Clínica MédicaSíndromes do Paciente Internado

Dessaturação aguda na enfermaria

São 3h40 e a técnica de enfermagem diz que a saturação do leito 9 caiu para 84. Você é a única pessoa de jaleco no andar. Este capítulo é sobre os cinco minutos seguintes: olhar o paciente antes do monitor, decidir se o número é real, dar oxigênio enquanto pensa, e responder a pergunta que organiza tudo — falhou a troca, a bomba, o fole ou a via aérea.

Fontes deste capítulo

Ministério da Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida. 2ª ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2016

Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Medidas de Prevenção de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde. Série Segurança do Paciente e Qualidade em Serviços de Saúde, Caderno 4. 2ª edição. Brasília: Anvisa, 2017

Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024

Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal, Comissão Permanente de Protocolos de Atenção à Saúde. Protocolo de Atenção à Saúde — Segurança do Paciente: Prevenção da Deterioração Clínica em Pacientes Adultos em Serviço Hospitalar

Associação de Medicina Intensiva Brasileira e Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Diretrizes Brasileiras de Ventilação Mecânica — 2013

01

Responda antes de ler

Paciente de 70 anos com doença pulmonar obstrutiva crônica está em ventilação não invasiva na enfermaria por descompensação hipercápnica, iniciada há 90 minutos. Mantém frequência respiratória de 32, continua usando musculatura acessória, segue sonolento e a gasometria de controle mostra gás carbônico ainda mais alto que o inicial. Qual é a conduta?

02

O paciente que você vai ver

Três e quarenta da manhã. Você está na sala de plantão da enfermaria de clínica médica, e o que te acorda não é o telefone: é a técnica de enfermagem parada na porta, com a folha de sinais vitais na mão. Ela diz uma frase de sete palavras: a saturação do 9 caiu para 84.

O leito 9 é do seu Rubens Dantas, 71 anos, aposentado da construção civil, 78 quilos, diabético de longa data. Está no oitavo dia de internação por uma erisipela extensa da perna direita que chegou com febre e ainda drena. Anda pouco: nos últimos cinco dias saiu da cama duas vezes, e nas duas com ajuda. Come mal, tosse pouco, dorme muito. Tem antibiótico endovenoso, insulina, soro de manutenção e, desde anteontem, um analgésico opioide prescrito para a dor da perna, que a enfermagem vem administrando com regularidade porque ele reclama à noite.

Você entra no quarto. A primeira coisa que se faz não é olhar o monitor — é olhar o paciente, e olhar de longe, da porta, por três segundos, antes de tocar. O que dá para ver da porta: seu Rubens está deitado quase plano, com a cabeceira baixa, a boca aberta, e respira. Respira devagar. O tórax sobe pouco e sobe raro. Não há tiragem, não há batimento de asa de nariz, não há aquele arqueamento de quem luta contra o ar. Ele não parece estar trabalhando para respirar. Parece estar dormindo profundamente.

Você chama pelo nome. Ele abre os olhos, olha para você, e volta a fechar sem responder. Chama de novo, mais alto, com a mão no ombro: ele murmura alguma coisa e some outra vez. A pele está morna e seca. As unhas estão limpas, sem esmalte. A mão está aquecida. O dedo indicador direito tem o sensor do oxímetro, e o monitor mostra 84, com um traçado de onda que sobe e desce em curvas regulares, uma para cada batimento.

Aqui existem duas leituras possíveis do mesmo quarto, e elas pedem coisas opostas. A primeira leitura é a que a maioria faz às três e quarenta da manhã: a saturação caiu, então falta oxigênio, então põe-se uma máscara com reservatório a quinze litros e observa-se. Essa conduta faz o número no monitor subir em poucos minutos e faz o médico voltar a dormir. A segunda leitura parte de outro lugar: o paciente respira pouco, responde mal e não faz esforço. Se ele está hipoventilando, o oxigênio corrige o número sem corrigir o problema, e o gás carbônico que ele está retendo continua subindo por trás de um monitor que agora marca 96. O paciente melhora na tela e piora na cama.

Note o que ainda não sabemos e o que já sabemos. Não sabemos se ele aspirou, se embolizou, se está congesto, se fez uma rolha, se está séptico ou se o opioide o derrubou. Sabemos, sem exame nenhum, que o padrão respiratório é de pouco esforço com rebaixamento de consciência — e essa combinação, na enfermaria, tem uma lista curta de causas e uma conduta que não pode esperar radiografia.

Este capítulo é sobre esses cinco minutos, na ordem em que eles acontecem: olhar o paciente antes do monitor; decidir se o número é real; ligar oxigênio com alvo escrito enquanto se pensa; e responder a pergunta que organiza tudo o mais. A pergunta é: o que falhou aqui — a troca, a bomba, o fole ou a via aérea? A sequência genérica do paciente grave sem diagnóstico está no primeiro capítulo desta apostila e continua valendo. O que muda aqui é que o paciente já era seu, você tem a prescrição dele na mão, e a causa mais provável do que está acontecendo às três e quarenta costuma estar escrita nessa folha.

03

Quem adoece disso

O paciente que dessatura na enfermaria quase nunca dessatura sem aviso. O protocolo de prevenção de deterioração clínica da Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal abre justamente com esse dado: em torno de quatro em cada cinco pacientes que evoluem para parada cardiorrespiratória no hospital já haviam mostrado alteração relevante de sinais vitais antes, e mais da metade dos que param morrem. O mesmo documento estima, com base em dados de sociedade brasileira, algo próximo de duzentas mil paradas por ano no país, metade delas dentro do hospital, com incidência de um a cinco eventos para cada mil admissões. A tradução para o corredor é dura e simples: a chamada das três e quarenta não é um susto isolado, é um ponto numa curva que começou horas antes e que alguém já anotou na folha.

A causa infecciosa é a mais comum das causas novas. O protocolo de prevenção de pneumonia hospitalar do Hospital Antônio Bezerra de Faria registra que a pneumonia responde por cerca de 15% de todas as infecções relacionadas à assistência e por um quarto das infecções adquiridas em terapia intensiva, com mortalidade dos episódios associados à ventilação variando de 20% a 60%. O detalhe que interessa à enfermaria é outro: o mesmo protocolo nomeia a pneumonia hospitalar não associada à ventilação como alvo próprio. Ou seja, existe um número grande de pneumonias que nascem em leito comum, em paciente que nunca foi intubado — e é esse o paciente que a técnica vem te mostrar.

O mecanismo dessa pneumonia é aspirativo, e a Anvisa é explícita quanto a isso no caderno de medidas de prevenção: a fonte principal são as secreções das vias aéreas superiores, seguidas de inoculação exógena e de refluxo do trato gastrintestinal, e a forma comum é a microaspiração silenciosa, não o engasgo presenciado. A consequência prática é que a ausência de história de engasgo não afasta aspiração. O protocolo de prevenção de broncoaspiração do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais acrescenta a outra metade da conta: metade dos adultos saudáveis aspira durante o sono sem adoecer, porque a barreira anatômica, o reflexo de tosse e o transporte mucociliar dão conta. Quem adoece é quem perdeu essas defesas — e opioide, sedativo, rebaixamento, disfagia e decúbito baixo tiram as três de uma vez. O mesmo documento relata mortalidade entre 7,5% e 72% depois de um episódio de pneumonia aspirativa, uma faixa larga que diz menos sobre a doença e mais sobre quem a tem.

A causa vascular é a que menos aparece no exame e a que mais castiga o atraso. O protocolo de tromboprofilaxia do Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados registra que mais da metade dos pacientes clínicos internados tem risco aumentado de tromboembolismo, que praticamente todo paciente hospitalizado tem ao menos um fator de risco e cerca de 40% têm três ou mais, e que a embolia pulmonar é amplamente considerada a causa evitável mais comum de morte hospitalar. O documento quantifica o que a profilaxia compra: em pacientes de alto risco, o tromboembolismo sintomático em três meses fica em torno de 11% sem tromboprofilaxia adequada e em torno de 2,2% com ela. Diante do leito 9 isso significa duas coisas. Primeira: se ele está deitado há cinco dias, embolia entra na lista antes de qualquer exame. Segunda: a pergunta "ele estava em profilaxia?" se responde na prescrição, em dez segundos, e muda a probabilidade da hipótese — a prescrição da profilaxia é assunto do capítulo das três profilaxias desta apostila; aqui ela é um dado diagnóstico.

Por último, a congestão. Entre os internados por insuficiência cardíaca aguda, quase nove em cada dez estão congestos, segundo a diretriz brasileira da especialidade. Na enfermaria, uma parte dessa congestão não veio de casa: veio da nossa prescrição, do soro de manutenção que ninguém revisou, da hidratação generosa do dia da admissão, da transfusão corrida em uma hora. Isso muda a pergunta que você faz ao olhar a folha: não é só "ele tem insuficiência cardíaca?", é "quanto volume ele recebeu nas últimas vinte e quatro horas, e quanto ele eliminou?".

04

Por que acontece o que acontece

O oxímetro de pulso mede uma coisa só: que proporção da hemoglobina que passa por baixo do sensor está com oxigênio ligado. Não mede quanta hemoglobina existe, não mede se o que está ligado é oxigênio ou monóxido de carbono, e — este é o ponto que organiza o capítulo inteiro — não mede nada sobre gás carbônico. Ele é um sensor de oxigenação, não de ventilação. Duas funções diferentes do pulmão, dois problemas diferentes, e um único número na tela que só enxerga uma delas.

Oxigenação é entrar oxigênio no sangue. Ventilação é mover ar para dentro e para fora, e o que se mede na ventilação é a saída do gás carbônico. As duas falham por caminhos distintos e produzem quadros que se parecem à distância e pedem condutas opostas de perto. Hipoxemia é o sangue com pouco oxigênio; hipoventilação é o ar que não circula o suficiente para varrer o gás carbônico. O paciente hipoxêmico costuma estar acordado, taquipneico e lutando. O paciente que hipoventila costuma estar sonolento, com respiração lenta e rasa, e sem luta nenhuma. Um chama atenção pelo esforço; o outro passa despercebido justamente porque não faz esforço.

É por isso que existe um paciente rosado que está morrendo devagar. Coloque oxigênio suplementar em quem hipoventila e a saturação sobe, porque o pouco ar que ainda entra agora vem enriquecido. O gás carbônico, no entanto, não sai por causa disso — ele sai por volume de ar movido, e o volume não mudou. O resultado é um monitor tranquilo em cima de um paciente que acumula gás carbônico, fica mais sonolento com a hipercapnia, respira ainda menos, acumula mais, e desce por essa espiral sem nunca acionar o alarme do oxímetro. O antídoto conceitual é curto: em paciente sonolento, saturação normal sob oxigênio não é sinal de melhora, é um dado que precisa ser explicado.

Organize a causa por onde o sistema quebrou, e a lista de diagnósticos deixa de ser decoreba. São quatro compartimentos. A troca é o encontro do alvéolo com o capilar: quando o espaço aéreo é ocupado por edema, por secreção purulenta ou por conteúdo gástrico regurgitado, o sangue atravessa uma unidade que não recebe ar, e a hipoxemia resultante responde mal ao aumento da oferta. A bomba é o coração: se o ventrículo esquerdo não vence a carga, a pressão sobe no capilar pulmonar e o líquido atravessa para o alvéolo. O fole é o conjunto que move o ar — comando respiratório no tronco encefálico, medula, nervo, músculo, caixa torácica e pleura: se o fole falha, entra pouco ar, e o gás carbônico sobe antes de o oxigênio cair. A via aérea é o cano: se ele obstrui, nada do resto funciona, e o tempo disponível é o menor dos quatro.

Quatro painéis mostram estreitamento de via aérea superior, pequena excursão diafragmática, alvéolo parcialmente preenchido por líquido e unidade alveolocapilar com congestão e edema.
Da esquerda para a direita, de cima para baixo: obstrução de via aérea, hipoventilação, prejuízo da oxigenação em alvéolo preenchido e edema associado à elevação da pressão hidrostática pulmonar. Os mecanismos podem coexistir. Interpretar a oximetria junto com esforço respiratório, consciência, perfusão e exame clínico. Ilustração esquemática; os cortes ampliados não estão na mesma escala.

Cada compartimento assina de um jeito diferente na beira do leito, e a assinatura é o que você tem às três e quarenta. Falha de troca dá taquipneia com esforço, saturação que resiste ao oxigênio e ausculta cheia — crepitação, roncos, murmúrio diminuído de um lado. Falha de bomba dá ortopneia, crepitação nas bases que sobe, sudorese, jugular túrgida e, muitas vezes, hipertensão. Falha de fole dá o inverso de tudo isso: respiração lenta e rasa, sem esforço, com rebaixamento, e ausculta que pode estar limpa. Falha de via aérea dá ruído — estridor, roncos altos de secreção, voz abafada — e, quando é completa, dá silêncio com esforço máximo, que é a coisa mais grave que existe nesta lista.

Há uma quinta hipótese que atravessa as quatro, e por isso não ganhou compartimento próprio: a que ventila e troca bem, mas não perfunde. O tromboembolismo ocupa artéria pulmonar e cria unidade que recebe ar e não recebe sangue. O achado clássico dessa situação é a pobreza: pulmão limpo à ausculta, radiografia sem novidade, taquipneia grande, hipoxemia desproporcional ao exame e gás carbônico baixo, porque o paciente hiperventila o que ainda perfunde. Quando você encontra um paciente que dessatura e cujo exame do tórax não explica nada, essa é a hipótese que deve subir na lista, não descer.

Oxigenação e ventilação estão relacionadas, mas respondem a perguntas diferentes. Oxigênio pode corrigir hipoxemia enquanto hipoventilação e hipercapnia persistem; por isso observar frequência, esforço, consciência e gasometria quando indicada. Ventilação assistida pode ser necessária antes de apneia. Não restringir oxigênio necessário por receio de CO2: titular e monitorizar, tratando simultaneamente a falência ventilatória.

Falta o mecanismo de por que a enfermaria produz esses quadros e o pronto-socorro produz outros. Três coisas acontecem com quem fica deitado num hospital. O decúbito baixo reduz a capacidade residual funcional e favorece o fechamento de pequenas vias aéreas nas regiões dependentes, que são justamente as posteriores dos lobos inferiores — as mesmas onde a Anvisa localiza a pneumonia hospitalar, porque é para lá que o material aspirado escorre. A dor, a fraqueza e a sedação tiram a tosse eficaz, e sem tosse a secreção que se acumula vira rolha, e a rolha vira atelectasia. E a imobilidade prolongada faz trombo. Nenhum desses três mecanismos precisa de uma doença nova: eles são o preço do tempo no leito, e é por isso que o quinto dia de internação é um horário de risco tanto quanto uma consulta de admissão.

05

Como se apresenta de verdade

A enfermaria produz um conjunto pequeno e repetitivo de causas de dessaturação, e ele não é o mesmo do pronto-socorro. Lá entram doenças que o paciente trouxe de casa; aqui aparecem, em grande parte, complicações do tempo que ele passou deitado, do que foi prescrito e do que deixou de ser feito. São seis apresentações, e elas cobrem a quase totalidade das chamadas noturnas.

O que separa uma da outra, nos primeiros dois minutos, é uma tríade de observação que não custa nada: quanto esforço o paciente faz, o que a ausculta mostra, e se a queda foi súbita ou progressiva. Guarde desde já que mais de uma pode estar acontecendo no mesmo paciente — o idoso do oitavo dia com opioide, decúbito baixo e cinco dias sem levantar tem, simultaneamente, motivo para hipoventilar, para aspirar e para embolizar.

Percurso de aprendizagem

Comece por via aérea, ventilação e perfusão. Compare consciência, esforço e volume respiratório com a saturação; conferir o sensor não deve atrasar suporte.

Use prescrição, função renal, balanço e risco trombótico para construir hipóteses. Explique o que cada exame muda, mantendo mais de uma causa possível.

Pratique prescrição com alvo de oxigênio, reversão supervisionada de opioide e critérios de falha da VNI. Termine com um plano de reavaliação e prevenção da recorrência.

O paciente que não faz esforço: hipoventilação

Suspeite de hipoventilação quando houver incursões superficiais, redução do volume ventilado, sonolência ou uso de depressores. Frequência de 12 a 16/min, isoladamente, não é bradipneia e não garante ventilação adequada; mesmo a taquipneia pode acompanhar ventilação alveolar insuficiente. Conte a frequência e avalie amplitude, esforço, consciência e gasometria quando indicada. Oxigênio suplementar pode manter saturação normal durante retenção progressiva de CO2.

As causas são quase sempre iatrogênicas e estão escritas na prescrição: opioide para dor, benzodiazepínico para insônia, antipsicótico para agitação, anticonvulsivante em dose ajustada para cima, ou a soma de dois deles numa madrugada em que cada um foi dado por um motivo diferente. Some-se a isso o que reduz a depuração desses fármacos sem que ninguém reveja a dose: função renal que piorou nas últimas quarenta e oito horas, hepatopatia, idade avançada, desnutrição. O paciente não recebeu overdose — ele recebeu a dose de ontem num corpo que hoje é outro.

Existem causas não medicamentosas com o mesmo padrão, e vale reconhecê-las: acidente vascular encefálico de tronco, hipercapnia por doença pulmonar obstrutiva descompensada, fraqueza neuromuscular, hipoglicemia grave, hipotireoidismo descompensado. O que elas dividem com a causa medicamentosa é o essencial para os cinco minutos: pouco esforço, respiração lenta, consciência rebaixada e pulmão que pode estar limpo.

O erro que essa apresentação convida a cometer é o mais barato de todos: colocar oxigênio, ver o número subir e sair do quarto. O oxigênio é necessário, mas o que decide o desfecho aqui é reconhecer que o problema é de ventilação e que ele exige alguma forma de suporte ao fole — estimulação, reversão do agente quando ela é indicada, pressão positiva ou via aérea definitiva —, não uma fração inspirada maior.

Broncoaspiração

Tem duas formas, e a que engana é a silenciosa. A forma presenciada é inconfundível: o paciente come, engasga, tosse, fica cianótico, e a dessaturação começa naquele minuto. A forma silenciosa não tem testemunha nenhuma. O paciente foi encontrado assim, e a ligação entre o jantar de ontem e a saturação de hoje é uma inferência sua, não uma informação da enfermagem. A Anvisa é clara ao dizer que a microaspiração silenciosa é a regra e a macroaspiração é a exceção.

Os fatores que a produzem estão todos ao alcance da folha de prescrição e do exame de cinco segundos: rebaixamento do nível de consciência por doença ou por droga, sonda enteral, decúbito baixo, disfagia, sequela de acidente vascular encefálico, demência, doença neuromuscular, pós-operatório de cabeça, pescoço, tórax ou abdome superior, e êmese. O protocolo de prevenção de broncoaspiração do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais recusa qualquer contagem de pontos: a presença de um fator isolado, qualquer um deles, já joga o paciente na faixa de alto risco. A régua é grossa de propósito, porque o preço de prevenir sem necessidade é uma cabeceira elevada, e o preço de não prevenir é um pulmão.

A apresentação clínica depende de quanto e de quê. Conteúdo gástrico ácido em volume pequeno produz uma pneumonite química: dessaturação e taquipneia que começam em minutos a poucas horas, febre baixa ou ausente no início, ausculta com roncos e crepitações, e infiltrado que aparece na radiografia geralmente à direita, em base — porque o brônquio-fonte direito é mais vertical e mais calibroso, e porque o paciente deitado escorre o material para os segmentos posteriores dos lobos inferiores, como descreve a Anvisa. Conteúdo colonizado da orofaringe, em paciente com dentição ruim e defesas quebradas, produz pneumonia aspirativa, e essa demora um a três dias, vem com febre e com secreção purulenta.

O sinal que muda a conduta imediata é a assimetria. Ausculta abolida de um lado, ou muito mais suja de um lado, num paciente que aspirou material sólido ou espesso, levanta obstrução brônquica — e aí o problema deixou de ser só infeccioso e passou a ser mecânico.

Edema agudo de pulmão do paciente internado

É a apresentação mais rápida da lista e a que mais responde ao que se faz nos primeiros dez minutos. O paciente acorda ou é encontrado sentado, agitado, com dispneia intensa, ortopneia franca, sudorese fria, extremidades frias, tosse com expectoração clara ou rósea. A ausculta traz crepitações finas que começam nas bases e sobem, muitas vezes com sibilos associados. A pressão costuma estar alta, mas pressão acima de 90 mmHg, isoladamente, não autoriza nitrato: considerar perfusão, valor habitual, contraindicações e monitorização. Pressão alta aqui não tranquiliza: ela é o mecanismo.

Na enfermaria, esse quadro tem um desencadeante que o pronto-socorro não tem: nós. Soro de manutenção que ninguém revisou por seis dias, hidratação prescrita para uma desidratação que já foi corrigida, transfusão infundida rápido demais em paciente idoso e cardiopata, corticoide, e a suspensão silenciosa do diurético de uso domiciliar na conciliação da admissão. Antes de chamar de descompensação de insuficiência cardíaca, olhe o balanço hídrico das últimas vinte e quatro horas e some o que entrou por bomba, por soro e por transfusão. A congestão está presente em cerca de 85% dos internados por insuficiência cardíaca aguda, segundo a diretriz brasileira, mas na enfermaria uma parte dela tem remetente conhecido.

Existe uma leitura de perfusão que precisa acompanhar a leitura de congestão, porque ela troca o tratamento. O paciente congesto e quente — bem perfundido, pressão preservada, pulso cheio — recebe vasodilatador e diurético. O paciente congesto e frio — pele fria, pulso fino, pressão baixa para o padrão dele, sonolência, débito urinário caindo — não tolera vasodilatador em dose plena, e nele o problema deixou de ser só congestão e passou a ser débito. A leitura se faz com a mão no antebraço e o dedo no pulso, antes de qualquer exame.

Uma armadilha diagnóstica atravessa esta seção: o edema agudo produz sibilos por edema da mucosa brônquica, e o paciente pode ser auscultado como broncoespasmo. Se você tratar como asma um edema agudo, perde meia hora e piora a taquicardia. Se tratar como edema um broncoespasmo, dá diurético a quem está seco. A diferença mora na história de ortopneia, no início do quadro em minutos, na sudorese e na jugular.

Atelectasia e rolha de secreção

É a causa mais subestimada e a que mais responde a intervenção sem droga. O paciente é tipicamente pós-operatório de abdome superior ou de tórax, ou um idoso acamado com tosse fraca. A queda da saturação é progressiva ao longo do dia, ou súbita se uma rolha ocluir um brônquio de calibre maior. A ausculta é assimétrica: murmúrio reduzido ou abolido de um lado, às vezes com roncos grossos que mudam de lugar depois que o paciente tosse — e esse detalhe, roncos que se deslocam com a tosse, é praticamente diagnóstico de secreção móvel.

O mecanismo já foi descrito: decúbito baixo, dor que impede inspiração profunda, sedação que abole o suspiro fisiológico, tosse ineficaz, secreção espessa por desidratação ou por oxigênio seco sem umidificação. O resultado é fechamento de pequenas vias aéreas nas zonas dependentes, colapso alveolar e sangue passando por região que não ventila. As diretrizes brasileiras de ventilação mecânica reconhecem a gravidade dessa situação ao classificar a terapia de higiene brônquica como mandatória diante de atelectasia lobar, e não apenas como opção de conforto.

Dessaturação noturna exige avaliar gravidade, sinal do oxímetro, ventilação, obstrução, posição, sedativos e causas cardiopulmonares. Não presumir que seja apenas posicional. Sonolência com respiração insuficiente pode exigir suporte ventilatório imediato, mesmo se oxigênio elevar a saturação.

Atelectasia e pneumonia podem compartilhar hipoxemia e opacidade, mas não se deve atribuir febre automaticamente à atelectasia. Perda de volume favorece colapso; secreção purulenta, contexto infeccioso, consolidação e evolução orientam pneumonia. Investigar e tratar infecção quando já houver elementos suficientes, sem impor observação de 24 a 48 horas. A resposta à mobilização e higiene brônquica ajuda a revisar a hipótese.

Pneumonia hospitalar não associada à ventilação

Existe, é frequente, e é o diagnóstico que a enfermaria mais atrasa porque procura pneumonia apenas no paciente da terapia intensiva. O protocolo de prevenção de pneumonia hospitalar do Hospital Antônio Bezerra de Faria nomeia essa entidade explicitamente, ao lado da pneumonia associada à ventilação, e o motivo é que os mecanismos são os mesmos: aspiração de secreção colonizada, defesa reduzida e microbiota hospitalar mais agressiva.

A apresentação clássica — febre, tosse produtiva, dor pleurítica, crepitação localizada — aparece em parte dos casos. No idoso internado, o quadro se desmonta. A manifestação isolada pode ser uma confusão que começou hoje, uma prostração nova, uma queda, a recusa da bandeja, um controle glicêmico que desandou sem motivo, ou apenas uma respiração mais rápida — tudo isso com temperatura normal ou abaixo do normal. Por isso a dessaturação, no idoso, deve fazer você procurar foco pulmonar mesmo sem febre e mesmo sem tosse.

O que distingue essa pneumonia da adquirida na comunidade não é o quadro, é o momento e a flora. Quadro novo depois de quarenta e oito horas de internação, em paciente que já usou antimicrobiano recentemente ou que tem dispositivo invasivo, muda o espectro de agentes e portanto muda o antibiótico — a escolha empírica segue a régua da comissão de controle de infecção da sua instituição, porque o perfil de resistência é local, e nenhuma tabela nacional substitui o mapa do seu hospital.

Duas observações de beira de leito que valem mais que o raciocínio microbiológico às três e quarenta. A primeira: procure o foco com a mão, não só com o estetoscópio — a perna que drena, o acesso venoso avermelhado, a sonda vesical, a lesão por pressão sacral. A segunda: pneumonia que dessatura em paciente internado costuma vir com taquipneia e com queda de pressão antes de vir com febre alta, e essa combinação é abertura de protocolo de sepse, não observação.

Tromboembolismo pulmonar do paciente que estava deitado

É o diagnóstico principal deste capítulo, no sentido em que é o que mais se perde. O paciente estava estável, deitado há dias, e de repente fica taquipneico, taquicárdico e hipoxêmico. Pode haver dor pleurítica, pode haver tosse com raia de sangue, pode haver apenas mal-estar e uma sensação de morte iminente que o paciente descreve mal. Muitas vezes o episódio começa com um esforço banal: sentar na beira do leito, ir ao banheiro, receber a fisioterapia.

O que caracteriza a apresentação é o descompasso entre a gravidade do número e a pobreza do exame. Ausculta limpa. Radiografia sem infiltrado, sem congestão, sem derrame. Eletrocardiograma que muitas vezes traz apenas taquicardia sinusal. E, apesar disso, saturação baixa que exige oxigênio para se manter, frequência respiratória alta e gás carbônico baixo na gasometria. Quando o exame do tórax não explica a dessaturação, essa é a hipótese que sobe.

A forma grave é hemodinâmica antes de ser respiratória. Êmbolo central produz sobrecarga aguda de ventrículo direito, e o paciente aparece com hipotensão, jugular túrgida, extremidades frias e sonolência. Nesse cenário, o problema não é o pulmão, é o coração direito que perdeu a saída — e a instabilidade, não a saturação, é o que dita a pressa.

A pergunta que muda a probabilidade da hipótese está na prescrição e leva dez segundos: ele estava em tromboprofilaxia? Se não estava, e se está imobilizado há dias, a probabilidade sobe muito. Se estava, ela cai, mas não zera — profilaxia reduz o risco em três meses de cerca de 11% para cerca de 2,2% nos pacientes de alto risco, segundo o protocolo de tromboprofilaxia do Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados, e 2,2% não é zero. A indicação e a dose da profilaxia pertencem ao capítulo das três profilaxias; aqui ela funciona como probabilidade pré-teste.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação da dessaturação na enfermaria tem uma diferença de ordem em relação à do pronto-socorro, e ela não é detalhe. No pronto-socorro os exames chegam junto com o paciente. Aqui, às três e quarenta, o laboratório está reduzido, o técnico de radiologia precisa ser chamado, o aparelho portátil demora e a tomografia exige transportar um paciente que talvez não deva sair do andar. Isso significa que os dois primeiros exames deste capítulo não são exames de máquina: são a inspeção do paciente e a leitura da folha de prescrição.

A pergunta que cada exame responde é o que organiza a ordem. Um confirma que o número é verdadeiro. Outro diz se o problema é de oxigenação ou de ventilação. Outro mostra o que existe dentro do tórax. Outro procura o gatilho cardíaco. E um último persegue a hipótese que não aparece em nenhum dos anteriores. Nenhum responde à pergunta do outro, e pedir todos ao mesmo tempo, sem hipótese, é a forma mais cara de não decidir nada.

Antes de tudo: o número é real?

Esse é o primeiro exame e ele leva vinte segundos. O oxímetro de pulso funciona comparando a absorção de duas luzes por um leito arterial que pulsa. Ele precisa, portanto, de três coisas: luz atravessando tecido, sangue chegando, e pulso reconhecível. Falte qualquer uma e o aparelho não dá erro — ele dá número.

A prova está na tela e chama-se onda pletismográfica, a curva que acompanha o valor. Uma onda de boa qualidade tem morfologia arterial reconhecível, com subida rápida, descida mais lenta e amplitude estável, e sua frequência bate com a frequência cardíaca do monitor ou com o pulso que você palpa. Quando essa onda está achatada, serrilhada, irregular ou com amplitude que muda a cada ciclo, o número que aparece ao lado não vale nada. E quando não há onda nenhuma na tela, o valor exibido é o último que o aparelho conseguiu calcular. A regra prática é a mais curta deste capítulo: olhe a onda antes de acreditar no número, e confira se a frequência do oxímetro bate com o pulso radial.

As causas de leitura falsamente baixa que a enfermaria produz em série são cinco. Extremidade fria, porque a vasoconstrição reduz o sinal pulsátil — e essa é a mais comum em madrugada de ar-condicionado. Má perfusão de verdade, por hipotensão ou choque, e aqui o número baixo não é artefato, é informação sobre a circulação. Movimento, tremor ou calafrio, que o aparelho lê como pulso. Sensor mal posicionado, folgado, ou colocado no mesmo braço do manguito de pressão, que interrompe o fluxo a cada medida. E arritmia com pulso irregular, que atrapalha o cálculo. Diante de qualquer uma delas, o gesto é trocar de sítio: aqueça a mão, mude para outro dedo, use o lóbulo da orelha se o aparelho permitir, e refaça a medida.

Duas interferências merecem correção de expectativa, porque a cultura de enfermaria exagera a primeira e subestima a segunda. O esmalte de unha é a que todo mundo cita: o estudo brasileiro de Diccini e colaboradores, com oitenta voluntárias sadias, cinco cores e a mão contralateral como controle, encontrou redução estatisticamente detectável apenas com o vermelho e com o café, e ainda assim com todos os valores dentro da faixa normal em pessoa sadia. Retirar o esmalte é razoável e barato, mas atribuir uma saturação de 84% ao esmalte é procurar culpa no lugar errado. A segunda é a pigmentação cutânea mais escura, que tende a fazer o oxímetro superestimar a saturação real — e superestimar é pior do que subestimar, porque o erro empurra na direção da falsa tranquilidade.

Há ainda um atraso que engana no sentido oposto. O oxímetro de dedo mostra o que aconteceu no pulmão há alguns segundos, e o atraso cresce quando a perfusão periférica é ruim. Num paciente que está piorando rápido, o número na tela é otimista por construção. Por isso a decisão nesses casos se toma pelo padrão respiratório e pelo nível de consciência, e a saturação entra como confirmação, não como gatilho.

Gasometria arterial: o exame que separa oxigenação de ventilação

Gasometria pode esclarecer oxigenação, ventilação e equilíbrio ácido-base, mas sua coleta não deve atrasar oxigênio, ventilação assistida ou chamada de ajuda. Registrar dispositivo, fluxo/FiO2 e hora para interpretar o resultado.

PaCO2 alta com acidemia indica falência ventilatória relevante; o bicarbonato e o valor basal ajudam a distinguir processo agudo, crônico e agudização sobre retenção prévia. Compensação pode ser alterada por distúrbio metabólico concomitante. PaCO2 baixa indica hiperventilação e pode ocorrer em TEP, sepse, dor e outras causas: sozinha, não localiza a falha na perfusão pulmonar. Interpretar sempre com consciência, esforço, perfusão e oxigênio em uso.

PaO2 após iniciar oxigênio continua informativa quando interpretada com dispositivo, FiO2 estimada e contexto. Não é o valor basal em ar ambiente, e não se deve retirar oxigênio necessário apenas para obter esse basal. Diante de discordância com o oxímetro, conferir sinal, perfusão, técnica e possibilidade de dis-hemoglobinemia.

O protocolo de oxigenoterapia hospitalar do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro coloca a gasometria como exame indicado quando ajustes finos de fração inspirada são necessários ou quando há doença pulmonar de base, e o protocolo de deterioração clínica da Secretaria de Saúde do Distrito Federal coloca a avaliação de dados de gasometria dentro do estrato mais grave de resposta de enfermagem — ou seja, os dois documentos convergem para a mesma ideia: gasometria é exame de paciente que está saindo da faixa, não exame de rotina.

Radiografia de tórax no leito: o que mostra e o que não exclui

É o exame que mais muda a hipótese entre as causas parenquimatosas e o que menos serve para excluir. Numa única incidência portátil, feita com o paciente sentado o mais ereto possível, você procura cinco coisas: consolidação nova, congestão, derrame, pneumotórax e perda de volume com desvio de estruturas, que é a assinatura da atelectasia. A comparação com a radiografia da admissão vale mais do que a leitura isolada, e essa comparação está disponível para você e não estava para quem atendeu o paciente no pronto-socorro.

O que a radiografia não faz é excluir. Radiografia normal não afasta tromboembolismo: naquela doença o filme limpo é o resultado esperado, e o que você pede a ele é que encontre a causa concorrente, não que descarte a suspeita. Radiografia normal também não afasta congestão em quem tem insuficiência cardíaca crônica agudizada, como registra a diretriz brasileira de insuficiência cardíaca. E broncoaspiração recente pode não ter tido tempo de produzir infiltrado: o filme das primeiras horas pode estar limpo enquanto o paciente já dessatura.

Há uma decisão de tempo embutida aqui, e ela é do médico, não do serviço de imagem. Radiografia não é pré-requisito para começar oxigênio, para sentar o paciente, para aspirar secreção ou para iniciar pressão positiva em quem está em falência. Se o filme demora quarenta minutos, essas quarenta minutos são de tratamento, não de espera. A ordem correta é tratar o mecanismo mais provável e pedir o exame em paralelo.

Um cuidado técnico com consequência clínica: a radiografia feita no leito, com o paciente deitado, alarga a silhueta cardíaca e redistribui a vasculatura, o que faz um tórax normal parecer congesto. Antes de diagnosticar congestão em filme de leito, olhe se há linhas de Kerley, derrame e infiltrado peri-hilar, e principalmente compare com o exame anterior do mesmo paciente na mesma técnica.

Eletrocardiograma: três perguntas em dois minutos

O eletrocardiograma custa pouco, chega rápido e responde a três perguntas que mudam o que você faz no mesmo turno. A primeira é se existe arritmia nova que explique a descompensação — fibrilação atrial de alta resposta é a campeã da enfermaria e faz congestão em paciente que estava compensado. A segunda é se existe isquemia aguda por trás do quadro respiratório, porque infarto em idoso e em diabético se apresenta como dispneia mais vezes do que como dor. A terceira é se há sinal de sobrecarga aguda de câmaras direitas, que num paciente com dessaturação súbita e pulmão limpo reforça a hipótese vascular.

O que o eletrocardiograma não faz é excluir tromboembolismo. Traçado normal é comum nos casos leves e moderados, e mesmo nos graves o achado mais frequente é taquicardia sinusal. Usá-lo como filtro para decidir se vale a pena investigar embolia é inverter a lógica do exame.

Vale também um lembrete de contexto, porque a enfermaria produz distúrbios eletrolíticos com abundância: alterações de potássio e de cálcio aparecem no traçado e podem ser a causa da arritmia que causou a congestão que causou a dessaturação. Os capítulos de potássio e de sódio desta apostila cuidam do distúrbio em si; aqui o traçado é um atalho para desconfiar dele.

A rota do tromboembolismo quando o tomógrafo está fechado

A diretriz conjunta brasileira sobre tromboembolismo venoso encadeia a investigação em três degraus: primeiro se estabelece a probabilidade clínica com uma regra de predição, depois se decide entre dosar D-dímero e ir direto à imagem, e a angiotomografia de artérias pulmonares é o exame que confirma. Quem detalha o escore de Wells e desenha o algoritmo inteiro é o capítulo de dor torácica desta apostila. O que muda aqui são a hora do relógio e o andar do hospital.

O ponto de decisão prático é este, lido em dois níveis, como na diretriz de dor torácica de 2025 e em Tromboembolismo pulmonar: diagnóstico e manejo, da apostila de Pneumologia: o paciente com TEP improvável — tromboembolismo pulmonar improvável, Wells até 4 — dosa D-dímero; abaixo do corte, a embolia está afastada e se procura outro diagnóstico; acima, vai para a imagem. A diretriz conjunta é mais restritiva: pelo texto e pelo fluxograma dela, só a probabilidade baixa dosa D-dímero, e a probabilidade diferente de baixa vai direto à imagem. No TEP provável (Wells acima de 4), dosar D-dímero não ajuda — resultado baixo cria falso alívio e resultado alto não acrescenta, porque a imagem seria feita de qualquer modo. E o paciente internado há dias tem uma armadilha adicional: infecção, cirurgia recente, neoplasia, hematoma e a própria idade elevam o D-dímero. No paciente da enfermaria, um D-dímero alto quase nunca informa; o que informa é um D-dímero baixo, e só quando a probabilidade não era alta.

No paciente instável que não pode ser transportado, ecocardiograma à beira do leito pode mostrar sobrecarga aguda de ventrículo direito e apoiar decisão urgente. Ausência de sobrecarga em exame adequado torna menos provável uma embolia suficientemente grave para explicar o choque, mas não exclui TEP em geral. Qualidade da imagem, experiência do examinador e diagnósticos concorrentes limitam o resultado; não converter um POCUS inconclusivo em exclusão.

A pergunta que fica é o que fazer com a suspeita entre a decisão e a confirmação, e ela é uma divergência real entre serviços — está tratada no bloco de divergências deste capítulo, com as duas posições e com o critério de decisão. O que não é divergência é a obrigação de registrar no prontuário, naquela hora, qual foi a probabilidade estimada e por quê: sem esse registro, o plantão seguinte recomeça do zero e o exame nunca é pedido.

O pedido que não ajuda, o que ele custa, e o que a rede pública oferece

Quatro pedidos frequentes e o preço de cada um. Painel completo de exames laboratoriais às três e quarenta, sem hipótese: consome a única punção que o paciente vai tolerar naquela hora, atrasa a coleta que interessa, e devolve resultados às seis da manhã que ninguém correlaciona. Tomografia de tórax em paciente que ainda não estabilizou: transporta um paciente instável para um corredor sem equipe e sem oxigênio de parede. Cultura de escarro de rotina em quem não tosse: costuma vir com flora orofaríngea e orienta antibiótico errado. E D-dímero em quem já tem probabilidade alta de embolia: não muda conduta e cria falso alívio.

Existe um exame que quase todo mundo pede tarde e deveria pedir cedo: a glicemia capilar. Ela leva um minuto, e o rebaixamento de consciência com respiração alterada tem hipoglicemia entre as causas reversíveis. Na mesma linha estão a temperatura axilar de verdade, medida por três minutos, e a frequência respiratória contada por sessenta segundos com relógio — que é o sinal vital que mais prediz deterioração e o único que depende de alguém ter paciência.

Sobre disponibilidade, a régua tem de funcionar com o que existe. Oximetria de pulso, glicemia capilar, eletrocardiograma e radiografia portátil estão em praticamente qualquer hospital do Sistema Único de Saúde que tenha internação. Gasometria arterial existe na maioria, mas nem sempre com resultado em trinta minutos na madrugada. Angiotomografia, ecocardiograma e ultrassom à beira do leito dependem do serviço, do dia da semana e do horário. Por isso a decisão deste capítulo se monta sobre exame físico, oxímetro, monitor e gasometria — e trata imagem avançada como acelerador, não como pré-requisito.

Fecha a investigação uma frase que vale como régua: nenhum desses exames responde à pergunta que a beira do leito já respondeu. Se o paciente respira doze vezes por minuto, não faz esforço e não acorda, você já sabe que o problema é de ventilação, e o que falta não é exame, é conduta. Exame confirma e documenta; ele não autoriza a espera.

07

Reconhecer gravidade e agir nos primeiros minutos

Distinguir hipoxemia de falência ventilatória, iniciar suporte e reconhecer precocemente a necessidade de ajuda no paciente internado.

  1. 1Primeiros segundos: avaliar responsividade, permeabilidade da via aérea, ventilação e perfusão. Respiração lenta e superficial pode ser tão grave quanto esforço intenso. Pedir ajuda imediatamente diante de falência, iniciando suporte em paralelo.
  2. 2Conferir rapidamente onda, sensor e pulso. No paciente estável com sinal ruim, repetir em sítio adequado; no paciente em deterioração, essa conferência ocorre junto ao tratamento e não o adia.
  3. 3Oferecer oxigênio prontamente se indicado e titular ao alvo: em geral 92% a 96% neste percurso, ou 88% a 92% em risco de insuficiência hipercápnica. Documentar sem atrasar a oferta. Ajustar posição, monitorizar e medir glicemia.
  4. 4Minuto 2 a 3 — Responda qual compartimento falhou. Troca, bomba, fole ou via aérea. Use ausculta, padrão respiratório, jugular, temperatura das extremidades e nível de consciência. Se houver ruído de via aérea alta, secreção audível à distância, ou ausculta abolida de um lado, resolva isso primeiro: nenhum dos outros passos funciona com o cano fechado.
  5. 5Minuto 3 a 4 — Abra a prescrição e o balanço hídrico. Procure opioide, benzodiazepínico e sedativo administrados nas últimas horas; procure o volume que entrou nas últimas vinte e quatro horas contra o que saiu; confirme se havia tromboprofilaxia e desde quando o paciente não levanta. Essa folha é o exame complementar que responde mais rápido do que o laboratório.
  6. 6Acionar a equipe assim que a gravidade for identificada. Nos primeiros minutos, completar uma comunicação curta com estado atual, hipótese, suporte iniciado e pedido explícito; registrar o horário depois que as ações imediatas estiverem em curso.
  7. 7Três gatilhos encerram a fase de titular oxigênio e abrem a fase de suportar a ventilação: ventilação que o paciente não sustenta sozinho, consciência que continua descendo, e alvo que não se alcança nem trocando de dispositivo. Nenhum dos três espera filme nem gasometria.

Onda confiável — pode acreditar no número

Curva com morfologia arterial reconhecível: subida rápida, descida mais lenta, amplitude estável de batimento para batimento, e frequência que coincide com o pulso radial palpado e com a frequência do monitor. Aqui a saturação exibida representa o paciente, e uma queda é um evento clínico. Registre o valor, o dispositivo em uso e o fluxo.

Onda duvidosa — conferir em paralelo à avaliação clínica

Amplitude que varia a cada ciclo, traçado serrilhado, morfologia irregular, ou frequência que não bate com o pulso. Causas típicas de madrugada: mão fria, sensor folgado, tremor, manguito no mesmo braço, arritmia. Aqueça a extremidade, troque de dedo ou de sítio e meça de novo. Se a onda melhorar e o número subir, era artefato; se a onda melhorar e o número continuar baixo, é doença.

Sem onda — o número na tela é memória

Sinal ausente ou muito fraco impede confiar no valor. Conforme o aparelho, pode haver alarme, ausência de leitura ou manutenção de valor anterior. Conferir sensor e perfusão: pulso fino, hipotensão ou extremidades frias exigem avaliação circulatória junto à respiratória.

Compartimento que falhouComo o paciente apareceO que confirma à beira do leitoO que fazer nos primeiros minutos
Fole — o ar não circulaSonolento, respiração lenta e rasa, sem tiragem, sem sudorese; pupila miótica se opioideFrequência respiratória baixa contada em 60 segundos, consciência rebaixada, ausculta que pode estar limpa; gasometria com gás carbônico altoEstimular, elevar a cabeceira, oxigênio com alvo, suspender o sedativo, considerar antídoto quando indicado, e suporte ventilatório se não reverter
Troca — o alvéolo está ocupadoAcordado, taquipneico, esforço visível, hipoxemia que resiste ao oxigênioCrepitação, roncos, murmúrio reduzido, assimetria; radiografia com consolidação, congestão ou derrameOxigênio titulado, posição sentada, tratar o que ocupa o alvéolo, e pressão positiva se o esforço não ceder
Bomba — o coração não vence a cargaOrtopneia, sudorese fria, agitação, extremidades frias, pressão frequentemente altaCrepitação bilateral que sobe das bases, jugular túrgida, terceira bulha, balanço hídrico positivo, ganho de pesoSentar com pernas pendentes, oxigênio, vasodilatador se a pressão permitir, diurético endovenoso e tratar o gatilho
Via aérea — o cano está obstruídoRuído audível à distância, estridor, voz abafada, ou silêncio com esforço máximoSecreção audível, corpo estranho, edema de face e língua, ausculta abolida de um ladoDesobstruir agora: aspirar, posicionar, tratar anafilaxia se for o caso, e chamar quem garante via aérea definitiva
Perfusão pulmonar — ventila e não perfundeTaquipneia e taquicardia súbitas em paciente que estava bem, às vezes após esforço banalExame do tórax pobre demais para o número: ausculta limpa, radiografia sem novidade, gás carbônico baixoOxigênio, acesso, avaliar probabilidade clínica, acionar a rota de imagem e discutir anticoagulação com quem vai assumir o caso
Nenhum — o número era falsoConfortável, corado, falando frases inteiras, sem taquipneiaOnda pletismográfica ruim ou ausente, discordância com o pulso, melhora imediata ao trocar o sítio de medidaRefazer a medida em outro sítio, documentar o valor confirmado, e reavaliar em uma hora sem prescrever oxigênio de rotina

A onda pletismográfica ajuda a avaliar a qualidade, mas não valida tudo: pigmentação, dis-hemoglobinas e limitações do equipamento ainda podem afetar a leitura. Número sem sinal adequado não deve guiar isoladamente uma decisão.

Frequência respiratória é o sinal vital que mais prediz deterioração e o único que não tem aparelho. Conte por sessenta segundos, com o relógio, olhando o tórax — estimar de olho subestima sistematicamente quem respira devagar.

Saturação sob oxigênio e saturação em ar ambiente são números diferentes. Anote sempre o dispositivo e o fluxo ao lado do valor, senão o plantão seguinte compara duas coisas que não se comparam.

Em risco de insuficiência respiratória hipercápnica, titular habitualmente para 88% a 92% e obter gasometria. A hipercapnia por excesso de oxigênio envolve sobretudo piora da relação ventilação/perfusão e efeito Haldane, com contribuição variável da ventilação; não se resume à perda de estímulo hipóxico. Hipoxemia ameaçadora continua exigindo oxigênio e suporte imediatos.

A janela de reavaliação recomendada pelo mesmo protocolo é de 20 a 30 minutos após iniciar a oferta ou mexer nela, e o que se mede nessa janela são sete coisas, não uma: as duas frequências, a pressão, a consciência, a musculatura acessória recrutada, o conforto relatado e, por último, a saturação. Essa janela cabe dentro do seu plantão. Esse é um intervalo de reavaliação formal em paciente estabilizado; deterioração requer avaliação e intervenção contínuas desde o início.

O cateter nasal convencional não tem um teto universal de 4 L/min nem fornece FiO2 fixa. Respeitar limites do dispositivo, conforto e resposta; necessidade crescente de oxigênio exige reavaliar causa e suporte, e não apenas aumentar litros.

08

A conduta, hora a hora

A conduta da dessaturação na enfermaria tem duas camadas, e a ordem entre elas é o que separa o plantão bom do plantão que dá errado. A primeira camada vale para todo mundo e não espera diagnóstico: olhar, confirmar a medida, posicionar, oferecer oxigênio com alvo escrito, monitorizar e medir glicemia. A segunda é específica do compartimento que falhou, e é nela que as prescrições se contradizem — volume que salva um afoga o outro, sedação que acalma um mata o outro.

As doses abaixo são exemplos para discussão supervisionada. Conferir concentração disponível, via, diluição, função renal, contraindicações e protocolo do hospital antes de prescrever. Uma apresentação descrita em fonte nacional não comprova o estoque ou a padronização de cada instituição.

  1. Minuto 0 a 1 — antes de saber o que é

    Reconheça gravidade e peça ajuda imediatamente se houver rebaixamento, ventilação insuficiente, exaustão ou hipoxemia importante. Avalie via aérea, respiração e circulação em paralelo à conferência do oxímetro. Posicione conforme proteção da via aérea e perfusão; eleve a cabeceira quando tolerado. Ofereça oxigênio prontamente, titulado depois ao alvo, e suporte a ventilação quando necessário. Hipoxemia ameaçadora exige oferta suficiente mesmo em quem pode reter CO2: o risco de hipercapnia exige vigilância e ventilação, não atraso da oxigenação. Monitorize e meça glicemia.

    Prescrição
    • Elevar a cabeceira se o paciente tolerar; adaptar a posição na hipotensão, vômito ou perda de proteção da via aérea. Para ventilação com bolsa, otimizar abertura da via aérea e vedação da máscara; não impor posição sentada a todos.
    • Oxigênio suplementar titulado ao alvo escrito: SpO2 de 92% a 96% na maioria dos pacientes internados e de 88% a 92% em portador de doença pulmonar obstrutiva ou risco de retenção de gás carbônico (POP.HC-UFTM-UMULTI.038, 2026; AMIB e SBPT, Orientações práticas de ventilação mecânica, 2025)
    • Cateter nasal convencional geralmente 1 a 6 L/min; máscara simples 5 a 10 L/min; Venturi conforme fração e fluxo mínimos indicados na válvula; reservatório não reinalante habitualmente 10 a 15 L/min, mantendo a bolsa insuflada. As frações com dispositivos de desempenho variável são estimativas, influenciadas por padrão ventilatório, vedação e demanda; não usar uma equivalência fixa de litros para FiO2.
    • Na máscara simples, não usar fluxo inferior a 5 L/min. Na Venturi, seguir o fabricante da válvula: o limite da máscara simples não se aplica indistintamente a todas as máscaras.
    • Monitorização contínua de frequência cardíaca, frequência respiratória, pressão arterial e oximetria, com glicemia capilar imediata (protocolo de deterioração clínica da SES-DF, estrato de maior gravidade)
  2. Minuto 1 a 3 — se o fole falhou

    Paciente sonolento, respiração lenta e rasa, sem esforço. O que corrige aqui não é fração inspirada, é ventilação. Estimule verbalmente e com toque firme, mantenha a via aérea pérvia com elevação do mento, e ventile com bolsa-válvula-máscara se a ventilação for insuficiente, mesmo antes de apneia — a própria bula da naloxona é explícita ao dizer que a medida inicial principal diante de depressão ventilatória é a assistência ventilatória, e não o antídoto. Suspenda imediatamente o opioide e o sedativo prescritos. Colha gasometria arterial. Se houver opioide administrado nas últimas horas e a depressão persistir apesar do estímulo, o antídoto entra titulado, não em bólus cheio.

    Prescrição
    • Suspender opioide, benzodiazepínico e demais sedativos prescritos, incluindo os de horário e os condicionais, e registrar a suspensão no prontuário
    • Assistir com bolsa-válvula-máscara e oxigênio se a ventilação for insuficiente, inclusive com respiração presente porém rasa e ineficaz. Acionar equipe capacitada para via aérea; não esperar apneia nem gasometria.
    • Naloxona diluída: 1 ampola de 0,4 mg em 1 mL acrescida de 9 mL de soro fisiológico, resultando em 0,04 mg/mL; administrar 2 mL, ou seja 0,08 mg, por via intravenosa a cada 2 minutos, até frequência respiratória e consciência adequadas (SAMU 192, protocolo de sedação AC38)
    • Alternativa de titulação em depressão por opioide de uso terapêutico: 0,1 a 0,2 mg por via intravenosa a cada 2 a 3 minutos, o que corresponde a 2,5 a 5 mL da diluição acima (bula profissional de Narcan, cloridrato de naloxona 0,4 mg/mL)
    • Flumazenil, apenas se a causa for benzodiazepínico isolado e não houver uso crônico nem risco convulsivo: 0,1 a 0,2 mg por via intravenosa em 15 a 30 segundos, repetível até reversão da depressão respiratória ou até o total de 1 mg (SAMU 192, protocolo de intoxicação por depressores do sistema nervoso central)
    • Gasometria arterial imediata, anotando na requisição o dispositivo de oxigênio e o fluxo em uso
    • Após naloxona, manter monitorização: seu efeito pode terminar antes do opioide. Recorrência exige suporte imediato, novas doses e possível infusão em ambiente apropriado, sob supervisão. A meta é ventilação e proteção da via aérea adequadas, evitando reversão desnecessária de toda a analgesia.
  3. Minuto 1 a 5 — se a via aérea falhou ou houve aspiração

    Na aspiração aguda, chamar ajuda, proteger a via aérea, retirar material visível e aspirar secreções acessíveis; posicionar para reduzir aspiração conforme consciência e estabilidade. Interromper temporariamente a alimentação durante a emergência e revisar via, sonda e condições de retomada. Oferecer oxigênio e assistência ventilatória quando necessária. Radiografia não deve atrasar suporte. Pneumonite química isolada não exige antibiótico preventivo; suspeita de pneumonia, sepse ou evolução desfavorável pede avaliação infecciosa e tratamento dirigido.

    Prescrição
    • Aspiração de vias aéreas superiores sob visão direta, com o paciente lateralizado e a cabeceira elevada
    • Interromper alimentação oral/enteral durante a instabilidade e a avaliação de aspiração. Definir com a equipe quando e por qual via retomar; solicitar avaliação da deglutição quando indicada. Um fator de risco isolado não justifica jejum prolongado automático.
    • Posicionar para facilitar respiração quando tolerado; em hipotensão, síncope ou suspeita de choque, individualizar posição e suporte circulatório. Não elevar automaticamente todo paciente instável sem observar a resposta.
    • Oxigênio titulado ao alvo definido no marco anterior; se houver necessidade de intubação, posicionar o encosto entre 20 e 30 graus para reduzir novo episódio de aspiração (AMIB e SBPT, Orientações práticas de ventilação mecânica, 2025)
    • Radiografia de tórax portátil, em incidência única, com o paciente o mais ereto possível, pedida em paralelo ao tratamento
  4. Minuto 3 a 10 — se a bomba falhou

    No edema pulmonar, avaliar simultaneamente oxigenação, ventilação, pressão e mecanismo. Sentar ou elevar cabeceira pode ajudar se tolerado, mas pendurar as pernas não é medida obrigatória. VNI, vasodilatação e diurético dependem de quadro clínico, pressão e congestão; hipotensão exige outra abordagem e ajuda imediata.

    Prescrição
    • Suspender soro de manutenção e infusões não essenciais; registrar o balanço hídrico das últimas 24 horas na evolução
    • Elevar cabeceira se tolerado; monitorizar ECG, pressão e saturação e oferecer suporte respiratório conforme necessidade, sem atrasar escalonamento diante de fadiga, alteração de consciência ou instabilidade.
    • No edema cardiogênico com pressão adequada, considerar nitrato sob supervisão e monitorização frequente; uma opção prevista em protocolos locais é dinitrato de isossorbida 5 mg sublingual. PAS apenas acima de 90 mmHg não garante segurança: evitar em hipotensão, suspeita de infarto de ventrículo direito, uso recente de inibidor de PDE5 e outras contraindicações; vasodilatação é mais apropriada quando a PAS está bem preservada, frequentemente acima de 110 mmHg. Repetições dependem da resposta e do protocolo.
    • Furosemida por via intravenosa, dose inicial de 20 a 40 mg em bólus, no mínimo equivalente à dose oral que o paciente já vinha tomando; com a solução injetável de 10 mg/mL da Rename 2024, 40 mg correspondem a 4 mL (Sociedade Brasileira de Cardiologia, Diretriz de Insuficiência Cardíaca, 2018)
    • Acompanhar melhora do esforço e da ortopneia, perfusão, diurese e balanço desde as primeiras horas. Uma referência de resposta diurética não é meta obrigatória de 1 litro para todo paciente. Ajustar pela congestão, pressão, função renal e eletrólitos; manter o alvo de saturação individual e reduzir oxigênio quando possível.
    • Eletrocardiograma de 12 derivações e tratamento do fator desencadeante identificado
  5. Desde o reconhecimento da gravidade — chamada imediata, em paralelo ao suporte

    Chamar ajuda é conduta, tem indicação e tem horário, e escrevê-la aqui é proposital: ela não é o que se faz quando tudo falhou, é o que se faz enquanto ainda dá tempo. Existem três destinos possíveis e você escolhe pelo que o hospital tem: o time de resposta rápida, se houver; o plantonista clínico ou o residente de referência; e a regulação ou a terapia intensiva, quando o paciente já precisa de leito monitorizado. O protocolo de deterioração clínica da Secretaria de Saúde do Distrito Federal coloca a solicitação de avaliação médica dentro do estrato mais grave, com reavaliação do escore de hora em hora até a melhora. A estrutura da chamada e o critério de acionamento em si estão no capítulo dos primeiros cinco minutos do paciente grave; o que interessa aqui é o conteúdo específico da chamada por dessaturação.

    Prescrição
    • Diga em trinta segundos, nesta ordem: quem é o paciente e por que está internado; qual era a saturação basal e qual é agora, em qual dispositivo e com qual fluxo; a frequência respiratória contada, a pressão e o nível de consciência; qual compartimento você acha que falhou e por quê; e o que você já fez
    • Termine com um pedido explícito e com prazo: o que você quer que a pessoa faça, e em quanto tempo você precisa dela no leito
    • Registre no prontuário o horário da chamada, o nome de quem atendeu e o que foi combinado — sem isso, o plantão seguinte recomeça a investigação do zero
    • Enquanto a ajuda não chega, permaneça no quarto reavaliando: quem aciona não sai de perto (protocolo de deterioração clínica da SES-DF)
  6. Minuto 10 a 30 — pressão positiva não invasiva

    Escolhido o paciente certo, nenhuma outra medida deste capítulo altera tanto o desfecho — e justamente por isso ela tem critério de entrada, critério de abandono e cronômetro. Entra no edema agudo cardiogênico e na descompensação hipercápnica de doença pulmonar obstrutiva. Não entra em quem precisa de intubação imediata, em parada, em quem não coopera ou não protege a via aérea, em quem tem secreção abundante, em quem acabou de vomitar, em quem tem alto risco de aspiração ou obstrução de via aérea superior. E, principalmente, ela não é lugar para observar a noite toda: as diretrizes brasileiras de ventilação mecânica dão uma janela de meia hora a duas horas para decidir se funcionou. A falha depende da indicação; planeje a via aérea desde o início e não espere essa janela se o paciente piorar.

    Prescrição
    • No edema agudo de pulmão cardiogênico: pressão positiva em dois níveis com pressão expiratória de 5 a 10 cmH2O e pressão inspiratória até 15 cmH2O, ou pressão positiva contínua de 5 a 10 cmH2O (AMIB e SBPT, Diretrizes Brasileiras de Ventilação Mecânica, 2013)
    • Contraindicações absolutas a respeitar: necessidade de intubação de emergência, parada cardíaca ou respiratória (AMIB e SBPT, 2013)
    • Contraindicações relativas, a pesar caso a caso: paciente que não coopera nem protege a própria via aérea; secreção em grande quantidade; consciência rebaixada, com ressalva expressa para o rebaixamento por acidose hipercápnica na doença pulmonar obstrutiva; risco alto de aspirar; obstrução no andar superior da via aérea; e face operada ou traumatizada (AMIB e SBPT, 2013)
    • VNI exige ambiente monitorizado e equipe capaz de intubar. Reavaliar continuamente nos primeiros minutos e formalmente em cerca de 30 a 60 minutos, com gasometria conforme quadro. Julgar tendência de esforço, frequência, consciência, oxigenação e acidose; não exigir seis melhoras simultâneas nem esperar completar duas horas se houver deterioração.
    • Na exacerbação hipercápnica de DPOC, uma tentativa monitorizada pode melhorar a consciência quando o paciente ainda protege a via aérea. Perda dessa proteção, choque, vômitos, exaustão ou piora apesar de ajustes exige escalada imediata. A janela de 1 a 2 horas não autoriza manter uma tentativa insegura.
  7. Desde os primeiros minutos, em paralelo à estabilização — investigar causas vasculares e infecciosas

    Com o paciente estabilizado e o alvo alcançado, as duas hipóteses que continuam correndo são a embolia e a infecção, e as duas têm relógio próprio. Na suspeita vascular, estabeleça a probabilidade clínica, registre-a no prontuário e acione a rota de imagem; a decisão de anticoagular antes da confirmação é discutida no bloco de divergências e não é decisão de interno sozinho às três e quarenta. Na suspeita infecciosa, procure o foco com a mão, colha as culturas e decida o antimicrobiano com a régua da comissão de controle de infecção do seu hospital, porque o perfil de resistência é local.

    Prescrição
    • Registrar por escrito a probabilidade clínica estimada de tromboembolismo e a justificativa; solicitar angiotomografia de artérias pulmonares quando a probabilidade for alta, sem dosar D-dímero nesse cenário (Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso, 2022)
    • Se o transporte for inseguro, discutir ecocardiograma à beira do leito por equipe experiente. Sobrecarga de ventrículo direito apoia, mas não confirma TEP; sua ausência em exame tecnicamente adequado reduz a probabilidade de TEP como causa do choque. Um POCUS limitado ou inconclusivo não exclui embolia.
    • Se a equipe indicar anticoagulação e escolher enoxaparina: exemplo com função renal adequada, 1 mg/kg SC a cada 12 horas; 78 kg correspondem a 78 mg, ou 0,78 mL na concentração de 100 mg/mL. Verificar peso, função renal, sangramento, plaquetas, história de HIT e procedimentos previstos. Insuficiência renal grave exige ajuste ou outro agente; instabilidade e estratégia de reperfusão exigem decisão especializada sobre o anticoagulante, não aplicação automática deste exemplo.
    • Colher hemoculturas quando houver suspeita de bacteremia ou sepse, idealmente antes do antimicrobiano e sem atraso relevante. Uso prévio de antibiótico ou ausência de febre não elimina a indicação; colher outros materiais conforme foco.
    • Hemograma, função renal, eletrólitos, transaminases, proteína C reativa e lactato, com coagulograma se não houver exame nas últimas 6 horas (protocolo de deterioração clínica da SES-DF)
  8. Hora 6 ao dia seguinte — mudar a prescrição para não repetir

    O episódio termina quando a causa é tratada e a prescrição muda. Se foi opioide, a dose volta menor e com escala de sedação anotada. Se foi aspiração, a dieta volta pela via que a avaliação de deglutição autorizar, e a cabeceira fica alta em prescrição escrita, não em combinação verbal. Se foi congestão, o soro de manutenção não volta ao que era e o balanço hídrico passa a ser conferido na visita. Se foi rolha, entra fisioterapia respiratória e mobilização, e as diretrizes brasileiras de ventilação mecânica são explícitas em considerar a higiene brônquica mandatória diante de atelectasia lobar. E se não havia tromboprofilaxia, essa é a linha que precisa aparecer na prescrição de amanhã. A passagem de plantão descreve o episódio com hora, número e conduta — não "dessaturou de madrugada, melhorou com oxigênio".

    Prescrição
    • Revisar diariamente a prescrição de oxigênio dentro da visita, reduzindo o fluxo ou suspendendo quando a meta for alcançada, e manter a meta de saturação visível à cabeceira do leito (POP.HC-UFTM-UMULTI.038, 2026)
    • Reintroduzir analgesia em dose menor e por escada, com registro do nível de consciência e da frequência respiratória em cada horário de administração
    • Manter posição que favoreça ventilação e perfusão, ajustada à consciência, pressão, trauma e tolerância. Monitorizar continuamente durante deterioração.
    • Prescrever fisioterapia respiratória e mobilização precoce; a terapia de higiene brônquica é mandatória diante de atelectasia lobar (AMIB e SBPT, Diretrizes Brasileiras de Ventilação Mecânica, 2013)
    • Reavaliar a indicação de tromboprofilaxia e prescrevê-la se indicada, conforme o capítulo das três profilaxias desta apostila (protocolo de tromboprofilaxia venosa do HU-UFGD, 2023)
    • Higiene bucal com escovação adaptada à capacidade de deglutir e manejo seguro das secreções; não prescrever antisséptico de rotina para todos. Revisar indicação de sondas e outros dispositivos.
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Como saber se está funcionando

Reavaliar não é voltar ao quarto quando der. É voltar num horário que você escreveu antes de sair, para medir um parâmetro que você escolheu antes de sair, com um valor de corte que você definiu antes de sair. Sem essas três decisões tomadas de antemão, a reavaliação vira memória, e memória de madrugada é otimista.

O relógio mais curto é o do oxigênio. O protocolo de oxigenoterapia hospitalar do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro fixa a reavaliação em 20 a 30 minutos depois de iniciar a oferta ou de mexer nela, e a lista do que se mede nessa reavaliação tem sete itens: além da saturação, entram a pressão arterial, as duas frequências, o nível de consciência, o recrutamento de musculatura acessória e o conforto relatado pelo paciente. A saturação ser apenas um sétimo dessa lista é proposital — ela é a que sobe primeiro e a que engana melhor. Esse é um intervalo de reavaliação formal em paciente estabilizado; deterioração requer avaliação e intervenção contínuas desde o início.

Há uma armadilha própria deste capítulo, e ela merece frase própria: melhora da saturação não é melhora do paciente. Num paciente que hipoventila, o oxigênio corrige o número em minutos e não corrige nada do que importa. O parâmetro que responde de verdade nesse caso é a frequência respiratória e o nível de consciência; se os dois não melhoram, a saturação em 96% é decoração.

E existe o critério que fecha tudo. Passado o prazo escrito sem que o parâmetro escolhido melhore, pare de mexer na dose e volte três casas: o compartimento identificado era mesmo o que falhou, há uma segunda causa correndo em paralelo, e este leito ainda é o lugar certo para este paciente?

Saturação de oxigênio, com o dispositivo e o fluxo anotados ao lado20 a 30 minutos após iniciar ou titular

Esperado: Dentro da faixa escrita na prescrição: 92% a 96% na maioria, ou 88% a 92% no retentor de gás carbônico

Se não melhora: Antes de subir o fluxo, confira a onda pletismográfica e o posicionamento do dispositivo. Medida boa e alvo não alcançado pede troca de dispositivo, e não mais litros num que já chegou ao próprio limite. E guarde a leitura clínica embutida: hipoxemia que resiste à oferta aponta alvéolo ocupado ou unidade ventilada sem sangue.

Frequência respiratória contada por 60 segundosA cada 30 minutos na primeira hora

Esperado: Queda em direção a 12 a 20 por minuto, com esforço menor

Se não melhora: Frequência que continua alta apesar da saturação corrigida indica que o trabalho respiratório não caiu — pense em acidose, dor, ansiedade, embolia ou alvéolo ocupado. Frequência que continua baixa em paciente sonolento indica que o fole não voltou, e a próxima decisão é suporte ventilatório.

Nível de consciência, testado por chamado e por comando simplesA cada 30 minutos na primeira hora

Esperado: Paciente que responde ao nome e obedece a comando; melhora evidente em 1 a 2 horas quando o rebaixamento era por hipercapnia sob pressão positiva

Se não melhora: Consciência que continua caindo com saturação normal é o padrão da hipercapnia progressiva. Colha gasometria, reveja sedativos e opioides administrados, e escale para pressão positiva ou via aérea definitiva — esperar mais uma hora aqui é o erro que este capítulo existe para evitar.

Gás carbônico e pH na gasometria arterialNa primeira hora, e novamente 1 a 2 horas após qualquer mudança de suporte

Esperado: Queda do gás carbônico e subida do pH em direção ao normal

Se não melhora: Gás carbônico que sobe e pH que cai sob oxigênio significa que a oferta aumentou e a ventilação não. Reduza a fração inspirada ao mínimo que mantém o alvo e providencie suporte ventilatório; não é hora de aumentar oxigênio.

Resposta à pressão positiva não invasivaJanela de 0,5 a 2 horas, monitorada à beira do leito

Esperado: Melhora sustentada do esforço, ventilação, consciência quando alterada, oxigenação e acidose conforme mecanismo; avaliar o conjunto e a tendência.

Se não melhora: Reavaliar ajustes e causa com equipe experiente; piora clínica, perda de proteção da via aérea ou falência persistente requer intubação, sem aguardar o fim de uma janela. A taxa de falha depende da indicação e da seleção, e não é 50% para qualquer paciente.

Diurese e balanço hídrico, quando a hipótese foi congestãoNas primeiras 6 horas

Esperado: Diurese compatível com descongestão segura, redução de esforço e ortopneia, preservação da perfusão e acompanhamento renal/eletrolítico; individualizar o balanço pretendido.

Se não melhora: Antes de dobrar a dose, procure por que ela não funcionou. A diretriz brasileira de insuficiência cardíaca elenca seis causas de resistência ao diurético, e cada uma pede correção própria: sódio baixo, pressão baixa, albumina baixa, débito cardíaco baixo, rim comprometido, e o simples fato de o paciente já tomar diurético de alça em casa há anos.

Radiografia de tórax de controle, quando houve aspiração ou atelectasiaEm 24 a 48 horas, ou antes se houver piora

Esperado: Reexpansão da área atelectasiada, ou infiltrado que se define e depois regride

Se não melhora: Atelectasia persistente ou suspeita de obstrução relevante exige discussão de broncoscopia, mais cedo se houver falência. Febre, leucocitose e infiltrado progressivo aumentam suspeita de pneumonia, mas precisam de avaliação clínica; não demonstram automaticamente conversão de pneumonite em infecção.

Escore de alerta precoce da instituição, aplicado pela enfermagemDe hora em hora enquanto o paciente estiver no estrato de maior gravidade

Esperado: Queda progressiva do escore e retorno ao estrato de menor risco

Se não melhora: Escore que não cai apesar da conduta é critério de reavaliação médica e de discussão de leito monitorizado. Registre a tendência, não apenas o valor da última medida — a curva informa mais do que o ponto.

Necessidade de oxigênio ao longo dos diasDiariamente, na visita

Esperado: Redução progressiva do fluxo e do dispositivo, até ar ambiente com saturação dentro do alvo

Se não melhora: Paciente que continua dependente de oxigênio uma semana depois do episódio tem causa não resolvida — derrame, atelectasia persistente, embolia não diagnosticada ou congestão mantida — e merece reinvestigação, não uma prescrição de oxigênio contínuo por inércia.

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Onde o erro machuca

Tratar o número e não o paciente: aumentar oxigênio até a saturação subir e sair do quarto

O dano: É o erro central deste capítulo porque ele funciona — a tela melhora em minutos. No paciente que hipoventila, o oxigênio enriquece o pouco ar que ainda entra e corrige a saturação sem mover um mililitro a mais de ar. O gás carbônico continua subindo, a hipercapnia aprofunda o rebaixamento, o paciente respira menos ainda, e essa espiral corre por horas atrás de um monitor tranquilo. Quando o alarme finalmente dispara, o paciente já está em acidose respiratória grave, e o que era reversível com estímulo, suspensão de sedativo e pressão positiva virou intubação de urgência às cinco da manhã.

Como pegar a tempo: Avaliar consciência, amplitude e frequência respiratória junto à saturação. Se houver ventilação insuficiente, assistir imediatamente e chamar ajuda; gasometria é precoce, mas não é autorização prévia para ventilar.

Acreditar no valor sem olhar a onda pletismográfica

O dano: O oxímetro não avisa quando o sinal é ruim; ele mostra um número do mesmo jeito. Mão fria de madrugada, sensor no mesmo braço do manguito, tremor e hipotensão produzem leituras baixas que geram cascata: oxigênio prescrito sem indicação, gasometria arterial dolorosa, radiografia às quatro da manhã, transferência discutida. O custo é duplo — o paciente é submetido a procedimento desnecessário, e a próxima queda verdadeira encontra uma equipe que já aprendeu a desconfiar do monitor daquele leito.

Como pegar a tempo: Faça o gesto de vinte segundos: olhar a onda, palpar o pulso, comparar a frequência. Se a onda for ruim, aqueça a mão, troque o dedo ou o sítio, e meça de novo antes de prescrever. Ensine esse gesto à equipe de enfermagem no primeiro plantão — ele economiza mais chamadas do que qualquer protocolo.

Assumir que não houve aspiração porque ninguém viu o paciente engasgar

O dano: A Anvisa é explícita: a microaspiração silenciosa é a forma comum, e a macroaspiração presenciada é a exceção. Exigir testemunha para levantar a hipótese significa perder a maioria dos casos. O dano se acumula em duas frentes: o episódio de hoje não é tratado como aspiração e o paciente volta a receber dieta na mesma posição, na mesma via e no mesmo ritmo — de modo que amanhã há um segundo episódio, e o segundo costuma ser maior que o primeiro.

Como pegar a tempo: Suspeitar pelo contexto de disfagia, rebaixamento, sonda e posição, mesmo sem engasgo. Durante o episódio agudo, pausar a dieta e proteger a via aérea; definir avaliação e retomada segura. Cabeceira e higiene oral ajudam, mas risco isolado não impõe jejum indefinido a todo paciente.

Deixar oxigênio de alto fluxo correndo no paciente com retenção crônica de gás carbônico

O dano: Oxigênio excessivo mantido sem titulação pode agravar hipercapnia em suscetíveis por alterações da relação ventilação/perfusão, efeito Haldane e contribuição variável da ventilação. Isso não contraindica oxigênio suficiente na hipoxemia ameaçadora; exige ajuste ao alvo, gasometria e suporte ventilatório quando necessário.

Como pegar a tempo: Escreva o alvo antes de abrir o fluxo, e escreva-o para aquele paciente: 88% a 92% em quem tem doença pulmonar obstrutiva ou risco de retenção. Deixe a meta visível à cabeceira, como o mesmo protocolo recomenda, para que a equipe da madrugada saiba que 90% ali não é um número a corrigir. E colha gasometria em vez de aumentar o fluxo às cegas quando a dúvida for essa.

Não abrir a prescrição antes de investigar

O dano: A causa mais frequente de dessaturação com rebaixamento na enfermaria está escrita na folha, e a folha está a dois metros do leito. Investigar sem lê-la produz um caminho caro e lento: radiografia, gasometria, laboratório completo e transferência discutida, enquanto a resposta era o opioide administrado às duas da manhã num paciente cuja creatinina dobrou desde a admissão. Pior que o custo é o tempo: o paciente continua recebendo a próxima dose enquanto o exame não sai.

Como pegar a tempo: Faça da leitura da prescrição um passo do fluxo, com horário — minuto 3 a 4 — e não uma coisa que se faz depois. Procure três informações: o que foi administrado nas últimas seis horas, o balanço hídrico das últimas vinte e quatro, e se havia tromboprofilaxia. As três mudam a probabilidade das hipóteses antes de qualquer exame.

Dizer "vou observar mais um pouco" e não marcar hora nem chamar ninguém

O dano: É a decisão que mais mata na enfermaria à noite, e ela nunca é registrada como decisão — é registrada como nada. A deterioração hospitalar é progressiva e sinalizada: o protocolo de prevenção de deterioração clínica da Secretaria de Saúde do Distrito Federal registra que em torno de quatro em cada cinco pacientes que param no hospital já haviam mostrado alteração relevante de sinais vitais antes, e que mais da metade dos que param morrem. Observar sem prazo transforma uma janela de intervenção em uma reanimação.

Como pegar a tempo: Observação é conduta e precisa de três campos escritos: qual parâmetro, em quanto tempo, e o que dispara a próxima ação. Escreva no prontuário a hora da reavaliação antes de sair do quarto. E trate a chamada de ajuda como intervenção com horário, não como confissão de fracasso: quem chama cedo devolve o paciente à enfermaria, quem chama tarde devolve à família.

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O que dizer ao paciente e à família

Às três e quarenta há sempre mais de uma pessoa para conversar, e o interno costuma treinar só uma. O paciente, quando desperto, está assustado e sem ar, e a conversa precisa ser curta e concreta. O acompanhante, quando há, está no quarto vendo tudo e vai formar a impressão que a família toda terá do hospital. E a equipe de enfermagem é interlocutor clínico, não plateia: ela viu as horas anteriores que você não viu.

Três regras atravessam as falas abaixo. Diga o que está sendo feito antes de dizer o que se suspeita — quem está sem ar precisa primeiro saber que alguém está agindo. Não prometa nem o diagnóstico nem o desfecho. E nomeie o próximo passo com hora, porque a incerteza é tolerável quando tem prazo.

Ao paciente desperto e dispneico, nos primeiros segundos

Seu Rubens, sou eu, o médico do plantão. O senhor está com menos oxigênio no sangue do que deveria, e eu já estou colocando oxigênio agora. Preciso que o senhor fique sentado e respire pelo nariz. Eu não vou sair daqui, e vou ficar medindo de perto. Se piorar, a gente aumenta.

Não diga: Evite explicar hipótese diagnóstica a quem está sem ar — a pessoa não processa e a lista de possibilidades assusta mais do que informa. Evite também "calma", que soa como cobrança para quem sente que está sufocando.

Ao paciente sonolento, que responde ao chamado e volta a dormir

Seu Rubens, preciso que o senhor abra os olhos e respire fundo comigo. Isso. Mais uma vez. Estou aqui do lado e vou continuar chamando. O senhor recebeu um remédio para dor que está deixando a respiração devagar, e a gente vai suspender esse remédio agora.

Não diga: Evite considerar que o paciente sonolento não escuta e conversar sobre ele em terceira pessoa dentro do quarto. Evite também administrar o antídoto sem avisar que a dor vai voltar — a reversão brusca é desconfortável e o paciente merece saber por quê.

Ao acompanhante, no quarto, enquanto você trabalha

A senhora pode ficar aqui, na cadeira, e vai me ajudar respondendo umas perguntas. Ele está com a taxa de oxigênio baixa e eu já comecei o tratamento. Ainda não sei a causa, e por isso vou pedir alguns exames agora de madrugada. Assim que eu tiver uma resposta, eu venho falar com a senhora — e se eu demorar, é porque estou cuidando dele, não porque esqueci.

Não diga: Evite mandar o acompanhante sair sem necessidade real de espaço: quem sai do quarto imagina o pior. Evite também números soltos, como dizer a saturação sem dizer o que ela significa e o que já está sendo feito.

Ao acompanhante, quando a hipótese é grave e ainda não confirmada

Uma das possibilidades é um coágulo no pulmão. É uma hipótese séria e é por isso que estou pedindo o exame ainda esta noite. Não posso dizer que é isso, nem posso dizer que não é, até o exame ficar pronto. O que eu posso dizer é o que estamos fazendo enquanto isso, e que ele está sendo vigiado de perto.

Não diga: Evite anunciar o diagnóstico antes da confirmação para justificar a pressa; e evite o oposto, que é omitir a hipótese grave para poupar a família — quem descobre depois perde a confiança em tudo que foi dito antes.

À técnica de enfermagem que chamou, no corredor

Ela está respirando de forma insuficiente e precisamos apoiar a respiração agora. O remédio pode ajudar se houver efeito de opioide, mas vamos continuar acompanhando consciência, ritmo respiratório e oxigênio de perto. A melhora inicial pode não durar, e por isso ela precisa permanecer monitorizada.

Não diga: Evite dispensar a informação de quem passou a noite com o paciente e começar a avaliação do zero. Evite também pedir apenas saturação: se o que você quer é detectar hipoventilação, o parâmetro é a frequência respiratória, e ela precisa ser pedida por escrito.

Ao chamar o plantonista ou a terapia intensiva, ao telefone

Leito 9, homem de 71 anos, oitavo dia por erisipela. Saturação caiu de 95% para 84%, frequência de dez com respiração rasa e rebaixamento. Recebeu opioide às duas. Suspendi o agente, estou apoiando a ventilação com bolsa e oxigênio, e preciso de você imediatamente para avaliar via aérea e reversão. Peço que tragam o material de suporte.

Não diga: Evite começar pela história completa da internação: quem atende o telefone precisa do problema primeiro. Evite também terminar sem pedido explícito — chamada sem pedido vira conselho, e conselho não faz ninguém subir a escada.

Na passagem de plantão, de manhã

Leito 9: às 3h40 apresentou SpO2 de 84%, onda confiável, respiração rasa e sonolência após opioide. Acionamos ajuda imediatamente; suspendemos o agente, apoiamos ventilação e titulamos naloxona. A gasometria confirmou acidose respiratória. Após resposta, permanece monitorizado pelo risco de nova depressão; o plano inclui reavaliações próximas, alvo de oxigênio e revisão da analgesia. Informar as doses, horários e últimos parâmetros reais na passagem.

Não diga: Evite o resumo que não deixa ninguém agir, do tipo "dessaturou de madrugada e melhorou com oxigênio". Sem horário, número, conduta e pendência, quem assume o plantão não sabe o que vigiar nem o que decidir.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Qual a dose inicial de furosemida endovenosa no edema agudo de quem já está internado

Dose alta desde a primeira injeção: 40 a 80 mg por via intravenosa, o equivalente a cerca de 1 mg por quilo, com teto de 200 mg, e cautela apenas se a pressão sistólica estiver abaixo de 90 mmHg. O raciocínio é o do atendimento à emergência: o paciente está em falência respiratória agora, a descongestão precisa começar rápido, e uma dose pequena numa pessoa que já usa diurético não produz diurese nenhuma.

Ministério da Saúde, Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida, protocolo AC24 de edema agudo de pulmão

Dose inicial menor e calibrada pelo histórico: 20 a 40 mg em bólus intravenoso, com a regra de que a dose deve ser no mínimo equivalente à que o paciente já vinha usando por via oral, e escalonamento guiado por alvos clínicos de descongestão — cerca de 1 litro de diurese nas primeiras 6 horas, alívio da ortopneia em 24 horas. O raciocínio é o do acompanhamento longitudinal: dose excessiva de saída piora transitoriamente a função renal e desidrata quem tinha outra causa para a dispneia.

Sociedade Brasileira de Cardiologia, Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Crônica e Aguda, 2018

Como decidir

No edema pulmonar, escolher tratamento pela pressão, congestão e perfusão e reavaliar cedo. Diurese ausente em vinte minutos não prova hipovolemia nem falha definitiva da furosemida; conferir dose, uso prévio, acesso, coleta e função renal. Não esperar seis horas para rever um paciente que segue hipóxico ou piora.

Naloxona na depressão respiratória por opioide de uso terapêutico: titular pequeno ou escalonar até reverter

Titulação em doses pequenas: 0,1 a 0,2 mg por via intravenosa a cada 2 a 3 minutos, buscando ventilação e consciência adequadas sem abolir a analgesia. A justificativa está na própria bula: reversão abrupta pode produzir náusea, vômito, sudorese, tremor, taquicardia, aumento de pressão, convulsão, arritmia ventricular, edema pulmonar e parada cardíaca, e o excesso devolve a dor que o opioide tratava, com agitação.

Bula profissional de Narcan, cloridrato de naloxona 0,4 mg/mL, Cristália

Naloxona é titulada para recuperar ventilação suficiente no contexto compatível, enquanto via aérea e ventilação são apoiadas. Falta de resposta a doses acumuladas exige rever diagnóstico, administração e exposições, mas não há número único que exclua todos os opioides e apresentações. Pode haver recorrência após a resposta, exigindo vigilância e, em casos selecionados, infusão.

Ministério da Saúde, Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, protocolo de intoxicação por medicamentos depressores do sistema nervoso central

Como decidir

Decida pela pergunta que você está fazendo. Se a pergunta é "o opioide que eu prescrevi derrubou a respiração dele?", o paciente tem dor real, recebeu dose terapêutica e precisa continuar analgesiado depois: é titulação pequena, e a meta é frequência respiratória e consciência aceitáveis, não paciente acordado e gritando de dor. Se a pergunta é "ele tomou uma quantidade desconhecida de alguma coisa?", a escada rápida faz sentido, porque ali o risco de subtratar supera o de reverter demais. Repare na aritmética antes de escolher, porque ela não está escrita em nenhum dos dois documentos: a ampola brasileira tem 0,4 mg em 1 mL, e o quarto degrau de 10 mg equivale a 25 ampolas — um volume que nenhum carrinho de enfermaria tem e que ninguém prepara sob pressão. Na prática de leito, dilua 1 ampola em 9 mL de soro fisiológico, o que dá 0,04 mg por mililitro, e trabalhe em frações de 2 a 5 mL. E lembre que os dois documentos concordam no essencial: o antídoto é o segundo passo. O primeiro é ventilar.

Pressão positiva não invasiva no paciente da enfermaria que hipoventila com consciência rebaixada

Pode ser usada, com prazo curto para julgar. As diretrizes brasileiras de ventilação mecânica sugerem ventilação não invasiva no paciente com rebaixamento de consciência devido a hipercapnia em doença pulmonar obstrutiva, exigindo que a melhora da consciência seja evidente em 1 a 2 horas, dentro de uma janela geral de monitoração de 0,5 a 2 horas com critérios objetivos de sucesso.

AMIB e SBPT, Diretrizes Brasileiras de Ventilação Mecânica, 2013

Deve ser evitada quando o risco de aspiração é alto. Entre as contraindicações relativas do mesmo documento estão, lado a lado, o paciente que não coopera nem protege a via aérea, a secreção abundante, a consciência rebaixada e o risco alto de aspirar. O protocolo hospitalar de prevenção de broncoaspiração aperta ainda mais: para ele basta um fator isolado — e tanto o rebaixamento quanto a sonda enteral estão na lista — para que o paciente entre na categoria de alto risco.

AMIB e SBPT, Diretrizes Brasileiras de Ventilação Mecânica, 2013, e protocolo de prevenção de broncoaspiração do Hospital das Clínicas da UFMG, 2023

Como decidir

O ponto central é se a VNI pode ser aplicada com segurança e chance razoável de sucesso. Na DPOC com acidose hipercápnica e proteção da via aérea preservada, ela pode reverter o mecanismo da sonolência. Rebaixamento por outras causas, secreção abundante, vômitos, choque e incapacidade de proteger a via aérea aumentam o risco de falha; não basta atribuir sonolência ao CO2. Aplicar em ambiente com monitorização contínua e equipe capaz de intubar prontamente. Reavaliar desde os primeiros minutos; piora não espera a janela de 1 a 2 horas. VNI pode ventilar, mas não substitui proteção da via aérea nem tratamento da causa.

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O raciocínio, em voz alta

Quatro e dez da manhã, enfermaria de ortopedia. Dona Adalgisa Bracarense tem 74 anos, 62 quilos, e está no sexto dia de internação por fratura de colo de fêmur à direita, aguardando cirurgia que já foi remarcada duas vezes por falta de vaga em sala. Está acamada desde a admissão. A técnica te chama porque ela pediu para sentar na beira da cama para usar a comadre, e no meio do movimento começou a passar mal. O monitor mostra saturação de 86% em ar ambiente. Você entra no quarto pensando em atelectasia, porque é o que a ortopedia mais produz.

  1. O que penso ao entrar

    Antes do monitor, o paciente. Dona Adalgisa está sentada, pálida, respirando rápido e superficial, e consegue falar frases curtas. Não há tiragem intensa, não há sudorese profusa, e ela não parece sonolenta. Isso torna menos típico o padrão de depressão por sedativo, mas estar desperta e taquipneica não exclui ventilação alveolar insuficiente. O que ela descreve, quando eu pergunto, é uma sensação de aperto e de que o ar não desce.

  2. Confiro se o número é real

    A mão está fria — quatro da manhã, ar-condicionado. Olho a onda pletismográfica: amplitude pequena, mas morfologia arterial preservada e frequência batendo com o pulso radial, que está em 118 e regular. Aqueço a mão e refaço no outro dedo: 86%. O número é real. Se a onda estivesse achatada e a frequência não batesse, eu teria de refazer antes de qualquer coisa.

  3. Oxigênio com alvo, e sento a paciente

    Cateter nasal a 3 litros por minuto, alvo escrito de 92% a 96%, porque ela não tem doença pulmonar obstrutiva nem história de retenção. Mantenho-a sentada. Peço monitorização contínua e glicemia capilar. Isso vale para qualquer das hipóteses e não piora nenhuma, então não espera diagnóstico. Aciono o plantonista agora, em paralelo; a conversa posterior atualizará os exames, sem adiar esta chamada inicial.

  4. Pergunto qual compartimento falhou

    Ausculto: murmúrio vesicular presente e simétrico nos dois hemitórax, sem crepitação, sem sibilo, sem roncos. Percuto: sem macicez e sem hipertimpanismo. Jugulares não túrgidas com a paciente sentada, extremidades frias mas com enchimento capilar de dois segundos, pressão 138 por 82. Não há febre. Aqui o exame me devolveu uma informação e ela é a mais valiosa da noite: o tórax não explica a dessaturação. Isso derruba atelectasia, congestão e pneumonia para o fim da lista e sobe a hipótese de unidade que ventila e não perfunde.

  5. Abro a prescrição

    Três informações em dez segundos. Primeira: não há tromboprofilaxia prescrita — a fratura entrou pelo pronto-socorro, a prescrição foi copiada por seis dias e ninguém revisou. Segunda: não há opioide nas últimas oito horas, apenas dipirona. Terceira: balanço hídrico praticamente neutro, sem soro correndo. Isso muda a probabilidade das hipóteses antes de qualquer exame: paciente com fratura de fêmur, imobilizada há seis dias, sem profilaxia, que dessatura ao mudar de posição.

  6. O que peço e por quê

    Eletrocardiograma, para procurar arritmia, isquemia e sobrecarga de câmaras direitas. Radiografia de tórax portátil, não para confirmar embolia — ela não confirma —, mas para achar a outra doença, se houver. Gasometria arterial, anotando na requisição que a paciente está em cateter a 3 litros. Não peço D-dímero: com a probabilidade clínica que este quadro tem, um resultado baixo criaria falso alívio e um alto não acrescentaria nada, e a diretriz brasileira de tromboembolismo é explícita nesse encadeamento.

  7. Como a resposta muda o que penso

    O eletrocardiograma volta com taquicardia sinusal a 116 e inversão de onda T de V1 a V3. A radiografia não mostra consolidação, congestão, derrame nem pneumotórax. A gasometria mostra hipoxemia com gás carbônico de 28 mmHg e pH levemente alcalino. Cada um desses achados é individualmente inespecífico, e os três juntos desenham o padrão descrito no bloco de mecanismo: hiperventilação de unidades que ainda perfundem, exame do tórax pobre, sobrecarga aguda de câmaras direitas.

  8. A decisão que não pode esperar o exame

    São 4h35. A tomografia sai às sete, quando o técnico chega. Eu não vou decidir sozinho anticoagular uma senhora de 74 anos com fratura e cirurgia marcada, porque essa decisão pesa risco de sangramento contra risco de novo êmbolo e envolve a equipe que vai operá-la. Atualizo então o plantonista já acionado e peço presença imediata para a decisão conjunta. Digo em trinta segundos: leito 4, 74 anos, sexto dia de fratura de fêmur sem tromboprofilaxia, dessaturou para 86 ao sentar, ausculta e radiografia limpas, gás carbônico de 28, eletrocardiograma com inversão de T anterior, taquicárdica e normotensa. Minha hipótese é embolia pulmonar, já pedi a angiotomografia para as sete e preciso de você aqui para decidirmos a anticoagulação agora ou depois do exame.

  9. O que faço enquanto espero

    Mantenho o alvo de saturação e reavalio em 20 minutos, medindo os sete parâmetros e não só o oxímetro. Registro no prontuário a probabilidade clínica estimada e a justificativa, porque sem esse registro o plantão das sete recomeça do zero e o exame não sai. Peço à enfermagem saturação, frequência respiratória contada e pressão de trinta em trinta minutos, com ordem explícita de me chamar se a pressão sistólica cair abaixo de 100 ou se ela ficar sonolenta — porque a forma grave da doença é hemodinâmica antes de ser respiratória.

  10. O que ficou aprendido

    A combinação de risco trombótico e hipoxemia sem explicação suficiente no exame sustenta suspeita elevada de TEP; ausculta e radiografia normais não confirmam o diagnóstico. O aprendizado é iniciar suporte, chamar ajuda cedo e organizar investigação e anticoagulação conforme risco. Tromboprofilaxia indicada reduz eventos, mas não permite afirmar que teria evitado este episódio específico; a omissão precisa ser corrigida e compreendida pela equipe.

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Faça você

Duas e cinquenta da manhã, enfermaria de cirurgia geral. Seu Onofre Sperandio tem 63 anos, 96 quilos, fuma há quarenta anos e está no quarto dia de pós-operatório de laparotomia por úlcera perfurada. A técnica te chama porque a saturação caiu de 95% para 87% ao longo do plantão, descendo aos poucos. Ele está acordado, senta com dificuldade por causa da dor da incisão, e diz que não consegue tossir porque "puxa o corte". A frequência respiratória é 26, a frequência cardíaca 104, a pressão 146 por 88, a temperatura 37,8 °C. A onda pletismográfica é boa e bate com o pulso.

  1. Passo 1 — O que a apresentação já diz

    Queda progressiva ao longo de horas, não súbita. Paciente desperto, fazendo esforço, com dor que impede inspiração profunda e tosse. Isso torna menos típico o padrão de hipoventilação por sedativo, que seria de pouco esforço e sonolência, e coloca em primeiro plano os quadros de troca. A febre baixa é compatível com várias coisas e não decide nada sozinha.

  2. Passo 2 — O que o exame do tórax mostra

    À ausculta, murmúrio vesicular reduzido em base esquerda, com roncos grossos difusos que mudam de posição depois que ele faz um esforço de tosse. À direita, o murmúrio está preservado. Não há crepitação fina bilateral, não há terceira bulha e as jugulares estão planas com ele sentado. O abdome está distendido e doloroso à palpação da incisão.

  3. Passo 3 — O que a prescrição informa

    Analgesia prescrita apenas de horário com dipirona, e um opioide condicional que a enfermagem administrou uma única vez em quatro dias porque ele "não pediu". Não há prescrição de fisioterapia respiratória. Cabeceira sem prescrição de elevação. Balanço hídrico positivo de 900 mL em 24 horas. Tromboprofilaxia prescrita desde o primeiro dia e administrada.

  4. Passo 4 — Os dois primeiros minutos

    Você senta o paciente, oferece oxigênio por cateter nasal a 3 litros por minuto com alvo escrito, monitoriza e mede a glicemia. Pede radiografia de tórax portátil com o paciente o mais ereto possível e uma gasometria arterial, anotando o dispositivo e o fluxo. Fica no quarto.

  5. Passo 5 — Sua vez

    Diga qual compartimento falhou e por quê; qual é a hipótese principal e qual é a que compete com ela; qual alvo de saturação você escreve para este paciente específico e por qual motivo; quais são as três intervenções que mais mudam o desfecho dele nas próximas seis horas; e o que precisa mudar na prescrição de amanhã para que isso não se repita no quinto dia.

Ver como fecharíamos

A hipótese principal é atelectasia com retenção de secreção, favorecida por dor incisional, respiração superficial, imobilidade e achados basais. Há comprometimento da troca e possível participação do fole por dor; não é preciso forçar um único compartimento. Pneumonia hospitalar compete e deve ser investigada desde já se o contexto sustentar infecção. TEP continua possível apesar da evolução progressiva e da profilaxia; as probabilidades do estudo citado não são o risco individual de Onofre. Neste caso não há diagnóstico de DPOC, hipercapnia prévia ou síndrome de hipoventilação. Tabagismo e peso de 96 kg, sem altura, não demonstram essas condições nem sequer definem obesidade. Use inicialmente o alvo geral adotado, 92% a 96%, enquanto investiga. Se a história ou gasometria indicar risco de insuficiência hipercápnica, ajustar para 88% a 92% com reavaliação precoce. Não aguardar uma hora diante de piora. Três intervenções centrais: posicionamento e mobilização assistida conforme tolerância; analgesia suficiente para permitir inspiração e tosse, com vigilância de sedação e ventilação; e fisioterapia/higiene brônquica conforme avaliação. Analgesia é uma intervenção farmacológica: o exercício pede intervenções, não apenas medidas sem fármacos. Avaliar hidratação individualmente, pois balanço positivo não justifica mais soro. Umidificação não é obrigatória para todo cateter de baixo fluxo. Revisar a prescrição de analgesia e a execução das doses, definir metas de mobilização e fisioterapia, manter medidas contra aspiração quando indicadas, registrar alvo e retirada progressiva do oxigênio, e acompanhar balanço e tromboprofilaxia. Reavaliar resposta clínica nas primeiras horas; imagem de controle depende da evolução. Atelectasia lobar persistente ou obstrução importante pode exigir broncoscopia, enquanto sinais de infecção pedem discussão antimicrobiana sem espera automática de 24 a 48 horas.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Persistem esforço importante e sonolência com piora da retenção de CO2 apesar de VNI: é falha que exige equipe para intubação. Não é preciso aguardar duas horas nem demonstrar ausência de seis critérios simultâneos. Oxigênio isolado não corrige ventilação e sedar para prolongar uma tentativa ineficaz pode piorar proteção da via aérea. Ajustes de VNI não devem atrasar escalada quando há deterioração.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Explique por que saturação normal sob oxigênio não exclui hipoventilação. Demonstre avaliação inicial e chamada de ajuda, sem esperar completar cinco minutos.

Em 30 dias

Compare depressão por opioide, edema cardiogênico e TEP. Para cada um, descreva suporte imediato, investigação, limites do tratamento na enfermaria e prevenção de novo episódio.

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Agora atenda

Agora atenda. Você vai receber a chamada da enfermagem no meio da noite, com um número e nenhuma explicação, e vai ter de fazer na ordem o que este capítulo descreveu: olhar antes de medir, confirmar a medida, ligar oxigênio com alvo escrito, decidir qual compartimento falhou, abrir a prescrição e chamar ajuda com hora marcada. O paciente-IA vai responder ao que você perguntar e vai mostrar o que você examinar — inclusive o que você deixar de examinar. Preste atenção no esforço respiratório, na frequência que você mesmo contar e no que a folha de prescrição contém, porque a resposta costuma estar ali antes de estar em qualquer exame.

Dessaturação aguda na enfermaria — Internato | OsceLabs