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Clínica MédicaReumatologia

A dor que melhora andando

Espondiloartrites e artrite psoriásica

Espondiloartrites e artrite psoriásica para o interno: separar a lombalgia inflamatória da mecânica, pedir na unidade básica o que o SUS oferece, encaminhar sem esperar exame, tratar pelo protocolo que governa cada paciente — o da espondilite, o da artrite reativa ou o da artrite psoriásica — e reconhecer o olho vermelho que não pode esperar.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos. Portaria Conjunta nº 25, de 22 de outubro de 2018 — aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Espondilite Ancilosante (revoga a Portaria Conjunta nº 7/SAS/SCTIE/MS, de 17 de julho de 2017), com a alteração pós-publicação de 2025 no item de rastreio da infecção latente pela tuberculose.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde. Portaria Conjunta nº 37, de 21 de janeiro de 2026 — aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Artrite Psoriásica (revoga a Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 9, de 21 de maio de 2021).

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Portaria Conjunta nº 6, de 22 de abril de 2021 — aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Artrite Reativa (revoga a Portaria nº 1.150/SAS/MS, de 11 de novembro de 2015).

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Portaria SECTICS/MS nº 18, de 18 de abril de 2024 — torna pública a decisão de incorporar, no âmbito do SUS, o teste de detecção de HLA-B27 para indivíduos com suspeita de espondiloartrite axial, conforme Protocolo Clínico do Ministério da Saúde.

Brasil. Ministério da Saúde. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS. Teste de detecção de HLA-B27 para indivíduos com suspeita de espondiloartrite axial e para avaliação prognóstica da doença. Relatório para a Sociedade nº 444. Brasília: Ministério da Saúde; março de 2024.

01

Responda antes de ler

Homem de 34 anos com espondiloartrite axial, em uso de naproxeno, liga para a unidade básica numa sexta-feira à tarde: desde a manhã o olho esquerdo está vermelho ao redor da córnea, dói, a luz incomoda muito e a visão está embaçada. Não há secreção. Qual é a conduta?

02

O paciente que você vai ver

Segunda-feira, sete e cinquenta da manhã. A unidade básica ocupa uma esquina da avenida por onde passam as motos de entrega, e às oito já há fila na calçada. Você está no consultório 3 com a lista do dia impressa — dezesseis nomes e dois encaixes escritos à caneta —, e o preceptor atende a demanda espontânea do outro lado da parede, com a porta encostada. O primeiro encaixe é Áureo Osório, 27 anos, entregador de moto por aplicativo, 72 quilos. Ele entra com o capacete na mão, senta na beirada da cadeira com a coluna reta demais e, antes de você terminar de ler a ficha, levanta de novo: “Desculpa, sentado eu travo.”

A queixa ocupa uma linha na ficha da recepção: dor nas costas há mais de um ano. O resto só aparece quando você pergunta a hora em que ela dói. A dor começou devagar, sem peso carregado e sem queda, na parte baixa das costas e no fundo das nádegas, ora de um lado, ora do outro. Ele acorda com ela por volta das quatro da manhã e não consegue voltar a dormir deitado: levanta, anda pela cozinha, bebe água, e em meia hora a dor afrouxa. De manhã o corpo fica duro por quase uma hora, e ele mede pelo tempo que leva para conseguir calçar a bota. Rodando durante o dia, melhora. No domingo, o dia em que descansa, piora.

Foi duas vezes à unidade de pronto atendimento no último ano. Nas duas saiu com uma injeção de diclofenaco e um relaxante muscular, e nas duas a dor sumiu por um dia e meio — “parecia milagre”, ele diz. Na segunda vez fizeram uma radiografia da coluna lombar, que ele guarda no celular junto com o laudo: coluna lombar sem alterações. Disseram que era da moto, que ele precisava repousar e que o jeito era trocar de serviço.

Você faz as perguntas que a ficha não fez. Há dez meses, o olho direito ficou vermelho, doía e a luz incomodava; ele pingou um colírio de antibiótico que um colega tinha em casa, e o olho levou três semanas para voltar ao normal. Há quatro meses, o calcanhar esquerdo dói nos primeiros passos da manhã. Não teve diarreia nem ardência para urinar nas semanas antes de a dor começar, não conhece mancha nenhuma na própria pele e fuma dez cigarros por dia desde os dezoito anos. O pai, que morreu num acidente de trânsito aos 52, “andava curvado, com o pescoço duro, e ninguém nunca soube o que era”.

No exame, a coluna lombar quase não se desdobra quando ele se inclina para a frente: das duas marcas que você faz, uma na altura da quinta vértebra lombar e outra dez centímetros acima, a distância aumenta só três centímetros e meio. A compressão da sacroilíaca direita reproduz a dor da nádega. A inserção do tendão de Aquiles esquerdo dói à pressão do polegar. A expansão do tórax passa de quatro centímetros, e nenhuma articulação periférica está inchada. Você olha o couro cabeludo, o umbigo, a fenda entre as nádegas e as unhas das mãos e dos pés, e não encontra nada. Hoje o olho está calmo.

O preceptor passa pela porta, olha a radiografia no celular e pergunta o que você pretende fazer. Quatro perguntas separam o que Áureo tem de uma dor de quem passa dez horas em cima de uma moto. A dor dele é inflamatória ou mecânica, e quais respostas da história decidem isso? Uma radiografia de coluna lombar normal descarta alguma coisa? O que se pede hoje, numa unidade básica, e o que não precisa estar pronto para ele ser encaminhado? E o que se faz com o olho vermelho de dez meses atrás, que, se voltar, não pode esperar a vaga no especialista?

Este capítulo acompanha Áureo desta consulta até a décima segunda semana de um medicamento biológico, passando pelo primeiro mês de anti-inflamatório, pelo sábado à noite em que o olho volta a doer, pela consulta na reumatologia e pela tuberculose latente que precisa ser tratada antes. No caminho aparecem outras três pessoas que o mesmo grupo de doenças traz à unidade: o rapaz com o joelho inchado três semanas depois de uma uretrite, a mulher com o dedo do pé em salsicha e uma caspa que não era caspa, e o paciente com doença de Crohn que passou a acordar com dor nas nádegas. As quatro têm uma espondiloartrite — e cada uma é governada por um protocolo brasileiro diferente.

03

Quem adoece disso

Espondiloartrite não é doença de ambulatório de especialidade: é doença que passa pela unidade básica com outro nome. O relatório da Conitec que acompanhou a incorporação do HLA-B27 ao SUS, em 2024, estima entre 1 e 15 pessoas a cada mil com espondiloartrite axial e cita um estudo sul-americano com cerca de uma pessoa a cada 700. Aplicada a uma população adscrita de três mil adultos, a faixa do relatório dá de 3 a 45 pacientes, e o estudo sul-americano, cerca de 4. Quase nenhum deles chega à consulta com o diagnóstico escrito. Chega como lombalgia, como tendinite do calcanhar, como conjuntivite que demorou a passar.

A doença começa cedo. O mesmo relatório situa o início entre os 20 e os 45 anos, com três homens para cada mulher, e registra que 20% a 25% dos pacientes relatam algum parente com doença parecida. O protocolo brasileiro de 2018 põe o pico de incidência nos homens dos 20 aos 30 anos e traz um dado de estudo multicêntrico nacional que muda o olhar do interno: quem começou antes dos 40 anos tende ao predomínio axial, e quem começou mais tarde — na maioria mulheres — tende ao predomínio periférico. A dor lombar do rapaz e a dor no calcanhar da mulher de 45 anos podem pertencer à mesma família de doenças.

O HLA-B27 é menos frequente nos brasileiros com a doença do que o estudante costuma imaginar. O protocolo de 2018 fala em cerca de 60% dos pacientes; o relatório da Conitec, em 60% a 70%. Dito de outro jeito, de 30% a 40% dos brasileiros com espondiloartrite axial têm o exame negativo — e um HLA-B27 negativo, sozinho, não descarta nada. O mesmo raciocínio vale no sentido contrário, e o mecanismo explica por quê: o exame positivo em quem tem dor mecânica não cria uma espondiloartrite.

A artrite psoriásica é a segunda espondiloartrite mais frequente no Brasil, segundo os estudos citados pelo protocolo de 2026. No mundo, a prevalência fica entre 0,3% e 1% da população; entre as pessoas com psoríase, os estudos variam de 6% a 41%, e o dado brasileiro citado passa de 33%. Em três de cada quatro pacientes a artrite aparece depois da pele; em 10%, ao mesmo tempo; e em 15%, antes da psoríase — o que obriga a procurar a pele que o paciente não sabe que tem e a perguntar pela psoríase da família. Cerca de 20% desenvolvem a forma destrutiva, e metade tem erosão articular a partir do segundo ano de doença.

A artrite reativa é a menos frequente do grupo nos registros. No Registro Brasileiro de Espondiloartrites de 2010, citado pelo protocolo de 2021, 49 de 1.472 pacientes — 3,3% — tinham artrite reativa, número que o próprio protocolo considera subestimado, porque os casos leves não chegam ao especialista. Atinge sobretudo adultos de 20 a 40 anos; depois de infecção geniturinária, três homens para cada mulher; depois de infecção intestinal, os dois sexos em proporção semelhante. A maioria melhora em poucos meses, mas 2% a 19% cronificam conforme o agente: 4% depois de Yersinia, 17% depois de clamídia e 19% depois de Salmonella e Shigella. Entre os que cronificam, 14% a 49% passam a ter predomínio axial.

Fora da coluna, o número que mais importa ao interno é o do olho. A uveíte anterior aguda é a manifestação extra-articular mais comum da espondilite anquilosante e acomete até 40% dos pacientes, sobretudo os que têm HLA-B27, segundo o protocolo de 2018; dados de dez países ibero-americanos citados por ele associam a uveíte ao acometimento axial e ao HLA-B27. O mesmo protocolo lembra que a fibromialgia está presente em 15% dos pacientes com espondilite anquilosante e piora os índices de atividade: o paciente que parece não responder a nada pode estar pontuando uma segunda dor, que tem capítulo próprio nesta apostila.

E há números que justificam a pressa. Pelo protocolo de 2018, 70% a 80% dos pacientes melhoram da dor e da rigidez só com anti-inflamatório. Para quem não melhora, os anti-TNF multiplicam por três ou quatro a chance de uma resposta ampla em seis meses — melhora de pelo menos 40% em três domínios —, com número necessário para tratar entre 3 e 5; depois de um ano, cerca de 75% mantêm boa resposta e, depois de dois, cerca de 60%. O outro lado também está medido: quando o biológico é suspenso em quem estava bem, cerca de 79% voltam a ter atividade, em média em 16 semanas.

04

Por que acontece o que acontece

A lesão que define o grupo não está dentro da articulação: está na entese, o ponto em que tendão, ligamento e cápsula se prendem ao osso. É por isso que as espondiloartrites doem em lugares que a artrite reumatoide poupa — o encontro do sacro com o ilíaco, os cantos dos corpos vertebrais, a inserção do tendão de Aquiles e da fáscia plantar no calcâneo — e é por isso que um dedo inteiro pode inchar como uma salsicha: a dactilite soma a inflamação da articulação, da bainha dos tendões e das partes moles do dedo todo. A sinovite existe, mas não é o centro da doença.

A inflamação da entese e do osso logo abaixo dela tem um ritmo próprio. Na imobilidade da noite, o edema inflamatório se acumula, e a dor e a rigidez aparecem na segunda metade da madrugada; o movimento desfaz a congestão, e a dor afrouxa depois de meia hora de caminhada. O repouso não alivia porque não age sobre a causa. A mesma lógica explica por que o anti-inflamatório em dose plena costuma produzir melhora visível em 24 a 48 horas — tão característica que o critério ASAS a conta entre as características de espondiloartrite — e por que a injeção de diclofenaco pareceu milagre a quem vinha dormindo mal havia um ano.

O que torna a doença grave é o reparo. Depois da fase inflamatória, a entese e o osso vizinho produzem osso novo: primeiro erosão e esclerose na sacroilíaca, depois pontes ósseas finas que unem os cantos de uma vértebra à seguinte — os sindesmófitos — e, no fim, a fusão. O protocolo de 2018 gradua a sacroilíaca à radiografia de zero, normal, a quatro, anquilose total, e só aceita como sacroiliíte radiográfica o grau 2 a 4 dos dois lados ou o grau 3 a 4 de um lado. Antes disso, a ressonância já mostra edema de medula óssea. A forma não radiográfica é a doença antes de a radiografia conseguir enxergá-la, e nem todo paciente chega à fase radiográfica.

Dois segmentos vertebrais de perfil: inflamação em cantos vertebrais anteriores e, no outro painel, ponte óssea marginal entre vértebras adjacentes, externa ao disco.
O primeiro painel representa inflamação; o segundo, formação de sindesmófito marginal. Essas alterações podem coexistir, e a inflamação não evolui obrigatoriamente para uma ponte óssea. Radiografia normal não exclui espondiloartrite axial inicial; a investigação depende do quadro clínico e pode incluir ressonância. Os painéis são esquemas, não exames radiológicos.

O HLA-B27 é uma variante de uma molécula do sistema imune que apresenta fragmentos de proteína aos linfócitos T. Ele aumenta o risco de adoecer, mas não é a doença: a maioria das pessoas que o carregam nunca terá espondiloartrite, e de 30% a 40% dos brasileiros com a doença não o têm. O protocolo da artrite reativa o descreve como marcador de risco para a artrite, para o acometimento sacroilíaco e para a cronificação — informação de probabilidade e de prognóstico, não de confirmação. Por isso o exame não se repete, e só faz sentido em quem já tem um quadro clínico ao qual o critério possa somá-lo.

Dentro da entese inflamada, a conversa é conduzida por citocinas. O protocolo da artrite psoriásica descreve o papel central das citocinas ligadas aos linfócitos T e os níveis elevados de fator de necrose tumoral e de interleucinas na pele e na sinóvia. O tratamento seguiu esse mapa: os anti-TNF neutralizam o fator de necrose tumoral; o secuquinumabe e o ixequizumabe bloqueiam a interleucina 17; o tofacitinibe inibe as Janus quinases, enzimas por onde passa o sinal de várias citocinas. O anti-inflamatório não esteroide age mais adiante, na produção de prostaglandinas: alivia dor e rigidez com eficácia, mas os estudos sobre seu efeito na formação de osso novo são conflitantes, segundo o protocolo de 2018.

Na artrite reativa, o gatilho está longe da articulação. Uma infecção intestinal por Salmonella, Shigella, Yersinia, Campylobacter jejuni, Escherichia coli ou Clostridioides difficile, ou uma infecção geniturinária por Chlamydia trachomatis, desencadeia em até quatro semanas uma sinovite estéril e imunomediada. O líquido articular é inflamatório, com predomínio de neutrófilos na fase aguda e de linfócitos na crônica, e a cultura é negativa. Por isso a artrite não responde ao antibiótico: quando ela aparece, o que a sustenta é a resposta imune já disparada, e o protocolo registra que o antibiótico dado depois do início da artrite não parece modificar o curso. A infecção que ainda está ativa, porém, precisa ser tratada — no paciente e na parceria.

Na artrite psoriásica, pele, unha e entese compartilham a mesma inflamação. A unha é o exemplo mais visível: a matriz ungueal fica muito próxima da entese do tendão extensor sobre a interfalângica distal, e é por isso que a unha com depressões puntiformes, descolamento ou espessamento anda junto com a artrite das distais. A radiografia mostra o mesmo casamento de destruição e osso novo das outras espondiloartrites: erosão ao lado de neoformação óssea justa-articular e, na forma avançada, a deformidade em lápis na xícara.

Os outros órgãos do grupo seguem a mesma lógica. A úvea anterior inflama em crises, em geral de um olho de cada vez, com dor e fotofobia, e cada crise mal conduzida pode deixar aderências e perda de visão. O intestino de muitos pacientes tem inflamação que não dá sintoma, e parte deles tem ou terá doença de Crohn ou retocolite ulcerativa. A raiz da aorta e o sistema de condução do coração também podem ser atingidos: o protocolo de 2018 lista insuficiência aórtica, distúrbios de condução, fibrose dos lobos pulmonares superiores, neurite e amiloidose renal entre as manifestações extra-articulares. Nenhuma delas cabe na explicação de uma lombalgia mecânica.

05

Como se apresenta de verdade

As espondiloartrites raramente chegam com o nome. Chegam como lombalgia de quem trabalha sentado ou carrega peso, como esporão do calcâneo, como dedo do pé inchado que “deve ser gota”, como conjuntivite que demorou a passar, como joelho inchado de um rapaz que teve corrimento no mês anterior. O trabalho do interno é reconhecer um padrão que ocupa cinco territórios — a coluna com as sacroilíacas, as articulações periféricas, as enteses, os dedos inteiros e os órgãos fora do aparelho locomotor — e fazer duas perguntas que ninguém faz sem pensar nelas: há psoríase na pele, nas unhas ou na família, e houve diarreia ou uretrite nas semanas antes da dor?

Este capítulo é dono da lombalgia inflamatória, da espondiloartrite axial radiográfica e não radiográfica, da espondiloartrite periférica, da artrite reativa, da artrite das doenças inflamatórias intestinais e da artrite psoriásica inteira, do reconhecimento ao tratamento. Assume também o reconhecimento da uveíte anterior com encaminhamento no mesmo dia e a investigação sistêmica de quem teve uveíte. A lombalgia mecânica, a hérnia de disco e os sinais de alarme ficam com Lombalgia e hérnia de disco: red flags e conduta, na apostila de Ortopedia, e com Dor lombar aguda: os sinais de alarme, na de Síndromes do Paciente na Emergência. A punção da monoartrite e a exclusão da artrite séptica ficam com Abordagem da monoartrite aguda e artrite séptica; artrite reumatoide, gota, osteoartrite e fibromialgia, com os capítulos próprios desta apostila. Este é o capítulo das espondiloartrites que Osteoartrite / osteoartrose anunciava e que Lúpus eritematoso sistêmico registrava como ausente.

Percurso de aprendizagem

Comece por lombalgia crônica, entesite, dactilite e artrite periférica. Pele, olhos, intestino e história familiar ajudam a formar a hipótese; HLA-B27 e imagem não funcionam como diagnóstico isolado.

Separe os domínios axial e periférico ao discutir tratamento. Exercício, AINE conforme risco e terapia especializada têm lugares diferentes. Uveíte dolorosa exige avaliação rápida e pode modificar a escolha do tratamento sistêmico.

Use os casos para explicar decisões e consequências. As doses e os horários da narrativa são exemplos contextualizados; confirme sua adequação ao paciente e ao protocolo assistencial. Consulte as divergências e regras de acesso quando elas mudarem uma decisão concreta.

Lombalgia inflamatória: as perguntas que separam da mecânica

A lombalgia inflamatória se reconhece pelo relógio, não pela intensidade. As perguntas que decidem são poucas e precisam ser feitas uma a uma, porque o paciente não as responde espontaneamente: com que idade a dor começou; se começou de repente, depois de um esforço, ou devagar, sem causa; há quanto tempo dura; se melhora quando ele se movimenta; se melhora quando ele descansa; em que hora da noite ela acorda o paciente e o que ele faz para aliviar. Somam-se a rigidez da manhã medida em minutos, a dor nas nádegas que alterna de lado e a resposta a um anti-inflamatório em dose plena.

Os documentos brasileiros escrevem essas perguntas de dois jeitos. O protocolo federal de encaminhamento de 2016 e o protocolo da artrite reativa de 2021 definem dor inflamatória por pelo menos quatro de cinco características: início antes dos 40 anos, início insidioso, melhora com exercício, ausência de melhora com repouso e dor noturna que melhora ao levantar. O protocolo federal de encaminhamento de 2022, que substituiu o de 2016 para a coluna, transformou a idade em condição de entrada — dor crônica, com mais de três meses, iniciada antes dos 40 anos — e passou a exigir pelo menos três das quatro características restantes, especificando que a dor noturna é a da segunda metade da madrugada. Para o paciente típico, como Áureo, as duas redações dão o mesmo resultado; a diferença aparece em quem começou entre 40 e 45 anos, e o bloco de divergências diz como decidir.

A dor mecânica tem o desenho oposto. Começa depois de um esforço ou de uma postura mantida, piora com a carga e com o movimento repetido, melhora com o repouso, e a rigidez da manhã, quando existe, é curta. A dor que desce abaixo do joelho, com parestesia no território de uma raiz, é radicular. Febre, perda de peso involuntária, câncer prévio, imunossupressão, trauma, déficit neurológico e alteração esfincteriana são sinais de alarme — e todo esse território, da lombalgia comum à cauda equina, é dos capítulos de Ortopedia e de Emergência citados acima. O protocolo de encaminhamento de 2022 inclui entre os sinais de alerta a dor não mecânica ou predominantemente noturna, justamente com a indicação de suspeitar de causa inflamatória.

Três confusões se repetem na unidade básica. A primeira é atribuir ao trabalho a dor de quem trabalha sentado ou em cima de uma moto: a postura piora qualquer lombalgia, mas não cria dor que acorda às quatro da manhã e melhora andando. A segunda é chamar de ciática a dor profunda da nádega, que na espondiloartrite é sacroilíaca e não desce pela perna. A terceira é fechar fibromialgia na mulher jovem com dor nas costas e no calcanhar: o protocolo de 2018 registra fibromialgia em 15% dos pacientes com espondilite anquilosante, e a pergunta pelo padrão inflamatório precisa vir antes do rótulo de dor difusa.

O exame que se faz em dez minutos e se anota em centímetros

O exame da coluna na espondiloartrite mede, e não apenas observa. O protocolo de 2018 descreve as manobras do critério de Nova York modificado. No teste de Schober, marca-se a pele na altura da quinta vértebra lombar e dez centímetros acima e pede-se a flexão do tronco com os joelhos estendidos: a distância entre as marcas deveria aumentar pelo menos cinco centímetros. Na flexão lateral, mede-se de pé a distância entre a ponta do terceiro dedo e o chão em posição ereta e na inclinação máxima para cada lado; média de variação abaixo de dez centímetros indica limitação. A expansão torácica é a diferença da circunferência abaixo das mamas entre inspiração e expiração máximas, e abaixo de 2,5 centímetros é diminuída. A distância entre o occipício e a parede, com o paciente encostado, completa a medida da postura.

As sacroilíacas se examinam por compressão direta e pelas manobras que as tensionam, como a flexão, abdução e rotação externa do quadril com pressão sobre o ilíaco oposto. Nenhuma delas confirma o diagnóstico sozinha, mas a dor reproduzida de um lado e anotada vira dado de seguimento. As enteses se palpam onde o protocolo da artrite psoriásica diz que a inflamação é mais comum: fáscia plantar e tendão calcâneo, inserção da patela, crista ilíaca, epicôndilos e inserção do supraespinhal. O índice de Leeds, que o mesmo protocolo usa, conta seis pontos: epicôndilos laterais, côndilos femorais mediais e inserções do tendão de Aquiles, dos dois lados.

Depois vêm as articulações periféricas, contadas uma a uma, e os dedos: a dactilite é o dedo inteiro inchado, uniforme, com ou sem dor, e não o inchaço de uma articulação isolada. A pele se procura onde a psoríase se esconde — couro cabeludo e linha do cabelo, atrás das orelhas, umbigo, fenda entre as nádegas, cotovelos e joelhos — e as unhas, à procura de depressões puntiformes, descolamento da lâmina e espessamento. Na suspeita de artrite reativa, a boca, a glande, as palmas e as plantas: úlceras orais indolores, balanite circinada, pústulas e a ceratodermia blenorrágica. Termina-se pelo olho, perguntando e olhando.

Cada número vai para o prontuário com a data, porque a espondiloartrite é doença de seguimento: um Schober que cai de cinco para três centímetros em dois anos diz mais do que qualquer exame isolado. Na primeira consulta também cabe aplicar o BASDAI, o questionário de seis perguntas em escala de zero a dez que o protocolo usa para medir atividade — fadiga, dor na coluna, dor e inchaço nas outras articulações, dor ao toque nas enteses, intensidade e duração da rigidez matinal. O protocolo considera ativa a doença com BASDAI igual ou superior a 4, e o valor da primeira consulta é a linha de base contra a qual o tratamento será julgado.

Espondiloartrite periférica: joelho, calcanhar e o dedo inteiro

A forma periférica tem desenho próprio: oligoartrite assimétrica, de quatro articulações ou menos, com predomínio em membros inferiores; entesite, sobretudo no calcâneo; e dactilite. O critério ASAS para queixas exclusivamente periféricas, reproduzido pelo protocolo da artrite reativa, exige artrite, entesite ou dactilite e mais um achado entre uveíte, psoríase, doença inflamatória intestinal, infecção recente, HLA-B27 e sacroiliíte em imagem — ou dois entre artrite, entesite, dactilite, doença intestinal prévia e história familiar de espondiloartrite.

Na primeira consulta, o joelho inchado da espondiloartrite periférica é, antes de tudo, um joelho inchado. Febre não separa, porque a artrite reativa pode cursar com febre e com líquido de aspecto séptico; a punção e a exclusão de infecção são do capítulo Abordagem da monoartrite aguda e artrite séptica. A gota costuma começar na primeira metatarsofalângica, com cristal no líquido, e tem capítulo próprio; a artrite reumatoide é poliarticular, simétrica e de pequenas articulações; a osteoartrite descompensada tem idade, rigidez curta e radiografia que conversa com a dor. O que puxa para espondiloartrite é a combinação de articulação grande de membro inferior com calcanhar, dedo inteiro, olho, pele ou intestino.

A artrite das doenças inflamatórias intestinais aparece em duas formas: a periférica, de grandes articulações de membros inferiores, que costuma acompanhar a atividade do intestino, e a axial, com dor lombar inflamatória e sacroiliíte, que segue curso próprio. O capítulo Doenças inflamatórias intestinais: doença de Crohn e retocolite ulcerativa, da Gastroenterologia, faz a leitura de que articulação inflamada em quem tem diarreia crônica não é coincidência e é dono da doença do intestino. O manejo da artrite, periférica e axial, é deste capítulo. Não há protocolo clínico brasileiro próprio para a artrite enteropática: a doença axial que preenche o critério ASAS entra pelo protocolo da espondilite de 2018, e a decisão sobre anti-inflamatório num paciente com intestino inflamado se toma junto com o gastroenterologista — leitura desta apostila, e não regra de protocolo.

Quem tem dor em mais de uma entese, dor lombar difusa e fadiga pode ter espondiloartrite, fibromialgia ou as duas. O que ajuda é o que a fibromialgia não produz: dactilite, artrite com derrame, uveíte, psoríase, PCR elevada, sacroiliíte em imagem. Na ausência de tudo isso, a dor difusa segue o capítulo Fibromialgia e dor musculoesquelética crônica.

Artrite reativa: a pergunta pela uretrite e pela diarreia

A artrite reativa é, pela definição do protocolo de 2021, uma sinovite estéril imunomediada que se desenvolve em até quatro semanas depois de infecção gastrointestinal ou geniturinária. Em 95% dos pacientes a manifestação é oligoartrite aguda e assimétrica de membros inferiores — joelhos, tornozelos e metatarsofalângicas —, e 20% a 30% têm acometimento poliarticular. Pode haver febre, mal-estar e fadiga. As lesões de pele e mucosa são as que o interno não vê se não procurar: úlceras orais indolores, ceratodermia blenorrágica, pústulas palmoplantares e balanite circinada, esta última podendo surgir em qualquer fase. A tríade de artrite, conjuntivite e uretrite, antes chamada de doença de Reiter, é um subtipo; o nome não é mais usado, embora siga na classificação internacional de doenças.

A pergunta decisiva é pela infecção das semanas anteriores, e ela precisa ser feita com as palavras do paciente. Diarreia por pelo menos um dia, ou ardência para urinar ou corrimento pela uretra por pelo menos um dia, entre três dias e seis semanas antes da artrite, compõem com o padrão da artrite os critérios maiores descritos pelo protocolo; ele próprio adota, por consenso, a janela de até quatro semanas. Muita infecção geniturinária é assintomática, sobretudo na mulher, e o episódio intestinal costuma se resolver em sete a dez dias — o paciente não associa uma coisa à outra, e o diagnóstico depende de alguém perguntar. O manejo da diarreia infecciosa é do capítulo Diarreia aguda infecciosa e reidratação, da Gastroenterologia. A abordagem sindrômica das infecções sexualmente transmissíveis na mulher é de Cervicite por gonococo e clamídia: abordagem sindrômica, da Ginecologia; a uretrite ainda ativa do paciente com artrite reativa, e a da parceria dele, este capítulo trata pelo protocolo de IST, como mostra o caso de Ipólito.

Nem toda artrite depois de infecção é artrite reativa. O protocolo separa como artrites reacionais, fora do grupo das espondiloartrites, as que seguem infecção estreptocócica, viral ou por borrélia, a artrite da chikungunya, a que acomete pacientes tratados com BCG intravesical e a descrita depois da covid-19. A artrite pós-estreptocócica fica com Febre reumática e cardiopatia reumática crônica, na apostila de Cardiologia, e a da chikungunya com Dengue, Zika e Chikungunya: manejo e sinais de alarme, na de Infectologia.

O curso pode ser autolimitado, recorrente ou contínuo, e o protocolo chama de crônico o quadro que passa de seis meses. A maioria melhora em poucos meses, mas quem cronifica pode evoluir com predomínio axial, parecido com a espondilite anquilosante, ou com oligoartrite periférica parecida com a artrite psoriásica — e passa a ser tratado pelos protocolos dessas doenças. É por isso que a artrite reativa não termina quando o joelho desincha: a pergunta pela dor lombar inflamatória e pelo olho continua nas consultas seguintes.

Artrite psoriásica: a pele que o paciente não mostrou

O reconhecimento da artrite psoriásica estava com o capítulo Artrite reumatoide, que o assumiu por não haver outro lugar no nível; a partir deste capítulo, reconhecimento e tratamento são daqui. O protocolo de 2026 descreve cinco manifestações que podem aparecer isoladas ou juntas: psoríase, doença articular periférica, doença axial, entesite e dactilite. A doença periférica tem cinco subtipos clássicos — oligoarticular, de quatro articulações ou menos e em geral assimétrica; poliarticular, de cinco ou mais, que pode ser simétrica e imitar a artrite reumatoide; distal, das interfalângicas distais; mutilante, com reabsorção óssea; e axial. A entesite aparece em 30% a 50% dos pacientes, a dactilite em 40% a 50%, mais no terceiro e no quarto dedos dos pés, e o acometimento axial em 20% a 70%; até 25% dos pacientes têm doença axial sem sintoma nenhum.

Como em 15% dos casos a artrite vem antes da pele, e como a psoríase leve passa despercebida, o exame procura a psoríase escondida: couro cabeludo, onde vira “caspa que não sai”, atrás das orelhas, umbigo, fenda glútea e unhas. A distrofia ungueal típica — depressões puntiformes, onicólise e hiperceratose — conta ponto no critério de classificação. A história familiar de psoríase em parente de primeiro ou segundo grau também conta. O fator reumatoide costuma ser negativo, mas o protocolo registra que quase 10% dos pacientes o têm positivo em título baixo: exame positivo não afasta artrite psoriásica e não transforma o quadro em artrite reumatoide.

Para a unidade básica, a regra de encaminhamento é a do protocolo federal de 2016, repetida pelo protocolo de encaminhamento de Dermatologia do TelessaúdeRS de 2023. Há suspeita de artrite psoriásica quando uma pessoa com história pessoal ou familiar de psoríase tem pelo menos um de quatro achados: artrite periférica, sobretudo oligoarticular ou das interfalângicas distais; dactilite; entesite ou tenossinovite; ou dor na coluna de caráter inflamatório. Suspeita e diagnóstico vão à reumatologia, e o diagnóstico de artrite psoriásica está entre as condições com preferência na regulação. A classificação pelo critério CASPAR, com a pontuação detalhada no bloco de critério, é feita no serviço especializado, porque o protocolo pede psoríase avaliada por reumatologista ou dermatologista e dactilite registrada por reumatologista.

A artrite psoriásica aumenta o risco de doença cardiovascular, obesidade, síndrome metabólica, diabetes, dislipidemia, doença inflamatória intestinal, doenças oftálmicas autoimunes e osteoporose. O protocolo manda tratar e monitorar essas comorbidades e recomenda abandono do tabagismo, controle do álcool, exercício supervisionado e perda de peso — trabalho que cabe à atenção primária enquanto o paciente espera e depois que ele volta. A psoríase da pele segue o capítulo Psoríase e dermatite atópica: doença crônica, corticoide tópico e tratamento de manutenção, da Dermatologia, que registra que o diagnóstico de artrite psoriásica tira o paciente do protocolo da psoríase e o coloca no protocolo da artrite.

Fora da articulação: o olho, o intestino e o coração

A uveíte anterior aguda é a manifestação extra-articular que o interno não pode deixar passar. Na espondiloartrite, costuma ser de um olho de cada vez, recorrente e alternando de lado, com dor ocular, fotofobia, vermelhidão ao redor da córnea e visão borrada. O protocolo de encaminhamento de Oftalmologia do TelessaúdeRS de 2023 manda à emergência oftalmológica a suspeita de uveíte anterior ativa — hiperemia conjuntival perilímbica, fotossensibilidade, dor ocular, precipitados ceráticos e hipópio. Na prática da unidade: olho vermelho com dor e fotofobia em quem tem espondiloartrite é uveíte até o oftalmologista dizer que não, e vai no mesmo dia. O tratamento é do capítulo Olho vermelho: conjuntivites, uveíte, glaucoma agudo e ceratite, da Oftalmologia.

Aquele capítulo descreve a associação da uveíte anterior aguda com a espondiloartrite axial e o HLA-B27 e remete a investigação sistêmica à reumatologia: ela é deste capítulo. Depois da crise, o paciente que teve uveíte anterior aguda precisa das perguntas de sempre — dor lombar que acorda de madrugada, calcanhar, dedo inteiro inchado, pele e unhas, diarreia crônica ou com sangue, uretrite ou diarreia recentes — e do exame da coluna e das enteses. O objetivo é encontrar a espondiloartrite depois da primeira uveíte, e não da terceira. A conjuntivite da artrite reativa, sem dor profunda e sem fotofobia importante, é outra coisa, mas a distinção fina é do oftalmologista.

O intestino entra pela pergunta. Diarreia por mais de quatro semanas, sangue nas fezes, evacuação que acorda o paciente e perda de peso num paciente com espondiloartrite apontam para doença inflamatória intestinal, que é do capítulo de Gastroenterologia. A pergunta tem consequência imediata no tratamento: o anti-inflamatório, primeira linha na doença axial, passa a ser decisão compartilhada, e o biológico escolhido precisa servir às duas frentes.

O coração e o pulmão aparecem na doença de longa data. O protocolo de 2018 lista insuficiência aórtica, distúrbios de condução cardíaca, fibrose dos lobos pulmonares superiores, neurite ou compressão nervosa e amiloidose renal. Para o interno, isso se traduz em auscultar o foco aórtico em quem tem espondiloartrite há anos, valorizar bradicardia, síncope e dispneia, e não atribuir à doença de base um sopro diastólico novo ou uma proteinúria sem investigar.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação na unidade básica tem uma regra que vem antes de todas as outras: nenhum exame é condição para encaminhar. O protocolo federal de encaminhamento de 2022 manda à reumatologia a dor lombar crônica de característica inflamatória iniciada antes dos 40 anos com base na história, e o conteúdo mínimo que ele pede é descritivo — como é a dor, há quanto tempo, o que já foi tratado, com que dose e com que resposta, e o laudo de imagem apenas se houver. Os exames pedidos na unidade servem a três propósitos: registrar a inflamação que será a linha de base, garantir a segurança do anti-inflamatório e adiantar o que o especialista vai precisar.

O que não se pede também importa. Radiografia de coluna lombar no lugar da radiografia das sacroilíacas, ressonância como pré-requisito para a vaga, HLA-B27 em quem tem dor mecânica e fator reumatoide com fator antinuclear em série para dor lombar — cada um desses pedidos atrasa o paciente, gera um laudo que ninguém sabe ler ou cria diagnóstico onde não há doença.

Provas inflamatórias e linha de base

Proteína C reativa e velocidade de hemossedimentação entram na primeira consulta por dois motivos. O protocolo de 2018 as considera úteis para avaliar a atividade, antes e durante o tratamento, e a proteína C reativa elevada é uma das características de espondiloartrite do critério ASAS. Além disso, o ASDAS, índice de atividade que o protocolo usa ao lado do BASDAI, é calculado com a proteína C reativa em mg/L ou com a velocidade de hemossedimentação. A regra de leitura é assimétrica: proteína C reativa alta soma, proteína C reativa normal não descarta nada, porque há pacientes com doença axial ativa e provas normais.

Hemograma, creatinina, aminotransferases e exame de urina completam a linha de base do anti-inflamatório. O protocolo da artrite reativa monitora ibuprofeno e naproxeno com hemograma, creatinina, AST, ALT e urina a cada três meses, além de pressão arterial e sintomas dispépticos, e manda interromper o anti-inflamatório se a creatinina subir mais de 0,3 mg/dL ou se aparecer hematúria ou cilindros com creatinina em elevação. Um adulto jovem sem doença renal nem hipertensão pode começar o anti-inflamatório no dia da consulta; os exames servem para comparar depois, não para autorizar a primeira dose. Essa periodicidade não substitui avaliação precoce após início ou aumento em quem tem risco renal, usa diurético/IECA/BRA ou desenvolve desidratação, edema, oligúria ou aumento da pressão.

Fator reumatoide tem lugar quando há artrite periférica, porque ajuda no diferencial com artrite reumatoide e porque o resultado negativo conta ponto no critério da artrite psoriásica. Na dor lombar inflamatória pura, sem artrite, ele não responde nada. O fator antinuclear não tem papel na suspeita de espondiloartrite e só entra se a história apontar para lúpus ou outra doença sistêmica.

Radiografia: sacroilíacas, e não coluna lombar

Imagem inicial ajuda quando responde à hipótese diagnóstica e à extensão da doença. Radiografia normal não exclui espondiloartrite inicial; ressonância das sacroilíacas é discutida quando a suspeita persiste. No seguimento, repetir imagem conforme pergunta clínica ou planejamento, sem radiografia bienal obrigatória para todos.

A graduação do protocolo vai de zero a quatro. Grau 0 é normal; grau 1, alterações suspeitas; grau 2, alterações mínimas, com pequenas áreas de erosão ou esclerose sem mudança na largura da articulação; grau 3, alterações inequívocas, com erosões, esclerose, alargamento, estreitamento ou anquilose parcial; grau 4, anquilose total. Só conta como sacroiliíte radiográfica o grau 2 a 4 bilateral ou o grau 3 a 4 unilateral. Um laudo de “irregularidade” ou de “alterações suspeitas” é grau 1 e não fecha nada — nem para confirmar, nem para descartar.

A radiografia de Áureo, feita na unidade de pronto atendimento, é da coluna lombar e está normal. Ela não diz nada sobre as sacroilíacas e, mesmo que as mostrasse normais, não afastaria a doença: no começo, as espondiloartrites axiais não têm alteração radiográfica, e é exatamente para esse paciente que existe a forma não radiográfica no critério. O pedido correto na primeira consulta é a radiografia da bacia, que entra no encaminhamento se ficar pronta antes da vaga e que não segura o encaminhamento se não ficar.

HLA-B27: incorporado ao SUS, e não para todo mundo

O teste de detecção de HLA-B27 foi incorporado ao SUS por portaria de abril de 2024, para indivíduos com suspeita de espondiloartrite axial, conforme o protocolo clínico do Ministério, com prazo de 180 dias para a oferta. A condição cria um problema prático: o protocolo em vigor, de 2018, usa o HLA-B27 dentro do critério ASAS e manda não repeti-lo, mas não diz a quem pedi-lo. A proposta de atualização, que renomeia o documento para espondiloartrite axial, passou por consulta pública em 2025 e não tinha sido publicada até setembro de 2026.

A delimitação escrita que existe é a da própria Conitec. Na recomendação inicial, a comissão propôs o teste para quem tem suspeita de espondiloartrite axial, se insere nos critérios clínicos da doença e tem exames de imagem sem alterações — o paciente para quem o braço clínico do critério ASAS existe. Esta apostila adota esse recorte: HLA-B27 para a lombalgia inflamatória crônica iniciada até os 45 anos sem sacroiliíte radiográfica definida, onde a rede oferece o exame. Com sacroiliíte radiográfica definida, o paciente já se classifica com uma única característica adicional, e o teste acrescenta pouco. O protocolo da artrite reativa admite o exame também na suspeita de artrite reativa, pelo valor prognóstico: maior chance de cronificação, de acometimento axial e de manifestações extra-articulares.

Três regras de leitura evitam o dano. O exame é pedido uma vez na vida, porque não muda. Positivo em quem não tem quadro clínico não é doença — e é por isso que não se pede para dor mecânica nem para parente assintomático que “quer saber se tem o gene”. Negativo não descarta, porque de 30% a 40% dos brasileiros com espondiloartrite axial não o têm. E, sobretudo, o resultado não segura o encaminhamento: o paciente que preenche o critério de dor inflamatória vai à reumatologia com o exame pedido, pronto ou não.

Ressonância das sacroilíacas: o exame que enxerga antes

Quando a radiografia é normal ou duvidosa, o protocolo da artrite reativa recomenda ressonância magnética das sacroilíacas, sem contraste, com sequências ponderadas em T1 e STIR ou T2 com supressão de gordura. As alterações agudas são edema de medula óssea, derrame articular, capsulite e entesite; as estruturais, esclerose subcondral, metaplasia gordurosa, erosões, sindesmófitos e anquilose. Para o critério ASAS do protocolo de 2018, o que conta como imagem positiva é a ressonância com edema de medula óssea. A cintilografia óssea não é recomendada para avaliar atividade axial nem periférica.

A leitura da ressonância das sacroilíacas é trabalho do especialista, e o interno precisa saber por quê: edema pequeno e isolado pode aparecer em pessoas sem a doença, e o laudo só ganha sentido somado à história e ao exame. O que o interno não faz é condicionar o encaminhamento à ressonância. O protocolo de encaminhamento de 2022 pede o laudo de imagem apenas se ele existir, e um paciente com lombalgia inflamatória esperando meses por uma ressonância na atenção primária é um paciente com a doença ativa e sem tratamento especializado.

Artrite periférica: líquido, urina e radiografia de mãos e pés

A mono ou oligoartrite aguda sem história clara de infecção precedente precisa de líquido sinovial para o diferencial com artrite séptica, artrite por cristais e artrite traumática — é o que manda o protocolo da artrite reativa, e é o assunto do capítulo Abordagem da monoartrite aguda e artrite séptica. Na artrite reativa, o líquido tem predomínio de neutrófilos na fase aguda e de linfócitos na crônica, pode ter aspecto séptico e celularidade alta; quando a dúvida é infecção, a cultura com antibiograma decide.

Para a infecção que dispara a artrite reativa, o protocolo é específico sobre o que serve. A sorologia IgG para clamídia não tem valor clínico, porque 10% a 40% da população geral têm o anticorpo por contato passado; a IgM pode ajudar por indicar infecção recente. A pesquisa de DNA de Chlamydia trachomatis por PCR em secreção uretral, em raspado endocervical ou no primeiro jato de urina está indicada no paciente sintomático, para tratar e para diferenciar de outras uretrites. A coprocultura raramente muda algo, pela baixa positividade e porque a janela de coleta costuma ter passado quando a articulação incha. Quem tem uretrite recebe também a oferta de testagem para HIV, sífilis e hepatites B e C, como manda o protocolo de infecções sexualmente transmissíveis.

Na suspeita de artrite psoriásica, as radiografias de mãos e pés procuram o que só esta doença combina: erosão com formação óssea justa-articular — que vale um ponto no critério CASPAR — e, na doença avançada, a deformidade em lápis na xícara. Ultrassonografia, ressonância e tomografia podem mostrar entesite, dactilite e sinovite quando o exame físico deixa dúvida; o protocolo da artrite reativa registra que a entese é mais bem avaliada pela ultrassonografia com Doppler de potência, sobretudo na dúvida. Esses exames são do serviço especializado; a radiografia de mãos e pés pode ser pedida na unidade e anexada ao encaminhamento.

Antes de imunossuprimir: o que precisa estar pronto

O biológico e o inibidor de Janus quinase só começam depois de afastada a tuberculose ativa e investigada a infecção latente, pela regra harmonizada que o protocolo de 2018 recebeu em 2025 e que o protocolo da artrite psoriásica de 2026 repete. A radiografia de tórax é feita em todos, com ou sem sintoma. A infecção latente se investiga com a prova tuberculínica ou com o teste de liberação de interferon-gama, este para quem preenche os critérios de indicação do exame. O tratamento da infecção latente começa quando a prova tuberculínica dá 5 mm ou mais ou o teste de interferon é reagente, excluída a doença ativa, e também sem teste quando a radiografia mostra sequela de tuberculose nunca tratada ou houve contato próximo com tuberculose pulmonar nos últimos dois anos.

Tratar infecção latente e planejar o início do biológico com a equipe; quatro semanas é referência de alguns protocolos, sujeita à gravidade, esquema e tolerância. Tuberculose ativa exige tratamento e decisão individual do momento de imunossupressão; não é autorização genérica para iniciar simultaneamente. Ao trocar terapias, rever exposição e sintomas e repetir testes quando indicado.

O protocolo de 2018 manda investigar também hepatites B e C e infecção pelo HIV antes do anti-TNF, e considera especiais os casos positivos. O rastreio da hepatite B com HBsAg e anti-HBc total antes de terapia imunossupressora, com a conduta para cada combinação de resultados, pertence ao capítulo Hepatite B: sorologia, profilaxia e tratamento; a hepatite C, do capítulo Hepatite C: rastreamento, diagnóstico e tratamento; o HIV, de Infecção pelo HIV/AIDS e infecções oportunistas, da Infectologia. Hemograma, AST, ALT e creatinina completam a linha de base de segurança.

Atualizar vacinação e discutir reprodução antes da terapia quando viável. Metotrexato e leflunomida exigem planejamento específico para gestação materna; recomendações para paternidade e lactação são próprias e não devem ser generalizadas como proibição idêntica.

07

Reconhecer os diferentes domínios das espondiloartrites

Objetivo no internato: compreender a apresentação, justificar as hipóteses e propor cuidado e reavaliação sob supervisão. Comece por lombalgia crônica, entesite, dactilite e artrite periférica. Pele, olhos, intestino e história familiar ajudam a formar a hipótese; HLA-B27 e imagem não funcionam como diagnóstico isolado. O fluxo resume o caminho da dor lombar ou da artrite até a porta do biológico. As tabelas contam a dor inflamatória pelas duas redações do protocolo de encaminhamento, com Áureo como exemplo; reúnem os critérios de classificação que o interno precisa reconhecer; convertem as doses dos protocolos em comprimido, mililitro ou frasco da farmácia do SUS para um adulto de 72 kg; e dizem qual protocolo governa qual paciente. As notas registram, com a conta, onde os documentos oficiais brigam entre si num ponto que altera a conduta.

  1. 1Dor lombar há mais de três meses: pergunte a idade de início, se começou devagar, se melhora com movimento, se melhora com repouso e em que hora da noite a dor acorda; meça a rigidez da manhã em minutos.
  2. 2Início antes dos 40 anos e pelo menos três de quatro características — insidiosa, melhora com exercício, não melhora com repouso, dor na segunda metade da madrugada que melhora ao levantar — é dor inflamatória pelo protocolo de encaminhamento de 2022: encaminhe à reumatologia hoje, sem esperar exame.
  3. 3Início entre 40 e 45 anos com padrão inflamatório e outro achado de espondiloartrite (uveíte, psoríase, doença intestinal, entesite, dactilite, história familiar): encaminhe descrevendo os achados — posição desta apostila, explicada nas divergências.
  4. 4Febre, perda de peso, câncer, imunossupressão, trauma, déficit neurológico ou alteração esfincteriana: saia deste fluxo e siga os capítulos de lombalgia da Ortopedia e de dor lombar da Emergência.
  5. 5Na mesma consulta: PCR, VHS, hemograma, creatinina, AST, ALT, urina e radiografia da bacia; HLA-B27 se não houver sacroiliíte radiográfica definida e a rede oferecer; coluna medida em centímetros, sacroilíacas, enteses, dedos, pele escondida, unhas e olho; BASDAI de linha de base.
  6. 6Se seguro, testar AINE pelo menor período e dose eficazes, com avaliação renal, digestiva e cardiovascular; exercício adaptado, abandono do tabagismo e orientação sobre olho vermelho. Retorno em duas a três semanas ou antes se piora ou efeito adverso.
  7. 7Olho vermelho com dor e fotofobia em qualquer momento: emergência oftalmológica no mesmo dia.
  8. 8Artrite após diarreia ou uretrite sugere artrite reativa, mas não exclui infecção articular. Puncionar quando indicado e tratar infecção genital ativa e parceria conforme diagnóstico/protocolo; suspeita de disseminação gonocócica exige esquema próprio. AINE é individualizado, sem piso obrigatório de duas semanas em dose máxima.
  9. 9Psoríase pessoal ou familiar com artrite periférica, dactilite, entesite ou dor inflamatória na coluna: suspeita de artrite psoriásica; encaminhe com preferência e cuide na unidade da pele, do cigarro, do peso, da pressão, da glicemia e dos lípides.
  10. 10No especialista, atividade axial persistente apesar de medidas adequadas e AINEs tolerados pode justificar terapia avançada. Falha, contraindicação e domínios extra-articulares orientam escolha; não exigir exposição prolongada insegura apenas para cumprir prazo.
  11. 11Com psoríase, distinguir domínio axial, entesite e sinovite periférica. Metotrexato pode ter lugar na doença periférica; não é tratamento eficaz do domínio axial isolado. Terapia avançada depende da atividade, resposta, riscos e avaliação especializada.
  12. 12Antes de biológico, rastrear tuberculose, hepatites e outras infecções conforme risco; atualizar vacinas e planejar intervalos. Infecção latente tratada requer coordenação do início, sem transformar quatro semanas em regra de toda situação. Repetir rastreio conforme exposição e protocolo, não obrigatoriamente todo ano.

A dor inflamatória contada pelas duas redações do protocolo de encaminhamento, com Áureo como exemplo

CaracterísticaProtocolo de 2016 e protocolo da artrite reativa (4 de 5)Protocolo de 2022 (idade de entrada e 3 de 4)Áureo na primeira consulta
Idade de inícioAntes dos 40 anos conta 1 das 5Antes dos 40 anos é condição de entrada e não entra na contagemComeçou aos 26 anos: cumpre nas duas
Modo de inícioInsidioso conta 1Insidioso conta 1 das 4Devagar, sem esforço nem queda: conta
ExercícioMelhora com exercício conta 1Melhora com exercício conta 1 das 4Melhora rodando e andando: conta
RepousoNão melhorar com repouso conta 1Não melhorar com repouso conta 1 das 4Piora no domingo de descanso: conta
NoiteDor noturna que melhora ao levantar conta 1Dor na segunda metade da madrugada que melhora ao levantar conta 1 das 4Acorda às 4 h e melhora andando: conta
DuraçãoDor lombar crônica, com mais de 3 mesesMais de 3 meses14 meses
Resultado5 de 5: dor inflamatória, encaminharEntrada cumprida e 4 de 4: encaminharEncaminhado na primeira consulta pelas duas redações
Quem muda de ladoInício aos 42 anos com as outras quatro características: 4 de 5, dor inflamatóriaInício aos 42 anos: fora da condição de entradaResolvido no bloco de divergências

Critérios de classificação que o interno precisa reconhecer

Critério e documentoPorta de entradaO que somaOnde o interno tropeça
ASAS axial — protocolo da espondilite anquilosante, 2018Lombalgia inflamatória há pelo menos 3 meses, iniciada até os 45 anosSacroiliíte em imagem (radiografia grau 2 a 4 bilateral ou 3 a 4 unilateral, ou ressonância com edema de medula óssea) e mais 1 característica; ou HLA-B27 e mais 2 características. Características: lombalgia inflamatória, artrite, entesite, uveíte, dactilite, psoríase, doença de Crohn ou retocolite, boa resposta ao anti-inflamatório em 24 a 48 horas, história familiar, HLA-B27 e PCR elevadaCritério de classificação não é pré-requisito para encaminhar; a radiografia normal não impede a classificação pelo braço do HLA-B27
Nova York modificado — protocolo da espondilite anquilosante, 2018Doença já estabelecidaPelo menos 1 critério clínico (lombalgia inflamatória há 3 meses ou mais; limitação lombar com Schober abaixo de 5 cm e flexão lateral média abaixo de 10 cm; expansão torácica abaixo de 2,5 cm) e 1 radiográfico (sacroiliíte grau 2 a 4 bilateral ou 3 a 4 unilateral)Exige radiografia alterada: classifica tarde e deixa de fora a forma não radiográfica
ASAS periférico — protocolo da artrite reativa, 2021Artrite, em geral assimétrica, mono ou oligoarticular e de membros inferiores, entesite ou dactilite, sem queixa axialMais 1 entre uveíte, psoríase, doença intestinal atual, infecção recente, HLA-B27 e sacroiliíte em imagem; ou mais 2 entre artrite, entesite, dactilite, doença intestinal prévia e história familiarO achado usado para entrar não conta de novo; o joelho inchado ainda precisa de punção quando há dúvida de infecção
CASPAR — protocolo da artrite psoriásica, 2026Doença inflamatória articular periférica, axial ou entesítica3 pontos ou mais: psoríase atual 2 ou história pessoal 1 ou história familiar de 1º ou 2º grau 1; distrofia ungueal 1; fator reumatoide negativo 1; dactilite atual ou prévia 1; formação óssea justa-articular em radiografia de mãos ou pés 1Sem psoríase visível, a soma ainda chega a 3 com família, unha, fator negativo e dactilite; a categoria psoríase soma uma vez só (ver notas)
Critérios de 1999 da artrite reativa — citados pelo protocolo de 2021Artrite com 2 de 3 características: assimétrica, mono ou oligoarticular, de membros inferioresMaior: diarreia ou uretrite sintomática entre 3 dias e 6 semanas antes da artrite. Menores: clamídia na uretra ou no colo uterino; coprocultura positiva ou PCR para clamídia no líquido sinovial. Definitivo com maiores e menores; provável com só os maiores, ou 1 maior e 1 menorO protocolo adota janela de até 4 semanas e não exige comprovar o agente: a infecção precisa estar na história, não no laudo

Doses dos protocolos na farmácia do SUS — adulto de 72 kg

Fármaco e protocoloDose escritaApresentação e componente na Rename 2024Na mão do pacienteAtenção
Ibuprofeno — espondilite 2018; artrite reativa 2021600 a 2.700 mg/dia, de 8/8 hComprimidos de 200, 300 e 600 mg; suspensão de 50 mg/mL — BásicoPartida: 1 comprimido de 600 mg de 8/8 h (1.800 mg/dia). Teto: 600 mg + 300 mg de 8/8 hO protocolo da artrite psoriásica de 2026 escreve 3.200 mg/dia em três tomadas (ver notas)
Naproxeno — espondilite 2018; artrite psoriásica 2026500 a 1.500 mg/dia, até de 8/8 hComprimidos de 250 e 500 mg — Especializado500 mg de 12/12 h = 1 comprimido duas vezes ao dia; teto: 1 comprimido de 8/8 hFora da farmácia básica; na artrite reativa o teto é 1.000 mg/dia, de 12/12 h
Sulfassalazina — espondilite 2018; artrite reativa 2021500 a 3.000 mg/dia; de 12/12 h (2018) ou 1 a 3 vezes ao dia (2021)Comprimido de 500 mg — EspecializadoTeto: 3 comprimidos de 12/12 hFora do fluxo da lombalgia inflamatória; é droga da artrite periférica
Metotrexato — artrite psoriásica 2026; espondilite 20187,5 a 25 mg uma vez por semana, VO, SC ou IMComprimido de 2,5 mg; solução injetável de 25 mg/mL — Especializado15 mg/semana = 6 comprimidos no mesmo dia da semana, ou 0,6 mL da soluçãoSemanal, nunca diário; primeira escolha na artrite psoriásica periférica
Acetato de metilprednisolona — infiltração40 a 80 mg a cada 3 meses (2018); 4 a 80 mg a cada 3 a 4 meses, conforme a articulação (2026); 1 a 2 mL em dose única (2021)Não consta; vem com o procedimento de infiltraçãoBula de referência: 40 mg/mL, frasco de 2 mL; 40 mg = 1 mL, 80 mg = 2 mLDois protocolos escrevem 40 mg/2 mL (ver notas)
Adalimumabe — 2018 e 202640 mg SC a cada 2 semanasSolução injetável de 40 mg — Especializado1 aplicação a cada 14 diasRastreio de tuberculose, hepatites e HIV antes
Etanercepte — 2018 e 202650 mg SC por semanaSolução injetável de 25 e 50 mg — Especializado1 de 50 mg ou 2 de 25 mg por semanaMesmo rastreio
Infliximabe — 2018 e 20265 mg/kg IV nas semanas 0, 2 e 6 e depois a cada 8 semanasPó para solução injetável de 100 mg — Especializado360 mg por infusão = 3,6 frascos: 4 frascos abertos, 36 mL da solução reconstituída a 10 mg/mLInfusão em serviço de referência
Golimumabe — 2018 e 202650 mg SC a cada 4 semanasSolução injetável de 50 mg — Especializado1 aplicação por mêsSó adultos
Certolizumabe pegol — 2018 e 2026400 mg nas semanas 0, 2 e 4; depois 200 mg a cada 2 semanas ou 400 mg a cada 4Solução injetável de 200 mg — EspecializadoIndução: 2 seringas por aplicação; manutenção: 1 a cada 14 dias ou 2 a cada 28Só adultos
Secuquinumabe — espondilite 2018; artrite psoriásica 2026150 mg SC nas semanas 0, 1, 2, 3 e 4 e depois mensal (2018); 300 mg no mesmo esquema na artrite psoriásica após anti-TNF (2026)Solução injetável de 150 mg/mL — Especializado150 mg = 1 aplicação; 300 mg = 2 aplicações de 150 mgA dose muda com a doença
Ixequizumabe — artrite psoriásica 2026160 mg SC na semana 0 e depois 80 mg a cada 4 semanasNão consta da Rename 2024; incorporado em janeiro de 2025Indução: 2 injeções de 80 mg; depois 1 por mêsSegunda linha, depois de anti-TNF
Tofacitinibe — artrite psoriásica 20265 mg VO de 12/12 hComprimido de 5 mg — Especializado1 comprimido duas vezes ao diaAvaliar risco de tromboembolismo venoso; poucas evidências na doença axial
Ceftriaxona com azitromicina — uretrite sem agente identificado, protocolo de IST 2022Ceftriaxona 500 mg IM em dose única e azitromicina 1 g VO em dose únicaCeftriaxona 500 mg — Básico; azitromicina 500 mg — Básico e Estratégico1 frasco-ampola IM e 2 comprimidos de 500 mg juntos, na unidadeParceria tratada; não trata a artrite reativa já instalada
Doxiciclina — uretrite não gonocócica, alternativa, protocolo de IST 2022100 mg VO de 12/12 h por 7 diasComprimido de 100 mg — Estratégico14 comprimidosNão usar na gestação

Qual protocolo governa qual paciente

PacienteProtocolo que governaPrimeira linhaQuando é falhaPróximo passo
Espondiloartrite axial, radiográfica ou não, sem psoríaseEspondilite anquilosante, 2018, fluxo da lombalgia inflamatória e da entesiteEducação e exercício; anti-inflamatório em dose adequadaPrimeiro anti-inflamatório sem resposta em 1 mês: trocar. Resposta é queda de 1,1 no ASDAS ou de 50% ou 2 pontos no BASDAIDois anti-inflamatórios por 3 meses no total, com doença ativa (ASDAS a partir de 2,1 ou BASDAI a partir de 4, e dor na coluna acima de 4): anti-TNF; falha em 6 meses: outro anti-TNF ou secuquinumabe
Espondiloartrite periférica sem psoríase e sem gatilho infecciosoEspondilite anquilosante, 2018, fluxo da artrite periféricaInfiltração considerada sempre; anti-inflamatórioSem queda de 1,1 no ASDASDois anti-inflamatórios por 3 meses: sulfassalazina, ou metotrexato se ela for contraindicada, por 6 meses; depois anti-TNF
Artrite reativaArtrite reativa, 2021Tratar a infecção ainda ativa e parceria quando indicado; AINE se seguro, com dose/duração individualizadas e retorno precoce. Infecção articular disseminada segue outro esquema.Sintoma não controlado; doença crônica, recorrente ou erosivaInfiltração da articulação ou da entese; sulfassalazina por 3 a 6 meses; evolução axial ou psoriásica passa aos protocolos dessas doenças
Artrite psoriásica periférica — artrite ou dactiliteArtrite psoriásica, 2026Metotrexato; leflunomida ou sulfassalazina se ele for impossível; anti-inflamatório só para alívioAtividade após 3 meses de tratamento otimizadoCombinação dupla ou tripla; após 2 esquemas (6 meses): anti-TNF; doença grave com pior prognóstico: anti-TNF após 1 esquema de 3 meses
Artrite psoriásica axial ou entesiteArtrite psoriásica, 2026Anti-inflamatório, trocado se a atividade persistirAtividade após pelo menos 4 semanas, com ASDAS alto ou BASDAI a partir de 4Anti-TNF de primeira linha; depois outro anti-TNF, certolizumabe, secuquinumabe, ixequizumabe ou tofacitinibe
Artrite da doença inflamatória intestinalSem protocolo próprio; a doença axial que preenche o critério ASAS entra pelo de 2018Controle da doença do intestino com o gastroenterologista; exercícioDecisão compartilhadaAnti-inflamatório só com o gastroenterologista; biológico escolhido para servir às duas doenças

O ponto de corte do ASDAS que abre o biológico não fecha com a tabela do próprio protocolo. O protocolo da artrite psoriásica de 2026 manda iniciar anti-TNF na doença axial ou na entesite com “ASDAS > 2,1” (item 6.4.2) e, no Apêndice 1, classifica atividade alta como 2,1 a 3,5, moderada como 1,4 a 2,0 e doença inativa como menor que 1,3. A conta: o paciente com ASDAS exatamente 2,1 tem atividade alta pela tabela e fica fora do biológico pelo texto; e o escore 1,3 — assim como qualquer valor calculado entre 2,0 e 2,1, porque o ASDAS é contínuo — não pertence a classe nenhuma. O protocolo da espondilite anquilosante de 2018 repete o “> 2,1” na indicação do anti-TNF e, no fluxo da lombalgia inflamatória, separa “ASDAS < 2,1” de “ASDAS > 2,1”, deixando o 2,1 sem ramo, embora use 2,1 como ponto de corte entre estados. Esta apostila lê 2,1 como atividade alta, a classe que a tabela de 2026 lhe dá, e recomenda escrever no pedido o valor do índice e os componentes do cálculo.

No acompanhamento do biológico, o protocolo da espondilite anquilosante diz duas coisas diferentes sobre a mesma prova. O parágrafo original de 2018, que ficou no item 8, manda repetir teste tuberculínico, radiografia de tórax e sorologias “só a critério médico”; o texto da alteração de 2025, no mesmo item, recomenda rastreio anual da infecção latente e manda repetir a prova tuberculínica ou o teste de interferon todo ano em quem teve prova abaixo de 5 mm ou teste não reagente. A conta, num paciente com prova de 3 mm que usa adalimumabe por cinco anos: nenhuma repetição obrigatória pela primeira frase, cinco pela segunda. Vale a regra de 2025, pela data e porque foi escrita para harmonizar todos os protocolos que usam biológicos — o da artrite psoriásica de 2026 traz a mesma. Quem teve prova de 5 mm ou mais, ou já tratou infecção latente ou tuberculose, não repete a prova sem nova exposição.

A metilprednisolona de infiltração aparece com duas concentrações nos protocolos. Os de espondilite anquilosante (2018) e de artrite psoriásica (2026) listam “frasco de 40 mg/2 mL”, e o de artrite reumatoide (2026) escreve 40 mg/2 mL como pó para solução; o de artrite reativa (2021) lista acetato de metilprednisolona a 40 mg/mL, com dose de 1 a 2 mL. A bula do produto de referência, de 2023, dá suspensão de 40 mg por mililitro em frasco-ampola de 2 mL, com 80 mg. A conta: quem aspira o frasco inteiro acreditando em 40 mg injeta 80 mg; os 80 mg do teto de 2018, medidos pela concentração escrita, virariam 4 mL e 160 mg; e os 4 a 10 mg que o protocolo de 2026 dá à pequena articulação, medidos como 0,2 a 0,5 mL, entregam 8 a 20 mg. Esta apostila escreve a dose em miligramas e com a concentração da bula: 40 mg = 1 mL. O protocolo de 2026 registra que o medicamento vem com o procedimento de infiltração e não é dispensado pela assistência farmacêutica, e é por isso que ele não está na Rename.

O critério CASPAR do protocolo da artrite psoriásica de 2026 lista psoríase atual (2 pontos), história pessoal de psoríase (1) e história familiar (1) como linhas independentes do Quadro 1. Os protocolos de encaminhamento que usam o mesmo critério — o federal de 2016 e o de Dermatologia do TelessaúdeRS de 2023 — escrevem as três como alternativas de uma só categoria, ligadas por “ou”. A conta, num paciente com artrite inflamatória, psoríase atual, história pessoal e mãe com psoríase, sem alteração ungueal, sem dactilite, sem neoformação óssea e com fator reumatoide positivo: pela leitura literal do quadro de 2026, 2 + 1 + 1 = 4 pontos e classificação como artrite psoriásica; pela leitura com “ou”, 2 pontos, abaixo do corte de 3. A diferença decide qual protocolo governa o paciente e quais medicamentos ele recebe. Esta apostila soma a categoria psoríase uma vez só, com o maior valor presente.

O teto do ibuprofeno muda de protocolo para protocolo dentro do mesmo grupo de doenças. Os de espondilite anquilosante (2018), artrite reativa (2021) e artrite reumatoide (2026) dão 600 a 2.700 mg/dia em três tomadas; o de artrite psoriásica, publicado dois dias depois do de artrite reumatoide, dá 600 a 3.200 mg/dia, também em três tomadas. A conta: 2.700 mg em três tomadas são 900 mg cada, montados com um comprimido de 600 mg e um de 300 mg; 3.200 mg em três tomadas são 1.067 mg cada, dose que as apresentações de 200, 300 e 600 mg só alcançam por aproximação. O naproxeno também diverge: até 1.500 mg/dia nos protocolos de espondilite e de artrite psoriásica, até 1.000 mg/dia nos de artrite reativa e de artrite reumatoide. Como cada protocolo é escrito para a sua doença, vale o teto do protocolo que governa o paciente; na unidade básica, a partida de 600 mg de 8/8 h cabe em todos.

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A conduta, hora a hora

A conduta da espondiloartrite axial é uma sequência de consultas com prazo, dividida entre dois níveis de atenção. Na unidade básica: reconhecer, encaminhar no mesmo dia, iniciar anti-inflamatório e exercício, cuidar do cigarro, ensinar a regra do olho vermelho e manter a porta aberta enquanto a vaga não sai. No serviço especializado, com reumatologista, como pede o protocolo de 2018: classificar, medir a atividade sempre com os mesmos índices, trocar o anti-inflamatório, decidir o biológico e acompanhar. O interno passa pelos dois lados, e a trajetória de Áureo mostra em qual deles cada decisão acontece e com que critério.

Cada prescrição traz entre colchetes o documento que a sustenta. Os índices de Áureo foram calculados pelas fórmulas dos protocolos: o BASDAI é a média de seis respostas de zero a dez, com as duas perguntas de rigidez valendo uma; o ASDAS com proteína C reativa soma 0,12 vez a dor na coluna, 0,06 vez a duração da rigidez, 0,11 vez a avaliação global do paciente, 0,07 vez a dor ou o inchaço periférico e 0,58 vez o logaritmo natural da proteína C reativa em mg/L mais um. As contas de dose estão na tabela de conversão do bloco de critério.

  1. Consulta 1, segunda-feira, 8h05 — a dor ganha nome provisório e o encaminhamento sai hoje

    Áureo tem dor lombar há 14 meses, iniciada aos 26 anos, insidiosa, que melhora com movimento, não melhora com repouso e acorda na segunda metade da madrugada: com a idade de entrada cumprida, são quatro de quatro características pelo protocolo de encaminhamento de 2022. Somam-se o olho vermelho doloroso de dez meses atrás, a entesite do calcâneo, o pai de coluna rígida, o Schober com aumento de 3,5 cm e a resposta de 24 horas ao diclofenaco. O encaminhamento à reumatologia sai hoje, com a descrição que o protocolo pede, e nenhum exame o segura. O BASDAI da consulta dá 5,9 — fadiga 7, dor na coluna 8, dor em outras articulações 3, dor ao toque 5, intensidade da rigidez 8 e duração 5, que corresponde a cerca de uma hora. O diclofenaco injetável e o relaxante muscular saem; entra anti-inflamatório oral, contínuo, em dose plena, da farmácia básica, com estômago, pressão e rim vigiados.

    Prescrição
    • Encaminhamento à reumatologia: dor lombar crônica de característica inflamatória iniciada aos 26 anos, há 14 meses — início insidioso, melhora com exercício, sem melhora com repouso, dor às 4 h com melhora ao levantar; rigidez matinal de cerca de 1 hora; Schober com aumento de 3,5 cm; dor à compressão da sacroilíaca direita; entesite do calcâneo esquerdo; olho vermelho doloroso com fotofobia há 10 meses; pai com coluna rígida sem diagnóstico; resposta ao diclofenaco em 24 horas; BASDAI 5,9; radiografia de coluna lombar normal há 8 meses; fumante de 10 cigarros por dia [Protocolo de encaminhamento MS/UFRGS 2022, dor lombar]
    • Exemplo: ibuprofeno 600 mg VO 8/8 h por período inicial com retorno definido, se função renal e riscos gastrointestinal/cardiovascular permitirem. Não associar AINEs; reavaliar dose, benefício e necessidade de gastroproteção, sem perseguir o teto como meta.
    • Proteína C reativa, VHS, hemograma, creatinina, AST, ALT e exame de urina [PCDT EA 2018, item 8; PCDT ARe 2021, Quadro 2]
    • Radiografia da bacia em incidência anteroposterior [PCDT ARe 2021, item 3.2]
    • HLA-B27, pela lombalgia inflamatória sem sacroiliíte radiográfica documentada, onde a rede oferece [Portaria SECTICS/MS nº 18/2024; recorte adotado por esta apostila]
    • Exercício diário de alongamento e postura, fisioterapia se a rede oferecer, sem repouso prescrito [PCDT EA 2018, item 7.1]
    • Abordagem do tabagismo com oferta de apoio para cessação — o protocolo lista o tabagismo entre os fatores de mau prognóstico [PCDT EA 2018, item 1]
    • Orientação por escrito: olho vermelho com dor, luz incomodando ou visão embaçada — ir no mesmo dia à emergência oftalmológica [Protocolo de encaminhamento de Oftalmologia TelessaúdeRS 2023, uveítes]
    • Retorno em 3 semanas com os exames, ou antes se houver dor no estômago, fezes escuras ou inchaço nas pernas
  2. Retorno, dia 21 — os exames chegam, e nenhum deles muda o encaminhamento

    A proteína C reativa, colhida no dia seguinte à consulta, veio 24 mg/L, e a VHS, 38 mm/h; hemograma, creatinina, aminotransferases e urina são normais, e a pressão está em 122/76 mmHg. A radiografia da bacia descreve esclerose discreta e irregularidade das margens das sacroilíacas, “alterações suspeitas”: grau 1, que não conta como sacroiliíte radiográfica. O HLA-B27 veio positivo. Pelo braço clínico do critério ASAS — lombalgia inflamatória iniciada antes dos 45 anos, HLA-B27 e pelo menos duas características, que ele tem de sobra: entesite, boa resposta ao anti-inflamatório e proteína C reativa elevada, sem contar a provável uveíte —, Áureo pode ser classificado como espondiloartrite axial não radiográfica, e quem classifica é o especialista. O ibuprofeno fez efeito na primeira semana e perdeu força na terceira: BASDAI 4,6. O próximo anti-inflamatório do protocolo, o naproxeno, está no Componente Especializado da Rename, e a troca depende do laudo do reumatologista — mais uma razão para o encaminhamento não ter esperado.

    Prescrição
    • Manter ibuprofeno 600 mg VO de 8/8 h, contínuo [PCDT EA 2018, item 7.4]
    • Anexar ao encaminhamento já feito: PCR 24 mg/L, VHS 38 mm/h, HLA-B27 positivo, laudo da radiografia da bacia e BASDAI 4,6 [Protocolo de encaminhamento MS/UFRGS 2022, conteúdo mínimo]
    • Rever pressão, sintomas digestivos, edema e função renal conforme risco e após início/ajuste. Elevação aguda de creatinina, redução de diurese, sangramento ou intolerância exige suspensão e avaliação; não esperar três meses pela monitorização se houver suspeita de evento adverso.
    • Exercício diário mantido e a regra do olho vermelho repetida
    • Retorno em 4 semanas
  3. Semana 6, sábado, 21h40, unidade de pronto atendimento — o olho volta

    Áureo chega com o olho direito vermelho ao redor da córnea desde a manhã, dor que ele descreve como “por dentro”, luz insuportável e visão embaçada, sem secreção. O interno do plantão lê a ficha da unidade básica, que está no sistema, e reconhece a suspeita de uveíte anterior ativa num paciente com espondiloartrite axial provável e HLA-B27 positivo. Não é conjuntivite, não se trata com colírio antibiótico e não espera segunda-feira: vai à emergência oftalmológica no mesmo plantão. O diagnóstico e o tratamento são do oftalmologista; o que o interno faz é o encaminhamento certo, com a história que dá sentido ao olho, e o registro do segundo episódio, que é mais uma característica de espondiloartrite para o reumatologista.

    Prescrição
    • Encaminhamento no mesmo dia à emergência oftalmológica: suspeita de uveíte anterior aguda à direita — hiperemia perilímbica, dor ocular, fotofobia e baixa de acuidade desde a manhã; episódio semelhante há 10 meses; espondiloartrite axial provável, HLA-B27 positivo, aguardando reumatologia [Protocolo de encaminhamento de Oftalmologia TelessaúdeRS 2023, uveítes]
    • Tratamento ocular conforme o oftalmologista [capítulo Olho vermelho: conjuntivites, uveíte, glaucoma agudo e ceratite]
    • Manter ibuprofeno 600 mg VO de 8/8 h
    • Registrar o episódio e anexá-lo ao encaminhamento à reumatologia
  4. Mês 2, ambulatório de reumatologia — classificação, linha de base e a troca do anti-inflamatório

    A oftalmologia confirmou uveíte anterior aguda e já a tratou. A reumatologista classifica espondiloartrite axial não radiográfica pelo critério ASAS e mede a atividade com os dois índices do protocolo: BASDAI 5,2 e ASDAS com proteína C reativa de 3,8 — dor na coluna 7, duração da rigidez 5, avaliação global 7, dor periférica 2 e proteína C reativa de 18 mg/L —, acima de 3,5, atividade muito alta. O ibuprofeno, em dose adequada por oito semanas, não controlou a doença: pelo fluxo da lombalgia inflamatória, troca-se por outro anti-inflamatório. Áureo não tem psoríase, doença intestinal nem artrite periférica, e é o protocolo de 2018 que governa o caso. A fisioterapia supervisionada começa, porque o protocolo registra que programas supervisionados, em grupo ou individuais, rendem mais do que exercício domiciliar solto.

    Prescrição
    • Naproxeno 500 mg VO de 12/12 h, contínuo — 1.000 mg/dia, abaixo do teto de 1.500 mg/dia —, com laudo do Componente Especializado; suspender o ibuprofeno [PCDT EA 2018, fluxo A e item 7.4; Rename 2024, componente Especializado]
    • Fisioterapia com exercício supervisionado e programa domiciliar contínuo [PCDT EA 2018, item 7.1]
    • Linha de base registrada: BASDAI 5,2; ASDAS-PCR 3,8 com PCR 18 mg/L; Schober, flexão lateral, expansão torácica e distância occipício-parede em centímetros [PCDT EA 2018, itens 3 e 8]
    • Reavaliação em 8 semanas com PCR e os mesmos índices
  5. Mês 4, reumatologia — dois anti-inflamatórios, três meses, e a porta do biológico

    Persistência de atividade apesar dos AINEs usados adequadamente justifica discutir terapia avançada com reumatologia, considerando inflamação objetiva, resposta, riscos e acesso. A escolha não depende apenas da frequência da injeção: Áureo tem uveíte recorrente, dado que favorece determinadas opções, como anticorpo monoclonal anti-TNF, conforme avaliação conjunta. Psoríase e doença intestinal também influenciam a classe. O fluxo brasileiro descrito organiza acesso, mas não deve transformar intolerância a AINE ou alto risco em espera obrigatória para completar calendário.

    Prescrição
    • Indicação de anti-TNF registrada: falha a ibuprofeno por 8 semanas e a naproxeno por 8 semanas em dose adequada; BASDAI 4,4 e ASDAS-PCR 3,2, com quedas de 0,8 e 0,5; dor na coluna 6 [PCDT EA 2018, item 7.2, fluxo A]
    • Radiografia de tórax e prova tuberculínica [PCDT EA 2018, item 8, com a alteração de 2025]
    • HBsAg, anti-HBc total, anti-HCV e teste para HIV [PCDT EA 2018, item 8]
    • Hemograma, AST, ALT e creatinina de linha de base [PCDT EA 2018, Quadro 3]
    • Rever vacinação e grau de imunossupressão. Vacina viva, quando indicada e permitida, precisa do intervalo apropriado antes do biológico; não aplicar automaticamente imediatamente antes da primeira dose.
    • Manter naproxeno 500 mg VO de 12/12 h até o início do biológico
  6. Mês 4, dia 10 — prova tuberculínica de 12 mm

    Ausência de sintomas e radiografia normal reduzem a suspeita de tuberculose ativa, sem excluí-la em todos os contextos. Completar a avaliação clínica e de exposição; teste positivo, com doença ativa suficientemente afastada, orienta tratamento da infecção latente. O início do biológico após quatro semanas, conforme protocolo citado, depende de adesão, tolerância e decisão da equipe. Não repetir teste previamente positivo para comprovar cura; manter vigilância clínica e avaliar novas exposições.

    Prescrição
    • Tratamento da infecção latente pela tuberculose pelo capítulo Tuberculose: diagnóstico, esquema RIPE e tratamento da ILTB [PCDT EA 2018, item 8, com a alteração de 2025]
    • Adalimumabe agendado para 4 semanas após o início do tratamento da infecção latente [PCDT EA 2018, item 8, com a alteração de 2025]
    • Não repetir a prova tuberculínica no seguimento; perguntar por sintomas de tuberculose em toda consulta [PCDT EA 2018, item 8, com a alteração de 2025]
    • Vacinação contra hepatite B conforme o capítulo Hepatite B: sorologia, profilaxia e tratamento
  7. Mês 5 — a primeira aplicação

    O adalimumabe começa. Áureo aprende a aplicar a injeção no abdome ou na coxa, a alternar os locais, a guardar o medicamento como a farmácia orienta e a reconhecer o que o faz voltar antes da próxima dose. O protocolo registra que a resposta aos biológicos costuma ser rápida, em menos de seis semanas, e que a avaliação formal se faz a partir de doze. O naproxeno passa a ser usado só nos dias de dor, o exercício continua e o cigarro segue na pauta de toda consulta. Os exames de segurança do biológico entram no calendário trimestral.

    Prescrição
    • Adalimumabe 40 mg SC a cada 14 dias, pelo Componente Especializado [PCDT EA 2018, item 7.4; Rename 2024]
    • Naproxeno 500 mg VO de 12/12 h apenas nos dias de dor, com a meta de suspender
    • Hemograma, AST e ALT a cada 3 meses [PCDT EA 2018, Quadro 3]
    • Orientação por escrito: febre, tosse que não passa, perda de peso ou qualquer infecção — procurar a unidade antes da próxima dose; nenhuma vacina de vírus vivo durante o tratamento [PCDT EA 2018, item 8]
    • Fisioterapia e exercício mantidos; reavaliação na semana 12
  8. Mês 8, semana 12 do adalimumabe — a resposta medida

    Áureo dorme a noite inteira e calça a bota sem sentar. O BASDAI caiu de 4,4 para 1,3, uma queda de 3,1 pontos, 70%; o ASDAS-PCR caiu de 3,2 para 1,2 — dor na coluna 2, duração da rigidez 1, avaliação global 2, nenhuma dor periférica e proteína C reativa de 2 mg/L —, uma queda de 2,1, acima do 1,1 que define melhora relevante e do 2 que define melhora significativa, e agora abaixo de 1,3, doença inativa. Não houve nova uveíte e os exames de segurança estão normais. O protocolo não fixa tempo de tratamento: mantém-se enquanto houver benefício, porque a maioria recai quando o biológico é retirado. Áureo volta à unidade básica para o que é dela: cigarro, pressão, vacinas inativadas e a vigilância de infecção.

    Prescrição
    • Manter adalimumabe 40 mg SC a cada 14 dias: resposta pelo BASDAI (queda de 70%) e pelo ASDAS (queda de 2,1) [PCDT EA 2018, itens 7.5 e 8]
    • Suspender o naproxeno de uso regular
    • Hemograma, AST, ALT, PCR e VHS a cada 3 meses [PCDT EA 2018, item 8 e Quadro 3]
    • Definir imagem de seguimento pela pergunta clínica e pelo planejamento com a equipe. A radiografia seriada a cada dois anos, descrita no protocolo antigo, não deve ser entendida como requisito universal de controle; índices, função e manifestações extra-articulares são centrais.
    • Vigilância de sintomas de tuberculose a cada consulta, sem repetir a prova tuberculínica [PCDT EA 2018, item 8, com a alteração de 2025]
    • Na unidade básica: cessação do tabagismo, pressão arterial e vacinas inativadas do calendário, lembrando que a resposta a pneumococo e influenza pode ser menor [PCDT EA 2018, item 8]
09

Como saber se está funcionando

Reavaliar espondiloartrite é comparar números do mesmo paciente ao longo do tempo. O protocolo de 2018 define resposta na doença axial como queda de pelo menos 1,1 ponto no ASDAS ou de 50% ou 2 pontos no BASDAI, avaliada a partir de 12 semanas, e deixa artrite periférica, entesite e dactilite para a anamnese e o exame físico. As consultas são a cada três meses na doença ativa e anuais na estável; o protocolo da artrite psoriásica fala em três meses ou menos na doença ativa e seis meses na estável, com o alvo de atividade mínima da doença. Na artrite reativa aguda, o protocolo de 2021 quer retorno em menos de 30 dias.

O que se reavalia não é só a doença. Anti-inflamatório contínuo cobra estômago, pressão e rim; biológico cobra vigilância de infecção e de tuberculose; e o olho pode voltar a qualquer momento. Os sete parâmetros abaixo dizem em que momento olhar cada coisa, qual resultado buscar e que passo dar quando ele não aparece.

Dor noturna, rigidez matinal em minutos e resposta ao anti-inflamatórioNo retorno de 2 a 4 semanas e em toda consulta

Esperado: Menos despertares e rigidez mais curta já na primeira semana de dose plena; o critério ASAS conta como característica a boa resposta em 24 a 48 horas

Se não melhora: Confira dose, regularidade e tomada com alimento; sem resposta em 1 mês de dose adequada, o protocolo troca o anti-inflamatório — e a troca para o naproxeno passa pelo especialista. Nenhuma resposta a dose plena também obriga a rever o diagnóstico

BASDAIEm toda consulta, sempre o mesmo questionário

Esperado: Abaixo de 4; resposta é queda de 50% ou de 2 pontos a partir de 12 semanas

Se não melhora: Dois anti-inflamatórios por 3 meses sem resposta, com doença ativa, abrem o anti-TNF na doença axial sem psoríase; na axial com psoríase, o protocolo de 2026 pede pelo menos 4 semanas de anti-inflamatório

ASDAS com proteína C reativaEm toda consulta do especialista, com a PCR do dia; PCR e VHS a cada 1 a 3 meses na atividade

Esperado: Queda de pelo menos 1,1, que é melhora relevante, ou de 2, que é melhora significativa; abaixo de 1,3, doença inativa

Se não melhora: Queda menor que 1,1 com o biológico em dose adequada por 6 meses: outro anti-TNF ou secuquinumabe pelo protocolo de 2018. Antes, reveja adesão e procure fibromialgia associada, que sobe a dor sem inflamação

Mobilidade da coluna e entesesMedida de base e repetição a cada 6 a 12 meses; radiografias de sacroilíacas, bacia e coluna a cada 2 anos

Esperado: Schober, flexão lateral, expansão torácica e distância occipício-parede estáveis; enteses sem dor à pressão

Se não melhora: Perda de centímetros ou dano estrutural novo, mesmo com índices bons, leva à reavaliação do tratamento pelo especialista, como prevê o protocolo

Segurança do anti-inflamatórioPressão e sintomas dispépticos em toda consulta; hemograma, creatinina, AST, ALT e urina a cada 3 meses

Esperado: Pressão controlada, sem dispepsia nem sangramento, creatinina estável

Se não melhora: Creatinina que sobe mais de 0,3 mg/dL, ou hematúria e cilindros com creatinina em alta: interromper, como manda o protocolo da artrite reativa. Dor epigástrica, melena ou pressão descontrolada: suspender e investigar antes de retomar

OlhoPergunta em toda consulta; orientação por escrito desde a primeira

Esperado: Sem dor ocular, fotofobia ou vermelhidão ao redor da córnea

Se não melhora: Olho vermelho com dor e fotofobia: emergência oftalmológica no mesmo dia. Cada episódio vai para o prontuário e para o reumatologista

Tuberculose e infecção durante o biológicoSintomas de infecção em toda consulta; exames de segurança conforme fármaco e fase. Repetir rastreio de tuberculose conforme exposição, risco epidemiológico e protocolo, sem impor periodicidade anual universal.

Esperado: Sem febre, tosse persistente ou perda de peso; prova que segue negativa

Se não melhora: Sintoma de tuberculose: investigar doença ativa antes da próxima dose. Prova que se torna positiva: tratar a infecção latente pelo capítulo de Tuberculose. Alteração laboratorial: reduzir, espaçar ou suspender pelo quadro de monitorização do protocolo

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Onde o erro machuca

Tratar como lombalgia mecânica a dor que acorda de madrugada e melhora andando

O dano: Repouso, relaxante muscular e injeção de diclofenaco a cada crise aliviam por um dia e meio e empurram o diagnóstico por anos. Enquanto isso a doença segue ativa, a uveíte aparece e o paciente muda de emprego por causa de uma dor que tinha tratamento.

Como pegar a tempo: Pergunte a hora da dor e o efeito do repouso e do movimento em toda lombalgia com mais de três meses em adulto jovem. Início antes dos 40 anos, insidioso, melhora com exercício, sem melhora com repouso e dor na segunda metade da madrugada: encaminhe à reumatologia no mesmo dia.

Descartar espondiloartrite por uma radiografia normal — ainda mais da coluna lombar

O dano: A radiografia não mostra sacroiliíte no começo da doença, e a coluna lombar nem é o lugar onde ela começa. O laudo normal vira alta, e a forma não radiográfica, que o critério ASAS existe para capturar, passa sem nome.

Como pegar a tempo: Peça radiografia da bacia ou das sacroilíacas, leia o grau e lembre que o grau 1 não fecha nada. O braço clínico do critério classifica com HLA-B27 e duas características, sem imagem alterada, e a ressonância é pedido do especialista.

Segurar o encaminhamento à espera de HLA-B27 ou ressonância — ou pedir HLA-B27 para dor mecânica

O dano: O paciente com dor inflamatória espera meses sem tratamento especializado. No sentido oposto, o HLA-B27 positivo em quem tem dor mecânica, ou num parente sem sintoma, cria o rótulo de uma doença que não existe e puxa exames e tratamentos desnecessários.

Como pegar a tempo: Encaminhe pela história. Peça o HLA-B27 uma vez, para a lombalgia inflamatória sem sacroiliíte radiográfica definida ou na suspeita de artrite reativa, e leia o resultado como probabilidade: positivo não confirma e negativo não descarta.

Tratar como conjuntivite o olho vermelho doloroso de quem tem espondiloartrite

O dano: Colírio antibiótico e espera atrasam o tratamento de uma uveíte anterior, que pode deixar aderências, pressão ocular alta e perda de visão. O episódio também some do prontuário e deixa de contar para o diagnóstico.

Como pegar a tempo: Dor ocular, fotofobia e vermelhidão ao redor da córnea em quem tem dor lombar inflamatória, HLA-B27 ou espondiloartrite conhecida: emergência oftalmológica no mesmo dia. Deixe a orientação por escrito desde a primeira consulta.

Começar o biológico sem investigar tuberculose e hepatites, ou esquecer o rastreio anual de quem teve prova negativa

O dano: A reativação da tuberculose está entre os eventos adversos que o protocolo associa aos anti-TNF, e a hepatite B pode reativar sob imunossupressão. A frase antiga do protocolo de 2018, que manda repetir a prova só a critério médico, deixa sem rastreio anual quem começou com prova negativa.

Como pegar a tempo: Antes da primeira dose: radiografia de tórax, prova tuberculínica ou teste de interferon, HBsAg, anti-HBc, anti-HCV e HIV, com a infecção latente tratada e o biológico começando quatro semanas depois. Prova negativa se repete todo ano; prova positiva não se repete.

Dar antibiótico prolongado para curar a artrite reativa e esquecer a parceria

O dano: O protocolo de 2021 registra que o antibiótico dado depois de a artrite aparecer não parece mudar o curso da doença. O paciente toma semanas de antibiótico sem benefício para a articulação, enquanto a clamídia da parceria, sem tratamento, reinfecta e mantém a cadeia de transmissão.

Como pegar a tempo: Tratar infecção genital ativa e cuidar da parceria conforme diagnóstico e protocolo. AINE é individualizado pelo risco e pela resposta; artrite persistente pede reavaliação, exclusão de infecção articular e discussão de modificador com reumatologia.

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O que dizer ao paciente e à família

Espondiloartrite é doença de adulto jovem que trabalha, e a conversa decide a adesão a três coisas que o paciente não faz sozinho: exercício todo dia, anti-inflamatório contínuo enquanto a doença está ativa e retorno imediato quando o olho dói. As falas abaixo são da trajetória de Áureo, com o que evitar em cada momento.

O vocabulário importa. “Bico de papagaio”, “desgaste” e “coluna de motoboy” são explicações que o paciente já ouviu e que o autorizam a esperar; “inflamação da coluna, que tem tratamento e piora com o corpo parado” é a frase que muda o que ele faz na manhã seguinte.

Dar nome à suspeita sem prometer o diagnóstico

“Áureo, o jeito da sua dor não é de coluna gasta nem de moto. Dor que acorda de madrugada, melhora andando e piora no domingo parado é dor de inflamação. Existe um grupo de doenças que faz isso, as espondiloartrites, e quem confirma é o reumatologista. Eu estou pedindo a vaga hoje, e a gente começa o tratamento agora, sem esperar.”

Não diga: “É da moto, você vai ter que mudar de serviço.” A frase erra o diagnóstico, põe a culpa no trabalho e tira do paciente o motivo para voltar.

Explicar por que o repouso não é o remédio

“Na sua doença, o corpo parado é que endurece. Por isso a dor é pior de manhã e no dia de folga. O exercício de alongamento e de postura, todo dia, faz parte do tratamento tanto quanto o remédio. Você não precisa largar a moto: precisa fazer pausas para se esticar ao longo do dia e manter o exercício que a fisioterapia ensinar.”

Não diga: “Repouso até a dor passar.” Receita de lombalgia mecânica aguda aplicada a doença inflamatória piora a rigidez e a função.

A regra do olho vermelho

“Tem uma coisa que eu vou escrever no papel para você guardar: se o olho ficar vermelho de novo, com dor e com a luz incomodando, você não pinga colírio de ninguém e não espera segunda-feira. Vai no mesmo dia na emergência de olho. O que aconteceu dez meses atrás pode ter sido uma inflamação dentro do olho que anda junto com essa doença.”

Não diga: “Se voltar, pinga aquele colírio de novo.” Transforma uma urgência oftalmológica em automedicação.

Remédio todo dia, e não só quando dói

“Esse anti-inflamatório é de oito em oito horas, depois de comer, todos os dias até você voltar aqui, mesmo que melhore. Ele desinflama, não serve só para a dor. Se aparecer dor no estômago, fezes pretas ou inchaço nas pernas, você para e vem antes. E a injeção da UPA não precisa mais.”

Não diga: “Toma quando doer.” Na doença ativa, o uso intermitente mantém a inflamação e impede de saber se o remédio funciona.

O HLA-B27 e a filha

“O exame deu positivo, e isso aumenta a chance de a sua dor ser dessa doença. Mas ter esse gene não é ter a doença: a maioria das pessoas que têm nunca adoece. Não precisa fazer o exame na sua filha. Se um dia ela tiver dor que acorda de madrugada ou olho vermelho com dor, aí a gente investiga.”

Não diga: “Deu positivo, então é espondilite, e sua filha provavelmente vai ter.” Confunde marcador de risco com diagnóstico e leva a exame em quem não tem sintoma.

O cigarro

“O cigarro faz essa doença andar mais rápido: é um dos sinais de pior evolução que o protocolo descreve. Parar é tratamento, do mesmo jeito que o remédio. Aqui na unidade a gente tem como ajudar, e dá para começar hoje.”

Não diga: “Se não parar de fumar, o tratamento não adianta.” A frase ameaça em vez de explicar, culpa sem oferecer ajuda e faz o paciente esconder o cigarro na consulta seguinte.

Antes do biológico: tratar a tuberculose que não dá sintoma

“O exame da pele mostrou que em algum momento você teve contato com o micróbio da tuberculose. Você não está doente e não transmite. Mas o remédio novo diminui uma parte da defesa que mantém esse micróbio quieto, então primeiro a gente trata essa infecção escondida e, quatro semanas depois, começa a injeção. Febre, tosse que não passa ou emagrecimento durante o tratamento é motivo para vir antes.”

Não diga: “O PPD deu positivo, então você não pode usar o biológico.” A prova positiva pede tratamento da infecção latente, não o fim do tratamento da espondiloartrite.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Quanto tempo de anti-inflamatório antes do biológico na doença axial: dois anti-inflamatórios por três meses ou quatro semanas

Protocolo da Espondilite Anquilosante, 2018 — dois anti-inflamatórios por 3 meses no total (lado adotado para quem não tem psoríase)

No fluxo da lombalgia inflamatória e da entesite, o primeiro anti-inflamatório é trocado depois de um mês de dose adequada sem resposta, e o anti-TNF é considerado depois da falha com dois anti-inflamatórios diferentes em doses adequadas por três meses no total — um a dois meses com cada um —, na lombalgia inflamatória ou na entesite confirmada por ressonância ou ultrassonografia. Falha é não reduzir o ASDAS em pelo menos 1,1 ponto, ou o BASDAI em 50% ou 2 pontos. O protocolo vale para a espondiloartrite axial, radiográfica e não radiográfica, e para a periférica sem psoríase.

Portaria Conjunta nº 25, de 22/10/2018, item 7.2, fluxo A

Protocolo da Artrite Psoriásica, 2026 — anti-inflamatório por pelo menos 4 semanas (lado adotado para quem tem artrite psoriásica)

Na artrite psoriásica axial ou com entesite, o tratamento começa com anti-inflamatório, trocado por outro se a atividade persistir; com persistência depois de pelo menos quatro semanas de anti-inflamatório e ASDAS acima de 2,1 ou BASDAI igual ou maior que 4, inicia-se anti-TNF de primeira linha. Na falha, outro anti-TNF, certolizumabe, secuquinumabe, ixequizumabe ou tofacitinibe, com a ressalva de que há poucas evidências do tofacitinibe na doença axial.

Portaria Conjunta nº 37, de 21/01/2026, itens 6.3.2 e 6.4.2

Como decidir

Os protocolos descrevem percursos de acesso e populações distintas. Para o cuidado, atividade persistente, domínios acometidos, resposta e contraindicações orientam discussão especializada. Não impor três meses de AINE em dose alta a quem tem risco renal, sangramento ou doença grave. Informar ao especialista o que foi testado, por quanto tempo e por que foi interrompido.

Idade de início que manda a dor lombar inflamatória à reumatologia: antes dos 40 anos como condição, ou como uma característica entre cinco

Protocolo federal de encaminhamento, volume de Ortopedia adulto, 2022 — início antes dos 40 anos é condição de entrada

Manda à reumatologia a dor lombar crônica, com mais de três meses, de início antes dos 40 anos e de característica inflamatória, definida por pelo menos três de quatro critérios: início insidioso, melhora com exercício, sem melhora com repouso e dor noturna na segunda metade da madrugada, com melhora ao se levantar. É o documento federal mais novo sobre encaminhamento de dor lombar e substitui, para a coluna, o volume de 2016.

Ministério da Saúde/UFRGS. Protocolos de encaminhamento da atenção básica para a atenção especializada, v. 4, Ortopedia adulto, 2022 — dor lombar e Quadro 3

Protocolo federal de encaminhamento de 2016 e protocolo da artrite reativa de 2021 — idade como uma das cinco características; critério ASAS do protocolo de 2018 — início até os 45 anos

O volume de 2016 definia a dor lombar inflamatória por pelo menos quatro de cinco critérios, com o início antes dos 40 anos entre eles, e o protocolo da artrite reativa de 2021 repete essa definição. Nessa redação, quem começou aos 42 anos com as outras quatro características tem dor inflamatória. O critério ASAS do protocolo da espondilite de 2018 exige lombalgia inflamatória por pelo menos três meses iniciada até os 45 anos para classificar espondiloartrite axial.

Ministério da Saúde/UFRGS, Protocolos de encaminhamento, v. 3, 2016, Quadro 7; Portaria Conjunta nº 6, de 22/04/2021, Quadro 1; Portaria Conjunta nº 25, de 22/10/2018, Quadro 1

Como decidir

Critérios classificatórios e fluxos de encaminhamento têm finalidades distintas. Início antes de 40–45 anos aumenta a suspeita, mas idade ou ausência de uma característica isolada não excluem doença. Encaminhar padrão persistente sugestivo, especialmente com uveíte, psoríase, doença intestinal, entesite ou dactilite; início tardio pede atenção adicional a diagnósticos alternativos, sem proibição de referência quando a hipótese inflamatória persiste.

O primeiro passo na artrite periférica: infiltração e anti-inflamatório, anti-inflamatório em dose máxima, ou metotrexato

Protocolo da Espondilite Anquilosante, 2018 — infiltração sempre considerada, anti-inflamatório e depois sulfassalazina (lado adotado para a periférica sem psoríase e sem gatilho infeccioso)

No fluxo da artrite periférica, implementam-se medidas não medicamentosas e considera-se sempre a infiltração intra-articular de glicocorticoide; na falha, anti-inflamatório; com falha a dois anti-inflamatórios por três meses no total, preferencialmente sulfassalazina, com o metotrexato reservado para quando ela for contraindicada; com falha também à sulfassalazina em seis meses, anti-TNF.

Portaria Conjunta nº 25, de 22/10/2018, item 7.2, fluxo B

Protocolo da Artrite Reativa, 2021 — anti-inflamatório em dose máxima por pelo menos 2 semanas (lado adotado para a artrite reativa)

Os anti-inflamatórios são a primeira linha na fase aguda, em dose máxima e de forma contínua por pelo menos duas semanas. A infiltração intra ou periarticular entra quando o anti-inflamatório não controlou uma articulação ou uma entese, e a sulfassalazina, por três a seis meses, quando o controle não vem com anti-inflamatório e infiltração ou a doença se torna crônica, recorrente ou erosiva.

Portaria Conjunta nº 6, de 22/04/2021, item 7.2.2

Protocolo da Artrite Psoriásica, 2026 — metotrexato como primeira escolha (lado adotado para a artrite psoriásica)

Na artrite psoriásica periférica, com artrite ou dactilite, o metotrexato é a primeira escolha, com leflunomida ou sulfassalazina se ele for impossível; anti-inflamatório e glicocorticoide servem ao controle sintomático, pelo menor tempo possível. Depois de três meses sem controle, combinação de modificadores; depois de dois esquemas, biológico.

Portaria Conjunta nº 37, de 21/01/2026, itens 6.3 e 6.4.1

Como decidir

A artrite após infecção continua exigindo avaliação de infecção articular quando o quadro justificar. Na artrite reativa, AINE pode aliviar se seguro; dose máxima e duas semanas contínuas não são exigências para todos. Na artrite psoriásica, sinovite persistente e fatores prognósticos orientam modificador precoce. O domínio axial isolado não responde aos modificadores convencionais da mesma forma que a artrite periférica.

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O raciocínio, em voz alta

Gilda Ferraz tem 46 anos, 68 kg, é professora de educação infantil e procura a unidade básica porque o segundo dedo do pé direito está inchado há quatro meses, “inteiro, como uma salsicha”, e dói ao calçar sapato fechado. Há dois meses a ponta do indicador esquerdo também incha e dói perto da unha. O calcanhar direito dói nos primeiros passos da manhã, e as mãos ficam rígidas por uns 40 minutos ao acordar. Nega dor lombar noturna, diarreia, ardência urinária e olho vermelho. Trata hipertensão com losartana, tem índice de massa corporal de 32 e fuma meio maço por dia. Diz que a pele “é boa”, mas conta que tem uma caspa que não sai com xampu nenhum e unhas “com uns furinhos”. A mãe tinha “umas placas no cotovelo em que passava pomada”. Trouxe fator reumatoide não reagente e proteína C reativa de 11 mg/L pedidos no pronto atendimento.

  1. 1. O padrão já diz espondiloartrite periférica

    Dactilite do segundo dedo do pé, artrite da interfalângica distal do indicador e entesite do calcâneo, em distribuição assimétrica e com fator reumatoide negativo, formam o desenho periférico das espondiloartrites, e não o da artrite reumatoide, que é simétrica e poupa as interfalângicas distais. A pergunta seguinte é pelo gatilho infeccioso, que ela nega, e pela pele.

  2. 2. Procurar a psoríase que ela não mostrou

    No couro cabeludo, placas avermelhadas com escamas prateadas ultrapassam a linha do cabelo na nuca; atrás das orelhas, a mesma lesão; no umbigo e na fenda glútea, nada. Oito unhas das mãos têm depressões puntiformes, e a do indicador esquerdo tem descolamento na ponta. É psoríase, e a “caspa” era a pista que a paciente trouxe sem saber. A psoríase da mãe completa a história.

  3. 3. A suspeita pelo protocolo de encaminhamento e a conta do CASPAR

    Pelo protocolo federal de 2016, repetido pelo de Dermatologia do TelessaúdeRS de 2023, há suspeita de artrite psoriásica: psoríase pessoal e familiar com artrite periférica de interfalângica distal, dactilite e entesite — um só desses achados já bastaria. A conta que o especialista fará pelo CASPAR, a partir de doença inflamatória articular estabelecida, dá psoríase atual 2, distrofia ungueal 1, fator reumatoide negativo 1 e dactilite 1: 5 pontos, acima do corte de 3. A história familiar não soma outra vez, porque a categoria psoríase conta uma vez só, pelo maior valor. Classificar é do reumatologista; encaminhar com a suspeita escrita é do interno.

  4. 4. O que pedir hoje

    Radiografias de mãos e pés, que podem mostrar erosão com formação óssea justa-articular e servem de linha de base; VHS para somar à proteína C reativa; hemograma, creatinina, AST e ALT, porque o metotrexato que virá precisa de linha de base; glicemia e perfil lipídico, porque a artrite psoriásica anda com síndrome metabólica e doença cardiovascular; e sorologias para hepatites B e C e para HIV, que o serviço especializado vai precisar antes de qualquer imunossupressor.

  5. 5. O encaminhamento com preferência, e o que ele precisa conter

    Diagnóstico ou suspeita de artrite psoriásica vai à reumatologia, e o protocolo de 2016 põe a artrite psoriásica entre as condições com preferência na regulação. O pedido descreve as articulações acometidas e o tempo de evolução, a distrofia ungueal, a dactilite, a entesite do calcâneo, a psoríase atual, a história pessoal e a familiar, o fator reumatoide com data e o exame de imagem que ficar pronto — o conteúdo mínimo do protocolo.

  6. 6. O que se faz na unidade enquanto a vaga não sai

    O anti-inflamatório é alívio enquanto o modificador não começa, pelo menor tempo possível: ibuprofeno 600 mg de 8/8 h após as refeições, com pressão e creatinina vigiadas numa paciente hipertensa em uso de losartana. A pele segue o capítulo Psoríase e dermatite atópica, da Dermatologia, que registra que o diagnóstico de artrite psoriásica tira a paciente do protocolo da psoríase e a coloca no da artrite. E a unidade começa o que o protocolo de 2026 chama de tratamento não medicamentoso: cessação do tabagismo, controle do álcool, exercício supervisionado e perda de peso, com pressão e lípides no alvo.

  7. 7. O que o especialista vai fazer, e o que a unidade prepara

    O especialista trata os domínios ativos: artrite periférica, entesite, dactilite, pele/unhas e eventual acometimento axial. Metotrexato pode ser escolhido para artrite periférica, mas não é tratamento eficaz do domínio axial isolado. A unidade organiza segurança, vacinação com intervalos adequados, orientação reprodutiva e seguimento. Os fluxos locais de etapas não substituem avaliação de gravidade, tolerância e manifestações extra-articulares.

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Faça você

Ipólito Roriz tem 24 anos, 70 kg, trabalha como garçom e chega à unidade básica numa quinta-feira à tarde, mancando. O joelho direito incha há cinco dias e o tornozelo esquerdo, há três; o calcanhar esquerdo dói ao pisar. Há três semanas teve ardência para urinar e secreção clara pela uretra, que melhorou sozinha e voltou discreta nesta semana; não procurou atendimento. Tem namorada há quatro meses, sem sintomas, e não usa preservativo. Nega diarreia, dor lombar e lesões de pele. Os dois olhos estão vermelhos há dois dias, com secreção, sem dor e sem incômodo com a luz. Temperatura axilar de 37,6 °C. O joelho direito está quente, com derrame volumoso e dor à mobilização; o tornozelo esquerdo, edemaciado; a inserção do tendão de Aquiles esquerdo dói à pressão. Não há pústulas nas palmas, lesão na glande nem úlcera na boca.

  1. 1. Antes de chamar de artrite reativa

    Diga o que precisa ser afastado hoje nesse joelho quente, com febrícula e derrame volumoso, que agente a própria história sexual obriga a lembrar e qual capítulo conduz esse passo.

  2. 2. A infecção que disparou a artrite

    Diga que exames pedir para a uretrite e para as outras infecções sexualmente transmissíveis, qual sorologia não pedir e por quê, e o que fazer se os olhos passarem a doer.

  3. 3. A prescrição de hoje

    Escreva o tratamento da uretrite ainda sintomática, o que fazer com a parceria e o anti-inflamatório da artrite, com dose, intervalo e duração, e diga o que o antibiótico não vai fazer.

  4. 4. O seguimento e o que muda o protocolo

    Diga quando ele volta, o que vigiar a cada consulta, o que caracteriza cronificação e o que acontece com o tratamento se ela vier.

Ver como fecharíamos

O joelho quente com derrame volumoso requer avaliação urgente de infecção, incluindo gonococo pelo contexto sexual. Organizar punção com cultura, Gram, células e cristais e avaliar gravidade; sepse não pode aguardar coleta. Líquido inflamatório com cultura negativa não demonstra sozinho artrite reativa, especialmente se houver antibiótico prévio. Se o conjunto sustentar artrite reativa e infecção articular for suficientemente improvável, investigar a uretrite com teste molecular para clamídia/gonococo e oferecer testagem de outras IST conforme protocolo. Sorologia IgG de clamídia isolada não identifica o gatilho atual. A uretrite sintomática e as parcerias precisam de manejo: no protocolo brasileiro de IST citado, uretrite sem agente identificado recebe ceftriaxona 500 mg IM e azitromicina 1 g VO, doses únicas; isso não é o esquema de infecção gonocócica disseminada. Para dor articular, escolher AINE na menor dose eficaz conforme risco, por exemplo ibuprofeno 400–600 mg VO 8/8 h por curto período, sem impor 900 mg 8/8 h a todos. Conferir função renal, pressão e tolerância e reavaliar em poucos dias, com retorno imediato por febre/piora. O antibiótico trata a infecção genital e reduz transmissão; não se deve prolongá-lo empiricamente apenas porque a artrite persiste. Dor ocular, fotofobia ou visão alterada exigem avaliação oftalmológica no mesmo dia. Persistência, recorrência, limitação importante ou outro domínio acometido justificam reumatologia e discussão de modificador, sem aguardar passivamente seis meses.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Olho vermelho ao redor da córnea, com dor, fotofobia e visão borrada, em quem tem espondiloartrite, é suspeita de uveíte anterior ativa, a manifestação extra-articular mais comum da espondilite anquilosante, presente em até 40% dos pacientes pelo protocolo de 2018. O protocolo de encaminhamento de Oftalmologia do TelessaúdeRS manda essa suspeita à emergência oftalmológica. Colírio antibiótico, lubrificante e observação tratam uma conjuntivite que não existe e atrasam o tratamento; a consulta de reumatologia vem depois e não substitui a avaliação do olho no mesmo dia.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Compare lombalgia mecânica e suspeita de espondiloartrite, explicando os limites da radiografia e do HLA-B27.

Em 30 dias

Refaça o plano para paciente com uveítes recorrentes, doença intestinal ou risco renal pelo AINE. Discuta também por que cultura articular negativa não basta para chamar uma monoartrite de reativa.

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Agora atenda

Agora atenda: mulher de 33 anos, auxiliar de cozinha, com dor nas nádegas que alterna de lado há nove meses, acorda de madrugada e melhora quando começa a trabalhar; o calcanhar dói nos primeiros passos da manhã, teve olho vermelho doloroso no ano passado e tem uma descamação no couro cabeludo que chama de caspa. Separe a dor inflamatória da mecânica pelas perguntas certas, procure a pele e as unhas, examine coluna, sacroilíacas e enteses com números, peça na unidade o que o SUS oferece, encaminhe sem esperar exame, comece o anti-inflamatório certo e combine com ela o que fazer se o olho voltar a doer — e decida qual protocolo vai governar o tratamento dela.

Espondiloartrites e artrite psoriásica – A dor que melhora andando — Internato | OsceLabs