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Um minuto para prescrever, cinco anos para retirar
Transtorno de ansiedade generalizada e transtorno de pânico: da crise ao seguimento na atenção básica
A crise de pânico que chega como dor no peito, a ansiedade generalizada que chega como dor no pescoço, e a decisão que atravessa as duas: o benzodiazepínico. Qual régua brasileira existe, o que ela não cobre, o que o elenco do SUS de fato fornece — e por que a norma que controla essa receita não freia nada.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Linha de Cuidado: Transtornos de Ansiedade no adulto. Brasília: Ministério da Saúde. Última atualização declarada na página: 14 de março de 2022.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica; Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Saúde mental. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. 176 p. (Cadernos de Atenção Básica, n. 34). ISBN 978-85-334-2019-9.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 254 p. (1ª edição, versão eletrônica).
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância Sanitária. Portaria SVS/MS nº 344, de 12 de maio de 1998. Aprova o Regulamento Técnico sobre substâncias e medicamentos sujeitos a controle especial. Diário Oficial da União, nº 91, de 15 de maio de 1998, Seção 1, p. 3.
Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria Colegiada RDC nº 1.000, de 11 de dezembro de 2025. Dispõe sobre os requisitos de controle para Notificações de Receita, Receitas de Controle Especial e Receitas sujeitas à retenção em meio eletrônico. Diário Oficial da União, nº 238, de 15 de dezembro de 2025, Seção 1, p. 174.
Clonazepam: comprimidos de 0,5 mg e 2 mg e solução oral de 2,5 mg/mL. Bula para o profissional de saúde. Geolab Indústria Farmacêutica S/A. Versões declaradas no rodapé: V.00_10/2022 (comprimido) e V.00_08/2022 (solução oral), conforme bula padrão aprovada pela agência sanitária em 3 de março de 2022.
Alprazolam comprimidos. Bula para o profissional de saúde. Medley Farmacêutica Ltda. Bula padrão aprovada pela agência sanitária em 30 de agosto de 2018.
Oxalato de escitalopram, comprimidos revestidos de 10 mg, 15 mg e 20 mg. Bula para o profissional de saúde. Cimed Indústria S.A.
Cloridrato de sertralina, comprimidos revestidos. Bula para o profissional de saúde do medicamento de referência (Viatris) e de um genérico (Accord Farmacêutica).
Cloridrato de fluoxetina, cápsula dura de 20 mg. Bula do Laboratório Teuto Brasileiro S/A.
Diazepam comprimidos. Bula para o profissional de saúde. Pharlab Indústria Farmacêutica S.A.
Andrade LH, Wang Y-P, Andreoni S, Silveira CM, Alexandrino-Silva C, Siu ER, Nishimura R, Anthony JC, Gattaz WF, Kessler RC, Viana MC. Mental disorders in megacities: findings from the São Paulo Megacity Mental Health Survey, Brazil. PLoS ONE. 2012;7(2):e31879.
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa Nacional de Saúde 2019: percepção do estado de saúde, estilos de vida, doenças crônicas e saúde bucal. Rio de Janeiro: IBGE, 2020. 113 p. ISBN 978-65-87201-33-7.
Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Boletim de Farmacoepidemiologia do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados, v. 2, ano 1, julho a dezembro de 2011.
Associação Brasileira de Psiquiatria. Transtornos de ansiedade: diagnóstico e tratamento. Projeto Diretrizes, Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de Medicina. Elaboração final: 24 de janeiro de 2008.
Diretriz conjunta ASAM 2025 — retirada gradual de benzodiazepínicos
FDA — advertência sobre abstinência de benzodiazepínicos
Prefeitura de São Paulo — elenco local, emergência e dispensação
Ministério da Saúde — Rename 2024, financiamento, p. 17 (cópia oficial municipal)
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Após iniciar antidepressivo para pânico, um paciente apresenta inquietação intensa e pensamentos suicidas novos. Qual conduta?
O paciente que você vai ver
Duas e vinte da manhã numa unidade de pronto atendimento de bairro. A sala vermelha está vazia e a amarela tem três macas ocupadas. A ficha que a técnica entrega diz "dor no peito", e embaixo, na letra miúda da triagem, "já esteve aqui". Elizeu Damásio tem 27 anos, entrega comida de aplicativo em moto, e está sentado na beira da maca com o capacete no colo, sem conseguir apoiar as costas.
Ele fala em frases curtas porque não tem fôlego para frases longas. Começou há uns quarenta minutos, parado num semáforo: primeiro o coração, que ele descreve como "batendo na garganta", depois um aperto no meio do peito, depois formigamento nas duas mãos e em volta da boca. Achou que ia desmaiar na moto. Encostou, ligou para a irmã, e ela trouxe. No caminho pensou, e diz isso olhando para o chão, que fosse morrer antes de chegar.
A técnica já fez o eletrocardiograma na chegada, protocolo da casa para dor torácica: ritmo sinusal, 104 batimentos por minuto, sem alteração de repolarização. Pressão de 138 por 88, saturação de 99% em ar ambiente, frequência respiratória de 26, temperatura axilar de 36,4 °C, glicemia capilar de 96 mg/dL. As mãos dele estão frias e úmidas. Os dedos ficam meio fletidos quando ele relaxa, e ele repara nisso antes de você.
No sistema aparecem duas passagens anteriores. Uma há sete semanas, com a mesma queixa, alta com o diagnóstico de "dor torácica a esclarecer" e um encaminhamento para a unidade básica que ele não levou adiante. Outra há dezenove dias, num pronto-socorro diferente, com troponina colhida e normal. Nas duas ele foi liberado em poucas horas. Nas duas ficou bom antes de sair. Nenhuma das duas fichas traz uma palavra sobre o que ele estava fazendo quando começou.
A irmã espera na porta e diz, quando você passa, que ele parou de pegar corrida na avenida e agora só aceita entrega perto de casa; que há três semanas ele não entra em elevador; e que ele fica olhando para o próprio pulso o tempo todo. Ela pergunta se pode ser do coração. É a pergunta certa, e você ainda não tem a resposta inteira.
Este capítulo trata do que se decide nos próximos noventa minutos e do que se decide nos próximos seis meses, porque as duas decisões são a mesma. Existe uma prescrição que faz o Elizeu dormir hoje, sair agradecido daqui e voltar em três semanas pedindo outra. Ela leva um minuto para ser escrita e costuma levar anos para ser desfeita. Decidir sobre ela é o assunto central do que vem a seguir — depois de uma pergunta que vem antes dela, que é se isto aqui é mesmo o que parece.
Quem adoece disso
Transtorno de ansiedade não é a versão leve de outra coisa. É condição que começa cedo, costuma correr por anos quando ninguém a nomeia, e produz incapacidade que se mede em coisas concretas: corridas recusadas, elevador evitado, trabalho perdido, filho que deixa de ser buscado na escola. Quem a trata como queixa menor está tratando como menor aquilo que ocupa boa parte da agenda da unidade básica — e a fonte dessa afirmação é federal, não é impressão de consultório.
O Ministério da Saúde descreve o fenômeno na atenção primária com outro recorte, e vale conhecer o recorte dele antes do recorte dos manuais. O Caderno de Atenção Básica nº 34 diz que as três síndromes mais frequentes na atenção básica são a depressiva, a ansiosa e a de somatização, que a maioria das pessoas que tem uma delas tem também uma ou duas das outras, e que por isso existem mais quadros mistos do que puros. A conclusão que o documento tira disso é forte: propõe tratá-las como três dimensões de um mesmo sofrimento mental comum, em vez de três diagnósticos separados.
Esse é o primeiro dado prático da sua agenda. A pessoa que chega "ansiosa" quase nunca chega só ansiosa: chega com insônia, com dor difusa, com queixa gástrica, com cansaço, e frequentemente com humor deprimido junto. A comorbidade com depressão é a regra e não a exceção — o diagnóstico e o tratamento do episódio depressivo maior são assunto do capítulo Depressão maior na unidade básica, nesta mesma apostila, e aqui se assume apenas o que muda quando os dois andam juntos.
Quem adoece não é sorteado ao acaso. O mesmo caderno federal registra que mulheres têm cerca de duas vezes mais chance de apresentar esse sofrimento do que homens, e atribui a diferença mais ao gênero — aos papéis sociais — do que à biologia; que baixa escolaridade e menor renda são fatores de risco em estudos brasileiros; que o desemprego aumenta a vulnerabilidade; e que, entre empregados, quem descreve o trabalho como de alta exigência e pouca autonomia relata mais sofrimento. Registra ainda que a vulnerabilidade das mulheres é maior entre as que se identificam como negras e pardas e entre as de menor renda.
Isso tem consequência clínica direta e não é digressão sociológica. Duas vezes mais chance em mulheres significa que a mesma dor torácica recebe leituras diferentes conforme quem a traz — e o risco de erro muda de direção em cada uma. Na mulher, o risco é o diagnóstico de ansiedade sair rápido demais e a doença coronariana sair de cena antes de ser excluída. No homem, é o inverso: a investigação cardiológica se repete indefinidamente e ninguém pergunta o que ele estava fazendo quando começou.
Uma das três síndromes que o caderno federal aponta como mais frequentes na atenção básica é a de somatização — as queixas físicas sem explicação médica —, e o Ministério dedicou a ela uma seção inteira de técnica, a da reatribuição de sintomas. Vale pesar o que isso quer dizer: o documento que orienta a atenção primária brasileira considerou frequente o bastante ensinar o profissional a conduzir a pessoa que volta com sintoma corporal para o qual o exame não acha explicação. É a descrição administrativa do paciente que reaparece no pronto atendimento pela terceira vez com dor no peito e eletrocardiograma normal. Não nomear o quadro tem custo próprio: cada retorno repete o exame e a conta, e nenhuma repetição muda o que vai acontecer na semana seguinte.
O melhor número brasileiro de prevalência não é nacional, e é importante saber por quê. O inquérito de saúde mental conduzido na Região Metropolitana de São Paulo, com 5.037 adultos entrevistados por instrumento diagnóstico estruturado e publicado em 2012, encontrou os transtornos de ansiedade como a categoria mais comum de todas: 19,9% em doze meses, contra 11% para os transtornos do humor. E não eram quadros leves — na mesma tabela, 31,7% foram classificados como graves e 31,8% como moderados. Um em cada cinco adultos numa metrópole brasileira, num único ano.
O número nacional não existe, e a ausência é ela própria o dado. A Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, que é o inquérito domiciliar do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e mede hipertensão, diabetes e depressão, não mede ansiedade: estimou que 10,2% dos adultos receberam diagnóstico de depressão por profissional de saúde mental, 16,3 milhões de pessoas, e reuniu o resto da saúde mental numa categoria agregada que é, textualmente, esquizofrenia, transtorno bipolar, psicose ou transtorno obsessivo-compulsivo. Ansiedade fica de fora das duas. No volume inteiro do relatório, a palavra ansiedade aparece uma única vez, e é no glossário, para definir o transtorno obsessivo-compulsivo. Quando alguém citar uma prevalência nacional de ansiedade, vale perguntar de onde ela saiu: não veio do inquérito nacional, porque ele não pergunta.
O contraponto é o consumo. O caderno federal chama os benzodiazepínicos de campeões de audiência no Brasil e afirma que o país está no topo do ranking mundial de consumo — afirmação que o documento faz sem indicar de qual levantamento ela vem, e que por isso vale como leitura do Ministério e não como dado conferível. O dado conferível vem da própria agência sanitária, do sistema que recebe as vendas de medicamentos controlados: em 2010, o clonazepam foi o princípio ativo controlado mais vendido do país, com 56 unidades farmacotécnicas por mil habitantes, seguido de bromazepam e alprazolam com 23 cada. Três dos cinco mais vendidos eram benzodiazepínicos de receita azul. E o clonazepam esteve em primeiro lugar em todos os quatro anos da série.
Duas ressalvas sobre esse número, porque ele é frequentemente citado sem elas. A primeira é o que ele mede: dispensação em farmácia privada, isto é, receita aviada — não doença, não uso continuado, e não o que sai da farmácia da unidade básica. A segunda é a cobertura: o sistema estava sendo implantado no período, e em 2010 alcançava 69% dos municípios e 58% das farmácias do país, de modo que o número é piso e não medida. O que ele sustenta com segurança é a ordem: numa lista dos controlados mais vendidos do Brasil, os três primeiros lugares são de ansiolíticos.
Por que acontece o que acontece
O mecanismo que interessa aqui não é o da serotonina. A explicação por desequilíbrio químico não prevê nada do que acontece no plantão: não explica por que a crise dura minutos e não horas, por que ela volta no mesmo elevador, por que o eletrocardiograma normal alivia por duas horas e não por duas semanas, nem por que o comprimido que resolve hoje piora o mês que vem. O mecanismo que explica tudo isso é de outra ordem, e é o que precisa estar na sua cabeça enquanto o Elizeu está sentado na maca.
Comece pelo corpo, porque o corpo dele está certo. A descarga adrenérgica aguda faz exatamente o que foi feita para fazer: acelera o coração, aumenta a força de contração, redistribui sangue para músculo, dilata pupila, suspende digestão e aumenta a ventilação. É a resposta que salva quem está diante de um perigo real. Nada nela é defeituoso. O que está fora de lugar é o gatilho, não a resposta — e isso muda a conversa que se tem com o paciente, porque ele não está produzindo sintoma, está tendo uma reação fisiológica completa e correta disparada na hora errada.
A hiperventilação é a peça que o interno mais deixa passar, e é a que fecha o quadro. Ventilar acima da demanda derruba a pressão parcial de gás carbônico e produz alcalose respiratória aguda. A alcalose aumenta a fração de cálcio ligada à albumina, e é a queda do cálcio ionizado — não a do cálcio total — que dá parestesia perioral, formigamento nas mãos e, quando intensa, espasmo carpal. A vasoconstrição cerebral que a hipocapnia produz dá a tontura e a sensação de irrealidade. Repare no que isso significa: a mão que formiga e o dedo que enrijece não são sinal de doença neurológica, são consequência aritmética de quantas vezes por minuto a pessoa respirou.
Agora a alça, que é o mecanismo propriamente dito. Uma sensação corporal qualquer é interpretada como sinal de catástrofe iminente — infarto, derrame, morte, enlouquecer. A interpretação catastrófica dispara mais adrenalina. Mais adrenalina produz mais sensação corporal. Mais sensação confirma a interpretação. O ciclo se fecha em segundos e é por isso que a crise sobe em minutos e não em horas: uma alça de realimentação positiva satura rápido e depois esgota. A crise termina sozinha porque a descarga se esgota, não porque alguém a tratou — e é fundamental saber disso antes de atribuir a melhora ao que quer que se tenha feito nos últimos vinte minutos.
Entre uma crise e outra instala-se a segunda alça, mais lenta e mais incapacitante que a primeira: a vigilância interoceptiva. A pessoa passa a monitorar o próprio corpo em busca do primeiro sinal. Contar o pulso várias vezes por dia produz duas coisas: aumenta a chance de flagrar uma variação normal, e a própria atenção dirigida ao coração acelera o coração. Quem procura taquicardia encontra taquicardia. Foi a irmã do Elizeu que descreveu o mecanismo sem saber, quando disse que ele fica olhando para o próprio pulso o tempo todo.
A terceira alça é a que produz a agorafobia e a incapacidade. Depois de uma crise num lugar, a pessoa evita o lugar. A evitação alivia — imediatamente, de forma confiável. Alívio imediato é o reforço mais potente que existe em comportamento humano, e por isso a lista de lugares evitados cresce: a avenida, o elevador, o ônibus cheio, a fila, ficar sozinho. Cada evitação bem-sucedida ensina que o lugar era mesmo perigoso, porque a pessoa nunca fica tempo suficiente ali para descobrir o contrário. A vida encolhe pela borda, e o encolhimento é o que traz a pessoa ao serviço, não a crise.
É exatamente aqui que entra o benzodiazepínico, e é por isso que ele é o assunto central do capítulo em vez de um detalhe de prescrição. O benzodiazepínico funciona: aumenta a condutância ao cloreto pelo receptor gabaérgico, e a crise cede em minutos. Mas repare no que ele é, do ponto de vista do mecanismo — é uma evitação em forma farmacológica. Ele encerra a exposição antes que a extinção aconteça. A aprendizagem que apaga o medo exige que a pessoa permaneça na situação temida tempo suficiente para que a catástrofe prevista não ocorra; o comprimido interrompe esse relógio. Levar o frasco no bolso é levar o sinal de segurança que mantém a alça viva, e há paciente que melhora só de saber que o comprimido está na bolsa, sem tomá-lo — o que é a demonstração mais limpa de que o efeito ali não é farmacológico.
Some a isso a farmacologia da dependência, e a decisão fica inteira. A tolerância ao efeito ansiolítico se instala em semanas, mais rápido que a tolerância ao efeito sedativo; a dose que funcionava deixa de funcionar. Entre uma tomada e outra aparece ansiedade de rebote, que a pessoa e o médico leem como piora da doença, e a dose sobe. Quando se tenta retirar, os sintomas de abstinência são quase idênticos aos sintomas que motivaram a prescrição — ansiedade, insônia, taquicardia, tremor —, e essa semelhança é lida como prova de que o remédio era necessário. Nada nesse encadeamento exige que o médico tenha errado alguma vez: cada passo é razoável isoladamente, e o conjunto é como se chega a seis anos de uso contínuo a partir de uma receita de sete dias.

Como se apresenta de verdade
Quatro quadros diferentes chegam com a mesma palavra na boca do paciente, e a palavra é ansiedade. Separá-los muda o que se prescreve, quanto tempo se trata e para onde se encaminha — e a separação se faz com pergunta, não com exame. As seis apresentações abaixo cobrem o que entra pela porta do pronto atendimento e o que entra pela porta da unidade básica, incluindo a que não é transtorno de ansiedade nenhum.
Aprender para cuidar no internato. Reconhecer pânico após avaliação proporcional e construir tratamento de base e retirada segura de sedativos. Ao discutir o caso com o preceptor, explicite os achados que sustentam a hipótese, uma alternativa relevante, a decisão que precisa ocorrer agora e o que fará mudar o plano. O resultado esperado é uma ação clínica justificada e acompanhada, além de reconhecer o diagnóstico.
A crise: o que é um ataque de pânico, e por que ele não é diagnóstico
O ataque de pânico é um evento, não uma doença. É um surto abrupto de medo ou desconforto intenso que atinge o pico em poucos minutos — a marca temporal é a mais útil de todas — e vem acompanhado de um punhado de manifestações corporais e cognitivas: palpitação, sudorese, tremor, falta de ar, sensação de sufocamento, dor ou desconforto no peito, náusea, tontura, calafrio ou onda de calor, parestesia, sensação de irrealidade ou de estar fora de si, medo de perder o controle ou de enlouquecer, medo de morrer.
O pico em minutos é o que separa a crise de quase tudo o mais. Angina de esforço não sobe assim e cede com repouso; tromboembolismo não escolhe o mesmo semáforo duas vezes; crise hipoglicêmica melhora com açúcar e não com o fim da descarga. A crise de pânico sobe em minutos, sustenta por algo entre cinco e trinta minutos, e desce sozinha — e é justamente por descer sozinha que qualquer coisa administrada nesse intervalo parece ter funcionado.
O ponto que o interno mais precisa guardar: ter tido um ataque de pânico não fecha diagnóstico nenhum. Ataque de pânico ocorre em pessoas sem transtorno algum diante de um susto, ocorre em depressão, em transtorno de estresse pós-traumático, em fobia específica, em intoxicação e em abstinência — e ocorre também em quem tem doença clínica aguda. Escrever ataque de pânico no prontuário é descrever o evento. O diagnóstico vem depois, e vem do padrão.
Transtorno de pânico: quando o evento vira doença
O transtorno de pânico exige três coisas juntas, e o interno erra por esquecer a terceira. Primeira: ataques de pânico recorrentes. Segunda: pelo menos parte deles inesperados, isto é, sem gatilho identificável — a crise que só acontece diante de cachorro é fobia, não transtorno de pânico. Terceira, e é a que faz a doença: durante um período de pelo menos um mês, preocupação persistente com novas crises ou com as suas consequências, ou mudança desadaptativa de comportamento por causa delas.
É a terceira que transforma um evento fisiológico desagradável numa doença que come a vida da pessoa, e é também a que o paciente não relata espontaneamente. Ninguém chega dizendo que mudou o comportamento. Chega dizendo que tem dor no peito. Quem descreveu a terceira condição do Elizeu foi a irmã dele, no corredor, quando contou que ele não pega mais corrida na avenida e não entra em elevador. Essa informação vale o exame que você ia pedir.
A pergunta que capta a terceira condição cabe em quinze segundos e deve entrar na sua rotina: o que você deixou de fazer desde que isso começou. Não pergunte se ele está preocupado — todo mundo está. Pergunte o que mudou na semana dele. Rota alterada, escada em vez de elevador, alguém que passou a acompanhá-lo, sair de casa só com o celular carregado, não ficar sozinho: cada um desses é a doença declarando-se.
Agorafobia: o mapa que encolhe, e o que de fato incapacita
Agorafobia não é medo de lugar aberto, apesar do nome. É medo de estar em situações das quais seria difícil escapar ou nas quais o socorro seria difícil se a crise viesse. As situações clássicas são transporte público, espaço aberto, espaço fechado, fila ou multidão, e sair de casa sozinho. O medo precisa ser desproporcional ao perigo real, persistir por meses e produzir evitação ou tolerância com sofrimento intenso.
A distinção que importa na consulta é o motivo do medo, não a situação. Quem evita o ônibus porque teme passar mal e não conseguir sair tem agorafobia. Quem evita o ônibus porque teme ser observado e julgado tem transtorno de ansiedade social. Quem evita o ônibus porque foi assaltado nele tem outra coisa ainda. A pergunta é: o que você teme que aconteça ali.
Na prática do serviço, é a agorafobia que produz a incapacidade e é ela que precisa entrar no plano desde o primeiro dia. O paciente aguenta a crise; o que ele não aguenta é a vida encolhendo. Deixar de trabalhar, deixar de levar filho à escola, deixar de sair sozinho — isso tem que estar escrito no prontuário com as palavras dele, porque é o desfecho que o tratamento persegue e é por ele que se mede melhora.
Transtorno de ansiedade generalizada: a que chega sem crise nenhuma
O transtorno de ansiedade generalizada é o oposto do pânico na forma e o irmão dele no tratamento. Não tem crise, não tem pico, não tem pronto-socorro. Tem ansiedade e preocupação excessivas, sobre vários assuntos, na maior parte dos dias, por pelo menos seis meses, que a pessoa acha difícil controlar. E tem uma constelação corporal que é o que a traz ao serviço: inquietação, fatigabilidade, dificuldade de concentração, irritabilidade, tensão muscular e sono perturbado.
Seis meses é um limiar longo de propósito, e o interno tem que respeitá-lo nas duas direções. Preocupação de três semanas depois de uma demissão não é transtorno de ansiedade generalizada; é uma pessoa preocupada com um motivo, e medicar isso é transformar uma reação humana em diagnóstico. Do outro lado, quem preenche seis meses não está "só estressado": preenche critério de um transtorno que responde a tratamento, e chamar isso de estresse é o modo educado de não tratar.
A queixa que abre a consulta quase nunca é a preocupação. É dor nas costas e no pescoço que não cede com analgésico, é insônia de manutenção, é gastrite que já foi endoscopada duas vezes, é cansaço. A tensão muscular é sintoma diagnóstico e é por isso que tanto paciente de ansiedade generalizada mora na fila da ortopedia. Quando a dor difusa não tem achado que a explique e vem com sono ruim e preocupação constante, o diagnóstico está sobre a mesa — não como exclusão, como hipótese positiva a ser confirmada por critério.
A que vem junto e a que vem depois: comorbidade e ansiedade em quem tem doença
Ansiedade pura é minoria. O caderno federal diz isso com todas as letras ao propor as três dimensões do sofrimento mental comum, e o consultório confirma. A comorbidade mais frequente é a depressiva, e ela muda a conduta: define a urgência da busca ativa de risco de suicídio e costuma definir o fármaco. O tratamento do episódio depressivo é do capítulo Depressão maior na unidade básica; o que este capítulo assume é a escolha quando os dois quadros coexistem, porque a decisão cai na mesma receita.
A segunda comorbidade que muda tudo é o álcool, e ela é bidirecional. Muita gente que bebe todo dia começou bebendo para dormir e para aguentar a ansiedade; e muita ansiedade matinal que parece transtorno é abstinência leve das últimas doze horas. Rastrear consumo de álcool em quem se queixa de ansiedade não é rigor extra, é diagnóstico diferencial. A condução do transtorno por uso de álcool e da abstinência é do capítulo A abstinência que não pode esperar, nesta apostila; o que fica aqui é a obrigação de perguntar.
Há ainda a ansiedade que aparece depois de uma doença real, e essa é a mais maltratada de todas. Quem infartou, quem teve embolia pulmonar, quem tem doença pulmonar obstrutiva crônica, quem terminou tratamento oncológico: essas pessoas têm motivo de sobra para vigiar o próprio corpo, e a vigilância vira alça igual à do Elizeu. A armadilha é dupla e corre nos dois sentidos. Chamar de ansiedade a dispneia de quem tem doença pulmonar é perder descompensação; chamar de descompensação toda crise de quem já infartou é internar a mesma pessoa oito vezes por ano. A saída não é escolher um lado: é ter uma régua escrita, combinada com o paciente, sobre o que muda a conduta — e ela se constrói no seguimento, não na crise.
O que se parece e não é: as apresentações que exigem outro caminho
Transtorno de ansiedade é diagnóstico positivo, feito por critério preenchido, e não o nome que se dá ao que sobrou depois de exames normais. Mas isso não autoriza o inverso: existe uma lista curta de quadros que se apresentam como crise de ansiedade e cujo desfecho é outro, e essa lista tem que ser percorrida na cabeça antes de o diagnóstico ser escrito. Percorrer não significa pedir exame de tudo — significa procurar, na história e no exame físico, o que aponta para fora.
Os sinalizadores que tiram o caso do trilho são poucos e valem ser decorados. Primeira crise depois dos 40 anos, sobretudo em quem tem fator de risco cardiovascular. Crise que acorda a pessoa do sono estabelecido. Perda de consciência verdadeira, com testemunha, e não a sensação de que ia desmaiar. Déficit neurológico focal, confusão ou amnésia do episódio. Febre. Perda de peso não intencional. Emagrecimento com tremor e intolerância ao calor. Crise acompanhada de elevação pressórica extrema e cefaleia pulsátil. Início dias depois de uma medicação nova, ou dias depois de uma medicação suspensa.
Cada um desses aponta para um lugar diferente, e vários têm dono neste nível. A dispneia súbita e o seu diferencial cardiorrespiratório — tromboembolismo, síndrome coronariana, pneumotórax, arritmia — são do capítulo Dispneia aguda no pronto-socorro, em Síndromes do Paciente na Emergência; a hipoglicemia como imitadora é do capítulo Antes da hipótese, a glicemia, em Endocrinologia; a tireotoxicose é do capítulo de bócio e hipertireoidismo, em Cirurgia de Cabeça e Pescoço. Este capítulo não conduz nenhum deles. O que ele assume é a obrigação de que a lista seja percorrida antes de a palavra ansiedade entrar no prontuário, e a de que a palavra, uma vez escrita, não vire imunidade: o paciente com transtorno de pânico tem exatamente o mesmo risco que os pares de idade de infartar no ano que vem, e o rótulo antigo é o motivo mais comum de a queixa nova ser desconsiderada.
Como fechar o diagnóstico
A investigação aqui tem uma peculiaridade que organiza tudo: os exames servem para excluir, nunca para confirmar, e por isso a quantidade certa de exames é a menor quantidade que exclui o que precisa ser excluído. Cada exame a mais tem custo clínico próprio, e não é o custo financeiro: é o que ele ensina ao paciente. Quem sai da consulta com um pedido de ecocardiograma sai sabendo que o médico também acha que pode ser o coração.
Isso não é argumento para pedir menos por preguiça. É argumento para decidir a lista antes de escrever, com uma regra explícita: pede-se o que muda conduta em quem tem esta história e este exame físico. O resto entra na conversa como decisão tomada — e dizer ao paciente que não se vai pedir determinado exame, e por quê, faz parte do tratamento tanto quanto pedir.
As seis seções abaixo são a sequência do raciocínio: o que o exame que você já tem responde, as perguntas que fecham o diagnóstico, o painel mínimo, a caça à substância, as duas buscas ativas obrigatórias e o lugar dos instrumentos de rastreio.
Diagnóstico positivo após avaliação proporcional. Sintomas típicos e recorrentes ajudam a reconhecer pânico, mas ECG normal ou melhora com respiração não excluem toda causa clínica. Primeiro episódio, síncope, dor persistente, hipóxia, uso de estimulantes ou risco cardiovascular exigem investigação adequada. TSH e outros exames são escolhidos pela história e exame, sem painel obrigatório em toda ansiedade. Avaliar preocupação persistente e mudança de comportamento, distinguindo ataque de pânico de transtorno do pânico.
O exame que já está na sua mão: o que o eletrocardiograma responde
No caso do Elizeu, o eletrocardiograma já foi feito e já respondeu bastante. Ritmo sinusal a 104 batimentos por minuto sem alteração de repolarização, num homem de 27 anos com dor torácica que subiu em minutos, com parestesia perioral e frequência respiratória de 26, é um conjunto muito mais informativo do que a soma das partes.
Ele exclui, naquele instante, a arritmia sustentada — que é a imitadora mais importante e a mais esquecida. Taquicardia supraventricular paroxística começa e termina abruptamente, dá palpitação, tontura e sensação de morte iminente, e é rotineiramente rotulada de crise de ansiedade em mulheres jovens. A diferença está no traçado durante o evento, e o único momento em que se consegue esse traçado é agora. Eletrocardiograma feito depois de a crise passar não responde à pergunta.
O que ele não faz é excluir doença coronariana em quem tem história de risco, e não faz sozinho a exclusão de tromboembolismo. Num homem de 27 anos, sem fator de risco, com duas passagens anteriores idênticas e troponina normal em uma delas, a probabilidade pré-teste dessas duas hipóteses é baixa o bastante para não sustentar mais uma bateria — e essa frase é uma decisão clínica que precisa ser justificada por escrito no prontuário, não uma economia.
Repare no que a frequência respiratória de 26 acrescenta. Ela não é ansiedade sendo medida: é o dado que sustenta a explicação da parestesia e do espasmo dos dedos pela alcalose respiratória, e é o dado que permite dizer ao paciente, com convicção que ele percebe, por que as mãos dele estão daquele jeito. Sinal vital anotado e não usado é sinal vital desperdiçado.
As perguntas que fecham o diagnóstico — cinco, e nenhuma delas é exame
A primeira é o relógio da crise: quanto tempo levou do primeiro sintoma até o pior momento. Se a resposta é minutos, o padrão é de ataque de pânico; se é meia hora subindo devagar ou horas, não é, e a lista muda inteira. Peça que ele descreva o trajeto do sintoma pelo corpo, na ordem em que apareceu — essa ordem costuma reproduzir a fisiologia e é difícil de inventar.
A segunda é o gatilho: o que você estava fazendo quando começou. Ausência de gatilho aponta para crise inesperada, que é o requisito do transtorno de pânico. Presença de um gatilho sempre igual aponta para fobia. Esforço físico como gatilho reproduzível tira o caso do trilho e devolve ao diferencial cardiovascular.
A terceira é a que capta a doença e já foi dita: o que você deixou de fazer desde que isso começou. A quarta é a linha do tempo longa — quando foi a primeira vez na vida, quantas vezes nos últimos trinta dias, e se houve período livre. A quinta é a mais rendosa de todas e quase nunca é feita: o que você acha que é isso. A resposta entrega a interpretação catastrófica em estado bruto, que é o alvo do tratamento, e entrega também qual doença o paciente tem na cabeça — que quase sempre é a doença de alguém da família.
Some a essas cinco a pergunta que fecha a ansiedade generalizada, se for esse o caso: há quanto tempo você convive com preocupação difícil de desligar, na maior parte dos dias. Ancorar em evento concreto ajuda, porque "há quanto tempo" costuma render resposta achatada — desde antes da mudança de casa, desde antes de o filho nascer, desde o emprego anterior.
O painel mínimo, e o que fica de fora por decisão
O painel que se justifica em quase todo caso novo é curto: hemograma, glicemia, hormônio tireotrófico e eletrocardiograma — este último já feito, se a pessoa veio pela emergência. Anemia dá palpitação, cansaço e dispneia; hipertireoidismo dá o quadro inteiro e é a imitadora com maior chance de estar presente na sua fila; hipoglicemia dá crise adrenérgica com hora marcada em relação à refeição e à medicação.
O que se acrescenta é dirigido pelo que a história pediu, não por rotina. Eletrólitos e função renal em quem usa diurético ou tem vômito; cálcio em quem tem espasmo persistente fora da crise; teste imunológico ou dosagem específica quando houver sinal que aponte para lá. A regra é a mesma da tabela de exclusão: cada item da lista precisa ter um motivo escrito nesta consulta.
E há o que fica de fora, que precisa ser tão explícito quanto o que entra. Em quadro típico de pânico, sem sinalizador de alarme, não se pede monitorização de ritmo de 24 horas, não se pede ecocardiograma, não se pede teste ergométrico, não se pede eletroencefalograma, não se pede tomografia de crânio e não se pedem dosagens de catecolaminas ou metanefrinas. Cada um deles tem chance alta de vir com algum achado sem significado — extrassístole, insuficiência valvar mínima, variante de traçado — e esse achado vira, na cabeça do paciente, a confirmação que ele procurava.
Existe uma consequência prática disso que vale como regra de escrita: a bateria repetida a cada retorno não é neutra, é iatrogênica. Ela é a versão institucional da conferência do pulso, e alimenta a mesma alça. Quando o exame for indicado, peça e explique; quando não for, diga que não vai pedir e diga o motivo. As duas frases tratam.
A caça à substância: café, medicamento, droga — e o próprio benzodiazepínico
Esta parte da anamnese rende mais do que qualquer exame e é pulada com frequência quase perfeita. Comece pela cafeína, medida em xícaras e latas, não em impressão: café, chá preto, refrigerante à base de cola, energético. Quantidade alta reproduz o quadro inteiro em pessoa suscetível, e é uma das poucas causas em que a retirada resolve.
Depois os medicamentos, e aqui a lista precisa ser dita em voz alta porque o paciente não considera medicamento o que compra sem receita: broncodilatador beta-agonista, corticoide sistêmico, descongestionante nasal e oral, formulação para emagrecer, hormônio tireoidiano, estimulante para estudo, suplemento de academia. Pergunte também o que foi suspenso recentemente — betabloqueador interrompido de uma vez produz taquicardia e tremor de rebote.
Depois as substâncias: cocaína e derivados produzem crise indistinguível de pânico; maconha produz crise de ansiedade aguda com despersonalização, sobretudo em quem usa concentrados; e o álcool tem que ser rastreado em todo mundo, pela abstinência leve das primeiras horas da manhã, que é ansiedade com tremor.
E, por último, o que fecha o círculo do capítulo: pergunte sobre benzodiazepínico. Quem já usa, há quanto tempo, em que dose, quantas vezes por dia, quem prescreveu, e — a pergunta decisiva — se a ansiedade piora nas horas que antecedem a próxima tomada. Piora ao fim do intervalo é ansiedade de rebote, não agravamento da doença, e a conduta correta diante dela é o oposto de subir a dose. Diante de um paciente em uso há meses, a hipótese de que parte do que você está vendo seja efeito do tratamento precisa ser considerada antes de qualquer ajuste.
As duas buscas ativas que não são opcionais
A primeira é o risco de suicídio, e ela é obrigatória em toda avaliação de sofrimento mental, incluindo esta. Não é obrigatória porque transtorno de ansiedade seja um quadro brando que ocasionalmente surpreende: é obrigatória porque a comorbidade com depressão é a regra, porque o consumo de álcool anda junto, e porque a única maneira de saber é perguntar. Perguntar não planta ideia.
O que se faz com uma resposta positiva não é deste capítulo e está declarado: a avaliação estruturada do risco, a estratificação e a decisão de destino são do capítulo Risco de suicídio na emergência, nesta mesma apostila, e é para lá que o interno deve ir antes do plantão, não durante. O que fica aqui é a obrigação de fazer a pergunta e de registrar a resposta com as palavras do paciente.
A segunda busca ativa é o consumo de álcool, pelo motivo já dado — é diferencial e é comorbidade ao mesmo tempo. Quantidade num dia comum, medida em embalagens; frequência semanal; e se já houve tentativa de parar. Aqui há uma consequência de prescrição imediata e concreta: benzodiazepínico somado a álcool aumenta risco de sedação e de depressão respiratória, e é uma combinação frequente exatamente na população que mais pede a receita.
Registre as duas respostas na evolução, com data. Elas são o tipo de informação que o próximo profissional não vai refazer se encontrar o campo preenchido, e vai refazer mal se encontrar em branco.
Instrumentos de rastreio: o que eles fazem, e o que não fazem
Escalas de rastreio de ansiedade existem, são breves, e algumas têm versão em português com propriedades estudadas em amostras brasileiras. Elas são úteis para duas coisas: levantar suspeita em quem não trouxe a queixa, e medir mudança ao longo do tratamento no mesmo paciente. São instrumentos de rastreio e de acompanhamento.
O que elas não fazem é diagnóstico. Nenhum ponto de corte substitui o critério, porque nenhuma escala pergunta se a crise foi inesperada, se houve mudança de comportamento por um mês, ou se o quadro começou depois do início do corticoide. Escore alto em quem não preenche critério não é caso; escore baixo em quem preenche não desfaz o diagnóstico.
Vale notar o que a régua federal faz e o que ela não faz. O Caderno de Atenção Básica nº 34, que é de onde sai a farmacologia deste capítulo, não adota escala de rastreio de ansiedade nem fixa ponto de corte; a única classificação que ele oferece para esse campo é a correspondência entre a Classificação Internacional da Atenção Primária e a Classificação Internacional de Doenças, na qual o código de distúrbio ansioso reúne, numa só rubrica, a ansiedade generalizada e o pânico. A Linha de Cuidado dos Transtornos de Ansiedade no adulto, publicada pelo Ministério em 2022, organiza o percurso do paciente por cinco pontos de atenção e trata o rastreamento em seção própria. Na prática da unidade, isso significa que o ponto de corte que o seu serviço usa é escolha do serviço e deve estar escrita em algum lugar dele — e não é obrigação sua defendê-la de cabeça diante de cada paciente.
Na prática do plantão, nenhuma escala é necessária. As cinco perguntas da seção anterior fecham o diagnóstico, e o tempo gasto preenchendo instrumento na emergência é tempo tirado da conversa que efetivamente muda o desfecho.
A régua que existe, o elenco que se tem, e as contas da receita
Três tabelas e um card resolvem a parte decorável deste capítulo. A primeira é a lista de sinalizadores que tira o caso do trilho, com o destino de cada um. A segunda confronta os oito antidepressivos que o caderno federal de 2013 recomenda com o elenco que a Rename 2024 de fato fornece — e a diferença entre as duas colunas é grande o bastante para mudar a receita. A terceira é a aritmética de miligrama, gota e comprimido, recalculada contra as apresentações reais de bula, sem a qual não se escreve nem a dose nem o desmame. O card é a trava da decisão central. As notas ao fim trazem a conferência das fontes: o que fecha, o que não fecha e com que conta.
A trava do benzodiazepínico: as cinco linhas da receita, e o que nenhuma norma exige
Se a decisão for prescrever, a receita precisa conter cinco coisas, e as cinco são responsabilidade sua porque nenhuma delas é exigida por norma brasileira. Primeira: a indicação escrita — o que exatamente essa prescrição está tratando, e por que agora. Segunda: a quantidade contada em unidades, não em caixas. Terceira: o prazo em dias, com a data do último dia escrita por extenso e dita em voz alta na consulta. Quarta: o plano do que vem depois — qual tratamento de base já começou, ou em que data começa. Quinta: a combinação de que a renovação, se houver, se discute em consulta e não no balcão. Compare isso com o que a norma de fato pede. A Portaria SVS/MS nº 344, de 12 de maio de 1998, continua em vigor: os benzodiazepínicos estão na sua lista B1 e exigem Notificação de Receita B, de cor azul, válida por 30 dias contados da emissão — hoje em todo o território nacional, por alteração da RDC nº 1.000, de 11 de dezembro de 2025. E o artigo 46, que nenhuma dessas atualizações tocou, permite que uma única notificação contenha a quantidade para até 60 dias de tratamento, sem justificativa alguma. O caderno federal de 2013 manda colocar um prazo limite de algumas semanas. Se algumas semanas forem duas, a norma permite 4,3 vezes isso num único papel; se forem quatro, permite 2,1 vezes. Em nenhum ponto a norma obriga o prescritor a escrever uma data de término. O freio deste capítulo não está na lei: está em você.
Sinalizadores que tiram o caso do trilho, e para onde cada um manda
| Sinalizador na história ou no exame | O que ele levanta | O que fazer com ele | De quem é o assunto |
|---|---|---|---|
| Primeira crise da vida depois dos 40 anos, com fator de risco cardiovascular | Síndrome coronariana; a idade de início do transtorno de pânico costuma ser bem anterior | Conduzir como dor torácica, e só depois considerar a hipótese psiquiátrica | Dispneia aguda no pronto-socorro, em Síndromes do Paciente na Emergência |
| Crise que acorda a pessoa de um sono já estabelecido | Arritmia, hipoglicemia noturna, apneia do sono, refluxo | Investigar o despertar em si, não a ansiedade que veio depois dele | O capítulo correspondente ao achado que a investigação encontrar |
| Perda de consciência verdadeira, com testemunha | Síncope, arritmia, crise epiléptica | Nunca atribuir a pânico: a sensação de que ia desmaiar é outra coisa e não conta | Crise epiléptica no adulto, em Neurologia |
| Déficit neurológico focal, confusão ou amnésia do episódio | Evento neurológico agudo | Sai deste capítulo imediatamente, antes de qualquer prescrição | Neurologia |
| Tremor, perda de peso e intolerância ao calor, com taquicardia persistente entre as crises | Tireotoxicose | Dosar hormônio tireotrófico antes de prescrever qualquer coisa | O capítulo de bócio e hipertireoidismo, em Cirurgia de Cabeça e Pescoço |
| Crise com relação horária constante com refeição ou com medicação hipoglicemiante | Hipoglicemia | Glicemia capilar durante o evento; fora dele, o exame não responde | Antes da hipótese, a glicemia, em Endocrinologia |
| Início dias depois de medicação nova, ou dias depois de medicação suspensa | Efeito adverso ou abstinência de fármaco, inclusive do próprio benzodiazepínico | Reconstruir a linha do tempo do medicamento antes de diagnosticar | Deste capítulo, e é a causa mais reversível de todas |
| Ansiedade matinal com tremor, em quem bebe diariamente | Abstinência alcoólica leve das últimas horas | Rastrear o consumo antes de tratar como transtorno primário | A abstinência que não pode esperar, nesta apostila |
Os oito antidepressivos do caderno federal de 2013 e o elenco da Rename 2024
| Fármaco | O que o caderno de 2013 diz dele | Na Rename 2024 | O que isso muda na receita de hoje |
|---|---|---|---|
| Amitriptilina | Dose usual 150 a 200 mg, faixa 50 a 300 mg; maior sedação e cardiotoxicidade; evitar em idoso | Sim — 25 e 75 mg comprimido, Componente Básico | Disponível; o degrau de 25 mg da regra de titulação coincide com a menor apresentação |
| Clomipramina | Dose usual 150 a 200 mg, faixa 50 a 300 mg; boa indicação também para transtornos de ansiedade, com doses menores no transtorno do pânico | Sim — 10 e 25 mg comprimido, Componente Básico | É o fármaco do elenco a que o próprio caderno atribui indicação no pânico; a apresentação de 10 mg permite degrau menor que o da regra |
| Imipramina | Dose usual 150 a 200 mg, faixa 50 a 300 mg; observar interações | Não consta | O caderno de 2013 descrevia disponibilidade; a imipramina não foi localizada na Rename 2024 consultada. Verificar elenco e dispensação locais antes de concluir que não é fornecida. |
| Citalopram | Dose usual 20 mg, faixa 20 a 60 mg | Não consta | Já estava fora do elenco em 2013, pelo próprio caderno, e continua fora |
| Escitalopram | Dose usual 10 mg, faixa 10 a 30 mg | Não consta | Único do grupo cuja bula brasileira traz ansiedade generalizada e pânico entre as indicações — e não é fornecido pelo elenco |
| Fluoxetina | Dose usual 20 mg, faixa 5 a 80 mg; meia-vida prolongada, observar interações | Sim — 20 mg cápsula e 20 mg comprimido, Componente Básico | Único inibidor seletivo do elenco; a bula registrada não traz pânico nem ansiedade generalizada entre as indicações |
| Paroxetina | Dose usual 20 mg, faixa 10 a 50 mg; observar síndrome de retirada | Não consta | Fora do elenco antes e agora |
| Sertralina | Dose usual 50 a 150 mg, faixa 50 a 200 mg | Não consta | A bula brasileira traz transtorno do pânico entre as indicações, mas não traz ansiedade generalizada |
| Nortriptilina | Não aparece na tabela de doses; o texto a recomenda como a preferida quando é preciso tricíclico no idoso | Sim — 10, 25, 50 e 75 mg cápsula, Componente Básico | Está no elenco e é a única recomendação nominal por população do caderno — sem dose declarada em lugar nenhum do documento |
Miligrama, gota e comprimido: as contas recalculadas contra a apresentação de bula
| Apresentação registrada | Dose | Equivale a | O que a conta revela |
|---|---|---|---|
| Clonazepam solução oral 2,5 mg/mL, declarada como 25 gotas por mililitro | 0,1 mg | 1 gota | É o menor degrau de retirada disponível no país, e sai do frasco que a Rename fornece |
| Clonazepam solução oral, frasco gotejador de 20 mL | 50 mg no frasco inteiro | 500 gotas | Um frasco cobre 25 dias de uso a 2 mg por dia |
| Clonazepam comprimido de 0,5 mg | 0,25 mg — a dose por tomada que a bula manda usar no início do tratamento do pânico | Meio comprimido | A mesma bula descreve o comprimido como vincado e instrui que ele não deve ser partido |
| Clonazepam solução oral | 0,25 mg | 2,5 gotas | Só se obtém alternando 2 e 3 gotas entre as tomadas, alternância que a bula não descreve |
| Clonazepam, uso de 2 mg por dia | 2 mg | 20 gotas, ou 4 comprimidos de 0,5 mg, ou 1 comprimido de 2 mg | Retirar de gota em gota corta 5% da dose por degrau; de meio comprimido de 0,5 mg, 12%; de comprimido inteiro de 0,5 mg, 25% |
| Diazepam solução injetável 5 mg/mL, ampola de 2 mL | 10 mg | 1 ampola inteira, ou 2 comprimidos de 5 mg, ou 1 comprimido de 10 mg | É a apresentação injetável que a Rename fornece, e a ampola inteira já é a dose oral usual máxima de uma vez |
| Fluoxetina 20 mg, cápsula e comprimido | 10 mg — a dose de início reduzida | Meio comprimido de 20 mg | A cápsula não se parte: a dose inicial reduzida só existe se a farmácia tiver a forma comprimido |
| Fluoxetina 20 mg | 5 mg — o piso da faixa terapêutica declarada pelo caderno federal | Um quarto de comprimido de 20 mg | Nenhuma apresentação do elenco entrega essa dose de forma exata |
A régua brasileira, declarada, e ela é de três peças que não se encaixam. A peça mais nova e a mais específica é a Linha de Cuidado Transtornos de Ansiedade no adulto, do Ministério da Saúde, publicada pela Secretaria de Atenção Primária à Saúde com última atualização declarada em 14 de março de 2022. Ela existe, cobre pela classificação diagnóstica de referência o transtorno de pânico, a agorafobia, as fobias específicas, o transtorno de ansiedade social, o transtorno de ansiedade generalizada e o transtorno de ansiedade de separação, e organiza o percurso do paciente por cinco pontos de atenção: unidade de atenção primária, atenção psicossocial especializada, unidade de pronto atendimento, serviço móvel de urgência e unidade hospitalar. Duas coisas sobre ela precisam ser ditas ao aluno: é publicação eletrônica, sem versão em arquivo para download e sem número de portaria, de modo que a sua vigência se afere pela data de atualização declarada na própria página; e nenhuma frase de conduta farmacológica deste capítulo se apoia nela. A segunda peça é o Caderno de Atenção Básica nº 34, de 2013, que é de onde vem toda a farmacologia deste capítulo — e ele não dedica capítulo algum aos transtornos de ansiedade como entidade: o assunto aparece nele na correspondência entre classificações, no capítulo de sofrimento mental comum e no capítulo de medicamentos, e em nenhum deles como quadro com critérios e conduta próprios. A terceira peça é a regulatória, a Portaria SVS/MS nº 344, de 1998. Falta a peça que faltaria menos: não existe protocolo clínico e diretrizes terapêuticas do Ministério da Saúde para transtorno de ansiedade generalizada nem para transtorno de pânico. Na lista oficial de protocolos publicados da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS, na versão da lista disponível em 6 de setembro de 2026 e com 130 protocolos, os de saúde mental são esquizofrenia, transtorno afetivo bipolar do tipo I, transtorno esquizoafetivo, transtorno do déficit de atenção com hiperatividade, comportamento agressivo no transtorno do espectro do autismo e dor crônica — e ansiedade não está entre eles, assim como não está depressão. O mesmo resultado sai por um segundo caminho, independente: nas 254 páginas da Rename 2024, os radicais de ansiedade, ansiolítico, pânico, fobia e benzodiazepínico têm zero ocorrência, e nenhum dos 60 documentos norteadores declarados se refere a transtorno de ansiedade.
As diretrizes de sociedade existem, são duas, e a própria associação que as publicou as arquiva como desatualizadas. A primeira é Transtornos de Ansiedade: Diagnóstico e Tratamento, do Projeto Diretrizes da Associação Médica Brasileira e do Conselho Federal de Medicina, com autoria da Associação Brasileira de Psiquiatria e elaboração final declarada em 24 de janeiro de 2008. A segunda é Transtorno do Pânico: Diagnóstico, do mesmo Projeto Diretrizes, com autoria conjunta da Associação Brasileira de Psiquiatria, da Academia Brasileira de Neurologia e da Sociedade Brasileira de Pediatria, com elaboração final em 30 de outubro de 2012. Nenhuma das duas foi reeditada, e as duas hoje figuram fora do índice corrente do Projeto Diretrizes — a segunda aparece explicitamente sob a rubrica de diretrizes desatualizadas, e na seção corrente de psiquiatria restam apenas eletroconvulsoterapia e dependência de cocaína. A conta que o aluno precisa fazer é de calendário: a diretriz brasileira mais nova sobre pânico tem 14 anos, e a de ansiedade em geral tem 18. Nenhuma das duas foi usada como fonte de conduta neste capítulo, exatamente por isso.
A tabela de benzodiazepínicos do caderno federal contradiz o parágrafo que a introduz. O texto imediatamente acima define o perfil pela meia-vida: rápido início e ação curta é perfil indutor do sono, ação intermediária é para quem acorda no meio da noite, e duração prolongada é perfil ansiolítico. A tabela então atribui a diazepam e a clonazepam a mesma faixa de meia-vida, 30 a 100 horas, e dá a um o rótulo de perfil ansiolítico e ao outro o de perfil intermediário. Faz o mesmo com lorazepam e alprazolam, ambos declarados com 6 a 20 horas: o primeiro fica como intermediário, o segundo como indutor do sono. São duas colisões na mesma tabela, com o critério declarado logo acima. A coluna de faixa terapêutica soma um problema de forma: seis das sete linhas trazem os números sem unidade nenhuma, só a linha do midazolam escreve miligrama, e a célula do alprazolam mistura ponto e vírgula decimais na mesma expressão, 0.5-2,0.
Meia-vida do clonazepam: a conta não fecha, e a diferença muda o desmame. O caderno federal declara 30 a 100 horas; a bula profissional registrada declara 30 a 40 horas e acrescenta que o valor independe da dose. O teto do caderno é 2,5 vezes o teto da bula. A origem provável do número está na linha de cima da mesma tabela: as 100 horas são a meia-vida do nordazepam, o metabólito ativo do diazepam, declarada na bula do diazepam como aproximadamente 100 horas — metabólito que o clonazepam não produz, já que sua nitrorredução gera compostos farmacologicamente inativos ou fracamente ativos. A consequência é prática: quem planeja a retirada supondo 100 horas espera um autodesmame que não vai acontecer.
Alprazolam no transtorno do pânico: o caderno federal aponta o fármaco e erra a escala da dose. A tabela dele registra, na coluna de observações, que o alprazolam é útil em transtornos ansiosos, principalmente no transtorno do pânico, e fixa faixa terapêutica de 0,5 a 2,0 mg e dose usual de 0,5 a 2 mg. A bula profissional registrada informa que, no transtorno do pânico, a dose média num grande estudo multiclínico foi de 5,7 mais ou menos 2,27 mg por dia, com pacientes necessitando ocasionalmente de um máximo de 10 mg diários. A média é 2,85 vezes o teto do caderno; mesmo um desvio-padrão abaixo da média, 3,43 mg, ainda é 1,72 vez esse teto; e o máximo da bula é 5 vezes. Para transtornos de ansiedade que não o pânico, a mesma bula dá faixa de 0,5 a 4,0 mg por dia — o dobro do teto do caderno. Quem seguir o número do documento federal para tratar pânico com alprazolam vai subdosar por um fator próximo de três. O ponto tem uma ironia própria: quatro páginas adiante, o mesmo caderno lista o alprazolam entre os medicamentos que não constam da Rename.
Escitalopram: o teto do caderno federal está acima do teto da bula. A tabela de antidepressivos declara faixa de 10 a 30 mg. A bula profissional registrada fixa máximo de 20 mg por dia e afirma que a segurança de doses acima de 20 mg não foi demonstrada. O teto do caderno é 1,5 vez o da bula, e a diferença cai justamente na faixa que a bula declara não ter segurança demonstrada. O ponto é informativo mesmo sendo o escitalopram um fármaco fora do elenco básico: quem tem acesso a ele o compra, e o número do documento federal é o que circula.
A regra de titulação dos tricíclicos briga com a observação da própria tabela. Acima das linhas, o caderno instrui: sempre iniciar o tratamento com 25 mg e aumentar 25 mg a cada 2 a 3 dias até atingir o nível terapêutico. Duas colunas à direita, na linha da clomipramina, o mesmo documento registra que doses usualmente menores são necessárias no transtorno do pânico. As duas frases estão na mesma tabela e não se conciliam: a regra nunca desce abaixo de 25 mg. A aritmética da regra: de 25 mg até a dose usual de 150 mg são 5 incrementos, isto é, de 10 a 15 dias. E a Rename 2024 fornece clomipramina em comprimido de 10 mg, apresentação que existe exatamente para permitir degraus menores — e que a regra do documento federal nunca utiliza.
O elenco encolheu debaixo do documento. Dos oito antidepressivos da tabela do caderno, três estão hoje no Componente Básico da Rename 2024: amitriptilina, clomipramina e fluoxetina. A imipramina não consta — e a ausência é datável, porque a seção 10.4.3 do próprio caderno lista os treze medicamentos que não constavam da Rename de 2012 e a imipramina não está entre eles. No caminho inverso, a nortriptilina está na Rename 2024, em cápsulas de 10, 25, 50 e 75 mg, e não aparece na tabela de doses do caderno — embora seja o único fármaco que o texto recomenda nominalmente para uma população específica. O documento federal recomenda um medicamento para o qual não oferece dose em lugar nenhum.
O que o SUS fornece para ansiedade, conferido termo a termo sobre o texto normalizado da Rename 2024. Benzodiazepínicos: diazepam em solução injetável de 5 mg/mL e comprimidos de 5 e 10 mg, no Componente Básico, código N05BA01; clobazam de 10 e 20 mg, no Componente Especializado, N05BA09; e clonazepam apenas na solução oral de 2,5 mg/mL, no Componente Básico, sob o código N03AE01 — que é o de antiepiléptico, não o de ansiolítico. Não constam alprazolam, bromazepam, lorazepam, clordiazepóxido, buspirona nem hidroxizina. Entre os antidepressivos, não constam sertralina, escitalopram, citalopram nem paroxetina. A leitura prática é dura e é a que governa a consulta: não há, no elenco básico, nenhum fármaco cuja bula brasileira traga transtorno do pânico ou transtorno de ansiedade generalizada entre as indicações registradas — a única opção aparentada é a clomipramina, e o que sustenta o seu uso aqui é a coluna de observações do caderno federal, não a bula.
O acaso a favor: a apresentação que o elenco fornece é a que permite o desmame fino. A Rename 2024 traz clonazepam apenas em gotas, e é a gota que resolve o problema mais difícil deste capítulo. A conta, partindo de 2 mg por dia: em degraus de uma gota, 0,1 mg, são 20 degraus, cada um cortando 5% da dose inicial; em degraus de meio comprimido de 0,5 mg são 8 degraus de 12%; em comprimido inteiro de 0,5 mg são 4 degraus de 25%. Com intervalo de duas semanas entre degraus, a retirada em gotas leva 280 dias, cerca de 9 meses, contra 56 dias na de comprimido inteiro. O número maior não é defeito: é o preço de cada degrau ser pequeno o bastante para o paciente atravessá-lo. O caderno federal registra exatamente esse raciocínio quando aponta as formulações em gotas como estratégia de titulação lenta, com degraus quase imperceptíveis, e cita clonazepam e bromazepam como as que existem no Brasil.
Bula do clonazepam: três frases da mesma bula que não convivem. Na descrição do produto, o comprimido de 0,5 mg é apresentado como comprimido circular plano vincado — e vinco existe para partir. Na seção de modo de usar, poucas linhas depois: este medicamento não deve ser partido ou mastigado. Na posologia, na mesma bula: a dose inicial para adultos com distúrbio do pânico é de 0,5 mg por dia dividida em duas doses, com acréscimos de 0,25 a 0,5 mg por dia a cada três dias, e retirada com diminuição de 0,25 mg por dia a cada três dias. A conta: 0,25 mg é a metade do menor comprimido existente, de modo que a dose inicial por tomada, o incremento e o decremento da própria bula exigem partir o comprimido que a própria bula veta. Na solução oral, 0,25 mg equivalem a 2,5 gotas, dose que só se obtém alternando 2 e 3 gotas — alternância que a bula não descreve. A causa provável é copiar: o parágrafo do pânico aparece com texto idêntico nas duas formas farmacêuticas do mesmo documento, sem adaptação à apresentação.
Clonazepam em gotas: dois fabricantes, duas contagens de gota. A bula profissional que este capítulo usa declara que cada mililitro corresponde a 25 gotas e contém 2,5 mg — 25 vezes 0,1 mg fecha exatamente. Outras bulas do mesmo fármaco declaram, na mesma página, que 1 gota equivale a 0,1 mg e que 1 mililitro equivale a cerca de 26 gotas: 26 vezes 0,1 dá 2,6 mg por mililitro, contra os 2,5 mg do rótulo, uma diferença de 4%. Ou a gota vale 0,0962 mg e não 0,1. Para o desmame, 4% num degrau de 5% não é ruído — vale conferir a contagem de gotas do frasco que a sua farmácia entrega antes de escrever o plano em gotas.
Conferências que fecharam, e valem tanto quanto as que falharam. A Portaria SVS/MS nº 344, de 12 de maio de 1998, não foi revogada: a RDC nº 1.000, de 11 de dezembro de 2025, revoga dela apenas dispositivos pontuais — a alínea a do artigo 36, o parágrafo 2º do artigo 40 e quatro anexos — e afirma expressamente que o disposto nela não elide a obrigatoriedade dos demais requisitos daquela portaria. Citá-la como revogada seria o erro mais grave possível, e ela não está. A dose usual de clonazepam do caderno federal, de 0,5 a 2 mg, fecha com a faixa de manutenção da bula no pânico, de 1 a 2 mg por dia com alguns pacientes chegando a 4. E a meia-vida do diazepam declarada pelo caderno, de 30 a 100 horas, é sustentável pela bula quando se conta o metabólito ativo: eliminação terminal de até 48 horas para o diazepam e cerca de 100 horas para o nordazepam.
Uma afirmação do caderno federal que não é auditável, e o número que ocupa o lugar dela. O documento diz que os benzodiazepínicos colocam o Brasil no topo do ranking dos países que mais os consomem, e não indica de qual levantamento internacional o dado vem — não há chamada de referência na frase nem nota de rodapé correspondente. A frase vale como leitura do Ministério, não como número conferível. O que se pode conferir vem do boletim de farmacoepidemiologia da agência sanitária: em 2010, entre os cinco princípios ativos controlados mais vendidos do país, três eram benzodiazepínicos de receita azul — clonazepam com 56 unidades farmacotécnicas por mil habitantes, bromazepam com 23 e alprazolam com 23 —, e o clonazepam liderou nos quatro anos da série. O que o mesmo parágrafo do caderno sustenta sem depender de comparação internacional continua de pé e basta para a conduta: a cronicidade das altas taxas de uso, que o documento chama de pandemia, e a proposta de que enfrentá-la seja responsabilidade compartilhada da equipe.
A série de consumo mede o sistema, não o consumo, e o boletim não avisa disso na tabela em que importa. O texto que introduz a tabela dos cinco mais vendidos afirma que se percebem poucas alterações no período — e, logo abaixo, o clonazepam passa de 29.463 unidades em 2007 para 4.784.730 em 2008, um fator de 162,4 em um ano. Nenhuma mudança de prescrição faz isso. O que explica está em outras duas tabelas do mesmo boletim de nove páginas: as farmácias credenciadas no sistema passaram de 3.951 para 28.636 no mesmo intervalo, fator de 7,25, e os arquivos aceitos passaram de 7.835 para 942.163, fator de 120,3. É implantação, não epidemia. As duas tabelas que descrevem a cobertura trazem observação declarando que 2007 é ano parcial; a tabela de consumo, que é a citada por todo mundo, não traz. E as duas observações discordam entre si sobre qual foi o pedaço de 2007: uma diz maio a dezembro, a outra diz agosto a dezembro. A leitura correta da série é a de 2010 isolada, e mesmo essa é piso: naquele ano o sistema cobria 69,0% dos municípios e 58,2% das farmácias. Como detalhe de acabamento, o nome do bromazepam aparece grafado "bromazepan" nas quatro linhas em que a tabela o traz.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo abaixo tem duas metades e um ponto de virada. A primeira metade cabe nos noventa minutos do pronto atendimento; a segunda leva meses e acontece na unidade básica. O ponto de virada é o marco 4, e é a decisão que dá nome ao capítulo.
Dois avisos, antes do marco 1. Um: a crise cede por conta própria em minutos, e por isso nada administrado nesse intervalo pode reivindicar o mérito da melhora; concluir que funcionou porque o paciente melhorou é o erro de raciocínio mais frequente do plantão. Outro: o marco que mais pesa no desfecho não envolve prescrição nenhuma — é o quinto, aquele que assegura consulta com dia e hora.
As doses citadas supõem adulto de 70 kg, sem doença hepática ou renal significativa, sem uso de álcool no dia e sem gestação. Confira sempre a apresentação disponível no seu serviço antes de escrever: o elenco federal e a farmácia da sua unidade não coincidem tanto quanto se supõe, e a seção seguinte mostra em números onde eles divergem.
Começar e retirar com segurança. Terapia cognitivo-comportamental e antidepressivos apropriados são opções de base. Ao iniciar em dose menor, conferir formulação: cápsula de fluoxetina não deve ser simplesmente partida para obter 10 mg; usar apresentação que permita a dose. Agitação intensa, acatisia, suicídio ou sinais de mania não devem ser normalizados como piora inicial benigna. Benzodiazepínico prolongado não se interrompe abruptamente: redução inicial de 5–10% a cada 2–4 semanas é referência possível, com ritmo individual e mais lento se necessário. Uso de álcool aumenta risco e exige definir nível de cuidado, não abandono ou proibição genérica de qualquer plano ambulatorial.
Marco 1 — primeiros minutos, antes de qualquer medicamento
Leve a pessoa para o ambiente menos movimentado que houver e sente-se — sentado, na altura dos olhos dela, não de pé no vão da porta. Diga quem você é e diga que vai ficar ali. A crise é vivida como morte iminente, e a presença de alguém que não parece assustado é a primeira intervenção eficaz do plantão. Fale devagar e em frases curtas, porque quem está em crise não processa frase longa. Enquanto isso, os sinais vitais e a glicemia capilar estão sendo colhidos, e o eletrocardiograma durante o evento é a única janela para flagrar arritmia.
Prescrição- Ambiente de menor estímulo, profissional sentado ao lado, linguagem em frases curtas
- Sinais vitais completos com frequência respiratória contada, não estimada
- Glicemia capilar
- Eletrocardiograma de 12 derivações durante a crise
Marco 2 — ainda na crise: a respiração, e o que não se faz com ela
Se a frequência respiratória estiver alta e houver parestesia, oriente respiração lenta com expiração prolongada — inspirar pelo nariz contando devagar, expirar pela boca por um tempo maior que o da inspiração, por alguns minutos, com você contando junto. O objetivo é reduzir o volume-minuto e deixar a pressão de gás carbônico subir; o formigamento cede antes do medo, e isso é demonstrável ao paciente na hora, o que vale mais do que a explicação depois. O que não se faz é a respiração em saco: a manobra pressupõe que o diagnóstico já esteja certo, e nas imitadoras — síndrome coronariana, tromboembolismo, asma — reduzir a fração inspirada de oxigênio faz mal. Nenhum documento brasileiro consultado recomenda a manobra; ela sobrevive por transmissão oral entre plantões.
Prescrição- Respiração guiada com expiração prolongada, conduzida pelo profissional por 3 a 5 minutos
- Reavaliar frequência respiratória e parestesia ao fim da orientação, e mostrar o resultado ao paciente
- Não usar reinalação em saco
Marco 3 — quando a crise cede: a explicação, que é intervenção e não gentileza
Este é o marco mais barato e o mais subutilizado. Explique, em ordem, três coisas. Que o que ele sentiu é uma descarga de adrenalina real, que produz exatamente esses sintomas, e que o corpo dele funcionou como devia — o gatilho é que estava errado, não a resposta. Que o formigamento das mãos veio do ritmo da respiração, e ele acabou de ver isso acontecer. E que essa crise, do jeito como ela é, termina sozinha em minutos e não mata. Use as palavras dele para nomear o que ele temia; se ele disse que achou que ia morrer, diga que ele achou que ia morrer e que não ia. Não diga que não é nada, não diga que é da cabeça, não diga que é só nervoso — as três frases desmentem o que ele sentiu e custam o vínculo inteiro.
Prescrição- Explicação em três partes: descarga adrenérgica real, parestesia por hiperventilação, curso autolimitado
- Nomear o medo com as palavras do próprio paciente
- Registrar na evolução que a explicação foi dada e o que o paciente entendeu dela
Marco 4 — o ponto de virada: prescrever ou não o benzodiazepínico
Aqui há três caminhos e todos são defensáveis em situações diferentes. O primeiro é não prescrever: crise que já cedeu, paciente orientado, explicação dada, consulta marcada. É o caminho correto na maioria das altas, e a razão é de mecanismo, não de burocracia — o comprimido levado para casa vira o sinal de segurança que sustenta a evitação. O segundo é a dose única no serviço, em crise que não cede com a conduta não farmacológica e está prolongando a permanência: administra-se ali, observa-se, e nada vai para casa. O terceiro é a prescrição curta e escrita com trava: quando a intensidade e a frequência das crises estão impedindo a pessoa de funcionar enquanto o tratamento de base não faz efeito. Nesse caso a receita tem que sair com quantidade contada, prazo em dias, e a data do fim já combinada em voz alta — e a combinação registrada no prontuário, porque quem vai renovar não é você.
Prescrição- Preferência: alta sem benzodiazepínico, com explicação e consulta marcada
- Se administrar no serviço: diazepam 5 a 10 mg por via oral, dose única, com observação subsequente
- Se prescrever para casa: prazo em dias declarado, quantidade contada e data de término combinada e registrada
- Nunca prescrever benzodiazepínico de uso contínuo ou 'se precisar' sem prazo, e nunca associar a álcool
Marco 5 — a alta do pronto atendimento: o marco que mais muda desfecho
O documento de alta é o que sobra. Escreva o diagnóstico com o nome que ele tem — ataque de pânico, com a suspeita de transtorno de pânico a confirmar — em vez de dor torácica a esclarecer. As duas passagens anteriores do Elizeu saíram com o rótulo genérico, e por isso a terceira repetiu a mesma investigação. Registre a frequência respiratória, o eletrocardiograma feito durante o evento e a explicação dada. E garanta a consulta: não escreva 'procurar a unidade básica', que é o que ele já não fez duas vezes. Agende, ou instrua a recepção a agendar, com data. Anote o que fazer se houver crise antes dessa data.
Prescrição- Diagnóstico nomeado na alta, não 'dor torácica a esclarecer'
- Consulta na unidade básica com DATA, não recomendação genérica
- Cópia do eletrocardiograma feito na crise entregue ao paciente
- Orientação escrita do que fazer numa nova crise e de quando voltar ao serviço
Marco 6 — primeira consulta na unidade básica: o diagnóstico e o plano
Agora há tempo para o que não coube no plantão. Feche o critério: recorrência, crises inesperadas, e o mês de preocupação ou de mudança de comportamento. Percorra a lista de imitadores com a história e o exame, peça o painel mínimo, faça a caça à substância e as duas buscas ativas. Depois disso, o plano tem três pernas, e a primeira delas não é medicamento. A psicoterapia é tratamento de primeira linha e não coadjuvante; encaminhe formalmente e registre a data do encaminhamento, porque o tempo de espera é dado clínico. A segunda perna é o que a equipe faz enquanto isso, e aqui o caderno federal oferece técnica concreta: a reatribuição de sintomas, em quatro etapas, com consultas de 15 a 45 minutos e pelo menos uma consulta por etapa. A terceira é o fármaco de base, quando indicado.
Prescrição- Fechamento do critério registrado por escrito, com as três condições verificadas
- Exames direcionados à suspeita clínica; não exigir hemograma, glicemia e TSH como painel universal de toda ansiedade.
- Encaminhamento formal para psicoterapia, com data de solicitação registrada
- Consultas de seguimento agendadas, de 15 a 45 minutos, seguindo as quatro etapas da reatribuição
Marco 7 — o fármaco de base: começar devagar e avisar da piora
O tratamento farmacológico de base do transtorno de pânico e da ansiedade generalizada é o antidepressivo, não o ansiolítico — e essa frase está no caderno federal, que ainda acrescenta que prescrever apenas benzodiazepínico para queixa crônica de ansiedade é iatrogênico. No elenco básico do SUS as duas opções são a fluoxetina e a clomipramina, e a escolha entre elas não é pacífica. Esta apostila adota a fluoxetina como primeira escolha e deixa a clomipramina para quando a fluoxetina não serve ou não melhora o quadro em 12 semanas; os motivos, e o lado da clomipramina, estão nas divergências deste capítulo. Duas regras, porém, valem mais que a molécula escolhida. A primeira: comece pela metade da dose habitual e suba depois de uma a duas semanas, porque o início pode aumentar a ansiedade e é nesse aumento que o paciente abandona. A segunda: avise antes. Diga que os primeiros dias podem trazer mais inquietação, náusea e insônia, que isso costuma passar em uma a duas semanas, e que o efeito sobre a ansiedade leva de quatro a seis semanas para aparecer. Quem foi avisado atravessa; quem não foi para no quarto dia e conclui que o remédio piorou.
Prescrição- Antidepressivo apropriado em dose inicial menor quando indicado; exemplo: fluoxetina 10 mg/dia usando formulação que permita essa dose, com titulação pela tolerância. Não partir cápsula de 20 mg.
- Aviso explícito, antes da primeira dose, sobre piora inicial possível e sobre a latência de 4 a 6 semanas
- Retorno agendado entre 7 e 14 dias, com o objetivo declarado de verificar adesão e tolerância
- Registrar que o aviso foi dado — é o que impede a interrupção no quarto dia
Marco 8 — o desmame, que começa no dia em que a receita foi escrita
Se o benzodiazepínico existe — porque você prescreveu com prazo, ou porque o paciente já chegou usando — o plano de retirada é parte do tratamento e não um problema para depois. Retire devagar: reduções pequenas, com intervalo de semanas entre elas, e mais lentas quanto mais longo tiver sido o uso. Avise que os sintomas da retirada se parecem com os sintomas originais e que essa semelhança não é prova de que o remédio era necessário — é o que a retirada faz. O caderno federal registra uma solução prática: as formulações em gotas permitem titulação lenta, com degraus quase imperceptíveis, e no Brasil existem em clonazepam e bromazepam. Só não se retira benzodiazepínico de uma vez, e há uma situação em que não se retira agora: se houver consumo de álcool de risco em curso, a retirada muda de natureza e passa a ter risco de convulsão — essa situação é do capítulo A abstinência que não pode esperar.
Prescrição- Plano de redução escrito, com a data de cada degrau, entregue ao paciente
- Degraus pequenos e espaçados por semanas; uso longo pede retirada mais lenta
- Formulação em gotas quando for preciso fracionar abaixo do menor comprimido
- Aviso de que os sintomas da retirada imitam os sintomas originais
- Não iniciar retirada ambulatorial se houver consumo de álcool de risco em curso
Como saber se está funcionando
Reavaliar ansiedade tem uma dificuldade própria: não há febre que caia nem exame que normalize. O que se mede é comportamento, e comportamento só aparece se você perguntar por coisas concretas com nome. Os sete parâmetros abaixo são o que se pergunta em cada retorno, na ordem em que se pergunta.
Esperado: Queda progressiva a partir da quarta a sexta semana de tratamento farmacológico, ou antes se a psicoterapia já começou. Alguma crise residual não é falha.
Se não melhora: Antes de mexer na dose, verifique adesão em dias e não em impressão, verifique se a dose chegou ao alvo, e refaça a caça à substância — cafeína, medicamento novo, e o intervalo entre tomadas do benzodiazepínico, se houver.
Esperado: Recuperação progressiva das situações evitadas. Este é o desfecho que importa: é possível ter menos crises e continuar sem sair de casa, e isso não é melhora.
Se não melhora: Ausência de ganho no mapa com queda das crises aponta para evitação consolidada, que responde a exposição gradual e não a ajuste de dose. É a indicação mais forte de psicoterapia e o momento de cobrar o encaminhamento que ainda não aconteceu.
Esperado: Tomada na maioria dos últimos sete dias, no mesmo horário.
Se não melhora: Descubra o que atrapalhou antes de trocar o fármaco: efeito indesejado no início, receio de dependência transferido do benzodiazepínico para o antidepressivo, falta na farmácia, horário incompatível com o turno de trabalho. Trocar sem saber queima uma opção de um elenco curto.
Esperado: Náusea, inquietação e insônia que aparecem nos primeiros dias e cedem em uma a duas semanas.
Se não melhora: Inquietação intensa e persistente pede redução temporária de dose, não abandono. Piora sustentada do humor, agitação nova ou ideação que não existia exigem avaliação imediata do risco de suicídio, conforme o capítulo Risco de suicídio na emergência.
Esperado: Se foi prescrito com prazo, que o prazo esteja sendo cumprido e que a data de término continue de pé. Se o uso é antigo, que o plano de redução esteja andando nos degraus combinados.
Se não melhora: Dose que subiu por conta própria, ou intervalo que encurtou, é sinal de tolerância e de rebote entre doses — não de doença que piorou. A resposta é retomar o plano de redução mais devagar, não subir. Pergunte se a piora acontece nas horas anteriores à próxima tomada.
Esperado: Melhora do adormecer e menos despertares, acompanhando a melhora do quadro.
Se não melhora: Insônia que persiste isolada, com o restante melhorando, não é indicação de reintroduzir benzodiazepínico. Verifique cafeína depois das 16 horas, uso de tela na cama, turno de trabalho, e se o antidepressivo está sendo tomado à noite quando deveria ser de manhã.
Esperado: Ausência de ideação, consumo estável ou em queda.
Se não melhora: Surgimento de sintomas depressivos muda o tratamento e é do capítulo Depressão maior na unidade básica. Aumento do consumo de álcool durante o tratamento costuma ser automedicação da ansiedade que não cedeu, e pede a abordagem do capítulo A abstinência que não pode esperar antes de qualquer retirada de benzodiazepínico.
Onde o erro machuca
O dano: O rótulo genérico apaga o trabalho já feito e obriga o próximo serviço a repetir a investigação inteira. Foi o que aconteceu nas duas passagens anteriores do Elizeu: dois eletrocardiogramas, uma troponina, nenhuma consulta marcada e nenhuma linha sobre o que ele estava fazendo quando começou.
Como pegar a tempo: Nomeie o evento — ataque de pânico — e registre a hipótese diagnóstica com o que falta para confirmá-la. Nomear não impede que se reveja o diagnóstico depois; o rótulo vago é que impede.
O dano: Instala tolerância em semanas, produz ansiedade de rebote entre as doses que é lida como piora da doença, e cria um vínculo que o próximo médico vai herdar sem saber por que existe. A prescrição sem prazo é a que se transforma em seis anos de uso — e o próprio caderno federal chama de iatrogênica a prescrição de benzodiazepínico isolado para queixa crônica de ansiedade.
Como pegar a tempo: Toda receita de benzodiazepínico sai com quantidade contada, prazo em dias e data de término dita em voz alta e registrada. Se você não consegue escrever a data do fim, é porque a indicação não é essa.
O dano: Alimenta exatamente a alça que se quer desligar. O exame normal alivia por horas e ensina o paciente que a pergunta era legítima e que a resposta precisa ser recomprada. Some-se a isso a chance de achado sem significado, que passa a ser a prova de que havia mesmo algo errado.
Como pegar a tempo: Decida a lista de exames uma vez, com motivo escrito, e diga ao paciente o que não vai ser pedido e por quê. Reabra a lista quando houver dado novo — sintoma diferente, sinalizador de alarme, mudança de padrão —, não quando houver ansiedade.
O dano: Desmente uma experiência que foi real e fisiológica, desfaz o vínculo e devolve a pessoa ao circuito de procurar outro serviço até que alguém leve a sério. Além disso ensina que o sofrimento não é assunto médico, o que é o oposto do que o encaminhamento à psicoterapia vai pedir dele.
Como pegar a tempo: Diga o que é, e não o que não é: descarga adrenérgica real, com sintomas reais, disparada fora de hora. A frase que trata é 'o que você sentiu aconteceu de verdade e tem explicação', não 'seus exames estão normais'.
O dano: O erro tem duas metades e as duas custam caro. Na primeira, tireotoxicose, arritmia paroxística, hipoglicemia ou efeito de medicamento seguem por meses com o rótulo errado. Na segunda, o paciente que já tem o diagnóstico chega com queixa nova e ninguém a examina, porque o prontuário já explica tudo.
Como pegar a tempo: Percorra a lista uma vez, com a história e o exame físico, e registre que percorreu. Depois trate cada queixa nova como queixa nova: o diagnóstico psiquiátrico não altera a probabilidade de qualquer doença clínica.
O dano: O encaminhamento vira uma linha no prontuário e o paciente vira responsável por um sistema que ele não controla. Enquanto espera, sem nada oferecido, ele volta ao pronto atendimento — e é lá que a receita de benzodiazepínico costuma ser escrita, por quem não sabe que existe um plano.
Como pegar a tempo: Registre a data da solicitação, informe o paciente do tempo esperado, e ofereça o que a equipe pode fazer no intervalo: as consultas de reatribuição, os grupos, a discussão do caso com o apoio matricial. Encaminhar não é transferir; é somar.
O que dizer ao paciente e à família
Sete frases, e nenhuma delas se destrava com mais informação. O que destrava é reconhecer o que a pessoa acabou de dizer antes de acrescentar qualquer coisa — inclusive, e principalmente, quando o que ela disse foi um pedido que você vai recusar.
Ainda na crise, sem fôlego: "eu vou morrer, doutor, faz alguma coisa"
“"Estou aqui com você e não vou sair. O que você está sentindo é muito ruim e é de verdade. Não vai matar você, e vai passar em alguns minutos. Vamos respirar juntos: puxa pelo nariz devagar, e agora solta pela boca mais devagar ainda. De novo. Eu conto com você."”
Não diga: Dizer "calma" ou "fica tranquilo", que soa como ordem impossível de cumprir e como recusa a acreditar. E não prometa que o exame vai estar normal antes de ele ficar pronto.
Depois do exame normal: "então quer dizer que não tem nada? Que eu inventei?"
“"Não. Você teve uma descarga de adrenalina de verdade, e ela acelera o coração, aperta o peito e formiga as mãos — foi isso que você sentiu, e o exame não mede isso. O que o exame diz é que o seu coração está bem. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo, e a segunda não desmente a primeira."”
Não diga: "Está tudo normal, pode ir para casa." É a frase que produz o retorno da semana seguinte, porque deixa a pessoa com o sintoma e sem explicação.
O pedido direto: "me dá um Rivotril que resolve, doutor, minha vizinha toma"
“"Esse remédio funciona mesmo, e é por isso que eu preciso ser cuidadoso com ele. Ele tira a crise na hora e, tomado por muito tempo, ele para de funcionar e fica difícil de largar — e aí a gente troca um problema por dois. O que trata de verdade o seu caso é outra coisa, e leva algumas semanas. Deixa eu te explicar o plano inteiro, e a gente decide junto se cabe usar alguma coisa nesses primeiros dias e por quantos dias."”
Não diga: Recusar sem explicar o mecanismo, ou dizer que "vicia" e mudar de assunto. A recusa seca manda a pessoa buscar a mesma receita em outro serviço, onde ela sai sem prazo nenhum.
Uso antigo: "eu tomo há seis anos, sempre me deram, por que agora não?"
“"A senhora não fez nada errado, e quem prescreveu também não. Isso acontece com muita gente: começa por poucos dias e vai ficando. O que eu quero propor é diminuir bem devagar, num ritmo que a senhora aguente, com data marcada para cada degrau, e sem tirar de uma vez — isso eu não faria. Enquanto a gente diminui, a gente coloca no lugar o tratamento que sustenta. Se num degrau ficar ruim, a gente para nele e espera."”
Não diga: Culpar a paciente ou o colega que prescreveu, e estabelecer prazo curto de retirada como condição para continuar atendendo. Retirada imposta é retirada abandonada.
No quarto dia do antidepressivo: "esse remédio me deixou pior, eu parei"
“"Fez sentido você parar, ninguém aguenta ficar pior sem saber por quê. Só que essa piora dos primeiros dias é conhecida e costuma passar em uma ou duas semanas — o efeito bom só aparece lá pela quarta ou sexta semana. Minha proposta é recomeçar com metade da dose e subir depois, e eu te vejo em uma semana para ver como foi. Se ficar insuportável de novo, a gente muda."”
Não diga: Insistir sem oferecer dose menor e sem marcar retorno próximo. E não trate a interrupção como falha do paciente: quem não avisou da piora inicial foi quem prescreveu.
Sobre a psicoterapia: "eu não sou louco, doutor, eu preciso é de remédio"
“"Ninguém aqui pensou isso. A terapia não é para quem está louco — é o tratamento com melhor resultado para o que você tem, e é ela que ensina o corpo a não disparar no elevador. O remédio ajuda a segurar enquanto isso. Eu vou encaminhar hoje e vou anotar a data; o encaminhamento pode demorar, e por isso a gente vai trabalhando aqui nas consultas até ele sair."”
Não diga: Prometer prazo de atendimento que você não controla, e encaminhar sem oferecer nada para o intervalo. A espera sem oferta é onde o tratamento morre.
A pergunta do acompanhante, no corredor: "mas não pode ser do coração dele?"
“"É a pergunta certa e a gente checou: o eletrocardiograma foi feito durante a crise e está bom, e o exame de sangue da vez passada também estava. Pelo que ele tem e pela idade dele, a chance de ser do coração é baixa. Isso não quer dizer que ele nunca vá ter outro problema — se um dia a dor for diferente dessa, tem que vir de novo. O que ele tem agora tem nome, tem tratamento, e é isso que a gente vai começar."”
Não diga: Responder só "não" e virar as costas. E não use o diagnóstico para fechar a porta do serviço: dizer que "é ansiedade" e nada mais é o que faz a família procurar outro pronto-socorro.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Fluoxetina — único inibidor seletivo do elenco, nomeado pelo Caderno de Atenção Básica nº 34 (2013) para ansiedade crônica
A fluoxetina, por ser o único inibidor seletivo da recaptação de serotonina do elenco básico. O Caderno de Atenção Básica nº 34, de 2013, nomeia a fluoxetina entre os antidepressivos indicados para queixas crônicas de ansiedade e diz que o tratamento de base desses sintomas são os antidepressivos em doses equivalentes às da depressão. A Rename 2024 traz fluoxetina 20 mg em cápsula e em comprimido, no Componente Básico. Contra essa posição pesa um fato de bula: as indicações registradas da fluoxetina no Brasil são depressão (associada ou não à ansiedade), bulimia nervosa, transtorno obsessivo-compulsivo e transtorno disfórico pré-menstrual — transtorno de pânico não está entre elas.
Brasil. Ministério da Saúde. Cadernos de Atenção Básica, n. 34 — Saúde mental, 2013, seção 10.4; Rename 2024; bula registrada de cloridrato de fluoxetina 20 mg.
Clomipramina — o fármaco a que o Caderno de Atenção Básica nº 34 (2013) atribui indicação no pânico
A clomipramina, por ser o fármaco do elenco a que o próprio caderno federal atribui indicação no quadro. Na coluna de observações da tabela de antidepressivos, o documento de 2013 registra que a clomipramina tem boa indicação também para transtornos de ansiedade e que doses usualmente menores são necessárias no transtorno do pânico. A Rename 2024 traz clomipramina 10 mg e 25 mg em comprimido, no Componente Básico. Contra essa posição pesa o perfil de efeitos indesejados do tricíclico e a instrução do mesmo caderno de que, havendo risco de tentativa de suicídio, o fornecimento de antidepressivos — principalmente tricíclicos — seja feito em pequenas quantidades ou fique em posse de um cuidador.
Brasil. Ministério da Saúde. Cadernos de Atenção Básica, n. 34 — Saúde mental, 2013, seções 10.4.1 e 10.4 (dicas); Rename 2024.
Os degraus de desempate não decidem, porque os dois lados vêm do mesmo caderno federal de 2013. A escolha é desta apostila: fluoxetina primeiro, e clomipramina quando a fluoxetina não serve ou não melhora o quadro em 12 semanas. Três motivos a sustentam. É a mais segura das duas quando há risco de suicídio: o próprio caderno manda fornecer antidepressivo, principalmente tricíclico, em pequena quantidade ou em posse de cuidador nesse caso, e esse risco se busca ativamente em todo paciente com pânico. É a ordem do guia de referência rápida para ansiedade generalizada e pânico da atenção primária do município do Rio de Janeiro, de 2013, o único documento brasileiro consultado por este capítulo que compara os dois no pânico. E a linha do caderno que dá à clomipramina indicação no pânico briga com a regra de titulação da mesma tabela, como mostram as notas. Antes de prescrever, faça quatro perguntas que a própria fonte sustenta. Há risco de tentativa de suicídio identificado na busca ativa? Se há, a instrução do caderno sobre quantidade fornecida e guarda por cuidador pesa contra o tricíclico, e o encaminhamento segue o capítulo Risco de suicídio na emergência. Há episódio depressivo maior junto? Então o fármaco é escolhido pelo capítulo Depressão maior na unidade básica, e o pânico entra como fator de cuidado com a dose inicial. O paciente é idoso, ou usa muitos medicamentos? A decisão sai deste capítulo e vai para o de polifarmácia, em Geriatria. E, por último, o que a farmácia da sua unidade tem hoje: começar o que existe e acompanhar vale mais do que prescrever o ideal que o paciente não retira. Em qualquer das duas escolhas, a regra que não muda é começar abaixo da dose habitual e avisar da piora inicial.
Cabe prescrever, com prazo limite de algumas semanas — Caderno de Atenção Básica nº 34 (2013), seção 10.3
Cabe prescrever, com prazo. O Caderno de Atenção Básica nº 34, de 2013, afirma que os benzodiazepínicos, quando bem indicados, podem se configurar como ferramentas úteis e confiáveis; que o sintoma-alvo principal deles é a ansiedade, inclusive em quadros primários de transtorno de ansiedade; e instrui a colocar sempre um prazo limite de algumas semanas e a negociar com o usuário a redução gradual. A leitura decorrente é que a droga tem lugar legítimo e delimitado.
Brasil. Ministério da Saúde. Cadernos de Atenção Básica, n. 34 — Saúde mental, 2013, seção 10.3.
Não cabe fora de exceção justificada — o mesmo Caderno nº 34 (2013), que chama de iatrogênico o benzodiazepínico isolado na ansiedade crônica
Não cabe, fora de exceção justificada. O mesmo documento de 2013, quatro páginas adiante, afirma que prescrever apenas benzodiazepínicos para queixas crônicas de ansiedade é iatrogênico; manda esgotar as opções de antidepressivo, em substâncias e doses, antes de recorrer a eles; e usa a palavra pandemia para descrever a cronicidade das altas taxas de uso no país. A leitura decorrente é que a exceção precisa ser justificada caso a caso, e que a alta do pronto atendimento raramente é o momento de abri-la, porque quem vai renovar não é quem prescreveu.
Brasil. Ministério da Saúde. Cadernos de Atenção Básica, n. 34 — Saúde mental, 2013, seções 10.3 e 10.4.1.
As duas leituras vêm do mesmo documento e, lidas juntas, não disputam o mesmo paciente: o que o caderno de 2013 chama de iatrogênico é prescrever apenas benzodiazepínico para queixa crônica de ansiedade, e o que ele autoriza é o benzodiazepínico bem indicado, com prazo limite — ponte, não tratamento. Esta apostila adota essa leitura, e ela dispensa degrau de desempate. Na alta do pronto atendimento, vira regra: não prescrever é o caminho da maioria das altas; a dose única no serviço é para a crise que não cede; e a receita para casa só sai quando as crises impedem a pessoa de funcionar enquanto o tratamento de base não faz efeito, sempre com consulta marcada, quantidade contada e data do fim. Essas condições são escolha desta apostila, porque o caderno fixa o prazo em algumas semanas sem dizer quantas e não distingue a prescrição do pronto atendimento da do seguimento, e a norma tampouco resolve — a Notificação de Receita B permite quantidade para até 60 dias de tratamento e não exige data de término. Da segunda posição vem a preferência por não prescrever na alta: quem vai renovar não é quem prescreveu. Diante do paciente, decida por três verificações. Primeira: a crise já cedeu? Se cedeu com a conduta não farmacológica, o que a receita trata é a ansiedade antecipatória, e essa responde a plano e a data marcada. Segunda: existe consulta agendada com data? Sem ela, a receita vira o único tratamento e será renovada por outro. Terceira: o tratamento de base já começou? Se começou, a ponte é curta e tem fim previsível; se não começou, a ponte não tem outra margem. E se prescrever, escreva a quantidade contada e a data do fim — porque nenhum documento brasileiro obriga você a isso, e é exatamente por isso que a omissão passa despercebida.
Dimensões — Caderno de Atenção Básica nº 34 (2013), seção 6.1
Dimensões. O Caderno de Atenção Básica nº 34, de 2013, sustenta que as manifestações mais comuns do sofrimento mental na atenção básica fazem parte de uma única síndrome clínica com três grupos de sintomas que se combinam — tristeza e desânimo, ansiedade e sintomas físicos — e argumenta que tratá-las como categorias separadas faz sobrepor comorbidades e suceder no tempo diagnósticos que são apenas intensidades diferentes da mesma combinação. O argumento é epidemiológico: na atenção básica há mais quadros mistos do que puros.
Brasil. Ministério da Saúde. Cadernos de Atenção Básica, n. 34 — Saúde mental, 2013, seção 6.1.
Categorias — bulas registradas e Portaria SVS/MS nº 344 (1998)
Categorias. Toda a régua operacional com que o interno trabalha é categórica e nomeada. A bula registra indicação por transtorno com nome: o escitalopram traz transtorno de ansiedade generalizada entre as indicações e a sertralina não traz, nem na marca de referência nem no genérico. A Portaria SVS/MS nº 344, de 1998, exige, na justificativa de quantidade acima do teto, a Classificação Internacional de Doença ou o diagnóstico. E a decisão de tempo de tratamento, de encaminhamento e de alta pressupõe um transtorno identificado, não uma dimensão em grau variável.
Bulas registradas de oxalato de escitalopram e de cloridrato de sertralina; Portaria SVS/MS nº 344, de 12 de maio de 1998, art. 46, § 1º.
Não escolha uma moldura e descarte a outra: use cada uma onde ela decide. A moldura dimensional decide a escuta e o plano — é ela que impede você de tratar a ansiedade e não perguntar do humor, de tratar a insônia e não perguntar da bebida, e de somar três diagnósticos onde há um sofrimento. A moldura categórica decide o que se escreve: o critério que autoriza chamar de transtorno, o fármaco cuja bula cobre o quadro, o tempo mínimo de tratamento, e o registro que o próximo profissional vai ler. Na prática, escute pela primeira e escreva pela segunda — e, quando as duas divergirem no seu paciente, registre a divergência em vez de apagá-la, porque quem atender depois precisa saber que a escolha foi feita e por quê.
O raciocínio, em voz alta
Duas e vinte da manhã, sala amarela. Elizeu Damásio, 27 anos, entregador de aplicativo, terceira passagem em sete semanas por dor torácica. Eletrocardiograma feito na chegada: ritmo sinusal, 104 por minuto, sem alteração de repolarização. Pressão 138 por 88, saturação 99% em ar ambiente, frequência respiratória 26, temperatura 36,4 °C, glicemia capilar 96. Parestesia nas mãos e ao redor da boca, dedos semifletidos. A irmã aguarda no corredor.
Passo 1 — sentar, e usar o número que já está na ficha
O interno senta ao lado da maca em vez de ficar de pé, diz o nome e diz que vai ficar. Antes de qualquer pergunta nova, lê os sinais vitais e vê a frequência respiratória de 26 — o dado que ninguém usou nas duas passagens anteriores. Ele agora tem, escrita na ficha, a explicação da parestesia e do espasmo dos dedos: hiperventilação, alcalose respiratória, queda do cálcio ionizado. E tem, no traçado, a exclusão da arritmia sustentada durante o evento, que é a informação que só existe agora.
Passo 2 — respirar junto, e mostrar o resultado
Conduz três minutos de respiração lenta com expiração prolongada, contando junto. Ao fim, recontagem: frequência respiratória em 18, formigamento das mãos quase desaparecido, dedos soltos. Em vez de guardar isso para si, mostra: "o seu formigamento saiu porque a gente mudou o jeito de respirar — não porque eu te dei nada". É a primeira vez em três atendimentos que alguém demonstra ao Elizeu uma relação de causa que ele pode reproduzir sozinho.
Passo 3 — as cinco perguntas
Levou uns minutos para chegar ao pior — pico rápido. Estava parado no semáforo, sem esforço — crise inesperada. Nos últimos trinta dias, cinco episódios assim. Primeira vez na vida há dois meses, três dias depois de o pai dele ter sido internado por infarto. E, à última pergunta, responde sem hesitar: "eu acho que é do coração, doutor, igual ao do meu pai". A interpretação catastrófica tem endereço, e o endereço está no prontuário do pai.
Passo 4 — a lista dos imitadores, percorrida e registrada
Tem 27 anos e não é primeira crise depois dos 40. Não acorda do sono com o quadro. Nunca perdeu a consciência com testemunha. Sem déficit focal, sem febre, sem perda de peso, sem tremor nem intolerância ao calor. Não usa medicamento nenhum, não suspendeu nada, nega cocaína. Bebe cerveja nos fins de semana, quantidade que ele descreve em latas e que não configura consumo de risco. Toma, isso sim, quatro a cinco cafés e dois energéticos por turno de trabalho. O interno escreve tudo isso na evolução, inclusive os negativos.
Passo 5 — a busca ativa, feita e anotada
Pergunta diretamente sobre desânimo persistente, sobre perda de interesse e sobre pensamentos de morte ou de não querer mais viver. Elizeu responde que não, que o que ele quer é voltar a trabalhar direito. A resposta entra na evolução com as palavras dele, e a pergunta entra registrada como feita — para que o próximo profissional saiba que foi feita e quando.
Passo 6 — a explicação, e o nome
"O que você teve chama ataque de pânico. É uma descarga de adrenalina de verdade: acelera o coração, aperta o peito, formiga as mãos. Você não inventou e não é frescura. Ela sobe rápido, dura alguns minutos e passa sozinha, e não mata. O seu coração foi examinado agora, durante a crise, e está bem — e eu entendo por que você pensou no seu pai." Chama a irmã e repete para os dois, porque quem vai estar junto na próxima crise é ela.
Passo 7 — a decisão do benzodiazepínico
A crise já cedeu sem medicamento. Há explicação dada, há acompanhante orientada, e vai haver consulta marcada. O interno decide não prescrever benzodiazepínico e explica a decisão em vez de apenas executá-la: diz que o remédio que ele talvez esperasse funciona na hora, mas que usado por semanas para de funcionar e fica difícil de largar, e que o tratamento que resolve é outro e começa na unidade básica. Orienta ainda a cortar café e energético e a repetir a respiração lenta se houver outra crise.
Passo 8 — a alta que não repete as duas anteriores
No documento de alta escreve ataque de pânico, com suspeita de transtorno de pânico a confirmar, e não dor torácica a esclarecer. Registra a frequência respiratória, o eletrocardiograma feito durante a crise e a explicação dada. Entrega cópia do traçado ao paciente, para que o próximo serviço não repita a bateria. E, em vez de recomendar que procure a unidade básica, deixa a consulta agendada com data — nas duas altas anteriores, a recomendação genérica foi exatamente o que não aconteceu.
Faça você
Otacília Delgado tem 54 anos, trabalha na cozinha de uma escola municipal e chega à unidade básica na terça de manhã com uma receita azul na mão. Usa clonazepam em comprimido, 2 mg à noite, há seis anos. A primeira receita foi de sete dias, depois da morte da mãe; desde então, receita nova a cada dois meses, em serviços diferentes, sem que ninguém a examinasse por causa disso. Diz que dorme bem com o comprimido e que já tentou parar duas vezes por conta própria — nas duas, passou três noites sem dormir, com o coração disparado e tremendo, e voltou a tomar. Conta isso como prova de que precisa. Nega bebida alcoólica; a filha, que veio junto, confirma. Preocupa-se o dia inteiro com dinheiro, com a mãe que morreu e com a neta, e diz que é assim "desde sempre". Tem dor no pescoço que já foi investigada duas vezes sem achado.
Passo 1 — o que já está decidido pelos dados da vinheta
Uso contínuo de seis anos a partir de uma indicação de sete dias; duas tentativas de retirada abrupta com sintomas típicos; ausência de consumo de álcool confirmada por duas fontes; preocupação difícil de desligar por anos, com tensão muscular e sono perturbado. Há um quadro de base a nomear e há um tratamento em curso que não é o tratamento de base.
Passo 2 — o que os sintomas das duas tentativas significam
Insônia, taquicardia e tremor nas noites seguintes à suspensão abrupta são o quadro esperado da retirada, e não a demonstração de que a doença voltou. A semelhança entre os dois é o motivo pelo qual seis anos viram sete anos. Enquanto a paciente ler a retirada como recaída, ela não terá razão para tentar de novo.
Passo 3 — a aritmética das apresentações
Ela usa 2 mg por noite, em comprimido. A Rename 2024 traz clonazepam apenas em solução oral de 2,5 mg por mililitro, que a bula descreve como 25 gotas por mililitro — isto é, 0,1 mg por gota. Dois miligramas equivalem, portanto, a 20 gotas. Cortar um comprimido de 0,5 mg é um degrau de 25% da dose; cortar uma gota é um degrau de 5%.
Passo 4 — o que ainda falta saber antes de propor qualquer coisa
Falta o painel mínimo, falta a caça à substância completa — inclusive cafeína e medicamento sem receita —, falta a busca ativa de risco de suicídio e de sintomas depressivos, e falta saber se existe psicoterapia acessível no território e qual o tempo de espera. Falta também perguntar se a ansiedade piora nas horas que antecedem a tomada da noite.
Ver como fecharíamos
Não se retira o clonazepam agora, e não se renova a receita como estava. Faz-se as duas coisas ao mesmo tempo, e nessa ordem. Primeiro, nomeia-se o quadro de base: preocupação excessiva e difícil de controlar por anos, com tensão muscular e sono perturbado, é transtorno de ansiedade generalizada, e ele nunca foi tratado — o que foi tratado durante seis anos foi o sintoma. Inicia-se o tratamento de base, começando abaixo da dose habitual e avisando da piora inicial, e encaminha-se para psicoterapia com a data registrada. Segundo, explica-se à paciente por que as duas tentativas falharam: o que ela sentiu foi retirada, não recaída, e retirada abrupta de seis anos de uso é previsivelmente insuportável. Terceiro, propõe-se a troca da apresentação. Passar as 2 mg do comprimido para 20 gotas da solução oral não muda a dose e muda tudo no que vem depois: o degrau deixa de ser 25% e passa a ser 5%, e é essa diferença que permite descer sem que cada degrau reproduza o que a fez desistir duas vezes. Quarto, escreve-se o plano com as datas de cada degrau e entrega-se a ela uma cópia, com duas combinações ditas em voz alta: se um degrau ficar ruim, para-se nele e espera-se, sem subir; e a receita continua sendo renovada aqui, com data marcada, para que ela não precise procurar outro serviço. A retirada de um uso de seis anos se conta em meses, não em semanas, e o número de meses não é uma meta a bater — é a consequência de quantos degraus ela aguenta.
Náusea leve pode ser transitória, mas sinais graves não devem ser minimizados. A decisão depende de intensidade, estado mental e risco.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Recuperação ativa em sete dias. Explique por que melhora com respiração não exclui toda causa clínica. Distinga ataque de pânico de transtorno do pânico. Responda antes de reler e depois confira onde faltou justificar uma decisão.
Em 30 dias
Aplicação em trinta dias. Escreva redução individual de benzodiazepínico prolongado, conferindo formulação e resposta. Compare retirada, recaída e ativação por antidepressivo e diga o que exige avaliação imediata. Use dados observados, reconheça o que ainda não sabe e peça comparação com a avaliação do supervisor.
Agora atenda
Agora atenda: unidade de pronto atendimento, madrugada, sala de observação com três macas ocupadas. Um adulto jovem chegou com dor no peito e falta de ar que começaram há menos de uma hora, e a ficha da triagem registra passagem anterior pelo mesmo motivo. O eletrocardiograma da chegada já está pronto. Você tem a história, o exame físico, os sinais vitais e a decisão da alta — inclusive a de prescrever ou não, e a de como o paciente sai daqui.
