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Outras EspecialidadesPsiquiatria

Transtornos por uso de outras substâncias: avaliação, redução de danos e seguimento

Cocaína/crack, cannabis, opioides e benzodiazepínicos: reconhecer risco, construir um plano compartilhado e sustentar o cuidado depois da crise.

Fontes deste capítulo

ASAM/AAAP. Clinical Practice Guideline on the Management of Stimulant Use Disorder. 2024.

ASAM e sociedades parceiras. Joint Clinical Practice Guideline on Benzodiazepine Tapering. 2025.

OMS. Atualização sobre tratamento da dependência de opioides e prevenção de overdose, comunicação de 2 de abril de 2026.

OMS. Opioid overdose. 2025.

Ministério da Saúde. Centros de Atenção Psicossocial.

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Responda antes de ler

Rafael usa cocaína, relata tristeza depois do consumo e pede remédio para dormir. Qual é a melhor abordagem inicial?

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O paciente que você vai ver

Rafael, 29 anos, entregador, procura a unidade por insônia. Depois de alguns minutos, conta que usa cocaína em três ou quatro noites por semana e começou a fumar crack quando encontra um grupo de conhecidos. Diz que pretende diminuir, mas não promete parar. Nas manhãs seguintes sente tristeza intensa; para dormir, toma clonazepam emprestado. Hoje está desperto, cooperativo, sem dor torácica, dispneia ou agitação. Sinais vitais estão estáveis.

O interno pensa em duas saídas rápidas: uma receita para dormir ou um encaminhamento ao CAPS AD. A preceptora pergunta o que acontecerá com Rafael esta noite e quem o verá na próxima semana. Sem avaliar suicídio, combinações de substâncias, padrão de uso e condições de vida, nenhuma das duas saídas constitui um plano de cuidado.

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Quem adoece disso

O padrão local de consumo importa mais para a consulta que importar automaticamente números de outro país. Pergunte o nome usado pela pessoa, a apresentação, a via e o que ela acredita estar consumindo; composição e potência podem ser incertas. Evite presumir que uma substância vendida sob certo nome tem conteúdo conhecido. A combinação de produtos prescritos e não prescritos é particularmente fácil de passar despercebida.

Vulnerabilidade social, violência, moradia instável, dor, transtornos mentais e barreiras de acesso podem modificar risco e possibilidade de seguir o plano. Não são critérios para julgar caráter nem para negar tratamento. Um plano que exige dinheiro, telefone ou apoio familiar que a pessoa não tem precisa ser reconstruído com ela.

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Por que acontece o que acontece

Substâncias podem reforçar um comportamento por produzir prazer, aliviar sofrimento ou evitar abstinência. Repetição, pistas ambientais, disponibilidade e contexto social ajudam a manter o ciclo. Tolerância significa redução de efeito com exposição repetida ou necessidade de doses maiores para efeito semelhante. Dependência física significa adaptação que pode produzir abstinência na redução ou interrupção. Transtorno por uso envolve um padrão com prejuízo ou sofrimento e alterações de controle; nenhum desses conceitos se resume à quantidade usada em um único dia.

As consequências dependem do mecanismo e da combinação. Estimulantes aumentam ativação e podem produzir vasoconstrição, hipertermia e complicações cardiovasculares ou psiquiátricas. Opioides deprimem a ventilação; álcool, benzodiazepínicos e outros sedativos podem ampliar esse risco. Benzodiazepínicos modulam a transmissão GABAérgica, e retirada abrupta após adaptação pode provocar hiperexcitabilidade grave. Cannabis pode alterar atenção, coordenação e percepção; frequência, potência, idade de início e vulnerabilidade psiquiátrica importam na avaliação.

Esses mecanismos ajudam a explicar Rafael: usar um depressor para compensar uma noite de estimulante não “equilibra” o organismo. Produz novas exposições e pode acrescentar dependência, acidentes ou sedação. A consulta precisa olhar o ciclo completo, incluindo o período de tristeza e exaustão depois do uso.

Cinco cenas do mesmo adulto: estresse, contexto social, alívio, prejuízo funcional e consulta.
Sequência ilustrativa: estresse cotidiano, contexto social associado ao uso, alívio breve, repercussão funcional e conversa com a equipe. O ciclo varia entre pessoas e substâncias. O plano pode atuar em vários pontos, com redução de danos, cuidado das comorbidades e seguimento, além de discutir metas de uso ou abstinência.
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Como se apresenta de verdade

Este capítulo acompanha a consulta que começa antes de existir disposição para abstinência e continua depois de uma crise. Ao final, você deverá diferenciar exposição, uso problemático, dependência física e transtorno por uso de substância; reconhecer intoxicação ou abstinência que exige outro nível de cuidado; e construir um plano inicial com metas, redução de danos e retorno definido.

Aprender para cuidar no internato. Avaliar combinações, riscos e metas de redução de danos, articulando crise e cuidado longitudinal. Ao discutir o caso com o preceptor, explicite os achados que sustentam a hipótese, uma alternativa relevante, a decisão que precisa ocorrer agora e o que fará mudar o plano. O resultado esperado é uma ação clínica justificada e acompanhada, além de reconhecer o diagnóstico.

Como usar este capítulo

O foco está em cocaína/crack, cannabis, opioides e benzodiazepínicos. Álcool e tabagismo têm capítulos próprios. O manejo detalhado de intoxicações agudas pertence também à Toxicologia; aqui ele aparece como triagem e transição para continuidade do cuidado. Substâncias prescritas entram na mesma história clínica: a origem em uma receita não elimina riscos, e dependência física em uso terapêutico não prova compulsão ou uso descontrolado.

O interno faz a entrevista, reconhece urgências, examina, propõe e acompanha o plano com supervisão. A escolha e a titulação de medicamentos para dependência ou abstinência exigem avaliação individual, recursos e monitorização apropriados. Essa delimitação não é motivo para adiar escuta, prevenção de dano ou articulação da rede.

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Como fechar o diagnóstico

Comece de modo direto e sem julgamento: “Pergunto sobre álcool, remédios e outras substâncias porque podem interferir no sono, no humor e na segurança do tratamento. O que você tem usado?” Converse em ambiente reservado, explique o sigilo e seus limites clínicos e permita que a pessoa conte com suas próprias palavras. Se houver acompanhante, ofereça parte da consulta individual.

1. Reconstruir um padrão, não recolher uma confissão

Para cada substância, registre apresentação, via, frequência, quantidade aproximada, último uso, duração do padrão e combinações. Pergunte por tentativas de reduzir, fissura, perda de controle, tempo gasto para obter ou se recuperar, prejuízo no trabalho e relações, uso em situações perigosas e persistência apesar de danos. Investigue tolerância e abstinência, contextualizando medicamentos prescritos. Instrumentos como ASSIST podem organizar o rastreio, mas não substituem diagnóstico nem avaliação de urgência.

Pergunte sobre overdoses, atendimentos prévios, convulsões, delirium de abstinência, períodos sem uso e tratamentos que ajudaram ou prejudicaram. Reconstrua a semana típica e a semana mais difícil. Em Rafael, o clonazepam não deve ficar registrado apenas como “eventual”: é necessário descobrir dose, número de dias consecutivos, origem e sintomas quando não toma.

2. Avaliar a urgência antes de negociar metas

Verifique consciência, respiração, circulação, temperatura, glicemia quando indicada e exame orientado pelos sintomas. Dor torácica, cefaleia abrupta, déficit focal, hipertermia, convulsão, psicose intensa, agitação grave, depressão respiratória ou rebaixamento exigem atendimento de emergência. Não atribua automaticamente toda alteração ao consumo: trauma, infecção e doença metabólica podem coexistir.

Pergunte diretamente sobre vontade de morrer, pensamentos suicidas, plano, meios disponíveis e tentativas anteriores. Intoxicação pode limitar a avaliação; reavalie quando houver condições, mantendo proteção conforme o risco. A fase de queda do efeito de estimulantes pode acompanhar disforia importante. Ausência de agitação não significa ausência de risco de suicídio. Pergunte também por violência sofrida, segurança no domicílio e responsabilidade por crianças ou outras pessoas dependentes.

3. Examinar e pedir exames com finalidade

Além do estado mental e sinais vitais, procure sinais de trauma, infecção, complicações cardiovasculares, comprometimento respiratório, estado nutricional, saúde bucal e lesões relacionadas às vias de uso, com consentimento. Discuta testes para HIV, hepatites e outras infecções conforme exposições, além de vacinação e saúde sexual e reprodutiva. ECG, eletrólitos, função renal, CK e outros exames dependem da suspeita clínica; não são um pacote obrigatório para toda consulta estável.

Testes toxicológicos podem ajudar em perguntas específicas, mas têm janelas de detecção, reações cruzadas e substâncias que não detectam. Um resultado positivo não mede sozinho intoxicação atual ou gravidade, e um negativo não exclui toda exposição. Explique a finalidade e discuta confirmação quando o resultado puder mudar uma decisão importante. Não use o teste como punição ou condição automática para continuar atendendo.

4. Diferenciar o problema de sono e humor

Pergunte se insônia, ansiedade ou depressão já existiam antes do consumo, se persistem em períodos sem uso e como se relacionam temporalmente com intoxicação e abstinência. História familiar, episódios de mania, psicose prévia e medicamentos ajudam na formulação. Em alguns casos, o diagnóstico precisa de seguimento longitudinal; isso não impede tratar sofrimento e risco agora.

Evite tanto chamar toda depressão de efeito da droga quanto iniciar um sedativo para encerrar a consulta. Em Rafael, a tristeza após o uso exige avaliação suicida e reavaliação programada, enquanto o padrão de sono exige um plano que considere turnos de trabalho, estimulantes e uso de clonazepam.

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Quatro grupos, prioridades diferentes

Esta tabela orienta a entrevista e o destino. Não substitui protocolos de intoxicação ou indução farmacológica.

  1. 1Há instabilidade, risco suicida iminente, psicose grave ou abstinência complicada? Organize cuidado de emergência.
  2. 2Se estável, descreva o padrão e os prejuízos de cada substância, incluindo prescritas.
  3. 3Negocie uma meta possível e intervenções para reduzir risco hoje.
  4. 4Defina acompanhamento, coordenação com CAPS AD quando indicado e critérios de antecipação do retorno.

O que não pode faltar

GrupoProblemas prioritáriosDireção do cuidado continuado
Cocaína/crack e outros estimulantesDor torácica, hipertermia, psicose; disforia e suicídio após usoIntervenções psicossociais, manejo de contingências quando disponível, comorbidades e apoio social.
CannabisPrejuízo cognitivo/funcional, direção, pânico, psicose, vômitos recorrentesAbordagem motivacional e comportamental; rever potência, frequência e metas.
OpioidesDepressão respiratória, combinações sedativas, risco após perda de tolerânciaTratamento medicamentoso apropriado, prevenção de overdose e apoio psicossocial.
BenzodiazepínicosSedação, quedas, combinação com opioides/álcool, retirada abruptaAvaliar indicação, dependência física e redução gradual individualizada quando indicada.

Redução de danos e abstinência podem integrar o mesmo plano. Atendimento não depende de promessa de parar.

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A conduta, hora a hora

O plano deve ter ações para hoje, responsáveis e data de retorno. Na continuação fictícia da consulta, Rafael informa clonazepam 0,5 mg em duas noites por semana nas últimas seis semanas, sem uso diário prévio ou sintomas claros de retirada. A equipe não identifica intoxicação, psicose, sinais atuais de abstinência nem risco suicida iminente; ele nega plano e intenção, mas confirma disforia após o uso. Esses dados sustentam seguimento próximo, com reavaliação, e não uma prescrição automática de sedativo. Ele aceita não dirigir após consumo, discutir os contextos de maior risco e procurar cuidado no CAPS AD. Uma meta só é útil quando ele consegue explicar como tentará cumpri-la e o que fará se não conseguir.

Estimulantes: tratamento além da desintoxicação

O cuidado inclui intervenções motivacionais, terapia cognitivo-comportamental, apoio à reorganização da rotina e tratamento de comorbidades. A diretriz ASAM/AAAP de 2024 destaca o manejo de contingências como componente central: reforços previamente combinados para comportamentos terapêuticos verificáveis, aplicados por um programa estruturado. Isso não equivale a um profissional oferecer dinheiro de maneira improvisada nem a punir recaídas.

Há opções farmacológicas off-label para situações selecionadas, mas não uma receita universal para cocaína/crack que o interno deva iniciar automaticamente. A decisão depende de avaliação especializada, padrão de consumo, comorbidades e monitorização. Não substitua esse processo por benzodiazepínico crônico para “dormir depois”. Se houver dor torácica ou sinais neurológicos durante seguimento, a prioridade volta a ser a emergência.

Cannabis: função, sofrimento e comorbidades

Explore prejuízo escolar ou profissional, memória, motivação, direção e relações, sem presumir que todos os sintomas são causados pela cannabis. Redução ou suspensão pode acompanhar irritabilidade, ansiedade, alterações de sono e apetite; ofereça suporte e retorno. Psicose, risco suicida ou incapacidade de autocuidado mudam o nível de atenção. Vômitos recorrentes em usuário frequente podem levantar hipótese de hiperêmese canabinoide, mas não dispensam avaliação de outras causas e de desidratação.

Intervenções motivacionais e comportamentais sustentam o cuidado. Não há indicação de prescrever um medicamento universal para todo transtorno por uso de cannabis. Trate comorbidades de forma fundamentada e acompanhe o que muda com a redução do consumo. Gestação e adolescência exigem abordagem adaptada e integração com as respectivas equipes.

Opioides: prevenir morte e oferecer tratamento efetivo

Diante de suspeita de overdose com respiração deprimida, acione emergência, apoie ventilação e administre naloxona conforme apresentação e protocolo disponíveis. Não espere confirmação toxicológica. Após a reversão, observe porque a sedação pode reaparecer. A naloxona reverte o efeito opioide agudo; não substitui tratamento da dependência.

No seguimento, metadona e buprenorfina são opções de tratamento agonista com benefício estabelecido; a comunicação da OMS de abril de 2026 reafirma esse papel. Sua indicação, acesso e início dependem de equipe habilitada e protocolo local. Naltrexona é antagonista usado em situações selecionadas e exige avaliar abstinência prévia para evitar precipitação. Buprenorfina também pode precipitar abstinência se iniciada de modo inadequado; não improvise indução sem avaliação do opioide utilizado e do estado clínico.

Explique que períodos sem uso reduzem tolerância: retornar à dose anterior pode causar overdose. Discuta evitar combinações sedativas, não ficar sozinho em situação de risco, reconhecimento de respiração anormal e acesso a naloxona e treinamento quando disponíveis. Desintoxicação isolada não encerra o tratamento. Planeje continuidade já na transição da urgência.

Benzodiazepínicos: retirar com segurança quando indicado

Dependência física pode surgir durante uso prescrito e não deve ser rotulada automaticamente como transtorno por uso. Avalie riscos e benefícios, indicação atual, dose, duração, outras substâncias e antecedentes de retirada. Se houver dependência física, interrupção abrupta pode provocar convulsões ou delirium. Não transforme preocupação com uso crônico em suspensão brusca.

A diretriz conjunta de 2025 sugere, em geral, começar reduções de 5% a 10% a cada 2 a 4 semanas, com adaptação à resposta. Isso é ponto de partida, não calendário obrigatório: sintomas podem exigir pausa ou ritmo mais lento, e risco de abstinência grave pode demandar cuidado hospitalar. Trate também a condição original, como insônia ou ansiedade, com alternativas apropriadas. A apresentação disponível deve permitir os ajustes; não proponha fracionamentos impraticáveis.

Redução de danos e rede: transformar orientação em acesso

Negocie evitar misturas sedativas, direção e operação de máquinas sob efeito; discuta sono, alimentação, saúde sexual, vacinação e materiais de uso não compartilhados. Se houver vulnerabilidade importante, articule assistência social, Consultório na Rua e outros recursos disponíveis. A orientação não deve pressupor que a pessoa dispõe de casa, família ou dinheiro.

O CAPS AD oferece cuidado especializado para necessidades relacionadas a álcool e outras drogas, e a atenção primária mantém seu papel. Faça articulação com motivo clínico, risco atual, metas e retorno; a entrada na rede não pode se resumir a entregar um papel. Não prometa disponibilidade de uma formulação farmacológica ou serviço sem verificar localmente. Ausência de um recurso exige adaptar e articular cuidado, não abandonar o paciente.

Conversas que mudam o próximo episódio. Pedir à pessoa que explique o que fará se um acompanhante parar de respirar: acionar emergência, suporte ventilatório conforme treinamento e naloxona quando disponível, sem abandono após despertar. Após período sem opioides, tolerância reduzida aumenta risco de overdose. Para transtorno por uso de opioides, discutir tratamento com agonistas/agonistas parciais em serviço habilitado, não apenas desintoxicação. Para estimulantes, manejo de contingências e outras intervenções estruturadas têm papel central; medicamentos off-label exigem seleção especializada, sem promessa de uma cura farmacológica única.

  1. Hoje

    Avaliar urgência, substâncias e combinações com história sem julgamento. Em Rafael, caracterizar dose/frequência do clonazepam, tristeza após estimulantes, risco suicida, sono e direção. Negociar meta verificável para a semana e explicar sinais que exigem emergência. Diante de suspeita de opioide com depressão respiratória, apoiar ventilação e naloxona conforme protocolo, mantendo observação por risco de recorrência. Não exigir abstinência para oferecer cuidado.

  2. Em uma semana, ou antes se houver piora

    No retorno, comparar dias de uso, episódios de maior risco, sono, trabalho, humor e metas pactuadas. Distinguir o que não funcionou por barreira concreta do que exige mudança de intensidade do tratamento. Conferir se acessou UBS/CAPS AD e se houve nova mistura de depressoras. Antecipar retorno diante de abstinência relevante, psicose, dor torácica ou risco suicida; seguimento não deve depender de teste toxicológico negativo.

  3. Nas consultas seguintes

    Ajustar intensidade do cuidado conforme resposta e risco, mantendo metas funcionais e prevenção de overdose.

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Como saber se está funcionando

Rafael volta em uma semana. Usou cocaína em uma noite, mas não dirigiu depois e procurou apoio antes de usar clonazepam. O retorno não é classificado como fracasso por não haver abstinência. Compare dias de uso, prejuízos, segurança, sono, humor, risco suicida e participação no cuidado. Pergunte o que antecedeu o episódio e qual parte do plano foi inviável.

Se houver escalada, perda de autocuidado, psicose, risco suicida ou abstinência complicada, aumente intensidade e nível do cuidado. Se faltar à consulta, discuta busca e contato pelos meios autorizados no serviço, protegendo privacidade. Meça também ganhos funcionais: dormir com mais regularidade, retomar atividade, reduzir acidentes e conseguir acessar a equipe. Esses desfechos coexistem com a meta de reduzir ou interromper o consumo.

Aplicação em Lúcia. Redução de benzodiazepínico acompanha sintomas e função: em uso prolongado, um ponto de partida frequente é reduzir 5–10% a cada 2–4 semanas, ajustando e muitas vezes desacelerando ao final. Não é cronograma obrigatório. Confusão, crise convulsiva, instabilidade ou uso combinado de alto risco mudam o nível de cuidado. Pausar ou reduzir o ritmo pode ser necessário; dependência física não equivale automaticamente a transtorno por uso.

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Onde o erro machuca

Exigir abstinência para acolher

O dano: Afasta a pessoa quando ainda há oportunidade de prevenir dano.

Como pegar a tempo: Ofereça cuidado, negocie metas e reavalie.

Confundir dependência física com compulsão

O dano: Estigmatiza uso terapêutico e pode gerar retirada insegura.

Como pegar a tempo: Avalie separadamente adaptação fisiológica, controle e prejuízos.

Suspender benzodiazepínico crônico abruptamente

O dano: Pode precipitar abstinência grave.

Como pegar a tempo: Defina redução individualizada com supervisão e nível de cuidado adequado.

Dar alta após naloxona sem observação ou continuidade

O dano: Pode perder recorrência de sedação e novo episódio.

Como pegar a tempo: Siga monitorização e organize prevenção e tratamento longitudinal.

Usar toxicológico como sentença diagnóstica

O dano: Ignora limitações analíticas e contexto.

Como pegar a tempo: Use o exame para uma pergunta clínica e confirme quando necessário.

Encaminhar ao CAPS AD e encerrar a responsabilidade da UBS

O dano: Fragmenta cuidado e favorece perda de seguimento.

Como pegar a tempo: Compartilhe plano, responsável e data de retorno.

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O que dizer ao paciente e à família

“Rafael, você não precisa prometer parar para ser atendido. Quero entender o que o uso está causando e o que você topa mudar primeiro. Também preciso perguntar sobre aquela tristeza depois das noites de uso, porque sua segurança faz parte do tratamento.” Depois da avaliação, combine uma meta específica e peça que ele explique o plano com suas palavras.

Sobre clonazepam: “Antes de orientar qualquer mudança, preciso saber exatamente quanto e há quanto tempo você toma. Em algumas situações, parar de repente é perigoso.” Sobre recaída: “Vamos entender o que aconteceu e ajustar o plano.” Evite “limpo”, “sujo” ou “sem força de vontade”; termos objetivos melhoram a comunicação clínica e a confiança.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Meta de abstinência e redução de danos

Abstinência como objetivo

Pode ser a meta escolhida e clinicamente desejável, conforme situação e preferência.

Plano terapêutico individualizado.

Redução de danos

Permite agir sobre risco e sofrimento mesmo quando ainda há consumo.

OMS e organização do cuidado psicossocial.

Como decidir

Combine metas realistas sem condicionar acesso. Risco agudo exige proteção independentemente da meta de longo prazo.

Evidência internacional e acesso local

Tratamento com evidência

Define opções eficazes para quadros selecionados.

OMS, comunicação de abril de 2026; ASAM/AAAP 2024.

Implementação no serviço

Depende de equipe, disponibilidade, formulação e seguimento.

Rede assistencial local.

Como decidir

Explique a opção baseada em evidência e confira como acessá-la. Não confunda falta local com ineficácia nem prometa acesso não confirmado.

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O raciocínio, em voz alta

Rafael chega por insônia, relata uso de cocaína/crack e clonazepam, está clinicamente estável e aceita reduzir riscos, sem prometer abstinência.

  1. Definir o que falta

    Quantificar padrão de cada substância, combinações, último uso, perda de controle e prejuízos; esclarecer duração e dose do clonazepam.

  2. Avaliar segurança

    Pesquisar suicídio, psicose, sintomas cardiovasculares e possibilidade de abstinência de sedativos.

  3. Construir plano

    Negociar metas, não dirigir sob efeito, evitar combinações, abordar sono e articular cuidado especializado quando indicado.

  4. Manter continuidade

    Marcar retorno em uma semana ou antes se piorar; definir onde procurar ajuda na crise e manter seguimento pela UBS.

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Faça você

Lúcia, 62 anos, usa clonazepam diariamente há oito anos, na mesma dose prescrita. Não relata busca compulsiva, mas teve quedas. Um familiar retirou todos os comprimidos ontem. Ela está ansiosa e tremendo e diz que não quer “ser tratada como viciada”.

  1. Diferencie

    O uso descrito permite concluir transtorno por uso de benzodiazepínico?

  2. Priorize

    Qual risco precisa ser avaliado hoje?

  3. Planeje

    Como conversar e estruturar a revisão do tratamento?

Ver como fecharíamos

Não é possível concluir transtorno por uso apenas pela exposição prolongada: dependência física e comportamento compulsivo são conceitos diferentes. Avaliar prontamente abstinência após interrupção abrupta, sinais vitais, estado mental, outras substâncias e antecedentes de convulsão, com supervisor; decidir estabilização e nível de cuidado conforme gravidade. Explicar o risco sem estigma e rever a indicação diante das quedas. Se a redução for indicada, organizar plano gradual e individualizado, acompanhamento e tratamento da condição original, sem impor calendário rígido ou deixar a paciente sem avaliação.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Insônia é a porta de entrada, mas a consulta precisa avaliar segurança e contexto. Sedação automática, exigência de abstinência e encaminhamento sem avaliação perdem riscos tratáveis.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Recuperação ativa em sete dias. No caso de Rafael, liste o que ainda precisa saber sobre clonazepam e tristeza após uso. Explique por que retorno após consumo não é motivo para exclusão. Responda antes de reler e depois confira onde faltou justificar uma decisão.

Em 30 dias

Aplicação em trinta dias. Planeje uma semana de cuidado com meta verificável, contingência para overdose e seguimento. Em Lúcia, ajuste retirada pela evolução e diferencie dependência física de transtorno por uso. Use dados observados, reconheça o que ainda não sabe e peça comparação com a avaliação do supervisor.

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Agora atenda

No atendimento vinculado, diferencie dependência física, perda de controle e prejuízos; avalie abstinência, risco suicida e continuidade do tratamento.

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