Clínica Médica › Prescrição e Cuidado do Paciente Internado
Hiperglicemia no paciente internado
Hiperglicemia hospitalar e esquema de insulina de correção
O esquema mais prescrito do Brasil — insulina regular conforme a glicemia capilar, e nada mais — é também o pior. Este capítulo troca o hábito de reagir ao açúcar que já subiu pelo de prever o que o paciente vai precisar: basal, bólus e correção, com a conta feita por peso.
Sociedade Brasileira de Diabetes — Manejo da hiperglicemia hospitalar em pacientes não-críticos. Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, Ed. 2025 (publicado em 22 de julho de 2025). DOI 10.29327/5660187.2025-9
Sociedade Brasileira de Diabetes — Hiperglicemia hospitalar no paciente crítico. Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, Ed. 2025 (publicado em 9 de agosto de 2025)
Sociedade Brasileira de Diabetes — Rastreio e Controle da Hiperglicemia no Perioperatório. Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, Ed. 2025
Sociedade Brasileira de Diabetes — Hiperglicemia Hospitalar no Paciente Não-Crítico. Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, Ed. 2024 (última revisão em 20 de junho de 2024). DOI 10.29327/5412848.2024-5
Ministério da Saúde / CONITEC — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Diabete Melito Tipo 2. Portaria SCTIE/MS nº 13, de 21 de fevereiro de 2026
Sociedade Brasileira de Diabetes — Dispensação de medicamentos e insumos para o tratamento do diabetes mellitus no SUS. Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, Ed. 2025 (última revisão em 27 de junho de 2024). DOI 10.29327/5412848.2024-2
Leite SA, Locatelli SB, Niece SP, Oliveira ARF, Tockus D, Tosin T — Impact of hyperglycemia on morbidity and mortality, length of hospitalization and rates of re-hospitalization in a general hospital setting in Brazil. Diabetol Metab Syndr. 2010;2:49
American Diabetes Association — 16. Diabetes Care in the Hospital: Standards of Care in Diabetes—2026. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1):S339-S358
ADA. Diabetes Care in the Hospital, Standards of Care—2026. https://diabetesjournals.org/care/article/49/Supplement_1/S339/163925/16-Diabetes-Care-in-the-Hospital-Standards-of-Care
KDIGO. CKD Guideline, 2024. https://kdigo.org/wp-content/uploads/2024/03/KDIGO-2024-CKD-Guideline.pdf
Responda antes de ler
Você é chamado às 3h30 da manhã: paciente de 75 anos, 70 kg, em esquema basal-bólus, com glicemia capilar de 46 mg/dL, sonolento mas despertável, sem via oral segura no momento pela sonolência. Há acesso venoso periférico pérvio. Qual é a conduta?
O paciente que você vai ver
Sete e quarenta da manhã, enfermaria de clínica médica, leito 8. Seu Nilton, 64 anos, 78 quilos, 1,70 m, internou anteontem por celulite extensa em perna direita — a perna está quente, brilhante, com a borda desenhada a caneta pela equipe da noite. Ele tem diabetes tipo 2 há doze anos e usava em casa metformina 850 mg duas vezes ao dia e gliclazida 60 mg pela manhã. Está comendo. A febre cedeu ontem. A perna, a olho nu, melhorou pouco.
Na folha da beira do leito, a coluna de glicemia capilar da última noite: 246 às 18h, 312 às 22h, 268 às 3h da manhã, 340 agora. E, na prescrição, uma linha só cuidando disso — a linha que você provavelmente já viu escrita e talvez já tenha copiado: "Insulina regular subcutânea se HGT maior que 250: 4 unidades; maior que 300: 6 unidades; maior que 350: 8 unidades". Não há mais nada. Não há insulina de horário. Não há basal. Os antidiabéticos orais dele foram suspensos na admissão e ninguém colocou nada no lugar.
Repare no que aconteceu de fato nessas doze horas. Às 18h a glicemia estava 246 e ele não tomou nada, porque 246 não chega a 250. Às 22h estava 312 e ele tomou 6 unidades — a insulina começou a agir por volta das 23h, atingiu o pico entre 2h e 4h da manhã e ainda estava agindo às 6h. Às 3h a glicemia era 268: a correção derrubou 44 mg/dL e a noite inteira ele passou acima de 250. Às 7h40, 340. Amanhã de manhã a folha vai mostrar a mesma coisa, e depois de amanhã também, porque a linha que governa o açúcar dele só é acionada depois que o açúcar já subiu.
Este é o esquema mais prescrito do Brasil e o pior deles. Tem até nome de gíria — "escala móvel", "esquema conforme HGT", "o de sempre" — e uma lógica de aparência razoável: dar insulina proporcional ao tamanho do problema. O erro está no tempo do verbo. A escala móvel isolada corrige o passado. Ela responde a uma glicemia que já foi medida, e a insulina que ela manda aplicar chega ao sangue depois que aquele pico já passou e outro já começou. Um paciente tratado assim vive num serrote: sobe muito antes da correção, cai um pouco depois dela, sobe de novo.
O que este capítulo faz com o seu Nilton é trocar o verbo. Em vez de reagir ao que já subiu, prever o que ele vai precisar nas próximas 24 horas e prescrever isso de véspera, em três partes: a insulina que cobre o metabolismo basal, que o fígado produz açúcar mesmo em jejum; a insulina que cobre cada refeição, aplicada antes dela; e — só então, por cima, para o que escapar da previsão — a correção. Basal, bólus e correção. A conta cabe em quatro linhas de rascunho e leva menos tempo que a visita a esse leito.
E há uma segunda coisa acontecendo no leito 8, invisível na folha: a perna melhorou pouco. Hiperglicemia sustentada não é um número feio no papel — é neutrófilo com quimiotaxia e fagocitose prejudicadas, é microcirculação pior, é cicatrização mais lenta. A celulite dele está sendo tratada com antibiótico numa perna irrigada por sangue com glicose de 340. Controlar esse açúcar não é uma tarefa paralela à internação: é parte do tratamento da doença que motivou a internação.
Quem adoece disso
Hiperglicemia no internado não é achado de exceção — é achado de rotina. A diretriz brasileira registra que ela aparece em 22% a 46% dos pacientes não críticos hospitalizados. Traduzindo para a sua enfermaria de vinte leitos: entre cinco e nove pacientes, hoje, têm glicemia acima do alvo. Não é um problema que aparece na tarde em que alguém interna descompensado; é um problema que já está distribuído pelos leitos que você visita todo dia, e que só é visto se alguém pedir a glicemia capilar.
A parte que surpreende é quanto disso não é diabético. A coorte brasileira de referência acompanhou 779 prontuários de um hospital geral do Paraná por três meses e encontrou 36,2% dos pacientes com hiperglicemia hospitalar sem diagnóstico prévio de diabetes. É mais de um terço. Uma parte desses é diabético que não sabia — o Brasil tem um contingente grande de diabetes não diagnosticado, e a internação é uma oportunidade de achado. A outra parte é o que se chama de hiperglicemia de estresse: gente sem diabetes nenhum cujo açúcar subiu porque adoeceu. As duas precisam ser tratadas dentro do hospital; só a segunda vai embora com a doença aguda.
E o desfecho depende de qual grupo o paciente está. Nessa mesma coorte brasileira, a mortalidade dos grupos com hiperglicemia foi de 17,7%, contra 2,8% nos grupos com glicemia controlada; a admissão em terapia intensiva por complicação foi de 23,3% contra 4,5%. O grupo com hiperglicemia persistente — o que ficou três dias seguidos acima do alvo — permaneceu internado em média 15,5 dias, contra 6,3 dias do grupo com glicemia normal. Nove dias de diferença. Não é uma diferença sutil de desfecho laboratorial; é mais de uma semana de leito, de risco de infecção hospitalar, de descondicionamento e de custo.
Vale a cautela de leitura: hiperglicemia é, em parte, marcador de gravidade — quem está mais doente libera mais hormônio contrarregulador e faz mais hiperglicemia. Nem todo esse excesso de morte é causado pelo açúcar. Mas a parte causal foi demonstrada em ensaio clínico: a metanálise de estudos em pacientes não críticos mostrou redução de risco relativo de infecção de 0,41 (intervalo de confiança de 95%: 0,21 a 0,77) com o controle glicêmico. E o ensaio que comparou basal-bólus com escala móvel em pacientes cirúrgicos com diabetes tipo 2 encontrou redução de 64,6% no desfecho composto de mortalidade, infecção de sítio cirúrgico, pneumonia e falência renal aguda, à custa principalmente da infecção de sítio cirúrgico. Tratar muda o desfecho, não só o número.
O achado mais importante para você, porém, é o que a coorte brasileira encontrou sobre a conduta. Dos pacientes hiperglicêmicos, apenas 51,4% haviam recebido algum tratamento — quase metade não recebeu nada. Entre os tratados, o esquema mais frequente era a escala móvel de insulina isolada. E a hemoglobina glicada, o exame que separa o diabético não diagnosticado da hiperglicemia de estresse e que decide o que o paciente leva na receita de alta, foi dosada em 2,2% dos pacientes. Onze pessoas em quinhentas e poucas.
Junte as três frases: o problema é frequente, muda desfecho, e é subtratado com o esquema comprovadamente pior. É por isso que este capítulo existe, e é por isso que ele é escrito para quem passa visita — a correção dessa lacuna não depende de tecnologia nova nem de parecer de especialista. Depende de alguém olhar a coluna de glicemia capilar antes de escrever a prescrição do dia.
Por que acontece o que acontece
Duas perguntas de mecanismo governam tudo o que vem depois. A primeira: por que o paciente internado fica hiperglicêmico, mesmo quando não é diabético? A segunda: por que a escala móvel isolada falha, mesmo quando as doses são generosas?
A resposta da primeira é a resposta endócrino-metabólica ao estresse. Doença aguda, dor, infecção, cirurgia e trauma disparam cortisol, catecolaminas, glucagon e hormônio do crescimento — o quarteto contrarregulador. Cada um empurra a glicemia para cima por uma via: o cortisol e o glucagon aumentam a gliconeogênese hepática e a proteólise, as catecolaminas aumentam a glicogenólise e inibem a secreção de insulina, e todos juntos reduzem a captação de glicose pelo músculo. O resultado é resistência insulínica aguda somada a produção hepática aumentada de glicose. O fígado de um paciente séptico despeja açúcar no sangue mesmo com o paciente em jejum absoluto — e é exatamente por isso que jejum não é motivo para suspender a insulina basal.
As citocinas inflamatórias fecham o círculo. Interleucina-6 e fator de necrose tumoral alfa interferem na sinalização pós-receptor de insulina, o que significa que a insulina que o pâncreas ainda produz funciona pior. Em quem tem reserva pancreática boa, o organismo compensa aumentando a secreção e a glicemia sobe pouco. Em quem tem diabetes tipo 2, a reserva já estava no limite e a compensação não vem: a glicemia dispara. E em quem tem diabetes tipo 1 ou pancreatectomia, não há nenhuma reserva — a hiperglicemia aparece rápido e a cetogênese vem junto se a insulina exógena faltar.
Por cima do estresse, o hospital acrescenta quatro empurrões próprios. O primeiro é o glicocorticoide, e ele é o mais previsível de todos: em série de pacientes recebendo o equivalente a 40 mg de prednisona por dia, houve hiperglicemia em 64% — e, entre os que não tinham diabetes prévio, em 52%. Mais que isso, o corticoide tem hora marcada: monitorização contínua de glicose em pacientes sob dexametasona ou prednisona mostrou pico glicêmico entre 14h e 19h, com glicemias mais baixas de manhã. Quem mede o açúcar só em jejum não vê a hiperglicemia do corticoide.
O segundo empurrão é nutricional. Dieta enteral contínua entrega carboidrato 24 horas por dia, sem os vales entre refeições; nutrição parenteral entrega glicose direto na veia; e a solução glicosada da hidratação, que ninguém contabiliza como caloria, entrega mais. O terceiro é a imobilidade: o músculo em repouso capta muito menos glicose, e um paciente acamado perde a via de consumo que mais gasta açúcar no corpo. O quarto é medicamentoso além do corticoide — vasopressores e alguns imunossupressores também empurram a glicemia para cima.
Agora a segunda pergunta, que é o coração do capítulo: por que a escala móvel isolada falha? Ela falha por três motivos independentes, e nenhum deles se resolve aumentando as doses da tabela.
O primeiro é aritmético de tempo. A insulina regular subcutânea começa a agir em cerca de 30 minutos, tem pico entre 2 e 4 horas e dura de 6 a 8 horas; os análogos de ação rápida começam em 10 a 15 minutos e picam em 1 a 2 horas. Qualquer uma delas só é aplicada depois que a glicemia foi medida, e a glicemia só é medida de 4 em 4 ou de 6 em 6 horas. Entre a subida real e o efeito da insulina se passam horas. O paciente é tratado com atraso estrutural — e o serrote da noite do seu Nilton é a assinatura disso no papel.
O segundo é conceitual e mais grave: a escala móvel não cobre a necessidade basal. Todo mundo, diabético ou não, precisa de insulina 24 horas por dia só para conter a produção hepática de glicose e a lipólise — sem refeição nenhuma, sem carboidrato nenhum. Essa é a necessidade basal, e ela representa cerca de metade da necessidade diária de insulina de um adulto. A escala móvel só entrega insulina quando a glicemia está alta; se a glicemia está em 190, ela entrega uma dose pequena e nada mais nas horas seguintes. A necessidade basal fica descoberta o dia inteiro, e o fígado, sem freio, repõe o açúcar que a correção tirou. É por isso que o paciente sobe de novo mesmo com a tabela funcionando.
O terceiro é comportamental: a escala móvel ensina o organismo — e a equipe — a esperar. Enquanto a glicemia estiver abaixo do limiar da tabela, ninguém faz nada, mesmo que ela esteja sistematicamente em 240 todos os dias. O paciente do leito 8 passou por 246 sem receber nada porque 246 não bate 250. A escala móvel isolada tem uma zona cega larga logo abaixo do primeiro degrau, e é nessa zona que mora a hiperglicemia persistente.
O corolário terapêutico cai por gravidade. Se o problema é que falta insulina de base e que a correção chega tarde, a solução é entregar a insulina antes: uma fração fixa e diária que cubra a necessidade basal, aplicada independentemente da glicemia; uma fração fixa antes de cada refeição, que cubra o carboidrato que vai entrar; e a correção mantida por cima, agora no papel que ela sabe fazer — ajustar o erro residual da previsão, não sustentar o tratamento sozinha. Isso é o basal-bólus-correção, e é a única coisa que este capítulo pede que você memorize antes de qualquer número.
Duas consequências práticas do mecanismo, que voltam mais adiante. Como a necessidade basal existe em jejum, suspender a basal porque o paciente vai ficar em dieta zero é um erro de fisiologia, não um cuidado. E como a necessidade prandial só existe se houver refeição, manter o bólus fixo em quem parou de comer é a receita de hipoglicemia. As duas frações têm gatilhos diferentes porque cobrem fenômenos diferentes — e confundi-las é a origem de boa parte dos acidentes com insulina na enfermaria.

Como se apresenta de verdade
"Hiperglicemia no internado" é um rótulo que cobre nove pacientes bem diferentes, e cada um deles muda a conduta. Antes de calcular qualquer dose, você precisa saber em qual dos nove está — e a pergunta que separa a maioria deles não é sobre o açúcar, é sobre a comida: o paciente come, come pouco, não come, ou recebe caloria por sonda ou por veia sem parar?
O que vem abaixo não é uma classificação para decorar. É a sequência de perguntas que você faz de pé ao lado do leito, antes de sentar para escrever.
Percurso de aprendizagem
Diferencie diabetes prévio, hiperglicemia de estresse e crise hiperglicêmica, reconhecendo os limites da HbA1c e a cetoacidose euglicêmica com SGLT2.
Escolha basal, prandial e correção pela necessidade. Ajuste o componente relacionado ao horário alterado e considere insulina ainda ativa antes de repetir doses.
Jejum, corticoide, lesão renal e retorno da dieta mudam o esquema. No diabetes tipo 1, mantenha basal; na alta, reavalie necessidades e ensine aplicação e tratamento de hipoglicemia.
Diabetes tipo 1, LADA e pancreatectomizado — o que nunca pode ficar sem basal
É o cenário de menor volume e maior risco. Esses pacientes não têm produção endógena de insulina; a basal exógena não é otimização de controle, é sobrevivência metabólica. Suspender a basal em um diabético tipo 1 — por jejum, por procedimento, por hipoglicemia isolada — leva a cetogênese em poucas horas e a cetoacidose antes do fim do dia, com glicemia que pode nem estar tão alta.
A diretriz brasileira coloca esse grupo direto no esquema basal-bólus, sem escala intermediária: diabetes tipo 1, LADA, diabetes secundário a pancreatectomia e quem usava em casa mais de 0,6 unidade por quilo por dia entram nesse esquema por indicação de classe I. E, quando a basal é NPH, a preferência nesse grupo é fracionar em três doses diárias, não duas — a NPH tem duração intermediária e dois picos por dia deixam janelas descobertas em quem não tem nenhuma produção própria para preencher.
Detalhe operacional que costuma passar batido: o paciente com bomba de infusão contínua de insulina pode continuar com ela na enfermaria se estiver lúcido, se souber operá-la e se houver alguém na equipe familiarizado com o dispositivo. Fora disso — rebaixamento de consciência, doença crítica, cetoacidose, incapacidade de demonstrar as configurações mínimas, falta de insumos —, a bomba sai e entra basal-bólus subcutâneo. Nesse caso a conta se faz a partir do que a própria bomba registrou nos últimos sete dias: metade da dose média total vira basal, metade vira bólus dividido pelas refeições. E a bomba só é desligada cerca de duas horas depois de aplicada a primeira basal subcutânea, nunca antes.
Diabetes tipo 2 em antidiabético oral — o mais comum, e o que fica órfão
É o seu Nilton, e é a maioria dos leitos. Vem de casa com metformina, sulfonilureia, às vezes um inibidor de SGLT2. Na admissão, alguém suspende os orais — corretamente, na maior parte dos casos — e o problema começa aí: suspender é metade da conduta, e a outra metade, que é colocar insulina no lugar, com frequência não é feita.
O que decide o esquema é o tamanho da hiperglicemia e o que ele usava em casa. Hiperglicemia entre 180 e 250 mg/dL sem uso domiciliar de insulina admite basal com correção pré-prandial. Acima de 250, ou com dose domiciliar de insulina acima de 0,6 unidade por quilo por dia, a indicação é basal-bólus completo. Um episódio isolado por dia acima de 180 e nenhum acima de 250, em quem não usava insulina em casa, é o único cenário em que a correção sozinha é aceitável — e mesmo esse é uma recomendação de classe IIb, não uma conduta preferencial.
Nesse grupo, olhe também para a função renal e para a idade antes de escolher o fator da conta. Paciente frágil, magro, idoso, com insuficiência renal, hepática ou cardíaca, entra na faixa baixa da dose total diária e na coluna sensível da tabela de correção. Obeso com sinais de resistência insulínica entra na faixa alta e na coluna resistente. Escolher a coluna errada é a diferença entre corrigir 340 com 5 unidades e corrigir com 10.
Diabetes tipo 2 já em insulina — a dose de casa é dado, não é prescrição
Quem já usava insulina em casa chega com uma informação valiosa e uma armadilha. A informação é a dose total diária domiciliar, que estima a sensibilidade dele melhor que qualquer fórmula por peso — e que é o critério explícito para escolher o esquema: acima de 0,6 unidade por quilo por dia, basal-bólus.
A armadilha é transcrever a dose de casa sem tocar nela. A dose domiciliar foi calibrada para a vida dele: com a comida dele, no horário dele, com a atividade física dele. No hospital, três dessas variáveis mudaram de uma vez. A dieta hospitalar é menor e mais regular que a de casa; o paciente está deitado o dia inteiro; e a doença aguda aumentou a resistência insulínica. Duas dessas forças puxam a dose para baixo e uma puxa para cima — e o resultado líquido não se adivinha, se mede.
A conduta razoável é partir da dose domiciliar, ajustá-la pelo contexto (para baixo se ele está comendo pouco, para cima se está em corticoide) e depois titular pela glicemia nas 24 horas seguintes, como em qualquer outro paciente. Insulina pré-misturada 70/30 usada em casa é um caso à parte: ela deve ser restrita a quem já usava, porque comparada ao basal-bólus produziu controle semelhante com mais hipoglicemia. Se der para desmembrar a pré-mistura em basal e bólus durante a internação, desmembre.
Hiperglicemia de estresse — sem diabetes, e mesmo assim tratada
É o paciente sem diagnóstico de diabetes cujo açúcar subiu porque adoeceu. Mais de um terço dos hiperglicêmicos internados no estudo brasileiro estava nessa condição, e o desfecho desse grupo não é melhor que o do diabético — na série clássica de 2.030 internações, a mortalidade dos hiperglicêmicos sem diagnóstico prévio foi de 16%, contra 3% dos diabéticos conhecidos e 1,7% dos sem hiperglicemia.
A leitura desse paradoxo é fisiológica: hiperglicemia em quem não é diabético sinaliza uma resposta ao estresse intensa o bastante para vencer um pâncreas normal. E há um dado que reforça: a análise de mais de cinquenta mil pacientes de terapia intensiva mostrou que glicemia média acima de 180 mg/dL se associou a risco relativo de mortalidade de 4,20 em pacientes sem diabetes e de apenas 1,14 nos diabéticos, tomando 100 mg/dL como referência. O mesmo número tem peso diferente conforme o pâncreas de quem o produziu. A variabilidade glicêmica, aliás, só se associou a mortalidade nos pacientes sem diabetes.
Na prática: o tratamento dentro do hospital é o mesmo — insulina, pelas mesmas regras. O que muda é a alta, e o que decide isso é a hemoglobina glicada. É por isso que ela é pedida na admissão de todo paciente com hiperglicemia hospitalar confirmada, e não depois.
Paciente em dieta zero — o cenário em que mais se erra
Jejum para exame, para cirurgia, por náusea, por rebaixamento, por pancreatite. O reflexo da equipe é suspender toda a insulina, e esse reflexo é errado pela metade: o correto é suspender o bólus prandial e manter a basal.
A justificativa está no mecanismo. O bólus cobre a refeição — sem refeição, ele não tem o que cobrir, e a diretriz recomenda suspender as doses fixas de bólus em quem tem baixa aceitação de dieta ou está em jejum. A basal cobre a produção hepática de glicose, que não para em jejum; ela é justamente a insulina que o paciente em jejum mais precisa. Suspender a basal em jejum não previne hipoglicemia: produz hiperglicemia de jejum e, no diabético tipo 1, abre a porta da cetoacidose.
Duas travas operacionais completam o cenário. A correção continua prescrita, agora sem refeição para ancorá-la — e passa a ser aplicada a cada 4 a 6 horas com análogo rápido, ou a cada 6 horas com regular, no mesmo horário da glicemia capilar. E, se o paciente estiver com basal subcutânea a bordo e a fonte de caloria for interrompida — dieta suspensa, sonda obstruída, jejum prolongado —, entra glicose endovenosa. Insulina basal já aplicada não se retira do subcutâneo; o que se faz é dar a ela algo para trabalhar.
Vale a redução preventiva: em jejum prolongado ou em quem já veio com hipoglicemia, cortar de 20% a 30% da basal é um ajuste de segurança defensável — mas cortar 100% não é ajuste, é omissão.
Dieta enteral contínua e nutrição parenteral — a insulina segue a fonte de caloria
Quando a caloria entra o dia inteiro, o desenho da insulina muda de forma. Não há três picos de carboidrato; há um platô. A basal passa a corresponder a algo entre 50% e 80% da dose diária, e a fração de bólus, que na dieta oral se divide em três refeições, aqui se divide igualmente ao longo das 24 horas — uma parte a cada 6 horas, casada com a glicemia capilar do mesmo horário. A monitorização também muda: a cada 4 a 6 horas, e não antes das refeições, porque não há refeições.
O risco específico desse cenário tem nome e hora: interrupção não programada da dieta. A sonda entope, o paciente arranca, o exame exige pausa, o transporte para a tomografia atrasa duas horas — e a insulina já está no subcutâneo, trabalhando, sem caloria entrando. É a hipoglicemia mais evitável do hospital e a que mais mata na enfermaria, porque acontece longe da beira do leito. A regra que fecha esse buraco é curta: interrompeu dieta em paciente com insulina basal aplicada, entra soro glicosado. Deixe isso escrito na prescrição como condicional, não como combinado verbal.
Na nutrição parenteral, a lógica é a mesma com uma diferença de veículo: a glicose vem na bolsa, em velocidade fixa, e a insulina pode ser prescrita subcutânea pelo mesmo esquema de dieta contínua. Aqui a interrupção abrupta é ainda mais perigosa, porque a bolsa costuma trazer concentrações altas de glicose e a queda é mais brusca. Preferir dietas de menor índice glicêmico, quando existe a opção, reduz o problema na origem.
Corticoide — a hiperglicemia com hora marcada
Este é o cenário mais previsível e, por isso, o mais imperdoável de não antecipar. O corticoide sobe a glicemia sobretudo à tarde e à noite, com glicemias mais baixas de manhã, num desenho que acompanha a farmacocinética da própria NPH. Quem monitora só a glicemia de jejum vê um paciente controlado e vai embora — enquanto ele passa das 14h às 22h acima de 300.
Duas consequências. A primeira é de monitorização: em qualquer paciente sob glicocorticoide, com ou sem diabetes, meça a glicemia ao acordar e antes do jantar, no mínimo. A segunda é de esquema: existe uma insulina cujo perfil espelha o do corticoide, e é a NPH matinal. A dose acompanha a potência do corticoide, começando em 0,1 unidade por quilo e subindo 0,1 a cada 10 mg de equivalente de prednisona.
Uma nota de calibração honesta: essa é uma recomendação de classe IIb, apoiada em ensaios pequenos e numa revisão sistemática, e ela vale para quem tem hiperglicemia predominantemente vespertina. Paciente em corticoide que faz hiperglicemia o dia todo precisa de basal-bólus completo, com ou sem a NPH matinal por cima. E, quando o corticoide for reduzido ou suspenso, a insulina cai junto e no mesmo dia — desmame de corticoide sem desmame de insulina é hipoglicemia programada.
Pré-operatório — o paciente que vai ficar em jejum com hora marcada
O pré-operatório é o único cenário em que você sabe de véspera exatamente quando o paciente vai parar de comer, e isso permite ajustar a insulina com antecedência em vez de correr atrás. As réguas nacionais para cirurgia eletiva são específicas por classe de droga e vale conhecê-las de cor, porque são perguntadas na visita pré-anestésica.
Secretagogos — sulfonilureias e glinidas — saem 24 horas antes. A metformina se mantém até o dia anterior à cirurgia e é reintroduzida depois do procedimento, conforme a evolução, se não houver complicação. Os inibidores de SGLT2 saem de 3 a 4 dias antes de cirurgia de grande porte ou procedimento invasivo planejado, pelo risco de cetoacidose euglicêmica. Os análogos de GLP-1 e os agonistas duais saem antes de qualquer procedimento com sedação ou anestesia geral, pelo risco de aspiração por esvaziamento gástrico lentificado. Os inibidores de DPP-4 se mantêm.
Nas insulinas, a régua é de redução, não de suspensão: a basal de longa ação se mantém na véspera com redução de 20% a 30% a partir da noite anterior até o fim do jejum, e os análogos ultralentos exigem que essa redução comece 72 horas antes, por causa da meia-vida. A NPH se mantém na dose habitual na noite anterior e cai 50% na manhã do procedimento. As doses prandiais fixas de ação curta são suspensas durante o jejum, mantidas apenas para correção.
E há uma decisão de logística que é sua, não do centro cirúrgico: o paciente diabético em jejum tem prioridade na programação. Empurrá-lo para o fim da tarde é criar hipoglicemia por escala de sala. O alvo no perioperatório é de 140 a 180 mg/dL, com atenção especial a não cair abaixo de 70.
Quem está grave — e por que ele não é assunto deste capítulo
O paciente crítico, instável, em ventilação mecânica ou em vasopressor, tem outra régua: alvo de 140 a 180 mg/dL, insulina endovenosa em infusão contínua com protocolo padronizado, e proibição explícita de controle estrito entre 80 e 110 mg/dL, pelo risco de hipoglicemia. Isso é matéria de terapia intensiva e aparece aqui só para você saber a fronteira.
O ponto de contato entre os dois mundos é a transição, e ela é sua: o paciente sai da terapia intensiva com insulina na bomba e chega à enfermaria com a via subcutânea. A transição só é segura com glicemias estáveis nas últimas 4 a 6 horas, estabilidade hemodinâmica, sem vasopressor e com dieta definida. A dose total diária subcutânea se calcula a partir da dose endovenosa das últimas 6 horas multiplicada por 4, podendo ser reduzida em 20% a 40%; a basal fica entre 50% e 60% desse total.
O erro principal dessa transição tem nome: suspender a insulina endovenosa sem ter aplicado nenhuma dose subcutânea. A insulina endovenosa tem meia-vida de minutos — desligada a bomba sem cobertura, a glicemia sobe em duas horas e, no diabético tipo 1, a cetogênese começa. A basal subcutânea entra de 2 a 3 horas antes de desligar a bomba; a de ação rápida, ao menos 1 hora antes. E o paciente que chega da terapia intensiva mantendo mais de uma glicemia acima de 180 mg/dL em 24 horas não pode ficar só com escala de correção — isso está escrito como recomendação negativa expressa.
Como fechar o diagnóstico
Aqui "investigação" não é caçar diagnóstico — o diagnóstico está na coluna de glicemia capilar. É montar, em cinco itens, a base de dados que decide a dose de hoje e a receita de alta: quem precisa ser medido, com que frequência, o que a glicada acrescenta, o que a função renal proíbe, e o que fazer com o vidro de comprimidos que veio de casa.
A ordem importa porque a primeira decisão é a única que é de rastreio: quem tem a glicemia medida. Tudo o mais depende disso, e é aí que o sistema falha — mais de um terço dos hiperglicêmicos internados no estudo brasileiro não tinha diagnóstico prévio de diabetes, e teria passado invisível se ninguém tivesse pedido o exame.
1. Glicemia na admissão: em todo mundo, uma vez
A régua nacional é ampla de propósito: rastrear com uma glicemia capilar ou plasmática todo paciente adulto que interna, independentemente de ter diagnóstico prévio de diabetes. Um exame, uma vez, em todo mundo. O custo é irrisório e o rendimento é alto — em pacientes submetidos a cirurgia não cardíaca, a prevalência de diabetes não diagnosticado foi de 10%, e a glicemia média pré-operatória desses era maior que a dos que sabiam ter diabetes.
Essa glicemia da porta faz três coisas ao mesmo tempo. Identifica quem já entra hiperglicêmico. Estabelece a linha de base contra a qual você vai ler as glicemias dos próximos dias. E, sendo alta em quem não tem diagnóstico, dispara o pedido de hemoglobina glicada — que é o exame que separa diabetes de hiperglicemia de estresse.
Duas cautelas de leitura do glicosímetro. Se o aparelho der "Hi", ele estourou o limite superior de detecção e não há valor a interpretar: colha glicemia plasmática ou de sangue arterial para saber o número real, porque sem ele você não consegue nem escolher a linha da tabela de correção nem acompanhar a resposta ao tratamento. E lembre que circulação periférica ruim, extremos de hematócrito, hipóxia, acidose e algumas substâncias — paracetamol, vitamina C, ácido úrico, triglicerídeos altos — atrapalham a leitura capilar. Em paciente chocado ou com perfusão periférica péssima, o valor capilar não é confiável e a decisão se toma com sangue venoso.
2. Com que frequência medir, e por que o horário é o exame
Frequência de glicemia capilar não é um número único — é uma função do que o paciente está recebendo de caloria. E a escolha dos horários é tão determinante quanto a do número, porque toda a titulação da insulina depende de você ter medido nos momentos que refletem cada fração da dose.
Em paciente com dieta oral: antes das três refeições e ao deitar. As pré-prandiais titulam as doses de bólus e a correção; a glicemia ao deitar é parâmetro de segurança para a madrugada, e é ela que diz se a basal noturna está adequada ou excessiva. Em dieta enteral ou parenteral contínua: a cada 4 a 6 horas, porque não há refeição para ancorar horário. Em gestante: uma hora após as refeições — nesse grupo o alvo é a pós-prandial, não a pré.
Há um horário que quase ninguém prescreve e que resolve uma dúvida frequente: 3 horas da manhã, em quem tem risco de hipoglicemia noturna. Ele é o único jeito de distinguir duas coisas que produzem a mesma glicemia alta de jejum — basal insuficiente, que sobe a noite inteira, e basal excessiva com hipoglicemia de madrugada seguida de contrarregulação. As duas se parecem às 7h e se tratam em direções opostas. Se você vai mexer na basal com base numa glicemia de jejum alta e o paciente já vem tomando dose generosa, meça 3h antes de aumentar.
Em paciente sob glicocorticoide, o par mínimo é ao acordar e antes do jantar — a pré-jantar é a que pega o pico vespertino do corticoide, e é a glicemia que mais frequentemente dispara o ajuste nesse grupo.
E um ponto de coordenação que vale mais que qualquer refinamento de esquema: os horários da glicemia capilar precisam coincidir com os da insulina. Glicemia colhida às 11h para uma insulina que será aplicada às 12h30 não serve para correção — o resultado envelheceu. Escreva os dois na mesma linha mental: mediu, corrigiu, aplicou o bólus, comeu.
3. Hemoglobina glicada na admissão: o exame que decide a alta
A glicada é pedida para todo paciente com hiperglicemia hospitalar confirmada e para todo diabético conhecido, desde que não tenha sido dosada nos últimos três meses. É recomendação de classe I, e no estudo brasileiro ela foi feita em 2,2% dos pacientes — a maior lacuna isolada daquele levantamento.
HbA1c ajuda a estimar glicemia prévia e planejar alta. Valor ≥6,5% sugere diabetes preexistente, com confirmação quando não houver hiperglicemia inequívoca e considerando interferentes. HbA1c <5,7% não exclui diabetes de início recente nem diabetes após doença pancreática. Estresse, transfusão, anemia e alterações da sobrevida eritrocitária podem distorcer a leitura; a evolução e o seguimento completam o diagnóstico.
A segunda pergunta é sobre o passado recente: o tratamento de casa estava funcionando? Isso muda o que o paciente leva na receita de alta, e é a única informação da internação que atravessa a porta do hospital. Vale também como previsão do que vai acontecer nos próximos dias — pacientes com glicada acima de 7% tiveram menor chance de bom controle durante a internação, e os com glicada até 7% precisaram de doses menores de insulina.
Interferentes que invalidam o resultado, e que na enfermaria são comuns: qualquer coisa que encurte a vida da hemácia ou mude a massa de hemoglobina — anemia, hemólise, sangramento recente, transfusão, uso de eritropoetina, doença renal crônica avançada, hemoglobinopatia, gestação. Nesses casos a glicada não é confiável, e a frutosamina é uma alternativa imperfeita, sem ponto de corte padronizado. Se você não pode confiar na glicada, a decisão de alta se toma pela história e pelo padrão glicêmico dos dias de internação, e o paciente sai com reavaliação ambulatorial marcada.
4. Função renal, cetona e o que mais entra no painel
A função renal entra por três motivos independentes. Primeiro, porque decide o que pode voltar: a metformina só se cogita com taxa de filtração acima de 30 mL/min/1,73 m². Segundo, porque a insulina é depurada em parte pelo rim, e a queda de filtração prolonga a ação da insulina circulante — o paciente com rim ruim faz mais hipoglicemia com a mesma dose, e por isso ele entra na faixa baixa da dose total diária e na coluna sensível da tabela de correção. Terceiro, porque queda aguda de filtração no meio da internação é motivo para recalcular a insulina, não só o antibiótico.
A cetonemia capilar — ou, na falta dela, a cetonúria — é pedida em três situações: glicemia acima de 250 mg/dL, sinais ou sintomas sugestivos de cetoacidose, e paciente em uso de inibidor de SGLT2 com sintomas sugestivos, mesmo com glicemia normal. Essa terceira é a que pega quem não sabe: a cetoacidose euglicêmica dos inibidores de SGLT2 é subdiagnosticada no hospital exatamente porque o gatilho mental de todo mundo é a glicemia alta. O beta-hidroxibutirato capilar é mais acurado que a cetonúria — a fita de urina tem sensibilidade de 98% mas especificidade de apenas 35%, contra 79% do teste capilar.
Complete o painel com sódio e potássio — a hiperglicemia sustentada produz diurese osmótica, e potássio e magnésio caem junto — e com a busca de foco infeccioso quando a hiperglicemia piora sem explicação. Glicemia que sobe em paciente que vinha controlado, sem mudança de dieta nem de corticoide, é sinal clínico de que algo agudo aconteceu: infecção nova, abscesso, evento cardiovascular. Trate o número, mas procure a causa.
O que não pedir: curva glicêmica, insulinemia, peptídeo C e anticorpos anti-GAD de rotina não têm papel no manejo da hiperglicemia do internado. O custo de pedi-los não é só financeiro — é o de trocar uma decisão que se toma hoje, com a coluna de capilar da noite passada, por uma espera de resultado que não vai mudar a dose de amanhã. A dosagem de anticorpos tem lugar em quem se suspeita de LADA, e essa investigação é ambulatorial: fica para depois da alta, e quem a assume é o capítulo “Quem fabrica a insulina agora é ele”, sobre diabetes mellitus tipo 1 e insulinoterapia, na apostila de Endocrinologia.
5. O vidro de comprimidos que veio de casa: o que sai, o que fica, e por quê
Este é o item que o interno decide sozinho na admissão, e é onde a regra por classe vale mais que o improviso caso a caso. A lógica de fundo é uma só: no hospital, jejum, dieta e função renal variam de um dia para o outro, e o antidiabético oral é uma droga lenta, de efeito difícil de retirar quando o paciente muda. A insulina é governável em 24 horas. É por isso que a insulina assume o controle na internação.
Sulfonilureias e glinidas — glibenclamida, gliclazida, repaglinida — saem. É recomendação negativa expressa, classe III, e o motivo é hipoglicemia: em estudo britânico com pacientes internados usando sulfonilureia, houve hipoglicemia em 19% deles, e o uso dessas drogas respondeu por mais de 30% de todos os episódios de hipoglicemia do hospital — mais que a própria insulina, nas primeiras horas da manhã. O risco concentra-se acima de 65 anos, em uso concomitante de insulina e com filtração abaixo de 30 mL/min/1,73 m². Um paciente que passa a comer menos que o habitual e continua com glibenclamida é uma hipoglicemia esperando o horário.
Insulina é preferida em muitos quadros agudos pela possibilidade de titulação. Metformina deve ser suspensa quando houver risco de acúmulo ou doença grave, não por uma regra de que todo contraste a contraindica. Reintrodução depende de estabilidade, função renal e ingestão, com dose ajustada. SGLT2 deve ser suspenso no jejum prolongado, cirurgia e doença grave; suspeita de cetoacidose exige cetonas mesmo sem hiperglicemia marcante.
Inibidores de SGLT2 — dapagliflozina, empagliflozina — são o caso de decisão mais fina, e o capítulo trata dele em detalhe no bloco de divergências. Em resumo operacional: podem ser mantidos em paciente estável, não crítico, com diabetes tipo 2, sobretudo se houver insuficiência cardíaca; exigem monitorização de cetonas; devem ser suspensos se a cetonemia passar de 1,5 mmol/L ou a cetonúria for positiva; e saem de 3 a 4 dias antes de cirurgia de grande porte ou procedimento invasivo planejado. O fator de risco mais forte para cetoacidose euglicêmica nesse cenário é justamente o mais banal do hospital — a redução do aporte de carboidrato.
Análogos de GLP-1 e agonistas duais não são recomendados no internado não crítico, pelo risco de retardo do esvaziamento gástrico em procedimentos com sedação ou anestesia. Já foram associados a maior resíduo gástrico em endoscopia e a pior preparo de cólon. Ficam para a programação de alta. Inibidores de DPP-4 são a exceção que fica: podem ser considerados na hiperglicemia leve, entre 180 e 200 mg/dL, ajustados à função renal — associados à basal, produziram controle não inferior ao basal-bólus com menos insulina e menos injeções. A ressalva é a saxagliptina, associada a mais internações por insuficiência cardíaca.
Por fim, o que existe no SUS, porque exame e droga que não se consegue não são conduta. O Componente Básico da assistência farmacêutica entrega insulina humana NPH e insulina humana regular, 100 UI/mL, em frasco de 10 mL ou caneta com tubete de 3 mL, além de tiras reagentes, lancetas, seringas com agulha acoplada e glicosímetro em comodato. Metformina, glibenclamida, gliclazida e dapagliflozina compõem o arsenal oral. Os análogos de ação rápida e de ação prolongada foram incorporados ao SUS por portaria em 2024 e 2025, com critérios de priorização — risco de hipoglicemia noturna e grave, idoso, índice de massa corporal abaixo de 30, grande variabilidade glicêmica, redução de função renal ou hepática, gestante. Quer dizer: o esquema basal-bólus que este capítulo ensina é integralmente executável com NPH e regular, que é o que a maioria dos hospitais públicos tem no carro de emergência e na geladeira do posto de enfermagem.
As metas, a conta e as tabelas prontas
Aprenda a ler o padrão glicêmico e combinar insulina, alimentação e evolução da doença. Controle hospitalar seguro inclui prevenir hipoglicemia e preparar um tratamento viável na alta.
- 1Glicemia capilar ou plasmática na admissão, em todo paciente adulto que interna
- 2Achou glicemia fora do alvo? Prescreva monitorização de capilar com horários definidos pela via de alimentação e peça hemoglobina glicada, se não houver uma dos últimos três meses
- 3Suspenda por classe o que sai (secretagogo e, na maioria dos casos, metformina) e decida sobre o inibidor de SGLT2 e o análogo de GLP-1
- 4Conte quantas glicemias por dia estão acima do alvo e qual foi a maior: é isso que escolhe o esquema na tabela principal
- 5Pese o paciente e calcule a dose total diária por quilo, escolhendo o fator conforme idade, função renal, obesidade e uso de corticoide
- 6Divida: metade basal, metade prandial — e a prandial só existe se houver refeição
- 7Escolha a coluna da escala de correção (sensível, usual ou resistente) e prescreva a correção por cima do esquema fixo, no mesmo horário da capilar
- 8No dia seguinte, leia a coluna de capilar por horário: a glicemia de jejum titula a basal; as demais titulam os bólus da refeição anterior
- 9Ajuste 10% a 20% da dose total diária por dia, para cima ou para baixo, e repita a leitura em 24 horas
- 10Antes da alta: reveja a glicada, decida o que reintroduzir, escreva a receita e ensine a técnica de aplicação
| Esquema | Quando indicar | Classe e nível |
|---|---|---|
| Só correção (insulina rápida pré-prandial conforme a glicemia) | No máximo 1 glicemia acima de 180 mg/dL por dia, nenhuma acima de 250 mg/dL, e sem uso domiciliar de insulina | IIb — B |
| Basal com correção (basal-plus) | Hiperglicemias entre 180 e 250 mg/dL, e/ou paciente que já usava insulina em casa | IIa — B |
| Basal-bólus (basal + bólus fixo em múltiplas doses + correção) | Hiperglicemias acima de 250 mg/dL; e/ou diabetes tipo 1, LADA, diabetes secundário a pancreatectomia; e/ou dose domiciliar de insulina acima de 0,6 UI/kg/dia | I — B |
| Basal-bólus e/ou NPH adicional pela manhã | Hiperglicemia associada a glicocorticoide, proporcional à dose do corticoide | IIb — B (para a NPH matinal) |
| Inibidor de DPP-4 associado a correção pré-prandial | Hiperglicemia leve, entre 180 e 200 mg/dL, com ajuste à função renal | IIb — A |
Os números que importam, e o que cada um dispara
| Número | O que é | O que dispara |
|---|---|---|
| Acima de 140 mg/dL | Hiperglicemia hospitalar (definição, SBD 2025) | Monitorização de glicemia capilar; correção para hiperglicemia eventual |
| Acima de 180 mg/dL, 2 ou mais vezes em 24 h | Hiperglicemia hospitalar persistente | Tratamento efetivo com esquema fixo — contraindica manter só a correção |
| Acima de 250 mg/dL, qualquer episódio | Hiperglicemia grave | Esquema basal-bólus; pesquisa de cetona |
| 100 a 180 mg/dL | Meta glicêmica do paciente não crítico | É o alvo da titulação diária |
| 140 a 180 mg/dL | Meta glicêmica do paciente crítico e do perioperatório | Alvo em terapia intensiva e em torno do procedimento cirúrgico |
| 80 a 110 mg/dL | Controle estrito | Não recomendado no paciente crítico — aumenta hipoglicemia sem benefício |
| Abaixo de 70 mg/dL | Hipoglicemia (níveis 1, 2 e 3) | Correção imediata e revisão da dose no mesmo dia |
| HbA1c igual ou acima de 6,5% | Diagnóstico de diabetes, na ausência de interferentes | Muda a receita de alta e o encaminhamento |
| HbA1c abaixo de 5,7% | Não exclui diabetes com sensibilidade absoluta; interpretar interferentes, evolução e reavaliar após o quadro agudo. | Hiperglicemia de estresse: alta sem antidiabético, com rastreio ambulatorial |
| Dose domiciliar acima de 0,6 UI/kg/dia | Marcador de necessidade insulínica alta | Vai direto para basal-bólus |
| Cetonemia capilar acima de 1,5 mmol/L | Cetose significativa em uso de inibidor de SGLT2 | Suspender o inibidor de SGLT2 |
A conta do basal-bólus-correção, passo a passo (exemplo: 78 kg, 1,70 m, comendo, sem corticoide)
| Passo | Regra | Conta no exemplo | Vira na prescrição |
|---|---|---|---|
| 1. Dose total diária (DTD) | 0,2 a 0,6 UI/kg/dia. Faixa baixa em idoso, magro, renal ou hepatopata; faixa alta em obeso, resistente ou em corticoide | 0,4 × 78 = 31,2 → 30 UI/dia | Número de trabalho, não vai escrito na folha |
| 2. Fração basal | 50% da DTD (ou 0,1 a 0,3 UI/kg/dia) | 50% de 30 = 15 UI/dia | NPH: 2/3 pela manhã e 1/3 à noite → 10 UI às 7h e 5 UI às 22h |
| 3. Fração prandial | 50% da DTD, dividida pelas 3 refeições | 50% de 30 = 15 UI ÷ 3 = 5 UI por refeição | Regular 5 UI, 30 min antes do café, do almoço e do jantar |
| 4. Correção | Escala por fator de sensibilidade, aplicada JUNTO com o bólus, não no lugar dele | Coluna usual (IMC 27, sem corticoide, sem sinal de resistência) | Regular subcutânea conforme a tabela de correção, antes das 3 refeições e ao deitar |
| 5. Monitorização | Horários casados com os da insulina | 4 medidas por dia | Glicemia capilar antes do café, do almoço, do jantar e ao deitar |
| Se em jejum | Passo 3 não se faz; passos 1, 2, 4 e 5 permanecem | Basal 15 UI/dia mantida | NPH 10 UI às 7h e 5 UI às 22h + correção a cada 6 h com a capilar |
| Se em dieta enteral contínua | Basal 50% a 80% da DTD; bólus dividido em 4 partes iguais a cada 6 h | Bólus 15 ÷ 4 = 3,75 → 4 UI a cada 6 h | Regular 4 UI de 6/6 h + correção no mesmo horário |
Escala de correção, por fator de sensibilidade (insulina regular ou análogo rápido)
| Glicemia capilar | Sensível (FS 80) | Usual (FS 40) | Resistente (FS 20) |
|---|---|---|---|
| 141 a 180 mg/dL | — | 1 UI | 2 UI |
| 181 a 220 mg/dL | 1 UI | 2 UI | 4 UI |
| 221 a 260 mg/dL | 1 UI | 3 UI | 6 UI |
| 261 a 300 mg/dL | 2 UI | 4 UI | 8 UI |
| 301 a 340 mg/dL | 2 UI | 5 UI | 10 UI |
| 341 a 380 mg/dL | 3 UI | 6 UI | 12 UI |
| 381 a 420 mg/dL | 3 UI | 7 UI | 14 UI |
| Acima de 420 mg/dL | 4 UI | 8 UI | 16 UI |
Qual coluna é a do seu paciente
| Coluna | Quem entra | O que o fator de sensibilidade significa |
|---|---|---|
| Sensível (FS 80) | Idoso; índice de massa corporal abaixo de 19 kg/m²; frágil; insuficiência renal, hepática ou cardíaca | 1 unidade derruba cerca de 80 mg/dL |
| Usual (FS 40) | Índice de massa corporal de 19 a 33 kg/m², sem sinais de resistência insulínica e sem corticoide | 1 unidade derruba cerca de 40 mg/dL |
| Resistente (FS 20) | Índice de massa corporal acima de 33 kg/m²; sinais de resistência insulínica; uso de glicocorticoide; glicemias persistentemente altas | 1 unidade derruba cerca de 20 mg/dL |
O que muda conforme a via de alimentação
| Cenário | Basal | Bólus fixo | Correção | Glicemia capilar |
|---|---|---|---|---|
| Dieta oral, comendo bem | Mantida integral | Antes de cada refeição | Junto com o bólus | Antes das 3 refeições e ao deitar |
| Dieta oral, aceitação ruim | Mantida integral | Suspenso, ou aplicado logo APÓS a refeição conforme o que foi comido | Antes das refeições e ao deitar | Antes das 3 refeições e ao deitar |
| Jejum / dieta zero | Mantida (considerar reduzir 20% a 30% se jejum prolongado ou hipoglicemia prévia) | Suspenso | A cada 4 a 6 h com análogo rápido, ou a cada 6 h com regular | A cada 4 a 6 h |
| Dieta enteral contínua | 50% a 80% da dose diária | Dose de bólus dividida em 4, uma parte a cada 6 h | No mesmo horário do bólus | A cada 4 a 6 h |
| Dieta enteral intermitente | Mantida integral | Casado com cada período de infusão da dieta | Junto com o bólus | Antes de cada infusão |
| Nutrição parenteral | 50% a 80% da dose diária | Dose de bólus dividida em 4, uma parte a cada 6 h | No mesmo horário do bólus | A cada 4 a 6 h |
| Dieta interrompida com basal já aplicada | Mantida | Suspenso | Mantida | A cada 4 a 6 h — e entra soro glicosado endovenoso |
Corticoide: NPH matinal proporcional à dose (hiperglicemia de predomínio vespertino)
| Equivalente de prednisona por dia | Dose de NPH pela manhã | No exemplo de 78 kg |
|---|---|---|
| 10 mg | 0,1 UI/kg/dia | 8 UI |
| 20 mg | 0,2 UI/kg/dia | 16 UI |
| 30 mg | 0,3 UI/kg/dia | 23 UI |
| Acima de 40 mg | 0,4 UI/kg/dia | 31 UI |
Antidiabéticos de casa: o que sai, o que fica
| Classe | Na internação clínica | Antes de cirurgia eletiva | Motivo |
|---|---|---|---|
| Sulfonilureia e glinida (glibenclamida, gliclazida, repaglinida) | Suspender — recomendação negativa expressa (classe III) | Suspender 24 h antes | Hipoglicemia: responderam por mais de 30% dos episódios hospitalares |
| Metformina | Suspender na maioria dos casos; pode voltar com quadro agudo resolvido, paciente estável, filtração acima de 30 mL/min/1,73 m² e sem contraste programado | Manter até a véspera; reintroduzir depois, se sem complicação | Sepse, hipotensão, queda de filtração e contraste são contraindicações que aparecem dentro do hospital |
| Inibidor de SGLT2 (dapagliflozina, empagliflozina) | Pode ser mantido em paciente estável não crítico, sobretudo com insuficiência cardíaca — com monitorização de cetonas | Suspender 3 a 4 dias antes de cirurgia de grande porte ou procedimento invasivo | Cetoacidose euglicêmica, cujo maior fator de risco é a redução do aporte de carboidrato |
| Análogo de GLP-1 e agonista dual | Não recomendado no internado não crítico; reservar para a programação de alta | Suspender antes de sedação ou anestesia geral | Retardo do esvaziamento gástrico e risco de aspiração |
| Inibidor de DPP-4 (exceto saxagliptina) | Pode ser mantido ou iniciado na hiperglicemia leve, ajustado à função renal | Manter | Controle não inferior à basal-bólus com menos insulina e menos injeções; a saxagliptina foi associada a mais internação por insuficiência cardíaca |
| Insulina domiciliar | Mantida, recalibrada ao contexto — nunca simplesmente transcrita | Basal de longa ação reduzida 20% a 30% da noite anterior até o fim do jejum; NPH reduzida 50% na manhã do procedimento; prandial fixa suspensa | Dieta hospitalar, imobilidade e doença aguda puxam a dose em direções opostas |
Hipoglicemia no internado: níveis e correção, com dose
| Nível | Glicemia | Via | Dose | Depois |
|---|---|---|---|---|
| Nível 1 | 54 a 70 mg/dL | Oral, enteral ou por gastrostomia | 15 a 30 g de glicose (0,3 g/kg) — em 78 kg, cerca de 23 g | Repetir a glicemia em 15 min e repetir a dose até passar de 100 mg/dL |
| Nível 2 | Abaixo de 54 mg/dL | Oral, enteral ou por gastrostomia, se a via estiver disponível | 15 a 30 g de glicose (0,3 g/kg) | Repetir a glicemia em 15 min e repetir a dose até passar de 100 mg/dL |
| Nível 3 | Qualquer glicemia abaixo de 70 mg/dL com alteração do nível de consciência | Endovenosa | 20 a 30 g de glicose: 40 a 60 mL de glicose 50% (cada 10 mL tem 5 g), em bólus lento | Repetir a glicemia em 15 min até passar de 100 mg/dL; investigar a causa antes de represcrever a mesma dose |
| Nível 3 sem acesso venoso | Idem | Intramuscular ou subcutânea | 1 mg de glucagon | A glicemia sobe em média 55 mg/dL em 20 minutos; providenciar acesso e glicose |
| Sem via oral e sem hipoglicemia grave | 54 a 70 mg/dL | Endovenosa | 10 g de glicose: 20 mL de glicose 50% | Reservar a via endovenosa para hipoglicemia grave ou impossibilidade de via oral, pelo risco de supercorreção e tromboflebite |
A escala de correção não é uma tabela mágica: ela é aritmética. Cada valor é o limite superior da faixa menos 140, dividido pelo fator de sensibilidade, com o resultado truncado. Na coluna usual, faixa de 301 a 340: (340 − 140) ÷ 40 = 5 unidades. As três colunas são a mesma conta com fatores diferentes, e é por isso que trocar de coluna dobra ou reduz pela metade toda a tabela de uma vez.
Meia unidade não existe na seringa comum de insulina. Arredonde para baixo quando a conta cair no meio e o paciente for idoso, renal ou estiver comendo mal; arredonde para cima em paciente obeso ou em corticoide. Um arredondamento de uma unidade em quem usa 30 por dia é 3% da dose — não muda desfecho; um erro de coluna muda.
A correção é somada ao bólus fixo, na mesma aplicação e na mesma seringa: se o paciente vai receber 5 unidades de bólus antes do almoço e a capilar deu 260, ele recebe 8 unidades. Prescrever a correção como se fosse alternativa ao bólus é reinventar a escala móvel dentro de um esquema que era para ser basal-bólus.
A insulina regular é aplicada 30 minutos antes da refeição; os análogos de ação rápida, até 15 minutos antes. Esse intervalo é parte da dose: regular aplicada no momento do prato tem o pico depois do pico do carboidrato e produz hiperglicemia pós-prandial seguida de hipoglicemia tardia.
Insulina pré-misturada não é esquema de hospital. Comparada ao basal-bólus, produziu controle semelhante com mais hipoglicemia — mantenha apenas em quem já usava em casa e não se consegue desmembrar.
Análogos de ação ultralonga (degludeca e glargina U300) levam de 3 a 4 dias para atingir o equilíbrio. Numa internação de cinco dias, você vai embora antes de ver o efeito de qualquer ajuste — e é por isso que NPH e glargina U100 são mais governáveis no hospital, mesmo sendo farmacologicamente menos elegantes.
O alvo de 100 a 180 mg/dL é o do paciente não crítico. O paciente instável, em vasopressor ou em ventilação mecânica tem outro alvo e outra via — insulina endovenosa contínua com protocolo padronizado —, e isso não se improvisa na enfermaria.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo abaixo é a do seu Nilton, do leito 8, escrita como se você fosse o interno responsável. Ela cobre a admissão, o primeiro dia, o ajuste diário, o dia em que ele entra em jejum para desbridamento e a alta. Toda dose vem com a fonte que a sustenta, entre parênteses, para você conseguir defender cada linha na visita — e para conseguir reconstruir a régua quando o paciente for outro.
Duas convenções antes de começar. Onde está escrito "insulina NPH" e "insulina regular", é porque são essas as insulinas que a assistência farmacêutica básica entrega, e o esquema inteiro funciona com elas; se o seu serviço tiver glargina e um análogo rápido, a estrutura não muda, mudam os horários. E a unidade se escreve por extenso: "unidades", nunca "U" — a abreviatura lida como zero é o erro de prescrição com maior desproporção entre a causa e o desfecho.
Admissão — os cinco minutos antes de escrever a primeira linha
Cinco perguntas, nenhuma delas sobre qual insulina. Quanto ele pesa? (78 kg, na balança do leito, não estimado — a dose inteira depende disso.) Ele come? (Sim, dieta livre, aceitando bem.) Como está a função renal? (Creatinina 1,0; filtração estimada acima de 60 mL/min/1,73 m² — não é o paciente da coluna sensível.) Qual o índice de massa corporal e há sinal de resistência insulínica? (1,70 m, IMC 27, sem corticoide — coluna usual.) E o que ele usava em casa? (Metformina 850 mg duas vezes ao dia e gliclazida 60 mg pela manhã; nunca usou insulina.) Só depois das cinco é que se calcula. E o peso, uma vez anotado no alto da folha, serve de referência até a alta.
Prescrição- Glicemia capilar antes do café da manhã, do almoço e do jantar, e ao deitar — anotar em impresso próprio (SBD 2025: as pré-prandiais titulam o bólus e a correção; a glicemia ao deitar é o parâmetro de segurança da madrugada)
- Hemoglobina glicada — solicitar hoje (SBD 2025, R3, classe I: pedida em todo paciente com hiperglicemia hospitalar confirmada ou diabetes conhecido, se não houver dosagem nos últimos 3 meses; separa diabetes de hiperglicemia de estresse e orienta a alta)
- Creatinina, ureia, sódio e potássio (a filtração decide o que pode voltar e desloca o paciente para a faixa baixa da dose; a hiperglicemia sustentada faz diurese osmótica e leva potássio junto)
- Cetonemia capilar — solicitar agora, com glicemia de 340 mg/dL (SBD 2025, R5, classe I: indicada acima de 250 mg/dL)
- Metformina 850 mg — SUSPENSA na internação (PCDT DM2, Portaria SCTIE/MS nº 13/2026: na maioria das vezes deve ser suspensa em caso de internação hospitalar; celulite extensa com risco de sepse e possibilidade de exame com contraste)
- Gliclazida 60 mg — SUSPENSA na internação (SBD 2025, R14, classe III: secretagogos não são recomendados no internado, pelo risco de hipoglicemia)
Admissão, dez minutos depois — a prescrição de insulina, escrita por extenso
A conta, feita à caneta na margem da folha. Ele teve quatro glicemias acima de 180 mg/dL nas últimas 24 horas e uma acima de 250 — hiperglicemia hospitalar persistente e grave, o que o coloca em basal-bólus, e não em basal-plus. Dose total diária: 0,4 unidade por quilo, o fator do meio da faixa, porque ele não é frágil nem obeso e não está em corticoide. Isso dá 31,2, que arredondo para 30 unidades por dia, para baixo, porque é o primeiro dia e eu vou titular amanhã com dado real. Metade vira basal: 15 unidades de NPH, divididas em dois terços pela manhã e um terço à noite. Metade vira prandial: 15 unidades de regular divididas pelas três refeições, 5 unidades em cada. E a correção entra por cima, na coluna usual, somada ao bólus na mesma aplicação.
Prescrição- Insulina humana NPH 100 UI/mL. Aplicar 10 unidades por via subcutânea às 7 horas e 5 unidades às 22 horas (SBD 2025, Quadro 2: dose total diária de 0,2 a 0,6 UI/kg/dia, sendo 50% como basal — 0,4 × 78 kg = 31,2, arredondado para 30 unidades, metade como basal; fracionamento de 2/3 pela manhã e 1/3 à noite conforme o PCDT DM2/2026 para NPH em duas doses)
- Insulina humana regular 100 UI/mL. Aplicar 5 unidades por via subcutânea 30 minutos antes do café da manhã, 5 unidades 30 minutos antes do almoço e 5 unidades 30 minutos antes do jantar (SBD 2025, Quadro 2: bólus corresponde a 50% da dose total diária, dividido em três refeições; insulina humana regular é aplicada 30 minutos antes da refeição)
- Insulina humana regular 100 UI/mL, ESCALA DE CORREÇÃO, por via subcutânea, SOMADA à dose de bólus acima, conforme a glicemia capilar do momento — coluna usual, fator de sensibilidade 40 (SBD 2025, Tabela 3; coluna escolhida por IMC de 27 kg/m², sem corticoide e sem sinal de resistência insulínica)
- Suspender o bólus fixo se o paciente não aceitar a refeição; manter a basal e a correção (SBD 2025, R13, classe IIa: suspender doses fixas de bólus em quem tem baixa aceitação de dieta oral)
- Se glicemia capilar abaixo de 70 mg/dL: administrar 23 gramas de glicose por via oral (0,3 g/kg), repetir a glicemia em 15 minutos e repetir a dose até ultrapassar 100 mg/dL. Se houver alteração do nível de consciência ou a via oral estiver indisponível: glicose 50% 40 mL por via endovenosa, em bólus lento (SBD 2025, R21 e R22, classe I)
- Comunicar o médico se glicemia capilar abaixo de 70 mg/dL ou acima de 400 mg/dL (o valor de baixo dispara revisão de dose no mesmo dia; o de cima dispara pesquisa de cetona e reavaliação clínica)
Dia 1, 22 horas — a primeira leitura que muda alguma coisa
As glicemias estão em queda e não houve hipoglicemia: manter o esquema com monitorização é razoável. A glicemia ao deitar informa risco noturno, mas não autoriza ou proíbe sozinha a basal. Valores próximos de 100 pedem avaliar tendência, alimentação, insulina ativa e função renal, com ajuste individual. Hipoglicemia, interrupção da dieta ou piora clínica exigem revisão naquele momento, sem esperar a visita do dia seguinte.
Prescrição- Manter o esquema. Aplicar insulina NPH 5 unidades por via subcutânea às 22 horas, conforme prescrito (a decisão de titulação é diária, a cada 24 a 48 horas — SBD 2025, R10, classe I)
- Acrescentar glicemia capilar às 3 horas da manhã nesta noite (é o único jeito de separar basal insuficiente de hipoglicemia noturna com contrarregulação, e as duas produzem a mesma glicemia alta às 7h — SBD 2025, Nota 3)
Dia 2, 7h40 — a visita, e o ajuste diário
Glicemia das 3h de 142 e jejum de 176 estão dentro do alvo de 100–180 para a maioria dos não críticos. Com trajetória em melhora e sem hipoglicemia, não há motivo para aumentar automaticamente a basal por esse jejum isolado. Manter 30 unidades/dia e reavaliar o perfil é uma decisão adequada. HbA1c de 9,4% sugere controle prévio inadequado e orienta desde já educação, escolha da terapia e seguimento.
Prescrição- Manter NPH 10 unidades pela manhã e 5 à noite neste momento; ajustar depois conforme padrão persistente, alimentação, função renal e risco de hipoglicemia.
- Insulina humana regular 100 UI/mL: manter 5 unidades 30 minutos antes de cada uma das três refeições (as glicemias pré-almoço e pré-jantar vinham em queda; bólus só se mexe quando a glicemia da refeição SEGUINTE está fora da meta)
- Manter a escala de correção na coluna usual (não houve necessidade repetida de correção alta; trocar de coluna dobraria toda a tabela de uma vez)
- Suspender a glicemia capilar das 3 horas (a dúvida que a motivou está resolvida — não houve hipoglicemia de madrugada)
Dia 3, 18 horas — a véspera do desbridamento: ele entra em dieta zero
O cirurgião marcou desbridamento para amanhã às 8h, e o paciente fica em jejum a partir da meia-noite. É aqui que a maioria dos erros com insulina acontece na enfermaria, e o erro tem duas caras opostas: suspender tudo, ou não suspender nada. A regra sai do mecanismo — a basal cobre a produção hepática de glicose, que não para em jejum, e por isso ela fica; o bólus cobre a refeição, que não vai existir, e por isso ele sai. A basal de longa duração é reduzida de 20% a 30% a partir da noite anterior, e a NPH cai pela metade na manhã do procedimento. E ele passa a ser o primeiro da fila cirúrgica: diabético em jejum empurrado para o fim da tarde é hipoglicemia por escala de sala.
Prescrição- Dieta zero a partir das 24 horas
- NPH da noite: individualizar conforme glicemia e risco; não aplicar automaticamente a toda NPH a redução descrita para análogo basal de longa ação. Registrar a dose decidida com anestesia/equipe responsável.
- Na manhã do procedimento, uma referência comum é metade da NPH habitual: se a dose matinal mantida é 10 unidades, administrar 5, com monitorização e ajuste ao contexto.
- Insulina humana regular, doses fixas de bólus: SUSPENSAS enquanto durar o jejum (SBD 2025, perioperatório, R12: as prandiais fixas são suspensas no jejum e mantidas apenas para correção)
- Insulina humana regular, escala de correção: manter, agora a cada 6 horas, junto com a glicemia capilar (SBD 2025, Nota 7: em ausência de refeições, a correção com insulina regular se faz a cada 6 horas)
- Glicemia capilar de 6 em 6 horas enquanto durar o jejum, e de hora em hora durante o procedimento (SBD 2025, perioperatório, R14: controle horário em cirurgias de médio e grande porte)
- Alvo glicêmico neste período: 140 a 180 mg/dL, evitando valores abaixo de 70 (SBD 2025, perioperatório, R13)
- Glicose IV conforme glicemia, tipo de diabetes, insulina ativa e duração do jejum. Não instituir automaticamente 500 mL para todo usuário de basal; contabilizar volume e monitorar. No diabetes tipo 1, manter insulina basal e suporte de glicose quando necessário.
- Agendar como primeiro caso da manhã — paciente diabético em jejum tem prioridade na programação cirúrgica
Dia 4, 14 horas — pós-operatório imediato, dieta liberada
No pós-operatório, confirme tolerância alimentar e tendência glicêmica antes de retomar doses habituais. Retorno da dieta não determina automaticamente a mesma basal anterior: inflamação, função renal e ingestão podem ter mudado. Quando a quantidade a ingerir for incerta, análogo rápido administrado imediatamente após a refeição é uma opção; insulina regular tem início mais lento e exige estratégia própria, evitando sobreposição de correções.
Prescrição- Suspender o soro glicosado assim que a aceitação oral estiver estabelecida
- Reavaliar retomada de NPH, usando o esquema anterior de 10 pela manhã e 5 à noite como referência, com ajuste pela situação atual; não reiniciar 12/6 que não foi necessário neste caso.
- Prandial conforme carboidrato/ingestão prevista e protocolo. Confirmar que a refeição está disponível antes de regular; se ingestão incerta, discutir dose após refeição ou alternativa rápida e evitar regras rígidas de meio prato sem considerar seu conteúdo.
- Insulina humana regular, escala de correção: retomar antes das três refeições e ao deitar, coluna usual
- Glicemia capilar antes das três refeições e ao deitar
Dia 6 — a alta, que é onde a internação vira desfecho
A perna está limpa, a febre não voltou, ele come normalmente e as capilares dos dois últimos dias ficaram entre 118 e 172 mg/dL, com a dose de 30 unidades por dia. A decisão de alta se toma com a glicada de 9,4% na mão, e ela diz uma coisa objetiva: o esquema de casa — dois orais — não estava controlando esse paciente antes mesmo de ele adoecer. Mandá-lo de volta com exatamente o que ele já usava é devolver o problema que produziu esta internação. A escolha é reintroduzir o que é seguro reintroduzir e acrescentar basal, na dose ambulatorial, com titulação que ele consiga fazer em casa. A dose hospitalar não vira dose de alta: no hospital ele estava em repouso, com dieta controlada e inflamação ativa; em casa, nenhuma dessas três coisas vale.
Prescrição- Metformina 850 mg, por via oral, duas vezes ao dia, após o almoço e o jantar — REINTRODUZIDA (SBD 2025, R15: pode ser retomada com o quadro agudo resolvido, paciente estável, filtração acima de 30 mL/min/1,73 m² e sem exame contrastado programado — as quatro condições estão cumpridas)
- Insulina humana NPH 100 UI/mL: aplicar 12 unidades por via subcutânea uma vez ao dia, antes de dormir (PCDT DM2, Portaria SCTIE/MS nº 13/2026: insulina basal iniciada em 0,1 a 0,2 UI/kg/dia — 0,15 × 78 kg = 11,7, arredondado para 12 unidades; quando se usa NPH, a dose se inicia à noite, antes da ceia)
- Titulação em casa: aumentar 2 unidades a cada 3 dias, até a glicemia de jejum ficar entre 80 e 130 mg/dL; não aumentar se houver qualquer glicemia abaixo de 70 mg/dL (PCDT DM2/2026: titular a cada 3 dias em 2 unidades, guiado pela glicemia de jejum)
- Gliclazida 60 mg: NÃO reintroduzida (ele passa a usar insulina basal; sulfonilureia associada à basal aumenta o risco de hipoglicemia sem ganho proporcional, e o PCDT DM2/2026 recomenda a gliclazida preferencialmente ao idoso justamente por esse risco)
- Glicemia capilar em jejum, diária, nas duas primeiras semanas; e uma glicemia antes do jantar duas vezes por semana (tiras, lancetas, seringas com agulha acoplada e glicosímetro em comodato são fornecidos pelo Componente Básico da assistência farmacêutica mediante receita e cadastro municipal)
- Retorno à unidade básica de saúde em até 7 dias, com a receita e o registro das glicemias; nova hemoglobina glicada em 3 meses (a glicada de 9,4% previa mau controle e necessidade de doses maiores — este paciente precisa de reavaliação curta, não semestral)
- Orientação de técnica antes da alta: rodízio de locais de aplicação, conservação do frasco, contagem até 10 antes de retirar a agulha do subcutâneo, e o que fazer diante de sintomas de hipoglicemia (PCDT DM2/2026 — a orientação sobre hipoglicemia é descrita como imprescindível e deve ser dada por todos os profissionais envolvidos)
Como saber se está funcionando
Reavaliar hiperglicemia no internado tem uma vantagem rara: o parâmetro chega pronto, quatro vezes por dia, escrito numa coluna. O problema é que quase todo mundo lê essa coluna como um bloco — "hoje ficou alto" — quando ela é, na verdade, quatro perguntas separadas. Cada glicemia é o espelho de uma fração específica da dose, e a leitura por horário é o que transforma quatro números num ajuste dirigido em vez de um aumento genérico.
A regra de leitura, em uma frase: a glicemia de jejum acusa a basal; cada glicemia pré-refeição acusa o bólus da refeição anterior. Quem entende isso ajusta a insulina certa; quem não entende aumenta tudo e produz hipoglicemia numa ponta enquanto a outra continua alta.
Rever glicemias e esquema diariamente, considerando padrão, alimentação, corticoide, função renal e doses realmente administradas. Hipoglicemia, interrupção da dieta ou mudança importante do contexto exigem ajuste imediato, sem esperar 24–48 horas. Evitar empilhar correções durante a ação da dose anterior. Em situação estável, ajustes graduais, frequentemente de 10–20%, podem orientar o plano, mas não são obrigatórios para toda medida isolada nem substituem a avaliação do risco.
Esperado: Dentro da meta de 100 a 180 mg/dL, e idealmente abaixo de 140 mg/dL. Uma glicemia de jejum na meta significa que a dose basal está certa, independentemente do que aconteceu no resto do dia.
Se não melhora: Jejum acima da meta por dois dias seguidos: aumente a fração BASAL em 10% a 20% da dose total diária — não o bólus. Antes de aumentar em paciente que já usa dose generosa, meça a glicemia às 3 horas: se ela estiver baixa, o jejum alto é contrarregulação a uma hipoglicemia noturna, e a conduta é reduzir a basal da noite, não aumentá-la. Jejum abaixo de 100 mg/dL, ou qualquer episódio abaixo de 70: reduza a basal em 20% no mesmo dia.
Esperado: Dentro da meta. Se a de jejum estava na meta e a pré-almoço subiu, o problema não é a basal: é a dose do café ou o intervalo entre a aplicação e o prato.
Se não melhora: Antes de aumentar a dose, confira o intervalo: insulina regular aplicada no momento da refeição, e não 30 minutos antes, produz exatamente esse padrão. Corrigido o horário e mantida a alta, aumente o bólus do café da manhã em 1 a 2 unidades e reavalie em 24 horas.
Esperado: Dentro da meta. Esta é a glicemia mais frequentemente esquecida e a que mais denuncia dois problemas distintos: bólus do almoço insuficiente e hiperglicemia por glicocorticoide.
Se não melhora: Paciente sem corticoide: aumente o bólus do almoço. Paciente em corticoide, com jejum na meta e pré-jantar alta: o padrão é o do corticoide, e a resposta é a NPH matinal proporcional à dose do glicocorticoide, titulada em 10% a 20% ou 0,1 unidade por quilo por dia, com reavaliação 24 horas depois. Reduziu o corticoide? Reduza a insulina no mesmo dia.
Esperado: Dentro da meta e acima de 100 mg/dL. Ela tem dupla função: titula o bólus do jantar e autoriza (ou não) a dose noturna de basal.
Se não melhora: Abaixo de 100 mg/dL, reduza a basal daquela noite e reavalie de manhã — aplicar a dose cheia com o paciente já perto do piso é criar hipoglicemia às 3 horas. Acima da meta com jejum normal, aumente o bólus do jantar. E se houver qualquer risco de hipoglicemia noturna — dose recém-aumentada, jejum, aceitação ruim, insuficiência renal —, prescreva a capilar das 3 horas.
Esperado: Poucas, e pequenas. A correção existe para ajustar o erro residual da previsão. Um esquema bem calibrado usa correção uma ou duas vezes por dia, com uma ou duas unidades.
Se não melhora: Correção aplicada em todas as medidas, ou em doses altas, significa que a parte fixa do esquema está subdimensionada — e não que a tabela precisa de degraus maiores. Some as unidades de correção das últimas 24 horas e incorpore-as à dose fixa: se ele levou 8 unidades de correção ao longo do dia, essas 8 unidades já são necessidade dele, e devem migrar para a basal e para os bólus na proporção dos horários em que foram usadas. Aumentar a tabela em vez de aumentar o esquema fixo é reconstruir a escala móvel dentro do basal-bólus.
Esperado: Nenhuma. Hipoglicemia se associou a aumento de mortalidade tanto em pacientes com diabetes quanto sem, e é o efeito adverso que mais frequentemente faz a equipe abandonar o esquema correto e voltar para a escala móvel.
Se não melhora: Corrija primeiro, pela via disponível, com a dose calculada por peso, repetindo a glicemia a cada 15 minutos até passar de 100 mg/dL. Depois — sempre — procure a causa antes de represcrever a mesma dose: a dieta foi suspensa e ninguém avisou? A sonda parou? O corticoide foi reduzido? A função renal caiu? O bólus foi aplicado e o prato voltou intacto? A sulfonilureia de casa continua na folha? Hipoglicemia corrigida e não investigada volta no mesmo horário no dia seguinte.
Esperado: Estável e conhecida. É o dado que autoriza ou não a fração prandial, e é o único parâmetro deste bloco que não sai de um exame.
Se não melhora: Aceitação caindo: suspenda o bólus fixo e passe a aplicá-lo imediatamente após a refeição, proporcional ao que foi comido, mantendo a basal e a correção. Paciente que parou de comer sem motivo claro merece uma pergunta a mais — náusea por gastroparesia, mucosite, depressão e disfagia mudam a conduta e não aparecem na coluna de capilar.
Esperado: Melhorando — e, com ela, a necessidade de insulina caindo. A resistência insulínica aguda é proporcional ao estresse: à medida que a infecção cede, a mesma dose passa a ser demais.
Se não melhora: Hiperglicemia que piora em paciente estável, sem mudança de dieta nem de corticoide, é sinal clínico, não erro de dose: procure foco infeccioso novo, abscesso não drenado, evento cardiovascular. E o inverso também vale — necessidade de insulina caindo rápido em paciente que vinha estável pede revisão de função renal e de aporte calórico antes que a queda vire hipoglicemia.
Esperado: Negativa. A cetoacidose euglicêmica é subdiagnosticada no hospital porque o gatilho mental de todo mundo é a glicemia alta, e nesse quadro ela pode não estar.
Se não melhora: Cetonemia acima de 1,5 mmol/L ou cetonúria positiva: suspenda o inibidor de SGLT2 e trate como cetoacidose, independentemente do valor da glicemia. O maior fator de risco identificado para esse desfecho no perioperatório é a redução do aporte de carboidrato — quer dizer, o jejum hospitalar.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro central deste capítulo e o mais comum do país: na coorte brasileira de um hospital geral, a escala móvel isolada era o tratamento mais frequente entre os pacientes tratados, e apenas metade dos hiperglicêmicos recebia algum tratamento. O dano é duplo. O paciente passa o dia acima da meta porque a necessidade basal fica descoberta e a correção chega horas depois do pico — e a hiperglicemia sustentada prejudica a função neutrofílica e a cicatrização, quer dizer, atrasa o tratamento da doença que motivou a internação. Todos os estudos que compararam a escala isolada com esquemas fixos mostraram inferioridade dela, e o ensaio em pacientes cirúrgicos mostrou redução de 64,6% no desfecho composto de mortalidade, infecção de sítio cirúrgico, pneumonia e falência renal aguda a favor do basal-bólus.
Como pegar a tempo: Use o critério aritmético, não a impressão: conte quantas glicemias por dia passaram de 180 mg/dL. Duas ou mais em 24 horas é hiperglicemia hospitalar persistente, e aí a correção isolada está formalmente contraindicada. A janela em que ela é aceitável é estreita — no máximo um episódio por dia acima de 180, nenhum acima de 250 e nenhum uso domiciliar de insulina. Fora dessa janela, escreva o esquema fixo.
O dano: É o erro que produz o paciente do leito 8. A suspensão dos orais está certa, mas ela remove o único tratamento que o paciente tinha; sem substituição, a hiperglicemia da internação é integralmente iatrogênica a partir daí. O quadro típico é o do diabético que vinha compensado em casa e passa a internação inteira acima de 250 mg/dL, com a equipe atribuindo isso ao "estresse da internação".
Como pegar a tempo: Trate a suspensão e a substituição como uma única decisão, escrita na mesma prescrição. Se você riscou metformina e sulfonilureia da folha, a linha seguinte é a insulina — com o cálculo por peso feito na hora, não "amanhã, se continuar alto".
O dano: O risco de acidose láctica por metformina é baixíssimo em condições normais, e é por isso que este erro é subestimado. O problema é que a internação cria justamente as condições em que ele deixa de ser baixo: sepse, hipotensão, queda aguda de filtração glomerular, insuficiência hepática descompensada e exames com contraste. Um paciente que interna com filtração normal pode estar com 25 mL/min/1,73 m² em 48 horas de sepse, e a metformina continua na folha porque ninguém revisou. Some-se a isso que ela não resolve a hiperglicemia aguda — o efeito demora dias.
Como pegar a tempo: Reavaliar metformina na admissão e suspendê-la diante de desidratação, hipóxia, hipoperfusão ou lesão renal aguda. Planejar reinício na estabilidade com dose renal apropriada. Contraste IV em paciente sem lesão renal aguda e filtração preservada não é contraindicação automática; seguir avaliação de risco e protocolo.
O dano: É o erro de fisiologia mais caro do capítulo. A produção hepática de glicose não para em jejum — ao contrário, aumenta, porque o jejum estimula glucagon e cortisol. O paciente em dieta zero sem basal sobe. E no diabético tipo 1, no LADA e no pancreatectomizado, a ausência de insulina basal libera a lipólise e a cetogênese: a cetoacidose se instala em horas, às vezes com glicemia apenas moderadamente alta, e o paciente que estava em jejum para um exame vai para a terapia intensiva por causa do jejum.
Como pegar a tempo: Grave a regra em duas metades com gatilhos diferentes: bólus tem como gatilho a refeição e sai no jejum; basal tem como gatilho o fígado e fica. Se o jejum for prolongado ou houver hipoglicemia prévia, reduza a basal de 20% a 30% — reduzir é ajuste, zerar é omissão. E, com basal a bordo e sem caloria entrando, prescreva glicose endovenosa.
O dano: O espelho do erro anterior, e a hipoglicemia mais previsível da enfermaria. A insulina prandial foi calculada para um prato que não chegou, ou que voltou intacto. O intervalo entre a aplicação e a descoberta de que ele não comeu costuma ser de 30 a 60 minutos — tempo suficiente para a insulina já estar circulando. É o mecanismo típico da hipoglicemia do pós-operatório, do paciente com náusea e do idoso com delirium que empurra a bandeja.
Como pegar a tempo: Prescreva a condicional desde o início: suspender o bólus fixo se a aceitação for ruim, e passar a aplicá-lo imediatamente após a refeição, proporcional à fração comida — dose cheia se comeu metade ou mais, metade da dose se comeu menos, nada se recusou. Nas duas primeiras refeições após qualquer procedimento, aplique sempre depois.
O dano: Duas situações opostas produzem exatamente a mesma glicemia alta às 7 horas: basal insuficiente, que deixa a glicemia subir a noite inteira, e basal excessiva, que causa hipoglicemia de madrugada seguida de contrarregulação. Sem a medida das 3 horas, elas são indistinguíveis — e o reflexo de aumentar a basal, aplicado ao segundo caso, aprofunda a hipoglicemia noturna na noite seguinte. A hipoglicemia da madrugada é, além disso, a mais perigosa: o paciente dorme, os sintomas adrenérgicos não acordam ninguém, e ela só é descoberta na capilar da manhã — ou não é descoberta.
Como pegar a tempo: Prescreva a capilar das 3 horas em quem tem risco: dose de basal recém-aumentada, jejum, aceitação ruim, insuficiência renal, idoso frágil, uso de sulfonilureia que ficou na folha por engano. Ela é um exame de uma noite, não uma rotina permanente — pedida para responder a uma pergunta e retirada quando a pergunta é respondida.
O dano: A correção resolve os próximos quinze minutos; a causa continua prescrita. Hipoglicemia no hospital quase sempre tem explicação identificável — dieta suspensa sem aviso, sonda interrompida, corticoide reduzido sem reduzir a insulina, queda de função renal prolongando a ação da insulina circulante, sulfonilureia que sobreviveu à admissão, bólus aplicado antes de uma refeição que não veio. Corrigida sem investigação, ela reaparece no mesmo horário no dia seguinte. E cada episódio empurra a equipe a abandonar o esquema fixo e voltar para a escala móvel — trocando um erro reversível por um erro sistemático.
Como pegar a tempo: Trate cada hipoglicemia como evento sentinela, com duas perguntas obrigatórias registradas na evolução: o que mudou nas últimas 24 horas, e qual linha da prescrição precisa mudar hoje. Uma hipoglicemia com causa identificada e corrigida não obriga a reduzir a dose; uma hipoglicemia sem causa identificada obriga.
O dano: É o erro que transforma uma internação bem conduzida em reinternação. O paciente sai com a mesma receita que já não o controlava — e o dado que provaria isso, a hemoglobina glicada, foi dosado em 2,2% dos pacientes na coorte brasileira. O caso mais grave é o do paciente sem diagnóstico prévio de diabetes: mais de um terço dos hiperglicêmicos internados está nessa condição, e sem a glicada ninguém sabe se aquilo era hiperglicemia de estresse, que vai embora, ou diabetes recém-descoberto, que vai continuar sem tratamento até a próxima internação.
Como pegar a tempo: Peça a glicada na admissão, não na véspera da alta — o resultado precisa estar na mão quando a decisão for tomada. E escreva a alta em quatro linhas: o que volta (e sob quais condições), o que entra de novo, como o paciente titula em casa, e quando ele é reavaliado. Insulina de alta é prescrita na dose ambulatorial por peso, não na dose hospitalar: no hospital ele estava imobilizado, com dieta controlada e inflamação ativa — em casa, nenhuma dessas três coisas vale.
O que dizer ao paciente e à família
Duas conversas acontecem sempre neste capítulo, e as duas são mais difíceis do que parecem. A primeira é com o paciente que vai receber insulina pela primeira vez e entende isso como sentença: "então piorei". A segunda é a da alta, em que você precisa transformar um esquema hospitalar em algo que uma pessoa vai executar sozinha, na cozinha de casa, com uma seringa.
O erro de comunicação mais comum aqui não é falar demais — é falar sobre o número. Paciente nenhum se assusta com "180 mg/dL"; ele se assusta com "agora o senhor vai ter que tomar injeção". A conversa útil é sobre o que a insulina faz e quanto tempo ela fica, não sobre a meta glicêmica.
"Doutor, eu nunca tomei insulina. Então meu diabetes piorou?"
“Entendo o susto, e a resposta é não — não é que o seu diabetes piorou. É que o senhor está doente agora, e o corpo, quando está combatendo uma infecção, produz uns hormônios que jogam o açúcar para cima. Isso acontece até com quem não tem diabetes nenhum. Os comprimidos que o senhor toma em casa são bons, mas eles são lentos: demoram dias para ajustar e a gente não consegue mexer neles de um dia para o outro. Aqui dentro o seu açúcar muda todo dia — depende de o senhor comer, de ficar em jejum para um exame, de como a perna está respondendo ao antibiótico. A insulina é a única que eu consigo aumentar hoje e diminuir amanhã. É por isso que ela entra: não porque o senhor piorou, mas porque aqui eu preciso de uma ferramenta que responda rápido.”
Não diga: Evite "é só enquanto o senhor estiver aqui" quando você ainda não sabe se ele vai de alta com insulina — a promessa que não se cumpre custa a adesão. Diga o que é verdade: que a decisão da alta se toma com o exame de hemoglobina glicada, e que vocês vão conversar sobre isso antes de ele ir embora.
O paciente entende insulina como fracasso pessoal: "eu não me cuidei"
“Isso que o senhor está sentindo é muito comum, e eu quero desfazer. Diabetes tipo 2 é uma doença que muda com o tempo — o pâncreas vai produzindo menos insulina ao longo dos anos, e isso acontece mesmo com quem faz tudo certo. Precisar de insulina não é castigo por nada; é o estágio da doença. Muita gente chega nesse ponto depois de dez, quinze anos, e continua vivendo normal. O que eu preciso do senhor não é culpa — é que o senhor aprenda a aplicar e a reconhecer quando o açúcar cai. Isso a gente treina aqui, com calma, antes da alta.”
Não diga: Evite frases que confirmem a culpa mesmo em tom de incentivo — "se o senhor tivesse feito a dieta direitinho" é o tipo de comentário que produz paciente que esconde os números. E evite prometer que a insulina será temporária para consolar; se ela for definitiva, ele vai descobrir sozinho e vai deixar de confiar no que você disser depois.
Medo específico da agulha e da aplicação
“A agulha da insulina não é a agulha da coleta de sangue — ela é curtinha e fina, e vai só na gordura debaixo da pele, não no músculo. Muita gente diz que dói menos que a picada no dedo para medir. Eu vou pedir para a enfermagem aplicar junto com o senhor hoje, o senhor olha; amanhã o senhor aplica e a gente olha. Antes da alta o senhor já vai ter feito sozinho três ou quatro vezes. E a gente vai revezar o lugar — barriga, coxa, braço — para não endurecer a pele sempre no mesmo ponto.”
Não diga: Evite "não dói nada". Dói um pouco, ele vai descobrir na primeira aplicação, e a partir daí duvida do resto. Evite também entregar a caixa com a receita e mandar aprender em casa: técnica de aplicação se ensina com a pessoa segurando a seringa, com você olhando.
Explicar hipoglicemia sem assustar — e sem subestimar
“Tem uma coisa que o senhor precisa saber de cor, e é a única que eu vou pedir para o senhor decorar. Se der suor frio, tremor, coração acelerado, fome súbita, tontura ou visão embaçada, pode ser o açúcar baixo. O que fazer: tomar um copo de suco ou água com três colheres de açúcar, na hora, e medir o dedo em quinze minutos. Se não melhorar, repete. E me avisa — ou avisa o posto — se acontecer, porque isso significa que a dose precisa ser mudada, e não que o senhor fez algo errado. Açúcar baixo não é para aguentar em casa esperando passar.”
Não diga: Evite a lista completa de sintomas em ordem de gravidade — ela é longa demais para quem está ansioso e ele não vai reter. Fique nos cinco primeiros. E evite dizer "come alguma coisa doce": chocolate e doce com gordura demoram a subir a glicemia, e o paciente acha que não funcionou.
A alta: transformar o esquema hospitalar em rotina de casa
“O que o senhor vai levar é mais simples do que o que a gente fez aqui dentro. Aqui eram três ou quatro aplicações por dia porque o senhor estava em jejum uns dias, comendo pouco em outros, e eu precisava mexer todo dia. Em casa é uma aplicação só, à noite, antes de dormir, e o comprimido volta nas refeições. O senhor vai medir o dedo em jejum, de manhã, e anotar num papel. Se ficar alto por três dias seguidos, aumenta duas unidades — eu vou deixar escrito exatamente assim na receita. Se der abaixo de 70, não aumenta nada e me procura. Em uma semana o senhor leva esse papel para o posto.”
Não diga: Evite entregar a dose hospitalar como dose de casa — no hospital ele estava deitado, comendo dieta controlada e com infecção ativa, e nenhuma das três coisas vale em casa. E evite marcar o retorno para "daqui a três meses": paciente que sai do hospital com insulina nova precisa de alguém olhando os números na primeira semana.
A família pergunta: "ele vai ficar tomando insulina para sempre?"
“Ainda não dá para responder isso com certeza, e eu prefiro dizer isso do que chutar. O que a gente sabe hoje: o exame de três meses mostrou que o tratamento anterior não estava controlando o açúcar dele antes mesmo desta internação. Então voltar exatamente para o que ele tomava seria repetir o que já não funcionou. A insulina da noite entra agora com esse papel. Daqui a três meses, com o novo exame e com ele fora da infecção, o médico do posto vai reavaliar — pode ser que reduza, pode ser que retire, pode ser que mantenha. O que eu não faço é decidir isso hoje, com ele saindo de uma infecção grave.”
Não diga: Evite "depende dele" — soa como transferência de responsabilidade e não informa nada. E evite prometer retirada futura para acalmar a família; a incerteza dita com clareza é mais confiável que a promessa que talvez não se cumpra.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Acima de 140 mg/dL — posição da edição de 2025 da diretriz brasileira
A recomendação R1 da edição de 2025 define hiperglicemia hospitalar por glicemia capilar ou plasmática acima de 140 mg/dL, em qualquer paciente, com ou sem diabetes prévio, por associação a piores desfechos clínicos. O argumento é de sinal: a análise de mais de 431 mil cirurgias mostrou relação em U entre a média glicêmica dos três primeiros dias de pós-operatório e a mortalidade em 30 dias nos procedimentos cardíacos, com nadir em torno de 140 mg/dL e subida das complicações acima desse valor. Consequência prática: o paciente entre 140 e 180 mg/dL entra em monitorização de glicemia capilar e pode receber correção para hiperglicemias eventuais.
Sociedade Brasileira de Diabetes — Manejo da hiperglicemia hospitalar em pacientes não-críticos, Diretriz SBD Ed. 2025, R1 (classe I, nível B) e Tabela 1
Acima de 180 mg/dL — posição da edição de 2024 da mesma diretriz
A edição anterior do mesmo capítulo reconhecia a associação de desfechos a partir de 140 mg/dL, mas argumentava que muitos desses pacientes não teriam hiperglicemia persistente confirmada e que as evidências entre 140 e 180 mg/dL não eram consistentes no paciente não crítico. O painel de 2024 concluiu que monitorar nessa faixa não é custo-efetivo, já que a indicação de intervenção farmacológica começa acima de 180 mg/dL — e por isso fixou 180 mg/dL como ponto de corte para rastreio e intervenção.
Sociedade Brasileira de Diabetes — Hiperglicemia Hospitalar no Paciente Não-Crítico, Diretriz SBD Ed. 2024 (revisão de 20/06/2024), R1 e Nota importante 1
Note que as duas edições concordam no que importa para o tratamento: a intervenção farmacológica começa acima de 180 mg/dL, e hiperglicemia persistente continua definida por duas ou mais medidas acima de 180 em 24 horas. O que muda entre elas é quem entra na lista de monitorização. Para o paciente à sua frente, isso vira uma decisão de rendimento: se ele tem fator de risco — corticoide, dieta enteral ou parenteral, jejum, soluções glicosadas, pós-operatório recente, sepse, obesidade, transplante, diabetes conhecido ou hiperglicemia hospitalar prévia —, uma glicemia de 150 mg/dL merece capilar seriada, porque a probabilidade de ele chegar a hiperglicemia persistente é alta. Num paciente sem nenhum desses fatores e com glicemia de 150 isolada, medir todo dia consome recurso de enfermagem e não muda conduta. O erro que nenhuma das duas posições autoriza é o inverso: deixar de medir em quem tem fator de risco porque a primeira glicemia não bateu 180.
100 a 180 mg/dL — posição adotada pela diretriz brasileira para o não crítico
A recomendação R7 fixa a faixa de 100 a 180 mg/dL no paciente não crítico, com ou sem diabetes, e a justifica pelos dois lados da curva: a metanálise de pacientes não críticos mostrou redução de risco relativo de infecção de 0,41 com controle glicêmico, e a análise de mais de 52 mil pacientes mostrou que média glicêmica acima de 180 mg/dL se associou a risco relativo de mortalidade de 4,20 em quem não tem diabetes. O piso em 100, e não mais baixo, existe porque a mortalidade volta a subir abaixo de 70 mg/dL. É a mesma faixa recomendada pela Endocrine Society desde 2012 e adotada pela American Diabetes Association em 2023.
Sociedade Brasileira de Diabetes — Manejo da hiperglicemia hospitalar em pacientes não-críticos, Diretriz SBD Ed. 2025, R7 (classe I, nível B)
140 a 180 mg/dL — faixa derivada do NICE-SUGAR, mantida no crítico e no perioperatório
O ensaio NICE-SUGAR, conduzido em pacientes graves, mostrou que o controle estrito entre 81 e 108 mg/dL se associou a maior mortalidade que a faixa de 140 a 180 mg/dL, e isso levou à mudança das metas no consenso de 2009. Embora o estudo tenha sido desenhado para o paciente crítico, a faixa de 140 a 180 mg/dL foi extrapolada para o internado não crítico como forma de equilibrar o benefício do controle contra o risco de hipoglicemia. A própria diretriz brasileira mantém essa faixa como alvo no paciente crítico e no perioperatório.
Sociedade Brasileira de Diabetes — Hiperglicemia hospitalar no paciente crítico, Diretriz SBD Ed. 2025, R4; e Rastreio e Controle da Hiperglicemia no Perioperatório, Diretriz SBD Ed. 2025, R13
As duas faixas têm o mesmo teto e diferem no piso, e o piso é uma decisão sobre quanto risco de hipoglicemia aquele paciente tolera. Puxe para o piso mais baixo quando a hipoglicemia for improvável e o benefício de infecção contar muito: paciente jovem, comendo bem, sem insuficiência renal, sem episódio prévio de hipoglicemia, em pós-operatório de cirurgia limpa ou com infecção ativa. Puxe para 140 quando o custo de uma hipoglicemia for alto ou a chance dela ser grande: idoso frágil, insuficiência renal ou hepática, jejum, aceitação oral instável, nutrição que pode ser interrompida, história de hipoglicemia sem sintomas de aviso, paciente sozinho no leito à noite. A assimetria de reversibilidade ajuda a decidir: uma glicemia de 190 durante alguns dias tem custo pequeno e recuperável; uma hipoglicemia grave na madrugada pode não ser recuperável. Em quem está instável, em vasopressor ou em ventilação mecânica, a faixa é a do crítico, e não há escolha a fazer.
Manutenção no internado não crítico estável — posição da diretriz brasileira para o paciente clínico
A recomendação R17 considera a manutenção do inibidor de SGLT2 em pacientes internados não críticos com diabetes tipo 2, principalmente naqueles com insuficiência cardíaca. A base é uma análise retrospectiva de quase 6 mil internações em que o uso foi mantido, comparadas a mais de 30 mil em que foi suspenso: ajustado por gravidade, idade, sexo, índice de massa corporal, uso de insulina e procedimentos cirúrgicos, o grupo que manteve teve risco de mortalidade 45% menor, sem aumento de insuficiência renal aguda. Some-se o benefício de descongestão e de redução de reinternação por insuficiência cardíaca demonstrado em pacientes estabilizados. A trava de segurança é a monitorização de cetonas, com suspensão se a cetonemia passar de 1,5 mmol/L ou a cetonúria for positiva.
Sociedade Brasileira de Diabetes — Manejo da hiperglicemia hospitalar em pacientes não-críticos, Diretriz SBD Ed. 2025, R17 (classe IIb, nível B) e R18 (classe I, nível C)
Suspensão programada antes de procedimento — posição da diretriz brasileira para o perioperatório
A recomendação perioperatória determina a suspensão dos inibidores de SGLT2 de 3 a 4 dias antes de cirurgia de grande porte ou de procedimento invasivo planejado, para redução do risco de cetoacidose diabética euglicêmica. A revisão sistemática de episódios de cetoacidose no perioperatório identificou que o maior fator de risco foi a modificação da dieta, especialmente a redução do aporte de carboidrato — quer dizer, exatamente o que o hospital faz com o paciente que vai ser operado. E o risco de base não é desprezível: em coortes do Canadá e do Reino Unido, com mais de 350 mil pacientes, os inibidores de SGLT2 tiveram incidência de cetoacidose de 2,03 por mil pacientes-ano contra 0,75 dos inibidores de DPP-4.
Sociedade Brasileira de Diabetes — Rastreio e Controle da Hiperglicemia no Perioperatório, Diretriz SBD Ed. 2025, R6
A divergência aparente se dissolve quando você olha para o que as duas posições estão medindo, e a variável que as separa não é a droga — é a comida. O inibidor de SGLT2 é seguro no internado que continua se alimentando e perigoso no internado que vai parar de comer. Faça três perguntas na admissão. Este paciente vai a jejum ou a procedimento nos próximos dias? Se sim, suspenda agora, e conte que precisa de 3 a 4 dias de antecedência — decidir na véspera é tarde. Ele está estável, comendo, e tem insuficiência cardíaca? Aí manter tem benefício demonstrável, com cetona monitorada. Ele está em jejum, com aporte calórico reduzido, vomitando ou com dor abdominal? Suspenda e dose cetona, mesmo que a glicemia esteja normal — é o cenário em que a cetoacidose euglicêmica passa despercebida, e passa justamente porque o número que todo mundo olha está bom. E há uma quarta questão, que é de continuidade: o inibidor de SGLT2 que sai para a cirurgia precisa de alguém encarregado de reintroduzi-lo antes da alta, porque o benefício cardiovascular dele mora fora do hospital.
Infusão endovenosa contínua no paciente crítico — posição da diretriz brasileira de terapia intensiva
A recomendação R6 do capítulo do paciente crítico indica insulina endovenosa em infusão contínua para tratar hiperglicemia no paciente grave, por maior eficácia em atingir as metas terapêuticas, com protocolo padronizado, de fácil execução e adaptável à sensibilidade individual. A vantagem farmacológica é de controle: a meia-vida da insulina endovenosa é de minutos, o que permite corrigir para cima e para baixo em tempo real num paciente cuja resistência insulínica muda de hora em hora — com vasopressor, corticoide, sedação e aporte calórico variando junto. Os dados de transição corroboram: numa série de 200 pacientes, o tempo no alvo de 80 a 180 mg/dL caiu de 80,3% na insulina endovenosa para 43,9% depois da passagem para a subcutânea.
Sociedade Brasileira de Diabetes — Hiperglicemia hospitalar no paciente crítico, Diretriz SBD Ed. 2025, R6 e R7, e Nota importante 8
Subcutânea em esquema basal, basal-plus ou basal-bólus fora da terapia intensiva — posição da diretriz brasileira do perioperatório
A recomendação perioperatória reserva a insulina regular endovenosa ao período intraoperatório e ao pós-operatório imediato de cirurgias de grande porte em paciente que está em unidade de terapia intensiva, e indica a via subcutânea em esquema basal, basal-plus ou basal-bólus para os internados não críticos com hiperglicemia no perioperatório. O contraponto de segurança está na mesma literatura de transição: a insulina endovenosa produziu mais hipoglicemia moderada e grave que a subcutânea na mesma coorte — glicemia entre 40 e 60 mg/dL em 14% contra 3%, e abaixo de 40 mg/dL em 3,5% contra nenhum caso. E ela exige infraestrutura que a enfermaria não tem: bomba de infusão dedicada e glicemia de hora em hora.
Sociedade Brasileira de Diabetes — Rastreio e Controle da Hiperglicemia no Perioperatório, Diretriz SBD Ed. 2025, R15 e R16
A pergunta não é qual via é melhor, é onde o paciente está e o que a unidade consegue sustentar. Insulina endovenosa contínua só é segura com três coisas simultâneas: paciente monitorizado, glicemia de hora em hora e uma equipe treinada no protocolo. Faltando qualquer uma, a via endovenosa deixa de ser controle fino e vira risco de hipoglicemia sem testemunha — e é por isso que ela não sobe para a enfermaria junto com o paciente. Para você, que trabalha fora da terapia intensiva, a decisão relevante é a da transição, e ela tem critérios objetivos: glicemias estáveis nas últimas 4 a 6 horas, estabilidade clínica e hemodinâmica, sem vasopressor, baixa variabilidade na dose de infusão e dieta definida. Quando esses critérios não se cumprem, o paciente ainda não é seu. Quando se cumprem, a regra que evita o acidente clássico é uma só: a insulina subcutânea entra antes de a bomba desligar — a basal de 2 a 3 horas antes, a de ação rápida ao menos 1 hora antes. Desligar a infusão sem cobertura subcutânea é o erro mais descrito dessa passagem, e num diabético tipo 1 ele produz cetoacidose antes do fim do plantão.
O raciocínio, em voz alta
Dona Marlene, 71 anos, 64 kg, 1,58 m. Internada há cinco dias por acidente vascular cerebral isquêmico de território de artéria cerebral média esquerda, com hemiparesia à direita e disfagia grave documentada na avaliação fonoaudiológica. Está com sonda nasoenteral, em dieta enteral contínua a 60 mL/hora desde ontem. Tem diabetes tipo 2 há oito anos, usava metformina 850 mg duas vezes ao dia em casa — suspensa na admissão — e nunca usou insulina. Creatinina de 1,4 mg/dL, com filtração estimada em torno de 35 mL/min/1,73 m². Não está em corticoide. As glicemias das últimas 24 horas, colhidas de 6 em 6 horas: 268, 310, 244, 292. Na prescrição, uma linha: insulina regular conforme glicemia capilar, se acima de 250 mg/dL.
o que penso antes de pedir ou prescrever qualquer coisa
Três coisas me chamam a atenção antes de qualquer conta. A primeira: quatro glicemias em 24 horas, todas acima de 180 e três acima de 250 — isso é hiperglicemia hospitalar persistente e grave, e coloca a paciente na indicação de esquema fixo, com a correção isolada formalmente contraindicada. A segunda: ela não come pela boca, recebe caloria 24 horas por dia. Não existem três picos prandiais para cobrir; existe um platô. Isso muda a forma do esquema, não a existência dele. A terceira: 71 anos, filtração de 35 mL/min/1,73 m² e nenhuma experiência prévia com insulina. Os três me empurram para a faixa baixa da dose e para a coluna sensível da tabela de correção — o rim depura insulina, e o que sobra circula por mais tempo.
o que peço, e o que cada exame responde
Hemoglobina glicada, se não houver dos últimos três meses: ela me diz se o esquema de casa estava funcionando e é o que vai decidir o que ela leva na alta — e nesta paciente, que vai sair com disfagia e provavelmente com sonda, a decisão de alta é complexa e precisa desse dado com antecedência. Sódio e potássio: quatro dias acima de 250 mg/dL produzem diurese osmótica, e potássio e magnésio saem junto. Repito a creatinina: a dose de insulina que eu vou calcular depende dela, e uma filtração que caiu mais desde a admissão me obriga a reduzir. Não peço cetona: ela não usa inibidor de SGLT2, não tem sintoma sugestivo, e a maior glicemia foi 310 — o gatilho de 250 mg/dL para pesquisa de cetona é razoável de aplicar aqui, e se eu tiver a fita disponível eu faço, mas isso não muda a prescrição que eu vou escrever agora. Não peço curva glicêmica nem peptídeo C: nenhum dos dois muda a dose de hoje.
a conta, feita por extenso
Dose total diária: escolho 0,3 unidade por quilo por dia, a faixa baixa, por causa da idade e da filtração de 35. Isso dá 0,3 × 64 = 19,2, que arredondo para 20 unidades por dia. Em dieta contínua a fração basal sobe: em vez dos 50% do paciente que come, uso 60%, dentro da faixa de 50% a 80% que a diretriz define para esse cenário. Sessenta por cento de 20 são 12 unidades de basal. Como a insulina que eu tenho é NPH e a dieta corre 24 horas, divido a basal em três doses iguais de 4 unidades, de 8 em 8 horas — isso cobre o platô sem os vales que duas doses deixariam. Os 40% restantes, 8 unidades, são a fração de bólus; em dieta contínua ela não se divide por refeição, se divide pelo relógio: 8 dividido por 4 dá 2 unidades a cada 6 horas, casadas com a glicemia capilar do mesmo horário. A correção entra por cima, na coluna sensível, somada a essas 2 unidades.
a prescrição que eu escrevo agora
Insulina humana NPH 100 UI/mL: 4 unidades por via subcutânea às 6, às 14 e às 22 horas. Insulina humana regular 100 UI/mL: 2 unidades por via subcutânea a cada 6 horas, às 6, 12, 18 e 24 horas, junto com a glicemia capilar. Insulina humana regular, escala de correção pela coluna sensível, somada à dose fixa acima, conforme a glicemia capilar do mesmo horário. Glicemia capilar de 6 em 6 horas. E a linha que fecha o buraco mais perigoso deste cenário: se a dieta enteral for interrompida por qualquer motivo — obstrução da sonda, jejum para exame, transporte, remoção acidental —, iniciar soro glicosado 5% endovenoso e comunicar o médico. Escrita assim, como condicional na folha, essa linha não depende de ninguém lembrar do combinado verbal às três da manhã.
como a resposta de amanhã muda o que eu penso
Em dieta contínua não há glicemia de jejum nem pré-prandial — o que eu leio é a média das quatro medidas e a tendência entre elas. Se as quatro caírem juntas para dentro da meta, mantenho. Se todas continuarem acima, aumento a dose total diária em 10% a 20% e distribuo a diferença mantendo a proporção de 60% basal e 40% de bólus. Se apenas uma das quatro estiver alta, o problema é de horário, não de dose total: a medida das 12 horas alta com as outras normais aponta para a dose das 6 horas insuficiente. E se qualquer uma delas vier abaixo de 100, reduzo antes que vire hipoglicemia — nesta paciente, com filtração de 35 e sem sintomas de aviso confiáveis por causa do acidente vascular, eu não espero o episódio para reagir.
por que a resposta reflexa estava errada
A linha que estava na prescrição — regular se acima de 250 — falhava por três motivos ao mesmo tempo nesta paciente. Não cobria a necessidade basal, que numa paciente recebendo carboidrato 24 horas por dia é o componente maior do problema. Tinha um degrau de partida acima da faixa em que ela passava a maior parte do dia, o que explica por que a glicemia de 244 não recebeu nada. E, mesmo quando disparava, entregava insulina depois de o platô já estar estabelecido, sem nada mantendo o resultado nas horas seguintes. O paciente em dieta contínua é, aliás, o que mais claramente expõe o defeito da escala móvel isolada: não há refeição para culpar pelo pico, e mesmo assim a glicemia não desce.
Faça você
Seu Aparecido, 68 anos, 82 kg, 1,74 m. Internado há três dias por exacerbação de doença pulmonar obstrutiva crônica, em prednisona 40 mg por dia por via oral desde a admissão, com previsão de completar cinco dias e suspender, sem uso crônico prévio de corticoide. Tem diabetes tipo 2 há seis anos, usava metformina 850 mg duas vezes ao dia — suspensa na admissão — e nunca usou insulina. Está comendo bem as três refeições. Creatinina de 0,9 mg/dL, com filtração acima de 60 mL/min/1,73 m². Nenhum episódio de hipoglicemia. As glicemias das últimas 24 horas: jejum 118 mg/dL, pré-almoço 172 mg/dL, pré-jantar 328 mg/dL, ao deitar 296 mg/dL. Na prescrição, nada além de insulina regular conforme glicemia capilar acima de 250 mg/dL, que foi aplicada duas vezes ontem.
o padrão que os quatro números desenham quando lidos por horário
Jejum normal, pré-almoço quase normal, pré-jantar e ao deitar muito altas. Não é hiperglicemia difusa: é hiperglicemia com hora marcada, concentrada na tarde e na noite, com a manhã limpa. Esse desenho tem um dono conhecido — é a curva do glicocorticoide, que produz pico glicêmico entre o meio da tarde e o começo da noite, com glicemias mais baixas de manhã.
o que esse padrão exclui, e por que a leitura por horário importa
O padrão favorece hiperglicemia associada à prednisona matinal. Ele desaconselha aumentar indiscriminadamente a basal noturna, mas não proíbe basal-bólus individualizado. NPH pela manhã é uma opção; escolha dose e correção considerando idade, função renal, ingestão e tratamento prévio.
a insulina cujo perfil espelha esse padrão
Existe uma insulina cuja curva farmacocinética acompanha a do corticoide quando aplicada pela manhã, e é a NPH. A dose acompanha a potência do glicocorticoide numa escada conhecida, ancorada no equivalente de prednisona e no peso do paciente. É recomendação de classe IIb, apoiada em ensaios pequenos e numa revisão sistemática, e vale para o paciente com hiperglicemia predominante ou exclusivamente vespertina — que é exatamente este.
a armadilha que está marcada no calendário
A necessidade de insulina pode cair quando o corticoide termina. Na exacerbação de DPOC, curso curto de prednisona costuma durar cinco dias, sem desmame se não houver uso prolongado prévio ou outra indicação. Planeje redução da insulina associada ao corticoide e siga glicemias; diabetes prévio pode continuar exigindo tratamento.
conduta: escreva a prescrição de insulina deste paciente para as próximas 24 horas, com dose, via e horário, o esquema de monitorização, e o que você deixa escrito para o dia em que o corticoide for reduzido
— sua vez —
Ver como fecharíamos
A distribuição das glicemias favorece efeito da prednisona matinal. NPH pela manhã, junto ao corticoide, é uma opção supervisionada. O algoritmo de 0,1 unidade/kg para cada 10 mg de prednisona daria 0,4 × 82 = 32,8 unidades, aproximadamente 33; esse valor é uma referência de protocolo, não dose obrigatória. Avalie risco de hipoglicemia e considere início menor/titulação quando necessário. Escolha correção pela sensibilidade individual, sem tornar todo uso de corticoide uma indicação automática de coluna resistente. Monitore antes das refeições e ao deitar e ajuste pelo padrão; insulina prandial pode ser acrescentada se necessária, sem proibição baseada em uma glicemia de jejum normal. Ao terminar a prednisona, reduza prontamente a parcela de insulina que foi acrescentada por ela e siga as medidas, sem suspender automaticamente todo tratamento do diabetes prévio. Com função renal e alimentação estáveis, reavalie metformina. O plano precisa dizer dose de hoje, horários, limiares de contato e quem revisará no dia da suspensão do corticoide.
Hipoglicemia nível 3 é evento grave com comprometimento que exige ajuda de outra pessoa, independentemente de um corte numérico específico, e a via é endovenosa: 20 a 30 gramas de glicose em bólus lento, com reavaliação da glicemia a cada 15 minutos até passar de 100 mg/dL. A conversão prática vale memorizar: cada 10 mL de glicose 50% contém 5 gramas, então 20 gramas correspondem a 40 mL. Esperar para confirmar é perder tempo em evento que se corrige em minutos. O glucagon 1 mg intramuscular ou subcutâneo é a alternativa quando não há acesso venoso, e aqui há. Quinze gramas por sonda com paciente sonolento acrescenta risco de aspiração e reavaliação em uma hora é tardia demais. E o item que fecha a conduta é o que mais se esquece: corrigir sem investigar faz o episódio voltar no mesmo horário no dia seguinte — procure dieta suspensa, sonda interrompida, corticoide reduzido, queda de função renal, bólus aplicado antes de refeição não ingerida ou secretagogo que sobreviveu à admissão. Suspender a basal de vez seria trocar um erro reversível por um erro sistemático.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Interprete glicemias de jejum, pré-refeições e ao deitar sem aumentar insulina por um número isolado. Explique como o padrão da prednisona difere do da dexametasona.
Em 30 dias
Planeje um dia de jejum no diabetes tipo 1 e uma alta após hiperglicemia durante pancreatite. Justifique insulina, monitorização e seguimento.
Agora atenda
Agora atenda: homem de 59 anos, 88 kg, internado há dois dias na enfermaria por pielonefrite, em antibiótico endovenoso, comendo bem. Tem diabetes tipo 2 há dez anos e usava em casa metformina 850 mg duas vezes ao dia, glibenclamida 5 mg pela manhã e dapagliflozina 10 mg — todos suspensos na admissão, sem nada no lugar. As glicemias capilares das últimas 24 horas foram 236, 298, 214 e 312 mg/dL, e ele recebeu duas doses de insulina regular pela escala de correção prescrita. Está queixoso de náusea desde a manhã, não aceitou o almoço, e a enfermagem acabou de avisar que ele tem tomografia com contraste marcada para amanhã de manhã, com jejum a partir da meia-noite. Conduza: decida o que fazer com cada medicação de casa, calcule e escreva o esquema de insulina por extenso, defina a monitorização, e diga o que muda na sua prescrição por causa do jejum e do contraste.
