Clínica MédicaSíndromes do Paciente Internado

Lesão por pressão no paciente internado

É o evento adverso que mais aparece nas notificações brasileiras e o que o interno mais delega mentalmente à enfermagem. Este capítulo é sobre o que a pressão faz por dentro antes de aparecer na pele, sobre o exame que ninguém faz no primeiro dia, e sobre prescrever prevenção e curativo pelo princípio, não pela marca.

Fontes deste capítulo

Ministério da Saúde / Anvisa / Fiocruz — Anexo 02: Protocolo para Prevenção de Úlcera por Pressão, protocolo integrante do Programa Nacional de Segurança do Paciente (documento datado de 09/07/2013 na folha de rosto; instituído pela Portaria GM/MS nº 1.377, de 9 de julho de 2013)

Agência Nacional de Vigilância Sanitária — Nota Técnica GVIMS/GGTES nº 03/2017: Práticas seguras para prevenção de Lesão por Pressão em serviços de saúde (Outubro/2017)

Associação Brasileira de Estomaterapia (SOBEST) e Associação Brasileira de Enfermagem em Dermatologia (SOBENDE) — Classificação das Lesões por Pressão: Consenso NPUAP 2016 adaptado culturalmente para o Brasil (adaptação de Caliri MHL, Santos VLCG, Mandelbaum MHS, Costa IG)

Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de Medicina, Projeto Diretrizes — Terapia Nutricional para Portadores de Úlceras por Pressão (autoria da Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral, Associação Brasileira de Nutrologia e Sociedade Brasileira de Clínica Médica; elaboração final em 15 de julho de 2011)

D'Alessandro MPS, Barbosa LC, Anagusko SS, et al. (eds.) — Manual de Cuidados Paliativos. 2ª ed. São Paulo: Hospital Sírio-Libanês; Ministério da Saúde, 2023. 424 p. (Programa de Cuidados Paliativos no SUS, PROADI-SUS). ISBN 978-65-85051-58-3 — capítulo 24, Alterações da pele no fim de vida

01

Responda antes de ler

Mulher de 68 anos com lesão sacral de espessura total há três semanas. O curativo vem sendo trocado diariamente, a carga está aliviada e a nutrição corrigida. Nos últimos dez dias a área não reduziu, o leito tem tecido gelatinoso que reaparece cerca de 24 horas após cada desbridamento, o exsudato aumentou e há odor. Não há febre, o eritema não ultrapassa a borda, não há dor nova e os sinais vitais estão estáveis. Qual é a conduta?

02

O paciente que você vai ver

Sexto dia de internação, sete e vinte da manhã, enfermaria de clínica médica de dezoito leitos. O senhor Damião Peçanha tem 78 anos, 54 quilos, 1,68 m, e entrou pelo pronto-socorro numa quinta-feira à noite com pneumonia. Tem sequela de um acidente vascular cerebral de três anos atrás, hemiparesia à direita, e em casa andava com andador até a porta da cozinha. Aqui ele não anda: passou os primeiros dois dias com máscara de oxigênio, depois com cateter nasal, e há quatro dias recebe dieta por sonda nasoenteral porque engasgava com a água.

Ele está melhor. A febre cedeu no terceiro dia, a saturação subiu, a antibioticoterapia entra no sexto dia de dez. Na visita de ontem você anotou que ele estava sonolento mas responsivo, aceitando a dieta, sem dispneia, e escreveu no plano: manter conduta, avaliar transição para via oral. Foi a sexta vez que você o examinou. Todas as seis com ele deitado de barriga para cima, e todas as seis você auscultou o tórax pela frente, ouviu o abdome, olhou as pernas, e saiu.

Hoje a técnica de enfermagem, Marlete, para você no corredor antes da visita. Ela diz que na hora do banho encontrou uma mancha roxa no sacro do senhor Damião, do tamanho da palma da mão, e que a pele por cima está inteira, sem ferida nenhuma. Diz também que a enfermeira já viu e já anotou, e que ela quer saber se o senhor Damião pode continuar na dieta que está.

Você vai ao leito. Com a ajuda de duas pessoas, vira o paciente em decúbito lateral, e o que aparece é exatamente o que ela descreveu: uma área arroxeada, quase vinho, sobre a região sacral, de bordas mal definidas, com a epiderme íntegra. Ao pressionar com o dedo, a cor não empalidece. A pele em volta está mais quente que o resto do dorso e, quando você toca, ele franze a testa — o mesmo senhor Damião que não reclamou de nada nos seis dias.

Enquanto ele está de lado, você olha o resto. O calcâneo direito, o do lado parético, tem uma área avermelhada de uns três centímetros que também não branqueia. Atrás da orelha esquerda, na dobra onde o cateter nasal de oxigênio dos primeiros dias apoiava, há uma marca linear escurecida com a forma exata do tubo. E na narina direita, onde a sonda entra, a asa do nariz está com um sulco esbranquiçado que não estava ali na foto que a filha mandou no grupo da família no dia da internação.

Os achados foram identificados hoje, mas o exame isolado não permite datar seu início. É preciso reconstruir os registros de pele e de cuidados, ouvir a equipe e a família e agir imediatamente. A filha, Zenaide, pergunta por que isso apareceu enquanto a pneumonia melhorava. A melhora respiratória não elimina o risco associado à imobilidade, aos dispositivos e à perfusão; tampouco demonstra, por si, a causa ou a evitabilidade de cada lesão.

03

Quem adoece disso

Lesão por pressão não é um detalhe de enfermaria: no período histórico do relatório citado, foi o terceiro tipo de incidente mais notificado à vigilância sanitária. O relatório nacional que a Anvisa consolidou na Nota Técnica GVIMS/GGTES nº 03/2017 reuniu 134.501 incidentes relacionados à assistência notificados entre janeiro de 2014 e julho de 2017; destes, 23.722 foram lesões por pressão, ou 17,6% de tudo que os núcleos de segurança do paciente do país notificaram. A consequência clínica é direta: se você trabalha num hospital com núcleo de segurança ativo, aproximadamente um em cada seis eventos adversos que a instituição registra saiu de uma pele que ficou apoiada tempo demais no mesmo lugar — e a maioria deles saiu de um leito em que alguém passou visita todos os dias.

O peso fica mais claro quando se olha o que a mesma fonte chama de never event, o evento que jamais deveria acontecer e cuja notificação é obrigatória. No período, foram 3.771 never events. Deles, 2.739 (72,6%) foram lesão por pressão estágio 3 e 831 (22,0%) foram estágio 4. Somados, 3.570 dos 3.771 — quase 95 de cada 100 never events notificados no país eram uma lesão por pressão de espessura total. Não é uma complicação entre outras: é, em volume, a principal falha grave que o sistema brasileiro registra sobre si mesmo. E, para o interno, isso muda o significado de um estágio 3 encontrado na visita: é um evento com prazo de notificação, investigação institucional e relatório, não uma anotação de rotina.

A frequência dentro do leito também é alta. Numa coorte prospectiva de 77 pacientes críticos em terapia intensiva brasileira, Borghardt e colaboradores encontraram incidência de 22%, com intervalo de confiança de 95% entre 12,6% e 31,5% — 17 pacientes desenvolveram 32 lesões. O sítio mais frequente foi a região sacral (47%), a maioria era categoria I (72%), 71% dos casos tinham mais de 10 dias de internação e 59% já estavam classificados como risco alto pela escala de Braden. Leia esses dois últimos números juntos: o risco tinha sido medido, o tempo de internação foi longo o bastante para agir, e a lesão apareceu mesmo assim. O problema brasileiro, na maior parte dos casos, não é ignorar o risco. É medir o risco e não mudar nada por causa dele. Estes resultados descrevem uma coorte específica: não estimam o risco de qualquer leito atual nem demonstram, por si, ausência de medidas preventivas nos pacientes que tiveram lesão.

Percentuais de prevalência ou de processo descrevem a população e a medida do estudo. Não demonstram que a mesma fração de casos foi causada por negligência ou por falha de uma medida isolada. Avaliar risco, intervenções possíveis, evolução e contexto para discutir prevenção e qualidade.

Por fim, quem adoece disso. O perfil é o do senhor Damião e é o mais comum das enfermarias brasileiras: idoso, com mobilidade reduzida por sequela neurológica, sedação, fratura ou simples fraqueza aguda; desnutrido ou emagrecendo durante a internação; com incontinência ou com dispositivo que umedece a pele; e internado por mais de uma semana. A idade não causa a lesão — a imobilidade causa, e ela é apenas mais frequente no idoso. Um paciente de 32 anos intubado em terapia intensiva, em bloqueio neuromuscular, acumula risco mais rápido que um idoso que senta na poltrona três vezes ao dia. A pergunta que separa quem vai desenvolver de quem não vai é sempre a mesma: há quanto tempo esta pele não muda de posição, e quem é responsável por mudá-la.

04

Por que acontece o que acontece

Intensidade, duração e distribuição da carga interagem com tolerância do tecido, perfusão e cisalhamento. Pressão intensa pode provocar dano em pouco tempo; não há intervalo curto universalmente seguro. A mesma duração é tolerada de modo diferente por um paciente móvel e bem perfundido e por alguém em choque, sedado ou sem sensibilidade. Por isso prevenção combina redução de carga e vigilância clínica.

O mecanismo imediato é isquemia por deformação. A carga comprime capilares e vênulas, interrompe o fluxo, e o tecido para de receber oxigênio e de exportar catabólitos. Mas a compressão vascular explica só uma parte. A carga também deforma diretamente a célula: a membrana estira, o citoesqueleto se desorganiza, a permeabilidade se altera e a célula morre por dano mecânico antes mesmo de a isquemia ter tempo de matá-la. Isso importa clinicamente porque significa que aliviar a pressão depois que a deformação já causou morte celular não desfaz o que foi feito — o alívio previne, não trata.

Na lesão tissular profunda, deformação e isquemia podem começar em tecidos profundos, inclusive músculo, antes de a pele revelar extensão. Outras lesões por pressão são superficiais; não se deve ensinar que todas começam no músculo. Pele íntegra não garante integridade profunda, e pele lesionada não determina sozinha mecanismo ou estágio.

Proeminência óssea comprime camadas de músculo, gordura e pele contra a superfície de apoio; setas indicam carga, reação do apoio e componente de cisalhamento.
A carga mecânica e a deformação podem concentrar-se em tecidos profundos próximos de proeminências ósseas. A área sombreada representa concentração de carga, não necrose obrigatória. Alterações superficiais podem subestimar lesão profunda; anatomia, postura, suporte e duração modificam o risco.

A lesão profunda pode tornar-se visível após período de dano não reconhecido e progredir mesmo depois de retirar carga. Não é possível datar o começo em dias apenas pela cor. Reconstruir história e registros ajuda a esclarecer exposição e oportunidades de prevenção, sem inventar certeza cronológica.

O cisalhamento é a segunda força, e é a que os protocolos escrevem e ninguém enxerga. Quando a cabeceira sobe acima de 30 graus, o esqueleto escorrega para baixo com a gravidade enquanto a pele do sacro fica presa ao lençol pelo atrito. As duas camadas se deslocam em sentidos opostos, e o que fica entre elas — o tecido subcutâneo, com seus vasos perfurantes atravessando obliquamente — é torcido e estirado. Vasos que aguentariam a compressão pura ocluem com muito menos carga quando há torção associada. Na prática, cabeceira alta somada a deslizamento produz lesão sacral com uma fração da pressão que seria necessária sem cisalhamento; foi por isso que o protocolo nacional fixou o teto de 30 graus para a cabeceira e a lateralização a 30 graus, e não a 90.

A umidade age por um terceiro caminho e é frequentemente o que transforma risco em ferida. A pele macerada por urina, fezes, suor, exsudato de ferida ou extravasamento de linfa perde propriedades mecânicas do estrato córneo: o coeficiente de atrito com o lençol aumenta, a resistência à tração cai, e a mesma manobra de deslocar o paciente que antes era inócua passa a arrancar epiderme. O protocolo nacional trata isso como etapa própria da prevenção — manter o paciente seco e a pele hidratada — e a distinção prática é fina, porque a pele precisa ao mesmo tempo estar livre de umidade externa e não estar ressecada, já que a pele seca também é fator de risco independente. Hidratar sem massagear a proeminência óssea, portanto: a massagem sobre área hiperemiada está contraindicada porque agrega cisalhamento justamente onde o tecido já está comprometido.

Some a isso a pressão de perfusão e o estado nutricional, e o quadro fecha. Quem está hipotenso, vasoconstrito por droga vasoativa, anêmico ou hipoxêmico tem menos margem entre a pressão que o colchão aplica e a pressão que ainda mantém o capilar aberto. Quem está desnutrido perde massa muscular e coxim adiposo — o Projeto Diretrizes registra o índice de massa corporal abaixo de 18,5 kg/m2 como fator de risco justamente porque o osso fica mais saliente e a camada que amortece some — e, na fase de reparo, a carência proteica prolonga a fase inflamatória e reduz a síntese de colágeno. Não é coincidência que o paciente que desenvolve lesão seja com frequência o mesmo que aceitou menos de 60% da dieta na semana anterior.

Falta o mecanismo que mais cresce e que menos se procura: a lesão por dispositivo. Aqui não há proeminência óssea do lado de fora — o próprio dispositivo é a superfície dura, e o osso ou a cartilagem do outro lado é o contra-apoio. O cateter nasal de oxigênio comprime a hélice da orelha e a columela; a sonda enteral comprime a asa do nariz; a máscara de ventilação não invasiva comprime o dorso nasal; o oxímetro comprime a polpa digital; o colar cervical comprime o occipital e o mento; o cadarço do tubo orotraqueal comprime a comissura labial e a nuca. São regiões com pele fina, pouco subcutâneo e frequentemente cartilagem logo abaixo, o que significa que a espessura total é atingida rápido. O consenso brasileiro dá a essa lesão uma etiqueta própria e uma pista diagnóstica útil: a marca costuma reproduzir o formato do dispositivo. Se você viu uma marca linear atrás da orelha, procure o que passa por ali.

05

Como se apresenta de verdade

A lesão por pressão tem um espectro estreito de formas e um espectro largo de disfarces. As formas verdadeiras são poucas e estão descritas na classificação que a SOBEST e a SOBENDE adaptaram do consenso de 2016: eritema que não empalidece com pele íntegra, perda parcial com derme exposta, perda total sem exposição de estrutura profunda, perda total com exposição de estrutura profunda, a lesão cuja profundidade está encoberta e a lesão tissular profunda. Os disfarces são muitos, e quase todos moram no mesmo lugar do corpo: a região perineal e sacral de um paciente que também tem incontinência.

O que muda o quadro não é a doença de base, e sim quatro coisas: a cor da pele do paciente, se existe dispositivo apoiado, se existe umidade e se o paciente ainda sente. As seções abaixo percorrem o espectro nessa ordem, do achado que quase ninguém enxerga ao achado que todo mundo enxerga tarde demais.

Seis cortes esquemáticos da pele comparam estágios 1 a 4, lesão não classificável com extensão encoberta e lesão tissular profunda; as camadas têm cores constantes.
O estágio descreve o tecido visível ou diretamente palpável, não uma sequência obrigatória. O estágio 2 não expõe gordura; o 3 não expõe estruturas profundas; o 4 envolve perda de pele e tecido com estruturas profundas expostas ou palpáveis. Na lesão não classificável, a cobertura impede determinar a extensão. A lesão tissular profunda pode ocorrer com pele íntegra ou não. Cores são ilustrativas e variam com o tom da pele.

Percurso de aprendizagem

Examinar pele e dispositivos com segurança, relacionando a carga à posição, perfusão, mobilidade e risco nutricional; não deixar o escore substituir o exame.

Descrever leito, tecido e exsudato antes da cobertura. Diferenciar estágio, infecção, indicação de desbridamento e necessidade de avaliação vascular.

Verificar execução e conforto, medir evolução e ensinar o plano de alta. Comunicar incertezas sem atribuir culpa ou inevitabilidade apenas pela aparência.

O eritema que não empalidece, e por que ele passa despercebido em pele escura

Eritema não branqueável em pele íntegra, numa área compatível com pressão, caracteriza estágio 1. A digitopressão ajuda a distinguir hiperemia branqueável, mas não mede diretamente perfusão capilar nem exclui lesão quando a avaliação é difícil. Mesmo eritema branqueável persistente exige alívio e vigilância. Integrar cor, temperatura, consistência e sintomas, comparando pele vizinha e tonalidade basal.

Há um problema sério de acurácia aqui. Em pele de tonalidade escura, o branqueamento pode simplesmente não ser visível, e o eritema pode não parecer vermelho — a área pode estar apenas com cor diferente da pele vizinha, mais escura, azulada ou acinzentada. O estágio 1 é, por isso, o mais subdiagnosticado, e o viés não é aleatório: ele subestima sistematicamente a doença em pacientes negros. Rogenski e Santos, no estudo brasileiro que o protocolo nacional cita, registram esse ponto na discussão — a dificuldade de identificar o estágio I, particularmente quando a avaliação é feita por não especialistas e em pessoas de pele escura, reduz todas as incidências medidas.

Quando a cor não ajuda, use os outros três sentidos que o consenso lista antes das mudanças visuais: mudança de sensibilidade (dor ou parestesia localizada), mudança de temperatura (área mais quente na fase inflamatória, mais fria quando já há isquemia estabelecida) e mudança de consistência (endurecimento ou amolecimento em relação ao tecido adjacente). Passe o dorso da mão sobre o sacro e compare com a região glútea vizinha. Um endurecimento localizado e doloroso sobre o sacro, em pele de cor uniforme, é achado suficiente para prescrever prevenção agressiva mesmo sem eritema visível.

Descoloração persistente vermelho-escura ou púrpura e bolha sanguínea podem indicar lesão tissular profunda quando mecanismo e exame são compatíveis. Cor castanha isolada, sobretudo em pele pigmentada, não estabelece diagnóstico; considerar equimose, causas vasculares e dermatológicas. Não converter uma classificação de cor em prova de etiologia.

A lesão tissular profunda: pele inteira, dano feito

É a apresentação do senhor Damião e a mais importante de reconhecer, porque é a que mais engana. A pele pode estar íntegra ou já separada, com área localizada e persistente de descoloração vermelho-escura, marrom ou púrpura que não empalidece, ou com bolha de conteúdo sanguinolento, ou com leito escurecido sob uma separação epidérmica fina. Dor e mudança de temperatura frequentemente precedem a mudança de cor — isto é, o paciente pode ter reclamado antes de haver o que ver.

A classificação descreve achados clínicos, mas não elimina incerteza diagnóstica. Se a hipótese de lesão profunda ainda precisa ser confirmada, registrar isso e reavaliar com profissional capacitado. Documentar a evolução e proteger a área sem esperar que a perda de tecido fique evidente.

O curso é imprevisível em uma direção específica. A lesão pode evoluir rapidamente, revelando em 24 a 72 horas a extensão real do dano — a pele se separa, surge escara, e o que era uma mancha vira uma cratera de espessura total — ou pode, menos frequentemente, resolver sem perda tecidual. Não existe manobra que antecipe qual dos dois caminhos aquele paciente vai seguir. O que existe é a obrigação de dizer isso à família antes de acontecer, porque a alternativa é a conversa em que uma mancha roxa virou um buraco em dois dias e ninguém tinha avisado.

Alteração de cor com sinais de perfusão reduzida pede avaliação vascular urgente conforme gravidade. Isquemia, hematoma e lesão por pressão podem se sobrepor. A suspeita de uma não exclui as demais e modifica a segurança de desbridar.

Perda parcial: o estágio 2 e os quatro quadros que roubam o seu lugar

Estágio 2 é perda de espessura parcial com exposição da derme. O leito da ferida é viável, rosa ou vermelho, úmido, e pode aparecer como bolha íntegra preenchida por líquido seroso ou já rompida. O que define é o que não tem: não há tecido adiposo visível, não há tecido de granulação, não há esfacelo, não há escara. Se você vê gordura amarela no fundo, já não é estágio 2. Se você vê esfacelo cobrindo o leito, também não é.

Essas lesões costumam nascer da soma de microclima ruim com cisalhamento, e por isso aparecem na pelve e no calcâneo. Mas é justamente nessa topografia que quatro outros quadros são confundidos com elas todos os dias, e o consenso brasileiro faz questão de dizer que o estágio 2 não descreve nenhum deles.

O primeiro é a dermatite associada à incontinência. É a lesão da urina e das fezes, não da pressão. Distribui-se de forma difusa e simétrica pela região perineal, interglútea e pelas coxas — inclusive sobre tecido mole, longe de proeminência óssea —, tem bordas mal definidas, aspecto de queimadura em espelho, e melhora com barreira e controle da umidade, não com alívio de pressão. A distinção prática que resolve a maioria dos casos: lesão por pressão respeita a proeminência óssea e tem bordas relativamente definidas; dermatite por umidade respeita a dobra e a distribuição do líquido. As distribuições podem se sobrepor e ambas as condições coexistir; controle de umidade não dispensa prevenção de pressão no paciente vulnerável.

O segundo é a dermatite intertriginosa, na dobra inframamária, inguinal ou abdominal do paciente obeso, causada por suor retido e atrito pele contra pele. O terceiro é a lesão de pele associada a adesivo médico, típica do local onde estava a fita do curativo ou do eletrodo, com formato retangular e borda em degrau. O quarto é a lesão por fricção, mais comum em antebraço e dorso da mão de idoso com pele frágil, arrancada durante uma transferência, e que costuma trazer um retalho de epiderme ainda preso a um dos lados.

Chamar qualquer um dos quatro de lesão por pressão tem dois custos concretos. O primeiro é terapêutico: o paciente recebe colchão e reposicionamento quando o que resolveria era creme barreira, troca de fralda ou revisão do adesivo. O segundo é institucional: cada rótulo errado polui o indicador que a instituição usa para saber se a prevenção está funcionando.

Espessura total: estágio 3, estágio 4 e a lesão que não dá para classificar

No estágio 3 há perda de espessura total: a gordura é visível, tecido de granulação e epíbole — a borda enrolada — aparecem com frequência, pode haver esfacelo ou escara, e pode haver descolamento e túneis. O que ainda não há é exposição de fáscia, músculo, tendão, ligamento, cartilagem ou osso. No estágio 4, essas estruturas estão expostas ou podem ser tocadas diretamente com o instrumento; epíbole, descolamento e túneis são ainda mais comuns.

A profundidade absoluta engana e é preciso corrigir esse reflexo. Um estágio 3 no sacro de um paciente obeso pode ter vários centímetros de profundidade; um estágio 3 na orelha, no dorso do nariz, na região occipital ou no maléolo pode ser raso, porque ali quase não existe subcutâneo. Pelo mesmo motivo, uma lesão superficial na asa do nariz pode já ser estágio 4: da pele à cartilagem são poucos milímetros. Estadiar pela régua leva ao erro; estadiar pelo tecido que se vê no fundo, não.

A lesão não classificável é a que tem perda de espessura total com a extensão do dano encoberta por esfacelo ou escara. Não é uma quinta gravidade: é um estágio 3 ou 4 cujo fundo ainda não está visível. Uma vez removido o tecido que encobre, a lesão revela qual dos dois é, e o registro é atualizado. Há uma exceção que precisa estar decorada, porque é onde o interno bem-intencionado causa dano: escara estável — seca, aderente, íntegra, sem eritema em volta e sem flutuação — em calcâneo ou em membro isquêmico não se remove. Ela funciona como cobertura biológica sobre um leito que não tem perfusão para cicatrizar por baixo, e abrir isso troca uma necrose contida por uma ferida aberta em tecido mal perfundido. A escara estável do calcâneo também é preservada sem demonstração de isquemia; a recomendação não autoriza concluir que todo calcâneo com escara tenha perfusão insuficiente.

Existe ainda a lesão por pressão em membrana mucosa, encontrada onde houve dispositivo dentro de uma mucosa: tubo orotraqueal no lábio e na língua, sonda no nariz e no esôfago, sonda vesical no meato uretral. Pela anatomia da mucosa, essa lesão não é categorizável em estágios — descreve-se o achado e o dispositivo, e não se força um número.

A lesão por dispositivo, inclusive em quem caminha

Toda a lógica da prevenção clássica assume um paciente imóvel apoiado num colchão. A lesão relacionada a dispositivo médico rompe essa lógica: ela ocorre onde o material duro encosta, independentemente de o paciente estar deitado, sentado ou caminhando pelo corredor com o cateter de oxigênio no rosto. É a categoria que mais cresce nas séries hospitalares, e a explicação é banal — a quantidade de dispositivos por paciente aumentou, e nenhum protocolo de mudança de decúbito reposiciona uma orelha.

Vale decorar o mapa, porque é ele que transforma o exame em busca ativa. Atrás e sobre a hélice da orelha: cateter nasal de oxigênio, hastes de máscara, cadarço. Columela e asa do nariz: sonda enteral e cânula nasal. Dorso do nariz, malar e mento: máscara de ventilação não invasiva. Comissura labial, língua e lábio: tubo orotraqueal e fixador. Nuca e occipital: colar cervical, coxim de intubação, o próprio travesseiro em paciente sedado. Polpa digital e lóbulo da orelha: sensor de oximetria. Punho e tornozelo: contenção mecânica. Meato uretral e sulco balanoprepucial: sonda vesical mal fixada. Abdome e flanco: dreno, bolsa coletora, tubo de gastrostomia. Panturrilha: dispositivo de compressão pneumática mal ajustado.

O sinal semiológico é característico e resolve a dúvida rápido: a lesão reproduz a forma do dispositivo. Marca linear, marca circular, marca em degrau, marca com a curvatura de um tubo. Quando a marca tem geometria, procure o objeto que a fez. A Nota Técnica da Anvisa reconhece a diferença de risco fixando uma cadência própria de vigilância — as regiões sob dispositivos devem ser avaliadas pelo menos duas vezes ao dia, o dobro da inspeção geral da pele.

Reavaliar indicação, fixação, interface e pontos de pressão com equipe habilitada. Proteção deve ser compatível e preservar função e vedação; não afrouxar colar ou tubo indiscriminadamente. No caso de Damião, conferir se o oxigênio ainda é necessário pelo estado atual, sem deduzir automaticamente que deixou de ser indicado no terceiro dia.

Seis regiões independentes mostram contato de cânula sobre a orelha, sonda na narina, máscara na ponte nasal, tubo na comissura labial, colar no queixo e oxímetro no dedo.
Dispositivos podem concentrar pressão em seus pontos de contato. Inspecionar as áreas acessíveis e adequar ajuste, fixação e medidas preventivas sem comprometer a função do dispositivo. Os painéis representam pessoas e situações distintas. Lesões cutâneas relacionadas a dispositivos seguem a classificação aplicável à pele; lesões de mucosa não recebem esses estágios. Vermelhidão destacada indica um local a examinar, não confirma lesão por pressão.

Onde o corpo encosta: o mapa muda com a posição

Em decúbito dorsal, os pontos de carga são occipital, escápula, cotovelo, sacro e cóccix, e calcâneo. O sacro é o campeão em frequência — 47% das lesões na coorte brasileira de pacientes críticos — porque concentra peso, sofre cisalhamento com a cabeceira elevada e fica no caminho da umidade. O calcâneo é o segundo mais traiçoeiro: tem pele fina, quase nenhum subcutâneo e um osso logo abaixo, e exige verificar descarga efetiva, frequentemente com dispositivo específico ou apoio na panturrilha, sem supor que toda superfície seja incapaz de protegê-lo.

Em decúbito lateral, a carga migra para o trocanter maior, o côndilo lateral do joelho e o maléolo lateral, além da orelha e do ombro do lado apoiado. O trocanter é a razão pela qual o protocolo nacional recomenda lateralizar a 30 graus e não a 90: a 90 graus todo o peso do hemicorpo cai sobre uma proeminência estreita.

Sentar muda a distribuição de pressão e pode concentrá-la em ísquios, sacro ou outros pontos conforme postura. Tempo tolerável depende de mobilidade, superfície, almofada, perfusão e objetivos. Não concluir que cadeira é sempre pior ou prescrever duração fixa para todos; planejar alívio e reavaliar pele e conforto.

Em pronação — cada vez mais comum desde as coortes de insuficiência respiratória grave —, o mapa vira do avesso: face malar, dorso do nariz, mento, crista ilíaca anterior, joelho, dorso do pé e mama ou genitália passam a ser pontos de carga, e nenhum deles faz parte da rotina de inspeção da maioria das equipes.

Duas variações de biotipo fecham a seção. O paciente muito magro tem proeminências mais salientes e menos coxim entre osso e pele — o Projeto Diretrizes registra o índice de massa corporal abaixo de 18,5 kg/m2 exatamente por isso. O paciente com obesidade tem proteção adiposa maior sobre o osso, mas soma três riscos próprios: dobras úmidas onde a pele encosta na pele, dificuldade de reposicionamento com a equipe disponível, e lesões em locais atípicos causadas por tubos, sondas e o próprio peso de um panículo sobre um dreno. Nos dois casos, a régua não é o peso: é quanto tempo aquela pele ficou apoiada.

Acompanhamento de uma lesão: medidas, conforto e decisões compartilhadas

Uma avaliação inicial bem documentada deve permitir que outro profissional reconheça a lesão e compare a evolução. Registre localização, dimensões por técnica consistente, tecido visível, exsudato, bordas, pele ao redor, dor e sinais de perfusão. Se a profundidade não puder ser determinada, explique por quê. Fotografia pode complementar conforme consentimento e política do serviço, mas não substitui descrição e exame. Evite conclusões sobre causa, tempo exato de formação ou evitabilidade baseadas apenas numa imagem. A segurança do plano depende também de mobilidade, continência, nutrição e dispositivos em contato com a pele.

Separar classificação de decisão terapêutica evita automatismos. Saber o estágio não informa sozinho qual cobertura usar, se é seguro desbridar ou quanto tempo o paciente tolera uma posição. Duas lesões classificadas da mesma forma podem ter exsudato, perfusão, dor e objetivos diferentes. Apresente ao supervisor os achados que modificam a conduta. Em escara seca de calcâneo, por exemplo, o aspecto estável e a circulação precisam ser considerados antes de remover tecido. Na piora inflamatória ou sistêmica, a prioridade pode mudar para investigação de infecção e suporte, com equipe apropriada.

O reposicionamento deve ser observado como intervenção, não apenas marcado numa planilha. Pergunte se a posição alivia a área ameaçada, se cria pressão em outro ponto e se interfere na respiração ou na dor. Verifique linhas, sondas, máscaras e apoio de membros após a mudança. O plano pode precisar de adaptação por cirurgia, instabilidade ou preferência do paciente. Registre limitações e alternativas possíveis, discutindo superfície de suporte e ajuda necessária. Cumprir um horário sem conferir o efeito não garante proteção. Por outro lado, uma mudança menos frequente pode exigir justificativa e acompanhamento mais próximo em contexto específico.

Nutrição deve ser avaliada pela ingestão efetiva e pela história, além de peso e exames. Observe se há dificuldade para mastigar, engolir, abrir embalagens ou permanecer em posição adequada. Náusea, dor, restrições desnecessárias e interrupções podem reduzir a oferta. Encaminhar à nutrição é importante, mas não encerra a participação da equipe: é preciso conferir se o plano foi possível e aceito. Albumina baixa pode refletir inflamação e outras condições e não mede sozinha reserva nutricional. A lesão pode exigir cuidado prolongado mesmo depois de melhorar a alimentação; não prometer cicatrização numa velocidade fixa.

Dor merece investigação e tratamento antes e depois dos cuidados. Diferencie dor em repouso, na mudança de posição e durante limpeza ou troca. Pergunte sobre experiências anteriores e avise o que será feito, evitando surpresa. Analgesia deve ser adequada à intensidade e ao paciente, com tempo para agir e vigilância de efeitos adversos. Se a dor aumentar desproporcionalmente ou mudar de padrão, reavalie infecção, perfusão e outras complicações. Não interpretar toda resistência ao cuidado como falta de colaboração. Ajustar a técnica e o horário pode melhorar tanto o conforto quanto a possibilidade de executar a proteção planejada.

Cultura responde a uma pergunta microbiológica, não decide sozinha que a lesão está infectada. Antes de solicitar, descreva sinais locais e sistêmicos, profundidade provável e a decisão que o resultado poderá mudar. A presença de microrganismos numa superfície aberta é esperada; antibiótico sistêmico exige indicação clínica. Quando houver suspeita de infecção profunda, avaliação especializada, amostra representativa e controle de foco podem ser necessários. Os achados devem ser revistos após a intervenção. Persistência de odor isolado, por exemplo, não justifica automaticamente ampliar tratamento, assim como ausência de febre não elimina complicação em pessoa vulnerável.

Quando a evolução não é a esperada, examine o processo inteiro antes de trocar apenas a cobertura. Houve pressão persistente, umidade, fricção, baixa perfusão ou ingestão insuficiente? A técnica foi adequada e o material estava disponível? O paciente consegue participar das medidas propostas? Há novos sintomas ou necessidade de revisar o diagnóstico? Essas perguntas ajudam a escolher uma mudança concreta, acompanhada de prazo e critério de resposta. Uma lista de recomendações sem responsável pode continuar falhando apesar de estar correta no papel. A equipe precisa saber quem fará cada parte e quando a situação deve ser reavaliada.

No fim de vida, explicite objetivos com o paciente quando possível e com a família: conforto, controle de exsudato e odor, prevenção de dor e proteção tolerável da pele. Reposicionar pode continuar útil, mas intensidade e frequência devem considerar sofrimento e benefício. Não presumir que cuidados paliativos signifiquem abandonar prevenção nem impor procedimentos desgastantes sem propósito compartilhado. Registre o acordo e reavalie se a condição mudar. A comunicação deve reconhecer a incerteza sobre evolução e explicar o que a equipe fará, sem atribuir culpa pela lesão nem garantir que toda medida impedirá progressão.

A alta exige mais do que nomear uma cobertura. Descreva a lesão atual, o cuidado indicado, a frequência prevista, quem consegue executá-lo e como obter materiais. Confirme se o paciente pode mudar de posição e se precisa de ajuda ou equipamento. Explique sinais de alerta, como piora importante da dor, expansão de vermelhidão, febre ou alteração do estado geral, e onde procurar atendimento. Defina seguimento e comunicação com a rede responsável. Se algum recurso não estiver garantido, torne a pendência explícita e busque solução antes de presumir que o plano será realizado em casa.

06

Como fechar o diagnóstico

Não existe exame de sangue nem de imagem que faça o diagnóstico de lesão por pressão. A investigação aqui é quase toda semiológica, e por isso o erro do interno não é pedir o exame errado — é não fazer o exame nenhum. As três perguntas que organizam este bloco são: este paciente tem risco (e de quanto)? esta pele já tem lesão (e onde)? e esta lesão está infectada ou apenas colonizada?

A ordem importa. Avaliação de risco e exame de pele acontecem na mesma visita, na admissão, e se repetem todos os dias. Estadiamento acontece quando há lesão. Cultura, quando há suspeita clínica de infecção — nunca antes, porque uma cultura pedida cedo demais responde a uma pergunta que ninguém fez e produz um tratamento que ninguém precisava.

Primeiro: medir o risco, e saber o que o número decide

O instrumento adotado no Brasil é a escala de Braden, indicada pelo protocolo nacional para pacientes acima de 5 anos, com a Braden Q para crianças de 1 a 5 anos; protocolos hospitalares mais recentes, como o do Hospital Regional de Mato Grosso do Sul, deslocam esse corte para 12 anos. A escala tem seis domínios: percepção sensorial, umidade, atividade, mobilidade, nutrição, e fricção e cisalhamento. Os cinco primeiros pontuam de 1 a 4, o último de 1 a 3 — o que faz o escore total variar de 6 a 23. A relação é inversa: quanto menor a soma, maior o risco.

As faixas do protocolo nacional são 15 a 18 para risco baixo, 13 a 14 para moderado, 10 a 12 para alto, e 9 ou menos para muito alto. Cada faixa acrescenta medidas às anteriores: no risco baixo entram cronograma de mudança de decúbito, otimização da mobilização, proteção do calcâneo e manejo de umidade, nutrição, fricção e cisalhamento; no moderado acrescenta-se o posicionamento a 30 graus; no alto, mudança de decúbito mais frequente e coxins de espuma para sustentar a lateralização; no muito alto, superfície de apoio dinâmica com perda de ar, quando disponível, e manejo da dor.

Na classificação do protocolo citado, 19 ou mais fica fora das faixas de risco, mas isso não significa ausência de risco individual. Dispositivo, cirurgia, perfusão ruim, incapacidade de reposicionar e mudança clínica podem demandar medidas apesar do total. Registrar subitens ajuda a dirigir intervenções e acompanhar o que de fato mudou.

Braden deve orientar um plano compartilhado e sua execução, sem depender de duplicar toda medida na prescrição médica. O interno confere necessidades e barreiras com a enfermagem e o supervisor. Uma coorte em que pessoas de alto risco tiveram lesão demonstra associação com vulnerabilidade, sem provar que prevenção não foi realizada ou que medir não teve utilidade.

Reavaliar diariamente não é burocracia. O risco muda em horas: o paciente que entrou andando e recebeu opioide, o que foi sedado para um exame, o que evoluiu com diarreia, o que ficou hipotenso — todos mudaram de faixa sem que ninguém precise reaplicar a escala para perceber. Se a condição clínica piorou, a frequência da inspeção aumenta junto.

Segundo: virar o paciente e olhar — o exame do primeiro dia

O exame de pele completo, da cabeça aos pés, faz parte da avaliação de admissão de todo paciente, e não apenas dos que já pontuaram risco. Ele responde a duas perguntas diferentes: existe lesão prévia (trazida de casa, do serviço de origem, do pronto-socorro) e existe pele em risco. A primeira pergunta tem peso institucional grande — a incidência hospitalar se define como a proporção de pacientes que não tinham lesão na admissão e a desenvolveram depois, o que exige que a condição da pele na entrada esteja documentada. Sem esse registro, toda lesão encontrada no quinto dia é indistinguível de uma lesão que já veio pronta.

Na prática, isso significa uma coisa simples e desconfortável: virar o paciente. Não existe exame de sacro em decúbito dorsal. Peça ajuda, faça em bloco, aproveite o momento do banho se preferir, mas veja o dorso. A sequência que cobre o mapa: occipital e orelhas, escápulas, cotovelos, coluna dorsal, sacro e cóccix, tuberosidades isquiáticas, trocanteres, joelhos, maléolos e calcâneos. Levante o calcanhar com a mão — ele fica escondido no lençol e é onde a lesão passa mais tempo invisível.

Inspecionar áreas sob dispositivos pelo menos duas vezes ao dia conforme protocolo e risco. Garantir suporte e profissional habilitado para reposicionar máscara, tubo ou colar; não soltar fixação crítica sozinho. Verificar pele e mucosa quando acessíveis, necessidade diária e pressão da fixação. Lesões de mucosa são descritas sem estágio numérico.

Durante o exame, três coisas devem ser registradas para cada área alterada, porque são elas que permitem comparar amanhã: localização anatômica precisa, tamanho em centímetros nas maiores dimensões, e o que se vê no leito ou na superfície. Se a pele está íntegra, registre o teste da digitopressão. Se há ferida, registre o tecido do fundo (granulação vermelha, esfacelo amarelo, escara preta), o exsudato e a borda. Uma anotação como lesão sacral em melhora não permite que o plantonista de amanhã saiba de nada; oito por seis centímetros, leito com 60% de esfacelo amarelo, exsudato seroso moderado, borda plana permite.

A resposta à retirada de pressão ajuda, mas não há duração única que confirme ou exclua lesão. Eritema não branqueável pode sugerir lesão por pressão em estágio 1; considerar cor basal, dor, consistência, temperatura e diagnósticos diferenciais. Reavaliar após alívio, sem esperar progressão para proteger a área.

Terceiro: estadiar — o que o estágio decide e o que ele não decide

O estadiamento descreve a profundidade do dano tecidual observável no momento do exame. Ele decide três coisas, e é bom saber quais são. Decide a comunicação: estágio é a linguagem comum entre você, a enfermagem, a estomaterapia e o núcleo de segurança do paciente. Decide a notificação: estágio 3 e estágio 4 são never events de notificação obrigatória à vigilância sanitária, com investigação institucional. E decide, parcialmente, a expectativa de tempo — perda parcial reepiteliza, perda total não reepiteliza, cicatriza por segunda intenção com tecido de granulação e contração, e demora.

O estágio não decide o curativo. Isso é o erro mais frequente de quem aprendeu a lista de coberturas em ordem de estágio. Duas lesões estágio 3 com leitos diferentes — uma com granulação limpa e exsudato escasso, outra com 80% de esfacelo e exsudato abundante — recebem coberturas opostas. Quem escolhe o curativo é o leito, o exsudato e a borda, não o número. O estágio também não decide sozinho a gravidade: um estágio 2 sobre o trocanter de um paciente que continua sendo apoiado ali evolui pior que um estágio 3 sacral com toda a carga aliviada.

Há uma regra formal que o interno viola no prontuário toda semana: o estágio não regride. Uma lesão estágio 4 que granula e diminui não vira estágio 3, depois 2, depois 1 — vira estágio 4 em cicatrização. O motivo é anatômico: o tecido perdido não é reconstituído com músculo, tendão e fáscia; é preenchido com tecido cicatricial. Registrar regressão de estágio produz duas mentiras ao mesmo tempo, a de que o dano diminuiu de categoria e a de que aquele leito voltou a ter a resistência que tinha. Para descrever melhora, use área, tecido do leito e exsudato.

Duas categorias fogem do sistema numérico e é aí que a maioria das dúvidas aparece. A lesão não classificável é aquela em que esfacelo ou escara escondem o fundo: registra-se como não classificável, sabendo que embaixo há um estágio 3 ou 4, e ela ganha um número quando o leito for exposto. A lesão tissular profunda é a de pele descolorida em vermelho-escuro, marrom ou púrpura, íntegra ou com bolha sanguinolenta: também não recebe número, e não deve ser lançada como estágio 1 só porque a pele está inteira. Já a lesão em membrana mucosa não é categorizável de forma alguma pela anatomia do tecido, e se descreve pelo achado e pelo dispositivo que a causou.

Sobre a nomenclatura, vale dizer com todas as letras o que muitos documentos brasileiros ainda escondem. Até 2016 o nome era úlcera por pressão e os estágios eram numerados em algarismos romanos de I a IV; havia a categoria suspeita de lesão tissular profunda e a categoria não graduável. Em abril de 2016 o painel norte-americano trocou o termo para lesão por pressão — porque o dano começa com a pele íntegra e chamar de úlcera um achado sem ulceração era contraditório —, passou a numerar em algarismos arábicos, removeu a palavra suspeita e acrescentou as duas categorias etiológicas, dispositivo médico e membrana mucosa. A SOBEST e a SOBENDE traduziram e validaram esse texto para o português. Na prática brasileira isso significa que o protocolo nacional de prevenção, de 2013, fala uma língua e a classificação vigente fala outra: se você abrir os dois no mesmo dia, verá úlcera estágio IV num e lesão estágio 4 no outro descrevendo a mesma coisa. Escreva no prontuário na nomenclatura atual, e saiba traduzir a antiga quando ela aparecer no impresso da instituição.

Quarto: o diferencial, que aqui se faz olhando e não pedindo

O diferencial da lesão por pressão é quase todo topográfico e clínico. Comece pela pergunta que separa duas famílias inteiras: esta lesão está sobre um ponto de carga, ou está onde o líquido escorre? Sobre proeminência óssea ou sob dispositivo, com borda relativamente definida, é lesão por pressão. Difusa, simétrica, em dobra e em pele mole, com borda irregular e aspecto de irritação, é lesão por umidade — e o tratamento é barreira e controle de incontinência, não colchão.

Suspeita de insuficiência arterial ou venosa exige exame vascular e, quando indicado, medidas de perfusão ou imagem. Pulsos e aparência isolados podem ser insuficientes. Avaliar perfusão antes de desbridamento ou compressão e solicitar equipe apropriada diante de isquemia.

Alterações cutâneas no fim de vida podem refletir pressão, perfusão muito reduzida e múltiplos mecanismos. Não atribuir automaticamente toda lesão à falência da pele nem concluir evitabilidade apenas pelo aspecto. Definir objetivos de conforto, prevenção tolerável e documentação com a equipe e a família.

Exames são dirigidos ao diferencial e às complicações: avaliação vascular pode ser indispensável no pé frio sem pulsos, e imagem ajuda em coleções/osteomielite. RM tem limitações de especificidade em osso sob pressão crônica; não confirma sozinha infecção. Se a definição mudar tratamento e houver condição, discutir biópsia óssea com histologia/cultura. Necrose infectada, sepse ou isquemia aguda exigem atuação urgente sem esperar investigação eletiva.

Quinto: colonização e infecção, ou por que não se trata swab

Toda ferida crônica aberta tem bactéria. Isso não é opinião, é a condição normal de um tecido exposto: a superfície é contaminada por microrganismos que chegam do ambiente e da própria pele, e parte deles se estabelece e se multiplica sem invadir tecido viável nem produzir resposta do hospedeiro. Esse estado é a colonização, e ele não é doença. O protocolo de feridas de Porto Alegre descreve o passo seguinte dessa escala: em feridas de difícil cicatrização o biofilme quase sempre está presente, inclusive na área ao redor, e por ser uma comunidade organizada e aderida não é visível a olho nu — o que se vê é a pista indireta, aquele tecido gelatinoso que reaparece 24 horas depois do desbridamento.

Infecção é outra coisa: é invasão de tecido viável com resposta do hospedeiro. Os sinais que a definem são clínicos e locais primeiro — dor nova ou desproporcional, aumento rápido da área, eritema que se estende além da borda, calor, edema, exsudato purulento denso amarelo, esverdeado ou acastanhado, odor forte, tecido de granulação friável que sangra ao toque, e estagnação de uma ferida que vinha cicatrizando. Depois, sistêmicos: febre, leucocitose, taquicardia, descompensação glicêmica, delirium novo. Nenhum desses sinais aparece na cultura; todos aparecem no paciente.

Não tratar cultura isolada nem colher rotineiramente ferida sem suspeita clínica. Quando indicada, amostra de tecido/aspirado após limpeza pode ser mais informativa; técnica validada de swab, como Levine, é alternativa em contextos apropriados, interpretada com limitações. Odor e colonização não obrigam antibiótico sistêmico. Infecção profunda ou sistêmica requer tratamento e controle de foco, sem aguardar coleta difícil.

Uma ferida estagnada merece revisão de pressão, perfusão, edema, nutrição, tecido inviável e infecção. Camada gelatinosa e exsudato são inespecíficos e não identificam biofilme a olho nu. Cuidado local pode incluir limpeza, desbridamento selecionado e antimicrobiano tópico com indicação e reavaliação. Não instituir desbridamento traumático diário ou produto indefinido pela aparência isolada.

Antibiótico sistêmico entra quando há infecção invasiva: celulite se estendendo pela pele em volta, fasciíte, abscesso, osteomielite, ou sinais sistêmicos com repercussão. A partir daí a pergunta muda de é infecção para qual é a extensão, e a resposta define o tempo de tratamento: dias para celulite de partes moles, semanas para osteomielite comprovada. E há um passo cirúrgico que nenhuma dose substitui — coleção fechada e tecido necrótico infectado precisam ser abertos e removidos.

Sexto: o que existe no SUS, e o que fazer quando não existe

Boa parte da prevenção de lesão por pressão não custa nada e não depende de compra: virar o paciente, baixar a cabeceira, secar a pele, tirar o dispositivo desnecessário, elevar o calcanhar com um travesseiro comum, oferecer a comadre nos horários de mudança de decúbito, e escrever tudo isso na prescrição. O protocolo nacional lista essas medidas como as etapas essenciais justamente porque são universais e aplicáveis em qualquer serviço.

O item que custa e que mais falta é a superfície de apoio. O protocolo nacional recomenda colchão de espuma de especificação alta em lugar do colchão hospitalar padrão para todo paciente de risco, e superfície ativa — sobreposição ou colchão de alternância de pressão — quando o reposicionamento manual frequente não é possível. Duas observações práticas do mesmo documento poupam dinheiro e erro: sobreposições ativas e colchões de redistribuição têm eficácia semelhante sobre incidência, e não se deve usar sobreposição de células pequenas com diâmetro menor que 10 cm. Quando não há colchão disponível para todos, a régua de racionamento é a faixa de risco: o de risco muito alto vem primeiro.

Para o calcâneo, a solução barata é a boa. Um travesseiro colocado sob a panturrilha, de forma que o peso da perna se distribua ao longo da face posterior e o calcanhar fique suspenso, cumpre o objetivo. Duas travas na execução: não apoiar o travesseiro sobre o tendão de Aquiles, e manter o joelho em leve flexão, porque a hiperextensão pode comprimir a veia poplítea e favorecer trombose. O ponto é evitar trocar um problema por outro.

Nas coberturas, o que costuma existir na farmácia hospitalar brasileira é gaze, soro fisiológico, ácidos graxos essenciais, hidrogel, alginato de cálcio, hidrocoloide, carvão ativado com prata, espuma de poliuretano com e sem prata, filme transparente, colagenase e papaína. Três desses — colagenase, papaína e ácidos graxos essenciais — não constam da Rename 2024, que é a relação dos medicamentos que o SUS financia pelos componentes da assistência farmacêutica: não chegam à enfermaria por esse caminho, e sim pela padronização e pela compra de cada hospital, e na alta nenhum desses componentes os fornece. O que costuma faltar é o item de alto custo: terapia por pressão negativa, matrizes e alguns antimicrobianos tópicos. A boa notícia é que o princípio do curativo — manter o leito úmido, absorver o exsudato que sobra, proteger a borda e a pele em volta, remover o tecido inviável — pode ser cumprido com o que existe. A má é que gaze seca trocada de 12 em 12 horas cumpre o oposto: resseca o leito, adere à granulação e desbrida o tecido novo junto quando é retirada.

Também é preciso ser honesto sobre acesso a especialista. Estomaterapeuta e serviço de curativos não existem em todo hospital, e nem toda lesão precisa deles. O que deve ser encaminhado, quando existe o serviço: lesão de espessura total extensa, lesão com túnel ou descolamento, suspeita de osteomielite, lesão que não avança apesar de cuidado correto, e todo caso com indicação de desbridamento instrumental ou cirúrgico. O que não deve esperar parecer para começar: alívio de pressão, limpeza com soro morno, cobertura adequada ao leito e correção nutricional. Deixar um paciente sem prevenção enquanto se aguarda avaliação especializada é o único erro dessa lista que é integralmente do médico.

07

Do risco ao curativo: as réguas que decidem

Reconhecer dano por pressão, diferenciar outras lesões de pele e formular um plano interdisciplinar de prevenção, tratamento e acompanhamento.

  1. 1Admissão, primeiras 24 horas: aplique a escala de Braden e faça o exame de pele completo, com o paciente virado. Registre a condição da pele na entrada — é o que separa lesão trazida de lesão adquirida no seu serviço.
  2. 2Escore obtido: transforme o número em prescrição no mesmo momento. Escore anotado sem medida prescrita é dado sem decisão.
  3. 3Risco identificado: prescreva alívio de pressão (cronograma de reposicionamento e superfície de apoio), manejo da umidade, proteção do calcâneo, cabeceira em até 30 graus e avaliação nutricional. Sinalize o risco na cabeceira.
  4. 4Todos os dias: reavalie o escore, inspecione a pele inteira uma vez e as áreas sob dispositivo duas vezes. Pergunte de cada dispositivo se ele ainda é necessário.
  5. 5Se encontrou pele íntegra com eritema: teste a digitopressão. Empalidece e volta, é hiperemia reativa — não reposicione o paciente sobre ela até normalizar. Não empalidece, é lesão estágio 1 — aumente a agressividade da prevenção e registre.
  6. 6Se encontrou pele íntegra com descoloração vermelho-escura, marrom ou púrpura, ou bolha sanguinolenta: registre como lesão tissular profunda, alivie a carga totalmente naquela região, avise a família de que a extensão real pode aparecer em 24 a 72 horas, e reavalie duas vezes ao dia.
  7. 7Se encontrou ferida aberta: descreva o leito, o exsudato, a borda e as medidas, e estadie. Só então escolha a cobertura, pelo leito e pelo exsudato.
  8. 8Fundo encoberto por esfacelo ou escara: registre como não classificável. Se há indicação e não há contraindicação, planeje o desbridamento. Escara estável e aderida em calcâneo, em membro isquêmico, em doença terminal ou em ferida arterial com necrose seca: não desbride.
  9. 9Procure sinal clínico de infecção antes de pedir qualquer cultura: dor nova, eritema que avança além da borda, exsudato purulento, odor, febre, estagnação. Sem esses sinais, o achado microbiológico é colonização.
  10. 10Com infecção invasiva: colete material profundo, inicie antibiótico sistêmico e avalie necessidade de drenagem ou desbridamento cirúrgico. Sem infecção invasiva e com ferida estagnada: intensifique o cuidado local, não o antibiótico.
  11. 11A cada semana: meça a área, compare com a semana anterior e reveja as quatro causas de estagnação — carga não aliviada, umidade não controlada, tecido inviável no leito e nutrição insuficiente.
  12. 12Antes da alta: escreva o plano de curativo com nome, frequência e sinais de alarme, e ensine o cuidador com as mãos dele, não com as suas.

A profundidade dá o nome

As quatro barras representam, na mesma escala, até onde o dano chega: a primeira para na pele íntegra com eritema que não empalidece; a segunda atinge a derme; a terceira atravessa a derme e chega ao tecido adiposo sem expor estrutura profunda; a quarta alcança fáscia, músculo, tendão ou osso. A profundidade em centímetros varia com a região do corpo — na orelha e na asa do nariz a quarta barra é curta, e nem por isso o dano é menor.

O escore de Braden é uma escala invertida

A régua vai de 6 a 23 pontos, da esquerda para a direita, e o risco diminui conforme a soma aumenta. As quatro divisões marcam as faixas do protocolo nacional: 9 ou menos, risco muito alto; de 10 a 12, alto; 13 e 14, moderado; de 15 a 18, baixo; a partir de 19, sem risco. Cada faixa acrescenta medidas às anteriores em vez de substituí-las.

O que cada categoria muda na conduta

CategoriaO que se vêO que muda na condutaNotificação e registro
Estágio 1Pele íntegra, eritema que não empalidece à digitopressão; em pele escura pode ser só mudança de cor, temperatura ou consistênciaAlívio total de carga na região, revisão da superfície de apoio e da frequência de reposicionamento; hidratante sem massagear a proeminênciaRegistro obrigatório com localização e medida; reavaliação em cada turno
Estágio 2Perda parcial com derme exposta, leito rosa ou vermelho e úmido, ou bolha serosa íntegra ou rompida; sem gordura, granulação, esfacelo ou escaraCobertura que mantenha o leito úmido e proteja a borda; excluir dermatite por umidade e lesão por adesivo antes de assumir pressãoRegistro; a bolha íntegra não é rompida de rotina
Estágio 3Perda total com gordura visível, com ou sem granulação, esfacelo, epíbole, descolamento ou túneis; sem exposição de estrutura profundaDesbridar o inviável, preencher cavidade sem compactar, manejar exsudato; reavaliar nutrição e proteínaNever event: notificação obrigatória à vigilância sanitária e investigação institucional
Estágio 4Perda total com fáscia, músculo, tendão, ligamento, cartilagem ou osso visível ou palpávelTudo do estágio 3, mais avaliação de osteomielite e de indicação cirúrgica; considerar parecer especializadoNever event: notificação obrigatória; óbito relacionado, em até 72 horas
Não classificávelPerda total com o fundo encoberto por esfacelo ou escaraPlanejar desbridamento se houver indicação; ao expor o leito, reclassificar como estágio 3 ou 4Registro como não classificável; nunca lançar como estágio 1 ou 2
Tissular profundaPele íntegra ou não, com descoloração vermelho-escura, marrom ou púrpura persistente que não empalidece, ou bolha sanguinolentaAlívio total imediato; vigilância duas vezes ao dia; conversa antecipada com a família sobre evolução possível em 24 a 72 horasRegistro na categoria própria; não recebe número de estágio
Relacionada a dispositivoLesão com o formato do dispositivo, em orelha, nariz, lábio, nuca, dedo, meato, punho ou panturrilhaReposicionar, afrouxar, interpor proteção, trocar o ponto de apoio e reavaliar a necessidade do dispositivo; colchão não resolveEstadiar pelo mesmo sistema e registrar o dispositivo causador
Membrana mucosaLesão em mucosa onde houve dispositivo: lábio, língua, narina interna, esôfago, meato uretralRetirar ou reposicionar o dispositivo; higiene oral e lubrificaçãoDescrever o achado e o dispositivo; não é categorizável por estágio

A cobertura se escolhe pelo leito e pelo exsudato, não pelo estágio

Leito da feridaExsudatoO que o curativo precisa fazerCom o que costuma existir no serviço
Granulação vermelha, limpaEscassoManter úmido sem macerar a borda; proteger de trauma na trocaGaze umedecida em soro, hidrogel em camada fina, filme transparente ou espuma fina
Granulação vermelha, limpaModerado a abundanteAbsorver o excesso sem ressecar o leito; espaçar as trocasEspuma de poliuretano ou hidrofibra, com apósito secundário
Esfacelo amarelo aderidoEscassoReidratar o tecido inviável para desbridamento autolítico ou enzimáticoHidrogel, colagenase ou papaína conforme prescrição de quem executa
Esfacelo amareloAbundanteAvaliar profundidade, tecido, exsudato, perfusão e sinais de infecção; selecionar cobertura e eventual desbridamento conforme indicação. Não desbridar automaticamente toda escara seca estável, sobretudo em calcâneo com perfusão incertaAlginato de cálcio ou hidrofibra, com cobertura secundária absorvente
Escara preta seca e aderida em calcâneo, sem eritema nem flutuaçãoAusenteProteger e vigiar; não amolecer nem removerManter seca, avaliar perfusão do membro, reavaliar diariamente por sinais de infecção
Leito com sangramento fácilVariávelHemostasia local e cobertura que não adiraAlginato de cálcio; evitar retirada a seco
Sinais de carga bacteriana alta ou biofilmeAumentado, com odorReavaliar causas de estagnação; limpeza, desbridamento se indicado e antimicrobiano tópico com prazo de revisãoSolução de polihexanida com betaína por cerca de 15 minutos, cobertura com prata ou carvão ativado
Cavidade, túnel ou descolamentoVariávelPreencher frouxamente para evitar fechamento em ponte, sem compactarAlginato em fita ou gaze umedecida, com contagem registrada do que entrou e do que saiu
Lesão em paciente em fim de vidaVariávelConforto, controle de odor e de dor; cicatrização deixa de ser a metaCurativo não aderente, gaze umedecida, trocas espaçadas conforme tolerância

A limpeza é a etapa que mais influencia o resultado e a que mais se faz errado. Soro fisiológico a 0,9% morno, em torno de 37 graus: o protocolo de feridas de Porto Alegre registra que soro frio retarda a cicatrização. Em ferida de difícil cicatrização, a pele em volta também se limpa, até cerca de 20 cm da borda, porque calosidade, restos de produto e escamas mantêm carga bacteriana ao lado do leito.

Examinar pele em boa iluminação, comparar áreas e avaliar dor, temperatura, consistência e perfusão. Temperatura do ambiente, distância de observação ou um intervalo fixo após aliviar pressão não transformam o exame em teste diagnóstico exato. Em pele escura, mudança de cor pode ser sutil; integrar outros sinais e reavaliar.

Individualizar frequência, técnica e superfície de reposicionamento. Duas horas são um ponto de partida possível, não limite universal. Alterações persistentes exigem alívio imediato e revisão de perfusão, dispositivos, superfície e execução. No fim de vida, conforto e preferência podem justificar intervalos diferentes, com explicação dos riscos e registro.

08

A conduta, hora a hora

Prevenção e tratamento pertencem ao cuidado interdisciplinar diário. O interno precisa reconhecer risco, examinar, apresentar um plano ao supervisor e verificar sua execução com a equipe. A prescrição médica se articula com o plano de enfermagem e a avaliação nutricional, sem transformar toda intervenção em ato privativo do médico. Lesão instalada também exige prevenção de novas áreas e manutenção de mobilidade segura.

  1. Admissão, primeiras 24 horas

    Avaliar risco e examinar toda a pele na admissão, documentando lesões presentes, informações da transferência e incertezas. Braden auxilia, mas não substitui exame nem exclui risco com escore alto. Inspecionar pontos de dispositivos de modo seguro, com equipe habilitada quando sua movimentação pode comprometer ventilação, sonda ou imobilização cervical. Integrar o plano com enfermagem, nutrição e fisioterapia desde o início.

    Prescrição
    • Avaliação de risco pela escala de Braden na admissão e diariamente, com registro do escore e da faixa de risco no prontuário (protocolo nacional de prevenção, 2013; protocolo hospitalar PTC.DEPQI-NQSP.002, 2024).
    • Exame de pele completo da cabeça aos pés com o paciente lateralizado, na admissão, com registro de localização, medida e aspecto de toda alteração encontrada.
    • Inspeção da pele uma vez ao dia e das áreas sob dispositivos duas vezes ao dia (Nota Técnica GVIMS/GGTES nº 03/2017).
  2. Dia 1 — plano interdisciplinar de prevenção

    Pactuar e registrar um plano executável de posicionamento, superfície, umidade, nutrição e dispositivos, respeitando a autonomia e o escopo de cada profissão. Duas horas podem ser um intervalo inicial, ajustado à tolerância, perfusão, superfície, sono e objetivos. Eritema persistente exige retirar carga e reavaliar o conjunto; não prova que o único problema seja o intervalo. Baixar cabeceira ou retirar dispositivo depende da indicação clínica: prevenção de aspiração e suporte respiratório têm de ser preservados.

    Prescrição
    • Cronograma individual de reposicionamento, evitando apoio direto sobre lesões; lateralização próxima de 30 graus quando adequada e tolerada. Intervalo inicial de 2 horas pode ser usado, com reavaliação e registro de impedimentos, sem tratá-lo como máximo universal.
    • Manter a menor elevação de cabeceira compatível com segurança clínica. Disfagia, dieta enteral, risco de aspiração e desconforto respiratório podem exigir 30–45 graus ou mais conforme condição; evitar deslizamento e reforçar alívio sacral. Não baixar a cabeceira apenas para cumprir meta cutânea.
    • Calcâneos suspensos com travesseiro sob a panturrilha, sem apoio sobre o tendão de Aquiles e com joelho em leve flexão, evitando hiperextensão pelo risco de compressão da veia poplítea (protocolo nacional de prevenção, 2013).
    • Colchão de espuma de especificação alta para todo paciente classificado como de risco; superfície ativa de alternância de pressão quando o reposicionamento manual frequente não for possível; não utilizar sobreposição de células menores que 10 cm (protocolo nacional de prevenção, 2013).
    • Higiene com água morna e sabão neutro sempre que houver sujidade; hidratante na pele seca pelo menos uma vez ao dia, com movimentos suaves e sem massagear proeminência óssea ou área hiperemiada (protocolo nacional de prevenção, 2013).
    • Creme barreira ou película protetora nas áreas expostas a urina, fezes, suor ou exsudato; oferecer comadre ou papagaio nos horários de mudança de decúbito (protocolo nacional de prevenção, 2013).
    • Rever necessidade e apoio de dispositivos diariamente. Inspecionar pele pelo menos duas vezes ao dia conforme risco, sem remover ou afrouxar tubo, sonda ou colar de modo inseguro. Proteção interposta deve ser compatível com o dispositivo e não comprometer vedação, fixação ou função.
  3. Dia 1 — nutrição e hidratação, com meta numérica

    Solicitar avaliação nutricional e acompanhar o que realmente chega ao paciente. A faixa histórica de 30–35 kcal/kg/dia e 1,2–1,5 g de proteína/kg/dia é uma referência para adultos com lesão e risco nutricional, ajustada à doença, catabolismo e função renal. Para Damião, 54 kg, corresponde a 1.620–1.890 kcal e aproximadamente 65–81 g de proteína, como alvo após avaliação, não oferta inicial obrigatória. Pouca ingesta pode exigir intervenção já hoje; em risco de realimentação, progressão, tiamina e eletrólitos entram no plano. Múltiplas lesões não provam, isoladamente, necessidade de elevar a proteína em qualquer paciente.

    Prescrição
    • Meta de 30 a 35 kcal/kg/dia — para 54 kg, 1.620 a 1.890 kcal/dia — ajustada às comorbidades (Projeto Diretrizes AMB/CFM, 2011).
    • Referência de proteína 1,2–1,5 g/kg/dia, cerca de 65–81 g/dia para 54 kg, ajustada pela avaliação nutricional e clínica. Catabolismo elevado pode demandar mais; doença renal e modalidade de terapia substitutiva mudam a decisão.
    • Registrar ingestão e volume efetivamente administrado por sonda. Corrigir barreiras e discutir suplemento/via apropriada precocemente; menos de 60% das necessidades por 5–7 dias é um alerta histórico, não prazo obrigatório para esperar nem prova de adequação quando superado.
    • Avaliação nutricional formal no início do tratamento e reavaliação sempre que a lesão não melhorar ou não fechar (Projeto Diretrizes AMB/CFM, 2011).
    • Oferta hídrica adequada ao balanço, corrigindo desidratação — o déficit hídrico acompanha o déficit nutricional e agrava a isquemia tecidual (protocolo nacional de prevenção, 2013).
  4. Hora 0 da lesão encontrada — os primeiros trinta minutos

    A técnica avisou, você foi ao leito, e existe uma lesão. Os primeiros trinta minutos não são de curativo: são de alívio de carga, descrição e comunicação. Alívio de carga significa que aquela região sai imediatamente do plano de reposicionamento como superfície de apoio — o paciente não volta a deitar sobre ela, e o cronograma é reescrito com as posições que restam. Descrição significa localização, medidas nas maiores dimensões, tecido do leito, exsudato e borda, com a categoria correta. Comunicação significa avisar a enfermagem, registrar, e — se for estágio 3 ou 4 — acionar o núcleo de segurança do paciente, porque a partir daí existe um prazo institucional correndo.

    Prescrição
    • Aliviar a região lesada, rever posições e superfície com a equipe. Considerar superfície ativa conforme necessidade e resposta; não é troca automática para toda lesão nem substitui reposicionamento.
    • Descrever em prontuário: localização anatômica, medidas em centímetros, tecido do leito em percentual aproximado, tipo e volume de exsudato, aspecto da borda e da pele em volta, e a categoria da lesão pela classificação vigente.
    • Registrar e comunicar todas as lesões novas ao fluxo institucional de segurança. Estágios 3 e 4 integram a categoria de never events nas normas citadas; o núcleo define notificação externa e prazos aplicáveis. Não esperar aprofundamento ou desbridamento para comunicar uma lesão tissular profunda ou não classificável.
    • Reavaliar o risco e todos os fatores modificáveis no mesmo momento: nutrição, umidade, cabeceira, dispositivos, pressão arterial e uso de vasoconstritor.
    • Informar o paciente e a família no mesmo dia, antes que eles descubram no banho.
  5. Dia 1 da lesão instalada — limpar, desbridar, cobrir

    Limpar suavemente, avaliar tecido e perfusão, decidir se há indicação de desbridamento e escolher cobertura pela umidade, exsudato, localização e conforto. Não se remove tecido viável nem se desbrida por calendário. Soro fisiológico em temperatura confortável é opção; 37 graus e limpeza em raio de 20 cm são detalhes de protocolo local, não requisitos universais. Método e execução dependem da competência profissional, treinamento, extensão, risco hemorrágico e analgesia. Escara estável do calcâneo e necrose isquêmica seca exigem preservação e avaliação adequada.

    Prescrição
    • Limpeza com soro fisiológico a 0,9% e cuidado da pele perilesional, sem fricção traumática. Se aquecido, usar método seguro e conferir temperatura para evitar queimadura; não impor temperatura exata de 37 graus.
    • Avaliar necessidade e método de desbridamento a cada exame, sem realizá-lo obrigatoriamente em toda troca. Preservar escara estável do calcâneo e necrose isquêmica seca sem infecção; avaliar perfusão e sangramento. Cuidados paliativos não são contraindicação absoluta: benefício sintomático, carga do procedimento e objetivos orientam decisão compartilhada.
    • Cobertura pelo leito e pelo exsudato: hidrogel para reidratar tecido inviável com exsudato escasso; alginato de cálcio ou hidrofibra para exsudato abundante e para leito com sangramento fácil; espuma de poliuretano para exsudato médio a abundante em leito com granulação (protocolo de feridas de Porto Alegre, 2024).
    • Ferida estagnada exige reavaliar carga, perfusão, nutrição e infecção. Considerar antimicrobiano tópico por período definido e desbridamento quando indicado; aspecto gelatinoso não confirma biofilme. Produto e tempo de contato seguem fabricante/protocolo, com revisão da necessidade.
    • Preencher cavidade, túnel e descolamento frouxamente, sem compactar, registrando o que entrou e o que saiu em cada troca.
    • Não usar gaze seca aderente sobre leito com granulação: ela resseca o leito e remove tecido novo na retirada.
  6. Antes de cada curativo — a analgesia que quase nunca é prescrita

    Troca de curativo de lesão de espessura total dói, e desbridamento dói mais. O paciente que grita no curativo é o mesmo que, na próxima vez, se contrai, resiste ao reposicionamento, e passa a recusar o banho — e a recusa vira mais tempo na mesma posição, que vira mais lesão. Analgesia antes do procedimento é intervenção de prevenção, não conforto opcional. Prescreva com horário fixo em relação ao curativo, não conforme necessário, porque o conforme necessário chega depois da dor. O protocolo nacional inclui manejo da dor entre as medidas do risco muito alto, e o Manual de Cuidados Paliativos traz as doses usadas aqui.

    Prescrição
    • Planejar analgesia antes da troca segundo intensidade, via segura e condições clínicas. Exemplo: dipirona 500 mg–1 g por via oral, ou IV com preparo e velocidade conferidos, sem ultrapassar 4 g/dia no esquema adulto aqui proposto e reduzindo conforme fragilidade/contraindicações. Não converter automaticamente apresentação oral em intravenosa.
    • Dor intensa pode exigir opioide titulado em baixa dose, com responsável, avaliação renal e vigilância de consciência/respiração. Morfina 2 mg IV ou SC é exemplo possível em adulto selecionado, não dose obrigatória para idoso frágil; via IV titulada não tem o mesmo início da SC. Programar tempo conforme via e reavaliar efeito antes de repetir.
    • Registrar a intensidade da dor antes e depois de cada troca e usar esse registro para ajustar a analgesia da próxima.
    • Escolher cobertura que permita trocas mais espaçadas quando a dor for o fator limitante — menos trocas é menos dor e menos trauma no leito.
  7. Quando vira infecção — e quando não é

    Repita para si mesmo a régua da seção de investigação: colonização é a norma, infecção é invasão com resposta do hospedeiro. Antibiótico sistêmico entra quando existe celulite se estendendo além da borda, abscesso, fasciíte, osteomielite ou repercussão sistêmica — não quando o exsudato aumentou, não quando a ferida tem cheiro, e nunca por resultado de swab de superfície. Quando a decisão de tratar for tomada, colete material profundo antes, escolha cobertura empírica ampla porque essas infecções são polimicrobianas, e defina a duração pela extensão: dias para partes moles, semanas para osteomielite comprovada. E lembre que a dose de antibiótico não substitui o bisturi: coleção e tecido necrótico infectado precisam ser abertos e removidos.

    Prescrição
    • Se infecção suspeita e resultado puder orientar tratamento, colher amostra após limpeza: tecido profundo/aspirado preferidos; swab por técnica validada pode ser alternativa com limitações. Não cultivar rotineiramente lesão sem sinais e não atrasar antibiótico urgente por coleta.
    • Infecção invasiva exige esquema pela gravidade, provável flora, resistência, alergias e função renal. Piperacilina/tazobactam é uma opção em certos quadros graves polimicrobianos, não padrão para toda lesão hospitalar; se usada, conferir dose/intervalo local e infusão de pelo menos 30 minutos ou prolongada conforme protocolo. Avaliar cobertura de MRSA quando indicada.
    • Ajustar a dose e o intervalo à função renal, conforme a bula, e reavaliar o esquema com o resultado da cultura profunda em 48 a 72 horas, descalonando sempre que possível.
    • Avaliar necessidade de drenagem cirúrgica de coleção e de desbridamento cirúrgico de tecido necrótico infectado no mesmo dia da suspeita.
    • Na suspeita de osteomielite, avaliar extensão e necessidade de imagem, discussão cirúrgica e amostra óssea para histologia/cultura quando viável. Osso exposto ou sondagem positiva não confirmam osteomielite em lesão por pressão; RM é sensível, mas alterações reativas reduzem especificidade. Não atrasar tratamento de sepse para obter confirmação.
  8. Alta ou transferência — o plano que sai com o paciente

    Lesão por pressão não fecha no tempo da internação, e é justamente na transição que ela piora. O que sai com o paciente precisa ser um plano executável por quem vai executá-lo: um cuidador que talvez tenha uma pessoa só para virar um adulto na cama, um serviço de atenção domiciliar que passa duas vezes por semana, ou uma instituição de longa permanência com equipe reduzida. Escreva o plano com nome de material, frequência e sinais de alarme, e ensine com as mãos do cuidador, não com as suas — peça que ele faça a troca na sua frente antes da alta. E encaminhe: a atenção primária e o serviço de atenção domiciliar têm protocolo próprio de feridas e são o lugar certo do seguimento.

    Prescrição
    • Relatório de alta descrevendo categoria, localização, medidas atuais, evolução durante a internação e a cobertura em uso, com nome do produto e frequência de troca.
    • Cronograma de reposicionamento por escrito, adaptado ao número de pessoas disponíveis em casa, e orientação sobre cabeceira, calcâneo suspenso e proteção contra umidade.
    • Meta nutricional mantida por escrito, com orientação de aceitação mínima e sinal de alerta para perda de peso.
    • Sinais de alarme para retorno imediato: aumento rápido da área, dor nova, eritema que avança na pele em volta, exsudato purulento, odor forte, febre.
    • Encaminhamento formal à unidade básica de saúde ou ao serviço de atenção domiciliar para continuidade do curativo, com contrarreferência.
    • Demonstração da troca de curativo feita pelo cuidador, sob supervisão, antes da alta.
09

Como saber se está funcionando

Prevenção e curativo são intervenções que só existem se forem verificadas. A pergunta desta seção não é o que prescrever, e sim como saber, em prazos definidos, se o que foi prescrito está acontecendo e está funcionando. Há dois níveis de verificação, e o interno costuma pular o primeiro: antes de perguntar se a lesão está melhorando, pergunte se a prevenção está sendo executada. Cronograma de decúbito escrito e não cumprido produz exatamente o mesmo resultado que cronograma não escrito.

Uma advertência que evita duas semanas perdidas: cicatrização de perda total é lenta por natureza. Não se troca a cobertura porque a ferida está do mesmo tamanho em dois dias. Troca-se o plano quando, no prazo adequado ao tipo de lesão, o parâmetro que deveria ter mudado não mudou.

Execução do cronograma de reposicionamentoTodo dia, na visita, olhando o registro e a pele — não perguntando se está sendo feito

Esperado: Registro das mudanças de posição no período e ausência de hiperemia persistente nos pontos de apoio quando o paciente é virado

Se não melhora: Retirar carga da área com alteração persistente e rever superfície, frequência, técnica e perfusão. Registro em branco exige conferir o que ocorreu e melhorar documentação; não prova ausência de cuidado nem define sozinho problema de pessoal. Discutir barreiras reais com a equipe e registrar plano viável.

Escore de BradenDiariamente, e sempre que houver mudança clínica relevante — sedação, hipotensão, diarreia, jejum, perda de mobilidade

Esperado: Estabilidade ou aumento do escore conforme o paciente recupera mobilidade, continência e ingesta

Se não melhora: Queda do escore é gatilho para subir de faixa de prevenção no mesmo dia. Escore estável e baixo por mais de uma semana em paciente que deveria estar melhorando obriga a revisar o motivo: sedação evitável, dor não tratada que impede a mobilização, dispositivo que prende o paciente à cama.

Pele íntegra sob dispositivosPelo menos duas vezes ao dia conforme risco, com inspeção e reposicionamento seguro dos dispositivos

Esperado: Ausência de marca, eritema ou sulco na pele sob e ao redor do dispositivo

Se não melhora: Marca persistente pede revisão de pressão, tamanho, interface, fixação e indicação do dispositivo, preservando função. Pode ser necessário outro modelo ou apoio, com equipe habilitada; não remover suporte essencial sem alternativa segura.

Área da lesãoMedida em centímetros nas maiores dimensões, uma vez por semana, sempre pelo mesmo método

Esperado: Redução progressiva da área a partir da segunda ou terceira semana, em lesão limpa com carga aliviada e nutrição corrigida

Se não melhora: Ferida que não reduz área em duas a quatro semanas apesar de cuidado adequado é ferida estagnada, e a causa costuma estar em uma de quatro caixas: carga ainda não aliviada, umidade não controlada, tecido inviável no leito ou nutrição insuficiente. Revise as quatro antes de trocar o produto — a troca de cobertura é a resposta menos frequentemente correta.

Tecido do leito da feridaA cada troca de curativo, com registro do percentual aproximado de granulação, esfacelo e escara

Esperado: Aumento progressivo da proporção de granulação vermelha e redução do esfacelo e da escara

Se não melhora: Reavaliar tecido, perfusão e pressão se granulação não progride ou tecido inviável aumenta. Aparência gelatinosa não confirma biofilme. Desbridamento e antimicrobiano tópico dependem da indicação, tolerância e resposta, sem repetição automática em toda troca.

Exsudato e odorA cada troca de curativo

Esperado: Volume estável ou decrescente, aspecto seroso ou serossanguinolento, sem odor forte

Se não melhora: Exsudato que aumenta, fica purulento e denso, com odor, é sinal de carga bacteriana alta. Se estiver isolado, a resposta é local. Se vier com dor nova, eritema que avança além da borda, febre ou descompensação clínica, a resposta é sistêmica e a cultura profunda é colhida antes da primeira dose.

DorAntes e depois de cada curativo e a cada turno em paciente com lesão de espessura total

Esperado: Dor controlada durante o procedimento e ausente ou leve fora dele

Se não melhora: Dor nova ou desproporcional exige avaliação imediata de infecção, isquemia, trauma e outras causas, em paralelo à analgesia. Dor de procedimento pode exigir ajuste de dose, via, antecedência ou técnica; também verificar aderência do curativo. Não supor que todo sofrimento é apenas dose baixa.

Aceitação da dieta e pesoPercentual aceito registrado a cada refeição; peso semanal quando houver condição de pesar

Esperado: Aproximar oferta efetiva das necessidades individualizadas, acompanhando tolerância, peso, hidratação e função. Ultrapassar 60% não significa que o alvo foi atingido.

Se não melhora: Piora da lesão, perfusão, dor ou sinais de infecção requer avaliação antecipada, sem esperar um intervalo fixo de cinco a sete dias. Se estável, comparar medidas e plano em período adequado e rever pressão, nutrição, umidade, perfusão e adesão às intervenções.

10

Onde o erro machuca

Passar visita seis dias sem virar o paciente

O dano: É o erro que produz a cena de abertura, e o dano é a lesão inteira. O exame de tórax e abdome em decúbito dorsal não vê sacro, calcâneo, trocanter, occipital nem orelha. Como a lesão começa no músculo e chega à pele por último, os dias em que ela ainda era reversível passam sem que exista nada visível pela frente do paciente. Quando aparece, o volume de tecido perdido embaixo já é grande.

Como pegar a tempo: Regra fixa e não negociável: paciente com mobilidade reduzida é examinado lateralizado pelo menos uma vez ao dia, e a primeira dessas vezes é na admissão. Se não há gente para virar sozinho, alinhe com a enfermagem o horário do banho e faça o exame ali. Escreva no prontuário o que viu no dorso — a frase dorso examinado, sem alterações vale mais que uma folha inteira de exame anterior.

Medir o risco e não mudar nada por causa do número

O dano: Na coorte brasileira de pacientes críticos, 59% dos que desenvolveram lesão já estavam classificados como risco alto na escala de Braden. O escore existia e a lesão veio. Um escore anotado sem prescrição correspondente cria a ilusão institucional de que o protocolo está funcionando, e é pior que não ter escore nenhum, porque fecha a discussão.

Como pegar a tempo: Trate o escore como gatilho de prescrição, do mesmo jeito que trataria uma saturação de 88%. Ao ler Braden 11 na evolução da enfermagem, abra a sua prescrição e confira se estão lá: cronograma de decúbito, superfície de apoio, calcâneo suspenso, cabeceira limitada, manejo de umidade e meta nutricional. Se alguma linha faltar, escreva antes de sair do leito.

Chamar de estágio 1 a mancha roxa que não empalidece

O dano: Descoloração vermelho-escura, marrom ou púrpura não é estágio 1 — é lesão tissular profunda, e a classificação vigente exclui essas cores do primeiro estágio exatamente para impedir essa confusão. O erro rebaixa a gravidade em várias categorias, atrasa o alívio de carga, adia a conversa com a família e produz a situação em que uma mancha vira uma cratera em 48 horas sem que ninguém tivesse avisado que era possível.

Como pegar a tempo: Lesão profunda pode apresentar coloração persistente vermelho-escura, castanha ou púrpura, mas hematoma e causas vasculares também entram no diferencial. Usar localização, exposição à pressão/cisalhamento, dor, consistência e evolução. Não classificar qualquer área roxa como lesão por pressão profunda sem contexto.

Pedir swab da ferida e tratar o que crescer

O dano: Cultura de superfície sem indicação pode identificar colonização e induzir tratamento desnecessário, com toxicidade, diarreia e resistência. Antibiótico sistêmico é necessário quando há infecção invasiva, junto a controle de foco; não substitui cuidado local nem é indicado apenas por suspeita visual de biofilme.

Como pegar a tempo: Só peça cultura quando houver sinal clínico de infecção invasiva: dor nova, eritema que avança além da borda, exsudato purulento denso, odor forte, febre, descompensação. Quando pedir, colete tecido profundo após limpeza e desbridamento, aspirado ou biópsia. Ferida estagnada sem sinais sistêmicos é problema local: limpeza, avaliação de desbridamento a cada troca e antimicrobiano tópico.

Remover a escara seca e estável do calcâneo

O dano: Escara seca, aderente, íntegra, sem eritema e sem flutuação em calcâneo ou em membro isquêmico funciona como cobertura biológica sobre um leito sem perfusão para cicatrizar. Abri-la troca uma necrose contida por uma ferida aberta em tecido mal perfundido, com porta de entrada para infecção e sem capacidade de granular. O protocolo nacional de prevenção e o protocolo de feridas de Porto Alegre convergem: essa escara não se remove. A escara estável do calcâneo também é preservada sem demonstração de isquemia; a recomendação não autoriza concluir que todo calcâneo com escara tenha perfusão insuficiente.

Como pegar a tempo: Antes de qualquer desbridamento no pé ou no calcanhar, avalie a perfusão: pulsos, temperatura, tempo de enchimento capilar e, quando disponível, índice tornozelo-braço — abaixo de 0,5 é contraindicação formal. Escara estável fica, seca e protegida, com reavaliação diária procurando eritema, flutuação, exsudato ou odor. Se um desses aparecer, a escara deixou de ser estável e a conduta muda.

Tratar a lesão de fim de vida como falha de cuidado

O dano: O dano é duplo. No paciente: reposicionamentos dolorosos, desbridamentos inúteis, coberturas caras e trocas frequentes em quem tem horas ou dias de vida, tudo em nome de uma cicatrização que a pele em falência não pode entregar. Na família e na equipe: a culpa por um evento que era inevitável, e uma conversa final ocupada por uma ferida em vez de ocupada pela despedida.

Como pegar a tempo: Reconhecer o processo de morte e discutir objetivos de conforto independentemente do rótulo da ferida. A aparência atribuída à úlcera terminal de Kennedy não prova inevitabilidade nem dispensa investigação. Individualizar analgesia, cobertura e reposicionamento; desbridamento pode ter benefício sintomático em casos selecionados, sem rotina agressiva nem abandono.

11

O que dizer ao paciente e à família

Esta é uma das poucas conversas da enfermaria em que a família não pergunta o que o paciente tem — ela pergunta o que aconteceu com o paciente aqui dentro. A pergunta é legítima e merece resposta direta. Duas coisas tornam essa conversa difícil e é bom nomeá-las antes: a lesão apareceu sob os cuidados da equipe, e boa parte do que a família viu nos últimos dias foi de fato uma pessoa deitada na mesma posição por horas. Fugir disso com linguagem técnica não protege ninguém — a família não fica satisfeita, o vínculo se perde, e a conversa volta piorada no dia seguinte.

As falas abaixo são as que aparecem de verdade. Todas partem do mesmo princípio: dizer o que se sabe, dizer o que não se sabe, e dizer o que vai ser feito e por quem.

A filha viu a mancha roxa no banho e pergunta o que é

A senhora viu certo, e eu vou explicar. Essa mancha é uma lesão causada por pressão: o peso do corpo dele fica apoiado no mesmo lugar por muito tempo, e o tecido que está entre o osso e a pele sofre por falta de circulação. O que a senhora está vendo é a pele por cima, que ainda está inteira. O dano de verdade começou mais fundo, perto do osso, e por isso a cor demorou a aparecer. Nos próximos dois ou três dias essa área pode abrir e mostrar uma ferida maior do que a mancha, ou pode se resolver sem abrir. Eu não tenho como prever qual dos dois vai acontecer. Vou explicar o que a gente vai fazer a partir de agora e o que eu preciso que a senhora acompanhe junto comigo.

Não diga: Não minimizar nem prometer cicatrização. Explique o mecanismo provável e a incerteza sobre quando começou, sem atribuir duração em dias apenas pela aparência.

A família pergunta se aquilo é descuido da equipe

Precisamos esclarecer o que contribuiu. Vou conferir os registros, os cuidados realizados, os dispositivos e as condições clínicas, ouvindo vocês e a equipe. Já vamos aliviar a pressão e cuidar da lesão. Avisarei o núcleo responsável e combinaremos quando trazer as informações da avaliação; não vou concluir causa ou responsabilidade antes disso.

Não diga: Evite atribuir à enfermagem. Evite a frase de que isso acontece em todo hospital como se isso encerrasse o assunto. E não prometa uma investigação que você não vai abrir.

O paciente lúcido reclama que o reposicionamento dói e pede para ficar quieto

Eu entendo, e a dor é real — não é frescura e não é implicância da equipe. Só que ficar na mesma posição é justamente o que está machucando o senhor por dentro, mesmo quando não dói na hora. Então a gente vai fazer diferente: eu vou prescrever um remédio para dor antes da hora de virar e antes do curativo, e a gente vai testar posições que sejam menos ruins para o senhor. Se ainda doer, o senhor me chama e a gente ajusta a dose. O que eu não posso é deixar do jeito que está.

Não diga: Evite negociar a suspensão do reposicionamento sem tratar a dor primeiro. E evite prescrever analgesia conforme necessário para uma dor que tem hora marcada.

A família pergunta quanto tempo leva para fechar

Feridas profundas podem levar semanas a meses, e algumas não fecham completamente. Circulação, doença de base, nutrição e cuidados influenciam a evolução. Vamos acompanhar medidas e sintomas e ajustar o plano. Quero entender também o que vocês conseguem fazer e de que apoio precisam.

Não diga: Não fixar prazo nem atribuir cicatrização principalmente ao esforço da família. Explicar fatores clínicos, incertezas e recursos necessários sem culpabilizar.

A família pergunta se um colchão especial ou um suplemento resolvem

Colchão, posicionamento e alimentação fazem parte do plano e precisam ser ajustados juntos. Vamos conferir o alívio dos calcanhares com apoio adequado na panturrilha ou dispositivo próprio, além da superfície. Suplemento depende da necessidade nutricional e não garante cicatrização. A equipe vai orientar como ajudar com segurança.

Não diga: Evite endossar um produto específico como solução. E evite desestimular a família a ajudar — a participação dela no reposicionamento e na alimentação muda o resultado.

O paciente está em fim de vida e a lesão não vai cicatrizar

Nesta fase, queremos priorizar conforto e reduzir dor, odor e incômodo das trocas. Podemos ajustar posições e horários ao que ele tolera e usar analgesia antes dos cuidados. A aparência da lesão sozinha não esclarece todas as causas; continuaremos cuidando, documentando e avaliando. Essa mudança de objetivo não significa abandono.

Não diga: Evite a palavra desistir e evite a expressão não há mais nada a fazer. E não retire o cuidado da ferida junto com a meta de cicatrizar — o curativo continua, com outro objetivo.

A família vai levar o paciente para casa com a lesão aberta

Antes da alta eu quero que a senhora faça a troca do curativo aqui, comigo olhando, e não que eu faça e a senhora assista. Vou deixar por escrito o nome do que usar, de quanto em quanto tempo trocar e como virar ele em casa com o número de pessoas que vocês têm. Vou marcar o acompanhamento na unidade de saúde, porque essa ferida precisa ser vista por alguém regularmente. E vou deixar uma lista curta de sinais para a senhora voltar imediatamente: se a ferida aumentar rápido, se doer diferente, se a vermelhidão em volta espalhar, se sair secreção com pus, se cheirar forte, ou se ele tiver febre.

Não diga: Evite entregar a orientação apenas de forma verbal, e evite montar um plano de reposicionamento que exige mais gente do que a família tem.

12

Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

De quanto em quanto tempo se reposiciona o paciente

O relógio de duas horas

Reposicionar a cada duas horas, com cronograma fixo alternando decúbito lateral direito, dorsal e lateral esquerdo. O protocolo nacional de prevenção estabelece duas horas como o tempo máximo em uma única posição para paciente com capacidade circulatória normal, e monta o cuidado em torno desse intervalo. A vantagem é operacional: um número claro pode ser escalado, distribuído entre turnos, auditado e cobrado.

Ministério da Saúde / Anvisa / Fiocruz — Protocolo para Prevenção de Úlcera por Pressão (2013)

O intervalo depende do paciente e da superfície

A frequência é individual, influenciada pela tolerância tecidual, pelo nível de atividade e mobilidade, pela condição clínica global, pela dor e pela superfície de redistribuição em uso — e, se o paciente não responde ao regime de posicionamento como esperado, a frequência e o método devem ser reconsiderados. É o mesmo documento nacional que registra isso, no item seguinte ao do intervalo fixo, anotando que a literatura não sugere uma frequência única.

Ministério da Saúde / Anvisa / Fiocruz — Protocolo para Prevenção de Úlcera por Pressão (2013), item de procedimento operacional para minimizar a pressão

Sem número: posicionamento de conforto

Protocolos hospitalares recentes deixaram de escrever intervalo em horas. O protocolo do Hospital Regional de Mato Grosso do Sul lista, entre as etapas essenciais da prevenção, mudança de decúbito com posicionamento de conforto e uso de coxins, sem fixar duas horas nem qualquer outro número, e coloca ao lado o manejo da dor como etapa própria.

Hospital Regional de Mato Grosso do Sul — Protocolo para Prevenção de Lesão por Pressão, PTC.DEPQI-NQSP.002, versão 1.1.0 (2024)

Como decidir

Definir intervalo, posições, superfície e assistência pelo risco e tolerância. Duas horas podem iniciar o plano, mas não garantem prevenção nem são máximo universal. Examinar pele, verificar execução e ajustar; no fim de vida, pactuar conforto e preferências. Não esperar lesão para reconhecer perfusão ruim ou dificuldade de movimentação.

Desbridar ou preservar a escara seca do calcâneo

Preservar: a escara estável é curativo biológico

Escara estável — seca, aderente, íntegra, sem eritema em volta e sem flutuação — em calcâneo serve como penso biológico natural e não deve ser removida. A justificativa é de perfusão: ali não há circulação suficiente para granular por baixo, e a escara contém a necrose sem porta de entrada.

Ministério da Saúde / Anvisa / Fiocruz — Protocolo para Prevenção de Úlcera por Pressão (2013); mesma orientação na classificação da SOBEST e SOBENDE (Consenso NPUAP 2016 adaptado ao Brasil), que estende a regra a membro isquêmico

Reavaliar diagnóstico e plano diante de mudança do aspecto, mantendo registro da lesão e de sua evolução

O desbridamento é desaconselhado em necrose seca e estável em calcâneo não infectada, na doença terminal e no cuidado paliativo, em ferida arterial com necrose seca e aderida, quando o índice tornozelo-braço está abaixo de 0,5 e em distúrbio de coagulação. A lista amplia a contraindicação do sítio anatômico para a condição do paciente e do membro.

Prefeitura Municipal de Porto Alegre — Protocolo de Enfermagem na Atenção Primária: Prevenção e Tratamento de Feridas (2024)

Remover: enquanto o fundo estiver coberto, a lesão não tem estágio nem plano

Enquanto esfacelo ou escara encobrem o leito, a lesão permanece não classificável, e a extensão real do dano — se é estágio 3 ou estágio 4, se há exposição óssea, se há indicação cirúrgica — fica desconhecida. A própria definição da categoria não classificável diz que, removido o tecido que encobre, aparecerá um estágio 3 ou 4. Quem sustenta esta posição argumenta que adiar a exposição adia também a decisão terapêutica que depende dela.

SOBEST e SOBENDE — Classificação das Lesões por Pressão, Consenso NPUAP 2016 adaptado culturalmente para o Brasil, definição de Lesão por Pressão Não Classificável

Como decidir

Preservar escara estável no calcâneo e necrose isquêmica seca sem infecção, com alívio e avaliação vascular. Pulsos palpáveis não eliminam toda doença arterial, e infecção muda a urgência de avaliação, não autoriza desbridamento indiscriminado de tecido isquêmico. Em cuidado paliativo, julgar benefício sintomático e carga do procedimento, sem contraindicação absoluta pelo nome do cuidado.

A lesão do paciente em fim de vida entra na mesma régua das outras

Registro assistencial e notificação interna abrangem suspeitas conforme fluxo de segurança do serviço

Lesão por pressão estágio 3 e estágio 4 são never events de notificação obrigatória ao Sistema Nacional de Vigilância Sanitária, com investigação institucional e relatório. A norma não abre exceção para paciente em cuidado paliativo ou em processo ativo de morte. O argumento é de vigilância: exceções abertas por julgamento clínico individual apagariam justamente os casos mais graves do indicador que serve para melhorar o sistema.

Anvisa — Nota Técnica GVIMS/GGTES nº 03/2017

Não entra: há lesão inevitável, e a própria norma admite

A mesma nota técnica registra que as lesões por pressão podem ser consideradas inevitáveis quando todas as medidas de prevenção foram utilizadas e, ainda assim, a lesão ocorreu. Quem sustenta esta posição usa esse trecho para separar a notificação — que continua — do juízo de evitabilidade, que não deveria recair sobre a equipe quando o mecanismo é falência de órgão.

Anvisa — Nota Técnica GVIMS/GGTES nº 03/2017, seção de medidas adicionais, assinada por Caliri MHL e Bernardes RM

Outra régua: a pele é um órgão que falha, e a meta muda

Na fase final de vida, a pele pode sofrer disfunção como qualquer outro órgão, com tecidos morrendo por hipoperfusão; algumas dessas lesões são inevitáveis mesmo após intervenções adequadas, e a expectativa quanto ao objetivo do cuidado com a pele deve ser comunicada à família e à equipe. A Úlcera Terminal de Kennedy é descrita nesse contexto, com evolução de horas a dias antes do óbito. A avaliação passa a ser guiada pelos cinco P — prevenção, prescrição, preservação, paliativo e preferência — e o objetivo declarado é conforto e dignidade, não a melhora do aspecto da lesão.

Manual de Cuidados Paliativos, 2ª edição (Hospital Sírio-Libanês e Ministério da Saúde, 2023), capítulo 24, com base no consenso Skin Changes at Life's End

Como decidir

Documentar e comunicar lesões conforme fluxo independentemente do objetivo terapêutico. Inevitabilidade exige análise do caso e dos cuidados, não diagnóstico pela forma/cor. No processo ativo de morte, priorizar conforto, analgesia e posicionamento tolerado; continuar cuidado local e comunicação. Rótulos de posições históricas não dispensam registro nem tornam aparência prova de falência cutânea.

13

O raciocínio, em voz alta

Dona Nilza Barroso, 71 anos, 92 quilos, diabética de longa data, está no décimo primeiro dia de internação por pneumonia, com uso intermitente de ventilação não invasiva nos primeiros seis dias. Melhorou: está em ar ambiente há três dias, sentada na poltrona parte da manhã. Tem incontinência urinária desde a internação e usa fralda. A enfermeira te chama para ver a região sacral e diz que hoje conseguiu limpar melhor e que a área está pior do que parecia. Você vai ao leito, lateraliza a paciente e olha o dorso, o períneo e o rosto.

  1. O que eu vejo antes de pensar

    Na região sacral, uma ferida de aproximadamente 5 por 4 centímetros, com o fundo coberto em cerca de 70% por tecido amarelo aderido e o restante com granulação vermelha, exsudato moderado sem odor, borda plana, pele em volta íntegra. No períneo, nas coxas mediais e na região interglútea, uma vermelhidão difusa, simétrica, brilhante, com bordas mal definidas, sem ferida aberta, incluindo áreas longe de qualquer osso. No dorso do nariz, uma marca linear escurecida com o formato exato do apoio da máscara. E, ao levantar as pernas, dois calcâneos com pele íntegra e sem eritema.

  2. O que eu penso agora

    A ferida sacral tem perda total com profundidade encoberta pelo esfacelo, portanto não classificável; percentual de esfacelo, sozinho, não basta se o fundo já fosse visível. Períneo difuso úmido favorece dermatite associada à incontinência, que pode coexistir com lesão por pressão. A marca nasal e a história da máscara favorecem lesão por dispositivo, sem tornar formato uma prova isolada.

  3. O que eu peço, e por quê

    Não peço cultura, porque não há sinal clínico de infecção — sem dor nova, sem eritema avançando além da borda, sem exsudato purulento, sem odor, sem febre. Não peço radiografia. Não peço albumina para decidir nada sobre a ferida. Peço três coisas de outro tipo: o escore de Braden de hoje, o registro do percentual da dieta aceito nos últimos cinco dias, e o horário em que ela senta na poltrona e quanto tempo fica.

  4. Como a resposta muda o que eu penso

    Braden 12 indica risco alto; ingesta de 40–50% por uma semana exige intervenção nutricional. Investigo como fica na poltrona: apoio, postura, capacidade de aliviar carga e tempo sem assistência. Sentada, pode haver pressão isquiática e, com deslizamento/retroversão pélvica, sacrococcígea. Isso ajuda a explicar exposição, mas não permite atribuir a ferida sacral exclusivamente ao ísquio ou à poltrona. Preservo os benefícios da mobilização com plano seguro de alívio.

  5. Onde eu quase errei

    Meu primeiro impulso foi anotar tudo como lesão por pressão, incluindo o períneo, e prescrever colchão e mudança de decúbito para o conjunto. Isso teria dois custos: a dermatite continuaria, porque o que a trata é barreira e controle de umidade, e o indicador da instituição ganharia uma lesão que não é lesão por pressão. O segundo impulso foi pedir swab do sacro porque o exsudato estava moderado — o que traria uma lista de bactérias colonizadoras e uma tentação de prescrever antibiótico numa paciente sem infecção.

  6. A decisão sobre a ferida sacral

    Descrevo medidas e profundidade encoberta. Discuto com equipe de feridas se e como remover tecido inviável, avaliando perfusão, dor, sangramento e objetivos. Alginato ou hidrofibra podem absorver exsudato e manter ambiente favorável, mas não equivalem, por si, a desbridamento. Limpeza e cobertura são escolhidas pela necessidade, evitando compactar cavidade e registrando materiais inseridos/retirados.

  7. A decisão sobre a carga

    Reescrevo o cronograma retirando o apoio sacral e coloco um limite de tempo sentada, com alívio de pressão programado dentro desse período. Prescrevo superfície de apoio adequada à faixa de risco alto e mantenho o calcâneo suspenso com travesseiro sob a panturrilha, mesmo com os calcâneos ainda íntegros — prevenção não espera lesão.

  8. A decisão sobre a umidade e sobre o nariz

    Para o períneo: creme barreira, troca de fralda com horário e oferta de comadre nos horários da mudança de decúbito. Para o nariz: a máscara não está mais em uso, então a conduta é proteger e vigiar; se voltasse a ser necessária, seria com apoio reposicionado e proteção interposta, além de reavaliação duas vezes ao dia.

  9. A decisão sobre a nutrição

    Aciono nutrição hoje pela ingesta baixa persistente. Peso de 92 kg sem altura não diagnostica obesidade nem define peso ideal/ajustado. Meta energética e proteica deve integrar composição corporal, doença, função renal, risco de realimentação e oferta real. Avaliar barreiras, suplemento e via, acompanhando a evolução diariamente, sem esperar mais uma semana para decidir.

  10. O que eu digo à filha, e o que eu marco para daqui a uma semana

    Explico as três alterações e a incerteza de tempo de cicatrização, frequentemente semanas a meses nas feridas profundas. Registro medidas comparáveis e programo medida formal semanal, além de inspeção nas trocas e revisão clínica diária. Falta de melhora em duas a quatro semanas exige rever carga, perfusão, umidade, tecido, nutrição e infecção; piora ou alarme exige reavaliação imediata, sem aguardar a data.

14

Faça você

Senhor Edivaldo Serrão, 66 anos, 70 quilos, no décimo dia de internação em terapia intensiva por síndrome respiratória grave. Ficou intubado e sedado por sete dias, cinco deles em posição prona, e foi extubado anteontem. Está acordado, colaborativo, ainda muito fraco, sem sedação, com cateter nasal de oxigênio. No exame de pele de hoje você encontra: na região malar direita, uma área de perda de pele com derme exposta, leito rosado e úmido, sem esfacelo, de 2 por 1,5 centímetros; no sacro, uma área de 6 por 5 centímetros com descoloração púrpura, pele íntegra, que não empalidece, dolorosa ao toque e endurecida; no calcâneo esquerdo, uma escara preta, seca, aderida em todas as bordas, sem eritema em volta, sem flutuação e sem odor. Os pulsos pediosos são palpáveis e simétricos, os pés estão aquecidos. Escore de Braden de hoje: 13. Aceitação da dieta oral nas últimas 48 horas: cerca de 30%.

  1. Passo 1 — classifique cada um dos três achados

    A lesão malar tem perda parcial com derme exposta, leito viável, sem esfacelo nem escara: é estágio 2, e a topografia entrega a causa — face malar é ponto de carga em pronação, e não em decúbito dorsal. A lesão sacral tem pele íntegra com descoloração púrpura persistente que não empalidece, com dor e endurecimento: é lesão tissular profunda, e não estágio 1, porque a classificação vigente exclui a cor púrpura do primeiro estágio. A escara do calcâneo encobre o fundo: é lesão não classificável.

  2. Passo 2 — decida o que fazer com o calcâneo

    Escara seca, aderida, sem eritema e sem flutuação, em membro com pulsos palpáveis e pés aquecidos. A regra do protocolo nacional e do protocolo de feridas convergem: escara estável em calcâneo não se remove, porque funciona como cobertura biológica. A conduta é manter seca, aliviar completamente a pressão sobre o calcâneo com travesseiro sob a panturrilha, e reavaliar diariamente procurando eritema em volta, flutuação, exsudato ou odor — se algum aparecer, ela deixou de ser estável e é necessária avaliação urgente da infecção e da perfusão antes de definir intervenção.

  3. Passo 3 — decida o que fazer com o sacro

    Alívio total de carga na região, imediatamente, com reescrita do cronograma de decúbito usando as posições que restam; escalonamento da superfície de apoio; vigilância duas vezes ao dia; e conversa com a família hoje, avisando que a extensão real pode se revelar em 24 a 72 horas, com abertura da pele e aparecimento de uma ferida maior que a mancha — ou, menos provavelmente, resolução sem perda tecidual. Registro na categoria própria, com medidas.

  4. Passo 4 — decida sobre a nutrição, com números

    Aceitação de 30% das necessidades em paciente de 70 quilos com três lesões, uma delas de espessura total potencial. As metas do Projeto Diretrizes aplicadas a este peso: 2.100 a 2.450 kcal por dia e, no mínimo, 84 a 105 gramas de proteína por dia; como há múltiplas lesões, o piso proteico vai para pelo menos 105 gramas. Com aceitação nesse nível, a avaliação nutricional formal entra hoje e a discussão sobre via alternativa entra no mesmo dia, sem esperar completar sete dias.

  5. Passo 5 — o que falta: escreva você

    Faltam três decisões, e elas são suas. Primeira: qual cobertura para a lesão malar de estágio 2, e por quê — descreva o leito e o exsudato antes de escolher, e justifique a escolha pelo que você descreveu, não pelo estágio. Segunda: você pede cultura de alguma dessas três lesões hoje? Diga sim ou não e liste os achados que sustentam a sua resposta. Terceira: qual das três lesões exige notificação ao núcleo de segurança do paciente neste momento, e o que muda no seu registro por causa disso. Escreva as três antes de olhar a resposta.

Ver como fecharíamos

A lesão malar tem derme viável, rosada e úmida, sem esfacelo, compatível com estágio 2 no contexto de pressão. Confirmar volume de exsudato antes de escolher cobertura: interface atraumática/espuma fina ou filme em situação apropriada podem proteger e manter equilíbrio de umidade. Hidrogel não é necessário em todo leito já úmido. Se houvesse esfacelo, a classificação de estágio 2 precisaria ser revista, além de mudar o plano local. Não há indicação de cultura rotineira nas informações dadas. Reavaliar se surgirem sinais de infecção local progressiva, profunda ou sistêmica; não prescrever antibiótico por cor ou colonização. Lesão sacral profunda exige alívio imediato, vigilância e explicação sobre evolução possível; calcâneo com escara estável permanece seco, protegido e sem carga, com avaliação de perfusão. Pulsos presentes não substituem julgamento vascular quando houver dúvida. Comunicar e registrar todas as lesões no fluxo institucional agora, com origem conhecida ou incerta. Não esperar estágio 3/4 para notificação interna. O núcleo aplica critérios e prazos de notificação externa segundo a norma; não desbridar apenas para obter um número de estágio. Ingesta de 30% após doença crítica pede avaliação nutricional hoje e recuperação progressiva da oferta, incluindo risco de realimentação e eletrólitos. Planejar mobilidade, suporte, dispositivos e analgesia com equipe e paciente, mantendo prevenção nas regiões ainda íntegras.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A paciente está estável, sem evidência fornecida de infecção invasiva. Odor, camada gelatinosa e estagnação não confirmam biofilme nem osteomielite. Reavaliar pressão, perfusão, nutrição e tecido; cuidado local pode incluir desbridamento selecionado e antimicrobiano tópico com revisão. Não indicar antibiótico sistêmico por aparência ou cultura de colonização. Persistência/piora exige nova avaliação e investigação dirigida, sem traumatizar o leito em toda troca.

15

Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
16

Plano de revisão

Em 7 dias

Compare estágio 2, dermatite por umidade, lesão profunda e escara estável. Explique por que desbridamento e antibiótico não dependem apenas da cor ou do estágio.

Em 30 dias

Apresente um caso com risco nutricional, dispositivo e lesão sacral: priorize cuidados, contraindicações, alívio de carga, monitorização e transição para casa ou cuidados de conforto.

17

Agora atenda

Agora atenda: homem de 74 anos, oitavo dia de internação por infecção urinária com bacteremia, restrito ao leito, em uso de sonda vesical e cateter nasal de oxigênio, com aceitação alimentar baixa desde a admissão. A técnica de enfermagem chama porque encontrou, no banho, uma área arroxeada no sacro e uma marca atrás da orelha esquerda. Conduza desde a chegada ao leito até a prescrição do dia: nomeie, antes de encostar no paciente, cada região que você pretende inspecionar; examine a pele inteira com ele lateralizado; classifique cada achado com a nomenclatura atual; escreva a prevenção na sua própria prescrição, com o intervalo de reposicionamento e a meta nutricional em números; e explique à filha dele, com as suas palavras, o que é aquela mancha e o que pode acontecer nos próximos três dias.

Lesão por pressão no paciente internado — Internato | OsceLabs