Cirurgia Geral › Pré e Pós-operatório
Frio, e não é a sala
Diferenciar os tipos de choque e conduzir cada um
Reconhecer hipoperfusão, avaliar mecanismos que podem coexistir e pedir ajuda enquanto inicia suporte e acompanha a resposta.
Gualandro DM et al. Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2024. Arq Bras Cardiol. 2024;121(9):e20240590. DOI 10.36660/abc.20240590.
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Amado VM, Fernandes CJCS, Salibe-Filho W, Gazzana MB, Rocha AT, Yoo HHB, Bernardo WM, Tanni S. Diretrizes brasileiras para o tratamento farmacológico do tromboembolismo pulmonar. Documento oficial da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia baseado na metodologia GRADE. J Bras Pneumol. 2025;51(2):e20240314. doi:10.36416/1806-3756/e20240314
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Responda antes de ler
Paciente reoperado há doze horas por sangramento, que recebeu ao todo seis litros de cristaloide e hemocomponentes. Está hipotenso, oligúrico apesar de reposição, com abdome tenso e distendido, jugular túrgida, ausculta pulmonar limpa e pressões de ventilação em elevação progressiva. Qual é a conduta mais adequada?
O paciente que você vai ver
Cinco e quarenta da manhã, enfermaria de cirurgia geral, dezesseis leitos, hospital de porte médio no interior. Você é o interno da escala noturna e a visita da equipe começa às sete. A técnica de enfermagem não telefona: surge na porta da sala de plantão segurando a folha de sinais vitais e diz que a do leito 4 marcou 82 por 48, e que já mediu duas vezes.
O leito 4 é da dona Romualda Itamonte, 71 anos, 62 quilos, primeiro dia de pós-operatório de colectomia esquerda por neoplasia. A operação foi ontem à tarde, durou quatro horas, sem intercorrência anotada na descrição. A folha registra pressão em torno de 130 por 78 durante a internação inteira e 118 por 70 na chegada à enfermaria, às vinte e uma horas. Agora está 82 por 48, com frequência de 126.
Existe uma sequência de explicações que se oferece sozinha nesse quarto, e ela é o motivo de este capítulo existir. É a raqui, que ainda não passou. É a dor, que fez a frequência subir. É o jejum desde ontem de manhã. É o frio da sala, que sai com o paciente e demora horas para ir embora. Cada uma dessas quatro frases é verdadeira em algum paciente e nenhuma delas é diagnóstico. Todas têm em comum a propriedade de fazer você voltar para a sala de plantão.
Você vai até o leito. Dona Romualda está acordada e responde ao nome, mas demora: pergunta duas vezes se já é de manhã. Diz que a barriga dói, o que é esperado, e que sentiu vontade de vomitar. Você pega a mão dela e ela está fria, e não fria de ponta de dedo — fria até o punho, e o antebraço também. Comprime a polpa do polegar, solta e conta: quatro segundos até a cor voltar. A pele do joelho tem um rendilhado arroxeado que ninguém descreveu na evolução da tarde.
Levanta o lençol. O curativo da incisão mediana está limpo. O dreno de sucção da pelve, que às vinte e três horas tinha 60 mililitros de líquido serossanguinolento anotados, está com 460, e o conteúdo agora é vermelho, homogêneo, sem a diluição amarelada de antes. A bolsa coletora de urina tem 90 mililitros desde a meia-noite: são cinco horas e quarenta minutos, e para 62 quilos o piso de 0,5 mililitro por quilo por hora seria 31 mililitros por hora, ou seja, cerca de 175 mililitros no período.
A conta mudou de natureza no instante em que você tocou a mão dela. Isto não é uma senhora com a pressão baixa depois de uma operação grande. É uma senhora cujo organismo fechou a pele e o rim para manter cérebro e coração funcionando, e que está gastando a última reserva que tinha para exibir os 82 por 48 que a técnica anotou. A pressão arterial média dessa medida é 59 milímetros de mercúrio, e o índice de choque — frequência dividida pela sistólica — é 1,54. Nenhum dos dois números aparece na folha; os dois se calculam de cabeça com o que já está escrito nela.
E há o dado que decide o resto da madrugada: o dreno. Quatrocentos mililitros de sangue em pouco mais de seis horas, num corpo cuja volemia estimada a 70 mililitros por quilo é de 4.340 mililitros, são 9% do volume circulante saindo por um tubo — e o que sai pelo tubo é sempre a parte que o cirurgião conseguiu drenar, nunca o total. O dreno é um marcador de tendência, não um medidor de perda.
Daqui em diante a pergunta que rende não é sobre droga, e nem mesmo sobre exame. É sobre mecanismo, porque no paciente operado os mecanismos possíveis são poucos, têm hora marcada no calendário do pós-operatório, e as condutas de dois deles se contradizem. O mesmo litro de cristaloide que resgata quem está sangrando afoga quem tem um ventrículo direito obstruído. O mesmo vasopressor que sustenta a pressão de quem vasodilatou por peridural mascara, por quarenta minutos, o sangramento que só a sala resolve.
Este capítulo faz três coisas, e recorta o que é dos vizinhos antes de fazê-las. A primeira é dizer o que é choque — perfusão insuficiente, e não pressão baixa — e por que a versão de enfermaria dessa lição pertence a outro capítulo desta coleção. A segunda é montar a régua que separa os tipos com quatro perguntas de exame físico, aplicada ao paciente que acabou de ser operado, que é onde essa régua não existe em lugar nenhum. A terceira é a que só cabe a uma apostila de pré e pós-operatório: dizer quando a resposta não é droga, é sala.
A fronteira mais importante fica dita já na primeira página, para você não ler duas vezes a mesma coisa. A hipotensão do paciente clínico internado — refazer a medida com o manguito certo, cruzar a curva de pressão com os horários da prescrição, as cinco famílias de causa que uma enfermaria de clínica médica produz, a prova de volume com os quatro elementos escritos — é de Hipotensão na enfermaria, na apostila de Síndromes do Paciente Internado, que é o dono dela e a trata como assunto principal. Este capítulo não reabre nada disso: usa e manda ler. O que fica aqui é o que muda quando o paciente saiu de uma sala cirúrgica nas últimas setenta e duas horas.
Quem adoece disso
O número que dimensiona o problema está na Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória da Sociedade Brasileira de Cardiologia de 2024: o Brasil realiza mais de 8 milhões de intervenções cirúrgicas por ano. O mesmo documento registra que a porcentagem de complicações perioperatórias é pequena, que a maioria dos procedimentos é de baixo risco — e que, apesar disso, a ocorrência de complicações perioperatórias no Brasil é significativamente maior do que em outros países. Num denominador de oito milhões, uma fração pequena é muita gente.
A mesma diretriz nomeia quais complicações concentram a mortalidade: cardiopatia isquêmica, tromboembolismo pulmonar e insuficiência cardíaca descompensada. Repare no que essa lista tem em comum com este capítulo — as três se apresentam, no paciente operado, como queda de pressão com sinal de má perfusão, e duas delas produzem exatamente o padrão de jugular cheia com pulmão limpo que a régua deste capítulo procura.
O peso da insuficiência cardíaca prévia está medido. Num registro de mais de 150 mil operações não cardíacas, a presença de insuficiência cardíaca associou-se a aumento de 63% no risco de mortalidade perioperatória e de 51% no risco de reinternação em trinta dias, comparada ao grupo com doença arterial coronariana sem insuficiência cardíaca. Numa base americana de 21.560.996 operações não cardíacas entre 2012 e 2014, insuficiência cardíaca perioperatória apareceu em 4,9% dos casos, com mortalidade intra-hospitalar de 4,8% contra 0,8%, e o risco foi maior na descompensada do que na crônica estável — 7,8% contra 3,8%.
Há um dado que muda a régua da pressão no operado, e ele vem de uma coorte prospectiva de 251.567 pacientes citada pela diretriz brasileira: sistólica abaixo de 119 mmHg e diastólica abaixo de 63 mmHg associaram-se a aumento de mortalidade nos trinta dias de pós-operatório. Cento e dezenove. Não noventa. A diretriz pede que o manejo pressórico considere um efeito em jota, em que níveis baixos também representam risco, e escreve com todas as letras que a preocupação excessiva com o controle pressórico rigoroso antes da operação pode causar hipotensão durante e depois dela, associada a injúria cardíaca, renal e cerebral e a maior mortalidade.
O terceiro número é o que explica por que esse tipo de hipotensão passa despercebido. A diretriz brasileira apresenta a definição de injúria miocárdica após cirurgia não cardíaca — troponina T pós-operatória igual ou acima de 65 ng/L, ou entre 20 e 65 ng/L com delta absoluto de pelo menos 5 ng/L entre pré e pós-operatório, excluídas causas não isquêmicas como sepse, tromboembolismo pulmonar, taquiarritmia e insuficiência cardíaca. No estudo VISION, a incidência foi de 18%, e 93% dos pacientes não apresentaram sintomas. A ocorrência associou-se a aumento de mortalidade com razão de risco ajustada de 3,20 (IC 95% 2,4 a 4,3).
A ponte entre os dois parágrafos anteriores é a parte que interessa ao plantão. A mesma diretriz descreve o infarto perioperatório de tipo 2 como desequilíbrio entre oferta e consumo de oxigênio produzido por anemia, taquicardia, hipoxemia e hipotensão — as quatro coisas que um paciente em choque não tratado tem ao mesmo tempo — e recomenda que a otimização dessas causas secundárias de isquemia seja sempre realizada. Cada meia hora de má perfusão que você deixa correr no primeiro dia de pós-operatório é uma parcela dessa conta, e ela é cobrada num exame que quase ninguém pede e num paciente que quase nunca se queixa.
Sobre a frequência dos tipos de choque no pós-operatório especificamente, o levantamento honesto é este: não há registro nacional brasileiro que a meça. As séries que circulam são estrangeiras e de casuísticas selecionadas. O que existe de brasileiro e público sobre choque é protocolo de conduta, não epidemiologia — e o principal deles, o protocolo AC16 do Suporte Avançado de Vida dos Protocolos Nacionais de Intervenção para o SAMU 192, é de 2014 com revisão de abril de 2015, e serve ao atendimento pré-hospitalar, não à enfermaria cirúrgica.
Vale registrar o que esse protocolo nacional traz, porque é a única tabela de reconhecimento de tipos de choque publicada pelo Ministério da Saúde e ela tem quatro colunas: hipovolêmico, neurogênico, cardiogênico e séptico. Não há coluna para o choque obstrutivo. O pneumotórax hipertensivo, o tamponamento cardíaco e o tromboembolismo pulmonar maciço — os três quadros em que a conduta que salva é mecânica e não farmacológica — estão fora da tabela de tipos do documento nacional. Esse vão é o que este capítulo assume, e a assunção está declarada no bloco de critério.
Um segundo vão vale a mesma franqueza. A Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso de 2022 é a diretriz brasileira de diagnóstico e imagem da embolia pulmonar: ela define o que fazer para reconhecer o tromboembolismo de alto risco no paciente instável, e não traz o tratamento de reperfusão — nem droga, nem dose. Somado a isso, nenhum trombolítico consta da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024. A régua de tratamento, porém, existe: as diretrizes da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia de 2025 sugerem trombólise sistêmica no tromboembolismo pulmonar de alto risco, com recomendação condicional e evidência muito baixa. Para o choque obstrutivo por embolia, portanto, o Brasil tem régua de diagnóstico e régua de tratamento, não tem protocolo do Ministério da Saúde, e o elenco público não tem a droga.
O mesmo se aplica à transfusão maciça. O Guia para uso de hemocomponentes do Ministério da Saúde, na 2ª edição de 2015, apresenta a logística de protocolo de transfusão maciça reproduzindo dois protocolos hospitalares estrangeiros, o de Denver e o da Universidade do Texas. Não existe protocolo nacional brasileiro de transfusão maciça com força de norma, e o próprio guia observa que protocolos de transfusão maciça não eram frequentes ao redor do mundo. O que o guia diz na própria voz, e que muda o plantão, é mais simples: uma unidade de concentrado de hemácias eleva o hematócrito em cerca de 3% e a hemoglobina em cerca de 1 g/dL no adulto de estatura média, e em casos de urgência é possível transfundir hemácias RhD positivo para paciente RhD negativo.
Por que acontece o que acontece
Comece pela frase que organiza o resto: choque é perfusão insuficiente para a demanda do tecido, e não um número de pressão. A pressão é a força que empurra o débito cardíaco através de um leito vascular com determinada resistência; o objetivo do sistema é entregar oxigênio, e a pressão é apenas o meio. Daí saem as duas situações que confundem o interno. Cabe pressão aceitável sobre fluxo insuficiente, quando o organismo estreitou o leito para compensar um débito que caiu. E cabe pressão baixa sobre fluxo suficiente, quando o leito se abriu e o débito subiu para acompanhá-lo. O protocolo nacional do SAMU registra isso de um jeito que vale citar: na tabela de reconhecimento dele, a linha da pressão arterial diz normal ou diminuída nos quatro tipos de choque. A pressão não discrimina nada — está lá para lembrar que não discrimina.
O paciente operado leva esse princípio ao extremo por um motivo aritmético. Ele começa o pós-operatório com a volemia já mexida: horas de jejum antes e depois, perdas insensíveis de uma cavidade aberta, sangramento cirúrgico que é sempre maior do que o que aparece no dreno, e um deslocamento de líquido para o interstício que a resposta metabólica ao trauma produz e que O que não se corrige no primeiro dia, o capítulo anterior desta apostila, ensina em detalhe — este aqui usa aquele mecanismo e não o reescreve. Sobre uma reserva já gasta, uma perda pequena produz um efeito grande, e a compensação simpática que esconde o problema acaba antes.
A compensação engana pela ordem em que os sinais aparecem. Diante da queda de oferta, o organismo acelera o coração e estrangula os territórios que aceita sacrificar — pele, músculo, vísceras do abdome, rim. A mão gela, a cor demora a voltar à polpa, a urina rareia, o joelho se rendilha, e o manguito segue mostrando um número aceitável. Hipotensão é a falência da compensação, não o começo dela. No operado, esse atraso ganha um reforço perverso: a mão fria e o tremor têm uma explicação inocente disponível — a hipotermia da sala cirúrgica —, e a taquicardia tem outra — a dor. Duas explicações verdadeiras, prontas, na cabeceira, cada uma capaz de comprar quarenta minutos.
Há um mecanismo que o paciente operado tem e o clínico não: o bloqueio simpático farmacológico. A raquianestesia e a peridural bloqueiam fibras simpáticas junto com as sensitivas e motoras, e o resultado hemodinâmico é uma vasodilatação arteriolar e venosa que reduz o retorno venoso — um choque distributivo iatrogênico, previsível, com hora de início e hora de término. Quando o nível do bloqueio sobe acima da quarta vértebra torácica, ele alcança as fibras aceleradoras cardíacas, e aí a frequência não sobe: cai. O paciente fica com pele quente, seca, consciência preservada e bradicardia, que é o padrão que o protocolo nacional descreve como neurogênico — só que sem nenhuma lesão medular. Uma peridural com anestésico local correndo em bomba de analgesia mantém esse efeito por dias, e o cateter continua lá quando o interno chega.
Os mecanismos que matam o operado são cinco, e cada um tem uma janela preferencial no calendário. O sangramento cirúrgico é o das primeiras vinte e quatro horas: um vaso ligado que soltou, um leito de dissecção que rezumia, uma anastomose vascular. O distributivo por bloqueio ou por droga é o das primeiras horas, e some quando a droga some. O distributivo por infecção é o do terceiro ao sétimo dia, e no abdome operado ele tem quase sempre uma coleção ou um vazamento por trás — o diagnóstico desse vazamento é de Cento e vinte, sem febre, o capítulo 5 desta apostila, que é o dono das complicações pós-operatórias e do reconhecimento delas; o que fica aqui é o que se faz quando esse paciente já está chocado. O cardiogênico é o de quem já tinha coração ruim e recebeu volume, dor e anemia ao mesmo tempo. E o obstrutivo é o que não respeita calendário nenhum.

O choque obstrutivo é uma categoria à parte porque nele não falta volume, não falta bomba e não sobra leito vascular: há uma barreira mecânica entre o sangue e o ventrículo esquerdo. No pneumotórax hipertensivo, o ar que entra na pleura e não sai empurra o mediastino e dobra as veias cavas; o operado o produz por punção de subclávia para acesso central, por ventilação com pressão positiva sobre um pulmão doente, ou por uma toracotomia recente. No tamponamento, o líquido no pericárdio impede a diástole. Na embolia pulmonar maciça, o ventrículo direito — câmara de parede fina feita para trabalhar contra pressão baixa — encontra de repente uma resistência que não consegue vencer, dilata, e o ventrículo esquerdo deixa de ser enchido; a queda de pressão reduz a perfusão coronariana do próprio ventrículo direito, que falha mais, e é esse círculo que mata em minutos. E há a versão abdominal, que só existe no operado: a hipertensão intra-abdominal, em que o próprio abdome distendido comprime a veia cava inferior e reduz o retorno venoso.
O que amarra tudo isso num único gesto de exame físico é a pressão de enchimento do lado direito. Nos mecanismos em que falta volume no sistema — hemorragia, perdas, vasodilatação —, o ventrículo direito está subenchido e a jugular colaba. Nos mecanismos em que o sangue não passa ou não é bombeado — obstrução e falência de bomba —, a pressão a montante sobe e a jugular enche. A ausculta pulmonar separa as duas metades da segunda categoria: se há crepitação nova, o ventrículo esquerdo é que falhou e a água voltou para o pulmão; se o pulmão está limpo com jugular cheia, o problema é do lado direito, e as quatro possibilidades são infarto de ventrículo direito, embolia pulmonar, pneumotórax hipertensivo e tamponamento. Trinta segundos de pescoço e tórax reorganizam a prescrição inteira, e é por isso que a régua deste capítulo começa pela mão e termina no pescoço, e não no laboratório.
Falta o mecanismo do relógio, que é o que transforma reconhecimento em urgência. Abaixo de um certo limiar de pressão média, o rim, o coração e o cérebro perdem a autorregulação, e a partir daí o fluxo de cada um deles varia junto com a pressão, em linha reta; cada minuto vira dívida de oxigênio acumulada em órgão nobre. No paciente operado essa conta é cobrada com juros específicos: uma anastomose intestinal recém-construída depende de perfusão de mucosa para cicatrizar, e um período de baixo débito no primeiro dia é um fator de risco para o vazamento que vai se manifestar no quinto. O choque do pós-operatório não danifica apenas o rim e o coração — ele danifica a operação.
Como se apresenta de verdade
As seis seções abaixo montam, na ordem em que se usa, o que este capítulo tem de próprio. Começam pelas quatro frases que fazem o interno voltar para a sala de plantão, passam pela definição que desarma o número da pressão, montam a régua de quatro perguntas que separa os tipos, encaixam essa régua no calendário do pós-operatório, e terminam nos dois lugares onde o paciente operado produz choque que nenhum capítulo de clínica cobre: a sala de recuperação e a barreira mecânica. Uma advertência atravessa todas: mais de um mecanismo pode estar ativo no mesmo paciente, e a combinação mais frequente da enfermaria cirúrgica é sangramento em curso somado a uma peridural correndo.
As quatro explicações cômodas, e o que cada uma esconde
Toda queda de pressão no pós-operatório recente chega acompanhada de quatro álibis, e o problema deles não é serem falsos: é serem verdadeiros com frequência suficiente para funcionarem. Quem aceita qualquer um deles sem teste compra tempo com o crédito do paciente.
O primeiro é a raqui. Sim, o bloqueio neuroaxial derruba a pressão, e derruba por um mecanismo conhecido e reversível. Mas ele tem duração previsível: a raquianestesia com anestésico local de duração intermediária costuma estar regredindo em duas a quatro horas, e a regressão se mede — o retorno do movimento dos membros inferiores é justamente um dos itens que a Resolução do Conselho Federal de Medicina sobre a prática do ato anestésico obriga a monitorizar na sala de recuperação. Um paciente que ainda hipotende doze horas depois, já mexendo as pernas, não está hipotenso pela raqui. E se houver cateter de peridural com anestésico correndo em bomba, então o bloqueio simpático não é um evento do passado: é uma prescrição ativa, com hora de administração, que se pode reduzir ou suspender. Álibi que se pode desligar não é álibi.
O segundo é a dor. A dor sobe a frequência cardíaca e sobe a pressão; ela quase nunca derruba a pressão. Taquicardia com hipotensão não é padrão de dor — é padrão de perda. O teste é barato e tem prazo: analgesia adequada, quinze minutos, e reavaliação. Se a frequência cai e a pressão sobe, era dor. Se a frequência cai e a pressão cai junto, você acabou de retirar a única compensação que o paciente tinha, e o diagnóstico se revelou pela resposta ao teste. Esse raciocínio de testar as explicações benignas com relógio na mão é o método de Cento e vinte, sem febre, o capítulo 5 desta apostila, e aqui ele se usa exatamente como está lá.
O terceiro é o jejum. Ele explica hipovolemia leve, sede, mucosa seca, um pouco de taquicardia e uma diurese concentrada. Não explica livedo, não explica quatro segundos de enchimento capilar, não explica confusão nova e não explica pressão média abaixo de 65 no primeiro dia de pós-operatório de quem recebeu líquido na sala. Quando o jejum é a explicação inteira, meio litro de cristaloide resolve e a resposta é sustentada — e se não for sustentada, ele não era a explicação inteira.
O quarto é o frio da sala, e é o mais traiçoeiro porque produz o mesmo achado físico que o choque: extremidade fria. A hipotermia perioperatória existe, é comum, e a norma brasileira leva-a a sério a ponto de exigir, na sala de recuperação, controle da temperatura corporal e meios para assegurar a normotermia. A diferença é que a hipotermia esfria de fora para dentro e de forma difusa, com tremor e sem os outros sinais de má perfusão — a diurese continua, o enchimento capilar volta rápido depois de aquecido o membro, a consciência é a de base. A vasoconstrição do choque vem acompanhada. Na dúvida, aqueça e reavalie em quinze minutos: aquecer é bom para os dois, e a reavaliação separa.
Existe um quinto álibi que ninguém enuncia porque é a própria régua: o paciente é idoso e a pressão dele sempre foi assim. A folha de sinais vitais da internação responde isso em dez segundos, e é a leitura mais barata do posto de enfermagem. Compare o número de agora com a coluna do próprio paciente, não com um valor de livro.
Choque não é pressão baixa — e no operado o limiar não é 90
A trava deste capítulo cabe numa frase: choque é perfusão insuficiente, e o número da pressão é o parâmetro que falha por último. Existe choque com pressão normal e existe pressão baixa sem choque, e confundir as duas coisas produz erro nas duas direções — tratar quem não precisa e não tratar quem precisa.
O paciente que está compensando exibe pressão aceitável às custas de resistência aumentada. A pele fecha, o rim fecha, o esplâncnico fecha, e o manguito mostra 104 por 70 num paciente cuja mão está gelada e cuja sonda vesical não enche há quatro horas. Esse paciente está chocado. Quando a pressão dele finalmente cair, terá caído porque a reserva acabou, e o intervalo entre a queda e a parada é curto. Já o rapaz de 24 anos, magro, com 92 por 56 no segundo dia de pós-operatório de apendicectomia, mão quente, urinando, lúcido, sem taquicardia, provavelmente está exibindo a pressão dele. O número é parecido; o que o número está custando é diferente.
No operado há um agravante que muda a régua. A Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória da Sociedade Brasileira de Cardiologia de 2024 cita uma coorte prospectiva de 251.567 pacientes em que sistólica abaixo de 119 mmHg e diastólica abaixo de 63 mmHg se associaram a aumento de mortalidade em trinta dias de pós-operatório. Não se trata de tratar todo mundo com 115 de sistólica — associação de coorte não é limiar de intervenção, e a própria diretriz apresenta o achado como um efeito em jota que pede cautela, não como gatilho. Trata-se de outra coisa: no paciente recém-operado, a faixa em que a hipotensão deixa de ser inócua começa bem acima dos 90 mmHg que a maioria dos alarmes usa. A leitura prática é comparar com o basal do próprio paciente e desconfiar de queda relativa, não esperar cruzar um número redondo.
O que se olha em vez do número são seis coisas, e todas estão disponíveis num quarto sem monitor. Consciência comparada ao basal — não sonolento em abstrato, e sim diferente de ontem, com atenção especial ao idoso, em quem a primeira manifestação de baixo débito costuma ser confusão. Pele: temperatura da mão sentida até o punho, cor, umidade e procura ativa de livedo no joelho, com o lençol levantado. Enchimento capilar contado em voz alta, com dois segundos como corte. Diurese somada em mililitros por hora, e não estimada — a taxa, o cálculo por quilo e a prova de volume que dela decorre são de Oligúria e balanço hídrico, na apostila de Síndromes do Paciente Internado, que é o dono desse instrumento; use de lá. Pulso: a amplitude e a regularidade, porque pulso fino e rápido em periferia com pulso central presente é o retrato da vasoconstrição. E lactato, quando o serviço tiver gasômetro — a interpretação do resultado, o clareamento e as armadilhas da coleta são de Gasometria arterial, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, que é o dono da gasometria e do lactato.
Duas contas fecham a avaliação e as duas se fazem de cabeça com o que já está na folha. A pressão arterial média sai de uma divisão por três da soma entre a sistólica e o dobro da diastólica: os 82 por 48 de dona Romualda dão 59 mmHg. O índice de choque é a frequência dividida pela sistólica, e valores acima de 0,9 marcam quem sustenta a pressão às custas de reserva: 126 dividido por 82 dá 1,54. Nenhum monitor exibe esses dois números, e são eles que descrevem a situação.
Uma consequência incômoda merece ficar escrita, porque muda a conduta na hora certa. Assim que houver vasopressor correndo, a medida não invasiva perde confiabilidade, e a titulação passa a ser feita pela perfusão — mão, enchimento capilar, diurese, consciência — e não pelo número da tela. A norma brasileira do ato anestésico reconhece a insuficiência da medida não invasiva no paciente grave ao recomendar monitorização hemodinâmica avançada, incluindo pressão arterial invasiva, para pacientes de alto risco em operações de grande porte. Onde o manguito é o que há, titule pelo paciente.
As quatro perguntas que separam os tipos à beira do leito
Esta é a régua que este capítulo assume, porque nenhum capítulo do nível a monta para o paciente operado. São quatro perguntas, todas de exame físico, todas respondíveis em menos de dois minutos, na ordem em que se faz. Cada resposta elimina metade das hipóteses, e a combinação das quatro chega a um mecanismo sem nenhum exame complementar.
A primeira: as extremidades estão quentes ou frias? Fria com enchimento capilar lentificado significa vasoconstrição, e vasoconstrição significa que o organismo está compensando queda de débito — sobram hipovolêmico, cardiogênico e obstrutivo. Quente, seca, rosada, com enchimento rápido, significa resistência baixa: sobram os distributivos, e no operado eles têm três nomes — bloqueio neuroaxial, anafilaxia e sepse. A ressalva que impede o erro: a pele apenas orienta, e sozinha não decide. O distributivo em fase avançada esfria, e o hipovolêmico do paciente aquecido com manta térmica pode enganar por alguns minutos. Fria, portanto, vale mais como achado do que quente.
A segunda: as jugulares estão cheias ou vazias? Com a cabeceira a 45 graus, olhe a coluna venosa jugular e comprima o fígado. Colabada, com o paciente hipotenso, exclui na prática obstrução e falência de bomba: o ventrículo direito está subenchido, e há espaço para volume. Túrgida em paciente hipotenso é o achado mais rentável do exame inteiro, porque ele proíbe a conduta reflexa — não abra a pinça — e abre uma lista curta.
A terceira: os pulmões estão secos ou congestos? Ela só se aplica se a resposta anterior foi jugular cheia, e é ela que divide a lista curta em duas. Jugular cheia com crepitação nova e às vezes terceira bulha é falência do ventrículo esquerdo: o sangue não sai da bomba e volta para o pulmão. Jugular cheia com pulmão limpo é problema do lado direito, e as possibilidades são quatro — infarto de ventrículo direito, embolia pulmonar, pneumotórax hipertensivo e tamponamento cardíaco. Repare que essa quarta combinação é a única em que a conduta correta pode ser volume junto com uma intervenção mecânica, e é também a única em que vasodilatador é veneno.
A quarta: há gatilho identificável? Ela não é de exame físico e vem por último de propósito, porque é a que costuma ter a resposta escrita a dois metros do leito. Procure cinco coisas, nesta ordem, no paciente operado: sangue — no dreno, no curativo, na sonda nasogástrica, na fralda, e o abdome que aumenta de volume sem sangue aparecendo em lugar nenhum; foco — a operação de víscera oca, o vazamento, a coleção, o cateter, a sonda; droga — o que entrou nos últimos trinta minutos, incluindo antibiótico em infusão rápida, contraste, hemoderivado e o cateter de peridural em bomba; dor torácica ou dispneia súbita, que muda a lista inteira; e o ato anestésico, com o tipo de bloqueio e o nível dele. O prontuário anestésico está na pasta e é o exame complementar mais barato que existe nesse quarto.
As quatro perguntas montam uma tabela de decisão que está no bloco de critério, e vale antecipar as três combinações que mais aparecem na enfermaria cirúrgica. Fria, jugular vazia, pulmão limpo, sangue no dreno: hemorragia, e a conduta é volume enquanto se prepara sangue e se chama a sala. Quente, jugular vazia, pulmão limpo, peridural correndo há seis horas: bloqueio simpático, e a conduta é reduzir a bomba, elevar as pernas, repor o que faltar e observar a resposta — mas só depois de excluir sangue, porque as duas coisas coexistem. Fria, jugular cheia, pulmão limpo, dispneia súbita no quinto dia de um paciente que ficou deitado: embolia até prova em contrário, e a conduta é ecocardiograma à beira do leito, não tomografia no fim do corredor.
O relógio do pós-operatório: qual mecanismo em qual dia
O calendário do pós-operatório não faz diagnóstico, mas reordena a lista de hipóteses antes do exame — e reordenar a lista é metade do trabalho às cinco da manhã. Três janelas concentram quase tudo.
Das primeiras horas até o fim do primeiro dia, o mecanismo dominante é a perda de volume, e ela tem duas fontes que se somam. A primeira é o sangramento cirúrgico: o vaso que soltou, o leito de dissecção que rezuma, a anastomose vascular. A segunda é a hipovolemia de balanço — jejum antes e depois, perdas para o interstício, drenos, sonda nasogástrica, febre. Nessa janela também vive o distributivo farmacológico do bloqueio neuroaxial e da analgesia peridural, e vive a anafilaxia ao que foi administrado na sala, com destaque para bloqueador neuromuscular, látex e o antibiótico da profilaxia — que, por definição, foi injetado nos sessenta minutos anteriores à incisão. O diagnóstico e o manejo completo da anafilaxia são de Anafilaxia e choque anafilático no pronto-socorro, na apostila de Medicina de Emergência, que é o dono dela; o que fica aqui é a regra de reconhecimento e o gatilho.
Do segundo ao terceiro dia, o quadro costuma ser misto e a armadilha muda de nome. É a janela em que o paciente que recebeu líquido demais na sala começa a devolvê-lo, em que a analgesia é reduzida e a dor reaparece, e em que o cardiopata que atravessou a operação com anemia, taquicardia e dor descompensa. Também é a janela em que aparece o sangramento tardio de quem retomou anticoagulação profilática — a decisão de quando reintroduzir profilaxia depois de sangramento é de Duas contas que não se somam, o capítulo 2 desta apostila, que é o dono da profilaxia de tromboembolismo venoso no perioperatório.
Do terceiro ao sétimo dia, o mecanismo dominante é o distributivo por infecção, e no abdome operado ele tem quase sempre uma causa mecânica atrás: vazamento de anastomose, coleção, isquemia de alça, perfuração. É a janela em que a frase mais importante deste capítulo se aplica: no choque séptico de foco cirúrgico, antibiótico sem controle do foco é meia conduta. O reconhecimento da sepse, a definição de disfunção orgânica, o pacote da primeira hora, as culturas e o clareamento de lactato são de Sepse: reconhecer e tratar na primeira hora, na apostila de Medicina Intensiva e Emergências, que é o dono do assunto e o trata como tema principal — este capítulo não reescreve nada disso e manda ler. O que ele acrescenta é o que a apostila de pré e pós-operatório deve: qual foco procurar, e como se decide entre drenar por punção e reabrir — o roteiro completo do controle do foco, com prazo, via e reabordagem, está no capítulo de choque séptico e sepse cirúrgica, nesta apostila.
Fora das três janelas há dois mecanismos que não respeitam calendário. O tromboembolismo pulmonar pode aparecer em qualquer dia a partir do primeiro, e o operado é o paciente de risco por definição — imobilidade, inflamação e, com frequência, câncer. E a barreira mecânica pode ser criada por um procedimento a qualquer momento: o pneumotórax hipertensivo do acesso venoso central passado hoje à tarde, a hipertensão intra-abdominal do paciente reoperado e fechado sob tensão.
Uma observação de leitura fecha a seção. O relógio serve para ordenar, jamais para excluir. Sangramento no quinto dia existe, e sepse no primeiro dia também — sobretudo em cirurgia de urgência sobre víscera perfurada, em que o paciente entra na sala já com foco. Quando o achado clínico contraria o calendário, o achado ganha.
O choque na sala de recuperação, e por que o interno não decide sozinho ali
A sala de recuperação pós-anestésica é o único lugar deste capítulo em que a conduta do interno é regulada por norma específica, e a norma vale a pena ser conhecida pelo número. A Resolução do Conselho Federal de Medicina nº 2.174, de 2017, que dispõe sobre a prática do ato anestésico e revogou a Resolução nº 1.802/2006, determina que após a anestesia o paciente seja removido para a sala de recuperação ou para o centro de terapia intensiva, com médico responsável para cada um desses setores, e estabelece que a alta da sala de recuperação é responsabilidade exclusiva de um médico anestesista ou do plantonista da sala. Um paciente hipotenso na recuperação não sobe para a enfermaria porque o interno achou que estava bom.
A mesma resolução lista, no dispositivo que trata da permanência na sala de recuperação, o que deve ser monitorizado e avaliado desde a admissão até a alta: circulação, com aferição de pressão arterial e batimentos cardíacos e cardioscopia contínua; respiração, com saturação periférica contínua; estado de consciência; intensidade da dor; movimento de membros superiores e inferiores após anestesia regional; controle da temperatura corporal e meios para assegurar a normotermia; e controle de náuseas e vômitos. Essa lista é a espinha da avaliação naquele setor, e o item do movimento dos membros é o que documenta a regressão do bloqueio — o dado que transforma a raqui de álibi permanente em explicação com prazo.
Há uma leitura que este capítulo faz da lista e que é preciso apresentar como leitura, e não como citação: entre os itens obrigatórios não figuram o débito urinário nem o tempo de enchimento capilar. A norma exige a medida do parâmetro que falha por último e não exige os parâmetros que falham primeiro. Isso não é defeito de segurança do documento — ele estabelece o mínimo obrigatório, e o mínimo é conservador por natureza —, mas tem consequência prática direta: quem só cumprir a lista pode registrar um paciente estável cujo rim parou há duas horas. Some ao mínimo a mão e a diurese.
As causas de choque específicas da recuperação são cinco, e a ordem de suspeita é diferente da enfermaria. A vasodilatação residual do anestésico e do opioide, que é a mais comum e a mais benigna, e que responde a volume, a elevação de pernas e a tempo. O bloqueio simpático da raquianestesia ou da peridural, com a marca do nível alto: bradicardia com pele quente e paciente lúcido. A hemorragia cirúrgica precoce, que é a que não pode ser perdida e cuja pista é a taquicardia que não cede com analgesia, o dreno que enche e o curativo que satura. A anafilaxia, com hora marcada em relação a alguma droga. E a hipotermia com tremor, que aumenta o consumo de oxigênio em quem já tem oferta reduzida e que se corrige aquecendo.
Sobre a farmácia dessa sala, o capítulo registra um achado de elenco que muda a conduta e que não é intuitivo. Os vasoconstritores de meia-vida curta que o anestesiologista usa para tratar a hipotensão do bloqueio — efedrina, fenilefrina, metaraminol e etilefrina — não constam da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024, em nenhuma apresentação. O elenco nacional oferece, como vasoativos injetáveis, hemitartarato de norepinefrina 2 mg/mL, epinefrina 1 mg/mL, cloridrato de dopamina 5 mg/mL e cloridrato de dobutamina 12,5 mg/mL, todos no componente básico. A consequência prática é que, num serviço que se abastece estritamente pelo elenco nacional, a hipotensão do bloqueio se trata com posição, volume e — se necessário — noradrenalina em infusão, e não com o bólus de vasoconstritor curto que a literatura de anestesia descreve.
Uma última regra vale a viagem entre a sala e a enfermaria. Estabilize antes de transportar. Paciente com taquicardia sustentada e hipotensão que atravessa o hospital para fazer imagem, sem via venosa que preste, sem monitor e sem alguém capaz de resolver uma intercorrência, está no pior ponto do hospital para se deteriorar — e essa regra vale igualmente para o transporte da recuperação para a enfermaria, que costuma ser feito por um maqueiro e uma técnica.
O choque obstrutivo: o que se resolve com as mãos, e quem é dono de cada um
O choque obstrutivo é o que este capítulo assume por inteiro no reconhecimento, porque ele não tem coluna na única tabela nacional de tipos de choque e porque a régua que o identifica — jugular cheia com pulmão limpo — é uma régua de exame físico, não de exame complementar. O manejo de cada quadro, esse sim, tem dono em outro capítulo, e a remissão vem pelo nome logo abaixo. A frase que organiza a seção é esta: o obstrutivo é o único choque em que a terapia definitiva é um gesto mecânico, e em que esperar exame de imagem para executá-lo é a conduta que mata.
O pneumotórax hipertensivo, no paciente operado, tem três origens: punção de veia subclávia ou jugular para acesso central, ventilação com pressão positiva sobre pulmão com bolhas, e cirurgia torácica ou cervical recente. Reconhece-se por hipotensão com jugular túrgida, murmúrio vesicular abolido de um lado, hipertimpanismo à percussão, desvio de traqueia quando já é tardio, e uma hipoxemia desproporcional ao que o exame do tórax sugere. O diagnóstico é clínico e a descompressão não espera radiografia. A técnica da descompressão, o sítio, o calibre da agulha e a drenagem torácica que vem em seguida são de Trauma torácico com risco iminente de morte, na apostila de Trauma, que é o dono do pneumotórax hipertensivo; este capítulo cede a ele o manejo e fica com o reconhecimento.
O tamponamento cardíaco no operado aparece em contexto: pós-operatório de cirurgia cardíaca ou torácica, procedimento com punção próxima ao pericárdio, neoplasia, uremia. Bulhas abafadas, jugulares túrgidas e hipotensão são a tríade clássica, e a apresentação real costuma ser mais pobre que ela. O diagnóstico se confirma com ecocardiograma à beira do leito, e o tratamento é a drenagem do pericárdio. A pericardiocentese, os critérios, o ecocardiograma e a conduta completa são de Pericardite aguda e tamponamento cardíaco, na apostila de Cardiologia, que é o dono do tamponamento; este capítulo cede.
A embolia pulmonar maciça é o caso em que a cessão não tem para onde ir, e por isso este capítulo assume e declara que assumiu. A Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso de 2022 é explícita sobre o paciente instável: em todos os pacientes com suspeita clínica de tromboembolismo pulmonar e instabilidade hemodinâmica, o ecocardiograma é exame obrigatório, um exame normal elimina em definitivo a hipótese de embolia maciça, e a detecção de sobrecarga e disfunção do ventrículo direito, na ausência de outras causas óbvias, permite o diagnóstico de embolia maciça e a terapia de reperfusão de emergência mesmo sem angiotomografia ou cintilografia. O achado patognomônico — trombo móvel em câmaras direitas — ocorre em cerca de 4% das embolias em geral e chega a 18% nos pacientes internados em terapia intensiva. Essa mesma diretriz, porém, não traz o tratamento de reperfusão: nem droga, nem dose, nem contraindicação. A indicação vem das diretrizes da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia de 2025, que sugerem trombólise sistêmica no alto risco, com recomendação condicional e evidência muito baixa; a trombólise do paciente clínico instável, com a dose e as contraindicações, é de Tromboembolismo pulmonar: diagnóstico e manejo, da apostila de Pneumologia, que cede a este capítulo a embolia maciça do paciente operado. E nenhum trombolítico consta da Rename 2024. A conduta que este capítulo assume para o operado, portanto, é esta: reconhecer pelo padrão de exame físico, confirmar com o ecocardiograma que se faz no leito, iniciar suporte, e acionar imediatamente quem decide reperfusão no seu serviço ou na referência — porque essa decisão, num paciente que operou nos últimos dias, envolve um risco de sangramento que não se resolve por protocolo à distância. A trombose venosa profunda que origina o quadro é de Trombose venosa profunda e diagnóstico (escore de Wells), na apostila de Cirurgia Vascular, que é o dono da trombose; a probabilidade pré-teste do tromboembolismo pulmonar e a anticoagulação são de Tromboembolismo pulmonar: diagnóstico e manejo, na apostila de Pneumologia; e a profilaxia que evitaria o episódio é do capítulo 2 desta apostila.
A hipertensão intra-abdominal é o obstrutivo que só o paciente operado tem, e por isso fica aqui inteira. O abdome tenso, distendido e doloroso, com hipotensão, oligúria que não responde a volume, pressão de ventilação subindo em quem está intubado e jugular cheia com pulmão limpo, descreve um abdome que virou uma câmara de pressão e passou a comprimir a veia cava inferior por fora. Acontece depois de reposição volêmica muito grande, depois de fechamento sob tensão, na pancreatite grave operada, no hematoma retroperitoneal em expansão. A medida se faz pela pressão vesical, com a sonda já instalada e um transdutor, e é a única forma de transformar impressão em número. A conduta inicial é o que se pode fazer sem sala: sonda nasogástrica aberta, esvaziamento do reto, analgesia e sedação suficientes para relaxar a parede, suspensão de nutrição enteral, e revisão do balanço para parar de acrescentar volume ao problema. Quando o número não cai e a disfunção orgânica persiste, a solução é a descompressão cirúrgica, e ela é decisão do cirurgião — o que se cobra do interno é medir, registrar e telefonar.
Fecha a seção o achado do lado direito que não é obstrutivo mas mora na mesma combinação e inverte a conduta: o infarto de ventrículo direito. Ele chega com hipotensão, pescoço cheio e pulmão seco, e é o único desta lista em que repor volume ajuda e em que nitrato, nitroprussiato e qualquer vasodilatador estão vetados, porque derrubam o pouco enchimento que ainda existe. O eletrocardiograma com derivações precordiais direitas é o que o identifica, e o cardiopata operado é justamente quem tem os dois gatilhos do infarto perioperatório de tipo 2 — anemia e taquicardia. O manejo da síndrome coronariana aguda é de IAM com supradesnível de ST, na apostila de Cardiologia; o que este capítulo cobra é pedir as precordiais direitas antes de prescrever qualquer vasodilatador ao operado hipotenso com jugular cheia.
Como fechar o diagnóstico
A investigação do choque no operado obedece a uma regra que vale para as seis seções abaixo: nenhum exame precede a conduta das primeiras decisões, e alguns exames a atrasam. O que se pede tem três finalidades distintas, e vale separá-las antes de pedir. Há o que mede gravidade e serve de linha de base para comparar depois. Há o que confirma um mecanismo e muda a prescrição. E há o que só decora o prontuário. A terceira categoria é maior do que parece às cinco da manhã.
O que se colhe nos dez primeiros minutos, e o que isso não responde
O bloco inicial é curto e se pede junto, numa só coleta, enquanto o acesso está sendo puncionado: hemograma, tipagem sanguínea com prova cruzada, coagulograma, ureia e creatinina, sódio e potássio, glicemia, e gasometria com lactato onde houver gasômetro. Nada disso decide a primeira conduta; tudo isso decide a segunda.
O hemograma tem uma armadilha que é preciso enunciar antes de olhar o número. Na primeira hora de uma hemorragia aguda o que se perde é sangue integral, e o interstício ainda não teve tempo de diluir o que restou — a hemoglobina volta normal enquanto o paciente sangra. Hematócrito preservado no primeiro exame de um paciente com dreno enchendo é informação nenhuma, não é informação tranquilizadora. Nessa janela quem indica a transfusão é o conjunto clínico — coração acelerado, pressão em queda, urina que rareia, respiração curta, polpa digital que demora a corar e consciência que muda. O que o hemograma faz é servir de ponto de partida para a segunda dosagem, e é a comparação entre as duas que informa. A leitura completa do hemograma, inclusive o que cada série significa fora deste contexto, é de Hemograma, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito.
A tipagem com prova cruzada é o exame que mais frequentemente é esquecido e mais frequentemente atrasa a conduta, porque ele não muda nada agora e é o gargalo de tudo depois. Peça na primeira coleta, mesmo que a decisão de transfundir ainda não esteja tomada, e escreva no pedido a suspeita de sangramento — a agência transfusional trabalha com fila e a informação muda a posição na fila. Convém saber, para não travar por desconhecimento, que o Guia para uso de hemocomponentes do Ministério da Saúde registra que em casos de urgência é possível transfundir hemácias RhD positivo para paciente RhD negativo, e que uma unidade de concentrado de hemácias eleva o hematócrito em cerca de 3% e a hemoglobina em cerca de 1 g/dL no adulto de estatura média.
O coagulograma tem função dupla no operado: identifica a coagulopatia que pode estar causando o sangramento, e serve de linha de base para a coagulopatia que a própria reposição vai produzir. Vale lembrar de dois itens de contexto que quase nunca constam do pedido e mudam a leitura — o anticoagulante em uso antes da internação e a hora da última dose da profilaxia de tromboembolismo. A interpretação de cada teste é de Coagulograma, na mesma apostila de interpretação de exames.
O lactato serve para gravidade e para acompanhamento, e não para diagnóstico de tipo. Ele sobe em qualquer choque, sobe também sem choque, e o que informa é a tendência: a segunda dosagem, colhida com hora marcada, vale mais do que a primeira. A amostra precisa seguir imediatamente ao laboratório, porque demora de bancada eleva o resultado por conta própria. Toda a interpretação, o clareamento e as causas não hipoperfusivas de hiperlactatemia são de Gasometria arterial, que é o dono do assunto nesta coleção.
Por fim, o que não se pede nesse momento: dosagem de troponina como triagem em quem não tem suspeita de isquemia, marcadores inflamatórios para decidir se há infecção, e radiografia de abdome para procurar sangramento. Os dois primeiros não mudam a conduta da hora seguinte; o terceiro não enxerga o que se está procurando. Quando repetir e quando ignorar marcador e cultura é assunto de Marcadores e culturas, na apostila de interpretação de exames.
O dreno, o curativo e o abdome como exame hemodinâmico
No paciente operado existe uma janela para dentro da cavidade que o paciente clínico não tem, e é gratuita. O dreno, o curativo, a sonda nasogástrica e o próprio contorno do abdome respondem, em segundos, à quarta pergunta da régua — há sangue? — sem laboratório e sem imagem.
O dreno se lê em três dimensões, e só a primeira costuma ser anotada. O volume, que é o que a prescrição pede. A velocidade, que é a informação útil: 400 mililitros em seis horas dizem uma coisa, 400 mililitros em uma hora dizem outra completamente diferente, e a folha registra as duas do mesmo jeito se ninguém anotar a hora. E o conteúdo: serossanguinolento que clareia é evolução esperada; vermelho vivo, homogêneo, que não clareia, é sangue; turvo ou entérico é vazamento. A regra de descrever o conteúdo além de anotar o volume é de Cento e vinte, sem febre, o capítulo 5 desta apostila, que é o dono do dreno como sinal de complicação; o que este capítulo acrescenta é a leitura hemodinâmica — o dreno é marcador de tendência, jamais medidor de perda, porque só recolhe o que a posição do tubo permite recolher.
O dreno seco não exclui sangramento, e essa frase precisa ser dita com todas as letras porque ela inverte a intuição. Coágulo obstrui tubo. O paciente que sangrava e cujo dreno parou de render pode ter parado de sangrar, ou pode ter obstruído o dreno — e é justamente o sangramento volumoso, que forma coágulo, o que obstrui. Dreno que para de render em paciente que piora é achado de alarme, não de melhora.
O abdome que aumenta sem sangue aparecendo em lugar nenhum é o achado mais importante e o menos procurado. Meça a circunferência abdominal na altura da cicatriz umbilical, marque o ponto com caneta na pele, anote o valor e a hora, e repita na reavaliação. É um exame de dois minutos que transforma a impressão de que o abdome está mais cheio num número comparável entre plantões — e é o único jeito de a passagem de plantão às sete da manhã significar alguma coisa. O mesmo vale para o curativo: circule com caneta o limite da mancha e anote a hora.
A sonda nasogástrica, quando existe, responde pela parte alta do tubo digestivo, e a fralda ou o toque retal respondem pela parte baixa. Sangue vivo por sonda em paciente operado do abdome superior é achado cirúrgico; melena no primeiro dia costuma ser sangue deglutido ou lesão aguda de mucosa. A hemorragia digestiva alta como entidade, com a sua própria rota de investigação e conduta, é de outro capítulo desta coleção e não se reescreve aqui.
Uma observação sobre o curativo compressivo que vale a linha. Comprimir sangramento de parede funciona e deve ser feito enquanto se decide o resto. Comprimir para esconder sangramento e ganhar tempo não funciona e custa o tempo que se pretendia ganhar: a compressão externa não alcança o retroperitônio, não alcança a pelve profunda e não alcança o leito hepático. Se a compressão faz o curativo parar de saturar mas o paciente continua taquicárdico e frio, o sangue mudou de lugar, não parou.
O ecocardiograma à beira do leito: o que ele decide e o que não se pode concluir dele
No choque do operado existe um exame que muda a conduta sem tirar o paciente do leito, e a diretriz brasileira é categórica sobre ele em uma situação específica. A Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso de 2022 determina que, em todos os pacientes com suspeita clínica de tromboembolismo pulmonar e instabilidade hemodinâmica, o ecocardiograma é exame obrigatório. Não é uma opção conveniente: é o exame de primeira linha nessa situação, e é a norma brasileira em vigor sobre o tema.
O que ele resolve nessa situação é excepcional. Segundo a mesma diretriz, num paciente com suspeita clínica e instabilidade hemodinâmica, o registro de um exame ecocardiográfico normal elimina em definitivo a hipótese de embolia pulmonar maciça — o que é uma afirmação forte e rara em medicina, e vale porque um êmbolo grande o bastante para causar choque necessariamente sobrecarrega o ventrículo direito. Na direção oposta, a detecção de sobrecarga de pressão e disfunção ventricular direita, na ausência de outras causas óbvias, permite o diagnóstico de embolia maciça e a terapia de reperfusão de emergência mesmo quando a angiotomografia ou a cintilografia não podem ser realizadas.
O mesmo aparelho responde às outras duas perguntas do lado direito na mesma passada. Derrame pericárdico com colapso de câmaras responde tamponamento. Ventrículo esquerdo vazio e hipercontrátil, com veia cava inferior colabada, aponta para hipovolemia. Ventrículo esquerdo dilatado e hipocontrátil aponta para falência de bomba. São quatro respostas categoricamente diferentes obtidas com o paciente onde ele está.
Agora o que não se pode concluir, e esta parte é o interno falando de si mesmo. Uma coisa é olhar o coração com o aparelho e reconhecer um padrão grosseiro; outra é emitir laudo. O interno que aprende a fazer uma janela subxifoide não passa a ser ecocardiografista, e há três erros previsíveis: chamar de disfunção direita um ventrículo direito que parece grande por causa da janela, chamar de derrame uma gordura epicárdica, e — o mais perigoso — concluir que a veia cava colabada autoriza volume irrestrito num paciente que na verdade tem obstrução. O uso correto do exame no plantão do interno é como triagem que aciona alguém, e não como laudo que fecha diagnóstico. Registre o que viu como impressão, com essas palavras, e chame quem lauda.
Vale uma advertência sobre o que a ausência de aparelho significa e não significa. Num serviço sem ecocardiograma no leito, o padrão de exame físico — jugular cheia com pulmão limpo, hipotensão que não responde a volume, hipoxemia desproporcional — continua sendo o critério que aciona a transferência, e a decisão não fica suspensa esperando imagem. A diretriz reconhece o cenário do paciente sem condições de transporte e orienta optar por exames executáveis à beira do leito. Onde nem isso há, o que resta é o telefone, e ele deve ser usado com a hipótese nomeada.
Sobre o que substitui o eco quando ele não existe para as outras perguntas: a ultrassonografia de abdome à beira do leito responde a presença de líquido livre, com a mesma ressalva de treinamento, e a radiografia de tórax obtida no leito responde pneumotórax quando a suspeita não é hipertensiva. No pneumotórax hipertensivo com instabilidade, nenhum dos dois entra na conta — a descompressão precede a imagem, e a técnica é de Trauma torácico com risco iminente de morte, na apostila de Trauma.
A pressão intra-abdominal: o número que transforma impressão em decisão
O abdome tenso do paciente reoperado ou muito reposto é uma das poucas situações em que a impressão clínica é reconhecidamente ruim e a medida é fácil. Palpação não estima pressão intra-abdominal com confiabilidade, e é por isso que se mede — não por preciosismo de terapia intensiva.
A medida se faz pela bexiga, com a sonda vesical que o paciente instável costuma já ter. Com o paciente em decúbito dorsal horizontal, esvazia-se a bexiga, instila-se um volume pequeno de solução salina estéril, zera-se o transdutor na linha axilar média na altura da crista ilíaca, e a leitura é feita no fim da expiração, com a musculatura abdominal relaxada — contração de parede por dor ou agitação sobe o número e invalida a medida. Repete-se com o mesmo método e o mesmo volume, porque o que interessa é a série, não o ponto.
O que o número muda é a ordem das hipóteses. Um paciente hipotenso, oligúrico e com abdome tenso, cuja pressão intra-abdominal está alta, deixou de ser um paciente que precisa de mais volume e passou a ser um paciente em que o volume alimenta a causa. Aqui a oligúria não é pré-renal por hipovolemia: é oligúria por compressão do próprio rim e da veia que o drena, e mais cristaloide piora. Esse é o ponto exato em que a régua deste capítulo diverge da conduta reflexa, e por isso a medida vale a pena.
As medidas iniciais são todas de esvaziamento e de relaxamento, e todas cabem ao plantão sem sala: sonda nasogástrica aberta e em drenagem, esvaziamento do reto, suspensão de dieta e de nutrição enteral, analgesia e sedação suficientes para tirar a parede da contração, decúbito com cabeceira baixa, e — a que mais custa a ser tomada — a decisão de parar de repor. A revisão do balanço acumulado é obrigatória: o paciente que recebeu vários litros nas últimas doze horas tem no balanço a explicação do abdome.
Quando o número não cede com essas medidas e há disfunção orgânica que acompanha, a solução é descompressão cirúrgica, e ela não é decisão do interno. O que se cobra do interno é a sequência inteira: suspeitar pelo padrão, medir, registrar a série com horários, aplicar as medidas não cirúrgicas e telefonar com o número na mão. Um telefonema que diz o abdome está tenso mobiliza menos do que um telefonema que diz a pressão vesical subiu de um valor para outro em duas horas com diurese caindo.
Uma nota de honestidade sobre a régua: os pontos de corte de hipertensão intra-abdominal e de síndrome compartimental abdominal em uso vêm de consenso internacional de sociedade da área, e não há documento normativo brasileiro que os fixe. O que fica deste capítulo, portanto, é o método — medir, seriar, agir sobre o que se pode e chamar — e não um número nacional que não existe.
Eletrocardiograma e troponina no operado hipotenso
O eletrocardiograma de doze derivações entra cedo e por dois motivos: identifica a arritmia que pode ser causa da instabilidade, e identifica a isquemia que pode ser causa ou consequência dela. No operado hipotenso, acrescente as derivações precordiais direitas ao pedido, porque é o padrão do ventrículo direito que muda a proibição de vasodilatador. A leitura sistemática do traçado é de ECG na prática, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito.
A distinção que mais importa no plantão não é entre traçado normal e alterado, e sim entre a arritmia que causou o choque e a arritmia que é sintoma dele. Um paciente que sangra fica taquicárdico; um paciente com fibrilação atrial de alta resposta pode ficar hipotenso pela própria arritmia. A diferença muda tudo, porque a segunda situação tem tratamento elétrico imediato e a primeira não — e cardioverter um paciente cuja taquicardia é a única compensação para uma volemia perdida é retirar a compensação. Antes de tratar a arritmia como causa, afaste desidratação, sangramento, anemia e infecção; o manejo completo é de Taquiarritmias supraventriculares e ventriculares, na apostila de Cardiologia.
A troponina no perioperatório é o exame que mais muda de significado ao atravessar a porta do centro cirúrgico, e a Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória de 2024 dá o vocabulário. A injúria miocárdica após cirurgia não cardíaca é definida por troponina T pós-operatória igual ou acima de 65 ng/L, ou entre 20 e 65 ng/L com delta absoluto de pelo menos 5 ng/L entre os valores pré e pós-operatórios, excluídas causas não isquêmicas. A mesma diretriz observa que parte dessa definição considera apenas o valor absoluto no pós-operatório, sem diferenciar injúria aguda de crônica — ou seja, o rótulo é operacional, não é diagnóstico.
O dado que interessa ao interno de plantão é o comportamento: no estudo VISION, a incidência foi de 18% e 93% dos pacientes não tiveram sintoma nenhum. Isso quer dizer que a ausência de dor torácica no operado não afasta injúria miocárdica, e que a hipotensão prolongada que você está tratando é um dos gatilhos descritos do infarto perioperatório de tipo 2 — junto com anemia, taquicardia e hipoxemia. A diretriz recomenda que a otimização dessas causas secundárias de isquemia seja sempre realizada, e essa é a ponte entre corrigir o choque agora e evitar um evento cardíaco depois.
Na prática, portanto: peça troponina no operado hipotenso quando houver suspeita clínica de isquemia ou quando a hipotensão for prolongada, colha um par com intervalo em vez de um valor isolado, e leia o movimento e não o patamar. E não deixe que um valor elevado desvie a investigação do mecanismo — no paciente que sangra, a troponina sobe porque ele sangra, e o tratamento continua sendo parar o sangramento.
Uma consequência de conduta merece registro. Diante de infarto perioperatório de tipo 1, a escolha do antiagregante a acrescentar à aspirina depende do risco de sangramento e deve ser discutida em conjunto com o cirurgião, com preferência ao clopidogrel nos pacientes de alto risco de sangramento. É o exemplo mais nítido de que, no operado, decisão cardiológica sem o cirurgião na conversa é decisão pela metade.
Quando a imagem responde, e quando ela apenas atrasa a sala
A tomografia é o exame que mais frequentemente é pedido para adiar uma decisão já tomada. A regra que resolve isso é curta: se o achado clínico já indica a sala, a imagem não decide nada e custa o tempo do transporte. Se a decisão depende de saber onde está a coleção, ou se há alternativa entre punção e reabertura, a imagem decide e vale.
Aplique a regra a três situações do capítulo. Paciente do primeiro dia, taquicárdico, hipotenso, com dreno enchendo de sangue vermelho e resposta transitória ao volume: a imagem não muda a conduta, porque quem responde de forma transitória está sangrando ativamente e o destino é a sala. Paciente do quinto dia, séptico, com dreno turvo e abdome difusamente doloroso: a imagem com contraste decide entre drenagem percutânea e reabertura, e essa diferença é grande o bastante para justificar o transporte se ele puder ser feito com segurança. Paciente com jugular cheia, pulmão limpo e hipoxemia súbita: o exame que decide é o ecocardiograma no leito, não a tomografia no fim do corredor.
Estabilize antes de transportar, e entenda o que estabilizar significa aqui — não é ter a pressão normal, é ter acesso adequado, monitorização, oxigênio, o material de intercorrência junto e uma pessoa que saiba usá-lo acompanhando o paciente. Um paciente que precisa de vasopressor em infusão para atravessar o corredor é um paciente que precisa de alguém junto na maca, e não de uma técnica e um maqueiro.
Escreva o pedido inteiro, sem abreviar. Tomografia do abdome e da pelve, com contraste por via endovenosa, sétimo dia de colectomia esquerda, suspeita de deiscência de anastomose colorretal, avaliar coleção e extravasamento, função renal e alergia informadas — esse pedido volta com a resposta. Tomografia de abdome, dor abdominal, volta com um laudo que descreve alterações pós-operatórias esperadas e não responde nada. A qualidade do laudo é proporcional à qualidade da pergunta.
Sobre o contraste em paciente hipotenso e oligúrico, o dilema é real e não se resolve por regra fixa. Adiar o exame para proteger o rim de um paciente que pode estar morrendo de uma coleção não drenada é proteger o órgão e perder o paciente; fazer o exame num paciente que já está em curso de injúria renal acrescenta um insulto. A conduta defensável é decidir pelo que a imagem vai mudar: se o resultado altera a conduta nas próximas horas, faça, com o paciente o mais reposto possível; se não altera, não faça. Registre a decisão e o motivo.
Fecha a seção o exame que não é exame: o telefonema para quem operou. Em muitos serviços, a informação que mais muda a conduta não está em lugar nenhum do prontuário — está na memória do cirurgião. Se houve dificuldade técnica na anastomose, se um vaso foi ligado com dúvida, se o baço foi manipulado, se o campo estava contaminado. Nada disso costuma estar na descrição, e tudo isso reordena a lista de hipóteses. A régua de quando chamar, como acionar e como escalonar é de Chamar antes de ter certeza, na apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática, que é o dono do gesto; o que este capítulo fixa é que, no operado em choque, o telefonema é etapa de investigação e não gesto de socorro.
Da mão ao pescoço: a régua que separa os tipos no paciente operado
Pressão, pele, pulso e jugular são peças de uma avaliação conjunta. Nenhum sinal isolado ou resposta a volume exclui definitivamente um mecanismo de choque.
- 1Avaliar perfusão, consciência, respiração, pressão confirmada e trajetória; acionar ajuda imediatamente ao reconhecer deterioração, mantendo suporte em paralelo.
- 2Procurar sangramento, infecção, causas cardíacas, obstrução circulatória e efeitos anestésicos ou medicamentosos; mais de um mecanismo pode estar presente.
- 3Usar exame cardiopulmonar e ultrassom quando disponível para formular hipóteses; jugular vazia não libera automaticamente volume, e jugular cheia não prova causa única.
- 4Se indicado teste de responsividade, definir técnica, medida e tempo. A elevação passiva das pernas deve ser interpretada preferencialmente com variação de fluxo ou volume sistólico; simples pressão de manguito antes e depois tem limitações.
- 5Responsividade a fluidos não equivale a necessidade de administrá-los. Ponderar hipoperfusão e risco de congestão e reavaliar após cada intervenção.
- 6Na hemorragia, priorizar sangue e controle do foco; em vasoplegia, suporte vasoativo pode ser necessário precocemente, com monitorização e equipe responsável.
- 7Hipotensão e bradicardia após neuroeixo exigem anestesiologia, avaliação da extensão do bloqueio e vigilância respiratória, sem excluir outras causas pela pele quente.
- 8Registrar intervenção, dose, horário, resposta e plano de destino; o interno reconhece, comunica e auxilia sob supervisão.
Choque não é pressão baixa — e no operado o alarme toca tarde demais
Choque é perfusão insuficiente para a demanda do tecido. A pressão arterial é a última coisa a cair, porque é sustentada por vasoconstrição enquanto houver reserva simpática. Existe choque com pressão de 110 por 70 e existe pressão de 88 por 54 sem choque; o que separa os dois é o que o número está custando — mão, enchimento capilar, diurese, consciência, livedo e pulso. O protocolo nacional do SAMU registra, na própria tabela de reconhecimento, pressão arterial normal ou diminuída nos quatro tipos de choque que ele lista: a linha existe para dizer que a pressão não discrimina. No paciente operado há um agravante medido: a diretriz brasileira de avaliação perioperatória de 2024 cita coorte de 251.567 pacientes em que sistólica abaixo de 119 mmHg e diastólica abaixo de 63 mmHg se associaram a maior mortalidade em 30 dias de pós-operatório. Comparar com o basal do paciente e valorizar a queda relativa é mais útil do que esperar cruzar 90.
Quando a resposta não é droga, é sala
Há três situações no operado em que nenhuma dose corrige o problema e a intervenção é mecânica, e reconhecê-las é a contribuição própria desta apostila. A primeira é o sangramento cirúrgico ativo, e a pista é a resposta à carga de volume que você já deu, medida com hora anotada: quem sustenta a melhora dá tempo para investigar; quem melhora e recai está perdendo sangue agora e cobra controle do foco; quem não melhora obriga a refazer o diferencial inteiro. A segunda é o foco infeccioso não controlado — o vazamento, a coleção, a alça isquêmica: antibiótico sem controle de foco é meia conduta, e o choque que não melhora com vasopressor crescente costuma ter uma coleção por trás. A terceira é a barreira mecânica — pneumotórax hipertensivo, tamponamento, abdome sob pressão —, em que o gesto precede a imagem. Em todas as três, a decisão é do cirurgião e o que se cobra do interno é a mesma coisa: nomear a hipótese, medir o que der para medir, manter a perfusão enquanto isso e telefonar com um pedido específico e um prazo.
As quatro perguntas e o que cada combinação deixa de pé no paciente operado
| Mão, jugular e ausculta | O que fica de pé no operado | O gatilho que confirma sem laboratório | Os primeiros vinte minutos | O erro que esta leitura evita |
|---|---|---|---|---|
| Fria, enchimento acima de 2 s; jugular colabada a 45 graus; ausculta limpa | Hipovolêmico: sangramento cirúrgico, perdas somadas de jejum, dreno, sonda e febre, sequestro para o interstício | Dreno vermelho e crescente, curativo que satura, abdome que aumenta sem sangue aparecer, sonda com sangue, hemoglobina em queda entre dois pontos | Volume fracionado com alvo e hora escritos; tipagem e prova cruzada pedidas na primeira coleta; procura ativa da fonte; telefonema para quem operou | Atribuir à raqui ou ao jejum uma perda que continua, e descobrir isso na terceira medida |
| Quente, rosada, enchimento rápido; jugular colabada; ausculta limpa; frequência alta | Distributivo: sepse de foco cirúrgico a partir do 3º dia, anafilaxia a droga administrada há minutos, vasodilatação residual de anestésico e opioide | Foco presumível (víscera oca operada, coleção, cateter, sonda); droga, contraste ou hemoderivado infundidos nos últimos 30 minutos; urticária, broncoespasmo ou edema | Volume; se for anafilaxia, adrenalina intramuscular imediata e sem esperar urticária; se for sepse, o pacote da primeira hora e a busca do foco drenável | Excluir choque porque a pele está quente — a fase inicial do distributivo é quente e o paciente já está mal perfundido |
| Quente e seca, paciente lúcido; jugular colabada; ausculta limpa; frequência baixa | Bloqueio simpático alto por raquianestesia ou peridural, com o mesmo padrão que o protocolo nacional descreve como neurogênico — sem lesão medular nenhuma | Ficha anestésica com bloqueio neuroaxial e o nível; cateter de peridural com anestésico correndo em bomba; horário de início do bólus | Reduzir ou suspender a bomba de peridural; decúbito com pernas elevadas; volume; vasoconstritor se não responder — e reavaliar sangramento antes de aceitar o diagnóstico | Aceitar bradicardia com hipotensão como vagal e não olhar a bomba que está correndo ao lado do leito |
| Fria; jugular túrgida; crepitação nova, às vezes terceira bulha e fígado doloroso | Cardiogênico: infarto perioperatório, arritmia com instabilidade, descompensação de insuficiência cardíaca em quem recebeu volume, dor e anemia juntos | Eletrocardiograma com isquemia ou arritmia nova; ortopneia e edema que não havia; balanço acumulado muito positivo desde a sala | Não abrir a pinça; eletrocardiograma com precordiais direitas; inotrópico e vasoconstritor conforme o perfil; diurético só depois de restaurada a perfusão | Tratar como hipovolemia o paciente cujo ventrículo já está cheio, e produzir edema agudo em quinze minutos |
| Fria; jugular túrgida; ausculta limpa; hipoxemia desproporcional ao exame | Obstrutivo: pneumotórax hipertensivo, tamponamento, embolia pulmonar maciça — e o infarto de ventrículo direito, que não é obstrutivo mas mora nesta combinação | Punção de subclávia ou jugular recente; ventilação com pressão positiva; murmúrio abolido de um lado com hipertimpanismo; bulhas abafadas; dispneia súbita em paciente imobilizado | Descompressão imediata no pneumotórax hipertensivo, sem esperar imagem; ecocardiograma no leito nas outras três; volume ajuda no infarto de ventrículo direito e vasodilatador é proibido | Insistir em vasopressor num paciente cuja barreira é mecânica, e perder os minutos em que o gesto resolveria |
| Variável; jugular túrgida; ausculta limpa; abdome tenso e distendido, oligúria que não responde a volume | Hipertensão intra-abdominal: o abdome virou câmara de pressão e comprime a veia cava por fora — o obstrutivo que só o operado tem | Reoperação recente, fechamento sob tensão, pancreatite grave, hematoma em expansão, balanço acumulado de vários litros nas últimas 12 horas | Medir a pressão pela bexiga e seriar; sonda nasogástrica aberta, esvaziamento do reto, analgesia e sedação para relaxar a parede; parar de repor; telefonar com o número | Repor mais volume numa oligúria que é de compressão, e alimentar exatamente a causa |
Conversão mg ↔ mL ↔ ampola num adulto de 62 kg, contra a apresentação do elenco nacional
| Droga e apresentação na Rename 2024 | Preparo recalculado | Dose de partida | Vazão ou volume para 62 kg | Onde a conta costuma errar |
|---|---|---|---|---|
| Hemitartarato de norepinefrina 2 mg/mL, solução injetável — componente básico | Ampola de 4 mL contém 8 mg do sal, equivalentes a 4,0 mg de noradrenalina base (razão base/sal 169,18/337,28 = 0,50). Quatro ampolas somam 16,1 mg de base; diluídas até 250 mL, a bolsa fica a 64,2 mcg/mL | 0,1 mcg/kg/min, ajustada a cada 15 minutos | 0,1 mcg/kg/min = 6,2 mcg/min = 5,8 mL/h. 0,2 = 11,6 mL/h. 0,3 = 17,4 mL/h. 0,5 = 29,0 mL/h. 1,0 = 57,9 mL/h | Confundir miligramas do sal com miligramas de base: a mesma ampola é 8 mg num rótulo e 4 mg no outro, e a diferença é o dobro |
| Cloridrato de dobutamina 12,5 mg/mL, solução injetável — componente básico | Ampola de 20 mL contém 250 mg; diluída até 250 mL, a bolsa fica a 1.000 mcg/mL | 2,5 mcg/kg/min, com ajuste a cada 10 minutos | 2,5 mcg/kg/min = 9,3 mL/h. 5 = 18,6 mL/h. 10 = 37,2 mL/h. 20 = 74,4 mL/h | Iniciar dobutamina em quem ainda está hipovolêmico: ela aumenta o débito e derruba a resistência, e a pressão cai |
| Epinefrina 1 mg/mL, solução injetável — componente básico | Ampola de 1 mL a 1 mg/mL, aplicada sem diluir por via intramuscular na face anterolateral do terço médio da coxa | 0,01 mg/kg por via intramuscular na anafilaxia, repetível a cada 5 a 15 minutos | 0,01 × 62 = 0,62 mg — o teto do adulto é 0,5 mg, então aplica-se 0,5 mL. Acima de 50 kg o volume é sempre o mesmo | Calcular por peso e ultrapassar o teto; e diluir para uso intramuscular, que é onde nasce o erro de escala |
| Succinato sódico de hidrocortisona 100 mg e 500 mg, pó para solução injetável — componente básico | O frasco rotulado como 100 mg contém cerca de 134 mg do sal e entrega 100 mg de hidrocortisona base; a razão declarada, 100/134 = 0,746, bate com a razão entre as massas molares da hidrocortisona e do succinato sódico de hidrocortisona, 362,46/484,52 = 0,748 — conferência que fecha | 100 mg por via intravenosa na suspeita de insuficiência adrenal, repetível conforme a resposta | 1 frasco de 100 mg por dose, independente do peso nesta faixa | Deixar de considerar o diagnóstico em quem usava corticoide em casa e teve a dose suspensa na admissão — hipotensão que responde pouco a volume e pouco a vasopressor |
| Cloreto de sódio 9 mg/mL (0,9%) e solução de ringer + lactato — ambos componente básico | Bolsas de 500 mL; ringer lactato é a primeira escolha na perda de sangue segundo o protocolo nacional do SAMU, seguido da salina 0,9%; aquecer a solução quando houver hipotermia | Bolsas fracionadas de 250 a 500 mL em 10 a 15 minutos, com reavaliação entre elas | 5 mL/kg = 310 mL. 10 mL/kg = 620 mL (1,2 bolsa). 20 mL/kg = 1.240 mL (2,5 bolsas). 30 mL/kg = 1.860 mL (3,7 bolsas) | Prescrever litros em vinte e quatro horas em vez de bolsas com hora marcada: sem fracionamento não há reavaliação, e sem reavaliação não é prova de volume |
| Concentrado de hemácias — hemocomponente, fora da Rename por natureza | Uma unidade eleva o hematócrito em cerca de 3% e a hemoglobina em cerca de 1 g/dL no adulto de estatura média (Guia do Ministério da Saúde, 2ª ed., 2015) | No pós-operatório estável sem sinal de hipóxia tecidual, o guia aceita hemoglobina de 8 g/dL; no sangramento com sinais de hipoperfusão, quem indica é a clínica e não o hematócrito da primeira hora | De 6 para 8 g/dL: 2 unidades. De 7 para 8 g/dL: 1 unidade. Em urgência, é possível transfundir hemácias RhD positivo para paciente RhD negativo | Esperar o hemograma da primeira hora para decidir: sai sangue integral e o que restou ainda não foi diluído, de modo que o valor volta normal com o paciente sangrando |
A tabela do SAMU usa volemia de aproximadamente 5 L: 750 mL correspondem a 15%, 1.500 mL a 30% e 2.000 mL a 40%. Esses volumes são referências didáticas de um adulto próximo de 70 kg, sem estimar a perda real de todo paciente.
No exemplo de 62 kg, a estimativa de 70 mL/kg resulta em 4.340 mL de volemia; 15% e 30% seriam 651 e 1.302 mL. O cálculo mostra por que a coluna de volumes fixos não deve ser aplicada literalmente. Use a evolução clínica para decidir a ressuscitação.
As faixas de frequência respiratória e cardíaca das classes hemorrágicas se sobrepõem em alguns limites. Um valor de 120 bpm ou de 36 incursões por minuto pode caber em duas colunas. Classifique a tendência pelo conjunto de sinais, sem atrasar a ação para escolher uma faixa.
A tabela não contempla todas as respostas do pós-operatório, como frequência respiratória baixa sob opioide. Hipoventilação não exclui hipovolemia. Integre medicamentos, técnica anestésica, perfusão e evolução à avaliação do choque.
A tabela do AC16 não inclui coluna própria de choque obstrutivo. Mantenha entre as hipóteses pneumotórax hipertensivo, tamponamento e embolia pulmonar de alto risco quando o quadro for compatível. Os capítulos específicos desenvolvem o tratamento de cada causa.
O AC16 citado usa uma definição histórica de sepse baseada em resposta inflamatória sistêmica. Para reconhecimento e tratamento, siga o capítulo de sepse indicado na apostila, que considera disfunção orgânica. Hipoperfusão exige atenção mesmo sem hipotensão; não aguarde todos os sinais de uma tabela antiga.
O trecho do guia sobre hemoglobina abaixo de 7 g/dL tem redação ambígua. Interprete o limiar restritivo no contexto do paciente estável sem sinais de hipóxia tecidual. Dor precordial, taquicardia persistente ou sangramento ativo exigem avaliação própria e não são razões para negar transfusão por leitura literal da frase.
O guia citado diferencia anemia do paciente estável e hemorragia aguda. Entre 7 e 10 g/dL, a decisão depende do contexto, e sua seção pós-operatória aceita 8 g/dL no paciente estável sem hipóxia tecidual. Esses valores não substituem a avaliação de perfusão ou o controle de sangramento ativo.
Nas figuras da diretriz SBC 2024 citada, leia o limiar de hemoglobina em g/dL e o valor de creatinina em mg/dL. As grafias g/L para hemoglobina e g/dL para creatinina não correspondem às unidades usadas nas demais tabelas. Sempre confira unidade e contexto antes de aplicar um limiar.
A lista de medicamentos da Rename citada não informa quais vasopressores estão disponíveis na sala de recuperação do hospital. Confirme previamente as apresentações e o protocolo de preparo com anestesiologia e farmácia. A seleção do agente depende da causa da hipotensão e da equipe responsável.
No sangramento importante, confira disponibilidade real de antifibrinolítico, cálcio e hemocomponentes com a farmácia e a agência transfusional. Presença ou ausência no elenco citado não substitui esse contato. A ressuscitação deve seguir o protocolo institucional e a resposta do paciente.
A diretriz diagnóstica de TEV e a de tratamento de embolia pulmonar têm escopos diferentes. No operado recente, a reperfusão exige ponderar urgência e risco hemorrágico, com cirurgia e equipe de referência. Confirme possibilidades de tratamento e transferência imediatamente; a consulta ao elenco de medicamentos não deve atrasar o acionamento.
A Resolução CFM nº 2.174/2017 foi publicada em 2018, data relevante para identificar o início de vigência apresentado na fonte. Ao documentar a referência, diferencie número da norma e data de publicação. O conteúdo citado trata das condições de realização do ato anestésico e recuperação.
A monitorização descrita para recuperação pós-anestésica inclui circulação, saturação, consciência, dor, temperatura, náuseas e função motora após anestesia regional. Conforme a condição clínica, acrescente avaliação de perfusão periférica e diurese. Uma lista mínima não dispensa outros parâmetros necessários ao paciente.
A conduta, hora a hora
A conduta abaixo é a de dona Romualda Itamonte, com o relógio da madrugada, e ela tem duas camadas que não se invertem. A camada que independe do mecanismo — examinar a perfusão, deitar e elevar as pernas, garantir acesso calibroso, monitorizar, medir glicemia, aquecer, colher — não espera diagnóstico nenhum. A segunda camada é ditada pelo mecanismo, e nela as prescrições deixam de convergir: o litro que resgata quem perde sangue é o litro que encharca o ventrículo já repleto, e a droga que segura a pressão de quem vasodilatou pela peridural também apaga, por quarenta minutos, o único sinal de que a perda continua.
Cada dose adiante vem com a fonte que a sustenta e foi recalculada contra a apresentação que consta do elenco nacional — concentração, volume da ampola, sal e base. Onde o documento oficial tropeça ou se desmente, o tropeço vem nomeado nas notas do bloco de critério, com a conta que o expõe; aqui entra apenas o número já corrigido.
05h42 — dois minutos com a mão, antes de qualquer caneta
A primeira decisão não é prescrever, é classificar. Pegue a mão dela e sinta até o punho; comprima a polpa do polegar, solte e conte em voz alta; levante o lençol e procure livedo no joelho; leia a bolsa de diurese com a hora ao lado; fale com ela e compare a consciência com a de ontem. Dona Romualda tem mão fria até o antebraço, enchimento capilar de quatro segundos, livedo no joelho, 90 mL de urina em quase seis horas e demora para responder. Isso é choque, e a partir daqui o relógio corre. A refeitura da medida com manguito do tamanho certo acontece em paralelo, com a técnica, e não substitui nem atrasa o exame da mão.
Prescrição- Se apropriado, realizar elevação passiva das pernas como teste reversível com técnica e medida adequadas; preferir avaliação de débito ou volume sistólico. Variação isolada da pressão no manguito não confirma nem exclui responsividade. Não atrasar suporte e chamada de ajuda para executar o teste.
- Aquecer ativamente com manta térmica e retirar roupa de cama úmida — a prevenção de hipotermia consta da conduta do protocolo AC16 do SAMU 192, e no operado ela é ao mesmo tempo tratamento e condição para que o exame da perfusão signifique alguma coisa
- Registrar na evolução, com hora: temperatura da mão, tempo de enchimento capilar contado, presença e extensão do livedo, diurese somada em mL/h e nível de consciência comparado ao basal. É esse registro que a passagem das sete vai comparar
- Calcular e escrever a pressão arterial média e o índice de choque: 82 por 48 dá média de 59 mmHg, e 126 dividido por 82 dá índice de 1,54
05h45 — a camada que não depende do diagnóstico
O que vem agora vale para qualquer mecanismo e não custa nada em nenhum deles. Dois acessos periféricos calibrosos são melhores que um cateter central passado às pressas por quem está sozinho — e um cateter fino não entrega em minutos o volume que se quer entregar. Monitorização contínua, glicemia capilar imediata, eletrocardiograma de doze derivações com precordiais direitas, e oxigênio apenas se a saturação estiver abaixo do alvo escrito. Oxigênio não trata pressão baixa e não se prescreve por reflexo.
Prescrição- Acesso venoso periférico calibroso, cateter 18 ou maior, dois se possível; a escolha do sítio e do calibre e as complicações são de Acesso venoso periférico, na apostila de Procedimentos e Vias de Acesso
- Monitorização contínua de pressão, frequência cardíaca, frequência respiratória e oximetria; leito próximo ao posto de enfermagem; carrinho de emergência conferido
- Glicemia capilar imediata, e correção de hipoglicemia antes de qualquer outra hipótese
- Eletrocardiograma de doze derivações à beira do leito, acrescentando V3R e V4R — no operado hipotenso com jugular cheia, é o traçado que autoriza ou proíbe vasodilatador
- Coleta única: hemograma, tipagem sanguínea com prova cruzada, coagulograma, ureia, creatinina, sódio, potássio, glicemia e gasometria com lactato. Escrever no pedido a suspeita de sangramento
- Oxigênio suplementar apenas se a saturação estiver abaixo de 94%, titulado ao alvo escrito, conforme a conduta do protocolo nacional do SAMU 192
05h48 — o pescoço, a ausculta e o gatilho, que estão dentro do quarto
Com a cabeceira a 45 graus, a jugular de dona Romualda está colabada e a ausculta está limpa. Isso elimina, na prática, obstrução e falência de bomba, e autoriza volume. Falta o gatilho, e ele está a dois metros: o dreno com 460 mL de sangue vermelho homogêneo, contra 60 mL serossanguinolentos às vinte e três horas. Marque a hora ao lado do volume, circule a mancha do curativo com caneta, meça a circunferência abdominal e marque o ponto na pele. A partir daqui existe uma hipótese principal com nome — hemorragia cirúrgica no primeiro dia — e ela tem uma consequência: o destino provável não é uma droga.
Prescrição- Anotar dreno com volume, hora e descrição do conteúdo (cor, homogeneidade, presença de coágulo), e repetir a cada 30 minutos enquanto durar a instabilidade — a leitura do dreno como sinal de complicação é de Cento e vinte, sem febre, o capítulo 5 desta apostila
- Circunferência abdominal medida na cicatriz umbilical, com o ponto marcado a caneta na pele, valor e hora anotados; repetir a cada reavaliação
- Curativo com o limite da mancha circulado e datado; se estiver saturando, curativo compressivo e nova checagem em 15 minutos
- Ler a bomba de analgesia: qual droga, qual velocidade, desde que horas; e ler a ficha anestésica para saber tipo de bloqueio, nível e o que foi administrado na sala
- Suspender ou reduzir o que estiver contribuindo para a hipotensão e puder ser desligado: anestésico local em bomba de peridural, opioide de resgate, sedativo, e antibiótico correndo em bólus rápido — reprogramando a bomba para o tempo de infusão recomendado
- Registrar por escrito a hipótese principal e as duas que competem, porque é isso que a passagem de plantão precisa e é isso que o telefonema vai transmitir
05h50 — a prova de volume, com os quatro elementos e um teto
Jugular colabada com pulmão limpo autoriza volume, e volume aqui é tratamento e teste ao mesmo tempo. Preencha os quatro campos antes de liberar a infusão: montante, prazo, desfecho perseguido e horário do seu retorno. Divida — meio litro correndo em dez a quinze minutos é uma pergunta que se responde em quinze minutos; três litros diluídos num dia inteiro não perguntam nada. Estetoscópio nas bases antes e depois de cada bolsa. E entenda o teto que existe no operado e não existe no clínico: se a perda é cirúrgica e contínua, cristaloide compra tempo e não resolve, e cada litro a mais dilui os fatores de coagulação e a hemoglobina de quem está sangrando.
Prescrição- Ringer lactato ou soro fisiológico 0,9% em bolsas de 500 mL, infundidas em 10 a 15 minutos, com reavaliação entre elas — para 62 kg, 10 mL/kg são 620 mL, ou seja 1,2 bolsa; o ringer lactato é a primeira escolha na perda de sangue segundo o protocolo AC16 do SAMU 192, seguido da salina 0,9%, com a solução aquecida quando houver hipotermia
- Solução aquecida sempre que houver hipotermia, e neste caso há: o paciente do primeiro dia de pós-operatório costuma estar abaixo da normotermia, e cristaloide de temperatura ambiente esfria mais
- Critérios de parada escritos na própria prescrição: crepitação nova, queda de saturação, ortopneia ou turgência jugular que não havia. Qualquer um deles fecha a pinça na hora e obriga a reabrir o diagnóstico
- Alvo escrito em termos de perfusão, não apenas de número: retorno da diurese acima de 31 mL/h para 62 kg, reaquecimento da mão, enchimento capilar abaixo de dois segundos, consciência de volta ao basal — com a pressão média servindo de piso e não de meta
- Não repor com albumina, hidroxietilamido ou poligelina: nenhum dos três consta da Rename 2024, e a reposição do elenco nacional é cristaloide
- O cálculo da manutenção que vem depois da fase aguda, e a escolha da solução, são de Hidratação venosa: manutenção e reposição, na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado, que é o dono da hidratação
05h55 — o telefonema para quem operou, enquanto a primeira bolsa corre
Este é o marco que o interno mais adia e o que mais muda o desfecho. Chamar não é admitir derrota; é a conduta indicada. E há uma particularidade cirúrgica: a informação que mais reordena as hipóteses costuma não estar no prontuário, e sim na memória de quem operou — se houve dificuldade na anastomose, se um vaso foi ligado com dúvida, se o baço foi manipulado, se o campo estava contaminado. Ligue com a hipótese nomeada e com um pedido específico, não com uma narrativa esperando que o outro conclua.
Prescrição- Estruturar a ligação em seis informações, na mesma ordem: identificação e operação realizada com o dia de pós-operatório; pressão habitual contra a de agora, com a média calculada; o que a régua de exame mostrou — mão, jugular, ausculta, gatilho; o que já foi feito e há quantos minutos; a hipótese; e o pedido com prazo
- Pedir uma coisa nomeada: avaliação presencial em quinze minutos, reserva de hemocomponentes, autorização para iniciar noradrenalina em veia periférica, ou preparo de sala
- Perguntar explicitamente sobre a sala: se houve intercorrência, qual estrutura foi ligada, se ficou dreno em contato com a anastomose e o que ele deveria estar rendendo
- Avisar em paralelo a enfermagem em voz alta do que mudou, e deixar o gatilho escrito na prescrição com número e sintoma, para não depender de você estar por perto
- Registrar a hora da ligação, para quem foi feita, o que foi combinado e o horário da reavaliação que você mesmo marcou — a régua geral de quando e como acionar é de Chamar antes de ter certeza, na apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática
06h05 — o sangue: pedir cedo, decidir pela clínica
A tipagem foi na primeira coleta, o que já poupou vinte minutos. Agora decide-se transfundir, e a decisão nesta janela não é do hemograma. Na primeira hora de uma hemorragia aguda o que sai é sangue integral, e o interstício ainda não teve tempo de diluir o que restou; a hemoglobina volta normal com o paciente sangrando. Quem decide é o conjunto clínico — coração acelerado, pressão em queda, urina que rareia, respiração curta, polpa que demora a corar e consciência que muda. Dona Romualda apresenta cinco dos seis.
Prescrição- Concentrado de hemácias, com a indicação escrita pela clínica e não pelo hematócrito da primeira hora; uma unidade eleva o hematócrito em cerca de 3% e a hemoglobina em cerca de 1 g/dL no adulto de estatura média (Guia para uso de hemocomponentes, Ministério da Saúde, 2ª ed., 2015)
- Alvo no pós-operatório: o mesmo guia registra que, no paciente cirúrgico estável no pós-operatório e sem sinais de hipóxia tecidual, hemoglobina de 8 g/dL é aceitável — mas essa régua vale para o estável, e esta paciente não é
- Em urgência, é possível transfundir hemácias RhD positivo para paciente RhD negativo, conforme o mesmo guia; saber disso evita a espera que o desconhecimento produz
- Avisar a agência transfusional de que pode haver necessidade de várias unidades, porque o que atrasa é a fila e não a bolsa; e refazer a conferência entre a identificação da paciente e a etiqueta do componente antes de instalar
- Vigiar reação transfusional durante a infusão, cujo reconhecimento e a conduta de interrupção são de Reação transfusional, na apostila de Síndromes do Paciente Internado, que é o dono do assunto
- Repetir hemograma e coagulograma após a reposição inicial, para acompanhar a diluição e a coagulopatia que a própria reposição produz — e lembrar que o ácido tranexâmico injetável e o gluconato de cálcio não constam da Rename 2024, de modo que a disponibilidade deles depende da farmácia do serviço
06h20 — a noradrenalina, e o sinal que ela apaga
A pressão média subiu para 66 com o volume e voltou a cair para 60 em quinze minutos. Isso é resposta transitória, e resposta transitória em paciente operado do primeiro dia com dreno enchendo significa sangramento ativo. O vasopressor entra porque não se tolera perfusão de órgão nobre abaixo do piso enquanto a sala não abre — e entra com uma advertência escrita no prontuário: a partir de agora a pressão deixa de ser um marcador honesto de perda, porque a droga sustenta o número de quem continua sangrando. Titule pela perfusão.
Prescrição- Noradrenalina em infusão contínua, iniciando em 0,1 mcg/kg/min com ajuste a cada 15 minutos. Preparo: 4 ampolas de 4 mL de hemitartarato de norepinefrina 2 mg/mL somam 32 mg de sal, equivalentes a 16,1 mg de base; diluídas até 250 mL, a bolsa fica a 64,2 mcg/mL
- Vazão para 62 kg: 0,1 mcg/kg/min = 5,8 mL/h; 0,2 = 11,6 mL/h; 0,3 = 17,4 mL/h; 0,5 = 29,0 mL/h
- Enquanto for periférica: veia de grande calibre, de preferência antecubital, jamais em membro inferior nem em dorso da mão; sítio visível e inspecionado a cada 30 minutos, porque extravasamento causa necrose local
- Anotar a dose em mcg/kg/min além da vazão em mL/h — é a dose por quilo que se compara entre plantões, e a vazão muda com a diluição
- Escrever no prontuário, com estas palavras, que a partir do início do vasopressor a titulação é por perfusão: mão, enchimento capilar, diurese e consciência; e que a pressão isolada deixou de responder à pergunta sobre sangramento
- Necessidade crescente de droga — escalonamento sem resposta em duas horas — obriga a reabrir o diagnóstico, e no operado a primeira hipótese continua sendo a mesma: alguém precisa olhar dentro
06h40 até o dia seguinte — a sala, o que se faz enquanto ela não abre, e o que fica escrito
A decisão de reoperar é do cirurgião, e ela foi tomada às seis e quarenta com base em três coisas que o interno entregou prontas: resposta transitória documentada com hora, dreno com débito sanguíneo crescente descrito além do volume, e perfusão que não reaqueceu apesar de pressão sustentada por droga. Enquanto a sala é preparada, o paciente não fica esperando — ele continua recebendo o mesmo tratamento que receberia lá. E quando o episódio terminar, alguém precisa escrever o que aconteceu, porque o plantão seguinte não estava presente.
Prescrição- Manter volume, hemocomponentes e vasopressor correndo durante a espera e durante o transporte, com alguém que saiba conduzir intercorrência acompanhando a maca — estabilizar antes de transportar vale também para o trajeto até o centro cirúrgico
- Jejum confirmado, consentimento providenciado com quem de direito, e a família informada por você antes de o paciente descer; a forma de dar a notícia é de Comunicação de más notícias, na apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática
- Não pedir tomografia quando a decisão de operar já está tomada pelos achados clínicos: a imagem, aqui, é o exame que atrasa a sala
- Escrever no prontuário o episódio em quatro linhas — horário, achados, condutas e resposta —, com os números que sustentaram a decisão e não apenas a conclusão
- Passar o caso nominalmente na virada do plantão, com o dono da reavaliação, o horário do próximo exame pendente e o gatilho escrito de nova chamada; a forma da passagem é de Passagem de plantão, na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado
- Depois de estabilizada, revisar a prescrição inteira item por item — profilaxia de tromboembolismo suspensa e o momento de reintroduzi-la, que é de Duas contas que não se somam, o capítulo 2 desta apostila; analgesia; dieta; e o balanço hídrico somado por turno
Como saber se está funcionando
Reavaliar no operado tem uma diferença de natureza em relação ao paciente clínico, e ela vale ser dita antes da lista: aqui a reavaliação não serve só para ajustar a dose, serve para decidir se o problema ainda é clínico. Cada rodada de parâmetros responde a uma pergunta binária — isto continua sendo tratável com o que corre pela veia, ou alguém precisa olhar dentro? A hora do retorno se anota antes de você deixar o quarto; os parâmetros se escolhem antes do tratamento; e o desfecho perseguido já está registrado quando a infusão começa.
O parâmetro de maior valor não é nenhum dos números isolados: é a forma da resposta à carga de volume que você já deu, medida com hora anotada. Ela tem três formatos e cada um manda uma coisa diferente. Resposta sustentada significa que faltava volume, e permite continuar investigando. Resposta transitória — melhora que evapora em minutos — significa perda em curso, e no operado do primeiro dia isso é sangramento até prova em contrário: este paciente precisa de sala, não de mais uma bolsa. Ausência de resposta obriga a reabrir o diferencial inteiro, porque ou há perda maciça, ou há uma barreira mecânica que passou batida, ou os dois.
Uma advertência atravessa a lista. Assim que o vasopressor começa a correr, dois dos parâmetros abaixo ficam contaminados: a pressão, porque a droga a sustenta artificialmente, e a frequência cardíaca, porque a melhora da pressão a reduz. Os que continuam honestos são os de perfusão e os de perda — mão, enchimento capilar, diurese, consciência, dreno e circunferência abdominal. Escreva isso na evolução, para que o plantão das sete não interprete uma pressão sustentada por droga como paciente resolvido.
Esperado: Melhora sustentada da pressão E da perfusão, mantida aos 15 minutos: reaquecimento da mão, enchimento capilar caindo, diurese voltando. Sustentada é o único formato que autoriza continuar investigando sem chamar a sala.
Se não melhora: Melhora que recai: sangramento ativo até prova em contrário no operado recente — avise que a decisão saiu da categoria clínica e passou a ser de controle do foco, e não de mais um componente. Ausente: reabra o diferencial com a régua inteira, procurando barreira mecânica (jugular, ausculta, abdome) e perda oculta (retroperitônio, pelve, leito cirúrgico), e chame agora.
Esperado: Reaquecimento progressivo do dorso da mão e do antebraço, com enchimento abaixo de dois segundos. É o parâmetro que se recupera antes do número e o que distingue com mais segurança recuperação verdadeira de recuperação aparente.
Se não melhora: Verificar temperatura, perfusão e contexto, aquecendo quando indicado enquanto investiga causas de choque. Hipotermia ambiental pode alterar a pele, mas sua correção não deve adiar suporte ou avaliação de sangramento e outras causas.
Esperado: Acima de 0,5 mL por quilo por hora — para 62 quilos, o piso é 31 mL/h. O retorno da diurese é um dos sinais indiretos de reperfusão mais confiáveis e não depende de equipamento nenhum.
Se não melhora: Havendo sonda, drene a bolsa por completo e anote o horário do zero, para que a medida seguinte seja limpa. Oligúria que persiste depois de volume adequado tem três leituras no operado: perda que continua, hipertensão intra-abdominal comprimindo o rim por fora — meça a pressão vesical antes de repor mais — ou injúria renal já estabelecida, cujo manejo é de Injúria renal aguda, na apostila de Nefrologia. A taxa de diurese e a prova de volume são de Oligúria e balanço hídrico, na apostila de Síndromes do Paciente Internado.
Esperado: Queda da velocidade e clareamento progressivo do conteúdo. O que informa não é o total acumulado, é o volume por hora e a mudança de cor.
Se não melhora: Velocidade que sobe é sangramento que aumenta. E a leitura contraintuitiva: dreno que para de render em paciente que piora é achado de alarme, não de melhora — coágulo obstrui tubo, e é justamente o sangramento volumoso que forma coágulo. Dreno seco não exclui sangramento; o dreno recolhe o que a posição do tubo permite recolher.
Esperado: Estabilidade da medida. É o único jeito de transformar a impressão de que o abdome está mais cheio num número comparável entre plantões.
Se não melhora: Aumento progressivo com hipotensão aponta para sangramento intracavitário que não está saindo pelo dreno. Aumento com abdome tenso, oligúria que não responde a volume e pressão de ventilação subindo aponta para hipertensão intra-abdominal — meça pela bexiga, serie a medida, pare de repor e telefone com o número na mão.
Esperado: Estabilização entre duas dosagens. No paciente cirúrgico estável em pós-operatório, sem sinais de hipóxia tecidual, o Guia do Ministério da Saúde aceita 8 g/dL; abaixo de 7 g/dL há grande risco de hipóxia tecidual.
Se não melhora: Queda entre duas dosagens apesar de transfusão é perda que continua. E a armadilha inversa: valor normal na primeira hora não tranquiliza, porque o que sai é sangue integral e o restante ainda não foi diluído. Nunca deixe de procurar a fonte porque o hemograma voltou bom — a decisão de transfundir nessa janela é clínica.
Esperado: Dose parada ou em retirada gradual depois de controlada a causa, com a perfusão preservada. Registre os microgramas por quilo por minuto: é esse valor que se compara de um plantão a outro, já que a vazão em mililitros muda conforme a diluição.
Se não melhora: Necessidade crescente sem resposta em duas horas obriga a reabrir o diagnóstico, e no operado a lista é curta: sangramento não identificado, foco infeccioso não controlado, barreira mecânica, insuficiência adrenal. Subir a droga sem rever a hipótese equivale a tratar o número — e, no operado, equivale a adiar a sala.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro central deste capítulo porque não parece erro: parece experiência clínica. As quatro explicações são verdadeiras em algum paciente, e é isso que as torna perigosas — cada uma compra entre trinta e sessenta minutos, e no sangramento do primeiro dia esse é exatamente o intervalo em que a decisão ainda era barata. Repare no que cada uma esconde. A raqui esconde uma perda que continua e tem prazo próprio: o bloqueio regride e o paciente segue hipotenso. A dor esconde a taquicardia da hipovolemia, e é a que mais engana porque a dor de fato existe. O jejum explica hipovolemia leve e não explica livedo, quatro segundos de enchimento capilar ou confusão nova. E o frio da sala produz o mesmo achado físico do choque — extremidade fria — em um paciente que tem os dois problemas ao mesmo tempo.
Como pegar a tempo: Transforme cada álibi num teste com prazo, e escreva o prazo. Dor: analgesia adequada e reavaliação em quinze minutos — se a frequência cai e a pressão sobe, era dor; se as duas caem, você retirou a compensação e o diagnóstico apareceu. Frio: aqueça ativamente e reavalie em quinze minutos, porque aquecer é bom nos dois cenários e a reavaliação separa. Raqui e peridural: leia a ficha anestésica e a bomba, confira a regressão do bloqueio pelo movimento dos membros — item que a Resolução CFM 2.174/2017 obriga a monitorizar na sala de recuperação — e desligue o que pode ser desligado. Jejum: 500 mL em dez minutos, e a resposta responde.
O dano: No paciente clínico, correr soro sem os quatro elementos escritos produz um paciente sub-reposto ou um paciente congesto. No operado que sangra, produz uma terceira coisa e ela é pior: dilui. Cada litro de cristaloide a mais em quem tem perda cirúrgica contínua reduz a concentração de fatores de coagulação, reduz a hemoglobina e sobe a pressão o suficiente para deslocar coágulos que estavam segurando — e a melhora que aparece na tela é a melhora que atrasa a sala. Depois, quando o volume acumulado for de vários litros, ele reaparece como abdome tenso e como um paciente que não fecha.
Como pegar a tempo: Registre montante, prazo, desfecho perseguido e horário do seu retorno antes de a infusão começar, e divida a reposição em bolsas de 250 a 500 mL correndo em 10 a 15 minutos, com estetoscópio nas bases entre elas. No operado, some um quinto campo que o capítulo clínico dispensa: o que você fará se a melhora recair. Sem saber enunciar o que contaria como sucesso, aquilo ainda não é teste; sem saber enunciar o passo seguinte ao fracasso, ainda não é conduta cirúrgica.
O dano: O vasopressor faz o que promete: sobe a pressão. O que ele não faz é parar a perda, e a partir do momento em que ele começa a correr a pressão deixa de ser um marcador honesto de sangramento. O padrão do dano é sempre o mesmo — a droga sobe, o número melhora, a equipe relaxa, e a mão continua fria, a diurese continua zerada e o dreno continua rendendo. Quando a dose já está alta e alguém finalmente questiona, passaram-se duas horas em que a sala teria sido mais barata e o paciente teria chegado nela em melhores condições.
Como pegar a tempo: Registre no prontuário, no momento em que a droga começa, que a titulação passa a ser por perfusão — mão, enchimento capilar, diurese, consciência — e que a pressão isolada não responde mais à pergunta sobre perda. Anote a dose em mcg/kg/min, não só a vazão. E fixe um gatilho por escrito: necessidade crescente sem resposta em duas horas, ou escalonamento acima de um patamar combinado, obriga a reabrir o diagnóstico e a telefonar de novo. No operado, reabrir o diagnóstico significa perguntar quem vai olhar dentro.
O dano: Jugular túrgida com hipotensão parece congestão, e congestão parece indicação de diurético e de nitrato — e é aí que a leitura desmorona. Se a ausculta está limpa, o problema não é do lado esquerdo: é infarto de ventrículo direito, embolia pulmonar, pneumotórax hipertensivo ou tamponamento. Nesses quatro, vasodilatador derruba o pouco enchimento que resta, e no infarto de ventrículo direito ele é francamente perigoso. Diurético num paciente que não perfunde piora a perfusão em vez de descongestionar: primeiro se restaura o débito, depois se retira água.
Como pegar a tempo: Ausculte antes de prescrever, e faça o eletrocardiograma com precordiais direitas antes de qualquer vasodilatador no operado hipotenso. Jugular cheia com pulmão limpo é uma proibição, não uma indicação: proíbe tratar como congestão simples. E lembre que a única combinação em que volume ajuda com jugular cheia é o infarto de ventrículo direito — o que torna o traçado, e não a impressão, o dado que decide.
O dano: São dois erros com a mesma anatomia: usar um exame para adiar uma decisão que os achados clínicos já indicam. O hemograma da primeira hora de uma hemorragia aguda volta normal porque o que se perde é sangue integral, e a diluição do que restou ainda não ocorreu; quem aguarda esse número para transfundir aguarda uma informação que não existe. A tomografia, no paciente do primeiro dia com resposta transitória e dreno enchendo, não muda a conduta e custa o transporte — e o transporte de um paciente instável é o pior ponto do hospital para se deteriorar: sem via venosa que preste, sem monitor e sem quem saiba resolver uma intercorrência.
Como pegar a tempo: Pergunte, antes de pedir qualquer exame, o que muda na conduta com cada resultado possível. Se as duas respostas levam à mesma conduta, o exame não decide. Peça tipagem e prova cruzada na primeira coleta, escrevendo a suspeita de sangramento; decida transfusão pela clínica; e reserve a imagem para as situações em que ela escolhe entre dois caminhos — tipicamente entre drenagem percutânea e reabertura no paciente do quinto dia. Quando pedir, escreva a pergunta por extenso: um pedido que nomeia a suspeita volta com resposta, um pedido que diz apenas dor abdominal volta com alterações pós-operatórias esperadas.
O dano: O dreno é o exame mais barato da enfermaria cirúrgica e é o mais mal registrado. Sem a hora ao lado do volume, 400 mililitros em seis horas e 400 mililitros em uma hora ficam idênticos na folha, e a diferença entre os dois é a diferença entre acompanhar e operar. Sem a descrição do conteúdo, perde-se a única informação qualitativa disponível: serossanguinolento que clareia é evolução; vermelho homogêneo que não clareia é sangue; turvo ou entérico é vazamento. E há o erro de leitura invertida: o dreno que para de render em paciente que piora costuma estar obstruído por coágulo, e é o sangramento volumoso que forma coágulo.
Como pegar a tempo: Padronize o registro em três campos: volume, hora e descrição. Marque o nível na bolsa ou no reservatório com caneta e datilhe a hora, do mesmo modo que se circula a mancha do curativo. Ao passar o plantão, transmita a velocidade e a tendência, não o acumulado. E quando o débito cair num paciente que não melhorou, trate como alarme: reexamine o abdome, meça a circunferência no ponto marcado e telefone — a hipótese de dreno obstruído é hipótese cirúrgica, não é boa notícia.
O que dizer ao paciente e à família
O paciente operado em choque tem uma característica comunicativa própria: ele acha que o que está sentindo é o normal de quem operou. Dor, frio, náusea, moleza, sono — tudo isso ele foi avisado que aconteceria. Por isso ele não chama, não pede ajuda e responde que está bem quando perguntado de forma genérica. Perguntas fechadas e comparativas funcionam melhor do que perguntas abertas: não pergunte como está, pergunte se está pior do que ontem à noite, se está com mais frio do que estava, se a dor mudou de lugar.
Três regras valem para todas as falas seguintes. Anuncie a ação antes da suspeita: quem está deitado precisa saber, em primeiro lugar, que alguém já começou a agir. Não prometa desfecho, e admita a ignorância em voz alta quando ela existir. E carimbe hora em toda incerteza — dizer que ainda não se sabe só é aceitável colado a um horário de retorno. Com a família de paciente cirúrgico há uma quarta regra, e ela evita a maior parte dos conflitos: nunca deixe a família descobrir pela movimentação do corredor que o paciente vai voltar para a sala.
À paciente acordada, enquanto você examina e antes de qualquer conduta
“Dona Romualda, sou o interno da equipe e já chamei o médico responsável. Sua pressão caiu e vamos avaliá-la agora. Vou examinar sua circulação, respiração, abdome, curativo e dreno enquanto a equipe acompanha os sinais. A dor mudou de lugar ou de intensidade?”
Não diga: Não confunda lucidez com estabilidade: ela conversa porque o organismo sacrificou pele e rim para preservar o encéfalo, e esse arranjo pode não durar vinte minutos. Fuja também da pergunta aberta sobre como ela está — num pós-operatório, essa pergunta colhe sempre a mesma resposta.
Ao acompanhante que pergunta a gravidade antes de você ter resposta
“A pressão dela está bem abaixo do que vinha marcando, e o motivo exato eu ainda não tenho. Num pós-operatório há algumas causas possíveis, com tratamentos diferentes, então prefiro seguir uma ordem a chutar. Já tem soro correndo, os exames foram pedidos e a cirurgiã que a operou já foi avisada. Daqui a quinze minutos eu reexamino, sem sair do andar. Se ela não melhorar nesse prazo, mais gente vem, e o senhor fica sabendo na hora.”
Não diga: Não banalize com a frase de que é só a pressão, e não desfie a lista de hipóteses. A primeira cobra o preço depois; a segunda descarrega no acompanhante uma angústia que ele não tem como aproveitar. E não prometa que não haverá nova operação, porque é exatamente essa a frase que a família vai guardar.
À técnica de enfermagem que te chamou, no corredor, deixando os gatilhos escritos
“Você fez certo em me chamar, e a informação de que mediu duas vezes foi importante. Preciso de quatro coisas nas próximas duas horas: aferição de pressão a cada quinze minutos, até segunda ordem; a urina registrada em mililitros, com o horário ao lado; o dreno anotado com volume, hora e a cor do que sair, não só o volume; e um chamado imediato caso a sistólica caia abaixo de 85, caso o dreno renda mais de 100 mililitros em uma hora, caso ela fique mais sonolenta, ou caso o curativo ultrapasse a marca que eu circulei. Vou deixar tudo isso escrito na prescrição.”
Não diga: Não encomende um aviso genérico para o caso de piora: cada pessoa calibra essa palavra de um jeito às cinco da manhã. O gatilho tem de ter cifra, sintoma e prazo, e tem de estar no papel — senão depende de você estar por perto e de quem assume o turno adivinhar o que você quis dizer.
À cirurgiã que operou, ao telefone, com a primeira bolsa correndo
“Aqui é o interno da enfermaria de cirurgia. Leito 4, dona Romualda Itamonte, 71 anos, 62 quilos, primeiro dia de colectomia esquerda que você fez ontem à tarde. Vinha com pressão em torno de 130 por 78 e está 82 por 48, média de 59, com frequência de 126. Mão fria até o punho, enchimento capilar de quatro segundos, livedo no joelho, 90 mililitros de urina em quase seis horas. Jugular colabada, pulmão limpo. O dreno da pelve saiu de 60 mililitros serossanguinolentos às vinte e três horas para 460 de sangue vermelho homogêneo agora. Já corri 500 de ringer e vou repetir, já pedi tipagem e prova cruzada. Minha hipótese é sangramento. Estou ligando para pedir que você venha ver agora e para saber se posso já pedir reserva de hemocomponentes. E preciso te perguntar uma coisa da sala: houve alguma dificuldade na hemostasia, ou algum vaso que ficou com dúvida?”
Não diga: Não conte a história desde o início esperando que o outro chegue sozinho ao pedido. Formule o pedido com nome e prazo. E não deixe de fazer a pergunta sobre a sala: ela é a única informação da conversa que não está no prontuário, e é frequentemente a que muda a conduta.
À família, quando a decisão de reoperar já foi tomada
“Eu preciso te contar uma coisa e prefiro contar antes de você ver a movimentação no corredor. A dona Romualda está sangrando por dentro, num ponto da operação de ontem, e o sangue que está saindo pelo dreno mostra isso. Soro e sangue seguram a pressão dela por um tempo, mas não fecham o ponto que está sangrando — quem fecha é a cirurgia. Por isso a equipe decidiu levá-la de volta ao centro cirúrgico ainda esta manhã. Ela vai descer com soro correndo, com sangue e com monitor, acompanhada. Eu não sei quanto tempo vai durar e não vou inventar um horário, mas alguém vem falar com você assim que terminar.”
Não diga: Evite chamar de deu tudo certo e agora deu uma complicação, porque isso soa a desculpa. Evite prometer horário de término. E evite a palavra pequena aplicada à reoperação: nenhuma reoperação é pequena para quem está esperando no corredor. A forma completa de dar uma notícia difícil é de Comunicação de más notícias, na apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática.
Ao plantonista da sala de recuperação, quando querem subir para a enfermaria um paciente que ainda hipotende
“Antes de ele subir, queria mostrar duas coisas. A pressão dele está 88 por 50, e desde a admissão na recuperação ele não urinou; a mão está fria e o enchimento capilar está em três segundos. O bloqueio já está regredindo, porque ele mexe as pernas. Na enfermaria não vai ter monitor contínuo nem alguém medindo de quinze em quinze minutos. Eu queria que ele ficasse aqui até a pressão estabilizar e a diurese aparecer, ou então que subisse para um leito monitorado. A alta daqui é decisão sua, e eu estou registrando o que examinei.”
Não diga: Evite discutir hierarquia e evite pedir de forma vaga. Traga números e diga o que muda no destino. A alta da sala de recuperação é responsabilidade exclusiva do anestesista ou do plantonista daquele setor, pela Resolução CFM 2.174/2017 — o seu papel é entregar a informação completa e registrar que a entregou, com a hora.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Primeiro tempo, antes do controle do foco — o alvo baixo do protocolo nacional de urgência, 2014 com revisão de abril de 2015
O protocolo AC16 dos Protocolos Nacionais de Intervenção para o SAMU 192, no Suporte Avançado de Vida, manda repor volemia com solução cristaloide isotônica com o objetivo de manter a pressão sistólica acima de 80 mmHg, e considerar mantê-la acima de 90 mmHg no traumatismo cranioencefálico. É alvo de urgência pré-hospitalar: o paciente que o protocolo tem na frente ainda não chegou a quem possa fechar o ponto que sangra, e a avaliação primária que ele manda fazer já inclui identificar e controlar sangramentos. O protocolo não explica por que o número é tão baixo, e a explicação que vem a seguir é leitura deste capítulo e não citação dele: pressão mais alta empurra mais sangue pelo ponto que ainda não foi fechado, desloca coágulo já formado e, somada ao cristaloide que a produziu, dilui os fatores de coagulação de quem está perdendo sangue integral.
Ministério da Saúde. Protocolos Nacionais de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida, protocolo AC16 (Choque). Brasília, 2014; elaboração agosto/2014, revisão abril/2015.
Segundo tempo, depois do controle do foco — a hipotensão do perioperatório tem preço medido, diretriz brasileira de 2024
A Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória da Sociedade Brasileira de Cardiologia de 2024 cita coorte prospectiva de 251.567 pacientes em que sistólica abaixo de 119 mmHg e diastólica abaixo de 63 mmHg se associaram a aumento de mortalidade em trinta dias de pós-operatório, pede que o manejo pressórico considere esse efeito em jota e registra que a hipotensão perioperatória se associa a injúria cardíaca, renal e cerebral e a maior mortalidade. Cita ainda o estudo INPRESS, em que manter a sistólica dentro de 10% do valor de repouso do próprio paciente reduziu resposta inflamatória sistêmica e disfunção orgânica em sete dias, comparado à estratégia de só usar vasoconstritor abaixo de 80 mmHg ou abaixo de 40% do repouso. Repare no número que aparece nos dois documentos com papéis opostos: os 80 mmHg que o AC16 manda sustentar enquanto o foco sangra são, no braço de comparação do INPRESS, o gatilho da estratégia contra a qual o alvo individualizado reduziu disfunção orgânica, em pacientes de alto risco submetidos a cirurgia de grande porte.
Gualandro et al. Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2024. Arq Bras Cardiol. 2024;121(9):e20240590.
Defina metas conforme mecanismo do choque, estado do foco e resposta, e registre quando elas mudarem. Enquanto se organiza hemostasia, a reposição deve sustentar perfusão e evitar excesso sem atrasar tratamento definitivo. Após controlar o foco, reavalie a pressão em relação ao basal e às necessidades do paciente. O limiar pré-hospitalar citado e os achados de coorte não constituem metas universais para todo operado.
Patamar de regra: 7 g/dL, o gatilho restritivo, e ele vem com uma condição escrita — guia do Ministério da Saúde, 2015
Para a anemia normovolêmica, o guia registra que hemoglobina acima de 10 g/dL é bem tolerada e só excepcionalmente requer transfusão; que abaixo de 7 g/dL existe grande risco de hipóxia tecidual e o paciente se beneficia da transfusão; e que entre 7 e 10 g/dL a indicação depende da avaliação do estado clínico. Acrescenta que tem sido aceito, com alto grau de evidência, restringir a transfusão ao limiar de 7 g/dL, mesmo em terapia intensiva, no paciente sem sinais clínicos de hipóxia tecidual nem sintomas como dor precordial ou taquicardia que não responde à reposição volêmica — que é a leitura correta de uma frase que, ao pé da letra, diz o contrário, como está auditado nas notas do bloco de critério. No capítulo do paciente crítico, o quadro de orientações dá gatilho de 7,0 e meta de 7,0 a 9,0 ao crítico sem sangramento e ao crítico com doença cardíaca crônica. O limiar de 7 não é o número de todo mundo: é o número de quem não está mostrando sinal.
Ministério da Saúde. Guia para uso de hemocomponentes. 2. ed., 1. reimpr. Brasília, 2015. ISBN 978-85-334-2161-5: item 3.1.1 (indicações do concentrado de hemácias) e capítulo 7 (pacientes críticos), Quadro 23.
Patamar do operado: 8 g/dL — o guia de 2015 e a diretriz perioperatória de 2024 caem no mesmo número
O guia escreve que, nos pacientes cirúrgicos estáveis no pós-operatório, sem sinais de hipóxia tecidual ou consumo aumentado de oxigênio, hemoglobina de 8 g/dL é aceitável. No capítulo do paciente crítico, cita a recomendação de 2012 da AABB, a associação americana de bancos de sangue, de estratégia restritiva no paciente hospitalizado com doença cardiovascular preexistente: transfusão só se houver sintomas ou hemoglobina abaixo de 8 g/dL. A Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória de 2024 chega ao mesmo número por outro caminho: no fluxograma de conduta da injúria e do infarto miocárdicos perioperatórios, quando a causa é a anemia, manda transfundir abaixo de 8 e levar a hemoglobina acima de 8. A diretriz de 2024 fixa, portanto, um limiar transfusional — dentro de uma figura, e com a unidade impressa errada, o que está auditado com a conta nas notas do bloco de critério.
Ministério da Saúde. Guia para uso de hemocomponentes. 2. ed., 1. reimpr. Brasília, 2015: item 3.1.1 e capítulo 7; e Gualandro et al. Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2024. Arq Bras Cardiol. 2024;121(9):e20240590, Figura 10.
Degrau da síndrome coronariana aguda: 8 a 10 de gatilho e 10 de meta — o degrau que o próprio guia abre, com ressalva
Na seção de indicações, o guia diz que pacientes com cardiopatias isquêmicas agudas parecem se beneficiar de hemoglobina acima de 9 a 10 g/dL, e que acima de 65 anos, no paciente sintomático, é aceitável transfundir com hemoglobina abaixo de 9 g/dL. No capítulo do paciente crítico, nomeia a possível exceção à regra dos 7 — a síndrome coronariana aguda, isto é, angina instável e infarto —, e o quadro de orientações, adaptado de publicação de 2007, dá ao crítico com doença cardíaca aguda gatilho de 8,0 a 10,0 e meta de 10,0. O mesmo capítulo modula a faixa pela reserva: estratégia mais restritiva no jovem com boa reserva cardíaca, possivelmente mais liberal no idoso com menor reserva. E registra a ressalva que pede cautela: a recomendação da AABB que ele cita não define conduta para o hospitalizado hemodinamicamente estável com síndrome coronariana aguda, por ausência de evidência. Com o quadro ao lado, os três números deixam de ser rivais: 7 e 8 são gatilhos de pacientes diferentes, e a faixa de 9 a 10 da seção de indicações cabe inteira dentro do gatilho de 8 a 10 e não passa da meta de 10.
Ministério da Saúde. Guia para uso de hemocomponentes. 2. ed., 1. reimpr. Brasília, 2015: item 3.1.1 e capítulo 7 (pacientes críticos), incluindo o Quadro 23.
Diferencie hemorragia ativa e anemia após estabilização. No sangramento com hipoperfusão, não espere a hemoglobina atingir um corte para acionar sangue e hemostasia. No paciente estável, o capítulo apresenta 7 g/dL como referência restritiva, com patamares próprios para condições cardiovasculares e sintomas. Identifique a condição que justifica o limiar escolhido, registre-a e reavalie após cada unidade quando a situação permitir. Idade ou rótulo de cardiopatia, isoladamente, não encerram a decisão.
O diagnóstico e a reperfusão de emergência se decidem à beira do leito, pelo ecocardiograma — diretriz conjunta brasileira de 2022
A Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso de 2022 determina que, em todos os pacientes com suspeita clínica de tromboembolismo pulmonar e instabilidade hemodinâmica, o ecocardiograma é exame obrigatório; que um exame normal elimina em definitivo a hipótese de embolia maciça; e que a detecção de sobrecarga de pressão e disfunção do ventrículo direito, na ausência de outras causas óbvias, permite o diagnóstico de embolia maciça e a terapia de reperfusão de emergência mesmo quando angiotomografia ou cintilografia não podem ser realizadas. O documento não traz droga, dose nem contraindicação da reperfusão.
Albricker et al. Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso – 2022. Arq Bras Cardiol. 2022;118(4):797-857.
Decisão antitrombótica no operado se toma com o cirurgião, pesando o risco de sangramento — diretriz brasileira de 2024
A Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória de 2024 estabelece, para a decisão antitrombótica no paciente recém-operado, que a escolha do agente a ser acrescentado depende do risco de sangramento e deve ser discutida em conjunto com o cirurgião, dando preferência ao agente de menor risco hemorrágico nos pacientes de alto risco. O princípio que ela codifica é o de que, no pós-operatório recente, a decisão sobre antitrombóticos não pertence a um único especialista.
Gualandro et al. Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2024. Arq Bras Cardiol. 2024;121(9):e20240590.
Na suspeita de embolia pulmonar com instabilidade, inicie suporte e acione simultaneamente cirurgia e a equipe que decide reperfusão. Organize ecocardiograma à beira do leito e investigação compatível com a condição do paciente. Informe operação realizada, locais de sutura e risco de sangramento. A decisão sobre reperfusão ou transferência deve ocorrer em conjunto, com horários e resposta documentados.
O raciocínio, em voz alta
Onze e vinte da manhã, sala de recuperação pós-anestésica de um hospital geral de porte médio. Peniel Barbatimão tem 34 anos, 78 quilos, é pedreiro, e acabou de ser operado de hérnia inguinal direita sob raquianestesia. A operação durou cinquenta minutos e a ficha anestésica registra bloqueio com anestésico local hiperbárico, sem intercorrência. Ele chegou à recuperação às onze horas com 118 por 74 e frequência de 78. Às onze e vinte, o monitor mostra 84 por 46 e frequência de 52, e a técnica te chama porque o número caiu. Você é o interno da equipe de cirurgia e o anestesista está terminando de passar o caso seguinte na sala ao lado. Peniel está acordado, orientado, conversando, sem dor, sem náusea. A pele está quente e seca, o enchimento capilar volta em menos de dois segundos, e ele não consegue mexer as pernas.
Passo 1 — a combinação que não se parece com nenhuma das outras
Pele quente, enchimento capilar rápido e frequência de 52 após raquianestesia sugerem efeito do bloqueio simpático, mas não eliminam hipovolemia, causas cardíacas ou obstrutivas. Aciono o anestesista imediatamente, confirmo pressão e perfusão e procuro sangramento e outras causas em paralelo. Hipotensão após bloqueio pode progredir mesmo em paciente inicialmente lúcido.
Passo 2 — o dado da ficha anestésica que confirma, e o que ainda falta excluir
Confiro agente, dose, horário, posição e evolução na ficha e peço avaliação da altura e regressão do bloqueio. Não conseguir mover as pernas demonstra bloqueio motor, mas não determina sozinho que ele está no auge nem confirma nível alto. Examino respiração, fala, consciência, frequência e pressão em série e procuro sangramento e outras causas; o anestesista orienta as medidas.
Passo 3 — o que se faz primeiro, e é de graça
Monitorização contínua, acesso conferido, aquecimento e posição orientada pelo anestesista, considerando pressão, respiração e nível do bloqueio. Elevar as pernas pode aumentar transitoriamente retorno venoso se apropriado; não generalizar uma posição como segura para toda raquianestesia ou fazer afirmações fixas sobre ascensão do anestésico. Preparar suporte ventilatório se o bloqueio comprometer respiração, sem esperar dessaturação importante.
Passo 4 — volume, com alvo e com teto
Se houver indicação de expansão, administrar cristaloide em alíquotas tituladas, por exemplo 250–500 mL, e reavaliar perfusão, débito quando mensurável, congestão e pressão. Vasodilatação pode coexistir com hipovolemia ou sangramento; pele quente e ficha anestésica não demonstram ausência de perda. Não há teto universal de dois litros que prove necessidade exclusiva de vasoconstrição, nem justificativa para continuar bolsas sem avaliar resposta. Diante de hipotensão importante, acionar anestesiologia e considerar vasopressor e investigação em paralelo, conforme fisiologia.
Passo 5 — a bradicardia, que aqui não é achado acessório
Na hipotensão do bloqueio alto, a frequência baixa é parte do mecanismo, não uma coincidência. Frequência de 52 num paciente hipotenso significa que o débito perdeu as duas alavancas ao mesmo tempo — volume ejetado e frequência. É a situação em que o vasoconstritor puro pode piorar a frequência por reflexo, e em que atropina tem papel. Sulfato de atropina 0,25 mg/mL consta do componente básico da Rename 2024, o que não garante estoque: confirmar a apresentação disponível no serviço. A dose e a decisão são do anestesista responsável, que precisa ser chamado agora — e chamá-lo é conduta, não hesitação.
Passo 6 — o achado de elenco que muda o que existe no carrinho
A hipotensão do bloqueio é classicamente tratada com bólus de vasoconstritor de meia-vida curta. Consulta à Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 mostra que efedrina, fenilefrina, metaraminol e etilefrina não constam em nenhuma apresentação. Os vasoativos injetáveis do elenco nacional são hemitartarato de norepinefrina 2 mg/mL, epinefrina 1 mg/mL, cloridrato de dopamina 5 mg/mL e cloridrato de dobutamina 12,5 mg/mL. Num serviço que se abastece estritamente pelo elenco, a sequência disponível é posição, volume, atropina para a bradicardia e noradrenalina em infusão se for preciso — e vale saber disso antes de precisar, não na hora.
Passo 7 — o desfecho, e a decisão que não é sua
Com as pernas elevadas, 500 mL de cristaloide e 0,5 mg de atropina prescritos pelo anestesista, a frequência sobe para 74 e a pressão para 112 por 68 em doze minutos. Peniel continua lúcido, quente, urinando. Uma hora depois o bloqueio começa a regredir e ele mexe os pés. A alta da sala de recuperação, no entanto, não é decisão sua: pela Resolução CFM nº 2.174/2017, publicada no Diário Oficial em 27 de fevereiro de 2018 e ainda apontada como régua vigente por resolução do mesmo conselho de 2025, a alta da recuperação é responsabilidade exclusiva de um médico anestesista ou do plantonista daquele setor.
Passo 8 — o que fica escrito, e por que importa
Registre o episódio com os números e com a interpretação: pressão e frequência antes e depois, o padrão de perfusão que sustentou o diagnóstico de bloqueio alto, o que foi administrado, a resposta e a hora. E deixe escrito, para a enfermaria que vai receber esse paciente, que ele teve hipotensão por bloqueio e qual foi o nível — porque a próxima queda de pressão dele, se acontecer às três da manhã, vai ser lida por outra pessoa que não estava aqui, e ela precisa saber a diferença entre um episódio já explicado e um episódio novo.
Faça você
Quinta-feira, quatro e dez da tarde, enfermaria de cirurgia de um hospital municipal de setenta leitos, a cento e vinte quilômetros do hospital estadual que tem terapia intensiva com vaga regulada. Obadias Vassoural tem 66 anos, 70 quilos, foi motorista de caminhão, e está no quarto dia de pós-operatório de gastrectomia subtotal por adenocarcinoma. Vinha bem: no segundo dia a frequência caía, no terceiro eliminou flatos. Hoje de manhã a visita registrou frequência de 112 e temperatura de 37,4 °C, e alguém escreveu que a dor estava um pouco maior. Agora, à tarde, a técnica te chama: pressão 86 por 44, frequência 128, temperatura 38,6 °C, saturação 93% em ar ambiente. Ele está sonolento, responde devagar, e diz que a barriga dói mais do que ontem. A pele está quente e úmida nos ombros e o enchimento capilar volta em três segundos. O dreno subfrênico, que ontem tinha 40 mL de líquido seroso claro, está com 180 mL de líquido turvo, amarelado e com odor. A diurese das últimas seis horas somou 110 mL. A jugular está colabada e a ausculta pulmonar está limpa. Não há vaga em leito monitorado no seu hospital e a regulação foi acionada há uma hora por outro paciente. Complete os passos.
Passo 1
Aplique a régua de quatro perguntas a este paciente e diga qual mecanismo fica de pé, citando qual resposta eliminou o quê.
Passo 2
Diga por que a pele quente com enchimento capilar de três segundos não é contraditória, e o que ela informa sobre a fase do quadro.
Passo 3
Nomeie o achado que aponta a causa cirúrgica, e diga o que muda por ele ser cirúrgico e não clínico.
Passo 4
Escreva a prescrição dos primeiros vinte minutos com os quatro elementos da prova de volume e o alvo em termos de perfusão, calculados para 70 quilos.
Passo 5
Decida se pede tomografia e justifique com a pergunta que ela responderia; diga o que precisa estar garantido antes do transporte.
Passo 6
Estruture o telefonema para o cirurgião e o pedido à regulação, dizendo o que cada um decide, e escreva os gatilhos que ficam com a enfermagem.
Continuidade do caso e prática do internato
No caso de Peniel, separe a hipótese mais provável das causas que ainda precisam ser avaliadas e descreva o contato imediato com anestesiologia.
Questão integrativa 1
Pele quente e bradicardia excluem choque hemorrágico?
Questão integrativa 2
Manguito antes e depois de elevar pernas é teste definitivo de responsividade?
Questão integrativa 3
Responder a fluidos significa precisar de mais fluidos?
Questão integrativa 4
Deve esperar 25 minutos para telefonar no choque?
Questão integrativa 5
Imobilidade das pernas prova bloqueio alto no auge?
Questão integrativa 6
Como o interno se apresenta ao paciente?
Ver como fecharíamos
Passo 1 — A primeira pergunta, sobre a extremidade, encontra pele quente e úmida com enchimento capilar de três segundos: esse conjunto pode acompanhar choque distributivo, mas não define sozinho a resistência vascular nem exclui outros mecanismos. A segunda, sobre a jugular, encontra coluna colabada, achado compatível com baixo enchimento, sem eliminar choque cardiogênico ou obstrutivo. A terceira, sobre a ausculta, continua necessária; pulmões sem ruídos adventícios não excluem disfunção cardíaca ou congestão. A quarta, sobre o gatilho, encontra febre de 38,6 °C, dor abdominal que aumentou e um dreno que mudou de seroso claro para turvo e com odor, no quarto dia de uma gastrectomia. O conjunto favorece choque distributivo por sepse de foco abdominal, com possível hipovolemia associada. Mecanismos podem coexistir: reavalie após as intervenções e integre ultrassom à beira do leito quando disponível e apropriado. Passo 2 — Não há contradição. No distributivo em fase inicial a resistência vascular costuma estar baixa e o débito pode estar alto, de modo que a pele pode estar quente e rosada enquanto rim e cérebro já estão mal perfundidos: a sonolência e os 110 mL de urina em seis horas — abaixo do piso de 35 mL/h para 70 quilos — são esses territórios avisando. O enchimento capilar de três segundos deve ser interpretado com os demais sinais e sua evolução; isoladamente, não demonstra mudança de fase nem início de vasoconstrição. A leitura correta é que a pele orienta e não decide, e que exigir extremidade fria para chamar de choque é o erro que atrasa a conduta em quem ainda tem pele quente. Vale registrar que o próprio protocolo nacional do SAMU escreve, na observação do protocolo de choque, que o choque séptico é a associação da sepse com sinais de hipoperfusão, não sendo obrigatória a presença de hipotensão — e aqui a hipotensão já está presente, o que só torna o quadro mais tardio. Passo 3 — O achado que aponta a causa cirúrgica é o dreno que mudou de caráter: de seroso claro para turvo, amarelado e com odor, com o volume subindo de 40 para 180 mL em vinte e quatro horas. Isso descreve conteúdo infectado ou entérico saindo de uma cavidade operada, na janela clássica de falha de anastomose, e o diagnóstico dessa complicação — a cronologia, o que o líquido do dreno responde, quando pedir imagem e com que contraste — pertence a Cento e vinte, sem febre, o capítulo 5 desta apostila, que é o dono das complicações pós-operatórias. O que muda por ser cirúrgico é a coisa mais importante deste caso: existe um foco mecânico que antibiótico nenhum alcança. O tratamento tem duas metades — a metade que corre pela veia e a metade que exige alguém abrir, drenar ou puncionar — e conduzir só a primeira é meia conduta. É por isso que, quando o choque não melhora com vasopressor crescente, a primeira hipótese no paciente operado é foco não controlado. Passo 4 — Dois acessos periféricos calibrosos, monitorização contínua, glicemia capilar, oxigênio titulado se a saturação cair abaixo do alvo, e coleta única com hemograma, cultura, função renal, eletrólitos, coagulograma e lactato, colhidas antes do antimicrobiano quando isso não atrasar a droga. Antimicrobiano de amplo espectro cobrindo flora entérica, iniciado imediatamente após a identificação — o esquema, o relógio da primeira hora e o pacote inteiro são de Sepse: reconhecer e tratar na primeira hora, na apostila de Medicina Intensiva e Emergências, que é o dono do assunto, e este capítulo não o reescreve. A prova de volume com os quatro elementos escritos, para 70 quilos: quanto — bolsas de 500 mL de cristaloide isotônico, começando por 10 mL/kg, que dão 700 mL, ou seja 1,4 bolsa; em quanto tempo — cada bolsa em 10 a 15 minutos, fracionada, com ausculta das bases entre elas; para chegar onde — retorno da diurese acima de 35 mL/h, reaquecimento e enchimento capilar abaixo de dois segundos, consciência voltando ao basal, com a pressão média servindo de piso; quando você volta — às quatro e trinta, com a hora escrita na prescrição. Critérios de parada na própria prescrição: crepitação nova, queda de saturação ou turgência jugular que não havia. Se a pressão média não sustentar depois da reposição inicial, noradrenalina por veia periférica de bom calibre, sem aguardar a punção central: bolsa de 4 ampolas de 4 mL de hemitartarato de norepinefrina 2 mg/mL diluídas até 250 mL, que fica a 64,2 mcg/mL, iniciando a 0,1 mcg/kg/min — para 70 quilos, 7,0 mcg/min, ou seja 6,5 mL/h. Passo 5 — Sim, pede-se tomografia de abdome e pelve com contraste endovenoso, e a pergunta que ela responde é a que decide o destino: onde está a coleção e se ela é puncionável por via percutânea ou exige reabertura. Esse é exatamente o caso em que a imagem escolhe entre dois caminhos, e por isso vale o transporte — diferente do paciente do primeiro dia com dreno enchendo de sangue e resposta transitória, em que a decisão de sala já está tomada e a tomografia só atrasa. Escreva o pedido por extenso, nomeando o quarto dia de gastrectomia subtotal e a suspeita de deiscência com coleção. Antes de transportar, garanta: acesso pérvio e testado, monitorização durante o trajeto, oxigênio, material de intercorrência junto, e uma pessoa treinada acompanhando a maca — não uma técnica e um maqueiro. Se a pressão só se sustenta com noradrenalina, ela vai correndo com ele, em bomba, com a dose anotada. Sobre o contraste no paciente oligúrico, a decisão se defende pelo que a imagem muda: aqui ela muda a conduta nas próximas horas, então se faz, com o paciente o mais reposto possível, e a decisão fica registrada com o motivo. Passo 6 — Ao cirurgião que operou, na ordem fixa: identificação e operação com o dia de pós-operatório; a pressão habitual contra a de agora, com a média calculada; o que a régua de exame mostrou, incluindo jugular colabada e pulmão limpo; a mudança de caráter do dreno, com os dois volumes e as duas descrições; o que já foi feito e há quantos minutos; a hipótese de deiscência com coleção e sepse de foco abdominal; e o pedido explícito — avaliação presencial agora e definição sobre drenagem percutânea ou reabertura. Faça também a pergunta que só ele responde: como estava a anastomose no fim da operação e onde exatamente está a ponta do dreno. À regulação, o pedido é outro e decide outra coisa: vaga em leito monitorado, com a gravidade objetivada — sepse com hipotensão que precisou de vasopressor, no quarto dia de gastrectomia, num hospital sem terapia intensiva. Peça as duas coisas em paralelo e anote a hora de cada ligação, porque as duas filas correm em paralelo e nenhuma das duas espera pela outra; a régua de como acionar e escalonar é de Chamar antes de ter certeza, na apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática. Com a enfermagem, deixe escrito: pressão de quinze em quinze minutos; diurese horária anotada em mililitros com a hora; dreno com volume, hora e descrição do conteúdo a cada duas horas; e chamada imediata se a sistólica cair abaixo de 85, se a diurese ficar abaixo de 35 mL em uma hora, se a sonolência aumentar ou se a saturação cair abaixo de 92%. Gatilho é número, sintoma e prazo, e vai escrito na prescrição. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. Sugerem determinados mecanismos, mas sinais podem ser atípicos e causas podem coexistir. 2. Não. A interpretação é mais robusta com medida adequada de fluxo ou volume sistólico; pressão isolada tem limitações. 3. Não. É preciso haver benefício clínico esperado e considerar congestão e a causa da hipoperfusão. 4. Não. A chamada de ajuda é imediata e ocorre junto ao suporte. 5. Não. É necessário avaliar extensão, tempo, regressão e repercussão respiratória e hemodinâmica. 6. Como interno da equipe, explicando a avaliação e a participação do médico responsável, sem se identificar como médico plantonista.
O conjunto descreve hipertensão intra-abdominal: o abdome distendido comprime a veia cava inferior por fora, reduz o retorno venoso e comprime o próprio rim, produzindo oligúria que não é por falta de volume — é por compressão. Nesse cenário mais cristaloide alimenta a causa. A palpação não estima pressão intra-abdominal com confiabilidade, e por isso se mede pela via vesical, com a bexiga esvaziada, volume pequeno de salina instilado, transdutor zerado na linha axilar média na altura da crista ilíaca e leitura no fim da expiração com a parede relaxada; o que importa é a série, não o ponto isolado. As medidas iniciais cabem ao plantão: sonda nasogástrica aberta, esvaziamento do reto, suspensão de dieta e nutrição enteral, analgesia e sedação para relaxar a parede, e a decisão de parar de repor. Quando o número não cede com disfunção orgânica persistente, a solução é descompressão cirúrgica, e ela é decisão do cirurgião.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Sete dias depois, responda sem consultar. O que é choque, e por que o número da pressão é o último parâmetro a cair? Quais são as quatro explicações cômodas da hipotensão no pós-operatório recente, e que teste com prazo derruba cada uma delas? Quais são as quatro perguntas que separam os tipos à beira do leito, na ordem, e o que a combinação jugular cheia com pulmão limpo proíbe você de fazer? Quais são os três formatos de resposta à carga de volume, e qual deles significa que o paciente precisa de sala e não de mais uma bolsa? E por que dreno que para de render num paciente que piora é alarme, e não boa notícia?
Em 30 dias
Trinta dias depois, reconstrua o capítulo inteiro em voz alta, cronometrando. Percorra a linha do tempo de dona Romualda, dos dois minutos com a mão até a decisão de sala, detalhando o que se faz em cada faixa e a razão de fazê-lo. Calcule a pressão arterial média de 82 por 48 e o índice de choque com frequência de 126. Reconstrua o caminho aritmético que vai de 0,1 mcg/kg/min de noradrenalina até os mililitros por hora, para 62 quilos, numa bolsa a 64,2 mcg/mL, apontando onde o miligrama de sal se converte em miligrama de base. Explique por que uma hemoglobina normal colhida na primeira hora de um sangramento não é notícia boa, e diga qual limiar o guia nacional aceita no cirúrgico estável. Enuncie os cinco mecanismos de choque do operado com a janela de dia em que cada um aparece, e por que o obstrutivo não respeita calendário nenhum. Explique o que muda quando o vasopressor começa a correr — o que ele sustenta e o que ele apaga. E diga, com suas palavras, quais são as três situações em que a resposta não é droga, é sala.
Agora atenda
Agora atenda. Vai chegar um paciente operado há poucas horas ou poucos dias, com a pressão caindo e um quarto cheio de explicações cômodas. O que se cobra de você é a ordem: examinar a perfusão com a própria mão antes de qualquer prescrição, procurar a jugular antes de escolher o líquido, auscultar antes de concluir, e só então caçar o gatilho onde ele está — no dreno, no curativo, no abdome que aumenta, na bomba de analgesia, na ficha anestésica. O paciente-IA devolve o que for perguntado e mostra o que for examinado — quer dizer que o exame omitido também deixa marca no resultado: se você não pegar a mão, não vai saber que ela está fria; se não olhar o dreno, não vai saber o que mudou nele. Repare especialmente na temperatura das extremidades sentida até o punho, no enchimento capilar contado por você, na diurese somada com a hora, no conteúdo do dreno além do volume e na velocidade com que a bomba de peridural está correndo. E, ao prescrever volume, escreva os quatro elementos — quanto, em quanto tempo, para chegar onde e quando você volta — antes de abrir a pinça. A pergunta final que este caso cobra não é qual droga: é se este paciente ainda é um problema clínico ou se alguém precisa olhar dentro.
