Cirurgia Geral › Pré e Pós-operatório
O que não se corrige no primeiro dia
Resposta metabólica ao trauma (fases de Cuthbertson)
Compreender a resposta metabólica sem atribuir automaticamente à adaptação sinais de lesão renal, hipoperfusão ou infecção.
Aguilar-Nascimento JE, Ribeiro Junior U, Portari-Filho PE, Salomão AB, Caporossi C, Colleoni Neto R, Waitzberg DL, Campos ACL. Perioperative care in digestive surgery: the ERAS and ACERTO protocols — Brazilian College of Digestive Surgery Position Paper. ABCD Arq Bras Cir Dig. 2024;37:e1794. Seções de jejum pré-operatório, realimentação precoce, balanço hídrico e mobilização
Aguilar-Nascimento JE. Projeto ACERTO — 15 anos modificando cuidados perioperatórios no Brasil. Rev Col Bras Cir. 2021;48:e20202832. Auditoria inicial do Hospital Universitário Júlio Müller, estudo multicêntrico BIGFAST e série de resultados do protocolo
Castro MG, Ribeiro PC, Matos LBN, Abreu HB, Assis T, Barreto PA, Ceniccola GD, Cunha HFR, Gonçalves RC, Gonçalves TJM, Loss SH, Nunes DSL, Alves JTM, Toledo DO. Diretriz BRASPEN de Terapia Nutricional no Paciente Grave. BRASPEN J. 2023;38(2 Supl 2):2-46. Recomendações 3.2 e 3.3 (oferta energética e proteica por fase da doença)
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. Elenco de insulinas, analgésicos, soluções parenterais e expansores
Brasil. Ministério da Saúde. Consultoria Jurídica / Advocacia-Geral da União. Nota Técnica nº 216/2013 — albumina humana. Brasília, maio de 2013
São Paulo (Município). Secretaria Municipal da Saúde. Comissão Farmacoterapêutica — Proposta de critérios para utilização de albumina. Centro de Informações sobre Medicamentos, 31 de agosto de 2003
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria SAS/MS nº 247, de 14 de julho de 2000 — indicações para utilização de infusão intravenosa de albumina humana nas unidades prestadoras de serviços do SUS
Cuthbertson DP. The disturbance of metabolism produced by bony and non-bony injury, with notes on certain abnormal conditions of bone. Biochem J. 1930;24(4):1244-1263
KDIGO. Clinical Practice Guideline for Acute Kidney Injury, 2012. [Acessar fonte](https://kdigo.org/wp-content/uploads/2016/10/KDIGO-2012-AKI-Guideline-English.pdf)
Responda antes de ler
Homem de 62 anos, 78 kg, primeiro dia de pós-operatório de colectomia direita, 18 horas de incisão. Diurese medida de 210 mL nas últimas quatro horas, pico de 38,1 °C, glicemia 218 mg/dL e albumina 2,4 g/dL (era 3,8 g/dL há dez dias). Ao exame: mucosas úmidas, jugulares visíveis a 30 graus, extremidades quentes, PA 128 x 78 mmHg, FC 88 bpm, edema de mãos, curativo limpo, bexiga vazia à percussão. Recebeu 4.200 mL de cristaloide e ganhou 2 kg. Creatinina igual à do pré-operatório. Qual é a conduta?
O paciente que você vai ver
Quarta-feira, 7h10, na enfermaria de cirurgia geral de um hospital-escola de cento e vinte leitos. A visita da equipe sai em vinte minutos e o interno da manhã é você. Enquanto você abre os prontuários no posto, três coisas chegam quase juntas: a técnica de enfermagem diz que o leito 12 tem só duzentos e dez mililitros na bolsa desde a meia-noite; a folha de sinais vitais do mesmo leito traz 38,1 °C às cinco da manhã; e o resultado da coleta de rotina, que acabou de subir no sistema, mostra glicemia de 218 mg/dL e albumina de 2,4 g/dL. O residente ainda não desceu. Você tem esses quatro dados e vinte minutos.
O leito 12 é o senhor Dorval Parazinho, 62 anos, 78 quilos, 1,74 metro, aposentado da manutenção de uma usina de açúcar. Ele foi operado ontem: colectomia direita por adenocarcinoma de cólon, laparotomia mediana, quatro horas e vinte de cirurgia, sem intercorrência anestésica, sem transfusão. Entrou hipertenso em uso de losartana e sem diabetes conhecido — a glicemia da avaliação pré-operatória, dez dias atrás, era 96 mg/dL, e a albumina daquela mesma coleta era 3,8 g/dL. Ele voltou do centro cirúrgico às cinco e meia da tarde de ontem com dieta zero, soro fisiológico a cem mililitros por hora, dipirona de seis em seis horas e morfina se necessário.
A tentação, com quatro números alterados na mão e vinte minutos, é tratar quatro problemas. Correr volume porque a diurese está baixa. Colher hemocultura e começar antibiótico porque febril no pós-operatório. Prescrever insulina em escala porque a glicemia subiu. Pedir albumina porque 2,4 g/dL parece desnutrição grave em quem acabou de operar um câncer. Cada uma dessas quatro condutas tem defensor no corredor, cada uma parece prudente, e três delas, neste paciente, neste dia, fazem mal.
Porque não são quatro problemas. São quatro faces do mesmo fenômeno, e ele tem nome, tem descrição publicada e tem quase um século de idade: a resposta metabólica ao trauma. O corpo do senhor Dorval não está falhando — ele está executando, com precisão, um programa que existia muito antes de existir cirurgia eletiva, e que serve para manter um mamífero ferido vivo até que a ferida feche. Reter água e sódio, mobilizar glicose, redirecionar a síntese hepática e elevar o ponto térmico não são complicações da operação de ontem. São a operação de ontem, vista de dentro.
O que este capítulo faz com isso é uma coisa só, e ela é prática: dar ao interno um critério para separar, à beira do leito e com o que existe numa enfermaria brasileira, o que é resposta — e se observa — do que é falha — e se trata. Porque a resposta não é sempre benigna, o paciente que a executa não fica imune a hipovolemia, a infecção nem a injúria renal, e o erro de fingir que tudo é fisiologia mata tanto quanto o de corrigir tudo. A pergunta do capítulo é a que você vai fazer daqui a dezoito minutos, com o residente ao lado: neste paciente, agora, isto é o corpo trabalhando ou o corpo perdendo?
Quem adoece disso
Vale começar pelo que o Brasil não mede, porque isso muda o que se pode afirmar no resto do capítulo. Não há registro nacional, série de vigilância nem inquérito multicêntrico que diga quantos pacientes operados no país urinam abaixo do corte no primeiro dia, quantos febrem nas primeiras quarenta e oito horas ou quantos têm a albumina caindo um grama por decilitro entre a coleta pré-operatória e a do dia seguinte. Esses números existem em séries estrangeiras pequenas e em teses isoladas; não existem como medida brasileira. Quem escreve capítulo tem duas saídas honestas diante disso: inventar prevalência com cara de dado, ou dizer que o denominador não existe e trabalhar com o que de fato foi medido aqui. Este capítulo faz a segunda.
E o que foi medido aqui é a metade iatrogênica do problema — não a resposta do paciente, mas o que a enfermaria faz em cima dela. Essa medida existe, é boa, é brasileira, e nasceu de uma auditoria dentro de casa. Em 2005, o grupo de Nutrição e Cirurgia da Universidade Federal de Mato Grosso resolveu comparar, na enfermaria cirúrgica do Hospital Universitário Júlio Müller, o que a equipe acreditava fazer com o que os prontuários mostravam. O tempo de jejum pré-operatório que todos supunham ser de seis a oito horas era, na média, de dezesseis — e chegava a vinte e quatro. O volume de cristaloide que os pacientes recebiam no perioperatório era alto e muito diferente do imaginado. Daí nasceu o projeto ACERTO.
A objeção óbvia era que aquilo fosse um defeito local de um hospital do Centro-Oeste. Foi respondida em 2014 pelo estudo multicêntrico BIGFAST: dezessete hospitais brasileiros, mais de quatro mil pacientes, e o achado de que o tempo de jejum pré-operatório era alto em todas as regiões do país e semelhante ao que o Júlio Müller havia medido nove anos antes. Não era vício de um serviço. Era o padrão nacional.
Do outro lado da conta estão os resultados de mudar isso. A primeira publicação do ACERTO, em 2006, mostrou redução de dois dias no tempo de internação e queda da taxa de infecção de sítio cirúrgico. Vieram séries de três e de cinco anos, em 2008 e 2011; a de 2011, com aproximadamente cinco mil pacientes, foi a primeira a mostrar redução de mortalidade pós-operatória com o uso do protocolo. Quinze anos depois da auditoria inicial, o Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva assinou o posicionamento de 2024 que consolida ERAS e ACERTO como o cuidado perioperatório recomendado no país.
Repare no que essas duas séries de números dizem juntas, porque é a tese deste capítulo em forma de estatística. A resposta metabólica ao trauma não é opcional e não foi medida no Brasil. O que é opcional, e foi medido, é o quanto a gente a prolonga: com dezesseis horas de jejum antes da incisão, com dois a quatro dias de dieta zero depois dela, com dois a três litros de cristaloide por dia enquanto o paciente não come, com o paciente na cama porque ninguém escreveu que ele podia levantar. Cada um desses itens é uma linha de prescrição, e cada linha é uma decisão de alguém — muitas vezes do interno.
O posicionamento de 2024 descreve como tradição o que ainda é rotina em boa parte das enfermarias brasileiras: reiniciar a dieta em cirurgia digestiva só depois de resolvido o íleo, o que deixa o paciente de dois a quatro dias sem nada pela boca recebendo dois a três litros de cristaloide venoso por dia, não raro com uma sonda nasogástrica drenando. Essa frase parece descrição neutra de rotina. Ela é, na verdade, a descrição de um paciente cuja resposta está sendo alimentada por fora — e a aritmética disso aparece no bloco de critério deste capítulo.
Há ainda um recorte epidemiológico que este capítulo cede inteiro ao vizinho, e o menciona só para o leitor saber onde ele está: o da hiperglicemia. A frequência da hiperglicemia hospitalar em paciente sem diagnóstico prévio de diabetes, os desfechos associados a ela e a proporção de pacientes que recebem tratamento inadequado foram medidos em coorte brasileira, e quem carrega esses números nesta coleção é o capítulo Hiperglicemia hospitalar e esquema de insulina de correção, na apostila Prescrição e Cuidado do Paciente Internado. Este capítulo não repete a coorte dele: fica com o significado do achado no operado, e manda o leitor lá para o esquema e para o número.
Por fim, o dado de mais alto valor deste bloco não é uma prevalência, é uma comparação de fontes. As medidas brasileiras que existem sobre este tema foram todas produzidas por grupos de pesquisa e sociedades — universidade federal, colégio de especialidade, sociedade de nutrição parenteral e enteral. Nenhuma delas é norma do Ministério da Saúde. O Brasil não tem protocolo clínico nem diretriz terapêutica nacional sobre resposta metabólica ao trauma, sobre jejum perioperatório fora de contextos específicos ou sobre quando a oligúria do operado deve ser corrigida. A régua que este capítulo usa é de sociedade, é recente, é brasileira — e é preciso dizer que ela é de sociedade, porque isso muda o peso que ela tem numa discussão de corredor e numa auditoria.
Por que acontece o que acontece
A régua deste capítulo tem nome, tem endereço e tem idade, e as três coisas importam. O trabalho que dá nome às fases é de David Cuthbertson e está no Biochemical Journal de 1930, com o título de a perturbação do metabolismo produzida por lesão óssea e não óssea — identidade conferida contra três registros independentes que concordam em revista, ano, volume, fascículo e páginas. As duas fases carregam desde então os termos que sobreviveram: refluxo e fluxo, em inglês ebb e flow, a maré que recua e a maré que corre; a nomeação em nome próprio é atribuída a trabalho posterior do mesmo autor, na década de 1940, e este capítulo a registra como atribuição corrente da literatura, não como frase lida no original. O que interessa ao leito é a idade: a descrição que você vai usar hoje para decidir o soro do senhor Dorval tem quase um século, foi feita antes de existir unidade de terapia intensiva e antes de existir tomografia, e nada nela foi derrubado. A linhagem é explícita nas duas peças brasileiras que este capítulo usa como régua: a série do projeto ACERTO cita, entre as suas referências, um trabalho intitulado de Cuthbertson à cirurgia de via rápida, setenta anos de progresso na redução do estresse do paciente cirúrgico; e o posicionamento do Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva de 2024 cita a conferência Sir David Cuthbertson de 2023. O que mudou em noventa e seis anos não foi a descrição — foi o que se faz com ela.
A fase de refluxo é a primeira, e é curta. Ela ocupa aproximadamente as primeiras vinte e quatro horas depois do trauma, e o seu programa é sobreviver ao insulto: descarga simpática, vasoconstrição, débito cardíaco e consumo de oxigênio reduzidos, temperatura tendendo para baixo, todo o esforço voltado a manter volume circulante e pressão de perfusão. Se você atender um paciente logo depois de um trauma grave — e aí o assunto é do capítulo Atendimento inicial ao politraumatizado, na apostila Trauma —, é essa a fase que você vê. Na cirurgia eletiva ela costuma passar dentro da sala e da recuperação anestésica, e o paciente já sobe para a enfermaria saindo dela.
A fase de fluxo é a que ocupa a enfermaria, e é a que este capítulo trata. Ela começa por volta de vinte e quatro a quarenta e oito horas e dura dias a semanas, na proporção do porte da agressão. É hipermetabólica e catabólica: consumo de oxigênio aumentado, temperatura tendendo para cima, gasto energético maior, e um fluxo constante de substrato saindo da periferia para o fígado e para a ferida. Mais tarde, quando o estímulo cessa, ela vira anabólica e o paciente recupera peso, força e apetite — só que essa terceira etapa acontece semanas depois da alta, e não dentro da internação.
O motor de tudo isso é neuroendócrino e inflamatório ao mesmo tempo, e vale nomear os dois braços porque cada um explica um dos quatro números do leito 12. O braço neuroendócrino: descarga simpática com catecolaminas, eixo hipotálamo-hipófise-adrenal com cortisol, glucagon, hormônio do crescimento com resistência periférica ao seu efeito anabólico, hormônio antidiurético e o eixo renina-angiotensina-aldosterona. O braço inflamatório: citocinas liberadas pelo tecido lesado, com interleucina-1, interleucina-6 e fator de necrose tumoral alfa à frente, em quantidade proporcional ao porte da operação. É esse segundo braço que produz a febre das primeiras quarenta e oito horas, e o mecanismo detalhado dela — pirógeno, prostaglandina E2, ponto de ajuste hipotalâmico — é do capítulo Febre no paciente internado, na apostila Síndromes do Paciente Internado, que este capítulo não repete.
A retenção de água e de sódio, que é o achado que mais confunde o interno, vem de dois hormônios agindo por motivos diferentes. A aldosterona retém sódio no túbulo distal, e a água acompanha. O hormônio antidiurético abre canais de água no ducto coletor e devolve água livre à circulação. Até aqui é igual ao que acontece na hipovolemia verdadeira, e o mecanismo dessa via está descrito no capítulo Oligúria e balanço hídrico, também de Síndromes do Paciente Internado. A diferença — e ela é o coração deste capítulo — é o gatilho. Na hipovolemia, o gatilho é osmótico e barorreceptor: falta volume, o corpo economiza. No pós-operatório, os estímulos são não osmóticos, e disparam com o volume normal ou até aumentado: dor, náusea, opioide, manipulação visceral, e a própria agressão cirúrgica. O rim do senhor Dorval está retendo água porque ele foi operado, não porque ele está seco.
A hiperglicemia tem lógica igualmente deliberada. Cortisol, glucagon e catecolaminas aumentam a produção hepática de glicose por gliconeogênese e glicogenólise, enquanto o músculo fica resistente à insulina. O efeito líquido é uma glicemia mais alta com insulina presente — o corpo está fabricando combustível e reservando-o para os tecidos que o captam sem depender de insulina: o cérebro, as células de defesa e o leito da ferida, que consome glicose em ritmo alto para cicatrizar. Isso é diferente de diabetes em uma coisa que decide conduta: aqui a hiperglicemia é sintoma de uma agressão que vai passar, e passa junto com ela.
A albumina que cai merece parágrafo próprio, porque a explicação intuitiva está errada e a certa se demonstra com aritmética simples. Três coisas acontecem juntas. Primeira, o aumento de permeabilidade capilar faz a albumina escapar do vaso para o interstício — o mesmo fenômeno que produz o edema que você vê nas mãos e no dorso do paciente operado. Segunda, o soro que corre pela veia dilui a que ficou dentro. Terceira, o fígado reprioriza a síntese: passa a produzir proteínas de fase aguda, como a proteína C-reativa e o fibrinogênio, e reduz a produção das chamadas proteínas negativas de fase aguda, entre elas a albumina. Repare que nenhuma dessas três é falta de comida, e a conta que separa uma coisa da outra está no bloco de critério.
Falta a peça que o interno pode mexer hoje. A intensidade e a duração da fase de fluxo não são fixas: elas respondem ao que se faz com o paciente. Dor mal controlada mantém a descarga simpática. Jejum prolongado antes e depois da incisão agrava a resistência insulínica e a inflamação de fase aguda — e isso foi medido em estudos brasileiros ligados ao projeto ACERTO, que também mostraram perda de força no pós-operatório de quem jejuou por muito tempo. Imobilidade acelera a perda de massa. Sobrecarga de cristaloide atrasa a recuperação e aumenta complicações, e o balanço hídrico próximo de zero é apontado como pedra angular do protocolo pelo posicionamento de 2024 do Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva. E, acima de tudo, foco não controlado — abscesso, fístula, isquemia — mantém o estímulo ligado indefinidamente. Uma resposta que não desliga deixa de ser adaptativa, e é onde este capítulo termina.
Como se apresenta de verdade
As seis situações abaixo são as formas em que a resposta chega até você. Nenhuma delas se anuncia pelo nome: o que chega é uma bolsa quase vazia, um pico térmico na folha, uma glicemia capilar alta na madrugada, um exame que veio pior que o de dez dias atrás, uma queixa de fraqueza, ou um paciente que no quinto dia continua exatamente igual ao do segundo. A sequência abaixo é temporal de propósito, porque tempo é a variável que mais separa resposta de complicação neste capítulo.
Duas advertências antes de entrar. A primeira é que a resposta metabólica não protege o paciente de nada: ele pode sangrar, infectar, obstruir e ter injúria renal enquanto a executa, e o fato de os quatro números terem explicação fisiológica não exclui nenhuma dessas hipóteses. A segunda é que quase todo achado deste bloco é um achado que outro capítulo desta coleção também estuda, por um recorte diferente. Este aqui olha para eles juntos e pergunta se pertencem a um só fenômeno; o vizinho olha para cada um isoladamente e pergunta o que fazer quando não pertencem. Os dois são necessários, e as remissões estão escritas no lugar em que você vai precisar delas.
As primeiras 24 horas: a fase que quase sempre passa dentro do hospital sem ser vista
A fase de refluxo é o começo, e na cirurgia eletiva ela é a menos visível das duas, porque acontece entre a incisão e a manhã seguinte — dentro da sala, dentro da recuperação anestésica, dentro da primeira noite de enfermaria. O que se vê nela é um paciente vasoconstrito, com extremidades frias, tendendo a uma temperatura mais baixa que a habitual, com débito urinário baixo e frequência cardíaca que pode estar tanto elevada por dor quanto normal por analgesia.
Nessa janela o cuidado é outro, e é preciso dizê-lo para o interno não transportar o critério errado. Nas primeiras horas depois de uma operação, a pergunta dominante não é sobre resposta metabólica: é sobre sangramento, sobre analgesia e sobre a recuperação da anestesia. Débito urinário baixo com taquicardia progressiva, palidez, dreno com débito hemático, queda de pressão ou dor abdominal que aumenta é hemorragia até prova em contrário, e a conduta não é observar. O paciente que chega do centro cirúrgico instável pertence ao capítulo Hipotensão na enfermaria, na apostila Síndromes do Paciente Internado, e ao capítulo Choque hemorrágico no trauma, na apostila Trauma, quando o mecanismo é de perda sanguínea.
O que caracteriza a passagem normal por essa fase é a direção do movimento nas horas seguintes. O paciente que vem do centro cirúrgico frio e vasoconstrito aquece, a diurese das primeiras horas é baixa e depois se estabiliza, a dor cede com a analgesia prescrita e a frequência cardíaca desce junto. É a estabilidade da trajetória, não o valor isolado, que separa a fase de refluxo do início de uma complicação.
Um detalhe operacional que muda o dia seguinte: o volume de cristaloide recebido dentro da sala e nas primeiras horas é o número que vai explicar boa parte do que você encontrar amanhã de manhã. Ele está na ficha anestésica e na anotação da recuperação, e quase nunca é transcrito para a evolução da enfermaria. Procurá-lo antes da visita custa dois minutos e evita metade das discussões deste capítulo.
Por fim, a hipotermia perioperatória merece nota. Ela prolonga a fase de refluxo, aumenta o consumo de oxigênio quando o paciente começa a tremer para se reaquecer e está associada a mais complicações — inclusive de ferida. Reaquecer o paciente não é conforto: é conduta. O que se faz na sala com manta térmica e soro aquecido é assunto da anestesia; o que se faz na enfermaria é simples e é seu — cobertor, ambiente sem corrente de ar, e registrar a temperatura em vez de anotar que o paciente estava com frio.
O primeiro e o segundo dia: os quatro achados que chegam juntos
Este é o quadro do senhor Dorval, e é o quadro típico. Entre doze e quarenta e oito horas depois de uma operação de médio ou grande porte, quatro coisas aparecem quase sempre juntas, e o interno as recebe como quatro problemas separados porque elas chegam por quatro canais diferentes: a enfermagem traz a diurese, a folha traz a temperatura, a glicemia capilar traz o açúcar e o laboratório traz a albumina.
A diurese cai. Ela cai por retenção de água livre e de sódio, e o padrão é urina em pouca quantidade, concentrada e pobre em sódio — igual, no aspecto, ao da hipovolemia. A conversão do volume da bolsa em taxa por quilo e por hora, o exame da bexiga e do cateter e a régua de 0,5 mL/kg/h pertencem ao capítulo Oligúria e balanço hídrico, e o que este capítulo faz com eles é acrescentar o dado que aquele não usa: quantas horas fazem da operação.
O peso sobe. É o achado mais objetivo dos quatro, é o mais fácil de obter e é o menos pedido: cada litro retido é um quilo na balança, e o paciente que ganha dois quilos entre a véspera da cirurgia e o segundo dia de pós-operatório retém dois litros, independentemente do que a folha de balanço diga. Peça o peso diário na prescrição do primeiro dia. Ele é o único número desta lista que não depende de ninguém interpretar nada.

A temperatura sobe. Pico de até 38 e pouco nas primeiras quarenta e oito horas, em paciente que está bem, com ferida limpa e sem disfunção orgânica, é a causa mais comum desse período e cede sozinha. O que fazer com a febre — quando colher cultura, quando começar antimicrobiano, como percorrer os focos por dia de pós-operatório — é do capítulo Febre no paciente internado; a fronteira está detalhada na seção seguinte.
A glicemia sobe. Em paciente sem diabetes conhecido, valores entre 140 e 200 mg/dL nas primeiras quarenta e oito horas depois de uma operação de porte são a regra, não a exceção. Ela responde ao estímulo, não à dieta — e por isso não adianta procurar o que ele comeu, já que ele não comeu nada.
A albumina cai. Cai rápido, cai muito, e cai em quem entrou com albumina normal. A queda de mais de um grama por decilitro em menos de um dia é comum, e é justamente a rapidez que denuncia o mecanismo: nenhum problema de produção ou de ingestão consegue mover a albumina sérica nessa velocidade, pela razão aritmética que está no bloco de critério.
O que amarra os quatro é o relógio. Isolado, cada achado tem uma lista longa de causas. Juntos, no primeiro ou segundo dia, num paciente que está bem ao exame, eles descrevem um fenômeno só — e a conduta que cabe a um pacote assim é diferente da conduta que cabe a cada peça dele separada.
A febre do primeiro dia: o que é seu e o que é do vizinho
Esta seção existe para deixar a fronteira explícita, porque é a que mais gera trabalho duplicado e conduta confusa na enfermaria. A investigação da febre no internado e no operado — como percorrer os focos, quando colher hemocultura e urocultura, quando iniciar antimicrobiano empírico, o que a febre por dia de pós-operatório sugere — é inteira do capítulo Febre no paciente internado, na apostila Síndromes do Paciente Internado. Ele é o dono. Este capítulo cede a investigação e fica com a interpretação.
A interpretação é esta: nas primeiras quarenta e oito horas, a febre não é um evento à parte que por acaso coincidiu com a operação. Ela é o mesmo braço inflamatório que está produzindo os outros três achados, expresso no termostato. Interleucina-6 liberada pelo tecido lesado é a mesma molécula que participa da reprogramação hepática que derruba a albumina e que contribui para a resistência insulínica. Ver a febre como membro do pacote muda uma decisão prática: quando ela vem acompanhada da oligúria, da hiperglicemia e da albumina baixa, num paciente que está bem, a coerência do conjunto reforça a leitura de resposta. Quando ela vem sozinha, ou fora da janela, ou num paciente que piorou, a coerência se quebra e a leitura muda.
Há uma consequência de prescrição que decorre disso e que é do seu dia. Antitérmico de horário no pós-operatório imediato apaga o único parâmetro que você tem para acompanhar a trajetória térmica das próximas quarenta e oito horas. A regra prática é prescrever antitérmico por desconforto, e não como reflexo automático da folha — e o capítulo de febre desenvolve o argumento. Registrar a curva importa mais do que aplainá-la.
E há um limite duro, que vale escrever no plano: a febre das primeiras quarenta e oito horas só é aceitável como resposta enquanto o paciente estiver bem. Dor abdominal que aumenta em vez de diminuir, taquicardia que não cede com analgesia, queda de pressão, confusão nova, queda de saturação, ferida com dor desproporcional ou crepitação — qualquer um desses tira o caso desta janela e o coloca em outra. Não são exceções raras: são a razão de o exame físico completo ser obrigatório antes de atribuir qualquer achado à fisiologia.
Uma armadilha específica do operado precisa ser dita aqui porque não pertence à febre nem à ferida: o paciente pode febrar por trombose venosa profunda, e a janela dela se sobrepõe à da resposta. A profilaxia de tromboembolismo venoso no perioperatório é do capítulo Profilaxia de tromboembolismo venoso no perioperatório, nesta mesma apostila, e o diagnóstico é do capítulo Trombose venosa profunda e diagnóstico, na apostila Cirurgia Vascular. Perguntar se a profilaxia foi prescrita e se está sendo aplicada leva dez segundos e pertence a esta visita.
O paciente que derrete: catabolismo à beira do leito
A perda de massa magra é o achado mais lento dos deste capítulo e o mais consequente depois da alta. Ela não aparece na primeira visita: aparece na segunda semana, quando a família diz que ele está irreconhecível, e aparece no primeiro mês, quando ele não consegue subir a escada de casa. O mecanismo é o que a descrição clássica da fase de fluxo enuncia — proteína muscular sendo desmontada para fornecer aminoácido ao fígado, à síntese de fase aguda e ao leito da ferida.
À beira do leito, o que se vê é fraqueza desproporcional ao tempo de cama, dificuldade de sentar sem apoio, voz mais fraca, e uma perda de peso que só aparece depois que o edema sai — porque enquanto o paciente está retendo água a balança esconde a perda de músculo debaixo do ganho de líquido. Este é um dos motivos de pesar todo dia: a curva de peso do operado sobe primeiro por retenção e depois desce por catabolismo, e ler só o valor de hoje não conta essa história.
O ponto que muda conduta, e que decepciona quem o ouve pela primeira vez, é este: na fase aguda não existe oferta calórica que reverta o catabolismo. O estímulo é hormonal e inflamatório, não nutricional, e por isso oferecer mais caloria nessa janela não impede a perda de massa — apenas aumenta o risco de sobrecarga, de hiperglicemia e de complicação metabólica. É a razão pela qual a Diretriz BRASPEN de Terapia Nutricional no Paciente Grave, de 2023, recomenda começar com oferta energética mais baixa e progredir depois, e não começar cheio.
Isso não é argumento para não alimentar — é o oposto. O que se faz é começar cedo e progredir devagar, porque a nutrição precoce protege a mucosa, reduz o tempo de íleo e reduz complicações, ainda que não impeça a perda de músculo enquanto a resposta está em curso. E o esquema — qual dieta, qual via, com que velocidade, o que dosar antes da primeira caloria, como reconhecer síndrome de realimentação — é inteiro do capítulo Dieta hospitalar: escolha, jejum, progressão e via alternativa, na apostila Prescrição e Cuidado do Paciente Internado. Este capítulo não reescreve o esquema dele. Fica com o porquê e com o relógio.
Há um item de exame físico que quase ninguém faz no operado e que resume tudo: peça para ele apertar a sua mão, e peça de novo daqui a três dias. Força de preensão que cai enquanto tudo o mais melhora é sinal de que a fase de fluxo continua ativa. É grosseiro, é subjetivo, e é mais informativo do que a albumina de amanhã.
Do terceiro ao sétimo dia: a resposta que já devia estar descendo
A partir do terceiro dia o capítulo muda de pergunta. Não é mais se aquilo é resposta — é se a resposta está seguindo a curva que se espera dela. E a curva esperada tem forma: a diurese se solta, o peso começa a cair, o edema periférico regride, a febre desaparece, a glicemia baixa, a dor diminui, o paciente elimina flatos e recupera apetite.
A parte mais visível dessa descida é a fase de diurese. Depois de reter, o paciente devolve: o débito urinário aumenta, às vezes muito, e o peso cai vários quilos em poucos dias. Isso é bom sinal, e é o momento em que a prescrição de soro precisa ser cortada — porque manter dois litros de cristaloide correndo num paciente que voltou a comer e voltou a urinar é o modo mais fácil de produzir congestão e hiponatremia. Rever a linha de hidratação todo dia é conduta, e a régua de manutenção e reposição está no capítulo Hidratação de manutenção e reposição, na apostila Prescrição e Cuidado do Paciente Internado.
O sinal de alarme deste período é a ausência de movimento. Paciente que no quinto dia está exatamente igual ao do segundo — mesma febre, mesma oligúria, mesma glicemia, mesmo edema, sem apetite, sem eliminação de flatos — não está numa resposta prolongada. Está com alguma coisa mantendo o estímulo ligado, e as candidatas são poucas e sérias: coleção intra-abdominal, deiscência de anastomose, fístula, isquemia de alça, infecção de sítio cirúrgico profunda, ou foco à distância.
Não confunda platô com melhora lenta. Melhora lenta tem direção: cada parâmetro anda um pouco por dia, ainda que devagar. Platô é ausência de direção em vários parâmetros ao mesmo tempo. A distinção só existe se alguém anotou os valores dos dias anteriores em números, e esse é o argumento operacional para escrever taxa de diurese, peso e temperatura máxima na evolução todo dia, em vez de escrever que o paciente permanece estável.
As complicações que produzem esse platô — íleo, fístula, deiscência, coleção, infecção de ferida — são o objeto do capítulo Complicações pós-operatórias, nesta mesma apostila, e do capítulo Infecção de sítio cirúrgico e deiscência de ferida, também nesta apostila. A eles cabe o diagnóstico e o manejo de cada complicação; a este capítulo cabe uma coisa só, que é o reconhecimento de que a curva parou — o gatilho para ir procurá-las.
Onde a resposta vira doença
Existe um ponto em que o mesmo programa que mantinha o paciente vivo passa a matá-lo, e ele não é qualitativamente diferente — é o mesmo mecanismo sem freio. A vasodilatação que era regional vira sistêmica e derruba a pressão. O escape capilar que produzia edema de mão passa a esvaziar o intravascular. O hipermetabolismo que consumia músculo passa a consumir mais oxigênio do que a entrega consegue fornecer. A coagulação ativada localmente para fechar a ferida passa a consumir fatores. E os órgãos que estavam sustentando a resposta começam a falhar.
O reconhecimento disso é obrigação de quem passa a visita, e ele é feito com o que já está na folha: temperatura, frequência cardíaca, frequência respiratória, pressão, nível de consciência, saturação e diurese. Frequência respiratória é o parâmetro mais sensível e o menos aferido do Brasil — quando ela está anotada de verdade, ela costuma anunciar a deterioração antes de todo o resto.
A partir do momento em que há suspeita de disfunção orgânica com foco infeccioso, este capítulo termina e outro começa. Sepse e choque séptico: identificação precoce e pacotes iniciais, na apostila Medicina Intensiva e Emergências, é o dono do reconhecimento formal, das metas e do pacote da primeira hora, e a conduta de lá substitui a daqui a partir desse ponto. A regra prática: no instante em que a pergunta deixa de ser este achado é resposta ou é falha e passa a ser este paciente está entrando em sepse, mude de capítulo e de ritmo.
Vale enunciar o inverso, porque ele também erra e erra mais silenciosamente. Nem toda deterioração do operado é sepse. Sangramento tardio, tromboembolismo pulmonar, infarto perioperatório, obstrução, e injúria renal aguda por causa somada produzem quadros que se parecem, e cada um tem seu capítulo. O que este bloco entrega não é o diagnóstico — é a decisão de parar de atribuir à fisiologia e começar a procurar causa.
Uma última observação sobre linguagem, que tem consequência de prontuário. Escrever resposta inflamatória sistêmica na evolução de um paciente que está bem no segundo dia é diferente de escrever a mesma frase num paciente que está mal no quinto — e a segunda, sem qualificação, é lida por quem vier depois como se você tivesse pensado em sepse e não feito nada. Escreva o que viu e o que decidiu, com número e com hora, em vez de nomear a síndrome.
Como fechar o diagnóstico
A investigação deste capítulo tem uma característica que convém enunciar antes da primeira lista: o exame que mais decide não se pede, se faz. Quase toda a diferença entre oligúria adaptativa e hipovolemia real está no exame físico e na reconstrução das últimas vinte e quatro horas, e quase nenhum exame laboratorial disponível numa enfermaria brasileira resolve essa dúvida sozinho. O laboratório aqui serve para achar o que o exame físico não vê e para acompanhar trajetória — não para arbitrar a pergunta central.
A segunda característica é que este bloco é, em boa parte, um mapa de fronteiras. A rotina de investigação da oligúria é do capítulo Oligúria e balanço hídrico; a da injúria renal aguda é do capítulo Injúria renal aguda; a da febre é do capítulo Febre no paciente internado; a interpretação de gasometria, provas hepáticas e coagulograma é da apostila Interpretação de Exames à Beira do Leito. O que segue não repete o que eles fazem: acrescenta a variável que nenhum deles usa, que é quantas horas fazem da incisão, e diz onde a régua deles entra.
O exame físico do operado oligúrico, em cinco pontos e três minutos
Primeiro ponto: a bexiga e o cateter, antes de qualquer outra coisa. Palpe e percuta o hipogástrio; se há cateter vesical, siga-o com a mão do meato ao coletor procurando dobra, tração e alça pendente, e confira a altura da bolsa. Retenção urinária e cateter dobrado produzem bolsa vazia com rim perfeito, e no operado esse cenário é mais comum, não menos, por causa do opioide e do anticolinérgico. Esta é a bifurcação mecânica do capítulo Oligúria e balanço hídrico, e ela vem antes de qualquer raciocínio fisiológico.
Segundo ponto: o estado de volume, procurado nos dois sentidos ao mesmo tempo. De um lado, sinais de perda: mucosas secas, turgor reduzido, veias jugulares vazias com o paciente a trinta graus, taquicardia, hipotensão postural quando é possível medi-la, extremidades frias com enchimento capilar lento. Do outro, sinais de excesso: edema de mãos, de dorso do pé e de região sacral, estertores em bases, jugulares cheias, ganho de peso. O operado do primeiro dia pode ter os dois conjuntos misturados — edema periférico com intravascular apertado — e é justamente por isso que nenhum sinal isolado decide.
Terceiro ponto: a ferida e o abdome. Descubra o curativo e olhe. Dor desproporcional, hiperemia que avança, secreção, distensão, ausência de ruídos com dor, sinal de irritação peritoneal — qualquer um deles tira o caso desta janela. O exame da ferida propriamente dito, com o que se vê, se palpa e se cheira, é do capítulo Infecção de sítio cirúrgico e deiscência de ferida, nesta apostila.
Quarto ponto: os drenos e as perdas que ninguém soma. Débito de dreno, de sonda nasogástrica, de ostomia, vômito, diarreia e sudorese estão fora da folha de balanço na maioria das enfermarias, e um paciente com oitocentos mililitros de débito por sonda em vinte e quatro horas está perdendo volume de verdade enquanto a bolsa de urina sugere retenção. Some as perdas antes de concluir qualquer coisa.
Quinto ponto: a dor e a sedação. Dor não controlada mantém a resposta ligada e reduz diurese por via não osmótica; opioide em excesso reduz o tônus detrusor e produz retenção; os dois produzem bolsa vazia por caminhos opostos. Pergunte o escore de dor, olhe quantas doses de resgate foram dadas na noite e leia a prescrição inteira. A escolha e o rodízio de analgésico são do capítulo Analgesia na prática, na apostila Prescrição e Cuidado do Paciente Internado.
Após avaliar perfusão, congestão, obstrução, balanço e fármacos, registre a hipótese principal e alternativas ainda possíveis. O critério urinário de lesão renal não depende de a creatinina subir. Observação ativa pode ser apropriada em paciente estável, com exames e intervalos definidos pela condição, mas não deve ser justificada como ausência de lesão renal apenas por suposta adaptação.
A conta da diurese, e a variável que só este capítulo acrescenta
Converta antes de julgar. A régua nacional e internacional é taxa, não volume: abaixo de 0,5 mL/kg/h por seis horas é oligúria por definição, e a conta é volume dividido pelas horas e depois pelo peso. Essa régua e o que se faz com ela pertencem ao capítulo Oligúria e balanço hídrico, que é o dono e é o vizinho crítico deste capítulo.
No senhor Dorval a conta fecha assim: duzentos e dez mililitros da meia-noite às sete e dez são sete horas e dez minutos; dividido pelo peso de setenta e oito quilos, dá 0,38 mL/kg/h. Para ficar no corte, ele precisaria ter produzido duzentos e oitenta mililitros. Ele está oligúrico pela definição, e não adianta a fisiologia explicar o achado: o achado existe e precisa de conduta.
A variável que este capítulo acrescenta à mesma conta é o tempo desde a incisão, e ela muda a probabilidade de cada hipótese sem mudar o número. Uma taxa de 0,38 mL/kg/h nas primeiras vinte e quatro horas de um pós-operatório de grande porte, em paciente sem sinal de sangramento, com pressão e frequência estáveis, com edema periférico e sem outras perdas, tem como causa mais provável a retenção neuroendócrina. A mesma taxa no quinto dia, em paciente que já estava urinando bem, é outra coisa até prova em contrário.
Há uma armadilha aritmética específica do operado, e ela é a razão de o peso valer mais que a folha: parte do que ele recebeu não está no balanço. Soro de diluição de antimicrobiano, de analgésico e de antiemético soma centenas de mililitros por dia e raramente é lançado. Do outro lado, perdas insensíveis aumentam com febre. Um balanço que fecha em zero num paciente que ganhou dois quilos é um balanço errado, e quem tem razão é a balança.
Por fim, a totalização precisa de hora marcada. Diurese lida às sete da manhã sobre uma bolsa que ninguém esvaziou desde ontem à tarde não é taxa de nada. Escreva na prescrição o esvaziamento e o registro por turno, com horário, e a primeira totalização confiável passa a existir seis horas depois — que é o intervalo do próprio critério.
O que pedir no primeiro e no segundo dia, e o que não pedir
A lista curta do que muda decisão neste momento é curta mesmo. Peso diário, taxa de diurese por turno, sinais vitais com frequência respiratória de verdade, glicemia capilar seriada, e um painel de creatinina, ureia, sódio e potássio para saber onde o rim está e onde os eletrólitos estão. Hemograma se houver suspeita de sangramento ou de infecção. É isso que se pede na manhã do primeiro dia.
Do lado do que não muda decisão, quatro pedidos são frequentes e quase sempre inúteis nesta janela. Albumina sérica de rotina no pós-operatório imediato: ela vai estar baixa, isso já é sabido, e não existe conduta que decorra do valor. Proteínas totais e frações pelo mesmo motivo. Proteína C-reativa isolada no primeiro ou segundo dia: ela sobe por definição depois de qualquer operação e, sem série e sem contexto, não separa resposta de infecção — o capítulo Marcadores e culturas, na apostila Interpretação de Exames à Beira do Leito, trata de quando repetir e de quando ignorar marcador. Tomografia contrastada não é exame de rotina para oligúria isolada. Se houver uma hipótese associada em que o contraste possa mudar a conduta, a indicação depende do benefício diagnóstico, da urgência, do risco renal e das alternativas, como desenvolvido no capítulo Injúria renal aguda.
A glicemia capilar merece um parágrafo porque é a única deste bloco que gera prescrição imediata. No operado sem diagnóstico de diabetes, o valor da admissão hospitalar e a série das primeiras quarenta e oito horas dizem duas coisas diferentes: a primeira estabelece a linha de base, a segunda mostra a resposta. Quando pedir hemoglobina glicada, o que ela separa e o que ela decide na alta são do capítulo Hiperglicemia hospitalar e esquema de insulina de correção, que é o dono, e a régua dele é a que vale aqui.
A creatinina pode demorar a refletir uma queda aguda da filtração; um valor inicialmente preservado não exclui injúria renal. O intervalo de repetição depende da evolução clínica, do valor basal, da função renal e das decisões que o resultado pode mudar. Nesse intervalo, acompanhe diurese, perfusão e balanço hídrico, com diurese horária quando indicada pela gravidade. A interpretação conjunta é desenvolvida no capítulo Injúria renal aguda.
Uma nota sobre o que se pede por hábito de serviço: coagulograma diário, provas hepáticas diárias e gasometria arterial em paciente estável no primeiro dia de pós-operatório são exames que produzem valores alterados que ninguém vai usar. Provas hepáticas e coagulograma se alteram na resposta de fase aguda; a leitura correta desses padrões é da apostila Interpretação de Exames à Beira do Leito, e ela deixa claro que o padrão importa mais que o valor. Pedir por hábito produz achado incidental, e achado incidental produz exame de confirmação.
Sódio e creatinina urinários no operado: o que respondem, e o que não
Sódio urinário baixo e urina concentrada indicam que o túbulo está reabsorvendo com força. No paciente que não foi operado, isso aponta para causa pré-renal e é um dado útil. No operado do primeiro dia, o mesmo resultado é esperado nos dois cenários que você está tentando separar — porque tanto a hipovolemia real quanto a retenção neuroendócrina da resposta cirúrgica ativam aldosterona e hormônio antidiurético. O exame confirma o mecanismo e não decide a conduta.
Isso não quer dizer que não se peça. Quer dizer que se peça sabendo o que ele responde. Sódio urinário alto num paciente oligúrico com urina não concentrada aponta para lesão tubular estabelecida, e aí ele é informativo. E há uma condição prática que o capítulo Injúria renal aguda enfatiza e que se perde toda hora: colher antes de qualquer diurético, porque uma dose de furosemida invalida o sódio urinário das horas seguintes.
Os índices derivados, como a fração de excreção de sódio, são ainda mais frágeis neste contexto e menos úteis do que a impressão que dão. Eles foram descritos em populações que não recebiam soro, não recebiam diurético e não vinham de anestesia; no operado do primeiro dia, quase nenhuma dessas condições vale. Use-os, se usar, como um dado a mais numa direção que o exame físico já indicava — nunca como árbitro.
Um achado que aparece com frequência e assusta: sódio sérico caindo nos primeiros dias, com o paciente recebendo cristaloide e retendo água livre. Hiponatremia leve, dilucional, num operado que retém água por estímulo não osmótico, é coerente com o quadro; hiponatremia com sintoma neurológico, ou de instalação rápida, não é assunto deste capítulo e sim do capítulo Distúrbios do sódio no internado: hiponatremia, na apostila Prescrição e Cuidado do Paciente Internado, que é o dono.
Por fim, o mais barato: leia o sumário de urina que já foi colhido. Sedimento limpo em paciente oligúrico sustenta causa funcional; cilindros granulosos apontam para necrose tubular; piúria e bacteriúria abrem outra investigação, com a ressalva de que bacteriúria em paciente sondado é esperada e tratá-la encerra a busca no lugar errado, como o capítulo Febre no paciente internado adverte.
A fronteira com injúria renal aguda, declarada nos dois sentidos
De todas as fronteiras deste capítulo, esta é a que mais pesa, e ela precisa ficar escrita com as mesmas palavras dos dois lados. O capítulo Injúria renal aguda: pré-renal, renal e pós-renal, na apostila Nefrologia, é o dono da injúria renal aguda no operado: o estadiamento, o painel de causas, a leitura da folha de prescrição, o que suspender, o que ajustar por depuração e quando chamar a nefrologia são dele, e a conduta de lá substitui a daqui a partir do momento em que os critérios de injúria renal estiverem preenchidos. Aquele capítulo já descreve o pós-operatório como somatório previsível de fatores: jejum prolongado, perda para o terceiro espaço, hipotensão intraoperatória, anti-inflamatório para analgesia e bloqueador do sistema renina-angiotensina reintroduzido cedo demais.
Este capítulo explica os mecanismos hormonais e metabólicos do pós-operatório e sua relação com retenção de água e sódio. Essa explicação não substitui os critérios clínicos de lesão renal: débito baixo por tempo suficiente exige reconhecimento e avaliação, mesmo sem creatinina elevada. Integre o capítulo de lesão renal aguda e o de balanço hídrico conforme a pergunta clínica.
Pergunte: o débito e a duração cumprem critério urinário? A creatinina mudou em relação ao basal? Há sinais de hipoperfusão, congestão, obstrução ou exposição a nefrotóxico? As respostas orientam causas e cuidado, e não uma separação obrigatória entre mecanismo adaptativo e lesão renal.
Existe um vão real entre os dois capítulos, e ele merece ser dito em vez de escondido: o paciente que tem oligúria adaptativa e injúria renal ao mesmo tempo. Ele existe, é comum, e não há régua que o separe em duas partes. A conduta prática nesse caso é a mais conservadora das duas — trate como injúria renal, porque as suspensões de nefrotóxico e o ajuste por depuração não fazem mal a quem só tinha resposta, enquanto a expansão liberal faz mal a quem já está congesto.
E o inverso da fronteira, que é onde a hora conta: a injúria renal aguda no operado não é rara nem tardia. Reconhecê-la exige reavaliar cedo a perfusão e a prescrição com o médico responsável: evitar anti-inflamatórios, rever bloqueadores do sistema renina-angiotensina conforme pressão e evolução renal, e ajustar doses quando necessário. Contraste não é proibido apenas pela presença de injúria renal; a equipe deve ponderar o que o exame muda, a urgência, o risco e as alternativas. Essas medidas acompanham a investigação da causa e não devem esperar a avaliação especializada para começar.
A albumina, e o exame que não se pede para responder a pergunta errada
Chegou a albumina de 2,4 g/dL, e a primeira coisa a fazer com ela é decidir que pergunta ela responde. Ela não responde se o paciente está desnutrido, porque a albumina não mede estado nutricional no internado — proteínas viscerais como albumina, pré-albumina e transferrina são marcadores inflamatórios, e essa leitura é do capítulo Dieta hospitalar: escolha, jejum, progressão e via alternativa, que é o dono do assunto nesta coleção. E ela não responde se o paciente precisa de albumina intravenosa, porque essa decisão não se toma pelo valor.
O que ela responde é o grau de intensidade da resposta de fase aguda, junto com a proteína C-reativa, e é assim que se deve lê-la: como termômetro de inflamação e não como medida de reserva. Nesse sentido, uma albumina de 2,4 num paciente que entrou com 3,8 diz que a agressão foi grande — o que você já sabia, porque estava na sala com ele.
Vale distinguir duas perguntas nutricionais que se confundem por causa desse exame. A pergunta este paciente estava desnutrido antes de operar é boa, muda desfecho, e se responde no pré-operatório, com perda de peso, ingestão habitual, exame físico e triagem — e ela está no capítulo de terapia nutricional no paciente cirúrgico, nesta apostila. A pergunta este paciente está desnutrido hoje, no segundo dia, é uma pergunta que a albumina não responde e que quase nunca precisa ser respondida hoje.
Também não se pede albumina de controle. Repetir o exame diariamente produz uma série que desce e depois sobe acompanhando a inflamação, e a tentação de agir sobre a curva é exatamente o erro que o capítulo quer evitar. Se for para acompanhar alguma coisa nesse eixo, acompanhe peso, ingestão em percentual da bandeja e força de preensão — os três dizem mais e custam menos.
Fecha o bloco o dado de elenco, porque ele muda o que se discute no corredor: a albumina humana não consta da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024, com zero ocorrência tanto no índice de apresentações quanto no texto bruto do documento. Também não constam hidroxietilamido, poligelina nem glutamina. Quer dizer que a discussão sobre prescrever albumina no operado não é só clínica: no SUS, ela é uma discussão sobre um item que o hospital fornece como insumo de internação, e não sobre um medicamento do elenco. Como isso funciona, e o que as normas brasileiras dizem, está no bloco de critério.
Resposta ou falha: as duas fases, os quatro achados, e o que as fontes oficiais brasileiras erram sobre a albumina
Resposta ao estresse pode explicar parte dos achados, mas não exclui complicação. A oligúria tem valor diagnóstico próprio e deve ser interpretada com duração, medida confiável e contexto.
- 1Reconstruir operação, fluidos, medicamentos, ingestão, perdas e horários; conferir a confiabilidade do registro de urina.
- 2Calcular débito em mL/kg/h e duração. Pelo KDIGO, diurese <0,5 mL/kg/h por pelo menos seis horas pode preencher critério de lesão renal aguda mesmo com creatinina ainda normal.
- 3Verificar retenção e obstrução, incluindo bexiga e cateter quando presente; ausência de sonda não exclui obstrução urinária.
- 4Avaliar perfusão e congestão, peso e balanço. Edema ou uma pressão isolada não definem sozinhos volume intravascular e resposta a fluidos.
- 5Formular causas que podem coexistir: resposta hormonal, hipoperfusão, obstrução, nefrotoxicidade e lesão renal; evitar falsa escolha exclusiva entre adaptação e lesão.
- 6Não dar bolus apenas para aumentar a diurese sem indicação de reposição. Ajustar fluidos ao exame, ingestão e perdas; diurético também precisa de indicação própria.
- 7Rever nefrotóxicos, eletrólitos, glicemia, infecção e adequação nutricional; albumina baixa na fase inflamatória não diagnostica isoladamente desnutrição nem indica reposição.
- 8Registrar hipótese, critérios presentes e incertezas, discutir com supervisor e definir reavaliação mais rápida diante de oligúria persistente, hipoperfusão, congestão ou piora laboratorial.
As duas fases, e o que cada uma põe no leito
| Fase | Janela desde a incisão | O que aparece no leito | O que o interno faz |
|---|---|---|---|
| Refluxo | Primeiras 24 h, na maior parte dentro da sala e da recuperação anestésica | Vasoconstrição, extremidades frias, tendência à hipotermia, débito cardíaco e consumo de oxigênio reduzidos, diurese baixa | Reaquecer, tratar dor, excluir sangramento. Nesta janela a pergunta dominante não é metabólica |
| Fluxo — etapa catabólica | De 24-48 h a dias ou semanas, proporcional ao porte | Retenção de água e sódio, febre até 38 e pouco, hiperglicemia, albumina em queda, edema periférico, ganho de peso, perda de massa magra | Observar com parâmetros escritos, cortar jejum, cortar soro em excesso, mobilizar, analgesiar, controlar a fonte |
| Fluxo — etapa anabólica | Semanas depois, quase sempre já fora do hospital | Diurese solta, peso caindo, apetite e força voltando, recuperação de massa magra | Orientar na alta: a recuperação de força leva semanas, e é onde a nutrição de fato reconstrói |
| Resposta que não desliga | Do 3º dia em diante, sem direção de melhora em vários parâmetros | Platô: mesma febre, mesma oligúria, mesma glicemia, sem flatos, sem apetite — ou piora franca | Parar de atribuir à fisiologia e procurar a causa: coleção, deiscência, fístula, isquemia, foco à distância |
Os quatro achados: quando é resposta, quando sai da janela, e de quem passa a ser
| Achado | Compatível com resposta quando | Sai da janela quando | Passa a ser de |
|---|---|---|---|
| Oligúria abaixo de 0,5 mL/kg/h | Primeiras 24-48 h, bexiga e cateter conferidos, sem sinal de hipoperfusão, creatinina no basal, com edema periférico e ganho de peso | Creatinina sobe pelos cortes vigentes, há hipoperfusão, persiste após corrigir mecânica, dor e perdas somadas, ou surge depois de já ter urinado bem | Injúria renal aguda: pré-renal, renal e pós-renal (Nefrologia) para a injúria; Oligúria e balanço hídrico (Síndromes do Paciente Internado) para a rotina e a prova de volume |
| Febre até cerca de 38 °C | Dias 1 e 2, ferida limpa, paciente bem, sem disfunção orgânica, cedendo espontaneamente | Aparece depois do 3º dia, retorna, vem com disfunção, ou o paciente está mal ao exame | Febre no paciente internado (Síndromes do Paciente Internado) para a investigação; Complicações pós-operatórias e Infecção de sítio cirúrgico (esta apostila) para a causa cirúrgica |
| Hiperglicemia sem diabetes conhecido | Primeiras 48-72 h, valores tipicamente entre 140 e 200 mg/dL, sem cetose, caindo junto com a melhora clínica | Persiste após a resolução da fase aguda, há cetose, ou o paciente tem glicada alterada — aí não era só estresse | Hiperglicemia hospitalar e esquema de insulina de correção (Prescrição e Cuidado do Paciente Internado), que é o dono do esquema, da glicada e do plano de alta |
| Albumina em queda rápida | Queda de mais de 1 g/dL em 24-48 h, em quem entrou com albumina normal, acompanhando edema e proteína C-reativa em alta | Não há queda quando se esperaria — o que sugere hemoconcentração —, ou a albumina segue caindo depois da 1ª semana sem inflamação em curso | Dieta hospitalar: escolha, jejum, progressão e via alternativa (Prescrição e Cuidado do Paciente Internado) para a leitura nutricional e a terapia |
| Ganho de peso de 1 a 3 kg | Primeiras 48-72 h, acompanhando a oligúria e o edema, com o paciente estável | Ganho que continua depois do 3º dia, ou vem com dispneia, estertores e queda de saturação — é congestão | Oligúria e balanço hídrico e Hidratação de manutenção e reposição (Prescrição e Cuidado do Paciente Internado) |
Albumina humana no Brasil: quatro documentos, e onde eles se contradizem
| Documento e data | O que diz sobre hipoalbuminemia | O que diz sobre expansão de volume | Consequência no leito |
|---|---|---|---|
| Portaria SAS/MS nº 247, de 14/07/2000 (lida por transcrição do Ministério, não no original) | Lista hipoalbuminemia grave entre os dezenove incisos de indicação para infusão intravenosa, sem definir o que é grave e sem fixar dose, volume ou duração | Lista choque séptico e choque hipovolêmico associado a hipoalbuminemia grave entre as indicações, sem ordenar linhas de escolha | É a única norma federal do tema, e ela autoriza mais do que a prática atual sustenta — e sem número que permita auditar |
| Nota Técnica CONJUR/MS nº 216/2013 — albumina humana | Reproduz integralmente os dezenove incisos da portaria de 2000, e declara ter caráter informativo, não sendo protocolo clínico nem diretriz terapêutica | Afirma que a albumina humana 20% pertence à Relação Nacional de Medicamentos Essenciais e só pode ser usada em ambiente hospitalar, com financiamento pela internação | É a peça que o gov.br entrega hoje sobre albumina — e a afirmação sobre o elenco não vale para a Rename de 2024 (ver nota 3) |
| Comissão Farmacoterapêutica SMS-SP, 31/08/2003 | Define hipoproteinemia por albumina abaixo de 2,5 g/dL ou proteínas totais abaixo de 5 g/dL, e lista a hipoalbuminemia grave isolada e o suporte nutricional entre os usos não recomendados | Põe cristaloide como primeira escolha no choque e reserva a albumina para quando o coloide não proteico estiver contraindicado; limita a justificativa inicial a no máximo quatro dias | É a régua brasileira com número — e ela diz o oposto da federal sobre a mesma situação clínica (ver nota 5) |
| Rename 2024 | Não trata de indicação clínica: é elenco | Não traz albumina humana, hidroxietilamido, poligelina nem glutamina — zero ocorrência no índice de apresentações e no texto bruto | No SUS a albumina chega como insumo da internação, não pelo elenco; e o coloide não proteico que a norma municipal põe em primeiro lugar não existe no elenco |
A aritmética do capítulo, recalculada num adulto de 70 kg (e no senhor Dorval, de 78 kg)
| Item | Apresentação real ou dado de origem | A conta | O que ela decide |
|---|---|---|---|
| Albumina humana 20% | Solução injetável 0,2 g/mL; frasco-ampola de 10, 50 e 100 mL (bula profissional) | 10 mL = 2 g; 50 mL = 10 g; 100 mL = 20 g | Um frasco de 50 mL entrega 10 g — a referência para qualquer conversa sobre dose |
| Expansão que um frasco produz | 1 g de albumina liga 18 g de água (Nota Técnica CONJUR/MS nº 216/2013) | 10 g × 18 = 180 mL puxados; somados aos 50 mL infundidos, cerca de 230 mL de expansão | É expansor potente — e é por isso que ele é perigoso em quem já está congesto |
| Subir a albumina de 2,2 para 3,0 g/dL | Volume plasmático estimado em 40 mL/kg = 2,8 L = 28 dL num adulto de 70 kg; cerca de 40% da albumina fica no intravascular no equilíbrio | 0,8 g/dL × 28 dL = 22,4 g dentro do vaso; ÷ 0,40 = 56 g no corpo = 5,6 frascos de 50 mL | Corrigir o número exigiria quase seis frascos, e o efeito se dissiparia em horas: não é tratamento, é maquiagem de exame |
| Sódio do soro do jejum pós-operatório | Cloreto de sódio 0,9% = 9 g/L = 154 mEq de sódio por litro; 2 a 3 L/dia é o regime descrito como tradicional no posicionamento de 2024 | 3 L = 462 mEq = 10,6 g de sódio elementar = 27,0 g de cloreto de sódio; necessidade diária de 1 a 2 mEq/kg em 70 kg = 70 a 140 mEq | O soro do jejum entrega de 3,3 a 6,6 vezes a necessidade de sódio, a um paciente cuja aldosterona já está retendo |
| Meta energética da fase inicial | 15 a 20 kcal/kg, progredindo a 25 a 30 kcal/kg entre o 4º e o 7º dia (Diretriz BRASPEN 2023, recomendação 3.2) | Em 70 kg: 1.050 a 1.400 kcal/dia na fase inicial; 1.750 a 2.100 kcal/dia depois | Começar cheio não é neutro — e a progressão é do capítulo de dieta hospitalar, não deste |
| Meta proteica da fase inicial | Até 1,2 g/kg/dia até cerca do 4º dia; 1,3 a 2,0 g/kg/dia depois (Diretriz BRASPEN 2023, recomendação 3.3) | Em 70 kg: até 84 g/dia na fase inicial; 91 a 140 g/dia depois | A faixa entre 84 e 91 g/dia não pertence a nenhuma das duas fases (ver nota 4) |
| A diurese do senhor Dorval | 210 mL entre a meia-noite e 7h10 (7 h e 10 min), peso de 78 kg | 210 ÷ 7,17 ÷ 78 = 0,38 mL/kg/h; para ficar em 0,5 mL/kg/h ele precisaria de 280 mL | Ele está oligúrico pela definição: a fisiologia explica, mas não dispensa conduta |
| A queda de albumina do senhor Dorval | De 3,8 para 2,4 g/dL em cerca de 18 h; meia-vida plasmática da albumina de aproximadamente 20 dias | Com síntese zerada por 18 h, restariam 97,4% — 3,70 g/dL. Chegar a 2,4 só por parada de síntese levaria 13,3 dias | A queda de uma noite não pode ser produção nem ingestão: é escape capilar mais diluição (ver notas 1 e 2) |
A meia-vida plasmática da albumina, de cerca de 20 dias, não explica queda de 3,8 para 2,4 g/dL em 18 horas apenas por redução de síntese. Mesmo com síntese zero, o modelo resultaria em aproximadamente 3,70 g/dL nesse intervalo. No contexto apresentado, diluição e redistribuição explicam a queda rápida; o resultado isolado não diagnostica desnutrição aguda.
No exemplo, 3.120 mL de plasma com albumina de 3,8 g/dL, acrescidos hipoteticamente de 1.000 mL no mesmo compartimento, resultariam em cerca de 2,88 g/dL por diluição. É um modelo explicativo, não medida do volume efetivamente retido. Interprete albumina junto a balanço hídrico, edema, inflamação e evolução.
A nota ministerial de 2013 cita uma edição antiga da Rename ao discutir albumina. Essa referência não informa o estoque ou o financiamento atual de um hospital. Confirme a padronização institucional quando houver indicação clínica específica, sem usar presença ou ausência no elenco como critério terapêutico.
A BRASPEN 2023 apresenta até 1,2 g/kg/dia de proteína na fase inicial e 1,3–2,0 g/kg/dia após o quarto dia, conforme a situação clínica. Em 70 kg, correspondem a até 84 g e a 91–140 g por dia. A progressão exige avaliar fase, tolerância e plano nutricional; as faixas não representam uma transição biológica abrupta.
Os documentos administrativos históricos citados divergem sobre albumina para hipoalbuminemia isolada. A portaria transcrita em 2013 menciona hipoalbuminemia grave, enquanto o documento municipal de 2003 restringe o uso a situações específicas. Essas formulações não substituem a avaliação de indicação clínica desenvolvida neste percurso.
A transcrição da portaria não fornece limiar, dose ou duração para a expressão “hipoalbuminemia grave”. O documento municipal apresenta critérios próprios e exige renovação da justificativa após quatro dias. Ao prescrever, a equipe precisa explicitar indicação, objetivo, dose e reavaliação; o adjetivo “grave” não constitui um plano.
A lista de usos não recomendados do documento municipal salta do item 4 para o 6. Ao referenciá-la, identifique o conteúdo da recomendação e a data, além do número, para evitar remissões ambíguas.
O documento municipal de 2003 compara albumina com coloides não proteicos em alguns cenários. Essa lista histórica não define a reposição do paciente atual. Para avaliar expansão, siga o percurso de volemia e injúria renal citado, considerando fisiologia, resposta e solução disponível.
Três litros de NaCl 0,9% contêm 462 mEq de sódio e 27 g de cloreto de sódio, equivalentes a cerca de 10,6 g de sódio elementar. Diferencie massa de sódio e massa do sal ao interpretar rótulos e contabilizar a oferta.
No exemplo de 70 kg, a referência usual de manutenção de 1–2 mEq/kg/dia corresponde a 70–140 mEq de sódio. Três litros de NaCl 0,9% oferecem 462 mEq, várias vezes essa quantidade. Distinga manutenção de ressuscitação e reposição de perdas; revise a prescrição diária pelo percurso específico.
A BRASPEN usa o quarto dia como referência operacional para progressão, enquanto um estudo discutido no texto nomeia de outra forma as fases da doença. Não transfira a nomenclatura do ensaio diretamente para a recomendação. A fase clínica e a tolerância orientam o ajuste.
Confira se a fórmula escolhida atinge simultaneamente as metas de energia e proteína. Ofertar 1,2 g/kg/dia de proteína fornece 4,8 kcal/kg/dia, equivalentes a 24%–32% de uma meta energética de 20–15 kcal/kg/dia. Algumas fórmulas padrão não entregam essa proporção; o plano pode exigir formulação específica ou módulo, com a equipe de nutrição.
Albumina a 20% contém 0,2 g/mL: frascos de 10, 50 e 100 mL fornecem, respectivamente, 2, 10 e 20 g. Seu efeito expansor exige atenção à volemia e ao risco de sobrecarga. A relação teórica entre albumina e água não deve ser interpretada como expansão garantida em cada paciente.
A referência à Portaria SAS/MS nº 247/2000 neste capítulo provém da transcrição na nota ministerial de 2013. Essa leitura não confirma vigência posterior nem resolve trechos de grafia ambígua. As passagens são contexto documental e não autorização autônoma para indicar albumina.
A conduta, hora a hora
O que segue é a manhã do senhor Dorval Parazinho: 62 anos, 78 quilos, 1,74 metro, primeiro dia de pós-operatório de colectomia direita por adenocarcinoma, laparotomia mediana, sem transfusão, sem diabetes conhecido, hipertenso em uso domiciliar de losartana. Os quatro dados que abriram o capítulo são os dele: 210 mL de diurese desde a meia-noite, 38,1 °C às cinco da manhã, glicemia de 218 mg/dL e albumina de 2,4 g/dL, contra 3,8 g/dL de dez dias atrás.
Cada dose citada traz atrás de si a apresentação que a farmácia da rede realmente dispensa, e as contas de conversão estão recalculadas no bloco de critério. Duas coisas o interno não decide sozinho e estão marcadas como tal: a reintrodução do anti-hipertensivo e qualquer mudança de plano cirúrgico.
07h10 — antes de entrar no quarto, no posto de enfermagem
Três documentos, cinco minutos, e você entra no quarto com hipótese em vez de com susto. Primeiro, a ficha anestésica e a anotação da recuperação: quanto cristaloide ele recebeu dentro da sala e nas primeiras horas, se houve hipotensão intraoperatória e por quanto tempo, se houve perda sanguínea estimada. Segundo, a folha de sinais vitais inteira da noite, não só o pico de temperatura: frequência cardíaca, pressão e — se alguém aferiu — frequência respiratória, hora a hora. Terceiro, a prescrição do dia anterior lida linha por linha, procurando anti-inflamatório, opioide, anticolinérgico e o que ficou de casa. No senhor Dorval, a ficha traz 2.800 mL de cristaloide no intraoperatório, sem episódio de hipotensão sustentada e com perda estimada de 150 mL; a enfermaria correu mais 1.400 mL desde a chegada. São 4.200 mL em dezoito horas, e esse é o número que explica o edema, o peso e boa parte da albumina.
Prescrição- Solicitar o peso de hoje, em jejum, na mesma balança usada na véspera da operação — e o peso pré-operatório registrado, para comparação
- Solicitar a totalização da diurese por turno, com horário de esvaziamento anotado, a partir de agora
- Verificar se a profilaxia de tromboembolismo venoso está prescrita e sendo aplicada (a régua é do capítulo Profilaxia de tromboembolismo venoso no perioperatório, nesta apostila)
07h25 — o exame, com o curativo descoberto e o paciente acordado
Os cinco pontos, na ordem, sem pular nenhum. Hipogástrio vazio à percussão, sem globo; ele não tem cateter vesical, e urina no papagaio com jato normal — a bifurcação mecânica está fechada. Mucosas úmidas, jugulares visíveis a trinta graus, enchimento capilar de dois segundos, extremidades quentes; pressão 128 x 78 mmHg deitado, frequência de 88 bpm, frequência respiratória de 16, saturação de 96% em ar ambiente. Mãos e dorso dos pés com edema depressível; a aliança está apertada, e ele comenta isso antes de você perguntar. Curativo limpo, seco, sem hiperemia além de um centímetro da linha de sutura; abdome distendido de forma difusa, doloroso à palpação da incisão e não à descompressão, ruídos hidroaéreos presentes e diminuídos, sem eliminação de flatos. Dreno: ausente. Sonda nasogástrica: retirada ao fim da cirurgia. Escore de dor 6 em repouso, e ele recebeu duas doses de resgate de morfina na madrugada.
Prescrição- Registrar na evolução, em números: taxa de diurese em mL/kg/h, peso de hoje contra o pré-operatório, temperatura máxima das últimas 24 h e a glicemia mais alta
- Registrar o exame do abdome e da ferida com os achados negativos que importam: sem irritação peritoneal, sem hiperemia progressiva, sem secreção
07h40 — nomear a hipótese, e escrever qual foi descartada
A conta de Dorval é 210 mL em 7 horas e 10 minutos, para 78 kg: cerca de 0,38 mL/kg/h. Se a coleta é confiável e representa esse intervalo, a duração e o débito já preenchem critério urinário KDIGO de lesão renal aguda, inicialmente estágio 1 por 6–12 horas. Creatinina de 1,0 igual ao basal não afasta esse critério e pode demorar a subir. O exame descrito, o edema e os 4.200 mL recebidos não favorecem novo bolus automático, mas também não demonstram sozinhos ausência de hipoperfusão. Verifique bexiga, perdas, medicamentos, balanço e sinais de congestão; acompanhe função renal e eletrólitos. A resposta hormonal pós-operatória pode contribuir para a oligúria e coexistir com lesão renal. Registre o critério presente, causas prováveis e plano supervisionado, sem escrever que as demais hipóteses foram definitivamente descartadas por um único sinal.
Prescrição- Registrar: oligúria de aproximadamente 0,38 mL/kg/h por mais de sete horas, compatível com critério urinário de lesão renal aguda se a medida for confiável, apesar de creatinina basal preservada. Investigar causas, evitar reposição automática e programar reavaliação supervisionada.
- A oligúria já descrita por pelo menos 6 horas pode preencher critério de lesão renal aguda mesmo com creatinina normal: comunicar e avaliar agora. Registrar diurese horária e reavaliar perfusão, obstrução e causas; persistência ou agravamento, queda de pressão, taquicardia, creatinina crescente ou dor abdominal mudam a urgência, sem esperar mais 6 horas para reconhecer o problema.
07h50 — a prescrição do dia: três linhas saem, três entram
A parte que muda desfecho não é o que se acrescenta, é o que se corta. Sai o excesso de soro: mantendo 100 mL/h ele receberia mais 2.400 mL num dia em que já retém, e a régua correta é o cálculo de manutenção do capítulo Hidratação de manutenção e reposição, descontando o que ele passar a ingerir por via oral. Sai o anti-inflamatório, se houver — em rim que está com estímulo antidiurético máximo, é a droga com pior relação entre analgesia e risco. Fica suspensa a losartana, e a reintrodução é decisão de quem acompanha a função renal, com creatinina e diurese recuperadas, e não do primeiro dia. Entra dieta por via oral hoje, porque realimentação precoce depois de cirurgia digestiva, mesmo com anastomose, é considerada segura e componente central dos protocolos de recuperação acelerada pelo posicionamento de 2024 do Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva. Entra analgesia multimodal de horário, porque dor mantém a resposta ligada. E entra a ordem de sair do leito, escrita, com horário — porque mobilização nas primeiras 24 horas é pedra angular do mesmo protocolo, e o que não está escrito não acontece.
Prescrição- Cloreto de sódio 0,9% intravenoso — reduzir a infusão e recalcular pelo alvo de manutenção, descontando a ingestão oral do dia; NÃO prescrever bólus e NÃO prescrever diurético
- Dipirona 1 g intravenosa de 6 em 6 horas, de horário (2 mL da solução injetável de 500 mg/mL, apresentação do componente Básico da Rename 2024)
- Sulfato de morfina 2 mg intravenosos, se dor com escore acima de 4, até de 4 em 4 horas (solução injetável de 10 mg/mL, componente Especializado da Rename 2024; a escolha, o rodízio e o manejo de efeitos adversos são do capítulo Analgesia na prática)
- Antitérmico apenas se houver desconforto — não de horário, para não apagar a curva térmica das próximas 48 horas
- Dieta líquida clara por via oral hoje, com progressão conforme tolerância (o esquema, a via e os critérios de progressão são do capítulo Dieta hospitalar: escolha, jejum, progressão e via alternativa)
- Sair do leito hoje: sentar na poltrona por 30 minutos três vezes, e deambular no corredor pelo menos uma vez, com acompanhamento
- Suspender anti-inflamatório não esteroide; manter losartana suspensa e registrar que a reintrodução depende de diurese e creatinina recuperadas
- Glicemia capilar de 6 em 6 horas; o esquema de correção e a indicação de hemoglobina glicada são do capítulo Hiperglicemia hospitalar e esquema de insulina de correção
- NÃO prescrever albumina humana: a albumina de 2,4 g/dL é redistribuição e diluição, e a conta que demonstra isso está no bloco de critério
- Peso diário, em jejum, na mesma balança, registrado na evolução
08h10 — a passagem para a enfermagem, que é o que faz o plano existir
Plano escrito sem gatilho é plano que ninguém executa. Passe três coisas para a equipe de enfermagem, nesta ordem, e confirme que foram anotadas. Primeira: o que medir e quando — diurese totalizada às 13h e às 19h, com horário de esvaziamento; peso amanhã cedo, na mesma balança; glicemia capilar de seis em seis horas. Segunda: o que chamar — queda de pressão, frequência cardíaca acima de 110 bpm sustentada, frequência respiratória acima de 22, saturação abaixo de 94%, confusão nova, dor abdominal que aumente, ou vômito. Terceira: o que autorizar sem me chamar — sair do leito, tomar líquido, receber a dose de resgate de analgesia. A terceira é a que mais muda o dia do paciente e é a que menos se passa.
Prescrição- Totalização da diurese às 13h e às 19h, com horário de esvaziamento anotado
- Chamar imediatamente se: pressão sistólica abaixo de 100 mmHg, frequência cardíaca acima de 110 bpm sustentada, frequência respiratória acima de 22, saturação abaixo de 94%, confusão nova, dor abdominal crescente ou vômito
- Autorizado sem nova ordem: levantar e deambular com acompanhamento, ingerir líquidos claros, receber a analgesia de resgate prescrita
13h00 — a primeira totalização, e o que ela decide
Das 7h10 às 13h ele produziu 290 mL, o que dá 0,64 mL/kg/h — acima do corte pela primeira vez. Tolerou 400 mL de líquidos claros sem náusea, sentou na poltrona duas vezes e deambulou pelo corredor uma vez com apoio. A temperatura máxima do período foi 37,8 °C. A glicemia das 12h foi 186 mg/dL. Não há nada a fazer, e não fazer nada é a conduta — com a ressalva de que ela precisa estar escrita como decisão, e não como omissão. O que se registra é a direção: a taxa subiu, a temperatura desceu, a glicemia desceu, o paciente saiu da cama e bebeu. Quatro parâmetros na mesma direção, no mesmo período, é o que caracteriza resposta em resolução.
Prescrição- Manter o plano; registrar na evolução a taxa de diurese das 6 h anteriores em mL/kg/h e a tolerância à via oral em mililitros
- Progredir a dieta conforme tolerância, seguindo o esquema do capítulo de dieta hospitalar
- Reduzir a hidratação venosa proporcionalmente ao que ele ingerir por via oral
19h00 — o fechamento do turno, e o cenário que teria mudado tudo
Fechando o dia: 340 mL entre 13h e 19h, ou 0,73 mL/kg/h; ingestão oral de 900 mL; temperatura máxima 37,6 °C; glicemia 164 mg/dL; peso ainda não repetido, porque é de manhã. A trajetória se manteve. Vale, porém, escrever aqui o cenário oposto, porque ele é o que decide a utilidade deste capítulo. Se às 13h a taxa tivesse continuado em 0,38, com o paciente sem tolerar líquido e com a pressão em 104 x 62 mmHg e a frequência em 108 bpm, a leitura mudaria de resposta para hipovolemia — e a conduta passaria a ser a prova de volume do capítulo Oligúria e balanço hídrico, com alíquota de 250 a 500 mL, alvo de diurese acima de 0,5 mL/kg/h na hora seguinte, reavaliação com exame dirigido e horário escrito, e teto de três alíquotas. Se, além disso, a creatinina tivesse subido, o caso passaria inteiro ao capítulo Injúria renal aguda. Escrever qual seria o próximo capítulo é parte do plano.
Prescrição- Registrar a taxa das 6 h, a ingestão oral do dia e a temperatura máxima
- Deixar escrito no plano da noite qual achado dispara a prova de volume e qual dispara a reavaliação por injúria renal aguda
- Manter suspensos anti-inflamatório e losartana; não introduzir nefrotóxico nem contraste
Segundo dia, 07h — a curva, e o corte que quase ninguém faz
Peso de hoje: 80,4 quilos, contra 78,0 na véspera da operação. Dois quilos e quatrocentos gramas a mais, ou seja, cerca de 2,4 litros retidos — e agora a albumina de 2,4 g/dL tem explicação numérica, não retórica. Diurese das últimas 24 horas: 1.480 mL, ou 0,79 mL/kg/h. Temperatura máxima 37,4 °C. Glicemia 148 mg/dL. Eliminou flatos às cinco da manhã. Tolerou dieta pastosa no jantar. É aqui que se faz o corte que quase ninguém faz: a hidratação venosa sai, ou cai para o mínimo necessário para as medicações, porque manter dois litros de soro correndo num paciente que voltou a comer e voltou a urinar é a maneira mais eficiente de produzir congestão e hiponatremia. E é aqui que se marca a albumina para não ser repetida: ela vai subir sozinha na semana que vem, e repeti-la só produz uma curva que alguém vai querer tratar.
Prescrição- Suspender a hidratação venosa contínua, mantendo apenas acesso salinizado para medicação, se a ingestão oral estiver adequada
- Manter dieta por via oral com progressão; manter o programa de saída do leito, ampliando para três caminhadas no corredor
- Não repetir albumina sérica nem proteínas totais; se for para acompanhar este eixo, acompanhar peso, percentual ingerido da bandeja e força de preensão
- Reavaliar diariamente a necessidade de cada linha da folha, e escrever a data prevista de reintrodução da losartana com o critério (diurese e creatinina) ao lado
- Registrar na evolução a curva dos quatro números desde o primeiro dia, em vez de escrever que o paciente permanece estável
Como saber se está funcionando
Sete parâmetros dizem se a leitura de resposta estava certa, e nenhum deles é exame de sangue. Seis se medem à beira do leito ou na balança, e o sétimo é a soma dos outros, que é a direção. A regra que organiza todos: nenhum parâmetro isolado muda a conduta, e a convergência de vários na mesma direção muda.
Uma advertência de método, porque ela é a diferença entre reavaliar e repetir. Trajetória só existe se o valor de ontem estiver escrito em número. Evolução que diz paciente estável, diurese satisfatória e afebril não permite reavaliação nenhuma amanhã, e é a forma mais comum de perder uma deterioração lenta.
Esperado: Subindo a cada turno a partir do primeiro dia, cruzando 0,5 mL/kg/h nas primeiras 24 a 36 h e soltando francamente entre o 2º e o 4º dia
Se não melhora: Duas totalizações seguidas abaixo de 0,5 mL/kg/h mudam o plano, não repetem o mesmo plano. Refaça a bifurcação mecânica, some as perdas, reexamine a volemia e escolha entre prova de volume com teto — a régua é do capítulo Oligúria e balanço hídrico — e reavaliação por injúria renal aguda, com creatinina contra o basal. Não escale para diurético para melhorar o número.
Esperado: Ganho de 1 a 3 kg nas primeiras 48 a 72 h, seguido de queda a partir do momento em que a diurese solta, voltando ao peso pré-operatório por volta do 5º ao 7º dia
Se não melhora: Peso que continua subindo depois do 3º dia é sobrecarga, não resposta: corte a hidratação venosa, reveja o volume de diluição das medicações e procure congestão ao exame. Peso que cai muito além do pré-operatório depois que o edema saiu é perda de massa magra, e a conversa passa a ser sobre ingestão e sobre alta — assunto do capítulo de dieta hospitalar.
Esperado: Picos até cerca de 38 °C nos dias 1 e 2, decrescentes, desaparecendo até o 3º dia
Se não melhora: Febre que aparece pela primeira vez depois do 3º dia, que retorna depois de ter cedido, ou que vem acompanhada de qualquer disfunção, sai desta janela e passa à investigação sistemática do capítulo Febre no paciente internado. Se houver ferida com dor desproporcional, hiperemia progressiva ou secreção, o destino é o capítulo Infecção de sítio cirúrgico e deiscência de ferida, nesta apostila.
Esperado: Valores mais altos nas primeiras 24 a 48 h e caindo junto com a melhora clínica, sem cetose
Se não melhora: Hiperglicemia que não cede quando o resto melhora, ou que aparece com cetonemia, deixa de ser resposta. O esquema de correção, a indicação e a leitura da hemoglobina glicada e o plano de alta são do capítulo Hiperglicemia hospitalar e esquema de insulina de correção, e a conduta de lá substitui a daqui. O que não se faz é tratar como diabetes de longa data um paciente cuja glicemia subiu porque foi operado.
Esperado: Ruídos presentes e ingestão progressiva desde o primeiro dia; eliminação de flatos entre o 1º e o 3º dia na maioria das cirurgias abdominais
Se não melhora: Ausência de flatos com distensão crescente, vômito ou intolerância que piora depois de ter melhorado desloca a hipótese para íleo prolongado ou complicação da anastomose, e o dono desse assunto é o capítulo Complicações pós-operatórias, nesta apostila. Suspensão da via oral sem prazo escrito e sem via alternativa é erro próprio, e o relógio de 24 a 48 horas para a terapia enteral é do capítulo de dieta hospitalar.
Esperado: Sentar no primeiro dia e caminhar no corredor nas primeiras 24 h; distância e número de saídas crescendo a cada dia
Se não melhora: Paciente que não sai do leito precisa de causa nomeada: dor mal controlada, hipotensão postural, medo, ausência de ordem escrita ou falta de quem acompanhe. Todas as cinco têm conduta, e nenhuma delas é aceitar. Força de preensão que cai enquanto o resto melhora indica fase de fluxo ainda ativa, e é motivo para revisar analgesia, mobilização e ingestão — não para pedir albumina.
Esperado: Frequência entre 12 e 20 e paciente orientado, sem oscilação ao longo do dia
Se não melhora: Frequência respiratória em elevação e confusão nova são os dois sinais que anunciam deterioração antes de todo o resto, e nenhum dos dois cabe na leitura de resposta metabólica. Com foco infeccioso suspeito e disfunção orgânica, este capítulo termina e a conduta passa a ser a do capítulo Sepse e choque séptico: identificação precoce e pacotes iniciais, na apostila Medicina Intensiva e Emergências. Confusão nova sem infecção pede a régua do capítulo Delirium no idoso internado, na apostila Síndromes do Paciente Internado.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro mais frequente do primeiro dia e o que parece mais inofensivo, porque soro é barato e ninguém morre de meio litro. O dano é cumulativo e é invisível na hora: o paciente que já retém água e sódio por estímulo neuroendócrino recebe mais volume, o edema aumenta, a albumina cai um pouco mais por diluição, o peso sobe, o intestino edemaciado demora mais a funcionar, e a anastomose cicatriza numa parede mais úmida. A sobrecarga de cristaloide atrasa a recuperação e aumenta complicações, e o balanço próximo de zero é apontado como pedra angular do protocolo no posicionamento de 2024 do Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva. Quando alguém finalmente percebe, o paciente está três quilos acima do peso e alguém prescreve furosemida — que é o segundo erro em cima do primeiro.
Como pegar a tempo: Nunca prescreva volume a partir do dado da bolsa. Faça primeiro os três gestos que custam três minutos: bexiga e cateter, exame de volemia nos dois sentidos, e soma das perdas que a folha não tem. Depois converta em taxa e pergunte quantas horas fazem da incisão. Se o exame indicar hipovolemia, a prova de volume tem forma — alíquota de 250 a 500 mL, alvo escrito, hora marcada e teto —, e ela é do capítulo Oligúria e balanço hídrico. Se não indicar, a conduta é observar com parâmetros e gatilhos escritos, e isso é uma decisão que se registra, não uma omissão.
O dano: Junta dois danos numa prescrição só. O primeiro é fisiológico: um frasco de 50 mL entrega 10 g de albumina, e a proporção que a própria nota técnica do Ministério declara — um grama liga dezoito gramas de água — significa cerca de 230 mL de expansão por frasco, num paciente que já está retendo e já tem edema. O segundo é aritmético: subir a albumina de 2,2 para 3,0 g/dL num adulto de 70 kg exigiria cerca de 56 g, quase seis frascos, e o efeito se dissiparia em horas porque a permeabilidade que fez a albumina sair continua aberta. Some a isso que a albumina humana não consta da Rename 2024, e que a única norma federal do tema é de 2000 e não define o corte que ela própria usa como indicação.
Como pegar a tempo: Antes de pensar em prescrever, decida que pergunta a albumina responde: ela mede intensidade de inflamação, não reserva nutricional — leitura que é do capítulo Dieta hospitalar: escolha, jejum, progressão e via alternativa. Depois faça a conta de tempo: queda de mais de um grama por decilitro em menos de 24 horas não cabe numa meia-vida de vinte dias e portanto não é produção nem ingestão. E não repita o exame: ele sobe sozinho quando o paciente diureser. Se ainda assim houver indicação específica — paracentese de grande volume, plasmaférese, contexto de cirrose —, ela vem do capítulo daquele problema, e não do valor isolado.
O dano: O paciente sem diabetes cuja glicemia subiu porque foi operado sai do hospital com uma receita de doença crônica que ele não tem, um diagnóstico no prontuário que vai acompanhá-lo em toda internação futura, e risco de hipoglicemia em casa, quando a resposta metabólica já se desfez e a necessidade caiu. O erro simétrico também existe e é pior: ignorar a hiperglicemia dentro do hospital porque o paciente não é diabético — ela precisa ser tratada durante a internação, e só depois se decide o que vai na alta.
Como pegar a tempo: Separe as duas decisões, que são de tempos diferentes. Dentro do hospital, trate a glicemia com a régua do capítulo Hiperglicemia hospitalar e esquema de insulina de correção, que é o dono do esquema. Para a alta, o exame que separa hiperglicemia de estresse de diabetes é a hemoglobina glicada, e o mesmo capítulo diz quando pedi-la e o que ela decide — e pedi-la na admissão, e não na véspera da alta, é o que faz o resultado chegar a tempo. Enquanto a glicada não voltar, a alta não leva antidiabético novo: leva reavaliação ambulatorial marcada.
O dano: Colher culturas em quem está bem produz resultado que vai ter de ser interpretado, e bacteriúria em paciente sondado é esperada — tratá-la encerra a investigação no lugar errado. Antimicrobiano começado sem foco no primeiro dia não encurta nada, seleciona flora, expõe a colite e a nefrotoxicidade num rim que já está com estímulo antidiurético máximo, e apaga o parâmetro que serviria para julgar os próximos dias. E cria um problema de comunicação: uma vez começado, alguém terá de decidir quando parar, sem nunca ter tido o diagnóstico que justificasse começar.
Como pegar a tempo: Use a janela e o estado do paciente como filtro, e não o valor da temperatura. Febre até cerca de 38 °C nos dias 1 e 2, com paciente bem, ferida limpa e sem disfunção, é para observar e reavaliar. A investigação sistemática — o que colher, quando, e quem recebe antimicrobiano agora — é do capítulo Febre no paciente internado, que é o dono, e é para lá que se vai no instante em que qualquer condição do filtro deixar de valer. E prescreva antitérmico por desconforto, não de horário, para não apagar a curva.
O dano: É o erro por omissão, e é o que mais prolonga a própria resposta que o capítulo descreve. Jejum prolongado agrava a resistência insulínica e a inflamação de fase aguda, e estudos brasileiros ligados ao projeto ACERTO associaram-no também a perda de força no pós-operatório. Imobilidade acelera a perda de massa magra e soma risco de tromboembolismo, de lesão por pressão e de delirium. E a rotina que produz esses dois é a mesma que o posicionamento de 2024 descreve como tradicional em cirurgia digestiva: dois a quatro dias sem nada pela boca, com dois a três litros de cristaloide por dia. A auditoria brasileira que originou o projeto ACERTO mediu, em 2005, jejum pré-operatório médio de dezesseis horas onde se acreditava haver seis a oito — e o estudo multicêntrico BIGFAST, com dezessete hospitais e mais de quatro mil pacientes, mostrou em 2014 que o padrão era nacional.
Como pegar a tempo: Escreva as duas linhas na prescrição do primeiro dia, com horário, porque o que não está escrito não acontece: dieta por via oral hoje, com progressão conforme tolerância, e saída do leito hoje, com número de vezes. E na véspera da operação, confira o jejum prescrito contra o jejum que o paciente vai de fato cumprir — a diferença entre os dois é onde moram as dezesseis horas. Se a via oral for inviável, o relógio da via alternativa começa agora e não quando alguém lembrar; a régua é do capítulo Dieta hospitalar: escolha, jejum, progressão e via alternativa.
O dano: É o erro oposto ao primeiro deste bloco, e é o que mata. O raciocínio deste capítulo, aplicado fora da janela, vira desculpa: o paciente segue febril no quinto dia, com a mesma oligúria, sem flatos, sem apetite, e a evolução repete que ele está em resposta metabólica ao trauma. O que existe por trás é quase sempre coleção intra-abdominal, deiscência de anastomose, fístula, isquemia ou infecção profunda de sítio cirúrgico — e todas ganham gravidade com o tempo. Escrever resposta inflamatória na evolução de um paciente que piorou, sem qualificar, é lido depois como se alguém tivesse pensado em complicação e não feito nada.
Como pegar a tempo: Fixe a janela por escrito no primeiro dia: até 48 horas, resposta é a hipótese principal em paciente bem; a partir do terceiro dia, a hipótese principal é complicação até prova em contrário. Faça a distinção entre melhora lenta e platô com números anotados — melhora lenta tem direção em cada parâmetro; platô é ausência de direção em vários ao mesmo tempo. E, no momento em que houver disfunção orgânica com foco suspeito, mude de capítulo e de ritmo: Sepse e choque séptico: identificação precoce e pacotes iniciais, na apostila Medicina Intensiva e Emergências, é o dono do reconhecimento e do pacote.
O que dizer ao paciente e à família
Cinco das sete conversas abaixo são sobre não fazer alguma coisa, e essa é a mais difícil de todas as conversas de enfermaria. Explicar por que se prescreve é fácil; explicar por que não se prescreve, para um paciente que vê um número alterado e uma família que já leu sobre ele, exige que a explicação venha antes da pergunta. Nenhuma delas leva mais de dois minutos, e as duas últimas são com a equipe, não com o paciente.
A regra que funciona nas cinco primeiras é sempre a mesma: nomeie o achado, diga que ele é esperado, diga por quanto tempo, e diga o que faria você mudar de ideia. É a última parte que tranquiliza — porque o que assusta não é o número alterado, é a suspeita de que ninguém está olhando.
O paciente pergunta por que está inchado e urinando pouco no dia seguinte à operação
“"Seu Dorval, o senhor está retendo líquido, e isso é o que o corpo faz depois de uma cirurgia grande — ele segura água e sal por alguns dias, de propósito. É por isso que a mão está inchada e por isso que sai pouco xixi. Não é problema no rim: eu conferi o exame do rim hoje e ele está igual ao de antes da cirurgia. O que vai acontecer é o contrário do que o senhor está imaginando: daqui a um ou dois dias o senhor vai urinar bastante de uma vez e vai perder esses quilos que ganhou. Eu vou pesar o senhor todo dia e contar quanto sai. Se em vez de melhorar isso piorar, eu mudo o plano no mesmo dia e o senhor vai saber."”
Não diga: Evite dizer que está tudo bem sem nomear o achado — o inchaço é visível e negá-lo custa credibilidade. Evite também a palavra retenção sem explicar, porque ela é ouvida como falha do rim. E não prometa um prazo exato: diga um ou dois dias, não diga amanhã.
A família chega com o resultado da albumina na mão e pergunta se ele está desnutrido
“"Esse exame caiu, é verdade, e eu esperava que ele caísse. Ele não mede alimentação — ele mede o quanto o corpo está inflamado depois da cirurgia. A proteína não sumiu do corpo dele: ela saiu de dentro do vaso e foi para o inchaço que vocês estão vendo na mão. Tanto é que ele estava normal há dez dias, e ninguém emagrece em uma noite. Repor essa proteína pela veia não resolveria, porque ela sairia de novo pelo mesmo lugar, e ainda aumentaria o inchaço. O que resolve é o que a gente já começou: ele voltar a comer, levantar da cama, e a inflamação ceder. O exame sobe sozinho na semana que vem."”
Não diga: Evite dizer que o exame não importa — ele importa, só responde outra pergunta. Evite prometer que ele não vai emagrecer, porque vai. E não entre na discussão sobre custo ou disponibilidade da albumina: a razão de não prescrever é clínica, e trazer o argumento do fornecimento faz a família ouvir que ele não recebe porque não tem.
A família ouve que ele teve febre na primeira noite e pergunta se infeccionou
“"Ele teve 38,1 de madrugada. Nos dois primeiros dias depois de uma cirurgia, a causa mais comum de febre é a própria cirurgia: o corpo reage ao corte e ao que foi manipulado por dentro, e essa reação sobe a temperatura. Não é infecção na maioria das vezes, e por isso eu não comecei antibiótico hoje. O que eu fiz foi examinar ele inteiro, com o curativo aberto, e o corte está limpo. Agora, para eu não estar apostando: se a febre voltar depois de amanhã, se o corte mudar de aspecto, se ele ficar confuso ou com falta de ar, aí muda tudo, e a gente investiga na hora. Vocês podem chamar a enfermagem por qualquer uma dessas coisas."”
Não diga: Evite dizer é normal e sair — normal é palavra que a família ouve como pouco caso. Evite prometer que não é infecção; diga que é a causa mais provável e diga o que muda a hipótese. E não use o argumento de que antibiótico faz mal: para leigo, isso soa como economia.
O paciente sem diabetes pergunta se ficou diabético porque a glicemia está alta
“"O açúcar do senhor está alto, e é por causa da cirurgia. Quando o corpo passa por uma agressão grande, ele fabrica açúcar de propósito, para ter combustível para cicatrizar e para se defender. Isso não é diabetes, e na maioria das pessoas passa junto com a recuperação. Enquanto o senhor estiver internado, a gente controla esse açúcar, porque açúcar alto no hospital atrapalha a cicatrização. E antes de o senhor ir embora eu vou pedir um exame que mostra como estava o açúcar nos últimos três meses — é ele que diz se o senhor tem diabetes ou se foi só a cirurgia. Enquanto esse exame não voltar, o senhor não vai para casa com remédio de diabetes."”
Não diga: Evite dizer que não é nada — a hiperglicemia hospitalar precisa ser tratada durante a internação, e minimizá-la faz o paciente recusar a insulina de correção. E evite dar o diagnóstico de diabetes antes do exame: um rótulo dado no pós-operatório acompanha o paciente por anos.
O paciente com dor no primeiro dia recusa sair da cama
“"Eu sei que dói, e a dor é o motivo pelo qual eu mudei a analgesia hoje: agora ela é de horário, e não só quando o senhor pedir. O que eu preciso que o senhor entenda é que ficar na cama não protege o corte — ele está fechado por dentro com pontos que aguentam o senhor andar. Quem fica deitado tem mais coágulo na perna, mais pneumonia, perde mais músculo e demora mais para ir embora. O combinado é este: primeiro a dose da dor, meia hora depois a gente senta na poltrona, e mais tarde damos uma volta no corredor com alguém do lado. Se doer mais do que 4 numa escala de 0 a 10 quando o senhor levantar, a gente para e eu reavalio a dor, não a caminhada."”
Não diga: Evite mandar levantar sem tratar a dor antes — não funciona e queima a confiança. Evite dizer que a dor é psicológica ou que é normal doer. E não delegue a conversa inteira à fisioterapia: a ordem escrita de sair do leito é da equipe médica, e o paciente precisa ouvir de você que está autorizado.
O plantonista da noite quer prescrever bólus de soro porque o paciente urinou pouco
“"Deixa eu te passar o que eu tenho até agora, porque acho que muda a conduta. Ele está com 18 horas de pós-operatório de colectomia, recebeu 4.200 mL de cristaloide entre a sala e a enfermaria, ganhou dois quilos e está com edema de mãos. Ao exame, mucosas úmidas, jugulares visíveis, extremidades quentes, pressão 128 por 78 e frequência de 88. Bexiga vazia, sem sonda. Creatinina igual à do pré-operatório. A taxa dele é 0,38, então ele está oligúrico mesmo, mas o perfil é de retenção e não de hipovolemia. Deixei escrito o gatilho: se cair a pressão, se a frequência subir de 110, ou se a taxa não passar de 0,5 até as 13h, aí entra prova de volume com alíquota e teto. Você concorda com esse recorte, ou está vendo alguma coisa que eu não vi?"”
Não diga: Evite discutir por autoridade ou por citação de protocolo no corredor. O que convence é a sequência exame, número, gatilho escrito — e a pergunta final aberta, que transforma a discordância em revisão conjunta em vez de queda de braço. Evite também deixar a conversa sem registro: escreva na evolução o que foi combinado, com o nome de quem combinou.
Na alta, explicar o que ele vai sentir nas próximas semanas
“"Três coisas que vão acontecer e que não são complicação. A primeira: o senhor vai perder peso nas próximas semanas, e isso é músculo que o corpo consumiu enquanto se recuperava. A segunda: o senhor vai se cansar em coisas que fazia sem pensar, subir escada, carregar sacola. Isso melhora, e melhora com comida e com movimento, nessa ordem — não adianta comer e ficar sentado. A terceira: leva semanas, não dias, e quem tenta apressar comendo muito de uma vez passa mal. O que eu quero que o senhor faça é comer várias vezes ao dia, com proteína em todas, e caminhar um pouco mais a cada dia. E se aparecer febre, se o corte abrir ou soltar secreção, ou se a barriga inchar e parar de funcionar, o senhor volta — não espera a consulta."”
Não diga: Evite entregar apenas a orientação de repouso, que é o oposto do que ele precisa. Evite prometer prazo de recuperação em dias. E não deixe a alta sem os sinais de alarme escritos: dito de viva voz, isso não sobrevive à primeira semana em casa.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Lista hipoalbuminemia grave entre os dezenove incisos de indicação para infusão intravenosa de albumina humana nas unidades prestadoras de serviços do SUS, e lista também choque séptico e choque hipovolêmico associado a hipoalbuminemia grave. Não define o que é grave, não fixa dose, não fixa volume e não fixa duração, embora abra dizendo que existe para racionalizar o uso.
Portaria SAS/MS nº 247, de 14 de julho de 2000 — lida pela transcrição integral feita pela Nota Técnica CONJUR/MS nº 216/2013, e não no original
Define hipoproteinemia por albumina abaixo de 2,5 g/dL ou proteínas totais abaixo de 5 g/dL, e lista entre os usos não recomendados tanto a hipoalbuminemia severa não associada às situações específicas anteriores quanto o uso como suporte nutricional de pacientes com hipoalbuminemia. Põe cristaloide como primeira escolha no choque e limita a validade da justificativa inicial a quatro dias.
Comissão Farmacoterapêutica da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo — Proposta de critérios para utilização de albumina, Centro de Informações sobre Medicamentos, 31 de agosto de 2003
Não traz albumina humana no elenco: zero ocorrência no índice de apresentações e no texto bruto do documento. Também não traz hidroxietilamido nem poligelina — os coloides não proteicos que a peça municipal manda usar antes da albumina. Na prática do SUS, a albumina chega como insumo custeado pela internação hospitalar, e não pelo elenco de medicamentos essenciais.
Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024, Ministério da Saúde
Separe três situações: albumina baixa isolada, necessidade de expansão e indicação específica de outra doença. No operado descrito, a queda rápida não justifica infusão apenas para corrigir o número. Se houver suspeita de hipovolemia, avalie resposta, alvo e limite da reposição conforme o capítulo de oligúria e balanço hídrico. Indicações como paracentese de grande volume ou complicações da cirrose seguem seus percursos próprios.
Ancora a transição no quarto dia: recomenda iniciar com oferta energética mais baixa, de 15 a 20 kcal/kg, e progredir para 25 a 30 kcal/kg entre o quarto e o sétimo dia, nos pacientes que já se encontram na fase pós-aguda ou de recuperação; e recomenda até 1,2 g/kg/dia de proteína na fase inicial, aproximadamente até o quarto dia, evoluindo depois para 1,3 a 2,0 g/kg/dia. Nível de evidência declarado: baixo, nas duas recomendações.
Diretriz BRASPEN de Terapia Nutricional no Paciente Grave, 2023 — recomendações 3.2 e 3.3
No mesmo documento, ao discutir os resultados de um ensaio sobre oferta proteica, o intervalo do quinto ao décimo primeiro dia é chamado de fase aguda tardia. Quer dizer que, dentro da mesma peça, o paciente está fora da fase aguda inicial no quarto dia pela recomendação e ainda dentro de uma fase aguda no décimo primeiro pela discussão.
Diretriz BRASPEN de Terapia Nutricional no Paciente Grave, 2023 — discussão da oferta proteica
Para o operado eletivo de cirurgia digestiva, não propõe rampa calórica por fase: recomenda desencorajar o jejum pós-operatório prolongado e estimular o retorno precoce à ingestão oral, tratando a realimentação precoce, mesmo com anastomose digestiva, como componente central dos protocolos de recuperação acelerada. O dano que ele nomeia é o jejum, não o excesso de oferta.
Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva — Perioperative care in digestive surgery: the ERAS and ACERTO protocols, ABCD Arq Bras Cir Dig. 2024;37:e1794
Identifique a população antes de aplicar metas nutricionais. No operado eletivo estável que tolera alimentação, o percurso privilegia início e progressão da via oral. No paciente crítico com disfunção orgânica, use a estratégia da diretriz de terapia intensiva, ajustada à fase e à tolerância. O calendário ajuda a planejar, mas não substitui essa avaliação. Registre qual percurso foi adotado.
Declara que não existe evidência suficiente, até o momento, para recomendar nutrição hipocalórica ou plena na terapia intensiva; e sugere que pacientes previamente desnutridos ou de alto risco nutricional não recebam nutrição hipocalórica ou trófica, desde que haja tolerância gastrintestinal e condição clínica que permita o regime pleno. Nível de evidência declarado: opinião de especialista.
Diretriz BRASPEN de Terapia Nutricional no Paciente Grave, 2023 — recomendação 3.1
Na recomendação imediatamente seguinte, do mesmo capítulo do mesmo documento, recomenda iniciar com oferta energética mais baixa, de 15 a 20 kcal/kg, progredindo para 25 a 30 kcal/kg entre o quarto e o sétimo dia. Isto é: recomenda começar hipocalórico logo depois de dizer que não há evidência suficiente para recomendar começar hipocalórico ou pleno.
Diretriz BRASPEN de Terapia Nutricional no Paciente Grave, 2023 — recomendação 3.2
Avalie desnutrição prévia e risco nutricional por perda de peso, ingestão, exame e triagem, sem usar albumina do primeiro dia como diagnóstico. Pacientes de maior risco podem exigir progressão diferente da estratégia inicial conservadora, conforme tolerância e equipe de nutrição. Documente a justificativa e acompanhe a resposta; as recomendações citadas têm limitações de evidência.
O raciocínio, em voz alta
Mesmo hospital, outro leito, dois dias depois. Filomeno Boqueirão tem 68 anos e 84 quilos, e está no segundo dia depois de uma gastrectomia subtotal por neoplasia gástrica, com anastomose e com a sonda nasogástrica mantida pela equipe cirúrgica. Os quatro números da manhã são quase os mesmos do senhor Dorval: 260 mL de diurese nas últimas 8 horas, 38,3 °C às quatro da manhã, glicemia de 232 mg/dL e albumina de 2,3 g/dL contra 3,6 g/dL no pré-operatório. O interno da véspera anotou na evolução: oligúria adaptativa do pós-operatório, manter conduta. Você é o interno de hoje.
Primeiro: converta, porque o número da bolsa nunca é o número da decisão
260 mL em 8 horas dão 32,5 mL/h; dividido por 84 quilos, 0,39 mL/kg/h. Abaixo do corte de 0,5, e portanto oligúria pela definição — exatamente como o senhor Dorval. Até aqui os dois casos são indistinguíveis, e é justamente por isso que a conta não resolve o capítulo: ela só estabelece que há um achado. Escreva a taxa, não o volume, e siga.
Segundo: pergunte quantas horas fazem da incisão, e o que mudou desde ontem
Fazem quarenta e oito horas, não dezoito — o que já move a probabilidade. E há um dado que a evolução de ontem não trouxe: anteontem, no primeiro dia, ele urinou 1.400 mL em vinte e quatro horas, ou 0,69 mL/kg/h. Ele estava urinando bem e piorou. Oligúria que aparece depois de ter havido diurese adequada não é a curva da retenção neuroendócrina, que é máxima no começo e afrouxa com o tempo. Este é o achado que quebra a leitura da véspera, e ele estava na folha o tempo todo.
Terceiro: feche a bifurcação mecânica antes de qualquer raciocínio fisiológico
Ele tem cateter vesical. Palpe e percuta o hipogástrio — vazio e timpânico, sem globo. Siga o cateter com a mão, do meato ao coletor: sem dobra, sem tração, bolsa abaixo do plano do leito e com débito visível. A via está pérvia e o rim está produzindo pouco de verdade. A bifurcação está fechada, e a régua para fechá-la é do capítulo Oligúria e balanço hídrico, que é o dono.
Quarto: some as perdas que a folha de balanço não tem
A sonda nasogástrica drenou 900 mL nas últimas vinte e quatro horas, anotados na papeleta de enfermagem e ausentes da folha de balanço. Ele está em jejum desde a operação. Some: 900 mL de perda gástrica, mais perdas insensíveis aumentadas por dois dias de febre, contra uma hidratação venosa de 1.500 mL/dia que alguém reduziu ontem porque o paciente estava edemaciado. O balanço da folha fecha positivo. O balanço real está negativo, e o peso confirma: 82,6 quilos hoje, contra 84,0 na véspera da operação.
Quinto: examine a volemia nos dois sentidos, e leia o conjunto
Mucosas secas, língua com sulcos, jugulares colabadas a trinta graus, extremidades frias com enchimento capilar de quatro segundos. Pressão 102 x 60 mmHg deitado, contra 138 x 82 mmHg na admissão; frequência 116 bpm; frequência respiratória 24; saturação 95%. Edema de mãos: ausente — e a ausência dele, num paciente com albumina de 2,3, é informação, porque significa que o líquido não está no interstício e sim fora do corpo. Todos os sinais apontam na mesma direção, e é a direção oposta à do senhor Dorval.
Sexto: confira a creatinina contra o basal, e nomeie o que você tem
Creatinina de hoje 1,9 mg/dL; a do pré-operatório era 1,0. Isso preenche critério de injúria renal aguda pelos cortes que o capítulo Injúria renal aguda: pré-renal, renal e pós-renal estabelece, e a partir deste ponto a conduta é a de lá e não a daqui. O que você tem é hipovolemia por perdas não contabilizadas, com injúria renal instalada, num paciente com febre no segundo dia e frequência respiratória de 24 — e a coincidência dos quatro números com os do capítulo não muda nada disso. A anotação de ontem estava errada não por ter pensado em resposta metabólica, mas por não ter feito os cinco pontos do exame antes de escrevê-la.
Sétimo: o que se faz agora, e o que se faz na folha
Prova de volume com forma: alíquota de cristaloide isotônico de 250 a 500 mL em 15 a 30 minutos, alvo de diurese acima de 0,5 mL/kg/h na hora seguinte — em 84 quilos, mais de 42 mL —, reavaliação com exame dirigido e horário escrito, teto de três alíquotas, e parada imediata diante de estertor novo ou queda de saturação; a régua é do capítulo Oligúria e balanço hídrico. Ao mesmo tempo, a folha: colher sumário de urina com sedimento, sódio e creatinina urinários antes de qualquer diurético; suspender nefrotóxico; recalcular dose por depuração; não pedir contraste. E lançar o débito da sonda no balanço a partir de agora, todo turno.
Oitavo: e a pergunta que sobra, que é a mais séria
Febre no segundo dia, frequência respiratória de 24, taquicardia e disfunção renal nova em quem tem uma anastomose gástrica recente formam um conjunto que obriga a perguntar por foco, e o foco mais temido aqui é a deiscência da anastomose. Isso deixa de ser este capítulo em dois sentidos ao mesmo tempo: a complicação cirúrgica é do capítulo Complicações pós-operatórias, nesta apostila, e o reconhecimento de sepse com o pacote da primeira hora é do capítulo Sepse e choque séptico, na apostila Medicina Intensiva e Emergências. A lição que fica é a que abre o capítulo pelo avesso: os quatro números não diagnosticam nada sozinhos. O que diagnostica é o exame, o tempo e a trajetória.
Faça você
Agora é dona Gonzalina Camaragibe, 71 anos, 58 quilos, 1,54 metro. Primeiro dia de pós-operatório de histerectomia total abdominal com linfadenectomia por neoplasia de endométrio, laparotomia mediana, quatro horas de cirurgia, sem transfusão. Hipertensa, sem diabetes. Peso pré-operatório 58,0 kg; peso de hoje 60,1 kg. Diurese das últimas 6 horas: 150 mL. Temperatura máxima da noite 38,0 °C. Glicemia capilar das 6h: 196 mg/dL. Albumina de hoje 2,1 g/dL, contra 3,5 g/dL na coleta pré-operatória de duas semanas atrás; proteína C-reativa 148 mg/L. Ao exame: mucosas úmidas, jugulares visíveis a trinta graus, extremidades quentes, pressão 132 x 76 mmHg, frequência 84 bpm, frequência respiratória 16, saturação 97% em ar ambiente. Edema depressível de mãos e tornozelos. Abdome distendido, doloroso na incisão, ruídos presentes e diminuídos, sem flatos. Curativo limpo e seco. Sem cateter vesical; urina espontaneamente. Ela recebeu 3.100 mL de cristaloide entre a sala e a enfermaria. A residente que passou a visita antes de você deixou escrito: albumina 2,1 — solicitar albumina humana 20%, 2 frascos, e reavaliar. Ela pede que você escreva a prescrição.
Primeiro: converta a diurese antes de qualquer outra coisa
Não se decide nada sobre o volume dela sem transformar os 150 mL em taxa. Divida pelo intervalo e depois pelo peso, e compare com o corte de 0,5 mL/kg/h. Diga se ela está oligúrica pela definição, e diga quantos mililitros ela precisaria ter produzido nessas seis horas para ficar em cima do corte.
Segundo: decida entre as três hipóteses, e diga o dado que descarta cada uma
Avalie obstrução, perfusão, congestão, medicamentos e resposta hormonal, reconhecendo que mecanismos podem coexistir. Identifique se débito e duração já preenchem critério urinário de lesão renal e quais dados ainda faltam; não descarte obstrução só porque o paciente urina espontaneamente.
Terceiro: explique a albumina de 2,1 usando aritmética, e não adjetivo
Você tem os dados necessários: valor pré-operatório de 3,5 g/dL, valor de hoje 2,1 g/dL, cerca de dezoito horas de intervalo, peso de 58 quilos, 3,1 litros de cristaloide recebidos, meia-vida da albumina de aproximadamente vinte dias e volume plasmático estimado em 40 mL/kg. Faça duas contas: quanto a albumina teria caído se a síntese hepática tivesse sido zerada por dezoito horas; e quanto dela a diluição explica se um litro tiver ficado retido dentro do plasma. Compare as duas com a queda observada e conclua qual mecanismo dá conta do número.
Quarto: responda à residente sobre a albumina, com três argumentos de naturezas diferentes
Um argumento fisiológico, um aritmético e um normativo. O fisiológico é sobre o que a albumina infundida faz num paciente que já retém água — use a proporção que a própria nota técnica do Ministério declara entre grama de albumina e água ligada, e calcule a expansão de um frasco de 50 mL. O aritmético é quanto seria necessário para mover o número até 3,0 g/dL nela. O normativo é o que os documentos brasileiros dizem sobre hipoalbuminemia como indicação — e o que a Rename 2024 traz sobre este item.
Quinto: escreva a prescrição do dia, com o que sai e o que entra
Liste as linhas concretas: o que fazer com a hidratação venosa, o que fazer com a dieta, o que fazer com a mobilização, o que fazer com a analgesia, o que fazer com a glicemia capilar, o que fazer com o antitérmico, e quais exames não pedir amanhã. Para cada linha que envolva um esquema de outro capítulo, nomeie o capítulo em vez de improvisar o esquema.
Sexto: escreva os gatilhos, com número e com hora
O plano de observar só é uma decisão se vier com o que a desfaz. Escreva o que a enfermagem deve chamar, com valores, e escreva o que você vai reavaliar e quando. Diga também qual seria o próximo capítulo em cada um dos dois desfechos ruins possíveis — o que aponta para hipovolemia e o que aponta para complicação cirúrgica.
Continuidade do caso e prática do internato
Compare Dorval e Filomeno pelo débito, duração, exame e evolução. Reconheça o critério urinário em ambos quando confirmado e explique por que suas causas e condutas podem diferir.
Questão integrativa 1
Dorval com 0,38 mL/kg/h por mais de sete horas e creatinina de 1,0 não tem critério de lesão renal?
Questão integrativa 2
Resposta hormonal e lesão renal são mutuamente exclusivas?
Questão integrativa 3
Urinar espontaneamente exclui retenção ou obstrução parcial?
Questão integrativa 4
Toda oligúria exige bolus?
Questão integrativa 5
Albumina baixa no pós-operatório prova déficit proteico que se corrige com albumina IV?
Questão integrativa 6
O que muda ao registrar o critério urinário?
Ver como fecharíamos
A taxa é 150 ÷ 6 ÷ 58 = 0,43 mL/kg/h. Em seis horas, se a coleta foi completa e confiável, já preenche critério urinário KDIGO de lesão renal aguda; creatinina normal não o exclui. Confirmar medição, examinar bexiga e avaliar retenção, perfusão, congestão, perdas e fármacos. Urinar espontaneamente não descarta obstrução parcial. A resposta ao estresse pode contribuir, mas não autoriza classificar o quadro como benigno. A conduta é supervisionada e guiada pela causa: não oferecer fluidos nem diurético só pelo número, acompanhar diurese, função renal e eletrólitos e agir mais rápido se houver deterioração. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Tem critério urinário se a medição é confiável. A creatinina pode ainda não ter mudado. 2. Não. Mecanismos de adaptação e doença podem coexistir; a interpretação precisa de contexto e trajetória. 3. Não. Avaliar bexiga e esvaziamento quando houver suspeita. 4. Não. Reposição depende de perfusão, perdas e possibilidade de benefício; pode agravar congestão. 5. Não. Inflamação e redistribuição interferem. Avaliar nutrição e causas sem reposição automática. 6. Torna explícita a necessidade de investigar causas, revisar medicamentos e acompanhar função renal e evolução, evitando falsa tranquilidade.
Diurese de 210 mL em quatro horas corresponde a cerca de 0,67 mL/kg/h, sem oligúria nesse intervalo. Perfusão preservada, ganho de peso e edema não sustentam bolus empírico nem albumina pelo valor sérico isolado. Ajustar líquidos à ingestão e perdas, iniciar dieta e mobilização se clinicamente permitidas e reavaliar diurese, balanço, creatinina, glicemia, febre e sinais de infecção. A creatinina pode demorar a subir; não exclui lesão renal inicial. Não atribuir todos os achados a uma fase metabólica rígida. Diurético é reservado à sobrecarga clinicamente relevante, não para normalizar um número; antibiótico depende da suspeita infecciosa e gravidade.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Explique as fases da resposta ao estresse e seus limites na interpretação clínica. Calcule a taxa de 240 mL em sete horas num adulto de 80 kg e identifique o critério urinário presente. Descreva como avaliar obstrução, perfusão, congestão e medicamentos sem usar creatinina normal para excluir lesão renal.
Em 30 dias
Volte ao senhor Dorval e troque um único dado de cada vez, anotando o que muda na conduta e a razão. Primeiro: em vez de dezoito horas, faz o quinto dia de pós-operatório, com os mesmos quatro números. Segundo: mantendo as dezoito horas, ele tem 900 mL de débito por sonda nasogástrica que ninguém lançou no balanço. Terceiro: a creatinina de hoje é 1,8 mg/dL contra 1,0 no pré-operatório. Quarto: ele está com frequência respiratória de 26 e confuso desde a madrugada. Quinto: ele é diabético em uso domiciliar de insulina, e a glicemia é 340 mg/dL com cetonemia. Para cada uma das cinco, diga qual capítulo desta coleção passa a comandar a conduta e qual é o primeiro gesto. Depois, faça o exercício de fonte: escreva o que a norma federal brasileira de 2000 diz sobre albumina na hipoalbuminemia grave, o que a peça municipal de 2003 diz sobre a mesma situação, e o que a Rename 2024 traz sobre o item — e diga por que a divergência entre as duas primeiras não precisa ser arbitrada por você no leito do primeiro dia.
Agora atenda
Agora atenda: mulher de 58 anos, cabeleireira, na enfermaria no quarto dia depois de uma colectomia direita por tumor de cólon, com a barriga inchada feito balão, sem soltar gases desde a cirurgia e vomitando sempre que tenta a dieta líquida. Faça a anamnese e o exame abdominal completo e verbalize seus diferenciais. Situe-a na resposta metabólica ao trauma: em que fase deveria estar no quarto dia, o que no quadro dela cabe nessa fase e o que destoa, e peça os exames que tiram a dúvida. Diga o que sai e o que entra na prescrição de hoje e os gatilhos numéricos para a enfermagem chamar, e explique a ela, em palavras simples, o que o corpo está fazendo e o que ela mesma pode fazer para ajudar.
