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A abstinência que não pode esperar
Transtornos por uso de álcool e síndrome de abstinência
Dois pacientes no mesmo capítulo: o que está internado por outra coisa e começa a tremer no segundo dia, e o que senta na sua frente na unidade básica sem queixa nenhuma. Como prever a abstinência antes de ela começar, por que a tiamina vem antes da glicose, e o que a alta pode prometer e o que ela não pode, num país que não tem protocolo federal para isto.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024 [recurso eletrônico]. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 252 p. (1ª edição, versão eletrônica). Estabelecida pela Portaria GM/MS n.º 6.324, de 26 de dezembro de 2024.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente; Secretaria de Atenção Primária à Saúde; Secretaria de Atenção Especializada à Saúde. Nota Técnica Conjunta n.º 263/2024-SVSA/SAPS/SAES/MS. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. Processo SEI 25000.195776/2024-13, documento SEI n.º 0045203457.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica; Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Saúde mental. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. 176 p. (Cadernos de Atenção Básica, n. 34). ISBN 978-85-334-2019-9.
Laranjeira R, Nicastri S, Jerônimo C, Marques AC, et al. Consenso sobre a Síndrome de Abstinência do Álcool (SAA) e o seu tratamento. Revista Brasileira de Psiquiatria. 2000;22(2):62-71. DOI 10.1590/S1516-44462000000200006. Associação Brasileira de Psiquiatria, Departamento de Dependência Química.
Associação Médica Brasileira; Associação Brasileira de Psiquiatria; Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade. Projeto Diretrizes: Abuso e Dependência de Álcool. Participantes: Campana AAM, Zaleski M, Ramos SP, Duailibi SM, Stein AT, Zago-Gomes MP, Marques ACPR, Ribeiro M, Laranjeira RR, Andrada NC. Elaboração final: 31 de março de 2012.
Pharlab Indústria Farmacêutica S.A. Diazepam comprimido 10 mg: bula profissional (medicamento genérico, Lei n.º 9.787, de 1999).
Janssen-Cilag Farmacêutica Ltda. Haldol decanoato (decanoato de haloperidol) solução injetável 50 mg/mL: bula. E Fresenius Kabi Brasil Ltda. Haloperidol solução injetável 5 mg/mL: bula profissional (medicamento genérico).
Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde. Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas — PCDT: lista oficial. Ministério da Saúde. Consultada em 6 de setembro de 2026.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Linha de Cuidado dos Transtornos por uso de álcool no adulto. Portal Linhas de Cuidado.
ASAM 2020 — manejo da abstinência alcoólica
FDA — advertência sobre abstinência de benzodiazepínicos
Prefeitura de São Paulo — elenco local, emergência e dispensação
Ministério da Saúde — Rename 2024, financiamento, p. 17 (cópia oficial municipal)
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Enfermaria de clínica médica, 4h10. Homem de 54 anos, 68 kg, internado há dois dias por celulite de perna direita, em antibiótico, afebril desde a véspera e com o eritema em regressão. É chamado por tremor e insônia. Está orientado, ansioso, sudoreico em quarto não aquecido, com tremor postural de mãos. Frequência cardíaca 118, pressão arterial 162 por 98, temperatura axilar 37,2 °C, glicemia capilar 96 mg/dL. A folha mostra frequência cardíaca de 90 para 118 em doze horas e pressão em ascensão desde a tarde anterior. A bandeja do jantar está intacta. No campo de hábitos da admissão consta "nega etilismo". Qual é a conduta mais adequada neste momento?
O paciente que você vai ver
Quatro e dez de uma madrugada de quarta, ala de dezoito leitos num hospital municipal que atende três cidades. O residente desceu para a sala vermelha faz quarenta minutos, e a enfermaria ficou com você. Quem chama do posto é a técnica, e o recado cabe em nove palavras: o do 11 não dorme e está tremendo muito.
O leito 11 é do senhor Adauto Calmon, 54 anos, 68 quilos, açougueiro de um mercado municipal. Entrou anteontem à noite pelo pronto-socorro com celulite extensa em perna direita e febre, e está no segundo dia de antibiótico. A perna melhorou: o eritema recuou da marca que alguém desenhou a caneta e ele ficou sem febre desde ontem de manhã. A internação, do ponto de vista do problema que a motivou, está indo bem.
Você entra no quarto e o encontra sentado na borda do leito, os pés alcançando o chão e as duas mãos firmadas no colchão, como quem se apoia. Está encharcado de suor num quarto que não está quente. As mãos tremem, e tremem mais quando ele as levanta para pegar o copo. Está acordado, sabe onde está, sabe que dia é, responde ao que se pergunta — mas responde depressa demais e olha duas vezes para a porta durante a conversa. A frequência cardíaca é 118, a pressão é 162 por 98, a temperatura axilar é 37,2. A glicemia capilar, que a técnica já colheu, é 96.
Sobre o criado-mudo há uma bandeja de jantar intacta. A folha de sinais vitais mostra que a pressão vem subindo desde ontem à tarde e que a frequência cardíaca passou de 90 para 118 em doze horas. Na admissão, no campo de hábitos, está escrito o que se escreve quase sempre: nega tabagismo, nega etilismo.
Essa última linha é a que interessa. Ela pode estar certa, e nesse caso o tremor tem outra explicação, e há várias. Mas ela também pode ser o resultado de uma pergunta que nunca foi feita — ou que foi feita de um jeito que só admite uma resposta. O senhor Adauto não bebe desde a noite de segunda-feira, quando a perna doía demais para ele descer até o bar. Isso são cerca de trinta e duas horas, e ninguém no hospital sabe disso, porque ninguém perguntou quando foi a última vez e quanto.
Duas ruas adiante, na unidade básica que atende esse mesmo bairro, a agenda da manhã tem dezesseis nomes. O sétimo é o de Marluce Escorel, 41 anos, auxiliar de costura numa confecção, que vem buscar o resultado de exames pedidos pela enfermeira. Ela não tem queixa. Está bem. Vai sair da consulta em nove minutos com a receita renovada, e a única coisa que decide se este capítulo alcança ou não a vida dela é se, em algum momento desses nove minutos, alguém pergunta com quantas doses ela bebe num dia comum — e como se conta uma dose.
Os dois pacientes são o mesmo capítulo. A abstinência alcoólica pode ser fatal, assim como a de benzodiazepínicos e outros sedativos. Abstinência de opioides também pode causar complicações relevantes; não trivializar risco clínico. A da sala 3 mostra que a maior parte do trabalho não acontece nessa escada. Acontece antes, numa consulta em que ninguém está doente.
Quem adoece disso
A Nota Técnica Conjunta n.º 263/2024, assinada em 24 de dezembro de 2024 por três secretarias do Ministério da Saúde, é o documento federal mais recente sobre álcool no Brasil, e o número que ela põe na primeira página é este: em 2021, o uso de álcool foi fator de risco atribuível à morte de cerca de 53 mil pessoas no país, o equivalente a 3% dos óbitos em todas as idades. Considerando apenas as causas plenamente atribuíveis ao álcool — aquelas que não existiriam sem ele —, o Sistema de Informações sobre Mortalidade registrou 21.315 mortes em 2022.
A conta global é da Organização Mundial da Saúde e a nota a reproduz: 2,6 milhões de mortes em 2019, 4,7% de todas as mortes do ano, e cerca de 4,6% da carga global de doenças. A distribuição das causas é útil porque desfaz o estereótipo de que o álcool mata no trânsito: os transtornos digestivos vêm primeiro, com 578 mil mortes, depois os acidentes, com 521 mil, depois as doenças cardiovasculares, com 474 mil, e depois os cânceres, com 401 mil.
O álcool é fator de risco para mais de 230 categorias de doenças de três dígitos da Classificação Internacional de Doenças, das quais cerca de 40 são plenamente atribuíveis. O etanol é carcinogênico, e a nota lista os cânceres com relação causal estabelecida: mama, cólon, reto, boca, faringe, laringe, esôfago, estômago e fígado. E a nota é explícita numa afirmação que muda a conversa de consultório: não existe consumo seguro. A base dessa afirmação, que ela cita, é a análise de 107 coortes publicadas entre 1980 e 2021, com cerca de 4,8 milhões de participantes, que não encontrou redução de mortalidade por todas as causas entre quem consumia até 25 gramas de etanol por dia em comparação com abstêmios.
No Brasil o consumo está subindo, e a nota mostra por onde. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde, o percentual de adultos que consumia bebida alcoólica uma vez ou mais por mês passou de 26,5% em 2013 para 30% em 2019. Na frequência de uma vez ou mais por semana, passou de 23,9% para 26,4%, sendo em 2019 de 37,1% entre os homens e 17% entre as mulheres. O consumo episódico pesado nos 30 dias anteriores à entrevista passou de 13,6% para 17,1%, com prevalência de 26% entre homens e 9,2% entre mulheres, e maior entre pretos, com 19,6%, do que entre brancos, com 16%, e pardos, com 17,5%.
A projeção é o dado que interessa a quem vai trabalhar os próximos trinta anos. O Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas e Agravos não Transmissíveis fixou meta de reduzir em 10% o consumo episódico pesado até 2030, o que exigiria chegar a 16,9% entre adultos das capitais. A análise temporal do Vigitel projeta o contrário: 22,3% em 2030, caso nada seja feito. O paciente do leito 11 e a paciente da sala 3 não estão ficando mais raros.
Sobre a comorbidade psiquiátrica, a mesma nota traz números que interessam ao capítulo vizinho tanto quanto a este: os transtornos por uso de álcool estão associados a aumento de 86% na chance de ideação suicida, de 3,1 vezes na chance de tentativa e de até 2,6 vezes na chance de suicídio consumado; e o consumo episódico pesado, isoladamente, associa-se a aumento de quase sete vezes na chance de tentativa. Em 2022, houve suspeita de uso de álcool pela própria vítima em 13,8% das notificações de autoagressão.
Da abstinência propriamente, quem dá números é o Projeto Diretrizes de 2012. Ele descreve a progressão assim: cerca de 5% dos pacientes evoluem do estágio I para o estágio II, o que ocorre por volta de 48 horas após a última dose; e cerca de 3% dos pacientes do estágio II chegam ao delirium tremens, após 72 horas da última dose. Desses, entre 10% e 15% apresentam convulsões do tipo grande mal. O mesmo documento acrescenta um dado que a enfermaria usa: acima dos 60 anos, o risco de delirium é maior, com razão de chances de 4,7 e intervalo de confiança de 95% entre 1,5 e 15,0.
Esses percentuais são baixos, e é por isso que a leitura errada deles é perigosa de duas formas opostas. A primeira é achar que, sendo raro, não vale a pena procurar — mas o denominador é enorme, e o que é raro por paciente é semanal por enfermaria. A segunda é somar mal: multiplicados um pelo outro, os dois percentuais do documento dariam delirium tremens em 0,15% de todos os quadros de abstinência, ou um em 667, número que a literatura internacional não sustenta e que o próprio documento nunca calcula. A conta está no bloco de critério, com o motivo pelo qual ela provavelmente não deve ser feita assim.
Por que acontece o que acontece
O etanol faz duas coisas ao mesmo tempo no sistema nervoso central: potencia a inibição e bloqueia a excitação. Do lado inibitório, favorece a ação do ácido gama-aminobutírico sobre o receptor GABA-A, que é o principal freio do encéfalo. Do lado excitatório, comporta-se como antagonista do receptor de N-metil-D-aspartato, um dos receptores do glutamato, que é o principal acelerador. Beber é, farmacologicamente, pisar no freio e tirar o pé do acelerador ao mesmo tempo.
O encéfalo não aceita ficar assim por meses. Ele compensa nos dois lados, e o Consenso de 2000 descreve as duas compensações de forma assimétrica, o que importa. Do lado do glutamato, o consumo crônico aumenta a densidade dos receptores de N-metil-D-aspartato — é uma mudança de número, e estudos em animais mostram que o aumento persiste por cerca de 36 horas depois da retirada do etanol, período que coincide com o aparecimento das crises convulsivas. Do lado do GABA, a hipoatividade é funcional: não há evidência de alteração no número de receptores, e sim de redução da densidade do ácido ribonucleico mensageiro relacionado a subunidades do receptor.
É essa assimetria que explica a forma da doença. Quando o álcool sai, o freio que estava sendo emprestado desaparece de imediato, e o acelerador, que foi construído em excesso ao longo de meses, continua ali por um tempo mensurável em horas e dias. O paciente não fica apenas sem álcool: fica com um encéfalo montado para funcionar com álcool, e sem ele. O resultado é hiperatividade adrenérgica generalizada, e é essa hiperatividade que produz tudo o que se vê à beira do leito — tremor, sudorese, taquicardia, hipertensão, midríase, aumento do consumo de oxigênio, elevação da temperatura corporal.
Daí decorre a frase que dá título ao capítulo, e vale entender por que ela é verdadeira e não retórica. A retirada de um opioide produz sofrimento intenso, sintomas gastrointestinais, dor, insônia — e não mata um adulto sem outra doença. A retirada da nicotina produz irritabilidade e fissura e não mata ninguém. A retirada do álcool pode matar por dois caminhos: pela convulsão, que ocorre precocemente e em mais de 90% dos casos nas primeiras 48 horas, com pico entre 13 e 24 horas; e pelo delirium tremens, um quadro confusional com tempestade autonômica em que o Consenso registra riscos de sequelas e de morte entre os que não recebem tratamento. Não é que o álcool seja a droga mais perigosa: é que a retirada dele é a que tem uma via letal própria, e é a única entre as que o interno vai encontrar numa enfermaria de clínica médica.
A lógica do tratamento sai direto do mecanismo. Se o problema é um freio que sumiu, a solução é emprestar outro freio da mesma família e retirá-lo devagar. O benzodiazepínico age no mesmo receptor GABA-A que o etanol favorecia; é por isso que ele funciona, é por isso que existe tolerância cruzada, e é por isso que a dose necessária num paciente com tolerância alta é maior do que a dose que se usaria para ansiedade. Também é por isso que fármacos que não mexem nesse receptor — um antipsicótico, por exemplo — não tratam a síndrome, ainda que sedem o paciente. Eles apagam a manifestação e deixam o mecanismo correndo por baixo.
A segunda metade do mecanismo é nutricional e não tem nada a ver com receptor. A tiamina, ou vitamina B1, é o cofator de que dependem enzimas-chave do aproveitamento da glicose — a transcetolase e a piruvato desidrogenase entre elas. Quem bebe muito e come mal chega ao hospital com o estoque de tiamina no fim, por três motivos somados: ingere pouco, absorve mal no intestino e usa mal o que absorve. Enquanto o consumo de glicose está baixo, o pouco que resta dá conta.
É aí que entra a ordem que este capítulo repete mais de uma vez. Uma carga de glicose num organismo com estoque de tiamina no limite obriga essas enzimas a trabalhar, consome o resíduo de cofator que ainda havia e pode precipitar a encefalopatia de Wernicke — o quadro de confusão mental, ataxia e alteração da movimentação ocular extrínseca que o Consenso descreve, com a ressalva de que a alteração ocular nem sempre está presente. O soro glicosado que se pendura por reflexo em qualquer paciente que não come, ou a ampola de glicose hipertônica que se empurra num paciente confuso antes de ver a glicemia, são exatamente essa carga. Dar tiamina prontamente, preferencialmente antes ou junto quando possível; nunca atrasar glicose emergencial na hipoglicemia por aguardar tiamina. Em suspeita de Wernicke, usar via parenteral conforme protocolo.
Um último aviso sobre o próprio mecanismo, porque ele é bonito e por isso perigoso. Nada do que está acima diz qual paciente vai convulsionar, nem em que hora, nem com que dose de benzodiazepínico. O mecanismo explica por que a síndrome existe e por que o tratamento funciona; ele não gradua gravidade e não substitui a observação seriada à beira do leito. Quem gradua é a escala, e quem decide dose é a escala, e as duas coisas estão nos blocos seguintes.

Como se apresenta de verdade
A síndrome de abstinência do álcool tem uma característica que a torna diferente de quase tudo o que o interno aprende: ela é previsível. Não no sentido de que se saiba quem vai ter, mas no sentido de que se sabe quando começa a contar. O relógio dispara na última dose, e não na internação, não na cirurgia, não no diagnóstico. Quem sabe a hora da última dose tem uma janela; quem não sabe é surpreendido.
Precisão do título. A expressão “A abstinência que não pode esperar” é um título narrativo, não uma afirmação clínica literal: abstinência de benzodiazepínicos, barbitúricos e outros sedativos também pode causar crises, delirium e morte. Aqui o foco é reconhecer e tratar a abstinência alcoólica, inclusive quando começa após redução importante do consumo e não apenas após abstinência completa.
Aprender para cuidar no internato. Antecipar abstinência complicada, escolher avaliação apropriada e tratar sem atrasar glicose ou suporte. Ao discutir o caso com o preceptor, explicite os achados que sustentam a hipótese, uma alternativa relevante, a decisão que precisa ocorrer agora e o que fará mudar o plano. O resultado esperado é uma ação clínica justificada e acompanhada, além de reconhecer o diagnóstico.
O paciente que foi internado por outra coisa
A apresentação clássica dos livros — o paciente que procura ajuda para parar de beber — é a minoria do que o interno vê. A apresentação que ele vai ver dezenas de vezes é esta: alguém internado por pneumonia, celulite, fratura, pancreatite, hemorragia digestiva ou cirurgia eletiva que, no segundo ou no terceiro dia, muda. A internação interrompeu o consumo sem que ninguém tivesse decidido interrompê-lo, e o corpo está cobrando.
O que torna esse paciente difícil não é o quadro: é o contexto. A equipe está olhando para o problema que motivou a internação, e esse problema está melhorando. A perna desinchou, a febre cedeu, a radiografia limpou. Um paciente que piora enquanto a doença dele melhora não encaixa na história que a equipe está contando para si mesma, e a tentação é encaixá-lo à força em explicações que não exigem revisão da história: ele está ansioso, está sem dormir, está com dor, é assim mesmo com idoso em hospital.
Há um segundo motivo, mais desconfortável. A informação que faltaria para fechar o raciocínio — a quantidade e o horário do que ele bebe — é a única informação da admissão que depende de o paciente admitir algo que ele tem motivo para não admitir, diante de um desconhecido de jaleco, na frente da família, em pé no corredor de um pronto-socorro cheio. O campo do prontuário costuma vir preenchido com uma negativa, e a negativa costuma ser o registro de uma pergunta mal feita.
O tremor, e os tremores que ele não é
O tremor da abstinência é postural e de extremidades, aparece ou piora quando o paciente estende as mãos, e vem acompanhado. Ele quase nunca é o único achado, e é essa companhia que o diagnostica: sudorese, taquicardia, hipertensão, ansiedade, irritabilidade, náusea. O Projeto Diretrizes descreve o quadro inicial como tremor de intensidade variável que aparece algumas horas após a diminuição ou a parada da ingestão, mais observado pela manhã, com hiperatividade autonômica associada, taquicardia, aumento da pressão arterial, sudorese, hipotensão ortostática e febre abaixo de 38 graus.
Vale conhecer os tremores que ele não é, porque a enfermaria tem todos. O tremor essencial é antigo, familiar, melhora com álcool — pergunta que às vezes descobre o etilismo por acidente — e não vem com taquicardia nem sudorese profusa. O tremor do hipertireoidismo é fino, persistente, acompanha taquicardia e perda de peso, mas não tem a ancoragem temporal na última dose. O tremor de quem está em uso de beta-agonista inalatório é fino e acompanha a prescrição, não a hora. O tremor da hipoglicemia cede com glicose e tem uma glicemia capilar que o confirma — e é justamente esse o cenário em que a ordem entre tiamina e glicose deixa de ser teoria.
E há a companhia que muda tudo: febre alta, rigidez de nuca, sinal neurológico focal, hipoxemia, dor abdominal nova. Esses não são abstinência, e presumir abstinência na presença deles é o erro que mais custa. A regra prática do bloco de investigação é simples: abstinência explica hiperatividade autonômica, tremor e alteração do sensório; não explica febre alta sustentada, foco neurológico nem abdome agudo.
A escada, e onde cada degrau fica no relógio
Os dois documentos brasileiros descrevem uma progressão em degraus, e é útil pensar assim mesmo sabendo que a maioria dos pacientes nunca passa do primeiro. O primeiro degrau é o quadro autonômico com tremor, que começa horas depois da última dose. O segundo é a alucinose alcoólica. O terceiro é a convulsão. O quarto é o delirium tremens.
O Consenso de 2000 organiza os dois primeiros degraus de outro modo, por níveis de comprometimento, e é essa a classificação que o aluno brasileiro precisa saber pelo nome. O nível I é o comprometimento leve a moderado: leve agitação psicomotora, tremores finos de extremidades, sudorese facial discreta, cefaleia, náusea sem vômito, sensibilidade visual sem alteração da percepção auditiva e tátil; o contato com o profissional está íntegro, o paciente está orientado no tempo e no espaço, o juízo crítico está mantido, a ansiedade é leve e não há relato de violência.
O nível II é o comprometimento grave: agitação psicomotora intensa, tremores generalizados, sudorese profusa, cefaleia, náusea com vômitos, sensibilidade visual intensa, quadros epileptiformes agudos ou relatados na história pregressa; o contato está prejudicado, o paciente está desorientado no tempo e no espaço, o juízo crítico está comprometido, a ansiedade é intensa e há história de violência auto ou heterodirigida. Alucinações auditivas, táteis ou visuais aparecem aqui. O Projeto Diretrizes resume a diferença entre os dois níveis numa frase útil de decorar: o que os separa é, respectivamente, a ausência ou a presença de alucinações.
A classificação por níveis não é acadêmica: ela decide onde o paciente é tratado. Nível I vai para tratamento ambulatorial especializado, com ou sem desintoxicação domiciliar, e recebe intervenção psicoeducacional e clínica. Nível II é emergência clínico-psiquiátrica, com solicitação imediata da presença de familiares para orientação sobre a gravidade, e encaminhamento para tratamento hospitalar especializado. O paciente que já está internado por outra causa e evolui para nível II não precisa ser encaminhado a lugar nenhum: precisa que a enfermaria mude o nível de vigilância dele.
Alucinose alcoólica: o degrau que se confunde com psicose
A alucinose alcoólica merece um parágrafo próprio porque tem uma marca que a distingue de tudo o mais e que o Consenso descreve com precisão: ela ocorre na ausência de rebaixamento do nível de consciência e evolui sem alterações autonômicas óbvias. O paciente está lúcido, orientado, conversando com você — e ouvindo coisas. As alucinações são predominantemente auditivas, com sons descritos como cliques, rugidos, barulho de sinos, cânticos e vozes, e podem ser também visuais e táteis. Medo, ansiedade e agitação vêm como consequência da experiência, não como causa dela.
Essa é a diferença que impede dois erros de direção oposta. O primeiro é chamar de delirium tremens um paciente lúcido que alucina, e tratá-lo com a agressividade reservada ao quadro mais grave. O segundo é chamar de surto psicótico primário e acionar a psiquiatria como se o álcool fosse coincidência. O tratamento que o Consenso indica para a alucinose é neuroléptico — haloperidol 5 mg ao dia, escolhido justamente por ter menor potencial de induzir convulsões —, e não dispensa o benzodiazepínico do quadro de abstinência que corre junto.
Delirium tremens: o que é, e onde ele acaba e começa o vizinho
O Consenso descreve o delirium tremens como a forma grave de abstinência, iniciando-se geralmente entre 1 e 4 dias após a interrupção do uso, com duração de até 3 ou 4 dias, caracterizado por rebaixamento do nível de consciência com desorientação, alterações sensoperceptivas, tremores e sintomas autonômicos — taquicardia, elevação da pressão arterial e da temperatura corporal. O Projeto Diretrizes acrescenta que o quadro piora ao entardecer e que há risco de sequelas e de morte entre os que não recebem tratamento.
Aqui é preciso desenhar uma linha com o capítulo vizinho, e ela é fina. O capítulo Delirium no paciente internado, na apostila Síndromes do Paciente Internado, é o dono do delirium do internado como síndrome: o rastreio, o reconhecimento das formas hipoativa e mista, as causas metabólicas, infecciosas e medicamentosas, as medidas não farmacológicas de prevenção e a conduta no idoso agitado à noite. Este capítulo assume apenas o delirium tremens, isto é, o delirium cuja causa é a retirada do álcool, porque nele o tratamento é diferente do de todos os outros: em vez de retirar fármaco sedativo, dá-se fármaco sedativo, e em dose alta.
Na prática à beira do leito, os dois capítulos se encontram no mesmo paciente das três da manhã, e a pergunta que os separa é sempre a mesma: quando foi a última dose de álcool. Tiamina tem indicação importante e bom perfil de segurança, mas requer dose, via e vigilância apropriadas; investigar outras causas em paralelo.
Duas outras fronteiras se resolvem no mesmo parágrafo. O paciente que está confuso porque está intoxicado agora, e não porque parou de beber, é dos capítulos Intoxicação exógena, na apostila Síndromes do Paciente na Emergência, e O antídoto é a menor parte, na de Toxicologia. E o paciente confuso, ictérico, com asterixe e hepatopatia conhecida é do capítulo de encefalopatia hepática, na apostila de Gastroenterologia. Esses três diagnósticos convivem no mesmo corpo com uma frequência incômoda, e a conduta deste capítulo — tiamina, benzodiazepínico guiado por escala — pode ser exatamente a errada num deles.
A paciente da unidade básica: o que uso de risco parece quando não parece nada
Marluce Escorel não tem tremor, não tem sudorese, não faltou ao trabalho e não tem cirrose. Ela bebe quatro ou cinco latas de cerveja nos dias em que bebe, o que acontece de duas a três vezes por semana, e mais nos fins de semana em que a filha está com o pai. Ela não se considera bebedora, e por um critério razoável de senso comum ela não é: não bebe todo dia, não bebe de manhã, nunca teve problema por causa disso.
O que a apresentação dela tem de característico é justamente não ter nada. Não há sinal físico, não há exame alterado, não há queixa. Esse é o ponto em que a maioria dos capítulos de medicina interna ficaria sem assunto e este não fica: existe uma faixa de consumo que produz dano mensurável sem produzir sintoma, e existe um instrumento curto que a identifica, e existe uma conversa de cinco a trinta minutos com efeito demonstrado nessa faixa. É o que a atenção primária brasileira chama de intervenção breve, e o bloco seguinte mostra como se chega até ela.
Vale antecipar a diferença conceitual, porque ela governa tudo o que se faz depois. Uso de risco é padrão de consumo que aumenta a probabilidade de dano, com ou sem dano já instalado; dependência é uma síndrome, com fissura, perda de controle, tolerância e sinais de abstinência à retirada, como o Projeto Diretrizes a define. A intervenção breve foi construída para a primeira faixa. O Caderno de Atenção Básica é explícito: ela é geralmente indicada para pessoas em uso abusivo de substância, ou seja, que ainda não desenvolveram sinais nem sintomas que permitam considerá-las dependentes. Oferecê-la a quem já é dependente não é errado, mas é insuficiente — e prometer que ela resolve é o que faz o paciente concluir que tratamento não funciona.
Como fechar o diagnóstico
A investigação deste capítulo tem uma peculiaridade: o exame mais decisivo é uma pergunta, e a pergunta tem uma forma certa e uma forma errada. A forma errada — "o senhor bebe?" — produz a linha que está no prontuário do senhor Adauto. A forma certa custa vinte segundos a mais e produz três números: a quantidade, os dias por semana e a hora da última dose.
O resto da investigação existe para excluir, não para confirmar. Não há exame de sangue que diagnostique síndrome de abstinência do álcool, e não há exame que a afaste. Os exames servem para achar o que está junto, o que imita e o que mata — e é por isso que este bloco termina numa lista de exclusão e não numa lista de confirmação.
As seções abaixo seguem a ordem em que as coisas acontecem: primeiro a pergunta que se faz na admissão, depois como quantificar a resposta, depois o instrumento que gradua o consumo na unidade básica, depois a diferença entre uso de risco e dependência, depois o que o corpo acrescenta, e por fim o que precisa ser excluído antes de tudo isso valer.
A pergunta da admissão — a que se faz e a que ninguém faz
Toda anamnese de internação tem um campo de hábitos, e quase todo campo de hábitos vem preenchido com "nega etilismo". A pergunta que gerou essa linha foi, quase sempre, "o senhor bebe?" — uma pergunta de sim ou não, feita a alguém que sabe que a resposta certa socialmente é não, sobre um comportamento que ele já ouviu ser criticado. Ela tem baixa sensibilidade por construção.
A pergunta que muda o cuidado tem três partes e não pede uma confissão: pede uma medida. A primeira parte é a quantidade num dia comum de consumo, medida em unidades que o paciente reconheça — latas, garrafas, copos, doses de dosador. A segunda é a frequência: quantos dias por semana. A terceira, que é a que ninguém faz e a que este capítulo quer que fique, é o horário da última dose: que dia e que hora foi a última vez que o senhor bebeu.
Essa terceira pergunta é a que transforma o registro em previsão, porque toda a cronologia da síndrome está ancorada nela e não na internação. O Projeto Diretrizes situa o tremor algumas horas após a diminuição ou parada da ingestão; situa a passagem ao estágio II por volta de 48 horas após a última dose; e situa o delirium tremens após 72 horas da última dose. O Consenso de 2000 situa mais de 90% das crises convulsivas nas primeiras 48 horas após a interrupção, com pico entre 13 e 24 horas, e o delirium tremens entre 1 e 4 dias. Um paciente que bebeu pela última vez às dez da noite de segunda tem a janela de convulsão atravessando a terça e a de delirium começando na quarta — informação que cabe numa linha de evolução e que muda a escala de vigilância da enfermagem.
Há uma quarta pergunta, curta, que vale tanto quanto as três primeiras, e ela é sobre o passado: o senhor já parou de beber antes e passou mal? Já teve convulsão? Já ficou confuso, vendo ou ouvindo coisas, alguma vez em que parou? O Consenso inclui quadros epileptiformes agudos ou relatados na história pregressa entre os critérios biológicos do nível II — ou seja, um episódio antigo já classifica o paciente de hoje como grave. Quem já fez, faz de novo, e essa é a única informação preditiva que se obtém de graça, na admissão, antes de qualquer sintoma.
Vale registrar como se registra. Não escreva "etilista crônico": escreva o número de doses, a frequência, a data e a hora da última ingestão e a existência ou não de episódio prévio de abstinência complicada. Rótulo não é dado, e quem assume o plantão às sete da manhã precisa do dado.
Quantificar a resposta: duas réguas federais, dois números diferentes
Perguntar quanto só serve se houver uma unidade. Desde 24 de dezembro de 2024 o Brasil tem uma unidade oficial: a Nota Técnica Conjunta n.º 263/2024 estabelece a dose-padrão brasileira em 10 gramas de álcool puro, ou 12,5 mililitros, seguindo o que a Organização Mundial da Saúde preconiza e o que outros 26 países adotam. A mesma nota dá a fórmula para converter qualquer embalagem: multiplicam-se o volume em mililitros, o teor alcoólico em porcentagem e a densidade do álcool, e divide-se por 100.
Com essa fórmula, uma garrafa de cerveja de 600 mililitros a 5% contém 23,7 gramas de álcool, isto é, 2,37 doses-padrão — a conta é da própria nota. E é aqui que aparece o primeiro problema prático do capítulo: a tabela de equivalências que a atenção primária brasileira usa há mais de uma década, no Caderno de Atenção Básica n.º 34, foi construída com outra unidade. Ela conta uma lata ou um chope de cerca de 340 mililitros como uma dose; pela fórmula federal de 2024, esse mesmo copo tem 13,4 gramas, ou 1,34 dose-padrão. A dose do caderno é 34% maior que a dose da nota técnica.
A consequência não é acadêmica. O instrumento de rastreio pergunta quantas doses o paciente consome, e a soma das respostas cai em faixas que decidem se ele recebe orientação, intervenção breve ou encaminhamento. Se o paciente conta em doses do caderno, ele relata menos unidades do que relataria contando em doses-padrão federais, e o escore desce. As duas réguas convivem, as duas são federais, e nenhuma das duas revoga a outra — o bloco de critério traz a conta linha a linha.
Há uma terceira contagem em circulação, e é a que gera os indicadores nacionais. O Vigitel e a Pesquisa Nacional de Saúde definem consumo episódico pesado como cinco ou mais doses para homens e quatro ou mais para mulheres numa mesma ocasião — e a própria nota técnica esclarece que, nesses inquéritos, dose é a dose servida, o equivalente a uma lata de cerveja, uma taça de vinho ou uma dose de destilado, e não a dose-padrão. A nota reconhece o problema com todas as letras: as pessoas subestimam o que ingerem, a dose servida pode chegar a 1,4 vez a dose-padrão, e os indicadores podem estar subestimados e imprecisos.
Para o consultório, o que resta de tudo isso é uma instrução simples e uma honestidade. A instrução: pergunte em embalagens concretas — quantas latas, de que tamanho; quantas doses de dosador; se a garrafa é de 600 ou de 1.000 — e converta você, com a fórmula da nota técnica, em vez de pedir ao paciente que estime doses. A honestidade: diga a ele que a conta mudou e que o que ele ouviu a vida inteira sobre "uma cervejinha" foi contado numa régua diferente.
O rastreio que cabe numa consulta
O Caderno de Atenção Básica n.º 34 traz um instrumento de dez perguntas que investiga o padrão de uso dos últimos doze meses. As três primeiras perguntam frequência de consumo, quantidade típica por ocasião e frequência de consumo de cinco ou mais doses de uma vez. As três seguintes procuram perda de controle, prejuízo de papel e consumo matinal para aliviar o dia seguinte. A sétima e a oitava procuram culpa e amnésia. As duas últimas, que pontuam 0, 2 ou 4, perguntam por ferimento ou prejuízo causado a si ou a outra pessoa e por preocupação manifestada por parente, amigo ou profissional.
As oito primeiras valem de 0 a 4 e as duas últimas valem 0, 2 ou 4, o que dá um máximo de 40 pontos — e as faixas de conduta do caderno terminam exatamente em 40, sem lacuna e sem sobreposição. É uma conferência que fecha, e vale dizer que fecha, porque nem toda tabela oficial fecha. As faixas são quatro: de 0 a 7, prevenção primária; de 8 a 15, orientação básica; de 16 a 19, intervenção breve e monitoramento; de 20 a 40, encaminhamento para serviço especializado.
O instrumento tem dois desvios de caminho que economizam tempo e que se esquece de usar: quem responde "nunca" à primeira pergunta vai direto para as duas últimas, e quem soma zero nas perguntas 2 e 3 também. Na prática, isso significa que o paciente que não bebe responde a três perguntas, não a dez.
Há um instrumento ainda mais curto, de quatro perguntas, que o Projeto Diretrizes descreve e cujas quatro iniciais em inglês formam a sigla pela qual ele é conhecido: reduzir, aborrecer-se, culpar-se e beber ao acordar. Duas respostas afirmativas indicam dependência. O documento traz os números de desempenho e eles resistem à conferência: com duas respostas afirmativas, sensibilidade de 88% e especificidade de 81% produzem razão de verossimilhança positiva de 4,63; com três, 81% e 94% produzem 13,50 — e as probabilidades pós-teste que o documento imprime batem com o cálculo em todos os seis cenários que ele apresenta. Os detalhes estão no bloco de critério.
Duas advertências sobre esses instrumentos. A primeira é que eles são de rastreio, não de diagnóstico: um escore alto abre uma conversa, não fecha um caso. A segunda é que existem duas versões brasileiras do questionário de dez perguntas em circulação, com faixas diferentes na segunda pergunta e leituras diferentes do escore total, e o mesmo paciente recebe classificações distintas conforme a versão que o serviço imprimiu. Isso está medido no bloco de critério, e a conduta prática está lá também: use a versão do caderno federal e registre no prontuário qual usou.
Uso de risco e dependência não são a mesma pergunta
A distinção entre uso de risco e dependência não é uma gradação de quantidade: é uma diferença de natureza. Uso de risco é um padrão de consumo que eleva a probabilidade de dano, e pode existir em alguém que bebe dois dias por semana. Dependência é uma síndrome, e o Projeto Diretrizes lista o que a compõe: necessidade ou urgência de beber, que é a fissura; perda do controle; tolerância, que exige quantidade cada vez maior para o mesmo efeito; e dependência física, com sinais de abstinência quando o consumo é interrompido.
O último item dessa lista é o que liga as duas metades deste capítulo. O paciente da unidade básica que responde que já sentiu tremor ou suor na manhã seguinte, ou que já precisou beber de manhã para conseguir tocar o dia, está dizendo que tem dependência física — e é ele que vai tremer no segundo dia de qualquer internação futura. A sexta pergunta do instrumento de rastreio, sobre beber pela manhã para se sentir bem, é a pergunta da enfermaria feita na unidade básica, três anos antes.
A consequência prática da distinção é o que se oferece. Para uso de risco, oferece-se intervenção breve. Para dependência, oferece-se acompanhamento longitudinal na própria unidade básica, com apoio matricial e, conforme a gravidade e o território, o centro de atenção psicossocial de álcool e drogas — e a intervenção breve continua valendo como parte da conversa, não como o tratamento inteiro.
O que o corpo e o laboratório acrescentam
O exame físico deste paciente não faz o diagnóstico da abstinência, mas faz três outras coisas. Mede a hiperatividade autonômica, que é o que a escala vai graduar: frequência cardíaca, pressão arterial, temperatura, sudorese, tremor com as mãos estendidas. Procura o que o álcool já fez ao corpo, e aqui o interno olha para sinais de hepatopatia, para desnutrição, para neuropatia periférica e para a tríade de Wernicke — confusão, ataxia de marcha e alteração da movimentação ocular extrínseca, esta última nem sempre presente, como o Consenso faz questão de registrar. E procura o que a queda que ninguém viu pode ter feito, especialmente na cabeça.
O laboratório entra pela porta da exclusão e do dano associado. Glicemia capilar imediata em todo paciente com alteração de sensório, e antes de qualquer suposição. Sódio, potássio, magnésio, ureia e creatinina, porque distúrbio hidroeletrolítico imita e agrava abstinência e porque esse paciente costuma chegar depletado. Hemograma e provas de função hepática, porque mudam a escolha do benzodiazepínico e porque orientam o que vem depois da alta. Cálculo do que mais estiver indicado pela doença que motivou a internação.
Nenhum desses exames confirma abstinência. Um paciente com todos eles normais pode estar a caminho do delirium tremens, e um paciente com todos eles alterados pode estar tremendo por outro motivo. O valor deles é negativo: cada um que volta normal fecha uma porta, e o diagnóstico de abstinência é, na prática da enfermaria, uma soma de história compatível, cronologia compatível e portas fechadas.
Sobre marcadores biológicos de consumo, a nota do Projeto Diretrizes é útil e desanimadora: há pequena correlação entre os valores dos testes biológicos e a categorização de gravidade da dependência feita por instrumento clínico. Ou seja, a gama-glutamil transferase alta não gradua nada, e a normal não inocenta ninguém. Quem gradua é a conversa e a escala.
O que excluir antes de chamar tudo de abstinência
Esta é a seção mais curta e a mais importante. Um paciente que bebe muito e está confuso na enfermaria tem, além de abstinência, uma lista de diagnósticos que se apresentam igual e se tratam diferente. Presumir abstinência e parar de pensar é o modo mais comum de perder um deles.
Infecção, e a sepse em primeiro lugar: febre alta, hipotensão, leucocitose ou leucopenia, foco novo. O capítulo Sepse, na apostila de Medicina Intensiva e Emergências, é quem trata disso. Hipoglicemia: glicemia capilar, sempre, e antes de tudo — com a ressalva de ordem que este capítulo repete. Distúrbio do sódio: os dois capítulos de sódio na apostila Prescrição e Cuidado do Paciente Internado. Hematoma subdural, especialmente no paciente que caiu e não contou, e no idoso: sinal focal, assimetria pupilar, rebaixamento progressivo. Hipóxia e retenção de gás carbônico. Encefalopatia hepática, que é do capítulo homônimo na apostila de Gastroenterologia. Intoxicação em curso, e não retirada, que é dos capítulos de Toxicologia e de Síndromes do Paciente na Emergência.
Duas armadilhas específicas fecham a seção. A primeira: o paciente pode estar em abstinência e ter uma dessas coisas ao mesmo tempo, e a melhora parcial com benzodiazepínico não exclui a segunda causa. A segunda: a abstinência de benzodiazepínico, em quem usava clonazepam ou diazepam em casa e teve a prescrição suspensa na internação, produz um quadro muito parecido e é tão perigosa quanto — e essa informação também mora na conciliação medicamentosa da admissão, que é assunto do capítulo A sacola e a receita.
O relógio, o elenco e as contas que não fecham
Três tabelas e um card resolvem o que se decora. A primeira põe lado a lado o que os dois documentos brasileiros dizem sobre o tempo, porque é onde eles divergem. A segunda mostra o que o Sistema Único de Saúde financia e o que ele não financia neste capítulo, que é a informação que mais muda conduta e a que menos aparece em aula. A terceira converte miligramas em mililitros e em unidades da apresentação real, para um adulto de 70 quilos. O card guarda a única regra de ordem do capítulo. As notas ao fim trazem as conferências feitas sobre esses documentos — as que falharam e as que fecharam.
Como usar quadros e notas de fontes anteriores. Notas que transcrevem doses, prazos ou exigências de documentos antigos registram o conteúdo dessas fontes; não substituem a conduta clínica atualizada e individualizada neste capítulo. Separar indicação, dose, contraindicações, monitorização e acesso. Se houver divergência entre o documento histórico e a recomendação atual, discutir o protocolo vigente com a equipe antes de executar.
A ordem que não é detalhe — e a frase que desapareceu entre uma edição e a outra
O Consenso de 2000, na lista do que não fazer, escreve duas coisas ligadas: que a administração indiscriminada de glicose corre risco de precipitar a síndrome de Wernicke, e que a glicose só deve ser aplicada parenteralmente após a administração de tiamina. A segunda frase é a regra operacional; a primeira é só o motivo. O Projeto Diretrizes de 2012 reproduz essa lista de iatrogenias citando o Consenso como referência 63, e o que ele imprime é: hidratar indiscriminadamente, aumentando o risco de desenvolver a síndrome de Wernicke; administrar glicose; administrar clorpromazina ou fenil-hidantoína; aplicar diazepam endovenoso sem recursos para reverter uma possível parada respiratória. O advérbio migrou de item, e a regra de ordem sumiu. Lido ao pé da letra, o documento de 2012 proíbe administrar glicose — o que, num paciente hipoglicêmico, seria o contrário do que se deve fazer. Dar tiamina prontamente, preferencialmente antes ou junto quando possível; nunca atrasar glicose emergencial na hipoglicemia por aguardar tiamina. Em suspeita de Wernicke, usar via parenteral conforme protocolo. Em quem está hipoglicêmico e grave, não se atrasa a glicose por causa da tiamina: aplicam-se as duas, e a tiamina primeiro na ordem da bandeja, não na ordem do relógio.
O relógio da retirada: o que cada documento brasileiro fixa, e onde eles não coincidem
| Fenômeno | Consenso da Associação Brasileira de Psiquiatria, 2000 | Projeto Diretrizes AMB/ABP/SBMFC, 2012 | O que o interno faz com isso |
|---|---|---|---|
| Tremor e hiperatividade autonômica | Descritos como o quadro do nível I, sem prazo numérico declarado a partir da última dose | Algumas horas após a diminuição ou parada da ingestão, mais observado no período da manhã | Espera o quadro na primeira manhã de internação de quem bebeu na véspera; anota a hora da última dose na evolução |
| Crise convulsiva | Mais de 90% ocorrem até 48 horas após a interrupção, com pico entre 13 e 24 horas | Citada como complicação; 10% a 15% dos que chegam ao delirium tremens apresentam crises do tipo grande mal | Vigilância máxima no primeiro e no segundo dia; leito com grades e aspiração próxima; nunca fenitoína para esta indicação |
| Passagem para o quadro grave | Nível II definido por critérios clínicos, sem prazo declarado | Cerca de 5% dos pacientes, por volta de 48 horas após a última dose | Reavalia a classificação a cada plantão, e não só uma vez na admissão |
| Delirium tremens | Início geralmente entre 1 e 4 dias após a interrupção, com duração de até 3 ou 4 dias | Cerca de 3% dos pacientes do estágio II, após 72 horas da última dose, com piora ao entardecer | Os dois prazos não coincidem: o de 2000 abre a janela em 24 horas e o de 2012 em 72; vigia-se pela janela mais larga |
| Fator preditivo obtido na admissão | Quadros epileptiformes agudos ou relatados na história pregressa entram como critério de nível II | Idade acima de 60 anos eleva o risco de delirium, com razão de chances de 4,7 (IC 95% 1,5 a 15,0) | Pergunta por episódio prévio de abstinência complicada e por convulsão prévia; anota a idade como fator, não como detalhe |
O elenco: o que a Rename 2024 financia neste capítulo, e o que ela não traz
| Para quê | O que os documentos brasileiros recomendam | Situação na Rename 2024 | O que isso obriga a fazer |
|---|---|---|---|
| Tratar a síndrome de abstinência | Benzodiazepínico de ação longa como primeira escolha; diazepam ou clordiazepóxido | Diazepam consta: solução injetável 5 mg/mL e comprimidos de 5 e 10 mg, Componente Básico, código N05BA01. Clordiazepóxido não consta | Na rede pública o benzodiazepínico de ação longa é o diazepam, por eliminação e não por escolha |
| Tratar a abstinência em hepatopatia grave | Composto de ação curta; lorazepam, nos três cenários de tratamento | Lorazepam não consta em nenhuma apresentação | A alternativa recomendada para o paciente mais frequente do capítulo não existe no elenco federal; a decisão vira caso a caso e local |
| Prevenir a encefalopatia de Wernicke | Tiamina intramuscular nos primeiros 7 a 15 dias, 300 mg por dia, e via oral depois | Cloridrato de tiamina 300 mg comprimido, Componente Básico, código A11DA01. Não há apresentação injetável | A dose coincide, a via não existe; verificar a relação municipal e a farmácia hospitalar antes de prometer a via parenteral |
| Tratar alucinose e complementar o manejo do delirium tremens | Haloperidol 5 mg ao dia, escolhido por menor potencial de induzir convulsões | Haloperidol consta: comprimidos de 1 e 5 mg, solução oral 2 mg/mL, soluções injetáveis de 5 mg/mL e de 50 mg/mL, Básico, N05AD01 | Conferir a concentração da ampola antes de aspirar: as duas injetáveis diferem por dez vezes e a lista não distingue uma da outra pelo nome |
| Reduzir o desejo compulsivo depois da alta | Dissulfiram 250 a 500 mg/dia; naltrexona 50 mg por 12 semanas; acamprosato 333 mg três vezes ao dia por 6 a 12 meses; topiramato como alternativa em estudo | Dissulfiram, naltrexona e acamprosato não constam. Topiramato consta no Componente Especializado, com o protocolo da epilepsia como documento norteador | A presença de um fármaco na Rename não garante cobertura para transtorno por uso de álcool, e sua ausência não exclui padronização local. Conferir protocolo, indicação e acesso com a rede; discutir opção adequada e seguimento sem prometer dispensação nem negar toda farmacoterapia. |
| Comparação que situa o problema | Tratamento do tabagismo, com protocolo federal próprio | Nicotina em adesivo de 7, 14 e 21 mg, goma e pastilha de 2 mg, Componente Estratégico, N07BA01, e bupropiona no mesmo componente | A mesma rede que financia farmacoterapia para uma dependência não financia nenhuma para a outra; é dado de conversa com gestão, não de consultório |
Conversão para a apresentação real: adulto de 70 quilos, elenco da Rename 2024
| Fármaco e apresentação | Dose citada pela fonte | Volume ou unidades | Observação da conta |
|---|---|---|---|
| Diazepam solução injetável 5 mg/mL, ampola de 2 mL | 10 mg | 2 mL, isto é, 1 ampola inteira | Ritmo máximo declarado pelo Consenso para uso intravenoso: 10 mg em 4 minutos, sem diluição, o que dá 2,5 mg por minuto |
| Diazepam comprimido 10 mg | 20 mg/dia (ambulatorial), 40 mg/dia (domiciliar), 60 mg/dia (delirium tremens) | 2, 4 e 6 comprimidos por dia | A bula do comprimido declara 5 a 20 mg/dia e nenhuma dose acima de 10 mg por tomada; os esquemas domiciliar e de delirium correm a 2 e a 3 vezes esse teto |
| Diazepam comprimido, esquema hospitalar por sintomas | 10 a 20 mg a cada hora enquanto a escala dispara | 1 a 2 comprimidos de 10 mg por hora | Mantido 24 horas seguidas seriam 240 a 480 mg, de 12 a 24 vezes o teto diário da bula; é esquema para dar enquanto o escore exige e parar quando ele cai |
| Haloperidol solução injetável 5 mg/mL, ampola de 1 mL | 5 mg | 1 mL, isto é, 1 ampola | É a apresentação do quadro agudo, de uso intramuscular |
| Haloperidol solução injetável 50 mg/mL, ampola de 1 mL | Não se usa em abstinência | 1 mL carrega 50 mg | É o decanoato, de depósito, para manutenção de psicose crônica estabilizada; 1 mL entrega 10 vezes a dose da outra ampola |
| Haloperidol solução oral 2 mg/mL | 5 mg | 2,5 mL | Um protocolo federal vigente imprime esta linha como 2 g/mL, o que seriam 2.000 mg/mL, mil vezes a concentração real |
| Cloridrato de tiamina comprimido 300 mg | 300 mg/dia | 1 comprimido por dia | A via que o Consenso pede para os primeiros 7 a 15 dias é intramuscular, e não há apresentação injetável no elenco federal |
| Glicose 50% (500 mg/mL), ampola de 10 mL | 1 ampola | 10 mL, que carregam 5 g de glicose | Corrigir hipoglicemia sem demora. Administrar tiamina prontamente em quem tem risco de deficiência, antes ou junto da glicose quando possível, sem aguardar tiamina para tratar a hipoglicemia. |
| Soro glicosado 5% (50 mg/mL), 1.000 mL a cada 8 horas | Esquema de hidratação do paciente confuso no Consenso | 3.000 mL/dia, que carregam 150 g de glicose | Com 20 mL de NaCl a 20% e 10 mL de KCl a 19,1% por frasco, o dia soma cerca de 205 mEq de sódio e 77 mEq de potássio, ou 68 mEq de sódio por litro |
A régua federal, declarada: não há protocolo clínico e diretrizes terapêuticas de transtorno por uso de álcool no Brasil. A lista oficial de protocolos da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde, consultada em 6 de setembro de 2026, traz, no campo da saúde mental e do uso de substâncias, sete documentos — Esquizofrenia, Transtorno Afetivo Bipolar do tipo I, Transtorno Esquizoafetivo, Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade, Comportamento Agressivo no Transtorno do Espectro do Autismo, Doença de Alzheimer e Tabagismo — e nenhum para álcool. O contraste com o tabagismo é o dado: aquele tem protocolo federal desde a Portaria Conjunta SCTIE/SAES/MS n.º 10, de 16 de abril de 2020, e tem farmacoterapia financiada, com nicotina em três apresentações e bupropiona no Componente Estratégico da Rename 2024. Para álcool não há protocolo e não há fármaco anti-fissura no elenco. A régua brasileira do álcool é composta e cada peça responde por um pedaço: a Nota Técnica Conjunta n.º 263/2024 define a unidade de medida e a vigilância; o Caderno de Atenção Básica n.º 34, de 2013, é a publicação federal aberta que põe o instrumento de rastreio e a intervenção breve na mão de quem atende; o Consenso da Associação Brasileira de Psiquiatria, de 2000, é o que traz esquema de tratamento da abstinência; e a Rename 2024 decide o que existe na farmácia.
A conferência que mais muda conduta neste capítulo é a do elenco, e ela foi feita nos três espelhos independentes da Rename 2024, com o texto previamente achatado — sem espaços e sem hifenização — a extração de PDF cola palavras e uma busca ingênua devolveria zero por artefato. Resultado: dissulfiram, naltrexona e acamprosato têm zero ocorrência nas 252 páginas, nos três espelhos. São três dos quatro fármacos que o Projeto Diretrizes de 2012 recomenda para o controle do desejo compulsivo; o quarto, o topiramato, consta, mas no Componente Especializado e com o protocolo da epilepsia declarado como documento norteador, o que o vincula a outra indicação. Três de quatro fora do elenco, e o quarto preso a outro protocolo.
Mesma técnica, mesmo resultado do outro lado do capítulo: clordiazepóxido e lorazepam têm zero ocorrência na Rename 2024. São dois dos três benzodiazepínicos da tabela do Caderno de Atenção Básica n.º 34 e os dois únicos alternativos ao diazepam no Consenso de 2000 — e o lorazepam é o que os dois documentos oferecem justamente para hepatopatia grave, que é a condição associada mais frequente do paciente deste capítulo. Dois de três fora do elenco, ou 66,7% da tabela. O que sobra financiado é o diazepam, e a escolha entre benzodiazepínicos, no Sistema Único de Saúde, está de fato feita antes de o médico escolher.
Tiamina injetável não consta na Rename 2024. A única apresentação é o cloridrato de tiamina 300 mg comprimido, Componente Básico, código A11DA01. A coincidência é digna de nota: 300 mg é exatamente a dose diária que o Consenso de 2000 recomenda — mas por via intramuscular durante os primeiros 7 a 15 dias, pelo motivo que o próprio Consenso declara, que é a absorção oral prejudicada nos primeiros dias da síndrome. O elenco federal oferece a dose certa pela via que o documento diz não servir naquele momento. Isso não impede a prescrição, porque a relação municipal de medicamentos e a farmácia hospitalar podem ter o injetável; obriga a conferir antes, e a registrar no prontuário a via efetivamente administrada.
Duas contas do mesmo documento que não conversam. O Consenso de 2000, no tratamento hospitalar, manda aplicar a escala de hora em hora e administrar diazepam 10 a 20 mg por via oral a cada hora enquanto a pontuação for maior que 8 ou 10. Poucos parágrafos adiante, no manejo do delirium tremens — que é a forma mais grave — prescreve diazepam 60 mg por dia, dizendo na mesma frase que doses elevadas são necessárias. As duas afirmações não se sustentam juntas: mantido por 24 horas, o esquema por sintomas daria de 240 a 480 mg, ou seja, de 4 a 8 vezes os 60 mg indicados para o quadro mais grave; e os 60 mg do dia inteiro são alcançados em 3 horas no ritmo de 20 mg por hora, ou em 6 horas no ritmo de 10 mg por hora. A leitura mais provável é que os 60 mg descrevam a dose média que um paciente típico acaba recebendo, e não um teto — mas o documento não diz isso, e um leitor que tomasse o número como teto subtrataria justamente o paciente que mais precisa. Esta é a interpretação de quem escreve, e não uma citação.
A via, na mesma seção, também não fecha. Todos os esquemas de benzodiazepínico do tratamento hospitalar no Consenso são por via oral, inclusive o de hora em hora. Três parágrafos antes, o mesmo texto determina que pacientes com confusão mental permaneçam em jejum, pelo risco de aspiração e de complicações respiratórias, e prescreve para eles hidratação venosa. O paciente que mais precisa do esquema horário é o que o documento acabou de colocar em jejum. O próprio Consenso oferece a saída ao descrever o uso intravenoso com técnica específica e retaguarda para parada respiratória, no máximo 10 mg em 4 minutos, sem diluição — mas não liga uma coisa à outra.
A bula do comprimido de diazepam e o esquema do Consenso divergem por uma ordem de grandeza, e o interno precisa saber disso antes de a farmácia perguntar. A bula profissional declara dose inicial de 5 a 10 mg, faixa de 5 a 20 mg por dia, e escreve que cada dose oral para adultos não deve normalmente ser superior a 10 mg; declara ainda que o tratamento não deve exceder dois a três meses. O esquema hospitalar por sintomas do Consenso chega a 20 mg por hora. A própria bula abre a porta: ela diz que o diazepam deve ser evitado em pacientes com dependência de depressores do sistema nervoso central, incluindo álcool, e que uma exceção à dependência de álcool é o gerenciamento das reações agudas de retirada. A indicação formal, porém, não lista a abstinência alcoólica — ela aparece na seção de resultados de eficácia, e não na de indicações. Prescrever acima do teto da bula é decisão clínica defensável e documentada, e por isso mesmo precisa estar escrita na evolução com o motivo.
As duas versões brasileiras do questionário de dez perguntas não pontuam igual, e a diferença é sistemática. Na segunda pergunta, sobre quantidade típica por ocasião, o Caderno de Atenção Básica n.º 34 usa as faixas 1 a 2, 3 a 4, 5 a 6, 7 a 9 e 10 ou mais; o Projeto Diretrizes de 2012 usa 0 ou 1, 2 ou 3, 4 ou 5, 6 ou 7 e 8 ou mais. Comparando as duas para consumos inteiros de 0 a 12 doses, elas divergem em 5 dos 13 valores — 2, 4, 6, 8 e 9 — e a versão de 2012 nunca pontua menos: a diferença é sempre de 0 ou de 1 ponto a mais. A leitura do total também diverge. O caderno lê 0 a 7 como prevenção primária, 8 a 15 como orientação básica, 16 a 19 como intervenção breve e monitoramento, 20 a 40 como encaminhamento; o Projeto Diretrizes lê 8 ou mais como uso nocivo e mais de 13 em mulheres ou mais de 15 em homens como dependência. Uma mulher com 14 pontos é caso de orientação básica por uma régua e de dependência pela outra. Use a do caderno federal, e escreva no prontuário qual usou.
A dose-padrão de 2024 e a tabela de equivalências de 2013 não medem a mesma coisa, e a diferença foi refeita com a fórmula da própria nota técnica. Uma lata ou chope de cerca de 340 mL a 5% contém 13,41 g de álcool, ou 1,34 dose-padrão, e o caderno o conta como 1 dose: 34% a menos. Uma garrafa de 600 mL a 5% contém 23,67 g, ou 2,37 doses-padrão, e o caderno conta 2: 18% a menos. Pelo mesmo cálculo, a dose-padrão de 10 g corresponde a 253 mL de cerveja a 5%, e não a 340 mL. As linhas de vinho e destilado do caderno não declaram teor alcoólico, e por isso a conversão delas depende de um teor suposto — a 12% e a 40%, respectivamente, a subcontagem seria de 18% e de 26%. O efeito prático é sempre o mesmo: contar em doses do caderno empurra o escore para baixo, e é na fronteira dos 7 para os 8 pontos que isso decide se alguém sai da consulta com uma conversa ou sem nada.
Duas conferências pequenas dentro da própria nota técnica de 2024, que definem a unidade nacional. A primeira: a nota declara a dose-padrão como 10 gramas ou 12,5 mililitros de álcool puro, e declara também que 1 mL de álcool equivale a 0,789 grama; multiplicando, 12,5 mL dão 9,86 g, e não 10 g — para 10 g exatos seriam 12,67 mL. A diferença é de 0,14 g, ou 1,4%, e não muda conduta nenhuma; registra-se porque o documento é o que fixa a unidade de medida oficial do país. A segunda: no exemplo trabalhado da garrafa de 600 mL a 5%, a nota escreve a conta com 0,79 e imprime 23,7 g; com o 0,789 que ela mesma declarou, o resultado seria 23,67 g. Também não muda conduta. O terceiro achado dessa família é de proveniência e não de aritmética: a fórmula é referenciada, na lista de referências da nota, a uma página de enciclopédia colaborativa de uma faculdade de medicina portuguesa, enquanto o valor de 10 gramas é referenciado a documentos da Organização Mundial da Saúde.
O limiar de consumo episódico pesado e o indicador nacional não medem a mesma quantidade, e a nota de 2024 carrega os dois. Ela adota a definição da Organização Mundial da Saúde, de 60 gramas ou mais de álcool numa mesma ocasião; e descreve os indicadores do Vigitel, que contam cinco ou mais doses servidas para homens e quatro ou mais para mulheres. Convertendo a dose servida pela fórmula da própria nota, uma lata de 350 mL a 5% tem 13,81 g: cinco latas somam 69,0 g, nove gramas acima do limiar, e quatro somam 55,2 g, quase cinco gramas abaixo. Os 60 g corresponderiam a 4,35 latas. A mesma nota registra ainda que a Pesquisa Nacional de Saúde, na edição de 2019, eliminou a distinção entre homens e mulheres e passou a considerar cinco ou mais doses para ambos — de modo que dois inquéritos federais medem o mesmo indicador com cortes diferentes.
Conferências que fecharam. Valem tanto quanto as que não fecharam, e por isso ficam registradas. Primeira: a amplitude do questionário de dez perguntas. Oito perguntas valendo de 0 a 4 somam 32, e duas valendo 0, 2 ou 4 somam 8, o que dá exatamente os 40 pontos em que terminam as faixas do Caderno de Atenção Básica n.º 34; e as quatro faixas — 0 a 7, 8 a 15, 16 a 19, 20 a 40 — são contínuas, sem lacuna e sem sobreposição. Segunda: as razões de verossimilhança do instrumento de quatro perguntas no Projeto Diretrizes. Recalculadas como sensibilidade dividida por um menos a especificidade, os seis pares publicados dão 4,63; 13,50; 12,83; 6,83; 15,67 e 8,43 — os seis números que o documento imprime, sem arredondamento discrepante. As seis probabilidades pós-teste também fecham: com prevalência de 15% e razão de 4,63, o pós-teste é 45,0% contra os 45% publicados; com 13,50, é 70,4% contra 70%; com prevalência de 35%, as razões de 12,83 e 6,83 dão 87,4% e 78,6% contra 87% e 79%; e com prevalência de 15%, as razões de 15,67 e 8,43 dão 73,4% e 59,8% contra 73% e 60%. Doze contas, doze acertos.
A composição dos percentuais de progressão do Projeto Diretrizes não deve ser feita como parece. O documento escreve que cerca de 5% dos pacientes evoluem do estágio I para o II e que cerca de 3% dos pacientes do estágio II chegam ao delirium tremens. Multiplicados, esses números dariam delirium tremens em 0,15% de todos os quadros de abstinência, ou um em 667, e a fração de crises grande mal sobre esse total cairia entre 0,015% e 0,023%. O próprio documento nunca faz essa multiplicação, e é provável que os dois percentuais venham de populações diferentes e não sejam encadeáveis. Fica registrado como armadilha de leitura: a composição está aritmeticamente correta e clinicamente suspeita, e quem for citar um desses números em prova ou em passagem de plantão deve citá-los separados, como o documento os escreve.
O quadro que cruza classificações no Caderno de Atenção Básica n.º 34 tem duas linhas que se sobrepõem. A linha do abuso crônico de álcool, código P15 da Classificação Internacional da Atenção Primária, recebe F10.1 a F10.9 da Classificação Internacional de Doenças; a linha do abuso agudo, código P16, recebe F10. Como F10, categoria de três caracteres, contém as dez subcategorias de F10.0 a F10.9, a faixa da linha crônica está inteiramente contida na da aguda: 9 das 10 subcategorias pertencem às duas linhas ao mesmo tempo. A única subcategoria que fica de fora da linha crônica é F10.0 — justamente a da intoxicação aguda, que seria a única que a linha aguda deveria receber. Na prática o interno codifica pelo quadro, e não pelo quadro-resumo; mas quem usa a tabela para escolher o código de uma internação vai encontrar dois códigos possíveis para o mesmo paciente.
A escala de graduação citada pelo Consenso de 2000 é remetida a um anexo que, na versão de acesso aberto do artigo, não tem camada de texto: o corpo do artigo dá o gatilho — pontuação maior que 8 ou 10 — e a periodicidade — de hora em hora —, mas os itens da escala não são legíveis ali. Por isso este capítulo descreve o que ela mede e não lista os seus itens nem os seus pesos. Quem for aplicá-la à beira do leito precisa de uma versão impressa validada em português, e o serviço precisa ter decidido antes qual delas usa: escala aplicada de memória não gradua nada.
Um achado da nota de 2024 que pertence a outro capítulo, registrado aqui porque está no mesmo documento. Ao tratar do transtorno do espectro alcoólico fetal, a nota escreve que a cada 67 mulheres que consomem álcool durante a gravidez uma terá filho com síndrome alcoólica fetal, o que dá 1,49%, e na frase seguinte cita estudo transversal brasileiro indicando prevalência de 14% entre as crianças expostas — 9,4 vezes mais. A frase do primeiro dado termina com um marcador de referência não resolvido, impresso no documento assinado. O conteúdo clínico é do capítulo de álcool na gestação, na apostila de Obstetrícia.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo abaixo é a do senhor Adauto Calmon, 54 anos, 68 quilos, internado por celulite e sem uma linha no prontuário sobre álcool. Ela começa na admissão, dois dias antes de qualquer sintoma, porque é lá que o cuidado deste capítulo de fato começa.
Duas advertências antes. A primeira: as doses citadas são as dos documentos brasileiros nomeados, e onde eles não dizem, este capítulo também não diz. A segunda: nenhum marco abaixo dispensa reavaliar o paciente inteiro a cada plantão — a abstinência convive com infecção, sangramento e distúrbio hidroeletrolítico, e o marco que trata a abstinência não é o marco que exclui os outros.
Tratamento individualizado e seguimento. Benzodiazepínico é primeira linha; escolher agente, via e dose pela gravidade, idade, função hepática, exposição prévia e capacidade de monitorização. Em doença hepática importante, agentes menos dependentes de oxidação hepática, como lorazepam, podem ser preferíveis conforme disponibilidade. Delirium, crises ou necessidade de doses crescentes pedem ambiente intensivo; antipsicótico não substitui benzodiazepínico. Desintoxicação não trata sozinha o transtorno por uso de álcool: discutir intervenção psicossocial e medicamentos como naltrexona ou acamprosato quando apropriados e acessíveis, avaliando contraindicações. Ausência numa lista federal não elimina opções clínicas nem prova indisponibilidade local.
Marco 1 — admissão, antes de qualquer sintoma: as quatro perguntas
No preenchimento dos hábitos, substitua a pergunta de sim ou não por quatro perguntas curtas: quanto num dia comum de consumo, medido em embalagens concretas; quantos dias por semana; que dia e que hora foi a última dose; e se já parou antes e passou mal, com convulsão ou confusão. As três primeiras dão o relógio; a quarta dá o risco. Registre os números, não o rótulo — quem lê a evolução às sete da manhã precisa saber se estamos na hora 20 ou na hora 60 desde a última dose. Se o paciente estiver confuso ou não puder informar, pergunte ao acompanhante, e escreva de quem veio a informação.
Prescrição- Anamnese: quantidade em embalagens, frequência semanal, data e hora da última ingestão, episódio prévio de abstinência complicada
- Registrar na evolução a hora zero do relógio da retirada
Marco 2 — nas primeiras horas, se a resposta for positiva: a profilaxia que é barata
Paciente com consumo de risco identificado e internação que vai interromper o consumo recebe duas coisas antes de qualquer sintoma. A primeira é vigilância: sinais vitais em intervalos mais curtos que o padrão da enfermaria, e uma linha na passagem de plantão dizendo em que hora do relógio ele está. A segunda é a reposição vitamínica, que o Consenso de 2000 recomenda em 300 mg de tiamina por dia, por via intramuscular nos primeiros 7 a 15 dias e por via oral depois — com a ressalva, do próprio documento, de que persiste controvérsia sobre as doses preconizadas e sobre quais vitaminas repor. Confira a apresentação disponível antes de escrever, porque o elenco federal só traz o comprimido de 300 mg.
Prescrição- Tiamina 300 mg/dia, pela via disponível, iniciada na admissão e não quando o tremor aparecer
- Sinais vitais em intervalo encurtado, com registro de sudorese e tremor na folha
- Glicemia capilar de rotina, e imediata a qualquer alteração de sensório
Marco 3 — o primeiro sinal: reconhecer e não rotular
Tremor postural novo, sudorese sem febre, taquicardia e hipertensão que sobem ao longo de horas, insônia e a bandeja intacta. Antes de chamar de abstinência, faça as exclusões do bloco de investigação — glicemia, sódio, hipóxia, foco infeccioso novo, sinal neurológico — e, ao mesmo tempo, não espere as exclusões voltarem para começar a tratar se a história e a cronologia forem compatíveis. Na dúvida entre abstinência e outra causa, a tiamina não custa nada e o benzodiazepínico titulado por resposta é reversível; o que não se recupera é a hora perdida.
Prescrição- Glicemia capilar imediata
- Sódio, potássio, magnésio, ureia, creatinina, hemograma e provas hepáticas
- Reavaliação neurológica com pesquisa de sinal focal e de sinais de trauma craniano
Marco 4 — graduar pela clínica e por instrumento adequado
Graduar abstinência com exame, história, evolução e instrumento apropriado. CIWA-Ar depende de colaboração e pode ser confundida por dor, infecção e outras doenças; não é adequada no delirium, paciente não comunicativo ou intubado. Nesses cenários, usar avaliação objetiva e protocolo hospitalar apropriado. Antecedente de abstinência grave pode justificar prevenção mesmo com poucos sintomas iniciais. Esquema guiado por sintomas exige equipe treinada e reavaliação frequente; dose não nasce de um número isolado.
Prescrição- Aplicar escala apropriada e exame seriado; não usar CIWA-Ar para guiar sozinho o tratamento de delirium ou de paciente incapaz de responder.
- Definir e escrever o gatilho de administração adotado pelo serviço
- Comunicar à enfermagem que a dose é condicionada ao escore e não ao horário
Marco 5 — a primeira dose: qual fármaco, quanto, por qual via
O benzodiazepínico é a medicação de primeira escolha, e o Consenso prefere os compostos de ação longa, reservando os de ação curta para hepatopatia grave. No esquema hospitalar por sintomas, ele indica diazepam 10 a 20 mg por via oral a cada hora enquanto a pontuação exceder o gatilho, ou clordiazepóxido 50 a 100 mg por hora, ou lorazepam 2 a 4 mg por hora nos casos de hepatopatia grave. Na rede pública brasileira, dos três, apenas o diazepam existe no elenco federal. Para uso intravenoso, o mesmo documento fixa um limite de ritmo: no máximo 10 mg de diazepam em 4 minutos, sem diluição, e exige técnica específica e retaguarda para manejo de eventual parada respiratória. O paciente confuso, que o próprio Consenso manda manter em jejum pelo risco de aspiração, é o que menos se beneficia da via oral — e essa é uma decisão que se toma com o assistente, não sozinho.
Prescrição- Diazepam 10 a 20 mg VO a cada hora enquanto o escore exceder o gatilho, reavaliado a cada dose
- Em jejum ou rebaixamento: discutir via parenteral com o assistente, com material de via aérea disponível
- Suspender e reavaliar se houver sedação excessiva, disartria ou queda da frequência respiratória
Imediatamente se hipoglicemia — glicose sem atraso e tiamina prontamente
Hipoglicemia é corrigida imediatamente. Dar tiamina prontamente, de preferência antes ou junto de carboidrato quando possível, mas nunca atrasar glicose emergencial por falta de tiamina. Em desnutrição importante ou suspeita de Wernicke, priorizar tiamina parenteral conforme protocolo, não considerar comprimido de 300 mg substituto equivalente. Confusão, ataxia ou alteração oculomotora podem ocorrer sem tríade completa; tratar suspeita. Repor eletrólitos quando indicados, monitorar função renal e risco de realimentação.
Prescrição- Tiamina prontamente, preferencialmente antes/junto quando possível; não atrasar glicose na hipoglicemia para aguardar tiamina.
- Glicose hipertônica apenas com glicemia capilar que a justifique
- Corrigir sódio, potássio e magnésio conforme os exames
Marco 7 — o que não entra na prescrição, e por quê
Quatro itens que o Consenso lista explicitamente no que não fazer, e um quinto que o elenco brasileiro torna tentador. Não se usa fenitoína parenteral de rotina — a chamada hidantalização —, porque a literatura não respalda esse anticonvulsivante no controle das crises da abstinência; quem já tem epilepsia mantém o esquema que já usava. Não se usa clorpromazina nem outros neurolépticos sedativos de baixa potência para conter agitação, porque podem induzir convulsões; quando um neuroléptico é necessário, o Consenso indica haloperidol, 5 mg ao dia, e sempre associado ao benzodiazepínico e nunca no lugar dele. Não se administra glicose indiscriminadamente. E não se aplica diazepam endovenoso sem recursos para reverter uma parada respiratória. O quinto item: flumazenil existe na Rename e é o antagonista à mão quando alguém acha que o paciente sedado está "apagado demais" — usá-lo neste paciente reverte a proteção anticonvulsivante e pode precipitar crise; sedação excessiva se maneja suspendendo a dose seguinte e observando, com via aérea vigiada.
Prescrição- Não prescrever fenitoína profilática para crises da abstinência
- Não prescrever clorpromazina, levomepromazina ou prometazina para conter agitação neste paciente
- Haloperidol apenas associado ao benzodiazepínico, e não em substituição a ele
- Não usar flumazenil para reverter sedação por benzodiazepínico neste contexto
Marco 8 — a alta: os quatro papéis, e a frase que não se diz
A alta deste paciente tem quatro peças. A receita: o que sai de benzodiazepínico é retirada gradual e datada — o Consenso descreve retirada gradual ao longo de uma semana nos esquemas ambulatoriais —, e o que continua é a tiamina, pela via disponível. O retorno: com data marcada e o mais precoce possível, porque o Consenso registra que as consultas devem ser tão frequentes quanto possível nos primeiros 15 dias. Os sinais de alarme, escritos e explicados a quem vai estar com ele: tremor que volta e piora, confusão, ver ou ouvir coisas, convulsão. E o encaminhamento à rede: a unidade básica que é dela o cuidado longitudinal, e o centro de atenção psicossocial de álcool e drogas conforme a gravidade e o território. A frase que não se diz é a que o paciente mais quer ouvir: que existe um comprimido que tira a vontade e que ele vai buscar na farmácia do posto. Os quatro fármacos com essa finalidade que o Projeto Diretrizes descreve não estão no elenco federal para esta indicação. O que se promete é o retorno, e o que se entrega é a consulta marcada.
Prescrição- Receita com esquema de retirada gradual do benzodiazepínico, com datas
- Tiamina mantida na alta, pela via disponível
- Retorno agendado na unidade básica, com data e horário escritos
- Sinais de alarme por escrito, entregues e explicados ao acompanhante
- Encaminhamento ao centro de atenção psicossocial de álcool e drogas conforme gravidade e território
Como saber se está funcionando
Reavaliar abstinência é diferente de reavaliar pneumonia: não há radiografia que limpe nem hemograma que caia. O que se acompanha são sete parâmetros clínicos, quase todos coletáveis pela enfermagem, e o mais importante deles é o único que precisa ser combinado antes — porque de madrugada não se combina nada.
Esperado: Queda progressiva após as primeiras doses, com o escore atravessando o gatilho para baixo e ali permanecendo por algumas horas seguidas antes de espaçar a aplicação
Se não melhora: Escore que não cai com doses repetidas exige duas revisões, e não mais dose às cegas: a dose está sendo de fato administrada e absorvida, e não há uma segunda causa correndo junto. Reavalie infecção, sódio, hipóxia e trauma craniano antes de subir mais.
Esperado: Paciente que permanece orientado no tempo, no espaço e quanto a si mesmo, com contato preservado
Se não melhora: Desorientação nova, com flutuação e piora ao entardecer, marca a passagem para o quadro grave e muda o nível de vigilância, não apenas a dose. Considere delirium tremens e considere, ao mesmo tempo, as causas do capítulo Delirium no paciente internado — as duas coisas coexistem.
Esperado: Queda da frequência cardíaca e da pressão arterial acompanhando a queda do escore, e temperatura axilar abaixo de 38 graus
Se não melhora: Taquicardia persistente apesar de escore em queda, ou febre acima de 38 graus, apontam para outra causa — o Projeto Diretrizes situa a febre da abstinência abaixo de 38 graus. Procure foco infeccioso antes de atribuir ao álcool.
Esperado: Redução progressiva, de tremor generalizado para tremor fino, e depois ausência com as mãos estendidas
Se não melhora: Tremor que se generaliza depois de ter melhorado é sinal de que a dose anterior foi insuficiente ou de que a próxima atrasou; confira o horário real de administração na folha antes de mudar o esquema.
Esperado: Retorno progressivo de períodos de sono, ainda que fragmentados, a partir das primeiras 48 horas
Se não melhora: Insônia total por mais de uma noite, mesmo com escore controlado durante o dia, costuma ser a pista de que o quadro noturno está sendo subtratado — a escala tem que ser aplicada de madrugada, e não só no plantão diurno.
Esperado: Paciente sonolento mas despertável, com fala compreensível e frequência respiratória preservada
Se não melhora: Sedação profunda, disartria importante ou queda da frequência respiratória exigem suspender a dose seguinte e observar com a via aérea vigiada. Não se reverte com flumazenil neste contexto — o antagonista pode precipitar convulsão.
Esperado: Retomada da dieta e manutenção da via oral tanto para o benzodiazepínico quanto para a tiamina
Se não melhora: Paciente que não aceita dieta ou que ficou confuso não deve continuar recebendo esquema oral por inércia de prescrição: reveja a via com o assistente, e escreva na evolução por qual via cada dose foi de fato administrada.
Onde o erro machuca
O dano: A linha vira um fato no prontuário e passa por três plantões sem ser revista. Quando o tremor aparece no segundo dia, a equipe procura explicação em outro lugar e perde a janela em que a profilaxia ainda era barata. Não há como reconstruir a hora da última dose retrospectivamente num paciente que já está confuso.
Como pegar a tempo: Troque a pergunta de sim ou não por três medidas e uma história: quanto num dia comum, quantos dias por semana, que dia e que hora foi a última dose, e se já parou antes e passou mal. Escreva os números na evolução, não o rótulo.
O dano: A dose única noturna alivia por algumas horas e some justamente na madrugada, quando o quadro escala. Pior: o alívio parcial confirma para a equipe a hipótese errada, e a evolução do dia seguinte registra melhora. O paciente chega ao terceiro dia com a síndrome inteira e com um prontuário que diz que está tudo bem.
Como pegar a tempo: Diante de tremor novo com sudorese, taquicardia e hipertensão em ascensão, reconstrua a cronologia da última dose antes de prescrever qualquer coisa "se necessário". Abstinência se trata por escore repetido, não por horário fixo de deitar.
O dano: Uma carga de glicose em quem tem o estoque de tiamina no limite pode precipitar a encefalopatia de Wernicke, cujo dano nem sempre é reversível. Custa quase nada evitar e custa caríssimo cometer: 300 mg de tiamina não pesam em orçamento nenhum, e a sequela é permanente.
Como pegar a tempo: Dar tiamina prontamente, preferencialmente antes ou junto quando possível; nunca atrasar glicose emergencial na hipoglicemia por aguardar tiamina. Em suspeita de Wernicke, usar via parenteral conforme protocolo. Se a hipoglicemia for grave, as duas coisas na mesma abordagem, sem que uma atrase a outra.
O dano: O antipsicótico apaga a manifestação e não trata o mecanismo, que continua correndo por baixo — o paciente fica quieto e continua caminhando para a convulsão. E os neurolépticos sedativos de baixa potência, como a clorpromazina, podem induzir crises, que é exatamente o desfecho que se está tentando evitar.
Como pegar a tempo: O benzodiazepínico é o tratamento; o neuroléptico é acréscimo. Quando for necessário, o Consenso indica haloperidol, pelo menor potencial convulsivante, associado e nunca no lugar do benzodiazepínico. A técnica da contenção e da sedação em si é do capítulo Agitação psicomotora no pronto-socorro.
O dano: O antagonista está no elenco federal, está na sala de emergência e é a coisa mais intuitiva a fazer diante de sedação excessiva. Neste paciente, ele retira de uma vez a proteção anticonvulsivante que estava sendo construída e pode precipitar uma crise num encéfalo já hiperexcitável.
Como pegar a tempo: Sedação excessiva por benzodiazepínico em abstinência alcoólica se maneja suspendendo a dose seguinte, observando e vigiando a via aérea — não revertendo. Reavalie o gatilho e o intervalo antes de reintroduzir.
O dano: O paciente sai com uma expectativa que a farmácia do posto não pode cumprir, descobre isso sozinho na fila, e conclui que tratamento para isso não existe — o que torna a próxima tentativa mais difícil. Dissulfiram, naltrexona e acamprosato não constam da Rename 2024, e o topiramato consta vinculado a outro protocolo.
Como pegar a tempo: Prometa o que a rede entrega: retorno com data, acompanhamento longitudinal na unidade básica, encaminhamento ao centro de atenção psicossocial de álcool e drogas conforme a gravidade, e a conversa que já começou. Se houver disponibilidade local desses fármacos, confirme na relação municipal antes de citá-los pelo nome.
O que dizer ao paciente e à família
As sete falas abaixo são as que costumam paralisar quem está começando, nos dois cenários deste capítulo. Nenhuma se resolve com um argumento melhor: resolvem-se trocando a pergunta, ou aceitando a resposta e continuando a consulta.
Na unidade básica, a resposta padrão: "eu bebo socialmente, doutora"
“"Entendi. Deixa eu perguntar de outro jeito, que é o jeito que a gente usa para todo mundo aqui: nos dias em que a senhora bebe, quantas latas costuma tomar? E quantos dias da semana costuma ser?"”
Não diga: Discutir o que significa "socialmente". A palavra é uma categoria social, não uma medida, e insistir nela transforma a consulta num julgamento. Peça número e frequência, que são perguntas neutras e às quais quase todo mundo responde.
O paciente devolve a pergunta: "por que a senhora está perguntando isso? Eu vim por causa do exame"
“"Porque essa pergunta faz parte da consulta de todo mundo, igual a medir a pressão. O que a senhora me responder muda o que eu vou pedir e o que eu vou orientar — e não muda em nada o meu jeito de atender a senhora."”
Não diga: Justificar com o aspecto do paciente ("é que o seu fígado...") ou com o exame na mesa. Isso transforma a pergunta numa acusação e ensina o paciente a responder menos da próxima vez.
Na enfermaria, a família chega antes de você: "doutor, dá um calmante nele que ele fica quieto"
“"Vou dar remédio, sim, e é um remédio dessa família mesmo. Mas ele não vai ser dado no horário: vai ser dado toda vez que a enfermagem avaliar e ele precisar, e isso pode ser de hora em hora hoje. Ficar quieto não é o alvo — o alvo é passar por essas 48 horas sem convulsão."”
Não diga: Prometer que ele vai dormir, ou negar o remédio para não parecer que se está sedando. Nos dois casos o combinado com a família quebra, e no segundo o paciente é subtratado.
O paciente pede alta no meio do quadro: "eu vou embora, aqui não estou melhorando"
“"O senhor pode ir embora, e eu não vou impedir. Antes disso preciso que o senhor saiba de uma coisa e que a sua esposa ouça junto: o senhor está no segundo dia sem beber, e é entre hoje e amanhã que pode acontecer convulsão. Se for para casa agora, é isso que a gente está arriscando. Me dá até amanhã de manhã."”
Não diga: Ameaçar com o termo de responsabilidade como primeira frase, ou ceder em silêncio. A conduta formal da alta a pedido é do capítulo Risco excluído, diagnóstico em aberto; o que este capítulo acrescenta é que a informação a dar antes é o horário do risco, e não a gravidade em abstrato.
O paciente conta, e conta baixo: "é uma ou duas por dia, no máximo"
“"Uma ou duas do quê — lata, garrafa, copo? E é garrafa de 600 ou de litro? Pergunto porque a conta mudou: hoje a régua oficial conta uma dose como dez gramas de álcool, e uma lata comum já dá mais do que uma dose. Não é para corrigir o senhor: é para eu fazer a conta certa."”
Não diga: Duvidar em voz alta ou multiplicar o relato por dois "porque todo mundo diminui". Peça a embalagem e faça a conversão você. A subestimação está descrita nos documentos federais e é da unidade de medida, não do caráter do paciente.
Depois de a conta ser feita: "então eu sou alcoólatra?"
“"Não é isso que eu disse, e essa palavra não me ajuda em nada. O que a conta mostrou é que a quantidade que a senhora bebe já está numa faixa em que aparece risco à saúde. Isso tem conserto e o conserto começa por uma conversa de dez minutos, hoje, sobre o que a senhora quer fazer com esse número."”
Não diga: Aceitar o rótulo para "impactar" o paciente. Rótulo fecha porta, e a faixa em que essa paciente está é justamente a que responde melhor à conversa curta.
Na alta: "e não tem um remédio para tirar a vontade?"
““Existem medicamentos que podem ajudar, junto com acompanhamento. Vamos avaliar qual faz sentido para o senhor e conferir como obter pela rede, porque o elenco e o estoque variam. O retorno e o apoio começam desde já; se o medicamento indicado não estiver disponível aqui, vamos organizar o próximo passo com o serviço de referência.””
Não diga: Dizer que não existe nada — é falso — ou receitar um nome comercial que o paciente vai procurar em vão. O honesto é dizer que existe, que o efeito é modesto e que não está disponível pela rede para esta indicação.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Dose guiada por sintomas. O Consenso da Associação Brasileira de Psiquiatria de 2000 afirma que esquemas planejados de acordo com a intensidade dos sintomas permitem utilizar doses menores de medicação quando comparados aos esquemas posológicos fixos, e no tratamento hospitalar determina aplicação horária da escala com administração quando a pontuação exceder 8 ou 10. O Projeto Diretrizes de 2012 acrescenta que esse esquema reduz o tempo total de tratamento, usa menos benzodiazepínico e produz menos efeitos adversos, e que permite que até 60% dos pacientes atravessem a abstinência sem tratamento farmacológico.
Laranjeira R, Nicastri S, Jerônimo C, Marques AC, et al. Consenso sobre a Síndrome de Abstinência do Álcool (SAA) e o seu tratamento. Rev Bras Psiquiatr 2000;22(2):62-71, seções 11 e 11.1.3. E AMB/ABP/SBMFC, Projeto Diretrizes: Abuso e Dependência de Álcool, 31/03/2012, questão sobre tratamento da SAA, referência 64 (grau B).
Dose fixa com retirada programada. O mesmo Consenso de 2000, nos cenários ambulatorial e de internação domiciliar, prescreve dose diária definida com retirada gradual ao longo de uma semana — diazepam 20 mg por dia no ambulatório e 40 mg por dia na internação domiciliar — e não menciona aplicação de escala nesses cenários. O esquema fixo é o que se pode entregar a uma família, executar sem enfermagem treinada e conferir por contagem de comprimidos, e é o único praticável fora de um serviço que consiga aplicar um instrumento de hora em hora.
Laranjeira R et al., Rev Bras Psiquiatr 2000;22(2):62-71, seções 11.1.1 e 11.1.2.
A pergunta não é qual esquema é melhor em tese, e sim qual dos dois o seu serviço consegue executar hoje, nesta ala, neste plantão. Antes de prescrever por escore, combine três coisas com a enfermagem e escreva as três na prescrição: qual escala será aplicada, de quanto em quanto tempo, e qual o escore que dispara a dose. Se qualquer uma das três não estiver combinada, o esquema por sintomas vira, na prática, dose por impressão de quem está no corredor — que é pior que os dois. No paciente ambulatorial ou em desintoxicação domiciliar, o esquema fixo com retirada datada é o que a família consegue executar, e a segurança dele vem do retorno precoce, não da titulação.
Composto de ação longa como regra, curto na hepatopatia grave. O Consenso de 2000 afirma que, de modo geral, os compostos de ação longa são preferíveis, sendo os de ação curta mais indicados nos casos de hepatopatia grave, e oferece lorazepam nos três cenários de tratamento — 4 mg por dia no ambulatório, 8 mg por dia na internação domiciliar e 2 a 4 mg por hora no hospital. O Caderno de Atenção Básica n.º 34 registra o mesmo raciocínio na sua tabela de benzodiazepínicos, ao anotar que o lorazepam é útil em pacientes com graus leves de insuficiência hepática por causa da via de eliminação.
Laranjeira R et al., Rev Bras Psiquiatr 2000;22(2):62-71, seções 11 a 11.1.3. E Brasil, Ministério da Saúde, Cadernos de Atenção Básica n. 34 — Saúde mental, 2013, tabela de benzodiazepínicos.
Diazepam, porque é o que existe. A Rename 2024 traz diazepam em solução injetável de 5 mg/mL e comprimidos de 5 e 10 mg, no Componente Básico, e não traz lorazepam nem clordiazepóxido em nenhuma apresentação — conferido por busca exata sobre o texto normalizado nos três espelhos. A bula do comprimido de diazepam, por sua vez, declara que pacientes com insuficiência hepática grave não devem ser tratados com o fármaco e que, na leve a moderada, deve ser usada a menor dose possível. As duas afirmações postas lado a lado deixam o paciente hepatopata grave em abstinência sem opção declarada no elenco federal.
Brasil, Ministério da Saúde, Rename 2024, apêndices por classificação anatômica terapêutica química e por ordem alfabética. E Pharlab, bula profissional do diazepam comprimido, itens de posologia em dosagens especiais e de contraindicações.
Decida por dois dados que estão à sua frente: o que a farmácia da sua instituição tem hoje, e o quanto este fígado está descompensado. Ligue para a farmácia antes de escrever, porque a relação municipal e a padronização hospitalar podem ter o que o elenco federal não tem. Se só houver diazepam e o paciente for hepatopata grave, isso não é motivo para não tratar a abstinência — é motivo para tratar com a menor dose que controle o escore, reavaliar com intervalo mais curto, vigiar ativamente o nível de consciência e discutir o caso com o assistente, registrando a decisão e o motivo na evolução. E lembre que confusão neste paciente pode ser abstinência, pode ser encefalopatia hepática e pode ser as duas: o capítulo de encefalopatia hepática, na apostila de Gastroenterologia, é quem trata da segunda.
Trezentos miligramas por dia, por via intramuscular nos primeiros 7 a 15 dias e por via oral depois. É o que o Consenso de 2000 prescreve, nos três cenários de tratamento, com a finalidade declarada de evitar a síndrome de Wernicke; e a justificativa da via parenteral está escrita no próprio documento, que registra que a absorção oral de medicamentos pode estar prejudicada nos primeiros dias da síndrome. O Projeto Diretrizes de 2012 reproduz esse raciocínio com grau A de recomendação para a administração parenteral no período inicial.
Laranjeira R et al., Rev Bras Psiquiatr 2000;22(2):62-71, seções 11 e 11.1.1. E AMB/ABP/SBMFC, Projeto Diretrizes: Abuso e Dependência de Álcool, 31/03/2012, referência 62 (grau A).
Não há dose estabelecida, e os próprios documentos dizem isso. O Consenso de 2000, no parágrafo imediatamente anterior ao que fixa os 300 mg, escreve que, embora haja consenso sobre a necessidade da reposição de vitaminas, sobretudo a tiamina, ainda existe controvérsia a respeito das doses preconizadas e mesmo de quais vitaminas devem ser repostas — e o texto de 2012 repete essa ressalva com as mesmas palavras. Some-se que a Rename 2024 traz apenas o comprimido de 300 mg, sem apresentação injetável, de modo que a via recomendada para o período inicial não tem correspondente no elenco federal.
Laranjeira R et al., Rev Bras Psiquiatr 2000;22(2):62-71, seção 11, parágrafo sobre reposição vitamínica. AMB/ABP/SBMFC, Projeto Diretrizes, 31/03/2012, mesma passagem. E Brasil, Ministério da Saúde, Rename 2024, cloridrato de tiamina, código A11DA01.
Dar tiamina prontamente, preferencialmente antes ou junto quando possível; nunca atrasar glicose emergencial na hipoglicemia por aguardar tiamina. Em suspeita de Wernicke, usar via parenteral conforme protocolo. O que se decide caso a caso é dose e via, e a decisão tem três entradas: o que a farmácia tem, se o paciente está absorvendo por via oral neste momento, e a gravidade do quadro. Paciente aceitando dieta e com quadro leve resolve-se com o comprimido; paciente vomitando, em jejum ou confuso precisa de via parenteral, e é isso que se pede à farmácia pelo nome. Escreva na evolução a dose, a via e o motivo da via escolhida — porque a próxima equipe vai precisar saber se ele recebeu de fato, e porque nenhum documento brasileiro fecha essa questão por você.
O raciocínio, em voz alta
Quinta-feira, 6h40, enfermaria de clínica médica. Laudelino Jaguaribe tem 58 anos, 64 quilos, é vigia noturno de um depósito de material de construção e cumpre o terceiro dia de internação por pneumonia da comunidade. Você é o interno e chegou cedo para evoluir. A técnica que sai do plantão noturno diz que ele passou a noite acordado, andando pelo quarto, e que pediu para ir embora duas vezes. Na folha: frequência cardíaca 112, pressão 158 por 96, temperatura 37,4, saturação 96% em ar ambiente. A prescrição do dia anterior tem uma linha nova, escrita pelo plantonista da noite: um antipsicótico sedativo em dose única, se agitação. No campo de hábitos da admissão está escrito nega etilismo. Sobre o criado-mudo, o jantar e o café da véspera, os dois intactos.
Passo 1 — reconstruir o relógio antes de qualquer coisa
Antes de examinar, o interno faz as quatro perguntas ao paciente, com a porta fechada e sem a família na sala. Laudelino responde que toma "umas cervejas" no fim do plantão, todo dia, de manhã, ao chegar em casa. Perguntado em embalagens, diz que são quatro ou cinco latas. Perguntado pela última vez, diz que foi na manhã do dia em que veio para o hospital — o que coloca a admissão como hora zero e a manhã de hoje na hora 58 do relógio da retirada. Perguntado se já parou antes e passou mal, responde que uma vez, quando ficou internado para operar a vesícula, "deu um troço" e ele acordou na sala de emergência sem lembrar do que aconteceu.
Passo 2 — ler a resposta pelo que ela classifica
Esse relato tem duas informações que mudam tudo. A primeira é a hora: 58 horas desde a última dose colocam o paciente dentro da janela em que os documentos brasileiros situam tanto a passagem ao quadro grave, por volta das 48 horas, quanto o início do delirium tremens, entre o primeiro e o quarto dia por um documento e após 72 horas pelo outro. A segunda é o episódio antigo com perda de consciência durante uma internação anterior, que descreve uma crise convulsiva de abstinência e que, pelos critérios do Consenso de 2000, já classifica este paciente como nível II pela história pregressa, mesmo antes de qualquer alucinação.
Passo 3 — excluir o que imita, sem esperar para começar
Glicemia capilar imediata: 104. Exame neurológico sem sinal focal, pupilas simétricas, sem sinal de trauma craniano. Sem rigidez de nuca. A pneumonia está melhor: menos tosse, ausculta com estertores em redução, saturação boa em ar ambiente, afebril desde a véspera. Sódio, potássio, magnésio e função renal são colhidos, junto com hemograma e provas hepáticas. O interno não espera os resultados para começar, porque história e cronologia são compatíveis e a hora perdida não volta.
Passo 4 — suspender a linha errada da prescrição
O antipsicótico sedativo prescrito "se agitação" sai da folha. Neste paciente ele apagaria a manifestação sem tratar o mecanismo, e a classe dos sedativos de baixa potência aparece explicitamente na lista do que não fazer do Consenso, por poder induzir convulsões — justamente o desfecho que este paciente já teve uma vez. O interno escreve o motivo da suspensão na evolução, em uma linha, para que o plantonista da noite não a reintroduza.
Passo 5 — combinar a escala antes de precisar dela
Às 7h05, antes da visita, o interno vai ao posto e combina três coisas com a enfermagem, e as escreve na prescrição: qual escala de abstinência será aplicada, de quanto em quanto tempo — de hora em hora enquanto o escore estiver acima do gatilho — e qual escore dispara a dose. Combinar isso às sete da manhã é o que torna possível executá-lo às três da madrugada. A escala impressa é colada na prancheta do leito.
Passo 6 — a tiamina, e o soro que ninguém tinha olhado
A prescrição tem soro glicosado a 5% correndo desde a admissão, porque o paciente não estava comendo. São três dias de carga de glicose num homem que bebe cinco latas por dia e não janta. A tiamina 300 mg é prescrita imediatamente, e o interno liga para a farmácia hospitalar para saber se há apresentação injetável — porque o elenco federal só traz o comprimido, e o paciente está aceitando dieta apenas parcialmente. A hidratação é mantida, agora com a tiamina correndo antes.
Passo 7 — tratar por escore, não por horário
Às 8h20 a enfermagem aplica a escala e o escore está acima do gatilho combinado. É administrada a primeira dose de diazepam por via oral, dentro da faixa que o Consenso indica para o esquema hospitalar por sintomas. Às 9h20 o escore ainda está acima e a dose se repete. Às 10h20 ele cai abaixo do gatilho e nada é administrado — e é esse "nada" que caracteriza o esquema por sintomas. A frequência cardíaca cai para 96 ao longo da manhã, a pressão para 142 por 88, e a sudorese cessa.
Passo 8 — a evolução que a próxima equipe vai ler
A evolução do dia não diz "etilista crônico, em abstinência". Diz: quatro a cinco latas por dia, diariamente; última dose na manhã da admissão, há 58 horas; episódio prévio compatível com crise convulsiva em internação anterior; classificado como nível II pela história pregressa; escala aplicada de hora em hora a partir das 8h20, com os escores anotados; diazepam administrado às 8h20 e às 9h20, suspenso às 10h20 por escore abaixo do gatilho; tiamina iniciada, via a confirmar com a farmácia; antipsicótico sedativo suspenso pelo risco convulsivante; vigilância mantida por pelo menos mais 48 horas. Qualquer pessoa que assuma este paciente sabe agora em que hora do relógio ele está.
Faça você
Terça-feira, dez e vinte da manhã, unidade básica de saúde. Deoclécio Lamarão tem 47 anos, é ajudante numa marcenaria, e veio buscar o resultado de exames pedidos há um mês por causa de dor de estômago. Os exames estão normais, exceto por gama-glutamil transferase pouco acima do limite superior. Ele não tem queixa hoje. Perguntado em embalagens, conta que bebe nos fins de semana: sexta, sábado e domingo, cerca de seis latas de 350 mL por dia. Durante a semana não bebe. Nunca teve tremor, nunca precisou beber de manhã, nunca faltou ao trabalho por causa disso, e ninguém nunca reclamou. Aplicado o questionário de dez perguntas na versão do Caderno de Atenção Básica n.º 34, ele soma 7 pontos. Faltam vinte minutos para o fim da manhã e há mais quatro pessoas na sala de espera.
Passo 1 — converter o relato em gramas antes de decidir qualquer coisa
Seis latas de 350 mL a 5% dão, pela fórmula da Nota Técnica Conjunta n.º 263/2024, cerca de 13,8 g de álcool por lata e 82,9 g na ocasião. Isso está acima do limiar de 60 g que a mesma nota adota, seguindo a Organização Mundial da Saúde, para caracterizar consumo episódico pesado — e acontece três vezes por semana. O paciente que "não bebe durante a semana" está tendo três episódios de consumo pesado por semana, cerca de 150 por ano.
Passo 2 — reler o escore sabendo o que entra nele e o que fica de fora
Sete pontos caem na primeira faixa do caderno, a de prevenção primária. Mas o escore foi montado contando doses na régua do caderno, em que uma lata vale uma dose; contadas em doses-padrão federais de 10 g, as seis latas seriam 8,3 unidades, e a segunda pergunta subiria de faixa. O escore está na fronteira, e a fronteira dos 7 para os 8 é a que separa não fazer nada de conversar. Além disso, a gama-glutamil transferase pouco alterada não gradua nada — os próprios documentos registram correlação pequena entre marcadores biológicos e gravidade —, mas ela é um achado que abre a conversa sem acusar ninguém.
Passo 3 — separar as duas perguntas que parecem uma só
Uso de risco e dependência não são graus da mesma coisa. Deoclécio não tem fissura, não tem perda de controle relatada, não tem tolerância crescente descrita e nunca teve sinal de abstinência — os quatro elementos que o Projeto Diretrizes lista para a síndrome de dependência. O que ele tem é padrão de consumo que eleva a probabilidade de dano, com um marcador hepático que já começou a se mexer. É exatamente a faixa para a qual a intervenção breve foi construída, e para a qual o Caderno de Atenção Básica declara que ela é indicada.
Passo 4 — o que cabe nos vinte minutos que restam, e o que fica para o retorno
A intervenção breve dura de cinco a trinta minutos e tem, no caderno federal, duas etapas: dimensionar o problema com o instrumento padronizado, que já foi feito, e oferecer aconselhamento, orientação e monitoramento periódico das metas que o próprio paciente assumir. O que a caracteriza não é o conteúdo da informação e sim quem decide a meta: o caderno enfatiza o estímulo à autonomia, atribuindo à pessoa a capacidade de assumir a iniciativa e a responsabilidade pelas próprias escolhas. Não cabe hoje um plano completo; cabe devolver o número, perguntar o que ele acha desse número, e marcar retorno.
Ver como fecharíamos
A conduta é fazer a intervenção breve hoje, nesta consulta, e marcar retorno — e não pedir mais exames, não encaminhar e não prescrever. O caminho tem quatro movimentos e cabe no tempo que sobrou. Primeiro, devolver o dado em vez do rótulo: dizer que o que ele descreve dá cerca de 83 gramas de álcool em cada ocasião, que a régua brasileira considera consumo pesado a partir de 60, e que isso acontece três vezes por semana. Segundo, ligar o dado ao que ele veio buscar: a enzima do fígado que veio acima do normal é o primeiro sinal mensurável disso, e é reversível nesta fase. Terceiro, perguntar o que ele quer fazer com esse número, e deixar a meta ser dele — reduzir o número de latas, cortar um dos três dias, ou apenas pensar até o retorno; a meta escolhida pelo paciente é o que o caderno federal chama de estímulo à autonomia, e é o mecanismo da intervenção. Quarto, marcar retorno com data e registrar no prontuário o escore, a versão do instrumento usada, o consumo convertido em gramas e a meta pactuada — porque o monitoramento periódico do sucesso em atingir as metas é a segunda metade da intervenção, e sem retorno ela não existe. O que não se faz: não se pede ultrassonografia de abdome por uma enzima pouco alterada em paciente assintomático, não se encaminha ao centro de atenção psicossocial alguém que não é dependente e não se prescreve fármaco anti-fissura — que, além de não indicado nesta faixa, não está no elenco federal.
O registro de negativa de etilismo na admissão costuma ser o resultado de uma pergunta de sim ou não feita no corredor do pronto-socorro, e tem baixa sensibilidade por construção. Reconstruir a história de consumo com três medidas — quantidade em embalagens concretas, frequência semanal e, sobretudo, data e hora da última dose — é o que transforma o quadro em previsão, porque toda a cronologia da síndrome de abstinência está ancorada na última dose e não na internação. A quarta pergunta, sobre episódio prévio de abstinência complicada, classifica gravidade de graça: o Consenso brasileiro de 2000 inclui quadros epileptiformes relatados na história pregressa entre os critérios do nível II. Sedar com antipsicótico apaga a manifestação sem tratar o mecanismo e, nos sedativos de baixa potência, pode induzir convulsão. Investigação de neuroimagem e liquor não é o primeiro passo diante de paciente orientado, sem foco neurológico e sem febre alta, embora permaneça no diferencial. Hidratar com solução glicosada antes de repor tiamina é, nesse perfil de paciente, o gesto que pode precipitar encefalopatia de Wernicke. E a infecção está melhorando: um paciente que piora enquanto a doença que motivou a internação melhora exige revisão da hipótese, não intensificação do tratamento dela.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Recuperação ativa em sete dias. Reconstrua quantidade, última ingestão e complicações prévias. Explique por que CIWA-Ar não serve para todo paciente delirante. Responda antes de reler e depois confira onde faltou justificar uma decisão.
Em 30 dias
Aplicação em trinta dias. Simule abstinência com hepatopatia ou rebaixamento e escolha nível de cuidado. Na alta, conecte tratamento da fase aguda ao cuidado do uso de álcool, com metas e alternativas terapêuticas. Use dados observados, reconheça o que ainda não sabe e peça comparação com a avaliação do supervisor.
Agora atenda
Agora atenda: enfermaria de clínica médica, quatro da manhã, homem de 54 anos internado há dois dias por celulite, agora tremendo, sudoreico, taquicárdico e hipertenso, com a bandeja do jantar intacta e "nega etilismo" escrito na admissão. Reconstrua o relógio da última dose, classifique a gravidade, exclua o que imita, decida se e como gradua, e escreva a prescrição — sabendo que a ordem entre duas linhas dela importa mais do que qualquer dose.
