Clínica MédicaPrescrição e Cuidado do Paciente Internado

Passagem de plantão

O momento do dia em que mais informação se perde no hospital — e que ninguém te ensinou a conduzir. O que levantar antes, o que transmitir, em que ordem, o que nunca pode faltar, e como saber se o outro lado de fato recebeu.

Fontes deste capítulo

Organização Mundial da Saúde — WHO Collaborating Centre for Patient Safety Solutions. Communication During Patient Hand-Overs. Patient Safety Solutions, volume 1, solução 3. Genebra: OMS, maio de 2007.

Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal. Protocolo de Atenção à Saúde — Segurança do paciente: comunicação efetiva. Portaria SES-DF nº 31, de 16 de janeiro de 2019 (DODF nº 17, de 24 de janeiro de 2019). Brasília: SES-DF, 2019.

Conselho Regional de Enfermagem de Santa Catarina. Resposta Técnica COREN/SC nº 048/CT/2019 — Passagem de plantão na forma verbal. Florianópolis: COREN-SC, 3 de julho de 2019.

Conselho Federal de Enfermagem. Resolução COFEN nº 564/2017 — aprova o Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. Brasília: COFEN, 2017.

Conselho Federal de Enfermagem. Resolução COFEN nº 713/2022 — atualiza a norma de atuação da Enfermagem no atendimento pré-hospitalar móvel e nas Centrais de Regulação das Urgências. Brasília: COFEN, 2022.

01

Responda antes de ler

Interno do plantão noturno, você precisa telefonar ao médico plantonista sobre uma paciente de 58 anos, renal crônica, internada por pielonefrite, que apresentou há minutos bradicardia de 40 bpm e mal-estar — o potássio de controle, colhido às 22h e visto agora, é de 7,1 mEq/L (ontem: 6,8, tratado). Qual abertura de telefonema comunica melhor a situação?

02

O paciente que você vai ver

Seis e cinquenta e dois da manhã, enfermaria de clínica médica, doze leitos. O plantonista da noite está de pé no balcão do posto, mochila já no ombro, com a cara de quem dormiu noventa minutos em cadeira de plástico — e dormiu mesmo: além da enfermaria, ele cobriu a sala de urgência. Você entra às sete para o plantão diurno. A passagem acontece ali, de pé, entre o telefone que toca e a técnica que pergunta do jejum do leito 4: "Leito 2 é a pneumonia, tá bem, segue o antibiótico. Leito 3 vai de alta. Leito 5 é a da hipercalemia, fiz as medicações ontem, tá tranquila. Leito 7 queixou dor de madrugada, fiz dipirona, melhorou. Leito 9 é o vovô da insuficiência cardíaca, família veio ontem. Leito 11 é uma dispneia que estão investigando. O resto, sem intercorrências. Qualquer coisa me liga." Doze pacientes em quatro minutos. Ele aperta sua mão e sai pela porta com o crachá ainda pendurado.

Eis o que a passagem não disse. Que a "da hipercalemia" do leito 5 tem um potássio de controle colhido às 22h cujo resultado ninguém abriu — o tratamento foi feito, o controle não foi visto. Que a "visita da família" do leito 9 foi, na verdade, uma conversa de fim de tarde em que se definiram cuidados de conforto e não reanimação — registrada numa evolução que você não vai ler tão cedo, porque são doze pacientes e a visita começa às oito. Que a "dispneia em investigação" do leito 11 é o paciente que o plantonista não entendeu — e que, por isso mesmo, era o que devia tirar o seu sono. Nada disso foi escondido de má-fé. Foi perdido: comprimido pelo cansaço, atropelado pelo telefone, achatado por um "sem intercorrências" que tem forma de resumo e conteúdo de buraco.

O dia cobra em prestações. Às 9h40, a enfermeira te chama no leito 5: a paciente está com mal-estar e o monitor mostra uma bradicardia estranha; você abre o sistema e encontra o potássio das 22h — 7,1 — liberado há dez horas, visto por ninguém. Às 14h, o staff da tarde pergunta por que o paciente do leito 9 tem drogas de conforto prescritas e você não sabe responder, porque ninguém te disse que aquela prescrição existia — você descobre a decisão da família lendo a evolução de ontem, com o staff olhando por cima do seu ombro. E a pergunta que ele faz — "mas isso não te passaram?" — é a pergunta deste capítulo inteira, em três palavras.

Você passa e recebe plantão desde o primeiro mês do internato. Provavelmente ninguém nunca sentou com você para ensinar a fazer isso — a faculdade ensina a colher história do paciente, não a contá-la para o colega. E no entanto a passagem de plantão é um procedimento como qualquer outro: tem preparo, tem técnica, tem roteiro, tem checagem de resultado, e tem complicação quando malfeita — só que a complicação aparece horas depois, no turno do outro, e por isso quase nunca é atribuída a ela. Este capítulo trata a passagem como o procedimento que ela é: o que levantar antes, o que dizer, em que ordem, o que nunca pode faltar, e como saber se funcionou.

03

Quem adoece disso

O tamanho do dano é conhecido há vinte anos, e é maior do que a intuição sugere. Quando a Joint Commission — a agência que acredita hospitais nos Estados Unidos — analisou as causas-raiz dos eventos sentinela notificados entre 1995 e 2006, a falha de comunicação apareceu como a causa líder, à frente de erro técnico, de falta de conhecimento e de falha de equipamento; análises posteriores da mesma base, citadas pelo protocolo de comunicação efetiva da SES-DF, encontram falha de comunicação em até 70% dos eventos sentinela. E dentro desse bolo a passagem tem endereço: na síntese que deu origem ao I-PASS, erros de comunicação contribuem para cerca de dois terços dos eventos sentinela — e mais da metade desses envolve especificamente falha de passagem de caso. São dados americanos, de hospitais que notificam eventos por obrigação de acreditação; o que eles dizem ao interno brasileiro não é o número exato, é a hierarquia: o que mais mata paciente internado por erro não é a droga errada nem a técnica ruim — é a informação que não chegou.

O dado australiano completa o quadro com uma comparação incômoda. Dos 25 a 30 mil eventos adversos evitáveis que resultaram em incapacidade permanente analisados no país, 11% se deveram a problemas de comunicação — contra 6% por deficiência de habilidade dos profissionais. Quase o dobro. A leitura prática para quem está no quarto ou quinto ano: o esforço que você investe em ficar tecnicamente melhor — e deve investir — protege menos paciente do que o esforço em transmitir direito o que você já sabe. Comunicação não é a parte "soft" do plantão; é a parte com maior densidade de dano.

O dano também tem métrica jurídica. No levantamento da CRICO Strategies em hospitais afiliados a Harvard, citado pelo protocolo da SES-DF, a comunicação apareceu como fator crítico em 30% dos casos de negligência examinados — 1.744 mortes em cinco anos. O exemplo que o próprio protocolo escolheu para ilustrar é doméstico de tão banal: um profissional recebeu os telefonemas de um paciente diabético e não os retransmitiu ao médico; o paciente morreu em cetoacidose. Nenhuma tecnologia sofisticada, nenhuma doença rara — uma mensagem que não andou.

No Brasil, o número específico da passagem de plantão ainda não existe em base nacional — o que existe é o problema medido por partes. O estudo brasileiro de referência sobre eventos adversos, feito em três hospitais de ensino e citado pelo protocolo da SES-DF, encontrou incidência de 7,6% de eventos adversos em internações, dois terços deles (66,7%) evitáveis — proporção pior que a dos países ricos, onde a evitabilidade fica na metade. E a resposta institucional brasileira existe desde 2013: a Portaria 529 instituiu o Programa Nacional de Segurança do Paciente, que traz entre suas metas essenciais — a segunda — melhorar a comunicação entre os profissionais de saúde; é dela que descendem os protocolos estaduais e institucionais de comunicação efetiva que você vai encontrar (ou deveria encontrar) no hospital em que estagia, como o da SES-DF que este capítulo usa. A passagem de plantão do interno não é um hábito de serviço: é objeto de política pública de segurança.

A contramedida também foi medida — e é este o número que interessa guardar. No estudo I-PASS, publicado no New England Journal of Medicine em 2014, a padronização da passagem de plantão de residentes em 9 hospitais (10.740 internações) reduziu erros médicos em 23% — de 24,5 para 18,8 por 100 internações — e eventos adversos evitáveis em 30%, de 4,7 para 3,3 por 100 internações. Os eventos não evitáveis não mudaram (a doença continuou sendo a doença); o que mudou foi o dano produzido pelo cuidado. E o custo em tempo foi zero: a passagem oral durou 2,4 minutos por paciente antes e 2,5 depois. Antes disso, a implantação do SBAR num único hospital já havia se associado a queda de eventos adversos de 90 para 40 por 1.000 pacientes-dia. Guarde a assimetria: um terço dos danos evitáveis do hospital sai do mapa por uma intervenção que não custa equipamento, não custa droga e não custa tempo — custa roteiro. É a maior alavanca de segurança que um interno de quarto ano tem literalmente na boca.

04

Por que acontece o que acontece

Por que a informação se perde? Não por desleixo — o plantonista da cena de abertura não é relapso, é humano. A passagem de plantão pede que um cérebro cansado carregue, organize e transmita oralmente dezenas de itens sobre doze pacientes, num ambiente que interrompe, para um receptor que não tem contexto. Cada elo dessa frase é um mecanismo de perda, e vale a pena olhar um por um — porque cada peça do roteiro que este capítulo ensina existe para neutralizar um deles.

O primeiro é a memória de trabalho. A mente sustenta ao mesmo tempo só um punhado de itens — e um plantão de doze leitos produz centenas: doses ajustadas, exames colhidos, horários, conversas, pendências. O que não foi anotado na hora em que aconteceu já está em decaimento quando a passagem começa, e o que sobrevive não é o mais importante — é o mais recente, o mais dramático ou o que deu mais trabalho. É por isso que a dor do leito 7 (que rendeu uma prescrição de madrugada) sobrevive na memória do plantonista, e o potássio de controle do leito 5 (que era só abrir um resultado) desaparece: a memória guarda esforço, não relevância. Passagem de plantão de memória não é transmissão de informação; é uma amostra enviesada dela.

O segundo é a interrupção. A passagem da cena aconteceu entre um telefonema e uma pergunta sobre jejum — e cada interrupção derruba exatamente o item que estava sendo processado naquele segundo, sem deixar cicatriz: ninguém percebe que um paciente inteiro foi pulado, porque a conversa recomeça no seguinte com sensação de continuidade. A literatura de enfermagem brasileira compilada pelo COREN-SC lista os inimigos com nome: atrasos, conversas paralelas, telefonemas, campainha, entrada e saída de pessoas, saídas apressadas. A aviação — de onde a segurança do paciente importou boa parte do seu método — resolveu isso com um conceito que o hospital ainda implora para ter: o momento crítico protegido, em que ninguém fala com o piloto sobre nada que não seja voar. A OMS recomenda o equivalente para a passagem: tempo alocado, suficiente, sem interrupções.

O terceiro é o telefone sem fio. A informação clínica raramente morre de uma vez; ela degrada a cada retransmissão. O plantonista de sexta ouviu do médico assistente que a imagem "não fecha com pneumonia, considerar TEP se piorar"; passou para o de sábado como "pneumonia atípica, atenção"; o de domingo recebeu "pneumonia em tratamento"; na segunda-feira, o paciente tem um diagnóstico que nenhum médico deu — ele foi produzido por compressão sucessiva. Cada elo resume, e todo resumo escolhe; três resumos depois, a dúvida original (que era a informação mais valiosa) virou certeza. É o mecanismo que os psicólogos chamam de reprodução serial e a clínica chama de ancoragem herdada: o quinto plantonista não duvida do rótulo, porque o rótulo chegou até ele com a autoridade acumulada de quatro colegas — que também não duvidaram.

O quarto é a assimetria de contexto — a maldição de quem sabe. Quem sai viveu o filme; quem entra recebe meia dúzia de fotos. E quem viveu o filme não consegue mais perceber o que só faz sentido para quem o viu: "a família veio ontem" era, na cabeça do plantonista, uma referência óbvia à conversa de conforto do leito 9 — ele esteve lá, a frase carrega a cena inteira. Para você, que não esteve, é uma visita social. O transmissor superestima sistematicamente o que a frase transporta, porque ele a ouve com o contexto que o receptor não tem. A única defesa conhecida é estrutural: um roteiro que obriga a dizer o que "todo mundo sabe" (código de reanimação, alergia, plano) — porque é exatamente o que todo mundo sabe que ninguém fala.

O quinto é o silêncio hierárquico — e este mata calado. O interno que não entendeu o plano não pergunta, para não parecer fraco; o plantonista que não sabe o que o paciente tem diz "em investigação", que soa melhor que "não sei"; o receptor apressado não pede que se repita, para não segurar o colega exausto. Em todos os três casos a lacuna fica invisível por um motivo social, não cognitivo — e a informação mais valiosa da passagem, que é a incerteza ("não sei o que ele tem, e é isso que me preocupa"), é justamente a que mais se omite por vergonha. Um processo de passagem decente precisa tornar a pergunta obrigatória e a incerteza dizível — é para isso que existe a síntese do receptor, o passo final do I-PASS em que quem recebe repete o que entendeu: ela transforma a checagem, que dependia de coragem, em rotina, que não depende de ninguém.

Junte os cinco mecanismos e a solução deixa de ser exortação ("capriche na passagem") e vira engenharia, com uma peça para cada falha: o registro escrito contínuo compensa a memória de trabalho; o momento protegido neutraliza a interrupção; o roteiro fixo com itens obrigatórios impede o telefone sem fio e fura a maldição do contexto; a síntese de quem recebe expõe a lacuna que a hierarquia esconderia. Nada disso pede talento — pede método. E o efeito do método foi medido: menos 23% de erros, menos 30% de dano evitável, custo de tempo zero.

Dois médicos realizam passagem de plantão frente a frente, com listas de apoio, escuta atenta e computador sem informação legível.
A passagem de plantão deve transmitir problemas ativos, prioridades, pendências e contingências, com espaço para perguntas e confirmação do entendimento. Listas apoiam a conversa, mas não substituem a transferência explícita de responsabilidade.
05

Como se apresenta de verdade

"Passagem de plantão" parece uma coisa só e são pelo menos cinco — e o que muda entre elas não é detalhe: muda o tempo disponível, o canal, quem responde pelo paciente durante a transição e o tamanho do estrago se falhar. O interno circula pelas cinco na mesma semana, quase sempre sem notar que trocou de modalidade. Notar é o primeiro ganho deste bloco: cada cenário abaixo tem seu ponto fraco típico, e quem o conhece entra na conversa sabendo o que proteger.

Uma definição transversal antes dos cenários, porque ela organiza tudo: transição do cuidado é a transferência de responsabilidade — temporária ou definitiva — pelo paciente, de um profissional ou equipe para outro. A palavra importante é responsabilidade, não informação: a informação é o veículo; o que muda de mãos é quem responde pelo doente às 3h da manhã. Toda regra deste capítulo decorre daí — inclusive a mais dura: enquanto a passagem não termina (com o receptor ciente e de acordo), o paciente ainda é seu.

Percurso de aprendizagem

Comece por quem preocupa e pelo problema atual, depois acrescente o contexto que muda a conduta. SBAR ajuda no chamado urgente; I-PASS organiza a transição entre equipes.

Cada pendência precisa de responsável, prazo e decisão possível. Inclua resposta ao tratamento e monitorização, evitando repetir esquemas antigos automaticamente.

Confirme a compreensão por síntese e esclareça metas de cuidado, alergias e preferências. Na transferência, prepare também suporte e acompanhamento do paciente.

Plantão a plantão — a passagem em lote, contra o relógio

É a da cena de abertura: fim de turno, a equipe inteira troca, e um plantonista transmite ao outro uma lista de pacientes — doze, vinte, às vezes quarenta. O que a caracteriza é o lote e a assimetria de energia: quem sai está exausto e quer ir embora; quem entra está frio e ainda não sabe o que perguntar. O risco típico é a compressão — cada paciente recebe em média dois a três minutos (o estudo I-PASS mediu 2,4 minutos por paciente), e o estável de ontem é despachado em cinco segundos.

É também a modalidade mais frequente: o internado está exposto a até três trocas de equipe por dia — numa internação de dez dias, são trinta oportunidades de perda só do lado médico, fora as da enfermagem. E é a que menos perdoa improviso, porque o receptor não tem como conferir doze prontuários antes que o transmissor vá embora: ou a informação vem na passagem, ou ela não vem. Todo o bloco de conduta deste capítulo é desenhado para esta modalidade; as outras são variações dela.

Transferência de setor — muda o andar, muda a equipe inteira

Enfermaria para UTI, pronto-socorro para enfermaria, UTI para enfermaria na contramão, enfermaria para o centro cirúrgico. Aqui não é um colega que assume seus pacientes: é uma equipe inteira — médico, enfermagem, fisioterapia — que nunca viu o doente e vai recebê-lo no momento em que ele está, por definição, instável ou mudando de fase. A informação compete com a logística (maca, vaga, monitor, bomba de infusão), e o erro típico é o paciente viajar mais completo que a informação: chega o corpo, não chega o contexto.

Duas regras protegem essa modalidade. Primeira: a passagem é médico a médico e enfermeiro a enfermeiro, direta, antes ou junto do transporte — não um bilhete na maca, não um "a UTI já sabe" de terceira mão; o protocolo da SES-DF exige contato prévio com o serviço receptor e relatório com identificação, histórico, diagnóstico, exames, condutas e estado atual com sinais vitais. Segunda: paciente grave viaja acompanhado de médico, e a responsabilidade tem dono definido em norma — pela Portaria 2.048/2002 do Ministério da Saúde, citada pelo protocolo da SES-DF, o médico solicitante responde pelo paciente até a chegada ao destino quando o transporte é em suporte básico, e até a equipe médica do transporte assumir quando é em suporte avançado. Traduzindo para o plantão: "já foi pra UTI" não é o fim da sua responsabilidade — o fim é o médico de lá dizendo "assumi".

Na contramão — a UTI que devolve o paciente para a enfermaria — o risco muda de figura: o paciente chega "estável" com uma mochila invisível de pendências (desmame de sedação, traqueostomia para decanular, antibiótico com data para acabar, delirium em resolução) e uma família que passou dez dias ouvindo boletim diário e agora não ouve mais ninguém. A enfermaria recebe o menos doente do dia dela, que é o mais complexo da semana — e o trata com a atenção de quem recebeu um estável. A defesa é a mesma: passagem falada item a item, com a lista de pendências por escrito, e não a ficção de que "está tudo na evolução".

Alta e transferência para outro serviço — a passagem que atravessa o muro

Quando o paciente sai do hospital — para casa com seguimento no posto, para outro hospital, para a reabilitação —, a passagem vira documento: o relatório de alta ou de transferência. O receptor é alguém que você nunca vai ver, que não pode te ligar de madrugada e que talvez leia o papel dez dias depois. Por isso a regra aqui inverte a da passagem oral: em vez de dizer muito e escrever o essencial, escreve-se tudo o que o próximo precisa e diz-se ao paciente o essencial. A OMS define o conteúdo mínimo da alta: diagnósticos, plano de tratamento, medicações e resultados pendentes — e este último item é o que mais se esquece: exame colhido na internação cujo resultado sai depois da alta é órfão por padrão; alguém precisa ficar nomeadamente responsável por vê-lo e agir.

O paciente e a família são metade do canal nessa modalidade — a OMS lembra que eles são a única constante em todas as transições. Alta com receita ilegível e um "procura o posto" é passagem falhada; alta decente entrega três coisas ditas e escritas em linguagem de casa: o que ele tem, o que toma (e por quanto tempo), e o que deve fazê-lo voltar imediatamente. Peça de volta ("me conta o que o senhor vai tomar amanhã de manhã") — o teach-back da alta leva um minuto e é a única checagem de que a informação atravessou o muro.

Por telefone — o canal pobre que decide coisas ricas

Regulação de vaga, parecer, resultado crítico do laboratório, o plantonista que liga para o assistente às 2h. O telefone amputa tudo que não é palavra: o gesto, o monitor, o doente. Sobram voz e roteiro — e por isso foi exatamente para ele que o SBAR nasceu (o bloco de critérios conta a história). No telefone, duas regras são inegociáveis. Primeira: estruture ou será mal compreendido — situação, contexto, avaliação, pedido, nesta ordem, em menos de um minuto. Segunda: feche o circuito — quem recebe repete o que entendeu e o que ficou combinado (read-back); ordem verbal aceita sem repetição de volta é o modo de falha número um da comunicação telefônica, e a meta de comunicação efetiva dos protocolos nacionais de segurança manda literalmente "ouvir e repetir para o interlocutor".

E há o que o telefone não pode: substituir a passagem de plantão presencial. O parecer dos conselhos de enfermagem é explícito — passagem por telefone ou mensagem de aplicativo agrega risco, porque dúvida não esclarecida em tempo real é lacuna que ninguém percebeu; a conclusão do COREN-SC é que a passagem deve ser verbal e presencial. Para o interno, a tradução prática: WhatsApp serve para avisar ("resultado saiu, olha o sistema"), nunca para transferir responsabilidade ("fica de olho no leito 5 pra mim"). Responsabilidade se transfere olhando na cara ou, no limite, por voz com read-back — e sempre com registro.

As passagens-relâmpago — o pré-hospitalar que chega e o corredor que engole

Há ainda a passagem mais curta e mais dramática do hospital: a equipe do SAMU que entrega o paciente na sala de emergência. Ela tem norma própria — a Resolução COFEN 713/2022 exige comunicação sistematizada na chegada, com o paciente grave passado diretamente ao médico ou enfermeiro da sala (não ao segurança, não à recepção), e assinatura do receptor na ficha de atendimento, que vira parte do prontuário. Repare no desenho: transmissão direta a quem assume, registro escrito e prova de recebimento. É a mesma engenharia deste capítulo inteiro, comprimida em noventa segundos — e se o interno da sala de emergência é você, a sua parte é parar, ouvir os noventa segundos inteiros e só então deixar a equipe ir.

No extremo oposto da formalidade está a modalidade que não tem nome, não tem norma e responde por uma fração desonesta das perdas: a micro-passagem de corredor. "Vou almoçar, qualquer coisa o 5 é teu"; "vou na tomografia com o 9, olha os meus"; "depois te passo direito". Cada uma transfere responsabilidade de verdade — se o leito 5 parar durante o seu almoço, o plantão é de quem ficou —, mas transfere com conteúdo zero. A defesa não é abolir (impossível: gente almoça), é miniaturizar o roteiro: mesmo a cobertura de trinta minutos merece três frases — quem preocupa, o que está pendente nesse intervalo, e onde você estará. "O 5 é teu" vira: "me cobre 30 minutos; o 5 tem potássio de controle pra sair, se vier acima de 6 me liga na hora; o resto sem pendência; estou no refeitório".

06

Como fechar o diagnóstico

Se este capítulo fosse sobre uma doença, este seria o bloco dos exames — a coleta que precede a decisão. O equivalente aqui é o que você levanta antes de abrir a boca: a qualidade de uma passagem se decide nos trinta minutos que a antecedem, não durante. A passagem ruim quase nunca é um problema de eloquência; é um problema de matéria-prima — o plantonista não sabia o que estava pendente, não tinha visto o exame, não havia classificado quem preocupa. Falou mal porque levantou mal.

O preparo abaixo está organizado em cinco varreduras. Parece muito; não é. Num plantão de doze pacientes com a folha atualizada ao longo do turno (primeira varredura), as outras quatro cabem em quinze a vinte minutos. E há um teste de prontidão que resume as cinco: você está pronto para passar o plantão quando consegue dizer, de cada leito, quatro coisas sem abrir o prontuário — por que está internado, o que mudou hoje, o que está pendente, e o que pode dar errado nas próximas doze horas. O leito em que você trava é exatamente o que precisa de mais cinco minutos de prontuário antes das sete.

1 · A folha viva — o preparo que acontece durante o turno

A varredura mais importante não acontece antes da passagem; acontece o turno inteiro. A folha de passagem — o papel ou a planilha com um bloco por leito — se atualiza no momento em que cada fato acontece: prescreveu, anote; colheu, anote com horário; a família decidiu, anote. A alternativa — reconstruir o plantão de memória às 18h40 — é entregar a seleção do que será transmitido ao viés da memória cansada, que guarda o dramático e larga o importante. A regra de bolso: se aconteceu e não está na folha, em duas horas não aconteceu.

A folha tem dono e tem forma. Protocolos institucionais brasileiros — o da SES-DF é explícito — exigem instrumento padronizado de passagem com conteúdo mínimo: identificação, estado atual, procedimentos realizados, intercorrências e pendências. Se o seu serviço tem o formulário, use o do serviço; se não tem, monte o seu com as colunas do bloco de critérios e proponha ao staff que vire padrão — é o tipo de iniciativa de interno que muda um serviço. O que a folha não pode ser: rascunho pessoal cifrado que só você lê. Ela vai ficar com quem recebe; escreva para o outro.

2 · A varredura das prescrições — o que está escrito é o que está acontecendo?

Meia hora antes, abra as prescrições dos seus leitos, uma a uma, com três perguntas. O que mudou hoje — e quem ainda não sabe? (A dose ajustada, o antibiótico trocado, a dieta liberada: mudança de hoje é notícia de passagem; mudança da semana passada é história.) O que tem prazo embutido? — antibiótico em dia 5 de 7, corticoide em desmame, anticoagulação aguardando exame de amanhã: tudo que tem contador andando precisa ser dito com o contador ("ceftriaxona D5/7"), porque prazo não transmitido é tratamento que não acaba nunca ou acaba antes da hora. E há alguma prescrição que você não sabe justificar? — esta última pergunta é a rede de segurança contra a herança cega: se você não sabe por que o paciente usa aquilo, descubra antes de passar, porque o próximo vai perguntar (ou pior: não vai).

Nessa varredura entra também o que a prescrição não mostra: os dispositivos e seus dias. Acesso periférico de quantos dias, cateter central desde quando, sonda vesical ainda justificada ou esquecida, drenos com débito de quê. Dispositivo é relógio de complicação — flebite, infecção de corrente sanguínea, infecção urinária — e relógio que ninguém transmite ninguém desarma: a sonda "esquecida" que dá infecção no dia 9 é um clássico de auditoria de evento adverso.

3 · A varredura dos exames — colhido, liberado, visto, agido

Todo exame tem quatro estados: colhido, liberado, visto e transformado em conduta — e o dano mora nos degraus entre eles. O potássio da cena de abertura foi colhido (22h), liberado (23h30) e parou aí: ninguém o viu, ninguém agiu. Antes de passar o plantão, percorra a lista dos seus pacientes e feche cada degrau: o que foi colhido e ainda não liberou? (isso é pendência: vai para a folha com nome, horário previsto e — crucial — o que fazer com o resultado); o que liberou e você ainda não viu? (veja agora, antes da passagem, não durante); o que você viu e ainda não virou conduta? (ou resolve antes de sair, ou transmite como tarefa explícita com dono).

A forma de transmitir pendência de exame tem uma regra de ouro: pendência sem instrução é meia pendência. "Tem um potássio pra sair" obriga o receptor a adivinhar o que fazer com ele. A versão inteira tem três partes — o que está pendente, quando sai, o que fazer conforme o resultado: "potássio de controle sai lá pelas 21h; se estiver abaixo de 5,5, só segue; se estiver acima, repete ECG e me liga que eu te passo o esquema que já usamos". Quem recebe uma pendência assim não precisa de você durante a noite — e essa é a definição operacional de uma boa passagem: o receptor consegue agir sem te ligar.

4 · A varredura do combinado — decisões, famílias e o que está agendado

Há uma camada do plantão que não está em prescrição nem em resultado: o que foi conversado e decidido. A interconsulta que a cirurgia prometeu passar à noite, o exame agendado para as 6h em jejum, a cirurgia de amanhã que depende de reserva de sangue, a família que ficou de trazer o exame antigo, a conversa difícil que ficou marcada para quando o filho chegar do interior. E a mais grave de todas: a definição de limitação terapêutica — cuidados de conforto, não reanimar, não intubar. Essa camada é a que mais se perde, porque só existe na cabeça de quem estava lá — e é a que produz os piores desastres quando se perde: reanimar quem tinha decisão documentada de conforto não é falha de comunicação, é violência evitável contra paciente e família; deixar de operar porque ninguém confirmou o jejum é dano com data marcada.

Por isso a regra deste capítulo: decisão de fim de vida, alergia e evento adverso prévio não são itens da lista — são cabeçalho. Vêm antes da história, na primeira frase sobre o paciente, todas as passagens, mesmo que "todo mundo já saiba" (o mecanismo da maldição do contexto garante que alguém não sabe). E têm de estar em dois lugares ao mesmo tempo: na boca e no papel — a decisão de conforto do leito 9 existia no prontuário e mesmo assim quase foi atropelada, porque prontuário que ninguém abre às 3h não protege ninguém. O que protege é a frase dita: "leito 9: conforto, não reanimar, família ciente — está na evolução de ontem às 17h".

5 · A varredura de gravidade — classificar cada leito e escolher quem exige beira de leito

A última varredura é um julgamento, não uma coleta: atribua a cada paciente uma de três etiquetas — estável, atenção, instável. É o primeiro item do I-PASS (illness severity) e é a informação que mais muda o comportamento de quem recebe: o receptor que sabe quais três leitos preocupam distribui a atenção da noite de outro jeito. "Atenção" (o watcher americano) é a etiqueta mais valiosa e a menos usada: o paciente que não dispara nada objetivo ainda, mas que a sua intuição clínica marcou — a dispneia sem diagnóstico do leito 11 é o exemplo perfeito. Dizer "esse me preocupa e eu não sei bem por quê" não é fraqueza; é a transmissão de um dado clínico real que só você tem.

A classificação decide também a logística da passagem: quem exige beira de leito. A passagem em sala (ou no posto, sentados, com a folha) resolve o lote com eficiência e privacidade; mas o paciente instável, o recém-mudado de plano e o cheio de dispositivos merecem os noventa segundos extras de passagem à beira do leito — vendo o doente, o monitor, as bombas, os drenos. Ver junto elimina a distância entre a palavra e a coisa ("desconforto leve" do transmissor pode ser a franca taquipneia do receptor) e permite a única calibração que não existe em papel: os dois olharem o mesmo paciente e concordarem sobre o que estão vendo. A conta prática: doze leitos, passagem em sala; os dois ou três marcados, mais uma volta à beira do leito. Vinte minutos no total — e a noite inteira comprada.

07

SBAR, I-PASS e o que nunca pode faltar

Aprenda a transferir uma avaliação clínica atual, prioridades e tarefas executáveis. A boa passagem permite que quem recebe compreenda o risco e aja sem reconstruir toda a internação.

  1. 1Preparo (30 min antes): folha atualizada, prescrições varridas, exames fechados (colhido→liberado→visto→agido), combinados e limitações confirmados, etiqueta de gravidade em cada leito
  2. 2Abertura (1 min): visão geral do plantão — censo, os que preocupam, leitos vagos e chegadas previstas, avisos de unidade
  3. 3Corpo: paciente a paciente, na ordem dos leitos, com roteiro fixo — grave ganha minuto, estável ganha frase, ninguém é pulado
  4. 4Pendências: cada uma com dono, prazo e instrução condicional ("sai às 21h; se vier acima de X, faça Y")
  5. 5Fechamento (2 min): síntese de quem recebe — repete os graves, as pendências e as limitações; pergunta o que faltou; combina o canal para dúvidas
  6. 6Depois: folha entregue, registro em prontuário do que exige registro, transmissor acessível por telefone para dúvida pontual

A síntese de quem recebe

O passo que fecha o circuito: antes de o transmissor ir embora, quem recebeu repete — em trinta segundos, com a folha na mão — os pacientes instáveis, as pendências com prazo e as limitações terapêuticas. Não é prova de memória nem desconfiança: é o único teste objetivo de que a informação chegou. A lacuna que a síntese expõe custa dez segundos de correção agora; a mesma lacuna descoberta às 3h custa o que ela quiser cobrar.

"Sem intercorrências" é proibido como resumo

A frase parece informação e é ausência dela: não diz que o paciente foi visto, avaliado e está estável — diz apenas que nada gritou. O paciente do "sem intercorrências" pode ter um exame liberado que ninguém abriu e um prazo correndo que ninguém vigia. Substitua pelo mínimo com conteúdo: "visto às 18h, estável, sem pendências, plano de amanhã é X". Se você não consegue dizer isso, não é que não houve intercorrência — é que você não sabe se houve.

Contingência: "se acontecer X, faça Y"

O elemento que separa a passagem que informa da que protege. Para cada paciente marcado como atenção ou instável, uma frase condicional: "se a saturação cair de 90%, gasometria e me liga"; "se acordar agitado, o haloperidol já está prescrito em se-necessário"; "se o potássio vier acima de 6, ECG e o esquema de ontem". A contingência transfere para o receptor não só o estado do paciente, mas o seu raciocínio sobre ele — é a diferença entre entregar a fotografia e entregar o mapa.

Read-back ao telefone: escreva e leia de volta

Toda ordem, resultado crítico ou combinado transmitido por telefone fecha com o receptor escrevendo e lendo de volta o que anotou — técnica que a OMS recomenda nominalmente e os protocolos brasileiros de comunicação efetiva incorporam. "Deixa eu confirmar: amicacina, dose única diária, ajustada pra função renal, primeira dose agora — é isso?" Dez segundos. É a versão telefônica da síntese do receptor, e o antídoto específico do modo de falha mais comum do canal: a informação dada e recebida errada.

LetraO que entraFala pronta (chamando o plantão sobre um paciente que piora)
S — SituaçãoQuem fala, de onde, sobre quem, e qual é o problema em uma frase — com a gravidade dita de saída"Aqui é o interno da clínica médica, leito 5. Preciso de você agora: paciente com hipercalemia tratada ontem, agora com bradicardia de 40 e mal-estar."
B — Breve históricoO contexto mínimo que explica a situação: motivo da internação, o que aconteceu até aqui, o que é relevante do fundo (função renal, medicações, alergias)"Mulher de 58 anos, doença renal crônica, internada por pielonefrite. Ontem potássio de 6,8, tratado com glicoinsulina e resina. O controle das 22h saiu 7,1 e não foi visto até agora."
A — AvaliaçãoO que você acha que está acontecendo — inclusive quando a avaliação é "não sei, mas estou preocupado""Pra mim é hipercalemia não resolvida com repercussão no ritmo. Ela está consciente, pressão 100 por 60, monitorizada."
R — Recomendação (pedido)O que você quer de quem ouve, com prazo — vir avaliar, autorizar conduta, aceitar transferência. Termine com a checagem: o que ficou combinado?"Peço que você venha agora. Enquanto isso, posso repetir o ECG e preparar gluconato de cálcio? ... Combinado então: ECG, cálcio preparado, você chega em cinco minutos — confere?"

I-PASS — o roteiro da passagem de fim de turno, paciente a paciente

ElementoO que éFala pronta (o leito 5 da cena, agora passado direito)
I — Gravidade (illness severity)Uma etiqueta antes de tudo: estável, atenção ("watcher") ou instável. Distribui a atenção da noite de quem recebe"Leito 5 é a paciente que mais me preocupa hoje — etiqueta ela como atenção."
P — Resumo do paciente (patient summary)Uma frase de identidade clínica + o que trouxe + o curso até aqui + o plano atual. É o filme em quatro frases, não a história inteira"Mulher, 58, renal crônica, internada por pielonefrite em D3 de ceftriaxona, evoluiu ontem com potássio de 6,8, tratado. Plano é completar antibiótico e controlar o potássio até estabilizar."
A — Lista de tarefas (action list)O que está pendente, com prazo e dono — inclusive "nada pendente", dito com todas as letras"Pendência: potássio de controle colhido às 22h sai até 23h — é teu: abre o resultado assim que liberar."
S — Consciência da situação e contingênciaO que pode dar errado nas próximas horas e o que fazer se der — o raciocínio condicional entregue pronto"Se vier 6 ou mais, ou se ela tiver mal-estar ou mudança no monitor: ECG na hora, gluconato de cálcio, glicoinsulina de novo, e chama o plantão — o esquema de ontem está na prescrição suspensa, é só reativar."
S — Síntese pelo receptorQuem recebe repete o essencial, pergunta e assume as tarefas nominalmente"Deixa eu ver se peguei: renal crônica com hipercalemia ontem, controle sai até 23h, eu abro; acima de 6 ou sintomática — ECG, cálcio, glicoinsulina, chamo o plantão. Alguma limitação? Não? Fechado."

O que nunca pode ficar de fora — em qualquer formato de passagem

ItemPor que não pode faltarComo soa quando dito direito
Limitação terapêutica / código de reanimaçãoÉ a informação que muda a conduta das 3h da manhã inteira; a sua ausência produz reanimação indevida ou omissão indevida — os dois desastres definitivos"Leito 9: cuidados de conforto definidos ontem com a família, não reanimar, não intubar — registrado na evolução das 17h. Prescrição de conforto já feita."
Alergia e evento adverso prévioÉ a única informação que proíbe condutas futuras; esquecida, ela não avisa antes do erro"Alergia a dipirona — anafilaxia documentada. Está na prescrição e na pulseira, mas fica dito."
Pendência com prazo e donoPendência sem dono não é de ninguém; sem prazo, não é pendência — é esperança"Hemocultura de anteontem sai amanhã de manhã: quem estiver no diurno confere e ajusta o antibiótico com a infectologia."
Instabilidade atual ou muito recenteO receptor precisa saber onde a noite pode pegar fogo antes de decidir onde vai estar"Leito 11 dessaturou até 88% hoje às 16h, recuperou com O2. É a minha 'atenção' da noite: qualquer nova queda, gasometria e me liga."
Dispositivos e seus diasCada dispositivo é um relógio de complicação que só desarma quem sabe que ele existe"Cateter central em subclávia direita, dia 6 — se amanhã seguir sem uso, é pra discutir retirada. Sonda vesical saiu hoje."
Antimicrobiano com contadorAntibiótico sem contador não termina nunca (ou termina antes da hora); espectro sem justificativa não desescalona"Ceftriaxona D3 de 7 pra pielonefrite; se a cultura de amanhã mostrar sensível, desescalonar."
O que a família sabe (e o que falta contar)A próxima equipe vai conversar com a família sem saber o que já foi dito — e versões conflitantes destroem confiança"Família sabe da gravidade, ainda não sabe do resultado da tomografia — o staff quer dar essa notícia pessoalmente amanhã às 10h. Se perguntarem, acolhe e segura até lá."
A incerteza diagnóstica, dita como incertezaO diagnóstico "emprestado" vira certeza a cada retransmissão; a dúvida transmitida mantém o próximo alerta"Leito 11 está rotulado como pneumonia, mas eu não estou convencido — não fecha. Se piorar, não trata como pneumonia que piorou: reabre o raciocínio, pensa em embolia."

Os três modos de falha da informação — e o antídoto de cada um

Modo de falhaComo aparece no plantãoAntídoto
Informação nunca transmitidaO potássio pendente que não foi mencionado; a limitação terapêutica que "todo mundo sabia"; o paciente pulado durante a interrupçãoRoteiro fixo com itens obrigatórios (a omissão fica visível como campo vazio) + folha escrita atualizada durante o turno + momento protegido de interrupções
Informação transmitida, mas recebida de modo impreciso"Atenção com o potássio" entendido como rotina; a dose ouvida errada ao telefone; o "considerar TEP" que virou "pneumonia"Síntese do receptor na passagem presencial; read-back escrito ao telefone; números ditos algarismo por algarismo; incerteza rotulada como incerteza
Informação transmitida, mas nunca recebidaO recado deixado com terceiro que não chegou; a evolução escrita que ninguém abriu; a mensagem no grupo que o plantão seguinte não viuResponsabilidade se transfere de pessoa a pessoa, nunca por recado ou registro passivo; quem transmite confirma o recebimento com quem assume — sem confirmação, a responsabilidade ainda é sua

SBAR e I-PASS não competem: são ferramentas para momentos diferentes. O SBAR nasceu para a comunicação pontual e urgente (menos de cinco pontos-chave, decisão rápida); o I-PASS nasceu para a passagem em lote do fim de turno e foi testado nela. O erro não é escolher "errado" — é cada plantonista improvisar o próprio formato.

Os três elementos que as observações do estudo I-PASS mostraram ser os mais omitidos pelos residentes — etiqueta de gravidade, plano de contingência e síntese do receptor — são exatamente os três que não existem numa passagem improvisada. Se o seu serviço não usa roteiro nenhum, comece por esses três: são os de maior retorno por segundo investido.

O formulário institucional, quando existe, vence qualquer preferência pessoal — o valor do roteiro está em todos usarem o mesmo. O protocolo da SES-DF exige passagem presencial com instrumento obrigatório contendo, no mínimo: identificação, estado atual, procedimentos realizados, intercorrências e pendências.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo abaixo é a da própria passagem — do meio do turno, quando ela começa de verdade, até depois que o transmissor atravessa a porta. Em cada marco, as falas vêm prontas, entre aspas: não para recitar, mas porque na primeira vez o improviso trava, e é da frase pronta que nasce, com a repetição, a sua versão. Os textos-modelo completos — um paciente estável, um grave — estão nos marcos do corpo da passagem; são deles que você deve sair capaz de reproduzir a estrutura de olhos fechados.

A duração depende do risco e da complexidade. Dois minutos e meio por paciente em doze leitos já correspondem a trinta minutos, antes de abertura e fechamento. Use estrutura para transmitir o necessário, reservando mais tempo aos que preocupam, sem impor um cronômetro como medida de qualidade.

  1. Durante o turno inteiro — a passagem começa quando o plantão começa

    Cada fato relevante vai para a folha no momento em que acontece, com horário: a prescrição mudada, o exame colhido, a conversa com a família, a decisão de conduta. A folha viva é o que desacopla a qualidade da passagem da qualidade da sua memória às 19h — e é também o seu seguro contra o plantão que termina em caos: se a última hora for um incêndio, a passagem já está pronta desde as 17h.

    Prescrição
    • Na folha: leito 5, hipercalemia tratada; registrar horário e dose de cada intervenção, ECG, resposta, próximos controles de potássio e glicemia e responsável. Primeiro controle do potássio em torno de uma hora, com medidas seriadas; não deixar o primeiro controle para a noite seguinte.
    • "L9 — 17h conversa com família (filho e esposa) + staff: conforto, não RCP, não IOT. Evolução registrada. Prescrição de conforto feita."
    • "L2 — hemocultura 2/2 colhida ontem; resultado previsto amanhã cedo."
  2. 30 minutos antes — as varreduras e a etiqueta de gravidade

    Prescrições, exames (colhido→liberado→visto→agido), combinados, dispositivos, e a etiqueta de cada leito: estável, atenção, instável. Feche o que dá para fechar antes de transmitir — resultado que você pode ver agora não vira pendência do outro. Termine com o teste de prontidão: de cada leito, você sabe dizer por que está internado, o que mudou hoje, o que está pendente e o que pode dar errado de noite?

    Prescrição
    • Para si, olhando a folha: "Instáveis: nenhum. Atenção: 5 e 11. Estáveis: os outros dez. Pendências com prazo: K do 5 (23h), hemocultura do 2 (manhã), jejum do 4 (6h)."
    • Para a enfermagem, antes de sentar: "Vou passar o plantão pro doutor que chegou. Quinze minutos sem interrupção, a não ser urgência — pode ser?"
    • Se algo não fecha: "O 11 eu ainda não entendi. Vou reler a evolução da pneumo antes de passar, pra não passar coisa errada."
  3. Hora zero — sentados, com duas cópias da folha, e a abertura em um minuto

    A passagem acontece sentada, em lugar com porta (ou no posto com a enfermagem avisada), com uma cópia da folha na mão de cada um. A abertura é a fotografia do plantão inteiro antes do paciente a paciente: quantos leitos, quem preocupa, o que está para acontecer na unidade. Ela dá ao receptor o mapa em que ele vai pendurar os detalhes — detalhe sem mapa não gruda.

    Prescrição
    • "Doze leitos ocupados, uma alta amanhã (o 3), um leito vago que deve receber internação do PS de madrugada."
    • "Quem me preocupa: o 5 — hipercalemia com controle pendente — e o 11, uma dispneia que não fechou diagnóstico. O resto está tranquilo."
    • "Aviso de unidade: o laboratório está com atraso de uma hora nos resultados, conta com isso nos horários que eu for falando."
  4. O corpo — paciente a paciente, na ordem dos leitos: o texto-modelo do estável

    Ordem fixa (leito 1 ao 12, sempre — a ordem fixa é o que garante que ninguém é pulado depois de uma interrupção), roteiro fixo, tempo proporcional à etiqueta. O estável ganha o formato mínimo com conteúdo: identidade clínica, estado, pendência (ou a ausência dela, dita), plano. Vinte segundos que provam que o paciente foi visto — a diferença entre resumo e buraco.

    Prescrição
    • Estável sem pendência: "Leito 2, homem de 71 anos, pneumonia comunitária, D3 de ceftriaxona mais azitromicina, afebril há 36 horas, comendo bem. Estável. Pendência única: hemocultura sai amanhã cedo — o diurno confere. Plano: completar 7 dias e ir pensando em alta."
    • Estável com detalhe que importa: "Leito 7, mulher de 45, pós-operatório de colecistectomia, teve dor incisional de madrugada, respondeu a analgesia comum, sem sinal de complicação — ferida limpa, sem febre, abdome inocente. Estável. Sem pendência. Se a dor voltar diferente — mais intensa, com febre ou vômito — aí não é incisional: examina e avisa a cirurgia."
    • Alta programada: "Leito 3 vai de alta amanhã: receita pronta, retorno marcado no posto em 7 dias, orientado sinal de alarme. Só falta o staff assinar o relatório de manhã. Nada pra fazer à noite."
  5. O corpo — o texto-modelo do grave (ou do 'atenção')

    O paciente marcado ganha o I-PASS completo, sem pressa: etiqueta, resumo em quatro frases, tarefas com prazo e dono, contingência condicional, e — nos casos de limitação terapêutica — o cabeçalho dito antes de tudo. É aqui que os dois ou três minutos por paciente são gastos, e é aqui que a beira do leito complementa a sala: terminou a lista, os dois vão ver juntos os marcados.

    Prescrição
    • Leito 5, atenção: hipercalemia com risco de recorrência. Informe valor/horário, ECG, função renal, diurese, o que foi administrado e controles já realizados. Combine próximos controles de potássio e glicemia, monitorização e responsável. Reavaliar imediatamente diante de fraqueza, bradicardia ou alteração do ritmo; cálcio IV para repercussão elétrica, medidas de redistribuição e remoção conforme avaliação e protocolo. Não basta reativar a prescrição de ontem: dose acumulada, glicemia e necessidade de diálise precisam de nova decisão.
    • O de limitação terapêutica, com o cabeçalho primeiro: "Leito 9 — antes de tudo: cuidados de conforto definidos ontem às 17h com esposa e filho, junto com o staff. Não reanimar, não intubar, não vai pra UTI — registrado na evolução e com prescrição de conforto feita. Homem de 82 anos, insuficiência cardíaca avançada e demência, internado por congestão refratária. O que fazer à noite: sintoma é pra tratar — morfina e o resto estão prescritos em se-necessário; o que não se faz é medida invasiva. Se ele morrer no teu plantão, é morte esperada: constata, aciona o protocolo de óbito e chama a família com calma — eles pediram ser avisados a qualquer hora."
    • Leito 11, atenção: dispneia com diagnóstico ainda incerto. Transmitir suporte de oxigênio, tendência respiratória, hipóteses e investigação pendente. Se houver suspeita relevante de TEP, definir probabilidade clínica e exame apropriado; não deixar a investigação depender de D-dímero tardio em paciente hospitalizado. Nova dessaturação ou instabilidade exige avaliação imediata de causas, suporte e ajuda, sem tratar toda piora como embolia ou anticoagular automaticamente.
  6. As pendências — a lista final, cada uma com dono, prazo e condicional

    Depois do paciente a paciente, a lista de tarefas é repetida em bloco — as mesmas pendências, agora todas juntas, na ordem do relógio. A repetição é proposital: o receptor ouviu cada uma no contexto do seu paciente; agora ele as vê como a agenda da noite. Pendência transmitida uma vez é lembrança; transmitida duas, é plano.

    Prescrição
    • "Recapitulando a noite em ordem: 23h sai o potássio do 5 — abrir e agir conforme o combinado. 6h, jejum confirmado pro exame do 4. De manhã cedo: hemocultura do 2 e D-dímero do 11 — quem estiver aqui confere e aciona."
    • "Do PS deve subir uma internação pro leito vago — quando subir, pede pra me ligarem se vier instável; o resto você resolve."
    • "Tudo isso está escrito na folha, nessa ordem, com os horários."
  7. O fechamento — a síntese de quem recebe, as perguntas e o canal

    O transmissor pede a síntese sem tom de professor — o ônus é de quem explicou, não de quem ouviu. O receptor repete os marcados, as pendências e as limitações olhando a folha; pergunta o que quiser; e os dois combinam o canal para dúvida (telefone, não mensagem). Só então a responsabilidade mudou de mãos — e vale dizer isso em voz alta, porque clareza sobre quem responde é metade da segurança.

    Prescrição
    • Pedindo a síntese: "Pra eu ter certeza de que não esqueci nada: me devolve os três que preocupam e a agenda da noite?"
    • Recebendo a síntese com lacuna: "Perfeito — só faltou um: o 9 é conforto, não reanima. Esse não pode sair da tua cabeça."
    • Fechando: "Então está passado: a partir de agora é contigo. Qualquer dúvida pontual me liga — de preferência antes da meia-noite. Bom plantão."
  8. Depois de atravessar a porta — registro, disponibilidade e a mão dupla

    A folha fica com quem recebeu; o que exige registro formal (a decisão de conforto, a intercorrência relevante, a transferência) já está em prontuário — passagem oral não substitui evolução, e evolução não substitui passagem oral: são redundância deliberada, cada uma cobrindo a falha da outra. O transmissor fica acessível por telefone para dúvida pontual; o receptor, em contrapartida, não terceiriza a noite — ligar para tirar dúvida de combinado é correto; ligar para não decidir é devolver o plantão que ele aceitou.

    Prescrição
    • Se o receptor liga às 23h30: "O potássio veio 5,8. Só confirmando: pelo combinado, repito ECG e reavalio, sem esquema — certo?" — "Certo, e se o ECG mudar, esquema e plantão. Boa."
    • Se VOCÊ percebe, já em casa, que esqueceu algo: ligue na hora — "Esqueci de te passar uma coisa do 7: ela tem alergia a dipirona documentada. Está na prescrição, mas eu devia ter falado. Anota aí na folha."
    • O que não fazer: mandar no grupo do plantão "alguém vê o K do leito 5" — recado sem dono não é transferência de tarefa; é loteria.
09

Como saber se está funcionando

Como saber se a passagem funcionou? A resposta ingênua — "falei tudo" — mede o transmissor, e o que importa acontece no receptor: comunicação é o que chegou, não o que saiu. Os cinco parâmetros abaixo medem a chegada, cada um no seu tempo: dois são imediatos (ainda com os dois na sala), dois se leem nas horas seguintes, e o último é a auditoria pessoal que transforma cada plantão em treino. Nenhum exige formulário ou permissão do serviço — todos cabem na iniciativa de um interno.

E vale a regra geral da medicina: quando o parâmetro não melhora, revise o método antes de aumentar a dose. A passagem que falhou não se corrige falando mais alto nem mais tempo — se a síntese do receptor voltou vazia, o problema quase nunca é a atenção dele; é o formato: informação demais sem hierarquia, pendência sem dono, gravidade não etiquetada. Conserte a estrutura, não o volume.

A síntese de quem recebe (o read-back presencial)Ao final de toda passagem, antes de o transmissor sair — sempre, sem exceção

Esperado: O receptor reproduz, olhando a folha, os pacientes marcados (com o porquê), as pendências com prazo e as limitações terapêuticas — e assume nominalmente as tarefas ("o potássio das 23h é meu")

Se não melhora: Lacuna na síntese se corrige na hora, sem cerimônia ("faltou o 9 — conforto, não reanima"). Síntese consistentemente vazia é diagnóstico do formato da SUA passagem: reduza o volume, hierarquize (graves primeiro ganham mais tempo), etiquete a gravidade em voz alta e entregue a folha escrita — ninguém sintetiza vinte minutos de prosa sem apoio.

As perguntas que o receptor fazDurante a passagem e no fechamento

Esperado: Perguntas de plano e de contingência ("e se o potássio vier alto?", "a família sabe?", "por que ele usa esse anticoagulante?") — sinal de que o receptor está construindo o próprio mapa, não só anotando o seu

Se não melhora: Zero perguntas em doze pacientes não é compreensão perfeita — é passividade, pressa ou hierarquia calando a dúvida. Convide nominalmente ("o que ficou confuso? pergunta mesmo, eu prefiro dez perguntas agora que um telefonema às 3h") e faça você a pergunta de checagem no ponto mais crítico ("me diz o que você vai fazer quando o resultado sair").

As primeiras duas horas do turno seguinteObservável por quem recebeu; conferível por quem passou, no plantão seguinte

Esperado: As pendências com prazo foram executadas no prazo (o resultado aberto na hora prevista, o jejum confirmado, o antibiótico ajustado); os marcados foram vistos primeiro; nenhuma decisão contradisse combinado ou limitação

Se não melhora: Pendência herdada e não executada tem dois diagnósticos possíveis: transmissão sem dono/prazo/condicional (culpa da passagem — conserte o formato) ou recepção que anotou e não agiu (culpa da execução — conversa direta com o colega, sem plateia). Distinguir importa: o primeiro se resolve com roteiro, o segundo com responsabilização — e confundir os dois é injusto com alguém.

A taxa de surpresa da manhã seguinteNa visita do dia seguinte, primeira hora

Esperado: O que a noite sabia, o dia sabe: nenhum "por que ninguém me falou disso?" do staff, nenhuma decisão noturna desfeita por falta de contexto, nenhuma família repetindo do zero o que já tinha contado à equipe anterior

Se não melhora: Cada surpresa da manhã é um item que existia às 19h e não atravessou a noite — rastreie onde morreu: não estava na folha? (falha de registro durante o turno); estava e não foi dito? (falha de roteiro); foi dito e não foi ouvido? (falha de síntese). A surpresa recorrente no mesmo degrau aponta o conserto exato — é auditoria de graça, todo dia.

O resgate do que faltou — depois que o outro já saiuNo momento em que você (transmissor ou receptor) percebe a lacuna — minutos ou horas depois

Esperado: A lacuna percebida vira telefonema imediato, sem burocracia e sem culpa: quem lembrou liga, o outro anota na folha, o caso segue protegido

Se não melhora: Os dois erros simétricos: quem percebeu e não ligou ("amanhã eu falo" — a noite inteira desprotegida por constrangimento) e quem recebeu a ligação com deboche ("só agora lembrou?" — garantia de que o colega nunca mais liga). A cultura que pune o resgate escolhe a lacuna permanente; serviços seguros tratam o telefonema tardio como acerto, não como vexame. Se o clima do seu serviço é de deboche, comece a mudança pelo seu próprio exemplo: agradeça alto quem te liga.

10

Onde o erro machuca

Passar só quem "está ruim" e despachar o resto num bloco de "sem intercorrências"

O dano: O estável de hoje é o grave de amanhã sem contexto: quando o "tranquilo" do leito 5 deteriora às 3h, o plantonista descobre que não sabe por que ela está internada, o que já foi tentado nem o que estava pendente — e começa o atendimento da emergência pelo prontuário, perdendo os minutos que a paciente não tem. O dano não aparece na passagem; aparece na madrugada, longe dela, e por isso ninguém o atribui a ela.

Como pegar a tempo: Todo leito ganha ao menos o formato mínimo com conteúdo (identidade clínica, estado, pendência ou a ausência dela, plano) — vinte segundos. "Sem intercorrências" é proibido como resumo de paciente; só vale como fechamento de um leito já descrito. A ordem fixa de leitos garante que ninguém é pulado.

Omitir a pendência de exame — ou transmiti-la sem prazo, dono e instrução

O dano: É o mecanismo do caso da abertura: potássio colhido às 22h, liberado às 23h30, visto às 9h40 — dez horas de hipercalemia grave correndo soltas porque a pendência não foi dita. Resultado crítico não visto é a forma mais barata de matar paciente internado: o dado existia, o sistema o exibia, ninguém tinha a tarefa de olhar. E a versão capenga ("tem um exame pra sair") falha quase igual: o receptor olha, não sabe o que fazer com o número, e espera a manhã.

Como pegar a tempo: Pendência completa tem quatro partes: o quê, quando sai, quem abre, o que fazer conforme o resultado ("K sai às 23h; é teu; abaixo de 5,5 segue, 6 ou mais — ECG, cálcio e me liga"). Na dúvida sobre o horário de liberação, a instrução vira condicional de vigilância ("confere às 23h e às 1h"). E o transmissor fecha antes o que dá para fechar: resultado que já liberou se vê antes da passagem, não se herda.

Não transmitir limitação terapêutica, código de reanimação ou alergia

O dano: Os dois desastres definitivos moram aqui. O paciente com decisão documentada de conforto que é reanimado às 3h por um plantonista que não sabia — costelas quebradas, tubo, UTI e uma família que confiou na equipe vendo a decisão mais difícil da vida dela ser atropelada. Ou o espelho: o "acho que ele era conforto" aplicado a quem não era. E a alergia não dita é a anafilaxia da madrugada com a droga que o prontuário proibia. São os únicos erros deste capítulo que nenhuma competência posterior conserta.

Como pegar a tempo: Regra de cabeçalho: limitação terapêutica, código e alergia grave abrem a fala sobre o paciente — antes da história, todas as passagens, mesmo que "todo mundo saiba". Sempre em dupla via: dito na passagem E registrado (evolução + prescrição de conforto feita). E na síntese do receptor, é o item que o transmissor confere nominalmente: "me confirma o 9".

Passar o plantão em pé, no corredor, entre interrupções

O dano: Cada interrupção derruba o item em processamento sem deixar marca — o paciente pulado não é sentido como pulado, porque a conversa recomeça com sensação de continuidade. De pé e com a mochila no ombro, a passagem inteira é comprimida pela pressa de quem sai; no corredor, dados sensíveis (diagnóstico, prognóstico, conflito familiar) vazam para maca, acompanhante e visitante — quebra de sigilo com plateia.

Como pegar a tempo: Lugar com porta (ou o posto com a enfermagem avisada: "quinze minutos, só urgência"), os dois sentados, telefones no silencioso, duas cópias da folha. Se a interrupção for inevitável (urgência real), a regra da aviação: retoma-se do último leito completo da ordem fixa, não "de onde a gente estava" — é para isso que a ordem fixa existe.

Confiar a passagem à memória — sem folha escrita, sem registro

O dano: A memória de fim de plantão guarda o que deu trabalho e larga o que importa; o que sobrevive é amostra enviesada. Sem papel, a informação vive uma geração: o que o noturno ouviu e não anotou morre na passagem seguinte — é o telefone sem fio que transforma "considerar TEP se piorar" em "pneumonia em tratamento" em três turnos. E sem registro, a lacuna é indemonstrável: ninguém sabe sequer o que se perdeu.

Como pegar a tempo: Folha viva atualizada durante o turno (se não está na folha, não aconteceu), entregue em mãos na passagem — e o que exige registro formal (decisão de fim de vida, intercorrência, transferência) em prontuário além da folha. Oral e escrito não competem: são redundância deliberada, cada um cobrindo a falha do outro — é a recomendação conjunta da OMS e dos protocolos brasileiros.

Assumir que o outro leu — ou vai ler — o prontuário

O dano: "Está tudo na evolução" é a transferência de responsabilidade mais falsa do hospital: o receptor de doze leitos não vai ler doze internações antes da primeira intercorrência — vai ler o prontuário de quem gritar primeiro, quando já estiver gritando. A informação registrada e não dita é o terceiro modo de falha dos protocolos de segurança: transmitida, nunca recebida. O prontuário protege juridicamente quem escreveu; não protege clinicamente o paciente às 3h.

Como pegar a tempo: A hierarquia correta: o que muda conduta nas próximas 24h se DIZ (e se escreve); o que é contexto se escreve (e se aponta na fala: "a história completa está na evolução de ontem"). Responsabilidade só se transfere de boca a boca com confirmação — registro passivo transfere informação, nunca responsabilidade.

Herdar o diagnóstico sem revisar — a âncora que passa de plantão em plantão

O dano: O rótulo dito com segurança na passagem chega ao receptor com autoridade acumulada: cada plantonista que o repete o endurece, e a dúvida original — que era a informação mais valiosa — evapora. É a paciente do leito 11: "pneumonia" por três turnos, até dessaturar de vez e se revelar embolia anticoagulada com dias de atraso. O receptor que herda certeza não re-examina; o dano é o diagnóstico alternativo que ninguém perseguiu porque ninguém sabia que havia pergunta aberta.

Como pegar a tempo: Quem transmite rotula a incerteza como incerteza ("está como pneumonia, mas não fecha — se piorar, reabre o raciocínio") — a dúvida transmitida mantém o próximo alerta e não custa nada. Quem recebe pergunta uma vez por paciente: "isso é diagnóstico confirmado ou hipótese de trabalho?". E diagnóstico que só existe porque "veio assim da passagem" merece cinco minutos de prontuário na primeira folga.

Transferir responsabilidade por mensagem — o plantão passado por aplicativo

O dano: A mensagem não garante recebimento (enviada não é lida), não permite pergunta em tempo real (a dúvida que seria esclarecida na hora vira lacuna silenciosa) e pulveriza o dono ("alguém vê o K do 5" no grupo é tarefa de ninguém). O parecer dos conselhos de enfermagem é explícito: passagem por meio não presencial agrega risco e não deve ser praticada — e o princípio vale idêntico para o médico. O dano típico: o "fica de olho" enviado às 19h07, lido às 22h, sobre o paciente que precisava de olho às 20h.

Como pegar a tempo: Mensagem serve para avisar fato ("resultado liberado, olha o sistema"); responsabilidade e tarefa se transferem por voz ou presença, com confirmação de quem assume ("assumido" dito, não visto). Se a passagem presencial é impossível (plantonista que não chegou), a alternativa é o telefonema estruturado com read-back — e o registro de que foi feito assim e por quê.

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O que dizer ao paciente e à família

Este bloco costuma ser sobre falar com paciente e família; aqui, o interlocutor é o colega — e a conversa entre profissionais tem armadilhas próprias, quase todas sociais: a pergunta que soa a acusação, a incerteza que se cala por vergonha, a correção que humilha, a pressa que constrange. As falas abaixo resolvem as situações em que a frase certa protege o paciente sem queimar a relação — porque a relação também é instrumento de segurança: colega que você constrangeu hoje é colega que amanhã não te liga.

Receber uma passagem vaga — sem acusar quem está exausto

"Antes de você ir, me ajuda com três coisas que eu sempre pergunto: quem é o paciente que mais te preocupou hoje? Tem alguma pendência com horário — exame pra sair, medicação, jejum? E algum leito com limitação de esforço, alergia grave, alguma decisão de família que eu preciso saber? ... Ótimo. E do leito 5, que você falou rapidinho: por que ela está internada mesmo, e o que muda hoje?"

Não diga: "Você não vai me passar direito?" e o interrogatório item a item de todos os doze (o colega exausto se fecha). As três perguntas de segurança — grave, prazo, limitação — extraem 80% do que falta em trinta segundos e soam a método seu, não a crítica a ele. E o silêncio conformado é pior que qualquer pergunta: aceitar passagem vazia é assinar recibo do que não recebeu.

Transmitir a própria incerteza — sem parecer incompetente

"O leito 11 eu vou te passar com honestidade: não sei o que ela tem. Está rotulada como pneumonia, mas pra mim não fecha — sem febre, imagem pobre, e dessaturou hoje. O D-dímero sai de manhã. Eu preferi te dizer 'não sei' do que te entregar um diagnóstico que eu não comprei: se ela piorar, não trata como pneumonia que piorou — reabre o raciocínio e pensa em embolia primeiro."

Não diga: "Em investigação" (soa a processo em andamento e esconde que não há hipótese firme) e o oposto — repetir o rótulo herdado com falsa segurança só para a passagem parecer redonda. A incerteza dita é dado clínico; a incerteza maquiada é armadilha armada para o colega. Quem confessa a dúvida não parece fraco: parece o único que pensou.

Perceber, horas depois, que faltou informação — e ligar para quem já saiu

"Oi, desculpa te ligar em casa — é rápido e é importante. Do leito 7: lembrei que ela tem alergia a dipirona com anafilaxia documentada, e eu não te falei. Está na prescrição, mas eu não queria contar com isso. Anota aí na tua folha? ... Obrigado. Qualquer outra coisa que eu lembrar, prefiro te ligar do que deixar pra amanhã — faz o mesmo comigo."

Não diga: "Amanhã eu falo" (a noite inteira desprotegida por constrangimento) e o pedido de desculpas interminável que transforma um telefonema de 20 segundos em cerimônia — a normalização do resgate ("faz o mesmo comigo") é o que constrói a cultura em que ligar tarde é acerto, não vexame. No sentido inverso, ao receber a ligação: "boa, anotado" — nunca "só agora?".

Discordar de uma conduta herdada — sem minar quem saiu

"Recebi o plantão com o paciente do 2 em ceftriaxona por pneumonia, e hoje a cultura mostrou um germe resistente. Vou ajustar com a infectologia — e vou registrar que a mudança é pelo resultado novo, que o colega da noite não tinha. Se te perguntarem: a conduta de ontem estava certa com a informação de ontem."

Não diga: Corrigir anunciando erro alheio ("olha o que deixaram aqui") na frente de equipe ou família — mina a confiança no serviço inteiro e envenena a próxima passagem; e o oposto: manter conduta que você já sabe inadequada "por respeito" a quem prescreveu. A régua: conduta se atualiza com dado novo, sem julgamento retroativo; discordância de julgamento (mesmos dados, leitura diferente) se resolve com o colega ou com o staff — nunca por prescrição rasgada em silêncio.

Proteger a passagem da interrupção — sem virar o grosso do plantão

Para a equipe, antes de começar: "Vou passar o plantão pro doutor — quinze minutos. Se não for urgência, eu resolvo já já; se for, pode entrar direto." Para quem interrompe no meio: "Estou no meio da passagem — te procuro em dez minutos, pode ser? Se for urgente, fala agora." E, retomando: "Paramos no leito 6 completo. Voltando: leito 7."

Não diga: O "pera aí" de mão levantada sem triagem (a interrupção pode ser a parada do leito 4) e a rendição total — atender cada chamado e retomar "mais ou menos de onde parou", que é como pacientes somem. A fórmula tem as duas válvulas: protege o bloco E deixa a porta explícita para urgência; e a retomada é sempre do último leito completo da ordem fixa.

Ser apressado por quem recebe — "pode ir direto ao ponto"

"Vou ser rápido — mas tem três coisas que eu não passo por cima, porque são as que dão problema de madrugada: o 5 tem potássio pra sair às 23h com esquema combinado, o 9 é conforto e não reanima, e o 11 é diagnóstico aberto que pode ser embolia. Isso dito, o resto está na folha e eu te dou o telegrama de cada um em cinco minutos. Fechado?"

Não diga: Ceder ao atropelo (passar por cima exatamente do que protege a noite) e o sermão sobre a importância da passagem (ninguém exausto muda de cultura às 19h). A negociação é prática: nomeie o inegociável em três itens, compacte o resto — e a folha escrita é o que torna a compactação segura. Colega que apressa sempre é padrão do serviço; padrão se muda em reunião de equipe, não no balcão.

Pedir o read-back ao telefone — sem soar professor de colega

"Só pra eu ter certeza de que eu falei tudo certo — me repete o que ficou combinado? ... Isso, com um ajuste: é acima de 6 que você me liga, não 6,5. Anota aí. Fechou."

Não diga: "Repete o que eu disse" (tom de prova oral — o ônus cai no ouvinte) e pular a checagem porque "ficou claro" — a informação dada e recebida errada é exatamente a que parece clara para os dois lados. A fórmula inverte o ônus ("que EU falei tudo certo") e o erro achado no read-back se corrige sem drama: era para isso que ele existia.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Passagem à beira do leito ou em sala fechada?

Beira do leito, com o paciente participando — envolvimento do paciente como estratégia de segurança (OMS)

A OMS lista o envolvimento do paciente e da família entre as estratégias da solução de comunicação: o paciente é a única constante em todas as transições, deve saber quem responde por ele a cada turno e pode corrigir em tempo real o dado errado ("esse remédio eu parei há um mês"). A passagem à beira do leito soma a isso a calibração visual — transmissor e receptor olham juntos o doente, o monitor, os dispositivos, e a distância entre a palavra e a coisa desaparece. Na enfermagem, a visita e a passagem junto ao leito são prática consolidada e recomendada pelos protocolos institucionais que descendem da meta de comunicação efetiva.

OMS — Patient Safety Solutions, vol. 1, sol. 3, 2007 (envolvimento do paciente; informação ao paciente sobre o responsável de cada turno); SES-DF, 2019 (visitas interdisciplinares com envolvimento do paciente e família)

Sala protegida, sem plateia — sigilo e ambiente controlado (protocolos institucionais e ética profissional)

O protocolo da SES-DF exige que a transmissão ocorra de forma sistemática em ambiente livre de ruídos e organizado, que minimize interrupções — condição que o corredor e a enfermaria aberta raramente oferecem. À beira do leito, informação sensível vaza para acompanhantes e vizinhos de enfermaria (diagnóstico ainda não comunicado, prognóstico, suspeita de neoplasia, conflito familiar), ferindo o sigilo que os códigos de ética de medicina e enfermagem impõem; e a conversa franca entre profissionais — incluindo a incerteza diagnóstica e a discordância — se inibe na frente do paciente.

SES-DF, 2019 (ambiente livre de ruído e interrupção); Resolução COFEN 564/2017 (deveres de sigilo e de informação fidedigna); COREN-SC RT 048/2019 (local adequado, sem interrupções desnecessárias)

Como decidir

Pelo conteúdo e pelo paciente, num modelo híbrido que aproveita o melhor dos dois: o lote passa em sala ou posto protegido (eficiência, sigilo, franqueza), e os marcados — instável, mudança recente de plano, muitos dispositivos — ganham a volta à beira do leito depois da lista, para calibração visual. O que nunca se discute ao pé do leito: hipótese ainda não comunicada ao paciente, prognóstico que a família não ouviu, conflito de equipe. E quando o paciente está lúcido e a informação é dele, a beira do leito vira oportunidade: confirmar com ele o que o papel diz custa trinta segundos e já corrigiu muita prescrição — decida leito a leito, não por dogma de serviço.

SBAR ou I-PASS como roteiro do serviço?

SBAR — o padrão universal recomendado pela OMS, nascido para a comunicação crítica

É a técnica nominalmente sugerida pela OMS na solução de 2007 e a incorporada pelos protocolos brasileiros de comunicação efetiva, como o da SES-DF, que o traz letra a letra com exemplo. Nasceu fora da medicina (Doug Bonacum, ex-oficial de segurança de submarino nuclear, o adaptou na Kaiser Permanente) exatamente para situações de decisão rápida com menos de cinco pontos-chave — e funciona através de hierarquias: dá ao interno um formato legítimo para dizer ao staff "venha agora" (a Recomendação é parte do roteiro, não ousadia). A implantação num hospital se associou a queda de eventos adversos de 90 para 40 por 1.000 pacientes-dia. Um serviço que só consegue padronizar uma ferramenta cobre com o SBAR o telefonema, o parecer, a transferência e a deterioração — os momentos de maior risco unitário.

OMS — Patient Safety Solutions, vol. 1, sol. 3, 2007; SES-DF, 2019; Starmer et al., Pediatrics, 2012 (origem, alcance ideal e efeito do SBAR, apud Haig et al., 2006)

I-PASS — a estrutura testada para a passagem de fim de turno, com o melhor desfecho medido

O SBAR foi desenhado para um problema por vez; a passagem de fim de turno transmite doze pacientes com contexto, tarefas e contingências — e é para ela que o I-PASS foi construído e testado: etiqueta de gravidade, resumo, lista de tarefas com dono, contingência condicional e síntese do receptor, os três últimos justamente os elementos que as observações de campo mostraram ser os mais omitidos. O ensaio multicêntrico do NEJM mediu o resultado: 23% menos erros médicos e 30% menos eventos adversos evitáveis, sem alongar a passagem (2,4 para 2,5 minutos por paciente). Para a modalidade que o interno mais pratica — o lote do fim de turno —, é a estrutura com a melhor evidência disponível.

Starmer et al., NEJM, 2014 (resultados); Starmer et al., Pediatrics, 2012 (estrutura e elementos omitidos)

Como decidir

Pela natureza da transmissão, não por lealdade a sigla: comunicação pontual sobre um problema — telefonema, escalonamento, transferência urgente, chegada do pré-hospitalar — pede SBAR (quatro passos, um minuto, termina em pedido); passagem em lote de fim de turno pede a estrutura do I-PASS (gravidade, resumo, tarefas, contingência, síntese). Os dois convivem no mesmo plantão sem conflito, porque não disputam o mesmo momento. O que decide de verdade é outra coisa: o serviço ter UM roteiro fixo que todos usam — se o seu hospital padronizou SBAR para tudo, use o do hospital e acrescente por conta própria os três órfãos (etiqueta de gravidade, contingência, síntese do receptor), que cabem dentro de qualquer sigla.

Passagem escrita obrigatória ou oral presencial com registro em prontuário?

Instrumento escrito obrigatório e padronizado — a informação que sobrevive à memória (protocolos institucionais e evidência do bundle)

O protocolo da SES-DF torna obrigatório o preenchimento de instrumento padronizado a cada troca de turno, com conteúdo mínimo definido (identificação, estado atual, procedimentos, intercorrências, pendências) — porque a informação apenas falada vive uma geração e degrada a cada retransmissão. A OMS aponta na mesma direção: registros escritos atualizados e tecnologias de sign-out eletrônico se associaram a redução de eventos adversos evitáveis. E o documento escrito padronizado é componente formal do bundle I-PASS testado no NEJM: o papel não é burocracia da passagem — é parte do mecanismo do desfecho.

SES-DF, 2019 (instrumento obrigatório e conteúdo mínimo); OMS — Patient Safety Solutions, 2007 (sign-out eletrônico e informação escrita); Starmer et al., NEJM, 2014 (documento escrito no bundle)

O verbal presencial como núcleo insubstituível — a posição dos conselhos de enfermagem

A conclusão do COREN-SC é direta: a passagem de plantão deve ser realizada de forma verbal e presencial, porque é a interação em tempo real que permite dirimir dúvidas sobre condição clínica e tratamento — e a passagem por meios não presenciais (telefone, mensagem, aplicativo) agrega risco e não deve ser praticada. O fundamento ético é o art. 38 do Código de Ética da enfermagem (informações escritas E/OU verbais, completas e fidedignas), lido pelos pareceres como exigência de que a transferência de responsabilidade aconteça entre pessoas presentes, com espaço para pergunta e esclarecimento — o que nenhum formulário, por completo que seja, oferece.

COREN-SC RT 048/2019 (conclusão: verbal e presencial; veto ao não presencial, apud Parecer COREN-PE 016/2017); Resolução COFEN 564/2017, art. 38

Como decidir

A pergunta real não é "oral ou escrito" — as duas posições, lidas inteiras, exigem os dois; a divergência está em qual é o núcleo e qual é o apoio. Decida pela função: responsabilidade e raciocínio se transferem de viva voz (é onde cabem pergunta, síntese e a incerteza dita); dado que precisa sobreviver à noite — horários, doses, pendências, limitações — vive no papel padronizado, entregue em mãos. Um sem o outro falha de modos diferentes: só oral morre na memória do receptor às 2h; só escrito transfere um formulário, não um plantão. E para as exceções reais (o plantonista que não chegou, a rendição impossível), a hierarquia de degradação aceitável: telefonema estruturado com read-back e registro do porquê — nunca mensagem de aplicativo como veículo de responsabilidade.

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O raciocínio, em voz alta

Sexta-feira, 18h55. Você chega para o plantão noturno da enfermaria de clínica médica — doze leitos — e vai receber o plantão do colega do diurno, que está visivelmente apressado: a filha dele faz aniversário hoje. Ele abre com: "Cara, tá tudo tranquilo hoje. O 5 é uma hipercalemia que já foi tratada, o 9 é um vovô crônico, o 11 é uma pneumonia em investigação. O resto sem intercorrências. Posso ir?". Você tem a folha de passagem em branco na mão e a noite inteira pela frente.

  1. o que eu penso antes de responder

    Recebi três rótulos e um "sem intercorrências" — ou seja: quase nada. Mas o colega não é meu adversário: está com pressa legítima e provavelmente acha que passou o essencial (ele viveu o dia; para ele, cada frase carrega o filme que eu não vi). Meu objetivo não é retê-lo meia hora nem dar aula de I-PASS às 19h: é extrair, no menor tempo possível, o que protege a noite. Para isso existem as três perguntas de segurança — quem preocupa, o que tem prazo, o que tem limitação — e o direito de aprofundar um ou dois leitos que soaram mal. "Hipercalemia já tratada" soou mal: tratada com controle visto, ou tratada e esquecida?

  2. o que eu peço — as três perguntas de segurança

    "Vou ser rápido, prometo. Três coisas e você vai: primeira — se você fosse dormir aqui hoje, que leito te tiraria o sono? Segunda — tem alguma coisa com horário essa noite: exame pra sair, jejum, medicação que vence? Terceira — algum paciente com limitação de esforço, não reanimar, alergia grave, alguma decisão de família?". São perguntas de método, não de desconfiança — e o formato ("se você fosse dormir aqui") pede o julgamento clínico dele, não a lista completa que ele não tem paciência de dar.

  3. como a resposta muda o que eu penso

    Ele para, pensa, e o plantão muda de cara em trinta segundos: "Tirar o sono... o 11, talvez. A pneumonia não convence ninguém, ela dessaturou hoje à tarde e tem um D-dímero pra amanhã. Com horário: o 5 tem potássio de controle que sai umas 21h. E... ah, sim, importante: o 9 virou conforto ontem — não reanima, tá registrado". Repare no que aconteceu: os três itens mais perigosos da noite — diagnóstico aberto com deterioração, resultado crítico pendente e limitação terapêutica — não estavam na passagem espontânea. Não porque ele os escondeu: porque a memória cansada entrega o dramático e larga o importante, e porque para ele o "conforto do 9" era óbvio. As perguntas não criaram a informação; deram a ela um lugar para existir.

  4. o que eu peço em seguida — transformar item em instrução

    Pendência sem instrução é meia pendência; agora eu fecho cada uma. "O potássio do 5: qual foi o último valor, o que foi feito, e o que eu faço com o resultado das 21h?" — ele responde: 6,8 ontem, glicoinsulina e resina, "se vier alto de novo, repete o esquema e avisa o plantão da clínica; o staff deixou anotado". "O 11: se ela dessaturar de novo esta noite, qual é o combinado?" — "gasometria, O2, e se piorar de vez o staff quer ser acionado — ele cogita anticoagular". "O 9: prescrição de conforto já está feita? Família quer ser avisada se ele morrer de madrugada?" — "prescrição feita; a família pediu pra ligar a qualquer hora". Três minutos. Cada resposta virou uma linha de conduta condicional na minha folha — que era exatamente o que a noite precisava e a passagem original não tinha.

  5. o que eu escrevo — a folha nasce agora

    Enquanto ele fala, a folha em branco ganha os doze leitos na ordem, com três marcações que estruturam a noite: L5 — atenção — K sai 21h — se ≥6 ou sintomas: ECG + esquema de ontem + chamar plantão. L11 — atenção — diagnóstico ABERTO (rótulo pneumonia, ninguém convencido) — se SpO2 < 90%: gaso + O2 + acionar staff (cogita TEP). L9 — CONFORTO, NÃO RCP/IOT — evolução de ontem — sintoma trata, invasivo não — óbito: constatar + ligar família (qualquer hora). Os outros nove leitos ganham uma linha cada um, mesmo que seja "visto, estável, sem pendência" — que eu confirmo com ele leito a leito em noventa segundos, na ordem, para ninguém ser pulado.

  6. a síntese de volta — e a liberação

    Fecho devolvendo, com a folha na mão: "Então: meus dois de atenção são o 5 — potássio às 21h, esquema combinado — e o 11 — diagnóstico aberto, dessaturação chama gasometria e staff. O 9 é conforto, não reanima, família avisada a qualquer hora. Jejum do 4 pro exame das 6h. O resto estável e visto. Faltou alguma coisa?" — "Não... isso. Ah: o 2 tem hemocultura saindo de manhã". Anoto. "Boa. Pode ir — parabéns pra tua filha". A síntese custou vinte segundos, recuperou uma pendência (a hemocultura) e converteu uma passagem de quatro frases num plantão recebido de verdade — sem uma palavra de crítica, sem reter o colega dez minutos além do necessário.

  7. o que a noite prova

    Às 21h10 o potássio libera: 6,4. Sem adivinhar nada, executo o combinado — ECG, esquema reativado, plantão avisado — e às 23h o controle desce. Às 2h, o 9 morre em paz; constato, aciono o protocolo, ligo para a família que agradece o aviso — nenhuma reanimação indevida, nenhuma decisão atropelada. O 11 atravessa a noite bem; entrego ao diurno o diagnóstico ainda aberto, dito como aberto, com o D-dímero na lista de pendências da manhã. Nada disso exigiu brilho clínico: exigiu que a informação que já existia às 18h55 chegasse viva às 21h, às 2h e às 7h. É isso que uma passagem bem recebida compra — e quem comprou foi quem recebeu, com três perguntas e uma folha.

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Faça você

Sábado, 6h40 — o fim do mesmo plantão noturno. Agora é você que passa: a colega do diurno chegou e a folha da noite está na sua mão. Aconteceram três coisas desde a meia-noite: o potássio do leito 5 veio 6,4 às 21h, você aplicou o esquema combinado e o controle da 1h desceu para 5,2; o paciente do leito 9 morreu às 2h, com a família avisada e serena, e o corpo já foi encaminhado; e subiu do PS, às 4h, uma internação nova para o leito vago — homem de 66 anos, DPOC exacerbado, em máscara de O2, ainda sem vaga de retaguarda definida. Monte a sua passagem.

  1. abertura

    "Bom dia. Noite movimentada mas sob controle: doze leitos, um óbito esperado (o 9, era conforto — já te conto), uma internação nova de madrugada no 6, que é quem mais me preocupa agora. Duas pendências com horário pra tua manhã. Vamos por ordem."

  2. o leito 5 — o grave da noite, agora controlado

    Leito 5: informe tratamento e horários, resposta do potássio, ECG e controles seriados da madrugada. Mesmo após queda para 5,2, há risco de rebote; deixe o próximo controle em prazo curto conforme trajetória e informe glicemias após insulina. Confirme plano de remoção de potássio e avaliação nefrológica quando indicada. Um valor melhor não permite esperar automaticamente até o fim da manhã.

  3. o leito 9 — o óbito esperado, fechado com dignidade

    "Leito 9: morreu às 2h, morte esperada — era cuidados de conforto desde quinta, tudo registrado. Sem reanimação, sem sofrimento visível; a família tinha pedido aviso a qualquer hora, liguei, vieram, se despediram. Declaração de óbito feita pelo plantão, corpo encaminhado, evolução completa no prontuário. Pendência tua: nenhuma — só saber que o leito vai vagar no censo."

  4. a internação nova do leito 6 — passe você (é o seu 'atenção' da manhã: monte, no formato do capítulo, a fala completa que a colega precisa ouvir)

    — sua vez —

Ver como fecharíamos

A fala tem de conter, nesta ordem: etiqueta e identidade clínica, curso, tarefas com prazo e dono, contingência condicional e o convite à síntese. Um gabarito possível: "Leito 6 — minha 'atenção' da manhã, subiu do PS às 4h. Homem de 66 anos, DPOC exacerbado, chegou em 88% em ar ambiente, está em máscara a 5 litros saturando 91-92%, já fez corticoide e broncodilatador seriado lá embaixo — primeira dose daqui foi às 5h. Gasometria da chegada com CO2 no limite, sem acidose ainda. Atenção: ele NÃO tem vaga de retaguarda definida — se precisar de suporte ventilatório, a UTI ainda não foi acionada; esse é o risco real da tua manhã. Tarefas: gasometria de controle às 8h (é tua — pedida, colher e ver), reavaliar padrão respiratório na visita, e cobrar da regulação a definição de vaga. Contingência: se rebaixar, se a saturação cair apesar da máscara ou se a gasometria das 8h vier acidótica — não espera: aciona o plantão e a UTI juntos, o staff da noite já deixou o alerta. História completa na folha e na admissão que eu evoluí. Me devolve os três pontos principais pra eu ir embora tranquilo?" — O que não pode faltar, em qualquer redação: a etiqueta dita ("atenção"), o estado ATUAL com números (máscara, saturação), a pendência com prazo e dono (gasometria das 8h), a contingência condicional concreta (piorou → plantão + UTI), o furo institucional explícito (sem vaga definida — a informação que mais muda a manhã dela) e o pedido de síntese. Quem passou "DPOC exacerbado, estável em máscara" e foi embora entregou o rótulo e levou o mapa.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A primeira abertura é a mais completa: identifica quem chama e onde está a paciente, informa hipercalemia com bradicardia, solicita presença imediata e propõe preparar uma intervenção para decisão supervisionada. É compatível com a estrutura SBAR, que não exige um número fixo de frases. A quarta opção também comunica potássio e bradicardia e pede orientação imediata; é menos completa por não identificar o interlocutor nem pedir explicitamente presença à beira do leito, mas não omite o quadro clínico. Potássio de 7,1 mEq/L já configura hipercalemia grave mesmo sem sintomas; a bradicardia aumenta a preocupação com repercussão cardíaca. Acione ajuda, monitorização e atendimento urgente conforme protocolo, sem esperar uma conversa longa. Cálcio intravenoso, quando indicado, protege o miocárdio, mas não reduz a concentração de potássio e não substitui as demais medidas.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Passe em um minuto a paciente com hipercalemia e bradicardia, incluindo ajuda necessária, intervenções e próximos controles.

Em 30 dias

Prepare uma passagem de três pacientes: estável, diagnóstico ainda incerto e cuidados de conforto. Peça síntese e corrija qualquer tarefa sem prazo ou responsável.

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Agora atenda

Agora atenda: sete da manhã, enfermaria, e o seu Sebastião, 79 anos, marceneiro aposentado, internado há quatro dias por celulite na perna direita, chegou a você na passagem do plantão noturno numa frase só: "agitado à noite, tentou tirar o acesso e sair da cama". No leito, ele diz que precisa ir embora porque a mulher o espera para o almoço. Recupere o que a frase deixou de fora — desde quando ele está assim, como era antes de internar, o que mudou nos últimos dias — com uma coleta que funcione num paciente confuso e um exame dirigido às causas. Ao final, exponha seu plano como a passagem que você fará à noite, com as três perguntas de segurança respondidas.

Passagem de plantão — Internato | OsceLabs