Outras Especialidades › Psiquiatria
O que a sedação apaga
Agitação psicomotora no pronto-socorro: causas orgânicas, desescalada verbal, contenção e síndrome neuroléptica maligna
Agitação é sinal, não diagnóstico. O que estava embaixo dela não desaparece quando o paciente dorme: só deixa de ser visto. E conter é ato com indicação, prazo, vigilância e registro, nunca recurso de conveniência.
Mantovani C, Migon MN, Alheira FV, Del-Ben CM. Manejo de paciente agitado ou agressivo. Revista Brasileira de Psiquiatria. 2010;32(Supl II):S96-S103.
Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.057, de 20 de setembro de 2013, publicada no Diário Oficial da União de 12 de novembro de 2013, Seção I, p. 165-71. Consolida as resoluções da área da Psiquiatria. Art. 16, §§ 2º a 5º.
Conselho Federal de Enfermagem. Resolução Cofen nº 746, de 20 de março de 2024. Normatiza os procedimentos de enfermagem na contenção mecânica de pacientes. Diário Oficial da União nº 64, quarta-feira, 3 de abril de 2024, ISSN 1677-7042, Seção 1, p. 91.
Conselho Federal de Enfermagem. Resolução Cofen nº 427, de 7 de maio de 2012. Normatiza os procedimentos da enfermagem no emprego de contenção mecânica de pacientes. REVOGADA pela Resolução Cofen nº 746/2024.
Bucaretchi F, Prado CC, Borrasca-Fernandes CF, De Capitani EM. Recomendações gerais de indicações, uso e estoque de antídotos. Centro de Informação e Assistência Toxicológica de Campinas, Faculdade de Ciências Médicas, Hospital de Clínicas, Universidade Estadual de Campinas. Março de 2025.
São Paulo (Cidade). Secretaria Municipal da Saúde. Coordenadoria de Vigilância em Saúde. Manual de Toxicologia Clínica: orientações para assistência e vigilância das intoxicações agudas. São Paulo, 2017.
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília, 2024.
Bula profissional de haloperidol solução injetável 5 mg/mL. Fresenius Kabi Brasil Ltda. Medicamento genérico, Lei nº 9.787/1999.
Bula de Haldol decanoato (decanoato de haloperidol) solução injetável 50 mg/mL. Janssen-Cilag Farmacêutica Ltda.
Bula profissional de cloridrato de clorpromazina solução injetável 5 mg/mL, embalagem com 50 ampolas de 5 mL.
Bula de Fenergan (cloridrato de prometazina) solução injetável 25 mg/mL, 25 ampolas com 2 mL. Sanofi Medley Farmacêutica Ltda.
Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.056, de 20 de setembro de 2013, publicada no Diário Oficial da União de 12 de novembro de 2013, Seção I, p. 162-3. Art. 34.
Brasil. Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001. Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental.
NICE NG10 — tranquilização rápida e monitorização
COFEN 746/2024 — contenção mecânica e monitorização
MHAUS/NMSIS — síndrome neuroléptica maligna e tratamento
FDA — advertência sobre abstinência de benzodiazepínicos
Prefeitura de São Paulo — elenco local, emergência e dispensação
Ministério da Saúde — Rename 2024, financiamento, p. 17 (cópia oficial municipal)
Responda antes de ler
Duas e quarenta da manhã, pronto-socorro de hospital municipal sem psiquiatra na escala. Chega de ambulância um homem de 34 anos, contido com ataduras nas grades da maca, falando alto e sem parar, sudoreico, puxando os punhos. A ficha do serviço de remoção diz surto psicótico, agressivo. A irmã informa que ele nunca teve nada parecido e que o quadro começou ontem. A enfermagem já separou uma bandeja com haloperidol e prometazina intramusculares e pergunta se pode aplicar. Qual é a conduta neste momento?
O paciente que você vai ver
Duas e quarenta da manhã de uma quinta-feira. O hospital é municipal, tem noventa e dois leitos e é o único com pronto-socorro num raio de quarenta quilômetros. Quem cobre a noite é você, mais um clínico que está intubando alguém na sala vermelha há vinte minutos, dois técnicos de enfermagem e a enfermeira do plantão. Há dois leitos de emergência, seis macas na observação e um corredor onde cabem mais três. Uma ambulância para na rampa e o socorrista já vem empurrando a maca, falando antes que alguém pergunte. A ficha que ele deixa no balcão tem quatro palavras escritas à mão: surto psicótico, agressivo, contido.
Quem está na maca é Delcio Madruga, 34 anos, pedreiro. Ele está com as duas mãos amarradas com ataduras de crepom nas grades laterais, o tronco molhado de suor, e fala sem parar, alto, uma frase atrás da outra, sem esperar resposta. Repete que precisa sair, que tem que trabalhar às sete, que ninguém está entendendo. Puxa os punhos contra a atadura a cada dez segundos. Não xinga ninguém e não olha para ninguém: olha para os cantos do teto e para a porta. O socorrista diz que a irmã chamou o serviço porque ele quebrou uma cadeira em casa e que ele já veio contido do domicílio, com cinco pessoas segurando, porque não deixava aproximar.
A irmã chega três minutos depois, de moto, com o capacete ainda na mão. Alvarina Selva tem 41 anos, mora na casa dos fundos do mesmo terreno e é quem cuida dele desde que a mãe morreu. Ela está com medo, e o medo dela não é do irmão: é do que vai acontecer com o irmão. A primeira coisa que ela diz, antes de você perguntar qualquer coisa, é que ele nunca foi assim, que ele não tem doença dos nervos, que isso começou ontem. A segunda é uma pergunta: vocês vão amarrar ele a noite inteira?
A enfermeira já preparou, sem que ninguém pedisse, o que a casa costuma preparar: uma bandeja com duas ampolas de haloperidol e duas de prometazina, agulha, seringa e álcool. É o que se faz aqui há anos, e funciona no sentido estreito de que em vinte minutos o paciente para de falar. O técnico pergunta se pode fazer. A pergunta é sincera e a resposta importa, porque as duas ampolas na bandeja resolvem o barulho e não resolvem nada mais — e o que este capítulo vai defender é que a decisão de fazê-las, ou de não fazê-las, se toma depois de três a quatro minutos de dados que ninguém colheu ainda.
Esses minutos existem. O paciente está contido, a equipe está reunida, ninguém está em risco imediato neste segundo. É exatamente o intervalo em que se decide se a agitação de Delcio é a manifestação de um transtorno mental, e portanto um problema de psiquiatria, ou a manifestação de uma condição clínica que a sedação vai encobrir sem tratar — uma glicemia de 34, uma saturação de 82%, uma temperatura de 39,2, uma pupila anisocórica, um hematoma occipital, três dias sem beber depois de vinte anos bebendo todo dia. Nenhuma dessas seis coisas continua visível depois de duas ampolas intramusculares. Todas as seis são achadas em menos de quatro minutos por quem sabe o que procurar.
Há um segundo fio nesta madrugada, e ele é tão importante quanto o primeiro. Delcio chegou contido. Alguém decidiu contê-lo, na casa dele, e depois alguém aqui vai decidir se ele continua contido, por quanto tempo, sob que vigilância e com que registro. Duas normas brasileiras em vigor governam essa decisão, e elas não dizem a mesma coisa. Nenhuma delas fixa um número de minutos. A que mais detalhava o que vigiar foi revogada em 2024 e substituída por outra que detalha menos. Este capítulo mostra o que sobrou, e o que sobrou obriga o médico a escrever no prontuário coisas que quase ninguém escreve.
Quem adoece disso
A primeira estatística útil deste capítulo é a que explica por que ele existe para o interno de clínica, e não só para o residente de psiquiatria. A diretriz brasileira de manejo do paciente agitado, publicada em 2010 na Revista Brasileira de Psiquiatria, reúne os números disponíveis: nos Estados Unidos, cerca de 5% dos atendimentos de emergência decorrem de alterações de comportamento; no Brasil, a proporção de atendimentos de emergência por transtornos mentais gira em torno de 3% do total realizado em hospital geral de emergências, e um quarto dessas visitas é motivado por comportamento agitado ou violento.
Vale fazer a conta que a diretriz não faz, porque ela muda a percepção do problema. Três por cento dos atendimentos, e um quarto deles por agitação, dá 0,75% do movimento total — três em cada quatrocentos atendimentos. Num pronto-socorro que atende quatrocentas pessoas por dia, é um episódio por dia. Num que atende cem, é um a cada quatro dias. Isso não é raridade de serviço especializado: é frequência de plantão. E os dois números que a compõem vêm de estudos brasileiros de 1999 e 2000, citados pela diretriz de 2010 — não há medida nacional mais recente da proporção de atendimentos de emergência motivados por agitação, e a referência que o país usa para dimensionar o problema tem, portanto, mais de vinte anos.
A segunda estatística é sobre quem é contido, e ela vem de um estudo brasileiro, feito no Rio de Janeiro, citado pela mesma diretriz. A indicação de contenção mecânica a pacientes agitados baseia-se fundamentalmente no julgamento clínico sobre a gravidade da agitação, sem influência do sexo do paciente e sem influência do tipo de intervenção farmacológica utilizada. Mas dois grupos têm maior probabilidade de serem contidos: os pacientes mais jovens e os que têm diagnóstico de transtorno mental devido ao uso de substância psicoativa. Guarde este segundo achado, porque ele descreve exatamente o paciente da cena de abertura, e porque descreve um viés e não um critério.
A terceira é a que mais custa dizer em voz alta. Em 1994, a comissão do estado de Nova Iorque para qualidade de cuidados reportou 111 óbitos relacionados à contenção mecânica nos dez anos anteriores — cerca de onze por ano, num único estado —, e foi esse relatório que provocou a revisão ampla das práticas de contenção e isolamento naquele país. O dado é estrangeiro e tem trinta anos. Não existe equivalente brasileiro: não há registro nacional de óbitos relacionados à contenção mecânica. Não se trata de afirmar que eles não ocorrem; trata-se de constatar que não são contados, e a diferença entre as duas afirmações é o assunto do parágrafo seguinte.
Contenção mecânica não é procedimento inócuo cujo único custo é o constrangimento. A diretriz brasileira lista as complicações clínicas descritas: desidratação, redução da perfusão em extremidades, fraturas, depressão respiratória e morte súbita. Ela acrescenta a frase que organiza toda a segunda metade deste capítulo — esses distúrbios são passíveis de serem evitados se houver observação contínua do paciente contido. Ou seja: o dano da contenção não vem principalmente do ato de conter; vem do intervalo entre conter e olhar de novo.
Há uma quarta medida, e ela serve de calibragem do que é uso criterioso. Em serviços americanos de emergência psiquiátrica, onde a admissão involuntária é relativamente frequente, menos de 10% dos pacientes são contidos fisicamente em algum momento da permanência, e a contenção mecânica é mantida por período relativamente curto. Não é um alvo transplantável — os autores brasileiros observam que a variabilidade internacional das taxas de contenção decorre muito mais de diferenças culturais e legislativas do que de critérios clínicos —, mas é uma ordem de grandeza contra a qual um serviço pode se medir. Um pronto-socorro que contém a maioria dos pacientes agitados não está seguindo um critério clínico mais rigoroso que o dos outros: está seguindo outro critério.
Vale registrar que em alguns países europeus, como Reino Unido e Holanda, a contenção mecânica não é permitida por lei, enquanto nos Estados Unidos ela é prática corrente, associada à intervenção farmacológica, em serviços de emergência psiquiátrica. A prática, portanto, não é universal nem determinada pela biologia do problema. Isso importa para o interno brasileiro por uma razão prática: quando você lê que tal esquema é padrão, convém perguntar padrão em que país, com que norma e com que estrutura de vigilância.
Por fim, a epidemiologia que não é de números e sim de causas, porque é ela que dá o título ao capítulo. A diretriz brasileira é explícita ao afirmar que agitação psicomotora e agressividade são manifestações psicopatológicas complexas mas inespecíficas, decorrentes de condições clínicas variadas, e que num serviço médico o comportamento agitado é, na grande maioria das vezes, decorrente de alguma condição médica subjacente. Entre as causas clínicas gerais mais comumente associadas a estados agudos de agitação ela lista hipoglicemia, hipóxia, traumatismo cranioencefálico, sangramento, hiper e hipotermia, meningite, sepse, acidente vascular cerebral, hemorragia subaracnoide, estados pós-ictais ou estado de mal epiléptico, tumores cerebrais e doenças tireoidianas. Nenhum desses diagnósticos melhora com haloperidol.
Duas consequências práticas se seguem, e são as duas frases que o capítulo pede que você leve para o plantão. A primeira: comportamento agitado não é particularidade de nenhum transtorno mental específico, e a ficha que chega escrita como surto psicótico é uma hipótese de terceiros, não um diagnóstico. A segunda: pessoas com transtornos psiquiátricos graves usam serviços de emergência com mais frequência que a população geral, o que significa que quem tem doença mental aparece mais no pronto-socorro por todos os motivos pelos quais qualquer pessoa aparece — infecção, trauma, dor, descompensação metabólica —, e não que a doença mental seja a explicação do que está acontecendo hoje. Confundir as duas coisas é o mecanismo pelo qual um paciente com meningite sai do plantão sedado e sem diagnóstico.
Por que acontece o que acontece
Agitação psicomotora tem uma definição operacional simples, e vale começar por ela porque ela já contém o argumento: atividade motora excessiva associada a uma experiência subjetiva de tensão. Duas partes, uma visível e outra não. A parte visível é a que a equipe reage; a parte invisível — a tensão, o desconforto, o medo — é a que responde à abordagem. Um paciente que anda pelo corredor sem parar e um paciente que quebra uma cadeira estão os dois com atividade motora aumentada, e a diferença entre eles não está na doença: está no grau, no ambiente e em quanto de tensão subjetiva ainda encontra saída em palavras.
O sistema nervoso tem poucas maneiras de expressar sofrimento agudo, e a agitação é uma delas — uma via final comum, alcançada por caminhos que não se parecem entre si. O neurônio que não recebe glicose suficiente, o que não recebe oxigênio suficiente, o que está sob febre alta, o que está sob o efeito de uma substância estimulante e o que perdeu de repente o freio inibitório a que estava habituado terminam produzindo o mesmo quadro de fora: desorganização, inquietação, incapacidade de sustentar atenção, mudança do comportamento. A inespecificidade não é um defeito do sinal; é a natureza dele. É por isso que o sinal não substitui o diagnóstico.
Vale destrinchar dois desses caminhos, porque explicam as duas causas que mais somem sob sedação. Na hipoglicemia, a queda do substrato energético atinge primeiro o córtex, e o quadro que aparece antes do rebaixamento é comportamental: irritabilidade, confusão, comportamento estranho, às vezes francamente agressivo, com sudorese e taquicardia por descarga adrenérgica. Na hipóxia, o mesmo córtex fica desorganizado antes de o paciente ficar sonolento, e a agitação frequentemente precede a queda do nível de consciência — de modo que o paciente mais agitado da sala pode ser o que está pior, e não o mais escandaloso.
O terceiro caminho é o da retirada. Quando um depressor do sistema nervoso central é usado continuamente por muito tempo, o sistema se reorganiza para funcionar na presença dele: reduz o tônus inibitório próprio e aumenta o excitatório, para compensar. Se a substância desaparece de repente, essa compensação fica descoberta e o resultado é hiperexcitação — tremor, sudorese, taquicardia, insônia, ansiedade, agitação, e, em alguns, convulsão e delirium. É por isso que a abstinência produz agitação, e por isso que o antipsicótico é o pior remédio possível para ela: não repõe o que faltou e ainda reduz o limiar convulsivo de um cérebro que já está com o limiar reduzido. O reconhecimento desse quadro é assunto deste capítulo; o manejo dele é do capítulo A abstinência que não pode esperar, e é para lá que se vai depois de reconhecer.
A sedação atua sobre a via final comum, e não sobre nenhum dos caminhos. Isso é o mecanismo do erro que dá título ao capítulo. Um antipsicótico bloqueia receptores dopaminérgicos e reduz a expressão motora; um benzodiazepínico aumenta a neurotransmissão inibitória e reduz o arousal. Nenhum dos dois corrige glicemia, nenhum melhora oxigenação, nenhum trata infecção, nenhum repõe o que a abstinência tirou. O que eles fazem é remover o sinal. E o sinal, no paciente agitado, é a maior parte do exame neurológico disponível: nível de consciência, orientação, atenção, linguagem, conteúdo do pensamento. Sedar antes de olhar não é ganhar tempo — é destruir o instrumento de medida e depois ter de esperar horas para recuperá-lo.
O mecanismo do dano da contenção mecânica é físico e vale conhecê-lo, porque é ele que justifica cada item da vigilância. Um corpo imobilizado em decúbito, contra a vontade e em esforço, ventila mal: a musculatura acessória fica indisponível e o trabalho respiratório aumenta contra uma parede torácica presa. O esforço muscular sustentado contra a faixa gera calor e lesa fibra muscular, com liberação de mioglobina. As faixas comprimem partes moles, e a compressão sustentada reduz perfusão distal. A imobilidade favorece estase venosa. Um paciente sedado e contido em decúbito dorsal, com o reflexo de proteção de via aérea deprimido, aspira. Cada um desses mecanismos tem um sinal de alarme correspondente, e cada sinal de alarme é encontrado por alguém que olha — nunca por alguém que passa pela porta.
A síndrome neuroléptica maligna tem um mecanismo próprio e ele explica a apresentação inteira. O bloqueio dopaminérgico central, quando intenso ou quando cai sobre um sistema vulnerável, atinge duas estruturas ao mesmo tempo. No hipotálamo, retira o sinal dopaminérgico que participa da regulação térmica, e o ponto de ajuste da temperatura sobe. Nos núcleos da base, retira o sinal que modula o tônus, e o resultado é rigidez muscular generalizada e sustentada. A rigidez é ela própria uma fonte de calor: músculo em contração contínua produz calor sem trabalho externo. Febre e rigidez então se alimentam, a musculatura em contração sustentada libera creatinofosfoquinase e mioglobina, e a mioglobina lesa o rim. Some-se a instabilidade autonômica — oscilação de pressão, taquicardia, sudorese profusa — e a alteração do nível de consciência, e está descrito o quadro completo.
Duas consequências práticas saem desse mecanismo, e as duas são conduta. A primeira: como o motor da síndrome é o bloqueio dopaminérgico, a medida que reverte a causa é retirar o bloqueador, imediatamente — a bula do haloperidol injetável diz exatamente isso, que o tratamento antipsicótico deve ser descontinuado imediatamente, com terapia de suporte adequada e monitoramento cuidadoso. A segunda: como uma parte do calor vem da contração muscular, faz sentido mecanístico atacar a contração, e é aí que entra o relaxante muscular que age no retículo sarcoplasmático, inibindo a ligação do receptor de rianodina e reduzindo o cálcio livre intracelular. Se ele existe no serviço onde você está de plantão é outra conversa, e ela tem números, e está adiante.

Como se apresenta de verdade
A agitação chega ao pronto-socorro embrulhada em três camadas que não são o paciente: a palavra que o socorrista escreveu na ficha, o medo de quem trouxe e a expectativa da equipe de que alguém resolva depressa. Desembrulhar as três leva menos tempo do que parece, e é a única maneira de chegar ao que de fato está diante de você. As seções abaixo separam o que se vê do que se conclui, e terminam dizendo, com nome e sobrenome, o que este capítulo assume e o que entrega a capítulos vizinhos.
Aprender para cuidar no internato. Desescalar, tratar causas e tranquilizar com monitorização, reconhecendo efeitos adversos graves. Ao discutir o caso com o preceptor, explicite os achados que sustentam a hipótese, uma alternativa relevante, a decisão que precisa ocorrer agora e o que fará mudar o plano. O resultado esperado é uma ação clínica justificada e acompanhada, além de reconhecer o diagnóstico.
A ficha é uma hipótese de terceiros, não um diagnóstico
Quase todo paciente agitado entra por meio de outra pessoa: familiar, vizinho, quem presenciou o episódio, a equipe da ambulância, às vezes a polícia ou o corpo de bombeiros acionados para controlar a situação fora do hospital. Isso está descrito assim na diretriz brasileira, e tem uma consequência epistemológica que se costuma pular. A palavra que aparece na ficha — surto, crise, agressivo, descontrolado — é a interpretação de alguém que não é médico, feita sob susto, sobre um comportamento que já terminou ou que continua. Ela informa que houve mudança de comportamento. Não informa a causa, e não deve ser copiada para a hipótese diagnóstica.
Há um segundo motivo, mais delicado, para não herdar a palavra da ficha. Pacientes agitados costumam ter juízo crítico da realidade prejudicado e pouca capacidade de reconhecer que estão doentes — e portanto pouca capacidade de reconhecer que precisam de ajuda. Quem chega assim não chega pedindo; chega trazido. A equipe que trata a palavra da ficha como diagnóstico está tratando a leitura de quem trouxe, e quem trouxe é justamente quem estava com medo. O paciente é a única pessoa da sala que ainda não teve voz, e ele é a fonte primária.
O terceiro motivo é o que o capítulo defende do começo ao fim. Num serviço médico, o comportamento agitado decorre, na grande maioria das vezes, de alguma condição médica subjacente. A palavra da ficha empurra o raciocínio para um lado só; o que se procura em seguida costuma ser o que se foi procurar. Escrever na sua própria avaliação agitação psicomotora de início agudo, causa a esclarecer, em vez de surto psicótico, custa oito palavras e mantém aberto o leque que a ficha fechou.
Quatro graus, e por que o grau é que define a conduta
As fontes brasileiras não trazem uma escala de graduação da agitação, e é honesto dizer que a divisão abaixo é leitura desta obra, montada a partir da estrutura de manejo em quatro níveis descrita pela diretriz de 2010, e não citação de documento. Ela serve para uma coisa só: impedir que a conduta do grau mais grave seja aplicada ao grau mais leve, que é o erro mais frequente e o mais caro.
No primeiro grau, há inquietação e tensão sem hostilidade: o paciente anda, fala alto, não consegue ficar sentado, responde quando chamado. Aqui, ambiente e atitude resolvem quase sempre, e qualquer medicação é oral e opcional. No segundo, há hostilidade verbal com preservação do contato: ele ameaça ir embora, eleva a voz, recusa o exame, mas ainda ouve e ainda negocia. Aqui a desescalada verbal é a intervenção principal, e medicação oral entra como oferta, não como imposição.
No terceiro grau, o contato se perde: o paciente não sustenta diálogo, não obedece a pedido simples, avança sobre objetos ou pessoas. É onde entra a medicação parenteral e, se ela não bastar, a contenção. No quarto, há violência física em curso, com risco imediato: aqui a sequência inverte-se e a contenção física por equipe treinada precede tudo, porque não há como medicar nem examinar quem está batendo em alguém. É importante ver que os graus três e quatro, somados, são a minoria dos episódios, e que a conduta deles é a que a maioria das casas aplica a todos.
Um alerta sobre a direção da mudança de grau. A diretriz recomenda que, ao menor indício de hostilidade ou agitação, o paciente seja imediatamente avaliado, mesmo que isso implique interromper outra atividade clínica ou desconsiderar a ordem de chegada — porque quanto mais cedo ele for abordado, menor o risco de o comportamento violento se concretizar. Deixar o paciente do grau um esperando duas horas na fila é o modo mais confiável de produzir um paciente de grau três.
Os sinais que empurram para causa clínica geral
A diretriz brasileira é explícita ao dizer que não se espera que ninguém memorize a lista infindável de diagnósticos diferenciais, e sim que se estabeleça uma rotina de raciocínio que garanta que as informações relevantes sejam obtidas. Dentro dessa rotina, ela nomeia os dados clínicos que sugerem condição médica geral ou neurológica por trás da agitação: início súbito; idade maior que 40 anos; nenhuma história psiquiátrica anterior; alucinações visuais, olfativas e táteis; discurso desconexo; confusão mental; desorientação; história ou sinais físicos de trauma.
Vale ler essa lista devagar, porque cada item é uma pergunta que cabe numa frase. Início súbito pergunta-se assim: isso começou em quantas horas? Idade e ausência de história psiquiátrica anterior perguntam-se ao acompanhante em dez segundos. Alucinação visual, olfativa ou tátil distingue-se da auditiva com uma pergunta direta ao paciente sobre o que ele está vendo, cheirando ou sentindo na pele — e a predominância de alucinação nesses canais, e não no auditivo, é o achado que mais empurra para causa orgânica. Confusão e desorientação medem-se perguntando onde estamos e que dia é hoje. Sinais de trauma acham-se passando a mão no couro cabeludo.
Nenhum desses itens fecha diagnóstico e nenhum, sozinho, exclui transtorno mental primário. O que eles fazem é deslocar a probabilidade e, sobretudo, impedir o encerramento precoce do raciocínio. Um homem de 34 anos sem história psiquiátrica cujo quadro começou ontem tem, pelos critérios acima, três marcadores de causa clínica geral, e isso basta para que a investigação venha antes da sedação.
Há um quarto grupo de causas que a diretriz separa e que merece nome próprio, porque no pronto-socorro brasileiro é o mais frequente: problemas relacionados ao uso de substâncias psicoativas, tanto na intoxicação quanto na abstinência, lícitas ou ilícitas, e também medicações prescritas para condições clínicas gerais com efeito sobre o sistema nervoso central. A pergunta que cobre esse grupo inteiro é uma só, feita ao acompanhante e depois ao paciente: o que ele usa todo dia, e quando foi a última vez?
Quando há febre e rigidez: as três hipertermias que se confundem
Um paciente agitado, ou confuso, com temperatura alta e musculatura rígida, ocupa um cruzamento onde três síndromes se parecem e a conduta de cada uma é diferente. Este capítulo assume a distinção entre elas, porque é aqui que a decisão acontece — mas assume só a distinção, e devolve cada quadro ao seu dono.
A síndrome neuroléptica maligna vem descrita da mesma forma pelas duas bulas de haloperidol lidas para este capítulo: resposta idiossincrática rara caracterizada por hipertermia, rigidez muscular generalizada, instabilidade autonômica, alteração da consciência e aumento dos níveis séricos de creatinofosfoquinase, sendo a hipertermia geralmente um sinal precoce. A marca que a separa das outras duas é a exposição: há um bloqueador dopaminérgico em uso — antipsicótico, e também os antieméticos que bloqueiam dopamina, cujas bulas trazem a mesma advertência. A rigidez é generalizada e plástica, e não predomina em membros inferiores.
A síndrome serotoninérgica ocupa o mesmo cruzamento por outro caminho: exposição a agentes serotoninérgicos, frequentemente em combinação ou após aumento de dose, com hiperatividade neuromuscular que predomina em membros inferiores e cuja marca é o clônus, além de hiper-reflexia, midríase, agitação e diarreia. O documento nacional de antídotos de 2025 traz, para ela, um antagonista de receptores por via oral ou por sonda, com posologia própria — e o manejo dela pertence ao capítulo Intoxicações exógenas agudas e antídotos, da apostila de Toxicologia, junto com as demais exposições. Deste capítulo é só reconhecer que não é neuroléptica maligna e não medicar como se fosse.
A terceira é a hipertermia de origem ambiental, com temperatura central muito alta, exposição a calor e esforço, e disfunção neurológica. Ela tem dono, e o dono está sendo escrito agora: a apostila de Medicina de Emergência, no capítulo de emergências ambientais. A distinção entre as três é deste capítulo e está declarada aqui; o resfriamento, as metas de temperatura e o manejo da lesão por calor são de lá, e é lá que essa parte se estuda. O que fica valendo como regra de bolso é a pergunta de exposição: houve calor e esforço, houve serotoninérgico, ou houve bloqueador dopaminérgico? As três respostas separam as três síndromes antes de qualquer exame.
O paciente agitado que também tem risco de suicídio
Há uma bifurcação que aparece com frequência e que quase nunca é feita a tempo, porque a agitação ocupa toda a atenção da sala. O mesmo paciente pode estar agitado e em risco de morrer pela própria mão, e as duas coisas não competem: a primeira é o que se vê, a segunda é o que se pergunta. A agitação que se acalma, seja pela conversa, seja pela medicação, não resolve a segunda, e o momento em que ele para de gritar é justamente o momento em que a equipe relaxa a vigilância.
Este capítulo assume a parte que é sua: reconhecer que a bifurcação existe, perguntar sobre ideação e sobre tentativa nesta mesma passagem, e não deixar sozinho, em corredor, sem observação direta, o paciente que respondeu qualquer coisa diferente de não. A avaliação estruturada do risco, a decisão sobre destino e o plano de segurança são do capítulo Risco de suicídio na emergência, que abre esta apostila, e a remissão é explícita: assim que a agitação estiver manejada, a avaliação de risco começa lá.
Vale marcar também a direção contrária, porque ela é a mais perigosa. Um paciente que chegou por tentativa de suicídio e que fica agitado durante a permanência não deixou de ser um paciente em risco — ele é as duas coisas ao mesmo tempo, e a sedação que o acalma remove a agitação sem remover o risco. Contenção e sedação nunca substituem observação direta em quem tem risco de autoextermínio; elas apenas mudam a aparência da sala.
O que este capítulo assume e o que entrega, com nome
Assumido aqui, e escrito em nenhum outro lugar deste nível: a exclusão rápida das causas orgânicas diante do paciente agitado e o roteiro que a faz em minutos; a desescalada verbal com as falas; a segurança do ambiente e da equipe; a contenção mecânica com indicação, decisão, número de pessoas, vigilância, prazo, reavaliação e registro; a sedação — o que existe no elenco brasileiro, por que via e o que se monitora depois; a síndrome neuroléptica maligna e sua distinção das outras hipertermias; e a conversa depois, com o paciente e com a família.
Uma fronteira precisa ser declarada antes de todas as outras, porque ela é de vizinhança direta e não de assunto. Existe, neste mesmo nível, um capítulo homônimo — Agitação psicomotora no pronto-socorro, na apostila Síndromes do Paciente na Emergência —, e é para ele que apontam, pelo nome, as remissões dos capítulos vizinhos de psicose e de enfermaria. Ele é o capítulo da porta: aborda a agitação como uma das síndromes com que o paciente chega ao pronto-socorro, ao lado da dor torácica, da dispneia e da alteração do nível de consciência, e organiza os primeiros minutos e a escolha do esquema por cenário. Este aqui é o capítulo do eixo psiquiátrico do mesmo problema, e o que ele acrescenta está nomeado: a desescalada verbal com as falas prontas; a contenção lida como ato documentado, com a comparação entre a norma de enfermagem revogada em 2024 e a que a substituiu; a síndrome neuroléptica maligna com o que se suspende, o que se sustenta e o que o elenco nacional não fornece; e a conversa depois, com o paciente e com a família. Quem quer o roteiro da porta lê o capítulo da apostila de síndromes; quem quer a régua normativa da contenção e o manejo da síndrome neuroléptica maligna lê este.
Entregue por nome, e nesta ordem de vizinhança. O primeiro atendimento do surto psicótico, a exclusão de causa orgânica no primeiro episódio e a escolha do antipsicótico de manutenção são do capítulo Ninguém chega no primeiro dia, que é o vizinho imediato desta apostila e que cedeu a este, por escrito e nomeando, a contenção, a sedação da agitação e a síndrome neuroléptica maligna: o corte, nos dois sentidos, é este. O rastreamento e o manejo do delirium são do capítulo Delirium no paciente internado; deste capítulo é a agitação aguda que não deu tempo de rastrear, e no paciente já internado, com agitação de baixa intensidade e sem risco imediato, quem manda é A noite da enfermaria, que descreve o problema noturno da enfermaria e cede a este a técnica de abordagem, o esquema por cenário e as exigências normativas da contenção.
Seguem as demais. A abstinência alcoólica e seu manejo são de A abstinência que não pode esperar — deste capítulo é reconhecê-la como causa da agitação e mandar para lá. A intoxicação exógena e os antídotos são de Intoxicações exógenas agudas e antídotos, na apostila de Toxicologia; a intoxicação alcoólica aguda não tem capítulo escrito neste nível, e este capítulo a cita como causa frequente de agitação sem assumir o manejo dela. Ansiedade e benzodiazepínico são de Um minuto para prescrever, cinco anos para retirar; depressão maior é do capítulo da unidade básica; demência é de A queixa é da filha, na Geriatria, e polifarmácia e critérios de Beers são de A dose que já foi certa. Hipoglicemia é de Antes da hipótese, a glicemia, na Endocrinologia — deste capítulo é medir. Tireotoxicose é do capítulo de bócio e hipertireoidismo. Hipóxia e dessaturação são dos capítulos de Pneumologia e das Síndromes do Paciente Internado. Trauma cranioencefálico é da apostila de Trauma; hipertensão intracraniana não traumática é de A tríade chega tarde, na Neurocirurgia. Hipertermia grave e insolação são das emergências ambientais, na Medicina de Emergência. A rede de atenção psicossocial, os centros de atenção psicossocial e a reforma psiquiátrica são tratados em Para onde ele vai depois, nesta apostila, e este capítulo os cita e cede. O prontuário, a documentação e o sigilo são de O documento que você mais escreve, na Comunicação — mas o registro específico da contenção é bifurcação deste capítulo, porque é ele que a norma exige, e está descrito adiante com o que precisa constar.
Como fechar o diagnóstico
A investigação do paciente agitado tem uma característica que nenhuma outra investigação do pronto-socorro tem: ela é feita contra o relógio de uma janela que se fecha sozinha. Se você sedar, perde o exame neurológico por horas; se demorar, o quadro escala. A saída é ter uma sequência decorada, curta o bastante para caber no intervalo em que a equipe está reunida e o paciente ainda não foi medicado.
As seis seções abaixo estão em ordem de execução, e não em ordem de importância. As duas primeiras cabem em quatro minutos e não dependem de o paciente colaborar. A terceira depende de haver alguém que o conheça. As três últimas dependem de o quadro estar controlado.
Uma advertência de método antes de começar. A diretriz brasileira insiste que o médico tome as decisões com a maior brevidade possível, mas sem abrir mão do tempo mínimo necessário para obter as informações que considera essenciais. A pressão da sala é sempre no sentido de encurtar esse tempo, e ela vem de todo mundo ao mesmo tempo: da equipe, dos outros pacientes, dos acompanhantes. Reconhecer essa pressão como pressão, e não como urgência clínica, é parte do trabalho.
Os quatro minutos que não dependem de colaboração
Quatro medidas se obtêm de um paciente agitado sem que ele coopere, sem conversar e sem que ninguém se aproxime mais do que já está: glicemia capilar, oximetria de pulso, temperatura e os sinais vitais de rotina. Nenhuma delas exige que ele fique parado por mais de alguns segundos, e todas juntas levam menos tempo do que preparar a bandeja de medicação.
A glicemia capilar vem primeiro por três razões que se somam. É a causa mais rapidamente fatal da lista de causas clínicas gerais de agitação; é a de correção mais simples e mais barata; e é a única que, corrigida, faz o quadro inteiro desaparecer em minutos, resolvendo o problema em vez de mascará-lo. A hipoglicemia produz comportamento estranho e às vezes agressivo antes de produzir rebaixamento, com sudorese e taquicardia — que é exatamente o que a equipe atribui à agitação. Medir custa uma gota de sangue. O manejo da hipoglicemia grave é do capítulo Antes da hipótese, a glicemia, e é para lá que se vai se o número vier baixo; daqui é só a obrigação de medir antes de qualquer coisa.
A oximetria vem em seguida pela mesma lógica invertida: a hipóxia produz agitação antes de produzir sonolência, de modo que o paciente mais agitado da sala pode ser o mais hipoxêmico. Um valor baixo muda tudo — muda o diagnóstico, muda a prioridade e proíbe o benzodiazepínico, que é depressor respiratório. A investigação e o manejo da dessaturação aguda pertencem aos capítulos de Pneumologia e das Síndromes do Paciente Internado.
A temperatura fecha o trio, e vale medi-la de verdade, com termômetro, e não pelo dorso da mão. Febre alta em paciente agitado abre três caminhos ao mesmo tempo: infecção do sistema nervoso central, síndrome neuroléptica maligna ou serotoninérgica em quem usa as drogas correspondentes, e hipertermia ambiental. Os sinais vitais completos acrescentam o que falta: taquicardia e hipertensão apontam para hiperatividade adrenérgica — abstinência, intoxicação por estimulante, dor —, e uma frequência respiratória alta em paciente que não está falando alto é achado de causa clínica, não de comportamento.
Se o serviço tiver eletrocardiograma disponível e o paciente permitir, um traçado antes da medicação é um investimento pequeno com retorno grande, porque quase todo antipsicótico prolonga o intervalo QT e a bula do haloperidol é explícita sobre o risco de arritmia ventricular grave em pacientes predispostos e sobre intervalo QTc que excede 500 milissegundos. Se não permitir, não se atrasa o manejo por causa do traçado: registra-se que não foi possível e faz-se depois.
O exame neurológico que cabe em dois minutos e à distância
Boa parte do exame neurológico de um paciente agitado é feita olhando, e olhar é a única manobra que não precisa de consentimento nem de aproximação. Nível de consciência e atenção medem-se pela resposta ao próprio nome e pela capacidade de sustentar uma frase. Orientação mede-se com duas perguntas. Marcha, quando ele anda pela sala, mostra-se sozinha. Movimentos involuntários, tremor e rigidez de tronco veem-se de dois metros.
Duas manobras exigem aproximação e valem o risco quando há equipe reunida: as pupilas e a palpação do couro cabeludo. As pupilas separam mundos — midríase aponta para estimulante, para serotoninérgico ou para anticolinérgico; miose aponta para opioide; anisocoria muda o plantão inteiro e manda o paciente para a tomografia agora, com a hipótese de lesão expansiva ou de hipertensão intracraniana, que são assunto da apostila de Trauma e do capítulo A tríade chega tarde. A palpação do couro cabeludo procura o que ninguém contou: o hematoma occipital de quem caiu antes de ficar agitado, e não depois.
O quadro focal grosseiro completa o exame: assimetria de face, assimetria de força quando ele empurra ou puxa contra a atadura, desvio do olhar conjugado. Nada disso pede martelo, e tudo isso desaparece sob sedação por várias horas. É essa a conta que este capítulo pede que você faça antes de aceitar a bandeja: dois minutos agora contra quatro horas de exame indisponível depois.
Uma nota sobre alucinação, porque ela é o achado que mais frequentemente é confundido com diagnóstico. Perguntar o que ele está vendo, o que está cheirando e o que está sentindo na pele custa três perguntas e separa terrenos: alucinação visual, olfativa e tátil está na lista de sinais que sugerem causa clínica geral ou neurológica; alucinação auditiva isolada aponta mais para transtorno psicótico primário, e esse terreno é do capítulo Ninguém chega no primeiro dia.
As cinco perguntas ao acompanhante
Quem trouxe o paciente é a fonte que decide o caso, e costuma ir embora antes de ser ouvido. Cinco perguntas, feitas em ordem, cobrem quase toda a lista de causas: primeira, em quantas horas isso começou; segunda, ele já foi assim alguma vez, e há quanto tempo; terceira, o que ele usa todo dia, incluindo remédio de farmácia, bebida e qualquer outra coisa, e quando foi a última vez; quarta, o que mudou nos últimos dias — doença, febre, queda, batida na cabeça, remédio novo, remédio que acabou; quinta, ele bateu a cabeça, caiu ou se machucou antes disso começar.
A terceira e a quarta perguntas merecem cuidado de formulação. Perguntar o senhor sabe se ele usa drogas obtém negativa quase sempre; perguntar o que ele toma todo dia, mesmo que seja só uma cervejinha, e desde quando obtém informação. Perguntar tomou os remédios direito obtém sim; perguntar quantos comprimidos sobraram da última cartela e quando foi a última retirada na farmácia obtém dado — e essa formulação é emprestada do capítulo vizinho de psicose, que a usa para adesão e que ela serve igualmente bem aqui.
Há uma sexta pergunta que não é sobre a doença e que precisa ser feita nesta mesma passagem, porque depois raramente há segunda chance: ele falou em se matar, ou tentou, agora ou antes? A resposta abre a bifurcação descrita na apresentação e manda a avaliação estruturada para o capítulo Risco de suicídio na emergência, sem tirar deste capítulo a obrigação imediata de não deixar sozinho quem respondeu qualquer coisa diferente de não.
Se não houver acompanhante, a busca ativa vale o telefonema. O nome de um vizinho na ficha do serviço, um número no bolso, a unidade básica que o acompanha, o registro de atendimento anterior no mesmo hospital: qualquer um deles pode entregar em dois minutos a informação que a investigação laboratorial levaria horas para sugerir.
A revista e a troca de roupa: o que ela acha e o que ela custa
A diretriz brasileira sugere que, uma vez em atendimento na sala de urgência, o paciente troque as próprias roupas por vestes hospitalares, e ela mesma reconhece, na frase seguinte, que a medida pode ser questionada por violar direitos individuais. Vale expor as duas metades, porque o capítulo não vai fingir que é decisão simples.
As vantagens que a diretriz lista são três e são concretas: permite procurar e remover armas que o paciente possa estar portando; diminui a possibilidade de fuga, pela fácil identificação por profissionais de outras áreas que não o conhecem; e já possibilita um exame físico que pode revelar focos de infecção, trauma ou outros sinais indicativos da causa da alteração de comportamento. A terceira é a mais subestimada — a troca de roupa é frequentemente o único momento em que alguém vê o corpo inteiro de um paciente que veio por comportamento, e é onde aparecem o hematoma, a marca de injeção, a celulite, a escara, a mordedura de língua de quem convulsionou.
O custo é real e não se paga sozinho. Despir alguém contra a vontade é intrusivo, pode ser vivido como humilhação, e num paciente persecutório pode confirmar exatamente aquilo de que ele desconfia. A posição adotada aqui — e ela é dedução desta obra, não citação de documento — é que a troca de roupa se pede, se explica e se faz com o mínimo de pessoas e com a maior privacidade que a casa permitir; que ela não é pré-requisito de atendimento; e que, quando o paciente recusa e não há risco imediato, o exame do corpo se busca por outros meios em vez de virar motivo de contenção.
Que exame pedir, e quando não pedir nenhum
Não há, no material brasileiro lido para este capítulo, uma bateria mínima de exames prescrita para todo paciente agitado, e é honesto dizer isso em vez de inventar uma lista com aparência de protocolo. O que existe é a lista de causas clínicas gerais a considerar, e dela se deduz o que faz sentido pedir. A dedução é desta obra.
Do lado do que quase sempre vale: hemograma, eletrólitos com sódio e cálcio, função renal, e um exame de urina em idoso. Do lado do que depende: transaminases e amônia em quem tem doença hepática, porque encefalopatia hepática entra agitada antes de entrar sonolenta e é assunto de outro capítulo; hormônio tireoestimulante quando há taquicardia, tremor e emagrecimento, com o manejo pertencendo ao capítulo de bócio e hipertireoidismo; creatinofosfoquinase quando há rigidez, febre ou contenção prolongada, e essa é a única do grupo que este capítulo assume por inteiro.
A tomografia de crânio não é exame de rotina do paciente agitado e é exame obrigatório de alguns deles: sinal focal novo, anisocoria, rebaixamento do nível de consciência, história ou sinal físico de trauma, primeira crise, cefaleia de início súbito referida antes do quadro. Fora dessas situações, pedir tomografia para todo paciente agitado tem dois custos que costumam ser esquecidos: transporta e imobiliza um paciente instável, muitas vezes exigindo sedação para o exame, e adia perguntas que respondem mais.
Há uma situação em que a resposta certa é não pedir exame nenhum agora, e ela é frequente: paciente jovem, com história clara e recente contada por acompanhante confiável, glicemia normal, saturação normal, temperatura normal, sem sinal focal, sem trauma, que se acalma com conversa. Pedir uma bateria a esse paciente atrasa a alta, ocupa maca e não muda conduta. A obrigação que fica é escrever no prontuário quais dados sustentaram a decisão de não investigar mais — e isso é registro, não papelada.
A investigação que a sedação impede, e a que ela obriga
Depois da medicação parenteral, uma parte da investigação fica indisponível. O exame do estado mental — orientação, atenção, conteúdo do pensamento, juízo — deixa de ser interpretável enquanto durar o efeito; o nível de consciência deixa de distinguir doença de fármaco; a marcha some. Isso é o argumento mecanicista do capítulo transformado em regra prática: tudo o que depende de o paciente responder colhe-se antes.
E há a investigação que a sedação obriga a começar, porque ela mesma cria riscos. Depois de medicar, passam a ser obrigatórios a vigilância do nível de consciência, da frequência respiratória, da saturação e da pressão arterial — a diretriz brasileira nomeia como efeitos indesejáveis dos benzodiazepínicos a depressão respiratória, a sedação excessiva, a ataxia e a desinibição paradoxal, e como efeitos dos antipsicóticos de baixa potência a sedação excessiva, a hipotensão, as arritmias e a redução do limiar convulsivo. O paciente medicado não é um paciente resolvido: é um paciente que trocou um conjunto de riscos por outro.
Um terceiro grupo de achados aparece só depois, e é fácil perdê-lo. A distonia aguda — desvio forçado do olhar, torcicolo, rigidez de mandíbula — surge horas depois do antipsicótico e é vivida com sofrimento intenso; a acatisia, que é inquietação motora interna, surge e é sistematicamente lida como piora da agitação, o que leva a mais dose e a mais acatisia. A diretriz brasileira nomeia essa armadilha com todas as letras: a acatisia pode ser erroneamente interpretada como piora da agitação psicomotora. Quem reavalia sem lembrar disso escala a dose exatamente quando deveria reduzi-la.
As réguas deste capítulo, e as contas que elas não fecham
Duas perguntas organizam este bloco. A primeira: qual régua o Brasil usa para decidir e para vigiar uma contenção mecânica? A resposta é que usa duas, uma do Conselho Federal de Medicina, de 2013, e outra do Conselho Federal de Enfermagem, de 2024, e que elas não dizem a mesma coisa nem se dirigem à mesma pessoa. A segunda: qual régua o Brasil usa para o manejo farmacológico da agitação? A resposta é que a referência nacional mais citada é um artigo de diretriz de 2010, e que o esquema que ele aponta como o de melhor eficácia usa um injetável ausente do elenco nacional de medicamentos essenciais de 2024. As tabelas abaixo põem as duas coisas lado a lado; as notas trazem a aritmética, incluindo as conferências cujo resultado foi positivo.
Como usar quadros e notas de fontes anteriores. Notas que transcrevem doses, prazos ou exigências de documentos antigos registram o conteúdo dessas fontes; não substituem a conduta clínica atualizada e individualizada neste capítulo. Separar indicação, dose, contraindicações, monitorização e acesso. Se houver divergência entre o documento histórico e a recomendação atual, discutir o protocolo vigente com a equipe antes de executar.
As duas normas brasileiras em vigor sobre contenção, lado a lado
| Eixo | Resolução CFM nº 2.057/2013, art. 16 | Resolução Cofen nº 746/2024 |
|---|---|---|
| A quem a norma se dirige | Ao médico assistente e ao plantonista, e aos envolvidos no diagnóstico, tratamento e reabilitação | Aos profissionais de enfermagem |
| Limiar de indicação | Quando for o meio mais adequado para prevenir dano imediato ou iminente ao próprio paciente ou a terceiro | Quando for o único meio disponível para prevenir dano imediato ou iminente ao paciente ou aos demais |
| Quem decide | Desde que prescrita por médico | Não menciona prescrição médica; a norma disciplina o ato de enfermagem |
| Supervisão da aplicação | Não especifica quem supervisiona a aplicação | Supervisão direta do enfermeiro |
| Quem vigia depois | Membro da equipe, em cuidado e supervisão imediata e regular | Equipe de enfermagem, para promover segurança e prevenir danos e eventos adversos |
| Intervalo de reavaliação | Sem número; diz que não deve se prolongar além do período necessário a seu propósito | Sem número e sem menção a duração máxima |
| O que registrar | Justificativa pela observação clínica e registro em prontuário, inclusive dos casos de contenção física | Razões, duração, avaliações, ocorrência de eventos adversos e detalhes do monitoramento clínico |
| Família e representante legal | Devem ser informados tão logo possível | Não menciona |
| Número de pessoas | Não menciona | No mínimo cinco, e apenas na excepcionalidade do atendimento pré-hospitalar móvel |
| Onde mais aparece a mesma regra | Resolução CFM nº 2.056/2013, art. 34, estende a assistência geriátrica e cuidados paliativos | Revoga expressamente a Resolução Cofen nº 427/2012 |
O que a norma de 2024 deixou de dizer em relação à que ela revogou
| Obrigação | Cofen nº 427/2012 (revogada) | Cofen nº 746/2024 (em vigor) | Existe hoje em outra norma? |
|---|---|---|---|
| Vedação de conter por punição, disciplina ou coerção | Vedado expressamente, no art. 3º | Não consta | Não em norma de conselho; a Constituição veda tratamento desumano ou degradante, invocada no preâmbulo das duas |
| Vedação de conter por conveniência da instituição ou da equipe | Vedado expressamente, no art. 3º | Não consta | Não localizada em norma em vigor |
| Intervalo máximo entre verificações | Regularidade nunca superior a uma hora, no art. 4º, §1º | Não consta | Não; nenhuma norma em vigor fixa número |
| O que verificar no paciente contido | Nível de consciência, dados vitais, condições de pele e circulação nos locais e membros contidos | Apenas monitoramento genérico pela equipe de enfermagem | Indiretamente, pelo dever de registrar avaliações e monitoramento clínico do art. 3º |
| Rigor maior em grupos vulneráveis | Sedados, sonolentos, com problema clínico, idosos, crianças e adolescentes, no art. 4º, §2º | Não consta | Não localizada em norma em vigor |
| Proibição de prolongar além do necessário | Em nenhum caso será prolongada além do estritamente necessário, no art. 2º, parágrafo único | Não consta | Sim, na Resolução CFM nº 2.057/2013, art. 16, §4º |
| Conformidade com protocolo institucional | Preferencialmente conforme protocolos da instituição, no art. 1º | Não consta | Não localizada em norma em vigor |
| Mínimo de pessoas no procedimento | Não constava | Cinco, na excepcionalidade do pré-hospitalar móvel, no art. 1º, §2º | Novidade da norma de 2024 |
mg, mL e ampola: os injetáveis desta cena, num adulto de 70 quilos
| Fármaco e apresentação de bula | Uma ampola contém | Dose do quadro agudo, pela bula | Volume correspondente | Teto declarado na mesma bula |
|---|---|---|---|---|
| Haloperidol solução injetável 5 mg/mL, ampola de 1 mL | 5 mg | 2,5 a 5 mg por via intramuscular | 0,5 a 1 mL, ou meia a uma ampola | Sem teto diário na bula; repetir a cada hora se necessário, com intervalos de 4 a 8 horas satisfatórios |
| Decanoato de haloperidol solução injetável 50 mg/mL, ampola de 1 mL | 70,52 mg de decanoato, equivalentes a 50 mg de haloperidol | Não se usa em quadro agudo; é depósito, com intervalo de semanas | Uma ampola equivale a dez doses únicas máximas do injetável agudo | Via intravenosa vedada; volumes acima de 3 mL desconfortáveis |
| Cloridrato de clorpromazina solução injetável 5 mg/mL, ampola de 5 mL | 27,85 mg de cloridrato, equivalentes a 25 mg de base | Não declarada nesta bula para agitação aguda | Uma ampola inteira são 5 mL, e é dose única de 25 mg | Via intramuscular; adulto e pediátrico acima de dois anos |
| Cloridrato de prometazina solução injetável 25 mg/mL, ampola de 2 mL | 56,40 mg de cloridrato, equivalentes a 50 mg de base | 25 a 50 mg por via intramuscular profunda | 1 a 2 mL, ou meia a uma ampola | 100 mg por dia, ou seja, duas ampolas |
| Diazepam solução injetável 5 mg/mL, ampola de 2 mL | 10 mg | 10 mg por via intravenosa no adulto, pelo documento de antídotos de 2025 | 2 mL, ou uma ampola inteira | Sem teto único; via intramuscular evitada por absorção errática |
| Lactato de biperideno solução injetável 5 mg/mL, ampola de 1 mL | 5 mg | 3 a 5 mg no adulto, a cada 6 horas se necessário, pelo manual de toxicologia de 2017 | 0,6 a 1 mL | Sem teto declarado na entrada consultada |
| Dantrolene pó liofilizado, frasco de 20 mg, diluente de 60 mL | 20 mg | 2 a 3 mg/kg em bolus, repetindo até melhora ou até 10 mg/kg | A 2,5 mg/kg são 175 mg, ou 9 frascos e 540 mL de diluente | 10 mg/kg, que num adulto de 70 kg são 700 mg, ou 35 frascos e 2.100 mL |
Apresentações na Rename 2024 e padronização hospitalar a conferir
| Fármaco | Apresentações na Rename 2024 | Componente | O que isso significa no plantão |
|---|---|---|---|
| Haloperidol | Comprimidos de 1 mg e 5 mg; solução oral 2 mg/mL; soluções injetáveis de 5 mg/mL e de 50 mg/mL | Básico | As duas injetáveis convivem sob a mesma entrada e o mesmo código; prescrever ampola sem escrever a concentração é o erro que este capítulo mais insiste em evitar |
| Cloridrato de clorpromazina | Injetável 5 mg/mL; solução oral 40 mg/mL; comprimidos de 25 mg e 100 mg | Básico | Disponível, e é o antipsicótico de baixa potência da casa, com o perfil de risco que isso implica |
| Cloridrato de prometazina | Comprimido de 25 mg; injetável 25 mg/mL | Básico | Disponível, e é o que sustenta a prática brasileira de associá-la ao haloperidol |
| Diazepam | Injetável 5 mg/mL; comprimidos de 5 mg e 10 mg | Básico | É o benzodiazepínico injetável do elenco; a via intramuscular é evitada por absorção errática, o que empurra para a via intravenosa |
| Midazolam | Somente solução oral 2 mg/mL | Básico | A apresentação injetável não foi identificada na Rename 2024 consultada. Verificar padronização e estoque hospitalar; a escolha para agitação depende do quadro, contraindicações, monitorização e protocolo, não apenas da lista nacional. |
| Lorazepam | Nenhuma | Não consta | Zero ocorrências no índice e zero no texto bruto; a diretriz de 2010 já registrava que só a formulação oral existe comercialmente no Brasil |
| Lactato de biperideno | Injetável 5 mg/mL; comprimido de 2 mg; comprimido de liberação prolongada de 4 mg | Básico | A distonia aguda por antipsicótico tem antídoto no elenco, e ele é injetável |
| Dantroleno | Nenhuma | Não consta | Zero ocorrências no texto bruto; é o tratamento específico da síndrome neuroléptica maligna grave e não está no elenco nacional |
| Mesilato de bromocriptina | Comprimido de 2,5 mg | Especializado | Consta, mas no componente especializado e sob código de indicação endocrinológica; não é medicamento de pronto-socorro no elenco |
| Olanzapina e risperidona | Comprimidos e solução oral | Especializado | Só apresentações orais; a olanzapina intramuscular, discutida pela diretriz, não está no elenco |
| Flumazenil | Injetável 0,1 mg/mL | Básico | Consta; o uso dele em quem tem dependência de benzodiazepínico ou risco convulsivo é assunto do capítulo de antídotos, e não deste |
A conferência mais grave deste capítulo é a comparação entre a norma revogada e a que a substituiu. A Resolução Cofen nº 427/2012 tinha sete artigos e continha quatro obrigações que a Resolução Cofen nº 746/2024, com quatro artigos, não repetiu: a vedação expressa de conter por disciplina, punição, coerção ou conveniência da instituição ou da equipe; a verificação com regularidade nunca superior a uma hora; o rigor maior em pacientes sedados, sonolentos, com problema clínico, idosos, crianças e adolescentes; e a proibição de prolongar a contenção além do estritamente necessário. Das quatro, apenas a última sobrevive em outro lugar, na Resolução CFM nº 2.057/2013. As outras três não foram localizadas em nenhuma norma em vigor. A norma de 2024 acrescentou uma coisa que a de 2012 não tinha: o mínimo de cinco pessoas para o procedimento na excepcionalidade do atendimento pré-hospitalar móvel.
Do achado acima decorre a declaração de régua mais dura deste capítulo, e ela vale ser dita sem rodeio: hoje, nenhuma norma brasileira em vigor sobre contenção mecânica fixa intervalo numérico de reavaliação. O único número que já esteve em norma brasileira — nunca superior a uma hora — estava no artigo 4º, §1º, da resolução revogada em 2024. As duas normas em vigor falam em monitoramento, em supervisão imediata e regular e em não prolongar além do necessário, e nenhuma das duas diz de quanto em quanto tempo.
Divergência de limiar entre duas normas em vigor, sobre o mesmo ato. A Resolução CFM nº 2.057/2013 admite a contenção quando ela for o meio mais adequado para prevenir dano imediato ou iminente. A Resolução Cofen nº 746/2024 a admite quando for o único meio disponível para o mesmo fim. Os dois testes não coincidem: uma contenção pode ser o meio mais adequado sem ser o único disponível, e nesse caso ela passa no teste do CFM e não passa no do Cofen. A consequência prática é que o médico que prescreve e a enfermagem que aplica respondem a limiares diferentes, e o limiar mais restritivo é o da enfermagem.
Divergência de sujeito, sobre o mesmo ato. A norma do CFM condiciona a contenção a que ela seja prescrita por médico. A norma do Cofen descreve o procedimento sem mencionar prescrição médica, dizendo apenas que a aplicação se dá sob supervisão direta do enfermeiro. É preciso ser justo com a norma do Cofen: ela disciplina o ato de enfermagem e não teria competência para dispensar a prescrição médica. Mas o efeito prático de ler as duas isoladamente é real, e este capítulo o registra: quem lê só a de 2024 não encontra a palavra médico em nenhum dos quatro artigos.
Uma conferência que falha por envelhecimento, e não por erro, e que vale para calibrar o uso da fonte. A diretriz brasileira de manejo do paciente agitado, de 2010, afirma que no Brasil não se tem conhecimento de resoluções de conselhos médicos ou normatizações legais sobre práticas de isolamento e contenção física ou mecânica, inclusive sobre a determinação de o procedimento se constituir ou não em ato médico. A afirmação era verdadeira em outubro de 2010. A Resolução CFM nº 2.057 é de setembro de 2013, e a Resolução Cofen nº 427 é de maio de 2012 — a segunda, portanto, já existia quando o artigo foi publicado, embora dirigida à enfermagem e não ao conselho médico. Hoje há duas normas, uma de cada conselho. Quem lê a diretriz inteira sem essa correção sai com a impressão de vazio normativo que não corresponde ao que existe.
A Rename 2024 lista, sob a entrada haloperidol, com o mesmo código anatômico-terapêutico e o mesmo componente, duas soluções injetáveis: 5 mg/mL e 50 mg/mL. A de 50 mg/mL é o decanoato, cuja bula declara 70,52 mg de decanoato de haloperidol por mL, equivalentes a 50 mg de haloperidol, e cujo intervalo posológico é de semanas. A conta que interessa ao plantão é esta: uma ampola de 1 mL da apresentação de 50 mg/mL entrega 50 mg de haloperidol, dez vezes a dose única máxima de 5 mg que a bula do injetável agudo indica para o estado de agitação psicomotora. Uma prescrição que diga haloperidol, uma ampola, intramuscular, sem escrever a concentração, pode ser atendida com qualquer uma das duas.
Três conferências de conversão entre sal ou éster e base, feitas em Python contra as massas molares, todas com resultado positivo — e vale reportá-las porque uma conferência que dá certo diz tanto quanto uma que falha. Primeira: a bula do decanoato declara 70,52 mg de decanoato de haloperidol equivalentes a 50 mg de haloperidol. Massa molar do haloperidol 375,86; o éster com o ácido decanoico acrescenta 154,25, dando 530,11; a razão 530,11 dividido por 375,86 é 1,41037, e 50 vezes 1,41037 é 70,52. Bate na segunda casa decimal.
Segunda conferência positiva: a bula da clorpromazina injetável declara 27,85 mg de cloridrato por ampola de 5 mL, equivalentes a 25 mg de base. A razão entre as massas molares do cloridrato e da base, 355,33 dividido por 318,86, é 1,11438; 25 vezes esse fator dá 27,86, contra os 27,85 declarados — diferença de 0,04%, dentro do arredondamento. Terceira: a bula da prometazina declara 28,20 mg de cloridrato por mL equivalentes a 25 mg de base; a razão 320,88 dividido por 284,42 é 1,12819, e 25 vezes esse fator dá 28,20, exatamente o declarado.
Uma conta que não fecha entre duas bulas usadas no mesmo esquema, e é a mais frequente do plantão brasileiro. A bula do haloperidol injetável autoriza repetir a dose após cada hora, se necessário. A bula da prometazina injetável fixa dose de 25 a 50 mg por aplicação no quadro agudo e teto de 100 mg por dia, e a ampola tem 2 mL, ou seja, 50 mg. Numa casa que usa a associação de uma ampola de cada, a primeira dose entrega 50 mg de prometazina, a segunda fecha os 100 mg do teto diário, e a terceira dose — que a bula do haloperidol autoriza já na terceira hora — leva a prometazina a 150 mg, cinquenta por cento acima do teto declarado pela própria bula dela. Quem repete o esquema inteiro está repetindo dois fármacos com regras de repetição diferentes.
A diretriz brasileira de 2010 aponta como opção de melhor eficácia, de menor dose para obter resposta e de menor incidência de efeitos colaterais a associação de haloperidol com um benzodiazepínico por via intramuscular, e escreve entre parênteses, para o Brasil, que o benzodiazepínico é o midazolam. A Rename 2024 traz midazolam em uma única apresentação: solução oral de 2 mg/mL, no Componente Básico. A busca exata sobre o texto normalizado devolve duas ocorrências da palavra midazolam, ambas da mesma apresentação oral. O injetável não está no elenco. Registra-se o descompasso sem resolvê-lo: o esquema apontado como melhor pela referência nacional depende de um injetável que a lista nacional não fornece.
Ainda sobre benzodiazepínicos: lorazepam devolve zero ocorrência no índice e zero no texto bruto da Rename 2024. A diretriz de 2010 já registrava que o lorazepam pode ser administrado por via oral ou parenteral, mas que apenas a formulação oral se encontra comercialmente disponível no Brasil — e ela levanta a hipótese de que a indisponibilidade da apresentação intramuscular do lorazepam seja uma das explicações para a difusão do uso da prometazina no país. Somando as duas verificações: a apresentação parenteral não existe no mercado brasileiro e a oral não está no elenco do SUS.
Dantroleno devolve zero ocorrência no texto bruto do elenco de 2024, procurado nas duas grafias, com e sem a letra final. Enquanto isso, dois documentos brasileiros o exigem em estoque: o manual municipal de toxicologia de 2017 o classifica entre os antídotos que devem estar disponíveis para uso em quatro horas, e o documento nacional de antídotos de 2025 diz que ele deve estar disponível em qualquer serviço hospitalar onde se realiza anestesia geral, com quantidade mínima de 36 frascos. O tratamento específico da forma grave da síndrome neuroléptica maligna, portanto, é exigido por documento técnico e não consta do elenco nacional de medicamentos essenciais.
Uma conta interna ao documento nacional de antídotos de 2025 que não fecha. Ele recomenda quantidade mínima de 36 frascos de dantrolene, e cada frasco tem 20 mg — o estoque mínimo é, portanto, de 720 mg. Ele também fixa a dose total em até 10 mg/kg. Dividindo 720 por 10, o estoque mínimo recomendado cobre um curso completo, pelo teto do próprio documento, apenas até 72 quilos. Um adulto de 80 quilos precisaria de 800 mg, ou 40 frascos, quatro a mais do que o mínimo recomendado. A recomendação de estoque e o teto de dose do mesmo documento, portanto, só coincidem num paciente de 72 quilos ou menos.
Divergência entre dois documentos brasileiros sobre o intervalo de repetição do dantrolene, para a mesma indicação. O manual municipal de 2017 escreve 2 a 3 mg/kg por via intravenosa em bolus, a cada 5 a 10 minutos, até o máximo de 10 mg/kg por dia. O esquema de bolus repetidos a cada 15 minutos pertence à hipertermia maligna em referências específicas; não adotá-lo automaticamente para SNM. Para SNM, discutir regime próprio com terapia intensiva/toxicologia. A dose por quilo e o teto coincidem; o intervalo difere por um fator de até três. Nenhum dos dois explica o outro, e o mais novo é o nacional.
O volume merece uma conta própria, porque ele é o que trava a beira do leito. Cada frasco de dantrolene traz 20 mg de pó liofilizado e é reconstituído com um frasco de 60 mL de água para injeção, e o documento nacional adverte que soro glicosado a 5%, soro fisiológico e outras soluções são incompatíveis com essa reconstituição. Num adulto de 70 quilos, a dose média de reversão citada pelo próprio documento, de 2,5 mg/kg, são 175 mg — 8,75 frascos, ou seja, 9 frascos e 540 mL só de diluente. O teto de 10 mg/kg no mesmo paciente são 700 mg, exatamente 35 frascos e 2.100 mL. Reconstituir 35 frascos, um a um, é uma tarefa de equipe e de tempo, e é preciso saber disso antes de precisar.
Uma divergência que fica registrada como não confirmada, e não como erro, por falta de verificação contra bula. O manual municipal de toxicologia de 2017 descreve o biperideno em comprimidos de 2,5 mg. A Rename 2024 lista cloridrato de biperideno em comprimido de 2 mg e em comprimido de liberação prolongada de 4 mg, e lactato de biperideno em solução injetável de 5 mg/mL. Nenhuma bula de apresentação de 2,5 mg foi verificada nesta redação, e por isso a discrepância fica anotada como pendência de conferência, sem que se declare qual dos dois documentos está certo.
Uma conferência positiva que muda conduta: o antídoto da complicação mais comum do haloperidol está no elenco. A Rename 2024 traz lactato de biperideno em solução injetável de 5 mg/mL no Componente Básico, o que significa que a distonia aguda por antipsicótico tem tratamento específico disponível no mesmo carrinho onde está o fármaco que a causou. O contraste com o dantroleno, ausente do elenco, é a diferença entre uma complicação frequente e tratável e uma complicação rara e sem tratamento específico à mão.
A bromocriptina consta da Rename 2024, em comprimido de 2,5 mg, mas no Componente Especializado e sob código anatômico-terapêutico da indicação endocrinológica. Isso importa porque o agonista dopaminérgico por via oral é uma das alternativas citadas na literatura de síndrome neuroléptica maligna, e a leitura desta obra — declarada como leitura, e não como citação — é que a presença dela no elenco não significa disponibilidade no pronto-socorro: componente especializado não é o carrinho da emergência.
Sobre o registro da contenção, a lista mínima deste capítulo é a soma das duas normas, e a soma é leitura desta obra. Da Resolução Cofen nº 746/2024, art. 3º, vêm cinco itens: as razões da contenção, a duração, as avaliações realizadas, a ocorrência de eventos adversos e os detalhes do monitoramento clínico. Da Resolução CFM nº 2.057/2013, art. 16, §§2º e 5º, vêm mais dois: a justificativa pela observação clínica, e o registro de que a família ou o representante legal foram informados. Sete itens, portanto, e nenhum deles é opcional pela norma que o exige.
Duas conferências que deram certo e que sustentam frases deste capítulo, para que ninguém precise repeti-las. A bula do haloperidol injetável 5 mg/mL declara, na identificação, via intramuscular e uso adulto, e repete no corpo que o haloperidol injetável é recomendado apenas para administração intramuscular, exigindo monitoramento eletrocardiográfico contínuo se for administrado por via intravenosa — as duas afirmações são coerentes entre si. E a bula do decanoato veda a via intravenosa, prescreve injeção intramuscular profunda na região glútea e desaconselha volumes acima de 3 mL, o que é coerente com um veículo oleoso: os excipientes declarados são álcool benzílico e óleo de gergelim.
A conduta, hora a hora
A conduta abaixo é a linha do tempo de um plantão, e não uma lista de opções. Ela segue a estrutura em quatro níveis que a diretriz brasileira propõe — ambiental, atitudinal, farmacológico e físico — e respeita a ordem que ela recomenda: a intervenção parenteral é última opção terapêutica, e a contenção vem depois de as intervenções verbais, não verbais e medicamentosas não terem bastado.
Uma frase da diretriz governa o alvo de tudo o que vem abaixo, e vale decorá-la porque ela contradiz o que a casa costuma querer. O objetivo do manejo farmacológico não é dormir o paciente: é a tranquilização rápida, entendida como redução significativa dos sintomas de agitação e agressividade sem indução de sedação mais profunda ou prolongada, mantendo-se o paciente tranquilo, mas completa ou parcialmente responsivo. A sedação excessiva é considerada efeito colateral indesejável, porque interfere na avaliação médica inicial, no estabelecimento de aliança terapêutica, na formulação do diagnóstico e na observação da evolução.
Duas regras de polifarmácia atravessam todos os marcos. A primeira: a polifarmácia deve ser evitada e as doses devem ser as menores possíveis, ajustadas conforme a necessidade clínica. A segunda: se houver necessidade de prescrição adicional, mantenha a mesma droga ou a mesma combinação, porque trocar aumenta o risco de complicação. Quem soma um terceiro fármaco à segunda hora está fazendo o oposto das duas.
Tranquilização com alvo e vigilância. O objetivo é reduzir perigo e permitir avaliação mantendo ventilação e possibilidade de contato. Procurar hipoglicemia, hipóxia, trauma, delirium e intoxicação em paralelo; não exigir todos os exames antes de intervir se há dano iminente. Escolher droga e via conforme causa provável, idade, depressores associados, QT e condições clínicas. Não repetir automaticamente antes de avaliar efeito e dose acumulada. Após medicação parenteral, vigiar respiração, consciência, pressão, pulso e saturação; observação mais frequente, em torno de 15 minutos, é necessária se sedado, intoxicado, com comorbidade ou dose acima do usual.
Síndrome neuroléptica maligna é diagnóstico clínico de emergência. Suspender bloqueadores dopaminérgicos, oferecer suporte intensivo e investigar diferenciais, incluindo infecção coexistente, síndrome serotoninérgica e catatonia maligna. CK elevada apoia lesão muscular, mas ausência de todos os cinco achados não exclui apresentação inicial. Bromocriptina ou dantrolene são decisões especializadas com evidência limitada; no dantrolene, esquemas para SNM frequentemente usam 1–2,5 mg/kg IV com intervalos de horas e teto diário, não escalada automática a cada 15 minutos. Suporte não espera o fármaco. Reintrodução de antipsicótico após recuperação exige planejamento especializado.
Antes de o paciente entrar na sala
A primeira intervenção é do serviço, e ela acontece antes de você ver o paciente. Sala reservada, para não expor outros pacientes e acompanhantes e para reduzir estímulo; mobiliário e objetos conferidos, porque o que pode ser quebrado pode ser usado para machucar; acesso à porta com a mesma distância para você e para o paciente, porque quem se sente encurralado tem mais motivo para forçar a saída, e não menos. A diretriz brasileira recomenda ainda que um paciente potencialmente violento não seja atendido por um único profissional — por segurança dos dois — e que se afastem naquele momento as pessoas desestabilizadoras para ele, incluindo um familiar com quem a relação seja conflituosa ou um membro da equipe que ele tenha envolvido no delírio.
Prescrição- Definir a sala antes de o paciente entrar; retirar objetos soltos e conferir o caminho até a porta.
- Reunir a equipe: nunca atender sozinho quando há hostilidade ou risco.
- Identificar quem, entre os presentes, precisa sair da sala neste momento.
- Combinar em voz baixa, antes de entrar, quem fala com o paciente e quem observa.
Primeiros sessenta segundos, ainda de pé
Apresente-se dizendo seu nome e seu papel naquela situação, antes de qualquer intervenção. Fale pausado e firme, sem entonação hostil nem autoritária. Mantenha-se em posição em que ele o veja, sem dar as costas, com movimentos suaves e sem atitudes corporais de confronto — não elevar a voz, não cruzar os braços, manter alguma distância física, o que protege você e também tranquiliza quem, por sintomatologia psicótica, pode sentir-se ameaçado pelo contato físico. Tente manter contato visual e evite fazer anotações enquanto ele fala. Encare a agressividade como mais um sintoma do quadro clínico e como sinal de sofrimento psíquico: é essa leitura que impede que a situação seja vivida como ameaça pessoal e que permite a atitude acolhedora que, na prática, é o que reduz o risco.
Prescrição- Apresentar-se pelo nome e pela função; perguntar o nome dele e usá-lo.
- Manter distância física confortável, sem bloquear a porta e sem dar as costas.
- Não anotar durante a fala dele; anotar depois.
- Registrar mentalmente o próprio medo ou raiva e checar se correspondem ao risco real da cena.
Minutos um a quatro, com a equipe reunida
Colha o que não depende de colaboração antes de qualquer medicação: glicemia capilar, oximetria de pulso, temperatura medida com termômetro, frequência cardíaca, pressão arterial e frequência respiratória. Some o exame que se faz olhando — nível de consciência, atenção, orientação, marcha, tremor, rigidez, movimentos involuntários — e as duas manobras que valem aproximação com equipe presente: pupilas e palpação do couro cabeludo. Um valor anormal aqui reescreve o plantão inteiro, e nenhum desses dados sobrevive à sedação.
Prescrição- Glicemia capilar imediata, antes de qualquer medicação.
- Oximetria de pulso, temperatura axilar, frequência cardíaca, pressão arterial e frequência respiratória.
- Pupilas, sinal focal grosseiro, palpação do couro cabeludo à procura de trauma.
- Eletrocardiograma antes do antipsicótico, se o paciente permitir; se não permitir, registrar por quê.
Enquanto isso, e por todo o tempo: a desescalada verbal
A desescalada não é uma etapa antes do tratamento: é o tratamento da maior parte dos episódios. As intervenções verbais devem ser objetivas e claras. Não se barganha com o paciente, mas mantém-se flexibilidade na condução e atenção real ao que ele reivindica. Os limites quanto ao risco de agressão e as regras do serviço são colocados de forma clara e objetiva, sem ameaça e sem humilhação, e este não é o momento de confrontar delírio ou corrigir versão. Estimule-o a colocar em palavras o que está sentindo e reforce explicitamente a capacidade dele de se controlar. As falas prontas estão no bloco de conversa, adiante.
Prescrição- Perguntar o que está acontecendo e ouvir a resposta inteira antes de propor qualquer coisa.
- Oferecer algo concreto e imediato: água, uma cadeira, telefonar para alguém, uma sala mais silenciosa.
- Dizer o limite uma vez, com calma, sem repetir como ameaça.
- Nomear em voz alta o que ele está conseguindo fazer: sentar, falar, esperar.
Se for medicar, e a via oral for viável
A diretriz recomenda que, sempre que possível, se tente a medicação por via oral antes da intramuscular. Ofereça, explique o que é e para que serve, e aceite a recusa como recusa — oferecer não é impor. Antipsicótico de alta potência, benzodiazepínico de rápido início de ação, ou a associação dos dois, são boas opções orais no quadro de agitação inicial. Duas escolhas dependem do quadro: se há suspeita de abstinência de depressor, o benzodiazepínico é o eixo e o antipsicótico não é, porque reduz o limiar convulsivo; se há intoxicação por depressor do sistema nervoso central — álcool, barbitúrico, opioide —, o benzodiazepínico é o que se evita.
Prescrição- Haloperidol comprimido de 5 mg, via oral, dose única, oferecido e explicado — apresentação do Componente Básico.
- Ou diazepam comprimido de 10 mg, via oral, quando o eixo é ansiedade intensa ou suspeita de abstinência.
- Reavaliar em 30 a 60 minutos antes de repetir; manter a mesma droga se for preciso repetir.
- Registrar a oferta, a explicação dada e a aceitação ou a recusa.
Se a via oral não for viável
A via intramuscular entra quando a oral não é possível, seja por necessidade de início rápido, seja por falta de colaboração — e a diretriz é explícita ao dizer, seguindo a orientação britânica que cita, que a intervenção parenteral deve ser considerada última opção terapêutica, mantendo-se o alvo de tranquilizar e não de induzir sono profundo. No Brasil, a associação de haloperidol com prometazina por via intramuscular é prática difundida, e a própria diretriz observa que ela não aparece nas diretrizes internacionais, que a prometazina é um anti-histamínico cuja indicação principal é alérgica, e que a combinação, por antagonismo dopaminérgico e noradrenérgico, pode aumentar o risco de hipotensão e de síndrome neuroléptica maligna. Os dados disponíveis, segundo a mesma fonte, apontam para um efeito primordialmente sedativo da prometazina. Isso não proíbe o esquema; obriga a saber o que se está fazendo e a escrever a concentração.
Prescrição- Haloperidol solução injetável 5 mg/mL — escrever a concentração por extenso —, 2,5 a 5 mg intramuscular, o que corresponde a meia a uma ampola de 1 mL.
- Jamais prescrever ampola de haloperidol sem a concentração: a apresentação de 50 mg/mL do elenco é o decanoato, de efeito por semanas.
- Se a casa usa a associação, prometazina 25 a 50 mg intramuscular profunda, com o teto de 100 mg em 24 horas anotado na própria prescrição.
- Evitar benzodiazepínico se houver suspeita de intoxicação por depressor, insuficiência respiratória ou traumatismo cranioencefálico.
- Evitar diazepam por via intramuscular: a absorção por essa via é errática.
Se nada disso impedir o dano que está por acontecer agora
A contenção mecânica é o último recurso e é ato com indicação, decisão, prazo, vigilância e registro. A norma da enfermagem em vigor a admite quando for o único meio disponível para prevenir dano imediato ou iminente ao paciente ou aos demais, com aplicação sob supervisão direta do enfermeiro; a norma médica em vigor a admite quando for o meio mais adequado para o mesmo fim, desde que prescrita por médico e registrada em prontuário, exige que o paciente contido permaneça sob cuidado e supervisão imediata e regular de membro da equipe, proíbe que a contenção se prolongue além do período necessário ao seu propósito e manda informar a família ou o representante legal tão logo possível. Reúna gente antes de começar: a norma da enfermagem estabelece o mínimo de cinco pessoas para o procedimento na excepcionalidade do atendimento pré-hospitalar móvel, e cinco é também o número prático que permite imobilizar quatro membros e a cabeça sem que ninguém apoie peso sobre o tórax.
Prescrição- Prescrever a contenção no prontuário, com a razão clínica escrita, e não pedi-la verbalmente.
- Reunir a equipe antes de tocar no paciente; um profissional continua falando com ele durante todo o procedimento.
- Faixas em quatro pontos, ou quatro mais tronco, sem compressão torácica e sem decúbito ventral; cabeceira elevada quando possível.
- Observação contínua durante contenção e avaliações clínicas frequentes de via aérea, respiração, consciência, perfusão e pele; após sedação ou em maior risco, registrar em intervalos de cerca de 15 minutos conforme protocolo. Retirar assim que o perigo cessar.
- Informar a família ou o representante legal e registrar que informou.
- Registrar razões, duração, avaliações, eventos adversos e detalhes do monitoramento clínico.
Quando aparece febre com rigidez em quem recebeu antipsicótico
A síndrome neuroléptica maligna é rara e idiossincrática, e a bula do haloperidol a descreve com cinco elementos: hipertermia, rigidez muscular generalizada, instabilidade autonômica, alteração da consciência e aumento sérico de creatinofosfoquinase — sendo a hipertermia geralmente um sinal precoce. A conduta que a própria bula prescreve é curta e é a mais importante deste capítulo: descontinuar imediatamente o tratamento antipsicótico e instituir terapia de suporte adequada com monitoramento cuidadoso. Descontinuar significa também não repetir a dose porque o paciente está agitado, e significa suspender todo bloqueador dopaminérgico em uso, incluindo os antieméticos dessa classe. O suporte é o que salva: resfriamento, hidratação intravenosa individualizada com vigilância de perfusão e sobrecarga para proteger o rim da mioglobina, correção de distúrbio hidroeletrolítico e vaga de terapia intensiva. O relaxante muscular específico entra apenas nos pacientes com rigidez muscular intensa e rabdomiólise, segundo o documento nacional de antídotos de 2025, e é preciso saber de antemão se a sua casa o tem — ele não consta do elenco nacional de medicamentos essenciais.
Prescrição- Suspender imediatamente o antipsicótico e todo bloqueador dopaminérgico em uso, inclusive antieméticos dessa classe.
- Não administrar nova dose de antipsicótico pela agitação: a agitação aqui faz parte da síndrome.
- Creatinofosfoquinase, função renal, eletrólitos, hemograma e gasometria; monitorização contínua.
- Resfriamento e hidratação IV individualizada, monitorando perfusão, diurese, eletrólitos e risco de sobrecarga.
- Acionar vaga de terapia intensiva e, em paralelo, o centro de informação e assistência toxicológica da região.
- Dantrolene pode ser considerado em SNM grave com equipe intensiva/toxicologia; não copiar bolus repetidos de 15/15 minutos da hipertermia maligna anestésica. Conferir regime específico e riscos hepáticos/respiratórios.
Como saber se está funcionando
Reavaliar o paciente agitado tem uma dificuldade própria: o parâmetro mais visível — o barulho — é o que menos informa. Um paciente que parou de falar pode ter melhorado, pode ter sido sedado demais, pode ter rebaixado por progressão da causa que ninguém procurou, e pode ter parado de falar porque desistiu. Os sete parâmetros abaixo separam essas quatro coisas, e dois deles não são do paciente: são do relógio e do papel.
Uma nota sobre a origem dos intervalos. Nenhuma norma brasileira em vigor fixa periodicidade de reavaliação do paciente contido, como está detalhado no bloco anterior. A frequência de observação deve responder ao risco clínico. Contenção exige vigilância contínua e avaliações frequentes; sedação, intoxicação ou instabilidade justificam intervalos de aproximadamente 15 minutos conforme protocolo, sem esperar uma hora.
Esperado: Paciente tranquilo e completa ou parcialmente responsivo, que abre os olhos e responde ao próprio nome — que é a definição de tranquilização rápida da diretriz brasileira
Se não melhora: Se ficou irresponsivo, trate como sedação excessiva ou como progressão da causa não diagnosticada: reavalie glicemia, saturação, pupilas e sinal focal antes de atribuir ao fármaco
Esperado: Frequência e saturação estáveis em relação ao valor de antes da medicação
Se não melhora: Queda de saturação ou bradipneia após benzodiazepínico é depressão respiratória até prova em contrário: posicionar, oferecer oxigênio, suspender doses adicionais e chamar ajuda
Esperado: Sem hipotensão nova e sem taquicardia crescente
Se não melhora: Hipotensão após antipsicótico de baixa potência ou após a associação com prometazina é efeito esperado do esquema; taquicardia que sobe apesar do fármaco aponta para causa clínica não tratada, abstinência ou dor
Esperado: Temperatura estável e musculatura sem rigidez ao movimento passivo
Se não melhora: Febre com rigidez em quem recebeu bloqueador dopaminérgico é síndrome neuroléptica maligna até prova em contrário; suspenda o antipsicótico e siga o último marco da conduta
Esperado: Pele íntegra, extremidades quentes, enchimento capilar normal, sem edema e sem parestesia relatada
Se não melhora: Palidez, frio, edema ou dor no membro contido obrigam a soltar aquele ponto imediatamente; a redução de perfusão em extremidades está entre as complicações descritas da contenção
Esperado: Uma resposta escrita à pergunta: o dano imediato ou iminente que justificou conter ainda existe agora?
Se não melhora: Se a resposta for não, solte — a norma médica em vigor proíbe prolongar além do período necessário ao propósito. Se for sim, escreva por quê e marque a próxima reavaliação
Esperado: Ausência de desvio forçado do olhar, torcicolo, rigidez de mandíbula e de inquietação motora nova
Se não melhora: Distonia aguda trata-se com biperideno injetável, que está no elenco. Inquietação nova é acatisia até prova em contrário, e a diretriz avisa que ela é erroneamente lida como piora da agitação: a resposta é reduzir a dose, nunca aumentá-la
Onde o erro machuca
O dano: O raciocínio fecha antes de abrir. Quem escreve surto psicótico na própria avaliação porque o socorrista escreveu na ficha deixa de procurar as causas clínicas gerais que a diretriz brasileira lista — hipoglicemia, hipóxia, trauma, sepse, meningite, abstinência — e passa a procurar apenas confirmação. O paciente sai do plantão medicado e sem diagnóstico, e o que estava embaixo continua embaixo.
Como pegar a tempo: Escreva agitação psicomotora de início agudo, causa a esclarecer. São oito palavras, mantêm o leque aberto e obrigam a próxima linha do prontuário a ser um dado, e não uma opinião. A palavra de quem trouxe entra no prontuário como informação de terceiro, entre aspas e com a fonte nomeada.
O dano: A sedação apaga o exame do estado mental por horas e apaga junto a chance de encontrar o que era corrigível em minutos. Uma glicemia de 34 e uma saturação de 82% são achados de segundos que desaparecem sob duas ampolas intramusculares e reaparecem, quando reaparecem, como deterioração inexplicada às cinco da manhã.
Como pegar a tempo: Glicemia capilar, oximetria, temperatura e sinais vitais antes da bandeja, sempre, inclusive no paciente que já chegou contido — e sobretudo nele, porque a contenção prévia é justamente o que torna essas medidas fáceis de obter. Nenhuma delas exige colaboração e as quatro juntas levam menos tempo do que preparar a medicação.
O dano: A escalada é recíproca e rápida. A postura de confronto confirma para um paciente persecutório exatamente aquilo de que ele desconfia, transforma um episódio de grau dois em um de grau três e produz a contenção que se queria evitar. O custo aparece depois, na relação com o serviço: quem foi contido uma vez volta com medo, ou não volta.
Como pegar a tempo: Movimentos suaves, voz pausada e firme, distância mantida, sem dar as costas e sem bloquear a porta. Encare a agressividade como sintoma e como sinal de sofrimento, que é o que a diretriz brasileira recomenda — não porque seja generoso, mas porque é o que impede o médico de reagir à cena como ameaça pessoal, e é essa reação que escala.
O dano: A Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 traz, sob a mesma entrada e no mesmo componente, duas soluções injetáveis de haloperidol: 5 mg/mL e 50 mg/mL. Uma ampola de 1 mL da segunda entrega 50 mg de haloperidol, dez vezes a dose única máxima que a bula do injetável agudo indica para agitação psicomotora, e é um depósito com efeito de semanas, em veículo oleoso, num paciente cuja causa da agitação você ainda não conhece.
Como pegar a tempo: Escreva a concentração por extenso em toda prescrição de injetável desta classe, e confira a ampola antes de aspirar. A regra vale para a casa inteira, não só para você: onde as duas apresentações convivem na farmácia, o combinado precisa estar escrito e não apenas sabido.
O dano: É o mecanismo pelo qual a contenção mata. As complicações descritas — desidratação, redução da perfusão em extremidades, fraturas, depressão respiratória e morte súbita — são todas evitáveis pela observação contínua, e todas se instalam no intervalo entre conter e olhar de novo. Some-se que nenhuma norma brasileira em vigor fixa de quanto em quanto tempo olhar, e o intervalo passa a ser o que a rotina da casa permitir, que é frequentemente o plantão inteiro.
Como pegar a tempo: Escreva o horário da próxima reavaliação na mesma linha em que prescreve a contenção, e trate a manutenção como decisão médica ativa a cada hora: o dano imediato que justificou conter ainda existe agora? Registre razões, duração, avaliações, eventos adversos e detalhes do monitoramento, que é o que a norma da enfermagem exige, e registre que informou a família, que é o que a norma médica exige.
O dano: É a armadilha que a diretriz brasileira nomeia com todas as letras. A acatisia é inquietação motora intensa causada pelo antipsicótico, e quem a lê como falha de resposta prescreve mais antipsicótico, o que produz mais acatisia — um ciclo que termina com o paciente em dose alta, sofrendo, e com a equipe convencida de que o quadro é refratário.
Como pegar a tempo: Diante de inquietação nova em paciente que recebeu antipsicótico, pergunte o que mudou desde a dose e olhe o relógio: acatisia aparece depois do fármaco, com consciência preservada, atenção preservada, sem febre e sem rigidez, e o próprio paciente costuma descrever a sensação como não conseguir ficar parado. A resposta é reduzir a dose, e não subir.
O que dizer ao paciente e à família
As falas abaixo são para serem ditas em voz baixa e pausada, e nenhuma delas depende de o paciente concordar. Elas seguem três regras da diretriz brasileira: não barganhar, mas manter flexibilidade e atenção real ao que o paciente reivindica; colocar limites de forma clara e objetiva, sem ameaça e sem humilhação; e estimular o paciente a colocar em palavras o que está sentindo, reforçando explicitamente a capacidade dele de se controlar. Este não é o momento de confrontar delírio, corrigir versão ou fazer moral.
Primeira aproximação, ainda de pé, antes de qualquer exame
“Seu Delcio, eu sou a médica que está aqui hoje à noite. Eu vim conversar com o senhor. Estou vendo que o senhor está muito incomodado. Me conta o que está acontecendo, que eu quero entender.”
Não diga: Evite abrir com o senhor precisa se acalmar. Além de não funcionar, informa ao paciente que o problema, para você, é o barulho que ele faz — e não o que ele está sentindo.
Quando ele exige ir embora agora
“Eu ouvi o senhor. O senhor quer ir embora e tem trabalho às sete. Eu não vou dizer que isso não importa, porque importa. Antes de a gente decidir isso, eu preciso de quatro minutos para ver umas coisas que podem estar te fazendo mal sem o senhor saber. Quatro minutos. Depois a gente conversa sobre a hora de ir.”
Não diga: Evite prometer o que não vai cumprir e evite o senhor só sai daqui quando eu deixar. A primeira quebra a confiança na hora seguinte; a segunda transforma a sala numa disputa, e disputa é o que escala.
Quando ele acusa a equipe, ou diz que estão fazendo alguma coisa contra ele
“Eu entendo que o senhor esteja desconfiado. No seu lugar, com o que o senhor está sentindo, eu também estaria. Eu não vou discutir com o senhor sobre isso agora. O que eu posso fazer é dizer, antes, tudo o que eu for fazer — nada vai acontecer com o senhor sem eu avisar primeiro.”
Não diga: Evite dizer que isso não existe, que ninguém está fazendo nada e que é coisa da cabeça dele. Confrontar o conteúdo do delírio não o desfaz e transfere para você o papel de adversário. Você não concorda com o conteúdo; você reconhece o medo.
Ao oferecer a medicação por via oral
“Eu tenho um remédio aqui que ajuda a diminuir essa aflição. É um comprimido, o senhor toma com água. Não é para dormir, é para conseguir ficar mais tranquilo enquanto a gente termina de ver o que está acontecendo. O senhor aceita tomar?”
Não diga: Evite apresentar como ordem, evite esconder o que é e evite dizer que é só uma vitamina. A oferta que se explica é aceita com muito mais frequência do que a equipe imagina, e a recusa a uma oferta honesta é dado clínico, não afronta.
Enquanto a equipe realiza a contenção
“Seu Delcio, a gente vai segurar o senhor agora, com as faixas, porque do jeito que está o senhor pode se machucar e machucar alguém. Isso não é castigo e não vai ser para sempre. Eu vou estar aqui do lado o tempo todo, eu vou voltar de hora em hora e assim que der para soltar, a gente solta. Eu vou avisando cada coisa que a gente for fazer.”
Não diga: Evite realizar a contenção em silêncio, e evite dizer se o senhor não parar a gente vai te amarrar. A contenção anunciada como ameaça vira punição na experiência de quem a recebe, e a norma que a admite não a admite como punição em nenhuma hipótese.
Com a irmã, no corredor, logo depois
“Dona Alvarina, seu irmão está contido agora, e eu vou te explicar por quê: do jeito que ele estava, ele podia se machucar. Eu prescrevi isso, está escrito no prontuário o motivo, e eu vou reavaliar de hora em hora para soltar assim que der. O que a senhora me contou sobre ele ter parado de beber ajudou muito, e é possível que seja essa a causa. A senhora pode ficar por perto.”
Não diga: Evite o jargão que esconde a decisão, do tipo ele está sob contenção mecânica conforme protocolo. Quem informou a família em linguagem que a família entendeu cumpriu a norma; quem recitou o procedimento, não.
Com o paciente, no dia seguinte, antes da alta
“Seu Delcio, ontem à noite o senhor chegou muito agitado e a gente precisou segurar o senhor com faixas por três horas. Eu quero te contar por que a gente fez isso e ouvir como foi para o senhor. Se o senhor ficou com raiva, faz sentido. E eu quero combinar com o senhor o que a gente faz diferente se acontecer de novo.”
Não diga: Evite não voltar ao assunto. A conversa depois não é cortesia: é o que devolve ao paciente a versão dele sobre o que aconteceu, e é o que sustenta a chance de ele procurar o serviço da próxima vez em vez de fugir dele.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
O limiar do conselho médico, desde 2013
A contenção física é admissível quando for o meio mais adequado para prevenir dano imediato ou iminente ao próprio paciente ou a terceiro, desde que prescrita por médico e registrada em prontuário, com supervisão imediata e regular de membro da equipe e sem se prolongar além do período necessário ao seu propósito. É um teste de adequação: entre as opções disponíveis, a contenção é a que melhor previne o dano.
Resolução CFM nº 2.057/2013, art. 16, §§3º e 4º, mantida sem alteração pelas Resoluções CFM nº 2.153/2016 e nº 2.165/2017
O limiar do conselho de enfermagem, desde 2024
A contenção mecânica será realizada quando for o único meio disponível para prevenir dano imediato ou iminente ao paciente ou aos demais, sob supervisão direta do enfermeiro. É um teste de exclusividade: se existir outro meio capaz de prevenir o dano, a contenção não está autorizada, ainda que seja mais rápida ou mais cômoda.
Resolução Cofen nº 746/2024, art. 1º e §1º, publicada no Diário Oficial da União de 3 de abril de 2024
Diante do paciente à sua frente, use o teste mais restritivo dos dois e escreva por que ele foi atendido. Faça a si mesmo, em voz alta e diante da equipe, a pergunta do limiar de exclusividade: existe agora alguma outra coisa capaz de impedir que ele se machuque ou machuque alguém — mais uma tentativa de conversa, uma oferta de medicação oral, retirar da sala a pessoa que o desestabiliza, esperar cinco minutos com a equipe presente? Se existir e não tiver sido tentada, tente. Se não existir, contenha, prescreva por escrito com a razão clínica e informe a família. Quem atende o teste mais restritivo atende automaticamente o menos restritivo, e quem escreve a razão protege o paciente e a si mesmo qualquer que seja a norma que venha a ser invocada depois.
A favor: o que a evidência brasileira mediu
Os dados disponíveis sugerem que o efeito sedativo da associação de prometazina com haloperidol é mais pronunciado do que o obtido com olanzapina ou com haloperidol isolado, e que a ocorrência de distonia foi mais frequente entre os pacientes medicados exclusivamente com haloperidol. É a prática clínica comum no Brasil e em outros países em desenvolvimento, e um dos ensaios que a sustentam foi conduzido em serviços de emergência psiquiátrica brasileiros.
Diretriz brasileira de manejo do paciente agitado ou agressivo, Revista Brasileira de Psiquiatria, 2010, citando ensaios de comparação com olanzapina e com haloperidol isolado
Contra: o que a mesma fonte pondera
As diretrizes internacionais de manejo da agitação não incluem a prometazina entre as opções farmacológicas. Ela é um anti-histamínico da classe das fenotiazinas cuja indicação principal é o controle de condições alérgicas, com efeitos bem demonstrados de sedação excessiva e prejuízo cognitivo e motor em voluntários saudáveis, e a combinação com haloperidol, por antagonismo dopaminérgico e noradrenérgico, pode aumentar o risco de hipotensão e de síndrome neuroléptica maligna. A mesma fonte levanta a hipótese de que a difusão do uso no Brasil se explique pela indisponibilidade do lorazepam intramuscular e pelo custo dos antipsicóticos de nova geração.
Diretriz brasileira de manejo do paciente agitado ou agressivo, Revista Brasileira de Psiquiatria, 2010, seção de manejo farmacológico
Decida pelo objetivo, e não pelo hábito da casa. Se o que você quer é tranquilização — paciente calmo e ainda responsivo, para poder continuar investigando —, o efeito primordialmente sedativo da prometazina joga contra você, e o antipsicótico isolado, na menor dose, cumpre melhor o alvo. Se o que existe é violência em curso com risco imediato, o efeito sedativo mais pronunciado passa a ser a característica desejada, e aí a associação se justifica — com três condições escritas na prescrição: a concentração do haloperidol, o teto de 100 mg de prometazina em 24 horas, e a vigilância de pressão arterial e de temperatura, que são exatamente os dois riscos que a combinação aumenta.
Primeiro medicar: a ordem da diretriz
O manejo físico, por isolamento ou contenção, aparece como recurso para quando as intervenções verbais, não verbais e medicamentosas não forem suficientes para o controle da situação. A leitura direta dessa sequência é que a contenção só entra depois de a medicação ter sido tentada e ter falhado, e que a via intramuscular deve ser considerada última opção terapêutica.
Diretriz brasileira de manejo do paciente agitado ou agressivo, Revista Brasileira de Psiquiatria, 2010, seções de manejo farmacológico e de manejo físico
Primeiro conter: o que a segurança do procedimento impõe
Aplicar uma injeção intramuscular em quem se debate expõe paciente e equipe a agulha, a queda e a lesão, e a norma de enfermagem em vigor reconhece a contenção como procedimento que, na excepcionalidade do atendimento pré-hospitalar móvel, exige no mínimo cinco pessoas para ser feito de maneira segura. A leitura prática é que, quando a única via possível é a parenteral e o paciente não permite aproximação, a imobilização breve pela equipe precede o ato de medicar, por segurança dos dois lados.
Resolução Cofen nº 746/2024, art. 1º, §2º, combinada com a descrição de contenção física por vários membros da equipe na diretriz brasileira de 2010
Separe as duas perguntas que a discussão embaralha, porque cada uma se responde por um critério. Uma delas é se o paciente precisa de medicação parenteral agora — e ela se responde pelo grau de agitação e pelo risco, nunca pela dificuldade de administrar. A segunda é como aplicar com segurança o que já se decidiu aplicar — e aí a imobilização pela equipe durante o ato é técnica de aplicação, não é indicação de contenção mecânica e não deve ser registrada como se fosse. O que separa uma da outra é o relógio: segurar durante a injeção e soltar em seguida é uma coisa; amarrar às grades e sair da sala é outra, e essa segunda precisa de indicação própria, prescrição escrita, prazo e reavaliação.
O raciocínio, em voz alta
Duas e quarenta da manhã de quinta-feira, hospital municipal de noventa e dois leitos. Delcio Madruga, 34 anos, pedreiro, chega de ambulância com os dois punhos presos por ataduras às grades da maca. A ficha do socorrista diz surto psicótico, agressivo, contido. Ele fala alto e sem parar, sua, puxa os punhos contra a atadura, olha para os cantos do teto e para a porta, e repete que precisa sair porque trabalha às sete. A irmã, Alvarina Selva, 41 anos, chega em seguida e diz, antes que você pergunte, que ele nunca foi assim, que não tem doença dos nervos e que isso começou ontem. A enfermeira já separou duas ampolas de haloperidol e duas de prometazina numa bandeja, e o técnico pergunta se pode fazer.
O que não se faz ainda
A bandeja espera. Não porque a medicação seja errada, mas porque a decisão de fazê-la ou não depende de quatro números que ainda não existem e que somem depois dela. O paciente está contido, a equipe está reunida, ninguém está em risco neste segundo: o intervalo existe. Você diz ao técnico, em voz baixa, que vai precisar de quatro minutos e que a bandeja continua ali.
Os quatro minutos
Glicemia capilar 96. Oximetria 97% em ar ambiente. Temperatura axilar 37,6. Frequência cardíaca 128, pressão arterial 158 por 96, frequência respiratória 24. Pupilas isocóricas e fotorreagentes, sem anisocoria. Couro cabeludo palpado, sem hematoma e sem laceração. Sem assimetria de face, sem assimetria de força quando ele puxa contra a atadura. Ele sabe o próprio nome, sabe que está num hospital e erra o dia da semana por um. Tremor fino e visível nas mãos, e a camisa está encharcada.
O que esses números já disseram
Três causas rapidamente fatais saíram da mesa em quatro minutos: hipoglicemia, hipóxia e lesão expansiva com sinal focal. Três achados entraram: taquicardia, hipertensão e tremor com sudorese, que juntos apontam hiperatividade adrenérgica. E os marcadores de causa clínica geral que a diretriz brasileira lista já somam três neste paciente — início súbito, nenhuma história psiquiátrica anterior e desorientação temporal. Nada disso tem cara de surto psicótico primário, e a palavra da ficha não sobrevive à primeira conferência.
A pergunta que fecha o caso
Você chama a irmã e faz as cinco perguntas. Começou ontem de manhã. Nunca foi assim. O que ele usa todo dia: ela hesita, depois diz que ele bebe, todo dia, desde os dezoito, e que na segunda-feira houve um acidente na obra, ele machucou o ombro, foi ao posto, saiu com um analgésico e a orientação de não beber. Não bebe desde segunda. Hoje é quinta. O que mudou nos últimos dias: só isso. Bateu a cabeça: não. Falou em se matar: não, e ela responde sem hesitar.
O que se conclui e para onde se manda
Homem de 34 anos com uso diário e prolongado de álcool, sem ingestão há cerca de setenta horas, com tremor, sudorese, taquicardia, hipertensão, insônia e agitação. Isso é síndrome de abstinência alcoólica, e o reconhecimento é deste capítulo. O manejo é do capítulo A abstinência que não pode esperar, e é para lá que vai a condução — inclusive porque a escolha do fármaco muda por completo: o eixo do tratamento é benzodiazepínico, e o antipsicótico que estava na bandeja reduz o limiar convulsivo de um cérebro que já está com o limiar reduzido.
A decisão sobre a medicação
A bandeja com haloperidol e prometazina não é usada. Você oferece diazepam por via oral, explicando o que é e para que serve, e ele aceita — a desescalada até aqui foi suficiente para que a oferta fosse aceita, e a oferta aceita é o que evita a via intramuscular. Vinte minutos depois ele está sentado, ainda tremendo, falando mais devagar e respondendo perguntas inteiras. O alvo era esse: tranquilo e responsivo, e não dormindo.
A decisão sobre a contenção
Ele chegou contido, e a manutenção da contenção é decisão médica ativa, e não herança. Você faz a pergunta do limiar diante da equipe: existe agora outro meio capaz de impedir que ele se machuque ou machuque alguém? Existe — ele está conversando, aceitou medicação, a irmã está ao lado e a sala está reservada. As faixas saem uma de cada vez, com a pele e a perfusão dos punhos conferidas em cada uma, e você escreve no prontuário a hora em que ele chegou contido, a hora em que foi solto, por que foi mantido nesses quinze minutos, o que foi avaliado e que não houve evento adverso.
O que fica escrito, e a conversa depois
No prontuário, a palavra da ficha aparece entre aspas e nomeada como informação do serviço de remoção, e a sua avaliação começa com agitação psicomotora de início agudo em uso crônico de álcool, com interrupção há cerca de setenta horas. Ficam registrados os quatro números iniciais, o exame neurológico, as cinco perguntas e as respostas, a oferta de medicação oral e a aceitação, o horário da retirada da contenção e a informação dada à irmã. Antes da alta da observação, você volta e conta a Delcio o que aconteceu na madrugada, por que ele chegou amarrado, por que foi solto, e o que ele deve procurar se acontecer de novo — e é essa última conversa que decide se ele volta ao serviço da próxima vez ou se foge dele.
Faça você
Quatro da tarde de um sábado, sala de observação do mesmo hospital. Tomasia Drago tem 61 anos, está internada há quatro dias por pneumonia comunitária e passou as três últimas noites agitada, tentando arrancar o acesso. Recebeu haloperidol intramuscular nas três noites, e ontem também um antiemético que a enfermagem descreve como o de sempre para náusea. Agora ela está sonolenta, responde pouco, e a técnica te chama porque a temperatura axilar é 39,4 e porque, ao tentar posicioná-la, sentiu o corpo duro. À beira do leito: rigidez generalizada de tronco e membros, sudorese profusa, frequência cardíaca 132, pressão arterial oscilando entre 90 por 60 e 160 por 100 em duas medidas separadas por dez minutos, saturação 94%. A creatinofosfoquinase colhida há uma hora voltou em 4.180.
Nomeie o que você está vendo
Junte os cinco elementos que a bula do haloperidol usa para descrever o quadro e diga se eles estão todos presentes nesta paciente. Diga qual deles a própria bula descreve como sinal precoce.
Diga por que não é a alternativa mais provável do quarto dia de internação
Febre no quarto dia de internação por pneumonia tem uma explicação óbvia e ela precisa ser afastada com argumento, não por eliminação preguiçosa. Diga o que, neste quadro, não é explicado por piora infecciosa, e diga também o que exclui a síndrome serotoninérgica e o que exclui a hipertermia de origem ambiental.
Diga o que se suspende, e o que mais se suspende além do óbvio
A conduta que a bula prescreve começa com um verbo. Diga qual é, e diga que outra classe de medicamento, que ninguém costuma associar a este quadro e que esta paciente recebeu ontem, precisa sair junto.
Diga o que se faz enquanto se espera
Liste o suporte imediato, incluindo o alvo de vigilância renal, e diga em que condição específica entra o relaxante muscular específico segundo o documento nacional de antídotos de 2025 — e o que você precisa saber sobre a sua própria casa antes de contar com ele.
Diga o que NÃO fazer
Há uma conduta que a equipe vai propor com boa-fé nos próximos vinte minutos, porque a paciente está confusa e inquieta. Diga qual é e por que ela é exatamente o oposto do que precisa acontecer.
Ver como fecharíamos
O quadro é síndrome neuroléptica maligna, e os cinco elementos da descrição da bula estão todos presentes: hipertermia de 39,4; rigidez muscular generalizada; instabilidade autonômica, evidenciada pela oscilação de 90 por 60 a 160 por 100 em dez minutos somada à taquicardia e à sudorese profusa; alteração da consciência, com sonolência e resposta pobre; e elevação sérica de creatinofosfoquinase, aqui em 4.180. A ordem dos sinais varia; ausência de febre inicial não exclui SNM e não justifica esperar para reavaliar rigidez e alteração autonômica. Piora da pneumonia explicaria febre e taquicardia, e não explica a rigidez generalizada, a creatinofosfoquinase de 4.180 nem a oscilação pressórica; não é síndrome serotoninérgica porque não há agente serotoninérgico em uso, a rigidez é generalizada e não predomina em membros inferiores e não há clônus; e não é hipertermia ambiental porque não houve exposição a calor nem esforço, e essa distinção é declarada neste capítulo justamente para não mandar a paciente para o caminho errado — o manejo da hipertermia ambiental é da apostila de Medicina de Emergência. O verbo com que a bula começa é descontinuar: suspender imediatamente o antipsicótico, e junto com ele todo bloqueador dopaminérgico em uso, o que inclui o antiemético de ontem, porque as bulas dos antieméticos que bloqueiam dopamina trazem a mesma advertência de síndrome neuroléptica maligna e ninguém costuma somá-los ao antipsicótico na hora de suspender. O suporte é resfriamento externo, hidratação intravenosa individualizada com vigilância de perfusão e sobrecarga com débito urinário como alvo de vigilância para proteger o rim da mioglobina, correção de distúrbio hidroeletrolítico, monitorização contínua, coleta seriada de creatinofosfoquinase e função renal, acionamento de vaga de terapia intensiva e contato com o centro de informação e assistência toxicológica da região. Dantrolene pode ser considerado pela terapia intensiva/toxicologia em SNM grave, com regime específico e vigilância hepática/respiratória; não copiar escalada em bolus de hipertermia maligna. Suporte e suspensão dos bloqueadores dopaminérgicos não esperam disponibilidade do fármaco. A conduta que a equipe vai propor de boa-fé é uma nova dose de haloperidol, porque a paciente está confusa e inquieta — e ela é exatamente o oposto do que precisa acontecer: a agitação aqui é parte da síndrome, e o fármaco que a equipe quer repetir é o que a está causando.
Primeiro episódio de agitação com sudorese exige avaliação de causas clínicas e tóxicas, além de segurança e desescalada quando viável. Medir glicemia, oxigenação, temperatura e sinais vitais e realizar exame neurológico dirigido assim que possível. Estar contido não elimina risco: luta contra faixas pode agravar hipertermia, acidose e lesões, e a contenção precisa ser revista e monitorizada. Se a agitação impede avaliação segura ou oferece risco imediato, sedação pode ocorrer simultaneamente ao atendimento e não deve esperar exame completo. Escolher a medicação conforme a hipótese e o estado clínico; exames de imagem são dirigidos, não automáticos.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Recuperação ativa em sete dias. Diferencie formulação de haloperidol para urgência e depósito. Explique por que cessar agitação não significa segurança respiratória. Responda antes de reler e depois confira onde faltou justificar uma decisão.
Em 30 dias
Aplicação em trinta dias. Simule febre e rigidez após antipsicótico: suspenda precipitantes, organize suporte e diferenciais. Revise contenção por necessidade atual e diga o que exige retirada ou intervenção imediata. Use dados observados, reconheça o que ainda não sabe e peça comparação com a avaliação do supervisor.
Agora atenda
Duas e quarenta da manhã, a ambulância encosta e a ficha traz três palavras escritas por quem trouxe. Você tem quatro minutos antes de a bandeja de medicação chegar à beira do leito, e o que você medir nesses quatro minutos é o que ainda estará disponível daqui a uma hora. Atenda o caso e veja quanto do diagnóstico cabe em perguntas que ninguém fez.
