Clínica MédicaPrescrição e Cuidado do Paciente Internado

Analgesia no paciente internado

Analgesia na prática: escada, opioide, rodízio e efeitos adversos

A dor referida é a medida, e a receita tem horário fixo mais resgate

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SAPS/SECTICS nº 1, de 22 de agosto de 2024. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica. Brasília: Ministério da Saúde, 2022.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 252 p.

Brasil. Ministério da Saúde; Agência Nacional de Vigilância Sanitária; Fiocruz; Fhemig. Protocolo de segurança na prescrição, uso e administração de medicamentos. Anexo 03 da Portaria GM/MS nº 2.095, de 24 de setembro de 2013. Brasília: Ministério da Saúde, 2013.

D’Alessandro MP, Barbosa LC, Anagusko SS, Maiello APMV, Conrado CM, Pires CT, Forte DN (eds.). Manual de Cuidados Paliativos. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: Hospital Sírio-Libanês; Ministério da Saúde, 2023. 424 p. (Programa de Cuidados Paliativos no SUS — PROADI-SUS).

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 16, de 1º de novembro de 2024. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Falciforme.

01

Responda antes de ler

Mulher de 71 anos internada por fratura de úmero, em codeína 60 mg por via oral de 4/4 h e dipirona 1 g de 6/6 h, ambas de horário, há 48 horas. Mantém dor 8/10 à mobilização, está constipada há três dias e refere náusea. Frequência respiratória de 18, desperta e orientada. Qual é o próximo passo?

02

O paciente que você vai ver

Seis e trinta da manhã, enfermaria de ortopedia e traumatologia, doze leitos. A técnica de enfermagem que sai do plantão te entrega a folha de sinais vitais e faz um resumo de quatro palavras sobre o leito 9: “ela passou bem”. O leito 9 é dona Adelaide Ferreira Pinto, 78 anos, 54 quilos, fratura do colo do fêmur direito depois de uma queda da própria altura no banheiro de casa, internada ontem às quatro da tarde e com cirurgia prevista para amanhã, porque o centro cirúrgico de hoje já está cheio.

Você entra no quarto. Dona Adelaide está acordada, de olhos abertos, com o lençol puxado até o queixo e a perna direita rodada para fora. Não está gemendo. Quando você pergunta se dormiu, ela diz que sim, um pouco. Quando pergunta se está com dor, ela diz que “é suportável”. Quando você pede licença para arrumar o travesseiro e encosta na coxa dela, o rosto se fecha inteiro e ela prende a respiração. Você pergunta de novo, agora com número: de zero a dez, quanto dói quando alguém mexe? Ela pensa e responde nove.

A prescrição de ontem, que você mesmo escreveu, tem uma linha de analgesia: dipirona 1 g intravenoso de 6 em 6 horas. Abaixo, uma segunda linha, escrita por hábito: “dipirona 1 g EV se dor”. Na folha de checagem, as doses de horário estão todas assinaladas. A linha do “se dor” está em branco — nenhuma dose foi aviada em catorze horas, porque ninguém pediu, e ninguém perguntou.

No leito 12 o problema tem a forma inversa. Reinaldo Muniz, 34 anos, 92 quilos, entrou anteontem com pancreatite aguda biliar e está no segundo dia de tratamento clínico, sem indicação cirúrgica no momento. Ele está sentado na cama, inclinado para a frente com um travesseiro apertado contra o abdome, e fala antes de você abrir a boca: “doutor, ontem de madrugada me deram um remédio que resolveu na hora, o rapaz falou que era morfina. Pede de novo pra mim.”

Você olha para o prontuário e depois para ele. Reinaldo é grande, tem tatuagem no antebraço, sabe o nome do medicamento e está pedindo por ele. Alguma coisa dentro de você hesita — e essa hesitação, que você não pediu e não escolheu, é a coisa mais perigosa que aconteceu nesta enfermaria hoje de manhã.

Duas camas, dois pacientes com dor mal tratada, e duas causas opostas. Uma calou porque foi ensinada a não incomodar e porque a prescrição dependia de ela pedir. O outro falou, e a fala dele virou suspeita. Nas duas, o erro está na mesma linha da receita.

03

Quem adoece disso

Dor no hospital brasileiro não é evento raro nem exceção de serviço mal organizado: é o estado basal. No pronto-socorro adulto de um hospital universitário público de Minas Gerais, 309 pacientes avaliados ao longo de um mês trouxeram queixa de dor em 45,6% dos atendimentos, com intensidade média de 7,8 na escala numérica de zero a dez. Quase metade das pessoas que atravessam a porta está com dor, e a dor delas é intensa, não incômoda.

O número que decide a conduta, porém, é o outro: nesse mesmo levantamento, a dor foi resolvida em cerca de 30% dos casos. Sete em cada dez pessoas que chegaram doendo continuaram doendo. Isso não é falta de medicamento — dipirona, paracetamol, ibuprofeno, codeína e morfina estão todos na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais, distribuídos entre o Componente Básico e o Especializado. É falta de prescrição que funcione.

Some-se o pano de fundo. Estudos populacionais brasileiros mostram prevalência de dor crônica em torno de 40% dos adultos, e dor crônica de intensidade igual ou maior que 8 em torno de 10% da população. Traduzido para a enfermaria: uma parcela grande dos pacientes que você interna já chega doendo de antes, com um limiar deslocado e às vezes com um opioide em casa que ninguém perguntou. Quem interna sem essa pergunta prescreve para um paciente que não existe.

E há o grupo que paga a conta duas vezes. Pessoas com doença falciforme chegam com crise vaso-oclusiva e enfrentam, além da dor, o estigma que o próprio protocolo nacional da doença registra por escrito. A dor delas é dela — o manejo da crise álgica está nos capítulos de doença falciforme: o da criança, na apostila de Hematologia Pediátrica, e o do adulto, Anemia falciforme e hemoglobinopatias, na apostila de Hematologia e Hemoterapia. O que atravessa daqui para lá é o mecanismo do dano: quando o profissional decide se acredita antes de decidir o que prescreve, a analgesia atrasa.

04

Por que acontece o que acontece

A analgesia do internado se explica por três mecanismos, e cada um deles determina uma linha da receita: a farmacocinética explica por que o esquema tem de ser de horário; a farmacodinâmica dos receptores explica por que o opioide fraco tem teto e o forte não; e a fisiologia da prostaglandina e do glutation explica onde os não opioides machucam.

Curvas de concentração relativa calculadas mostram doses eventuais e doses programadas com um resgate ao longo de 24 horas.
Diferentes intervalos e estratégias produzem oscilações distintas de concentração. O modelo não estabelece um limiar universal de analgesia: alívio, função e toxicidade precisam ser avaliados diretamente no paciente.

Todo analgésico tem meia-vida, e é ela que dita o intervalo. A dipirona por via oral tem início de ação médio de 30 a 60 minutos e efeito que dura cerca de quatro horas, e a via intravenosa é a recomendada pela própria bula quando se quer efeito analgésico de início rápido; a morfina simples tem início rápido e meia-vida curta, com pico oral em torno de uma hora. Quando a droga é dada só depois que a dor voltou, a curva de concentração desenha um dente de serra: sobe alto, cai abaixo da faixa útil, e o paciente passa o vale inteiro doendo enquanto espera a próxima autorização. Prescrever de horário não é excesso de zelo — é manter a concentração acima do limiar antes que a dor apareça. O princípio tem nome nas diretrizes da Organização Mundial da Saúde reproduzidas no manual brasileiro de cuidados paliativos: “pelo relógio”, com dose de resgate reservada para os intervalos.

O resgate existe porque a dor não é uma reta. Mobilizar a perna fraturada, sentar para o banho, tossir depois da laparotomia e trocar o curativo são picos previsíveis que a dose de horário, calibrada para o repouso, não cobre. O resgate é a segunda metade obrigatória do par — e ele funciona por ter início rápido, razão pela qual se faz com a formulação de liberação imediata, nunca com a de liberação prolongada.

No receptor, a diferença entre opioide fraco e forte não é de intensidade: é de arquitetura. A codeína não é analgésica por si — precisa ser convertida no fígado em morfina para agir, e uma parcela da população não tem a enzima que faz essa conversão. Esses pacientes recebem constipação, náusea e sonolência sem receber analgesia nenhuma, e o quadro é indistinguível de “dor refratária” para quem não conhece o mecanismo. Como a conversão é limitada, a codeína tem teto: 360 mg por dia, e acima disso não se ganha analgesia, só efeito colateral. A morfina age direto no receptor e por isso não tem dose teto — o que limita o aumento é o efeito adverso, e é por isso que a titulação é feita por reavaliação e não por tabela.

É a mesma farmacologia que explica os efeitos adversos, um a um, e mostra quais se previnem e quais passam. A sedação vem no início e quando se sobe a dose, e é autolimitada. A náusea vem dos receptores da zona de gatilho e da lentificação do esvaziamento gástrico, e cede em três a sete dias — por isso o antiemético entra com prazo, não para sempre. A constipação vem dos receptores opioides da parede intestinal e não desenvolve tolerância: dura o tratamento inteiro, e é a única que precisa de prescrição de horário desde a primeira dose. Prurido, retenção urinária e mioclonia completam a lista; a mioclonia costuma aparecer em quem desidratou, e é sinal de neurotoxicidade, não de dor mal controlada.

Toxicidade por opioide não exige a tríade completa. Sonolência crescente, dificuldade de despertar ou ventilação lenta/superficial exigem avaliação imediata, mesmo sem miose. Interrompa novas doses, chame ajuda e avalie via aérea, ventilação, oxigenação e causas associadas. Ofereça ventilação assistida quando necessária; oxigênio sozinho não corrige hipoventilação. Na depressão respiratória iatrogênica em usuário de opioide, naloxona IV pode ser titulada a partir de 0,04 mg, repetindo/escalonando conforme resposta e protocolo. O alvo é ventilação adequada, não apenas frequência acima de 10 ou despertar completo. Em apneia ou situação crítica, não atrase ventilação e doses efetivas de antídoto. Uma ampola de 0,4 mg em volume final de 10 mL fornece 0,04 mg/mL. Observe ressurgimento de sedação, pois naloxona pode durar menos que o opioide.

Do outro lado da prateleira, o mecanismo dos não opioides é o que dita onde eles não podem entrar. O anti-inflamatório bloqueia a ciclo-oxigenase e derruba a produção de prostaglandina; na circulação renal, a prostaglandina é o que mantém a arteríola aferente dilatada quando a perfusão cai. Num paciente euvolêmico isso não faz diferença; num paciente desidratado, séptico, em uso de diurético ou de bloqueador do sistema renina-angiotensina, é a retirada da última defesa do glomérulo — e a injúria renal aguda aparece em dias, silenciosa, achada na creatinina do exame de rotina. A mesma inibição derruba a prostaglandina que protege a mucosa gástrica e inibe a agregação plaquetária, o que soma sangramento a quem já está sangrando.

O paracetamol tem outro mecanismo de dano e outra janela. Em dose terapêutica, a maior parte é conjugada e eliminada; uma fração pequena vira um metabólito reativo que o glutation neutraliza. Quando a dose sobe, a via de conjugação satura, o metabólito se acumula e o estoque de glutation acaba — e a lesão hepática se instala horas antes de qualquer sintoma. A bula profissional situa a hepatotoxicidade acima de 7,5 a 10 g ingeridos em oito horas ou menos, com sinais laboratoriais que podem só aparecer em 48 a 72 horas. É por isso que o teto de 4 g por dia é somado entre todas as apresentações, e não por prescrição.

A dipirona não carrega esse par de mecanismos, e as fontes brasileiras a tratam como outra coisa: na Rename 2024 ela é classificada entre os analgésicos e antipiréticos, no mesmo grupo do paracetamol e fora do grupo dos anti-inflamatórios, e o manual brasileiro de cuidados paliativos a lista entre os analgésicos simples, reservando as advertências de lesão renal e gastrointestinal ao capítulo dos anti-inflamatórios. É isso que a mantém utilizável no internado com rim comprometido ou risco de sangramento. O risco dela é outro, e a bula profissional o descreve com precisão: agranulocitose de origem imunoalérgica, muito rara, que não é dose-dependente e pode ocorrer a qualquer momento do tratamento — não se previne titulando, e todo paciente em uso deve ser orientado a interromper a medicação e procurar o médico diante de febre e dor de garganta.

05

Como se apresenta de verdade

A dor tem uma medida só, e ela é o relato do paciente. Não há exame que confirme, não há sinal vital que substitua e não há olho clínico que corrija — pressão e frequência cardíaca sobem com dor, mas também sobem com febre, hipovolemia e ansiedade, e ficam normais em muita gente que está doendo há dias. O que muda entre um paciente e outro não é a existência da dor: é a chance de ela chegar até você.

Percurso de aprendizagem

Reavalie dor em repouso e movimento, causas reversíveis e complicações. Use analgesia multimodal e considere técnicas regionais quando apropriadas.

Calcule dose diária e resgates sem incorporá-los automaticamente à dose fixa. Equivalências entre vias são aproximações que exigem titulação e vigilância.

Reconheça sedação crescente e hipoventilação sem esperar miose ou tríade completa. No jejum e na alta, preserve continuidade da analgesia com plano de redução quando a dor melhorar.

O paciente que não pede

É a apresentação mais comum e a mais cara. Idosos referem menos dor do que sentem, por geração, por medo de incomodar, por acreditar que dor faz parte de envelhecer e por já terem ouvido que “remédio forte vicia”. Somam-se a isso a hipoacusia, que faz a pergunta não chegar, e o hábito hospitalar de perguntar “está com dor?” em vez de pedir um número.

Em dona Adelaide, do leito 9, três coisas apontavam para dor intensa antes de qualquer número: a imobilidade voluntária, o lençol até o queixo e a apneia ao toque. Ela respondeu “suportável” à pergunta aberta e “nove” à pergunta com escala. As duas respostas são sinceras; só uma delas cabe na prescrição.

A regra prática: em quem não pede, a dor se pergunta com número e em dois cenários — em repouso e na mobilização. Fratura, ferida operatória e pleurite doem pouco parados e muito em movimento, e um esquema calibrado só pelo repouso deixa o paciente sem analgesia exatamente na hora do banho, da fisioterapia e da radiografia.

O paciente que não consegue relatar

Demência avançada, delirium hipoativo, afasia, rebaixamento e intubação retiram a escala numérica de cena, e a alternativa não é presumir ausência de dor. O manual brasileiro de cuidados paliativos traz duas escalas comportamentais úteis à beira do leito: a de avaliação de dor em demência avançada, que pontua respiração, vocalização negativa, expressão facial, linguagem corporal e consolabilidade; e a escala comportamental de dor para o paciente sob ventilação mecânica, que pontua expressão facial, movimento dos membros superiores e adaptação ao ventilador, de 3 (sem dor) a 12 (dor máxima).

Duas armadilhas convivem aqui. A primeira é ler agitação como delirium e prescrever antipsicótico para quem está com dor — a dor não tratada é uma das causas reversíveis de delirium, e o manejo do delirium propriamente dito é o do capítulo específico desta coleção. A segunda é o inverso: interpretar como dor a inquietação de quem está com bexiga cheia, hipoxêmico ou em abstinência. O teste que separa é a resposta: analgesia adequada acalma dor; não acalma bexiga.

O paciente que pede pelo nome

Reinaldo, do leito 12, sabe que a morfina resolveu e pede morfina. Isso é informação clínica de primeira qualidade: ele testou uma droga, respondeu e está relatando a resposta. Não existe nenhum achado clínico que transforme “o paciente nomeou o medicamento” em “o paciente não tem dor”.

A suspeita, quando aparece, costuma ser disparada por características que nada têm a ver com nocicepção: idade jovem, porte físico, tatuagem, cor da pele, jeito de falar, insistência. É o mesmo mecanismo que faz a pessoa com doença falciforme esperar horas por analgesia enquanto a equipe decide se acredita — um dano documentado, que o protocolo nacional da doença nomeia como estigma. E há um detalhe que fecha o argumento: o paciente que está sendo subtratado insiste, e a insistência do subtratado é lida como sinal de dependência, o que produz mais subtratamento. O comportamento suspeito é gerado pela própria falha da prescrição.

A conduta correta é a mais simples: trate a dor com o esquema adequado à intensidade e reavalie pelo desfecho — intensidade, função, sono, mobilização, frequência respiratória e nível de consciência. Se houver uso problemático de substâncias, ele aparece nesses parâmetros e é manejado como comorbidade, junto com a analgesia, nunca no lugar dela.

Quando a dor é sintoma de complicação, não de doença de base

Existe uma apresentação em que subir a analgesia é o erro: a dor que muda de padrão. Dor que era controlada e escapou, dor que mudou de lugar, dor desproporcional ao achado do exame físico e dor que exige doses crescentes em poucas horas são sinais de que alguma coisa nova aconteceu.

Os exemplos que aparecem na enfermaria são concretos: síndrome compartimental no membro imobilizado, com dor desproporcional e piora ao estiramento passivo; isquemia mesentérica ou de membro, com dor intensa e exame físico pobre; deiscência de anastomose, com dor abdominal nova e taquicardia no terceiro ou quarto dia de pós-operatório; retenção urinária aguda, que dói e é resolvida com uma sonda, não com opioide. Tratar a dor e examinar o paciente são a mesma consulta, feita ao mesmo tempo — e a analgesia adequada não mascara peritonite nem apaga o exame abdominal.

O paciente que já usava opioide antes de internar

Quem chega em uso crônico de opioide tem tolerância instalada e precisa da dose que já usava mais a analgesia do evento agudo. Suspender a dose domiciliar na internação — o que acontece por omissão, quando ninguém pergunta — produz duas coisas ao mesmo tempo: dor descontrolada e abstinência, que aparece como agitação, sudorese, taquicardia, midríase e diarreia, e é rotineiramente confundida com ansiedade.

A pergunta na admissão é objetiva: que analgésico o senhor usa em casa, qual dose, de quanto em quanto tempo, e desde quando. A resposta vira a linha de base sobre a qual o esquema da internação é montado.

06

Como fechar o diagnóstico

Analgesia é o bloco em que o interno erra menos por desconhecer a droga e mais por não medir. O “exame” aqui é a entrevista, e ela tem cinco produtos: um número, uma qualidade, um mapa, um histórico e uma meta. Sem os cinco, a prescrição sai por adivinhação e a reavaliação não tem contra o que comparar.

1. Primeiro a intensidade, e com escala

A escala numérica de zero a dez é o instrumento padrão dos serviços públicos brasileiros e é o que o protocolo do SAMU 192 manda aplicar. Ela divide a conduta em três faixas: dor leve de 1 a 4, moderada de 5 a 7, intensa de 8 a 10. A pergunta é feita em duas condições — agora, em repouso, e no pior momento das últimas 24 horas ou na mobilização —, porque é o segundo número que dimensiona o resgate.

Registre o número no prontuário como se registra pressão arterial: com hora. “Dor 9/10 à mobilização e 5/10 em repouso, às 6 h35” é um dado que a próxima pessoa pode usar. “Paciente queixoso” não é.

Quando a escala numérica não é aplicável — demência, delirium, afasia, intubação —, use uma escala comportamental e registre o escore. O protocolo nacional da doença falciforme diz de forma direta o que vale para todo mundo: a escala guia o tratamento, monitora a resposta e ajuda até a prever o tempo de internação.

2. Depois a qualidade, porque ela escolhe a classe

Dor em queimação, em choque, em formigamento, com alodínia — dói ao toque do lençol — ou em território de nervo tem componente neuropático, e opioide isolado responde mal. Dor em cólica pede antiespasmódico associado. Dor óssea e dor inflamatória respondem bem a anti-inflamatório, quando ele pode entrar. Dor visceral contínua e dor pós-operatória somática respondem a não opioide mais opioide.

A caracterização completa, na ordem que o protocolo do SAMU usa: localização, intensidade, tempo de duração, periodicidade, tipologia, irradiação, modo de instalação e fatores de melhora e piora. Isso cabe em noventa segundos de conversa e muda a receita.

3. O histórico farmacológico, que é onde mora a surpresa

Três perguntas obrigatórias na admissão de quem tem dor. O que o senhor já tomou hoje, e há quanto tempo? O que o senhor usa em casa, todo dia? O que já funcionou e o que já fez mal ao senhor?

A primeira pergunta evita a soma silenciosa de paracetamol entre apresentações. A segunda revela o opioide domiciliar que, suspenso na internação, produz dor mais abstinência. A terceira encurta a titulação: quem já respondeu a uma droga responde de novo, e quem teve prurido incontrolável com uma delas informou uma contraindicação relativa que você não teria como adivinhar.

4. O que confirma e o que exclui

Não existe exame que confirme dor. O que existe é exame que confirma ou afasta a causa dela, e exame que autoriza ou proíbe a droga que você ia usar.

Antes de prescrever anti-inflamatório no internado, dois dados mudam a decisão e estão na rotina: creatinina com filtração glomerular estimada, e hemograma com plaquetas. Some-se a avaliação de volemia à beira do leito — pressão, frequência, mucosas, diurese — e o que já está prescrito: diurético, inibidor da enzima conversora, bloqueador do receptor de angiotensina, anticoagulante, antiagregante e corticoide. Antes de subir opioide em quem está sonolento, os dados são a frequência respiratória, o nível de consciência e as pupilas, e nenhum deles precisa de laboratório.

Em quem vai receber opioide por dias, a função renal importa por outro motivo: o metabólito ativo da morfina se acumula quando a filtração cai e produz sonolência progressiva, confusão e mioclonia — quadro que se confunde com dor descontrolada e faz o desavisado subir a dose. O ajuste por função renal e hepática é o assunto de um capítulo próprio desta mesma apostila, e é para lá que a decisão de dose no rim ruim remete.

5. O que NÃO pedir

Não peça exame para “comprovar” dor antes de tratar. Radiografia, tomografia, enzimas e o próprio exame do especialista podem ser necessários para o diagnóstico da causa, mas nenhum deles precede a analgesia. O protocolo nacional da doença falciforme escreve isso com todas as letras: a analgesia adequada não deve ser suspensa enquanto se aguarda consulta especializada ou resultado de exame ou de imagem. A regra vale igual para o abdome agudo, a fratura e a cefaleia.

Não peça dosagem sérica de opioide, nem exame toxicológico, para decidir se acredita no paciente. Isso não é investigação: é triagem moral com aparência de exame, e atrasa o tratamento de quem tem dor.

Não repita tomografia pela dor que persiste sem outro sinal novo. E não peça enzimas pancreáticas seriadas para acompanhar a dor da pancreatite: a amilase e a lipase não medem intensidade nem guiam analgesia.

6. O que existe no SUS

A Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 define o que é prescrição viável. No Componente Básico estão dipirona (comprimido de 500 mg, solução oral de 500 mg/mL e solução injetável de 500 mg/mL), paracetamol (comprimido de 500 mg e solução oral de 200 mg/mL), ibuprofeno (comprimidos de 200, 300 e 600 mg, cápsula de 600 mg e suspensão de 50 mg/mL), naloxona (solução injetável de 0,4 mg/mL), metoclopramida, ondansetrona, lactulose (xarope de 667 mg/mL), glicerol e omeprazol.

No Componente Especializado, vinculados ao Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica, estão o fosfato de codeína (solução oral de 3 mg/mL, comprimidos de 30 e 60 mg, solução injetável de 30 mg/mL), o sulfato de morfina (solução oral e injetável de 10 mg/mL, comprimidos de 10 e 30 mg, cápsulas de liberação prolongada de 30, 60 e 100 mg) e o naproxeno (comprimidos de 250 e 500 mg).

E há o que não está na lista, e por isso não se promete: tramadol, diclofenaco, cetoprofeno, tenoxicam, celecoxibe, fentanila, oxicodona e bisacodil. Essa é uma informação de conduta, não de burocracia — o Protocolo da Dor Crônica registra a decisão de não incorporação, em 2021, dos opioides fortes fentanila, oxicodona e buprenorfina, do diclofenaco oral e, numa mesma portaria, dos opioides fracos codeína e tramadol e da morfina em baixa dose para dor crônica. Para o tramadol, a lista descreve o que existe: ele não consta da Rename. Para a codeína, não: o mesmo protocolo a prescreve, com posologia e termo de esclarecimento, e a Rename 2024 a mantém no Componente Especializado, com o protocolo como documento norteador — a contradição está registrada nos critérios. O que o SUS dispensa hoje é codeína e morfina por essa porta: para quem se enquadra no protocolo, com dor crônica de três meses ou mais, mediante receita de controle especial em duas vias, nas farmácias e unidades que a secretaria estadual define. Não sai na farmácia básica e não cobre a dor aguda de quem recebe alta. Quem prescreve tramadol na alta de um paciente que depende da farmácia básica prescreveu para o papel.

07

A analgesia em uma página

Aprenda a tratar a dor para permitir conforto e função, acompanhando benefício e efeitos adversos. Intensidade, mecanismo, função orgânica e tratamento prévio orientam a escolha.

  1. 11 · Meça: escala numérica agora e na mobilização — leve 1 a 4, moderada 5 a 7, intensa 8 a 10; e caracterize (nociceptiva somática, visceral, neuropática ou mista)
  2. 22 · Pergunte o que ele já tomou hoje e o que usa em casa — inclusive o opioide domiciliar e o paracetamol de outra apresentação
  3. 33 · Escolha o degrau pela intensidade: leve → não opioide; moderada → não opioide + opioide fraco; intensa → não opioide + opioide FORTE, direto, sem cumprir degraus antes
  4. 44 · Escreva o par: DOSE FIXA de horário + RESGATE com dose, intervalo mínimo e condição de uso — e, se houver opioide, LAXANTE de horário na mesma receita
  5. 55 · Trate o pico AGORA pela via mais rápida disponível, e comece a dose fixa no horário seguinte
  6. 66 · Reavalie no tempo do pico da droga (cerca de 15 min para a via venosa, cerca de 1 h para a oral) e registre três números: intensidade, frequência respiratória e nível de consciência
  7. 77 · Em 24 h some fixa + resgates usados = nova dose diária. Três ou mais resgates → suba a fixa. Sonolência + miose + FR abaixo de 10 → segure a dose
  8. 88 · Dor que muda de padrão ou exige doses crescentes em horas → reexamine o paciente antes de subir de novo

Fixo + resgate é um par, não uma escolha

“Se necessário” sozinho depende de três coisas darem certo: o paciente pedir, a enfermagem interpretar e alguém julgar que ele merece. O protocolo nacional de segurança na prescrição manda abolir “se necessário” sem dose máxima, posologia e condição de uso — e, quando a expressão for necessária, exige dose, posologia, dose máxima diária escrita e a condição que determina o uso ou a interrupção. Dor moderada ou intensa leva dose de horário; o “se necessário” é o resgate, e vem por escrito ao lado dela.

Resgate = 1/6 da dose diária de opioide

Faixa aceita: 1/6 a 1/10 da dose diária total, sempre com a formulação de liberação imediata pela rapidez de início. Na dor aguda intensa use 1/6; no idoso frágil e na filtração reduzida use 1/10. Escreva sempre o intervalo mínimo (1 h para a via oral, 30 min para a subcutânea ou venosa) e a condição (“se dor igual ou maior que 4/10”). Resgate sem intervalo escrito é resgate que a enfermagem não aviá.

Três resgates em 24 h autorizam subir

Some fixa mais resgates usados: essa é a dose diária real que controlou (ou não). Divida por 6 e prescreva de 4/4 h, arredondando para o que se mede na seringa. Exemplo conferido: 30 mg/dia fixos + 5 resgates de 5 mg = 55 mg/dia; 55 ÷ 6 = 9,2 mg, que arredonda para 10 mg de 4/4 h (1 mL da solução de 10 mg/mL), com resgate novo de 10 mg.

Opioide fraco tem teto; trocar de degrau não é aumentar a dose

Codeína tem teto de 360 mg/dia — 6 comprimidos de 60 mg, ou 120 mL da solução de 3 mg/mL. Nesse teto, a equipotência de 1/10 entrega o equivalente a 36 mg de morfina oral por dia, com constipação e náusea proporcionais. Quem espreme o degrau errado colhe efeito adverso sem analgesia. Morfina não tem teto: o que limita é o efeito colateral.

Reconhecer sedação excessiva e comprometimento ventilatório

Toxicidade por opioide não exige a tríade completa. Sonolência crescente, dificuldade de despertar ou ventilação lenta/superficial exigem avaliação imediata, mesmo sem miose. Interrompa novas doses, chame ajuda e avalie via aérea, ventilação, oxigenação e causas associadas. Ofereça ventilação assistida quando necessária; oxigênio sozinho não corrige hipoventilação. Na depressão respiratória iatrogênica em usuário de opioide, naloxona IV pode ser titulada a partir de 0,04 mg, repetindo/escalonando conforme resposta e protocolo. O alvo é ventilação adequada, não apenas frequência acima de 10 ou despertar completo. Em apneia ou situação crítica, não atrase ventilação e doses efetivas de antídoto. Uma ampola de 0,4 mg em volume final de 10 mL fornece 0,04 mg/mL. Observe ressurgimento de sedação, pois naloxona pode durar menos que o opioide.

Laxante entra junto, desde a primeira dose

A constipação por opioide não desenvolve tolerância: dura o tratamento inteiro. Prescrevê-la “se necessário” é prescrever fecaloma para o quarto dia. Laxante de horário desde a primeira dose de opioide, com lactulose 15 a 30 mL uma a duas vezes ao dia (xarope de 667 mg/mL da Rename), reavaliando o hábito intestinal por escrito todo dia. Sem evacuação em 48 h, some medida retal — glicerol em solução retal ou supositório.

Analgésico e apresentação na Rename 2024Dose no adultoTeto diárioO que vai na prescrição
Dipirona — comprimido 500 mg; solução oral 500 mg/mL; injetável 500 mg/mL500 a 1.000 mg de 6/6 h, oral ou venosa4.000 mg/dia1 g = 2 comprimidos de 500 mg = 40 gotas (1 gota = 25 mg) = 1 ampola de 2 mL
Paracetamol — comprimido 500 mg; solução oral 200 mg/mL500 a 1.000 mg de 6/6 h4.000 mg/dia, somando TODAS as apresentações1 g = 2 comprimidos de 500 mg. No adulto, prescreva em comprimido: a gota tem equivalência variável
Ibuprofeno — comprimidos de 200, 300 e 600 mg; cápsula 600 mg; suspensão 50 mg/mL400 a 600 mg de 8/8 h, por poucos dias2.400 mg/dia (adotado; ver divergências)600 mg = 1 comprimido = 12 mL da suspensão de 50 mg/mL; 600 mg de 8/8 h = 1.800 mg/dia
Naproxeno — comprimidos de 250 e 500 mg (Componente Especializado)250 a 500 mg de 12/12 h1.000 mg/dia, evitando ultrapassar 10 diasAlternativa quando há risco cardiovascular maior; segue as mesmas proibições dos demais AINE
Codeína — solução oral 3 mg/mL; comprimidos de 30 e 60 mg; injetável 30 mg/mL15 a 30 mg de 4/4 h (30 a 60 mg 3 a 4×/dia)360 mg/dia30 mg = 1 comprimido = 10 mL da solução; 60 mg de 4/4 h já É o teto = 36 mg/dia de morfina oral equivalente
Morfina simples — solução oral 10 mg/mL; comprimidos de 10 e 30 mg5 mg de 4/4 h no adulto virgem de opioide; 2,5 a 5 mg de 6/6 h no idoso frágilsem teto — quem limita é o efeito adverso5 mg = 0,5 mL; 10 mg = 1 mL ou 1 comprimido; 15 mg = 1,5 mL
Morfina injetável — solução 10 mg/mL (ampola de 1 mL)2 mg em bolus venoso lento, repetindo a cada 15 min conforme reavaliação; SAMU 192: 2 a 10 mg por 70 kgsem teto2 mg = 0,2 mL; 3 mg = 0,3 mL; 5 mg = 0,5 mL. Diluir para 10 mL de soro fisiológico facilita fracionar
Morfina de liberação prolongada — cápsulas de 30, 60 e 100 mgconverter a partir da dose diária já titulada, em 2 tomadassem teto60 mg/dia = 30 mg de 12/12 h; 120 = 60 de 12/12 h; 200 = 100 de 12/12 h. Cápsula inteira: não abrir, não macerar, não passar por sonda. Nunca como resgate

A conta em três pacientes — o que muda com o peso, e o que não muda

FármacoAdelaide, 78 anos, 54 kg, fratura de fêmurAdulto de referência, 70 kgReinaldo, 34 anos, 92 kg, pancreatite
Dipirona (teto 4.000 mg/dia)1 g EV de 6/6 h = 1 ampola de 2 mL, 4 vezes = 4 g/dia (no teto)1 g de 6/6 h = 4 g/dia (no teto)1 g EV de 6/6 h = 4 g/dia (no teto). O peso não sobe a dose adulta
Paracetamol (teto 4.000 mg/dia)500 a 1.000 mg de 6/6 h = 1 a 2 comprimidos de 500 mg por dose1.000 mg de 6/6 h = 2 comprimidos, 4 vezes = 4 g/dia1.000 mg de 6/6 h = 4 g/dia. O peso não sobe a dose; o que desce o teto é a soma com outras apresentações
Ibuprofeno (teto adotado 2.400 mg/dia)Não usar: 78 anos, fratura, jejum para cirurgia e risco de injúria renal aguda600 mg de 8/8 h = 1.800 mg/dia, por poucos dias, com o rim conferidoNão usar: pancreatite aguda cursa com sequestro de volume — o rim está na dependência da prostaglandina
Morfina venosa inicial (SAMU 192: 2 a 10 mg por 70 kg)1,5 a 7,7 mg = 0,15 a 0,77 mL. Comece em 2 mg (0,2 mL) e reavalie em 15 min2 a 10 mg = 0,2 a 1 mL. Comece em 2 a 3 mg e reavalie em 15 min2,6 a 13,1 mg = 0,26 a 1,31 mL. Comece em 3 mg (0,3 mL) e reavalie em 15 min
Morfina oral de horário — início2,5 a 5 mg de 6/6 h (0,25 a 0,5 mL) = 10 a 20 mg/dia; resgate 1/105 mg de 4/4 h (0,5 mL) = 30 mg/dia; resgate 5 mg (1/6)5 mg de 4/4 h (0,5 mL) = 30 mg/dia; resgate 5 mg (1/6). O peso não muda o início: muda a velocidade da titulação

Onde NÃO usar o quê — as proibições que se conferem antes de assinar

Situação na enfermariaO que saiPor quêO que fica
Creatinina em ascensão, filtração reduzida, desidratação, sepse, uso de diurético ou de bloqueador do sistema renina-angiotensinaTodos os AINE (ibuprofeno, naproxeno)A prostaglandina é o que mantém a arteríola aferente aberta na baixa perfusão. Sem ela, injúria renal aguda em dias, silenciosaDipirona e paracetamol; opioide quando a intensidade exigir. Ajuste de dose por função renal tem capítulo próprio nesta apostila
Hemorragia digestiva, úlcera conhecida, plaquetopenia, anticoagulação plena ou antiagregaçãoTodos os AINEPerda da prostaglandina protetora da mucosa somada à inibição plaquetária: sangramento sobre sangramentoDipirona e paracetamol; opioide. Se o AINE for inevitável em quem já teve evento gastrointestinal e o uso passar de 5 dias, associar omeprazol
Idoso frágil, sarcopênico, com múltiplas comorbidades e polifarmáciaAINE de rotinaSoma risco renal, gastrointestinal e cardiovascular numa reserva funcional que já está no limiteDipirona ou paracetamol de horário; opioide em dose inicial menor e intervalo maior, com laxante desde o primeiro dia
Insuficiência cardíaca, hipertensão de difícil controle, doença coronarianaAINERetenção de sódio e água e efeito cardiovascular de classe: descompensa a insuficiência cardíaca e sobe a pressãoDipirona, paracetamol e opioide conforme a intensidade
Paciente que já usa ácido acetilsalicílico em dose baixaAINE seletivo ou não seletivoRecomendação expressa do Protocolo da Dor Crônica, por soma de risco gastrointestinal e competição de efeitoParacetamol ou dipirona
Hepatopatia, desnutrição grave, jejum prolongado, uso pesado de álcoolParacetamol em dose plena e prolongadaA via de conjugação satura e o estoque de glutation está baixo: o metabólito reativo se acumulaDipirona; opioide conforme a intensidade, lembrando que a metabolização hepática também está alterada
Antecedente de agranulocitose ou de reação prévia à dipironaDipironaReação idiossincrásica, sem relação com a dose: não se previne titulandoParacetamol; opioide conforme a intensidade. Febre e dor de garganta em quem usa dipirona pedem hemograma
Doença pulmonar avançada com retenção de gás carbônico, apneia do sono grave, rebaixamento de consciênciaOpioide em dose plena ou escalonamento rápidoA reserva ventilatória é menor e a margem entre analgesia e hipoventilação encurtaOpioide em dose menor, intervalo maior e monitorização de frequência respiratória e consciência; não opioide otimizado ao máximo

A escada analgésica da Organização Mundial da Saúde organiza a escolha por intensidade, mas não obriga a cumprir degraus em sequência. Dor intensa começa no degrau que corresponde a ela: opioide forte, associado ou não a não opioide e adjuvante. Fazer o paciente “merecer” a morfina depois de falhar com codeína é transformar uma ferramenta de organização em uma fila de espera.

Não opioide e opioide se somam, e o não opioide fica: dipirona ou paracetamol de horário poupam opioide e continuam prescritos quando a morfina entra. O que não se faz é associar dois AINE, nem dois opioides pelo mesmo receptor no mesmo esquema de horário.

Dose de horário sem resgate é tão incompleta quanto resgate sem dose de horário. A primeira deixa o paciente sem cobertura no pico; a segunda deixa a analgesia dependendo de alguém pedir.

Toda linha de resgate precisa de quatro elementos escritos: dose, via, intervalo mínimo entre doses e a condição de uso. É o que o protocolo nacional de segurança na prescrição exige de qualquer item prescrito em regime condicional, e é o que faz a enfermagem administrar sem telefonar.

O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica de 2024 diz duas coisas opostas sobre a codeína. Na abertura do tratamento medicamentoso, põe os opioides fracos codeína e tramadol, com a morfina em baixa dose, entre os medicamentos para dor crônica que o Ministério da Saúde decidiu não incorporar, pela Portaria SCTIE/MS nº 59/2021. No mesmo documento, lista o fosfato de codeína entre os medicamentos do protocolo — comprimidos de 30 e 60 mg, solução oral de 3 mg/mL e solução injetável de 30 mg/mL —, dá a posologia do adulto, de 30 a 60 mg três a quatro vezes ao dia até 360 mg/dia, manda priorizar a codeína no segundo degrau da escada da dor oncológica e a inclui no termo de esclarecimento e responsabilidade. A Rename 2024 a mantém no Componente Especializado, com o protocolo como documento norteador. Conta do que o leitor leva: pela lista de não incorporados, nenhuma apresentação de codeína para dor crônica no SUS; pela lista de medicamentos do mesmo protocolo e pela Rename, quatro. Como o protocolo contradiz a si mesmo e o elenco não, esta apostila adota o elenco: codeína pelo Componente Especializado, para quem cumpre o critério de inclusão de três meses de dor. O tramadol, que a mesma portaria não incorporou, não consta da Rename.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo abaixo é a de dona Adelaide, 78 anos, 54 kg, fratura do colo do fêmur direito, creatinina 1,1 com filtração estimada em 48 mL/min/1,73 m², sem hemorragia digestiva prévia, em jejum a partir da meia-noite para cirurgia amanhã. O leito 12, de Reinaldo, entra num marco próprio. Cada dose vem por extenso, com a fonte que a sustenta, e cada conta está feita: dose diária, resgate, o que se soma no dia seguinte e o volume que a enfermagem vai aspirar.

Uma regra atravessa todos os marcos: nenhuma analgesia sai desta enfermaria sem quatro elementos juntos — dose fixa de horário, resgate com dose e intervalo mínimo e condição escritos, laxante quando há opioide, e uma hora marcada para reavaliar. Falta um deles e o resultado é previsível: madrugada de dor, fecaloma no quarto dia, ou uma prescrição que a enfermagem não pode aviar sem telefonar.

Um recurso prático atravessa a tabela toda: a morfina injetável vem em ampola de 10 mg/mL, e medir 0,2 mL de uma ampola pura é convite a erro. Diluir uma ampola (1 mL) em 9 mL de soro fisiológico entrega 10 mL a 1 mg/mL — a partir daí, 2 mg são 2 mL, e 3 mg são 3 mL, em seringa que qualquer pessoa lê.

  1. Hora 0 — 6h35, a visita em que a conta muda

    Meça antes de prescrever: 5/10 em repouso, 9/10 à mobilização, dor localizada na raiz da coxa e virilha, contínua, sem descritor neuropático — dor somática de fratura. Ela está em dipirona 1 g de 6/6 h de horário, que é dose plena de não opioide e cobre o repouso, e em uma linha de “dipirona se dor” que ninguém aviou em catorze horas. O que falta não é aumentar a dipirona: o teto dela já está sendo usado. Falta o degrau seguinte, porque 9/10 é dor intensa e dor intensa começa em opioide forte. Anti-inflamatório está fora — 78 anos, filtração de 48 e jejum para cirurgia são três motivos independentes, e basta um.

    Linha de 24 horas apresenta seis administrações programadas e três resgates ilustrativos, com destaque para a soma das doses recebidas e a reavaliação.
    O total diário corresponde ao que foi realmente administrado, incluindo resgates. O exemplo não estabelece intervalo ou dose universal. Uso repetido de resgate deve levar à avaliação de dor, função, sedação e segurança do plano.
    Prescrição
    • AGORA: morfina 2 mg por via intravenosa lenta (2 mL da diluição de 1 mg/mL) — reavaliar em 15 minutos e repetir 2 mg se a dor ainda estiver em 4/10 ou mais, até três doses [Manual de Cuidados Paliativos, cap. 13; faixa de 2 a 10 mg por 70 kg no Protocolo de Suporte Avançado de Vida do SAMU 192 — 54 kg correspondem a 1,5 a 7,7 mg]
    • Dipirona 1 g por via intravenosa de 6/6 h de horário, mantida — teto de 4.000 mg/dia [bula profissional; Rename 2024: solução injetável de 500 mg/mL, ampola de 2 mL = 1 g]
    • Apagar a linha “dipirona 1 g EV se dor”: a dipirona já está no teto de horário, e um resgate sem dose máxima, posologia e condição de uso é exatamente o que o protocolo nacional de segurança na prescrição manda abolir
    • Morfina 2 mg por via subcutânea de 4/4 h de horário, a partir das 8 h → 12 mg/dia por via parenteral, equivalentes a 36 mg/dia por via oral [Manual de Cuidados Paliativos: parenteral três vezes mais potente que a oral]
    • Resgate de morfina em dose individualizada, com via, intervalo, limite operacional e critérios de avaliação antes de repetir. Na idosa com função renal reduzida, usar dose conservadora e monitorar sedação/ventilação; doses repetidas ou resposta inadequada exigem reavaliação presencial. Não prescrever resgates ilimitados no turno por rotina.
    • Resgate programado: morfina 2 mg por via subcutânea 30 minutos ANTES do banho, da mobilização para a radiografia e da fisioterapia — pico previsível se cobre antes, não depois
    • Lactulose 15 mL por via oral de 12/12 h de horário, desde hoje, enquanto durar o opioide [Rename 2024: xarope de 667 mg/mL]
    • Se houver náusea que justifique antiemético, selecionar agente e dose conforme mecanismo, QT, risco extrapiramidal e função renal. Metoclopramida exige ajuste na disfunção renal conforme a bula da apresentação; não copiar 10 mg a cada 8 horas para todo paciente. Usar pelo menor tempo necessário e reavaliar resposta e efeitos adversos.
    • Prescrever a checagem: intensidade da dor em repouso e à mobilização, frequência respiratória e nível de consciência, registrados a cada 4 horas nas primeiras 24 h
  2. Hora 1 — a reavaliação que ninguém faz, e que é onde a titulação acontece

    Opioide venoso tem pico em minutos; opioide oral, em cerca de uma hora. A reavaliação é nesse intervalo, não na visita de amanhã. Dona Adelaide recebeu dois bolus de 2 mg com 15 minutos de intervalo e está em 3/10 em repouso, 5/10 à mobilização, frequência respiratória de 16, desperta e conversando. Isso é resposta, e a dose fixa está calibrada — o que sobra é confirmar que o esquema aguenta o dia. Se estivesse em 8/10 depois de três bolus, o caminho seria continuar titulando com bolus e subir a fixa, não esperar amanhecer.

    Prescrição
    • Registrar assim, com hora: “dor 9/10 à mobilização às 6 h35; morfina 2 mg EV às 6 h40 e às 6 h55; dor 5/10 à mobilização às 7 h40; FR 16; desperta e orientada”
    • Se a dor retorna antes da próxima dose, avaliar duração do efeito, dose, tipo de dor e causas novas. Ajustar dose ou intervalo pode ser apropriado conforme formulação e resposta; não presumir sempre dose insuficiente.
    • Toxicidade por opioide não exige a tríade completa. Sonolência crescente, dificuldade de despertar ou ventilação lenta/superficial exigem avaliação imediata, mesmo sem miose. Interrompa novas doses, chame ajuda e avalie via aérea, ventilação, oxigenação e causas associadas. Ofereça ventilação assistida quando necessária; oxigênio sozinho não corrige hipoventilação. Na depressão respiratória iatrogênica em usuário de opioide, naloxona IV pode ser titulada a partir de 0,04 mg, repetindo/escalonando conforme resposta e protocolo. O alvo é ventilação adequada, não apenas frequência acima de 10 ou despertar completo. Em apneia ou situação crítica, não atrase ventilação e doses efetivas de antídoto. Uma ampola de 0,4 mg em volume final de 10 mL fornece 0,04 mg/mL. Observe ressurgimento de sedação, pois naloxona pode durar menos que o opioide.
    • Manter dipirona, lactulose e antiemético. Não associar um segundo anti-inflamatório nem um segundo opioide de horário
  3. Fim das primeiras 24 h — somar os resgates e recalcular

    A soma de doses fixas e resgates informa a necessidade das últimas 24 horas: 12 + 6 = 18 mg parenterais no exemplo. Antes de incorporá-la integralmente ao esquema fixo, diferencie dor contínua de resgates usados só para mobilização, examine tendência de melhora e procure sedação ou acúmulo. Três resgates não obrigam aumento automático. Se a dor contínua permanece sem toxicidade, redistribuir 18 mg em seis doses de 3 mg é uma opção, com resgate conservador e reavaliação.

    Prescrição
    • Conta: 12 mg fixos + 3 resgates × 2 mg = 18 mg/dia → 18 ÷ 6 = 3 mg por dose
    • Morfina 3 mg por via subcutânea de 4/4 h de horário (3 mL da diluição de 1 mg/mL) → 18 mg/dia
    • Resgate: morfina 3 mg por via subcutânea se dor igual ou maior que 4/10, intervalo mínimo de 30 minutos
    • Manter o resgate programado antes das mobilizações
    • Reavaliar sonolência e frequência respiratória a cada 4 horas nas primeiras 24 horas após cada aumento
    • Conferir a evacuação por escrito. Sem evacuação em 48 h, somar glicerol em supositório retal ou solução retal [Rename 2024]
  4. O dia da cirurgia — jejum, via e o buraco que ninguém prescreve

    Jejum tira a via oral, não tira a analgesia. É neste ponto que aparece o vão clássico da enfermaria: o paciente desce para o centro cirúrgico às sete, opera às onze, volta às três da tarde, e a prescrição do dia foi escrita “suspensa por jejum”. São oito horas sem nada, com uma fratura, e a dor de quem chega assim à sala aumenta a necessidade de anestésico e piora o pós-operatório. A conduta é converter a via, não suspender a droga.

    Prescrição
    • Suspender a via oral do que tem equivalente parenteral e manter o esquema pela via subcutânea ou intravenosa, na mesma dose já titulada: morfina 3 mg por via subcutânea de 4/4 h, com o mesmo resgate
    • Dipirona 1 g por via intravenosa de 6/6 h, mantida
    • Escrever no prontuário e comunicar à equipe do centro cirúrgico a dose diária de opioide em uso — quem já está em morfina não é virgem de opioide na indução, e essa informação muda a anestesia
    • Lactulose fica suspensa no jejum; a prevenção retorna com a dieta, e a evacuação continua sendo conferida todo dia
    • A forma de escrever a prescrição de um dia de jejum, item por item, é assunto do capítulo de prescrição de internação desta mesma apostila
  5. Pós-operatório — o esquema que sai da sala e o desmame que começa

    No pós-operatório a dor é máxima nas primeiras 24 a 48 horas e cai depois, e o esquema tem de acompanhar essa curva nos dois sentidos: subir no primeiro dia e descer quando ela cede. Manter opioide por inércia até a alta é tão errado quanto suspender no dia seguinte. O gatilho para descer é objetivo: dor igual ou menor que 3/10 por 48 horas, com menos de dois resgates por dia.

    Prescrição
    • Analgesia multimodal pode combinar fármacos de mecanismos complementares quando houver benefício, com doses e limites de cada um. Dipirona e paracetamol não são uma associação universalmente proibida, mas evitar duplicidade sem objetivo. Na pessoa frágil ou com risco hepático, limites podem ser menores que 4 g/dia.
    • Retomada da via oral: converta multiplicando a dose parenteral por 3. Dona Adelaide, em 18 mg/dia por via subcutânea, passa a 54 mg/dia por via oral → 54 ÷ 6 = 9 mg, arredondados para 10 mg de 4/4 h (1 mL da solução de 10 mg/mL, ou 1 comprimido de 10 mg) [Rename 2024]
    • Resgate por via oral: morfina 10 mg se dor igual ou maior que 4/10, intervalo mínimo de 1 hora
    • Desmame: com dor igual ou menor que 3/10 por 48 h e menos de dois resgates/dia, reduzir a dose diária em 25 a 50% por dia — 60 mg/dia passam a 45 ou 30 mg/dia —, mantendo o resgate recalculado a cada degrau e o não opioide de horário até o fim
    • Manter o laxante enquanto houver opioide, e só então retirá-lo
    • Levantar a paciente e mobilizar: analgesia em ortopedia existe para permitir carga, fisioterapia e prevenção de trombose e delirium. Analgesia que não muda a função não terminou o trabalho
  6. O leito 12 — quando o paciente pede o remédio pelo nome

    Reinaldo, 92 kg, segundo dia de pancreatite aguda, diz que a morfina resolveu e pede de novo. A conduta não muda por causa do pedido: muda por causa do número. Ele está em 8/10, contínua, em faixa no andar superior do abdome — dor intensa, degrau de opioide forte, e anti-inflamatório está proibido porque pancreatite cursa com sequestro de volume e o rim dele depende da prostaglandina. A pergunta que interessa não é se ele merece morfina: é qual dose, com que resgate e quando reavaliar.

    Prescrição
    • AGORA: morfina 3 mg por via intravenosa lenta (3 mL da diluição de 1 mg/mL), reavaliando em 15 minutos e repetindo 3 mg se dor igual ou maior que 4/10 [SAMU 192: 2 a 10 mg por 70 kg; 92 kg correspondem a 2,6 a 13,1 mg]
    • Dipirona 1 g por via intravenosa de 6/6 h de horário
    • Morfina 3 mg por via subcutânea de 4/4 h de horário → 18 mg/dia parenteral, equivalentes a 54 mg/dia por via oral
    • Resgate: morfina 3 mg por via subcutânea se dor igual ou maior que 4/10, intervalo mínimo de 30 minutos
    • Se usar três ou mais resgates em 24 h: 18 + 3 × 3 = 27 mg/dia → 27 ÷ 6 = 4,5 mg de 4/4 h
    • Lactulose 15 mL por via oral de 12/12 h assim que a dieta for liberada; antes disso, conferir evacuação e usar medida retal se necessário
    • Registrar no prontuário, com número, a dor de admissão e a de agora — o registro é o que protege o paciente do próximo plantonista que também vai hesitar
  7. Quando a analgesia não é o problema — a dor que muda de padrão

    Terceiro dia, dor que estava em 3/10 sobe para 8/10 em duas horas, exigindo resgate atrás de resgate. Subir a fixa aqui é tratar um sintoma novo como se fosse falha de dose. Antes de mexer na receita, reexamine: onde dói agora, dói igual ao de antes, o exame físico mudou, os sinais vitais mudaram, o curativo mudou, o membro está tenso, houve retenção urinária, o abdome ficou em defesa. Analgesia adequada não apaga peritonite e não esconde compartimento — o que esconde diagnóstico é o paciente com dor demais para ser examinado.

    Prescrição
    • Trate o pico agora com resgate e examine o paciente na mesma passagem — as duas coisas ao mesmo tempo, não uma depois da outra
    • Confira o que é reversível em minutos: bexiga (globo palpável, sondagem de alívio), imobilização apertada, curativo compressivo, posição no leito
    • Confira o que exige exame: membro com dor desproporcional e piora ao estiramento passivo, abdome novo em defesa, ferida operatória com secreção ou taquicardia sem foco
    • Sonolência progressiva, confusão ou mioclonia com função renal em piora sugere toxicidade: avaliar imediatamente, segurar doses e discutir redução ou troca do opioide, com suporte conforme ventilação. Hidratação depende da volemia; não administrar volume automaticamente em paciente congesto.
    • Se a suspeita for cirúrgica ou vascular, chame ajuda mantendo a analgesia: o protocolo nacional da doença falciforme é explícito ao dizer que a analgesia não se suspende enquanto se aguarda avaliação ou exame, e a regra vale para qualquer causa
  8. A alta — a receita que o paciente consegue aviar

    A alta muda três coisas de uma vez: a via passa a ser oral, a administração passa a depender do paciente e da família, e a dispensação passa a depender do que a farmácia entrega. Prescrição de alta que não considera as três é prescrição para o papel. Dentro do hospital, o opioide chega ao leito pela dispensação do próprio estabelecimento; fora dele, o opioide exige notificação de receita específica — a mecânica desse documento, com o que ele comporta e por quanto tempo vale, está escrita no capítulo de cuidados paliativos e dor oncológica desta coleção, e é para lá que essa parte remete.

    Prescrição
    • Escreva o par também na alta: analgésico de horário com dose, via e frequência, mais o resgate com dose, intervalo mínimo, condição de uso e dose máxima diária escrita — a mesma exigência do protocolo nacional de segurança na prescrição vale fora do hospital
    • Escreva a duração. “Dipirona 1 g por via oral de 6/6 h por 7 dias, máximo 4 g em 24 horas” é prescrição; “dipirona se dor” não é
    • Confira a soma do paracetamol com o que a pessoa já toma por conta própria: antigripal, analgésico de farmácia e associação com codeína contêm paracetamol, e o teto de 4 g/dia é do dia inteiro, não de cada caixa
    • Escolha o que existe na farmácia que ele usa: dipirona, paracetamol, ibuprofeno e codeína estão na Rename 2024; tramadol e diclofenaco não [Rename 2024]
    • Se houver opioide na alta, prescreva o laxante na mesma receita, com horário, e explique que ele não é opcional
    • Marque o retorno e diga, por escrito, quem procurar se a dor escapar antes dele
09

Como saber se está funcionando

Analgesia é a área da enfermaria em que o parâmetro de resposta é o mais barato e o mais ignorado: um número, perguntado na hora certa. A regra de tempo vem da farmacocinética — reavalie no pico da droga que você deu, não no fim do plantão.

A meta é explícita e negociada com o paciente. Zero de dor não é meta realista na fratura recente nem no pós-operatório de laparotomia; funcionar é. A régua prática: dor igual ou menor que 3/10 em repouso, dor tolerável na mobilização, sono preservado, e capacidade de tossir, sentar e andar conforme o que a doença permite. Dor que impede tossir vira atelectasia e pneumonia; dor que impede levantar vira trombose, úlcera por pressão e delirium.

Intensidade pela escala numérica, em repouso e à mobilização15 minutos após dose intravenosa; 1 hora após dose oral; e a cada 4 horas nas primeiras 24 horas de qualquer esquema novo ou aumentado

Esperado: Queda de pelo menos 2 pontos ou chegada a 3/10 ou menos em repouso; melhora da mobilização

Se não melhora: Titule com resgate e reavalie no mesmo intervalo. Sem resposta após três resgates, suba o degrau: se está em não opioide, entre com opioide; se está em opioide fraco perto do teto, troque por forte. Reexamine antes de subir pela quarta vez

Número de resgates em 24 horasContado uma vez por dia, na visita, somando a folha de checagem

Esperado: Menos de três. Zero resgate por vários dias com dor controlada é sinal de que já dá para descer

Se não melhora: Três ou mais: some fixa + resgates, divida por 6 e prescreva de 4/4 h. Mais de cinco resgates com dor persistente: reveja o diagnóstico da dor antes de subir de novo, e considere componente neuropático ou complicação nova

Frequência respiratória e nível de consciênciaJunto de cada aferição de dor, e a cada 4 horas nas 24 horas seguintes a qualquer aumento de opioide

Esperado: Frequência respiratória de 12 a 20, paciente desperta ao chamado e responde. Sonolência leve nas primeiras 48 horas é esperada

Se não melhora: Toxicidade por opioide não exige a tríade completa. Sonolência crescente, dificuldade de despertar ou ventilação lenta/superficial exigem avaliação imediata, mesmo sem miose. Interrompa novas doses, chame ajuda e avalie via aérea, ventilação, oxigenação e causas associadas. Ofereça ventilação assistida quando necessária; oxigênio sozinho não corrige hipoventilação. Na depressão respiratória iatrogênica em usuário de opioide, naloxona IV pode ser titulada a partir de 0,04 mg, repetindo/escalonando conforme resposta e protocolo. O alvo é ventilação adequada, não apenas frequência acima de 10 ou despertar completo. Em apneia ou situação crítica, não atrase ventilação e doses efetivas de antídoto. Uma ampola de 0,4 mg em volume final de 10 mL fornece 0,04 mg/mL. Observe ressurgimento de sedação, pois naloxona pode durar menos que o opioide.

EvacuaçãoPerguntada e registrada todo dia, desde o primeiro dia de opioide

Esperado: Evacuação pelo menos a cada 48 horas, sem esforço excessivo

Se não melhora: Sem evacuação em 48 horas: some ou aumente o laxante e acrescente medida retal (glicerol em supositório ou solução retal). Distensão, náusea e parada de eliminação de gases em quem usa opioide há dias pedem exame do abdome e toque retal antes de mais laxante oral

Náusea e vômitoNos primeiros 3 a 7 dias de opioide

Esperado: Cede espontaneamente nesse prazo; o antiemético é prescrito por tempo limitado e depois retirado

Se não melhora: Náusea persistente ou intensa exige procurar constipação, íleo, obstrução, alteração metabólica e outros medicamentos, inclusive antes de uma semana. A associação de antieméticos não é universalmente proibida, mas deve ter justificativa, avaliação do QT, eletrólitos, interações e risco de efeitos adversos; evitar empilhar agentes sem reavaliar o mecanismo.

Função — tossir, sentar, levantar, dormirTodo dia, na visita

Esperado: Melhora progressiva. É este parâmetro, e não o número isolado, que diz se a analgesia serviu para alguma coisa

Se não melhora: Dor controlada em repouso e função parada aponta para analgesia mal distribuída no tempo: falta resgate programado antes da mobilização e da fisioterapia

Creatinina e função renal, em quem recebeu anti-inflamatório ou está em opioide por diasAo entrar com AINE e a cada 48 horas enquanto durar; e sempre que houver sonolência progressiva ou mioclonia em quem usa opioide

Esperado: Creatinina estável

Se não melhora: Creatinina em ascensão: suspenda o AINE imediatamente e reveja volemia e demais nefrotóxicos. Em opioide, filtração caindo com sonolência e mioclonia é acúmulo de metabólito: hidrate, reduza a dose diária em 25 a 30% e espace o intervalo. O ajuste fino por função renal e hepática tem capítulo próprio nesta apostila

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Onde o erro machuca

Prescrever analgesia só em regime condicional — a linha isolada de “se necessário”, sem dose de horário.

O dano: A analgesia passa a depender de três eventos consecutivos: o paciente pedir, a enfermagem interpretar e alguém julgar que o pedido procede. Quem não pede — idoso, demente, afásico, quem foi criado para não incomodar — não recebe nada. Dona Adelaide passou catorze horas com uma fratura de fêmur e a linha de resgate em branco.

Como pegar a tempo: Dor moderada ou intensa leva dose fixa de horário mais resgate, escritos juntos. O protocolo nacional de segurança na prescrição manda abolir “se necessário” sem dose máxima, posologia e condição de uso; quando a expressão for usada, exige dose, posologia, dose máxima diária escrita e a condição que determina o uso ou a interrupção.

Repetir o degrau em vez de subir: acrescentar mais uma linha do mesmo analgésico simples quando ele já está no teto.

O dano: Consome tempo e não entrega analgesia. Dipirona 1 g de 6/6 h já é 4 g por dia, que é o teto; a linha de “dipirona se dor” ao lado não pode ser aviada sem ultrapassá-lo, e a enfermagem que a avia expõe o paciente sem benefício.

Como pegar a tempo: Antes de acrescentar, calcule a dose diária que já está prescrita e compare com o teto. Se o degrau está no teto e a dor persiste, o próximo movimento é o degrau seguinte, não mais uma linha do mesmo.

Espremer o opioide fraco: subir a codeína além de 360 mg/dia, ou insistir nela em dor intensa.

O dano: Acima do teto não há ganho analgésico — a conversão hepática em morfina é limitada e uma parcela da população não a faz. O paciente recebe constipação, náusea e sonolência sem analgesia, e o quadro é lido como “dor refratária”. Mesmo no teto, a codeína entrega o equivalente a 36 mg de morfina oral por dia.

Como pegar a tempo: Trate teto como limite de classe, não como meta. Dor intensa começa em opioide forte; opioide fraco perto do teto sem resposta pede troca de degrau, e não mais um aumento.

Prescrever opioide sem laxante, ou prescrever o laxante em regime condicional.

O dano: A constipação por opioide não desenvolve tolerância: dura o tratamento inteiro. Sem prevenção de horário, o desfecho é fecaloma no terceiro ou quarto dia, com distensão, náusea, vômito, delirium no idoso e, às vezes, uma investigação de abdome agudo que não precisaria existir.

Como pegar a tempo: Laxante de horário na mesma receita da primeira dose de opioide, e evacuação perguntada e registrada todo dia. Lactulose 15 a 30 mL uma a duas vezes ao dia, com medida retal se não houver evacuação em 48 horas.

Prescrever anti-inflamatório no internado sem conferir rim, volemia, sangramento e prescrição concomitante.

O dano: A inibição da prostaglandina retira a vasodilatação da arteríola aferente justamente em quem depende dela — desidratado, séptico, em diurético ou em bloqueador do sistema renina-angiotensina. A injúria renal aguda aparece em dias, sem sintoma, achada na creatinina de rotina, e prolonga a internação. No paciente que sangra ou está anticoagulado, soma hemorragia à hemorragia.

Como pegar a tempo: Antes de assinar, olhe creatinina com filtração estimada, plaquetas, volemia à beira do leito e a lista de medicamentos em uso. Idoso frágil, insuficiência cardíaca, sangramento ativo e uso de ácido acetilsalicílico em dose baixa são situações em que o anti-inflamatório simplesmente não entra.

Somar paracetamol entre apresentações sem perceber.

O dano: O teto de 4 g/dia é do dia inteiro e de todas as fontes. Paracetamol 750 mg de 6/6 h já são 3 g; somados a dois comprimidos de paracetamol com codeína, chegam exatamente aos 4 g; e um antigripal com 500 mg tomado três vezes leva o total a 5,5 g, quase 40% acima do teto. A lesão hepática se instala antes do sintoma e o laboratório pode só denunciá-la em 48 a 72 horas.

Como pegar a tempo: Pergunte o que a pessoa tomou hoje e o que usa em casa, some as apresentações e escreva a dose máxima diária na própria prescrição. Em hepatopatia, desnutrição grave, jejum prolongado ou uso pesado de álcool, prefira dipirona.

Suspender a analgesia no jejum pré-operatório em vez de converter a via.

O dano: O paciente atravessa horas sem cobertura, com fratura ou ferida, e chega à sala doendo — o que aumenta a necessidade de anestésico e piora a dor pós-operatória. É o vão em que a prescrição diz “suspenso por jejum” e ninguém escreve nada no lugar.

Como pegar a tempo: Jejum tira a via oral, não a analgesia. Converta para a via parenteral na dose já titulada — a morfina parenteral é três vezes mais potente que a oral, então divide-se por três — e comunique ao centro cirúrgico a dose diária de opioide em uso.

Deixar a suspeita decidir a prescrição no paciente que pede o medicamento pelo nome.

O dano: Atraso ou recusa de analgesia em quem tem dor intensa, com o agravante de que o subtratado insiste, e a insistência é lida como sinal de dependência — o que produz mais subtratamento. É o mesmo mecanismo que faz a pessoa com doença falciforme esperar por analgesia, e o protocolo nacional dessa doença registra o estigma por escrito.

Como pegar a tempo: Prescreva pela intensidade medida e reavalie pelo desfecho: intensidade, função, sono, frequência respiratória e nível de consciência. Uso problemático de substâncias é comorbidade a ser manejada junto com a analgesia, nunca no lugar dela. E registre o número no prontuário, porque é ele que protege o paciente do próximo plantonista.

Subir a dose de opioide diante de uma dor que mudou de padrão.

O dano: Uma dor nova, desproporcional ou que exige doses crescentes em poucas horas costuma ser complicação: síndrome compartimental, isquemia, deiscência de anastomose, retenção urinária. Subir a dose sem reexaminar sepulta o diagnóstico debaixo da sedação e adia a cirurgia que resolveria.

Como pegar a tempo: Trate o pico com resgate e examine o paciente na mesma passagem. Dor que muda de lugar, de qualidade ou de curva pede exame físico completo, revisão de sinais vitais e da ferida, e checagem do que é reversível em minutos — bexiga, imobilização, curativo.

Confundir sonolência isolada com intoxicação, e reverter com naloxona em dose plena.

O dano: Naloxona em dose desproporcional pode retirar analgesia e precipitar abstinência. Por outro lado, atribuir toda sonolência inicial a adaptação pode atrasar reconhecimento de toxicidade. Avalie tendência, profundidade da sedação, ventilação e fatores de acúmulo antes de manter a próxima dose.

Como pegar a tempo: Toxicidade por opioide não exige a tríade completa. Sonolência crescente, dificuldade de despertar ou ventilação lenta/superficial exigem avaliação imediata, mesmo sem miose. Interrompa novas doses, chame ajuda e avalie via aérea, ventilação, oxigenação e causas associadas. Ofereça ventilação assistida quando necessária; oxigênio sozinho não corrige hipoventilação. Na depressão respiratória iatrogênica em usuário de opioide, naloxona IV pode ser titulada a partir de 0,04 mg, repetindo/escalonando conforme resposta e protocolo. O alvo é ventilação adequada, não apenas frequência acima de 10 ou despertar completo. Em apneia ou situação crítica, não atrase ventilação e doses efetivas de antídoto. Uma ampola de 0,4 mg em volume final de 10 mL fornece 0,04 mg/mL. Observe ressurgimento de sedação, pois naloxona pode durar menos que o opioide.

Usar morfina de liberação prolongada como resgate, ou abrir a cápsula para passar por sonda.

O dano: A formulação prolongada demora a agir e não cobre crise; usada como resgate, deixa o paciente doendo enquanto acumula dose. Aberta ou macerada, libera de uma vez a carga inteira do intervalo de 12 horas — sobredose por via de administração.

Como pegar a tempo: Resgate é sempre com a formulação de liberação imediata. A cápsula de liberação prolongada vai inteira, por via oral, de 12/12 h, e sai da prescrição quando a via oral se perde: nesse momento converte-se para a via parenteral, dividindo a dose diária por três.

Não perguntar qual opioide o paciente já usava em casa.

O dano: A suspensão silenciosa na admissão produz dor descontrolada e abstinência ao mesmo tempo — agitação, sudorese, taquicardia, midríase e diarreia —, quadro rotineiramente tratado como ansiedade ou delirium, com benzodiazepínico ou antipsicótico.

Como pegar a tempo: Na admissão de quem tem dor: qual analgésico usa em casa, em que dose, de quanto em quanto tempo e desde quando. A dose domiciliar vira a linha de base sobre a qual se soma a analgesia do evento agudo.

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O que dizer ao paciente e à família

Conversar sobre dor tem duas tarefas distintas: extrair um número confiável de alguém que aprendeu a não reclamar, e desmontar o medo do opioide sem prometer o que não se cumpre. As duas se fazem com frases curtas e concretas, e as duas custam menos de dois minutos.

A frase que mais atrapalha na enfermaria brasileira é a pergunta fechada: “está com dor?”. Ela convida ao “estou bem, doutor”, que é uma resposta de cortesia, não um dado clínico. A pergunta que funciona pede um número, dá referência e separa repouso de movimento.

Extrair a intensidade de quem minimiza

“Dona Adelaide, preciso de um número da senhora. De zero a dez, sendo zero nenhuma dor e dez a pior dor que a senhora já sentiu na vida: quanto está doendo agora, parada? E quando alguém mexe na perna, quanto vai?”

Não diga: “Está com dor?” — e aceitar o “estou bem”. Também evite “mas está doendo muito mesmo?”, que sinaliza que a resposta anterior foi exagerada e ensina o paciente a rebaixar o número na próxima vez.

Autorizar o paciente a pedir

“A senhora tem um remédio prescrito para usar entre os horários, sempre que a dor passar de quatro. Ele já está liberado, não precisa pedir licença nem esperar eu passar. Chamar a enfermagem para isso não é incomodar: é o que está escrito na sua prescrição.”

Não diga: “Se precisar, é só chamar” — que devolve ao paciente a decisão sobre merecer. E evite “vamos deixar para quando piorar”, que transforma o resgate em prêmio.

O medo de viciar

“A morfina é um remédio de dor, e é o que temos de mais eficaz para o que a senhora está sentindo. Quem usa para tratar dor aguda, na dose certa e pelo tempo em que a dor existe, não fica dependente. Vamos usar enquanto a fratura doer, vamos diminuir quando ela melhorar, e a senhora vai saber de cada passo.”

Não diga: “Não se preocupe, é fraquinho” — mentira que se desfaz na primeira náusea e destrói a confiança. Também evite “é só um analgésico”, que esconde o nome e impede o paciente de saber o que está tomando.

O que vai acontecer de efeito adverso, dito antes de acontecer

“Dois efeitos são esperados e já estão previstos na receita. O intestino prende, e por isso o laxante entra hoje, todo dia, junto com a morfina — não é opcional. E pode dar enjoo nos primeiros dias, que passa; já deixei o remédio para isso prescrito. Se a senhora ficar sonolenta demais ou com a respiração devagar, a enfermagem vai me chamar antes da próxima dose.”

Não diga: Não avisar e deixar o paciente descobrir sozinho: quem tem náusea inesperada recusa a próxima dose, e quem fica quatro dias sem evacuar sem saber por quê acha que piorou da doença.

O paciente que pede o medicamento pelo nome

“Que bom que o senhor sabe o que funcionou — isso me ajuda. Você estava em oito de dez agora há pouco; isso é dor intensa e tem tratamento. Vou dar a morfina agora e deixar prescrita de horário, com uma dose extra para quando escapar. Em quinze minutos eu volto para ver o número de novo.”

Não diga: “Vamos tentar primeiro uma coisa mais leve” quando a intensidade já indica opioide forte. E evite qualquer frase que peça justificativa ao paciente — “por que o senhor acha que precisa de morfina?” — porque ela transfere a prova para quem está doendo.

Combinar a meta, sem prometer zero

“A meta não é dor zero — com essa fratura, ainda vai doer quando mexer. A meta é ficar em três ou menos parada, conseguir dormir, e aguentar a mobilização com a dose extra. Se a gente não chegar nisso hoje, eu mudo a prescrição, não é para o senhor aguentar.”

Não diga: “Vamos acabar com a dor” e “isso resolve”, promessas que a fratura recente não permite cumprir e que fazem o paciente concluir que o tratamento falhou.

Explicar à família por que a dose subiu

“A dose subiu porque ele precisou de três doses extras ontem, e isso quer dizer que a dose fixa estava baixa. Não é que a doença piorou nem que ele está viciando: é a conta que a gente faz todo dia, somando o que foi usado. Quando a dor ceder, a gente desce do mesmo jeito.”

Não diga: “Aumentei a morfina” sem explicar a conta — a família ouve “está piorando” e passa a desestimular o uso, e o paciente recusa a dose seguinte na frente do filho.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Qual analgésico simples de horário no internado brasileiro: dipirona ou paracetamol

Dipirona como padrão de horário no internado

A dipirona está no Componente Básico da Rename 2024 nas três formas que a enfermaria precisa — comprimido de 500 mg, solução oral de 500 mg/mL e solução injetável de 500 mg/mL —, e é a única das duas com apresentação parenteral disponível, o que resolve o jejum, o vômito e o rebaixamento sem trocar de droga. A Rename 2024 a classifica entre os analgésicos e antipiréticos, fora do grupo dos anti-inflamatórios, e o manual brasileiro de cuidados paliativos a lista entre os analgésicos simples, reservando as advertências de lesão renal e gastrointestinal ao capítulo dos anti-inflamatórios — o que a mantém utilizável em quem tem rim comprometido ou risco de sangramento. O Protocolo da Dor Crônica a coloca como alternativa de primeira linha, em 500 mg, um a dois comprimidos até quatro vezes ao dia.

Rename 2024 (Componente Básico); Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica, Portaria Conjunta SAES/SAPS/SECTICS nº 1/2024, item 7.2.1.1; Manual de Cuidados Paliativos, 2. ed., cap. 13

Paracetamol como padrão de horário

O Protocolo da Dor Crônica inicia o tratamento medicamentoso da osteoartrite com paracetamol de 500 mg, um a dois comprimidos, três a quatro vezes ao dia, sem exceder 4 g diários, e só depois cita a dipirona como alternativa. O paracetamol não carrega o risco de agranulocitose que a bula da dipirona descreve como reação imunoalérgica muito rara, não dose-dependente e possível a qualquer momento do tratamento, e tem perfil de reação adversa bem caracterizado. Também está no Componente Básico da Rename 2024, em comprimido de 500 mg e solução oral de 200 mg/mL.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica, item 7.2.1.1; Rename 2024 (Componente Básico); bula profissional do paracetamol solução gotas 200 mg/mL

Como decidir

Decida pela via e pelo órgão em risco, não por preferência. Paciente em jejum, vomitando ou rebaixado: dipirona, porque existe injetável e o paracetamol da Rename não tem apresentação parenteral. Hepatopata, desnutrido grave, em jejum prolongado ou com uso pesado de álcool: dipirona, porque o glutation do paracetamol está no limite. Antecedente de agranulocitose ou de reação prévia à dipirona: paracetamol, sem discussão. Paciente que já toma paracetamol em casa ou em associação com codeína: conte a soma antes de acrescentar mais — e, se a conta apertar contra os 4 g, use dipirona. Nos demais, escolha uma das duas de horário e não as empilhe: duas drogas do mesmo degrau, cada uma com teto próprio, confundem a checagem e não somam analgesia proporcional.

O teto diário do ibuprofeno no adulto: 3.200 mg ou 2.400 mg

Até 3.200 mg/dia

O Quadro 2 do Protocolo da Dor Crônica prescreve, para adultos, 200 a 600 mg de três a quatro vezes ao dia, ou 40 a 160 gotas, podendo ser repetido no máximo quatro vezes em 24 horas, com dose máxima de 3.200 mg/dia. É o teto que consta do documento nacional que rege a dispensação do medicamento no SUS.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica, Portaria Conjunta SAES/SAPS/SECTICS nº 1/2024, Quadro 2

Até 2.400 mg/dia

O manual brasileiro de cuidados paliativos elaborado com o Ministério da Saúde traz, para o mesmo fármaco, 200 a 800 mg a cada 6 a 8 horas com dose máxima de 2.400 mg/dia, no contexto de um capítulo que recomenda uso pontual do anti-inflamatório, evitando o uso contínuo, com atenção explícita a lesão renal — especialmente em idosos — e a lesão gastrointestinal.

Manual de Cuidados Paliativos, 2. ed., São Paulo: Hospital Sírio-Libanês; Ministério da Saúde, 2023, cap. 13

Como decidir

Este capítulo adota 2.400 mg/dia na enfermaria, e a razão é o denominador: o teto maior foi escrito para a dor crônica ambulatorial, em pessoa estável, com rim conhecido e volemia normal. O internado é o oposto disso — jejum, febre, diurético, antibiótico nefrotóxico, contraste, sangramento — e é justamente a população em que a margem entre analgesia e injúria renal aguda encolhe. Some-se que o ganho analgésico entre 1.800 e 3.200 mg é pequeno e o risco cresce. Regra prática: no internado, 400 a 600 mg de 8/8 h, por poucos dias, com creatinina conferida antes e a cada 48 horas, e suspensão imediata se ela subir. Se você precisa de 3.200 mg para controlar a dor, o problema não é a dose do anti-inflamatório: é que falta o degrau seguinte.

Ir direto ao opioide forte na dor intensa, ou cumprir a escada degrau a degrau

Direto ao degrau que corresponde à intensidade

A escada analgésica associa a intensidade da dor às classes de medicamento e serve para organizar a escolha, não para impor uma sequência obrigatória de tentativas. O protocolo brasileiro de suporte avançado de vida opera dessa forma na prática: a tabela de fármacos por faixa reserva o analgésico simples para toda dor, o opioide fraco para a faixa moderada de 5 a 7 e o opioide forte para a faixa intensa de 8 a 10, sem exigir falha prévia do degrau anterior. O protocolo nacional da doença falciforme segue a mesma lógica ao dizer que a escolha do analgésico se baseia no grau de intensidade avaliado por escala.

Protocolos de Suporte Avançado de Vida — SAMU 192, Ministério da Saúde, 2016; Manual de Cuidados Paliativos, 2. ed., cap. 13 (princípios da Organização Mundial da Saúde); Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Falciforme, Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 16/2024, item 7.3.5

Parcimônia com opioide, esgotando primeiro os degraus inferiores

O Protocolo da Dor Crônica afirma que codeína, morfina e metadona devem ser utilizadas com parcimônia no tratamento da dor crônica não oncológica, registrando que a eficácia e a segurança do uso prolongado são incertas, e que a evidência robusta cobre o uso de curto prazo. Na mesma linha, o protocolo lista entre as não incorporações de 2021 os opioides fortes fentanila, oxicodona e buprenorfina e os opioides fracos para dor crônica — lista que contradiz o próprio protocolo quanto à codeína, que ele prescreve e o Componente Especializado dispensa —, e o protocolo da doença falciforme condiciona o opioide forte à ausência de resposta a analgésicos, anti-inflamatórios e opioides fracos.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica, item 7.2.1 e Portarias SCTIE/MS nº 46 e nº 59, de 20 de julho de 2021; Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Falciforme, item 7.3.5

Como decidir

Repare no denominador de cada posição, porque é ele que resolve a aparente contradição: a parcimônia foi escrita para dor crônica não oncológica de uso prolongado, em que o balanço de longo prazo é incerto; a dor do internado é aguda, tem causa identificada, tem prazo e será desmamada. Para o paciente à sua frente, decida assim: intensidade de 8 a 10, ou dor moderada que não cedeu ao não opioide em dose plena, começa em opioide forte, titulado por reavaliação, com resgate e com data para descer. Intensidade de 5 a 7 pode começar em opioide fraco, desde que você saiba o teto e não o esprema. E o que a parcimônia de fato obriga é o outro lado do cuidado, que se aplica desde a primeira dose: prazo definido, reavaliação diária, desmame ativo quando a dor cede, e nada de alta com opioide sem plano de retirada.

A dose de resgate: um sexto ou um décimo da dose diária

Um sexto da dose diária

A faixa aceita para a dose de resgate vai de 1/6 a 1/10 da dose diária total de opioide em uso de horário, e o extremo alto é o que efetivamente cobre o pico. Um sexto equivale, na prática, a uma dose a mais do esquema de 4/4 h — a mesma quantidade que o paciente já tolera a cada intervalo —, o que torna a conta trivial de fazer à beira do leito e fácil de arredondar para o volume que a seringa mede.

Manual de Cuidados Paliativos, 2. ed., cap. 13 (dose de resgate equivalente a cerca de 1/6 a 1/10 da dose total diária)

Um décimo da dose diária

O extremo baixo da mesma faixa entrega uma dose menor por resgate, com margem maior de segurança respiratória e menos sedação acumulada — argumento que pesa em quem tem reserva ventilatória curta, filtração glomerular reduzida ou fragilidade. Como a régua de escalonamento conta o número de resgates, e não o volume total, o esquema continua subindo quando precisa: só sobe em passos menores.

Manual de Cuidados Paliativos, 2. ed., cap. 13 (mesma faixa de 1/6 a 1/10, com dose inicial reduzida no idoso, na disfunção renal e na hepática)

Como decidir

Escolha dose de resgate e intervalo pela via, tempo de ação, exposição prévia e risco. Idoso frágil ou disfunção renal/respiratória pede início menor e monitorização mais próxima. Não compense dose menor automaticamente com intervalo mais curto, pois isso pode produzir acúmulo. Dor não controlada exige reavaliação e titulação supervisionada.

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O raciocínio, em voz alta

Enfermaria de clínica médica, 22h10. Você é chamado ao leito 6. Senhor Odilon Prates, 66 anos, 70 kg, terceiro dia de internação por celulite extensa em perna esquerda, em antibiótico venoso, diabético, creatinina de admissão 1,4 com filtração estimada em 52 mL/min/1,73 m², em uso de enalapril e hidroclorotiazida em casa. A técnica diz que ele não dorme e que “pediu alguma coisa mais forte”. Na prescrição existe uma linha: “dipirona 1 g EV se dor”. Ele diz que a perna está pior à noite e que a dor é de queimação, com choques que sobem até o joelho, e que o lençol encostando já dói.

  1. O que penso agora

    Duas perguntas antes de qualquer receita. Quanto dói, com número, em repouso e ao movimento? E que tipo de dor é essa? Ele responde 8/10 em repouso à noite, 9/10 quando encosta. Os descritores — queimação, choque, dor ao toque do lençol — não são de dor inflamatória pura: há componente neuropático. Isso já muda duas coisas: opioide isolado vai responder pior do que eu gostaria, e um adjuvante entra no plano. E existe um dado que o número não dá: ele nunca recebeu nada de horário. A linha “se dor” está em branco há três dias.

  2. O que peço

    Nada de imagem, e nada de laboratório para “comprovar” a dor. O que peço é o que autoriza ou proíbe droga: creatinina atual e a lista completa do que está prescrito. A creatinina de hoje voltou 1,6, subindo. Ele está em enalapril, hidroclorotiazida e antibiótico, com febre e ingesta ruim há três dias. Peço também o exame que só se faz com a mão: descubro a perna inteira e olho a borda do eritema, a tensão da panturrilha e o enchimento capilar, porque dor desproporcional em membro tem diagnósticos que analgesia nenhuma resolve.

  3. Como a resposta muda o que penso

    A perna está quente e eritematosa, sem tensão de compartimento, com pulsos presentes e sem crepitação — celulite, sem sinal de fasciite nem de isquemia. Isso me tranquiliza quanto ao diagnóstico e me deixa livre para tratar a dor. Mas a creatinina em ascensão, com diurético e inibidor da enzima conversora em uso, fecha a porta do anti-inflamatório — que era exatamente o que a “dor inflamatória de celulite” me faria querer prescrever. É o mecanismo que decide: sem prostaglandina, a arteríola aferente dele perde a última defesa.

  4. O que prescrevo

    Prescrever analgesia multimodal, com não opioide em dose individualizada e resgate claramente definido. Dipirona não é isenta de risco renal ou hematológico: não assumir automaticamente 1 g a cada 6 horas em todo paciente. Com filtração estimada em 52 e tendência de queda, morfina exige início conservador, reavaliação da função renal e vigilância de sedação, frequência respiratória e mioclonias. Uma dose inicial baixa, lenta e supervisionada pode ser titulada pela resposta; a manutenção e os resgates devem considerar o total recebido e o risco de acumulação, sem repetições automáticas a cada hora. Sonolência progressiva ou mioclonia exigem avaliação imediata, suspensão/redução conforme gravidade e consideração de outro opioide; hidratar somente se o estado volêmico indicar. Prescrever prevenção de constipação com meta de evacuação confortável e antiemético se necessário, ajustado ao rim. O componente neuropático permite adjuvante em dose baixa, também com ajuste renal e revisão da sedação. Retirar duplicidades e registrar quando chamar a equipe antes de repetir um resgate.

  5. Como sei se funcionou

    Reavalio em 15 minutos após a dose venosa e em 1 hora após a primeira dose oral, registrando intensidade, frequência respiratória e nível de consciência com a hora. Amanhã na visita eu conto os resgates: menos de três, mantenho; três ou mais, somo — 30 mg fixos mais três resgates de 5 mg dão 45 mg/dia, que divididos por seis viram 7,5 mg de 4/4 h, ou 0,75 mL. Pergunto se dormiu, se consegue apoiar o pé, e se evacuou. E, se em 48 horas a dor não ceder junto com o eritema, eu não subo a morfina pela terceira vez sem reexaminar a perna.

  6. O que ficou aprendido

    Três decisões carregaram o caso, e nenhuma delas foi a escolha do opioide. A primeira foi medir e caracterizar, o que revelou o componente neuropático que a receita precisava contemplar. A segunda foi olhar a creatinina antes de assinar, o que tirou o anti-inflamatório de cena justamente no caso em que ele parecia óbvio. A terceira foi trocar uma linha condicional solta por um par completo — horário mais resgate, com laxante junto. O senhor Odilon passou três noites acordado por causa de uma linha de prescrição, não por falta de medicamento no hospital.

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Faça você

Mesma enfermaria, 7h40 do dia seguinte. Leito 3: dona Marlucia Ferraz de Andrade, 81 anos, 48 kg, quarto dia de internação por pneumonia, em antibiótico venoso, com demência moderada e sem conseguir dar um número na escala. A filha, que dorme no acompanhante, diz que a mãe “geme quando mexem para o banho e fica quieta depois”. A técnica registrou na folha: agitação às 3h, contida com o lençol, sem intercorrências. Na prescrição há dipirona 1 g por via intravenosa de 6/6 h de horário e haloperidol 1 mg por via intravenosa se agitação, prescrito ontem pelo plantonista. A paciente recebeu duas doses de haloperidol na madrugada. Creatinina 1,0, filtração estimada em 44 mL/min/1,73 m². Ela tem uma úlcera por pressão sacral em estágio 2, com curativo trocado toda manhã.

  1. O que já está claro

    A paciente tem pelo menos duas fontes de dor previsível — a mobilização para o banho e a troca do curativo sacral — e não tem como relatar intensidade. A agitação noturna foi tratada como sintoma psiquiátrico, e a hipótese de que ela seja expressão de dor não foi testada. O não opioide de horário está prescrito e no teto. Nada cobre os picos.

  2. O que você faz agora

    Escreva o próximo passo: como você mede a dor de quem não relata, o que você prescreve para os dois picos previsíveis do dia, o que você faz com a linha de haloperidol, e como você saberá em 24 horas se acertou.

Ver como fecharíamos

Meça com escala comportamental e registre o escore, como registraria um número: a escala de avaliação de dor em demência avançada pontua respiração, vocalização negativa, expressão facial, linguagem corporal e consolabilidade, e é aplicável à beira do leito por qualquer membro da equipe. Aplique em repouso e durante a mobilização — é a diferença entre os dois momentos que vai desenhar a prescrição. Cubra os picos previsíveis com resgate programado, não com resgate condicional: morfina 1 a 2 mg por via subcutânea (1 a 2 mL da diluição de 1 mg/mL) 30 minutos antes do banho e 30 minutos antes da troca do curativo. Como ela tem 81 anos, 48 kg e filtração de 44, comece no extremo baixo e use a fração de 1/10 para o resgate adicional, com reavaliação de dor, sedação e respiração antes de repetir, limite de repetições e acionamento da equipe definidos; um intervalo mínimo de 30 minutos não autoriza resgates sucessivos sem avaliação, especialmente na disfunção renal. Escreva a condição — “se escore comportamental elevado ou vocalização à mobilização”. Individualize a dose do não opioide para peso, fragilidade, função renal e duração; dipirona pode poupar opioide, mas não é isenta de risco renal e o teto diário não é uma meta obrigatória. Se, após 24 horas, a mobilização continuar dolorosa apesar dos resgates programados, acrescente dose fixa: morfina 1 mg por via subcutânea de 6/6 h, e some os resgates no dia seguinte para recalcular. Prescreva lactulose 15 mL de 12/12 h de horário junto com a primeira dose de opioide, e registre a evacuação todo dia. Quanto ao haloperidol: suspenda a linha condicional enquanto a hipótese de dor não estiver testada. Dor não tratada é causa reversível de delirium, e sedar quem está doendo apaga o único sinal que restava — o manejo do delirium em si, com suas indicações e limites, é assunto do capítulo específico desta coleção. Em 24 horas, você saberá que acertou por quatro sinais: escore comportamental menor na mobilização, ausência de agitação noturna sem antipsicótico, sono da filha e da paciente, e evacuação registrada. Agitação pode ter múltiplas causas simultâneas: investigar em paralelo, e ampliar a busca se persistir apesar de analgesia adequada — bexiga, hipoxemia, infecção, medicação.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Codeína 60 mg de 4/4 h já são 360 mg por dia, que é o teto da droga. Acima dele não há ganho analgésico, porque a resposta é variável, inclusive por metabolismo CYP2D6, e escalar além da dose recomendada aumenta risco — o que se ganha é mais constipação e mais náusea, que é exatamente o que a paciente já apresenta. No teto, a equipotência de um décimo entrega o equivalente a apenas 36 mg de morfina oral por dia. Esperar mais 48 horas mantém uma paciente com 8/10 num degrau esgotado. Prescrever morfina só como resgate deixa o piso baixo e devolve a dor entre as doses. E a formulação de liberação prolongada é a droga errada para iniciar: demora a agir, não serve para crise, e opioide de horário sem resgate deixa o escape descoberto. O movimento certo é trocar de degrau, com morfina titulada até benefício e tolerabilidade; não há teto analgésico único, mas há limite clínico por toxicidade, prescrevê-la de horário com resgate calculado como um sexto da diária, manter o não opioide que poupa opioide e corrigir a omissão que produziu a constipação: laxante de horário desde a primeira dose.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Calcule a dose total de morfina e a soma de paracetamol de todas as fontes. Explique quais dados impediriam aumentar automaticamente a dose fixa.

Em 30 dias

Avalie sonolência após aumento do opioide: demonstre como examinar ventilação, quando segurar a dose, quando usar naloxona e como acompanhar possível recorrência.

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Agora atenda

Agora atenda. Você é o interno chamado à enfermaria por um paciente com dor. Meça com escala antes de prescrever, pergunte o que ele já tomou hoje e o que usa em casa, escolha o degrau pela intensidade e escreva o par completo: dose fixa de horário, resgate com dose, intervalo mínimo e condição de uso, e o laxante junto se houver opioide. Depois marque a hora da reavaliação — e volte nela.

Analgesia na prática – Analgesia no paciente internado — Internato | OsceLabs