Clínica MédicaPrescrição e Cuidado do Paciente Internado

Hiponatremia na enfermaria

Distúrbios do sódio no internado: hiponatremia

O teto é por 24 horas, não por hora. Classifique à beira do leito, calcule quanto ele pode subir antes de pendurar a bolsa, e desconfie da correção que anda sozinha.

Fontes deste capítulo

Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (Ebserh) — Protocolo assistencial nº 297, Abordagem do paciente adulto com hiponatremia, versão 01. Elaborado em outubro de 2021 por Carolina Ferreira de Oliveira, colocado em consulta pública e aprovado em dezembro de 2021

Hospital Geral Eduardo Campos, Serra Talhada (PE), Serviço de Nefrologia — Protocolo clínico-assistencial Distúrbios do Sódio, código PCAN04, versão 1.0, emissão 29 de julho de 2020, de autoria de Cícero Faustino Ferreira

Ministério da Saúde, Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024

Rocha PN — Hiponatremia: conceitos básicos e abordagem prática. Jornal Brasileiro de Nefrologia, 2011;33(2):248-260

Bastos AP, Rocha PN — Osmotic demyelination as a complication of hyponatremia correction: a systematic review. Brazilian Journal of Nephrology, 2024;46(1):47-55. Submetido em julho de 2022, aprovado em maio de 2023, publicado eletronicamente em 28 de julho de 2023

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Responda antes de ler

Por que a hiponatremia crônica não deve ser corrigida rapidamente, mesmo quando o sódio está muito baixo?

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O paciente que você vai ver

Sete e dez da manhã, enfermaria de clínica médica de doze leitos. A folha de exames da noite chegou ao posto e traz dois sódios fora da faixa. Eles vão pedir coisas opostas, e a diferença entre os dois não está no número: está no que aconteceu nas últimas horas.

O primeiro é 108 mmol/L. É da dona Aurora, 74 anos, 56 quilos, sexto dia de internação por pneumonia adquirida na comunidade. O pulmão melhorou: está sem oxigênio, sem febre há três dias, a radiografia de ontem já mostra resolução. O sódio da admissão era 132 mmol/L. Na prescrição, copiada da receita de casa no dia da entrada e nunca revista, estão hidroclorotiazida 25 mg pela manhã e sertralina 50 mg à noite; e há uma linha de soro glicosado a 5%, 1.000 mL em 24 horas, que alguém escreveu como hidratação porque ela comia pouco. Ela come pouco até hoje. Quando você chega, ela está acordada mas lenta, responde com atraso, reclama de enjoo e diz que a filha achou ela estranha na visita de ontem. Pressão 118 por 70 mmHg, frequência cardíaca 84 bpm, mucosas úmidas, sem edema, jugulares planas. Nenhum déficit focal, nenhuma crise convulsiva. Na mesma folha da noite, o potássio dela é 2,9 mmol/L.

O segundo é 130 mmol/L, e à primeira vista não é problema nenhum. É do seu Manoel, 66 anos, 70 quilos, que entrou ontem à tarde pelo pronto-socorro com três dias de vômito, taquicárdico, com mucosas secas e sódio de 116 mmol/L. Recebeu 2.000 mL de soro fisiológico na sala de emergência, subiu para a enfermaria à noite e passou bem. O balanço da madrugada diz que ele urinou 3.800 mL, e a técnica anotou ao lado que a urina estava clara como água. Ninguém prescreveu nada para o sódio dele. Ele subiu 14 mmol/L em menos de 24 horas sozinho.

São os dois erros deste capítulo, um de cada lado. No primeiro leito, o risco é tratar rápido demais um distúrbio que se instalou devagar. No segundo, o risco é não perceber que a correção já aconteceu, já passou do limite e continua correndo — porque o rim, livre do estímulo que o segurava, está despejando água pura enquanto você lê a folha.

E há a parte prática, que decide a manhã. Você escreve na prescrição da dona Aurora a palavra que aprendeu na aula: salina hipertônica a 3%. A técnica lê e faz duas perguntas. A primeira é de farmácia: essa bolsa não existe pronta no hospital, e o que existe é ampola de cloreto de sódio a 20% — quantas ampolas, em quanto soro? A segunda é a que este capítulo inteiro responde: correndo a quanto, e até que número?

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Quem adoece disso

Hiponatremia não é evento raro de enfermaria: é o distúrbio hidroeletrolítico mais comum do paciente hospitalizado. O protocolo de hiponatremia do Hospital das Clínicas da UFMG abre registrando que, com o corte em 135 mmol/L, ela aparece em 15 a 20% dos internados e em até 8% da população geral. A revisão brasileira publicada no Jornal Brasileiro de Nefrologia chega ao mesmo território por outro caminho: em coorte de cerca de 100 mil adultos, 14,5% já entravam no hospital com sódio abaixo de 135 mmol/L. Traduzindo para a sua enfermaria de doze leitos: em qualquer manhã, um ou dois pacientes têm sódio fora da faixa, e a maioria deles chegou assim ou ficou assim por causa de algo que a equipe prescreveu.

A companhia importa mais que a frequência. Mesmo hiponatremia leve e assintomática anda com pior prognóstico: o mesmo protocolo registra aumento de 30% na mortalidade e internação mais longa em comparação com quem tem sódio normal, e a forma grave pode dobrar o risco de morte. Na cirrose avançada em lista de transplante, a prevalência supera 30%, e o sódio entra no escore que decide alocação de órgão. Isso não significa que o número mate por si; significa que sódio baixo marca doença de base descompensada, e que ignorá-lo como achado de laboratório é ignorar o paciente inteiro.

O dado brasileiro que muda a postura do interno, porém, é sobre o tratamento, não sobre a doença. Uma coorte retrospectiva de 362 adultos internados com sódio igual ou abaixo de 120 mmol/L em dois hospitais terciários de Salvador, publicada no Jornal Brasileiro de Nefrologia em janeiro de 2026, mediu quantos deles ultrapassaram o limite de correção: 38,7% subiram mais de 8 mmol/L em 24 horas ou mais de 18 em 48 horas, e 23% ultrapassaram o limite mais permissivo de 10 mmol/L em 24 horas. Não é uma falha de um serviço — os autores comparam com uma casuística americana de 1.490 pacientes que encontrou 41% e 26% pelos mesmos dois critérios. Ultrapassar o teto é o desfecho mais comum do tratamento da hiponatremia grave, não a exceção.

Os mesmos autores medem por onde a supercorreção entra, e a resposta é desconfortável: pela mais banal das prescrições. Setenta e três por cento dos pacientes receberam soro fisiológico no pronto-socorro, e volume acima de 500 mL dobrou o risco de supercorrigir, com aumento de 10% a cada 100 mL adicionais. Salina hipertônica foi usada em apenas 1,6% deles na sala de emergência. Ou seja: o excesso de correção que a literatura teme não vem, na prática brasileira, da bolsa perigosa — vem do soro de rotina dado a quem estava seco.

Falta o outro lado da conta, e ele explica por que este capítulo é escrito com rigor apesar de o desfecho ser raro. Nessa mesma coorte, houve um único caso de desmielinização osmótica em 362 pacientes, 0,28%. A revisão sistemática brasileira que reuniu 96 casos publicados da síndrome mostra por que a raridade não tranquiliza: a mediana de sódio na admissão desses pacientes era de 105 mEq/L, mais de 90% tinham hiponatremia grave, e em 66,6% houve correção acima de 10 mEq/L no primeiro dia. É uma complicação de baixa frequência, alta gravidade e causa quase sempre identificável — e a causa é uma decisão de prescrição.

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Por que acontece o que acontece

A primeira coisa a desaprender é que hiponatremia significa falta de sódio. Na quase totalidade dos casos, o sódio corporal está normal ou até aumentado, e o que sobra é água. A concentração é uma fração: sódio corporal total dividido por água corporal total. Quando o número cai, o denominador cresceu. A revisão brasileira formula isso em uma linha que vale guardar, porque muda a prescrição: hiponatremia deve ser interpretada mais como excesso de água do que como déficit de sódio. Quem entende isso não trata sódio baixo com sal, trata com o que remove água.

O rim de um adulto saudável é extraordinariamente bom em jogar água fora. Diante de uma ingestão normal de solutos, ele precisa excretar de 600 a 900 mOsm por dia, e pode diluir a urina até cerca de 50 mOsm/L. Oitocentos miliosmóis excretados numa urina assim diluída ocupam 16 litros. Quer dizer: alguém com rins funcionando e comendo normalmente precisaria beber mais de 16 litros de água por dia para ficar hiponatrêmico. Se o seu paciente está hiponatrêmico bebendo dois litros, alguma coisa desligou essa capacidade — e descobrir o quê é o diagnóstico.

O que desliga é quase sempre o hormônio antidiurético, e o ponto que confunde o interno é que ele está fazendo o que foi desenhado para fazer. O estímulo fisiológico é a osmolaridade alta: falta água, o osmorreceptor percebe, vem sede e vem hormônio, a água ingerida é retida. Só que existem estímulos não osmóticos, e eles são muito mais frequentes na enfermaria. O principal é a queda do volume intravascular efetivo, percebida pelo barorreceptor — e ela acontece tanto no paciente seco de verdade quanto no paciente edemaciado da insuficiência cardíaca e da cirrose, em que há água em excesso no corpo inteiro mas pouca chegando ao lugar que a mede. Dor e náusea liberam o hormônio, e é por isso que o pós-operatório é a fábrica clássica de hiponatremia. E há a secreção que não tem justificativa alguma, chamada inapropriada, comum em neoplasia, doença pulmonar e doença do sistema nervoso central.

Com hormônio antidiurético circulando, o ducto coletor fica permeável à água e a urina sai concentrada. Toda água hipotônica que entrar a partir daí fica. É por isso que a linha de soro glicosado a 5% na prescrição da dona Aurora não é um detalhe: glicose a 5% é água disfarçada — a glicose é metabolizada e sobra água livre. Mil mililitros por dia num paciente que não excreta água é um litro por dia acumulado. A régua geral do fluido de manutenção, com a escolha da solução, é do capítulo de hidratação venosa desta apostila.

Agora o mecanismo que governa o tratamento, e que é o motivo de tudo neste capítulo ser lento. O sódio determina a osmolaridade do líquido extracelular. Quando ele cai, o extracelular fica hipotônico em relação ao interior das células e a água entra nelas. No cérebro, que está dentro de uma caixa rígida, isso é edema com hipertensão intracraniana, e é daí que vêm cefaleia, letargia, desorientação, náusea, vômito, crise convulsiva e coma. Só que o neurônio não fica parado: ele se defende jogando fora osmóis. Primeiro sais de sódio e de potássio, em horas; depois osmólitos orgânicos, ao longo de um a dois dias. Ao fim dessa adaptação, o volume celular voltou ao normal, o paciente pode estar quase sem sintoma com um sódio de 110 mmol/L — e o interior do neurônio está tão diluído quanto o plasma.

É essa adaptação que transforma a correção rápida em doença. Se o extracelular sobe depressa e o neurônio, esvaziado de osmóis, não consegue repô-los na mesma velocidade — e não consegue, porque recuperar osmólito orgânico leva dias —, a água sai da célula e ela murcha. O resultado é a síndrome de desmielinização osmótica, com lesão da ponte e de áreas extrapontinas. O quadro é tardio e cruel: aparece de dois a seis dias depois da correção, quando o sódio já normalizou e todo mundo achou que tinha dado certo, e cursa com tetraparesia espástica, paralisia pseudobulbar com disartria e disfagia, labilidade emocional, alterações pupilares, ataxia e coma. Não há tratamento específico, só suporte. Na série brasileira de 96 casos, a lesão era pontina e extrapontina em 41,7%, exclusivamente extrapontina em 32,3% e exclusivamente pontina em 26%.

Aqui está a assimetria que organiza o capítulo. A adaptação do neurônio leva um a dois dias para se instalar e outros tantos para se desfazer. Por isso a hiponatremia instalada em menos de 48 horas é outro animal: o cérebro ainda está inchado, ainda não jogou osmólito fora, o risco é de herniação e não de desmielinização, e a correção rápida é segura e necessária. Passadas 48 horas, a lógica inverte. Como quase nunca se sabe quando o distúrbio começou, a prudência é uma só: tratar como crônica toda hiponatremia cuja data de início você não pode provar.

Falta o mecanismo do seu Manoel, que é o mais traiçoeiro dos quatro. Enquanto a causa está lá, o hormônio antidiurético segura a água e o sódio fica baixo. No instante em que a causa é removida — volume reposto no hipovolêmico, tiazídico suspenso, corticoide reposto na insuficiência adrenal, hormônio tireoidiano reposto —, o estímulo desaparece, o hormônio despenca e o rim faz aquilo que estava impedido de fazer: despeja água livre, litros dela, em urina diluída. O sódio sobe sem que ninguém tenha prescrito sódio nenhum, e sobe mais rápido do que qualquer fórmula previa, porque nenhuma fórmula conta a água que o paciente vai perder. Duas mil ampolas de sódio não fariam o que quatro litros de urina diluída fazem. É por isso que o débito urinário é um parâmetro de segurança neste capítulo, e não apenas de balanço.

Um último mecanismo, curto e caro, porque cruza com o capítulo vizinho. Sódio e potássio dividem o mesmo espaço osmótico. Na depleção grave de potássio, sódio migra para dentro da célula para ocupar o lugar do cátion que faltou, e isso rebaixa o sódio plasmático. Quando você repõe potássio, o movimento se inverte: sódio volta para fora e a natremia sobe, sem uma única ampola de cloreto de sódio ter sido usada. A revisão sistemática brasileira registra correção concomitante de hipocalemia em 18,8% dos casos de desmielinização, e a revisão de 2011 conta o caso de Berl e Rastegar por inteiro: mulher de 59 anos com sódio de 96 e potássio de 1,6 mEq/L por hidroclorotiazida, tratada com muita cautela quanto ao sódio — apenas 300 mL de salina a 0,9% — e com 430 mEq de cloreto de potássio nas primeiras 24 horas. O sódio subiu 17 mEq/L nesse dia e a mielinólise pontina foi confirmada no oitavo. A aritmética da reposição de potássio está no capítulo de potássio desta apostila; o que ela faz com o sódio é assunto deste.

Quatro células esquemáticas mostram referência, aumento de volume na hipotonicidade aguda, perda adaptativa de osmólitos e redução de volume após elevação rápida da tonicidade.
A adaptação cerebral à hipotonicidade reduz o edema pela perda de osmólitos, mas aumenta a vulnerabilidade à correção excessiva. O desenho é conceitual: desmielinização osmótica envolve mecanismos mais complexos que uma alteração de volume isolada.
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Como se apresenta de verdade

A apresentação predominante da hiponatremia é nenhuma, e essa é a razão de o número ser perigoso. Os sintomas, quando existem, são inespecíficos e neurológicos: cefaleia, letargia, desorientação, cansaço, náusea, vômito, fraqueza, cãibra, redução de reflexos, crise convulsiva, coma. Todos eles têm dez outras explicações no paciente internado — o antibiótico, a idade, a infecção, o delirium — e é assim que uma hiponatremia grave passa três dias sendo chamada de sonolência do idoso.

Percurso de aprendizagem

Avalie sintomas e circulação sem atrasar tratamento urgente. Sintoma moderado pode justificar hipertônica; ausência de convulsão não resolve a decisão.

Use fórmulas como estimativa inicial. K reposto e aquarese podem elevar Na além da previsão; controle Na e diurese juntos.

Defina alvo, limite e plano de resgate em janelas móveis de 24 horas. Investigue medicamentos, insuficiência adrenal e disponibilidade de solutos antes de atribuir tudo a SIAD.

O que o número diz, e o que o relógio diz

A classificação por nível sérico do protocolo do HC-UFMG é a que se usa na beira do leito: leve entre 130 e 134 mmol/L, moderada entre 125 e 129, grave abaixo de 125. Ela orienta a vigilância, não a pressa. Sódio acima de 130 mmol/L, no mesmo protocolo, é território em que o paciente costuma estar assintomático, não corre risco de herniação e não recebe salina hipertônica.

A classificação que decide a conduta é outra, e é temporal. Aguda é a hiponatremia instalada em menos de 48 horas; crônica é a que existe há mais tempo ou há tempo indeterminado. A velocidade de instalação pesa mais que o valor absoluto, e o motivo é o do bloco anterior: uma hiponatremia moderada e aguda pode ser mais sintomática que uma grave e crônica, porque na crônica o cérebro já se adaptou.

Na prática de enfermaria, três situações permitem afirmar que é aguda: a hiponatremia surgiu durante a internação e há uma dosagem normal documentada nas últimas 48 horas; o paciente é pós-operatório recente recebendo fluido hipotônico; ou houve ingestão maciça de água em poucas horas, como na polidipsia psicogênica, no exercício de longa duração e na absorção de líquido de irrigação em ressecção transuretral de próstata ou histeroscopia. Fora dessas três, trate como crônica. Quem chega ao pronto-socorro com sódio de 110 mmol/L e nenhum exame anterior não tem data de início, tem apenas um número.

O sintoma que muda a conduta em minutos

Existe uma linha divisória, e ela não é o número: é a gravidade do sintoma neurológico. Vômito incoercível, sonolência profunda, crise convulsiva, insuficiência respiratória por rebaixamento e coma compõem o grupo de sintomas graves — o grupo em que o cérebro está inchado agora e a demora custa herniação. Cefaleia, náusea sem vômito, confusão leve, lentificação e fraqueza compõem o grupo de sintomas leves a moderados, em que há tempo para investigar e corrigir devagar.

Essa separação é o único lugar do capítulo em que a pressa é a conduta certa, e ela vale independentemente de a hiponatremia ser aguda ou crônica: o protocolo do HC-UFMG trata a crônica com sintomas graves exatamente como trata a aguda com sintomas graves. Um cérebro herniando não espera a classificação temporal ficar pronta.

Dona Aurora está do lado leve a moderado da linha: lentificada e enjoada, sem vômito, sem crise, sem déficit. Isso muda tudo o que vem depois — ela tem tempo, e o tempo é o tratamento.

As três volemias, e por que elas têm tratamentos opostos

O mesmo sódio de 118 mmol/L pede três condutas diferentes conforme a volemia, e não existe exame de sangue que informe volemia — ela é decidida com a mão e o olho. O protocolo de nefrologia do Hospital Geral Eduardo Campos lista os sinais que fecham cada lado: hipovolemia com hipotensão postural, taquicardia e pressão venosa central baixa; hipervolemia com edema, congestão pulmonar e turgência jugular; euvolemia por exclusão das duas.

No hipovolêmico, houve perda de água e de sódio, e o hormônio antidiurético está alto por estímulo barorreceptor. O tratamento é repor volume com cristaloide isotônico. Corrigida a volemia, o estímulo some e o próprio rim resolve a hiponatremia — e é exatamente aí que mora a armadilha da correção que dispara sozinha.

No hipervolêmico — insuficiência cardíaca, cirrose, síndrome nefrótica, injúria renal aguda e doença renal crônica —, há sódio a mais e água ainda mais a mais. Dar soro fisiológico piora: acrescenta volume a quem já está congesto e não corrige a natremia, porque o problema nunca foi falta de sal. O tratamento é restrição hídrica e otimização da doença de base, com diurético de alça. O manejo da congestão da insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida tem capítulo próprio nesta apostila.

No euvolêmico, o corpo tem água a mais sem edema visível, e o tratamento de primeira linha é restrição hídrica. Aqui moram a secreção inapropriada de hormônio antidiurético, o hipotireoidismo, a insuficiência adrenal secundária, a potomania e as drogas — tiazídico, carbamazepina, fluoxetina e sertralina são as nomeadas pelo protocolo pernambucano. Dar soro fisiológico a este paciente pode derrubar o sódio ainda mais, e o mecanismo disso está no bloco de investigação.

Vale dizer o que a literatura diz sobre a confiabilidade desse exame, porque o interno vai errar e precisa saber que errar aqui é comum. A avaliação clínica da volemia é imprecisa, especialmente no paciente de terapia intensiva, no obeso e no idoso; a revisão brasileira registra que, nesses casos, é preciso recorrer a medidas de pré-carga, débito cardíaco ou perfusão tecidual. Isso não dispensa a beira do leito: obriga a rever a classificação quando a resposta ao tratamento não for a esperada.

Barras hipotéticas comparam sódio e água corporais nas formas hipovolêmica, euvolêmica e hipervolêmica de hiponatremia hipotônica.
Nas três situações há excesso relativo de água em relação ao sódio, embora os conteúdos totais variem. Hipervolemia pode coexistir com baixo volume arterial efetivo. A classificação ajuda a investigar a causa, mas não define sozinha o tratamento.

O sódio que não é do paciente, e o que se trata não tratando

Antes de tratar, é preciso responder se aquele número representa mesmo hipotonicidade. O protocolo do HC-UFMG separa três mundos pela osmolaridade sérica. Hipotônica, abaixo de 275 mOsm/L, é a hiponatremia verdadeira, e é a única que pede correção do sódio. Isotônica, entre 275 e 295, é a pseudo-hiponatremia. Hipertônica, acima de 295, é a hiponatremia por soluto osmoticamente ativo.

A pseudo-hiponatremia aparece nas hiperproteinemias, como no mieloma múltiplo, e nas hipertrigliceridemias graves. A fração aquosa do plasma está reduzida à custa de proteína ou de gordura, e o método de dosagem informa uma concentração falsamente baixa. O paciente não tem excesso de água nenhum. Tratar isso com salina hipertônica é corrigir um artefato de laboratório dentro de uma pessoa.

A hiponatremia com osmolaridade alta é outra história e é comum: a hiperglicemia grave puxa água de dentro das células para o extracelular, e essa água dilui o sódio de verdade. O sódio medido está baixo porque a glicose está alta, e ele normaliza sozinho quando a glicemia cai — sem sódio nenhum. O fator de correção do protocolo do HC-UFMG é de 2,4 mmol/L de sódio para cada 100 mg/dL de glicose acima da faixa normal; a revisão brasileira registra a divergência histórica, com o fator 1,6 de Katz proposto em 1973 e o fator 2,4 de Hillier, que funcionou melhor abaixo de 400 mg/dL de glicose, subindo para 4,0 acima disso. A conta aplicada ao paciente em cetoacidose, com o exemplo numérico completo, está no capítulo de cetoacidose diabética desta apostila. Aqui basta a consequência: glicemia alta obriga a corrigir o sódio antes de classificar a hiponatremia, e o manitol produz o mesmo efeito.

Na enfermaria, onde a osmolaridade sérica muitas vezes demora ou não é feita, a saída prática que a revisão brasileira descreve é indireta e barata: glicemia, proteínas totais e frações e perfil lipídico afastam os dois cenários com custo baixo e resultado rápido.

Quem tem risco de desmielinização, e por que a lista importa antes da primeira bolsa

O teto de correção não é o mesmo para todo mundo, e a lista de quem precisa do teto mais apertado se lê na admissão, não depois. O protocolo do HC-UFMG classifica como alto risco quem tem sódio abaixo de 105 mmol/L, hipocalemia, alcoolismo, desnutrição ou doença hepática avançada, e acrescenta quem tem sódio abaixo de 120 mmol/L há mais de 48 horas. A revisão internacional acrescenta idade jovem, sexo feminino e sódio urinário abaixo de 30 mmol/L.

A série brasileira de 96 casos de desmielinização confirma o retrato: idade média de 48,2 anos, 58,3% mulheres, mediana de sódio de 105 mEq/L, etilismo em 31,3%, distúrbio do trato gastrointestinal em 38,5% e uso de diurético em 27%. O paciente típico da complicação não é o mais velho e mais frágil da enfermaria — é o mais jovem, com sódio muito baixo, que estava bebendo, vomitando ou tomando tiazídico, e que parecia estar melhorando.

Um detalhe da mesma série merece nome próprio porque desfaz uma segurança falsa: houve um caso de desmielinização em hiponatremia leve, corretamente corrigida, num paciente alcoolista — e há relatos da síndrome em alcoolistas sem hiponatremia alguma. Em quem bebe, o cérebro é vulnerável por conta própria, e o rigor da correção precisa ser maior do que o número sozinho sugeriria.

O que muda em quem

No idoso, tudo é mais fácil e mais grave: menos água corporal total, portanto maior variação de sódio para o mesmo volume infundido; mais medicamento em uso; menos ingestão de soluto; e sintoma que é atribuído à idade. A coorte brasileira tinha idade média de 75,6 anos, e 81,8% dos pacientes precisaram de terapia intensiva.

No cirrótico e no cardiopata, a hiponatremia é hipervolêmica e marca gravidade da doença de base. Salina hipertônica não é o tratamento, e quando a gravidade obriga a usá-la, ela vem acompanhada de diurético de alça. O paciente oncológico com secreção inapropriada paraneoplásica é o oposto do que se espera intuitivamente: como o hormônio antidiurético permanece alto, ele quase não se autocorrige, o que faz do câncer um fator protetor contra a supercorreção na coorte brasileira. O manejo do sódio no paciente em cuidados de fim de vida, em que a correção pode não ter benefício algum, é do capítulo de cuidados paliativos.

No pós-operatório, a combinação de dor, náusea e fluido hipotônico é a receita clássica, e é a hiponatremia mais frequentemente aguda que você vai ver — portanto a que mais se beneficia de correção pronta.

E há o paciente que faz hiponatremia por não comer. A capacidade de excretar água depende de haver soluto para carregá-la: a potomania do bebedor de cerveja e a dieta de chá e torrada do idoso reduzem a carga de soluto a 250 mOsm por dia, e com isso a capacidade de excretar água cai de 16 litros para 5. Esse paciente fica hiponatrêmico bebendo o que qualquer pessoa beberia, tem urina diluída e se corrige com uma velocidade assustadora assim que volta a comer — motivo pelo qual ele é, ao mesmo tempo, o mais fácil de tratar e o de maior risco de desmielinização.

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Como fechar o diagnóstico

A investigação de um sódio baixo tem uma ordem, e ela não começa no laboratório nem termina numa lista de causas. Começa com quatro perguntas que se respondem em cinco minutos ao lado do leito, e cada uma delas fecha uma porta: este número é real, há quanto tempo ele existe, este paciente tem sintoma grave, e em que volemia ele está. Só depois disso os exames servem para alguma coisa.

Primeira pergunta: este paciente tem sintoma neurológico grave agora?

É a única pergunta cuja resposta muda a conduta em minutos, e por isso vem antes de todas. Crise convulsiva, rebaixamento profundo do nível de consciência, vômito incoercível e insuficiência respiratória por rebaixamento são o grupo grave. Não se espera sódio de confirmação, não se espera osmolaridade, não se espera classificação de volemia: trata-se com salina hipertônica em bolus enquanto o resto caminha.

A resposta negativa é igualmente decisiva, e é a que vale para a maioria da enfermaria: sem sintoma grave, você tem horas, e usar essas horas para classificar corretamente vale mais do que qualquer bolsa pendurada às pressas. A hiponatremia como causa reversível de rebaixamento do nível de consciência, dentro do diferencial completo do paciente confuso, é do capítulo de alteração do nível de consciência desta apostila.

Uma advertência sobre a leitura do sintoma no idoso. Lentificação, apatia e queda de apetite em paciente internado são atribuídas à idade, à infecção ou ao ambiente com uma facilidade que atrasa o diagnóstico em dias. A pergunta útil não é se o paciente está confuso — é se ele está diferente do que estava ontem, e quem responde isso melhor do que qualquer escala é o acompanhante.

Segunda pergunta: é hiponatremia hipotônica de verdade?

Hiponatremia verdadeira tem osmolaridade sérica baixa, abaixo de 275 mOsm/L. Osmolaridade normal, entre 275 e 295, aponta pseudo-hiponatremia por hiperproteinemia ou hipertrigliceridemia grave; osmolaridade alta, acima de 295, aponta hiponatremia por soluto osmoticamente ativo, quase sempre glicose ou manitol. As duas últimas não são distúrbios do metabolismo da água e não recebem correção de sódio.

Onde a osmolaridade sérica medida não está disponível, ou demora, a substituição é barata e rápida: glicemia, proteínas totais e frações e perfil lipídico. A osmolaridade calculada, que é duas vezes o sódio mais a glicose dividida por 18 mais a ureia dividida por 6, não substitui a medida para este fim — ela é calculada a partir do sódio, então acompanha o sódio por construção. O que separa hiponatremia verdadeira de pseudo-hiponatremia é justamente a diferença entre a osmolaridade medida e a calculada.

Na prática, a glicemia é o passo que não pode faltar, porque é a causa mais comum das três e porque a conta muda a classificação. Sódio de 126 mmol/L com glicemia de 500 mg/dL, pelo fator 2,4 do protocolo do HC-UFMG, corresponde a um sódio corrigido de 135,6 — não há hiponatremia a corrigir, há hiperglicemia a tratar. O manejo do sódio dentro da cetoacidose, com o número trabalhado por inteiro, é do capítulo de cetoacidose diabética.

Terceira pergunta: há quanto tempo, e onde está escrito

O exame mais barato deste capítulo é o prontuário. Um sódio normal documentado nas últimas 48 horas transforma o caso em hiponatremia aguda e libera a correção mais rápida; a ausência de qualquer dosagem anterior obriga a tratar como crônica. Procure em três lugares: exames da internação atual, exames de internações anteriores no mesmo serviço, e papéis que o acompanhante trouxe de ambulatório.

Dona Aurora tem a data. O sódio da admissão era 132 mmol/L e o de hoje é 108: a queda ocorreu ao longo de seis dias de internação, o que é crônico por definição e a coloca no grupo em que a correção precisa ser lenta. Se o sódio dela tivesse caído de 132 para 108 entre ontem e hoje, o mesmo número pediria outra conduta.

Há um caso especial que vale reconhecer porque inverte a régua: o paciente que fica hiponatrêmico dentro do hospital, em poucas horas, quase sempre por fluido hipotônico no pós-operatório. Essa hiponatremia é aguda e documentada, o cérebro ainda não se adaptou, o risco é edema e não desmielinização, e ela se corrige com segurança e rapidez.

Quarta pergunta: em que volemia ele está

É o exame que não tem tubo. Procure hipotensão postural, taquicardia, mucosas secas, turgor reduzido, axila seca e história de perda — vômito, diarreia, drenagem, diurético, jejum. Procure, do outro lado, edema de membros, ascite, turgência jugular, estertores e ganho de peso. Na ausência convincente dos dois, o paciente é euvolêmico.

O erro comum aqui é confiar demais no exame e não revê-lo. A classificação de volemia é imprecisa, sobretudo no idoso, no obeso e no paciente de terapia intensiva, e é por isso que ela precisa ser tratada como hipótese testável: se o paciente foi classificado como hipovolêmico e o sódio não sobe depois da reposição de volume, a classificação estava errada. O peso diário, o balanço hídrico e o exame repetido são os instrumentos de correção.

Dois dados de prontuário ajudam mais do que parecem: o peso de admissão comparado ao peso de hoje, e o balanço acumulado da internação. Um paciente com sódio caindo e balanço positivo de quatro litros não está seco, por mais que a mucosa engane.

O par de exames que fecha a etiologia: osmolaridade e sódio urinários

São dois números, colhidos numa única amostra isolada, e cada um responde a uma pergunta diferente. Peça os dois juntos, sempre, e antes de mexer no tratamento.

A osmolaridade urinária responde se há hormônio antidiurético agindo. Acima de 100 mOsm/L — e em geral acima de 300 — há hormônio circulando, e o rim está retendo água. Abaixo de 100 mOsm/L o rim está fazendo o certo, diluindo ao máximo, e a hiponatremia é por ingestão de água acima da capacidade de excreção ou por carga de soluto muito baixa: polidipsia psicogênica, potomania do bebedor de cerveja, dieta de chá e torrada. Essa distinção muda a conduta inteira, porque no segundo grupo basta parar a água e alimentar — e é justamente esse grupo que sobe rápido demais sozinho.

O sódio urinário responde se o rim está segurando sal, e portanto se há hipovolemia verdadeira ou efetiva. Abaixo de 20 mmol/L, o rim está retendo sódio: hipovolemia real com perda extrarrenal, ou hipovolemia relativa dos estados edematosos, em que há água sobrando no corpo e pouca chegando ao barorreceptor. Acima de 20 a 40 mmol/L com paciente euvolêmico, a leitura vira secreção inapropriada de hormônio antidiurético; acima de 20 mmol/L com paciente seco, a perda é renal, e a lista de causas é diurético em excesso, insuficiência adrenal primária, nefropatia perdedora de sal, acidose tubular renal, diurese osmótica e síndrome perdedora de sal cerebral.

Há uma condição para interpretar esses números: colher antes da próxima dose de diurético e antes de expandir com volume. Furosemida e tiazídico criam o achado que você está medindo, e um litro de soro fisiológico apaga a assinatura da hipovolemia. Se o paciente já recebeu volume no pronto-socorro, diga isso na evolução ao lado do resultado, porque quem ler amanhã vai interpretar um exame que já não é do paciente sozinho.

Os critérios de secreção inapropriada, quando é preciso fechá-la, são cinco e todos precisam estar presentes: hiponatremia hipotônica, osmolaridade urinária acima de 100 mOsm/L (em geral acima de 300) e que não cai com administração de sal, sódio urinário acima de 40 mmol/L com paciente euvolêmico e sem edema, funções renal, cardíaca, hepática, tireoidiana e adrenal normais, e ausência de diurético tiazídico. É diagnóstico de exclusão, e a exclusão que mais se esquece é a última. Em quem usa diurético e não pode suspendê-lo, o protocolo do HC-UFMG oferece uma saída: fração excretada de ureia acima de 12% sustenta o diagnóstico.

A folha de prescrição, que é onde está a causa da maioria

Leia a folha inteira, linha por linha, e circule o que derruba sódio. O tiazídico é o campeão e é diferente do diurético de alça: ele age no túbulo distal, prejudica a diluição da urina sem prejudicar a concentração, e por isso derruba o sódio de forma muito mais eficiente que a furosemida. Aparece em 27% dos casos de desmielinização da série brasileira. Antidepressivos inibidores da recaptação de serotonina, carbamazepina e outros anticonvulsivantes, antipsicóticos, opioides, ciclofosfamida e anti-inflamatórios completam a lista de drogas que induzem secreção inapropriada ou interferem diretamente na excreção de água livre.

Depois das drogas, as soluções. Glicose a 5% é água; salina a 0,45% é meia água; e qualquer solução hipotônica correndo em quem não excreta água acumula um litro por dia sem que ninguém perceba, porque ela está escrita como hidratação e não como tratamento. Some a nutrição enteral pobre em sódio e a dieta hipossódica prescrita por hábito. Some ainda o que o paciente bebe por conta própria e não entra em balanço nenhum: a garrafa de água na mesa de cabeceira é parte da prescrição, mesmo sem estar escrita.

Na prescrição de dona Aurora há três linhas circuladas: hidroclorotiazida mantida da receita de casa, sertralina mantida da receita de casa, e mil mililitros de glicose a 5% por dia. Nenhuma delas isolada faria um sódio de 108 mmol/L em quem come pouco. As três somadas, em seis dias, fazem.

Os exames que a causa de base pede, e quando pedi-los

Creatinina e ureia entram sempre: dizem se o rim consegue excretar água e apontam injúria renal aguda como causa de hiponatremia hipervolêmica. A investigação e a classificação da injúria renal aguda têm capítulo próprio nesta apostila.

Potássio entra sempre, e por dois motivos. Primeiro porque hipocalemia é fator de risco de desmielinização osmótica, e a sua presença aperta o teto de correção antes de qualquer bolsa. Segundo porque repor potássio sobe o sódio: você precisa saber que vai repor para contar essa subida no orçamento do dia.

Hormônio estimulante da tireoide e cortisol matinal entram quando o quadro é de hiponatremia euvolêmica sem causa medicamentosa aparente, ou quando há hipotensão, hiperpigmentação, hipoglicemia ou eosinofilia que sugiram insuficiência adrenal. Repor o hormônio que falta corrige a hiponatremia sozinho — e corrige rápido, o que devolve o mesmo problema de velocidade.

Glicemia, proteínas e lipidograma já foram justificados. Ácido úrico é opcional e ajuda em caso duvidoso: hipouricemia acompanha a secreção inapropriada, e uricemia normal ou alta acompanha a hipovolemia.

O que não pedir, e o que custa pedir

Não peça dosagem sérica de hormônio antidiurético. Ela não é feita de rotina, demora, custa caro e responde uma pergunta que a osmolaridade urinária já respondeu por uma fração do preço — a presença do hormônio se infere pela urina concentrada.

Não peça sódio urinário de 24 horas. A amostra isolada responde à mesma pergunta hoje; a coleta de um dia inteiro atrasa a decisão, costuma vir incompleta e, no meio dela, o tratamento já mudou o que se está medindo.

Não peça ressonância magnética de crânio para afastar desmielinização osmótica nas primeiras horas do quadro neurológico. A síndrome aparece dois a seis dias depois da correção, e o protocolo pernambucano registra que a ressonância pode se mostrar normal mesmo em casos confirmados. Exame precoce e normal não exclui nada e cria falsa segurança; o que muda desfecho é não ultrapassar o teto, não a imagem que documenta a ultrapassagem.

Não repita o sódio de duas em duas horas fora de correção ativa. O recontrole tem gatilho e tem hora, e ambos estão no bloco de reavaliação. Repetir por ansiedade produz variação analítica e condutas tomadas sobre ruído.

E não peça tomografia de crânio antes de dosar sódio no paciente que rebaixou dentro da enfermaria. É a inversão de sequência mais cara do capítulo: a tomografia custa transporte, tempo e às vezes contraste, e o sódio custa um tubo.

O que existe no SUS

Tudo o que este capítulo pede está disponível num hospital público de médio porte: sódio, potássio, ureia, creatinina, glicemia, proteínas totais e frações, lipidograma, sódio e osmolaridade urinários em amostra isolada, hormônio estimulante da tireoide e cortisol. Nenhuma decisão aqui depende de exame de serviço terciário.

O que pode faltar é a osmolaridade medida, sérica e urinária, em plantão noturno, e é uma falta que tem resposta: a osmolaridade sérica se substitui por glicemia, proteínas e lipidograma, e a urinária, quando indisponível, se aproxima pela densidade urinária da fita — densidade acima de 1010 indica urina concentrada e, portanto, hormônio antidiurético em ação. É aproximação, e deve ser registrada como tal.

Na farmácia, a régua também é conhecida e é o que faz a aritmética deste capítulo ser necessária. A Rename 2024 padroniza duas concentrações injetáveis de cloreto de sódio: a de 0,9%, com 0,154 mEq/mL, e a de 20%, com 3,4 mEq/mL, ambas do componente Básico. A solução a 3% que os protocolos prescrevem é preparada a partir da ampola a 20% — o guia farmacêutico do Hospital Sírio-Libanês, atualizado em setembro de 2025, a descreve como solução manipulada. É por isso que a próxima seção começa pela conta, e não pela dose.

07

O teto, a conta da bolsa e as receitas que não dão 3%

Aprenda a distinguir tonicidade, gravidade dos sintomas e mecanismo da hiponatremia, planejando também como evitar sobrecorreção.

  1. 1Pergunte primeiro pelo sintoma, não pelo número: crise convulsiva, coma, rebaixamento profundo ou vômito incoercível autorizam salina hipertônica agora, antes de qualquer classificação.
  2. 2Sem sintoma grave, confirme que a hiponatremia é hipotônica: glicemia, proteínas totais e frações, lipidograma, e osmolaridade sérica onde houver. Glicemia alta manda corrigir o sódio antes de classificar.
  3. 3Procure a data de início no prontuário. Sem sódio normal documentado nas últimas 48 horas, o caso é crônico.
  4. 4Classifique a volemia à beira do leito e escreva a classificação na evolução, com os achados que a sustentam. Ela vai ser revista.
  5. 5Colha osmolaridade e sódio urinários em amostra isolada, antes da próxima dose de diurético e antes de expandir.
  6. 6Leia a folha de prescrição inteira e circule tiazídico, antidepressivo, anticonvulsivante, opioide, anti-inflamatório e toda solução hipotônica. Suspenda o que der para suspender hoje.
  7. 7Calcule o teto de 24 horas ANTES de pendurar qualquer coisa e escreva na prescrição o sódio máximo permitido para amanhã de manhã, em número absoluto.
  8. 8Calcule quanto a bolsa que você vai pendurar sobe o sódio deste paciente, pela fórmula de Adrogué-Madias, e compare com o teto que acabou de escrever.
  9. 9Prescreva com velocidade escrita, em bomba, e marque na própria prescrição os horários do recontrole de sódio — de 4 em 4 horas durante correção ativa.
  10. 10Peça débito urinário por turno e diga à enfermagem para chamar se passar de 100 mL por hora com urina clara: é o sinal de que a correção começou a andar sozinha.
Situação na beira do leitoAlvo de elevação em 24 hTeto que não se ultrapassaO que se pendura
Sintoma neurológico grave (crise, coma, rebaixamento profundo, vômito incoercível), qualquer sódio abaixo de 125 mmol/L4 a 6 mmol/L, e só até o sintoma ceder8 mmol/L em 24 h; 6 se houver risco de desmielinizaçãoSalina a 3%, 100 mL em bolus, repetível a cada 10 minutos até 3 doses
Sintoma leve a moderado, sódio abaixo de 125 mmol/L, crônica ou de início indeterminado4 a 6 mmol/L8 mmol/L em 24 h; 6 se houver riscoSalina a 3% em infusão contínua, em bomba, com a velocidade calculada pela fórmula
Assintomático, sódio de 125 a 129 mmol/L, euvolêmico4 a 6 mmol/L, sem pressa8 mmol/L em 24 hRestrição hídrica e retirada da causa. Sem salina hipertônica
Assintomático, sódio de 130 a 134 mmol/LNão há alvo: não se trata o númeroNão se aplicaRetirada da causa e recontrole. Acima de 130 mmol/L não há indicação de salina hipertônica
Hipovolêmico, qualquer faixa, sem sintoma grave4 a 6 mmol/L, contando o que o rim vai fazer sozinho8 mmol/L em 24 hCristaloide isotônico a 0,5 a 1,0 mL/kg/h, com sódio de 4 em 4 horas e débito urinário vigiado
Hipervolêmico (insuficiência cardíaca, cirrose, síndrome nefrótica, injúria renal)4 a 6 mmol/L8 mmol/L em 24 hRestrição hídrica e diurético de alça. Salina hipertônica só na hiponatremia grave, e associada ao diurético
Osmolaridade sérica normal ou alta (pseudo-hiponatremia, hiperglicemia, manitol)NenhumNão se aplicaNada dirigido ao sódio. Trata-se a causa: glicemia, lípides, proteína

A conta do sódio: da ampola brasileira à solução a 3%

ItemNúmeroDe onde vem
Cloreto de sódio 20%, ampola de 10 mL200 mg/mL; 3,4 mEq/mL pela Rename e 3,422 mEq/mL pela bula; 34 mEq de sódio por ampola; 2 g de cloreto de sódio por ampola; osmolaridade de 6.845 mOsm/LRename 2024 e bula profissional BU006/07
Cloreto de sódio 0,9%9 mg/mL; 0,154 mEq/mL; 154 mEq/L; 308 mOsm/LRename 2024 e bula profissional
Salina a 3%30 g de cloreto de sódio por litro; 513 mEq/L de sódio; 1.027 mOsm/LAritmética a partir da massa molar; confere com as tabelas do HC-UFMG (513) e do Hospital Sírio-Libanês (513)
1 litro de salina a 3% a partir de soro fisiológico890 mL de cloreto de sódio 0,9% mais 110 mL de cloreto de sódio 20%, que são 11 ampolas inteiras. Resultado: 30,0 g em 1.000 mL, 513 mEq/LGuia Farmacêutico do Hospital Sírio-Libanês, 2025; conta conferida
500 mL de salina a 3% a partir de soro fisiológico445 mL de cloreto de sódio 0,9% mais 55 mL de cloreto de sódio 20%, que são 5 ampolas e meia. Resultado: 15,0 g em 500 mL, 513 mEq/LMetade da receita acima
100 mL de salina a 3% a partir de soro fisiológico89 mL de cloreto de sódio 0,9% mais 11 mL de cloreto de sódio 20%. Resultado: 3,0 g em 100 mL, 51,4 mEq de sódioUm décimo da receita acima
1 litro de salina a 3% a partir de água para injeção ou glicose a 5%150 mL de cloreto de sódio 20% completados a 1.000 mL. Resultado: 30,0 g em 1.000 mL, 513 mEq/LProtocolo do Hospital Geral Eduardo Campos, 2020, e revisão do Jornal Brasileiro de Nefrologia, 2011; conta conferida

As receitas que não dão 3%, e o quanto elas erram

ReceitaCloreto de sódio totalConcentração realSódio realO que acontece
Soro fisiológico 850 mL mais 150 mL de cloreto de sódio 20% — a receita de água aplicada a diluente salino7,65 g do soro mais 30 g das ampolas, total 37,65 g em 1.000 mL3,77%644 mEq/L25% de sódio a mais que o pretendido em cada mililitro. É o erro mais provável, porque o soro fisiológico é a bolsa que existe na enfermaria e a água para injeção não vem em bolsa de 850 mL
Um litro inteiro de soro fisiológico mais 105 mL de cloreto de sódio 20%9 g do soro mais 35,7 g das ampolas, total 44,7 g em 1.105 mL2,72%465 mEq/L10% de sódio a menos. Somar o conteúdo de um litro inteiro e depois acrescentar volume não dá a concentração de um litro: o volume das ampolas dilui o que já estava lá
Soro fisiológico 500 mL mais 6 ampolas de 10 mL de cloreto de sódio 20%4,5 g do soro mais 12 g das ampolas, total 16,5 g em 560 mL2,95%504 mEq/LErra 2% para menos. Clinicamente irrelevante, mas ilustra que 6 ampolas em 500 mL é aproximação, não a receita
Cloreto de sódio 20% 20 mL completados a 1.000 mL, apresentado como salina a 0,45%4 g em 1.000 mL0,40%68 mEq/L11% de sódio a menos que os 77 mEq/L que a solução a 0,45% deveria ter. Para 0,45% são necessários 22,5 mL

Quanto uma bolsa sobe o sódio, pela fórmula de Adrogué-Madias

PacienteÁgua corporal total1 L de salina 3%100 mL de salina 3%1 L de soro fisiológico1 L de glicose 5%
Mulher de 74 anos, 56 kg, sódio 108 mmol/L25,2 L (peso x 0,45)sobe 15,5 mmol/Lsobe 1,5 mmol/Lsobe 1,8 mmol/Ldesce 4,1 mmol/L
Mulher de 60 anos, 60 kg, sódio 112 mmol/L30,0 L (peso x 0,5)sobe 12,9 mmol/Lsobe 1,3 mmol/Lsobe 1,4 mmol/Ldesce 3,6 mmol/L
Homem de 66 anos, 70 kg, sódio 116 mmol/L35,0 L (peso x 0,5)sobe 11,0 mmol/Lsobe 1,1 mmol/Lsobe 1,1 mmol/Ldesce 3,2 mmol/L
Homem de 50 anos, 70 kg, sódio 112 mmol/L42,0 L (peso x 0,6)sobe 9,3 mmol/Lsobe 0,9 mmol/Lsobe 1,0 mmol/Ldesce 2,6 mmol/L

Água corporal total, e o volume de salina a 3% que cabe no dia

ItemRegra
Homem com menos de 65 anospeso em quilos vezes 0,6
Homem com 65 anos ou mais, e mulher com menos de 65peso em quilos vezes 0,5
Mulher com 65 anos ou maispeso em quilos vezes 0,45 a 0,4
Fórmula de Adrogué-Madiaselevação do sódio por litro infundido igual a (sódio da solução menos sódio do paciente) dividido por (água corporal total mais 1)
Volume de salina a 3% para a meta do diameta em mmol/L dividida pela elevação por litro, vezes 1.000 mL. Na mulher de 56 kg com sódio 108, cuja elevação por litro é 15,5: 259 mL para subir 4 (11 mL/h) e 388 mL para subir 6 (16 mL/h)
Velocidade das fontes, para conferir a conta0,5 mL/kg/h no assintomático e 1,0 a 2,0 mL/kg/h no sintomático. Em 56 kg: 28 mL/h e 56 a 112 mL/h — muito acima dos 16 mL/h que a fórmula pede para 6 mmol/L. A faixa em mL/kg/h presume recontrole em poucas horas, não infusão de um dia inteiro

As três volemias, lado a lado

HipovolêmicaEuvolêmicaHipervolêmica
Exame físicoHipotensão postural, taquicardia, mucosas secas, turgor reduzidoSem edema, sem sinais de desidrataçãoEdema, ascite, turgência jugular, estertores, ganho de peso
Sódio urinárioAbaixo de 20 mmol/L na perda extrarrenal; acima de 20 na perda renalAcima de 20 a 40 mmol/LAbaixo de 20 mmol/L
Osmolaridade urináriaAltaAlta na secreção inapropriada; baixa na potomania e na polidipsiaAlta
Causas típicasVômito, diarreia, drenagem, diurético, terceiro espaço, insuficiência adrenal primáriaSecreção inapropriada, hipotireoidismo, tiazídico, antidepressivo, dor e náusea do pós-operatório, potomaniaInsuficiência cardíaca, cirrose, síndrome nefrótica, injúria renal aguda, doença renal crônica
TratamentoCristaloide isotônico e retirada da perdaRestrição hídrica e retirada da causaRestrição hídrica, diurético de alça e tratamento da doença de base
Risco dominanteAutocorreção brusca quando o volume é repostoCorreção lenta demais, e piora com soro fisiológico na secreção inapropriadaCongestão piorada por volume dado sem indicação

A folha de prescrição: o que derruba o sódio

Linha da folhaComo derruba
Hidroclorotiazida e clortalidonaPrejudicam a diluição da urina sem prejudicar a concentração. São o grupo de drogas mais associado à hiponatremia grave
Inibidores da recaptação de serotonina, antipsicóticos, carbamazepina e outros anticonvulsivantesInduzem secreção inapropriada de hormônio antidiurético
Opioide, ciclofosfamida, anti-inflamatório não esteroideAumentam a secreção ou a ação do hormônio antidiurético no túbulo coletor
Glicose a 5%, salina a 0,45%, solução glicofisiológica em volume altoSão água livre disfarçada de hidratação em quem não consegue excretá-la
Dieta hipossódica prescrita por hábito e nutrição enteral pobre em sódioReduzem a carga de soluto e, com ela, a capacidade de excretar água
Desmopressina prescrita para outra finalidadeBloqueia a excreção de água diretamente
Água à beira do leito, chá e sopa, que não entram no balançoSomam ao que está prescrito e explicam boa parte do que parece refratário

O teto adotado neste capítulo é de 8 mmol/L em 24 horas para qualquer paciente da enfermaria, e de 6 mmol/L em quem tem risco de desmielinização, com alvo de 4 a 6. A escolha precisa de justificativa porque as fontes divergem: a recomendação norte-americana trabalha com alvo de 4 a 8 e teto de 10 a 12, a diretriz europeia com teto único de 10, o protocolo do HC-UFMG com alvo de 4 a 8 e limites de 10 em 24 horas e 18 em 48, o protocolo pernambucano com teto de 10, e o guia farmacêutico do Hospital Sírio-Libanês com 12. O número escolhido é o mais apertado, por três razões. A primeira é que 10 não protege: na revisão sistemática brasileira, 10,4% dos casos de desmielinização ocorreram com correção abaixo de 10 mEq/L no primeiro dia. A segunda é que o teto precisa sobreviver ao que ninguém prescreveu — se você mira em 10 e o rim acrescenta 6 de aquarese, o paciente amanhece com 16. A terceira é que não custa nada: 4 a 6 mmol/L bastam para reverter sintoma neurológico e afastar herniação, e ninguém precisa de mais que isso em 24 horas.

Os 8 mmol/L são teto, não meta, e a diferença é operacional. Meta é o que você planeja atingir e usa para calcular a velocidade; teto é a linha que, cruzada, transforma o tratamento em problema. A meta fica um a dois milimoles abaixo do teto de propósito, e essa folga é o espaço reservado para o que ninguém prescreve — a aquarese que a retirada da causa desencadeia e a subida que a reposição de potássio produz. Meta que encosta no teto não é meta. Escreva os dois na prescrição, em números absolutos: para dona Aurora, com sódio de 108 e risco alto, a meta é 112 e a linha vermelha é 114 amanhã de manhã. Número absoluto é melhor que variação porque quem lê no plantão da noite não precisa refazer conta nenhuma.

O diluente faz parte da receita, e trocá-lo troca a solução. A receita de 150 mL de cloreto de sódio 20% completados a 1 litro dá 3,00% exatos quando o diluente é água para injeção ou glicose a 5%, porque esses veículos não trazem sódio nenhum. Aplicada a soro fisiológico, a mesma receita entrega 3,77% e 644 mEq por litro, porque o soro já traz 154 mEq. Com diluente salino, o volume correto é 110 mL de cloreto de sódio 20% em 890 mL de soro fisiológico — 11 ampolas inteiras, o que é uma coincidência aritmética útil de memorizar.

A escolha entre os dois veículos não é indiferente na prática. Água para injeção raramente existe em bolsa de 850 mL, o que obriga a manipular volumes em seringa; glicose a 5% acrescenta 50 g de glicose por litro, o que importa no diabético e no paciente crítico. Soro fisiológico é a bolsa que está no carrinho, e por isso a receita de 11 ampolas em 890 mL é a que este capítulo usa. Retire 110 mL da bolsa de 1.000 mL antes de acrescentar as ampolas: sem isso o volume final vai a 1.110 mL e a concentração cai para 2,7%.

Onze ampolas quebradas em sequência é, por si só, um risco de preparo, e vale dizer isso na prescrição. A bula do cloreto de sódio 20% proíbe misturar ampolas de medicamentos diferentes com a frase de que a troca pode ser fatal, e o cloreto de potássio a 19,1% vem em ampola parecida. O preparo é conferido por duas pessoas, como o de qualquer eletrólito concentrado, e o método de escrever a linha endovenosa completa — diluente, volume, velocidade e tempo — é o do capítulo de potássio desta apostila, e vale aqui sem uma vírgula de diferença.

O acesso venoso da salina a 3% tem divergência e tem uma resposta prática. A solução a 3% tem 1.027 mOsm/L, e o guia farmacêutico do Hospital Sírio-Libanês recomenda acesso central para concentrações a partir de 3% pelo potencial irritante — critério coerente com o limite osmolar habitual da veia periférica. Do outro lado, o bolus de 100 mL prescrito pelos protocolos ao paciente que convulsiona é dado por acesso periférico em todo pronto-socorro do mundo, e ninguém adia uma crise convulsiva para puncionar veia central. A conciliação é por tempo de exposição: bolus curto e volume pequeno vão pela veia periférica calibrosa que existe, com o trajeto inspecionado depois; infusão contínua por muitas horas, sobretudo se for repetida em dias, merece acesso central quando ele estiver disponível sem atrasar o tratamento. Extravasamento de solução com essa osmolaridade causa lesão local, e a bula do cloreto de sódio 20% instrui a evitá-lo expressamente. A régua geral de escolha de via e de teto por via é a do capítulo de potássio desta apostila.

A fórmula de Adrogué-Madias estima o efeito de um litro da solução sobre o sódio, e a estimativa vale exatamente enquanto o paciente não urinar. Ela não conta a água que o rim vai jogar fora, e é por isso que subestima sistematicamente a correção do paciente hipovolêmico e do que teve a droga suspensa. Use-a para decidir a velocidade inicial e nunca para dispensar o recontrole. No paciente com secreção inapropriada e urina fixa e concentrada, a fórmula acerta melhor, porque não há aquarese para atrapalhar.

A água corporal total deste capítulo vem da tabela por sexo e idade do protocolo pernambucano, e não da simplificação de 58% do peso que o protocolo do HC-UFMG oferece. A diferença não é acadêmica: numa mulher de 74 anos e 56 quilos, 58% dão 32,5 litros e 45% dão 25,2 litros, e a mesma bolsa de 1 litro de salina a 3% sobe 12,0 mmol/L pela primeira conta e 15,5 pela segunda. Subestimar a água corporal é o erro seguro — ele faz você infundir menos, não mais.

O débito urinário entra aqui como parâmetro de segurança, e não de balanço. Diurese acima de 100 mL por hora com urina visivelmente clara, em paciente hiponatrêmico, significa que o hormônio antidiurético caiu e que o sódio vai subir sozinho nas próximas horas, independentemente do que está pendurado. É o único sinal de beira de leito que antecipa a supercorreção antes do exame, e ele custa uma ordem escrita para a enfermagem.

Salina a 0,9% não é uma solução neutra em quem tem hiponatremia. Na coorte brasileira de 362 pacientes, volume acima de 500 mL no pronto-socorro dobrou o risco de supercorrigir, com aumento de 10% a cada 100 mL. E na secreção inapropriada ela pode piorar a hiponatremia: com osmolaridade urinária de 600 mOsm/L, os 308 mOsm de um litro de soro fisiológico saem em apenas 510 mL de urina, e o paciente retém quase meio litro de água livre. A régua para decidir é a osmolaridade da urina comparada à da solução, e não o rótulo de isotônica.

Duas coisas que este capítulo não repete de propósito. A conta da reposição de potássio, com ampola, concentração e velocidade, está no capítulo de potássio desta apostila; o que importa aqui é apenas que repor potássio sobe o sódio, e que essa subida entra no orçamento de 24 horas. E a régua geral do fluido de manutenção, com escolha de solução e volume por quilo, é do capítulo de hidratação venosa — a soma do que a manutenção entrega com o que a correção entrega é responsabilidade de quem assina a folha.

A hipernatremia é o distúrbio espelhado e tem tema próprio nesta apostila. A régua de lá é simétrica e não intercambiável: o limite é de redução, não de elevação, e o risco da pressa é edema cerebral e não desmielinização. Quando o paciente corrigido demais precisa ser trazido de volta, o que se faz é o começo do manejo de hipernatremia aplicado ao contrário, e está descrito na linha do tempo deste capítulo.

08

A conduta, hora a hora

A conduta na hiponatremia tem uma ordem fixa, e a solução é a última coisa a ser decidida. Antes dela vêm o sintoma, a tonicidade, o tempo, a volemia e o cálculo do quanto este paciente pode subir em 24 horas. Um interno que decide a bolsa primeiro acerta a droga e erra a dose do dia.

A linha do tempo abaixo acompanha os dois pacientes da abertura, porque eles são os dois lados do mesmo erro. Dona Aurora, 74 anos, 56 quilos, sexto dia de pneumonia, sódio de 108 mmol/L em queda desde 132, potássio de 2,9 mmol/L, lentificada e enjoada, sem crise, com hidroclorotiazida, sertralina e glicose a 5% na folha. Seu Manoel, 66 anos, 70 quilos, sódio de 116 mmol/L ontem à tarde por vômito de três dias, 2.000 mL de soro fisiológico na sala de emergência, 3.800 mL de urina clara na madrugada e sódio de 130 mmol/L agora. Toda dose vem com a fonte que a sustenta.

  1. Minuto 0 a 10 — as quatro perguntas, antes de qualquer bolsa

    Avaliar sintomas, duração, tonicidade e volemia em paralelo. Essa organização não deve atrasar estabilização ou salina hipertônica quando há sintomas relevantes. Aurora tem queda ao longo de seis dias, hipocalemia e potenciais medicamentos causais; Manoel já subiu 14 mmol/L em 18 horas e precisa avaliação imediata da sobrecorreção, incluindo toda a terapia recebida e diurese.

    Prescrição
    • Dosar Na, K, glicemia, ureia/creatinina e, quando possível, osmolalidade sérica medida. Lipídios/proteínas e método de dosagem ajudam se houver suspeita de pseudohiponatremia, mas não substituem completamente a osmolalidade medida. Confirmar com eletrodo direto se o contexto sugerir interferência analítica.
    • Osmolaridade e sódio urinários em amostra isolada nos dois, colhidos antes da próxima dose de qualquer diurético e antes de expandir. Osmolaridade urinária acima de 100 mOsm/L indica hormônio antidiurético em ação; sódio urinário abaixo de 20 mmol/L indica retenção renal de sódio (Protocolo Distúrbios do Sódio, Hospital Geral Eduardo Campos, 2020).
    • Hormônio estimulante da tireoide e cortisol matinal em dona Aurora, por hiponatremia euvolêmica em idosa sem causa única evidente.
    • Medir débito urinário de hora em hora durante correção de alto risco; aumento súbito, especialmente acima de 100 mL/h, pede avaliação da tendência do Na e redução do intervalo de controle. Urina clara isolada não quantifica a correção.
    • Suspender hidroclorotiazida e registrar hiponatremia grave associada, evitando reexposição futura salvo decisão excepcional fundamentada. Revisar outros fatores contribuintes em paralelo.
    • Suspender a linha de glicose a 5% 1.000 mL em 24 horas. Glicose a 5% é água livre depois de metabolizada, e água livre em quem não a excreta é a causa, não a hidratação.
    • Reavaliar e em geral suspender temporariamente sertralina diante desta hiponatremia profunda com possível contribuição do fármaco, discutindo sintomas de retirada e plano futuro. Não manter um possível agente causal apenas para descobrir qual suspensão funcionou.
  2. Minuto 10 — a conta que se faz antes de pendurar, e que se escreve na folha

    Definir alvo e limite em qualquer janela móvel de 24 horas. Na paciente de alto risco, usar alvo inicial de 4 mmol/L e limite operacional conservador de 6 neste capítulo, com intervenção antes de ultrapassá-lo. Recomendações internacionais frequentemente usam máximo de 8 mmol/L/24 h em alto risco; 6 é margem operacional mais restritiva, não um limite universal que invalida 8. Hipocalemia e duração prolongada aumentam preocupação; pouco apetite ou albumina baixa isoladamente não comprovam desnutrição.

    Prescrição
    • Escrever na prescrição de dona Aurora, em número absoluto e no alto da folha: sódio-meta em 24 horas de 112 mmol/L; não ultrapassar 114 mmol/L. Número absoluto porque quem lê à noite não deve precisar refazer conta nenhuma.
    • Calcular a água corporal total pela tabela por sexo e idade: mulher com mais de 65 anos, peso vezes 0,45, o que dá 25,2 litros em 56 quilos (Protocolo Distúrbios do Sódio, Hospital Geral Eduardo Campos, 2020).
    • Calcular a elevação por litro pela fórmula de Adrogué-Madias: sódio da solução menos sódio do paciente, dividido por água corporal total mais 1. Com salina a 3%, que tem 513 mmol/L, dá 513 menos 108, dividido por 26,2, igual a 15,5 mmol/L por litro infundido (Protocolo assistencial nº 297, HC-UFMG/Ebserh, 2021).
    • Converter a meta em volume e em velocidade: 4 mmol/L divididos por 15,5 mmol/L por litro dão 259 mL de salina a 3% em 24 horas, ou 11 mL por hora em bomba de infusão. Pela mesma conta, o volume que corresponderia ao teto de 6 é de 388 mL — e é por isso que o volume total autorizado se escreve na folha.
    • Registrar a conta na evolução, com os três números que a compõem. Quem confere no plantão precisa poder refazer o cálculo sem reconstruir a história.
  3. Hora 0 a 1 — a única situação em que a pressa é certa, e ela não é a de dona Aurora

    Sintomas graves atribuíveis à hiponatremia exigem salina hipertônica prontamente, com supervisão e monitorização. Sintomas moderados também podem justificar um bolus limitado: a diretriz europeia propõe 150 mL de NaCl 3% em 20 minutos, enquanto outros protocolos usam 100 mL em 10 minutos. Escolha um protocolo, reavalie clínica e Na após cada bolus e repita somente se necessário; não administrar três doses automaticamente. O objetivo inicial é pequena elevação que alivie sintomas, em geral 4–6 mmol/L, não normalizar Na. Na 108 com alteração cognitiva exige avaliação urgente da contribuição do sódio e das demais causas; não excluir bolus apenas por não haver convulsão.

    Prescrição
    • Sintomas graves atribuíveis à hiponatremia exigem salina hipertônica prontamente, com supervisão e monitorização. Sintomas moderados também podem justificar um bolus limitado: a diretriz europeia propõe 150 mL de NaCl 3% em 20 minutos, enquanto outros protocolos usam 100 mL em 10 minutos. Escolha um protocolo, reavalie clínica e Na após cada bolus e repita somente se necessário; não administrar três doses automaticamente. O objetivo inicial é pequena elevação que alivie sintomas, em geral 4–6 mmol/L, não normalizar Na. Na 108 com alteração cognitiva exige avaliação urgente da contribuição do sódio e das demais causas; não excluir bolus apenas por não haver convulsão.
    • Alternativa em dose por peso, do ensaio SALSA: salina a 3%, 2 mL/kg em 20 minutos, uma dose no sintomático moderado e duas doses em 40 minutos no sintomático grave, repetíveis a cada 6 horas até a meta. Em 56 quilos são 112 mL por dose (Baek e Kim, Kidney Research and Clinical Practice, 2020).
    • Dosar Na após cada bolus, em geral em 20–60 minutos conforme protocolo, e durante correção ativa de alto risco a cada 2–4 horas, ou mais frequentemente se houver aquarese ou resgate de sobrecorreção. Não esperar a terceira dose nem deixar seis horas sem controle em trajetória imprevisível.
    • Não esperar tomografia, ressonância, osmolaridade ou classificação de volemia para dar o primeiro bolus no paciente que convulsiona. A investigação caminha junto, não antes.
    • Se o sintoma ceder antes das três doses, parar. O alvo é o sintoma, não o número — e o número que sobra do dia é o que protege contra a desmielinização.
  4. Hora 0 a 6 — a prescrição de dona Aurora, escrita por inteiro

    Preferir NaCl 3% pronto ou preparado pela farmácia. Disponibilidade e apresentações variam entre hospitais; não presumir que a solução pronta inexiste no Brasil. Se manipulação for necessária, aplicar procedimento validado, dupla conferência e identificação da concentração final.

    Dois recipientes conceituais com concentrações e volumes C₁/V₁ e C₂/V₂ convergem para a fórmula da concentração final ponderada pelos volumes.
    A concentração final de uma mistura resulta da conservação de massa: somam-se as quantidades de soluto e divide-se pelo volume final. O esquema ensina a conferência, não uma receita universal de preparo de salina hipertônica; utilizar apresentação ou manipulação padronizada.
    Prescrição
    • Preparo de 500 mL de salina a 3%: retirar 55 mL de uma bolsa de 500 mL de cloreto de sódio 0,9% e acrescentar 55 mL de cloreto de sódio 20%, que são cinco ampolas e meia de 10 mL. Volume final de 500 mL, contendo 15,0 g de cloreto de sódio, concentração de 3,0% e 513 mmol de sódio por litro (Guia Farmacêutico do Hospital Sírio-Libanês, 2025, receita de 890 mL mais 110 mL para 1 litro; conta conferida e reduzida à metade).
    • Pela estimativa estática de água corporal, 11 mL/h de NaCl 3% poderia elevar Na aproximadamente 4 mmol/L em 24 horas. Essa conta é apenas ponto de partida: não inclui adequadamente mudanças de diurese, perdas e reposição de K. Definir velocidade pela situação clínica e controles, sem tratar uma suposta folga de 2 mmol/L como garantia.
    • Escrever ao lado, na própria linha, o volume total autorizado nas primeiras 24 horas: 264 mL. Sem esse número, a bolsa de 500 mL que fica na bomba corre até acabar e entrega 7,7 mmol/L, quase o dobro da meta.
    • Usar prazo de utilização e condições de preparo/armazenamento definidos pela farmácia para a apresentação específica. Não estender uma regra de 24 horas de um preparo local a qualquer solução manipulada.
    • Bomba de infusão obrigatória, e não gravidade. Todas as soluções de correção de sódio devem ser administradas em bomba de infusão contínua (Protocolo Distúrbios do Sódio, Hospital Geral Eduardo Campos, 2020).
    • Conferência dupla do preparo, com a ampola conferida uma a uma. A bula do cloreto de sódio 20% instrui a não trocar nem misturar ampolas de medicamentos diferentes, com a advertência expressa de que a troca pode ser fatal, e o cloreto de potássio a 19,1% vem em ampola de aparência semelhante (bula profissional BU006/07, Isofarma/Halex Istar).
    • Cloreto de potássio para o potássio de 2,9 mmol/L, na dose e na velocidade do capítulo de potássio desta apostila — e com uma advertência que é deste: a reposição de potássio sobe o sódio por si só, e essa subida entra no teto de 24 horas. Repor potássio com vigor enquanto se corrige sódio é como somar duas prescrições sem somar os efeitos (Bastos e Rocha, Brazilian Journal of Nephrology, 2024).
    • Suspender qualquer solução hipotônica ainda correndo e não prescrever hidratação de manutenção sem indicação escrita. O que a manutenção entrega soma ao que a correção entrega.
  5. Hora 4 e hora 8 — o recontrole tem hora escrita, e a hora é curta

    Durante correção ativa, acompanhar Na e diurese juntos. Uma elevação inesperada pode resultar de aquarese após retirar o estímulo de ADH, K reposto, outras soluções ou erro de administração; conferir todos. Em alto risco, controles iniciais a cada 2–4 horas e diurese horária ajudam a ajustar antes que o limite seja excedido.

    Prescrição
    • Programar Na a cada 2–4 horas no início desta correção de alto risco; abreviar para 1–2 horas se a elevação acelerar ou houver tratamento de sobrecorreção. Os valores esperados são estimativas, não substituem resultado real.
    • Regra de parada escrita e datada: interromper a infusão se o sódio atingir 114 mmol/L, ou se a subida entre duas coletas passar de 2 mmol/L, e chamar o plantonista. Ordem que depende de alguém lembrar não sobrevive à troca de turno.
    • Não buscar normalização rápida. Interromper ou ajustar terapia ativa ao atingir o objetivo clínico/diário, muito antes de 130 quando necessário. Na >130 não é garantia universal de ausência de sintomas ou de outras causas de hipertensão intracraniana.
    • Medir e registrar diurese de hora em hora durante risco de aquarese, correlacionando com Na e balanço, não apenas somar ao fim de quatro horas.
    • Potássio a cada 6 horas enquanto houver reposição correndo, porque a subida do potássio arrasta o sódio junto.
  6. Hora 12 — a correção que anda sozinha, e como se freia

    Este marco é do seu Manoel, e é a parte do capítulo que quase nunca se ensina. Ele subiu de 116 para 130 mmol/L sem receber nada além de 2.000 mL de soro fisiológico, e a conta mostra por quê. Pela fórmula, dois litros de soro fisiológico subiriam o sódio dele 2,1 mmol/L. Os outros 12 vieram da urina: com o volume reposto, o estímulo barorreceptor sumiu, o hormônio antidiurético despencou e o rim despejou 3.800 mL de água quase pura numa noite. Nenhuma fórmula prevê isso, porque nenhuma fórmula conta o que o paciente vai perder. O teto dele era 124 mmol/L, e ele está seis acima.

    Prescrição
    • Restrição hídrica depende do mecanismo e do balanço. Ingestão de 1.000 mL com diurese de 3.000 mL produz importante balanço negativo de água e pode acelerar a correção; não significa ausência de restrição. Na aquarese, rever restrição e considerar reposição de água/desmopressina com supervisão.
    • Assegurar oferta nutricional e de solutos apropriada, tratando náusea e causas de baixa ingestão. A indicação de restrição de sódio depende de doenças como insuficiência cardíaca/cirrose; não prescrever dieta salgada de forma universal em toda hiponatremia.
    • Desmopressina 2 mcg por via endovenosa ou subcutânea, repetível a cada 6 a 8 horas. Sem ela, a água livre que você infundir será eliminada pelo mesmo rim que está em aquarese, e o sódio não desce (Protocolo assistencial nº 297, HC-UFMG/Ebserh, 2021, que registra 2 a 4 mcg a cada 8 horas; Sumi e cols., Clinical and Experimental Nephrology, 2025).
    • Glicose a 5% por via endovenosa, 3 mL/kg/h, o que dá 210 mL por hora em 70 quilos. Cada litro de glicose a 5% desce o sódio dele 3,6 mmol/L, e a 210 mL por hora a queda é de 0,76 mmol/L por hora: os 6 mmol/L necessários para voltar a 124 levam cerca de 8 horas (mesmo protocolo, que oferece também 10 mL/kg infundidos em 1 hora quando se quer resposta mais rápida).
    • Sódio sérico de hora em hora durante a redução, com meta escrita de 124 mmol/L e ordem de parar ao atingi-la (mesmo protocolo).
    • Considerar dexametasona 4 mg a cada 6 horas por 24 a 48 horas. A medida consta do protocolo para correção excessiva em quem partiu de sódio abaixo de 120 mmol/L, e o seu Manoel partiu de 116 (mesmo protocolo).
    • Registrar na evolução, com a conta, por que a redução foi indicada: sódio inicial de 116 mmol/L, elevação de 14 mmol/L em 18 horas, teto de 8 mmol/L ultrapassado em 6. Sem esse registro, o plantão seguinte vê um sódio normal descendo e desfaz o tratamento.
  7. Hora 12, no outro leito — quando a prevenção vale mais que o resgate

    O que aconteceu com o seu Manoel era previsível na tarde de ontem, e existe uma estratégia que o teria evitado. Em paciente com alto risco de aquarese brusca — hipovolêmico que vai receber volume, tiazídico que vai ser suspenso, potomania que vai voltar a comer, hormônio que vai ser reposto —, a literatura descreve o uso preventivo de desmopressina junto com a correção, de seis em seis ou de oito em oito horas, com restrição hídrica e salina a 3% controlada. A ideia é desligar de propósito a variável que não se controla: com o rim impedido de fazer aquarese, o sódio sobe apenas o que você infundiu, e a fórmula volta a valer.

    Prescrição
    • Identificar na admissão quem vai autocorrigir: hipovolemia que será revertida, tiazídico ou antidepressivo que será suspenso, insuficiência adrenal ou hipotireoidismo que será reposto, potomania e dieta de chá e torrada que voltará a receber soluto. Nesses, o risco não é subcorrigir — é ultrapassar o teto sem prescrever nada (Rocha, Jornal Brasileiro de Nefrologia, 2011).
    • Na depleção de volume com perfusão preservada, cristaloide isotônico pode ser administrado lentamente e ajustado pela resposta. Se houver choque/hipoperfusão, restaurar circulação com alíquotas reavaliadas; a preocupação com sobrecorreção não autoriza manter um fluxo insuficiente. Vigiar Na e aquarese estreitamente após recuperar volume.
    • Sódio de 4 em 4 horas desde a primeira hora, e não de 12 em 12. Na coorte brasileira de 362 pacientes, cada 100 mL adicionais de soro fisiológico no pronto-socorro aumentaram em 10% a chance de supercorreção, e volume acima de 500 mL dobrou essa chance (Reis e cols., Brazilian Journal of Nephrology, 2026).
    • Quando o risco for muito alto, discutir com o assistente a desmopressina preventiva, de 6 em 6 ou de 8 em 8 horas, associada à restrição hídrica e à salina a 3% — a estratégia que impede a aquarese maciça e torna a correção previsível (Rocha, Jornal Brasileiro de Nefrologia, 2011; Sumi e cols., Clinical and Experimental Nephrology, 2025).
    • Escrever na passagem de plantão, em uma linha, qual é o teto de sódio para amanhã e o que fazer se ele for atingido antes. A passagem de plantão tem capítulo próprio nesta apostila, e este é exatamente o tipo de informação que se perde nela.
  8. Dia 1 — a causa sai da folha, e a boca assume

    Com o sódio fora da faixa perigosa, a bolsa sai e a prescrição do dia tem três tarefas: manter o que resolveu, tirar a causa em definitivo e não criar o problema oposto. Em dona Aurora, o sódio das 7 horas do dia seguinte veio 113 mmol/L — subiu 5, um a mais que a meta de 4 e um a menos que o teto de 6. O milimol extra veio da suspensão do tiazídico, e é exatamente para ele que a folga foi reservada. A salina a 3% é suspensa. O que continua é a restrição hídrica e a folha limpa.

    Prescrição
    • Suspender a salina a 3% com o sódio em 113 mmol/L. Alcançado o alvo do dia, a correção para; ela recomeça amanhã, com um teto novo contado a partir do valor de hoje.
    • Restrição hídrica de 800 a 1.000 mL por dia, incluindo água de copo, chá, sopa e diluição de medicamentos, escrita na prescrição e explicada à paciente e à acompanhante. A restrição hídrica é o tratamento de primeira linha da hiponatremia euvolêmica moderada a grave (Protocolo assistencial nº 297, HC-UFMG/Ebserh, 2021; Protocolo Distúrbios do Sódio, Hospital Geral Eduardo Campos, 2020, que usa 800 mL/dia).
    • Calibrar a restrição pelo volume urinário: prescrever 500 mL abaixo da diurese das últimas 24 horas. Restringir 1.000 mL em quem urina 3.000 não restringe nada (Sumi e cols., Clinical and Experimental Nephrology, 2025).
    • Dieta com sal, e não hipossódica. A capacidade de excretar água depende da carga de soluto, e dieta pobre em sódio em paciente hiponatrêmico piora o que se quer corrigir. Retirar a prescrição de dieta hipossódica feita por hábito.
    • Manter a hidroclorotiazida suspensa, com a suspensão marcada como temporária, a data de reavaliação escrita e o motivo em uma frase. Suspensão sem responsável e sem data vira suspensão permanente por esquecimento, ou volta na receita do posto.
    • Sódio sérico a cada 6 horas até estabilizar, e depois uma vez ao dia (Protocolo assistencial nº 297, HC-UFMG/Ebserh, 2021).
    • Em seu Manoel, com sódio de volta a 124 mmol/L: suspender a glicose a 5% e a desmopressina de forma escalonada, com sódio de 4 em 4 horas por mais 24 horas — o efeito da desmopressina termina e a aquarese pode recomeçar.
  9. Dia 2 a 5 — quando o sódio não sobe

    Existe o oposto do problema deste capítulo, e ele é frequente: restrição hídrica feita, causa retirada, e o sódio parado em 121 mmol/L no quarto dia. A tentação é pendurar salina hipertônica. A resposta certa quase sempre é outra, e as explicações se checam em ordem, porque a primeira é a mais comum e a mais silenciosa.

    Prescrição
    • Primeira: a restrição não está acontecendo. Confira o balanço, não a prescrição — a garrafa na mesa de cabeceira, a sopa da bandeja, o chá que a família traz, e os 300 mL diários que a diluição de antibiótico entrega. Restrição hídrica que não é contada não é restrição.
    • Segunda: a restrição está acontecendo e não é suficiente. A restrição hídrica isolada eleva o sódio numa mediana de apenas 4 mmol/L, e falha de forma previsível quando a osmolaridade urinária passa de 500 mOsm/kg, quando a soma de sódio e potássio urinários é maior que o sódio sérico, ou quando a diurese é menor que 1.500 mL por dia (Sumi e cols., Clinical and Experimental Nephrology, 2025). Colha esses três números antes de insistir por mais três dias.
    • Terceira: a causa continua na folha. Antidepressivo mantido, opioide novo prescrito para dor, anti-inflamatório reintroduzido, solução hipotônica de volta como veículo de medicamento. Reabra a folha antes de escalonar tratamento.
    • Quarta: o diagnóstico está errado. Hipotireoidismo e insuficiência adrenal não respondem a restrição hídrica, respondem à reposição do hormônio; a hiponatremia hipervolêmica não responde a nada que não trate a doença de base. Se a classificação de volemia foi feita há quatro dias e nunca revista, refaça-a.
    • Só depois das quatro é que se sobe um degrau. Na secreção inapropriada confirmada e refratária, as opções descritas na literatura são o diurético de alça associado ao sal, a ureia oral de 15 a 60 g por dia e a tolvaptana, esta com sódio recontrolado em 6 e 12 horas e glicose a 5% preventiva se subir mais de 6 mmol/L em 6 horas (Sumi e cols., Clinical and Experimental Nephrology, 2025). São condutas de especialista, e a decisão de usá-las passa pela nefrologia — não pelo interno de plantão.
    • E lembre da assimetria: um sódio de 121 mmol/L estável, assintomático, não é urgência. Correr atrás dele é como se produz a supercorreção.
  10. Alta — o que precisa estar escrito para o sódio não cair de novo

    A hiponatremia que se resolve na enfermaria costuma sair sem registro nenhum e volta pelo mesmo caminho por onde entrou: a receita de casa. O resumo de alta é o que quebra o ciclo, e custa cinco linhas.

    Prescrição
    • Escrever no resumo qual foi o valor mínimo alcançado, em quanto tempo, e o que causou, com o nome do medicamento. A frase 'hiponatremia de 108 mmol/L no sexto dia, atribuída a hidroclorotiazida mantida da receita domiciliar somada a soro glicosado e ingestão reduzida' é útil para o médico da unidade básica; 'distúrbio hidroeletrolítico corrigido' não é.
    • Dizer o que foi suspenso, por quê, quem reintroduz e com qual controle. Hidroclorotiazida contraindicada de forma definitiva em quem fez hiponatremia grave com ela: a recorrência é alta e a alternativa anti-hipertensiva é fácil. Se houver decisão de reintroduzir, sódio em 7 dias.
    • Revisar a sertralina com o prescritor original, e registrar no resumo que ela é um contribuinte conhecido. Trocar de classe é decisão do psiquiatra ou do médico da unidade básica, não do plantão de alta.
    • Prescrever o controle laboratorial com data: sódio em 7 dias para quem sai com causa retirada; sódio em 7 dias após qualquer reintrodução de diurético ou de psicofármaco associado.
    • Orientar por escrito, em linguagem de paciente, quanto beber por dia e o que fazer se voltar a ficar sonolenta ou enjoada. Beber mais água por precaução é o conselho de senso comum que traz esse paciente de volta.
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Como saber se está funcionando

A pergunta das próximas 24 horas não é se o sódio subiu. É se ele subiu na velocidade planejada — e a resposta que interessa é tanto a de subir de menos quanto a de subir demais, porque só a segunda produz uma doença nova. Os parâmetros abaixo estão em ordem de utilidade, e o primeiro não é o exame de sangue.

Sódio sérico, comparado ao valor previsto e não à faixa de referênciaA cada 4 horas durante correção ativa com salina hipertônica; a cada 2 horas nas primeiras horas do paciente sintomático tratado com bolus; a cada 6 horas na hiponatremia grave sem infusão correndo; de hora em hora durante redução deliberada do sódio; uma vez ao dia depois de estabilizado

Esperado: Subida progressiva e devagar, dentro de 4 a 6 mmol/L em 24 horas, e nunca além de 8. Em dona Aurora, cerca de 0,17 mmol/L por hora: 108 a 109 mmol/L na quarta hora, 109 a 110 na oitava, 112 na vigésima quarta

Se não melhora: Duas leituras opostas, e as duas exigem ação. Subida abaixo do previsto significa que a bolsa não está correndo como prescrito, que a restrição hídrica não está acontecendo, ou que a classificação de volemia estava errada — confira o aprazamento e o balanço antes de aumentar a velocidade. Subida acima do previsto significa aquarese em curso: pare a infusão imediatamente, meça o débito urinário e recontrole em 2 horas. Se a elevação já passou de 8 mmol/L em 24 horas em quem partiu de sódio abaixo de 120, o caso vira redução deliberada, com o assistente chamado.

Débito urinário e aspecto da urinaAnotado a cada 4 horas junto com o sódio enquanto houver correção ativa, e a cada turno enquanto o paciente estiver hiponatrêmico

Esperado: Diurese estável e urina de cor habitual. No paciente com secreção inapropriada, urina concentrada e de volume modesto — é o que faz a correção ser previsível

Se não melhora: Diurese acima de 100 mL por hora com urina clara é o alarme mais precoce deste capítulo: o hormônio antidiurético caiu e o sódio vai subir sozinho nas próximas horas, com bolsa ou sem bolsa. A conduta é parar a infusão de sódio, colher sódio agora e não esperar o horário programado. Três litros de urina diluída numa noite explicam mais elevação do que qualquer prescrição.

Nível de consciência e o sintoma que motivou o tratamentoA cada visita, e imediatamente se houver mudança relatada pela enfermagem ou pela família

Esperado: Melhora do sintoma nas primeiras horas quando havia edema cerebral, e antes de o número normalizar. Uma elevação de 4 a 6 mmol/L basta para controlar crise convulsiva e afastar herniação

Se não melhora: Sintoma que não cede com o sódio corrigido pede outro diagnóstico: o rebaixamento não era da hiponatremia. E há a piora tardia que ninguém espera — deterioração neurológica que aparece dois a seis dias depois da correção, com disartria, disfagia, tetraparesia espástica, labilidade emocional ou alteração pupilar, é desmielinização osmótica até prova em contrário. A ressonância pode vir normal nessa fase, e vir normal não exclui (Protocolo Distúrbios do Sódio, Hospital Geral Eduardo Campos, 2020).

O teto escrito na folha, relido a cada plantãoNa visita, na passagem de plantão e sempre que alguém pendurar algo novo

Esperado: O número absoluto do sódio máximo permitido para as próximas 24 horas continua no alto da prescrição, atualizado a cada dia a partir do valor da manhã

Se não melhora: Teto desatualizado é pior que teto ausente, porque autoriza. Se o sódio de hoje é 113 e o teto escrito ontem era 114, o teto de hoje passa a ser 121 — recalcule e reescreva. E se o paciente mudou de categoria de risco, por exemplo porque o potássio já foi corrigido, diga isso ao lado do número novo.

Potássio séricoJunto do primeiro sódio, e a cada 6 horas enquanto houver reposição de potássio correndo

Esperado: Subida progressiva do potássio e, junto com ela, uma parcela da subida do sódio que não veio de nenhuma bolsa de sódio

Se não melhora: Se o potássio subiu muito e o sódio acompanhou, a supercorreção pode ter vindo dali. Reduza a velocidade da reposição de potássio antes de reduzir a do sódio, e refaça o orçamento das 24 horas contando as duas. A régua de reposição de potássio, com ampola, concentração e velocidade, é do capítulo de potássio desta apostila.

Balanço hídrico e peso, medidos e não estimadosBalanço fechado a cada 24 horas, peso na mesma balança e no mesmo horário, todo dia

Esperado: Balanço coerente com a estratégia: negativo em quem está em restrição hídrica, próximo de zero em quem está em correção com salina hipertônica

Se não melhora: Balanço positivo em paciente sob restrição significa que a restrição não está sendo cumprida ou não foi calculada contra a diurese. Peso caindo depressa em quem está em restrição, com sódio subindo junto, é a assinatura da aquarese. E balanço que ninguém fecha é a razão mais comum de uma hiponatremia parecer refratária.

A folha de prescrição, relida inteiraTodo dia na visita, e obrigatoriamente no dia da alta

Esperado: As linhas suspensas continuam suspensas, com data de reavaliação escrita, e nenhuma solução hipotônica voltou como veículo de medicamento

Se não melhora: Hiponatremia que recidiva na mesma internação é quase sempre causa recolocada: o tiazídico que voltou na prescrição do plantão, a glicose a 5% que reapareceu como hidratação, o opioide novo prescrito para dor. Reabra a folha antes de aumentar qualquer tratamento.

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Onde o erro machuca

Tratar o número em vez do paciente, e corrigir até normalizar

O dano: É o erro que produz a doença descrita neste capítulo. Sódio não se corrige até 140: corrige-se 4 a 6 mmol/L por dia e para. Quem mira na faixa de referência atravessa o teto no primeiro dia e não percebe, porque a supercorreção é assintomática — o paciente melhora, o número melhora, e a lesão aparece dois a seis dias depois, com disartria, disfagia e tetraparesia. Na revisão sistemática brasileira, 66,6% dos 96 casos de desmielinização tiveram correção acima de 10 mEq/L no primeiro dia de internação, e a mediana do sódio de entrada era 105 mEq/L.

Como pegar a tempo: Escreva o teto em número absoluto no alto da prescrição, antes de escolher a solução, e escreva a regra de parada junto. E interrompa a correção ao atingir 130 mmol/L mesmo que o teto do dia ainda não tenha sido usado — acima disso o paciente não corre risco de herniação e a salina hipertônica não tem indicação.

Achar que o teto é por hora, e não por 24 horas

O dano: As fontes oferecem velocidades em mmol por hora e em mililitros por quilo por hora, e é fácil ler isso como autorização de manter a velocidade o dia inteiro. Uma correção de 1 mmol/L por hora, mantida por 24 horas, entrega 24 mmol/L — três vezes o teto. Uma infusão de 0,5 mL/kg/h de salina a 3% numa mulher de 56 quilos são 28 mL por hora, que em 24 horas sobem o sódio dela 10,4 mmol/L, também acima do teto. As velocidades por hora presumem recontrole em poucas horas e ajuste; sozinhas, elas não protegem ninguém.

Como pegar a tempo: Converta sempre a velocidade em variação de 24 horas antes de assinar, com a fórmula de Adrogué-Madias e o peso do paciente. Se a conta der mais que 8 mmol/L no dia, ou a velocidade está errada ou o horário de reavaliação precisa estar escrito e ser cumprido.

Dar soro fisiológico porque parece a solução mais segura

O dano: Ele é a via de entrada mais comum da supercorreção e, em parte dos pacientes, piora a hiponatremia. Na coorte brasileira de 362 internados com sódio igual ou abaixo de 120 mmol/L, 73,2% receberam soro fisiológico no pronto-socorro, volume acima de 500 mL dobrou o risco de supercorrigir e cada 100 mL adicionais aumentaram esse risco em 10%. E na secreção inapropriada acontece o oposto do esperado: com urina a 600 mOsm/L, os 308 mOsm de um litro de soro fisiológico saem em pouco mais de 500 mL de urina e o paciente retém quase meio litro de água livre — o sódio cai.

Como pegar a tempo: Antes de pendurar isotônico, classifique a volemia e olhe a osmolaridade urinária. Soro fisiológico é tratamento do hipovolêmico, e mesmo nele vai devagar, a 0,5 a 1,0 mL/kg/h, com sódio de 4 em 4 horas. No euvolêmico e no hipervolêmico, o tratamento é restrição de água, não sal endovenoso.

Preparar a salina a 3% trocando o diluente da receita

O dano: A receita de 150 mL de cloreto de sódio 20% completados a 1 litro só dá 3% quando o veículo não tem sódio. Feita com soro fisiológico, que já traz 154 mEq por litro, ela entrega 37,65 g de cloreto de sódio por litro, isto é, 3,77% e 644 mEq/L — 25% mais sódio em cada mililitro do que a prescrição diz. Numa infusão de 400 mL, isso é uma elevação de sódio 25% maior que a calculada, e a conta que você fez para caber no teto deixa de valer.

Como pegar a tempo: Escreva a receita inteira na prescrição, com o diluente nomeado e o volume que se retira antes: 890 mL de cloreto de sódio 0,9% mais 110 mL de cloreto de sódio 20%, ou seja, retirar 110 mL de uma bolsa de 1.000 mL e acrescentar 11 ampolas. Com água para injeção ou glicose a 5%, são 150 mL completados a 1 litro. Depois de escrever, refaça a conta em gramas: 30 g de cloreto de sódio por litro é 3%, e qualquer outro número não é.

Não retirar o volume da bolsa antes de acrescentar as ampolas

O dano: É o erro espelhado do anterior e ninguém o vê, porque a solução fica mais fraca e não mais forte. Acrescentar 110 mL a uma bolsa cheia de 1.000 mL dá 1.110 mL a 2,7%. O paciente recebe menos sódio que o calculado, o sódio não sobe como previsto, e a resposta natural do plantão é aumentar a velocidade — que é como se corrige uma diluição errada com um erro de dose.

Como pegar a tempo: Retire o mesmo volume que vai acrescentar. É a única regra de preparo que precisa ser dita, e ela vale para os três volumes deste capítulo: 11 mL em 100, 55 mL em 500 e 110 mL em 1.000.

Repor potássio com vigor e não contar isso no orçamento do sódio

O dano: Sódio e potássio ocupam o mesmo espaço osmótico. Na depleção grave de potássio, sódio entra na célula para ocupar o lugar dele; quando o potássio é reposto, o sódio volta para fora e a natremia sobe sem que uma ampola de sódio tenha sido usada. Na revisão sistemática brasileira, houve correção concomitante de hipocalemia em 18,8% dos casos de desmielinização. O caso publicado por Berl e Rastegar é a demonstração: mulher de 59 anos com sódio de 96 e potássio de 1,6 mEq/L, tratada com apenas 300 mL de salina a 0,9% e 430 mEq de cloreto de potássio em 24 horas; o sódio subiu 17 mEq/L nesse dia e a mielinólise pontina foi confirmada no oitavo.

Como pegar a tempo: Dose potássio no primeiro tubo, sempre. Havendo hipocalemia significativa, some a subida esperada do sódio ao orçamento do dia e reduza a velocidade da salina hipertônica na mesma medida — ou dispense a salina, porque em parte desses pacientes o potássio sozinho já entrega a correção do dia.

Chamar de refratária a hiponatremia de quem continua bebendo

O dano: Restrição hídrica prescrita e não cumprida é a causa mais comum de sódio parado, e ela é invisível na folha, porque a folha diz 800 mL. O que não está na folha é a garrafa na mesa, o chá da tarde, a sopa da bandeja e os 300 mL diários de diluente de antibiótico. O paciente é rotulado como refratário, escalona-se o tratamento, e a única coisa que muda é o risco.

Como pegar a tempo: Feche o balanço todo dia, contando diluição de medicamento e o que a família traz, e calibre a restrição pelo volume urinário — 500 mL abaixo da diurese das últimas 24 horas. Explique a regra à paciente e à acompanhante com um número, não com o adjetivo pouco: dois copos de 200 mL por turno é uma instrução; beber menos não é.

Prescrever dieta hipossódica para o paciente hiponatrêmico

O dano: É reflexo, e é contraproducente duas vezes. A capacidade de excretar água depende de haver soluto para carregá-la: quem come menos sal e menos proteína excreta menos osmóis e, portanto, menos água livre, o que sustenta a hiponatremia. E a restrição alimentar reduz a ingestão calórica de quem já come pouco. A demonstração extrema disso é a potomania do bebedor de cerveja, em que a carga de soluto cai a 250 mOsm por dia e a capacidade de excretar água despenca de 16 para 5 litros.

Como pegar a tempo: Reveja a dieta na primeira visita. Salvo em hipervolemia franca, o paciente hiponatrêmico come com sal e come proteína. Dieta hipossódica prescrita por hábito, sem indicação escrita ao lado, sai da folha.

Deixar a bolsa de salina hipertônica correr até acabar

O dano: É o mesmo acidente do capítulo de potássio com outra roupa. Uma bolsa de 500 mL a 3% carrega 257 mmol de sódio, e infundida por inteiro numa mulher de 56 quilos sobe o sódio 7,7 mmol/L — o teto de 24 horas inteiro do paciente de risco habitual em uma única bolsa, e mais do que o teto de quem tem risco alto. Prescrita a 11 mL por hora, ela levaria mais de 40 horas para acabar; correndo em 6, entrega quase o dobro do teto do dia numa manhã.

Como pegar a tempo: Bomba de infusão, sempre, e volume total autorizado escrito ao lado da velocidade. Prescreva o volume que cabe no teto e não o volume da bolsa. E instrua a enfermagem a chamar quando o volume programado terminar, em vez de deixar a bolsa até esvaziar.

Ver o sódio subir sozinho e comemorar

O dano: É o erro do seu Manoel, e é o mais fácil de cometer porque parece uma boa notícia. Sódio que sobe sem prescrição, com diurese alta e urina clara, é aquarese: o rim está removendo água livre porque a causa foi retirada, e ele não tem freio nem teto. A elevação de 14 mmol/L em 18 horas dele ultrapassou em 6 o limite, e nada no exame físico ou no monitor avisou.

Como pegar a tempo: No paciente que vai autocorrigir — hipovolêmico que recebe volume, tiazídico suspenso, hormônio reposto, potomania que volta a comer —, prescreva sódio de 4 em 4 horas desde a primeira hora e débito urinário por turno. E quando o teto for ultrapassado, trate isso como o que é: uma complicação que tem conduta específica, com desmopressina e água livre, e não um resultado a ser observado.

Corrigir sódio na hiponatremia que não é hipotônica

O dano: Na hiperglicemia grave e no uso de manitol, a água sai da célula e dilui o sódio de verdade; o sódio medido é baixo, o corrigido é normal, e o paciente não tem excesso de água nenhum. Na hiperproteinemia e na hipertrigliceridemia grave, o número é um artefato do método. Nos três casos, dar sódio é adicionar soluto a quem já tem osmolaridade alta ou normal, e na hiperglicemia isso agrava a hiperosmolaridade.

Como pegar a tempo: Glicemia em todo sódio baixo, sem exceção, e correção pelo fator antes de classificar. Proteínas totais e frações e perfil lipídico quando não houver causa aparente. E lembre da direção contrária: quando a glicemia for tratada, o sódio medido sobe sozinho — o que é mais uma variante da correção que anda sem prescrição.

Atribuir a sonolência do idoso à idade, à infecção ou ao ambiente

O dano: É o erro que atrasa o diagnóstico em dias e chega ao valor extremo. Os sintomas da hiponatremia são inespecíficos por natureza — letargia, desorientação, cansaço, náusea — e competem com dez explicações mais confortáveis no paciente internado. Enquanto isso, a causa está na folha e continua agindo. Foi assim que o sódio de dona Aurora saiu de 132 para 108 em seis dias com todo mundo passando visita nela.

Como pegar a tempo: Sódio entra no painel de todo paciente internado que muda de estado mental, junto de glicemia — os dois exames mais baratos do diferencial. E, na direção preventiva, todo paciente em uso de tiazídico, de antidepressivo ou de solução hipotônica tem sódio dosado periodicamente durante a internação, mesmo estando bem.

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O que dizer ao paciente e à família

Hiponatremia é difícil de explicar por três motivos. O primeiro é que o paciente costuma não sentir nada, ou sentir algo que ele atribui a outra coisa. O segundo é que a conversa central deste capítulo não é sobre dar remédio, é sobre não dar depressa — e ninguém entende intuitivamente por que uma coisa que está errada não é consertada logo. O terceiro é que, com frequência, a causa foi um remédio que a equipe manteve, e essa parte precisa ser dita sem esconder e sem acusar ninguém.

Explicar por que se trata algo que a paciente não sente

A senhora está melhor da pneumonia, e isso é verdade. O que apareceu no exame de hoje foi outra coisa: um sal do sangue, o sódio, que ficou muito baixo. Ele é o sal que segura a água no lugar certo do corpo, e quando cai demais a água entra no cérebro e deixa a pessoa mais lenta, enjoada, confusa. Aquele atraso que a sua filha notou ontem provavelmente é isso. Vamos corrigir devagar, com um soro na veia, e repetir o exame de quatro em quatro horas.

Não diga: Dizer 'o sódio está baixinho'. O diminutivo autoriza o paciente e a família a tratarem como detalhe, e a partir daí a restrição de líquido não é cumprida. E evitar o oposto — falar em risco de morte — com quem está estável: o susto não muda o que ela precisa fazer e atrapalha o sono de todo mundo.

Explicar por que não se corrige rápido

A pergunta é boa, e a resposta é o motivo de a gente estar sendo tão devagar. O corpo da senhora levou dias para chegar nesse sódio, e o cérebro se acostumou. Se eu subir o sal rápido demais agora, o cérebro não acompanha, e aí acontece uma lesão nos nervos que não tem volta — dias depois, quando o exame já estiver normal, a pessoa pode ficar sem conseguir falar direito ou engolir. Por isso eu escrevi na sua prescrição um número máximo para amanhã de manhã. Subir devagar não é falta de pressa: é o tratamento.

Não diga: Prometer que a correção lenta garante que nada vai acontecer. A complicação é rara e pode ocorrer mesmo com correção dentro do limite; o que se pode prometer é o cuidado, não o desfecho.

Explicar a restrição de líquido a quem tem sede, e à família que traz água

Vou pedir uma coisa difícil: a senhora só pode beber 800 mililitros por dia, tudo somado — água, chá, café, o caldo da sopa, o suquinho. São dois copos de 200 mililitros de manhã e dois à tarde, e nada durante a noite. Sei que dá sede. A boca seca melhora com gelo picado, com bochecho e com o algodão umedecido que a enfermagem traz. Beber mais parece cuidado, mas aqui é o contrário: é a água a mais que está diluindo o sal.

Não diga: Dizer 'beba pouca água'. Sem número, cada pessoa entende uma coisa, e a família com boa intenção enche a garrafa. E não deixe a garrafa de dois litros na mesa de cabeceira: instrução escrita não vence objeto ao alcance da mão.

Dizer que a causa foi um remédio que a equipe manteve

Parte do que aconteceu foi o remédio da pressão que a senhora toma em casa, o que faz urinar. Ele não estava errado: é um bom remédio, e a senhora tomava há anos. Só que ele faz o rim perder sal, e quando a senhora adoeceu, parou de comer direito e recebeu soro, a conta virou. Suspendi hoje de manhã. Vou deixar escrito no papel da alta que a senhora fez isso com esse remédio, para o médico do posto trocar por outro e não recomeçar o mesmo.

Não diga: Dizer 'deram o remédio errado' ou 'alguém errou'. Não houve erro: houve uma medicação continuada sem revisão num contexto que mudou. E não omitir: se isso não for para o resumo de alta, a mesma receita volta e o ciclo recomeça.

Falar com a enfermagem, que aqui é conversa clínica e não recado

Essa bolsa é manipulada, não vem pronta: são 445 mililitros de soro fisiológico com 55 mililitros de cloreto de sódio a 20%, cinco ampolas e meia. Retire os 55 antes de acrescentar, senão a concentração muda. Precisa correr em bomba, a 11 mililitros por hora, e o total autorizado hoje é 264 mililitros — quando chegar nesse volume, me chame em vez de deixar a bolsa acabar. E tem uma coisa que eu preciso saber na hora: se ela começar a urinar muito, mais de 100 mililitros por hora, com urina clara como água, me chame mesmo de madrugada.

Não diga: Passar o volume total só verbalmente, ou escrever apenas a velocidade. O que não está na prescrição não sobrevive à troca de turno, e o alarme de diurese só existe se alguém tiver sido instruído a dá-lo.

Explicar à família que a correção foi rápida demais e que existe uma janela para agir

O exame do seu pai melhorou mais depressa do que a gente queria — o sal subiu 14 pontos numa noite, e o limite seguro era 8. Isso aconteceu porque, depois que ele recebeu soro e melhorou do vômito, o rim dele voltou a funcionar de uma vez e eliminou muita água. Não foi um remédio a mais, foi o corpo dele. Subir depressa demais tem um risco para o cérebro que aparece só daqui a alguns dias, e existe uma coisa que a gente pode fazer agora para diminuir esse risco: baixar o sal de volta, devagar, com soro e um medicamento que segura a urina. Vou pedir a avaliação do nefrologista e ele vai para um leito com mais monitorização.

Não diga: Esconder que o limite foi ultrapassado, ou apresentar a redução como rotina. A família vai ver o paciente ser transferido e receber exames de hora em hora; ou você explica, ou alguém explica pior. E não prometer que a redução elimina o risco: ela reduz.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Qual o teto de elevação do sódio em 24 horas

Oito milimoles por litro, e seis em quem tem risco de desmielinização

A revisão sistemática brasileira que reuniu 96 casos publicados de desmielinização osmótica encontrou correção abaixo de 10 mEq/L no primeiro dia em 10,4% deles, e conclui expressamente que o limite de 10 da diretriz de 2014 não é suficientemente protetor, recomendando alvos mais estreitos. O editorial que acompanha a coorte brasileira de 2026 vai na mesma direção: as diretrizes atuais trabalham com cerca de 6 a 8 mmol/L em 24 horas, e a natureza catastrófica e irreversível da complicação justifica manter o limite conservador enquanto não houver ensaio randomizado. A recomendação norte-americana já usa 8 mmol/L como teto para o grupo de risco. O argumento é de margem: o teto precisa comportar o que ninguém prescreveu — a aquarese que a remoção da causa desencadeia e a subida que a reposição de potássio produz.

Bastos AP e Rocha PN, Brazilian Journal of Nephrology, 2024;46(1):47-55; Gomes CP, editorial, Brazilian Journal of Nephrology, 2026;48(1):e2026E005

Dez milimoles por litro, e até doze no paciente sem risco

O protocolo de hiponatremia do HC-UFMG estabelece alvo de 4 a 8 mmol/L por dia e limites de 10 mmol/L em 24 horas e 18 em 48, reservando os 8 para quem tem risco de desmielinização; o protocolo de nefrologia do Hospital Geral Eduardo Campos usa 10 mmol/L; o guia farmacêutico do Hospital Sírio-Libanês usa 12. A coorte brasileira de 362 pacientes com sódio igual ou abaixo de 120 mmol/L dá sustentação empírica ao lado mais permissivo: 38,7% ultrapassaram 8 mmol/L em 24 horas, houve um único caso de desmielinização em 362 pacientes, e os supercorrigidos tiveram mortalidade hospitalar de 16,4% contra 32,4% dos demais e internação dois dias mais curta. O argumento é de proporção: um teto muito apertado tratado como regra rígida atrasa a correção de quem está sintomático, e a complicação que ele evita tem frequência de 0,28%.

Protocolo assistencial nº 297, HC-UFMG/Ebserh, 2021; Protocolo Distúrbios do Sódio, Hospital Geral Eduardo Campos, 2020; Guia Farmacêutico do Hospital Sírio-Libanês, 2025; Reis LAC e cols., Brazilian Journal of Nephrology, 2026;48(1):e20250161

Como decidir

Decida pelo que acontece se você errar para cada lado, e pela qualidade da evidência de cada um. Errar para baixo custa horas de sódio baixo num paciente que já convivia com ele — reversível, e frequentemente sem consequência alguma. Errar para cima custa uma lesão neurológica sem tratamento, num paciente que ia melhorar. A associação entre supercorreção e menor mortalidade da coorte brasileira é observacional, e os próprios autores registram que ela pode refletir confundimento por indicação: quem corrige devagar costuma ser o paciente mais grave, séptico, oncológico, em cuidados de fim de vida — e das 95 mortes dessa coorte, sepse respondeu por 55,8% e apenas 5 foram consideradas possivelmente ligadas à hiponatremia. Isso não é evidência de que correr mais rápido salva; é evidência de que o paciente que se autocorrige está menos doente. Fique em 8 mmol/L em 24 horas para todos e em 6 em quem tem sódio abaixo de 105, hipocalemia, alcoolismo, desnutrição ou doença hepática avançada. O único cenário em que a régua sobe é o sintoma neurológico grave, e mesmo nele o que se ganha são 4 a 6 mmol/L na primeira hora — que cabem dentro do teto do dia.

Bolus de salina hipertônica ou infusão contínua calculada por fórmula

Bolus fixo e pequeno, repetido conforme a resposta

O protocolo do HC-UFMG prescreve, para hiponatremia com sintomas graves, 100 mL de salina a 3% em bolus a cada 10 minutos, até três doses, com o objetivo de reverter o sintoma. A recomendação norte-americana usa o mesmo volume de 100 mL e a europeia usa 150 mL. O ensaio randomizado SALSA comparou bolus intermitente rápido de 2 mL/kg com infusão contínua lenta em 178 pacientes e não encontrou diferença de supercorreção — 17,2% contra 24,2% —, mas encontrou menos necessidade de terapia de redução do sódio no braço de bolus, 41,4% contra 57,1%, e mais pacientes atingindo a meta na primeira hora, 32,2% contra 17,6%. O argumento é de controle: volume pequeno e fixo, com reavaliação entre as doses, não deixa a correção acontecer enquanto ninguém está olhando.

Protocolo assistencial nº 297, HC-UFMG/Ebserh, 2021; Baek SH e Kim S, Kidney Research and Clinical Practice, 2020;39(4):504-506; Sumi H e cols., Clinical and Experimental Nephrology, 2025;29(3):249-258

Infusão contínua com a velocidade calculada pela fórmula

O mesmo protocolo do HC-UFMG, para sintomas leves a moderados, prescreve infusão contínua de salina a 3% a 0,5 a 2,0 mL/kg/h, e a revisão brasileira detalha a faixa: 0,5 mL/kg/h no assintomático, 1,0 a 2,0 no sintomático e 2,0 a 4,0 por uma a duas horas em quem convulsiona, com a fórmula de Adrogué-Madias servindo para calcular o volume que corresponde à meta do dia. O argumento é de precisão e de dose: o bolus entrega um degrau que não é ajustável — em paciente pequeno e muito hiponatrêmico, 100 mL podem subir 1,5 mmol/L e três doses consomem mais da metade do teto —, enquanto a infusão permite ajustar a velocidade a cada recontrole e distribuir a correção pelas 24 horas.

Protocolo assistencial nº 297, HC-UFMG/Ebserh, 2021; Rocha PN, Jornal Brasileiro de Nefrologia, 2011;33(2):248-260

Como decidir

Bolus e infusão contínua são estratégias que dependem dos sintomas e da trajetória, não etapas obrigatórias para todos. Sintomas graves exigem hipertônica prontamente; sintomas moderados também podem justificar bolus limitado. Reavaliar após cada dose e interromper quando houver resposta suficiente; infusão contínua posterior não é automática. Ambas exigem controle de Na e diurese, equipe e capacidade de intervir na sobrecorreção. Um bolus terminar sozinho não substitui monitorização nem torna seguro tratar sem estrutura.

Desmopressina depois da supercorreção, ou desde o começo

Reativa: desmopressina só quando o teto for ultrapassado

O protocolo do HC-UFMG usa a desmopressina dentro da abordagem da correção excessiva, ao lado da reposição de água livre e do glicocorticoide, e só em quem partiu de sódio abaixo de 120 mmol/L — acima disso, a intervenção é considerada provavelmente desnecessária. A revisão internacional descreve a mesma estratégia reativa como padrão: interrompe-se a correção ao atingir a meta, repõe-se com glicose a 5% o volume urinário hora a hora, e a desmopressina entra quando a aquarese é acentuada. O argumento é de dano evitável: desmopressina bloqueia a excreção de água, e bloqueá-la em quem não estava supercorrigindo cria hiponatremia iatrogênica, além de exigir controle de hora em hora que muitos serviços não conseguem sustentar.

Protocolo assistencial nº 297, HC-UFMG/Ebserh, 2021; Sumi H e cols., Clinical and Experimental Nephrology, 2025;29(3):249-258

Proativa: desmopressina junto com a salina, no paciente de alto risco de aquarese

A revisão brasileira descreve a estratégia de iniciar desmopressina de seis em seis ou de oito em oito horas preventivamente, junto com restrição hídrica e salina a 3%, quando o risco de correção inadvertidamente rápida for muito alto — o exemplo dado é o da hiponatremia grave induzida por droga em paciente hipovolêmico, em que suspender a droga e corrigir a volemia causa aquarese maciça. A revisão internacional nomeia a mesma abordagem e a atribui à escola de Sterns. O argumento é de previsibilidade: com a aquarese desligada de propósito, o sódio sobe apenas o que foi infundido, e a fórmula de Adrogué-Madias volta a ser confiável — trocar uma variável incontrolável por uma variável que você prescreve.

Rocha PN, Jornal Brasileiro de Nefrologia, 2011;33(2):248-260; Sumi H e cols., Clinical and Experimental Nephrology, 2025;29(3):249-258

Como decidir

A variável que decide é a probabilidade de aquarese, e ela se lê na causa. Se a causa da hiponatremia não vai desaparecer no dia — secreção inapropriada paraneoplásica, cirrose, insuficiência cardíaca —, o hormônio antidiurético continuará alto, não haverá aquarese, e a desmopressina preventiva não tem função. Se a causa vai ser removida hoje — hipovolemia que será reposta, tiazídico que será suspenso, corticoide ou hormônio tireoidiano que será reposto, potomania que voltará a comer —, a aquarese é o desfecho esperado e não a exceção. Aí a escolha depende do que você tem: em enfermaria comum, sem sódio de hora em hora, o caminho seguro é não usar desmopressina e ir devagar em tudo, repondo volume a 0,5 a 1,0 mL/kg/h, com sódio de 4 em 4 horas e débito urinário vigiado. A estratégia proativa é boa e é de serviço com nefrologia à mão, coleta frequente e alguém responsável pela conta em cada plantão. Prescrever desmopressina e não conseguir dosar sódio de hora em hora é trocar um risco por outro.

Restrição hídrica: número fixo ou calibrada pela diurese, e quando desistir dela

Número fixo, simples de escrever e de cobrar

O protocolo do HC-UFMG coloca a restrição hídrica como tratamento de primeira linha da hiponatremia euvolêmica moderada a grave e da hipervolêmica leve a moderada; o protocolo de nefrologia do Hospital Geral Eduardo Campos escreve o número: 800 mL por dia nos estados edematosos, com heparinização do acesso periférico e hidratação endovenosa restrita à diluição de medicamentos. O argumento é de execução: número fixo é auditável na beira do leito, cabe numa frase para o paciente e para a família, e não depende de o balanço da véspera ter sido fechado corretamente — o que, na enfermaria real, muitas vezes não foi.

Protocolo assistencial nº 297, HC-UFMG/Ebserh, 2021; Protocolo Distúrbios do Sódio, Hospital Geral Eduardo Campos, 2020

Calibrada pela diurese, com critérios explícitos de falha

A revisão internacional recomenda restringir 500 mL abaixo do volume urinário das 24 horas anteriores e registra o tamanho real do efeito: em ensaio randomizado, a restrição hídrica isolada elevou o sódio numa mediana de apenas 4 mmol/L. Os preditores de falha são objetivos — osmolaridade urinária acima de 500 mOsm/kg, soma de sódio e potássio urinários maior que o sódio sérico, e diurese abaixo de 1.500 mL por dia. O argumento é de aritmética: restringir 800 mL em quem urina 2.500 não restringe nada, e restringir 800 mL em quem urina 700 desidrata; e insistir por dias numa medida que os três preditores já diziam que ia falhar atrasa o tratamento que funcionaria.

Sumi H, Tominaga N, Fujita Y, Verbalis JG e cols., Clinical and Experimental Nephrology, 2025;29(3):249-258

Como decidir

Comece pelo número fixo, porque ele é o que a enfermaria consegue executar no primeiro dia, e converta para a régua calibrada assim que houver um balanço de 24 horas fechado. A decisão que realmente importa não é 800 contra a diurese menos 500: é quando parar de insistir. Colha osmolaridade urinária e sódio e potássio urinários antes de começar, e se a osmolaridade passar de 500 mOsm/kg, ou a soma dos dois cátions urinários for maior que o sódio sérico, saiba desde o primeiro dia que a restrição isolada tem chance alta de falhar — e combine com o assistente, já, qual é o próximo degrau. Em paciente que não tolera restrição, ou que não tem quem a faça cumprir em casa, ela não é primeira linha coisa nenhuma: é uma prescrição que não vai acontecer.

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O raciocínio, em voz alta

Homem de 62 anos, 68 quilos, internado há dois dias para investigação de massa pulmonar com adenopatia mediastinal; a biópsia saiu ontem e é carcinoma de pequenas células. Fumante de 40 maços-ano, sem outras doenças, sem medicação de uso contínuo. A filha conta que ele está 'devagar' há umas três semanas, esquecido, e que caiu duas vezes em casa. Sódio de 118 mmol/L, potássio 4,2, ureia 22 mg/dL, creatinina 0,8 mg/dL, glicemia 96 mg/dL, proteínas totais e lipidograma normais. Ao exame: acordado, orientado no tempo com dificuldade, marcha insegura; pressão 124 por 78 mmHg sem variação postural, frequência cardíaca 76 bpm, mucosas úmidas, sem edema, jugulares planas, ausculta pulmonar sem estertores. Diurese de 1.400 mL nas últimas 24 horas. Osmolaridade urinária 520 mOsm/L, sódio urinário 62 mmol/L.

  1. O que penso agora

    Na 118 com glicemia, proteínas e lipídios sem explicação alternativa favorece hiponatremia hipotônica; confirmar osmolalidade conforme disponibilidade, sem atrasar cuidado necessário. Lentificação, esquecimento e marcha insegura exigem avaliar a contribuição do sódio e outras causas. Não há crise ou rebaixamento profundo, mas sintomas moderados podem justificar um bolus limitado, conforme julgamento e protocolo. A história de semanas sugere cronicidade e exige planejamento conservador e monitorização da correção; ausência de convulsão não garante horas de espera segura.

  2. A volemia, que é onde a decisão se resolve

    Não há hipotensão postural, taquicardia, mucosa seca nem história de perda; não há edema, ascite, estertor nem turgência jugular. Ele é euvolêmico. Isso já exclui as duas condutas que eu poderia estar tentado a tomar: não vou expandir com soro fisiológico, porque ele não está seco, e não vou prescrever furosemida, porque ele não está congesto. A conduta do euvolêmico é restrição de água e retirada da causa.

  3. O par urinário, que fecha a etiologia sem exame novo

    Osmolaridade urinária de 520 mOsm/L diz que há hormônio antidiurético agindo: o rim está concentrando quando deveria estar diluindo ao máximo. Sódio urinário de 62 mmol/L diz que o rim não está segurando sal — ele não se vê hipovolêmico. Euvolemia, urina concentrada e sódio urinário alto, com funções renal, tireoidiana e adrenal a conferir, com ureia baixa em 22 mg/dL e sem diurético na folha: é secreção inapropriada de hormônio antidiurético. A causa está no laudo da biópsia de ontem. Carcinoma de pequenas células é a neoplasia clássica dessa síndrome paraneoplásica.

  4. Por que eu não vou pendurar soro fisiológico, e a conta disso

    Esta é a parte contraintuitiva. Um litro de soro fisiológico carrega 308 mOsm de solutos. Com urina a 520 mOsm/L, ele elimina esses 308 mOsm em cerca de 590 mL de urina — e fica com os outros 410 mL de água livre no corpo. A conta é direta: água corporal total de 40,8 litros em 68 quilos, sódio de 118, e 410 mL de água retida derrubam a natremia em cerca de 1 mmol/L. Ou seja, o soro que parece a coisa mais segura do mundo piora este paciente. A régua não é o rótulo isotônico: é a osmolaridade da solução comparada à da urina dele.

  5. Qual é o teto deste paciente, e ele se escreve antes da prescrição

    Ele não tem sódio abaixo de 105, não tem hipocalemia, não bebe, não é desnutrido, não tem hepatopatia. Está no grupo de risco habitual, e o teto é 8 mmol/L em 24 horas, com alvo de 4 a 6. Partindo de 118, escrevo no alto da folha: alvo de 122 a 124 mmol/L amanhã de manhã, não ultrapassar 126. E a conta da bolsa: água corporal total de 40,8 litros, então cada litro de salina a 3% sobe o sódio dele 513 menos 118, dividido por 41,8, igual a 9,5 mmol/L. Para subir 6, preciso de 635 mL em 24 horas, ou 26 mL por hora.

  6. O que prescrevo, e por que a restrição sozinha não basta aqui

    Restrição hídrica de 900 mL por dia, que é 500 abaixo da diurese dele, com dieta com sal e com proteína. Só que a osmolaridade urinária dele é 520 mOsm/kg, acima do corte de 500 que prediz falha da restrição isolada, e ele está sintomático — então não vou passar três dias esperando. Prescrevo, em paralelo, salina a 3% preparada com 445 mL de cloreto de sódio 0,9% mais 55 mL de cloreto de sódio 20%, em bomba, a 26 mL por hora, com volume total autorizado de 635 mL nas primeiras 24 horas, e sódio de 4 em 4 horas. Furosemida em dose baixa é opção descrita para acelerar a correção na secreção inapropriada, porque ela reduz a capacidade de concentrar a urina; deixo para o segundo dia, se o sódio não responder, e discuto com o assistente.

  7. O que eu não preciso temer neste paciente, e o que substituo por isso

    Ele é o paciente que menos autocorrige de todos. Como o tumor continua produzindo hormônio antidiurético, a urina permanece concentrada e fixa, não há aquarese à espreita, e a fórmula de Adrogué-Madias vale melhor aqui do que em qualquer outro cenário deste capítulo — a coorte brasileira encontrou o diagnóstico de câncer como fator protetor contra a supercorreção justamente por isso. O que eu troco por essa preocupação é outra: a restrição hídrica de 900 mL por dia é uma prescrição que precisa ser executada, e eu vou cobrar o balanço fechado todo dia, contando diluição de medicamento e o que a família traz.

  8. O que espero, e quando

    Sódio de 119 a 120 mmol/L na quarta hora, 121 na oitava, 123 a 124 amanhã de manhã; melhora da lentificação antes de o número normalizar. Se o sódio passar de 124 antes das 24 horas, paro a infusão e não recomeço até o dia seguinte. Se ele estabilizar em torno de 128 a 130 e a causa não puder ser tratada, a conversa muda de assunto e passa a ser a doença de base: o manejo do sódio no paciente oncológico avançado, e a decisão de até onde investigar e corrigir, é do capítulo de cuidados paliativos desta apostila.

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Faça você

Homem de 48 anos, 62 quilos, trazido pela irmã ao pronto-socorro por confusão e queda em casa. Bebe destilado diariamente há vinte anos e comeu pouco na última semana. Está em uso de hidroclorotiazida 25 mg ao dia, prescrita há dois meses por hipertensão, e vomitou várias vezes nos últimos três dias. Ao exame: sonolento, desperta ao chamado, orientado apenas parcialmente, sem déficit focal e sem crise convulsiva; pressão 96 por 62 mmHg deitado e 82 por 54 mmHg sentado, frequência cardíaca 108 bpm, mucosas secas, sem edema. Exames: sódio 104 mmol/L, potássio 2,6 mmol/L, magnésio 1,4 mg/dL, cloro 72 mmol/L, ureia 48 mg/dL, creatinina 1,3 mg/dL, glicemia 88 mg/dL, albumina 2,8 g/dL, gasometria com pH 7,49 e bicarbonato 34 mEq/L. Osmolaridade urinária 480 mOsm/L, sódio urinário 12 mmol/L. Não há dosagem de sódio anterior em nenhum serviço.

  1. achado

    Na 104 mmol/L sem valor prévio deve ser manejado como duração desconhecida, com alto risco de sobrecorreção. Sonolência e confusão exigem avaliação urgente e podem justificar bolus limitado de hipertônica; ausência de crise não elimina essa possibilidade. Taquicardia, mucosas secas, vômitos e Na urinário baixo favorecem depleção de volume. A queda sistólica de 14 mmHg deitado-sentado não preenche, isoladamente, o critério habitual de hipotensão ortostática nem usa a técnica padronizada.

  2. raciocínio

    Na ≤105, hipocalemia e uso crônico de álcool já caracterizam alto risco de desmielinização; baixa ingestão sugere risco nutricional, mas albumina 2,8 isoladamente não confirma desnutrição. Corrigir hipovolemia, retirar tiazídico e repor K pode elevar Na rapidamente, sobretudo se surgir aquarese. Acompanhar todo ganho em janelas móveis de 24 horas, incluindo o causado por tratamento de K e volume.

  3. conduta

    — sua vez —

Ver como fecharíamos

Este paciente precisa de cuidado monitorizado e avaliação imediata pelo responsável, com apoio de equipe experiente em distúrbios do sódio. O alvo conservador inicial é elevação de cerca de 4 mmol/L, com limite operacional de 6 em qualquer período de 24 horas neste capítulo; a referência internacional frequentemente citada para alto risco admite máximo de 8, que não deve ser tratado como meta. Partindo de 104, planejar aproximadamente 108 e intervir antes de ultrapassar 110, considerando toda a correção já ocorrida e incerteza analítica. Avaliar se sonolência/confusão decorrem da hiponatremia e excluir hipoglicemia, intoxicação, trauma e outras causas. Sintomas moderados podem justificar um bolus limitado de NaCl 3%, por exemplo 150 mL em 20 minutos conforme diretriz europeia, com reavaliação imediata e Na após a dose. Sintoma grave exige tratamento prontamente; não esperar crise nem administrar três bolus automaticamente. Após pequena melhora do Na e dos sintomas, a prioridade passa a controlar a trajetória. A depleção de volume também precisa de tratamento. Se houver choque/hipoperfusão, restaurar circulação com cristaloide isotônico em alíquotas e reavaliação, sem manter 31 mL/h apenas por receio do sódio. Se perfusão estiver preservada, a reposição pode ser mais lenta e individualizada. Antecipar aquarese quando o estímulo de ADH desaparecer: a fórmula estática pode subestimar muito a elevação real. Suspender hidroclorotiazida e evitar reexposição. Repor K e Mg com avaliação renal, ECG, via e controle seriado; corrigir K também contribui para elevar Na, devendo entrar no limite total. Tiamina deve ser administrada prontamente pelo risco associado ao álcool e à baixa ingestão; glicose urgente não deve ser atrasada para esperar tiamina se surgir hipoglicemia. Medir diurese de hora em hora e Na inicialmente a cada duas horas, ajustando depois à estabilidade. Aumento súbito da diurese pede controle imediato da trajetória e revisão das soluções/restrição. Discutir precocemente desmopressina preventiva ou reativa com especialista; não é prescrição automática sem capacidade de monitorar. Se houver sobrecorreção relevante ou sua iminência, parar a terapia que a favorece e iniciar resgate supervisionado. Desmopressina, por exemplo 2 microgramas IV ou SC conforme protocolo, e glicose 5% podem controlar aquarese e reduzir Na. A velocidade de 3 mL/kg/h corresponde a 186 mL/h neste paciente, mas é apenas referência inicial a titular: controlar Na a cada 1–2 horas, diurese e balanço, definir quanto reduzir e quando parar. Não infundir até um número sem reavaliar a trajetória e o risco de voltar a cair excessivamente.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Na hiponatremia que dura mais de 48 horas, o neurônio expulsa sais e depois osmólitos orgânicos para não inchar, e recupera o volume normal com o interior diluído. Se a osmolaridade de fora sobe depressa, a água sai da célula adaptada e ela murcha, produzindo desmielinização da ponte e de áreas extrapontinas. O quadro é tardio, aparece de dois a seis dias após a correção, com disartria, disfagia, tetraparesia espástica e labilidade emocional, e não tem tratamento específico. Edema cerebral é o risco da hiponatremia em si, não da correção; a perda de capacidade de concentração e a sobrecarga volêmica não descrevem o mecanismo da complicação temida.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Explique a diferença entre pseudohiponatremia e hiponatremia hipertônica. Calcule a solução a 3% e descreva por que a conta não prevê toda a resposta.

Em 30 dias

Reavalie um paciente cujo Na subiu 14 mmol/L após reposição volêmica: reconheça aquarese, proponha monitorização e discuta desmopressina/água livre com a equipe.

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Agora atenda

Sete e dez da manhã, enfermaria de clínica médica. Senhora de 74 anos, 56 quilos, sexto dia de internação por pneumonia adquirida na comunidade e já sem oxigênio. A folha da noite traz sódio de 108 mmol/L, que era 132 na admissão, e potássio de 2,9. Ela está lentificada, enjoada, sem crise convulsiva e sem déficit focal; mucosas úmidas, sem edema, jugulares planas. Na prescrição, copiada da receita de casa e nunca revista, estão hidroclorotiazida e sertralina, e há uma linha de soro glicosado a 5% correndo como hidratação. Você é o interno da visita: classifique a volemia e o tempo de instalação, decida se há indicação de bolus, calcule o teto de 24 horas antes de escolher a solução, escreva a prescrição da salina a 3% com preparo, velocidade e volume total autorizado, marque os horários do recontrole, e explique à paciente por que a correção vai ser lenta de propósito.

Distúrbios do sódio no internado – Hiponatremia na enfermaria — Internato | OsceLabs