Clínica Médica › Prescrição e Cuidado do Paciente Internado
Ajuste de dose na disfunção renal e hepática
A creatinina de 1,1 mg/dL que sai marcada como normal no exame é, numa senhora de 52 quilos, uma depuração de 34 mL/min. Este capítulo é sobre estimar a função, decidir se muda a dose ou o intervalo, e reconhecer as drogas que não perdoam.
Ministério da Saúde — Formulário Terapêutico Nacional 2010 (Rename 2010). Brasília: Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos
Ministério da Saúde / Conitec — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Hepatite C e Coinfecções, 2018
Ministério da Saúde — Manual de Perícia Médica, 2ª edição: Doença Hepática
ISMP Brasil — Medicamentos potencialmente perigosos de uso hospitalar: lista atualizada 2019. Boletim ISMP Brasil, volume 8, número 1, fevereiro de 2019
Sociedade Brasileira de Diabetes — Tratamento farmacológico da hiperglicemia no diabetes melito tipo 2 (Diretriz da SBD)
Rodrigues GA, Alves JWS, Souza RML, Vasconcelos LS, Moura CA, Brandão R, Moreira FSM — Ajuste de dose dos medicamentos de acordo com a função renal em um hospital universitário. Infarma – Ciências Farmacêuticas (Conselho Federal de Farmácia), 2021;33(3)
Kirsztajn GM — Avaliação de função renal. Jornal Brasileiro de Nefrologia (Sociedade Brasileira de Nefrologia), 2009;31(supl.1):14-20
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KDIGO 2012 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease. Kidney International Supplements, 2013;3(1)
Bula profissional da enoxaparina sódica (NOXX, Blau Farmacêutica), aprovada pela Anvisa
Bula profissional da rivaroxabana (Rivaxa), aprovada pela Anvisa
Periáñez Párraga L, Martínez López I, Ventayol Bosch P, Puigventós Latorre F, Delgado Sánchez O — Recomendaciones para la dosificación de medicamentos en pacientes con insuficiencia hepática crónica. Revista Española de Enfermedades Digestivas, 2012;104(4):173-88
Rybak MJ e cols. — Therapeutic monitoring of vancomycin for serious methicillin-resistant Staphylococcus aureus infections: a revised consensus guideline and review by ASHP, IDSA, PIDS and SIDP. American Journal of Health-System Pharmacy, 2020;77(11)
KDIGO. CKD Guideline, 2024. https://kdigo.org/wp-content/uploads/2024/03/KDIGO-2024-CKD-Guideline.pdf
DailyMed. Ciprofloxacin immediate-release tablets, bula consultada. https://dailymed.nlm.nih.gov/dailymed/lookup.cfm?setid=4f600112-168a-4a58-9914-7c01f71894da
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AASLD. Palliative care and symptom-based management in decompensated cirrhosis, 2022. https://aasldpubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/hep.32378
Responda antes de ler
Homem de 68 anos, 70 kg, internado com sepse de foco abdominal e depuração de creatinina estimada em 22 mL/min. A equipe vai iniciar antimicrobiano que exige dose de ataque. Qual conduta é correta em relação a essa dose?
O paciente que você vai ver
Seis e meia da manhã, leito 14. Dona Neusa tem 79 anos, 52 quilos, 1,54 m, e entrou anteontem pelo pronto-socorro com pielonefrite. Está melhor: febre cedeu, come pouco, ainda enjoa. A prescrição do dia já está impressa — a residente de plantão copiou a de ontem, que era cópia da da admissão.
No exame de hoje, a creatinina é 1,1 mg/dL. O laboratório imprime a faixa de referência ao lado: 0,5 a 1,2. Não há asterisco, não há seta, não há destaque. É um número dentro do normal, e todo mundo que olhou aquela folha nos últimos dois dias passou por ele sem parar.
A prescrição tem seis linhas ativas: ciprofloxacino 500 mg por via oral de 12 em 12 horas; metformina 850 mg de 12 em 12 horas, que ela usa em casa; losartana 50 mg pela manhã, idem; enoxaparina 40 mg por via subcutânea uma vez ao dia; dipirona se dor; e cetoprofeno 100 mg intravenoso de 12 em 12 horas, prescrito no primeiro dia pela dor lombar e nunca revisto.
Naquela senhora, aquela creatinina significa uma depuração de 34 mL/min. Três das seis linhas estão erradas por causa disso, uma está certa por acaso, e nenhuma delas parece errada ao olhar. O erro não vai aparecer hoje: vai aparecer no terceiro dia, como sonolência, como creatinina de 2,1, ou como o hematoma que ninguém sabe explicar. Este capítulo é sobre enxergar isso na visita, com a folha na mão.
Quem adoece disso
Um serviço de clínica médica de hospital universitário em Pernambuco revisou as prescrições de 245 pacientes internados entre setembro de 2019 e fevereiro de 2020. Quarenta e cinco deles — 18,3% — ficaram de fora da análise por um motivo que já é o primeiro achado: não havia creatinina registrada. Não se ajusta o que não se mediu, e em quase um em cada cinco internados o dado sequer existia no prontuário.
Entre os 48 pacientes que tinham função renal alterada e usavam medicamento de excreção renal, 60,4% receberam ao menos uma prescrição com dose não ajustada. Não é um deslize de um plantão ruim: é a conduta majoritária. E o grupo de fármacos mais envolvido foi o dos antimicrobianos — justamente os que a enfermaria prescreve todo dia, e justamente aqueles em que a dose errada tanto intoxica quanto falha.
Quem paga a conta é uma lista pequena e previsível. O ISMP Brasil, na lista de medicamentos potencialmente perigosos de uso hospitalar, classifica como classes de alto risco exatamente as que este capítulo percorre: antitrombóticos (heparinas de baixo peso molecular e anticoagulantes orais diretos), insulinas em qualquer via, analgésicos opioides e sulfonilureias orais. São medicamentos em que o erro não é mais frequente que nos outros — é mais grave, com dano permanente ou morte.
A leitura clínica disso é direta: numa enfermaria de adultos, a prescrição não ajustada à função renal não é uma exceção a caçar, é o estado padrão a desfazer. E como a maioria dos internados de clínica médica é idosa, a pergunta 'qual a depuração deste paciente?' não é um refinamento de nefrologista — é parte da visita, como olhar o balanço hídrico.
Por que acontece o que acontece
A depuração total de um fármaco é a soma do que o rim tira com o que o fígado e outras vias tiram. Quando o rim perde função, o que muda é apenas a primeira parcela — e por isso o tamanho do problema depende inteiramente de quanto daquele fármaco sai pela urina em forma ativa. Um fármaco que se elimina quase todo inalterado pela urina, como a gentamicina, a digoxina, a vancomicina, o lítio e a maioria dos betalactâmicos, acumula proporcionalmente ao déficit de filtração. Um que se elimina em metabólitos inativos ou por via extrarrenal quase não sente. É por isso que a régua não é 'reduzir tudo' nem 'reduzir nada': é saber por onde cada droga sai.
O que acumula não é a dose, é a concentração no estado de equilíbrio. Ela é proporcional à dose por intervalo dividida pela depuração — de modo que um paciente com um terço da depuração, recebendo a dose plena, chega a cerca do triplo da concentração de quem tem rim normal. E chega tarde: como a meia-vida se alonga na mesma proporção, o equilíbrio, que exige quatro a cinco meias-vidas, demora dias em vez de horas. Essa é a razão técnica de o dano da dose plena aparecer no terceiro dia, e não na primeira administração — e a razão de a prescrição parecer estar dando certo justamente enquanto o erro se constrói.
Há uma consequência prática que quase todo interno inverte: a dose de ataque não muda. Ataque preenche o volume de distribuição, que a insuficiência renal não reduz; manutenção repõe o que a depuração tira, e é essa que cai. O Formulário Terapêutico Nacional é explícito no ponto — no caso de ser necessária dose de ataque, ela não precisa ser modificada. Quem corta o ataque 'porque o rim está ruim' entrega um antibiótico subterapêutico nas primeiras 24 horas de uma sepse, que é exatamente quando ele decidia alguma coisa.
Reduzir dose mantendo intervalo tende a reduzir picos e vales. Alargar intervalo mantendo dose preserva mais o pico e permite queda maior antes da próxima administração. O efeito clínico depende da farmacocinética e farmacodinâmica; nenhuma estratégia é universalmente mais reversível ou segura.
Aminoglicosídeos têm atividade dependente de concentração e efeito pós-antibiótico. Intervalos estendidos podem preservar exposição eficaz e reduzir acúmulo, mas precisam de protocolo e níveis; dose menor também reduz exposição, não é correto afirmar que nunca protege. Na disfunção instável, repetir doses sem monitorização pode ser perigoso. Betalactâmicos dependem do tempo acima da concentração inibitória: intervalo excessivo pode subtratar, sendo necessário ajustar dose, intervalo e eventualmente tempo de infusão de forma específica.
No fígado, a mesma pergunta não tem resposta com a mesma qualidade, e é importante saber por quê. Não existe equação equivalente à da depuração de creatinina porque não existe um marcador endógeno que se produza a taxa constante e se elimine só pelo fígado: a complexidade do metabolismo hepático impediu o desenvolvimento de uma ferramenta desse tipo, e a clínica segue sem algoritmo de referência para dosar em hepatopatia. Some-se a isso a reserva enorme do órgão — mesmo na cirrose grave, o comprometimento metabólico fica em torno de 30% a 50% da capacidade de quem tem fígado normal —, e o resultado é que a maior parte das drogas não precisa de ajuste, mas as que precisam precisam muito.
O que o Child-Pugh mede é síntese e descompensação: albumina e tempo de protrombina dizem o que o fígado ainda fabrica; ascite e encefalopatia dizem o quanto a doença já escapou do controle; a bilirrubina fecha o quadro. Ele foi construído para estratificar risco cirúrgico e prever sobrevida, e é nisso que é bom. O que ele não mede é a atividade das enzimas que metabolizam o fármaco na sua frente — e por isso serve como sinalizador de risco, não como fator de correção. Não há como dividir a dose por um escore de Child-Pugh do jeito que se multiplica pela razão de depurações.
Em compensação, a cirrose muda quatro coisas que decidem prescrição, e todas são clínicas. A queda do metabolismo de primeira passagem eleva a biodisponibilidade oral de drogas de alta extração, de modo que a mesma dose vira mais fármaco na circulação. A hipoalbuminemia aumenta a fração livre — ativa — de tudo que circula ligado à albumina. A queda dos fatores de coagulação e a hipertensão portal com varizes fazem de qualquer coisa que mexa com a hemostasia um risco desproporcional. E a encefalopatia, instalada ou latente, torna o paciente muito mais sensível a depressores do sistema nervoso central: opioides, benzodiazepínicos, fenobarbital e prometazina podem precipitar coma. Some-se a retenção de sódio e água, que anti-inflamatórios e corticoides pioram, e um rim que costuma estar ruim com creatinina baixa — porque falta músculo para produzi-la.

Como se apresenta de verdade
A creatinina não mede o rim: mede o equilíbrio entre o que o músculo produz e o que o rim elimina. Todo paciente cuja produção de creatinina é atipicamente baixa vai exibir um número tranquilizador com uma função ruim — e é essa a população que a dose plena machuca.
Vale ainda uma trava de sensibilidade, e ela é grande: é necessária uma redução superior a 50% na filtração glomerular antes de haver aumento na creatinina sérica. Quando o número finalmente se mexe, metade da função já foi. Quem espera a creatinina 'alterar' para pensar em dose está sempre um passo atrasado.
Percurso de aprendizagem
Confira qual estimativa a bula usa e se o paciente está em equilíbrio. Na obesidade, sarcopenia, cirrose e lesão aguda, reconheça as limitações da conta.
Diferencie dose inicial, manutenção, intervalo e monitorização. Evite subtratar infecção ao aplicar uma redução genérica ou uma tabela antiga fora da faixa correta.
Revise também analgésicos, anticoagulantes e medicamentos crônicos. Suspensões temporárias precisam de critério de retomada e dose reavaliada.
O idoso magro — o paciente arquetípico
Dona Neusa, do começo do capítulo, é o retrato: 79 anos, 52 quilos, creatinina 1,1 mg/dL. A depuração estimada é 34 mL/min. Agora tome o mesmo 1,1 mg/dL num homem de 45 anos e 80 quilos: a depuração estimada é 96 mL/min. Mesmo exame, mesmo laudo, mesma ausência de asterisco — e quase o triplo da função.
O que a idade e o peso fazem na conta não é enfeite estatístico: é a tradução de que o idoso magro produz pouca creatinina. Sarcopenia, menos massa magra e menos ingestão proteica derrubam a produção; o rim envelhecido filtra menos; e os dois erros se cancelam no resultado do exame, deixando a creatinina teimosamente normal. Por isso a idade avançada com peso baixo é, sozinha, indicação de calcular antes de prescrever qualquer coisa de excreção renal — não de calcular só quando a creatinina 'chamar atenção'.
O sarcopênico, o acamado e o amputado
A mesma armadilha, mais funda. O paciente com doença oncológica avançada, o desnutrido, o cirrótico com atrofia muscular, o acamado de longa data e o lesado medular produzem menos creatinina ainda. Um cirrótico de 61 anos com creatinina de 0,7 mg/dL parece ter função de jovem; frequentemente tem lesão renal instalada.
No amputado, o erro é duplo e sempre para o mesmo lado. A massa muscular que sumiu derruba a produção de creatinina, e o peso que entra na fórmula é o peso de depois da amputação — os dois empurram a estimativa para cima. Aqui vale ao pé da letra a régua do KDIGO: onde a precisão importa por janela terapêutica estreita, ou onde a estimativa é pouco confiável por massa muscular baixa, usa-se cistatina C ou mede-se a filtração diretamente, em vez de estimar. Onde nenhuma das duas está disponível, a conduta é dosar o próprio fármaco quando isso existe e, quando não existe, escolher a droga cuja margem de erro perdoa.
O obeso — em que o erro vai para o outro lado
No obeso o problema se inverte: sobra peso na fórmula e não sobra rim. O tecido adiposo não produz creatinina, mas entra na conta como se produzisse. Estudo brasileiro em pacientes com sobrepeso e obesidade mediu o tamanho do desvio: a superestimativa da depuração vai de 8% no índice de massa corporal entre 25 e 30 kg/m² até 29,6% acima de 40 kg/m².
Uma paciente de 58 anos, 105 quilos, 1,60 m e creatinina 0,9 mg/dL ilustra o estrago. Com o peso real, a fórmula devolve 113 mL/min. Com o peso ideal, 56. Com o peso ajustado, 79. Nenhum dos três é a verdade absoluta, mas a distância entre 56 e 113 é a diferença entre metade e o dobro de vancomicina — e é uma decisão que ninguém pode deixar para o farmacêutico adivinhar.
A gestante e o extremo de estatura
Na gestação a filtração glomerular aumenta, a creatinina cai por diluição e as equações não foram construídas nem validadas nessa fisiologia. O risco aqui é o oposto do habitual — subdose de antimicrobiano em quem depura mais rápido. A régua é a mesma do KDIGO para estimativa não confiável: mede-se, com depuração de creatinina em urina de 24 horas, em vez de estimar.
O mesmo vale para os extremos de estatura e de composição corporal — o adulto muito baixo, o fisiculturista, o paciente com grande edema ou ascite, em que o peso da balança não representa massa magra nem volume de distribuição. Em todos, a conta serve para ordenar a suspeita; a decisão de dose de fármaco de janela estreita se apoia em medida, não em estimativa.
A lesão renal aguda — o caso central
Este é o cenário em que a fórmula mente com mais confiança, e é o mais frequente na enfermaria. Todas as equações assumem estado de equilíbrio: creatinina estável, produção igual à eliminação. Na lesão renal aguda não há equilíbrio nenhum — a filtração despencou hoje e a creatinina ainda está subindo atrás dela, com um atraso de um a dois dias. As equações não se aplicam a pacientes em situação de instabilidade da função renal, seja por alteração hemodinâmica, seja por progressão ou recuperação.
O efeito prático é uma regra de sinal que vale a pena decorar. Se a creatinina está subindo, a função real de hoje é pior do que a fórmula calcula com o valor de hoje — e a dose calculada sobre esse número vai ficar alta. Se a creatinina está caindo, na recuperação de uma necrose tubular ou depois de repor volume num pré-renal, a função real é melhor do que a fórmula diz — e a dose calculada vai ficar baixa, com risco de subdosar o antibiótico exatamente no paciente que está melhorando.
Na creatinina em ascensão, equações convencionais podem superestimar a filtração atual; em recuperação, podem subestimá-la. A direção e a magnitude dependem da cinética e do contexto, sem atraso fixo universal de dois dias. Use medidas seriadas, diurese e resposta, e consulte monitorização farmacológica quando disponível. Evite tanto toxicidade por acúmulo como subdose antimicrobiana.
O hepatopata — o que o Child-Pugh entrega
O cirrótico chega com três problemas ao mesmo tempo, e o interno costuma ver só um. O primeiro é o metabolismo reduzido, que o escore sinaliza de longe. O segundo é a coagulação: qualquer coisa que aumente sangramento em quem tem varizes e fatores baixos vira evento adverso maior. O terceiro é o rim — o cirrótico descompensado quase sempre tem função renal pior do que a creatinina sugere, por sarcopenia e por hipoperfusão, e é ele quem recebe a dose plena mais facilmente.
Child-Pugh ajuda a reconhecer gravidade e pode orientar restrições específicas de bula, mas não converte diretamente escore em percentual de dose. Classes A/B/C não substituem avaliação de ascite, encefalopatia, função renal, sangramento e interações. Cirrose descompensada é definida por eventos clínicos; escore acima de 7 não é sozinho sua definição universal.
Como fechar o diagnóstico
Antes da primeira linha da prescrição há três perguntas, e nenhuma delas é 'qual antibiótico'. Quanto este paciente pesa, de verdade, na balança? Qual a depuração estimada dele, calculada e não sentida? E este número de hoje é estável ou está em movimento? Quem responde as três em dois minutos evita a maior parte do que este capítulo descreve.
Cockcroft-Gault ou CKD-EPI: para que serve cada um
As duas equações não competem pelo mesmo emprego. A CKD-EPI foi construída sobre creatinina padronizada e é a que o KDIGO recomenda para relatar e estadiar a doença renal crônica — é dela que saem os estágios G1 a G5 e as decisões de encaminhamento e de acompanhamento. A de Cockcroft e Gault estima depuração de creatinina, é anterior à padronização dos ensaios e, segundo o próprio KDIGO, não pode ser reexpressa para as creatininas de hoje. Isso soa como sentença de morte para ela — e não é, por um motivo prático: os estudos que definiram as faixas de ajuste de dose que estão nas bulas e nas monografias foram feitos com ela. Quando a bula da enoxaparina ou a da rivaroxabana escreve 'depuração de creatinina abaixo de 30 mL/min', o número que aquele corte separa foi obtido assim.
Há ainda uma diferença de unidade que muda dose e quase ninguém nota. A CKD-EPI devolve o resultado indexado a 1,73 m² de superfície corporal — ou seja, normalizado para um corpo médio, o que é ótimo para comparar populações e péssimo para dosar um indivíduo. O KDIGO é explícito: a dose deve se basear na filtração não ajustada para superfície corporal, porque é a capacidade excretora absoluta daquele corpo que determina o que sai do plasma. Desindexar é multiplicar o valor pela superfície corporal do paciente e dividir por 1,73.
Dona Neusa mostra o tamanho do problema. Cockcroft e Gault dão 34 mL/min. A CKD-EPI dá 51 mL/min/1,73 m². Desindexando pela superfície corporal dela, que é 1,48 m², a CKD-EPI cai para 44 mL/min. São três números para a mesma senhora, e eles caem em três faixas de conduta diferentes em várias tabelas de ajuste. Para dose, a régua é esta: Cockcroft e Gault, porque é a equação em que as faixas das bulas e da monografia nacional foram calibradas; CKD-EPI para estadiar a doença renal crônica e para as recomendações escritas em mL/min/1,73 m², como as da metformina; e, quando as duas discordarem em torno de um corte, a mais conservadora nos fármacos que intoxicam e a menos conservadora nos que só falham.
Qual peso entra na fórmula
Peso real, para quem está entre o peso ideal e cerca de 25% acima dele — que é a maioria dos internados. Peso ideal, para o obeso: pela fórmula clássica, 45,5 kg para a mulher e 50 kg para o homem, somando 2,3 kg para cada 2,54 cm acima de 1,52 m. Peso ajustado, que é o peso ideal mais 40% do excesso, para o obeso em que usar só o ideal subestimaria demais — e é ele que a maioria dos serviços adota como meio-termo em antimicrobianos.
Na paciente de 105 quilos e 1,60 m da seção anterior, o peso ideal é 52 kg e o ajustado, 73 kg. Note que o peso ideal quase não muda com o excesso: uma mulher de 1,60 m tem peso ideal de 52 kg pesando 70 ou 140 quilos. É isso que faz o peso ideal ser conservador demais em quem está muito acima — e é por isso que o ajustado existe.
Duas exceções mandam ignorar essa hierarquia. No paciente edemaciado ou com ascite volumosa, o peso da balança inclui água que não gera creatinina nem representa massa magra: usar o peso seco estimado, ou o peso anterior à descompensação. E no muito magro, com peso abaixo do ideal, entra o peso real — usar o ideal aqui inflaria a depuração de alguém que já tem pouca reserva.
Por que a creatinina sozinha não decide nada
Porque ela não é uma medida de função, é o resultado de uma divisão cujo numerador varia com o paciente. Além da massa muscular, ela sofre com dieta (carne aumenta), com secreção tubular (que a superestima quando a filtração cai) e com fármacos que bloqueiam essa secreção sem mexer na filtração real. Some-se a trava dos 50% de perda antes de o número subir, e fica claro por que 'creatinina normal' é uma informação quase vazia num idoso.
A faixa de referência impressa ao lado do resultado é uma faixa populacional de laboratório, não um enunciado sobre o rim daquela pessoa. Ela responde 'este valor é comum na população?' e não 'este paciente filtra o suficiente para receber dose plena?'. São perguntas diferentes, e só a segunda decide prescrição.
Daí a regra operacional que fecha esta seção: a depuração estimada e o peso ficam escritos na própria prescrição, e são reconferidos antes de acrescentar qualquer fármaco novo à folha. Não é burocracia — é o que permite ao farmacêutico e à enfermagem conferirem a sua conta em vez de confiarem nela.
O que fazer quando a função está mudando
Primeiro, reconhecer que está. Duas creatininas separadas por 24 a 48 horas resolvem a pergunta melhor que qualquer equação: se a segunda é maior, a função está caindo; se menor, subindo. A diurese das últimas horas dá a informação em tempo real que a creatinina só dará amanhã — o paciente que urinava 60 mL/h e passou a urinar 15 mL/h já mudou de faixa antes de qualquer exame.
Na lesão renal aguda, use tendência de creatinina, diurese, perfusão, necessidade de suporte e monitorização terapêutica. Equações de equilíbrio são imprecisas. A estratégia de manutenção depende do fármaco; não prefira sempre intervalo longo. A dose inicial de muitos antimicrobianos em sepse é preservada para atingir concentração eficaz, enquanto a manutenção é reavaliada frequentemente.
Terceiro, revisar a folha inteira e não só o item que veio à cabeça. Quando a creatinina se mexe, mudam de uma vez o antimicrobiano, o anticoagulante, o analgésico, o antidiabético e tudo o que tem excreção renal. Ajustar um e esquecer os outros é o padrão de erro mais comum da enfermaria, e produz o paciente cujo antibiótico foi corrigido enquanto a heparina plena seguia intocada.
Diálise: o que sai, o que fica, e quando dar
A hemodiálise remove fármaco de peso molecular pequeno, pouco ligado a proteínas plasmáticas e hidrossolúvel — e não remove praticamente nada do que é grande ou muito ligado à albumina. A diálise peritoneal, mais lenta, não costuma remover o suficiente para exigir reposição. Esses dois fatos resolvem a maior parte das dúvidas de beira de leito.
As três estratégias possíveis no paciente em hemodiálise, segundo a monografia nacional, são: manter o esquema já ajustado para insuficiência renal e suplementar uma das doses logo após a sessão; ajustar o esquema e suplementar no pós-diálise; ou administrar a dose apenas depois da diálise. Qualquer que seja a escolhida, a regra que não se negocia é que a dose não pode cair no meio da sessão — um antibiótico administrado uma hora antes de dialisar é, em parte, um antibiótico jogado fora.
Vale lembrar o uso inverso, que é resposta de prova de enfermaria e de plantão: a diálise também serve para acelerar a eliminação em intoxicação, mesmo com rim normal — o Formulário cita ácido valproico, fenobarbital, lítio e salicilatos.
Dosagem sérica: quem tem, e o que fazer quando não tem
Os fármacos em que a dosagem sérica muda conduta na enfermaria são poucos: vancomicina, digoxina, lítio, aminoglicosídeo, fenitoína. Onde o serviço oferece, a medida substitui a estimativa — e é isso que o KDIGO quer dizer ao recomendar concentração plasmática para ajustar digoxina, e monitoramento de nível para lítio e inibidores de calcineurina. A monografia nacional diz o mesmo da vancomicina: ajustar a dose, sendo ideal a determinação da concentração plasmática.
Onde não há dosagem — que é a maioria dos hospitais gerais do país —, a conduta não é abandonar a droga, é trocar o parâmetro. Sem nível de vancomicina, acompanhe creatinina a cada 48 horas e diurese diariamente, e trate a elevação da creatinina como sinal de excesso até prova em contrário. Sem nível de digoxina, o parâmetro é clínico: náusea, anorexia, alteração visual, bradicardia e arritmia nova. Sem nível de aminoglicosídeo, limite a duração — a maior parte da toxicidade se constrói com o tempo de exposição — e escolha o esquema de dose única diária, que é o que mantém o vale baixo.
Da estimativa à dose: o fluxo e as tabelas
Aprenda a ajustar medicamentos pela indicação, exposição desejada e função orgânica atual. Uma estimativa renal ou classe de Child-Pugh não determina a mesma conduta para todos os fármacos.
- 1Pese o paciente na balança e registre o valor. Sem peso não há conta.
- 2Estime a depuração por Cockcroft e Gault com o peso adequado (real, ideal ou ajustado) e escreva o resultado na prescrição, ao lado do peso.
- 3Pergunte se esse número é estável: compare com a creatinina de 24 a 48 horas antes e com a diurese. Se está mudando, trate o valor de hoje como otimista na queda e pessimista na recuperação.
- 4Percorra a folha inteira e separe as linhas em três grupos: as que não mudam, as que mudam de dose ou intervalo, e as que saem.
- 5Nas que saem, decida se é suspensão temporária (doença aguda, contraste, jejum) ou definitiva, e escreva qual das duas é.
- 6Nas que mudam, escolha a alavanca: intervalo para os que matam no pico e intoxicam no vale, dose para os de efeito dependente de concentração contínua. Mantenha a dose de ataque cheia.
- 7Marque a data da próxima creatinina na própria prescrição e o que será reavaliado nela.
| Antimicrobiano | Depuração ≥ 50 mL/min | 10 a 49 mL/min | Abaixo de 10 mL/min ou hemodiálise | Fonte |
|---|---|---|---|---|
| Cefazolina | Dose usual (ajuste a partir de 54) | Dose usual a cada 8 h (35 a 54); metade da dose a cada 12 h (11 a 34) | Metade da dose a cada 18 ou 24 h | FTN 2010 |
| Ceftazidima | Dose usual | 1 g a cada 12 h (31 a 50); 1 g a cada 24 h (16 a 30) | 500 mg a cada 24 h (6 a 15); a cada 48 h abaixo de 5 | FTN 2010 |
| Cefotaxima | Dose usual | Dose usual acima de 20; metade da dose abaixo de 20 | Metade da dose | FTN 2010 |
| Ceftriaxona | Dose usual | Dose usual | Dose usual com fígado normal; rever a dose quando à nefropatia grave se soma hepatopatia | FTN 2010 (Apêndices C e D) |
| Benzilpenicilina | Dose usual | Dose usual | Máximo 6 g/dia; risco de convulsão e de cristalúria com dose alta; suplementar 50% após diálise | FTN 2010; KDIGO Tabela 32 |
| Ciprofloxacino de liberação imediata | Dose usual conforme infecção | Bula consultada: CrCl 30–50, 250–500 mg a cada 12 h; 5–29, 250–500 mg a cada 18 h. Conferir protocolo/formulação | Diálise: 250–500 mg a cada 24 h, após sessão; não unificar diálise e CrCl <10 sem conferir | DailyMed, bula consultada na revisão; esquema local pode diferir |
| Sulfametoxazol + trimetoprima | Dose usual acima de 30 | 50% da dose usual (15 a 29) | Uso não recomendado abaixo de 15; suplementar 50% após cada sessão | FTN 2010 |
| Gentamicina | Dose inicial conforme peso, indicação e estratégia | Ajustar manutenção e intervalo com concentração sérica e função renal; não usar percentuais sem definir dose de referência | Individualizar por modalidade dialítica, horário da sessão e níveis | Monitorização terapêutica e protocolo local |
| Amicacina | Dose inicial pelo peso apropriado e foco | Intervalo estendido pode preservar pico; dose e intervalo dependem dos níveis e da evolução renal | Individualizar por modalidade dialítica e níveis; não repetir empiricamente uma fração fixa | Monitorização terapêutica e protocolo local |
| Vancomicina | Dose usual | Ajustar; ideal determinar a concentração plasmática | Ajustar por concentração plasmática | FTN 2010 |
| Metronidazol | Dose usual conforme indicação | Em geral sem redução apenas por disfunção renal isolada | Avaliar acúmulo de metabólitos, toxicidade e remoção dialítica; não reduzir 50% automaticamente por um único corte renal | Bula da formulação e protocolo |
| Fluconazol | Dose usual acima de 50 | 50% da dose usual | 50% da dose usual; dose diária usual após cada sessão de diálise | FTN 2010 |
| Imipeném + cilastatina | Dose usual | Reduzir a dose e alargar o intervalo | Reduzir; removido pela hemodiálise | FTN 2010 |
| Nitrofurantoína | Dose usual | Evitar abaixo de 60 | Contraindicada | FTN 2010 |
Analgesia e anticoagulação
| Fármaco | O que fazer | Corte | Fonte |
|---|---|---|---|
| Anti-inflamatórios não esteroides | Não entram no paciente com função reduzida: evitar abaixo de 30, não usar de forma prolongada abaixo de 60, evitar junto de bloqueadores do sistema renina-angiotensina e de lítio | 60 e 30 mL/min/1,73 m² | KDIGO 2012, Tabela 32 |
| Paracetamol | Manter a dose e alargar o intervalo: a cada 6 h entre 10 e 50; a cada 8 h abaixo de 10 | 50 e 10 mL/min | FTN 2010 |
| Dipirona | Ajustar a dose na lesão renal aguda | Lesão renal aguda | FTN 2010 |
| Morfina e codeína | Reduzir a dose ou evitar na disfunção moderada a grave: o efeito é aumentado e prolongado, com sensibilidade cerebral maior | Reduzir abaixo de 60; cautela abaixo de 15 | FTN 2010; KDIGO 2012, Tabela 32 |
| Fentanila | 75% da dose usual abaixo de 50; 50% abaixo de 10 | 50 e 10 mL/min | FTN 2010 |
| Enoxaparina — profilaxia | 40 mg ao dia passa a 20 mg ao dia abaixo de 30; entre 30 e 80 não há ajuste, apenas monitoramento clínico | 30 mL/min | Bula profissional aprovada pela Anvisa |
| Enoxaparina — tratamento | 1 mg/kg de 12 em 12 h passa a 1 mg/kg uma vez ao dia abaixo de 30 (a área sob a curva sobe em média 65%) | 30 mL/min | Bula profissional aprovada pela Anvisa |
| Heparina não fracionada | Heparina não fracionada pode ser alternativa na insuficiência renal grave; não é contraindicada apenas por esse diagnóstico. Dose profilática e terapêutica têm esquemas distintos; na terapêutica, monitorar conforme protocolo. | Insuficiência grave | FTN 2010 |
| Varfarina | Varfarina não tem ajuste renal por fração fixa nem proibição universal na insuficiência renal grave. Individualizar pela indicação, interações, risco hemorrágico e RNI, reconhecendo riscos adicionais na doença renal avançada. | 30 mL/min/1,73 m² | KDIGO 2012, Tabela 32; FTN 2010 |
| Rivaroxabana | 20 mg ao dia na fibrilação atrial passa a 15 mg entre 30 e 49; cautela entre 15 e 30; uso não recomendado abaixo de 15 | 49, 30 e 15 mL/min | Bula profissional aprovada pela Anvisa |
Metabólicos, cardiológicos e de janela estreita
| Fármaco | O que fazer | Corte | Fonte |
|---|---|---|---|
| Metformina | Reduzir a dose em 50% entre 30 e 45; interromper abaixo de 30, pelo risco de acidose lática; suspender sempre que o paciente adoecer de forma aguda | 45 e 30 mL/min/1,73 m² | SBD; KDIGO 2012, 4.4.6 e Tabela 32 |
| Insulina | Reduzir a dose: parte é de excreção renal e a necessidade cai quando a função cai | Abaixo de 30 mL/min/1,73 m² | KDIGO 2012, Tabela 32; FTN 2010 |
| Glibenclamida | Evitar: é a sulfonilureia de excreção predominantemente renal, e é a que produz hipoglicemia prolongada | Insuficiência moderada a grave | FTN 2010; KDIGO 2012, Tabela 32 |
| Digoxina | 75% da dose usual entre 10 e 50; 10% a 25% abaixo de 10 — ou alargar o intervalo para 36 h e 48 h. Ajuste fino pela concentração plasmática | 50 e 10 mL/min | FTN 2010; KDIGO 2012, Tabela 32 |
| Lítio | 75% da dose entre 10 e 50; 25% a 50% abaixo de 10. Nefrotóxico mesmo em nível terapêutico; manter hidratação e não associar anti-inflamatório | 50 e 10 mL/min | FTN 2010; KDIGO 2012, Tabela 32 |
| Enalapril e captopril | Iniciar em dose menor e reavaliar filtração e potássio em uma semana; suspender temporariamente na doença intercorrente, no contraste e antes de cirurgia de grande porte — sem descontinuar de rotina abaixo de 30, porque seguem nefroprotetores | Doença intercorrente | KDIGO 2012, 4.4.3 e Tabela 32; FTN 2010 |
| Espironolactona | Reduzir a dose inicial para 12,5 mg entre 31 e 50; não recomendável abaixo de 30 | 50 e 30 mL/min | FTN 2010 |
| Hidroclorotiazida | Perde efeito abaixo de 30 e deve ser evitada abaixo de 10; pode funcionar associada a diurético de alça | 30 e 10 mL/min | FTN 2010 |
| Betabloqueadores | Ajuste depende do betabloqueador: atenolol tem eliminação renal importante; metoprolol e carvedilol não seguem a mesma regra. Não reduzir toda a classe em 50%; conferir bula e resposta hemodinâmica. | 30 mL/min/1,73 m² | KDIGO 2012, Tabela 32 |
| Metoclopramida | Metade da dose abaixo de 40, pelo risco aumentado de reação extrapiramidal | 40 mL/min | FTN 2010 |
Escore de Child-Pugh
| Fator | 1 ponto | 2 pontos | 3 pontos |
|---|---|---|---|
| Bilirrubina sérica (mg/dL) | Abaixo de 2,0 | 2,0 a 3,0 | Acima de 3,0 |
| Albumina sérica (g/dL) | Acima de 3,5 | 3,0 a 3,5 | Abaixo de 3,0 |
| Ascite | Nenhuma | Facilmente controlada | Mal controlada |
| Distúrbio neurológico | Nenhum | Mínimo | Coma avançado |
| RNI | Abaixo de 1,7 | 1,7 a 2,3 | Acima de 2,3 |
Ajuste hepático: o que muda na cirrose
| Fármaco ou classe | O que fazer | Fonte |
|---|---|---|
| Benzodiazepínicos | Diazepam contraindicado na doença hepática grave; midazolam com depuração reduzida e meia-vida prolongada na cirrose — reduzir a dose em 50%; ambos podem precipitar coma | FTN 2010, Apêndice C |
| Opioides | Codeína e morfina podem determinar coma ou pré-coma na encefalopatia; usar dose menor e intervalo maior, ou trocar por analgésico não sedativo | FTN 2010, Apêndice C |
| Anti-inflamatórios não esteroides e ácido acetilsalicílico | Evitar na doença hepática grave: aumentam sangramento gastrintestinal e pioram a retenção de sódio e água | FTN 2010, Apêndice C |
| Metronidazol | Na insuficiência hepática grave Child-Pugh C, a bula consultada recomenda redução de 50% do metronidazol. Conferir indicação, formulação e monitorar neurotoxicidade; não aplicar um terço em dose única a todos. | FTN 2010, Apêndice C |
| Metformina | Suspender na insuficiência hepática: o distúrbio hepático aumenta o risco de acidose lática por hipóxia tissular | FTN 2010, Apêndice C |
| Omeprazol | Reduzir a dose, sobretudo no uso prolongado; não ultrapassar 20 mg ao dia | FTN 2010, Apêndice C |
| Espironolactona e furosemida | Pequena alteração hidreletrolítica pode desencadear coma hepático; a furosemida perde efeito natriurético no cirrótico e pode depletar volume — titular devagar | FTN 2010, Apêndice C |
| Varfarina e heparina | Cirrose e RNI basal elevado não equivalem a anticoagulação protetora nem contraindicam automaticamente toda heparina. Avaliar indicação, sangramento, plaquetas, função renal e gravidade; varfarina exige interpretação cuidadosa do RNI basal. | FTN 2010, Apêndice C |
| Rivaroxabana | Contraindicada na doença hepática com coagulopatia; a exposição aumenta 2,3 vezes em Child-Pugh B e não há dados em Child-Pugh C | Bula profissional aprovada pela Anvisa |
| Ceftriaxona | Dose usual; ajustar apenas quando houver nefropatia associada à hepatopatia | FTN 2010, Apêndice C |
| Haloperidol e prometazina | Evitar na insuficiência hepática grave: podem precipitar coma | FTN 2010, Apêndice C |
Reduzir a dose ou esticar o intervalo?
| Situação | Alavanca | Por quê |
|---|---|---|
| Efeito e toxicidade acompanham a concentração de forma contínua (digoxina, lítio, betabloqueador) | Reduzir a dose, mantendo a frequência | Mantém a concentração numa faixa estreita, com menos oscilação entre nível tóxico e subterapêutico |
| Mata no pico e intoxica no vale (aminoglicosídeo) | Esticar o intervalo, mantendo a dose | Preserva o pico que produz a morte bacteriana e deixa o vale cair, que é o que protege rim e cóclea |
| Eficácia depende do tempo acima da concentração inibitória mínima (betalactâmicos) | Combinação: reduzir a dose e alargar moderadamente o intervalo | Alargar demais perde o efeito; a monografia nacional adverte que passar de 24 horas pode comprometer a eficácia de antimicrobianos |
| Função renal em queda, ainda sem estabilizar | Esticar o intervalo | Erro reversível na próxima administração, sem manter concentração baixa o dia inteiro |
| Necessidade de dose de ataque | Não modificar | Ataque preenche o volume de distribuição, que a insuficiência renal não reduz |
As colunas destas tabelas começam em 50 mL/min porque é aí que a monografia nacional situa o limiar: abaixo desse valor, os fármacos de excreção urinária exclusiva ou predominante devem ser evitados ou ter o esquema reajustado por dose, por intervalo, ou pelos dois.
As faixas gerais da monografia nacional, para o fármaco que não tem entrada própria: 75% da dose usual entre 50 e 30 mL/min, 50% entre 30 e 10, e 25% ou menos abaixo de 10. Servem para evitar erro grosseiro, não para substituir a entrada específica quando ela existe.
Ceftriaxona é a exceção útil de decorar: a eliminação biliar divide o trabalho com o rim, e a monografia nacional só exige ajuste quando à nefropatia se soma hepatopatia. Com fígado normal, a dose é plena mesmo com depuração baixa — o que faz dela a escolha cômoda quando a função renal está em movimento.
A entrada de metformina do Formulário Terapêutico Nacional traz um limite em creatinina que não corresponde às réguas atuais em filtração glomerular; para essa droga, os cortes que este capítulo usa são os da Sociedade Brasileira de Diabetes e do KDIGO, que falam em filtração estimada.
As classes que aparecem nestas tabelas — antitrombóticos, insulinas, opioides e sulfonilureias — são as mesmas que o ISMP Brasil lista como medicamentos potencialmente perigosos de uso hospitalar, e para as quais recomenda dupla checagem independente do cálculo de dose em idosos.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo abaixo segue Dona Neusa: 79 anos, 52 quilos, 1,54 m, pielonefrite, creatinina 1,1 mg/dL, depuração estimada de 34 mL/min. Cada linha da prescrição vem com a fonte que a sustenta.
Antes de mudar qualquer coisa, vale nomear o que já está certo: a enoxaparina profilática de 40 mg permanece. O corte que a leva a 20 mg está em 30 mL/min, e ela está em 34. Reconhecer a linha que não muda é parte do trabalho — quem corta tudo 'por precaução' entrega profilaxia insuficiente ao paciente de maior risco.
Admissão — os dois minutos antes da primeira linha
Pesar na balança, calcular a depuração, escrever peso e depuração na folha, e então separar a prescrição em três pilhas: o que fica igual, o que muda, e o que sai. Neste caso: fica a enoxaparina profilática; mudam o antimicrobiano e a analgesia; saem o anti-inflamatório, a metformina e, temporariamente, a losartana.
Prescrição- Ceftriaxona 1 g, intravenosa, a cada 24 horas — substitui o ciprofloxacino oral porque a paciente ainda vomita, e a dose é plena: a eliminação biliar divide o trabalho com o rim, e o ajuste só é exigido quando há hepatopatia associada (FTN 2010, Apêndices C e D)
- Ao recuperar a via oral, selecionar antibiótico por cultura, foco e bula da formulação. Ciprofloxacino de liberação imediata, na referência consultada, admite 250–500 mg a cada 12 horas com CrCl 30–50 mL/min; não reduzir automaticamente 500 mg a cada 12 horas para uma dose diária por CrCl de 34.
- Paracetamol 750 mg, via oral, a cada 6 horas se dor, máximo 3 g ao dia — a dose se mantém e o intervalo é o de 6 horas indicado para depuração entre 10 e 50 mL/min (FTN 2010)
- Dipirona 1 g, intravenosa, a cada 6 horas se dor ou temperatura axilar igual ou maior que 37,8 °C (FTN 2010: ajustar a dose se houver lesão renal aguda, que não é o caso hoje)
- SUSPENDER cetoprofeno — anti-inflamatório não esteroide não entra: uso prolongado não é recomendado com filtração abaixo de 60 e deve ser evitado abaixo de 30, ainda mais em quem usa bloqueador do sistema renina-angiotensina (KDIGO 2012, Tabela 32)
- Suspender temporariamente metformina se houver desidratação, hipóxia, hipoperfusão ou lesão renal aguda; a decisão não decorre de toda internação com filtração <60. Reavaliar retomada e dose na estabilidade.
- SUSPENDER losartana 50 mg temporariamente, com aferição da pressão arterial a cada 6 horas — suspensão temporária na doença intercorrente que aumenta o risco de lesão renal aguda, com retorno programado, e não descontinuação (KDIGO 2012, 4.4.3 e Tabela 32)
- MANTER enoxaparina 40 mg, subcutânea, uma vez ao dia — a redução para 20 mg entra abaixo de 30 mL/min (bula profissional aprovada pela Anvisa)
- Observações na folha: peso 52 kg; depuração de creatinina estimada 34 mL/min (Cockcroft e Gault, creatinina de hoje); reavaliar creatinina em 48 horas
Primeiras 24 horas — vigiar o que a conta não previu
A estimativa da admissão valia para a creatinina da admissão. Nas primeiras 24 horas o que informa é o que muda mais rápido que a creatinina: diurese, pressão e estado de volume. Nada de novo entra na folha sem passar pela mesma triagem de três pilhas.
Prescrição- Controle de diurese de 24 horas e balanço hídrico — queda para menos de 0,5 mL/kg/h (menos de 26 mL/h nesta paciente) muda a estimativa antes de qualquer exame
- Sódio, potássio, ureia e creatinina amanhã pela manhã — potássio porque a suspensão da losartana e a própria função renal mexem nele nos dois sentidos
- Avaliar indicação, urgência, tipo de contraste, lesão renal aguda e função estável. Não atrasar exame urgente indispensável. Profilaxia volêmica e suspensão de medicamentos dependem do risco e do protocolo, com cuidado em congestão; não são automáticas para toda depuração abaixo de 60.
- Se surgir indicação de vancomicina: dose de ataque plena, calculada sobre o peso real, sem reduzir por causa do rim (FTN 2010: a dose de ataque não se modifica); manutenção definida pela concentração plasmática quando disponível
48 a 72 horas — a creatinina se mexeu
A creatinina de hoje é 1,4 mg/dL. A depuração recalculada cai para 27 mL/min, e a paciente muda de faixa. Duas coisas acontecem ao mesmo tempo, e a segunda é a que se esquece: reajustar as doses, e procurar a causa da queda.
Prescrição- Enoxaparina 20 mg, subcutânea, uma vez ao dia — agora abaixo de 30 mL/min, a profilaxia reduz pela metade (bula profissional aprovada pela Anvisa)
- Se estivesse em dose terapêutica de 1 mg/kg de 12 em 12 horas, seriam 52 mg de 12 em 12 horas passando a 52 mg uma vez ao dia — 0,52 mL da seringa graduada de 100 mg/mL (bula profissional aprovada pela Anvisa)
- Manter ceftriaxona 1 g a cada 24 horas — segue sem ajuste (FTN 2010)
- Revisar a folha inteira de novo: analgesia, sedativo se houver, antiemético, protetor gástrico e qualquer droga acrescentada nas últimas 48 horas
- Investigar a causa da queda antes de aceitá-la como evolução: houve dose de anti-inflamatório administrada 'se dor'? contraste? hipotensão? desidratação por vômito? o próprio antimicrobiano?
- Repetir creatinina em 24 horas em vez de 48, enquanto o número estiver em movimento
Alta — a receita que vai para casa
A alta é onde o ajuste hospitalar vira ou não vira segurança em casa. O que estava suspenso precisa voltar decidido, e não por omissão: o que foi suspenso por doença aguda volta quando a doença aguda passou; o que foi suspenso por função renal só volta se a função voltou.
Prescrição- Losartana 50 mg, via oral, pela manhã — retomada hoje, com a paciente comendo, sem vômito e com creatinina em queda (KDIGO 2012, 4.4.3: a suspensão era temporária)
- Metformina 850 mg, via oral, a cada 12 horas — RETOMAR SOMENTE com filtração estimada acima de 45 mL/min/1,73 m² na coleta de retorno; entre 30 e 45, metade da dose diária, ou seja, 850 mg uma vez ao dia; abaixo de 30, não retomar (SBD; KDIGO 2012, 4.4.6)
- Antibiótico oral de alta conforme cultura, evolução e função renal atual, com dose e intervalo conferidos na bula/protocolo específico. A depuração de alta de 27 mL/min exige nova avaliação; não copiar o esquema calculado quando era 34.
- Paracetamol 750 mg, via oral, a cada 6 horas se dor, máximo 3 g ao dia — analgésico de escolha em casa (FTN 2010)
- NÃO usar anti-inflamatórios, inclusive os de venda livre em farmácia, e conferir com o médico antes de qualquer medicamento novo (KDIGO 2012, 4.4.4 e Tabela 32)
- Creatinina, ureia, sódio e potássio em 7 a 14 dias, com retorno agendado para reavaliar a metformina e a losartana
- Escrever na receita, para a paciente e para quem a atender depois: peso 52 kg, depuração estimada de 27 mL/min na alta, data da última creatinina
Como saber se está funcionando
Ajustar dose sem programar reavaliação é meio serviço, porque a estimativa vale para o dia em que foi feita. O paciente melhora, come, hidrata e recupera função — e a dose reduzida vira subdose. Ou piora — e a dose reduzida ainda era alta.
Há um cuidado de leitura que muda conduta: quando a creatinina sobe durante o tratamento, a primeira hipótese não é 'a doença piorou', é 'alguma coisa que eu prescrevi está fazendo isso'. Anti-inflamatório administrado como 'se dor', contraste, aminoglicosídeo, vancomicina, associação de bloqueador do sistema renina-angiotensina com diurético e depleção de volume respondem pela maioria dos casos, e todos são reversíveis se identificados cedo.
Esperado: Estabilidade ou queda da creatinina, com a depuração recalculada permanecendo na mesma faixa de ajuste
Se não melhora: Recalcular e revisar TODAS as doses dependentes de função renal na mesma passagem, não só a que veio à cabeça; procurar a causa iatrogênica antes de aceitar a piora como evolução da doença
Esperado: Diurese acima de 0,5 mL/kg/h e balanço sem acúmulo progressivo
Se não melhora: Pesquisar obstrução, hipoperfusão, congestão e lesão renal; integrar tendência da creatinina. Ajustar dose/intervalo conforme fármaco, sem regra universal de espaçamento.
Esperado: Entre 3,5 e 5,0 mmol/L
Se não melhora: Acima de 5,5, revisar bloqueador do sistema renina-angiotensina, espironolactona e qualquer suplementação; abaixo de 3,5, revisar diurético e perdas — e lembrar que hipopotassemia potencializa a toxicidade da digoxina
Esperado: Ausência de sonolência nova, de náusea sem causa, de tremor, de bradicardia e de sangramento
Se não melhora: Sonolência ou confusão nova: opioide, benzodiazepínico ou acúmulo de droga por queda de função. Náusea, anorexia, alteração visual e bradicardia: digoxina. Tremor, confusão e ataxia: lítio. Hipoglicemia repetida: insulina ou sulfonilureia. Hematoma ou queda de hemoglobina: heparina de baixo peso molecular em dose não ajustada
Esperado: Exposição dentro do alvo definido pelo serviço, com creatinina estável
Se não melhora: Reavaliar indicação e possibilidade de alternativa menos tóxica, função renal, dose e intervalo. Se houver suspeita de nefrotoxicidade, pode ser necessário suspender/substituir o agente, mantendo cobertura adequada; não insistir no aminoglicosídeo apenas porque a infecção persiste.
Esperado: Nível dentro da faixa terapêutica do laboratório, com ausência de sintomas
Se não melhora: Sem dosagem, decidir pelo quadro clínico e pelo eletrocardiograma; suspender diante de bradicardia sintomática ou arritmia nova e reintroduzir com dose menor, corrigindo antes a hipopotassemia
Esperado: Queda da febre, melhora do estado geral e dos marcadores inflamatórios
Se não melhora: Antes de trocar o espectro, conferir se a dose ajustada não ficou subterapêutica — sobretudo se o ataque foi cortado ou o intervalo foi alargado além de 24 horas; depois, revisar foco, drenagem e agente
Onde o erro machuca
O dano: Dose plena mantida por dias em quem tem um terço da depuração. A concentração sobe até o equilíbrio e o dano aparece no terceiro dia — sonolência por opioide acumulado, sangramento por anticoagulante, ou a própria lesão renal aguda pelo antimicrobiano em excesso.
Como pegar a tempo: Não existe leitura de creatinina sem idade, peso e sexo ao lado. Calcule a depuração de todo internado acima de 65 anos e de todo internado abaixo de 60 quilos, mesmo com creatinina dentro da faixa de referência, e escreva o valor na prescrição.
O dano: Acidose lática, que é rara e é grave. O paciente com infecção, vômito, jejum ou hipoperfusão soma duas coisas: a droga que se acumula e o tecido que já está hipóxico. Em cirrose, a mesma soma tem outro nome e a mesma consequência.
Como pegar a tempo: Doença aguda com filtração abaixo de 60 é indicação de suspensão temporária, independentemente do valor exato. Suspenda na admissão, escreva que a suspensão é temporária, e devolva a decisão de retomar para a alta, com a filtração de retorno na mão.
O dano: Queda aguda da filtração por vasoconstrição da arteríola aferente, retenção de sódio e água que descompensa insuficiência cardíaca, e sangramento digestivo. Quando associado a bloqueador do sistema renina-angiotensina e diurético, a combinação é uma das causas mais comuns de lesão renal aguda evitável na enfermaria.
Como pegar a tempo: Trate anti-inflamatório como droga que não entra nesse perfil de paciente, e não como droga a ser dosada com cuidado. Paracetamol com intervalo ajustado, dipirona e, quando necessário, opioide em dose reduzida cobrem a analgesia sem esse custo.
O dano: A exposição sobe em média 65% nessa faixa. O resultado é hematoma de parede, sangramento digestivo ou queda de hemoglobina sem foco aparente — num paciente em que a indicação do anticoagulante estava certa e só a dose estava errada.
Como pegar a tempo: Recalcule a depuração toda vez que a creatinina mudar e olhe especificamente para o anticoagulante. Profilaxia passa de 40 mg a 20 mg ao dia; tratamento passa de duas para uma administração diária, mantendo 1 mg/kg.
O dano: Subdose silenciosa. O paciente que entrou com lesão renal aguda pré-renal, recebeu volume e recuperou função continua com o antimicrobiano na dose de quem depura 20 mL/min — e a falha terapêutica é lida como resistência bacteriana, motivando escalonamento desnecessário de espectro.
Como pegar a tempo: Reavaliação de dose é bidirecional. Toda creatinina nova gera recálculo, e o recálculo pode aumentar a dose. Na função em recuperação, a depuração real é melhor do que o número de hoje sugere.
O dano: Infecção subtratada em paciente que já tem uma disfunção orgânica. É o erro mais compreensível e um dos mais caros: o rim que se quis proteger piora com a sepse não controlada.
Como pegar a tempo: Quase todo antimicrobiano tem faixa de ajuste; muito poucos precisam sair. Se o receio for nefrotoxicidade, troque de classe — não fique sem cobertura. E nunca corte a dose de ataque: é ela que decide as primeiras 24 horas.
O dano: Superestimativa de até quase um terço da depuração, o que significa dose plena de aminoglicosídeo ou de vancomicina em quem não depura o que a conta diz. No sentido inverso, usar o peso ideal em quem está pouco acima dele subdosa o antimicrobiano.
Como pegar a tempo: Peso real até cerca de 25% acima do ideal; peso ajustado — ideal mais 40% do excesso — acima disso; peso seco estimado no edemaciado. Escreva na folha qual peso foi usado, porque o próximo plantonista vai refazer a conta.
O que dizer ao paciente e à família
Duas conversas ficam sob responsabilidade do interno e quase nunca são ensaiadas: explicar que um remédio foi suspenso sem que o paciente conclua que 'o rim parou', e entregar a receita de alta de quem tem função limítrofe de um jeito que sobreviva ao primeiro resfriado.
Duas palavras merecem cuidado. 'Insuficiência renal' é ouvida como diálise, e trava a conversa inteira. 'O remédio faz mal ao rim' é ouvida como 'o médico anterior me envenenou' — e o paciente costuma parar tudo, inclusive o que deveria continuar.
Explicar por que o remédio de sempre foi suspenso na internação
“A senhora toma esse remédio há anos e ele funciona. O que mudou não foi o remédio, foi a situação: com a infecção, os rins estão trabalhando devagar, e esse é um dos que precisa do rim para sair do corpo. Se eu mantivesse a dose de casa, ele iria se acumulando. Vou suspender enquanto a senhora estiver aqui e vou reavaliar antes da alta, com um exame novo.”
Não diga: Dizer 'seu rim está ruim' sem qualificar, ou 'esse remédio faz mal para o rim' — o primeiro assusta e o segundo faz o paciente abandonar o tratamento crônico em casa
Explicar por que a dose ficou menor que a da bula
“A dose que está na caixa é a dose de uma pessoa cujos rins eliminam na velocidade habitual. Eu calculei a velocidade dos seus, com o seu peso e a sua idade, e ela está mais devagar. Se eu desse a dose da caixa, a quantidade no sangue iria subindo a cada dia. A dose menor mantém o efeito e evita o acúmulo — não é um tratamento mais fraco.”
Não diga: Deixar a impressão de que está sendo dado 'meio remédio' por economia ou por gravidade — é o motivo mais comum de o paciente dobrar a dose por conta própria em casa
Orientar a receita de alta de quem tem função limítrofe
“Escrevi na receita o seu peso e o resultado do rim, com a data. Se a senhora precisar de outro médico, mostre essa folha: é com esse número que ele vai calcular as doses. E anti-inflamatório para dor — aqueles de farmácia, para cólica, dor nas costas, dor de cabeça — a senhora não pode tomar sem falar comigo. Para dor, é o paracetamol que está aqui.”
Não diga: Entregar a lista sem dizer o que fazer quando aparecer sintoma novo — é aí que a automedicação com anti-inflamatório entra e desfaz todo o ajuste
Combinar o que fazer se ela adoecer de novo em casa
“Se a senhora tiver diarreia, vômito, febre alta ou ficar sem conseguir beber água por mais de um dia, dois desses remédios devem ser pausados até melhorar ou até me procurar: este aqui e este. Não é para parar tudo — os outros continuam. Estou marcando quais são com uma bolinha na receita.”
Não diga: Dar a orientação genérica de 'procure um médico se piorar' — o dano acontece justamente nas 48 horas antes de a pessoa procurar alguém
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
A régua da estimativa moderna: CKD-EPI
A CKD-EPI foi desenvolvida sobre creatinina rastreável ao material de referência internacional e tem menos viés, sobretudo em filtrações acima de 60. A equação de Cockcroft e Gault é anterior à padronização dos ensaios de creatinina e não pode ser reexpressa para os ensaios atuais — ou seja, o mesmo paciente medido em laboratórios diferentes alimenta a fórmula antiga com números não comparáveis. É a CKD-EPI que o documento recomenda para relatar filtração em adultos.
KDIGO 2012, capítulo 1 (recomendações de relato de filtração estimada e avaliação das equações)
A régua em que as bulas foram calibradas: Cockcroft e Gault
As faixas de ajuste que aparecem nas bulas profissionais e na monografia nacional foram estabelecidas em estudos que usaram depuração de creatinina. Quando a bula da enoxaparina separa 'abaixo de 30 mL/min' ou a da rivaroxabana separa 'entre 30 e 49 mL/min', o corte se refere a esse cálculo, e não a uma filtração indexada por superfície corporal. Aplicar um corte de bula sobre um número de outra equação é usar a régua errada no ponto exato em que ela decide.
Bulas profissionais da enoxaparina sódica e da rivaroxabana aprovadas pela Anvisa; Formulário Terapêutico Nacional 2010, Apêndice D
A objeção de unidade
Há um ponto em que os dois lados concordam e que é frequentemente ignorado: qualquer valor indexado a 1,73 m² é uma normalização para comparar populações. O que determina a velocidade com que o fármaco sai do plasma é a capacidade excretora absoluta daquele corpo. Para dose, a filtração deve ser usada sem o ajuste por superfície corporal — o que significa desindexar a CKD-EPI antes de compará-la a um corte de bula.
KDIGO 2012, capítulo 1: 'Drug dosing should be based on GFR which is not adjusted for BSA'
O que resolve à beira do leito é reparar em qual unidade está o corte que você vai usar. Corte escrito em mL/min (bula, monografia nacional): use Cockcroft e Gault. Corte escrito em mL/min/1,73 m² (metformina, estadiamento de doença renal crônica): use CKD-EPI, ou desindexe a CKD-EPI se quiser compará-la a um corte de bula. Quando as duas contas caem em faixas diferentes — o que acontece justamente no idoso magro, em que a distância entre elas é maior —, deixe o tamanho do erro decidir: nos fármacos que intoxicam e que não têm antídoto prático (aminoglicosídeo, digoxina, lítio, anticoagulante), o número menor é o que limita o dano; nos que só falham quando subdosados (betalactâmico em infecção grave), o maior, com a dose de ataque mantida. E se a diferença entre as duas mudar a conduta num fármaco de janela estreita, é sinal de que a estimativa não basta: peça a depuração medida ou a dosagem sérica.
Área sob a curva entre 400 e 600 (consenso revisado de 2020)
O documento conjunto das quatro sociedades norte-americanas passou a recomendar o alvo de área sob a curva de 24 horas entre 400 e 600 mg·h/L, para concentração inibitória mínima de 1 mg/L. O motivo é de segurança: o vale de 15 a 20 mg/L quase sempre garante área acima de 400, mas leva a maioria dos pacientes a área acima de 600 — faixa associada a mais lesão renal aguda. A dose de ataque é calculada sobre o peso real no doente crítico.
Rybak MJ e cols., consenso revisado ASHP/IDSA/PIDS/SIDP, American Journal of Health-System Pharmacy, 2020
Ajuste pela concentração plasmática, sem alvo declarado
A monografia nacional trata a vancomicina como fármaco que exige ajuste na nefropatia e afirma ser ideal determinar a concentração plasmática, sem estabelecer alvo de área sob a curva nem de vale. Na prática brasileira, essa é a régua que sobra na maioria dos hospitais gerais, onde não há software de cálculo de área sob a curva nem coleta em dois tempos.
Formulário Terapêutico Nacional 2010, Apêndice D
Comece perguntando o que o seu serviço consegue medir, porque a resposta muda a decisão inteira. Onde existe protocolo de área sob a curva, com farmácia clínica e coleta em dois tempos, é ele que orienta — e o ganho é menos nefrotoxicidade, não mais eficácia. Onde só há dosagem de vale, ela continua útil como sinal de acúmulo, desde que lida com a consciência de que valores altos podem já significar exposição excessiva. E onde não há dosagem nenhuma, o que se acompanha é creatinina a cada 48 horas, diurese diária e duração de tratamento — com o cuidado de não confundir a decisão 'não consigo monitorar' com a decisão 'não vou usar': o paciente com infecção grave por germe sensível só à vancomicina precisa dela.
Reduzir entre 30 e 45, interromper abaixo de 30
A régua da sociedade nacional é operacional e numérica: a dose deve ser reduzida em 50% quando a filtração estimada estiver entre 30 e 45 mL/min/1,73 m², e o tratamento deve ser interrompido abaixo de 30, pelo risco de acidose lática. É a mesma faixa que aparece no quadro de contraindicações da droga.
Sociedade Brasileira de Diabetes — Tratamento farmacológico da hiperglicemia no DM2
Manter acima de 45, revisar entre 30 e 44, suspender abaixo de 30
O corpo internacional usa os mesmos limites com um verbo diferente na faixa do meio: entre 30 e 44 mL/min/1,73 m² o que se recomenda é revisar o uso, e não automaticamente reduzir — a decisão passa a depender de estabilidade da função, de risco de doença intercorrente e do benefício individual. E há a trava que vale mais que o número: suspender sempre que o paciente adoecer de forma aguda.
KDIGO 2012, recomendação 4.4.6 e Tabela 32
Na enfermaria, a divergência quase nunca decide alguma coisa, porque a condição de internação já resolve: o paciente internado por doença aguda entra na trava da suspensão temporária, independentemente de estar em 32 ou em 44. A divergência aparece de verdade na alta e no ambulatório, e aí o que separa as duas posições é a estabilidade da função. Se a filtração está entre 30 e 45 e é estável, documentada em duas medidas, metade da dose com reavaliação em três meses é defensável. Se está nessa faixa e vem caindo, ou se o paciente tem episódios repetidos de desidratação, infecção ou uso de contraste, a suspensão antecipada evita a única complicação que realmente importa. E a orientação que vale mais que o corte é a de dia de doença: o paciente precisa sair do hospital sabendo pausar a metformina quando estiver vomitando ou com diarreia.
O limite da bula
A bula profissional aprovada pela Anvisa registra exposição 1,6 vez maior na insuficiência renal grave, orienta cautela entre 15 e 30 mL/min e declara que não há dados clínicos abaixo de 15 mL/min — de modo que o uso não é recomendado nessa faixa. Na fibrilação atrial não valvar, a dose de 20 mg ao dia foi reduzida a 15 mg nos pacientes com depuração entre 30 e 49 mL/min no estudo pivotal.
Bula profissional da rivaroxabana aprovada pela Anvisa
A régua da classe, com a varfarina como alternativa
O corpo internacional trata os anticoagulantes como classe de risco aumentado na doença renal avançada e mantém a varfarina como opção com controle laboratorial: doses menores e monitoramento estreito do RNI abaixo de 30 mL/min/1,73 m². Para heparina de baixo peso molecular, recomenda metade da dose abaixo de 30 e a consideração de trocar por heparina não fracionada, ou de dosar o antifator Xa em quem tem risco alto de sangramento.
KDIGO 2012, Tabela 32
A pergunta prática não é 'qual anticoagulante é melhor', é 'o que eu consigo monitorar neste paciente'. Com depuração acima de 30 e estável, a decisão segue a da população geral, com a dose reduzida da bula. Entre 15 e 30, o que pesa é o equilíbrio individual: esses pacientes têm ao mesmo tempo mais trombose e mais sangramento, e a escolha depende de haver ou não estrutura para acompanhar RNI de forma confiável — quem não consegue coletar RNI com regularidade não tem na varfarina uma alternativa mais segura, tem uma alternativa pior. Abaixo de 15 e no dialítico, a bula não sustenta o anticoagulante oral direto, e a decisão sai da enfermaria: é conversa com a nefrologia e com a cardiologia, caso a caso. Em qualquer faixa, reavalie a indicação quando a função mudar — anticoagulante prescrito com uma função e mantido com outra é a combinação que mais sangra.
O raciocínio, em voz alta
Homem de 61 anos, 68 quilos, 1,72 m, cirrose por álcool, abstinente há dois anos. Chega com dor abdominal difusa há dois dias, febre de 38,2 °C e piora da ascite. Está lentificado, mas orientado. Exames: bilirrubina total 2,8 mg/dL, albumina 2,6 g/dL, RNI 1,9, plaquetas 78 mil, creatinina 0,7 mg/dL, sódio 129 mmol/L, potássio 4,1 mmol/L. Paracentese com 640 polimorfonucleares por mm³. Em casa usa espironolactona 100 mg ao dia, furosemida 40 mg ao dia, propranolol 40 mg de 12 em 12 horas e omeprazol 40 mg ao dia. O plantonista já deixou prescrito, para a dor, cetoprofeno 100 mg intravenoso de 12 em 12 horas, e, para a agitação da noite, midazolam 5 mg intravenoso se necessário.
O que penso agora
Peritonite bacteriana espontânea confirmada pela contagem celular, em cirrótico descompensado. Antes de escolher antibiótico, preciso saber o quanto o fígado e o rim deste paciente vão mudar tudo o que já está prescrito — e há duas linhas na folha que me preocupam mais que a infecção.
Estadiar o fígado
Somo o Child-Pugh: bilirrubina 2,8 (2 pontos), albumina 2,6 (3 pontos), RNI 1,9 (2 pontos), ascite mal controlada (3 pontos), distúrbio neurológico mínimo — está lentificado (2 pontos). Total 12: classe C. Isso não me dá um fator de correção de dose, mas me diz três coisas: metabolismo reduzido, coagulação comprometida e sensibilidade alta a depressores do sistema nervoso central.
Desconfiar da creatinina
Creatinina de 0,7 mg/dL neste homem devolveria uma depuração estimada em torno de 107 mL/min — número que eu não acredito. Ele é sarcopênico e cirrótico: produz pouca creatinina. Se a creatinina real dele fosse 1,2, a mesma conta daria 62. A conclusão prática é que a estimativa aqui é inútil no sentido otimista, e a conduta segura é tratar como função possivelmente reduzida, com a filtração medida quando a decisão for de janela estreita.
O que sai da folha antes de qualquer coisa entrar
O cetoprofeno sai agora. Em cirrótico com ascite, anti-inflamatório agrava a retenção de sódio e água, aumenta o risco de sangramento gastrintestinal em quem tem varizes e RNI alto, e derruba a filtração — é a receita da síndrome hepatorrenal. O midazolam se necessário também sai: na cirrose, a depuração cai e a meia-vida se prolonga, e ele pode precipitar coma em quem já está lentificado. Se houver agitação, primeiro procuro a causa: a própria peritonite, a encefalopatia, ou abstinência.
O que peço e o que prescrevo
Ceftriaxona 1 g intravenosa a cada 24 horas: dose plena, porque a eliminação biliar divide o trabalho com o rim e o ajuste só é exigido quando à hepatopatia se soma nefropatia estabelecida. Albumina intravenosa conforme protocolo do serviço para prevenção de disfunção renal na peritonite bacteriana espontânea. Analgesia com paracetamol em dose conservadora e por período curto, dado o fígado. Omeprazol reduzido para 20 mg ao dia, porque na hepatopatia se recomenda não ultrapassar essa dose. Suspendo temporariamente furosemida e espironolactona enquanto houver infecção ativa e risco de disfunção renal, e reavalio diariamente — pequena alteração hidreletrolítica pode desencadear coma hepático neste paciente.
Como a resposta muda o que penso
Creatinina em 24 horas de 1,3 mg/dL. Isso não é 'creatinina quase normal': neste corpo, é uma variação enorme e significa disfunção renal instalando-se. A conduta muda de imediato: mantenho os diuréticos suspensos, reforço a expansão com albumina, revejo todas as doses e não introduzo nada de excreção renal sem necessidade. E anoto na folha que a estimativa por fórmula, aqui, não vale — a régua é a tendência da creatinina e a diurese.
Faça você
Mulher de 58 anos, 105 quilos, 1,60 m, diabética em uso de metformina 850 mg de 12 em 12 horas e enalapril 10 mg de 12 em 12 horas. Internada há 36 horas por pneumonia adquirida na comunidade, em uso de ceftriaxona e azitromicina. Hoje está pior: taquipneica, hipotensa (88 x 54 mmHg), oligúrica desde a madrugada. Creatinina da admissão 0,9 mg/dL; a de hoje é 1,6 mg/dL. Hemocultura da admissão com bacilo Gram-negativo, e a equipe decidiu associar amicacina.
achado
Sepse de foco pulmonar com hipotensão e oligúria, sobre uma paciente obesa e diabética em uso de bloqueador do sistema renina-angiotensina. A creatinina quase dobrou em 36 horas.
raciocínio
A função renal está em queda ativa, e nenhuma equação vale em estado de não equilíbrio: a depuração real de hoje é pior do que a conta com a creatinina de hoje devolveria. Além disso, o peso da balança não serve diretamente para a fórmula — o índice de massa corporal é 41 kg/m², e o tecido adiposo não produz creatinina.
conduta
— sua vez —
Ver como fecharíamos
Suspender enalapril e metformina agora: doença aguda com risco de lesão renal aguda é indicação de suspensão temporária de bloqueador do sistema renina-angiotensina e de metformina, e ambos estão nominalmente na recomendação. Para a amicacina, calcular com peso ajustado, não com o peso real: o peso ideal desta paciente é 52 kg e o ajustado — ideal mais 40% do excesso — é 73 kg. Com o peso real, a fórmula devolveria aproximadamente 64 mL/min, e com 73 kg de peso ajustado, 44 mL/min, usando creatinina atual de 1,6 e o fator 0,85 — mas nenhum dos dois vale hoje, porque a creatinina está subindo. A conduta é dar a dose de ataque cheia, calculada sobre o peso ajustado e sem redução pelo rim, e definir manutenção por níveis e evolução renal, frequentemente ampliando o intervalo: aminoglicosídeo mata no pico e intoxica no vale, e alargar o intervalo é o ajuste que protege sem perder eficácia — além de ser reversível na administração seguinte se a função melhorar. Monitorar diurese em intervalos curtos no choque e programar creatinina/eletrólitos conforme evolução, pelo menos diariamente enquanto o número estiver em movimento, limitar a duração do aminoglicosídeo, dosar concentração sérica se o serviço oferecer e, na ausência dela, reavaliar diariamente a necessidade e a segurança da droga, buscando alternativa se não for possível monitorá-la adequadamente. Por fim, revisar a folha inteira — analgesia, protetor gástrico e profilaxia de tromboembolismo entram no mesmo recálculo, e não só o antibiótico que motivou a conversa.
A dose de ataque preenche o volume de distribuição do fármaco, que a insuficiência renal não reduz — quem determina a dose de ataque é o volume, e quem determina a manutenção é a depuração. O Formulário Terapêutico Nacional afirma explicitamente que, sendo necessária dose de ataque, ela não precisa ser modificada em pacientes com insuficiência renal. Cortar o ataque produz concentração subterapêutica nas primeiras 24 horas de uma sepse, que é exatamente o período em que o antimicrobiano decide o desfecho, e o efeito é agravado porque a meia-vida prolongada faz o equilíbrio demorar ainda mais a ser atingido. Fracionar ou substituir o ataque por manutenção reproduz o mesmo problema com outro nome.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Calcule a depuração da mulher de 58 anos, 105 kg e creatinina 1,6 usando peso real e ajustado, e explique por que nenhum resultado descreve exatamente a função durante choque.
Em 30 dias
Compare ajuste de ciprofloxacino, aminoglicosídeo, enoxaparina e metformina. Depois planeje analgesia em cirrose sem usar creatinina baixa como garantia de segurança.
Agora atenda
Senhora de 81 anos, 49 quilos, internada há três dias por infecção de trato urinário, em uso de antibiótico prescrito na admissão. A creatinina de hoje é 1,2 mg/dL e a família relata que ela está mais sonolenta desde ontem. Você é o interno da visita: estime a função, revise a folha linha a linha, decida o que muda e explique à filha por que dois remédios de casa foram suspensos.
