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Ninguém chega no primeiro dia
Esquizofrenia e transtornos psicóticos: primeiro episódio, exclusão de causa orgânica e os antipsicóticos que o SUS entrega
A pessoa em primeiro surto quase nunca chega ao psiquiatra primeiro: chega ao pronto-socorro, ao posto, à enfermaria — e chega tarde. Este capítulo é sobre descrever psicose sem interpretar, excluir causa orgânica antes de dar nome, e prescrever dentro do que a Rename de fato entrega. A régua brasileira é de 2013, não fala do primeiro episódio, e exige um familiar para liberar o remédio.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Portaria SAS/MS nº 364, de 9 de abril de 2013, que aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas — Esquizofrenia. Publicada com o Anexo (o Protocolo) e assinada por Helvécio Miranda Magalhães Júnior.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos em Saúde. Portaria Conjunta nº 07, de 14 de maio de 2021, que aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Transtorno Esquizoafetivo.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Saúde Mental. Cadernos de Atenção Básica, nº 34. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. 1ª edição, tiragem de 50.000 exemplares.
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 254 p.
Associação Médica Brasileira; Associação Brasileira de Psiquiatria; Sociedade Brasileira de Pediatria. Primeiro Episódio Psicótico (PEP): Diagnóstico e Diagnóstico Diferencial. Projeto Diretrizes. Elaboração final: 31 de março de 2012.
Haldol® decanoato, solução injetável de decanoato de haloperidol 70,52 mg/mL (equivalente a 50 mg de haloperidol por mL), embalagem com 5 ampolas de 1 mL. Bula para o profissional de saúde. Janssen-Cilag Farmacêutica Ltda.
Haloperidol, solução injetável 5 mg/mL, caixa com 25 ampolas de vidro âmbar de 1 mL. Bula para o profissional de saúde. Fresenius Kabi Brasil Ltda.
Brasil. Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001, que dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental.
Menezes PR, Scazufca M, Busatto G, Coutinho LM, McGuire PK, Murray RM. Incidence of first-contact psychosis in São Paulo, Brazil. British Journal of Psychiatry 2007; supl. 51: S102-6.
Marshall M, Rathbone J. Early intervention for psychosis. Cochrane Database of Systematic Reviews 2011; (6): CD004718.
NICE CG178 — psicose e esquizofrenia
FDA — advertência sobre abstinência de benzodiazepínicos
Prefeitura de São Paulo — elenco local, emergência e dispensação
Ministério da Saúde — Rename 2024, financiamento, p. 17 (cópia oficial municipal)
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Uma pessoa com primeiro episódio psicótico mora sozinha e não tem familiar disponível. Como isso muda o plano?
O paciente que você vai ver
Quinta-feira, dez e vinte da manhã. O município tem cento e sessenta mil habitantes, e você está na unidade de pronto atendimento dele. Não há psiquiatra na escala. Há um clínico, dois enfermeiros, uma sala de observação com quatro macas e um telefone que serve para acionar a regulação. Você é o interno da manhã e a ficha que a recepção acabou de trazer diz três palavras: paciente agitado, familiar.
Quem entra não parece agitado. Ailton Fragoso tem 21 anos, veste uma camisa de time limpa, anda devagar e senta na cadeira antes de você pedir. Quem está agitada é a mãe. Sabina Fragoso ficou de pé, com a bolsa no colo, e começa a falar antes que você se apresente: que ele largou o curso técnico, que trancou o quarto, que ela ouve ele conversando sozinho de madrugada, que ontem ele jogou o celular na parede porque disse que estava sendo gravado. Ela repete duas vezes que não sabia mais a quem recorrer.
Você pergunta há quanto tempo. É a pergunta certa e a resposta vai doer. A mãe pensa, olha para o teto e diz: piorou no mês passado. Você insiste — antes disso, como ele estava? Aí ela desanda. Faz uns dois anos que ele mudou. Primeiro parou de sair com os amigos. Depois passou a dormir de dia e ficar acordado de noite. Repetiu o ano e disse que os professores estavam contra ele. Ela levou ele no posto uma vez, em algum momento desse período, e saiu com uma receita de alguma coisa para dormir. Ninguém falou em nada mais.
É por isso que este capítulo existe. Ailton não está no primeiro dia de doença: está no primeiro dia de atendimento. Entre o começo dos sintomas e a primeira consulta que trata psicose passaram dois anos, e nesses dois anos ele passou por um posto de saúde, por uma escola e por uma farmácia. O relógio que importa aqui não começa hoje de manhã — começou quando ele parou de sair de casa, e continuou correndo enquanto ninguém dava nome ao que estava acontecendo.
E há um segundo relógio, mais curto e mais perigoso, que começa agora. No momento em que alguém escreve "surto psicótico" nessa ficha, a investigação tende a parar. O rótulo psiquiátrico tem esse efeito colateral: ele explica tudo, e por isso dispensa a explicação. Delirium, intoxicação, encefalite, hipoglicemia, tireotoxicose — todas essas coisas chegam à porta falando delírio e ouvindo voz, e todas elas ficam invisíveis debaixo de um diagnóstico que se escreve rápido demais.
Neste capítulo você vai fazer três coisas com o Ailton, e nenhuma delas é dar um nome definitivo na primeira consulta. Vai descrever o que ele tem sem interpretar. Vai excluir causa orgânica com a régua que existe, que não é a régua que se imagina. E vai começar um tratamento com o que a farmácia do município de fato tem na prateleira, que é uma lista mais curta do que os livros sugerem e mais longa do que uma busca mal-feita na Rename devolve. A quarta coisa, que não é menor, é conversar com a Sabina — porque no protocolo brasileiro que libera o remédio dele, ela não é acompanhante: ela é critério de inclusão.
Quem adoece disso
A primeira coisa que a epidemiologia daqui derruba é a impressão de raridade. Psicose parece rara para o clínico porque ele vê pouca — mas ele vê pouca em parte porque não a nomeia quando ela passa. O número brasileiro mais usado vem de um estudo de primeiro contato feito numa região delimitada da cidade de São Paulo ao longo de trinta meses, e é reproduzido aqui como consta do Projeto Diretrizes da Associação Médica Brasileira de 2012, que o cita: incidência de psicose de 15,8 por 100.000 pessoas por ano, com 40% desses casos preenchendo critério para esquizofrenia.
Traduza isso para o tamanho do lugar onde você está. Num município de 160 mil habitantes, 15,8 por 100 mil dá cerca de 25 pessoas por ano chegando pela primeira vez a um serviço por um quadro psicótico — uma a cada quinze dias, aproximadamente — das quais cerca de 10 terão esquizofrenia. Numa capital de um milhão, são 158 por ano, uma a cada dois dias e pouco. Essas pessoas não aparecem todas na porta do ambulatório de psiquiatria. Elas se distribuem por prontos-socorros, unidades básicas, enfermarias de clínica e serviços de urgência que não têm psiquiatra na escala.
A mesma diretriz registra por onde elas entram, e é aqui que o assunto vira do clínico. Cerca de 75% das pessoas que apresentam um primeiro episódio psicótico são avaliadas primeiro num serviço de emergência. Cerca de 20% precisam de internação hospitalar; a maioria dos avaliados na rede pública é encaminhada para acompanhamento ambulatorial especializado. Ou seja: o serviço que decide o destino da maior parte dessas pessoas é a emergência geral, e quem faz essa avaliação, na maior parte do Brasil, é um clínico ou um interno.
O segundo número da mesma fonte é o que obriga a cautela do capítulo inteiro: cerca de 40% dos diagnósticos psiquiátricos feitos em serviço de emergência são de intoxicação por uso de substâncias. Quatro em cada dez. Isso não quer dizer que quatro em cada dez pessoas psicóticas estejam intoxicadas — quer dizer que, no balcão onde você está, a hipótese de causa exógena não é uma exceção pedante, é a hipótese de maior frequência. E a própria diretriz avisa que um exame toxicológico positivo não fecha a questão, porque a coexistência entre uso de substância e transtorno psicótico primário é frequente.
O tempo é a terceira variável e a mais cara. O Projeto Diretrizes afirma, com o grau mais alto da sua própria escala, que um longo tempo de psicose sem tratamento está independentemente associado a curso mais grave e mais crônico da doença, e repete que o atraso no diagnóstico e no tratamento se associa a pior resposta e a mais recaídas. É o achado que organiza a conduta deste capítulo, e vale registrar o que ele não traz: nenhum documento brasileiro em uso diz quanto tempo é esse tempo no Brasil, nem fixa uma meta. Não há número nacional e não há alvo — há a afirmação de que o intervalo importa e a constatação, no consultório, de que ele costuma se contar em anos.
A quarta observação é sobre quem chega primeiro, e a diretriz brasileira toca nela de um jeito incômodo. Ao comparar sistemas de saúde de sete países, ela registra que os médicos generalistas de serviços organizados por referência — isto é, aqueles em que o paciente precisa passar pelo generalista para chegar ao especialista — sabiam mais sobre sinais e sintomas de psicose inicial do que os generalistas de sistemas com acesso direto ao especialista. O Brasil é um sistema de referência. O conhecimento sobre psicose inicial é, aqui, atribuição de quem atende a porta.
Agora a parte que a conversa pública quase nunca traz, e que o próprio protocolo federal traz. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da esquizofrenia descreve o curso da doença em três terços aproximados: cerca de 30% dos casos com recuperação completa ou quase completa, cerca de 30% com remissão incompleta e prejuízo parcial de funcionamento, e cerca de 30% com deterioração importante e persistente. Leia isso com atenção antes de repetir a versão pessimista que circula: no documento que governa a dispensação no Brasil, o desfecho mais comum não é a deterioração. Vale a ressalva de que os três terços são declarados como aproximações e não fecham cem por cento — não são uma partição exata da população, e não devem ser citados como se fossem.
O mesmo protocolo registra, ao justificar por que o tratamento não tem prazo, que estudos prévios mostravam que 25% das pessoas com apenas um quadro psicótico não voltam a ter episódio depois de tratada a crise. Um quarto. Esse dado tem duas leituras e as duas cabem: ele desautoriza a sentença de cronicidade dada no primeiro dia, e ao mesmo tempo explica por que a suspensão precoce do antipsicótico é uma aposta ruim — porque não se sabe, no primeiro episódio, quem é esse quarto.
Uma ausência merece registro, porque muda o que o clínico enxerga como sua tarefa. O protocolo federal de esquizofrenia não usa, em nenhum ponto, as palavras primeiro episódio. Não menciona duração de psicose não tratada. Não menciona mortalidade, nem expectativa de vida, nem tabagismo. Ele é um documento de dispensação de medicamento para uma doença já diagnosticada, e é honesto quanto a isso — o problema é que ele é também a única régua federal específica que existe, e a fase da doença em que o clínico geral mais decide é justamente a que ele não cobre.
Por fim, o que a epidemiologia deste capítulo não autoriza. Não existe, nas fontes usadas aqui, dado que ligue esquizofrenia a violência contra terceiros; o que a literatura mais consistentemente descreve é o inverso, com a pessoa em sofrimento psíquico grave figurando com muito mais frequência como vítima do que como autora. Registro isso como leitura minha, porque não abri no original um estudo brasileiro de vitimização para sustentá-la, e registro também por que ela entra num bloco de epidemiologia: porque o pressuposto contrário, que chega ao pronto-socorro antes do paciente, muda a forma como a equipe entra na sala, e a forma como a equipe entra na sala muda o exame que você vai conseguir fazer.
Por que acontece o que acontece
O mecanismo que interessa ao clínico não é o do receptor — é o que explica por que você não consegue argumentar com o Ailton. A experiência central da psicose não é ter uma ideia errada: é que coisas comuns passam a chegar carregadas de importância pessoal. O carro que estaciona na esquina, a música que toca no rádio, o olhar do vizinho: cada um deles chega com um peso que normalmente não teria, e o delírio é a explicação que a pessoa constrói para dar sentido a essa carga. Por isso o argumento não funciona. Você está discutindo a conclusão; a alteração está na matéria-prima.
Isso muda a técnica antes de mudar a prescrição. Descrever psicose é descrever forma, não julgar conteúdo. O Caderno de Atenção Básica define delírio como crença mantida com uma convicção que não é compartilhada pelos próximos, apoiada em evidências ambíguas ou até bizarras — e a definição é útil justamente porque não pede que você decida se a crença é verdadeira. Registre o que a pessoa disse, com as palavras dela, entre aspas. Registre desde quando, com que grau de certeza, se ela age de acordo, e quem mais na casa compartilha aquilo. Não escreva "delírio persecutório" e pare: essa é uma etiqueta, e a etiqueta não é reexaminável pelo próximo plantonista.
A modalidade da alucinação é o primeiro dado de mecanismo com valor de decisão. Nas psicoses primárias, a alucinação mais frequente é auditiva, e a forma mais característica é a voz em terceira pessoa — vozes que comentam o comportamento da pessoa ou conversam entre si sobre ela. Quando o que predomina é visual — vultos, pequenos animais, a deturpação de um objeto que está mesmo ali —, a probabilidade se desloca para fora da psiquiatria primária. O Projeto Diretrizes é explícito nisso ao comparar delirium e transtorno psicótico primário: a modalidade visual é mais comum no primeiro, a auditiva no segundo.
O eixo que decide mais do que qualquer outro, porém, é o nível de consciência. Na psicose primária, a pessoa está alerta e orientada, e a alteração é do conteúdo e da forma do pensamento. No delirium, o que oscila é o nível de consciência e a atenção — sonolência que vai e volta, desorientação, distraibilidade excessiva —, e os próprios sintomas psicóticos flutuam ao longo do dia. Por isso a ordem do exame não é a ordem do interesse: você examina atenção e orientação antes de explorar o delírio, porque o resultado do primeiro decide se o segundo é sequer a pergunta certa.
O terceiro elemento do mecanismo é o que explica a demora de dois anos do Ailton, e ele é o menos vistoso. Antes dos delírios e das vozes, costuma haver um período de retração — a pessoa sai menos, o rendimento escolar cai, o ciclo do sono inverte, o discurso empobrece. O Caderno de Atenção Básica descreve exatamente esse padrão como início possível dos quadros psicóticos primários em jovens, e faz a ressalva que importa: o comportamento sozinho não basta, ele precisa vir acompanhado de delírios ou alucinações. Mas é esse período que a família chama de preguiça, que a escola chama de desinteresse e que o serviço de saúde não registra em lugar nenhum.
Do lado do tratamento, o mecanismo é embaraçosamente simples e tem uma consequência inteira. Todos os antipsicóticos disponíveis agem bloqueando a transmissão dopaminérgica, e o receptor bloqueado é o mesmo em vias diferentes: a via cujo bloqueio reduz o delírio e a alucinação é vizinha da via que controla o ajuste fino do movimento e da via que segura a secreção de prolactina. Não existe, no elenco brasileiro, um fármaco que desligue uma sem tocar nas outras. O que existe é uma escolha de perfil — trocar mais efeito motor por mais efeito metabólico, ou o inverso.
É por aí que se explica a não adesão sem transformá-la em falha de caráter. Quem interrompe o antipsicótico raramente o faz por não acreditar no diagnóstico; faz porque o corpo passou a doer, a andar, a engordar ou a não funcionar. A bula do haloperidol injetável traz o tamanho disso em estudos duplo-cegos contra placebo: distúrbios extrapiramidais em 34,2% de quem recebeu o fármaco contra 8,5% de quem recebeu placebo — uma diferença de 25,7 pontos percentuais, o que dá cerca de uma pessoa a cada quatro tratadas apresentando efeito extrapiramidal atribuível ao medicamento. Distonia aparece em 6,3% contra 0,4%. E o próprio Caderno de Atenção Básica lista, entre os efeitos, a anorgasmia e a redução da libido, dizendo com todas as letras que representam impasses importantes na continuidade do uso.
Há uma armadilha de mecanismo dentro dessa lista, e ela custa caro. A acatisia — inquietação motora, a pessoa que "não para quieta", que fica marchando — é um efeito do medicamento que se parece com piora da doença. O Caderno registra o desfecho previsível: ela é confundida com baixa resposta, a dose é elevada, e a elevação piora a acatisia. Quem enxerga isso é quem examina o movimento antes de mexer na dose, e quem pergunta à família o que mudou desde a receita anterior. Reconhecer acatisia é, em termos práticos, uma das intervenções de maior rendimento que o clínico geral tem neste tema.

Como se apresenta de verdade
Psicose chega ao clínico de seis maneiras, e só uma delas se parece com o que os livros desenham. As outras cinco chegam disfarçadas — de preguiça, de insônia, de confusão, de intoxicação, de demência. O que separa as seis não é a intensidade do delírio: é o tempo de instalação, o nível de consciência, a idade de início e o que mais está acontecendo no corpo. Leia as seis como portas, não como diagnósticos: cada uma manda a investigação para um lado diferente.
Aprender para cuidar no internato. Distinguir psicose de delirium e outras causas, iniciar cuidado precoce e acompanhar efeitos e função. Ao discutir o caso com o preceptor, explicite os achados que sustentam a hipótese, uma alternativa relevante, a decisão que precisa ocorrer agora e o que fará mudar o plano. O resultado esperado é uma ação clínica justificada e acompanhada, além de reconhecer o diagnóstico.
O jovem que se trancou, e a família que chegou primeiro
É a apresentação do Ailton e é a mais frequente do primeiro episódio: adolescente ou adulto jovem, instalação em semanas a poucos meses sobre um fundo de meses de retração, trazido por um familiar que já não sabe a quem recorrer. A queixa que entra na ficha é de comportamento — largou o curso, trancou o quarto, brigou em casa —, e os sintomas psicóticos aparecem só quando alguém pergunta diretamente por eles.
Duas particularidades mudam a consulta. A primeira é que a pessoa costuma não trazer a queixa: quem traz é a família, e o paciente muitas vezes discorda de estar ali. A segunda é que ela pode esconder os sintomas — o Caderno de Atenção Básica registra isso e conclui o que se segue: é preciso construir uma relação de confiança e investigar os relatos em detalhe. Na prática do plantão, significa conversar com a pessoa a sós em algum momento, não só com o acompanhante, e perguntar em linguagem comum: se ela tem ouvido alguém falar quando não há ninguém, se tem sentido que estão falando dela, se tem sentido que estão gravando ou seguindo.
O erro de leitura mais comum aqui é confundir início insidioso com quadro leve. O tempo de instalação diz respeito ao tipo de doença, não à gravidade dela — e, no caso do primeiro episódio, um início arrastado costuma significar exatamente o contrário: mais tempo de doença sem tratamento acumulado antes da porta.
O delírio que entra por outra queixa
A segunda porta é a mais silenciosa: a pessoa vem por insônia, por dor de cabeça, por queixa vaga, por pedido de atestado — e a psicose está lá, não perguntada. Muita gente com sintomas psicóticos circula por serviços de saúde durante anos por queixas somáticas antes de alguém nomear o que está acontecendo, e o Ailton, que saiu de um posto com uma receita para dormir, é o retrato disso.
O que muda isso é uma pergunta de rotina em consulta de adolescente e adulto jovem com queda de funcionamento: como estão o sono, os estudos ou o trabalho, e os amigos. Quando a resposta descreve queda de rendimento e isolamento novos, a pergunta seguinte é direta — tem acontecido de você ouvir vozes, ou de sentir que estão falando de você. Não é uma pergunta invasiva e não induz sintoma; é a mesma lógica de perguntar sobre dor torácica em quem tem fator de risco.
Um cuidado importante, e o Caderno de Atenção Básica o faz com cuidado maior ainda: nem todo relato de ouvir voz ou ver vulto é sintoma psicótico e precisa de prescrição. Ele traz o exemplo de uma mulher em luto recente que ouve a irmã morta chamá-la, e a conduta descrita não é receita — é visita domiciliar e suporte da equipe. O que faz um sintoma psicótico é o conjunto: ele raramente vem isolado, vem acompanhado de mudanças atípicas na vida da pessoa e dificilmente encontra explicação num evento recente.
A recaída de quem já tem diagnóstico — e a pergunta que se faz antes de aumentar a dose
A terceira porta é a mais comum na enfermaria e no pronto-socorro: pessoa com diagnóstico antigo, que voltou a ter sintomas. A tentação é imediata e quase sempre errada — aumentar a dose. Antes disso cabem três perguntas, e as três mudam a conduta.
A primeira é se ela estava tomando. Não pergunte "o senhor toma o remédio direito?", porque a resposta é sim. Pergunte quantos comprimidos sobraram da última cartela, quando foi a última retirada na farmácia, quem organiza os horários em casa. A segunda é o que mudou junto: internação, infecção, perda, mudança de emprego, uso de substância, retirada de outro medicamento. A terceira, e a que mais se esquece, é se o que está acontecendo é a doença ou é o remédio — acatisia lida como agitação, parkinsonismo lido como sintoma negativo, embotamento por dose alta lido como piora.
É aqui que o clínico geral tem o maior rendimento e o menor treinamento. Ele é quem tem a série histórica: sabe o peso do ano passado, sabe qual receita a farmácia entregou, conhece a família. O especialista vê a pessoa de hoje; a unidade básica vê a diferença entre hoje e seis meses atrás.
O que parece psicose e é delirium
A quarta porta é a que mais mata. O Projeto Diretrizes é categórico: a primeira hipótese a ser avaliada diante de um episódio psicótico é delirium, porque delirium é sempre uma emergência médica e é secundário a alterações do funcionamento e do metabolismo cerebrais — desidratação, infecção, hipo ou hiperglicemia, distúrbio hidroeletrolítico, hipo ou hipertireoidismo, pós-operatório, doença sistêmica grave, polifarmácia e medicamentos anticolinérgicos.
O que separa é o nível de consciência e o curso: instalação aguda, flutuação da consciência e da atenção ao longo do dia, sintomas psicóticos que também flutuam, alucinações e ilusões predominantemente visuais, delírios persecutórios pouco sistematizados e transitórios. Se você examina a pessoa às dez da manhã e às três da tarde e encontra dois níveis de atenção diferentes, você não está diante de um primeiro episódio psicótico primário até prova em contrário.
O reconhecimento é do clínico e o manejo tem dono neste nível: o capítulo Delirium no paciente internado — reconhecer, prevenir e manejar. O que fica aqui é apenas a bifurcação da porta: consciência flutuante desloca o caso inteiro para lá, e o antipsicótico deixa de ser tratamento de doença para ser, na melhor das hipóteses, medida sintomática enquanto a causa é procurada.
O que parece psicose e é substância — ou a falta dela
A quinta porta é a de maior frequência absoluta no serviço de emergência, pelos 40% já citados. Intoxicação aguda por substância lícita ou ilícita produz quadro psicótico, e a diretriz brasileira coloca a exclusão de intoxicação aguda entre as obrigações de toda avaliação de primeiro episódio, com o grau mais alto da sua escala.
Três recortes desta porta têm dono e são cedidos por nome. A psicose da abstinência de álcool — o delirium tremens e o que vem antes dele — é do capítulo A abstinência que não pode esperar, e é lá que estão a régua de retirada e a razão pela qual essa é a abstinência que mata. A intoxicação exógena aguda com antídoto, incluindo a por organofosforados, benzodiazepínicos e monóxido de carbono, é do capítulo O antídoto é a menor parte, na apostila de Toxicologia. A psicose induzida por medicamento em pessoa idosa polimedicada, incluindo os critérios de Beers, é do capítulo A dose que já foi certa, na Geriatria.
O que fica aqui é o alerta que a própria diretriz faz e que evita o erro oposto: mesmo com toxicológico positivo, a causa do episódio pode ficar sem definição, porque a coexistência entre uso de substância e transtorno psicótico primário é frequente. Um exame positivo não é alta, é um dado — e não autoriza devolver a pessoa para casa sem plano nem retorno.
O primeiro episódio depois dos 50, que é outra doença
A sexta porta se define pela idade e reorganiza toda a lista de diferenciais. Quando o primeiro quadro psicótico da vida aparece em pessoa mais velha, a probabilidade se desloca das psicoses primárias para causas orgânicas e neurodegenerativas: o Projeto Diretrizes lista, para primeiro episódio após os 60 anos, demência, delirium, transtornos do humor, transtorno delirante persistente, transtorno induzido por substância e doença de Parkinson — e afirma que a principal causa de primeiro episódio psicótico na população idosa é a demência.
Os números que ela traz ajudam a calibrar. Num estudo prospectivo de 140 pacientes de ambulatório geriátrico, o diagnóstico de demência associou-se a sintomas psicóticos em 36,7%; psicose está presente em 30% a 50% das pessoas com doença de Alzheimer; na demência com corpos de Lewy a alucinação visual é o sintoma mais comum, presente em cerca de 80% dos casos, ao lado de sintomas parkinsonianos, flutuação cognitiva, quedas e sensibilidade a neurolépticos — e essa última característica é uma contraindicação prática de conduta, não um detalhe acadêmico. Na doença de Parkinson, os sintomas psicóticos são frequentemente consequência da medicação antiparkinsoniana.
Este capítulo para aqui e entrega. A investigação e o manejo do declínio cognitivo com sintomas psicóticos são do capítulo A queixa é da filha, na Geriatria; a psicose do parkinsoniano em uso de medicação dopaminérgica é do capítulo de doença de Parkinson, na Neurologia. O que este capítulo assume, e declara, é a regra de porta: primeiro episódio psicótico em pessoa acima dos 50 anos não é esquizofrenia até que se tenha procurado outra coisa, e a busca não é opcional.
Como fechar o diagnóstico
A investigação do primeiro episódio psicótico tem uma inversão que confunde quem chega da clínica médica: os exames aqui não confirmam nada. Não existe exame que diga esquizofrenia. Todo exame pedido tem uma de duas funções — excluir uma causa que não é psiquiátrica, ou registrar a linha de base do corpo antes de você mexer nele com um antipsicótico. Quem confunde as duas pede muito e exclui pouco.
A régua brasileira aqui é curiosa e vale enunciá-la antes de usá-la. O protocolo federal de esquizofrenia torna obrigatória, antes de iniciar qualquer medicamento, uma avaliação inteiramente metabólica: idade, peso, altura, circunferência abdominal e do quadril, três medidas de pressão arterial em datas diferentes, colesterol total e frações, triglicerídios e glicemia de jejum. E é só. O mesmo documento exige, no seu critério diagnóstico, que o transtorno não seja atribuível a doença cerebral orgânica nem a intoxicação — e não nomeia um único exame para cumprir essa exigência. Nem hemograma, nem função tireoidiana, nem sorologia, nem toxicológico, nem imagem. Nenhum. O protocolo instrumenta a segurança do tratamento e deixa a exclusão da causa sem instrumento.
Quem preenche essa lacuna, no Brasil, é o Projeto Diretrizes da Associação Médica Brasileira sobre primeiro episódio psicótico, de 2012 — e a régua dele é hierárquica, não protocolar: avaliação clínica detalhada e exame físico extensivo, incluindo avaliação neurológica básica, e a partir dela a escolha dos exames, sempre ancorada em suspeita clínica objetiva de causa orgânica. Não há bateria fixa. Há uma ordem: examina-se primeiro, pede-se depois.
A anamnese que decide mais do que qualquer exame
Quatro linhas da história valem mais que a lista inteira de exames. A primeira é a linha do tempo, e ela se constrói para trás: não pergunte quando começou, pergunte quando a pessoa estava do jeito que a família considera o jeito dela. Depois caminhe para a frente marcando eventos datáveis — o ano que repetiu, o emprego que saiu, o mês em que trancou o quarto. Foi assim que a Sabina passou de "piorou no mês passado" para "faz uns dois anos".
A segunda é o informante. Numa boa parte dos primeiros episódios a pessoa não reconhece o que está acontecendo, e a história de terceiro deixa de ser complemento e passa a ser fonte principal. Isso não autoriza conversar sobre o paciente na frente dele como se ele não estivesse ali, e não dispensa o tempo a sós — dois minutos sozinho com a pessoa mudam o que ela conta e mudam o vínculo do qual dependerá a adesão.
A terceira é substância, perguntada por nome e por período, não por categoria. Álcool, maconha, cocaína, crack, estimulantes, anabolizantes, medicamentos de venda controlada emprestados. Pergunte quando foi a última vez e quanto, porque a resposta muda a probabilidade da porta de intoxicação. A quarta é a lista de medicamentos em uso, incluindo o que não foi prescrito por médico — corticoide, anticolinérgico, antiparkinsoniano, o xarope que a vizinha deu. Em pessoa mais velha, essa quarta linha é a que mais rende.
Duas perguntas extras não custam nada e mudam o desfecho: história familiar de transtorno mental grave, com nome e grau de parentesco; e o que a pessoa e a família já tentaram — benzedura, igreja, remédio de farmácia, consulta que não voltou. Essa última pergunta parece social e é clínica: ela mede o quanto do intervalo entre a doença e o tratamento foi gasto, e onde.
O exame físico que quase ninguém faz
A regra prática é simples: em primeiro episódio psicótico, o exame físico completo não é formalidade, é o filtro que decide todos os exames seguintes. E a peça que mais fecha diagnóstico é a mais barata — os sinais vitais e a glicemia capilar. Temperatura, frequência cardíaca, pressão arterial, saturação, glicemia. Febre num primeiro episódio psicótico muda a noite inteira. Hipoglicemia produz quadro confusional e psicótico e se resolve em minutos; a régua do reconhecimento e do manejo está no capítulo Antes da hipótese, a glicemia, na Endocrinologia, e é para lá que vai quem tem glicemia baixa na chegada.
A avaliação neurológica básica que a diretriz brasileira pede cabe em poucos minutos e não exige martelo de neurologista: nível de consciência e atenção, orientação, pupilas, movimentação ocular, sinal focal grosseiro, marcha, rigidez, tremor e movimentos involuntários. Rigidez e febre juntas em quem já usa antipsicótico são um cenário específico e ele tem dono neste nível — a síndrome neuroléptica maligna é do capítulo Agitação psicomotora no pronto-socorro, junto com a contenção e a sedação, e é para lá que se vai com essa suspeita.
Duas manobras merecem nome próprio porque mudam a prescrição. A primeira é olhar a pessoa andar até a porta: acatisia e parkinsonismo se vêem na marcha antes de aparecerem na queixa. A segunda é pedir que ela abra a boca e mantenha a língua parada por dez segundos, procurando movimentos involuntários de língua, face e mandíbula — porque discinesia tardia muda a escolha do fármaco e, no protocolo brasileiro, é um dos poucos gatilhos que autorizam clozapina fora da refratariedade.
Os exames de rotina, e a ordem que evita pedir a esmo
Combinando as duas réguas brasileiras — a do protocolo, que é de linha de base, e a da diretriz, que é de exclusão — o conjunto que se justifica na maioria dos primeiros episódios é curto e defensável. Da linha de base do protocolo: peso, altura, circunferência abdominal, pressão arterial, glicemia de jejum, colesterol total e frações, triglicerídios. Da exclusão orientada pela clínica: hemograma, sódio, potássio, função renal, e o que a suspeita levantar — função hepática, cálcio, função tireoidiana, sorologias.
O protocolo do transtorno esquizoafetivo, de 2021, acrescenta explicitamente hemograma, sódio, potássio e contagem de plaquetas à linha de base obrigatória, e acrescenta o pulso às medidas de pressão. É o mesmo Ministério, oito anos depois, listando os exames que o protocolo da esquizofrenia não lista — e vale a pena registrar isso no prontuário quando se pede além do que a régua de 2013 manda, porque o pedido fica ancorado num documento federal mais novo.
Uma exigência do protocolo de 2013 merece leitura atenta antes de ser cumprida ao pé da letra: as três medidas de pressão arterial em datas diferentes, obrigatórias antes de iniciar qualquer medicamento. Numa pessoa em surto, cumprir isso literalmente significa três encontros antes da primeira dose. A leitura razoável é a de que a exigência se dirige ao início do tratamento continuado no ambulatório e não à conduta da urgência — mas essa leitura é minha, o texto não a faz, e o mesmo texto diz que a observância do protocolo é obrigatória para fins de dispensação. Registre no prontuário a data de cada medida, e não deixe a linha de base por fazer: ela é o que vai permitir, seis meses depois, saber se o ganho de peso é do remédio.
Neuroimagem: a conta que não fecha
A tomografia de crânio é o exame mais pedido e o menos rendoso desta lista, e a diretriz brasileira traz os números para dizer isso. Numa revisão sistemática, apenas 1,3% das tomografias computadorizadas e 1,1% das ressonâncias realizadas em pacientes psicóticos atendidos em departamentos de emergência ajudaram a identificar uma causa orgânica para os sintomas. Faça a conta: a 1,3% de rendimento, é preciso pedir cerca de 77 tomografias para que uma delas mostre a causa; a 1,1%, cerca de 91 ressonâncias.
Os dois estudos citados apertam ainda mais. Em 98 tomografias consecutivas de crânio em jovens de 13 a 19 anos com primeiro episódio psicótico, foram encontradas anormalidades em 12% dos exames — e em nenhum dos casos a alteração encontrada ajudou na decisão terapêutica. Numa série de 237 tomografias em pessoas com primeiro episódio psicótico sem qualquer sinal neurológico focal, não se encontrou nenhuma lesão relacionada como possível causa do quadro. Note a diferença entre as duas frações: 12% de exames alterados e 0% de exames úteis. Achado não é causa, e o achado incidental tem custo — ele gera investigação, gera retorno, gera medo.
A recomendação da diretriz é, então, restritiva: neuroimagem em primeiro episódio deve se limitar às situações em que a causalidade neurológica é provável, como traumatismo cranioencefálico, ou à suspeita de lesão vascular cerebral. Aqui há uma inconsistência interna do próprio documento, e ela é do tipo que muda conduta: o corpo do texto restringe a indicação vascular a "idosos" — palavra que, no Brasil, tem definição legal a partir dos 60 anos — enquanto a recomendação, na mesma página, escreve "sobretudo em indivíduos acima dos 50 anos". São dez anos de diferença para a mesma decisão, dentro do mesmo documento. Neste capítulo adota-se o limiar mais protetor, 50 anos, e a divergência fica declarada para quem for auditar a conduta.
Uma leitura que a conta acima não autoriza: nada disso diz para não pedir tomografia. Diz para pedir por um motivo nomeável no prontuário. Sinal neurológico focal, rebaixamento, trauma, primeiro episódio em pessoa mais velha, cefaleia nova e progressiva, imunossupressão — cada um desses é motivo. "Primeiro episódio psicótico" sozinho, em jovem sem sinal focal, não é.
Toxicológico de urina e eletroencefalograma: o que cada um responde
O toxicológico de urina é o exame com melhor relação entre custo e mudança de conduta nesta lista, e a diretriz brasileira coloca a exclusão de intoxicação aguda como obrigação de toda avaliação de primeiro episódio, com o grau mais alto da sua escala. Ele responde a uma pergunta estreita — se há substância detectável — e não responde a outra, mais importante: se a substância é a causa. A própria diretriz avisa que, mesmo com resultado positivo, a causa do episódio pode ficar sem definição, porque a comorbidade entre uso de substância e transtorno psicótico primário é frequente.
Duas consequências práticas. A primeira: um toxicológico positivo não é critério de alta e não encerra o plano — a pessoa continua precisando de retorno marcado e de alguém responsável pelo seguimento. A segunda: a ausência de toxicológico disponível no serviço não impede a avaliação; ela apenas devolve o peso para a história, que é onde ele já estava.
O eletroencefalograma tem lugar mais estreito. A apresentação psicótica de quadro epiléptico, sobretudo com foco temporal, deve ser suspeitada em quem tem história de crises prévias ou diagnóstico corrente de epilepsia. Mas a diretriz registra que o valor clínico do eletroencefalograma na emergência ainda não está bem estabelecido, que no único estudo citado ele foi útil apenas na avaliação de doença convulsiva, e que a taxa de alterações inespecíficas foi considerável. Ou seja: pedir eletroencefalograma sem suspeita definida gera alteração inespecífica, e alteração inespecífica gera diagnóstico errado. Só se pede com pergunta formulada.
Risco de suicídio na pessoa com psicose: a bifurcação que este capítulo faz e entrega
A avaliação de risco de suicídio faz parte de toda avaliação de primeiro episódio psicótico, sem exceção e independentemente de a pessoa parecer calma. Ela se pergunta diretamente, e perguntar não induz — essa é a evidência consolidada e é a base do capítulo Risco de suicídio na emergência, que é onde estão a técnica da entrevista, a estratificação e o manejo. Este capítulo faz a bifurcação e entrega o caso: se há ideação com plano, se há tentativa recente, se há acesso a meio letal, o caso passa a ser conduzido por aquele capítulo, e a psicose vira comorbidade dele, não o contrário.
O que fica aqui são as três particularidades do risco quando há psicose, porque elas mudam a leitura. A primeira: o risco não segue necessariamente a gravidade aparente do delírio, e pessoas em remissão de sintomas positivos podem estar em risco alto — o protocolo federal descreve a depressão pós-esquizofrênica exatamente assim, como um episódio depressivo que ocorre ao fim de um quadro psicótico, quando os sintomas psicóticos já não dominam, e diz que esse estado se acompanha de maior risco de suicídio. A segunda: o conteúdo do delírio pode conter o risco — vozes de comando, delírio de culpa, convicção de estar condenado —, e isso se pergunta explicitamente. A terceira: o acesso a meio letal inclui o próprio medicamento, e o protocolo brasileiro leva isso a sério a ponto de determinar que, em risco grave de suicídio, a clozapina só seja dispensada ao responsável legal, com registro claro de alerta para a dose letal.
Um ponto de decisão que este capítulo levanta e não resolve, porque é decisão de psiquiatra: o mesmo protocolo determina que pessoas com esquizofrenia e risco atual de suicídio sejam tratadas com clozapina, dispensando a exigência de refratariedade a dois antipsicóticos. É uma indicação forte, feita por um documento federal, para o fármaco de manejo mais exigente do elenco — e ela recai sobre a pessoa que, por definição, está em maior risco enquanto a titulação e os hemogramas semanais correm. Não é o clínico geral que faz essa escolha; é ele que precisa saber que ela existe, para que o encaminhamento vá com a informação certa.
A régua brasileira, o elenco que a farmácia tem, e as contas da receita
O que neste capítulo se decora cabe em três tabelas e um card. A primeira diz o que a Rename 2024 de fato entrega e por qual componente — e por que uma busca mal feita nela faz o leitor concluir que o SUS não tem antipsicótico de depósito, quando tem. A segunda é a conta da receita: miligrama, mililitro, comprimido e ampola, refeita sobre a apresentação que a bula descreve, para um adulto de 70 kg (nenhum destes fármacos se dosa por peso; o peso está declarado porque é a linha de base que você vai comparar daqui a seis meses). A terceira põe lado a lado os dois documentos federais de 2013 que prescrevem os mesmos antipsicóticos e discordam do teto de quase todos. Ao final, as notas registram as contas das fontes oficiais que não fecharam — e também as que fecharam.
Como usar quadros e notas de fontes anteriores. Notas que transcrevem doses, prazos ou exigências de documentos antigos registram o conteúdo dessas fontes; não substituem a conduta clínica atualizada e individualizada neste capítulo. Separar indicação, dose, contraindicações, monitorização e acesso. Se houver divergência entre o documento histórico e a recomendação atual, discutir o protocolo vigente com a equipe antes de executar.
A régua que o Brasil usa, e desde quando
A régua federal específica da esquizofrenia é o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas aprovado pela Portaria SAS/MS nº 364, de 9 de abril de 2013, que revogou a portaria de 2002. Ela continuava sendo servida pelo Ministério como protocolo corrente em setembro de 2026 — treze anos depois, contra a norma dos próprios protocolos, que prevê atualização a cada dois anos ou quando houver mudança de tecnologia ou evidência nova. A busca de literatura declarada dentro do documento encerra em 2012, e as doses de todos os oito fármacos citam como fonte um dicionário de especialidades farmacêuticas de 2009 e um livro de consulta rápida de 2004. Ao lado dela funcionam o Caderno de Atenção Básica nº 34, também de 2013 e sem segunda edição, e a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais, que é bienal e está na edição de 2024. Sobre primeiro episódio psicótico, o documento brasileiro específico é o Projeto Diretrizes da Associação Médica Brasileira e da Associação Brasileira de Psiquiatria, com elaboração final em 31 de março de 2012, servido pela própria associação a partir do endereço que ela rotula como biblioteca antiga. Nenhum documento brasileiro em uso fixa uma meta de tempo até o primeiro tratamento, e o protocolo federal não usa em nenhum ponto as expressões primeiro episódio ou duração de psicose não tratada.
Elenco da Rename 2024, por componente: verificar acesso local
| Fármaco (denominação da Rename) | Apresentações na Rename 2024 | Componente | O que isso muda na conduta |
|---|---|---|---|
| haloperidol | 1 mg e 5 mg comprimido; 2 mg/mL solução oral; 5 mg/mL solução injetável; 50 mg/mL solução injetável | Básico | É o antipsicótico da farmácia municipal, sem processo. As duas concentrações injetáveis não são a mesma coisa: 5 mg/mL é a de uso agudo e 50 mg/mL é o depósito mensal (ver nota 2). |
| cloridrato de clorpromazina | 25 mg e 100 mg comprimido; 40 mg/mL solução oral; 5 mg/mL solução injetável | Básico | Também sem processo. Mais sedativa e com mais efeito cardiovascular e anticolinérgico; a solução oral resolve quem não engole comprimido. |
| cloridrato de biperideno | 2 mg comprimido; 4 mg comprimido de liberação prolongada; lactato 5 mg/mL solução injetável | Básico | É o antídoto do efeito extrapiramidal agudo e está no mesmo balcão do haloperidol. Não é para uso profilático contínuo sem indicação. |
| cloridrato de propranolol | 10 mg e 40 mg comprimido | Básico | Opção do protocolo federal para acatisia e para efeito extrapiramidal que não cede ao ajuste de dose. |
| cloridrato de prometazina | 25 mg comprimido; 25 mg/mL solução injetável | Básico | Usada com haloperidol na crise, e também como opção anticolinérgica na distonia aguda. |
| risperidona | 1 mg, 2 mg e 3 mg comprimido; 1 mg/mL solução oral | Especializado | Precisa de processo do Componente Especializado, com laudo e termo de esclarecimento. A solução oral existe na Rename e não aparece na lista de fármacos do protocolo de 2013 (ver nota 14). |
| olanzapina | 5 mg e 10 mg comprimido | Especializado | Mesmo caminho da risperidona. É a de maior custo metabólico do elenco. |
| hemifumarato de quetiapina | 25 mg, 100 mg, 200 mg e 300 mg comprimido | Especializado | Quatro concentrações permitem titular sem quebrar comprimido. |
| cloridrato de ziprasidona | 40 mg e 80 mg cápsula | Especializado | É a opção que o protocolo indica quando aparece síndrome metabólica em uso de olanzapina ou quetiapina. |
| clozapina | 25 mg e 100 mg comprimido | Especializado | Reservada à refratariedade, à discinesia tardia significativa e ao risco alto de suicídio. Exige hemograma semanal por 18 semanas e mensal depois disso. |
| carbonato de lítio | 300 mg comprimido | Básico | Não é tratamento de esquizofrenia e não entra no protocolo; está listado aqui porque é o que existe no elenco quando a pergunta vira transtorno do humor com sintomas psicóticos. |
| não constam da Rename 2024 | aripiprazol, paliperidona e palmitato de paliperidona, amissulprida, sulpirida, levomepromazina, tioridazina, flufenazina, trifluoperazina, pimozida, zuclopentixol, penfluridol | — | Os fármacos/apresentações desta linha não constam do elenco nacional consultado. Antes de planejar acesso, verificar REMUME/RESME, protocolo, indicação coberta e farmácia hospitalar. A ausência na Rename não permite negar oferta em toda a rede SUS. |
As contas da receita: mg ↔ mL ↔ comprimido ↔ ampola, num adulto de 70 kg
| O que se quer prescrever | Apresentação real | Conta | O que se escreve |
|---|---|---|---|
| haloperidol 10 mg/dia por via oral (teto de manutenção do protocolo) | comprimido de 5 mg | 10 ÷ 5 = 2 | 2 comprimidos de 5 mg ao dia |
| haloperidol 10 mg/dia em quem não engole comprimido | solução oral 2 mg/mL | 10 ÷ 2 = 5 | 5 mL ao dia da solução de 2 mg/mL |
| haloperidol 5 mg intramuscular na crise | solução injetável 5 mg/mL, ampola de 1 mL | 5 ÷ 5 = 1 | 1 ampola de 1 mL |
| haloperidol 2,5 mg intramuscular (dose menor da faixa da bula) | solução injetável 5 mg/mL, ampola de 1 mL | 2,5 ÷ 5 = 0,5 | 0,5 mL — meia ampola, e o restante se descarta |
| decanoato de haloperidol para quem tomava 5 mg/dia por via oral | solução injetável 50 mg/mL, ampola de 1 mL | 5 × 20 = 100 mg a cada 4 semanas; 100 ÷ 50 = 2 | 2 mL (2 ampolas) intramuscular profundo a cada 4 semanas |
| decanoato de haloperidol para quem tomava 10 mg/dia por via oral | solução injetável 50 mg/mL, ampola de 1 mL | 10 × 20 = 200 mg a cada 4 semanas; 200 ÷ 50 = 4 | 4 mL — acima do volume que a própria bula diz não recomendar (ver nota 6) |
| clorpromazina 400 mg/dia por via oral | comprimido de 100 mg | 400 ÷ 100 = 4 | 4 comprimidos de 100 mg ao dia, divididos |
| clorpromazina 400 mg/dia em solução | solução oral 40 mg/mL | 400 ÷ 40 = 10 | 10 mL ao dia da solução de 40 mg/mL |
| risperidona 6 mg/dia (dose-alvo do protocolo) | comprimido de 3 mg | 6 ÷ 3 = 2 | 2 comprimidos de 3 mg ao dia, divididos em duas tomadas |
| clozapina, primeira dose | comprimido de 25 mg | 12,5 ÷ 25 = 0,5 | meio comprimido de 25 mg à noite |
| clozapina 300 mg/dia | comprimido de 100 mg | 300 ÷ 100 = 3 | 3 comprimidos de 100 mg ao dia |
| quetiapina 600 mg/dia | comprimido de 300 mg | 600 ÷ 300 = 2 | 2 comprimidos de 300 mg ao dia, divididos |
| biperideno 5 mg intramuscular na distonia aguda | lactato de biperideno 5 mg/mL, ampola de 1 mL | 5 ÷ 5 = 1 | 1 ampola de 1 mL |
| prometazina 25 mg intramuscular | solução injetável 25 mg/mL, ampola de 1 mL | 25 ÷ 25 = 1 | 1 ampola de 1 mL |
| clonazepam 0,5 mg por via oral para acatisia | solução oral 2,5 mg/mL (é a única apresentação de clonazepam na Rename 2024) | 0,5 ÷ 2,5 = 0,2 | 0,2 mL — confira no rótulo do frasco quantas gotas o fabricante declara por mililitro antes de prescrever em gotas |
Dois documentos federais de 2013, a mesma Secretaria, tetos diferentes
| Fármaco | Caderno de Atenção Básica nº 34 (2013) | PCDT — Portaria SAS/MS nº 364 (2013) | A diferença, e o que fazer com ela |
|---|---|---|---|
| haloperidol | faixa terapêutica de 2 a 20 mg/dia; dose média 5 a 10 mg/dia | máximo de 15 mg/dia em situação aguda e 10 mg/dia na manutenção | 5 mg/dia de diferença no teto agudo. Para dispensação, prevalece o protocolo, porque é ele que a farmácia usa; e a faixa média de 5 a 10 mg/dia é onde os dois concordam. |
| clorpromazina | dose média 250 a 600 mg/dia; faixa de 50 a 1.200 mg/dia | doses médias de 400 a 800 mg/dia; máximo de 1 g | As faixas médias mal se sobrepõem, e os tetos diferem em 200 mg. O piso de 150 mg/dia, abaixo do qual o protocolo associa mais recidiva, é o número que os dois sustentam. |
| clozapina | dose média 300 a 450 mg/dia; faixa de 200 a 500 mg/dia | 300 a 400 mg/dia inicialmente, podendo chegar a 800 mg/dia após 30 dias sem melhora | O teto do protocolo é 1,6 vez o do caderno. Quem prescreve clozapina é o serviço especializado, e é o protocolo que rege a dispensação. |
| risperidona | faixa de 2 a 8 mg/dia; dose média 4 a 6 mg/dia | dose-alvo de 6 mg/dia; manutenção de 3 a 6 mg/dia; máximo de 3 mg/dia na insuficiência renal ou hepática | O caderno admite 8 mg/dia, que o protocolo não prevê. A ressalva renal e hepática só existe no protocolo e é a que mais muda conduta na enfermaria. |
| olanzapina | dose média 10 a 20 mg/dia; faixa de 5 a 20 mg/dia | início de 5 mg à noite, até 20 mg/dia; 30 mg/dia apenas quando substitui clozapina por efeito adverso grave; máximo de 5 mg/dia em pessoa debilitada ou emagrecida | Concordam no teto habitual. O limite de 5 mg/dia para pessoa debilitada só está no protocolo. |
| decanoato de haloperidol | aplicado a cada 3 semanas; 1 ampola por mês equivale a 2,5 mg/dia por via oral | 150 a 200 mg por mês a cada 4 semanas; até 400 mg/mês nos primeiros meses | Os intervalos são diferentes e são incompatíveis com a própria equivalência mensal do caderno (ver nota 5). A bula e o protocolo dizem 4 semanas. |
| antipsicóticos que o caderno lista e a Rename não tem | levomepromazina, tioridazina, flufenazina, trifluoperazina, sulpirida | não constam do protocolo | Cinco dos dez fármacos citados no caderno não constam do elenco nacional consultado. Verificar padronização, indicação e acesso locais antes de discutir necessidade de aquisição particular ou alternativa terapêutica. |
Nota 1 — a régua e a idade dela, medidas. O protocolo de esquizofrenia é de 2013; o de transtorno esquizoafetivo, que prescreve os mesmos oito fármacos com a mesma finalidade, foi reescrito por portaria conjunta em 14 de maio de 2021 e revogou a portaria de 2014 que o antecedia. Ou seja: o Ministério atualizou o protocolo do transtorno vizinho e não atualizou o da esquizofrenia. As diferenças entre os dois não são de redação — são de critério de acesso, de exames de base e de dose inicial, e estão nas notas 14, 15 e 16.
Nota 2 — a busca que engana, e é a mais provável de ser feita. Procurar "decanoato" na Rename 2024 devolve zero ocorrências, no índice e no texto bruto. Um leitor apressado conclui que o SUS não fornece antipsicótico de depósito, e essa conclusão muda conduta na direção errada. O depósito está lá: é a linha "haloperidol, 50 mg/mL, solução injetável, Componente Básico". A Rename nomeia a base; a bula do produto declara 70,52 mg de decanoato de haloperidol por mL, equivalentes a 50 mg de haloperidol, em ampola de 1 mL. A conferência saiu de grep exato no texto normalizado da Rename, não de impressão de leitura.
Nota 3 — conferência que fechou, e o que ela custou verificar. Fora essa, não há nenhum outro antipsicótico injetável de longa duração na Rename 2024: aripiprazol, paliperidona e palmitato de paliperidona, flufenazina, zuclopentixol e penfluridol foram procurados um a um e nenhum consta, no índice ou no texto bruto. Quem lê literatura internacional sobre adesão encontra os injetáveis de segunda geração como estratégia central; no elenco brasileiro existe exatamente um depósito, e ele é de primeira geração.
Cinco dos dez antipsicóticos citados no Caderno de Atenção Básica nº 34 — levomepromazina, tioridazina, flufenazina, trifluoperazina e sulpirida — não foram localizados na Rename 2024 consultada. Esse contraste entre documentos não determina sozinho o que uma farmácia municipal ou hospitalar dispensa. A Rename 2024 descreve o elenco nacional e componentes; não é inventário de cada serviço. Confirmar atualização, indicação, REMUME/RESME, padronização hospitalar e estoque com a farmácia antes de prometer ou negar acesso.
Nota 5 — a conta do depósito, com o erro isolado. O caderno escreve, na mesma linha, que o depósito de haloperidol é "aplicado a cada 3 semanas" e que "1 ampola por mês equivale a 2,5 mg por via oral ao dia". As duas metades não podem valer juntas. Uma ampola a cada 4 semanas entrega 50 × (365,25 ÷ 28) ÷ 12 = 54,4 mg por mês; uma ampola a cada 3 semanas entrega 50 × (365,25 ÷ 21) ÷ 12 = 72,5 mg por mês, 33% a mais do que a equivalência declarada na própria linha assume. O erro está no intervalo, não no fator: 50 ÷ 2,5 dá 20, e 20 vezes a dose oral diária a cada quatro semanas é exatamente o que a bula do produto manda. O protocolo federal e a bula dizem 4 semanas; o caderno é o único dos três que diz 3.
Nota 6 — a bula que se contradiz no mesmo parágrafo, e o protocolo que estoura os dois. A bula do decanoato de haloperidol afirma que volumes maiores que 3 mL são desconfortáveis e não são recomendados, e algumas linhas adiante, no mesmo trecho de posologia, oferece "até 6 mL (300 mg)" nos casos mais graves — o dobro do volume que ela acabou de desaconselhar. O protocolo federal vai além: autoriza até 400 mg por mês nos primeiros meses, o que a 50 mg/mL dá 8 mL, ou 2,67 vezes o volume que a bula diz não recomendar. Na prática isso significa fracionar em mais de um sítio, mas nenhum dos dois documentos diz isso — e a dose de manutenção correspondente a 10 mg/dia por via oral, 200 mg, já sai a 4 mL, acima do teto declarado.
Nota 7 — uma cintura para os dois sexos. O protocolo de 2013 usa três vezes, como gatilho para reavaliar ou interromper o antipsicótico, "cintura com mais de 94 cm", sem distinguir sexo. Nenhuma régua de síndrome metabólica em uso faz isso: as duas famílias de critério mais citadas separam homens e mulheres, e o corte feminino é sempre menor que o masculino em pelo menos 8 a 14 cm. Aplicar 94 cm a uma mulher significa deixar de disparar a reavaliação metabólica em toda a faixa entre o corte feminino e os 94 — justamente na população que mais ganha peso com olanzapina e quetiapina. O protocolo de 2021 abandonou o número: mede a circunferência e raciocina por síndrome metabólica persistente, sem corte fixo.
Nota 8 — a sigla glosada errado, e ela governa a definição de falha terapêutica. O protocolo define melhora clínica como queda de pelo menos 30% na escala que chama de "Avaliação Psiquiátrica Breve (British Psychiatric Rating Scale — BPRS)". A tradução portuguesa está certa e o inglês está errado: BPRS é Brief Psychiatric Rating Scale, escala psiquiátrica breve, e não britânica. A palavra "British" aparece uma vez no documento e a palavra "Brief" nenhuma. As três referências que o próprio protocolo cita para a escala são trabalhos brasileiros sobre a versão ancorada, a BPRS-A. O erro é de nome, não de conteúdo — mas é o nome que o interno vai procurar quando for aplicar a escala.
Nota 9 — a referência que não é do assunto. No esquema de administração da olanzapina, o protocolo afirma que não há evidências de que doses acima de 20 mg/dia sejam mais eficazes em pacientes não refratários, e ancora a frase na referência 123. A referência 123 da lista bibliográfica do mesmo documento é Soares BG, Fenton M, Chue P, "Sulpiride for schizophrenia", da Cochrane. As referências 124 e 125 também são de sulpirida. Uma revisão de sulpirida foi citada para sustentar o teto de dose da olanzapina. A afirmação em si é razoável e reaparece, sem essa citação, no protocolo de 2021 — o que falhou foi o pareamento.
Nota 10 — o teto que briga com o critério de falha. O item de esquemas de administração fixa o máximo do haloperidol em 15 mg/dia na fase aguda e 10 mg/dia na manutenção. O item de critérios de interrupção, três páginas adiante, manda considerar falha terapêutica em quem não melhorou "após 6 semanas de uso de 5 a 15 mg de haloperidol". Seis semanas é tempo de manutenção, não de fase aguda, e 15 mg é 1,5 vez o teto que o próprio documento fixou para manutenção. Quem seguir os dois itens ao pé da letra mantém, por seis semanas, uma dose que o documento acabou de proibir.
Nota 11 — três faixas para a clorpromazina, em dois documentos federais do mesmo ano. Esquemas de administração do protocolo: médias de 400 a 800 mg/dia, máximo de 1 g. Critérios de interrupção do mesmo protocolo: 300 a 1.000 mg/dia. Caderno de Atenção Básica nº 34: média de 250 a 600 mg/dia, faixa de 50 a 1.200 mg/dia. O piso de 300 mg do critério de interrupção fica abaixo da média mínima que o próprio protocolo declara, e o teto de 1.200 mg do caderno ultrapassa em 200 mg o máximo do protocolo. O único número em que os três concordam é o piso de 150 mg/dia, abaixo do qual há mais recidiva.
Nota 12 — conferência que fechou, e vale saber que fechou. Os cortes de citopenia da clozapina são os mesmos nos dois lugares em que aparecem no protocolo — leucócitos totais abaixo de 3.000/mm³, neutrófilos abaixo de 1.500/mm³, plaquetas abaixo de 100.000/mm³ — e o esquema de hemograma semanal nas primeiras 18 semanas com controle mensal daí em diante é idêntico no protocolo e no Caderno de Atenção Básica. Os limiares de prolactina que autorizam considerar a troca da risperidona — acima de 25 ng/mL em mulheres e acima de 20 ng/mL em homens — também são coerentes com a diferença esperada entre os sexos, e não invertidos, que era o erro procurado.
Nota 13 — o ponto de seis meses sem exame, nos dois protocolos. A monitorização manda repetir medidas antropométricas e pressão arterial em 3, 6 e 12 meses, e os exames laboratoriais — perfil lipídico e glicemia de jejum — apenas em 3 e 12 meses. O ponto de 6 meses fica sem laboratório. O protocolo de 2021 repete exatamente o mesmo desenho. Na prática, quem ganha 8 quilos entre o terceiro e o sexto mês tem a antropometria alterada num momento em que o protocolo não pede glicemia — e a decisão de pedir mesmo assim é do médico, com o dado antropométrico registrado como justificativa.
Nota 14 — o remédio prescrito que não está na própria lista. O protocolo de 2013 indica biperideno e propranolol para o efeito extrapiramidal e dá as doses dos dois, mas nenhum dos dois aparece no item que lista os fármacos do protocolo, que tem só os oito antipsicóticos. Como o artigo 2º da portaria torna obrigatória a observância do protocolo para fins de dispensação do medicamento nele previsto, a rigor o antídoto do efeito adverso ficou fora da lista do documento que autoriza a dispensação. O protocolo de 2021 corrigiu isso: lista biperideno e propranolol entre seus fármacos, com apresentação. Também vale para a risperidona: a solução oral de 1 mg/mL existe na Rename e não aparece na lista de apresentações do protocolo de 2013, que só cita comprimidos.
Nota 15 — o familiar como critério de acesso ao medicamento, e a correção que o vizinho recebeu. O protocolo de 2013 exige, como critério de inclusão, além do diagnóstico, "presença de um familiar ou responsável legal interessado, participativo, disponível, com funcionamento global adequado". Quem não tem esse familiar não preenche os critérios de inclusão de um protocolo cuja observância é obrigatória para dispensar. O protocolo de 2021, do transtorno esquizoafetivo, restringiu essa exigência: pede o familiar apenas no caso de prejuízo funcional grave com perda de autonomia que exija internação, ou de pessoa cronicamente asilada. É a mesma Secretaria, oito anos depois, escrevendo o mesmo critério com um recorte muito menor. A pessoa com esquizofrenia continua sob a redação de 2013.
Nota 16 — quem o protocolo exclui, e o remédio que só o mais novo oferece. Os dois protocolos excluem quem tem psicose alcoólica ou tóxica, dependência ou abuso atual de fármacos psicoativos e impossibilidade de adesão e acompanhamento contínuo. A diferença é o que vem depois: o de 2021 acrescenta que esses pacientes deverão participar de programas que motivem a adesão e os tornem elegíveis ao tratamento medicamentoso. O de 2013 apenas exclui. Como cerca de 40% dos diagnósticos psiquiátricos em serviço de emergência são de intoxicação por substância, e como a coexistência entre uso de substância e psicose primária é frequente, essa exclusão não é uma cláusula rara: ela recai sobre uma fatia grande da população que o capítulo atende.
Nota 17 — as palavras que o protocolo federal não usa. Contagem exata sobre o texto: "CAPS" aparece zero vez; "RAPS", zero; "primeiro episódio", zero; "duração da psicose não tratada", zero; "psicoeducação", zero; "mortalidade" e "expectativa", zero; "tabagismo", zero. "Familiar" aparece quatro vezes, e uma delas é o critério de inclusão. O documento que decide se a pessoa recebe o antipsicótico não nomeia, em nenhum ponto, o serviço que a acompanha nem a fase da doença em que o clínico geral mais decide. Ele remete genericamente aos critérios do Ministério para a Rede de Atenção à Saúde Mental, sem citá-los.
Nota 18 — a nota que não fecha na diretriz sobre primeiro episódio. Ao tratar de delirium, o Projeto Diretrizes afirma que os pacientes com delirium que não são internados "apresentam maior índice de mortalidade nos meses seguintes", e apresenta os números entre parênteses: 14% contra 8%, com p = 0,20. Um p de 0,20 não sustenta a afirmação de diferença — é o dobro do limiar convencional mais frouxo, e cinco vezes o mais usado. A frase carrega grau B de evidência no próprio documento. A conduta que se recomenda no capítulo não muda por isso, porque delirium é emergência médica por outros motivos; o que muda é o que se pode dizer em prova, em prontuário e para a família: com esses números, a diferença de mortalidade não está demonstrada.
Nota 19 — dez anos de diferença dentro do mesmo documento. Na questão sobre exames de imagem, o corpo do texto da diretriz restringe a neuroimagem à causalidade neurológica provável "ou em idosos, quando a presença de uma lesão cerebrovascular aguda deve ser descartada", e a recomendação, na mesma página, escreve "sobretudo em indivíduos acima dos 50 anos". No Brasil, idoso tem definição legal a partir dos 60 anos. Corpo e recomendação divergem em uma década para a mesma decisão. Este capítulo adota 50 anos por ser o limiar mais protetor, e declara que essa escolha é editorial.
Nota 20 — uma leitura minha, registrada como tal. A afirmação de que o tempo de psicose sem tratamento prediz gravidade de forma independente é a frase de maior peso da diretriz brasileira sobre primeiro episódio, carrega o grau A e ancora a conduta deste capítulo. A referência que a sustenta, na lista do próprio documento, é uma revisão Cochrane sobre intervenção precoce na psicose — uma revisão de intervenção, portanto, sustentando uma afirmação de prognóstico. Não abri a revisão e não afirmo nada sobre o conteúdo dela; registro apenas que o pareamento entre a pergunta e o tipo de estudo citado é uma observação minha, feita sobre o título e a natureza da revisão declarados na lista de referências.
Nota 21 — o dado brasileiro de incidência, e de onde ele vem. Os números de 15,8 por 100.000 habitantes por ano e de 40% preenchendo critério para esquizofrenia são de um estudo de primeiro contato na cidade de São Paulo, publicado em 2007, e são reproduzidos neste capítulo tal como constam da diretriz de 2012 que os cita. Não abri o artigo original. A tradução para tamanho de município — cerca de 25 primeiros contatos por ano numa cidade de 160 mil habitantes, dos quais cerca de 10 de esquizofrenia — é aritmética minha sobre esses números, e vale como ordem de grandeza, não como estimativa local: a incidência varia com a composição etária e social da população.
Nota 22 — dois deslizes menores do caderno federal, registrados porque ele é material de ensino. Na tabela de antipsicóticos, a trifluoperazina aparece sob o cabeçalho "Alta potência" e a observação da própria linha diz "Média potência"; e a coluna de dose equivalente, cujo rodapé remete a 100 mg de clorpromazina, está preenchida apenas para os típicos, ficando vazia para risperidona, olanzapina, sulpirida e clozapina — que é justamente onde a equivalência seria menos intuitiva. Numa das vinhetas do mesmo capítulo, a paciente é apresentada como Elisandra e, três linhas depois, a conduta é descrita como conversa com Filomena. Nada disso muda dose; tudo isso confunde quem estuda pelo documento.
A conduta, hora a hora
Leia a linha do tempo em duas partes, separadas por um ponto de virada. A parte de cima cabe nos noventa minutos que o Ailton passa na unidade de pronto atendimento, e nela quase tudo o que decide desfecho é não farmacológico. O ponto de virada é o marco 5, onde se decide prescrever. A parte de baixo acontece fora do plantão — no encaminhamento, no processo do medicamento e no retorno — e é onde se ganha ou se perde o tratamento.
Duas advertências antes de começar. A primeira: nada disto pressupõe agitação. A pessoa em primeiro episódio psicótico frequentemente chega calma, e a maior parte deste roteiro é conversa. Quando há agitação franca, com risco imediato para a própria pessoa ou para a equipe, o roteiro é outro e tem dono neste nível — a contenção, a sedação da agitação psicomotora e a síndrome neuroléptica maligna são do capítulo Agitação psicomotora no pronto-socorro, e este capítulo cede os três por inteiro, ficando com o primeiro atendimento do surto que não exige contenção.
A segunda: começar antipsicótico no pronto-socorro não é obrigatório e muitas vezes não é o melhor. O que é obrigatório é que a pessoa saia dali com destino nomeado, data de retorno e alguém responsável — porque a coisa que mais custa neste tema não é a dose errada, é o intervalo até a próxima consulta.
Além do controle de delírios. Tratar saúde física, uso de substâncias, sono e funcionalidade, com intervenção familiar consentida e reabilitação. Ausência de familiar não deve impedir acesso ao cuidado: acionar equipe social e construir apoio. Longa ação é opção compartilhada quando preferida ou quando ajuda na continuidade, sem punição por adesão. Conversão para depósito exige conferir bula, tolerância oral, dose inicial e eventual sobreposição; não multiplicar automaticamente por vinte em todos. Após dois ensaios adequados sem resposta, revisar diagnóstico/adesão e discutir clozapina com monitorização específica; não acumular antipsicóticos indefinidamente.
Marco 1 — primeiros minutos, antes de qualquer pergunta clínica
Procure a sala mais silenciosa do serviço e sente-se nela. Fique na altura dos olhos da pessoa, com a porta desobstruída para os dois lados — não de pé no vão, não entre ela e a saída. Diga seu nome e diga o que vai acontecer: que você vai conversar, examinar e explicar antes de fazer qualquer coisa. Peça licença antes de tocar. Se a família chegou junto e está falando alto, peça com educação que espere do lado de fora por alguns minutos; a maior parte do que você precisa saber vem depois, e a maior parte do vínculo se ganha agora. Não discuta o delírio, não confirme o delírio: pergunte como é, desde quando, e o que isso tem feito ela sentir. A frase que funciona é a mais simples — eu não estou vendo o que você está vendo, mas eu acredito que para você é assim, e isso deve ser assustador.
Prescrição- Ambiente de menor estímulo, profissional sentado, saída livre para ambos
- Apresentação nominal e explicação prévia de cada passo, incluindo o toque
- Acompanhante afastado por alguns minutos, com explicação e hora marcada para voltar
- Sem discutir e sem confirmar o conteúdo do delírio: perguntar forma, tempo e impacto
Marco 2 — os cinco minutos que excluem a causa mais rápida
Sinais vitais completos e glicemia capilar, sempre, antes de qualquer hipótese psiquiátrica. Temperatura medida, não estimada. Frequência cardíaca, pressão arterial, saturação, frequência respiratória contada. Depois, o exame neurológico básico que a diretriz brasileira exige: nível de consciência e atenção, orientação no tempo e no espaço, pupilas, movimentação ocular, marcha, rigidez, tremor e movimentos involuntários de face e língua. Se a atenção flutua, se há febre, se a glicemia está baixa, se há sinal focal, o caso deixa de ser este capítulo neste minuto — hipoglicemia vai para Antes da hipótese, a glicemia; consciência flutuante vai para Delirium no paciente internado. Registre os achados negativos com o mesmo cuidado dos positivos: "alerta, orientado, sem sinal focal, sem rigidez, glicemia 92" é a frase que permite ao próximo médico não repetir tudo.
Prescrição- Sinais vitais completos com temperatura medida e frequência respiratória contada
- Glicemia capilar em todos os casos
- Exame neurológico básico: consciência, atenção, orientação, pupilas, marcha, rigidez, movimentos involuntários
- Registro explícito dos achados negativos, nomeados um a um
Marco 3 — a entrevista dividida: primeiro a pessoa, depois quem trouxe
Converse com o Ailton sozinho e depois com a Sabina sozinha, e diga aos dois que vai ser assim antes de fazer. Com ele: como tem sido o sono, o estudo, os amigos; se tem ouvido alguém falar quando não há ninguém por perto; se tem sentido que falam dele, que o gravam, que o seguem; se tem usado alguma coisa — álcool, maconha, cocaína, estimulante, remédio que não foi receitado para ele; e a pergunta de risco, feita diretamente, sem rodeio. Com a mãe: a linha do tempo para trás, o que ela viu primeiro, quando ele estava do jeito dele; história familiar de transtorno mental grave; medicamentos em casa; e o que ela e a família já tentaram. Ao fim, junte os dois e resuma em voz alta o que você entendeu, na frente de ambos — é assim que se corrige o que ficou errado e é assim que a pessoa vê que não se falou dela pelas costas.
Prescrição- Tempo a sós com o paciente, obrigatório, e anunciado antes
- Perguntas diretas sobre alucinação, ideia de referência e perseguição, em linguagem comum
- Uso de substâncias por nome, quantidade e data da última vez
- Avaliação de risco de suicídio perguntada diretamente, em todos os casos
- Linha do tempo construída com o informante, ancorada em eventos datáveis
- Devolutiva em voz alta para os dois juntos ao final
Marco 4 — a decisão de destino, que vem antes da decisão de remédio
Três destinos existem e a escolha entre eles não depende da intensidade do delírio. Vai para casa com retorno marcado quem tem suporte em casa, não tem risco de suicídio, não tem sinal de causa orgânica e consegue combinar o retorno. Fica em observação quem precisa de reavaliação seriada — porque a diretriz brasileira registra que instrumentos padronizados e um tempo maior de observação, de 24 a 72 horas, melhoram a acurácia do diagnóstico do primeiro episódio, e porque a flutuação da atenção só aparece a quem examina duas vezes. Vai para internação quem tem risco de suicídio não manejável em casa, quem tem causa orgânica que exige tratamento hospitalar, ou quem não tem qualquer suporte e está em franca desorganização — cerca de 20% dos primeiros episódios, segundo a mesma diretriz. Decida isso antes de decidir a receita, e escreva a decisão com a justificativa.
Prescrição- Destino decidido e escrito antes da prescrição, com justificativa em uma linha
- Observação de 24 a 72 horas quando a acurácia do diagnóstico for o problema
- Reavaliação seriada da atenção e da orientação em quem fica, com horário registrado
- Internação para risco de suicídio não manejável, causa orgânica hospitalar ou ausência total de suporte
Marco 5 — o ponto de virada: prescrever, e o que prescrever
No primeiro episódio, obter avaliação especializada precoce e discutir a escolha do antipsicótico com a pessoa e a equipe. Considerar efeitos metabólicos, extrapiramidais, cardiovasculares e sexuais, resposta prévia e acesso. Usar monoterapia e menor dose eficaz, com titulação; clorpromazina em doses altas não é alternativa automática apenas para sedar. Colher linha de base clínica e metabólica e avaliar ECG quando indicado; não atrasar tratamento urgente para obter três medidas de pressão em dias diferentes. Não prescrever anticolinérgico preventivo de rotina.
Prescrição- Haloperidol 0,5 a 2 mg por via oral, 2 a 3 vezes ao dia, com titulação conforme resposta (teto: 15 mg/dia agudo, 10 mg/dia manutenção)
- Escolher alternativa antipsicótica conforme perfil e avaliação especializada, com dose inicial baixa; não iniciar clorpromazina 50–100 mg repetida apenas para obter sedação.
- Monoterapia: um antipsicótico por vez, sem associação
- Dose menor de partida em pessoa idosa ou fisicamente debilitada
- Linha de base solicitada no mesmo dia: peso, altura, circunferência abdominal, pressão arterial, glicemia de jejum, colesterol total e frações, triglicerídios
- Biperideno prescrito se necessário, não de rotina — 2 mg por via oral, ou lactato 5 mg/mL, 1 ampola intramuscular na distonia aguda
Marco 6 — o aviso que compra a adesão, dado antes do efeito acontecer
Este é o marco que quase ninguém cumpre e é o que mais decide se a pessoa vai voltar. Antes de entregar a receita, descreva os efeitos que podem aparecer, com as palavras que a pessoa vai usar quando eles aparecerem: o pescoço pode entortar, os olhos podem virar para cima, os dentes podem trincar — e nada disso é perigoso, resolve com um remédio que a mesma unidade tem, e não significa que o tratamento deu errado. Diga também que pode dar uma inquietação, uma vontade de não parar quieto, e que se isso acontecer é para voltar, porque é efeito do remédio e não piora da doença. Diga que pode haver ganho de peso e que por isso o peso vai ser medido. E diga, porque é o efeito que mais faz parar de tomar e o que menos se fala: pode haver queda do desejo e dificuldade sexual, e isso é conversável e às vezes contornável trocando o fármaco. O Caderno de Atenção Básica escreve exatamente isso — que a anorgasmia e a redução da libido são muito comuns e representam impasses importantes na continuidade do uso.
Prescrição- Aviso explícito, antes da primeira dose, sobre distonia aguda, com as palavras que a pessoa vai usar
- Aviso sobre acatisia, com instrução de retornar em vez de aumentar a dose por conta própria
- Aviso sobre ganho de peso, ancorado na medida do peso de hoje
- Aviso sobre efeito sexual, nomeado sem eufemismo, com a informação de que é revisável
- Instruções de retorno imediato: febre com rigidez, dificuldade para engolir, desmaio, ideia de suicídio
Marco 7 — o encaminhamento, que é uma tarefa e não uma frase
Encaminhamento sem data é abandono com papel. A pessoa em primeiro episódio precisa de três destinos ao mesmo tempo, e os três se escrevem na alta. O primeiro é o serviço de saúde mental do território, que na maior parte do Brasil é um Centro de Atenção Psicossocial ou o apoio matricial à equipe de atenção básica — este capítulo vai até a fronteira do encaminhamento e cede a organização da Rede de Atenção Psicossocial, a lógica dos serviços e a história da reforma psiquiátrica, cujo tratamento está em Para onde ele vai depois, nesta apostila. O segundo destino é a própria unidade básica, que continua responsável — o Caderno de Atenção Básica não deixa margem: mesmo quem é acompanhado no serviço especializado continua sendo acompanhado pela rede básica, porque a pessoa tem necessidades clínicas além das psíquicas. O terceiro, se o caso caminhar para um antipsicótico do Componente Especializado, é o processo administrativo: laudo, receita, documentos e Termo de Esclarecimento e Responsabilidade, que o protocolo torna obrigatório. Esse processo leva tempo; começar a puxá-lo no dia em que se cogita a troca, e não no dia da troca, é conduta.
Prescrição- Encaminhamento ao serviço de saúde mental do território com data, não com recomendação genérica
- Retorno marcado na unidade básica com data, mantido mesmo com acompanhamento especializado
- Contato telefônico da unidade entregue por escrito à pessoa e ao familiar
- Se houver perspectiva de fármaco do Componente Especializado: iniciar laudo, documentação e Termo de Esclarecimento e Responsabilidade desde já
- Receita em quantidade suficiente para cobrir o intervalo até o retorno, sem lacuna
Marco 8 — o registro, que é o que sobra de tudo isto
Escreva o que viu, não o que concluiu. Um prontuário que diz "paciente psicótico, em surto" não permite que o próximo médico discorde nem confirme; um que diz "refere ouvir duas vozes que comentam o que ele faz, há cerca de um ano; acredita que o celular é usado para gravá-lo; alerta, orientado, atenção preservada em duas avaliações; sem sinal focal; glicemia 92; nega uso de substância nos últimos seis meses; mãe relata retração progressiva há dois anos" permite as duas coisas. Registre, além disso, três datas: a do começo dos sintomas segundo a família, a de hoje, e a do retorno marcado. A primeira dessas datas é a que ninguém escreve e a que mais informa quem receber o caso — porque é ela que diz há quanto tempo esta psicose está sem tratamento. E anote o diagnóstico do jeito honesto do primeiro dia: primeiro episódio psicótico em investigação, e não esquizofrenia. O nome definitivo depende de tempo de evolução e de exclusão, e nenhum dos dois se cumpre num plantão.
Prescrição- Descrição em vez de rótulo, com as falas da pessoa entre aspas
- Achados negativos nomeados um a um
- Três datas registradas: início dos sintomas segundo o informante, atendimento de hoje, retorno marcado
- Hipótese escrita como primeiro episódio psicótico em investigação, não como diagnóstico fechado
- Nome e telefone do familiar ou responsável que acompanha, com o consentimento da pessoa
Como saber se está funcionando
Reavaliar psicose tem uma armadilha própria: o parâmetro mais visível — o delírio — é o que responde mais devagar, e o parâmetro que responde primeiro — o sono, a agitação — é o que menos diz sobre o tratamento estar funcionando. Quem mede só o delírio conclui cedo demais que falhou e troca de fármaco antes da hora; quem mede só o sono conclui cedo demais que acertou. Os sete parâmetros abaixo se leem juntos, e dois deles não são do paciente: são da receita e da farmácia.
Uma advertência de calendário. O critério federal de falha terapêutica exige seis semanas na dose adequada antes de declarar que um antipsicótico não funcionou. Seis semanas é muito tempo para quem está esperando, e é justamente por isso que os marcos intermediários existem — a pessoa precisa ser vista antes disso, não para trocar o remédio, mas para tratar o efeito adverso que a faria abandonar antes de chegar lá.
Vigiar efeitos que se confundem com piora. Acatisia causa sofrimento e pode aumentar risco: avaliar relação temporal, reduzir/trocar conforme equipe e tratar individualmente. Propranolol depende de pressão, pulso e contraindicações. Monitorar peso, glicemia/lipídios, movimentos e sintomas sexuais. Em clozapina, febre, sinais cardíacos e constipação importante exigem avaliação urgente; interrupção por mais de 48 horas requer reintrodução orientada, não retomada automática da dose inteira. Manter foco em estudo, trabalho, relações e objetivos da pessoa.
Esperado: Redução da carga afetiva antes da redução do conteúdo: a pessoa continua acreditando, mas se importa menos, dorme, come, sai do quarto. O critério federal de melhora é queda de pelo menos 30% nos escores da escala de avaliação psiquiátrica breve, na versão ancorada
Se não melhora: Antes de trocar, confira as três coisas que imitam falha: a pessoa está tomando; a dose chegou à faixa adequada; não há efeito adverso sendo lido como piora. Só depois disso o protocolo autoriza a segunda tentativa, com outro antipsicótico, também por 6 semanas
Esperado: Ausência. Se houver, que seja reconhecido e tratado no mesmo atendimento — e não que a pessoa desapareça e volte em três meses sem tomar nada
Se não melhora: Primeiro ajuste de dose; depois biperideno ou propranolol; se persistir, o protocolo indica trocar por antipsicótico de menor perfil extrapiramidal — olanzapina, quetiapina ou ziprasidona, todos do Componente Especializado, o que significa começar o processo administrativo antes de precisar dele
Esperado: Sono voltando ao ciclo noturno, refeições retomadas, alguma saída de casa. São os primeiros a melhorar e os que mais sustentam a confiança da família no tratamento
Se não melhora: Sono que não volta em pessoa em uso de haloperidol levanta duas possibilidades diferentes: acatisia noturna, que piora com aumento de dose, e sintoma da própria doença, que melhora. Examine o movimento antes de decidir qual é
Esperado: Estabilidade. Ganho relevante nos primeiros três meses é o padrão de aviso, e é maior com olanzapina e quetiapina
Se não melhora: O protocolo lista, entre os motivos de interrupção ou troca de olanzapina e quetiapina, obesidade com índice de massa corporal acima de 30 kg/m², hipertensão, dislipidemia, diabetes e resistência insulínica. O corte de cintura que ele usa é de 94 cm sem distinção de sexo, e essa é uma das contas que não fecham — em mulher, use o corte da régua de síndrome metabólica que o serviço adota e registre qual usou
Esperado: Estabilidade em relação à linha de base — e é por isso que a linha de base é obrigatória: sem ela não há como atribuir
Se não melhora: Alteração exige avaliação clínica e discussão de risco e benefício com a pessoa e a família, conforme o próprio protocolo. Note que o calendário oficial não pede laboratório aos 6 meses, embora peça antropometria; quem ganhou peso nesse intervalo justifica o exame pela medida antropométrica alterada, e essa justificativa se escreve no pedido
Esperado: Retirada regular na farmácia, cartela batendo com os dias, familiar sabendo dizer o horário das tomadas
Se não melhora: Antes de chamar de má adesão, procure a causa: efeito adverso não contado, receita vencida, farmácia sem estoque, processo do Componente Especializado parado, ninguém em casa para organizar. Se a impossibilidade de uso oral se confirmar, tanto o protocolo de 2013 quanto o de 2021 mandam substituir o antipsicótico oral por decanoato de haloperidol — que está na Rename como haloperidol 50 mg/mL, Componente Básico
Esperado: Ausência de ideação, ou ideação sem plano e sem acesso a meio, com rede de suporte funcionando
Se não melhora: O caso passa a ser conduzido pelo capítulo Risco de suicídio na emergência. Registre que o protocolo federal determina, para a pessoa com esquizofrenia e risco atual de suicídio, tratamento com clozapina, dispensando a exigência de refratariedade — decisão do serviço especializado, mas informação que precisa viajar junto com o encaminhamento
Onde o erro machuca
O dano: O rótulo psiquiátrico tem poder explicativo total: uma vez escrito, ele responde por qualquer sintoma e desautoriza qualquer exame. Delirium, intoxicação, hipoglicemia, infecção do sistema nervoso central e tireotoxicose passam a ser lidos como parte do quadro mental. É o mecanismo pelo qual uma causa tratável vira doença crônica.
Como pegar a tempo: Escreva o que viu, não a conclusão, e obrigue-se aos cinco minutos do marco 2: sinais vitais, glicemia capilar e exame neurológico básico, com os achados negativos nomeados. A primeira hipótese a excluir num episódio psicótico, segundo a diretriz brasileira, é delirium — e delirium se exclui olhando a atenção duas vezes, não olhando o delírio uma vez.
O dano: Acatisia é efeito do antipsicótico e se parece com piora da doença. O Caderno de Atenção Básica descreve o ciclo: a inquietação é lida como baixa resposta, a dose sobe, a acatisia piora, a pessoa abandona o tratamento. Perde-se o fármaco, perde-se a confiança e perde-se a pessoa por meses.
Como pegar a tempo: Antes de mexer na dose, olhe a pessoa andar até a porta e pergunte à família o que mudou desde a última receita. Acatisia responde a redução de dose, a propranolol 40 a 80 mg por dia ou a clonazepam em dose baixa; nunca a aumento. E avise antes, no marco 6, para que a pessoa volte em vez de abandonar.
O dano: Uma receita de risperidona ou olanzapina entregue como se fosse retirável no posto manda a pessoa a um balcão que vai recusá-la — porque são do Componente Especializado e exigem laudo, documentação e termo de esclarecimento. A pessoa fica sem tratamento no intervalo, e o intervalo é justamente a variável que piora o desfecho. Pior ainda é prescrever o que não existe no elenco: cinco dos dez antipsicóticos que aparecem na tabela do caderno federal de atenção básica não constam da Rename 2024.
Como pegar a tempo: Comece pelo Componente Básico — haloperidol ou clorpromazina — e só vá ao Especializado com o processo já iniciado. Se for prescrever fora do elenco, diga isso à pessoa com todas as letras, para que ela não descubra no balcão.
O dano: A busca devolve zero, e a conclusão errada retira da mesa a única ferramenta de longa duração do elenco brasileiro justamente no caso em que ela é indicada — a impossibilidade de adesão ao uso oral, que os dois protocolos federais mandam tratar com decanoato de haloperidol.
Como pegar a tempo: Procure pela apresentação, não pelo nome do éster: o depósito está na Rename 2024 como haloperidol 50 mg/mL solução injetável, Componente Básico, e a bula do produto declara 70,52 mg de decanoato por mL, equivalentes a 50 mg de haloperidol. A concentração de 5 mg/mL, do mesmo elenco, é a de uso agudo — trocar uma pela outra é errar a dose por um fator de dez.
O dano: A conversa vira cobrança, a pessoa deixa de contar o que sente, e o motivo real do abandono — que quase sempre é um efeito adverso — nunca aparece. A literatura de bula quantifica o tamanho disso: distúrbios extrapiramidais em 34,2% contra 8,5% no placebo, cerca de uma pessoa a cada quatro tratadas; e o Caderno de Atenção Básica registra que a queda de libido e a anorgasmia representam impasses importantes na continuidade do uso.
Como pegar a tempo: Pergunte pelo efeito antes de perguntar pela adesão, e pergunte pelo efeito sexual sem eufemismo. Meça a adesão em vez de perguntá-la: cartela, data da última retirada, quem organiza os horários. E lembre que o abandono pode ser administrativo — processo parado, receita vencida, farmácia sem estoque.
O dano: O diagnóstico exige tempo de evolução e exclusão de outras causas, e nenhum dos dois se cumpre num plantão. Uma sentença dada cedo demais fecha portas concretas — trabalho, estudo, autonomia — e uma sentença de cronicidade não corresponde ao que a própria régua federal descreve: cerca de 30% dos casos evoluem com recuperação completa ou quase completa, e um quarto das pessoas com um único quadro psicótico não volta a ter episódio depois de tratada a crise.
Como pegar a tempo: Registre "primeiro episódio psicótico em investigação". Diga à família o que se sabe hoje, o que ainda vai ser investigado e quando vocês se veem de novo — e diga que o tratamento começa agora justamente porque o tempo sem tratamento é a variável que piora o curso. Não prometa desfecho em nenhuma direção.
O que dizer ao paciente e à família
Sete frases, e nenhuma delas se resolve com mais informação clínica. Todas se resolvem reconhecendo o que a pessoa está de fato perguntando — e nenhuma admite as duas saídas fáceis: confirmar o delírio para agradar, ou negá-lo para corrigir. Entre confirmar e desmentir existe um terceiro lugar, que é validar a experiência sem endossar a explicação, e é dele que sai quase toda a conversa deste capítulo.
A pessoa diz que não está doente e que não vai tomar remédio nenhum
“"Eu ouvi você. Você não acha que está doente, e eu não vou tentar te convencer disso hoje. Mas você me contou que não está conseguindo dormir e que largou o curso — isso te incomoda? Então vamos tratar isso. O remédio que eu quero te oferecer é para o sono e para essa sensação de estar sendo vigiado o tempo todo, que deve ser exaustiva. Se em duas semanas você achar que não serviu para nada, a gente conversa de novo e decide junto."”
Não diga: Evite "você precisa entender que está doente". Insistir na consciência de doença como pré-requisito do tratamento transforma a consulta numa disputa que você não vai ganhar e custa o vínculo. Negocie sobre o sofrimento que a pessoa reconhece, não sobre o rótulo que ela recusa.
A pessoa conta o delírio e olha para você esperando que você confirme
“"Eu não estou vendo o que você está vendo, e não estou ouvindo o que você ouve. Isso não quer dizer que você esteja inventando — quer dizer que é uma coisa que está acontecendo com você e não comigo. Deve ser muito assustador viver achando que estão te gravando. Me conta uma coisa: você tem conseguido sair de casa com isso na cabeça?"”
Não diga: Evite os dois extremos: "isso não existe, é a sua cabeça" e "entendo, deve ser terrível que estejam te gravando mesmo". O primeiro encerra a conversa, o segundo endossa a explicação e depois cobra um preço quando você discordar. Fique na experiência e no impacto.
A mãe pergunta, na frente do filho, se aquilo é esquizofrenia
“"Vou responder na frente dele porque a resposta é dele também. Hoje eu não sei, e quem disser que sabe hoje está adiantando. O que eu vi é um primeiro episódio com sintomas psicóticos, e o nome definitivo depende de duas coisas: de excluir outras causas, que é o que os exames vão fazer, e de tempo de acompanhamento. O que não depende de nome é começar a tratar, e isso a gente começa hoje."”
Não diga: Evite responder por cima, no corredor, longe do paciente. Conversa sobre a pessoa feita pelas costas dela é a primeira coisa que destrói a aliança de que o tratamento inteiro depende — e é a mais fácil de acontecer, porque a família pede.
A família pergunta se ele vai ficar assim para o resto da vida
“"Eu não sei, e ninguém sabe hoje. O que dá para dizer é o que se conhece de um grupo grande de pessoas: uma parte se recupera completamente ou quase completamente, uma parte fica com algum prejuízo, e uma parte tem prejuízo importante. Não dá para saber em qual grupo ele vai estar. O que se sabe é que quanto mais cedo começa o tratamento, melhor tende a ser o curso — e é por isso que a gente está começando hoje e não daqui a três meses."”
Não diga: Evite as duas promessas. "Ele vai ficar bom" cobra o preço na primeira recaída; "esquizofrenia não tem cura, é para a vida toda" contradiz a própria régua federal, que descreve cerca de um terço dos casos com recuperação completa ou quase completa, e fecha portas que ainda estavam abertas.
A família pergunta, baixinho, se ele é perigoso
“"Entendo o medo, e ele é comum. Mas vou te dizer o que a gente sabe: pessoas com esse tipo de problema estão muito mais frequentemente do lado de quem sofre violência do que do lado de quem pratica. O risco maior que eu preciso vigiar com vocês é o risco contra ele mesmo, e é sobre isso que eu quero combinar uma coisa com a senhora. O que eu vou pedir é que a senhora me diga se ele falar em morrer, em desistir, ou se sumir de casa."”
Não diga: Evite tanto a garantia ("ele não vai fazer nada") quanto o eco do medo ("melhor tirar as facas da cozinha", dito sem contexto). A primeira você não pode dar. O segundo instala em casa uma vigilância de suspeita que isola ainda mais a pessoa. Se houver risco de suicídio, a restrição de acesso a meios se combina de forma nomeada e específica — e o caso passa a ser conduzido pelo capítulo de risco de suicídio.
A pessoa pergunta se vai ter que tomar isso a vida toda
“"Não dá para prometer prazo. O que eu posso te dizer é que o tratamento não tem tempo fixo e é reavaliado a cada seis meses, e que a decisão de reduzir é tomada com você, olhando como você está, e não por calendário. O que eu não recomendo é parar sozinho — não porque eu vá brigar com você, mas porque parar de uma vez é a situação em que a chance de voltar tudo é maior. Se em algum momento você quiser parar, me procura antes e a gente reduz devagar, junto."”
Não diga: Evite "é para sempre" e evite "assim que melhorar a gente tira". A primeira não é o que o protocolo diz — ele fala em duração indeterminada com reavaliação semestral, não em sentença. A segunda cria a expectativa de que a melhora é a hora de parar, que é exatamente o raciocínio que produz recaída.
A pessoa conta, envergonhada, que parou o remédio porque não está conseguindo ter relação sexual
“"Que bom que você me contou, e me desculpa por não ter perguntado antes. Isso é um efeito conhecido do remédio, acontece com muita gente e não é frescura nem coisa da sua cabeça. Não é motivo para você aguentar calado nem para largar tudo. Tem coisas que a gente pode fazer: ajustar a dose, tentar outro remédio, verificar se é a prolactina que subiu. Vamos dosar e conversar de novo em duas semanas. Enquanto isso, não pare sozinho — me diga o que dá para você sustentar até lá."”
Não diga: Evite minimizar ("isso passa") e evite tratar como preço inevitável do tratamento ("é assim mesmo, é melhor do que ficar doente"). O protocolo federal prevê explicitamente que a elevação de prolactina com queda de libido ou alteração menstrual já indica considerar outro antipsicótico, e manda dosar prolactina sempre que houver sintoma compatível. Não perguntar sobre isso é a razão silenciosa de uma parte grande dos abandonos.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Tratar cedo — Projeto Diretrizes AMB/ABP/SBP, elaboração final em 31 de março de 2012
O Projeto Diretrizes da Associação Médica Brasileira e da Associação Brasileira de Psiquiatria (elaboração final em 31 de março de 2012) afirma, com o grau mais alto da sua escala de evidência, que um longo tempo de psicose sem tratamento está independentemente associado a curso mais grave e mais crônico, e que o atraso no diagnóstico e no tratamento se associa a pior resposta e a mais recaídas. Quem sustenta esta posição lê o antipsicótico como intervenção sobre o tempo, e considera que cada semana de espera é custo.
Associação Médica Brasileira; Associação Brasileira de Psiquiatria; Sociedade Brasileira de Pediatria. Primeiro Episódio Psicótico (PEP): Diagnóstico e Diagnóstico Diferencial. Projeto Diretrizes, elaboração final em 31 de março de 2012
Observar antes — o mesmo Projeto Diretrizes de 31 de março de 2012, somado aos critérios de exclusão do PCDT da Esquizofrenia de 2013
O mesmo documento, na mesma data, registra que a acurácia diagnóstica do primeiro episódio melhora com instrumentos padronizados e com um tempo maior de observação, de 24 a 72 horas, e afirma que todo primeiro episódio psicótico deve ser investigado e ter causas clínicas ou neurológicas descartadas. Quem sustenta esta posição observa que o antipsicótico modifica o quadro que ainda está sendo avaliado, e que os critérios de exclusão do protocolo federal — psicose alcoólica ou tóxica — ficam mais difíceis de aplicar depois que o fármaco entrou.
Associação Médica Brasileira; Associação Brasileira de Psiquiatria; Sociedade Brasileira de Pediatria. Projeto Diretrizes, 31 de março de 2012; Portaria SAS/MS nº 364, de 9 de abril de 2013 (PCDT da Esquizofrenia, critérios de exclusão)
Decida pelo tempo que você tem com esta pessoa, e não pela posição de princípio. Se o Ailton vai ficar 48 horas em observação num serviço que o reavalia, observar é possível e a acurácia ganha. Se ele vai embora hoje e a próxima consulta é daqui a seis semanas, a observação não vai acontecer — vai acontecer um intervalo sem tratamento e sem vigilância, e nesse cenário a decisão de tratar hoje é a que respeita o dado de maior peso da mesma diretriz. A pergunta operacional, portanto, é uma só: quem reavalia esta pessoa, onde, e em quantos dias. Se a resposta for "ninguém marcado", a espera não é observação.
Exigir o familiar — PCDT da Esquizofrenia, Portaria SAS/MS nº 364, de 9 de abril de 2013
O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Esquizofrenia, aprovado pela Portaria SAS/MS nº 364, de 9 de abril de 2013, e vigente, inclui entre os critérios de inclusão, ao lado do diagnóstico, a presença de um familiar ou responsável legal interessado, participativo, disponível e com funcionamento global adequado, com alternativa apenas para a pessoa cronicamente asilada. O artigo 2º da mesma portaria e o § 2º do artigo 1º tornam a observância do protocolo obrigatória para fins de dispensação do medicamento nele previsto. Quem sustenta esta posição lê a exigência como garantia de manejo e de supervisão da adesão.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria SAS/MS nº 364, de 9 de abril de 2013 — PCDT da Esquizofrenia (critérios de inclusão; art. 1º, § 2º, e art. 2º)
Restringir a exigência — PCDT do Transtorno Esquizoafetivo, Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 07, de 14 de maio de 2021
O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Transtorno Esquizoafetivo, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 07, de 14 de maio de 2021, e igualmente vigente, exige o familiar apenas quando há prejuízo funcional grave com perda de autonomia que demande internação, ou quando a pessoa está cronicamente asilada — e acrescenta que quem não preenche critérios por questão de adesão deve participar de programas que o tornem elegível ao tratamento. Quem sustenta esta posição observa que as duas populações são clinicamente próximas, que os oito fármacos são os mesmos, e que a redação de 2021 é oito anos mais nova.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 07, de 14 de maio de 2021 — PCDT do Transtorno Esquizoafetivo (critérios de inclusão)
São duas normas federais em vigor, do mesmo Ministério, com sujeitos diferentes para uma obrigação quase idêntica, e a diferença recai justamente sobre quem tem menos rede: a pessoa isolada, a que mora sozinha, a que rompeu com a família, a que está em situação de rua. Do lado do paciente à frente, a decisão prática é não deixar a pessoa sem tratamento enquanto a divergência existe: registre no laudo quem exerce a função de suporte de fato, ainda que não seja familiar — vizinho, agente comunitário de saúde, equipe do serviço de saúde mental do território, instituição de acolhimento —, nomeie essa pessoa e o vínculo, e leve a discordância à farmácia ou à regulação por escrito e não por telefone. Se a dispensação for negada, a negativa e o motivo entram no prontuário: é o registro que permite ao serviço e à gestão verem o tamanho do problema.
Seguir o protocolo — PCDT da Esquizofrenia (2013) e PCDT do Transtorno Esquizoafetivo (2021)
Os protocolos federais de 2013 e de 2021 indicam decanoato de haloperidol de 150 a 200 mg por mês para a maioria dos casos, a cada 4 semanas, e autorizam iniciar com até 400 mg por mês nos primeiros meses, pela meia-vida longa e pelos 3 a 6 meses até a estabilização plasmática. A 50 mg/mL, isso são 3 a 4 mL na manutenção e até 8 mL na fase inicial.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria SAS/MS nº 364, de 9 de abril de 2013; Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 07, de 14 de maio de 2021
Seguir a bula — Haldol® decanoato, bula aprovada pela Anvisa em 26 de abril de 2018
A bula do produto, aprovada pela Anvisa em 26 de abril de 2018, afirma que volumes maiores que 3 mL são desconfortáveis para o paciente e não são recomendados — e, algumas linhas adiante, no mesmo trecho, oferece até 6 mL (300 mg) nos casos mais graves, contradizendo-se. A bula também declara a regra de conversão que os dois protocolos usam sem enunciar: cerca de 20 vezes a dose oral diária a cada 4 semanas.
Haldol® decanoato, solução injetável de decanoato de haloperidol 70,52 mg/mL (equivalente a 50 mg de haloperidol por mL). Bula para o profissional de saúde, Janssen-Cilag Farmacêutica Ltda., aprovada pela Anvisa em 26 de abril de 2018
A decisão não é entre desobedecer a norma e machucar o paciente: é sobre onde o volume entra. Nenhum dos documentos discute fracionamento, e essa é a lacuna que o clínico preenche — a aplicação em mais de um sítio, ou o escalonamento da dose ao longo das primeiras semanas em vez do salto para 400 mg de uma vez, resolve o conflito sem violar nem a dose do protocolo nem o limite de volume da bula. O que não se deve fazer é reduzir silenciosamente a dose para caber em 3 mL e deixar o registro sugerindo que a dose prescrita foi aplicada. Escreva o volume e o sítio de cada aplicação, e quem for auditar entende a decisão. Esta é uma escolha de execução, e ela é do serviço especializado que aplica — o clínico geral precisa saber que o conflito existe para não reduzir dose por engano no dia em que a ampola sobrar.
O raciocínio, em voz alta
Quinta-feira, dez e vinte da manhã, unidade de pronto atendimento sem psiquiatra na escala. Ailton Fragoso, 21 anos, trazido pela mãe, Sabina. A ficha diz "paciente agitado, familiar", mas ele entra andando devagar e senta antes que você peça. A mãe conta que ele largou o curso técnico, trancou o quarto, conversa sozinho de madrugada e ontem jogou o celular na parede dizendo que estava sendo gravado. Perguntado há quanto tempo, ela responde "piorou no mês passado"; perguntado como ele estava antes, ela reconstrói dois anos de retração progressiva, com uma passagem pelo posto em algum momento desse período, de onde saiu com uma receita para dormir.
Passo 1 — a sala, e a ordem das pessoas
Você leva os dois para a sala de procedimentos, que está livre e é a mais silenciosa. Senta. Pede à Sabina que espere do lado de fora por cerca de dez minutos, explicando que vai chamá-la depois e que quer conversar com o Ailton primeiro. Ela resiste um pouco e aceita. Você se apresenta pelo nome, diz que vai conversar, examinar e explicar antes de fazer qualquer coisa, e pergunta se pode encostar nele para medir a pressão.
Passo 2 — os cinco minutos que excluem o mais rápido
Temperatura 36,4 °C. Frequência cardíaca 88, pressão 118 por 74 mmHg, saturação 98% em ar ambiente, frequência respiratória 16. Glicemia capilar 94 mg/dL. Ao exame neurológico básico: alerta, orientado no tempo e no espaço, atenção preservada, pupilas isocóricas e fotorreagentes, sem sinal focal, marcha normal, sem rigidez, sem tremor, sem movimentos involuntários de face ou língua. Você anota os negativos com o mesmo cuidado dos positivos, porque é isso que vai poupar o próximo médico.
Passo 3 — a conversa a sós
Ailton conta que ouve duas vozes de homens que comentam o que ele faz — "agora ele está mentindo", "ele vai contar" — e que isso acontece quase todo dia há mais ou menos um ano. Acredita que o celular grava as conversas dele e as manda para pessoas que ele não sabe nomear. Está convicto. Perguntado sobre substâncias, diz que fumou maconha algumas vezes aos 17 anos e nunca mais, que não bebe e que não usa remédio de ninguém. Perguntado diretamente sobre morrer, diz que já pensou que seria mais fácil sumir, mas que não tem plano e não faria por causa da mãe. Você registra a resposta com as palavras dele.
Passo 4 — a conversa com a mãe, e a data que ninguém escreve
Com Sabina, você constrói a linha do tempo para trás e chega a um evento datável: ele repetiu o segundo ano do curso técnico, e foi nesse ano que parou de sair. Isso dá dois anos. Não há história familiar conhecida de transtorno mental grave. Não há medicamento em casa além do da pressão dela. Você anota, com essas palavras, "início dos sintomas segundo a mãe: há cerca de dois anos" — e essa é a linha que vai dizer ao próximo serviço há quanto tempo esta psicose está sem tratamento.
Passo 5 — a devolutiva, com os dois juntos
Você chama a mãe de volta e resume em voz alta, na frente dos dois, o que entendeu. Diz que o que o Ailton tem hoje se chama primeiro episódio psicótico, que ainda não dá para dizer qual é a doença, que vai investigar outras causas, e que o tratamento começa agora justamente porque o tempo sem tratamento é o que piora o curso. Sabina pergunta se é esquizofrenia; você responde na frente dele que hoje não dá para saber e que quem disser que sabe está adiantando.
Passo 6 — a decisão de destino e a primeira receita
Não há risco de suicídio que exija internação, não há sinal de causa orgânica, há suporte em casa. Destino: alta com retorno marcado. Você prescreve haloperidol 1 mg por via oral duas vezes ao dia por três dias, subindo para 2 mg duas vezes ao dia se tolerado — dentro da faixa inicial que o protocolo federal de 2021 escreve e que o de 2013 omite — e explica que a farmácia do posto tem esse remédio sem processo nenhum. Solicita a linha de base: peso e altura medidos na hora (68 kg, 1,74 m), circunferência abdominal 79 cm, glicemia de jejum, colesterol total e frações, triglicerídios, e acrescenta hemograma, sódio e potássio, com a justificativa escrita de que o protocolo federal mais recente os inclui na avaliação basal.
Passo 7 — o aviso que compra a próxima consulta
Antes de entregar a receita, você descreve os efeitos com as palavras que eles vão usar: o pescoço pode entortar, os olhos podem virar para cima, os dentes podem trincar — não é perigoso, resolve com um remédio que o posto tem, e não é sinal de que deu errado. Pode dar uma inquietação, uma vontade de não parar quieto: se der, é para voltar e não para aumentar por conta. Pode engordar, e por isso o peso de hoje ficou anotado. E pode atrapalhar o sexo, e isso é conversável. Você escreve numa folha os motivos de voltar antes: febre com rigidez, dificuldade para engolir, desmaio, ideia de se machucar.
Passo 8 — o encaminhamento com data, e o registro
Você liga para o serviço de saúde mental do território e consegue avaliação em nove dias; escreve a data no encaminhamento e no papel que entrega à Sabina, junto com o telefone da unidade. Marca também retorno na unidade básica em sete dias, para ver os exames e o efeito da primeira semana, e explica que a unidade básica continua responsável mesmo depois que o serviço especializado assumir. No prontuário fica: descrição em vez de rótulo, falas entre aspas, negativos nomeados, três datas — início há dois anos, atendimento de hoje, retorno em sete dias — e a hipótese escrita como primeiro episódio psicótico em investigação. Nenhuma linha diz esquizofrenia, e nenhuma linha diz que o caso está resolvido.
Faça você
Mercedes Zenha tem 38 anos, diagnóstico de esquizofrenia há nove, e chega à unidade básica numa terça de manhã trazida pela irmã, que diz que ela piorou. Mercedes não senta: fica de pé, muda de posição, anda até a janela e volta, cruza e descruza as pernas quando enfim senta. Diz que está bem, que quem quis vir foi a irmã. Vinha usando haloperidol 5 mg por dia havia dois anos, com boa estabilidade; na consulta anterior, há três semanas, o serviço aumentou para 10 mg por dia porque a irmã relatou que ela andava "mais quieta e mais desconfiada". Desde então, segundo a irmã, ficou assim — sem parar. Ao exame: alerta, orientada, atenção preservada, sem febre, sem rigidez, sem movimentos involuntários de face ou língua, glicemia capilar 88 mg/dL. Ela nega ouvir vozes agora. Quando você pergunta como tem sido tomar o remédio, ela desvia o olhar e diz que às vezes esquece.
Passo 1 — decida o que você está vendo antes de decidir o que fazer
A inquietação motora que apareceu depois de um aumento de dose, em pessoa alerta, orientada, sem febre e sem rigidez, tem um nome e não é piora da doença. Nomeie o que você está vendo e diga por que não é a alternativa — o que exclui rebaixamento, o que exclui síndrome neuroléptica maligna, o que exclui recaída dos sintomas positivos.
Passo 2 — resolva a dose
Decida o que fazer com os 10 mg por dia, em que direção e com que alternativa medicamentosa, usando o que existe no Componente Básico da Rename 2024. Escreva a conta em comprimidos, com a apresentação real.
Passo 3 — vá atrás do "às vezes esquece"
Formule as perguntas que medem a adesão em vez de perguntá-la, e formule a pergunta que descobre o motivo real do esquecimento — inclusive o motivo que ela não vai contar espontaneamente. Diga o que faria com a resposta.
Passo 4 — decida se cabe depósito, e o que isso significa no elenco brasileiro
Se a impossibilidade de uso oral se confirmar, diga qual é a conduta que os dois protocolos federais determinam, qual apresentação da Rename 2024 corresponde a ela, e faça a conta da dose mensal a partir da dose oral que ela vinha usando com estabilidade.
Ver como fecharíamos
O que está acontecendo é acatisia, e ela é efeito do aumento da dose — inquietação motora que começou três semanas atrás, junto com a mudança de 5 para 10 mg, em pessoa alerta, orientada e com atenção preservada. Não é rebaixamento, porque a consciência está íntegra; não é síndrome neuroléptica maligna, porque não há febre nem rigidez, e essa é a suspeita que mandaria o caso imediatamente para o capítulo Agitação psicomotora no pronto-socorro; e não é recaída dos sintomas positivos, porque ela nega alucinação e a queixa da irmã antes do aumento era o oposto — mais quieta e mais desconfiada, que é como se descrevem sintomas negativos e ideia de referência, não agitação. A armadilha aqui é exatamente a que o Caderno de Atenção Básica descreve: acatisia confundida com baixa resposta, dose elevada, acatisia pior. Na dose: volte para 5 mg por dia, que é a dose com que ela ficou estável por dois anos — 1 comprimido de 5 mg ao dia, ou 2 comprimidos de 1 mg mais 3 comprimidos de 1 mg se for a apresentação que a farmácia tiver — e trate a acatisia enquanto a redução faz efeito, com propranolol 40 a 80 mg por dia divididos, que está no Componente Básico como comprimido de 10 e de 40 mg; o clonazepam em dose baixa é a outra opção do caderno, e na Rename 2024 ele existe apenas como solução oral de 2,5 mg/mL, o que faz 0,5 mg corresponder a 0,2 mL. Biperideno não é o remédio da acatisia: ele é o do parkinsonismo e da distonia aguda. Sobre a adesão, não pergunte se ela toma direito: pergunte quantos comprimidos sobraram da última cartela, quando foi a última retirada na farmácia e quem organiza os horários em casa — e pergunte, sem eufemismo e de preferência a sós, se o remédio mudou alguma coisa no corpo dela, incluindo o desejo e a menstruação. Em mulher usando antipsicótico, alteração menstrual, galactorreia e queda de libido pedem dosagem de prolactina, que o protocolo federal manda solicitar sempre que houver sintoma compatível — e prolactina elevada com sintoma já é, no próprio protocolo, motivo para considerar outro antipsicótico. Só depois de excluir efeito adverso, receita vencida, falta de estoque e processo administrativo parado é que se chama aquilo de má adesão. Se ela se confirmar, os dois protocolos federais — o de 2013 e o de 2021 — mandam substituir o antipsicótico oral por decanoato de haloperidol. Ele está na Rename 2024, no Componente Básico, como haloperidol 50 mg/mL solução injetável: procurar por "decanoato" na Rename devolve zero e faz o leitor concluir errado. A conta parte da dose oral estável: 5 mg por dia × 20 = 100 mg a cada 4 semanas, e 100 ÷ 50 = 2 mL, ou 2 ampolas de 1 mL, por via intramuscular profunda. Dois mililitros ficam abaixo do limite de volume que a bula do produto declara — o que já não aconteceria se a dose oral de referência fosse 10 mg por dia, que daria 4 mL.
A rede precisa ser construída conforme necessidades. Critérios administrativos específicos devem ser resolvidos com a assistência, sem substituir a avaliação e o direito ao cuidado.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Recuperação ativa em sete dias. Reconstrua o curso de Ailton sem fechar diagnóstico apenas pela retração. Explique os exames de base e o que não deve atrasar cuidado urgente. Responda antes de reler e depois confira onde faltou justificar uma decisão.
Em 30 dias
Aplicação em trinta dias. Reavalie resposta, acatisia, metabolismo e objetivos de vida. Discuta longa ação de forma compartilhada e clozapina após ensaios adequados, com monitorização e acesso efetivo. Use dados observados, reconheça o que ainda não sabe e peça comparação com a avaliação do supervisor.
Agora atenda
Agora atenda: unidade de pronto atendimento de município médio, manhã de quinta-feira, sem psiquiatra na escala. Um adulto jovem chega acompanhado de um familiar que fala por ele; a ficha da triagem traz uma queixa de comportamento e nada mais. Ele está calmo, e o familiar não está. Você tem a conversa — com os dois e com cada um separadamente —, o exame físico e neurológico, os sinais vitais, a decisão de investigar ou não, a de prescrever ou não, e a de como essa pessoa sai daqui: para onde, com que data e com quem responsável.
