Clínica MédicaPrescrição e Cuidado do Paciente Internado

Hipernatremia na enfermaria

Distúrbios do sódio no internado: hipernatremia

Quase nunca é doença: é sede que ninguém atendeu. O limite aqui é de queda, o risco da pressa é edema cerebral, e a melhor conduta do capítulo é água pela sonda.

Fontes deste capítulo

Hospital Geral Eduardo Campos, Serra Talhada (PE), Serviço de Nefrologia — Protocolo clínico-assistencial Distúrbios do Sódio, código PCAN04, versão 1.0, emissão 29 de julho de 2020, de autoria de Cícero Faustino Ferreira

Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (Ebserh) — Protocolo assistencial PRT.STPC.CIHDOTT.060, Manutenção de múltiplos órgãos no potencial doador, versão 03, emissão 30 de dezembro de 2024

Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (Ebserh) — Protocolo assistencial nº 297, Abordagem do paciente adulto com hiponatremia, versão 01, elaborado em outubro de 2021 e aprovado em dezembro de 2021

Ministério da Saúde, Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024

Manual de cuidados paliativos. 2. ed. São Paulo: Hospital Sírio-Libanês; Ministério da Saúde, 2023 (Programa de Cuidados Paliativos no SUS — PROADI-SUS)

01

Responda antes de ler

Homem de 64 anos, 72 kg, quarto dia de pós-operatório de laparotomia, em dieta zero, com sódio de 152 mmol/L, edema e ganho de 3,4 kg. Você vai somar a carga de sódio que a prescrição entrega por dia. Qual das linhas abaixo entrega a maior carga de sódio em 24 horas?

02

O paciente que você vai ver

A jarra está em cima do criado-mudo, cheia, tampada, a um metro e vinte do leito 6. Dona Cremilda Nogueira tem 82 anos, 48 quilos, e não alcança a jarra desde o acidente vascular cerebral que a trouxe para cá, há nove dias. O braço direito não sobe. A mão esquerda sobe, mas ela está com a grade de proteção levantada e não consegue girar o tronco. Ela também não pede: a fala saiu com o infarto e o que restou é uma sílaba única, repetida, que a equipe interpretou desde o segundo dia como agitação.

Você é o interno da visita das sete. O sódio da coleta de hoje é 168 mmol/L. Na admissão era 141. Ninguém ligou, ninguém escreveu "crítico" na folha, ninguém marcou com clipe — porque sódio alto não dispara o alarme que sódio baixo dispara, e porque na cabeça da maioria dos plantões o distúrbio do sódio é o outro. Na folha de prescrição de hoje, impressa às seis, estão a dieta enteral 1.000 mL em 24 horas, o antiagregante, a enoxaparina, o omeprazol, a sinvastatina e o soro fisiológico 500 mL para diluir antibiótico. Não há uma única linha escrita com a palavra água.

No leito 9, na mesma enfermaria, o senhor Ademir Fontes tem 64 anos, 72 quilos, e está no quarto dia de pós-operatório de uma laparotomia por obstrução. Dieta zero, sonda nasogástrica aberta drenando 900 mL por dia, e uma prescrição que alguém escreveu com todo o cuidado do mundo: soro fisiológico 1.000 mL de oito em oito horas, bicarbonato de sódio a 8,4% 100 mL por dia porque o bicarbonato veio 17 na gasometria de anteontem, e mais duas ampolas de cloreto de sódio a 20% acrescentadas ao soro da tarde "porque ele está perdendo eletrólito pela sonda". O sódio dele hoje é 152 mmol/L. Anteontem era 144.

Os dois têm hipernatremia e os dois vão precisar de água. Mas eles não têm o mesmo problema, e essa diferença é o eixo do capítulo. Dona Cremilda perdeu água: o corpo dela fez tudo certo, sentiu sede, concentrou a urina ao máximo, e não conseguiu beber. O senhor Ademir ganhou sódio: alguém prescreveu, em quatro dias, mais sódio do que ele comeria em duas semanas, e ele não tinha como pedir água porque estava em dieta zero.

Vale dizer a coisa inteira, sem meio-termo, antes de qualquer fisiopatologia. A hipernatremia da enfermaria quase nunca é doença. Ela é sede que não foi atendida. O mecanismo de defesa está intacto — os osmorreceptores funcionam, o hormônio antidiurético é secretado, a urina fica concentrada, a sede é sentida. O que falta é a água chegar à boca. Por isso ela acontece exatamente em quem não pode buscá-la: o idoso acamado, o afásico, o rebaixado, o intubado, o sedado, a criança pequena, o paciente em dieta zero, o que está com contenção no braço. E é por isso que ela é o distúrbio hidroeletrolítico que mais fala sobre a qualidade do cuidado, e não sobre a gravidade da doença.

Há um terceiro paciente nesta enfermaria, e ele vai aparecer mais adiante. O senhor Válter Simões, 47 anos, 78 quilos, chegou ontem transferido da unidade de terapia intensiva no oitavo dia de pós-operatório de ressecção de um tumor da região selar. Está lúcido, anda com apoio, bebe água quando pede — e urina 350 mL por hora, de urina clara como água, e o sódio dele subiu de 145 para 154 em dois dias mesmo bebendo. Ele é o único dos três em que a hipernatremia é sinal de doença, e não de cuidado.

03

Quem adoece disso

O primeiro número a fixar é o de onde a hipernatremia aparece. Na maior série brasileira aberta com hipernatremia como desfecho — 254 adultos com traumatismo cranioencefálico grave internados na unidade de emergência do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto entre 2011 e 2015 —, 40,6% desenvolveram hipernatremia na primeira semana. E o dado que interessa mais do que a frequência: o sódio médio na admissão era 136,3 mmol/L e apenas 5 dos 254 pacientes chegaram já hipernatrêmicos. Ou seja, em 98% dos casos o sódio alto foi produzido dentro do hospital, nos dias seguintes à entrada. A hipernatremia da enfermaria e da terapia intensiva é, na esmagadora maioria das vezes, adquirida — e adquirida enquanto alguém prescrevia.

O segundo número é o de gravidade. Naquela mesma coorte, a mortalidade global foi de 26,8%, e a hipernatremia grave (definida ali como pelo menos um valor igual ou acima de 150 mmol/L) foi preditor independente de óbito intra-hospitalar, com razão de chances de 4,53 e intervalo de confiança de 95% entre 1,80 e 11,42. Foi também preditor independente de desfecho funcional ruim na alta, com razão de chances de 3,93. A leitura honesta dessa associação exige cuidado — sódio alto é também marcador de doença grave, de balanço hídrico manipulado, de terapia osmótica —, e os próprios autores listam entre os fatores de risco para hipernatremia a instabilidade hemodinâmica e a contusão cerebral, que são marcadores de gravidade. Mas a consequência clínica não muda: quando o sódio de um paciente seu passa de 150, você está diante de um número que se associa a quatro vezes mais chance de ele morrer, e o mínimo que isso exige é que a linha apareça na sua evolução hoje, com nome, causa e conduta.

O terceiro número vem da terapia intensiva em geral, fora do trauma. A revisão brasileira que acompanha o relato de caso do Hospital Universitário Cassiano Antonio Moraes registra prevalência de hipernatremia que pode chegar a 25% no ambiente de terapia intensiva, com associação a internação mais longa e com o distúrbio funcionando como fator de risco independente para mortalidade. Um em cada quatro. Se a sua unidade tem vinte leitos ocupados, a estatística diz que cinco pacientes vão passar por hipernatremia em algum momento da internação, e você vai ver a maioria deles.

O quarto número é o que explica os três anteriores, e é o mais desconfortável. Um estudo brasileiro de 34 idosos em nutrição enteral exclusiva num hospital de Minas Gerais mediu, prontuário por prontuário, quanta água foi prescrita e quanta foi recomendada. O resultado foi 100%: todos os 34 pacientes tinham água prescrita abaixo da necessidade calculada. A média de água livre prescrita foi 1.051 mL por dia contra 1.807 mL de recomendação — uma lacuna de 756 mL por dia, todo dia, em pacientes que não podem reclamar. E ao mesmo tempo 94% recebiam glicose a 10% endovenosa e 91% recebiam salina a 0,9%, o que mostra o padrão: não é que ninguém prescreve líquido; é que o líquido prescrito não é água, e vai pela veia em vez de ir pela sonda.

Junte os quatro. A hipernatremia é frequente, é adquirida dentro do hospital, dobra ou quadruplica o risco de desfecho ruim, e acontece num cenário em que a prescrição de água livre está sistematicamente abaixo do necessário para quem depende dela. Não existe conjunto de dados que empurre a conduta com mais força para um lugar tão simples: procure a linha de água na prescrição dos seus pacientes de sonda e de dieta zero, e escreva-a quando ela não estiver lá. Esta é a rara situação em que a epidemiologia manda fazer uma coisa que custa nada e demora trinta segundos.

Uma nota sobre quem adoece disso, para calibrar a suspeita na porta. Hipernatremia em adulto com sede preservada e acesso livre à água é rara e quase sempre significa perda renal de água em volume grande — diabetes insipidus, diurese osmótica —, porque o mecanismo da sede é potente o bastante para compensar praticamente qualquer outra perda. Já hipernatremia em quem não bebe sozinho é banal. Os grupos que a produzem estão nomeados no protocolo brasileiro de referência deste capítulo, e vale ler a lista devagar: idosos, crianças e neuropatas com hipodipsia ou sem acesso à água. Nenhuma dessas três palavras descreve uma doença. Todas as três descrevem uma dependência.

04

Por que acontece o que acontece

Existe uma frase que resolve metade da confusão dos distúrbios do sódio, e ela não é sobre sódio: o sódio sérico é um marcador do metabolismo da água, não do metabolismo do sódio. A revisão brasileira de referência sobre o tema organiza isso numa tabela de duas colunas que vale decorar. A água é percebida por osmorreceptores hipotalâmicos, tem como efetores a sede e o hormônio antidiurético, e o marcador dela é o sódio sérico. O sódio é percebido por barorreceptores, tem como efetores o peptídeo natriurético, o sistema renina-angiotensina-aldosterona e as catecolaminas, e o marcador dele é o sódio urinário e o exame físico da volemia. Duas alças de controle diferentes, dois sensores diferentes, dois marcadores diferentes.

A consequência prática é imediata: um sódio de 168 mmol/L não diz que este paciente tem sódio demais no corpo. Diz que ele tem água de menos em relação ao sódio que tem. Dona Cremilda, de 48 quilos, não recebeu sal nenhum a mais; ela simplesmente perdeu água e não repôs. O sódio corporal total dela é o mesmo de nove dias atrás — talvez menor. O que mudou foi o denominador.

Agora a parte que faz este capítulo ser sobre cuidado e não sobre nefrologia. Quando a osmolaridade sobe, o osmorreceptor hipotalâmico dispara duas respostas, e as duas funcionam. A primeira é o hormônio antidiurético, que torna o ducto coletor permeável à água e faz o rim reabsorver quase tudo o que pode — a urina fica concentrada, escura, escassa. A segunda é a sede. Um adulto com sede e com um copo ao alcance corrige um déficit de água de dois litros numa tarde e ninguém fica sabendo. A defesa contra a hipernatremia é tão eficiente que, para o sódio subir e ficar alto, é preciso que uma das duas pernas dela esteja quebrada.

As pernas quebram de três jeitos, e só três. Primeiro: o paciente sente sede e não consegue beber — está afásico, acamado, contido, com a jarra fora de alcance, intubado, em dieta zero, com disfagia. Segundo: o paciente não sente sede — tem lesão hipotalâmica, tem rebaixamento profundo do nível de consciência, ou tem a hipodipsia do idoso muito velho, em que o limiar osmótico da sede sobe com a idade. Terceiro: o paciente bebe, sente sede, tem acesso à água, e ainda assim perde mais do que consegue repor — e aí, e só aí, você está diante de doença: diabetes insipidus, diurese osmótica de alto volume, perdas digestivas maciças.

Segure a leitura aqui, porque é a divisão de trabalho do capítulo inteiro. Nos dois primeiros grupos, a conduta é água e revisão da prescrição, e o problema é do cuidado. No terceiro grupo, a conduta é água também, mas somada ao diagnóstico da perda, e o problema é médico. Você vai ver dez do primeiro e do segundo grupos para cada um do terceiro.

O segundo mecanismo é o oposto do primeiro: ganho de sódio. Ele é minoritário fora do hospital e importante dentro dele, porque dentro do hospital alguém prescreve o sódio. O protocolo brasileiro que serve de espinha a este capítulo lista, sob o rótulo de hipernatremia hipervolêmica, quatro causas — hiperaldosteronismo primário, síndrome de Cushing, diálise hipertônica e infusão de bicarbonato e de solução de cloreto de sódio hipertônica. Repare que duas das quatro são coisas que você escreve. E o guia de assistência nefrológica hospitalar da Sociedade Brasileira de Nefrologia coloca, entre as atenções obrigatórias do paciente internado, exatamente a administração de dietas e soluções com conteúdo excessivo de sódio.

Vale fazer a conta uma vez para nunca mais esquecer a ordem de grandeza. Um frasco de bicarbonato de sódio a 8,4% tem 250 mL e carrega, pela composição declarada na bula, 1.000 mEq de sódio por litro — isto é, 250 mEq no frasco. Um litro de salina a 0,9% carrega 154 mEq. Um frasco de bicarbonato tem, portanto, mais sódio do que um litro e meio de soro fisiológico, e sai da farmácia com cara de correção de acidose, não de carga de sal. Na prescrição do senhor Ademir, os 3.000 mL de salina a 0,9% entregam 462 mEq de sódio por dia, o bicarbonato entrega mais 100, e as duas ampolas de cloreto de sódio a 20% entregam mais 68 — 630 mEq de sódio num dia, para um homem que não come. Uma dieta oral brasileira comum entrega entre 100 e 150 mEq. A folha dele estava entregando o equivalente a quatro ou cinco dias de sal por dia, e nenhum copo de água.

O terceiro mecanismo é o mais elegante e o mais esquecido, e explica por que alguns pacientes ficam hipernatrêmicos apesar de receberem líquido: a carga osmolar. O rim não excreta solutos no ar; ele os dissolve. Se um paciente precisa eliminar 900 mOsm de solutos por dia e a osmolaridade máxima que a urina dele alcança é 600 mOsm/L, ele é obrigado a urinar 1.500 mL por dia, queira ou não. Se a carga osmolar sobe para 1.200 mOsm — o que uma dieta hiperproteica, um corticoide em dose alta, um sangramento digestivo ou um estado hipercatabólico produzem com facilidade, porque todos geram ureia —, a diurese obrigatória sobe para 2.000 mL. E se, em cima disso, a capacidade de concentração está reduzida pela idade ou por injúria renal, e a urina só alcança 300 mOsm/L, os mesmos 1.200 mOsm exigem 4 litros de urina por dia. O paciente perde água porque precisa eliminar soluto, e perde independentemente do quanto o hormônio antidiurético esteja alto.

Esse é o mecanismo da diurese osmótica por ureia, descrito num relato brasileiro que vale como aula. Uma mulher de 72 anos em terapia intensiva, em dieta enteral hiperproteica de 1,8 g/kg de proteína e metilprednisolona 75 mg de oito em oito horas, chegou a sódio de 165 mEq/L com ureia urinária de 2.413 mg/dL: dos 570 mOsm/L de osmolaridade urinária, 402 vinham só da ureia. O tratamento não foi soro. Foi reduzir a proteína da dieta para 1,0 g/kg e desmamar o corticoide — e em cinco dias a ureia urinária caiu de 48,9 para 24,6 g/dia e o sódio voltou a 141. Na série internacional que os autores citam, a diurese osmótica por ureia responde por cerca de 10% de toda hipernatremia adquirida em terapia intensiva.

O mesmo relato ensina uma armadilha de raciocínio que vale para qualquer paciente com poliúria e sódio alto. Se você calcular o clearance de água livre clássico — volume urinário multiplicado por um menos a razão entre osmolaridade urinária e plasmática —, a urina daquela paciente parecia concentrada e o número deu negativo: menos 1.320 mL, sugerindo que o corpo estava economizando água. Mas a ureia atravessa membrana livremente e não gera gradiente osmótico efetivo; ela infla a osmolaridade urinária sem que aquela urina seja, do ponto de vista do sódio, concentrada. Trocando a fórmula pela do clearance de água livre de eletrólitos — volume urinário multiplicado por um menos a razão entre a soma de sódio e potássio urinários e o sódio plasmático —, o sinal se inverte e o número fica positivo: aquela urina estava eliminando água livre. É a diferença entre achar que o paciente está retendo água e entender que ele está perdendo.

Há uma versão de bolso desse cálculo que cabe na visita, e é a que vale a pena carregar: em paciente hipernatrêmico, se a soma de sódio e potássio urinários for menor que o sódio plasmático, ele está perdendo água livre pela urina. Se for maior, a urina está levando embora mais sal do que água, e o problema é outro.

Falta o mecanismo que decide a velocidade do tratamento, e é aqui que a simetria com a hiponatremia se quebra de vez. O cérebro vive dentro de uma caixa e reage à osmolaridade do plasma movendo água. Na hipernatremia aguda, a hiperosmolaridade puxa água de dentro do neurônio para fora: a célula encolhe, e o cérebro inteiro encolhe. Encolhimento tem preço mecânico — o protocolo brasileiro de referência lista, entre as complicações da própria hipernatremia, lesão neuronal irreversível por desidratação celular, hemorragia subaracnóidea e subcortical, e trombose de seio venoso. São vasos de ponte que se estiram e rompem quando o parênquima retrai. Esse é o dano das primeiras horas, e ele acontece por causa da hipernatremia, não do tratamento.

Se a hipernatremia persiste, o cérebro se defende do jeito oposto ao que faz na hiponatremia. Lá, ele perde osmóis para não inchar. Aqui, ele ganha: recruta eletrólitos e, em seguida, sintetiza e acumula osmólitos orgânicos dentro da célula, até que a osmolaridade intracelular se iguale à do plasma. Ao fim desse processo — que leva horas a dias e está bem estabelecido depois de 48 horas —, o volume cerebral está de volta ao normal, mas com o dobro dos solutos dentro da célula. O paciente crônico com sódio de 168 tem, nesse momento, um cérebro de tamanho normal cheio de osmóis.

No cérebro adaptado à hipernatremia, os osmóis intracelulares não desaparecem imediatamente quando a tonicidade plasmática cai. A entrada de água fornece uma explicação fisiológica para a preocupação com edema durante correção rápida, especialmente a partir de dados pediátricos e experimentais. Isso justifica planejamento e vigilância, mas não transforma todo desvio de velocidade em lesão comprovada no adulto. Alteração neurológica nova requer avaliação imediata de ventilação, glicose, Na e causas neurológicas ou metabólicas associadas.

Na hiponatremia crônica, as células perderam osmóis e elevação excessiva do Na pode causar desmielinização osmótica. Na hipernatremia crônica, acumularam osmóis, e a preocupação com queda rápida é entrada de água. Os mecanismos ajudam a lembrar a direção do tratamento, mas não permitem usar uma régua espelhada: riscos, evidência em adultos, duração e condições clínicas diferem. A prescrição precisa de meta, monitorização e ajustes pela resposta real, incluindo perdas e mudanças de diurese.

Uma última peça do mecanismo, porque ela muda a conduta do dia seguinte. Como a adaptação cerebral leva tempo para se instalar, ela também define quem pode ser corrigido depressa. Se a hipernatremia se instalou nas últimas horas e você tem prova documental disso — um sódio normal ontem à tarde, um erro de diluição identificado, uma infusão de bicarbonato que acabou de acontecer —, o cérebro ainda não acumulou osmóis, ainda está encolhido, e devolver água depressa é seguro e é o tratamento. Se você não sabe quando começou, ou se sabe que já passou de dois dias, o cérebro está adaptado e a pressa é o perigo. Na dúvida, e a dúvida é a regra da enfermaria, trate como crônica.

Quatro células esquemáticas mostram referência, retração na hipertonicidade aguda, ganho adaptativo de osmólitos e possível aumento de volume com queda rápida da tonicidade.
Na hipertonicidade, a água sai da célula e a adaptação envolve ganho de osmólitos. A correção requer considerar duração e contexto; o risco e a evidência clínica em adultos diferem dos pediátricos. A figura não define velocidade de reposição nem prevê edema inevitável.
05

Como se apresenta de verdade

A hipernatremia tem um problema de apresentação que nenhum outro distúrbio eletrolítico tem: o sintoma cardinal dela é a sede, e ela só acontece em quem não consegue expressar sede. O quadro clínico e a população se excluem mutuamente. Isso significa que, na prática da enfermaria, a hipernatremia quase nunca se apresenta — ela é encontrada. Quem a acha, acha no papel.

Percurso de aprendizagem

Avalie perfusão, duração e sintomas. Hipernatremia grave precisa de cuidado pronto mesmo com pressão preservada; choque exige estabilização circulatória.

Some água da dieta, diluentes, lavagens e reposição, distinguindo déficit de perdas em curso. Fórmulas são aproximações e precisam de Na seriado.

Diferencie baixa oferta, diurese osmótica e deficiência/resistência à vasopressina. Não atrasar tratamento de deficiência central para preservar exames.

O que o livro descreve, e por que você não vai ver assim

A lista clássica está no protocolo brasileiro de referência e é honesta: sede intensa, fraqueza muscular, confusão, agitação, letargia, irritabilidade, tremores, ataxia, espasmos musculares, hiper-reflexia, déficit neurológico focal e, raramente, convulsão e coma. O mesmo documento acrescenta a regra que organiza a lista: o quadro neurológico é proporcional à rapidez da instalação e ao grau da hiperosmolalidade — não ao número isolado.

O primeiro item da lista é o que some. Sede intensa é o sintoma que o paciente da enfermaria não consegue relatar, porque a hipernatremia dele existe justamente por ele não conseguir pedir água. Dona Cremilda emitia uma sílaba repetida desde o segundo dia. Alguém escreveu "agitação" na evolução. Ninguém escreveu "sede", porque a sílaba não formava a palavra.

Os outros itens são todos inespecíficos e todos plausíveis num paciente internado com AVC, com infecção, com pós-operatório, com idade. Confusão? Ele tem 82 anos e está no nono dia. Fraqueza? Está acamado. Tremores? Deve ser a medicação. Cada sintoma da hipernatremia tem, no mesmo leito, uma explicação alternativa mais cômoda. É por isso que o diagnóstico é feito pelo laboratório em quase todos os casos, e por que o interno que olha a folha de exames com atenção acha coisas que o plantão inteiro deixou passar.

O espectro por número, e o que cada faixa muda de conduta

Acima de 145 mmol/L já é hipernatremia por definição, e é onde a conduta começa: procurar a causa e escrever água. Entre 146 e 149 o paciente é tipicamente assintomático e o que se faz é corrigir o que está faltando ou sobrando na folha; nenhuma solução especial é necessária, e a maior parte desses casos se resolve em 24 horas só com água pela via que existir.

A partir de 150 muda o significado prognóstico. Foi essa a linha que a coorte brasileira de traumatismo cranioencefálico usou para separar hipernatremia grave, e foi acima dela que apareceu a razão de chances de 4,53 para óbito intra-hospitalar. Não é que 150 seja um limiar biológico; é que é a partir dali que a associação com desfecho ruim ficou mensurável. Do ponto de vista operacional, 150 é onde a hipernatremia deixa de ser um item da lista de problemas e passa a ser o problema.

Em 155 há uma linha escrita. O protocolo brasileiro de manutenção do potencial doador de órgãos define como meta manter o sódio sérico abaixo de 155 mEq/L, com débito urinário entre 0,5 e 4 mL/kg/h. É o único documento brasileiro aberto que escreve a hipernatremia como alvo prescrito, e o número dele é uma referência útil mesmo fora daquele contexto: acima de 155, o paciente precisa de conduta hoje, com meta escrita e recontrole marcado.

Acima de 160 a chance de sintoma neurológico atribuível ao sódio aumenta, e acima de 170 a maioria dos pacientes tem alteração do nível de consciência. Mas cuidado com a leitura invertida: o paciente crônico com 168 pode estar lúcido, e o paciente que subiu de 140 para 158 em doze horas pode estar convulsionando. A velocidade decide os sintomas; o número decide o tamanho do déficit.

As três caras à beira do leito, e como separá-las em dois minutos

A primeira cara é a perda de água pura, e ela vem sem hipovolemia aparente. O paciente está com mucosas secas e a língua em lixa, mas a pressão está boa, a frequência não está alta, e não há sinal de hipoperfusão. Faz sentido: quando se perde água pura, dois terços saem de dentro da célula e apenas um terço do compartimento extracelular, e desse um terço só uma fração é intravascular. Perder três litros de água pura desidrata o cérebro muito antes de derrubar a pressão. É a cara de dona Cremilda e é a mais comum na enfermaria.

A segunda cara é a perda de líquido hipotônico, isto é, perda de água e sal juntos com mais água que sal — diarreia, vômito, sudorese profusa, queimadura, drenagem, diurético, diurese osmótica. Aqui a hipovolemia é clínica e aparece: hipotensão, hipotensão postural quando o paciente senta, taquicardia, oligúria, extremidades frias, tempo de enchimento capilar lento. O protocolo brasileiro lista exatamente esses sinais para a determinação da volemia à beira do leito — hipotensão postural, taquicardia e pressão venosa central abaixo de 12 no hipovolêmico. Essa cara muda a ordem do tratamento: aqui a primeira bolsa é isotônica, para restaurar a perfusão, e a água livre vem depois.

A terceira cara é o ganho de sódio, e a marca dela é o excesso de volume: edema, hipertensão, turgência jugular, congestão pulmonar, ganho de peso. O paciente está molhado e salgado ao mesmo tempo. É a cara do senhor Ademir e a cara de quem recebeu bicarbonato, salina hipertônica, dieta hipertônica ou solução de diálise hipertônica. Ela é a única das três em que dar mais líquido isotônico piora tudo, e a única em que o diurético de alça entra no tratamento — o protocolo brasileiro escreve, em uma linha, que na hipervolemia se associa furosemida.

A separação prática é rápida e cabe no exame de sempre: pressão deitado e sentado, frequência, mucosas, turgor, jugulares, edema de membros, ausculta pulmonar, peso comparado com o da admissão e balanço acumulado do prontuário. Escreva a conclusão na evolução, com os achados que a sustentam. Ela vai ser revista amanhã, e ter escrito hoje é o que permite comparar.

O que muda no idoso

Três coisas mudam ao mesmo tempo, e as três empurram na mesma direção. O limiar osmótico da sede sobe com a idade, de modo que o idoso sente sede mais tarde e menos intensamente para a mesma osmolaridade. A capacidade renal de concentrar a urina cai, de modo que a mesma carga osmolar exige mais volume de urina. E a água corporal total é menor: a tabela por sexo e idade do protocolo brasileiro usa peso vezes 0,45 para mulher acima de 65 anos, contra peso vezes 0,6 para homem abaixo de 65. Em dona Cremilda, 48 quilos vezes 0,45 dão 21,6 litros de água corporal — menos da metade dos 43,2 litros do senhor Ademir, que pesa 72.

A consequência aritmética dessa terceira mudança é o que assusta: em um reservatório menor, a mesma perda de água move mais o sódio. Um litro de água livre baixa o sódio de dona Cremilda em 7,4 mmol/L e o do senhor Ademir em 3,4 — mais que o dobro de efeito para o mesmo litro. A idosa magra é, ao mesmo tempo, quem mais fácil fica hipernatrêmica e quem mais fácil é corrigida rápido demais. Nela, o erro de dose é duas vezes mais perigoso nos dois sentidos.

A quarta coisa não é fisiológica e é a que mais mata: o idoso internado depende de outra pessoa para beber. Jarra tampada, jarra longe, grade levantada, contenção no punho, sonda vesical que "resolve" a urina e faz ninguém oferecer líquido, medo de broncoaspiração que virou dieta zero sem plano B. Nada disso aparece no exame físico. Tudo isso aparece na beira do leito, se você olhar.

O que muda em quem tem sonda enteral

Este é o grupo em que a hipernatremia é mais previsível e mais evitável, e vale entender por quê. A fórmula enteral não é água: ela é uma suspensão com densidade calórica, e o volume de água contido nela é menor que o volume infundido. No estudo brasileiro de 34 idosos em nutrição enteral exclusiva, a média de dieta infundida foi 917 mL por dia e a média de água contida nessa dieta foi 709 mL — 77% do volume, e não 100%. Os outros 23% são caloria, proteína, eletrólito e fibra.

Some a isso o segundo fato: fórmula hiperproteica gera ureia, e ureia gera carga osmolar, e carga osmolar gera diurese obrigatória. A dieta do relato brasileiro de diurese osmótica tinha 75 g de proteína por litro e osmolaridade de 530 mOsm/L, e produziu 48,9 g de ureia urinária por dia. O paciente estava, ao mesmo tempo, recebendo menos água do que o volume da bolsa sugeria e perdendo mais água do que a diurese habitual — as duas coisas por causa da mesma dieta.

E o terceiro fato: ninguém prescreve a água. No mesmo estudo brasileiro, 100% dos pacientes tinham água livre prescrita abaixo da recomendação, com média de 1.051 mL contra 1.807 recomendados. A sonda é a via mais fácil, mais barata e mais segura de dar água a um paciente que não pode beber, e é a via que sistematicamente fica em branco na folha. Se você aprender uma coisa só deste capítulo, que seja esta: em todo paciente com sonda enteral, procure a linha da água. Se ela não existir, escreva-a.

O que muda no diabético e no hiperglicêmico

Glicose alta faz três coisas ao sódio, e é fácil confundi-las. A primeira é diluir: a glicose que fica no extracelular puxa água de dentro da célula e abaixa o sódio medido, sem que haja excesso de água no corpo. Por isso um diabético descompensado pode ter sódio medido normal ou baixo com déficit de água enorme. A correção do sódio pela glicemia — somar 2,4 mmol/L ao sódio para cada 100 mg/dL de glicemia acima do normal — está no protocolo do capítulo vizinho e serve aqui para não subestimar a hipernatremia.

A segunda é a diurese osmótica: acima do limiar renal, a glicose vai para a urina e arrasta água. É o mesmo mecanismo da ureia, com outro soluto. O relato brasileiro registra glicosúria acima de 250 mmol/L, isto é acima de 4,5 g/dL, como um dos gatilhos de diurese osmótica.

A terceira é iatrogênica e é a que este capítulo mais quer que você lembre. A água livre endovenosa vem embalada em glicose a 5%, e 2.000 mL de glicose a 5% carregam 100 g de glicose. Num diabético internado, isso sobe a glicemia, produz glicosúria, produz diurese osmótica — e piora a hipernatremia que a bolsa deveria estar corrigindo. Não é motivo para não usar glicose a 5%; é motivo para preferir água pela sonda quando ela existe, e para medir glicemia capilar de seis em seis horas em quem recebe água livre pela veia.

O que muda na injúria renal, e a armadilha da fase de recuperação

Na injúria renal instalada e oligúrica, a hipernatremia costuma vir por ganho de sódio: o rim não excreta o sal que alguém prescreveu, e não excreta a água que a dieta traz. É a hipernatremia hipervolêmica, e ela vem acompanhada de edema e de balanço positivo acumulado.

A armadilha está na fase de recuperação. Quando a filtração glomerular volta, a alça de Henle e o ducto coletor levam mais tempo para retomar a capacidade de concentração, e a ureia acumulada durante os dias de oligúria é despejada de uma vez na urina. O resultado é poliúria de urina diluída em soluto eletrolítico mas carregada de ureia, e o paciente perde água livre em volume alto num momento em que a equipe está comemorando o retorno da diurese. O relato brasileiro descreve exatamente isso e registra o detalhe cruel: foi durante a queda da creatinina, entre o 12º e o 14º dia, que o sódio atingiu o valor mais alto, 165 mEq/L.

A regra prática que sai daí: paciente que estava oligúrico e começou a urinar precisa de sódio dosado no dia seguinte, não na semana seguinte. E a diurese que volta não é sinal de que a hidratação pode ser reduzida — muitas vezes é o contrário.

O poliúrico com sede preservada: a única cara em que a doença é a resposta

O senhor Válter é o paciente que faz o interno pensar em diabetes insipidus, e ele existe para isso. É jovem, está lúcido, bebe água quando quer, e mesmo assim o sódio dele subiu de 145 para 154 em dois dias enquanto urinava 350 mL por hora — 8,4 litros por dia — de urina que parece água. Ele é o retrato exato do único cenário em que uma pessoa com sede íntegra e copo na mão fica hipernatrêmica: quando a perda renal de água é grande demais para a boca acompanhar.

O protocolo brasileiro de manutenção do potencial doador dá dois gatilhos objetivos que servem em qualquer paciente: investigar quando a diurese passa de 200 mL por hora, e considerar muito sugestiva a combinação de poliúria com hipernatremia e densidade urinária abaixo de 1005. São dois números que cabem na visita e não dependem de exame especial.

O contexto dele fecha a suspeita: pós-operatório de cirurgia da região selar, que é a vizinhança da haste hipofisária. Mas diabetes insipidus não é só isso — existe a forma nefrogênica, com lítio, com hipercalcemia, com hipocalemia crônica, com doença tubulointersticial. Separar as duas exige teste de restrição hídrica com dosagem de osmolaridade urinária seriada e resposta à desmopressina, e isso não é procedimento de enfermaria clínica. O que você faz com o senhor Válter está no bloco de investigação, e a resposta curta é: reponha a água que ele está perdendo, meça o que precisa ser medido antes de qualquer droga, e chame quem faz o teste.

A apresentação que mais engana: hipernatremia vestida de delirium

Um idoso internado, no quinto dia, fica confuso à noite, agitado, tenta arrancar o acesso, não reconhece a filha. O diagnóstico que a enfermaria dá é delirium, e ele está certo — delirium é uma síndrome, e o que a síndrome exige é procurar a causa. Hipernatremia está na lista de causas metabólicas, junto com infecção, dor, retenção urinária, constipação, hipóxia e droga.

O que faz a hipernatremia ser especialmente traiçoeira nesse cenário é que o tratamento errado piora: haloperidol e contenção física reduzem a chance de o paciente beber, e a contenção no punho é literalmente a remoção do único mecanismo que ainda funcionava. Um paciente contido por agitação, com sódio de 158 que ninguém dosou, passa a noite inteira sem alcançar a jarra.

A regra de conduta é simples e não custa nada: todo delirium novo em paciente internado ganha eletrólitos no mesmo pedido em que ganha hemograma e urina. Não é rastreamento indiscriminado — é um exame barato, disponível em qualquer serviço, que muda a conduta em uma fração pequena mas não desprezível dos casos, e cujo achado tem tratamento imediato. O capítulo de delirium desta apostila trata da síndrome inteira; aqui o que importa é que o sódio entre no pedido.

06

Como fechar o diagnóstico

Este bloco tem uma ordem incomum, e a ordem é a lição. Na hipernatremia da enfermaria, o primeiro exame não é de sangue nem de urina: é a folha de prescrição das últimas 72 horas. A maioria dos casos que você vai ver está inteiramente explicada ali, e nenhum exame laboratorial vai apontar a jarra fora de alcance ou a linha de água que ninguém escreveu. Os exames vêm depois, para responder três perguntas específicas: o paciente está perdendo água pelo rim ou fora dele, há carga osmolar em jogo, e há doença por trás disso.

1. O primeiro exame é a folha, e ele custa três minutos

Pegue a prescrição de hoje e as de anteontem e ontem, e leia linha por linha, com uma caneta na mão, marcando três coisas. Primeira: o que entrega sódio. Salina a 0,9% e o volume dela; salina a 0,45% se houver; bicarbonato de sódio; ampola de cloreto de sódio a 20% acrescentada a soro; dieta enteral e o sódio dela; medicação diluída em soro fisiológico, que entra no balanço e ninguém conta. Segunda: o que entrega água livre. Glicose a 5%; água pela sonda; água por via oral, se o paciente bebe. Terceira: o que retira água — diurético, laxante, dieta hiperproteica, corticoide em dose alta, manitol, drenagem, sonda aberta, estomia de alto débito.

Some as três colunas. Na prescrição do senhor Ademir: 3.000 mL de salina a 0,9% dão 462 mEq de sódio; 100 mL de bicarbonato a 8,4% dão 100 mEq; duas ampolas de 10 mL de cloreto de sódio a 20% dão 68 mEq. Total de 630 mEq de sódio por dia. Água livre prescrita: zero. Perdas conhecidas: 900 mL por dia de drenagem nasogástrica, mais perdas insensíveis. A investigação dele acaba aqui, e nenhum exame vai acrescentar mais do que essa conta já disse.

Na prescrição de dona Cremilda a conta é ainda mais curta. Dieta enteral 1.000 mL em 24 horas; se essa fórmula tiver o teor de água médio medido no estudo brasileiro de nutrição enteral, 77% do volume, ela recebe 773 mL de água por dia. A necessidade dela, pela recomendação de 25 mL/kg/dia para maiores de 75 anos usada naquele mesmo estudo, é de 1.200 mL. Falta um copo por dia — 427 mL — só para manter, sem repor déficit nenhum, sem febre, sem perda extra. Multiplique por nove dias de internação.

Escreva essa soma na evolução, em número. "Recebe 773 mL de água/dia contra 1.200 mL de necessidade estimada; sem água livre prescrita" é uma frase que muda a prescrição de amanhã. "Paciente com hipernatremia, em investigação" não é.

2. O segundo exame é o balanço hídrico — e você precisa saber por que ele mente

O balanço do prontuário é o dado mais valioso e o menos confiável ao mesmo tempo. Vale por três motivos: a coorte brasileira de traumatismo cranioencefálico encontrou o balanço hídrico positivo na primeira semana como fator de risco independente para hipernatremia, o que parece contraditório até você lembrar que balanço positivo mede volume, não água livre — dá para acumular três litros de salina e perder um litro de água livre no mesmo período.

Mente por quatro motivos, todos conhecidos e nenhum corrigível pela boa vontade. Perda insensível não é medida: no adulto acamado sem febre ela costuma ficar entre 500 e 800 mL por dia, e ninguém anota. Febre acrescenta: o estudo brasileiro de hidratação enteral usa 350 mL por grau Celsius acima de 37,5, e um paciente que fez 39 graus por doze horas perdeu meio litro que não está na folha. Diurese em fralda não é medida, e diurese "presente" na anotação pode ser 300 ou 3.000 mL. E a água que a família dá de copinho, ou a que a técnica oferece na troca, não entra em lugar nenhum.

O uso correto do balanço, então, é como sinal de direção e não como número: paciente cujo balanço acumulado é fortemente positivo e cujo sódio está subindo tem, quase certamente, ganho de sódio ou carga osmolar, não perda de volume. Paciente cujo balanço é negativo e cujo sódio está subindo está desidratando. Peça diurese medida por turno, por escrito, em qualquer paciente com sódio acima de 150 — o número por turno vale mais que o acumulado de sete dias.

3. O sangue: o que pedir hoje, e por que a repetição vale mais que o painel

Sódio, potássio, ureia, creatinina e glicemia, agora, nos dois pacientes. O sódio dá o tamanho do problema; o potássio importa porque repor potássio sobe o sódio — a mesma aritmética que a revisão sistemática brasileira sobre desmielinização registra do outro lado do eixo vale aqui, e uma reposição vigorosa de potássio no meio de uma correção de hipernatremia atrapalha a queda planejada. Ureia e creatinina dão a função renal e, mais que isso, dão a carga osmolar: ureia sérica desproporcionalmente alta em relação à creatinina, num paciente poliúrico, é o rastro da diurese osmótica por ureia. Glicemia porque hiperglicemia mascara o sódio para baixo e porque glicosúria produz diurese osmótica.

Osmolaridade sérica medida, quando o serviço tiver. Quando não tiver — que é a regra —, calcule: dois vezes o sódio, mais glicemia dividida por 18, mais ureia dividida por 6, com glicemia e ureia em mg/dL. A revisão brasileira de referência mostra a proporção que importa: num plasma normal com sódio de 140, glicose de 90 e ureia de 30, os 290 mOsm/L calculados vêm 280 do sódio e apenas 10 da soma de glicose e ureia. É por isso que, na hipernatremia, calcular a osmolaridade raramente muda a conduta — o sódio já É a osmolaridade. A exceção é o paciente com hiperglicemia grave ou com manitol, e aí o cálculo vale.

E o exame que mais importa não é nenhum desses: é o próximo sódio. Marque hora. O protocolo brasileiro manda repetir sódio plasmático a cada 6 a 8 horas durante a correção da hipernatremia, reajustando a velocidade de infusão conforme o resultado. Escreva os horários na prescrição, com o valor esperado ao lado de cada um. Um sódio isolado descreve; dois sódios com hora e valor esperado governam.

4. A urina: um pote, três respostas

Uma amostra isolada de urina, colhida antes da próxima dose de diurético e antes de expandir, responde três perguntas com sódio urinário, osmolaridade urinária (ou densidade, se não houver osmolaridade) e potássio urinário.

Primeira pergunta: a perda é renal ou extrarrenal? O protocolo brasileiro divide no mesmo limiar dos dois lados do eixo: sódio urinário acima de 20 mmol/L indica perda renal — diurético osmótico, diurético de alça, pós-desobstrução das vias urinárias — e abaixo de 20 mmol/L indica perda extrarrenal, com sudorese, queimadura, diarreia e fístula nomeadas. Cuidado com a leitura isolada: no paciente que recebeu 630 mEq de sódio por dia, o sódio urinário vai estar alto porque ele está excretando o que recebeu, e não porque está perdendo sal.

Segunda pergunta: o rim está concentrando como deveria? Diante de hipernatremia, a resposta renal fisiológica é urina máxima concentrada, com osmolaridade urinária muito acima da plasmática. Se a urina está diluída — osmolaridade urinária baixa, densidade baixa — num paciente hipernatrêmico, alguma coisa quebrou o mecanismo de concentração, e as opções são diabetes insipidus central, diabetes insipidus nefrogênico ou diurético. O protocolo brasileiro do potencial doador dá o número: poliúria com hipernatremia e densidade urinária abaixo de 1005 é muito sugestiva de diabetes insipidus.

Terceira pergunta: há diurese osmótica? Aqui a osmolaridade urinária engana se você a olhar sozinha, porque ureia e glicose a inflam sem que a urina esteja, do ponto de vista do sódio, concentrada. O relato brasileiro dá a fórmula para separar: osmolaridade urinária calculada igual a duas vezes a soma de sódio e potássio urinários, mais ureia urinária em mg/dL dividida por 6, mais glicose urinária em mg/dL dividida por 18. Se a maior parte do número vier da ureia e da glicose, e não do sódio com o potássio, você está diante de diurese osmótica.

E a regra de bolso que dispensa a calculadora, do mesmo relato: em paciente hipernatrêmico, se a soma de sódio e potássio urinários for menor que o sódio plasmático, ele está perdendo água livre pela urina. No caso publicado, sódio urinário 22 mais potássio urinário 62 dão 84, contra sódio plasmático de 165 — a razão é 0,51, muito abaixo de 1, e a urina daquela paciente estava eliminando água livre apesar de parecer concentrada.

5. A conta da diurese osmótica, quando vale fazer e o que ela responde

Vale fazer quando o paciente tem poliúria — em geral acima de 2,5 litros em 24 horas — com sódio subindo e urina que parece concentrada. Precisa de urina de 24 horas com sódio, potássio, ureia e glicose, e de uma osmolaridade urinária medida ou calculada.

A pergunta que ela responde é: os solutos que estão puxando essa urina são eletrólitos ou não? Multiplique a osmolaridade urinária pelo volume de 24 horas e você tem os osmóis totais do dia. Multiplique a parcela que vem da ureia — ureia urinária em mg/dL dividida por 6 — pelo mesmo volume e você tem os osmóis de ureia. O limiar de confirmação que o relato brasileiro adota é excreção de solutos não eletrolíticos acima de 600 mOsm em 24 horas. No caso publicado, foram 1.154 osmóis totais, dos quais 814 de ureia, com ureia urinária de 2.413 mg/dL — bem acima do limiar de 1.500 mg/dL que os autores citam como sugestivo.

O que essa conta muda de conduta é enorme e não é soro: se a diurese osmótica é por ureia, o tratamento é reduzir a geração de ureia — baixar a proteína da dieta, desmamar corticoide, controlar sangramento digestivo — e repor água. No caso publicado, reduzir a proteína de 1,8 para 1,0 g/kg e retirar a metilprednisolona baixou a ureia urinária pela metade em cinco dias e normalizou o sódio. Se você tratasse aquilo só com salina a 0,45%, não teria funcionado, e os autores explicam por quê: quando a osmolaridade da solução a 0,45% se aproxima da fração eletrolítica da osmolaridade urinária — 154 contra 168 mOsm/L naquele caso —, a solução deixa de entregar água livre líquida.

6. O que não pedir, e o custo de pedir

Não peça tomografia de crânio de rotina em hipernatremia. Ela não confirma nem exclui o distúrbio, não muda a velocidade da correção e consome tempo de um paciente que precisa de água. Existem duas indicações reais e ambas são clínicas, não laboratoriais: déficit neurológico focal novo, porque a hipernatremia grave pode causar hemorragia subaracnóidea e subcortical e trombose de seio venoso, e rebaixamento durante a correção, porque aí a pergunta é edema cerebral. Sódio de 168 num paciente que está do jeito que estava ontem não é indicação de imagem.

Não peça teste de restrição hídrica em paciente hipernatrêmico. Isso parece óbvio quando escrito, e é um erro que acontece: o teste existe para investigar poliúria em quem tem sódio normal, e restringir água em quem já está com 154 é iatrogenia. Diante de hipernatremia com urina diluída, a hiperosmolaridade endógena já fez o papel do teste — o rim já teve o estímulo máximo para concentrar e não concentrou. O que falta é a resposta à desmopressina, e essa etapa é de quem investiga — o diabetes insípido, com o teste e o tratamento, está em Doenças da hipófise (diabetes insípido, acromegalia, hipopituitarismo), na apostila de Endocrinologia.

Não peça painel hormonal amplo na primeira visita. Cortisol, hormônio estimulante da tireoide, aldosterona e renina têm indicação estreita na hipernatremia — hiperaldosteronismo primário e síndrome de Cushing estão na lista de causas do protocolo brasileiro, mas são causas de hipernatremia leve e hipervolêmica em paciente ambulatorial, não explicação de sódio 168 em idosa acamada. Pedir tudo hoje atrasa a água e enche o prontuário.

Não peça gasometria arterial pelo sódio. A gasometria dá sódio, e o valor é útil quando já foi colhida por outro motivo — inclusive porque volta em minutos. Mas puncionar artéria de um paciente para saber o sódio, quando a bioquímica venosa responde a mesma coisa, é dor sem ganho. O capítulo de gasometria desta apostila trata do que ela responde de verdade.

E não peça osmolaridade sérica medida como exame de rotina em hipernatremia. Diferente da hiponatremia, onde separar pseudo-hiponatremia de hiponatremia verdadeira exige a osmolaridade medida, aqui não existe pseudo-hipernatremia: sódio alto é sempre hiperosmolaridade. Guardar o exame para o paciente com manitol ou com hiperglicemia grave é o uso racional dele.

7. O diferencial, resolvido pelos mesmos exames

Falta de acesso à água versus diabetes insipidus: separam-se pelo volume e pela concentração da urina. Quem não bebe tem oligúria com urina máxima concentrada — o rim está fazendo tudo certo. Quem tem diabetes insipidus tem poliúria com urina diluída — o rim não consegue. Um paciente hipernatrêmico com diurese de 600 mL/dia e urina escura não tem diabetes insipidus, e não vale a pena investigar isso nele.

Diabetes insipidus versus diurese osmótica: separam-se pela composição da urina. Nos dois há poliúria, mas no diabetes insipidus a urina é diluída em tudo — osmolaridade urinária baixa, densidade abaixo de 1005 —, e na diurese osmótica a osmolaridade urinária é alta, acima de 300 mOsm/L ou maior que a plasmática, às custas de ureia ou glicose. É a distinção que a conta da seção anterior resolve.

Perda de água pura versus perda hipotônica: separam-se pelo exame físico da volemia, e não por exame nenhum. Perda de água pura não derruba a pressão até tarde, porque só um terço do volume perdido sai do extracelular. Perda hipotônica — diarreia, vômito, sudorese, diurético — derruba, porque leva sal junto. Isso muda a primeira bolsa, e por isso é a primeira coisa a examinar.

Perda de água versus ganho de sódio: separam-se pelo excesso de volume. Edema, jugular túrgida, congestão pulmonar, ganho de peso e balanço acumulado positivo apontam ganho de sódio; e nesse caso a folha de prescrição, lida como na primeira seção, costuma trazer a prova documental. Ganho de sódio é o único subgrupo em que o diurético de alça entra no tratamento.

E o diferencial que não se resolve com sódio nenhum: hipernatremia em paciente com rebaixamento do nível de consciência levanta a pergunta de quem veio primeiro. O sódio de 175 pode ser a causa do coma, ou pode ser a consequência de três dias de coma por outro motivo, sem ninguém dando água. Os dois cenários existem e a resposta está no tempo: sódio normal documentado há dois dias favorece que o sódio seja a causa; ausência de qualquer sódio nas duas últimas semanas favorece que ele seja a consequência. Na prática, você trata os dois — dá água na velocidade certa e procura a outra causa em paralelo.

8. O que existe no SUS, e o que fazer quando não existe

Está disponível em praticamente qualquer serviço com laboratório: sódio, potássio, ureia, creatinina e glicemia séricos; sódio, potássio, ureia e glicose urinários em amostra isolada; e urina tipo 1 com densidade. Com isso você resolve a esmagadora maioria dos casos deste capítulo, inclusive a conta da diurese osmótica, usando a osmolaridade urinária calculada no lugar da medida.

Costuma faltar: osmolaridade sérica e urinária medidas por osmômetro. A saída é calcular, e a fórmula das duas está nas seções anteriores. Costuma faltar também dosagem de vasopressina e de copeptina, que não fazem parte da investigação de enfermaria de nenhum jeito — a separação entre diabetes insipidus central e nefrogênico é feita pela resposta à desmopressina, em serviço que faça o teste.

Na prescrição, a Rename 2024 padroniza glicose a 5%, a 10% e a 50%, cloreto de sódio a 0,9% e a 20%, e bicarbonato de sódio a 8,4%. Não padroniza cloreto de sódio a 0,45%: essa solução, do lado hipotônico do eixo, é preparada, exatamente como a salina a 3% é preparada do lado hipertônico. A receita está no bloco de fluxos e tabelas, e ela é mais simples do que a da hipertônica — não precisa de ampola.

Desmopressina existe na Rename em três apresentações — solução spray nasal 0,1 mg/mL, no componente Especializado, e soluções injetáveis de 4 e de 15 microgramas por mililitro, no componente Estratégico. Componente Especializado significa que ela não está no carrinho da enfermaria: passa por processo administrativo próprio. Esse é mais um motivo para o diabetes insipidus deste capítulo terminar num telefonema, e não numa prescrição.

9. Quando parar de investigar e chamar

Chame a nefrologia quando: a hipernatremia é grave e vem com lesão renal — é a indicação escrita no protocolo brasileiro, que manda avaliar necessidade de hemodiálise nesses casos; quando o paciente está em terapia dialítica e o sódio está variando junto com as sessões, situação em que o guia da Sociedade Brasileira de Nefrologia adverte que a modalidade intermitente induz variação rápida de sódio e precisa ser prevista no planejamento; ou quando o sódio não desce apesar de água prescrita, medida e conferida por 24 horas.

Chame a endocrinologia ou a nefrologia, conforme quem faz o teste no seu serviço, quando houver poliúria com urina diluída e suspeita de diabetes insipidus. Não comece desmopressina de enfermaria: a droga precisa de diagnóstico antes, tem apresentação de acesso restrito, e a dose intranasal do protocolo brasileiro tem um problema que está discutido no bloco de fluxos e tabelas deste capítulo.

Chame o intensivista quando houver rebaixamento novo durante a correção. Rebaixamento durante a queda do sódio é edema cerebral até prova em contrário, e a conduta é parar a água livre, dosar sódio agora e pedir ajuda — não é aumentar a bolsa nem esperar a próxima coleta.

07

O teto de queda, a conta da água e a receita de 0,45% que não dá 0,45%

Aprenda a reconstruir o balanço de água e eletrólitos e a causa da hipernatremia antes de escolher a reposição.

  1. 1Pergunte primeiro se há sintoma neurológico e se ele é novo. Rebaixamento, convulsão ou déficit focal que apareceram hoje mudam a urgência, mas não autorizam pressa na queda do sódio — autorizam água agora, na velocidade certa, e imagem se houver foco.
  2. 2Procure a data de início no prontuário. Sódio normal documentado nas últimas 48 horas define hipernatremia aguda e permite corrigir mais rápido. Sem essa documentação, o caso é crônico e o teto é o apertado. Na enfermaria, a ausência de documentação é a regra.
  3. 3Classifique a volemia à beira do leito e escreva a classificação na evolução com os achados que a sustentam. Hipovolêmico grave tem a ordem invertida: primeiro perfusão com solução isotônica, depois água livre.
  4. 4Leia a folha de prescrição das últimas 72 horas e some o sódio que ela entrega — salina, bicarbonato, ampola de cloreto de sódio, dieta, diluente de medicação. Suspenda o que der para suspender hoje.
  5. 5Some, na mesma leitura, a água livre que a folha entrega. Se a resposta for zero num paciente que não bebe sozinho, você já achou a causa.
  6. 6Calcule a água corporal total pela tabela de sexo e idade, e o déficit de água pela fórmula. O déficit serve para saber o tamanho do problema e para saber que ele não se resolve hoje. Ele não é a prescrição.
  7. 7Calcule o teto de queda de 24 horas antes de escolher a solução, e escreva na prescrição o sódio mínimo permitido para amanhã de manhã, em número absoluto.
  8. 8Calcule quanto um litro da solução que você pretende usar baixa o sódio deste paciente, pela fórmula de Adrogué-Madias, e converta o teto em volume e em velocidade.
  9. 9Escolha a via antes da solução. Se há sonda enteral ou via oral segura, a água é água, e vai por ali. A veia é para quem não tem trato digestivo utilizável.
  10. 10Some as perdas que continuam: perdas insensíveis, febre, diurese, drenagem, diarreia. Elas entram por cima da conta do déficit, e são a razão mais comum de o sódio não cair como o previsto.
  11. 11Prescreva com velocidade escrita e marque na própria prescrição os horários do recontrole — de 6 em 6 horas durante correção ativa.
  12. 12Deixe escrita a regra de parada e o gatilho de chamar: queda maior que 2 mmol/L entre duas coletas, ou qualquer rebaixamento novo, interrompe a água livre e chama o plantonista.
Situação na beira do leitoQueda permitida em 24 hO que se prescreve primeiroPor quê
Hipernatremia crônica ou de duração indeterminada, qualquer número, sem instabilidadeNo máximo 10 mmol/L em 24 h, e no máximo 0,5 mmol/L por hora. Meta de 8, para deixar folgaÁgua livre pela sonda ou por via oral, em doses fracionadas, com o volume total escritoNa duração crônica/desconhecida, planejar queda gradual e monitorar. Via enteral ou glicose IV dependem de deglutição, acesso, tolerância e necessidade; não há uma via universalmente mais segura.
Hipernatremia aguda documentada (sódio normal nas últimas 48 h): erro de diluição, infusão de hipertônica, bicarbonato em bolusAté 1,0 mmol/L por hora, com recontrole a cada 4 a 6 hSuspender a fonte de sódio e dar água livre, pela via mais rápida disponívelO cérebro ainda não se adaptou, ainda está encolhido; devolver água depressa é o tratamento e não o risco
Hipovolêmico com hipoperfusão (hipotensão, taquicardia, oligúria, extremidades frias)O teto continua valendo, mas ele não governa a primeira horaSolução isotônica até restaurar a perfusão; só então água livrePerfusão vem antes de tonicidade. O protocolo brasileiro manda expandir com salina a 0,9% até estabilizar e corrigir os parâmetros
Hipervolêmico por ganho de sódio (edema, jugular túrgida, congestão, balanço positivo)No máximo 10 mmol/L em 24 hSuspender a fonte de sódio, associar diurético de alça e dar água livreAqui há sódio a mais no corpo, e não só água a menos. Dar volume isotônico piora a congestão sem baixar o sódio
Poliúria acima de 200 mL/h com urina diluída e densidade abaixo de 1005No máximo 10 mmol/L em 24 h, mas a reposição precisa cobrir a perda em cursoRepor a água que está sendo perdida, medir urina de hora em hora, e chamar quem investiga diabetes insipidusSem repor a perda em curso, nenhuma conta de déficit fecha. E desmopressina exige diagnóstico antes
Poliúria com urina de osmolaridade alta às custas de ureia ou glicoseNo máximo 10 mmol/L em 24 hReduzir a geração de soluto (proteína da dieta, corticoide, sangramento, hiperglicemia) e repor águaAqui a água sozinha não resolve, porque a perda continua enquanto a carga osmolar continuar
Sódio entre 146 e 149, assintomático, causa identificada na folhaNão há teto a administrar: a correção da causa costuma resolver sozinhaCorrigir a folha e escrever a linha de água. Recontrole em 24 hNesse patamar o déficit é pequeno e a intervenção é de prescrição, não de solução
Rebaixamento novo durante a correção, em qualquer faixaNenhuma. Interrompa a quedaParar a água livre, dosar sódio agora, chamar ajuda, considerar imagemRebaixamento novo exige suporte, conferência do Na e investigação urgente; edema cerebral é hipótese, não conclusão automática.

As soluções do lado hipotônico: quanta água livre cada litro realmente entrega

SoluçãoSódioÁgua livre em 1 litroObservação
Água pela sonda enteral, ou água por via oralZero1.000 mLÉ a solução mais eficiente que existe e a única que não precisa de bolsa, bomba, acesso nem farmácia. Cabe em qualquer serviço
Glicose a 5% endovenosaZero (Protocolo nº 297, HC-UFMG/Ebserh)1.000 mL, depois de a glicose ser metabolizadaOsmolaridade de 278 mOsm/L na bolsa, o que a torna segura em veia periférica; entrega 50 g de glicose e 200 kcal por litro. Padronizada na Rename 2024
Cloreto de sódio a 0,2% em glicose a 5%34 mmol/L (Protocolo nº 297)779 mLMeio-termo útil em quem precisa de água mas não pode receber sódio zero em volume grande. Também é preparada
Cloreto de sódio a 0,45%77 mmol/L (Protocolo nº 297)500 mLA equivalência aproximada com 500 mL de água livre usa uma referência de tonicidade. No paciente, a contribuição à água livre de eletrólitos depende de Na+K da solução em relação ao Na plasmático; a queda não é sempre exatamente metade da água pura.
Cloreto de sódio a 0,9%154 mmol/LZeroPode restaurar perfusão na hipovolemia; sua capacidade de reduzir Na muito elevado é pequena e não substitui água livre após estabilização. Na da solução deve ser comparado com o do paciente, não tratado como efeito sempre zero.
Ringer com lactato130 mmol/L (Protocolo nº 297)156 mLLevemente hipotônico em relação ao plasma, mas longe de ser fonte de água livre. Mesma indicação da salina a 0,9%

A receita de 0,45%: a que não dá 0,45%, e as duas que dão

ReceitaCloreto de sódio totalConcentração realSódio realO que isso significa
20 mL de cloreto de sódio a 20% completados a 1.000 mL com água destilada ou glicose a 5% — receita publicada no material suplementar do protocolo brasileiro20 mL x 200 mg/mL = 4,00 g em 1.000 mL0,40%68,4 mmol/L11% menos sódio que os 77 mmol/L que a tabela do mesmo documento atribui à solução a 0,45%. A solução sai mais hipotônica do que a pretendida, e o erro empurra a correção para mais rápida — o lado errado nesta doença. Para 4,5 g são necessários 22,5 mL
500 mL de cloreto de sódio a 0,9% mais 500 mL de água para injeção4,50 g em 1.000 mL0,45%77,0 mmol/LExato, sem ampola nenhuma e sem conta nenhuma: metade de uma bolsa de soro fisiológico é, por definição, metade do sódio. É a receita que este capítulo usa
500 mL de cloreto de sódio a 0,9% mais 500 mL de glicose a 5%4,50 g em 1.000 mL0,45% de cloreto de sódio e 2,5% de glicose77,0 mmol/LTambém exato. A bolsa fica com 293 mOsm/L e parece isotônica, mas a glicose é metabolizada e a tonicidade efetiva cai para 154 mOsm/L. Acrescenta 25 g de glicose por litro — importa no diabético
22,5 mL de cloreto de sódio a 20% completados a 1.000 mL com água para injeção4,50 g em 1.000 mL0,45%77,0 mmol/LCorreta, e é a correção aritmética da primeira linha. Exige fracionar ampola de 10 mL em 2,25 unidades, o que é preparo pior por nada: as duas receitas acima chegam ao mesmo lugar sem quebrar ampola

Quanto 1 litro de cada solução baixa o sódio, pela fórmula de Adrogué-Madias

PacienteÁgua corporal totalÁgua pura ou glicose 5%NaCl 0,2% em SG 5%NaCl 0,45%NaCl 0,9%
Mulher, 82 anos, 48 kg, sódio 168 mmol/L21,6 L (peso x 0,45)desce 7,43 mmol/Ldesce 5,93 mmol/Ldesce 4,03 mmol/Ldesce 0,62 mmol/L
Homem, 64 anos, 72 kg, sódio 152 mmol/L43,2 L (peso x 0,6)desce 3,44 mmol/Ldesce 2,67 mmol/Ldesce 1,70 mmol/Lsobe 0,05 mmol/L
Homem, 47 anos, 78 kg, sódio 154 mmol/L46,8 L (peso x 0,6)desce 3,22 mmol/Ldesce 2,51 mmol/Ldesce 1,61 mmol/Lnão muda
Mulher, 58 anos, 60 kg, sódio 160 mmol/L30,0 L (peso x 0,5)desce 5,16 mmol/Ldesce 4,06 mmol/Ldesce 2,68 mmol/Ldesce 0,19 mmol/L

Água corporal total, déficit de água e a conversão do teto em velocidade

ItemRegra e conta
Água corporal total, por sexo e idadeHomem com menos de 65 anos: peso x 0,6. Homem com 65 ou mais e mulher com menos de 65: peso x 0,5. Mulher com 65 ou mais: peso x 0,45 (tabela do protocolo brasileiro)
Déficit de água na hipernatremiaÁgua corporal total multiplicada por (sódio do paciente dividido por 140, menos 1). Em mulher de 48 kg com 82 anos e sódio 168: 21,6 x (168/140 - 1) = 21,6 x 0,2 = 4,32 litros
O que acontece se você usar a fração erradaA água corporal estimada varia com idade, composição corporal e desidratação. Subestimar não é automaticamente seguro: pode causar subtratamento prolongado da hipernatremia. Use estimativa plausível, acompanhe resposta e corrija o plano.
Fórmula de Adrogué-Madias, aplicada à quedaVariação do sódio por litro infundido igual a (sódio da solução menos sódio do paciente) dividido por (água corporal total mais 1). Com solução sem sódio, o numerador é o próprio sódio do paciente com sinal negativo
Conversão do teto em volume de águaTeto em mmol/L dividido pela queda por litro, vezes 1.000 mL. Na mulher de 48 kg com sódio 168, cuja queda por litro é 7,43: 1.077 mL para descer 8 mmol/L, e 1.345 mL para descer 10
Conversão em velocidadeVolume dividido por 24. Os mesmos 1.077 mL dão 45 mL por hora. Com salina a 0,45% em vez de água, o volume dobra para 1.987 mL e a velocidade vai a 83 mL/h — mesma queda de sódio, o dobro de volume no paciente
O que a conta não incluiPerdas em curso. Perda insensível de 500 a 800 mL/dia no adulto acamado, mais 350 mL por grau Celsius acima de 37,5, mais diurese, drenagem, diarreia e sudorese. Tudo isso é água que sai enquanto a sua entra, e entra por cima do volume calculado
Necessidade hídrica basal do idoso, para a manutenção30 mL/kg/dia até os 75 anos; 25 mL/kg/dia acima disso (estudo brasileiro de nutrição enteral). Em 48 kg com 82 anos: 1.200 mL/dia, dos quais a fórmula enteral costuma entregar cerca de 77% do volume infundido

A folha de prescrição: o que sobe o sódio

Linha da folhaQuanto de sódio ela entregaComo sobe
Cloreto de sódio a 0,9%, 1.000 mL154 mEqNão sobe muito o sódio por si, mas ocupa o lugar da água: cada litro dela é um litro de água livre que o paciente não recebeu
Bicarbonato de sódio a 8,4%, frasco de 250 mL250 mEq (1 mEq/mL, Rename 2024 e bula)Mais sódio que um litro e meio de soro fisiológico, num frasco que sai da farmácia rotulado como correção de acidose. Em homem de 72 kg com sódio 152, 100 mL sobem o sódio 1,9 mmol/L
Ampola de cloreto de sódio a 20%, 10 mL34 mEq (3,4 mEq/mL, Rename 2024)Acrescentada a soro "para repor eletrólito", entrega o sal de meio litro de soro fisiológico em dez mililitros
Salina a 3% que sobrou de outra indicação, ou erro de diluição da ampola a 20%513 mEq/L, e a ampola pura tem 3.422 mEq/LA própria bula do cloreto de sódio a 20% descreve o que o erro de diluição produz: aumento da osmolaridade plasmática, sede, agitação, irritabilidade, letargia, tremores, convulsões e flebite
Dieta enteral hipertônica ou hiperproteica sem água livre prescritaSódio variável e, sobretudo, carga osmolar altaSobe por dois caminhos: o volume da bolsa é só cerca de 77% de água, e a ureia gerada pela proteína obriga o rim a urinar mais para eliminá-la
Corticoide em dose altaNenhum sódio diretoGera ureia por catabolismo proteico e retém sódio; no relato brasileiro de diurese osmótica, metilprednisolona 75 mg de 8 em 8 horas era um dos dois motores do quadro
Diurético de alça, manitol, e diurese osmótica por glicoseNenhum sódio diretoFazem perder mais água do que sal — o oposto do que o nome "perdedor de sal" sugere
Lactulose, sorbitol e laxantes osmóticos; diarreia de qualquer causaNenhum sódio diretoA perda digestiva osmótica é hipotônica: sai mais água que sal
Solução de diálise hipertônica e sobrecarga de citrato na anticoagulação regionalVariável, definida pelo dialisatoNomeadas como causa de hipernatremia no protocolo brasileiro e no guia da Sociedade Brasileira de Nefrologia, respectivamente
A linha que não existe: água livreA ausência dela é a causa mais comum de hipernatremia de enfermaria, e é a única que não aparece em nenhum exame

As três volemias na hipernatremia, lado a lado

HipovolêmicaEuvolêmicaHipervolêmica
Exame físicoHipotensão postural, taquicardia, mucosas secas, oligúria, extremidades friasMucosas secas sem repercussão hemodinâmica; pressão e frequência preservadasEdema, turgência jugular, congestão pulmonar, ganho de peso, balanço acumulado positivo
O que se perdeu ou ganhouPerdeu água e sal, com mais água que salPerdeu água quase puraGanhou sódio
Sódio urinárioAcima de 20 mmol/L na perda renal; abaixo de 20 na extrarrenalBaixo, com urina máxima concentrada — o rim está fazendo tudo certoAlto, porque o rim está excretando o sódio que recebeu
Causas típicasDiarreia, vômito, drenagem, sudorese profusa, queimadura, diurético, diurese osmóticaFalta de acesso à água, hipodipsia do idoso, disfagia, rebaixamento, perdas insensíveis, diabetes insipidusBicarbonato, salina hipertônica, ampola de cloreto de sódio, dieta hipertônica, diálise hipertônica, hiperaldosteronismo, Cushing
Primeira condutaSolução isotônica até restaurar perfusão; depois água livreÁgua livre pela via que existir, e a correção da causa na folhaSuspender a fonte de sódio, diurético de alça e água livre
Erro típico de condutaDar água livre antes de restaurar perfusãoDar salina a 0,9% achando que hidrataDar volume isotônico, o que piora a congestão e não baixa o sódio

O teto adotado neste capítulo é de 10 mmol/L de queda em 24 horas, com velocidade máxima de 0,5 mmol/L por hora, e meta de 8 mmol/L para deixar folga. Ele vem direto do protocolo brasileiro, que escreve taxa máxima de redução de 0,5 a 1,0 mEq/L/h e máximo de 10 a 12 mEq em 24 horas. Dentro dessa faixa, o critério para escolher o número mais apertado é a duração: se a hipernatremia é crônica ou de duração indeterminada, o cérebro já acumulou osmóis orgânicos e a queda rápida enche a célula de água; se ela é aguda e documentada, o cérebro ainda não se adaptou e 1,0 mmol/L por hora é seguro e é o tratamento. Na enfermaria, a duração raramente está documentada, e a regra prática é a mesma prudência que a revisão brasileira recomenda do outro lado do eixo: na dúvida, trate como crônica e vá devagar.

O teto e a meta são coisas diferentes, e a diferença é operacional. Meta é o número que você usa para calcular a velocidade; teto é a linha que, cruzada, transforma o tratamento no problema. A meta fica dois milimoles abaixo do teto de propósito, e essa folga é o espaço reservado para o que ninguém prescreve — a água que a família dá de copinho, a queda que a suspensão do bicarbonato produz sozinha, a diurese que diminui quando a perfusão melhora. Escreva os dois na prescrição, em números absolutos e para baixo: para dona Cremilda, partindo de 168, a meta de amanhã de manhã é 160 e a linha vermelha é 158. Número absoluto, porque quem lê à noite não deve precisar refazer conta nenhuma.

As duas disnatremias exigem compreender a adaptação osmótica, mas a evidência de dano na correção não é simétrica. A sobrecorreção da hiponatremia crônica pode causar desmielinização osmótica, com manifestações tardias. Na hipernatremia crônica, o acúmulo intracelular de osmóis fundamenta a preocupação teórica com edema durante queda rápida; a demonstração clínica desse dano em adultos é limitada. Planejar correção gradual e individualizada, verificar a trajetória e evitar também correção insuficiente prolongada. Não diagnosticar edema nem elevar novamente o Na apenas porque a queda superou o planejado.

O déficit de água calculado não é a prescrição do dia, e confundir os dois é o erro aritmético mais comum deste tema. O déficit de dona Cremilda é de 4,32 litros; a água que ela pode receber em 24 horas, pelo teto, é de 1,08 litro. Se alguém repuser o déficit em um dia, o sódio dela cai 32 mmol/L e o desfecho não é a alta. A ordem correta é a inversa da intuitiva: calcule o déficit para saber o tamanho do problema e para se convencer de que ele leva três ou quatro dias; calcule a prescrição a partir do teto. O déficit informa o prognóstico da correção, não o volume da bolsa.

A conta do déficit tem uma segunda limitação, e ela é a razão número um de o sódio não cair como o previsto: a fórmula assume um sistema fechado. Ela não conta a perda que continua acontecendo enquanto você repõe — perda insensível de 500 a 800 mL por dia no adulto acamado, mais 350 mL por grau acima de 37,5 numa paciente febril, mais a diurese, mais a drenagem da sonda, mais a diarreia. Em dona Cremilda com febre de 38,5, essas perdas somam facilmente 1.100 mL por dia, isto é, mais do que o volume de correção que o teto autoriza. Se você prescrever só a correção e esquecer a manutenção, o sódio não desce — e a conclusão errada será de que a paciente não respondeu.

Repare que essa limitação é o espelho invertido da que a fórmula de Adrogué-Madias tem no capítulo de hiponatremia. Lá ela subestima a correção, porque não conta a aquarese que a retirada da causa desencadeia, e por isso o paciente sobe mais do que o previsto e o risco é supercorrigir. Aqui ela superestima a correção, porque não conta a perda que continua, e por isso o paciente desce menos do que o previsto e o risco é achar que a conduta falhou. Mesma fórmula, mesma cegueira, dois erros de sinal oposto. Em nenhum dos dois lados ela dispensa o recontrole.

A receita de salina a 0,45% do material suplementar do protocolo brasileiro não fecha, e a conta é curta: 20 mL de cloreto de sódio a 20% contêm 4,00 g de cloreto de sódio; diluídos a um volume final de 1.000 mL, isso é 0,40% e 68,4 mmol/L de sódio, e não os 0,45% e 77 mmol/L que a tabela do mesmo documento, duas linhas acima, atribui à solução. Faltam 8,6 mmol/L, ou 11% do sódio pretendido. Para chegar a 4,5 g seriam necessários 22,5 mL.

Duas coisas fazem esse erro importar mais aqui do que importaria em qualquer outro capítulo. A primeira é a direção: solução mais hipotônica do que a pretendida entrega mais água livre por litro, e portanto derruba o sódio mais rápido do que a conta previu — que é exatamente o lado errado nesta doença, em que a trajetória precisa ser vigiada; edema cerebral é preocupação fisiológica, com evidência clínica limitada em adultos. A segunda é que a solução a 0,45% é a bolsa de trabalho da hipernatremia, enquanto no capítulo vizinho ela é figurante. Um erro de 11% numa solução que se pendura por três dias é diferente de um erro de 11% numa solução que ninguém usa.

E há uma saída melhor do que corrigir a receita: não usar ampola nenhuma. Cloreto de sódio a 0,45% é, por definição, cloreto de sódio a 0,9% pela metade — 500 mL de soro fisiológico mais 500 mL de água para injeção dão 4,5 g em 1.000 mL, isto é 0,45% e 77 mmol/L exatos, sem quebrar ampola, sem retirar volume de bolsa e sem conta nenhuma. Trocando a água para injeção por glicose a 5%, o resultado é o mesmo sódio com 2,5% de glicose junto: a bolsa fica com 293 mOsm/L e parece isotônica, mas a glicose é metabolizada e a tonicidade efetiva cai para 154 mOsm/L. É a receita que este capítulo prescreve, e ela dispensa a discussão sobre diluente que o outro lado do eixo é obrigado a ter.

A dose intranasal de desmopressina do mesmo protocolo tem um problema de unidade, e ele é de duas ordens de grandeza. O documento manda iniciar 0,1 mcg uma vez ao dia até 0,2 mcg de 12 em 12 horas por via intranasal. A única apresentação intranasal padronizada na Rename 2024 é a solução spray nasal de 0,1 mg/mL, isto é 100 microgramas por mililitro — e 0,1 mcg dessa solução é 1 microlitro, um volume que nenhum spray administra. Lidos como mililitros, os mesmos números dão 10 e 20 microgramas, que é a faixa utilizável. Some a comparação interna: o protocolo do potencial doador usa 0,1 a 1 mcg por via endovenosa, e o protocolo de hiponatremia do HC-UFMG usa 2 a 4 mcg endovenosos ou subcutâneos de 8 em 8 horas. Como a biodisponibilidade nasal é menor que a endovenosa, uma dose intranasal cem vezes menor que a endovenosa não existe. O número está certo e a unidade está errada.

O que essa segunda conta prova não é que o protocolo é ruim — é que desmopressina não se prescreve de enfermaria a partir de uma linha de protocolo. Ela exige o diagnóstico feito, a apresentação certa e quem saiba a dose da apresentação que está na mão. Neste capítulo, diabetes insipidus é diagnóstico a suspeitar e remeter: você reconhece a poliúria com urina diluída, repõe a água que está sendo perdida, mede o que precisa ser medido antes de qualquer droga, e chama. O tratamento é de quem investiga.

Salina a 0,9% não trata hipernatremia, e vale entender por que ela parece que trata. Ela hidrata o compartimento intravascular, e portanto melhora a pressão, a frequência e a perfusão de quem está hipovolêmico — e essa melhora é real e às vezes é a prioridade. Mas ela não entrega água livre nenhuma: pela fórmula, um litro de salina a 0,9% baixa o sódio de dona Cremilda em 0,62 mmol/L e sobe o do senhor Ademir em 0,05. Prescrever soro fisiológico para hipernatremia é prescrever o volume certo do líquido errado. A regra que resolve: isotônica enquanto houver hipoperfusão; água livre assim que ela for corrigida.

A via enteral é a melhor conduta deste capítulo e a mais esquecida, e o protocolo brasileiro do potencial doador registra isso em duas passagens ao escrever reposição de água livre por via venosa ou enteral. Água pela sonda é água pura: entrega 1.000 mL de água livre por litro, contra 500 mL da salina a 0,45%, e por isso resolve o mesmo problema com metade do volume no paciente — o que importa muito no idoso, no cardiopata e no nefropata. Ela não precisa de acesso venoso, não precisa de bomba, não precisa de farmácia, não tem risco de flebite e custa o preço de um copo. Quando existe trato digestivo utilizável, a água vai por ele; a veia é para quem não tem.

Três coisas que este capítulo não repete de propósito. A aritmética da salina a 3% brasileira — quantos miliequivalentes tem a ampola de cloreto de sódio a 20%, quantos mililitros dela vão em quanto soro, e por que trocar o diluente estraga a conta — está no capítulo de hiponatremia desta apostila e vale ali sem uma vírgula de diferença. A reposição de potássio, com ampola, concentração e velocidade, está no capítulo de potássio; o que importa aqui é apenas que repor potássio sobe o sódio, e que essa subida trabalha contra a queda que você planejou. E a régua geral do fluido de manutenção, com escolha de solução e volume por quilo, é do capítulo de hidratação venosa — a soma do que a manutenção entrega com o que a correção entrega é responsabilidade de quem assina a folha.

Por fim, a fronteira com o vizinho, dita do lado de cá. Quando um paciente com hiponatremia é corrigido rápido demais, o que se faz para trazê-lo de volta é o começo do manejo de hipernatremia aplicado ao contrário: água livre por via oral ou glicose a 5% endovenosa, com desmopressina para segurar a água, e sódio de hora em hora. O protocolo de hiponatremia do HC-UFMG escreve essa conduta com dose — desmopressina 2 a 4 mcg a cada 8 horas e glicose a 5% a 3 mL/kg/h ou 10 mL/kg em uma hora. É a mesma água deste capítulo, na velocidade oposta e com o objetivo oposto: lá se quer derrubar o sódio depressa porque ele subiu depressa; aqui se quer derrubá-lo devagar porque ele subiu devagar. A diferença entre as duas situações não está na solução — está no tempo que o cérebro teve para se adaptar.

08

A conduta, hora a hora

A conduta na hipernatremia tem uma ordem fixa, e ela tem um passo a mais do que a do distúrbio espelhado: aqui se decide a via antes da solução. Antes das duas vêm o sintoma, a duração, a volemia, a leitura da folha e o cálculo do quanto este paciente pode cair em 24 horas. Um interno que decide a bolsa primeiro pendura salina a 0,45% numa senhora de 48 quilos com sonda nasoenteral funcionando — e gasta dois litros de volume para entregar um litro de água.

A linha do tempo abaixo acompanha os dois pacientes da abertura, porque eles são as duas metades do problema. Dona Cremilda Nogueira, 82 anos, 48 quilos, nono dia de AVC isquêmico, afásica, acamada, com sonda nasoenteral e dieta de 1.000 mL em 24 horas, sódio de 168 mmol/L hoje e 141 na admissão, potássio 3,9, ureia 78, creatinina 1,1, glicemia 132, temperatura 38,2 desde ontem à noite, sem água livre prescrita em nove dias. Senhor Ademir Fontes, 64 anos, 72 quilos, quarto dia de pós-operatório de laparotomia, dieta zero, sonda nasogástrica aberta drenando 900 mL/dia, edema de membros inferiores 2+/4+, ganho de 3,4 kg desde a admissão, sódio de 152 mmol/L hoje e 144 anteontem, recebendo 3.000 mL de salina a 0,9%, 100 mL de bicarbonato de sódio a 8,4% e duas ampolas de cloreto de sódio a 20% por dia. Toda dose vem com a fonte que a sustenta.

  1. Minuto 0 a 10 — as quatro perguntas, e nenhuma delas é sobre a bolsa

    Nenhum dos dois recebe uma gota antes de as quatro perguntas estarem respondidas por escrito. A primeira: há sintoma neurológico novo? Dona Cremilda está como estava ontem — afásica, sonolenta ao fim da tarde, sem foco motor novo, sem crise. Senhor Ademir está lúcido e orientado, queixando-se de sede, que é o único dos dois que consegue dizer. A segunda: quanto tempo faz? Dona Cremilda tinha 141 na admissão e não tem coleta intermediária: duração indeterminada, logo crônica. Senhor Ademir tinha 144 anteontem e 152 hoje: subiu 8 em 48 horas, o que também é crônico pela régua das 48 horas, e não autoriza pressa. A terceira: qual a volemia? Ela, euvolêmica — mucosas secas, sem edema, pressão 118 por 70 sem variação postural aferível na cama, diurese de 550 mL nas últimas 24 horas com urina escura. Ele, hipervolêmico — edema, jugulares visíveis a 45 graus, estertores em bases, 3,4 kg a mais. A quarta: o que na folha explica isso? Nela, a ausência de qualquer linha de água. Nele, 630 mEq de sódio por dia.

    Prescrição
    • Sódio, potássio, ureia, creatinina e glicemia séricos agora nos dois, com o horário da coleta anotado ao lado do resultado na evolução. O protocolo brasileiro manda repetir sódio plasmático a cada 6 a 8 horas durante a correção e reajustar as velocidades conforme o valor (Protocolo Distúrbios do Sódio, PCAN04, Hospital Geral Eduardo Campos, 2020).
    • Sódio, potássio e ureia urinários em amostra isolada nos dois, colhidos antes de qualquer diurético e antes de expandir. Sódio urinário acima de 20 mmol/L indica perda renal e abaixo de 20 indica perda extrarrenal (mesmo protocolo).
    • Urina tipo 1 com densidade nos dois, pela pergunta da concentração urinária. Densidade abaixo de 1005 em paciente com poliúria e hipernatremia é muito sugestiva de diabetes insipidus (Protocolo PRT.STPC.CIHDOTT.060, HC-UFMG/Ebserh, 2024) — nenhum dos dois preenche isso, e é essa a razão de nenhum dos dois ter investigação hormonal hoje.
    • Diurese medida por turno nos dois, com ordem escrita para a enfermagem, e peso diário na mesma balança. Balanço acumulado positivo na primeira semana é fator de risco independente para hipernatremia (Carvalho, dissertação FMRP-USP, 2018), e sem medida não há balanço.
    • Suspender, na prescrição do senhor Ademir e hoje: bicarbonato de sódio a 8,4% 100 mL/dia, e as duas ampolas de cloreto de sódio a 20% acrescentadas ao soro da tarde. Registrar na evolução que a indicação do bicarbonato foi revista, com gasometria de controle pedida — quatro dias de drenagem nasogástrica de alto débito produzem alcalose, e não acidose. A leitura do distúrbio ácido-base é do capítulo de gasometria desta apostila.
    • Reduzir a salina a 0,9% da prescrição dele de 3.000 mL para 1.000 mL em 24 horas, mantendo apenas o volume necessário para diluição de medicação, e registrar o motivo. Cada litro de salina a 0,9% entrega 154 mEq de sódio e zero de água livre (Rename 2024; tabela de concentração de sódio das soluções do Protocolo assistencial nº 297, HC-UFMG/Ebserh, 2021).
    • Não suspender nada da prescrição de dona Cremilda: o problema dela não é o que está escrito, é o que não está.
  2. Minuto 10 — a conta que se faz antes de escolher a solução, e que se escreve na folha

    Este é o passo que separa este capítulo de qualquer outro tratamento da enfermaria, e ele é o mesmo dos dois lados do eixo do sódio: o teto é calculado e escrito antes de a solução ser escolhida. Dona Cremilda tem hipernatremia de duração indeterminada, e portanto teto de 10 mmol/L em 24 horas, com meta de 8 — o que significa sódio de 160 amanhã de manhã e 158 como linha que não se cruza. A água corporal total dela, pela tabela de sexo e idade, é 48 vezes 0,45, isto é 21,6 litros. Um litro de água livre baixa o sódio dela 7,43 mmol/L: 168 menos zero, dividido por 22,6. Para descer 8, ela precisa de 1.077 mL de água livre em 24 horas. O déficit total dela é de 4,32 litros — quatro vezes isso —, e é por isso que a correção dela vai levar quatro dias. O senhor Ademir, com 43,2 litros de água corporal, tem déficit de 3,70 litros e queda de 3,44 mmol/L por litro de água livre; ele precisa de 2.326 mL para descer 8, e é justamente o paciente edemaciado que menos pode receber volume.

    Prescrição
    • Escrever na prescrição de dona Cremilda, em número absoluto e no alto da folha: sódio-meta em 24 horas de 160 mmol/L; não ultrapassar a queda até 158 mmol/L. Número absoluto e para baixo, porque quem lê à noite não deve precisar refazer conta nenhuma nem lembrar o sinal.
    • Escrever a mesma linha na prescrição do senhor Ademir: sódio-meta de 144 mmol/L em 24 horas; não ultrapassar a queda até 142 mmol/L.
    • Calcular a água corporal total pela tabela por sexo e idade: mulher com mais de 65 anos, peso vezes 0,45, o que dá 21,6 litros em 48 quilos; homem com menos de 65 anos, peso vezes 0,6, o que dá 43,2 litros em 72 quilos (Protocolo Distúrbios do Sódio, PCAN04, 2020).
    • Calcular o déficit de água pela fórmula do mesmo protocolo: água corporal total multiplicada por (sódio do paciente dividido por 140, menos 1). Dona Cremilda: 21,6 x (168/140 - 1) = 4,32 litros. Senhor Ademir: 43,2 x (152/140 - 1) = 3,70 litros. Registrar os dois números na evolução, com a advertência de que eles são o tamanho do problema e não o volume do dia.
    • Calcular a queda por litro pela fórmula de Adrogué-Madias: sódio da solução menos sódio do paciente, dividido por água corporal total mais 1 (mesmo protocolo).
    • Somar as perdas em curso ao volume calculado, por escrito: perda insensível de 500 a 800 mL/dia no adulto acamado, mais 350 mL por grau Celsius acima de 37,5 (Guedes e Lima, BRASPEN Journal, 2021). Dona Cremilda está com 38,2 há doze horas — some pelo menos 250 mL só por isso.
    • Registrar a conta na evolução com os três números que a compõem: água corporal total, queda por litro e volume do dia. Quem confere no plantão da noite precisa poder refazer o cálculo sem reconstruir a história.
  3. Hora 0 a 1 — as duas situações em que a pressa é certa, e nenhum dos dois pacientes está nelas

    Existem exatamente dois cenários em que você acelera, e é importante saber que eles são diferentes entre si. O primeiro é a hipoperfusão: paciente hipovolêmico com hipotensão, taquicardia, oligúria e extremidades frias precisa de volume isotônico agora, e a tonicidade espera. O protocolo brasileiro escreve a ordem sem ambiguidade — expandir o intravascular com salina a 0,9% até estabilização e correção dos parâmetros, e só após a correção volêmica hidratar com solução hipotônica a 0,45% ou glicose a 5%. Perfusão antes de tonicidade, sempre. O segundo é a hipernatremia aguda documentada: sódio normal nas últimas 48 horas, com causa identificável e recente — erro de diluição, infusão de hipertônica, bolus de bicarbonato. Aí o cérebro ainda não acumulou osmóis, ainda está encolhido, e devolver água a até 1,0 mmol/L por hora é o tratamento, não o risco. Nenhum dos dois pacientes preenche nenhum dos dois cenários, e por isso os dois vão devagar.

    Prescrição
    • Se houvesse hipoperfusão: cloreto de sódio a 0,9%, 500 mL por via endovenosa em 30 minutos, repetindo conforme resposta hemodinâmica, até estabilização dos parâmetros — e só então trocar para solução hipotônica (Protocolo Distúrbios do Sódio, PCAN04, 2020).
    • Se a hipernatremia fosse aguda e documentada: a mesma água livre da prescrição abaixo, com a velocidade recalculada para até 1,0 mmol/L de queda por hora, e sódio de 4 em 4 horas em vez de 6 em 6. A faixa de 0,5 a 1,0 mEq/L/h é a do mesmo protocolo; o critério para escolher dentro dela é a duração do distúrbio.
    • Em qualquer dos dois casos: registrar na evolução por que se está indo rápido, com a prova documental da duração ou a descrição do estado hemodinâmico. Velocidade acima do teto sem justificativa escrita é o que ninguém consegue defender depois.
    • Na 168 mmol/L é hipernatremia grave e exige avaliação/tratamento prontamente, mesmo sem choque. Estabilidade permite planejar correção controlada, mas não transforma o caso em problema que pode esperar. Hipoperfusão pede cristaloide isotônico, com reavaliação; sintomas e duração orientam a correção da tonicidade.
  4. Hora 0 a 6 — a prescrição de dona Cremilda, escrita por inteiro

    Aqui está o núcleo prático do capítulo, e ele é constrangedoramente simples: a conduta é água pela sonda. Ela tem trato digestivo funcionante, tem sonda nasoenteral em posição, e está recebendo dieta. Água por essa sonda é água pura — 1.000 mL de água livre por litro, contra 500 mL da salina a 0,45% —, não precisa de acesso venoso, não precisa de bomba, não precisa de farmácia, não causa flebite e não some do balanço. O protocolo brasileiro do potencial doador escreve, em dois lugares, reposição de água livre por via venosa ou enteral; a via enteral está lá e quase nunca é usada. O volume sai de duas parcelas somadas: a manutenção que a dieta não cobre e a correção que o teto autoriza.

    Dois painéis mostram idoso tentando alcançar água e depois recebendo auxílio de uma profissional para segurar um copo, acordado e com tronco ereto.
    Acesso à água, mobilidade, cognição e necessidade de auxílio fazem parte da avaliação da hidratação. Oferta oral depende de deglutição segura; quantidade, via e velocidade de reposição devem ser individualizadas.
    Prescrição
    • Água filtrada 250 mL por sonda nasoenteral, de 4 em 4 horas (seis administrações: 6h, 10h, 14h, 18h, 22h e 2h), totalizando 1.500 mL em 24 horas. Infundir lentamente, com a cabeceira elevada a 30 graus, e lavar a sonda antes e depois.
    • A composição desses 1.500 mL, escrita na evolução para quem for conferir: 427 mL são manutenção — a necessidade de 25 mL/kg/dia para maiores de 75 anos dá 1.200 mL, e a fórmula enteral de 1.000 mL entrega cerca de 773 mL de água, porque a água contida na dieta é cerca de 77% do volume infundido (Guedes e Lima, BRASPEN Journal, 2021). Os 1.073 mL restantes são correção, e baixam o sódio 8,0 mmol/L pela fórmula de Adrogué-Madias.
    • Febre e outras perdas aumentam a necessidade de água, mas a estimativa por grau de temperatura é aproximada e depende de duração, ventilação e ambiente. Não declarar que esse volume deixa de influenciar Na: toda água administrada entra no balanço real, e a perda pode cessar antes da próxima avaliação.
    • Escrever ao lado, na própria linha, o volume total autorizado nas primeiras 24 horas: 1.750 mL, sendo 1.073 mL de correção. Sem esse número, a boa vontade da equipe da noite acrescenta mais dois copos e o sódio despenca.
    • Usar via enteral quando posição da sonda, tolerância e segurança forem adequadas. Glicose 5% IV continua sendo alternativa válida se a via enteral não permitir entregar a necessidade com segurança; não é uma via proibida apenas porque existe sonda. Fracionamento, velocidade e volume devem considerar risco de aspiração e desconforto.
    • Não prescrever soro fisiológico como hidratação. Um litro de salina a 0,9% baixaria o sódio dela em 0,62 mmol/L: é o volume certo do líquido errado.
    • Manter a dieta enteral 1.000 mL em 24 horas e pedir avaliação da nutrição para conferir o teor de água e a carga proteica da fórmula em uso. Fórmula hiperproteica gera ureia, ureia gera carga osmolar, carga osmolar gera diurese obrigatória — e o mesmo mecanismo que levou o sódio de uma paciente brasileira a 165 mEq/L num relato publicado (Distenhreft e cols., Brazilian Journal of Nephrology, 2020).
    • Antitérmico conforme a prescrição já existente, e investigação da febre em paralelo. A febre aqui não é só sintoma: é uma torneira de água aberta que trabalha contra a sua conta todo dia.
    • Na inicial em aproximadamente quatro horas nesta hipernatremia grave e após ajustes relevantes; ampliar para 6–8 horas quando a trajetória estiver estável. Correlacionar com diurese, entradas e perdas. Fórmula não substitui controle laboratorial.
  5. Hora 0 a 6 — a prescrição do senhor Ademir, que é quase toda de subtração

    O paciente do leito 9 tem o problema oposto e a conduta oposta. Ele não perdeu água em primeiro lugar: ele ganhou sódio, e está com 3,4 quilos a mais e estertores em bases. A primeira metade do tratamento dele é apagar linhas da folha, e isso já foi feito no primeiro marco. A segunda metade tem três peças: tirar o sódio que já entrou, dar a água que falta, e não afogar o paciente no processo. É aqui que o diurético de alça entra — o protocolo brasileiro escreve, para a hipernatremia hipervolêmica, associar furosemida. E é aqui que mora uma armadilha que vale mais que a linha da prescrição: a urina que a furosemida produz é hipotônica, isto é, leva mais água que sal. Sozinha, ela sobe o sódio. No relato brasileiro de hipernatremia por diurese osmótica, os autores registram explicitamente que a furosemida teve papel inicial na elevação do sódio da paciente, que subiu de 141 para 150 depois de iniciada. Furosemida sem água livre junto é uma máquina de fabricar hipernatremia.

    Prescrição
    • Furosemida 40 mg por via endovenosa, uma vez ao dia, apresentação de 10 mg/mL (Rename 2024, componente Básico, ATC C03CA01). É a dose diária endovenosa documentada no relato brasileiro em paciente com congestão (Distenhreft e cols., Brazilian Journal of Nephrology, 2020), e a indicação de associar diurético de alça na hipernatremia hipervolêmica é do Protocolo Distúrbios do Sódio, PCAN04, 2020. Reavaliar diariamente com peso, ausculta e sódio.
    • Glicose a 5%, 1.500 mL por via endovenosa em 24 horas, em bomba de infusão, a 62 mL por hora. Solução de glicose a 5% tem sódio zero e é, depois de metabolizada, água livre pura (tabela de soluções do Protocolo assistencial nº 297, HC-UFMG/Ebserh, 2021; apresentação de 50 mg/mL padronizada na Rename 2024). Esse volume baixa o sódio dele 5,2 mmol/L, dentro da meta de 8, com folga deliberada porque a furosemida vai empurrar na direção contrária.
    • Todas as soluções de correção do sódio devem ser administradas em bomba de infusão contínua (Protocolo Distúrbios do Sódio, PCAN04, 2020). Gravidade não serve: 1.500 mL correndo por gravidade acabam quando acabarem.
    • Glicemia capilar de 6 em 6 horas enquanto houver glicose a 5% correndo. Mil e quinhentos mililitros entregam 75 g de glicose e 300 kcal por dia, e hiperglicemia produz glicosúria, que produz diurese osmótica, que piora exatamente o problema que a bolsa deveria estar tratando.
    • Manter dieta zero e sonda nasogástrica aberta enquanto a indicação cirúrgica persistir, medindo o débito por turno e repondo a perda conforme o volume drenado. Novecentos mililitros por dia de drenagem são novecentos mililitros que saem do balanço e não estão em nenhuma conta de déficit.
    • Reavaliar diariamente a possibilidade de reintroduzir a via digestiva. No dia em que ele puder receber líquido pela sonda ou pela boca, a água sai da veia — porque água enteral é água pura e não traz glicose, volume de bolsa nem risco de flebite junto.
    • Sódio sérico às 13h e às 19h, com o valor esperado ao lado, e potássio às 19h. Repor potássio se necessário, com a advertência de que a reposição de potássio sobe o sódio e trabalha contra a queda planejada (alerta registrado do outro lado do eixo em Bastos e Rocha, Brazilian Journal of Nephrology, 2024); a dose e a velocidade do potássio são do capítulo de potássio desta apostila.
    • Peso diário na mesma balança, no mesmo horário, com a mesma roupa de cama. Em paciente hipervolêmico, o peso é o exame de imagem do balanço hídrico.
  6. Hora 6 e hora 12 — o recontrole tem hora escrita, e o que fazer com cada resultado

    Durante correção ativa, o sódio é dosado de 6 em 6 a 8 em 8 horas, com reajuste da velocidade de infusão conforme o resultado. É a régua do protocolo brasileiro e ela não é conservadorismo: a fórmula é uma previsão feita num sistema fechado, e o paciente é um sistema aberto com febre, urina, drenagem e uma família que oferece água. A previsão para dona Cremilda às 13h, seis horas depois do início, é uma queda de cerca de 2 mmol/L: sódio de 166. Para o senhor Ademir, cerca de 1,3: sódio de 151.

    Prescrição
    • Sódio sérico às 13h e às 19h nos dois, com os horários escritos na prescrição e o valor esperado anotado ao lado de cada um. Reajustar a velocidade da infusão conforme o resultado (Protocolo Distúrbios do Sódio, PCAN04, 2020).
    • Regra de parada escrita e datada, na própria prescrição: interromper a água livre se a queda entre duas coletas passar de 3 mmol/L, ou se o sódio de dona Cremilda atingir 158, ou se o do senhor Ademir atingir 142 — e chamar o plantonista. Ordem que depende de alguém lembrar não sobrevive à troca de turno.
    • Se o sódio cair mais que o previsto: suspender a água livre, manter só a manutenção, dosar sódio em 4 horas, e procurar a fonte extra — água oferecida pela família, dieta trocada, bolsa correndo mais rápido que o programado, ou perda que parou (a febre cedeu, a drenagem diminuiu).
    • Se o sódio cair menos que o previsto: antes de aumentar o volume, conferir se a água foi realmente administrada. A causa mais comum de água que não desce sódio é água que não foi dada — sonda obstruída, administração pulada na troca de turno, jejum para exame que ninguém avisou.
    • Rebaixamento novo exige avaliação imediata de via aérea, ventilação, glicemia e causas neurológicas/metabólicas, além de conferir Na, velocidade e soluções. Pausar a correção em curso enquanto se reavalia e chamar ajuda. Edema cerebral é uma hipótese a considerar, não diagnóstico estabelecido apenas pela queda do Na; em adultos a evidência de dano por velocidades maiores é limitada. Não elevar novamente o sódio com hipertônica de forma reflexa.
    • Medir diurese e balanço, mais frequentemente se houver instabilidade ou poliúria. Diurese que despenca pode significar piora da perfusão/lesão renal e não prova reposição funcionando; investigar a mudança e recalcular o plano.
  7. Hora 12 a 24 — quando o sódio não desce, e as quatro explicações em ordem

    É o cenário mais frequente do segundo dia, e a tentação é sempre a mesma: aumentar o volume. A resposta certa quase nunca é essa, e as explicações se checam em ordem, porque a primeira é a mais comum e a mais silenciosa. Primeira: a água não foi dada. Confira a checagem de enfermagem administração por administração, e confira se a sonda está pérvia. Segunda: a perda em curso é maior que a reposição — febre que não cedeu, drenagem que aumentou, diurese osmótica em andamento, diarreia que ninguém contou. Some as perdas medidas do dia e compare com o que entrou. Terceira: a fonte de sódio continua na folha — medicação diluída em soro fisiológico, dieta trocada por uma mais hipertônica, uma ampola acrescentada por outro plantonista. Releia a folha de hoje, não a de ontem. Quarta, e só depois de excluir as três: existe uma perda renal de água que você não diagnosticou, e aí o paciente precisa da conta da diurese osmótica ou da suspeita de diabetes insipidus.

    Prescrição
    • Antes de aumentar qualquer volume: conferir a checagem de enfermagem das seis administrações de água de dona Cremilda, uma a uma, e testar a permeabilidade da sonda com 20 mL de água em seringa.
    • Somar as perdas medidas do dia — diurese, drenagem, evacuações líquidas — e acrescentar 500 a 800 mL de perda insensível e 350 mL por grau acima de 37,5 (Guedes e Lima, BRASPEN Journal, 2021). Comparar com o volume administrado. Se a diferença explica a estagnação, o que falta é manutenção, não correção.
    • Reler a prescrição de hoje inteira, procurando sódio que voltou: diluente de antibiótico trocado para soro fisiológico, ampola acrescentada, dieta substituída. Registrar na evolução o total de sódio da folha, em mEq/dia.
    • Poliúria com hipernatremia e urina inadequadamente diluída sugere deficiência ou resistência à vasopressina. Colher osmolalidade sérica/urinária e eletrólitos, se isso não atrasar cuidado, repor perdas e acionar equipe experiente. Em forte suspeita de deficiência central após cirurgia selar, desmopressina pode ser necessária prontamente com monitorização; não atrasar tratamento só para preservar testes. Não realizar privação hídrica em paciente já hipernatrêmico.
    • Se a urina estiver concentrada com poliúria: calcular a osmolaridade urinária pela fórmula de duas vezes a soma de sódio e potássio urinários, mais ureia urinária em mg/dL dividida por 6, mais glicose urinária dividida por 18, e verificar quanto vem da ureia. Excreção de solutos não eletrolíticos acima de 600 mOsm em 24 horas confirma diurese osmótica (Distenhreft e cols., Brazilian Journal of Nephrology, 2020).
    • Se houver diurese osmótica por ureia, revisar oferta proteica, catabolismo e indicação/dose de corticoide com nutrição e equipe assistente. Não reduzir automaticamente a proteína a 1 g/kg nem desmamar corticoide necessário por reproduzir um relato de caso. Ajustar oferta às necessidades nutricionais e corrigir perdas de água.
    • Só depois de tudo isso, e com a conta refeita, aumentar o volume de água — respeitando o mesmo teto de 10 mmol/L em 24 horas, que não muda porque o dia foi frustrante.
  8. Dia 1 — a linha de água entra na prescrição fixa, e a jarra volta para a mesa

    Com o sódio caindo dentro do previsto, o dia seguinte tem três tarefas: manter o que funcionou, transformar a correção em rotina, e não criar o problema oposto. O sódio de dona Cremilda às 7h veio 159 mmol/L — caiu 9, um a mais que a meta de 8 e um a menos que o teto de 10. O milimol extra veio da febre que cedeu de madrugada: com a temperatura normal, a perda insensível diminuiu e o volume que era manutenção virou correção. É exatamente para isso que a folga entre meta e teto existe. O sódio do senhor Ademir veio 146, uma queda de 6, e ele urinou 2.400 mL com a furosemida, perdeu 1,1 kg e a ausculta melhorou.

    Prescrição
    • Reduzir a água de dona Cremilda para 200 mL de 4 em 4 horas, totalizando 1.200 mL/dia, e retirar o acréscimo da febre. Partindo de 159 com água corporal total de 21,6 L, a parcela de correção de 773 mL baixa o sódio 5,4 mmol/L — dentro do teto e sem pressa, porque ainda restam três dias de déficit.
    • Escrever a linha de água na prescrição fixa, e não como "se necessário". Água livre prescrita como condicional é água que não é dada: o estudo brasileiro que mediu isso encontrou 100% dos idosos em nutrição enteral com água prescrita abaixo da recomendação (Guedes e Lima, BRASPEN Journal, 2021).
    • Escrever, ao lado da linha, a necessidade calculada em mL/dia e a fórmula que a gerou (25 mL/kg/dia acima de 75 anos, menos a água contida na dieta). Quem assumir o leito amanhã precisa saber de onde saiu o número, ou vai apagar a linha na primeira revisão de prescrição.
    • Manter a dieta enteral e reavaliar a fórmula com a nutrição, considerando densidade calórica menor se o volume de água necessário estiver difícil de acomodar. Fórmula de 1,0 kcal/mL tem mais água por mililitro do que fórmula de 2,0 kcal/mL, e essa é uma escolha de prescrição, não de rótulo.
    • Reavaliar a deglutição de dona Cremilda com a fonoaudiologia. A conduta definitiva para hipernatremia por falta de acesso à água é devolver o acesso à água — e em paciente com AVC no nono dia, a reavaliação da disfagia é parte do tratamento do sódio, não um encaminhamento paralelo.
    • No senhor Ademir: reduzir a glicose a 5% para 1.000 mL em 24 horas, manter a furosemida 40 mg endovenosos ao dia enquanto houver congestão, e reavaliar a retirada dela quando o peso voltar ao da admissão.
    • Nos dois: escrever na evolução, em uma linha, a causa nomeada. "Hipernatremia por ausência de prescrição de água livre em paciente com sonda enteral" e "hipernatremia por carga de sódio prescrita (630 mEq/dia) em paciente sem via para água". Causa nomeada é o que impede a recaída no plantão seguinte.
  9. Dia 2 a 4 — o resto do déficit, e o paciente que não tem sonda nem veia

    O déficit de 4,32 litros de dona Cremilda não é reposto em um dia por decisão, e não por limitação. Repondo cerca de 1,1 litro de correção por dia dentro do teto, ela chega perto de 140 mmol/L no quarto dia — e isso é o desfecho bom. A pressa aqui não tem benefício nenhum a oferecer em troca do risco: não existe sintoma que melhore por baixar o sódio 15 em vez de 8 num paciente estável. É a diferença entre este capítulo e o do outro lado do eixo, onde o paciente que convulsiona por hiponatremia realmente precisa de correção rápida na primeira hora.

    Prescrição
    • Manter água livre pela sonda, recalculada a cada manhã com o sódio do dia: queda por litro igual ao sódio atual dividido por (água corporal total mais 1); volume igual à meta de 8 dividida por essa queda; mais a manutenção que a dieta não cobre; mais as perdas medidas do dia anterior.
    • Sódio sérico uma vez ao dia, na coleta da manhã, enquanto houver correção ativa, e a cada 48 horas nas 72 horas seguintes à normalização. O protocolo brasileiro pede recontrole a cada 6 a 8 horas durante a correção; fora dela, a frequência cai, mas não a zero.
    • Para o paciente que não tem sonda, não tem via oral segura e não tem acesso venoso — e desde que esteja no recorte de cuidados paliativos —, existe a hipodermóclise: infusão subcutânea, com volumes máximos em 24 horas de até 1.500 mL na face anterolateral da coxa, até 1.000 mL na região abdominal e na interescapular, e até 250 mL nas regiões subclavicular e deltoidea (Manual de cuidados paliativos, 2. ed., Hospital Sírio-Libanês e Ministério da Saúde, 2023).
    • A mesma fonte contraindica a hipodermóclise expressamente em situação de emergência com necessidade de reposição rápida de volume, e em anasarca, caquexia extrema, edema e lesão de pele no local. Ela é uma via lenta para um problema lento — o que descreve bem a hipernatremia crônica, e não descreve nada do que está na sala vermelha.
    • Registrar diariamente, na evolução, três números e nada mais: sódio de hoje, volume de água administrado ontem, e diurese medida de ontem. Uma evolução de hipernatremia que não tem esses três números não permite que o plantão seguinte continue o tratamento.
  10. Alta — as cinco linhas que impedem o sódio de subir de novo

    A hipernatremia que se resolve na enfermaria costuma sair sem registro nenhum, e volta pelo mesmo caminho por onde entrou: o paciente vai para casa, para a instituição de longa permanência ou para o serviço de atenção domiciliar com a mesma sonda, a mesma dieta e a mesma ausência de prescrição de água. O resumo de alta é o que quebra o ciclo, e custa cinco linhas.

    Prescrição
    • Escrever no resumo, com todas as letras: o diagnóstico foi hipernatremia, o valor máximo foi 168 mmol/L, e a causa foi ausência de oferta de água livre em paciente dependente. Diagnóstico nomeado é o que faz o próximo serviço procurar.
    • Escrever a prescrição de água em volume e em horário, como se fosse medicação: "Água filtrada 200 mL por sonda nasoenteral, de 4 em 4 horas, seis vezes ao dia, contínuo". Não escrever "hidratação conforme aceitação" nem "oferecer líquidos".
    • Escrever a regra de ajuste que o cuidador consegue aplicar: acrescentar 250 mL por dia se houver febre, se o dia estiver muito quente, ou se houver diarreia ou vômito; e procurar o serviço se a urina ficar escura e escassa por mais de um dia.
    • Escrever a data do próximo sódio sérico, com o pedido em anexo. Sódio e creatinina em sete dias, e o resultado revisto por alguém nomeado.
    • Registrar a reavaliação da deglutição pendente e quem vai fazê-la, e, para o paciente que bebe, a orientação que parece boba e não é: jarra destampada, ao alcance da mão, com copo de bico se necessário, e grade de proteção que não impeça o braço de alcançar. O tratamento definitivo deste capítulo é logístico.
09

Como saber se está funcionando

A hipernatremia tem uma vantagem rara sobre quase tudo o que se trata na enfermaria: o parâmetro de resposta é numérico, barato, disponível e responde em horas. E tem uma desvantagem correspondente: como ele é numérico, é fácil acompanhar o número e parar de olhar o paciente. Os sete parâmetros abaixo são os que decidem se está funcionando, e três deles não são de laboratório.

Sódio sérico — o parâmetro principal, e o único que tem tetoA cada 6 a 8 horas enquanto houver correção ativa, conforme o protocolo brasileiro, com os horários escritos na prescrição e o valor esperado anotado ao lado de cada um. Uma vez ao dia, na coleta da manhã, depois que a velocidade estiver estável e o sódio abaixo de 150. A cada 48 horas nas 72 horas seguintes à normalização, porque a causa costuma continuar lá.

Esperado: Queda de 0,3 a 0,4 mmol/L por hora, o que dá 8 a 10 mmol/L em 24 horas. Em dona Cremilda, partindo de 168 às 7h, a expectativa é 166 às 13h, 164 às 19h e 160 amanhã de manhã. Escrever esses três números na prescrição vale mais do que escrever a fórmula.

Se não melhora: Se o sódio desceu mais que o previsto: pare a água livre imediatamente, mantenha só a manutenção, e dose sódio em 4 horas. Procure a fonte extra — água oferecida pela família ou pela equipe fora do horário, bolsa correndo mais rápido que o programado, dieta trocada, ou uma perda que cessou (a febre baixou, a drenagem diminuiu, o diurético foi suspenso). Se a queda ultrapassou 12 mmol/L em 24 horas, ou se apareceu qualquer sintoma neurológico novo, chame ajuda: a pergunta agora é edema cerebral. Se o sódio não desceu: antes de aumentar o volume, siga as quatro explicações em ordem — a água não foi dada, a perda em curso é maior que a reposição, a fonte de sódio continua na folha, ou existe perda renal de água não diagnosticada. A primeira explica a maioria dos casos e é a única que não custa nada verificar.

A checagem de enfermagem da água — o parâmetro que ninguém confereTodo dia, na visita, administração por administração. Leva quarenta segundos e é o exame de maior rendimento deste capítulo.

Esperado: Seis administrações prescritas, seis administrações checadas. Sonda pérvia, sem resíduo, sem interrupção por jejum de exame.

Se não melhora: Se faltaram administrações, a conversa é com a equipe e não com a prescrição, e ela precisa achar a causa: sonda obstruída, paciente em jejum para exame que ninguém avisou, horário de água coincidindo com o banho, medicação pela sonda que fez a técnica "pular" a água por medo de interação, ou simplesmente prescrição escrita como condicional. Água prescrita "se necessário" não é administrada — em paciente que não pode pedir, condicional equivale a suspensa. Reescreva como fixa, com horários, e confira de novo amanhã.

Débito urinário e aspecto da urinaMedido e anotado por turno, com ordem escrita. Nos pacientes com poliúria, de hora em hora.

Esperado: Na hipernatremia por falta de água, a diurese é baixa e a urina escura no início, e vai clareando e aumentando conforme a água chega — é o sinal mais precoce de que a reposição está funcionando, e aparece antes do sódio. Nos pacientes com ganho de sódio e diurético, espera-se diurese alta com perda de peso.

Se não melhora: Diurese que permanece acima de 200 mL por hora com urina clara, apesar da hipernatremia, é perda renal de água e exige investigação: densidade urinária, sódio, potássio e ureia urinários agora. Densidade abaixo de 1005 nesse contexto é muito sugestiva de diabetes insipidus, e a conduta é repor a perda em curso e chamar quem investiga. Diurese que permanece alta com urina concentrada aponta diurese osmótica, e aí a conta a fazer é a dos osmóis de ureia e glicose. Diurese que cai a menos de 0,5 mL/kg/h apesar da reposição aponta injúria renal instalada ou reposição insuficiente, e o próximo exame é creatinina.

Peso diário e exame de volemiaPeso todo dia, na mesma balança, no mesmo horário, com a mesma roupa de cama. Exame de volemia na visita: mucosas, turgor, jugulares, edema, ausculta pulmonar.

Esperado: No paciente com perda de água pura, o peso sobe pouco com a reposição, porque dois terços da água que entra vão para dentro da célula. No paciente com ganho de sódio em diurético, espera-se perda de 0,5 a 1 kg por dia enquanto houver congestão.

Se não melhora: Ganho de peso maior que 1 kg em 24 horas durante a correção significa que você está entregando volume que o paciente não está eliminando — reveja se a água está indo junto com salina, se o diurético é necessário, e se a função renal caiu. Aparecimento de estertores ou de dispneia durante a reposição, sobretudo no idoso e no cardiopata, é o principal motivo para trocar salina a 0,45% por água enteral: mesma água livre, metade do volume.

Nível de consciência e exame neurológicoNa visita, e a qualquer momento em que a enfermagem relatar mudança. Em correção ativa de hipernatremia grave, com avaliação a cada turno registrada em escala.

Esperado: Melhora gradual da sonolência e da confusão à medida que o sódio se aproxima de 150, quando a hipernatremia era a causa. Estabilidade, quando ela era acompanhante.

Se não melhora: Rebaixamento novo exige ajuda e suporte imediato, glicemia, avaliação de ventilação e perfusão, Na e revisão da infusão. Pausar o esquema em curso enquanto se esclarece a trajetória. Considerar causas estruturais, convulsão e outros distúrbios; edema cerebral é uma possibilidade, não diagnóstico obrigatório. Déficit focal pode exigir imagem urgente. Se não houver melhora com correção do Na, investigar contribuição de outras causas, sem concluir que a disnatremia nunca participou.

A folha de prescrição, relida todo diaNa visita, todo dia, a folha de hoje. Não a de ontem, não a que você escreveu.

Esperado: Sódio total da folha estável ou em queda, e a linha de água presente, fixa, com volume e horários.

Se não melhora: Sódio que volta a subir depois de ter caído, em paciente cuja água está sendo dada, quase sempre significa que uma fonte de sódio reentrou na folha. As reentradas típicas são: diluente de antibiótico trocado de água destilada para soro fisiológico; bicarbonato reiniciado por outro plantonista a partir de uma gasometria antiga; ampola de cloreto de sódio acrescentada "para repor eletrólito"; dieta enteral substituída por uma fórmula mais concentrada; e expansão volêmica feita na intercorrência da madrugada e nunca suspensa. Some o sódio da folha em mEq por dia e escreva o total na evolução — é a única forma de comparar dia a dia.

Potássio e glicemia, os dois parâmetros que interferem na contaPotássio junto com o sódio enquanto houver correção ativa ou reposição correndo. Glicemia capilar de 6 em 6 horas em todo paciente recebendo glicose a 5% endovenosa, e em todo diabético.

Esperado: Potássio estável dentro da faixa e glicemia abaixo do limiar de glicosúria.

Se não melhora: Reposição vigorosa de potássio sobe o sódio e trabalha contra a queda planejada — é a mesma aritmética que a revisão sistemática brasileira registra do outro lado do eixo, onde repor potássio acelera a subida do sódio e contribui para supercorreção. Se você precisa repor potássio no meio de uma correção de hipernatremia, conte esse efeito e recontrole o sódio mais cedo. Do lado da glicemia: hiperglicemia com glicosúria produz diurese osmótica e sabota a reposição, e é a razão de a glicose a 5% ser a pior escolha justamente no paciente que mais recebe água livre pela veia, que é o crítico com resistência insulínica. Se a glicemia subir acima de 180 mg/dL de forma sustentada, troque parte do volume por água enteral se houver via, e trate a hiperglicemia pelo capítulo de hiperglicemia hospitalar desta apostila.

10

Onde o erro machuca

Prescrever soro fisiológico como hidratação em paciente hipernatrêmico

O dano: Salina a 0,9% tem 154 mmol/L de sódio e entrega zero de água livre por litro. Pela fórmula de Adrogué-Madias, um litro dela baixa o sódio de uma senhora de 48 quilos com sódio 168 em apenas 0,62 mmol/L, e sobe em 0,05 mmol/L o sódio de um homem de 72 quilos com 152. O dano tem duas camadas. A primeira é o tempo perdido: o paciente recebe três litros por dia, todo mundo vê líquido correndo, ninguém percebe que a hipernatremia não está sendo tratada, e o sódio segue subindo por causa das perdas insensíveis. A segunda é o volume: três litros de salina entregam 462 mEq de sódio por dia a um paciente que já está com sódio a mais em relação à água, e no cardiopata e no nefropata isso vira congestão.

Como pegar a tempo: Faça a pergunta certa antes de pendurar: este paciente precisa de volume ou de água? Volume é para quem está mal perfundido, e a resposta é isotônica. Água é para quem está hipernatrêmico com perfusão preservada, e a resposta é água — pela sonda, se houver, e glicose a 5% ou salina a 0,45% se não houver. A sequência escrita no protocolo brasileiro é essa mesma: expandir com salina a 0,9% até estabilizar, e só após a correção volêmica hidratar com solução hipotônica.

Repor o déficit de água calculado em 24 horas

O dano: É o erro aritmético mais grave deste capítulo, porque a fórmula do déficit é fácil de achar e parece uma prescrição. O déficit de dona Cremilda é de 4,32 litros; o teto de 24 horas autoriza 1,08 litro. Se alguém repuser os 4,32 litros num dia, o sódio dela cai 32 mmol/L — mais de três vezes o teto — e o cérebro adaptado, cheio de osmóis orgânicos que levam dias para ser dissipados, recebe água pelo gradiente e incha dentro do crânio. O protocolo brasileiro descreve a cadeia inteira: correção rápida leva à entrada de água nas células, edema celular, rebaixamento do nível de consciência, convulsões e morte.

Como pegar a tempo: Separe os dois cálculos por escrito e nunca deixe o déficit sozinho numa evolução. O déficit informa quanto tempo a correção vai levar; o teto informa o volume do dia. Escreva os dois lado a lado — "déficit 4,32 L; autorizado hoje 1,08 L; previsão de normalização em quatro dias" — e escreva na prescrição o sódio mínimo permitido para amanhã, em número absoluto.

Não prescrever água livre em quem tem sonda enteral

O dano: É a causa mais comum de hipernatremia de enfermaria e a mais completamente evitável. A fórmula enteral entrega cerca de 77% do volume infundido em água; o restante é caloria, proteína e eletrólito. Uma paciente de 48 quilos com 82 anos precisa de 1.200 mL de água por dia e recebe 773 mL de uma dieta de 1.000 mL — falta um copo por dia, todo dia. O estudo brasileiro que mediu isso encontrou 100% dos idosos em nutrição enteral exclusiva com água prescrita abaixo da recomendação, com lacuna média de 756 mL por dia. Multiplicada por nove dias de internação, essa lacuna é o déficit de 4,32 litros de dona Cremilda.

Como pegar a tempo: Regra fixa, sem exceção: toda prescrição com dieta enteral tem uma linha de água livre, em volume e em horário, escrita como fixa e nunca como condicional. Calcule uma vez — necessidade por quilo menos a água contida na dieta — e escreva o número. Depois disso, o único trabalho é conferir a checagem.

Escrever a água como "oferecer líquidos conforme aceitação"

O dano: Em paciente que não pede, não engole ou não alcança, condicional equivale a suspensa. A frase transfere para a equipe de enfermagem, no meio de doze leitos, a decisão sobre um volume que você calculou e não escreveu. E ela é invisível na auditoria da prescrição: quem revisa vê a palavra líquido e passa adiante.

Como pegar a tempo: Água é medicação neste paciente, e se escreve como medicação: substância, volume, via, frequência, duração. "Água filtrada 250 mL por sonda nasoenteral, de 4 em 4 horas, contínuo" é prescrição. "Hidratação oral conforme aceitação" é intenção.

Prescrever furosemida na hipernatremia hipervolêmica sem água livre junto

O dano: A urina que a furosemida produz é hipotônica — leva mais água que sal. Sozinha, ela remove sódio, mas remove mais água, e o resultado líquido é sódio sérico mais alto. Isso não é teoria: no relato brasileiro de hipernatremia em terapia intensiva, os autores registram que a furosemida teve papel inicial na elevação do sódio da paciente, que subiu de 141 para 150 mEq/L depois de o diurético ser iniciado, e produziu de quebra alcalose metabólica e hipocalemia.

Como pegar a tempo: Furosemida na hipernatremia entra sempre acompanhada, nunca sozinha. A dupla é diurético para tirar o sódio e água livre para repor o que a urina leva — e o sódio recontrolado em 6 horas, porque a direção do efeito líquido depende de quanto de cada coisa saiu. Se você prescrever o diurético e esquecer a água, terá tratado a congestão e piorado o sódio.

Contenção física e antipsicótico para a "agitação" de um paciente com sede

O dano: É o erro mais cruel do capítulo, porque o tratamento errado remove o último mecanismo que ainda funcionava. Um idoso hipernatrêmico com confusão recebe o rótulo de delirium hiperativo, ganha haloperidol e contenção no punho, e passa a noite inteira sem alcançar a jarra — que talvez estivesse ao alcance. A sedação reduz ainda mais a chance de ele pedir e de aceitar líquido, e a hipernatremia progride. Na manhã seguinte, o sódio subiu, a confusão piorou, e a leitura da equipe é de que o delirium está refratário.

Como pegar a tempo: Todo delirium novo em paciente internado ganha eletrólitos no mesmo pedido em que ganha hemograma e urina — é um exame barato, disponível em qualquer serviço, e o achado tem tratamento imediato. E antes de qualquer contenção, olhe a beira do leito: a jarra alcança? A grade está no caminho do braço? O paciente está em jejum desde quando? O manejo da síndrome é do capítulo de delirium desta apostila; o que este capítulo exige é que o sódio entre no pedido.

Usar a receita publicada de salina a 0,45% sem refazer a conta

O dano: Vinte mililitros de cloreto de sódio a 20% contêm 4,00 g de cloreto de sódio; diluídos a um volume final de 1.000 mL, isso é 0,40% e 68,4 mmol/L de sódio, e não os 0,45% e 77 mmol/L que a mesma tabela declara. São 11% de sódio a menos. Na hipernatremia, o sinal do erro importa: solução mais hipotônica entrega mais água livre por litro e derruba o sódio mais rápido do que a conta previu — com queda além da planejada, que exige reavaliação e vigilância, sem demonstrar edema cerebral no adulto. Num paciente que recebe dois litros por dia dessa solução por três dias, o desvio deixa de ser acadêmico.

Como pegar a tempo: Não use ampola para fazer solução hipotônica: use metade de uma bolsa. Cloreto de sódio a 0,45% é, por definição, cloreto de sódio a 0,9% pela metade — 500 mL de soro fisiológico mais 500 mL de água para injeção, ou mais 500 mL de glicose a 5%, dão 4,5 g em 1.000 mL, isto é 0,45% e 77 mmol/L exatos, sem quebrar ampola e sem conta. E confira, sempre, a concentração declarada contra a massa de sal que a receita realmente entrega.

Iniciar desmopressina na enfermaria a partir de uma linha de protocolo

O dano: Dois danos, e o segundo é pior que o primeiro. O primeiro é de dose: o protocolo brasileiro escreve a dose intranasal em microgramas — 0,1 mcg ao dia até 0,2 mcg de 12 em 12 horas — quando a única apresentação intranasal padronizada na Rename 2024 é a solução spray nasal de 0,1 mg/mL, isto é 100 mcg/mL. Zero vírgula um micrograma dessa solução é um microlitro, volume que nenhum spray administra; lidos como mililitros, os mesmos números dão 10 e 20 mcg, que é a faixa utilizável. O número está certo e a unidade está errada por duas ordens de grandeza. O segundo dano é diagnóstico: desmopressina dada antes do teste apaga o exame que separaria diabetes insipidus central de nefrogênico, e a resposta à droga É o teste.

Como pegar a tempo: Diabetes insipidus, neste capítulo, é diagnóstico a suspeitar e a remeter. Você reconhece a poliúria acima de 200 mL/h com urina diluída e densidade abaixo de 1005, repõe a água que está sendo perdida, colhe sódio, potássio, ureia e densidade urinários antes de qualquer droga, e chama quem investiga. Some a isso o dado administrativo: a desmopressina intranasal está no componente Especializado da Rename, o que significa que ela não está no carrinho — o telefonema é inevitável de qualquer jeito.

Restringir água em paciente hipernatrêmico para "testar" a poliúria

O dano: O teste de restrição hídrica existe para investigar poliúria em quem tem sódio normal, e depende justamente de elevar a osmolaridade plasmática para ver se o rim concentra. Em quem já está com 154 mmol/L, essa elevação já aconteceu: a hiperosmolaridade endógena já deu ao rim o estímulo máximo, e ele já respondeu — ou não. Restringir água acrescenta risco sem acrescentar informação, e pode levar o sódio a patamares em que a lesão cerebral por desidratação celular deixa de ser hipotética.

Como pegar a tempo: Diante de hipernatremia com urina diluída, a informação do teste de restrição já está na sua mão: osmolaridade plasmática alta com urina inapropriadamente diluída fecha o defeito de concentração. O que falta é a resposta à desmopressina, e essa etapa é de quem investiga. Nunca restrinja água em quem está hipernatrêmico.

Confundir a régua da hiponatremia com a da hipernatremia

O dano: Confundir hiponatremia com hipernatremia pode inverter a direção da correção e a vigilância. Desmielinização osmótica é a preocupação estabelecida na sobrecorreção da hiponatremia crônica. Na hipernatremia crônica, a adaptação celular fundamenta cautela com queda rápida, mas a evidência de edema cerebral por correção em adultos é limitada. Não atribuir todo sintoma neurológico novo a esse mecanismo nem reelevar o Na reflexamente.

Como pegar a tempo: Escrever direção, meta e trajetória em números, distinguindo elevação na hiponatremia de redução na hipernatremia. Considerar duração, perdas e tolerância, sem tratar limites históricos como simétricos ou igualmente comprovados em adultos. Sintoma novo pede reavaliação clínica ampla e revisão das soluções, não apenas comparação com um teto.

Tratar a diurese osmótica com solução hipotônica e mais nada

O dano: Quando a perda de água livre é sustentada por uma carga osmolar — ureia da dieta hiperproteica e do corticoide, glicose da hiperglicemia —, dar água sem reduzir a carga é encher um balde furado. Pior: os autores do relato brasileiro mostram que salina a 0,45% pode ter pouco ou nenhum efeito nesse cenário, porque a osmolaridade dela, 154 mOsm/L, se aproxima da fração eletrolítica da osmolaridade urinária, que naquele caso era 168 mOsm/L. A solução deixa de entregar água livre líquida, e o sódio não cai — enquanto todos acham que o paciente está sendo tratado.

Como pegar a tempo: Em todo paciente hipernatrêmico com poliúria e urina que parece concentrada, faça a conta dos osmóis: quanto da osmolaridade urinária vem de sódio e potássio, e quanto vem de ureia e glicose. Se a maior parte vem dos segundos, o tratamento tem duas metades, e a que resolve é a de reduzir a geração de soluto — proteína da dieta, corticoide, sangramento digestivo, hiperglicemia. Água entra junto, e não sozinha.

Dar alta sem escrever a linha de água

O dano: O paciente sai da enfermaria com o sódio normalizado, a mesma sonda, a mesma dieta e nenhuma prescrição de água — e volta em três semanas com 165. O ciclo é tão previsível que vale nomeá-lo: hipernatremia por dependência não é curada pela normalização do sódio, porque a dependência continua. E o serviço que recebe o paciente — a instituição de longa permanência, a atenção domiciliar, a família — não tem como saber quanto de água ele precisa se ninguém escreveu.

Como pegar a tempo: Cinco linhas no resumo de alta: o diagnóstico nomeado com o valor máximo atingido, a causa nomeada, a prescrição de água em volume e horário como medicação fixa, a regra de ajuste que o cuidador consegue aplicar (mais 250 mL se houver febre, calor, diarreia ou vômito), e a data do próximo sódio com o pedido em anexo. E a orientação logística que parece boba e é o tratamento definitivo: jarra destampada, ao alcance, com copo de bico se necessário, e grade que não impeça o braço.

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O que dizer ao paciente e à família

A conversa deste capítulo tem uma dificuldade que os outros não têm: em boa parte dos casos, você vai explicar à família um problema que o hospital causou. Não adianta procurar uma formulação que faça isso soar como evolução natural da doença — a família de dona Cremilda vai perguntar por que o sódio dela subiu depois de nove dias internada, e a resposta honesta é que faltou água. Dizer isso com clareza, sem drama e sem se esconder atrás de termo técnico, é a diferença entre uma família que confia no plano e uma família que passa a desconfiar de tudo.

Explicar o diagnóstico para a família de uma paciente que não fala

"O exame de hoje mostrou que o sal do sangue dela está alto. Isso quase sempre não quer dizer que ela comeu sal demais — quer dizer que está faltando água no corpo. A dona Cremilda sente sede como qualquer um de nós, mas depois do derrame ela não consegue pedir água nem alcançar a jarra, e a dieta que passa pela sonda tem menos água do que parece. Então a água precisa ser prescrita, com horário, como se fosse remédio — e isso não estava na prescrição dela. A partir de hoje está: são seis vezes por dia, 250 mL de cada vez, pela sonda. Vamos medir o sal no sangue duas vezes hoje para acompanhar."

Não diga: Evite "ela está desidratada", que a família traduz como "não deram líquido nenhum" e é impreciso — ela recebeu dieta e soro. Evite "hipernatremia" sem traduzir. E evite a construção passiva que esconde o agente: "houve uma alteração do sódio" não é uma frase, é um escudo.

Quando a família pergunta se alguém errou

"A senhora tem razão em perguntar. Faltou uma coisa na prescrição dela: a água. A dieta pela sonda tem cerca de três quartos de água, e o resto é alimento — então quem só recebe dieta recebe menos água do que precisa, e isso tem que ser calculado e escrito. Não foi escrito nos dias anteriores, e é por isso que o sal subiu. Já corrigimos hoje, vamos acompanhar com exame de seis em seis horas, e isso vai estar no papel da alta para que não aconteça de novo em casa. Se a senhora quiser conversar com a chefia da equipe sobre isso, eu ajudo a marcar."

Não diga: Não minta, não minimize e não culpe individualmente ninguém — nem o plantonista anterior, nem a enfermagem, nem "o sistema". Também não prometa investigação interna que você não tem como garantir; o que você pode garantir é o que muda a partir de agora e o registro disso. E não peça desculpas em nome de terceiros de forma vaga: reconheça a falha concreta e diga o que foi feito.

Explicar por que a correção vai ser lenta quando a família quer que seja rápida

"Eu entendo a pressa, e ela faz sentido: o sal está alto, e o natural é querer normalizar hoje. Só que o cérebro se acostumou com esse sal ao longo de dias, e ele fez isso guardando substâncias dentro das células para não murchar. Se a gente devolver água muito depressa, essas substâncias ainda estão lá, a água entra nas células e o cérebro incha — e inchar dentro do crânio é perigoso. Por isso a gente devolve a água aos poucos, com uma meta escrita para cada dia. São mais ou menos quatro dias até normalizar, e ela vai estar melhorando durante esse tempo, não esperando."

Não diga: Evite "não pode corrigir rápido porque dá edema cerebral" sem a explicação do porquê — a frase sem mecanismo soa como regra burocrática e a família não colabora com regra que não entende. E evite prometer prazo exato: "mais ou menos quatro dias" é honesto; "até quinta-feira" cria uma dívida que você pode não pagar.

Falar com o paciente lúcido que está com sede e em dieta zero

"O senhor está com sede de verdade, e não é impressão: o exame mostra que está faltando água no seu sangue. O motivo de eu não poder liberar água pela boca ainda é o intestino, que precisa de mais um ou dois dias parados depois da cirurgia. Então a água vai pela veia, e eu ajustei hoje: tirei parte do soro com sal, que estava piorando, e coloquei soro com água. Para a boca seca, a equipe vai passar gaze úmida e gelo raspado nos lábios, que ajuda de verdade na sensação sem mandar líquido para o estômago. Assim que a sonda sair, a água vai pela boca — e aí o senhor bebe."

Não diga: Não diga "o senhor não pode beber água" e mude de assunto. Sede é sintoma, e sintoma sem explicação vira ansiedade. Também não prometa gelo ou gaze úmida sem prescrever e sem avisar a equipe — promessa de conforto não cumprida custa mais confiança do que a sede.

Explicar o que precisa mudar em casa, na alta

"Tem uma parte deste tratamento que vocês vão fazer em casa, e ela é simples de fazer e fácil de esquecer. Está escrito aqui: 200 mL de água pela sonda, seis vezes por dia, nos horários da folha. Isso não é opcional e não é 'se ele aceitar' — é como um remédio. Se der febre, se o dia estiver muito quente, ou se ele tiver diarreia ou vômito, acrescentem 250 mL a mais no dia. E se a urina ficar bem escura e pouca por mais de um dia, liguem ou procurem a unidade. Marquei um exame de sangue para daqui a sete dias, o pedido está junto."

Não diga: Evite entregar a orientação só de viva-voz. E evite o "hidrate bem" — é a instrução mais inútil que existe para quem cuida de alguém que não bebe sozinho, porque não diz volume, horário nem via.

Quando a família pergunta se o sódio alto causou o rebaixamento, ou se foi o contrário

"Essa é exatamente a pergunta que a gente também está fazendo, e vou ser honesto: nem sempre dá para separar. Sal alto pode deixar a pessoa mais sonolenta e confusa, e ficar sonolento e confuso faz a pessoa beber menos, o que sobe o sal. As duas coisas se alimentam. O que a gente faz é tratar as duas: corrigir o sal na velocidade certa e procurar as outras causas ao mesmo tempo. Em dois ou três dias, com o sal mais perto do normal, vai ficar claro quanto daquilo era do sal — se ela melhorar junto com o exame, era; se não melhorar, tem outra causa e a gente vai atrás."

Não diga: Não escolha uma das duas narrativas por conforto. Dizer "foi só o sódio" cria uma expectativa de recuperação total que pode não vir; dizer "o sódio não tem nada a ver" descarta a única causa que você já sabe tratar. A incerteza dita em voz alta, com um plano e um prazo, é mais tranquilizadora do que uma certeza falsa.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

O teto de queda: 10 ou 12 mmol/L em 24 horas, e o que fazer com o limite horário

O teto único e apertado: 10 mmol/L em 24 horas e 0,5 mmol/L por hora, para todo mundo

Quem defende esta posição parte de três argumentos. O primeiro é que a duração da hipernatremia quase nunca é documentável na enfermaria — não existe sódio de ontem à tarde na maioria dos prontuários —, e um teto que depende de saber o tempo de instalação é um teto que na prática ninguém consegue aplicar com segurança. O segundo é que a folga entre 10 e 12 não compra benefício nenhum: nenhum sintoma melhora por baixar o sódio 12 em vez de 10 em vinte e quatro horas num paciente estável, e o único paciente que precisaria de velocidade é o que está em hipernatremia aguda documentada, que é raro. O terceiro é operacional: teto único é o que sobrevive à troca de plantão, e teto que depende de uma classificação prévia é o que se perde na terceira transmissão de informação.

O limite de 10 mmol/L em 24 horas é a borda inferior da faixa escrita no Protocolo Distúrbios do Sódio (PCAN04, Hospital Geral Eduardo Campos, 2020), que registra taxa máxima de redução de 0,5 a 1,0 mEq/L/h e máximo de 10 a 12 mEq em 24 horas.

O teto graduado pela duração: até 1,0 mmol/L por hora na aguda documentada, 0,5 na crônica, com 12 mmol/L de limite superior

Quem defende esta posição parte da fisiologia e não da logística. A adaptação cerebral leva horas a dias e está estabelecida depois de 48 horas; antes disso o cérebro está encolhido e a água devolvida vai preencher um espaço que existe, não inchar uma célula cheia de osmóis. Nesse cenário — o erro de diluição identificado, o bolus de bicarbonato, a infusão hipertônica que acabou de acontecer —, a demora tem custo próprio: o cérebro encolhido é o cérebro que rompe veia de ponte, e o protocolo brasileiro lista hemorragia subaracnóidea e subcortical e trombose de seio venoso entre as complicações da hipernatremia em si, não do tratamento. Aplicar o teto crônico a um paciente agudo é escolher deliberadamente manter por mais tempo uma condição que causa dano.

A faixa de 0,5 a 1,0 mEq/L/h e o teto de 10 a 12 mEq em 24 horas são do mesmo Protocolo Distúrbios do Sódio (PCAN04, 2020); a janela de 48 horas para a adaptação cerebral está descrita em Rocha (Jornal Brasileiro de Nefrologia, 2011), e as complicações da hipernatremia não tratada estão listadas no PCAN04.

Como decidir

As duas posições concordam num ponto que resolve a maior parte dos casos: se você não sabe quando começou, vá devagar. A divergência real só aparece no paciente com hipernatremia aguda documentada, e aí a pergunta a fazer é sobre a qualidade da documentação. Sódio normal colhido há menos de 48 horas, no seu serviço, com causa identificada e datada — bolus de bicarbonato às 14h, erro de diluição reconhecido — é documentação suficiente para acelerar. "Ele parecia bem ontem" não é. O segundo critério é a reversibilidade do erro: acelerar demais num paciente crônico produz edema cerebral, que é agudo e pode matar; ir devagar demais num paciente agudo prolonga uma condição que também faz mal, mas cujo dano se acumula em horas, não em minutos. A assimetria de reversibilidade favorece o teto apertado quando há dúvida. O terceiro critério é seu: se você não vai estar no hospital para recontrolar o sódio em quatro horas, não escolha a velocidade que exige recontrole em quatro horas. Velocidade sem vigilância não é agressividade, é aposta. E escreva na evolução qual dos dois tetos você adotou e por quê — isso é o que permite ao plantão seguinte continuar o mesmo tratamento em vez de recomeçar outro.

A via da água livre: enteral primeiro ou endovenosa primeiro

Enteral sempre que houver trato digestivo utilizável

O argumento central é aritmético e não filosófico: água pela sonda é água, e entrega 1.000 mL de água livre por litro, contra 500 mL da salina a 0,45%. No idoso, no cardiopata e no nefropata, essa diferença de volume é a diferença entre corrigir o sódio e produzir congestão. Somam-se as vantagens conhecidas da via enteral: não precisa de acesso venoso, não tem flebite, não tem risco de erro de diluição, não depende da farmácia, não custa nada, pode ser feita em qualquer serviço e continua funcionando depois da alta, o que é decisivo num problema que recidiva. E há um argumento de segurança do processo: a água pela sonda não pode ser confundida com nenhuma outra solução na bandeja.

A reposição de água livre por via venosa ou enteral está escrita em duas passagens do Protocolo PRT.STPC.CIHDOTT.060 (HC-UFMG/Ebserh, 2024). O teor de água das fórmulas enterais e a lacuna sistemática de prescrição de água estão medidos em Guedes e Lima (BRASPEN Journal, 2021).

Endovenosa quando a correção precisa ser controlada e mensurável

O argumento central é sobre execução. Água pela sonda depende de seis administrações checadas por três turnos diferentes, e o mesmo estudo brasileiro que mostra a lacuna de prescrição mostra que a oferta enteral real diverge muito da prescrita. A bolsa em bomba de infusão entrega o volume programado, aparece no balanço, é auditável e não é pulada quando o paciente vai para exame. Acrescenta-se a absorção: em paciente com gastroparesia, íleo, resíduo gástrico alto ou diarreia osmótica, a água administrada pela sonda pode não ser absorvida, e você estará contando um volume que não entrou. E há o cenário em que a via enteral simplesmente não existe — dieta zero cirúrgica, obstrução, vômito incoercível.

A instrução de corrigir a hipernatremia com água livre endovenosa na forma de glicose a 5% ou salina a 0,45% e a exigência de bomba de infusão contínua estão, respectivamente, no Protocolo PRT.STPC.CIHDOTT.060 (2024) e no Protocolo Distúrbios do Sódio (PCAN04, 2020).

Como decidir

Comece pela pergunta que não é sobre preferência: existe trato digestivo utilizável e absorvendo? Se o paciente está recebendo dieta enteral e tolerando, a resposta é sim, e a água vai por ali — não faz sentido puncionar veia para entregar o que a sonda já entrega melhor. Se ele está em dieta zero cirúrgica, com íleo, com resíduo alto ou vomitando, a via enteral não está disponível hoje, e a discussão acaba. O segundo critério é a magnitude do volume: quanto maior o volume de água necessário, mais a diferença de tonicidade entre as vias importa, e mais a enteral ganha — 4 litros de déficit num cardiopata é onde a salina a 0,45% endovenosa vira problema. O terceiro é a confiabilidade da execução no seu serviço, e essa avaliação é honesta, não teórica: se você prescreveu água pela sonda ontem e a checagem mostra quatro administrações de seis, o problema não se resolve prescrevendo de novo. Nesse caso, a escolha certa pode ser a bolsa, enquanto a conversa com a equipe acontece em paralelo. E a decisão não é permanente: no paciente que hoje precisa da veia, a reavaliação diária inclui a pergunta de quando a água volta para a sonda.

Qual solução hipotônica endovenosa: glicose a 5% ou cloreto de sódio a 0,45%

Glicose a 5%, porque é água livre pura e resolve com metade do volume

Um litro de glicose a 5% tem sódio zero e entrega, depois de a glicose ser metabolizada, 1.000 mL de água livre — o dobro da salina a 0,45%. Para a mesma queda de sódio, é metade do volume no paciente, o que importa em quem tem coração, rim ou pulmão limitados. A osmolaridade na bolsa é de 278 mOsm/L, praticamente isotônica, o que a torna segura em veia periférica. E ela é padronizada na Rename 2024 em três concentrações, o que significa que está disponível em qualquer serviço do SUS.

Sódio zero na solução de glicose a 5% consta da tabela de concentração de sódio das soluções do Protocolo assistencial nº 297 (HC-UFMG/Ebserh, 2021); a apresentação de 50 mg/mL está na Rename 2024; a indicação de usar glicose a 5% como água livre endovenosa está no Protocolo PRT.STPC.CIHDOTT.060 (2024).

Cloreto de sódio a 0,45%, porque a queda é mais gradual e não carrega glicose

A salina a 0,45% entrega metade da água livre por litro, e essa "ineficiência" é, para quem defende esta posição, uma proteção: com ela é aritmeticamente mais difícil derrubar o sódio depressa demais, que é o dano deste capítulo. Em quatro litros infundidos por engano, a diferença entre as duas soluções é a diferença entre uma queda perigosa e uma queda catastrófica. Some o problema da glicose: 2.000 mL de glicose a 5% entregam 100 g de glicose e 400 kcal por dia, e no diabético e no paciente crítico com resistência insulínica isso produz hiperglicemia, glicosúria e diurese osmótica — que pioram exatamente a hipernatremia que a bolsa deveria tratar. Uma solução que sabota o próprio tratamento em um subgrupo grande de pacientes não é a escolha padrão.

Os 77 mmol/L de sódio da solução a 0,45% constam da mesma tabela do Protocolo nº 297 (2021); a indicação de hidratar com solução hipotônica a 0,45% ou glicose a 5% após a correção volêmica é do Protocolo Distúrbios do Sódio (PCAN04, 2020); a glicosúria como gatilho de diurese osmótica está descrita em Distenhreft e cols. (Brazilian Journal of Nephrology, 2020).

Como decidir

A primeira pergunta é sobre o paciente e não sobre a solução: ele tolera carga de glicose? Diabético descompensado, paciente crítico com hiperglicemia de estresse, nutrição parenteral já correndo — nesses, a glicose a 5% em volume grande custa caro, e a 0,45% é a escolha mais simples. A segunda pergunta é sobre volume: quanto maior o volume necessário e mais frágil o coração e o rim, mais a glicose a 5% ganha, porque entrega o dobro de água por mililitro infundido. A terceira é sobre a segurança do processo no seu serviço: se a solução a 0,45% vai ser preparada, a receita precisa estar certa — e a receita segura é meia bolsa de soro fisiológico com meia bolsa de água para injeção ou de glicose a 5%, e não a receita com ampola, que erra 11% para menos. Uma quarta consideração dissolve boa parte da discussão: se houver via enteral, nenhuma das duas é necessária, porque água pela sonda entrega água pura sem glicose e sem volume extra. A divergência entre 0,45% e glicose a 5% é uma divergência sobre o que fazer quando a melhor opção não está disponível.

Furosemida na hipernatremia hipervolêmica: instrumento ou armadilha

Usar, porque nesse subgrupo há sódio a mais no corpo e ele precisa sair

No paciente que ficou hipernatrêmico por ganho de sódio — bicarbonato, ampola, salina hipertônica, diálise hipertônica —, o problema não é apenas água de menos: é sal a mais, num corpo já congesto. Dar água livre sem retirar o sódio corrige a natremia às custas de mais volume, e o paciente que já tem estertores e três quilos a mais não tem espaço para isso. O diurético de alça é o único instrumento que tira sódio do corpo, e a orientação está escrita: na hipervolemia, associar furosemida.

A instrução de associar furosemida na hipernatremia hipervolêmica é do Protocolo Distúrbios do Sódio (PCAN04, Hospital Geral Eduardo Campos, 2020). A apresentação de 10 mg/mL injetável está na Rename 2024.

Evitar, porque a urina que ela produz é hipotônica e o efeito líquido sobe o sódio

A furosemida faz o rim excretar uma urina que leva proporcionalmente mais água que sal. O resultado é que ela reduz o volume e aumenta a concentração de sódio — o oposto do objetivo. Isso não é raciocínio de bancada: no relato brasileiro de hipernatremia em terapia intensiva, os autores registram que a furosemida teve papel inicial na elevação do sódio da paciente, que subiu de 141 para 150 mEq/L depois de o diurético ser iniciado, e produziu junto alcalose metabólica e hipocalemia. Num paciente já hipernatrêmico, prescrever um agente que sobe o sódio para tratar o sódio alto exige, no mínimo, um argumento muito bom.

O papel da furosemida na elevação do sódio está descrito em Distenhreft e cols. (Brazilian Journal of Nephrology, 2020), com a evolução laboratorial publicada.

Como decidir

As duas posições estão certas sobre coisas diferentes, e a conciliação é operacional. A furosemida trata a congestão e piora a natremia; a água livre trata a natremia e piora a congestão. Prescrever uma sem a outra é escolher qual dos dois problemas você vai agravar. A conduta que sai disso é a dupla obrigatória: se o paciente hipervolêmico precisa de diurético, ele precisa de água livre no mesmo dia, e o sódio precisa ser recontrolado em 6 horas, porque a direção do efeito líquido depende de quanto de cada coisa saiu e entrou. O critério para decidir a intensidade é a gravidade relativa dos dois problemas neste paciente: se ele está com edema agudo de pulmão, a congestão manda; se ele está com edema de tornozelo e sódio de 165, a natremia manda e o diurético pode esperar. E um critério de reversibilidade: congestão tratada em excesso produz hipovolemia, que é rapidamente corrigível; queda de sódio em excesso produz edema cerebral, que não é. Quando as duas urgências empatam, o erro mais barato é o do lado do volume.

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O raciocínio, em voz alta

Terça-feira, oito e dez da manhã, enfermaria de clínica médica. O senhor Válter Simões chegou ontem à tarde, transferido da unidade de terapia intensiva, no oitavo dia de pós-operatório de ressecção de um tumor da região selar por via transesfenoidal. Tem 47 anos, 78 quilos, está lúcido, orientado, anda até o banheiro com apoio e conversa normalmente. A passagem de plantão descreveu "paciente estável, em desmame de corticoide, aguardando avaliação da endocrinologia". A folha da noite traz sódio de 154 mmol/L; ontem à tarde era 150 e há dois dias, na unidade fechada, era 145. A técnica de enfermagem te entrega a folha de diurese e diz, sem ser perguntada: "esse aí não sai do banheiro, doutor. Eu medi das duas às seis: mil e quatrocentos em quatro horas". Ele está com uma garrafa de dois litros ao lado da cama, quase vazia, e diz que enche duas por dia.

  1. O que penso agora

    Três dados se encaixam antes de qualquer exame. Primeiro: ele tem hipernatremia progressiva — 145, depois 150, depois 154 — e está subindo apesar de ele beber. Segundo: ele bebe. Isso é decisivo, porque tira do jogo a explicação mais comum deste capítulo, que é falta de acesso à água. Um adulto lúcido, com sede íntegra e garrafa na mão, só fica hipernatrêmico se estiver perdendo mais água do que consegue repor pela boca. Terceiro: 1.400 mL em quatro horas são 350 mL por hora, isto é 8,4 litros por dia. Isso é poliúria de volume alto, e o contexto — pós-operatório de região selar, vizinhança da haste hipofisária, oitavo dia — coloca diabetes insipidus central no topo da lista. Mas eu não fecho isso ainda: diurético, hiperglicemia com glicosúria, diurese osmótica por ureia numa fase de recuperação renal, e a poliúria de resolução de sobrecarga hídrica pós-operatória também produzem esse quadro.

  2. O que peço, e por que nesta ordem

    Sódio, potássio, ureia, creatinina e glicemia séricos agora, para ter o número atual e para ver ureia e glicemia, que são os dois solutos que fazem diurese osmótica. Urina em amostra isolada com densidade, sódio, potássio, ureia e glicose — não porque eu queira todos, mas porque com esses cinco eu consigo calcular a osmolaridade urinária mesmo sem osmômetro, e é o cálculo que separa diabetes insipidus de diurese osmótica. Diurese medida de hora em hora, por escrito. Peso agora e amanhã na mesma balança. E a folha de prescrição das últimas 72 horas, lida linha por linha, procurando diurético, manitol, solução salina e a dose do corticoide.

  3. O que a folha responde

    A prescrição não tem diurético nem manitol. Tem hidrocortisona em desmame, dose baixa, e soro fisiológico 500 mL uma vez ao dia apenas para diluição de medicação. Não há fonte de sódio relevante e não há droga que explique a poliúria. Isso já elimina metade das explicações antes de o laboratório voltar — e é o motivo de a folha ser o primeiro exame deste capítulo mesmo quando o paciente é jovem e a suspeita é de doença hipofisária.

  4. O que a urina responde, e como isso muda o que eu penso

    Densidade urinária 1.003. Sódio urinário 18 mmol/L, potássio urinário 12, ureia urinária 340 mg/dL, glicose negativa. A osmolaridade urinária calculada é duas vezes a soma de sódio e potássio, mais ureia dividida por 6: dois vezes 30, mais 57, dá 117 mOsm/L. Contra um plasma que, com sódio 154, está em torno de 320. Isto é: diante de hiperosmolaridade máxima, o rim está produzindo urina quase água. É a resposta errada, e ela é diagnóstica de um defeito de concentração — não é diurese osmótica, porque a osmolaridade urinária está baixa e não alta, e porque não há ureia nem glicose inflando o número. A tríade que o protocolo brasileiro do potencial doador descreve está inteira aqui: poliúria, hipernatremia e densidade urinária abaixo de 1005, que ele classifica como muito sugestiva de diabetes insipidus.

  5. A conta que decide a conduta de hoje

    Água corporal total: homem com menos de 65 anos, 78 vezes 0,6, isto é 46,8 litros. Déficit de água: 46,8 vezes (154 dividido por 140, menos 1), isto é 4,68 litros. Queda por litro de água livre: 154 dividido por 47,8, isto é 3,22 mmol/L. Para descer 8 mmol/L em 24 horas eu preciso de 2,48 litros de água livre. Só que ele está perdendo 8,4 litros de urina por dia, mais cerca de 700 mL de perda insensível — 9,1 litros que precisam ser repostos antes de qualquer correção. A conta total do dia é 11,6 litros de água. Ele bebe 4. Faltam 7,6 litros por dia só para o sódio começar a cair.

  6. O que essa conta prova

    Ela prova que este não é um problema que se resolve prescrevendo água. Sete litros e meio de água livre por dia, por via endovenosa, em um homem de 78 quilos, é um volume que nenhum plano de hidratação sustenta com segurança por mais de um ou dois dias — e que não trata nada, porque no dia seguinte a perda é a mesma. O tratamento aqui é fechar A torneira, e fechar a torneira exige o diagnóstico, que exige a resposta à desmopressina, que é o teste. É exatamente esta conta que transforma diabetes insipidus, neste capítulo, em diagnóstico a suspeitar e remeter — e não numa prescrição a tentar.

  7. O que eu prescrevo hoje, então

    Três coisas e nenhuma delas é desmopressina. Primeira: reposição de água na medida da perda, com o volume recalculado a cada seis horas contra a diurese medida — água por via oral, à vontade e estimulada, mais glicose a 5% endovenosa em bomba para cobrir a diferença entre o que ele bebe e o que ele perde, com o volume escrito por turno e não por dia. Segunda: diurese medida de hora em hora, com ordem escrita, e sódio de 6 em 6 horas — porque num paciente que perde 350 mL/h, tudo muda em seis horas. Terceira: o telefonema. Endocrinologia hoje, com a informação pronta: pós-operatório de região selar no oitavo dia, poliúria de 8,4 L/dia, densidade 1.003, osmolaridade urinária calculada de 117, sódio 154 e subindo apesar de ingesta oral preservada. E colhi tudo antes de qualquer droga, porque desmopressina dada agora apaga o exame que separa a forma central da nefrogênica.

  8. O que eu não faço, e por quê

    Não restrinjo água para "testar". O teste de restrição hídrica existe para poliúria com sódio normal, e ele funciona elevando a osmolaridade plasmática — que neste paciente já está elevada. A informação que o teste daria já está na minha mão: hiperosmolaridade com urina inapropriadamente diluída. Restringir aqui é acrescentar risco sem acrescentar dado. Não inicio desmopressina a partir da linha do protocolo: além de apagar o diagnóstico, a dose intranasal escrita ali está em microgramas quando deveria estar em mililitros da apresentação de 0,1 mg/mL, e a diferença é de cem vezes. E não corro para baixar o sódio: 154 subindo devagar, em paciente lúcido, é um problema de dias, e o teto de 10 mmol/L em 24 horas continua valendo — inclusive porque, se o diagnóstico for confirmado e a desmopressina entrar, o sódio pode cair sozinho e rápido assim que a torneira fechar.

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Faça você

Quinta-feira, sete e vinte da manhã, a mesma enfermaria. Dona Iraci Ferraz tem 78 anos, 54 quilos, e está no sétimo dia de internação por pneumonia aspirativa. Fez traqueostomia no terceiro dia, está em ar ambiente, acordada, responde com a cabeça e não fala. Recebe dieta enteral por sonda nasoenteral, 1.200 mL em 24 horas, e a prescrição tem, além da dieta: ceftriaxona diluída em 100 mL de soro fisiológico duas vezes ao dia, enoxaparina, omeprazol e dipirona se necessário. Não há linha de água. Nas últimas 24 horas ela teve três evacuações líquidas, e a temperatura das seis da manhã foi 38,5. A folha da noite traz sódio de 161 mmol/L, potássio 3,8, ureia 66, creatinina 0,9, glicemia 118. Na admissão o sódio era 139. A diurese medida foi 480 mL nas últimas 24 horas, com urina descrita como escura.

  1. Passo 1

    Classifique. Diga, em uma frase cada: há sintoma neurológico novo que mude a urgência? A hipernatremia é aguda ou crônica, e com base em quê? Qual é a volemia dela, e qual achado sustenta essa classificação? E qual é a causa, nomeada, que você escreveria na evolução?

  2. Passo 2

    Leia a folha como o primeiro exame. Some o sódio que a prescrição entrega por dia. Some a água livre que a prescrição entrega por dia. Diga quanto de água a dieta de 1.200 mL entrega, usando o teor médio medido no estudo brasileiro de nutrição enteral, e diga qual é a necessidade hídrica basal dela pela regra por quilo e por idade.

  3. Passo 3

    Faça as quatro contas, nesta ordem: água corporal total; déficit de água; queda de sódio por litro de água livre; e o volume de água livre que corresponde à meta de 8 mmol/L em 24 horas. Depois some as perdas que continuam — a febre e a diarreia — e diga o volume total de água do dia. Escreva, por fim, a linha de prescrição que você colocaria na folha: substância, volume, via, frequência, e o sódio-meta em número absoluto para amanhã de manhã. Escreva também os horários do recontrole.

Ver como fecharíamos

Passo 1. Não há sintoma neurológico novo: ela está acordada e responsiva como estava ontem, e isso significa que não há urgência de velocidade — o que há é urgência de começar. A hipernatremia é crônica ou de duração indeterminada: o único sódio anterior é o da admissão, 139, há sete dias, e não existe coleta intermediária que permita datar a subida; pela régua das 48 horas, ausência de documentação define crônica, e o teto é o apertado. A volemia é de perda de água quase pura com desidratação: diurese de 480 mL em 24 horas com urina escura sugere resposta de conservação de água, sem medir a capacidade máxima de concentração nem excluir lesão renal; se houver hipotensão postural, taquicardia ou má perfusão, a classificação muda para hipovolêmica e a ordem do tratamento se inverte, com solução isotônica primeiro — então examine antes de escrever. A causa nomeada: hipernatremia por ausência de prescrição de água livre em paciente com sonda enteral, agravada por perdas aumentadas (febre e diarreia). Passo 2. Sódio da folha: os dois frascos de 100 mL de soro fisiológico usados como diluente entregam 200 mL de salina a 0,9%, isto é 31 mEq de sódio por dia, mais o sódio da própria dieta. Nada disso é carga excessiva — esta não é uma paciente que ganhou sódio. Não há água suplementar prescrita, mas dieta e diluentes já entregam água e precisam entrar no balanço; ausência da linha não significa entrada total de água igual a zero. A dieta de 1.200 mL entrega cerca de 924 mL de água, usando 77% de teor médio medidos no estudo brasileiro de nutrição enteral (709 mL de água em 917 mL de dieta). A necessidade basal dela, pela regra de 25 mL/kg/dia para maiores de 75 anos, é 54 vezes 25, isto é 1.350 mL por dia. A lacuna de manutenção é de 1.350 menos 924, isto é 426 mL por dia — antes de qualquer febre, qualquer diarreia e qualquer déficit acumulado. Sete dias dessa lacuna somam quase três litros, e é isso que está no sódio de hoje. Passo 3. Água corporal total: mulher com mais de 65 anos, peso vezes 0,45, isto é 54 vezes 0,45 igual a 24,3 litros. Déficit de água: 24,3 vezes (161 dividido por 140, menos 1), isto é 24,3 vezes 0,15, igual a 3,65 litros — o tamanho do problema, e a prova de que ele leva três dias, não um. Queda por litro de água livre, pela fórmula de Adrogué-Madias: zero menos 161, dividido por 24,3 mais 1, igual a uma queda de 6,36 mmol/L por litro. Volume correspondente à meta de 8 mmol/L: 8 dividido por 6,36, vezes 1.000, igual a 1.257 mL de correção. Agora as perdas que continuam, que a fórmula do déficit não conta. Febre de 38,5 é um grau acima de 37,5, e a regra do estudo brasileiro acrescenta 350 mL por grau: mais 350 mL. Diarreia de três evacuações líquidas: o volume não é mensurável na prática, e a conduta certa não é chutar um número grande — é acrescentar uma estimativa conservadora, de 300 a 500 mL, e encurtar o intervalo do recontrole, porque a incerteza se resolve medindo o sódio mais cedo e não adivinhando melhor. A soma didática de 1.257 mL de correção + 426 mL de lacuna basal + 350 mL de febre + 300–500 mL estimados de diarreia resulta em 2.333–2.533 mL, antes de integrar a contribuição dos diluentes e demais entradas. O texto não deve anunciar que acrescentou diarreia e depois omiti-la do total. Esses valores são aproximações, não uma ordem pronta: conferir teor de água real da dieta, medir perdas quando possível e evitar contar perdas basais duas vezes. A via enteral pode receber água fracionada e lenta se tolerada; o volume final e a frequência devem resultar dessa avaliação, com registro de todas as administrações e lavagens. Não é possível garantir a prescrição exata só com três evacuações não medidas. O alvo ilustrativo de queda de 8 corresponde a Na 153, com limite operacional de 10 até 151 nas primeiras 24 horas. Reavaliar Na inicialmente em cerca de quatro horas, além de sinais clínicos, diurese e balanço; ajustar velocidade à resposta, sem extrapolar linearmente cada queda de poucas horas. Se surgir rebaixamento, pausar a correção, avaliar ABC e glicemia, conferir Na e chamar ajuda. Não declarar automaticamente edema cerebral nem elevar Na de volta sem decisão especializada. Três coisas que completam a resposta e que costumam faltar. A primeira: peça diurese medida por turno e peso diário, com ordem escrita — sem medida não há reavaliação. A segunda: investigue e trate a febre e a diarreia, porque enquanto elas durarem você estará repondo um balde furado, e a diarreia em paciente com antibiótico há sete dias tem um diferencial próprio. A terceira: escreva a linha de água como fixa, com horários, e nunca como "hidratação conforme aceitação" — em quem não pode pedir, condicional equivale a suspensa. E o que não fazer: não pendurar soro fisiológico como hidratação, porque um litro dele baixaria o sódio dela em 0,28 mmol/L; não repor os 3,65 litros de déficit hoje, porque isso derrubaria o sódio 23 mmol/L; e não puncionar veia para dar salina a 0,45%, porque ela tem sonda funcionando e cada litro daquela solução entregaria metade da água livre com o dobro do volume — 2.409 mL para a mesma queda de 8 mmol/L, num coração de 78 anos.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Três litros de salina isotônica a 154 mEq por litro entregam 462 mEq de sódio, e é a maior carga da lista com folga. O bicarbonato a 8,4% tem 1 mEq por mililitro, e portanto 100 mEq em 100 mL — pouco em volume e muito em concentração, o que engana. Cada ampola de 10 mL de cloreto de sódio a 20% tem 34 mEq, somando 68 mEq nas duas. Ringer com lactato tem 130 mEq por litro. E 100 mL de solução a 3% carregam 51 mEq. A lição prática é que a linha que mais sobrecarrega de sódio costuma ser a mais banal da folha, justamente porque ninguém a lê como carga: o soro que corre o dia inteiro sem indicação escrita.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Refaça a soma do caso de Iraci, incluindo diarreia e água da dieta. Explique por que o valor de 2.000 mL não incluía todas as parcelas anunciadas.

Em 30 dias

Acompanhe a correção após desmopressina: explique o que muda quando a diurese cai, como ajustar a água e como investigar alteração neurológica nova.

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Agora atenda

Sete e dez da manhã, enfermaria de clínica médica. Senhora de 82 anos, 48 quilos, nono dia de internação por acidente vascular cerebral isquêmico, afásica, acamada, com sonda nasoenteral recebendo dieta de 1.000 mL em 24 horas e sem nenhuma linha de água na prescrição. A folha da noite traz sódio de 168 mmol/L, que era 141 na admissão, potássio 3,9, ureia 78 e creatinina 1,1. Ela está com temperatura de 38,2 desde ontem à noite, mucosas secas, pressão 118 por 70 sem taquicardia, diurese medida de 550 mL nas últimas 24 horas com urina escura, e a jarra de água está tampada sobre o criado-mudo, fora do alcance. A filha chegou há dez minutos e quer saber por que o exame veio alterado depois de nove dias internada. Você é o interno da visita: classifique a duração e a volemia, leia a folha e nomeie a causa, calcule a água corporal total e o déficit, escreva o teto de queda de 24 horas em número absoluto antes de escolher qualquer solução, prescreva a água com via, volume, frequência e volume total autorizado, marque os horários do recontrole com o valor esperado ao lado, e explique à filha, sem se esconder atrás de termo técnico, o que aconteceu e o que muda a partir de hoje.