Clínica Médica › Prescrição e Cuidado do Paciente Internado
Potássio na enfermaria
O número decide pouco. Quem decide é o eletrocardiograma, a velocidade e a via — e a hipocalemia que não sobe quase sempre é magnésio.
Ministério da Saúde, Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde, Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3
Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (Ebserh) — Protocolo assistencial nº 295, Abordagem do paciente adulto com hipocalemia, versão 01. Elaborado em outubro de 2021, colocado em consulta pública e aprovado em dezembro de 2021
Ministério da Saúde e Agência Nacional de Vigilância Sanitária, em parceria com Fiocruz e Fhemig — Protocolo de segurança na prescrição, uso e administração de medicamentos (Anexo 03 dos Protocolos Básicos de Segurança do Paciente)
Hospital Geral Eduardo Campos, Serra Talhada (PE), Serviço de Nefrologia — Protocolo clínico-assistencial Distúrbios do Potássio, versão 1.0, emissão 29 de julho de 2020, de autoria de Cícero Faustino Ferreira
Younes-Ibrahim M, Rocha E, Reis T, Colares VS, Lima EQ, Andrade LC, Rosa EC, Cardoso HS, Thomé F, Ponce D, Suassuna JHR, Yu L — Guia de assistência nefrológica hospitalar da Sociedade Brasileira de Nefrologia. Brazilian Journal of Nephrology, 2025;47(3):e20240239
Gomes EB, Pereira HCP — Distúrbios do Potássio. Vittalle: Revista de Ciências da Saúde, Universidade Federal do Rio Grande, 2021;33(1):232-250
Okino VT — Hipomagnesemia na Sala de Urgência. Revista Qualidade HC, Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, Unidade de Emergência / Clínica Médica, versão de 24 de julho de 2017
Instituto para Práticas Seguras no Uso de Medicamentos (ISMP Brasil) — Cloreto de potássio concentrado injetável. Boletim ISMP Brasil, volume 1, número 1, janeiro de 2012
Cloreto de Potássio 19,1% solução injetável, ampola de 10 mL — bula do profissional de saúde, Farmarin Indústria e Comércio Ltda., registro M.S. 1.1688.0036, aprovada pela Anvisa em 5 de agosto de 2019
Isofarma — Solução de sulfato de magnésio 100 mg/mL e 500 mg/mL, ampolas de 10 mL — bula do profissional de saúde BU020/06, Halex Istar
UK Kidney Association. Hyperkalaemia guideline, 2023. https://guidelines.ukkidney.org/hyperkalaemia/
Responda antes de ler
Você recebe para conferir a seguinte prescrição, feita para uma paciente de 60 quilos com potássio de 2,9 mmol/L, que se alimenta bem e tem eletrocardiograma normal: cloreto de sódio 0,9% 500 mL acrescido de cloreto de potássio 19,1% 10 mL, uso endovenoso em veia periférica, correr em 1 hora. Qual é o principal problema dessa prescrição?
O paciente que você vai ver
Sete e vinte da manhã, enfermaria de clínica médica de doze leitos. A folha de exames da noite chegou ao posto e a técnica de enfermagem já separou duas com clipe, porque nas duas o valor está marcado com asterisco e nas duas o asterisco é do potássio.
O primeiro é 2,7 mmol/L. É da dona Zuleide, 68 anos, 58 quilos, quinto dia de internação por insuficiência cardíaca descompensada. Ela veio com edema até a coxa e dispneia deitada, e recebe furosemida 40 mg por via venosa de 12 em 12 horas desde a admissão. Está melhor: desinchou quatro quilos, dorme com um travesseiro, come pouco mas come. Quando você pergunta como passou a noite, ela conta que a panturrilha travou duas vezes de madrugada e que sente uma fraqueza que ela mesma explica dizendo que está deitada há cinco dias.
O segundo é 6,2 mmol/L. É do seu Domingos, 58 anos, 84 quilos, quarto dia de internação por celulite em perna esquerda. Ele é hipertenso e cardiopata, e a prescrição da internação copiou a receita de casa inteira: losartana 50 mg duas vezes ao dia, espironolactona 25 mg ao dia, e mais uma linha de ibuprofeno 600 mg de 8 em 8 horas que alguém acrescentou no segundo dia porque a perna doía. A creatinina saiu de 1,1 para 1,6 mg/dL. Ele não tem queixa nenhuma. Está sentado na cama tomando café.
São dois problemas opostos e um problema comum. Nos dois, a causa está escrita na folha de prescrição e não no paciente. Nos dois, o número sozinho não diz o que fazer. E nos dois, o que decide os próximos minutos não é o resultado do laboratório: é o eletrocardiograma.
A parte perigosa começa depois. Você escreve, na prescrição da dona Zuleide, a linha que todo interno escreve no primeiro mês: cloreto de potássio, duas ampolas, endovenoso. A técnica lê, levanta os olhos e faz a pergunta que este capítulo inteiro responde — diluído em quê, em quanto volume, e correndo em quanto tempo? Sem essas três respostas, a linha não é uma prescrição. É um risco escrito à caneta, e o cloreto de potássio concentrado injetável está na lista de medicamentos potencialmente perigosos do Ministério da Saúde e da Anvisa exatamente por isso.
Quem adoece disso
Distúrbio do potássio na enfermaria não é evento: é pano de fundo. O protocolo de hipocalemia do Hospital das Clínicas da UFMG abre registrando que, com o corte em 3,6 mmol/L, o achado aparece em mais de um em cada cinco internados; a revisão brasileira publicada na Vittalle chega ao mesmo lugar por outro caminho, com hipocalemia em até um quinto dos internados e hipercalemia em cerca de 10%. Traduzindo para a sua enfermaria de doze leitos: em qualquer manhã, dois ou três pacientes têm potássio fora da faixa. Isso muda a postura de quem passa visita — a pergunta não é se algum paciente vai ter, é qual deles tem hoje e o que na folha está causando.
A causa quase nunca é uma doença nova. Entre os pacientes com hipercalemia grave, 75% tinham insuficiência renal e 67% usavam algum fármaco que eleva o potássio, segundo a mesma revisão brasileira. Do outro lado, até 40% dos pacientes em uso de diurético tiazídico desenvolvem hipocalemia. Os dois números apontam para o mesmo gesto: a primeira investigação de um potássio alterado é ler a prescrição inteira, e não pedir mais exame.
A correção tem estatística própria, e é ela que justifica o rigor deste capítulo. O cloreto de potássio concentrado injetável foi o tema do primeiro boletim que o Instituto para Práticas Seguras no Uso de Medicamentos publicou no Brasil, em janeiro de 2012, e o documento lista mortes reais e documentadas por troca de ampola: três recém-nascidos que receberam heparina reconstituída com cloreto de potássio no lugar de soro glicosado; um homem de 71 anos que morreu seis dias depois de receber cloreto de potássio no lugar de furosemida. Nenhuma dessas mortes veio da doença de base. Todas vieram do frasco.
E há um número que muda o que você faz nos próximos dez minutos. No diagnóstico de hipercalemia, o eletrocardiograma tem sensibilidade de 35 a 43% e especificidade de 85 a 86%: apenas 55% dos pacientes com potássio acima de 6,8 mmol/L mostram alguma alteração no traçado. A leitura correta desse par de números é dupla, e as duas metades importam. Traçado normal não exclui hipercalemia nem autoriza calma. Traçado alterado, com essa especificidade, é praticamente certeza de que o potássio está agindo no coração agora — e é a única informação que promove o caso de exame de rotina a emergência antes de qualquer outra coisa acontecer.
Por que acontece o que acontece
O potássio corporal é de cerca de 50 mEq por quilo, e 98% dele está dentro das células. O que o laboratório mede é a fatia de 2% que circula no plasma. Essa desproporção explica as duas metades do capítulo de uma vez: por que o número sérico informa mal sobre o estoque, e por que mexer no número sérico é perigoso. Quando você injeta potássio na veia, ele entra num compartimento pequeno, e passa pelo nó sinoatrial antes de ter tempo de se distribuir. A dose que seria irrelevante diluída no corpo inteiro não é irrelevante nos primeiros minutos.
O que a célula excitável enxerga não é a concentração de potássio, é a razão entre o que está dentro e o que está fora. Essa razão define o potencial de repouso da membrana. Potássio extracelular alto aproxima o repouso do limiar, e a membrana que fica cronicamente despolarizada inativa os canais de sódio: a condução fica lenta, o QRS alarga, a onda P some, e no fim o traçado vira uma onda sinusoidal. Potássio extracelular baixo faz o oposto — hiperpolariza, atrasa a repolarização, e é isso que aparece como achatamento da onda T, onda U e intervalo QT longo, o terreno do torsades de pointes.
Daí vem a regra que parece contraintuitiva e não é: a velocidade da mudança pesa mais que o valor. O paciente renal crônico que vive com 6,0 mmol/L adaptou o gradiente e pode estar assintomático; o paciente que saltou de 4,2 para 6,0 em doze horas não teve tempo de adaptar nada. O mesmo vale para baixo. Por isso o exame que se pede primeiro não é a repetição do potássio: é o eletrocardiograma, que mede o efeito e não a concentração.
Três hormônios e uma variável química empurram potássio para dentro da célula, e os quatro estão na prescrição de qualquer enfermaria. A insulina ativa a bomba de sódio e potássio e joga potássio para dentro, independentemente do que acontece com a glicose. As catecolaminas e os beta-2 agonistas fazem a mesma coisa pela via adrenérgica — e é por isso que a nebulização repetida de salbutamol derruba o potássio de quem já estava no limite. O equilíbrio ácido-base fecha o quarteto: na acidose, o hidrogênio em excesso entra na célula e o potássio sai, elevando a caliemia medida sem que exista um mEq a mais no corpo; na alcalose, o inverso. A estimativa que a revisão brasileira registra é de cerca de 0,7 mEq/L de variação do potássio para cada 0,1 de variação no pH. A leitura da gasometria que sustenta essa correção tem capítulo próprio nesta apostila.
A saída de potássio do corpo é quase toda renal, e depende de duas coisas: aldosterona chegando ao ducto coletor e fluxo distal de sódio e água passando por lá. Qualquer coisa que bloqueie a aldosterona retém potássio — inibidor da enzima conversora, bloqueador do receptor de angiotensina, espironolactona, amilorida, trimetoprima, heparina, anti-inflamatório não esteroide. Qualquer coisa que aumente o fluxo distal joga potássio fora: diurético de alça, tiazídico, diurese osmótica. Nos dois casos, o mecanismo está numa linha da folha, não numa doença do paciente.
Falta a peça que explica a hipocalemia que não sobe, e ela é o segundo fio deste capítulo. O potássio sai da célula do ducto coletor para a urina por um canal chamado ROMK. Esse canal tem uma tampa: o magnésio intracelular se encaixa nele por dentro e limita a saída. Com magnésio baixo, a tampa não está lá, o canal fica aberto além do necessário, e o potássio que você repõe pela veia sai pela urina algumas horas depois. É uma torneira aberta a jusante. Repor potássio nessa condição é encher um balde furado, e o gráfico do prontuário mostra exatamente isso: reposição feita, potássio inalterado, reposição repetida. Enquanto o magnésio não voltar, o potássio não sobe — e não é falha de dose.
O magnésio ainda derruba o potássio por um segundo caminho, mais lento: níveis baixos reduzem a secreção de paratormônio e produzem hipocalcemia, que costuma andar junto. Por isso, na prática de enfermaria, os três eletrólitos se pedem no mesmo tubo. E as causas são as mesmas de sempre — perda digestiva, diurese osmótica da hiperglicemia, furosemida, aminoglicosídeo, anfotericina B, insulina e álcool.

Como se apresenta de verdade
Os dois distúrbios têm a mesma apresentação predominante, e ela é nenhuma. A maioria dos pacientes com potássio alterado na enfermaria está assintomática, e o achado veio do exame de rotina. Isso não é motivo de tranquilidade: é o motivo pelo qual a decisão precisa de um segundo dado objetivo, porque a clínica não vai fornecer.
Percurso de aprendizagem
Distinga urgência elétrica de reposição de estoque. ECG normal não exclui risco na hipercalemia; alterações novas mudam a prioridade.
Calcule mEq totais, concentração final e mEq/h separadamente. Escolha via e volume pelo paciente, não pelo número de ampolas.
Reavalie K, magnésio, rim e perdas durante o tratamento. Em hipercalemia com alterações elétricas, retirar medicamentos não basta.
Hipocalemia: o que aparece, e em que faixa
Entre 3,0 e 3,5 mmol/L, o paciente costuma não sentir nada. Abaixo de 3,0 começam os sintomas inespecíficos que ninguém atribui ao eletrólito: fraqueza, cansaço, cãibra, constipação. Íleo paralítico e distensão abdominal entram nessa faixa e são frequentemente investigados como abdome antes de alguém olhar a folha de eletrólitos. Abaixo de 2,5 mmol/L pode ocorrer necrose muscular, com rabdomiólise e mioglobinúria; abaixo de 2,0 mmol/L, paralisia ascendente com comprometimento da musculatura respiratória. Essa é a única faixa em que a hipocalemia mata por si, e é rara.
O que mata com mais frequência é a arritmia, e ela não respeita a faixa. O aparecimento de sintomas depende da velocidade com que o potássio caiu: queda aguda dá sintoma com número mais alto que queda arrastada. E há um grupo em que mesmo a hipocalemia leve conta — quem tem doença cardiovascular. O protocolo do HC-UFMG registra risco aumentado de arritmia mesmo em déficit leve a moderado no cardiopata, e por isso fixa alvo de potássio próximo de 4,0 mmol/L em hipertensos, arrítmicos e portadores de insuficiência cardíaca. O caso extremo é o digitalizado: a hipocalemia deixa mais receptores livres para o digital ligar-se, porque não há potássio competindo pelo sítio, e o efeito do fármaco aumenta sem que a dose mude.
Há dois efeitos que confundem o raciocínio na beira do leito. O primeiro é renal: a hipocalemia prolongada reduz a capacidade de concentrar a urina e produz poliúria, o que faz o paciente parecer bem hidratado enquanto perde volume. O segundo é endócrino: a hipocalemia grave inibe a liberação de insulina e gera intolerância à glicose aguda, e a glicemia capilar sobe sem que exista diabetes novo.
Hipercalemia: o silêncio e a paralisia que sobe
A hipercalemia é ainda mais silenciosa. Quando dá sintoma, dá fraqueza, parestesia, hiporreflexia e paralisia flácida simétrica que começa nas mãos e nos pés e sobe. A manifestação cardíaca costuma aparecer acima de 7,0 mmol/L na elevação crônica, mas surge com números bem menores quando a subida foi aguda ou quando já existe distúrbio de condução, hipocalcemia ou acidemia associados.
É por isso que a pergunta útil na enfermaria não é qual o valor, e sim de quanto ele veio. Um potássio de 6,2 mmol/L num paciente cujo exame de anteontem era 4,2 é outro problema que o mesmo 6,2 num renal crônico dialítico estável. O primeiro subiu; o segundo mora ali.

O que muda em quem
No renal crônico, os dois lados mudam de régua. A hipercalemia é mais comum, mais bem tolerada em números altos e mais perigosa quando aguda sobre o crônico; e a reposição de potássio, quando indicada, entra pela metade — o protocolo do HC-UFMG determina que o paciente com doença renal crônica não receba mais que metade da dose programada.
No cardiopata e no digitalizado, a hipocalemia leve deixa de ser leve. No cirrótico, ela estimula a amoniagênese renal e pode precipitar encefalopatia, o que transforma um potássio de 3,1 mmol/L em causa de rebaixamento. No paciente em jejum prolongado ou desnutrido que volta a se alimentar, a síndrome de realimentação derruba potássio, fósforo e magnésio ao mesmo tempo, e a queda começa horas depois da primeira dieta.
E há o paciente que está com os dois distúrbios em sequência, o que é mais comum do que parece. A hipocalemia tratada com vigor vira hipercalemia de rebote quando a causa era redistribuição e não perda — cetoacidose corrigida, paralisia periódica, intoxicação por beta-2 agonista. Nesses casos o potássio não estava faltando no corpo: estava dentro da célula, e volta.
O número que não é do paciente
Antes de tratar, vale saber que o resultado pode não ser real. A pseudo-hipercalemia vem de coleta com garrote apertado ou punção traumática, de demora no processamento da amostra, de hemólise, de plaquetose acima de 1.000.000/mm³ e de leucocitose acima de 100.000/mm³. A suspeita se levanta quando não há causa aparente, o paciente está assintomático e o eletrocardiograma é normal, e a conduta é repetir a dosagem com coleta sem garrote e processamento imediato — não é tratar.
A pseudo-hipocalemia é o espelho: em leucocitose importante, os leucócitos consomem potássio do soro enquanto a amostra espera à temperatura ambiente, e o resultado sai falsamente baixo. O protocolo do HC-UFMG usa o corte de 75.000 células por mililitro para levantar a hipótese. O gesto é o mesmo — separar o soro rapidamente ou refrigerar a amostra, e repetir.
Repetir custa um tubo. Tratar um resultado falso custa mais, e nas duas direções: potássio dado a quem não precisa e potássio retirado de quem já tinha pouco.
Como fechar o diagnóstico
A investigação de um potássio alterado na enfermaria tem uma ordem, e ela não começa no laboratório. Começa num exame que leva três minutos, custa quase nada e é o único que muda o que se faz nos dez minutos seguintes.
Primeiro exame: o eletrocardiograma, antes da calculadora
Peça eletrocardiograma de 12 derivações sempre que o potássio estiver acima de 5,5 mmol/L, abaixo de 3,0 mmol/L, ou em qualquer valor se houver fraqueza, palpitação, síncope ou uso de digital. O traçado responde a pergunta que o número não responde: este potássio já está agindo sobre a condução?
Na hipercalemia, o traçado tem sensibilidade baixa e especificidade alta — o que significa que um traçado normal não permite relaxar, mas um traçado alterado permite decidir. Onda T alta e apiculada, prolongamento do intervalo PR, achatamento ou desaparecimento da onda P, alargamento do QRS, bloqueios e onda sinusoidal desenham uma escala de gravidade crescente. Qualquer um desses achados, com potássio alto, tira o caso da enfermaria e o coloca em monitorização, e a conduta que se segue está inteira no capítulo de injúria renal aguda desta plataforma, com droga, diluição e mililitro de cada apresentação.
Na hipocalemia, o traçado mostra achatamento ou inversão da onda T, depressão do segmento ST, aparecimento da onda U e prolongamento do intervalo QT. O achado que muda decisão é o QT longo, porque ele é o terreno do torsades de pointes, e sua presença transforma uma reposição oral tranquila numa reposição venosa monitorizada. A leitura sistemática do traçado tem capítulo próprio; aqui interessa apenas o que o potássio faz com ele.
Há uma armadilha de sequência que vale nomear. Pedir o eletrocardiograma e esperar o laudo do cardiologista antes de agir é perder a razão de tê-lo pedido. O traçado do paciente com potássio alterado é para o interno olhar na hora, com o papel na mão, ao lado do leito.
Segundo exame: a mesma dosagem, de novo
Antes de tratar um valor extremo sem clínica que o acompanhe, confirme que ele é do paciente. A pseudo-hipercalemia por garrote apertado, punção traumática, hemólise, plaquetose ou leucocitose alta é comum e não pede tratamento nenhum; a pseudo-hipocalemia por leucocitose com amostra parada também. A regra prática: valor extremo, paciente assintomático, eletrocardiograma normal e nenhuma causa evidente na folha — recolha, sem garrote, e mande processar de imediato.
Confirmar não é sinônimo de adiar. Se houver alteração no traçado, sintoma, ou causa clara e ativa na prescrição, trata-se enquanto a segunda amostra caminha. O tubo de confirmação e a primeira medida saem juntos.
Terceiro exame: a folha de prescrição
É onde está a causa na maioria dos casos, e é o exame mais barato do capítulo. Leia a folha inteira, linha por linha, e separe o que mexe no potássio em dois grupos.
Derrubam o potássio: diurético de alça e tiazídico, corticoide, anfotericina B, aminoglicosídeo, beta-2 agonista inalatório em dose repetida, insulina em esquema fixo ou de correção, laxante, e qualquer coisa que produza diurese osmótica — hiperglicemia mal controlada é a mais comum na enfermaria. Some a isso o que não é droga: vômito, diarreia, drenagem de sonda nasogástrica, fístula de alto débito e jejum prolongado sem reposição.
Sobem o potássio: inibidor da enzima conversora, bloqueador do receptor de angiotensina, espironolactona, amilorida, anti-inflamatório não esteroide, heparina, sulfametoxazol com trimetoprima, betabloqueador, digital, ciclosporina, tacrolimo, e soluções que já contêm potássio, incluindo o Ringer com lactato e o soro de manutenção que ninguém revisou. Some a isso a lise celular — rabdomiólise, hematoma extenso em reabsorção, síndrome de lise tumoral — e a queda da filtração glomerular, que é a condição que permite que tudo isso se acumule.
Duas ou três dessas linhas somadas explicam quase todo potássio alterado de enfermaria, e a soma é o padrão, não a exceção. O seu Domingos, da abertura, tem três: bloqueador do receptor de angiotensina, espironolactona e anti-inflamatório, sobre uma creatinina que subiu. Nenhuma delas isolada faria isso.
Quarto exame: magnésio — e por que ele não é opcional
Toda hipocalemia pede dosagem de magnésio junto. O protocolo de hipocalemia do HC-UFMG coloca isso como o primeiro passo depois de confirmar o potássio baixo: verificar se há hipomagnesemia concomitante e tratá-la. Não é um refinamento acadêmico — é a diferença entre a reposição funcionar e não funcionar.
O magnésio sérico tem uma limitação que precisa ser dita: a concentração no sangue não reflete o estoque corporal, e um valor normal não exclui depleção. Por isso o protocolo do HCFMRP-USP orienta que a decisão de tratar se baseie nas manifestações clínicas e nos fatores de risco, não apenas no número. Em hipocalemia que não sobe apesar da reposição, e sobretudo quando existe fator de risco — diarreia, uso de aminoglicosídeo, uso de diurético —, o protocolo de nefrologia do Hospital Geral Eduardo Campos autoriza repor magnésio empiricamente quando a dosagem não está disponível. Em muitos hospitais, à noite, ela não está.
Peça cálcio no mesmo tubo. A hipomagnesemia reduz a secreção de paratormônio e produz hipocalcemia, e os três eletrólitos costumam cair juntos no mesmo paciente — o desnutrido que voltou a comer, o alcoolista, o de diarreia prolongada.
Quinto exame: função renal e gasometria
Creatinina e ureia dizem se o rim consegue excretar o potássio que você vai repor, e se ele explica o potássio que está sobrando. Na hipercalemia, filtração baixa é a condição de fundo em três de cada quatro casos graves. Na hipocalemia, a função renal muda a dose: a doença renal crônica recebe metade do programado.
A gasometria responde outra coisa. Acidemia empurra potássio para fora da célula e infla a caliemia medida; alcalemia faz o contrário e baixa o número sem que o corpo tenha perdido esse potássio. Um potássio de 5,8 mmol/L com pH de 7,15 não é o mesmo potássio depois que a acidose for corrigida — e um potássio de 3,4 mmol/L num paciente que vomita há três dias, alcalótico, soma as duas coisas: uma parte da queda é deslocamento, e a maior parte é perda real pela urina, que só a reposição devolve. A análise do distúrbio ácido-base passo a passo tem capítulo próprio nesta apostila; aqui basta a direção e a consequência.
Vale a mesma lógica para a glicemia. Hiperglicemia sustentada produz diurese osmótica e perde potássio pela urina; e a insulina que corrige a glicemia empurra potássio para dentro da célula. Os dois efeitos convivem no mesmo paciente da enfermaria, e o esquema de insulina de correção que os produz tem capítulo próprio nesta apostila.
Sexto exame: por onde o potássio está indo
Este é o exame que separa a hipocalemia que se corrige na prescrição da que se corrige na veia, e ele é urinário. Em amostra isolada, potássio urinário abaixo de 20 mEq/L numa vigência de hipocalemia indica perda extrarrenal — quase sempre digestiva, e às vezes oculta, como no abuso de laxante. Acima disso, o rim está deixando escapar, e a causa é renal ou medicamentosa.
A alternativa mais estável, porque corrige a diluição da urina, é a razão entre potássio e creatinina urinários na mesma amostra: acima de 1,5 mEq/mmol, ou 13 mEq por grama de creatinina, o protocolo do HC-UFMG considera perda renal estabelecida. Colha antes da próxima dose de diurético, porque o diurético cria o achado que você está medindo.
Duas pistas ácido-base fecham o diferencial sem exame adicional. Perda por vômito ou por drenagem gástrica anda com alcalose metabólica; perda por diarreia anda com acidose metabólica. Hipertensão com hipocalemia, alcalose e nenhum diurético na folha levanta hiperaldosteronismo, e essa investigação é ambulatorial, não de enfermaria.
O que não pedir, e o que custa pedir
Não peça potássio urinário de 24 horas no paciente internado agudo. A amostra isolada com razão potássio/creatinina responde à mesma pergunta hoje, e a coleta de 24 horas atrasa a decisão em um dia e costuma vir incompleta.
Não peça aldosterona e renina no internado: a doença aguda e a hipocalemia ainda não corrigida distorcem o eixo, e a triagem se faz depois da alta, com o potássio corrigido — em geral sem suspender o anti-hipertensivo, porque diurético, inibidor da enzima conversora, bloqueador do receptor de angiotensina e espironolactona elevam a renina e só produzem falso-negativo. Os cortes estão em Síndrome de Cushing e hiperaldosteronismo (HAS secundária), na apostila de Endocrinologia. O custo de pedir aqui não é só financeiro: é o risco de decidir com um número inválido.
Não repita o potássio de duas em duas horas sem que uma intervenção tenha acontecido no meio. O recontrole tem hora e tem gatilho, e ambos estão no bloco de reavaliação. Repetir por ansiedade fura o paciente, consome o laboratório e produz variações analíticas que geram condutas.
E não peça o eletrocardiograma para depois. Se a indicação existe, é agora.
O que existe no SUS
Tudo o que este capítulo pede está disponível num hospital público de médio porte: potássio, magnésio, cálcio, ureia, creatinina, gasometria arterial, sódio e creatinina urinários em amostra isolada, e eletrocardiograma de 12 derivações. Nenhuma decisão aqui depende de exame que só existe em serviço terciário.
O que pode faltar é o magnésio no plantão noturno e a bomba de infusão em número suficiente. As duas faltas têm resposta escrita neste capítulo: repor magnésio empiricamente na hipocalemia refratária com fator de risco, e, sem bomba, escolher a diluição que torna a velocidade errada improvável, em vez de contar com o gotejamento.
Na farmácia, a régua também é conhecida. A Rename 2024 padroniza para reposição uma única apresentação injetável de cloreto de potássio, a de 19,1%, equivalente a 2,56 mEq/mL, além do fosfato de potássio a 2 mEq/mL; as apresentações orais de cloreto de potássio, que os formulários hospitalares listam, não constam da lista nacional e variam de hospital para hospital. É por isso que a conta da próxima seção parte da ampola de 19,1%.
As contas, os tetos e as tabelas de beira de leito
Aprenda a ligar concentração sérica, estoque corporal, perdas e redistribuição antes de prescrever potássio.
- 1Olhe o valor e a direção: de quanto ele veio? Compare com a última dosagem, não com a faixa de referência.
- 2Peça eletrocardiograma de 12 derivações se o potássio passa de 5,5 mmol/L, se está abaixo de 3,0 mmol/L, se há sintoma, ou se o paciente usa digital. Olhe o traçado você mesmo, na hora.
- 3Leia a folha de prescrição inteira e circule tudo o que mexe no potássio nas duas direções. É onde está a causa na maioria dos casos.
- 4Na hipocalemia, peça magnésio e cálcio no mesmo tubo. Sem magnésio corrigido, a reposição não sobe.
- 5Preferir via oral quando K ≥2,5 mmol/L, o paciente tolera e absorve, não há manifestações graves nem alterações relevantes no ECG, e a correção não precisa ser imediata. Via intravenosa e monitorização dependem da gravidade e do contexto, sem corte isolado de 3,0 para obrigar infusão.
- 6Sendo venosa, escreva as quatro coisas na mesma linha: diluente, volume final, concentração resultante e velocidade em mililitros por hora. Sem as quatro, a linha não é prescrição.
- 7Calcule e escreva ao lado, para você mesmo, quantos miliequivalentes por hora aquela velocidade entrega. Esse é o número que faz mal, não o da bolsa.
- 8Marque o horário do recontrole na própria prescrição, e diga o que será recontrolado: potássio, magnésio, traçado.
- 9Na hipercalemia, avalie imediatamente clínica, valor e tendência do K, função renal, medicamentos e ECG. ECG normal não exclui gravidade: K ≥6,5 mmol/L exige manejo urgente mesmo sem alteração no traçado; valores menores também podem exigir tratamento conforme evolução. Suspenda as fontes e os fármacos contribuintes, chame a equipe e monitore. No caso grave, execute o protocolo de redistribuição e remoção de potássio, com cálcio quando indicado, recontroles precoces e vigilância de hipoglicemia e rebote. Não limite a conduta à suspensão de medicamentos.
| Faixa | Classificação | O que costuma aparecer | O que muda na conduta |
|---|---|---|---|
| Potássio de 3,0 a 3,5 mmol/L | Hipocalemia leve | Em geral nada. No cardiopata, arritmia mesmo aqui. | Via oral. Corrigir a causa na folha. Dosar magnésio. Alvo de 4,0 mmol/L se há hipertensão, arritmia ou insuficiência cardíaca. |
| Potássio de 2,5 a 3,0 mmol/L | Hipocalemia moderada | Fraqueza, cãibra, constipação, íleo. | Via oral se come e bebe; venosa se há intolerância digestiva, sintoma ou alteração no traçado. Eletrocardiograma indicado. |
| Potássio abaixo de 2,5 mmol/L | Hipocalemia grave | Necrose muscular; abaixo de 2,0, paralisia ascendente e fraqueza respiratória. | Reposição intravenosa quando indicada, monitorização pela gravidade, avaliação e correção de Mg se necessário; controlar K em poucas horas, mais cedo conforme risco, sem aguardar sempre seis horas. |
| Potássio de 5,5 a 5,9 mmol/L | Hipercalemia leve | Nada, em geral. Onda T apiculada pode aparecer. | ECG e avaliação imediata de valor, tendência, rim e sintomas. ECG normal não exclui risco. Suspender fontes de K e tratar urgentemente quando indicado; não esperar seis horas apenas com retirada de medicamentos. |
| Potássio de 6,0 a 6,9 mmol/L | Hipercalemia moderada | Fraqueza. PR longo, onda P achatada, QRS alargando. | Eletrocardiograma agora e monitorização. Havendo qualquer alteração no traçado, tratar como grave. |
| Potássio de 7,0 mmol/L ou mais | Hipercalemia grave | Bloqueios, onda sinusoidal, fibrilação ventricular, assistolia. | Emergência. Sequência completa, com droga e mililitro de cada apresentação, no capítulo de injúria renal aguda desta plataforma. |
A conta do cloreto de potássio: da ampola ao miliequivalente por hora
| Apresentação | 1 mL contém | Ampola de 10 mL | Quanto é preciso para 40 mEq |
|---|---|---|---|
| Cloreto de potássio 19,1% — a da Rename 2024 | 2,56 mEq de potássio | 25,6 mEq | 15,6 mL, ou uma ampola e meia. Não fecha em ampola inteira. |
| Cloreto de potássio 15% | 2,01 mEq | 20,1 mEq | 20 mL, ou duas ampolas. |
| Cloreto de potássio 10% | 1,34 mEq | 13,4 mEq | 30 mL, ou três ampolas. |
| Xarope de cloreto de potássio 6% | 0,80 mEq | não se aplica | 50 mL. Na prática, 20 mL três vezes ao dia entregam 48 mEq no dia. |
| Comprimido ou drágea de cloreto de potássio 600 mg | não se aplica | 8,05 mEq por comprimido | 5 comprimidos. Na prática, 2 comprimidos três vezes ao dia entregam 48 mEq no dia. |
Três cenários com a mesma ampola, e o que cada um entrega
| Cenário | O que se prepara | Concentração resultante | Velocidade | O que entra por hora |
|---|---|---|---|---|
| Periférico, o padrão da enfermaria | Cloreto de sódio 0,9% 1.000 mL + cloreto de potássio 19,1% 15 mL (uma ampola e meia, 38,4 mEq). Volume final 1.015 mL. | 37,8 mEq/L | 250 mL/h em bomba; a bolsa acaba em 4 horas | 9,5 mEq/h — abaixo do teto periférico |
| A mesma bolsa, correndo rápido | A mesma bolsa acima, prescrita para correr em 1 hora, ou aberta em gravidade sem controle | 37,8 mEq/L — idêntica | 1.015 mL/h | 38,4 mEq/h — quase quatro vezes o teto periférico e mais que o dobro do teto absoluto da bula |
| Central, paciente congesto que não pode receber volume | Cloreto de sódio 0,9% 100 mL + cloreto de potássio 19,1% 16 mL (41 mEq). Volume final 116 mL. | 353 mEq/L — impossível em veia periférica | 116 mL/h em bomba, por acesso central, com eletrocardiograma monitorizado | 41 mEq/h — no teto de emergência por acesso central |
Tetos por via: o que a via permite e o que ela exige
| Via | Concentração máxima | Velocidade máxima | O que a via exige |
|---|---|---|---|
| Oral | não se aplica | 40 a 100 mEq por dia, divididos | Trato digestivo funcionando. É a via preferencial sempre que possível. |
| Venosa periférica | 40 mEq/L como regra; até 60 mEq/L quando não há alternativa, ao custo de dor e flebite | 10 mEq/h | Bomba de infusão ou controlador de velocidade. Diluição em solução salina. Veia calibrosa. |
| Venosa central | 60 mEq/L em reposição comum; concentrações altas em volume pequeno só na emergência | 20 mEq/h; até 40 mEq/h apenas em emergência | Monitorização cardíaca contínua, bomba de infusão, recontrole de potássio ao fim da infusão. |
A folha de prescrição em duas colunas
| Derrubam o potássio | Sobem o potássio |
|---|---|
| Furosemida e demais diuréticos de alça | Inibidor da enzima conversora e bloqueador do receptor de angiotensina |
| Hidroclorotiazida e clortalidona | Espironolactona e amilorida |
| Corticoide em dose alta | Anti-inflamatório não esteroide |
| Beta-2 agonista inalatório repetido | Betabloqueador e digital |
| Insulina, em esquema fixo ou de correção | Heparina, sulfametoxazol com trimetoprima, ciclosporina, tacrolimo |
| Anfotericina B e aminoglicosídeo | Solução de Ringer com lactato e qualquer soro com potássio adicionado |
| Laxante; diurese osmótica da hiperglicemia | Lise celular: rabdomiólise, hematoma extenso, lise tumoral |
Magnésio: apresentação, dose e teto
| Item | Número |
|---|---|
| Sulfato de magnésio 50%, ampola de 10 mL | 5 g de sulfato de magnésio heptaidratado, equivalentes a 40,6 mEq de magnésio |
| Sulfato de magnésio 10%, ampola de 10 mL | 1 g, equivalente a 8,1 mEq de magnésio |
| Dose usual na hipocalemia que não sobe | 2 a 3 g de sulfato de magnésio por dia, isto é, 4 a 6 mL da solução a 50% |
| Teto diário | 6 g de sulfato de magnésio heptaidratado em 24 horas; 3 g/dia com depuração de creatinina abaixo de 30 mL/min/1,73 m² |
| Velocidade máxima de infusão | 150 mg por minuto fora da eclâmpsia. Diluir a no máximo 20% antes de infundir. |
| Duração | 3 a 7 dias, acompanhando a resposta do potássio e do cálcio |
O teto de velocidade em veia periférica foi fixado em 10 mEq/h, e a escolha precisa de justificativa porque as fontes divergem. A bula aprovada pela Anvisa considera 10 mmol/h geralmente segura e coloca 15 mmol/h como teto geral; o protocolo do HC-UFMG admite até 20 mmol/h, registrando 10 mmol/h como habitual; o protocolo do Hospital Geral Eduardo Campos fica em 5 a 10 mEq/h. O número escolhido é o único que as três fontes contêm ao mesmo tempo, é o que a bula do fabricante chama de seguro, e é o que sobrevive ao acidente mais comum da enfermaria — a bolsa que corre mais rápido do que devia. Quem precisa de mais que 10 mEq/h precisa de acesso central e de monitor, não de coragem.
O teto de concentração periférica foi fixado em 40 mEq/L pelo mesmo raciocínio, com uma razão adicional: 40 mEq/L é exatamente o corte de 0,3% acima do qual o boletim do ISMP Brasil classifica a solução como concentrada e associada a eventos fatais. Concentrações de 50 a 60 mEq/L aparecem em fontes respeitáveis e são defensáveis quando não há alternativa; o preço é dor no trajeto e flebite, que fazem a enfermagem reduzir o gotejamento por conta própria — e aí a reposição some sem que ninguém registre.
A monitorização cardíaca contínua foi vinculada a um gatilho numérico, e não à gravidade percebida: qualquer infusão acima de 10 mEq/h. É a régua da revisão brasileira publicada na Vittalle e é operacionalmente melhor que 'nos casos graves', porque grave é adjetivo e 10 mEq/h é conta. Some-se a ela a monitorização obrigatória na hipocalemia grave com alteração no traçado.
A diluição é em solução salina, e não em glicosada, por um motivo mecânico: a glicose induz liberação de insulina, a insulina empurra potássio para dentro da célula, e a caliemia cai justamente enquanto você a repõe. A exceção descrita na literatura é a hipernatremia associada, situação em que se aceita veículo glicosado com concentrações de potássio acima de 20 mEq/L — decisão que não é de enfermaria comum.
Uma advertência que não é sobre dose. O boletim do ISMP Brasil registra que, mesmo depois de diluído, o cloreto de potássio produz evento adverso porque suas propriedades físico-químicas dificultam a homogeneização: injetado numa bolsa já pendurada, ele desce e se acumula no fundo, e o paciente recebe uma fração concentrada. A ampola entra antes de pendurar, e a bolsa é invertida várias vezes. Isso é conduta médica tanto quanto a dose, porque é o médico quem escreve a orientação de preparo.
As doses de cálcio, insulina com glicose, beta-2 agonista, furosemida, resina e bicarbonato para a hipercalemia grave não estão repetidas aqui de propósito. Elas estão escritas por extenso, com mililitro de cada apresentação brasileira, no capítulo de injúria renal aguda, junto das indicações de diálise de urgência. Duplicar dose em dois lugares é a maneira mais eficiente de criar divergência entre eles.
O potássio na cetoacidose diabética tem régua própria e não é a deste capítulo: lá o potássio sérico está alto e o corporal está baixo, a insulina derruba a caliemia em minutos, e existe um corte específico — não iniciar insulina com potássio abaixo de 3,3 mEq/L. Essa sequência está no capítulo de cetoacidose diabética.
A quantidade de potássio que a manutenção venosa comum já entrega não foi contada nas doses de reposição acima. A régua de fluido de manutenção, com a escolha da solução e o potássio que ela carrega, está no capítulo de hidratação venosa desta apostila, e a soma das duas fontes é responsabilidade de quem assina a folha.
A conduta, hora a hora
A conduta do potássio na enfermaria tem uma ordem fixa, e a dose é a última coisa a ser decidida. Antes dela vêm o traçado, a folha de prescrição, o magnésio e a via. Um interno que decide a dose primeiro acerta o número e erra o paciente.
A linha do tempo abaixo acompanha os dois pacientes da abertura, porque são os dois problemas opostos numa mesma manhã. Dona Zuleide, 68 anos, 58 quilos, quinto dia de internação por insuficiência cardíaca descompensada, furosemida 40 mg por via venosa de 12 em 12 horas, potássio de 2,7 mmol/L, cãibra noturna. Seu Domingos, 58 anos, 84 quilos, quarto dia por celulite, losartana com espironolactona e ibuprofeno na folha, creatinina de 1,1 para 1,6 mg/dL, potássio de 6,2 mmol/L, assintomático. Toda dose vem com a fonte que a sustenta.
Minuto 0 a 10 — o que se faz antes de pensar em dose
Dois eletrocardiogramas e duas leituras de folha, nesta ordem, para os dois pacientes. No de dona Zuleide: onda T achatada em derivações precordiais, onda U visível em V2 e V3, intervalo QT no limite superior. No de seu Domingos: onda T apiculada e simétrica em V2 a V4, onda P presente, intervalo PR normal, QRS estreito. Os dois traçados mudam o caso — o primeiro tira a reposição do terreno tranquilo da via oral, o segundo confirma que o potássio já age, mas ainda sem distúrbio de condução.
Prescrição- Eletrocardiograma de 12 derivações agora, nos dois pacientes, por potássio abaixo de 3,0 mmol/L e por potássio acima de 5,5 mmol/L. Traçado normal não exclui hipercalemia — a sensibilidade do eletrocardiograma nesse diagnóstico é de 35 a 43%, e apenas 55% dos pacientes com potássio acima de 6,8 mmol/L mostram alteração (Gomes e Pereira, Vittalle, 2021).
- Magnésio sérico, cálcio total e ionizado, ureia, creatinina, sódio e gasometria venosa nos dois. A checagem de hipomagnesemia concomitante é o primeiro passo depois de confirmar a hipocalemia (Protocolo assistencial nº 295, HC-UFMG/Ebserh, 2021).
- Investigar hemólise e condições da coleta; repetir rapidamente amostra suspeita em paralelo à avaliação clínica/ECG. Medicamentos e piora renal tornam hipercalemia verdadeira plausível, mas não excluem artefato. Não atrasar tratamento de repercussão elétrica para aguardar confirmação.
- Ler a folha de prescrição inteira dos dois. Em dona Zuleide, a causa é a furosemida por via venosa em dose fixa há cinco dias, num alimento reduzido. Em seu Domingos, a causa é a soma de bloqueador do receptor de angiotensina, espironolactona e anti-inflamatório sobre creatinina que subiu.
- Suspender ibuprofeno 600 mg de 8 em 8 horas na prescrição de seu Domingos, e escrever a substituição no mesmo traço: dipirona 1 g por via venosa a cada 6 horas se dor. O anti-inflamatório não esteroide reduz a excreção renal de potássio por hipoaldosteronismo hiporreninêmico secundário e é nefrotóxico ao mesmo tempo (Gomes e Pereira, Vittalle, 2021).
- Suspender espironolactona 25 mg ao dia, temporariamente, com a suspensão marcada como temporária na folha e a data de reavaliação escrita.
- Suspender losartana 50 mg de 12 em 12 horas, temporariamente, enquanto a creatinina estiver em movimento e o potássio acima de 5,5 mmol/L.
Minuto 10 — escolher a via, que é a decisão que mais importa
Escolha a via por gravidade, manifestações, tolerância oral e velocidade necessária. Em geral, K ≥2,5 mmol/L, estabilidade, ausência de alterações elétricas relevantes e trato gastrointestinal funcionante favorecem via oral, inclusive entre 2,5 e 3,0. K <2,5, arritmia, fraqueza importante ou impossibilidade de usar a via oral favorecem reposição IV monitorizada. Zuleide requer avaliação de suas manifestações e da congestão antes de escolher o volume de diluição.
Prescrição- Xarope de cloreto de potássio 6% (0,8 mEq de potássio por mililitro) 20 mL por via oral de 8 em 8 horas, após as refeições, o que entrega 48 mEq de potássio no dia. A faixa de reposição oral é de 40 a 100 mmol por dia, por dias a semanas, porque o que se repõe é o déficit corporal e não o número do dia (Protocolo assistencial nº 295, HC-UFMG/Ebserh, 2021). Alternativa equivalente, se o hospital padroniza o comprimido: cloreto de potássio 600 mg de liberação prolongada, 2 comprimidos por via oral de 8 em 8 horas, também 48 mEq no dia.
- Orientar a tomada com água e após alimento: o cloreto de potássio por via oral está associado a ulceração e sangramento do trato digestivo (mesmo protocolo).
- Suspender furosemida 40 mg por via venosa de 12 em 12 horas nas próximas 24 horas e reavaliar pelo peso e pela ausculta. O tratamento específico da hipocalemia começa por identificar e tratar a causa, e o paciente em uso de diurético deve ter o uso interrompido ou reduzido (mesmo protocolo). Dona Zuleide já perdeu quatro quilos, dorme com um travesseiro e está sem estertores: a indicação da dose fixa acabou antes do potássio cair.
Hora 0 a 4 — a prescrição venosa, escrita por inteiro
Aqui está o núcleo do capítulo. A linha que o interno escreveu na abertura — cloreto de potássio, duas ampolas, endovenoso — não tem diluente, não tem volume, não tem velocidade e não tem tempo. O protocolo de segurança do Ministério da Saúde e da Anvisa conta cada uma dessas ausências como erro de prescrição, e a fórmula exigida para uso endovenoso é nome, concentração, forma farmacêutica, dose, diluente, volume, via, velocidade de infusão, posologia e orientação de administração. A versão correta ocupa três linhas e não deixa nada para a interpretação de quem instala.

Reposição intravenosa exige quantidade, diluente, volume final, via e velocidade explícitos, além de revisão clínica e laboratorial. Potássio concentrado nunca deve ser administrado por injeção intravenosa direta; seguir a padronização do serviço. Prescrição- Cloreto de sódio 0,9% 1.000 mL, acrescido de cloreto de potássio 19,1% 15 mL, o que corresponde a uma ampola e meia e a 38,4 mEq de potássio (a apresentação da Rename 2024 é 191 mg/mL, equivalente a 2,56 mEq/mL; a ampola padrão tem 10 mL, conforme a bula profissional aprovada pela Anvisa em 5 de agosto de 2019). Volume final de 1.015 mL, concentração resultante de 37,8 mEq por litro.
- Uso endovenoso periférico, em bomba de infusão, a 250 mL por hora. Essa velocidade entrega 9,5 mEq de potássio por hora, e a bolsa termina em 4 horas. O teto adotado é de 10 mEq/h em veia periférica: a bula chama 10 mmol/h de geralmente segura e fixa 15 mmol/h como teto geral, e o protocolo do Hospital Geral Eduardo Campos usa 5 a 10 mEq/h.
- Preferir bolsas prontas ou preparadas pela farmácia, com concentração e volume final definidos, dupla conferência e bomba. Se preparo local for autorizado, adicionar antes de instalar, homogeneizar e rotular segundo procedimento institucional; nunca adicionar KCl a uma bolsa já em infusão.
- Na correção aguda da hipocalemia, preferir diluente sem glicose quando possível, pois a insulina endógena pode reduzir transitoriamente o K sérico. Isso não proíbe soluções de manutenção contendo glicose e potássio nem situações com necessidade concomitante de água livre/glicose. Conferir compatibilidade, indicação e monitorização.
- Escrever a velocidade por extenso e sem abreviar a fórmula química. O protocolo de segurança do Ministério da Saúde e da Anvisa proíbe abreviar fórmulas químicas na prescrição, e o cloreto de potássio injetável está entre os eletrólitos concentrados classificados como potencialmente perigosos, com dupla checagem obrigatória dos cálculos.
- Sulfato de magnésio 50% 4 mL, o que corresponde a 2 g de sulfato de magnésio heptaidratado e a 16,2 mEq de magnésio, diluídos em 100 mL de cloreto de sódio 0,9%, uso endovenoso, em bomba de infusão, correndo em 2 horas, em linha separada da reposição de potássio. Essa velocidade equivale a 16,7 mg por minuto, muito abaixo do teto de 150 mg por minuto da bula profissional. A dose de 2 a 3 g de sulfato de magnésio por dia é a recomendada quando o potássio não sobe apesar da reposição (Gomes e Pereira, Vittalle, 2021), e o teto diário é de 6 g de sulfato de magnésio heptaidratado, reduzido a 3 g com depuração de creatinina abaixo de 30 mL/min/1,73 m² (Revista Qualidade HC, HCFMRP-USP, 2017).
- Monitorização contínua depende do risco clínico, ECG, intensidade da hipocalemia, digital e velocidade/concentração. Ela pode ser necessária mesmo abaixo de 10 mEq/h. Hipocalemia grave, manifestações elétricas e velocidades maiores exigem ambiente e protocolo apropriados; não usar apenas o número da bomba como critério.
Hora 4 a 6 — o primeiro recontrole, e ele tem gatilho
Reavalie K, sintomas, ECG, função renal e volume durante a reposição IV. Na hipocalemia importante, programar controle em cerca de 2–4 horas ou antes conforme risco, sem esperar um total fixo de 60–80 mEq. O resultado orienta a próxima dose; a normalização sérica não significa recomposição de todo o estoque.
Prescrição- Programar potássio em 2–4 horas durante reposição IV importante, com coleta longe da linha de infusão; antecipar se surgirem arritmia, piora renal ou mudança clínica. Não prescrever duas bolsas sucessivas sem ponto de reavaliação.
- Repetir o eletrocardiograma se havia onda U, intervalo QT prolongado ou arritmia no traçado inicial. O que se acompanha é o efeito, e o efeito pode normalizar antes do número.
- Antes de outra bolsa, conferir resposta e tolerância ao volume. Em insuficiência cardíaca recentemente descongestionada, um ou dois litros adicionais podem ser inadequados. Associar via oral quando tolerada ou discutir solução mais concentrada em acesso/ambiente apropriados; concentração periférica e dose horária precisam ser conferidas separadamente.
- A dose diária deve ser titulada ao K seriado, perdas e função renal. Estimativas de déficit de centenas de mEq ajudam a entender a duração do tratamento, mas não autorizam administrar esse total em 24 horas. Grandes necessidades, oligúria ou refratariedade exigem revisão especializada e monitorização mais intensa, não um esquema fixo reduzido à metade.
- Domingos tem K 6,2 mmol/L, piora renal e ondas T novas/apiculadas: avaliar imediatamente, monitorizar e acionar o médico responsável. Suspender potássio exógeno, ibuprofeno e temporariamente os fármacos que favorecem retenção; isso não substitui tratamento agudo quando há repercussão elétrica. Administrar cálcio IV conforme protocolo e reavaliar ECG em minutos; uma referência é gluconato de cálcio 10% 30 mL em 10 minutos, que não é intercambiável volume a volume com cloreto de cálcio 10%. Associar medidas de redistribuição quando indicadas, como insulina regular IV com glicose, com controle glicêmico por pelo menos seis horas. Avaliar eliminação de potássio, função renal e necessidade de diálise. Repetir K precocemente, por exemplo em 1, 2, 4 e 6 horas, e acompanhar rebote; não aguardar seis horas apenas após retirar medicamentos. ECG normal não exclui hipercalemia perigosa.
Hora 6 — a conta que ninguém faz, e que muda a expectativa
Vale parar e calcular o déficit, porque ele reorganiza a paciência de quem prescreve. Duas réguas independentes chegam ao mesmo lugar. Pela do HC-UFMG, cada queda de 0,3 mmol/L na concentração sérica corresponde a cerca de 100 mmol de déficit corporal total; dona Zuleide caiu de 4,0 para 2,7, ou seja, 1,3 mmol/L, o que dá aproximadamente 430 mEq. Pela régua da revisão brasileira, o déficit é de 4 a 5 mEq por quilo para cada 1 mEq/L abaixo de 4 mEq/L: em 58 quilos, entre 300 e 380 mEq. As duas apontam para algo entre 300 e 430 miliequivalentes.
Prescrição- Compare esse número com o que a veia consegue entregar. Ao teto periférico de 10 mEq por hora, um dia inteiro de infusão contínua entrega 240 mEq — menos que o déficit, e isso com bolsa correndo 24 horas seguidas, o que ninguém faz. Em ampolas de cloreto de potássio 19,1%, o déficit de 430 mEq equivale a quase 17 ampolas.
- A conclusão é operacional e é o ponto do bloco: a veia não repõe o estoque, ela tira o paciente da faixa perigosa. Quem repõe o estoque é a boca, ao longo de dias a semanas, e é por isso que o protocolo fala em reposição oral por dias a semanas e não em dose única.
- Escreva isso na evolução, com o número. A frase 'déficit estimado em torno de 400 mEq; reposição oral programada por 5 a 7 dias com controle a cada 48 horas' evita que o plantonista da noite suspenda a reposição porque o potássio de hoje voltou para 3,6 mmol/L.
Dia 1 — a boca assume e a causa sai da folha
Com o potássio fora da faixa perigosa, a veia sai e a prescrição do dia tem três tarefas: manter a reposição oral, resolver o que causou, e não criar o problema oposto. É neste marco que a maioria das recaídas se decide, porque é aqui que a causa costuma ser recolocada na folha sem que ninguém perceba.
Prescrição- Xarope de cloreto de potássio 6% 20 mL por via oral de 8 em 8 horas, mantido por 5 a 7 dias, com potássio sérico a cada 48 horas — a reposição oral repõe o déficit corporal ao longo de dias a semanas (Protocolo assistencial nº 295, HC-UFMG/Ebserh, 2021).
- Sulfato de magnésio mantido por 3 a 7 dias, acompanhando a melhora dos níveis de potássio e de cálcio (Revista Qualidade HC, HCFMRP-USP, 2017).
- Furosemida reintroduzida somente com indicação atual escrita ao lado, em dose menor, e com potássio programado 48 horas depois. Uma alternativa, quando o diurético é indispensável, é associar poupador de potássio ou trocar por ele, com controle rigoroso do potássio pelo risco de virar o distúrbio ao contrário (mesmo protocolo).
- Alvo de potássio próximo de 4,0 mmol/L, e não apenas dentro da faixa de referência, porque dona Zuleide tem insuficiência cardíaca — hipertensos, arrítmicos e portadores de insuficiência cardíaca devem manter o potássio perto de 4,0 mmol/L (mesmo protocolo).
- Revisar fontes de potássio e fármacos que o retêm. Cristaloide balanceado não é automaticamente contraindicado por conter pequena concentração de K; considere acidose, volemia e indicação do fluido. Após controlar a intercorrência, planejar retomada de bloqueadores do sistema renina-angiotensina quando o benefício justificar, acompanhando K e função renal.
- Havendo hipervolemia e diurese preservada, furosemida é a droga indicada para tratar hipervolemia e hipercalemia ao mesmo tempo (Guia de assistência nefrológica hospitalar da SBN, Braz J Nephrol 2025). Sem hipervolemia, não há indicação: seu Domingos está euvolêmico e não recebe diurético.
Dia 2 a 3 — quando o potássio não sobe
É o marco do segundo fio deste capítulo. Reposição feita, potássio inalterado ou caindo de novo. A tentação é aumentar a dose; a resposta certa quase sempre é outra. Existem quatro explicações, e elas se checam nesta ordem, porque a primeira é a mais comum e a mais silenciosa.
Prescrição- Na resposta insuficiente, verificar magnésio, perdas persistentes, adesão, dose realmente entregue, equilíbrio ácido-base e função renal. Repor magnésio quando houver deficiência ou forte suspeita contextual, com dose/via ajustadas ao risco renal e recontrole; não repetir empiricamente por vários dias em qualquer paciente.
- Segunda: a perda continua. Diurético reintroduzido, vômito, diarreia, drenagem gástrica, poliúria da hiperglicemia. Colha potássio urinário em amostra isolada com creatinina urinária: razão acima de 1,5 mEq/mmol, ou 13 mEq por grama, é perda renal ativa; potássio urinário abaixo de 20 mEq/L aponta perda digestiva, inclusive oculta.
- Terceira: a dose não chegou. Bolsa que correu mais devagar do que o prescrito porque a veia doía, xarope recusado pelo paciente, jejum para exame que cancelou as tomadas do dia. Confira o aprazamento e o checado, não a prescrição.
- Quarta: alcalose associada, que desloca potássio para dentro da célula e sustenta o número baixo enquanto o distúrbio ácido-base não for corrigido. Um paciente que vomita há dias tem os dois problemas, e o cloreto que se repõe junto com o potássio faz parte do tratamento.
- Relação aldosterona/renina depende de K, ingestão de sal, postura e medicamentos. Betabloqueador pode suprimir renina e produzir falso positivo; diuréticos e bloqueadores do sistema renina-angiotensina também interferem. Resultado positivo ou negativo no internado agudo pode exigir repetição padronizada após estabilização, orientada pelo especialista.
Alta — as cinco linhas que evitam a próxima internação
O distúrbio eletrolítico que se resolve na enfermaria costuma sair sem registro nenhum, e volta pelo mesmo caminho por onde entrou: a receita de casa. O resumo de alta é o instrumento que quebra o ciclo, e custa cinco linhas.
Prescrição- Escrever no resumo qual foi o distúrbio, o valor mínimo ou máximo alcançado, e o que o causou, com nome do medicamento. A frase 'hipocalemia de 2,7 mmol/L no quinto dia, atribuída a furosemida em dose fixa por via venosa com ingestão reduzida' é útil para o médico do posto; 'distúrbio hidroeletrolítico corrigido' não é.
- Listar o que foi suspenso, por quê, quem reintroduz, quando, e com qual controle. Espironolactona e losartana reavaliadas em consulta em 7 a 14 dias, com potássio e creatinina colhidos antes.
- Prescrever o controle laboratorial da alta com data: potássio e magnésio em 7 dias para quem sai em reposição oral; potássio e creatinina 7 dias após qualquer reintrodução de bloqueador do sistema renina-angiotensina ou de poupador de potássio.
- Contraindicar por escrito, em linguagem de paciente, o anti-inflamatório de venda livre em quem teve hipercalemia com creatinina alterada, oferecendo a alternativa analgésica no mesmo papel.
- Entregar a lista de medicamentos revisada com as doses da alta, e não as da internação. A folha da enfermaria não é receita.
Como saber se está funcionando
A pergunta das próximas 24 horas não é se o potássio subiu. É se a estratégia estava certa — via certa, velocidade certa, causa removida, magnésio conferido. Os parâmetros abaixo respondem isso em ordem de utilidade, e o primeiro deles não é o exame de sangue.
Esperado: A onda U desaparece e o intervalo QT encurta na hipocalemia corrigida; a onda T apiculada perde altura e o QRS estreita na hipercalemia. O traçado costuma normalizar antes do número
Se não melhora: Traçado que piora durante a reposição significa que a velocidade está alta demais ou que o valor virou para o outro lado: parar a infusão, colher potássio imediatamente e manter monitor. Na hipercalemia, traçado que piora tira o caso deste capítulo e o coloca na sequência de emergência do capítulo de injúria renal aguda, com cálcio, insulina com glicose e as indicações de diálise.
Esperado: Correção progressiva para a faixa apropriada ao contexto, evitando excesso. Não usar queda de 0,5 mmol/L em seis horas após simples retirada de medicamentos como critério suficiente de segurança na hipercalemia. Integrar valor, tendência, ECG, rim e possibilidade de rebote.
Se não melhora: Percorra as quatro explicações na ordem: magnésio não corrigido, perda que continua, dose que não chegou ao paciente, alcalose associada. A suplementação de potássio é causa comum de hipercalemia em internados, e a hipercalemia de rebote aparece justamente quando a hipocalemia era de redistribuição — cetoacidose corrigida, paralisia periódica, uso de beta-2 agonista. Se o número saltar acima de 5,0 mmol/L, suspenda a reposição antes de recontrolar.
Esperado: Magnésio subindo e, junto com ele, o potássio finalmente respondendo. A melhora do cálcio costuma acompanhar, porque a hipomagnesemia reduz a secreção de paratormônio
Se não melhora: Magnésio normal não exclui depleção, porque a concentração sérica não reflete o estoque corporal: em hipocalemia refratária com fator de risco, mantenha a reposição empírica. Do outro lado, magnésio subindo demais tem preço — o sulfato de magnésio é contraindicado na insuficiência renal, e o teto cai para 3 g por dia com depuração abaixo de 30 mL/min/1,73 m². Reflexo patelar ausente e sonolência são sinais de excesso, e mandam parar.
Esperado: Bomba marcando a velocidade prescrita, volume restante compatível com o horário, e sem queixa de ardência no trajeto. Uma bolsa de 1.015 mL a 250 mL por hora deve estar pela metade em duas horas
Se não melhora: Bolsa adiantada significa velocidade acima do prescrito, e é o acidente clássico: a mesma bolsa que entrega 9,5 mEq por hora em quatro horas entrega 38,4 mEq por hora se correr em uma. Bolsa atrasada costuma ser dor no trajeto e gotejamento reduzido por conta própria — nesse caso, reduza a concentração e alongue o tempo, ou discuta acesso central, mas não deixe a reposição acontecer de faz de conta.
Esperado: As linhas suspensas continuam suspensas, com a data de reavaliação escrita; nenhuma linha nova mexe no potássio sem que alguém tenha decidido isso
Se não melhora: Distúrbio que recidiva na mesma internação é quase sempre causa recolocada: o diurético que voltou na prescrição do plantão, o Ringer com lactato do centro cirúrgico, o anti-inflamatório reintroduzido para dor. Reabra a folha antes de aumentar a dose de reposição.
Esperado: Cãibra e fraqueza cedendo em 24 a 48 horas na hipocalemia corrigida; trânsito intestinal voltando
Se não melhora: Fraqueza que progride, sobretudo se ascendente e simétrica, é sinal dos dois extremos e pede gasometria, potássio e traçado imediatos, com atenção à musculatura respiratória. Mialgia intensa com urina escura depois de hipocalemia grave levanta rabdomiólise, e aí entram creatinofosfoquinase e função renal.
Esperado: Glicemia estável, sem hipoglicemia. A insulina que baixou o potássio continua agindo depois que a glicose acabou
Se não melhora: Hipoglicemia é o principal efeito adverso dessa medida, e ela chega tarde. O esquema de correção e o manejo da glicemia no internado estão no capítulo de hiperglicemia hospitalar desta apostila.
Onde o erro machuca
O dano: A linha não diz em que diluir, em que volume, nem em quanto tempo. Quem instala decide, e decide sem os dados. Duas ampolas de cloreto de potássio a 19,1% são 51,2 mEq: diluídas em 1.000 mL e correndo em 4 horas entregam 12,8 mEq por hora, já um pouco acima do teto periférico; diluídas em 250 mL e correndo em 30 minutos entregam 102 mEq por hora, dez vezes esse teto. A mesma prescrição, a mesma quantidade, e dois desfechos diferentes. O protocolo de segurança do Ministério da Saúde e da Anvisa conta a receita endovenosa sem diluente, sem volume, sem tempo ou sem velocidade como erro de prescrição, e o cloreto de potássio injetável está entre os eletrólitos concentrados classificados como potencialmente perigosos.
Como pegar a tempo: Quatro elementos na mesma linha, sempre: diluente e volume, quantidade de potássio em miliequivalentes, velocidade em mililitros por hora, e o tempo total. Depois de escrever, faça a conta ao contrário e olhe o resultado em miliequivalentes por hora. Se esse número passar de 10 em veia periférica, ou a prescrição está errada ou o paciente precisa de acesso central e de monitor.
O dano: É o mesmo erro com outra roupa. A altura do suporte, a posição do braço e a viscosidade mudam o gotejamento ao longo da noite, e a bolsa que deveria durar quatro horas termina em uma. A bula aprovada pela Anvisa é explícita: a taxa de infusão periférica deve ser controlada por bomba volumétrica ou controlador de velocidade, para evitar infusão rápida demais, e a administração rápida de cloreto de potássio pode provocar parada cardíaca, arritmia e morte.
Como pegar a tempo: Potássio venoso vai em bomba. Não havendo bomba disponível, a saída não é confiar no gotejamento: é reduzir a concentração da bolsa e alongar o tempo, de modo que mesmo o pior cenário de velocidade não entregue uma dose horária perigosa, e conferir a bolsa a cada turno. Escreva no leito quanto volume deve restar em cada horário.
O dano: O cloreto de potássio é denso e não se mistura sozinho. O boletim do ISMP Brasil registra que, mesmo depois de diluído, ele causa evento adverso porque suas propriedades físico-químicas dificultam a homogeneização: injetado por cima numa bolsa em uso, ele desce e se concentra no fundo, e o paciente recebe primeiro soro quase puro e depois uma fração muito concentrada. A conta que você fez na prescrição descreve uma bolsa homogênea que não existe.
Como pegar a tempo: A ampola entra antes de instalar, e a bolsa é invertida várias vezes. Escreva isso como orientação de administração na própria prescrição — é o médico quem assina a orientação de preparo, e ela é parte da dose.
O dano: É o erro que faz a reposição parecer ineficaz e leva ao erro seguinte, que é aumentar a dose. Com magnésio baixo, o canal luminal do ducto coletor fica aberto e o potássio reposto sai pela urina em horas. O prontuário mostra três dias de reposição e três potássios iguais, e alguém acaba escrevendo 'hipocalemia refratária' quando o que existe é uma torneira aberta. Enquanto isso, o paciente recebe potássio venoso repetido sem necessidade — e a suplementação de potássio é causa comum de hipercalemia em internados.
Como pegar a tempo: Magnésio e cálcio no mesmo tubo do primeiro potássio, sempre. Magnésio normal não exclui depleção, porque a concentração sérica não reflete o estoque corporal: em hipocalemia que não sobe, com diarreia, aminoglicosídeo ou diurético na história, reponha empiricamente. Sulfato de magnésio 50%, 4 a 6 mL, que são 2 a 3 g, diluídos em 100 mL de salina e infundidos em 2 horas.
O dano: Troca-se a via mais lenta e mais segura pela via que mata. O intestino absorve potássio devagar e nunca produziu uma parada cardíaca; a veia produziu, e as mortes estão documentadas. O boletim do ISMP Brasil recomenda que as instituições padronizem a reposição oral para tratamento da hipocalemia sempre que possível, e o protocolo de hipocalemia do HC-UFMG restringe a via venosa a quatro situações: hipocalemia grave, alteração eletrocardiográfica, sintomas, ou intolerância ao tratamento oral.
Como pegar a tempo: Antes de escrever a bolsa, responda em voz alta: este paciente come? tem sintoma? tem alteração no traçado? está abaixo de 2,5 mmol/L? Se as três últimas forem não e a primeira for sim, a reposição é oral. E quando a veia for necessária, mantenha a boca junto — as duas vias somam, e é a boca que repõe o estoque.
O dano: A glicose induz liberação de insulina, a insulina empurra potássio para dentro da célula, e a caliemia cai durante a própria reposição. O resultado é um potássio de controle mais baixo do que o inicial e um interno convencido de que a dose foi pequena. O protocolo do HC-UFMG recomenda expressamente a diluição em solução salina por esse motivo.
Como pegar a tempo: Cloreto de sódio 0,9% é o diluente padrão. A exceção descrita é a hipernatremia associada, e não é decisão de enfermaria comum. Confira também o soro de manutenção que já está correndo: o Ringer com lactato contém potássio, e ele entra na conta do dia.
O dano: Até 40% dos pacientes em uso de tiazídico desenvolvem hipocalemia. Repor potássio enquanto o diurético continua na dose de sempre é encher o balde com a torneira aberta do outro lado, com o agravante de que a reposição venosa repetida tem risco próprio. O mesmo vale na direção oposta: manter espironolactona e anti-inflamatório num paciente com creatinina subindo e tratar o potássio alto com resina é tratar o efeito e preservar a causa.
Como pegar a tempo: O tratamento começa por identificar a causa e tratá-la de forma específica: interromper ou reduzir o diurético, ou trocar por poupador de potássio quando a comorbidade exige diurético. Escreva a suspensão como temporária, com a data de reavaliação, para que ela não vire suspensão permanente por esquecimento nem seja recolocada pelo plantão.
O dano: Erra-se nas duas direções. Dar cálcio a um paciente com potássio de 6,0 mmol/L, traçado normal e três drogas retentoras na folha é gastar uma medida de emergência onde a conduta era apagar linhas, e ainda dá a sensação de que o problema foi resolvido. Ao contrário, esperar o resultado repetido num paciente com onda T apiculada, QRS alargando e onda P sumindo é perder a única janela em que a medida funciona. A sensibilidade do eletrocardiograma nesse diagnóstico é de 35 a 43%, mas a especificidade é de 85 a 86%: o traçado alterado quase nunca mente.
Como pegar a tempo: Avaliar clínica, valor e tendência do K, função renal, medicamentos e ECG imediatamente. ECG normal não exclui risco: K ≥6,5 mmol/L exige manejo urgente mesmo sem alterações, e valores menores podem exigir tratamento conforme evolução. Não limitar a conduta a retirar medicamentos e esperar seis horas. Na hipercalemia importante, chamar a equipe, monitorar e executar o protocolo de estabilização quando indicada, redistribuição e remoção de K, com recontroles precoces e vigilância de rebote e hipoglicemia.
O dano: Repetir sem uma pergunta clínica pode gerar decisões sobre variação analítica, mas esperar sempre 60–80 mmol infundidos ou seis horas pode perder uma mudança perigosa. O intervalo depende de gravidade, via, velocidade, rim e redistribuição. Reposição intravenosa relevante costuma exigir controle em poucas horas, mais cedo conforme risco; hipercalemia tratada exige controles precoces e vigilância de rebote. A dose acumulada não substitui a avaliação clínica.
Como pegar a tempo: Cada dosagem precisa de um gatilho: uma infusão terminou, uma causa foi removida, um sintoma apareceu, um horário programado chegou. Escreva o horário do recontrole na prescrição, junto com o que será recontrolado.
O dano: A hipocalemia deixa mais receptores livres para o digital ligar-se, porque não há potássio suficiente competindo pelo sítio, e o efeito do fármaco aumenta sem que a dose mude. Um paciente em uso de digoxina com potássio de 3,2 mmol/L está em risco de arritmia com um número que o interno classificaria como leve e deixaria para o dia seguinte.
Como pegar a tempo: Antes de classificar como leve, olhe três coisas na folha: digital, antiarrítmico e história de insuficiência cardíaca ou infarto recente. Nesses pacientes o alvo é potássio próximo de 4,0 mmol/L, e não apenas dentro da faixa de referência.
O que dizer ao paciente e à família
Distúrbio de potássio é difícil de explicar por dois motivos. O primeiro é que ele quase nunca dá sintoma, e o paciente não entende por que está tomando remédio e sendo furado para algo que ele não sente. O segundo é que, com frequência, a causa foi o tratamento que a equipe prescreveu — e essa parte precisa ser dita sem esconder e sem se acusar.
Explicar por que se corrige algo que o paciente não sente
“A senhora não está sentindo nada, e isso é bom. O que apareceu no exame foi um sal do sangue, o potássio, que ficou baixo. Ele não dá sintoma na maioria das vezes, mas é o sal que faz o coração bater no ritmo certo, e por isso a gente corrige mesmo sem sintoma. A cãibra que a senhora teve de madrugada, provavelmente, foi ele. Vamos repor pela boca e um pouco pela veia, e refazer o exame no fim do dia.”
Não diga: Dizer 'é só o potássio baixinho'. O paciente escuta que não é importante, recusa a segunda dose e reclama do furo. E também evitar o oposto — falar em risco de parar o coração — com quem está estável, porque o susto não muda o que ele precisa fazer e atrapalha o sono.
Explicar por que a veia arde e por que não dá para correr mais rápido
“Esse soro arde mesmo, e o motivo é o próprio potássio, que irrita a veia. Se a gente aumentar a velocidade para acabar logo, dois problemas aparecem: arde mais, e o coração recebe uma quantidade grande de uma vez, o que é justamente o que a gente precisa evitar. Vai levar quatro horas, e isso é de propósito. Se ficar insuportável, chame a enfermagem que a gente muda a diluição, não a pressa.”
Não diga: Autorizar o paciente ou o acompanhante a 'abrir um pouquinho' o soro para terminar antes. Isso acontece, e é a origem de parte dos acidentes.
Dizer que a causa foi um remédio que a equipe prescreveu
“Parte do que aconteceu foi o remédio de tirar líquido que o senhor vinha tomando na veia. Ele foi necessário: era ele que estava tirando o inchaço da perna e o líquido do pulmão. Só que, junto com a água, ele leva esse sal embora, e agora que o senhor já desinchou a conta virou. Suspendi hoje de manhã e estamos repondo o sal. Vou deixar escrito no papel da alta, para o médico do posto saber que isso aconteceu e conferir o exame antes de recomeçar.”
Não diga: Dizer 'o remédio errado foi dado' ou 'alguém errou'. Não houve erro: houve indicação que terminou e ninguém revisou. Também evitar omitir, porque o paciente vai receber a mesma receita no posto e o ciclo recomeça.
Explicar por que o remédio do coração foi suspenso, para quem tem medo de piorar
“Suspendi dois remédios da sua pressão hoje, e quero explicar por quê e por quanto tempo. Eles são bons remédios e o senhor vai voltar a tomá-los. Só que os dois seguram um sal, o potássio, e ele está alto agora, junto com o rim funcionando um pouco pior essa semana. Suspender por alguns dias é mais seguro que manter. Marquei a consulta para daqui a uma semana com o exame pronto, e quem decide a volta é ela, não a lembrança.”
Não diga: Suspender sem data e sem responsável. A suspensão temporária que ninguém reavaliou vira suspensão permanente, e o paciente perde um tratamento de que precisa.
Falar com a enfermagem, que é conversa clínica e não recado
“Essa bolsa é de 1.015 mililitros com uma ampola e meia de cloreto de potássio, 38 miliequivalentes no total. Preciso dela em bomba, a 250 mililitros por hora, terminando em quatro horas. Se a bomba faltar, me chame antes de instalar em gravidade, porque nesse caso eu refaço a diluição. E acrescenta o potássio antes de pendurar, invertendo a bolsa, porque ele desce e fica concentrado no fundo.”
Não diga: Passar a velocidade só verbalmente. O que não está escrito na prescrição não sobrevive à troca de plantão, e a dupla checagem dos cálculos exigida para medicamento potencialmente perigoso precisa de um documento para checar.
Explicar por que a reposição vai durar dias depois da alta
“O exame de hoje já está normal, mas o estoque do corpo ainda não. O que a gente mede no sangue é uma fração pequena do total, e o corpo inteiro ainda está devendo. Por isso o senhor sai com o xarope por mais uma semana e com um exame marcado. Parar agora porque o número normalizou é o jeito mais comum de voltar para cá.”
Não diga: Dar a receita sem a data do exame. Reposição de potássio sem controle é como qualquer outra: pode passar do ponto, e passar do ponto tem risco próprio.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Até 10 mEq por hora, e acima disso muda a via
A bula profissional aprovada considera que, nos adultos, uma velocidade correspondente a 10 mmol por hora é geralmente segura, e o protocolo de nefrologia do Hospital Geral Eduardo Campos fixa a faixa periférica em 5 a 10 mEq por hora, reservando 20 a 30 mEq por hora para o acesso central. O argumento é de margem: a maior parte dos acidentes não vem de uma prescrição de velocidade alta, e sim de uma bolsa prescrita devagar que correu depressa. Um teto de 10 é o único que sobrevive ao erro de instalação.
Bula do profissional de saúde do cloreto de potássio 19,1%, aprovada pela Anvisa em 5 de agosto de 2019; Protocolo clínico-assistencial Distúrbios do Potássio, Serviço de Nefrologia do Hospital Geral Eduardo Campos, Serra Talhada, 2020
Até 20 mmol por hora em veia periférica, com 10 como habitual
O protocolo de hipocalemia do HC-UFMG estabelece que a velocidade de infusão não deve exceder 20 mmol por hora, registrando 10 mmol por hora como uso habitual, e reserva os 40 mmol por hora em acesso central para situações de emergência. A revisão brasileira publicada na Vittalle trabalha na mesma faixa, com correção de 10 a 20 mEq por hora nos sintomáticos e nos casos abaixo de 2,5 mEq/L, associando monitorização cardíaca contínua a qualquer infusão acima de 10 mEq por hora. O argumento é de eficácia: com teto de 10, o paciente grave que precisa sair da faixa perigosa em poucas horas não sai, e o acesso central nem sempre existe ou pode esperar.
Protocolo assistencial nº 295, Abordagem do paciente adulto com hipocalemia, HC-UFMG/Ebserh, 2021; Gomes EB e Pereira HCP, Distúrbios do Potássio, Vittalle 2021;33(1):232-250
Decida pelo que acontece se a bolsa correr errado. No paciente estável, que come, sem arritmia, o ganho de dobrar a velocidade é de horas e o preço de um acidente é uma parada: fique em 10 mEq por hora e some a via oral, que resolve o estoque de qualquer maneira. No paciente com arritmia, potássio abaixo de 2,5 mmol/L ou fraqueza respiratória, o cálculo se inverte e a velocidade maior se justifica — mas ela vem com três exigências inseparáveis: bomba de infusão, monitorização cardíaca contínua e alguém olhando o monitor. Se as três não estiverem disponíveis, a decisão não é acelerar assim mesmo: é chamar quem pode montar isso, ou transferir o paciente para onde exista.
40 mEq por litro, porque acima disso a solução é concentrada
O protocolo do Hospital Geral Eduardo Campos fixa a concentração máxima periférica em 40 mEq por litro, o que corresponde a 16 mL de cloreto de potássio a 19,1% em 1.000 mL de solução, e o boletim do ISMP Brasil usa exatamente esse mesmo corte, de 40 mEq por litro ou 0,3%, como o limiar acima do qual a solução passa a ser considerada concentrada e associada a eventos fatais. O argumento é de segurança sistêmica: abaixo desse corte, um erro de velocidade tem consequência menor, e a solução dói menos, o que evita que a enfermagem reduza o gotejamento por conta própria.
Protocolo clínico-assistencial Distúrbios do Potássio, Hospital Geral Eduardo Campos, 2020; Boletim ISMP Brasil, Cloreto de potássio concentrado injetável, v. 1, n. 1, janeiro de 2012
Até 50 ou 60 mmol por litro, quando o volume é o fator limitante
A bula profissional autoriza diluir até uma concentração máxima de 4 g por litro de cloreto de potássio, cerca de 50 mmol de potássio por litro, para correção progressiva infundida em 12 ou 24 horas; o protocolo do HC-UFMG trabalha com 20 a 40 mmol por litro e estabelece 60 mmol por litro como o teto que não deve ser excedido em veia periférica. O argumento é de volume: a 40 mEq por litro, entregar 40 mEq exige um litro de soro, e num paciente com insuficiência cardíaca ou renal esse litro é uma segunda doença. Concentrar permite repor sem congestionar.
Bula do profissional de saúde do cloreto de potássio 19,1%, aprovada pela Anvisa em 5 de agosto de 2019; Protocolo assistencial nº 295, HC-UFMG/Ebserh, 2021
A variável que decide é a tolerância do paciente a volume, e ela é conhecida à beira do leito. Quem tolera líquido recebe a solução diluída, e o litro entra como hidratação de qualquer maneira. Quem não tolera — insuficiência cardíaca descompensada, oligúria, congestão — tem duas saídas, e a errada é a que parece mais simples: concentrar na veia periférica até 60 mEq por litro produz dor, flebite e gotejamento reduzido às escondidas. A saída boa é acesso central com volume pequeno, ou a via oral, que não gasta volume nenhum. Antes de aumentar a concentração periférica, pergunte se a boca não resolve.
Dosar e tratar a hipomagnesemia confirmada
O protocolo de hipocalemia do HC-UFMG estabelece que, após confirmar o potássio baixo, se deve verificar se há hipomagnesemia concomitante e tratá-la, e que se deve identificar a causa para intervir de forma específica. O argumento é de proporção de danos: o sulfato de magnésio não é inócuo. A bula profissional contraindica o produto na insuficiência renal, no bloqueio cardíaco, no dano miocárdico e na depressão respiratória, e o excesso de magnésio abole reflexos e deprime a respiração. Repor às cegas em quem tem função renal ruim troca um distúrbio por outro.
Protocolo assistencial nº 295, HC-UFMG/Ebserh, 2021; bula do profissional de saúde da solução de sulfato de magnésio 100 e 500 mg/mL, Isofarma/Halex Istar
Repor empiricamente na hipocalemia refratária com fator de risco
O protocolo de nefrologia do Hospital Geral Eduardo Campos orienta dosar magnésio sérico ou, na impossibilidade, repor magnésio empiricamente nas hipocalemias refratárias, principalmente havendo fator de risco — diarreia, aminoglicosídeo, diureticoterapia. O protocolo do HCFMRP-USP reforça o mesmo raciocínio por outro caminho: a concentração sérica não reflete a quantidade corporal total, e a decisão de tratar deve se basear nas manifestações clínicas e nos fatores de risco. O argumento é de sensibilidade do exame: esperar um número que pode vir normal em quem está depletado significa manter a torneira aberta enquanto se repõe potássio inutilmente.
Protocolo clínico-assistencial Distúrbios do Potássio, Hospital Geral Eduardo Campos, 2020; Okino VT, Hipomagnesemia na Sala de Urgência, Revista Qualidade HC, HCFMRP-USP, 2017
As duas posições convergem em quase todos os pacientes, e o que separa é a função renal. Com creatinina normal e diurese preservada, reponha: a margem de segurança do magnésio é larga em quem excreta, o teto de 6 g em 24 horas é generoso, e o custo de esperar é um dia de reposição de potássio jogada fora. Com depuração abaixo de 30 mL/min por 1,73 m², a conta vira: o magnésio acumula, a dose máxima cai para 3 g por dia, e aqui vale esperar a dosagem ou repor com dose reduzida e reavaliação em 12 horas. Nos dois cenários, examine o paciente antes de cada dose seguinte — reflexo patelar presente é o sinal de beira de leito mais barato que existe para dizer que o magnésio ainda não passou do ponto.
Gluconato de cálcio, que é o padrão dos serviços brasileiros
O guia de assistência nefrológica hospitalar da Sociedade Brasileira de Nefrologia nomeia o gluconato de cálcio como a medida de proteção da membrana miocárdica no tratamento da hipercalemia, e o protocolo de nefrologia do Hospital Geral Eduardo Campos prescreve gluconato de cálcio a 10%, 10 a 20 mL em 100 mL de solução, infundido em 2 a 5 minutos, repetível após 5 minutos se as alterações do traçado persistirem. O argumento é de tolerância venosa: o gluconato é menos esclerosante e menos lesivo em extravasamento que o cloreto, e pode ser dado por acesso periférico, que é o acesso que existe na enfermaria.
Guia de assistência nefrológica hospitalar da Sociedade Brasileira de Nefrologia, Braz J Nephrol 2025;47(3):e20240239; Protocolo clínico-assistencial Distúrbios do Potássio, Hospital Geral Eduardo Campos, 2020
Cloreto de cálcio, que entrega mais cálcio elementar por ampola
A bula profissional do cloreto de potássio 19,1%, no item de superdose, instrui que, diante de ameaça de hipercalemia com sinais clínicos ou elétricos, se suspenda a infusão e se administre imediatamente cloreto de cálcio, seguido de bicarbonato ou de solução concentrada de glicose com insulina. O argumento é de potência e rapidez: para o mesmo volume, o cloreto entrega cerca de três vezes mais cálcio elementar que o gluconato, e não depende de metabolização hepática para se dissociar, o que importa no paciente em choque.
Bula do profissional de saúde do cloreto de potássio 19,1%, aprovada pela Anvisa em 5 de agosto de 2019, item 10, Superdose
Decida pelo acesso que você tem na mão. Na enfermaria, com cateter periférico, gluconato de cálcio: o extravasamento de cloreto de cálcio numa veia de dorso de mão causa necrose, e nenhuma vantagem farmacológica compensa isso quando o paciente ainda tem circulação. O cloreto de cálcio é a escolha de quem já tem acesso central instalado e um paciente em choque ou em parada, situação em que a velocidade de ação e a independência de metabolização pesam mais que a lesão local. E as duas posições concordam no que mais importa: o cálcio não reduz o potássio — ele compra tempo, e o tempo comprado precisa ser usado para as medidas que reduzem. A sequência completa está no capítulo de injúria renal aguda.
O raciocínio, em voz alta
Mulher de 63 anos, 54 quilos, sétimo dia de internação por pneumonia adquirida na comunidade, tratada com ceftriaxona e azitromicina. Melhorou do quadro pulmonar, mas tem diarreia há quatro dias, atribuída ao antibiótico, com seis a oito evacuações líquidas por dia. Come pouco. Potássio de anteontem: 3,2 mmol/L, e desde então recebeu duas bolsas de reposição venosa, com 30 mEq cada, além de xarope de cloreto de potássio 20 mL de 8 em 8 horas. O potássio de hoje é 3,0 mmol/L. Pressão 112 por 68 mmHg, frequência cardíaca 92 bpm, mucosas secas. Na prescrição: ceftriaxona, azitromicina, omeprazol, dipirona e a reposição de potássio.
O que penso agora
Recebeu 60 mEq pela veia e cerca de 96 mEq pela boca em dois dias, e o potássio caiu de 3,2 para 3,0 mmol/L. Isso não é dose insuficiente: 156 mEq em 48 horas deveriam ter movido o número. Quando a reposição não move o potássio, existem quatro explicações, e eu vou percorrê-las na ordem — magnésio, perda que continua, dose que não chegou, alcalose. As quatro estão em jogo aqui, e três podem ser respondidas sem exame novo.
A que respondo primeiro, olhando a folha
A perda continua, e está escrita na evolução da enfermagem: seis a oito evacuações líquidas por dia há quatro dias. Diarreia é a causa extrarrenal mais comum de hipocalemia, e ela não parou porque eu prescrevi potássio. Isso explica parte da falha, mas não me tranquiliza — porque a diarreia prolongada é também o fator de risco clássico da segunda explicação.
O exame que eu deveria ter pedido no primeiro dia
Magnésio. Peço agora, junto com cálcio, e vem 1,3 mg/dL, com cálcio total de 7,8 mg/dL. Está fechado: a hipomagnesemia mantém aberto o canal luminal do ducto coletor por onde o potássio sai, e enquanto ela existir o potássio reposto vai embora pela urina em horas. Todo o potássio dos dois últimos dias passou pelo corpo dela e saiu. E o cálcio baixo é o terceiro personagem da mesma história: o magnésio baixo reduz a secreção de paratormônio.
Como eu confirmo que a perda é digestiva e não renal
Potássio urinário em amostra isolada, colhido agora: 12 mEq/L. Abaixo de 20 mEq/L, num paciente com hipocalemia, isso indica perda extrarrenal — o rim está fazendo o certo, segurando o que pode. Se viesse acima disso, ou com razão potássio/creatinina urinária acima de 1,5 mEq/mmol, eu estaria diante de perda renal e teria de procurar diurético escondido, acidose tubular ou a própria hipomagnesemia agindo pelo rim. Aqui as duas coisas coexistem: a diarreia perde potássio e magnésio ao mesmo tempo, e o magnésio perdido abre a torneira renal.
O eletrocardiograma, que eu peço antes de mexer na dose
Onda T achatada em derivações precordiais, onda U em V2 e V3, intervalo QT corrigido em 480 milissegundos. O QT longo é o achado que muda decisão: ele é o terreno do torsades de pointes, e transforma uma hipocalemia de 3,0 mmol/L, que eu trataria pela boca, numa que merece veia e monitor. Também explica por que eu não vou apenas aumentar o xarope e esperar.
O que prescrevo, e nesta ordem
Primeiro o magnésio, porque sem ele o resto não fica: sulfato de magnésio 50% 4 mL, que são 2 g e 16,2 mEq de magnésio, em 100 mL de cloreto de sódio 0,9%, por via venosa em bomba, em 2 horas. Depois o potássio, em linha separada: cloreto de sódio 0,9% 1.000 mL com cloreto de potássio 19,1% 15 mL, 38,4 mEq, a 250 mL por hora em bomba, entregando 9,5 mEq por hora. Mantenho o xarope pela boca, porque ela come. E monitorização cardíaca contínua, não pela velocidade, que está abaixo de 10 mEq por hora, mas pelo intervalo QT prolongado.
O que mudo na folha, que é a parte que ninguém escreve
Investigo a diarreia em vez de aceitá-la como efeito do antibiótico: peço pesquisa de toxina de Clostridioides difficile, porque sétimo dia de ceftriaxona com diarreia de alto débito e omeprazol na folha é a combinação clássica. Suspendo o omeprazol, que não tem indicação escrita. E reponho volume, porque as mucosas estão secas e a hipovolemia sozinha piora tudo — o cálculo da reposição está no capítulo de hidratação venosa desta apostila.
O que eu espero, e quando
Magnésio subindo primeiro e potássio respondendo depois, não junto. Recontrole de potássio ao fim da segunda bolsa, entre 1 e 4 horas depois; magnésio em 24 horas; eletrocardiograma repetido quando o potássio passar de 3,5 mmol/L, procurando o desaparecimento da onda U e o encurtamento do QT. Se o potássio continuar parado com magnésio já corrigido e diarreia controlada, aí sim a hipótese muda, e a investigação sai da enfermaria.
Faça você
Homem de 71 anos, 62 quilos, terceiro dia de internação por descompensação de insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida. Recebeu furosemida 40 mg por via venosa de 8 em 8 horas desde a admissão e perdeu 5 quilos. Hoje está melhor da dispneia, mas vomitou duas vezes de manhã e não aceita nada por via oral desde ontem à noite. Potássio de 2,4 mmol/L, magnésio 1,6 mg/dL, sódio 138 mmol/L, creatinina 1,2 mg/dL, gasometria com pH 7,49 e bicarbonato 32 mEq/L. Usa digoxina 0,125 mg ao dia. Eletrocardiograma de agora: onda T achatada, onda U em V2 a V4, intervalo QT corrigido em 490 milissegundos, extrassístoles ventriculares isoladas. Ausculta pulmonar limpa, sem edema, jugulares planas.
achado
Potássio de 2,4 mmol/L é hipocalemia grave, abaixo do corte de 2,5. Há três agravantes que tiram este caso da categoria tranquila: eletrocardiograma alterado com intervalo QT de 490 milissegundos e extrassístoles, uso de digoxina, e insuficiência cardíaca, condição em que o alvo é potássio próximo de 4,0 mmol/L. Há também intolerância à via oral desde ontem, o que fecha a porta da reposição preferencial.
raciocínio
Furosemida e vômitos explicam perdas prováveis de potássio e cloro. A alcalose também desloca K para dentro da célula; portanto a concentração não mede diretamente o déficit corporal e não se deve afirmar que esse deslocamento prova um déficit maior. Magnésio de 1,6 mg/dL, perdas digestivas e diurético sustentam deficiência associada. Sem congestão e após perda de 5 kg, reavaliar e interromper a dose IV fixa de furosemida neste momento.
conduta
— sua vez —
Ver como fecharíamos
K 2,4 mmol/L, extrassístoles, alteração de repolarização, uso de digoxina e intolerância oral exigem avaliação imediata em ambiente monitorizado. Suspender novas doses fixas de furosemida enquanto se reavalia a volemia; revisar digoxina, função renal, última dose e possibilidade de toxicidade, discutindo pausa e dosagem quando indicada. Não presumir que toda arritmia será corrigida apenas pela reposição. Repor magnésio junto do K. Uma opção inicial, com função renal e monitorização compatíveis, é sulfato de magnésio 2 g IV, correspondente a 4 mL da apresentação 50%, diluído em 100 mL e infundido em duas horas. Reavaliar necessidade de doses adicionais; a deficiência contribui à perda renal de K, mas não é a única causa possível de resposta insuficiente. Para o potássio, conferir solução, dose total, concentração, via e velocidade. A conta ilustrativa permanece: 15 mL de KCl 19,1% a 2,56 mEq/mL fornecem 38,4 mEq; adicionados a 1.000 mL de salina, resultam em 1.015 mL e 37,8 mEq/L. A 250 mL/h, são aproximadamente 9,5 mEq/h e pouco mais de quatro horas por bolsa. Isso demonstra o cálculo, mas o litro de volume pode ser excessivo no paciente com insuficiência cardíaca. A equipe deve escolher volume tolerável, associar via oral quando possível e, se precisar de concentração maior, usar acesso e ambiente compatíveis com o protocolo. Preferir preparação padronizada pela farmácia; nunca KCl direto nem adicionado a bolsa já correndo. Manter ECG contínuo pelo risco clínico, mesmo com velocidade abaixo de 10 mEq/h. Controlar K em cerca de 2–4 horas durante a reposição, antecipando se houver alteração elétrica, clínica ou renal, e só então decidir a próxima dose. A coleta deve evitar contaminação pela linha. Reavaliar magnésio e ECG segundo evolução, sem esperar atingir K >3 para olhar novamente um traçado alterado. O déficit pode ser de centenas de mEq, mas sua estimativa é imprecisa: perdas, alcalose e redistribuição influenciam a concentração. A reposição continua titulada, preferencialmente oral assim que tolerada, sem transformar uma estimativa de estoque em dose obrigatória do dia. Não acelerar a mesma bolsa para compensar demora: em uma hora ela entregaria 38,4 mEq, velocidade inadequada para o esquema periférico proposto. A cada decisão, perguntar se o coração está mais seguro, se o rim elimina K e se o paciente tolera o volume.
A bolsa contém 25,6 mEq; administrá-la inteira em uma hora entrega 25,6 mEq/h, acima do limite periférico usual deste capítulo. A concentração também fica próxima de 50 mEq/L, acima do padrão periférico de 40 mEq/L utilizado aqui. O paciente estável, alimentando-se, com K 2,9 e ECG normal favorece via oral. Glicose não corrigiria o erro de velocidade; a preferência por diluente sem glicose se aplica à reposição aguda, não a uma proibição universal de soluções de manutenção. Limites locais, bula e condições de monitorização devem ser conferidos.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Calcule 40 mEq usando KCl 19,1% e explique por que 15 mL não equivalem a 15,6 mL. Diferencie limite de concentração de limite de velocidade.
Em 30 dias
Resolva o caso com K 6,2 e ondas T novas: organize proteção cardíaca, redistribuição, eliminação e vigilância de glicose e rebote.
Agora atenda
Sete e vinte da manhã, enfermaria de clínica médica. Senhora de 68 anos, 58 quilos, quinto dia de internação por insuficiência cardíaca descompensada, recebendo furosemida por via venosa em dose fixa desde a admissão. Desinchou quatro quilos, come pouco, e reclama de cãibra na panturrilha à noite. O potássio da manhã é 2,7 mmol/L. Você é o interno da visita: decida o que pedir antes de decidir a dose, escolha a via, escreva a prescrição com diluente, volume, velocidade e tempo, resolva a causa na folha, e explique à paciente por que o remédio que estava melhorando a perna dela vai ser suspenso.
