito de 30 mL de líquido seroso claro. Hoje, sábado, 7h20, você é o interno de plantão. A enfermagem chamou porque ela vomitou duas vezes na madrugada e uma agora. Ao exame: consciente, orientada, queixando-se de náusea e de peso no abdome. Frequência cardíaca 104, pressão arterial 104 por 62, temperatura 37,2 °C, frequência respiratória 18, saturação 95%. Abdome distendido, timpânico, doloroso difusamente, com ruídos presentes e aumentados em alguns momentos. A incisão está limpa e coaptada. O vômito, segundo a técnica, foi de conteúdo esverdeado, em volume grande. As frequências das últimas 48 horas: 78, 82, 80, 88, 96, 104.

  1. Passo 1 — o dado da história que muda tudo, e que já está escrito

    Antes de qualquer exame, localize na história o intervalo de função intestinal: ela eliminou flatos no terceiro dia, evacuou no quarto e vinha tolerando dieta até ontem. Escreva por que esse dado é decisivo e o que ele exclui de imediato. A frase para completar é: íleo pós-operatório fisiológico ____________ , portanto o quadro de hoje ____________ .

  2. Passo 2 — as duas hipóteses que sobram, e a terceira que não sobra

    Com o intervalo de função estabelecido e um sétimo dia de anastomose gastrojejunal, duas hipóteses ocupam a frente. Nomeie as duas e diga, para cada uma, qual achado desta vinheta a favorece. Depois nomeie a hipótese que muita gente escreveria na evolução e que este quadro não sustenta, e explique com uma frase por que não sustenta.

  3. Passo 3 — a curva, e o que ela vale aqui

    As seis frequências das últimas 48 horas são 78, 82, 80, 88, 96 e 104. Descreva o que essa sequência diz, em contraste com a de um paciente cuja frequência oscila entre 88 e 104 sem direção. Diga também o que você faria nos próximos trinta minutos para testar as explicações benignas, com o relógio, e qual resultado de cada teste manteria ou derrubaria cada hipótese.

  4. Passo 4 — o que se pergunta ao caráter do vômito e da dor

    O vômito foi de grande volume e esverdeado; os ruídos estão presentes e por vezes aumentados; a dor é difusa e em peso. Escreva o que cada um desses três achados sugere, e diga qual pergunta você faria a ela sobre o caráter da dor — em ondas com acalmia, ou constante — e por que a resposta muda a hipótese principal.

  5. Passo 5 — o pedido de imagem, escrito por extenso

    Redija o pedido de imagem como ele iria para a sala de exames, incluindo o exame, o contraste e a indicação clínica escrita. Diga também por que o pedido escrito apenas como tomografia de abdome tem chance real de voltar sem a informação que você precisava, e o que a radiografia simples pode e não pode responder aqui — lembrando que a leitura dela pertence ao capítulo dono da obstrução intestinal.

  6. Passo 6 — a conduta enquanto o exame não sai, e o telefonema

    Escreva a prescrição das próximas duas horas, item por item: via, dieta, hidratação, medida de perdas, antiemético e monitorização, dizendo o intervalo de cada medida e os critérios de chamada que você deixará para a enfermagem. Sobre o antiemético, diga qual apresentação está disponível pelo elenco nacional para quem está vomitando e não consegue engolir comprimido, e por quê. Por fim, escreva o telefonema ao cirurgião em três frases, começando pela curva.

  7. Continuidade do caso e prática do internato

    Faça a visita de Telésforo com o roteiro e explique por que o contato cirúrgico começa antes de saírem os exames.

  8. Questão integrativa 1

    Ausência de febre tranquiliza diante da curva de Telésforo?

  9. Questão integrativa 2

    É preciso terminar uma prova de analgesia e outra de volume antes de telefonar?

  10. Questão integrativa 3

    Taquicardia isolada confirma deiscência?

  11. Questão integrativa 4

    Todo dreno deve ter amilase e bilirrubina dosadas?

  12. Questão integrativa 5

    Uma coleção acessível sempre vai para punção?

  13. Questão integrativa 6

    Quais cuidados precisam ser incorporados se o desfecho inclui colostomia?

Ver como fecharíamos

O dado que organiza tudo é o intervalo de função: íleo pós-operatório fisiológico não recidiva, e dona Fidelina eliminou flatos no terceiro dia, evacuou no quarto e tolerou dieta até o sexto. O quadro de hoje é, portanto, um evento novo, e o rótulo íleo pós-operatório persistente está excluído pela própria história — é essa a hipótese que muita gente escreveria e que a vinheta não sustenta. Sobram duas: obstrução precoce do pós-operatório e vazamento da anastomose gastrojejunal. A favor da obstrução estão o vômito de grande volume e esverdeado, os ruídos presentes e por vezes aumentados, e a dor em peso com distensão; a favor do vazamento estão a curva ascendente de frequência e a febre baixa. Note que o dreno foi retirado ontem — o sensor mais precoce de vazamento saiu de cena, e isso aumenta o peso da curva. A sequência 78, 82, 80, 88, 96, 104 tem direção, e direção é o que distingue deterioração de oscilação; uma oscilação entre 88 e 104 sem tendência não teria o mesmo valor. O contato com o responsável começa agora, em paralelo à avaliação. Nos trinta minutos seguintes: resgate de analgesia com remedida, e prova de volume de 500 mL com remedida — numa paciente de 54 quilos, com vômitos de repetição e pressão de 104 por 62, a hipovolemia é hipótese plausível e testável; se a frequência cair e a resposta se sustentar, isso apoia participação desses fatores, mas não exclui obstrução ou vazamento; se não cair, ampliar a avaliação, sem considerar dor ou hipovolemia definitivamente descartadas. A pergunta sobre o caráter da dor é decisiva: dor em ondas, com períodos de acalmia, favorece obstrução mecânica; dor difusa, constante e crescente favorece vazamento com peritonite. O pedido de imagem deve explicitar a suspeita: tomografia de abdome e pelve com contraste endovenoso, discutindo contraste oral hidrossolúvel conforme anastomose, risco de aspiração e protocolo, sem atrasar exame ou tratamento urgente, indicação — sétimo dia de pós-operatório de gastrectomia subtotal com anastomose gastrojejunal, vômitos e distensão após intervalo de função intestinal, investigar obstrução precoce do pós-operatório e vazamento de anastomose. A indicação clínica orienta o protocolo; contraste oral não é requisito universal para investigar toda complicação pós-operatória. A radiografia simples pode sugerir obstrução mecânica pela distribuição do gás e pela presença ou ausência de fronteira entre alça cheia e alça vazia — leitura que pertence a A pergunta não é se obstruiu, na apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica —, e não pode excluir vazamento. A prescrição das próximas duas horas: dieta zero; hidratação venosa com cristaloide isotônico, com prova de volume já descrita e manutenção ajustada ao balanço; medida e registro de todo o volume vomitado, com descrição do aspecto; sinais vitais de 2 em 2 horas incluindo frequência cardíaca contada por um minuto; diurese medida; e antiemético parenteral. Sobre a apresentação: quem está vomitando não retém comprimido, e a ondansetrona consta da Rename 2024 apenas como comprimido e comprimido orodispersível — a apresentação injetável existe e é registrada no país, mas está fora do elenco nacional. Neste caso, suspeita de obstrução contraindica usar metoclopramida como pró-cinético. A equipe deve selecionar antiemético não pró-cinético disponível, como ondansetrona quando apropriada, conferindo apresentação, dose, QT e outros riscos; a ausência de uma apresentação na Rename não prova indisponibilidade no hospital. Sonda nasogástrica, se indicada pelo volume dos vômitos, obedece ao capítulo dono da sondagem nasogástrica. O telefonema, em três frases: dona Fidelina Caiçara, sétimo dia da gastrectomia subtotal, eliminou flatos no terceiro dia e tolerava dieta até ontem, e hoje voltou a vomitar; a frequência vem de 78 anteontem para 104 agora, com temperatura de 37,2 e a avaliação e o suporte estão em andamento; o dreno foi retirado ontem, e estou organizando tomografia com contraste endovenoso e discutindo eventual contraste enteral conforme o protocolo, pela suspeita de obstrução precoce ou vazamento — o senhor quer que eu passe sonda antes do exame, ou o senhor vem ver? Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. Infecção e outras complicações podem ocorrer sem febre; a trajetória exige avaliação. 2. Não. Suporte e contato devem ocorrer em paralelo quando há sinais preocupantes. 3. Não. É alerta para investigar causas; o diagnóstico depende do conjunto e de exames quando indicados. 4. Não. Escolher a análise pelo procedimento e pela hipótese, evitando rotina sem pergunta. 5. Não. Peritonite, deterioração, isquemia ou controle insuficiente podem exigir operação. 6. Aspecto do estoma, débito, pele, dispositivo, hidratação, participação da estomaterapia e preparo do autocuidado e da alta.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

O que decide contra o fechamento espontâneo é a presença de obstáculos anatômicos e infecciosos no trajeto, e o abscesso não drenado adjacente é o mais determinante deles: coleção não drenada é fonte contínua, mantém a inflamação local, impede a aposição do trajeto e sustenta a resposta sistêmica. A lista dos demais obstáculos inclui obstrução distal ao trajeto, corpo estranho no trajeto — tela incluída —, doença ativa na alça de origem, trajeto muito curto ou epitelizado, e desnutrição instalada. Débito intermediário, isoladamente, não decide: ele muda a intensidade da reposição e o cuidado de pele, e fístulas de débito mais baixo têm chance razoável de fechar com tratamento não operatório quando nenhum obstáculo está presente. Um dreno em outra topografia não influencia o trajeto da fístula. O opioide de horário prolonga o íleo e pode agravar a distensão, mas não é fator de não fechamento. A ordem de cuidado permanece a mesma: sepse primeiro, distúrbio hidroeletrolítico depois, desnutrição em terceiro.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sem consultar nada, escreva a tabela do pós-operatório dia a dia: para o dia da operação, o dia 2, os dias 3 e 4, os dias 5 a 7 e depois do dia 7, diga o que se espera da frequência cardíaca, da dor, da função intestinal e do dreno, e o que faz soar o alarme em cada faixa. Depois escreva, em uma frase, a trava do capítulo, e liste as quatro explicações benignas da taquicardia com o teste que derruba ou confirma cada uma, incluindo o tempo do teste. Em seguida vá à enfermaria e faça o exercício com três pacientes reais de pós-operatório: para cada um, transcreva do prontuário todas as frequências cardíacas desde a operação, em sequência cronológica, e diga se a curva sobe, desce ou oscila. Compare a sua leitura com o que está escrito na evolução do dia. Conte em quantos dos três seria possível, lendo só o prontuário, dizer se o paciente melhorou ou piorou de ontem para hoje.

Em 30 dias

Este exercício é de reescrita de cenário, e vale mais feito por escrito do que pensado. Reconstrua a manhã do senhor Telésforo seis vezes, e em cada uma altere um único dado, dizendo qual conduta se desloca e em que momento da linha do tempo ela se desloca. Primeira versão: febre de 38,5 °C desde o segundo dia — qual capítulo passa a comandar o raciocínio, e o que continua sendo seu? Segunda: a frequência cai para 92 depois do resgate de analgesia e ali permanece — como termina a sua manhã, e o que você deixa registrado para o turno seguinte? Terceira: a tomografia mostra líquido e ar livres sem extravasamento de contraste — o problema está encerrado? Quarta: ele está no segundo dia, e não no quarto — o que isso sugere sobre a causa provável do vazamento? Quinta: o dreno havia sido retirado no terceiro dia — o que se perde com isso e o que passa a pesar mais? Sexta: a coleção tem 4 cm, é única e acessível, o lactato é normal e o abdome está depressível — qual das duas vias do bloco de divergências você sustentaria, e com quais três informações? Depois passe a dona Fidelina e retire da história o intervalo de função intestinal, supondo que ela nunca eliminou flatos: escreva o que muda no diagnóstico diferencial e o que permanece idêntico na conduta das duas primeiras horas.

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Agora atenda

Agora atenda: mulher de 58 anos, quinto dia de pós-operatório de colectomia esquerda por doença diverticular complicada, laparotomia mediana, com anastomose colorretal e dreno na goteira parietocólica esquerda. É segunda-feira, oito da manhã, e você é o interno que passa visita numa enfermaria de dezoito leitos. Ela eliminou flatos ontem à tarde e tomou chá pela manhã sem vomitar. Diz que a dor está melhor. Está com frequência cardíaca de 112, pressão arterial de 126 por 78, temperatura de 37,4 °C e saturação de 96% em ar ambiente. As frequências dos últimos dois dias, no prontuário, são 96, 102, 106 e 112. O dreno tem 190 mL nas últimas 24 horas, contra 90 mL no dia anterior, e a enfermagem anotou apenas o volume. A incisão está coberta. A filha, que dormiu no acompanhante, diz que a mãe está mais quieta do que ontem. Descubra o que está acontecendo, decida o que fazer nesta manhã e diga com quem você precisa falar.

Complicações pós-operatórias – Cento e vinte, sem febre — Internato | OsceLabs