Clínica Médica › Síndromes do Paciente Internado
Hipotensão na enfermaria
Três da manhã, o telefone toca e a frase é sempre a mesma: a pressão está 80 por 50. Antes de escolher droga, há duas perguntas mais baratas e mais importantes — esse número é real, e esse paciente está mal? Este capítulo é sobre respondê-las em cinco minutos e sobre o que fazer com cada resposta.
Instituto Latino Americano de Sepse. Implementação de protocolo gerenciado de sepse — protocolo clínico: atendimento ao paciente adulto com sepse / choque séptico. Revisado em julho de 2026, em substituição à revisão de agosto de 2018.
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Responda antes de ler
Paciente de 59 anos recebe a segunda unidade de concentrado de hemácias, iniciada há quarenta minutos. A enfermagem te chama porque a pressão caiu de 128 por 78 para 78 por 46. Ele refere calafrio e dor lombar, e a temperatura subiu de 36,4 para 37,9 graus. A urina do coletor está escurecida. Qual é a primeira conduta?
O paciente que você vai ver
Três e quatro da manhã. Você é o interno de plantão numa enfermaria de clínica médica de dezoito leitos, e há quarenta minutos o residente desceu para acompanhar uma intubação no pronto-socorro. O andar está quieto do jeito que só fica de madrugada. A técnica de enfermagem aparece na porta da sala de plantão com a folha de sinais vitais na mão e diz seis palavras: doutor, a pressão está 80 por 50.
O leito 9 é da dona Dalva Sequeira, 74 anos, 58 quilos, quinto dia de internação por pielonefrite. Ela estava melhor: a febre cedeu no terceiro dia, a dor lombar sumiu, ontem almoçou quase tudo. A pressão dela, na folha, vinha em torno de 130 por 80 desde a admissão. Agora está 80 por 50, e a técnica acrescenta, sem que você pergunte, que mediu duas vezes e deu quase igual.
Antes de responder apenas ao número, confira a medida e examine perfusão em paralelo. A chamada de ajuda não precisa esperar essa conferência: rebaixamento, sinais de choque ou instabilidade evidente exigem apoio imediato. A avaliação rápida distingue pressão habitualmente baixa, erro de medida e deterioração circulatória; nenhuma dessas possibilidades deve ser presumida à distância.
Você vai até o leito. Dona Dalva está acordada, responde ao nome, sabe onde está e que horas são mais ou menos. Reclama que o aparelho aperta muito. O manguito está sobre a manga da camisola, no braço esquerdo, e é o manguito padrão do carrinho — largo demais para aquele braço fino, tanto que a bolsa dá quase duas voltas. Você levanta o lençol: a fralda está seca. Pergunta à técnica e ela confere a papeleta: a última diurese anotada foi às vinte e três horas, e foram 120 mL. São quatro horas sem urina registrada em alguém de 58 quilos.
Você refaz a medida com o manguito do tamanho certo, no braço direito, com o braço apoiado na altura do peito e a manga fora do caminho. Dá 84 por 52. Refaz no braço esquerdo: 86 por 54. O número era real. E enquanto media, você fez o exame que na verdade decide: pegou a mão dela. Está fria até o punho, e quando você comprime a polpa do dedo e solta, a cor demora quatro segundos para voltar. A pele do joelho tem um desenho arroxeado em rede que não estava descrito em lugar nenhum do prontuário.
Agora a conta mudou de natureza. Não é uma senhora com pressão baixa. É uma senhora que está desviando sangue da pele e do rim para manter o cérebro funcionando, e a pressão baixa é o aviso tardio disso. A partir daqui, a pergunta útil não é qual droga, é qual mecanismo — e há exatamente cinco candidatos que uma enfermaria produz. Um deles é o mais comum e o menos lembrado, e está escrito na prescrição de ontem.
A sequência que se faz antes de saber qualquer coisa — chegar, olhar, monitorizar, pegar veia, corrigir o que mata em minutos — é a mesma de sempre e está montada no capítulo dos primeiros cinco minutos do paciente grave. Ela continua valendo aqui, sem alteração. O que muda é que agora existe um parâmetro nomeado, a pressão, e um parâmetro nomeado atrai a armadilha de ser tratado no lugar do paciente. Este capítulo é sobre não cair nela.
Quem adoece disso
A pressão baixa não é uma intercorrência rara de plantão: é a segunda coisa que faz alguém chamar o médico correndo. Num hospital universitário de São Paulo, entre 2018 e 2020, os 107 acionamentos do time de resposta rápida em enfermarias de clínica médica e cirúrgica tiveram como motivo mais frequente a queda de saturação abaixo de 90%, em 40,2% das chamadas, e logo em seguida a pressão sistólica abaixo de 90 mmHg, em 30,8%. Nenhum outro motivo passou de 16%. A leitura prática é direta: quase um terço das vezes em que a enfermagem te chama de madrugada, é por isso. Não é evento excepcional, é rotina — e rotina malfeita mata devagar.
Num levantamento anterior, em hospital universitário de Londrina, com 150 acionamentos de código amarelo ao longo de seis meses, a queda da sistólica abaixo de 90 mmHg apareceu em 23,3% das chamadas, atrás apenas da preocupação genérica da equipe com o estado do paciente e da queda de saturação. O mesmo estudo mede o que costuma ficar invisível: entre o aparecimento da instabilidade e a chamada passaram-se, em média, 3,8 minutos, e entre a chamada e a chegada da equipe, 2,2 minutos, com máximo de dez. Quer dizer que o sistema de aviso funciona rápido. O gargalo não está em ser avisado; está no que se faz nos vinte minutos seguintes.
E o desfecho desses pacientes justifica o incômodo. Nessa mesma casuística de Londrina, a mortalidade hospitalar de quem precisou de um código amarelo durante a internação foi de 56,7%, contra 4,3% de mortalidade global do hospital no período. Mesmo excluindo os pacientes já em cuidados paliativos, a mortalidade dos demais ficou em 53,7%. Precisar que chamem o médico às pressas por um sinal vital alterado, dentro da enfermaria, é um marcador de prognóstico ruim por si só — e o paciente que hoje está com 80 de sistólica é exatamente esse paciente. Esses resultados pertencem à população estudada e não permitem prever que metade dos pacientes de um plantão atual morrerá.
Há ainda um dado que muda a forma de olhar a folha de sinais vitais. Estudos de deterioração clínica intra-hospitalar mostram que cerca de 79% dos pacientes que sofrem parada cardiorrespiratória no hospital apresentaram, antes, alteração importante de sinais vitais, e é sobre esse achado que a rede pública do Distrito Federal montou o protocolo de prevenção da deterioração clínica: um escore de alerta precoce com cinco parâmetros — sistólica, frequência cardíaca, frequência respiratória, temperatura axilar e nível de consciência —, com teto de 14 pontos, no qual 4 a 6 pontos já são sinal de alerta e 7 pontos ou mais significam risco iminente de morte. Uma sistólica de 71 a 80 mmHg sozinha vale 2 pontos; abaixo de 70, vale 3, a pontuação máxima da linha. A consequência clínica é que o paciente do leito 9 raramente despenca do nada — ele vinha avisando na folha, e alguém precisa somar.
Por fim, a conduta mais frequente diante desse cenário é também a mais perigosa quando feita no automático. No estudo paulista, expansão volêmica apareceu entre as três condutas mais executadas pelo time de resposta rápida, em 32,7% dos atendimentos, empatada com a coleta de exames laboratoriais e com o tratamento medicamentoso. Um terço dos atendimentos de código amarelo na enfermaria termina com soro correndo. Uma parte deles precisa; outra parte tem exatamente o problema oposto, e para essa o soro é o dano. Separar as duas em cinco minutos, com o que existe à beira do leito, é a competência que este capítulo ensina.
Por que acontece o que acontece
Comece por uma frase que reorganiza tudo o que vem depois: pressão arterial não é o objetivo do sistema circulatório, é um meio. O objetivo é entregar oxigênio à célula, e a oferta de oxigênio é o produto do débito cardíaco pelo conteúdo de oxigênio do sangue arterial. A pressão é apenas a força que empurra esse débito através de um leito vascular com determinada resistência — de forma aproximada, pressão média é o produto do débito cardíaco pela resistência vascular sistêmica. Duas consequências saem daí e valem o capítulo inteiro. Um paciente pode ter pressão normal com fluxo insuficiente, porque apertou a resistência para compensar a queda do débito. E um paciente pode ter pressão baixa com fluxo suficiente, porque a resistência é baixa e o débito, alto.
É por isso que a compensação engana na ordem em que os sinais aparecem. Diante de qualquer ameaça à oferta, o organismo aumenta a frequência cardíaca primeiro e fecha os territórios sacrificáveis depois — pele, músculo, esplâncnico, rim. A mão esfria, o enchimento capilar alonga, a urina diminui, e a pressão do manguito continua bonita, porque está sendo sustentada às custas de fluxo que já caiu em outro lugar. A hipotensão é a falência dessa compensação, não o começo do problema. Por isso o exame que decide é o exame da perfusão, e por isso o protocolo nacional de sepse, na revisão de 2026, manda ressuscitar com enchimento capilar acima de 3 segundos e avaliar a reposição diante de oligúria, livedo ou alteração de consciência, sem exigir que o número da pressão tenha caído.
O corolário incômodo é o inverso, e é o que separa o interno do estudante: pressão baixa com perfusão boa é um problema, e pressão razoável com perfusão ruim é outro problema, mais grave. A senhora de 74 anos com 84 por 52, mão gelada, quatro segundos de enchimento capilar e quatro horas sem urina está pior do que o rapaz de 22 anos com 88 por 54, mão quente, urinando e conversando. O primeiro caso é choque; o segundo pode ser apenas a pressão habitual de um jovem magro. O número é o mesmo. O que muda é o que o número está custando.
Organizado o princípio, a lista de causas deixa de ser decoreba e vira consequência da equação. Se pressão é débito multiplicado por resistência, e débito é volume ejetado multiplicado por frequência, existem poucos lugares onde a coisa pode quebrar. Falta de volume para encher o ventrículo é choque hipovolêmico: jejum prolongado, diarreia, vômito, febre, diurético em dose alta, sangramento que ninguém viu. Perda de tônus arteriolar é choque distributivo: sepse, anafilaxia, reação transfusional. Falha da bomba é choque cardiogênico: infarto, arritmia, insuficiência cardíaca descompensada. Barreira mecânica ao enchimento ou ao esvaziamento é choque obstrutivo: embolia pulmonar, pneumotórax hipertensivo, tamponamento. E há a quinta, que não é um mecanismo novo e sim uma causa — a droga que você mesmo prescreveu, agindo exatamente como deveria agir.
A iatrogênica merece parágrafo próprio porque a fisiologia dela é banal e o dano não é. Um anti-hipertensivo que fazia sentido em casa, com o paciente comendo, bebendo e andando, encontra na enfermaria um paciente em jejum, febril, com perdas insensíveis aumentadas e sem a ingesta de sal habitual — e o mesmo comprimido que controlava a pressão passa a derrubá-la. Sedativo e opioide somam vasodilatação e queda do tônus simpático. Antibióticos com infusão rápida podem produzir hipotensão pela própria velocidade da infusão. O ponto fisiológico é que nenhum desses casos é uma reação estranha: é o efeito farmacológico previsível encontrando um paciente com reserva menor do que tinha quando a receita foi escrita.
A leitura dos padrões à beira do leito sai direto dos mecanismos, e é o que permite decidir sem exame nenhum. No hipovolêmico e no cardiogênico, o organismo responde com vasoconstrição: pele fria, úmida, pálida, enchimento capilar acima de dois segundos, taquicardia. No distributivo em fase inicial, a resistência é que está baixa: a pele pode estar quente e rosada, o enchimento capilar rápido, e ainda assim o paciente está chocado — é o que confunde quem espera que todo choque tenha extremidade fria. E há um padrão que o protocolo do serviço móvel de urgência descreve à parte, o neurogênico, em que a lesão medular abole o tônus simpático: pele quente e seca, paciente lúcido e, ao contrário de todos os outros, bradicardia em vez de taquicardia.
A separação entre hipovolêmico e cardiogênico é a que mais custa errar, porque as condutas se contradizem, e ela se faz por um único conceito: pressão de enchimento. No hipovolêmico, o ventrículo está vazio e as pressões de enchimento estão baixas — jugulares colabadas, pulmões limpos, fígado não doloroso. No cardiogênico, o ventrículo está cheio e não consegue esvaziar — jugulares túrgidas, crepitações, terceira bulha, fígado congesto e doloroso. Os dois pacientes têm a mão fria, a pressão baixa e a taquicardia. A diferença está inteira nos sinais de congestão, e o exame que os procura não custa nada e leva trinta segundos.
A duração da hipoperfusão importa, mas não existe uma fronteira universal de 30 a 40 minutos abaixo de PAM 65 que separe tolerância de lesão. Autorregulação varia por órgão, doença e paciente. No choque, agir imediatamente e usar perfusão, pressão e evolução para ajustar a ressuscitação; o relógio serve para evitar atraso, não para autorizar uma espera. Isso vale também para quem tem pressão aparentemente normal e sinais claros de falência circulatória.
Como se apresenta de verdade
O que segue é o espectro real de como a hipotensão entra pelo telefone da enfermaria, e ele começa por onde nenhum livro começa: pela possibilidade de que o número esteja errado. Depois vem o dado que manda mais que o número, que é a perfusão. E só então as cinco famílias de causa, com o detalhe que decide cada uma à beira do leito. Guarde desde já uma regra que atravessa todas as seções: mais de uma causa pode estar ativa no mesmo paciente, e a combinação mais comum da enfermaria brasileira é hipovolemia por jejum somada a um anti-hipertensivo que ninguém suspendeu.
Percurso de aprendizagem
Confirme a medida enquanto examina ABC e perfusão. Peça ajuda assim que identificar choque, incluindo deterioração com pressão aparentemente normal.
Integre jugular, pulmões, história, medicamentos e perdas. Explique por que um sinal isolado não diagnostica mecanismo nem prediz resposta a fluidos.
Pratique bolus com benefício e tolerância definidos, cálculo de vasoativos e comunicação. Planeje o próximo passo se houver resposta, piora ou nenhuma mudança.
A aferição que se refaz
Antes de aceitar 80 por 50 como fato clínico, refaça a medida — e refaça direito, porque a maior parte dos erros de aferição empurra o número para baixo e produz conduta em cima de um paciente que não estava hipotenso. A diretriz brasileira de hipertensão descreve o procedimento com precisão suficiente para ser cobrado: determine a circunferência do braço no ponto médio entre o acrômio e o olécrano, escolha o manguito cujo comprimento de bolsa inflável corresponda a 80% a 100% dessa circunferência, coloque-o sem folga, dois a três centímetros acima da fossa cubital, centrado sobre a artéria braquial, com o membro apoiado na altura do coração e a roupa fora do caminho.
O tamanho do manguito é a fonte mais barata de erro. Manguito largo demais para o braço fino subestima a pressão; manguito estreito demais para o braço largo superestima. A diretriz é explícita ao tratar do obeso: manguitos mais longos e largos são necessários justamente para não haver superestimação, e a escolha depende não só da circunferência como da forma do braço — braços em cone, largos e curtos, são o caso em que nem o manguito grande se adapta, e aí a alternativa validada passa a ser o antebraço com ausculta do pulso radial, ou um monitor de punho validado. Na enfermaria isso deixa de ser detalhe acadêmico: o carrinho costuma ter um manguito só, e ele foi feito para um braço médio que a sua paciente pode não ter.
Quatro situações invalidam a medida antes mesmo do manguito. Braço com fístula arteriovenosa para hemodiálise não se afere, por dano ao acesso e por leitura falsa. Braço com edema importante, linfedema pós-esvaziamento axilar ou trombose amortece a transmissão e distorce o valor. Braço com o acesso venoso correndo, sobretudo se a bomba de infusão alarma a cada insuflação, dá leituras erráticas. E medida feita por cima da roupa, com a manga enrolada garroteando o braço, é medida perdida — a própria diretriz manda que as roupas não garroteiem o membro.
Na fibrilação atrial, medidas oscilométricas podem variar. Repetir com técnica adequada e, quando necessário, conferir manualmente e usar a tendência; não escolher sempre o maior valor como se fosse o verdadeiro. Instabilidade exige avaliação imediata independente da discordância entre aparelhos.
Suspeita de dissecção de aorta com hipotensão é emergência: chamar equipe especializada e avaliar tamponamento, ruptura e perfusão. Volume ou sangue podem ser necessários como suporte cuidadosamente titulado, sem atrasar tratamento definitivo. Não aplicar proibição absoluta de qualquer fluido nem estratégia de hipertensão indiscriminada.
Existe, por fim, a paciente cuja pressão sempre foi baixa. Ela existe, é mais comum em mulheres jovens e magras, e uma sistólica de 90 mmHg pode ser o basal dela. O erro é aceitar isso pelo relato sem conferir duas coisas: a folha de sinais vitais da própria internação, que registra dia a dia o que é habitual para aquele paciente, e a perfusão de agora. Pressão habitualmente baixa em paciente que continua urinando, com extremidades quentes e consciência intacta, é constituição. A mesma pressão com a mão fria é choque em quem partiu de um número mais baixo — e o critério brasileiro que enxerga isso é o da queda relativa, não o do valor absoluto.
A perfusão é o dado que manda
O exame de perfusão custa nada, leva menos de um minuto e antecede a queda da pressão. Ele tem cinco componentes, e você já sabe fazer todos. Consciência: o paciente está no basal dele, ou apareceu sonolência, desatenção ou agitação nova? Diurese: quanto urinou nas últimas horas, contado e não estimado? Pele: temperatura, cor, umidade e a presença de livedo, aquele desenho arroxeado em rede que aparece primeiro no joelho. Enchimento capilar: comprima a polpa digital por alguns segundos, solte e conte — acima de dois segundos, a perfusão periférica está comprometida. E o lactato, quando o serviço tem gasômetro.
Os cortes desses parâmetros estão escritos em documento público brasileiro, e vale conhecê-los pelo número. O protocolo de prevenção da deterioração clínica da rede pública do Distrito Federal fixa enchimento capilar superior a dois segundos como perfusão tissular periférica comprometida e define oligúria como volume urinário de 0,5 mL por quilo por hora, ou inferior a 30 mL por hora. Para a dona Dalva, de 58 quilos, o piso é de 29 mL por hora — e quatro horas sem registro significa que ninguém sabe se ela cruzou esse piso, o que é informação pior do que um número ruim.
O protocolo nacional de sepse acrescenta a lista que autoriza agir sem esperar o número da pressão: oligúria, presença de livedo, tempo de enchimento capilar lentificado e alteração do nível de consciência contam como sinais de hipoperfusão; na revisão de 2026, enchimento capilar acima de 3 segundos indica ressuscitação mesmo com lactato normal, e os outros três mandam avaliar a reposição volêmica. Repare no que isso permite. Você pode iniciar tratamento com base numa mão fria, numa pele rendilhada e numa fralda seca, sem laboratório e sem monitor. É a régua que resgata o paciente ainda compensado.
E existe a régua que resgata o hipertenso crônico. O mesmo protocolo define hipotensão de três maneiras alternativas: sistólica abaixo de 90 mmHg, pressão arterial média abaixo de 65 mmHg, ou hipotensão relativa — sistólica abaixo da basal conhecida, na revisão de 2026, que esta apostila mede como queda de mais de 40 mmHg da pressão de sempre. O terceiro critério é o que enxerga o senhor que vive em 170 por 100 e chegou hoje com 120 por 70 — a queda é um alerta; choque depende de evidências de falência circulatória, e nenhum alarme de monitor vai tocar. Descobrir a pressão habitual custa uma consulta à folha de sinais vitais da internação e uma pergunta ao acompanhante.
Duas contas de cabeça fecham a avaliação. A pressão arterial média se estima somando a sistólica ao dobro da diastólica e dividindo por três: para 84 por 52, dá aproximadamente 63 mmHg, ou seja, já abaixo do limiar de 65. E o índice de choque, que é a frequência cardíaca dividida pela sistólica, pode ajudar como alerta, mas perde sensibilidade quando a taquicardia está mascarada: valores em torno de 0,5 a 0,7 são normais, e valores acima de 0,9 identificam o paciente que está compensando às custas de reserva. São dois números que você já mediu; falta apenas dividir.
Hipovolêmica: a causa que a enfermaria fabrica sozinha
A hipovolemia da enfermaria raramente é dramática. Ela é feita de horas somadas: jejum para um exame que atrasou, dieta suspensa desde ontem à noite, vômitos que a técnica anotou e ninguém leu, diarreia atribuída ao antibiótico, febre alta com perdas insensíveis aumentadas, e uma prescrição de manutenção que ficou igual à da admissão enquanto o paciente mudou. O achado que confirma é a combinação de mucosas secas, turgor diminuído, jugulares colabadas em decúbito, ausculta pulmonar limpa e diurese escassa e concentrada. O protocolo do Distrito Federal chega a descrever o sinal da prega desaparecendo lentamente, em dois segundos ou mais, como marcador de déficit de líquido extracelular.
Duas armadilhas moram aqui. A primeira é o balanço hídrico que não existe: sem soma de entradas e saídas, o jejum de vinte e quatro horas parece igual ao jejum de seis. A segunda é a hipovolemia iatrogênica por diurético — o paciente que entrou congesto, recebeu furosemida por três dias e passou do ponto. Nesse caso, o mesmo paciente que precisava perder líquido na segunda-feira precisa receber líquido na quinta, e a prescrição carimbada não percebeu a virada.
O sangramento oculto é a hipovolemia que não avisa, e é a que mais mata em enfermaria. Procure quatro lugares. O tubo digestivo, com melena que ninguém viu porque o paciente evacuou no vaso e deu descarga, ou com hematêmese ainda não ocorrida — a abordagem completa está no capítulo de hemorragia digestiva alta desta coleção. O retroperitônio, no paciente anticoagulado, com dor lombar ou em flanco e às vezes apenas com queda de hematócrito. O sítio cirúrgico, no pós-operatório recente, com o dreno enchendo ou o curativo encharcado. E o próprio acesso vascular, no paciente que fez procedimento com punção femoral.
O detalhe fisiológico que fecha a seção: hematócrito normal na primeira hora de uma hemorragia aguda não é informação tranquilizadora, é informação nenhuma, porque perde-se sangue inteiro e a diluição ainda não aconteceu. Quem decide transfusão nessa janela é a clínica — taquicardia, hipotensão, queda de diurese, taquipneia, enchimento capilar alargado, alteração de consciência —, e a matemática da reposição está no capítulo de choque hemorrágico no trauma. Aqui interessa reter que o hemograma que volta bom não te autoriza a parar de procurar.
Distributiva: sepse, anafilaxia e a bolsa que está pendurada
O choque distributivo é o que quebra a expectativa de que todo paciente chocado esteja gelado. Na fase inicial, com a resistência vascular derrubada e o débito alto, a pele pode estar quente, rosada e com enchimento capilar rápido, e ainda assim o rim e o cérebro estarem mal perfundidos. O protocolo do serviço móvel de urgência separa esse padrão dos demais numa tabela clínica útil: no séptico, a pele tende a fria, úmida e rendilhada com enchimento acima de dois segundos; no neurogênico, quente e seca com bradicardia e paciente lúcido. A lição é que a pele orienta e não decide, e que bradicardia também pode ocorrer por medicamentos, distúrbios de condução e outros contextos.
Sepse é a causa distributiva mais frequente da enfermaria, e o reconhecimento dela não pertence a este capítulo: o pacote de primeira hora, o antimicrobiano com relógio, as culturas e o clareamento de lactato estão no capítulo de sepse desta coleção. O que interessa aqui é o gatilho. Diante de disfunção orgânica nova e sem explicação óbvia — e hipotensão é uma disfunção orgânica pela régua nacional —, com foco infeccioso presumível, o diagnóstico de sepse deve ser feito e o pacote iniciado imediatamente após a identificação, sem esperar febre e sem esperar leucograma. Em enfermaria, o foco presumível costuma estar num dispositivo que você mesmo prescreveu: cateter, sonda vesical, dreno.
Hipotensão após medicamento pode refletir efeito farmacológico, interação, erro de dose, arritmia ou anafilaxia. Procurar padrão clínico e tratar ameaças imediatas; anafilaxia pode ocorrer sem lesões cutâneas, mas não é diagnosticada apenas pela proximidade temporal.
A reação transfusional entra aqui porque a bolsa pode estar pendurada agora, no leito ao lado, e porque a primeira conduta não é droga nenhuma. O manual de transfusão da fundação de hematologia do Amazonas define hipotensão relacionada à transfusão no adulto como queda de pelo menos 30 mmHg na sistólica com valor final igual ou abaixo de 80 mmHg, ocorrida até uma hora após a transfusão. E lista os sinais que devem levantar reação aguda: febre com elevação de um grau atingindo 38 graus, calafrios, dificuldade respiratória e sibilos, dor lombar, torácica ou no flanco, manifestações cutâneas, icterícia ou hemoglobinúria, náusea, sangramento anormal e oligúria. Hipotensão pode ser a manifestação isolada.
Suspender uma infusão suspeita e avaliar/tratar ABC em paralelo, pedindo ajuda. Na anafilaxia provável, adrenalina IM e suporte não aguardam terminar formulários ou identificar com certeza o agente.
Cardiogênica e obstrutiva: as duas em que o soro é o dano
A hipotensão cardiogênica é a que o reflexo de correr soro piora em minutos. O sinal que a denuncia é a congestão associada à má perfusão: jugulares túrgidas com a cabeceira a 45 graus, crepitações que não estavam ontem, terceira bulha, refluxo hepatojugular, fígado doloroso, edema novo. A diretriz brasileira de insuficiência cardíaca organiza isso em quatro perfis pela combinação de congestão e perfusão, e nomeia o perfil que interessa aqui: o frio-congesto, com congestão e baixo débito, presente em cerca de 20% dos internados por insuficiência cardíaca aguda — contra o quente-congesto, mais frequente e de melhor prognóstico.
Três causas cardiogênicas produzem hipotensão nova em enfermaria e têm tratamento próprio. Infarto agudo, inclusive sem dor, sobretudo no idoso e no diabético, e inclusive o de ventrículo direito, que se apresenta com hipotensão, jugulares túrgidas e pulmões limpos e é a exceção em que volume ajuda. Arritmia, e aí a relação entre arritmia e instabilidade é decisiva: na fibrilação com instabilidade hemodinâmica, a cardioversão elétrica sincronizada é imediata, com 200 joules bifásicos, e devem ser avaliadas em paralelo as causas secundárias da instabilidade — desidratação, sangramento, anemia, infecção. É a diferença entre uma arritmia que causa o choque e uma arritmia que é sintoma dele. E a descompensação de insuficiência cardíaca conhecida, com o gatilho quase sempre identificável.
A hipotensão obstrutiva é rara na enfermaria e é a que não perdoa atraso. A embolia pulmonar aparece como hipotensão súbita com pulmão limpo, jugulares túrgidas, hipoxemia desproporcional ao exame e, com frequência, um fator de risco escrito no próprio prontuário — imobilidade, pós-operatório, câncer, ausência de profilaxia. O escore de probabilidade e a rota diagnóstica estão nos capítulos de dor torácica e de trombose venosa profunda. O pneumotórax hipertensivo, no paciente que fez punção de subclávia ou está em ventilação com pressão positiva, dá hipotensão com murmúrio abolido de um lado, hipertimpanismo e jugulares cheias, e o diagnóstico é clínico: descomprime-se sem esperar imagem. O tamponamento cardíaco dá bulhas abafadas, jugulares túrgidas e hipotensão, e no internado costuma ter contexto — neoplasia, uremia, pós-operatório cardíaco, procedimento recente.
O que amarra a seção é um único achado de exame físico com três leituras. Jugular túrgida em paciente hipotenso exclui hipovolemia pura e aponta para cardiogênico ou obstrutivo. Se há crepitações, pense em falência do ventrículo esquerdo. Se os pulmões estão limpos, pense em ventrículo direito: infarto de ventrículo direito, embolia pulmonar, pneumotórax hipertensivo, tamponamento. Trinta segundos de exame do pescoço e do tórax mudam a prescrição por completo.
Iatrogênica: a mais comum e a que ninguém lembra
A causa mais frequente de hipotensão na enfermaria não está no paciente, está na folha. E ela tem uma marca registrada: a pressão cai em horário. Se a queda acontece sempre umas duas horas depois do mesmo horário de administração, você tem uma hipótese importante para avaliar junto à perfusão e às demais causas — basta cruzar a curva de pressão da folha de sinais vitais com os horários da prescrição, coisa que leva dois minutos e quase nunca é feita de madrugada.
A lista dos suspeitos habituais é curta. Anti-hipertensivos mantidos por inércia da conciliação medicamentosa, com o agravante de que o paciente internado come menos, ingere menos sal e perde mais líquido do que o paciente de casa para quem a dose foi calculada. Diurético de alça em dose de ambulatório num paciente que já está seco. Opioide e sedativo, que somam vasodilatação e redução do tônus simpático, e cuja dose de resgate da madrugada frequentemente não é contabilizada. Nitrato, prescrito para dor torácica e mantido depois. Antipsicótico usado em delirium, com efeito alfa-bloqueador. E qualquer droga em infusão rápida demais.
Duas situações merecem nome próprio. A primeira é a hipotensão ortostática, e ela é subdiagnosticada porque exige levantar o paciente. A diretriz brasileira de hipertensão define queda de 20 mmHg na sistólica ou de 10 mmHg na diastólica até o terceiro minuto em pé, e manda procurá-la em idosos, diabéticos, disautonômicos e em quem usa anti-hipertensivo — quatro categorias que descrevem metade da enfermaria. O paciente que desmaiou indo ao banheiro e voltou com 85 de sistólica deitado pode ter os dois problemas: volume baixo e droga sobrando.
A segunda é a insuficiência adrenal por retirada de corticoide. O paciente em corticoterapia crônica que teve a dose suspensa na admissão, ou que está sob estresse infeccioso sem aumento da dose, pode apresentar hipotensão que responde pouco a volume e pouco a vasopressor, frequentemente com hiponatremia e hipoglicemia; hipercalemia é mais característica da insuficiência adrenal primária, não da supressão isolada por corticoide. É diagnóstico de contexto e de suspeição, e a pergunta que o levanta é banal: este paciente usava corticoide em casa?
Fecha a seção o que muda em quem não é o paciente do livro. No idoso, a taquicardia compensatória pode não aparecer, seja por betabloqueador, seja por senescência do nó sinusal, e a primeira manifestação é confusão ou queda. No diabético com neuropatia autonômica, o mesmo. No paciente com doença renal crônica em programa de diálise, a pressão de hoje depende de quando foi a última sessão e de quanto foi retirado. Na gestante, o útero pode comprimir a veia cava em decúbito dorsal, e a correção é decúbito lateral esquerdo antes de qualquer droga. E no paciente com betabloqueador em uso, tanto a resposta à hipovolemia quanto a resposta à adrenalina da anafilaxia ficam embotadas, o que muda a expectativa do que você vai ver depois de tratar.
Da pressão medida à decisão de tratamento
Uma apresentação útil ao supervisor começa pela mudança, não pelo número isolado. Diga qual era a pressão conhecida, como foi aferida agora e o que acompanha a queda: consciência, respiração, temperatura da pele, enchimento, diurese, dor ou sangramento. Informe também as intervenções recentes. Essa organização permite distinguir uma medida duvidosa, efeito esperado de tratamento e deterioração verdadeira. Se houver instabilidade, peça ajuda antes de completar toda a história. O objetivo da coleta de dados é orientar ação e reavaliação, sem criar uma lista tão longa que atrase o atendimento.
Considere duas pessoas com a mesma pressão de 90 por 60. Uma conversa normalmente, tem extremidades aquecidas e apresenta valores semelhantes desde a admissão; a outra ficou confusa, tem pele fria e urinou pouco após uma piora súbita. O número não determina a mesma prescrição. Mesmo na primeira, é preciso confirmar contexto e sintomas; na segunda, o conjunto exige avaliação urgente de perfusão e mecanismo. Aprender a explicar essa diferença é mais útil que memorizar uma ordem de soro associada a um único corte. A basal ajuda, mas não substitui o exame atual.
Antes de um teste com volume, formule a hipótese que o justifica e o resultado esperado. Existe perda provável? Há sinais de congestão? O acesso e o monitor permitem acompanhar a resposta? Defina quanto será administrado naquela etapa e quando a equipe deve interromper ou chamar ajuda. Depois, compare pressão, perfusão e respiração, sem declarar sucesso apenas porque a bolsa terminou. Um aumento transitório da pressão não demonstra necessidade de continuar até um total predeterminado. Se a informação permanecer ambígua, discuta testes dinâmicos e apoio de profissionais com experiência na técnica disponível.
A mesma disciplina se aplica ao vasopressor. Dose prescrita, concentração preparada e vazão da bomba precisam corresponder. Refaça a conta usando a quantidade de base efetivamente contida na apresentação e peça dupla conferência. Se a dose parece subir sem efeito, examine o paciente e verifique também acesso, conexões, bomba, medida de pressão e causa do choque. Não atribua toda ausência de resposta à gravidade da doença nem apenas a falha do equipamento. As duas possibilidades podem existir e precisam ser avaliadas de modo organizado enquanto se mantém o suporte.
Na passagem de plantão, entregue uma trajetória: o que foi observado, qual hipótese orientou a intervenção, o que foi efetivamente feito e como a pessoa respondeu. Inclua volume acumulado, dose atual, meta individual e momento da próxima avaliação. Evite expressões como pressão melhor sem informar perfusão e suporte necessário para mantê-la. Uma pressão aparentemente recuperada sob dose crescente de vasopressor descreve situação diferente da mesma medida sem medicação. Identifique quem assumirá as pendências e os critérios de escalonamento; essa continuidade faz parte do tratamento da hipotensão.
Como fechar o diagnóstico
A pergunta que organiza a investigação da hipotensão não é qual exame pedir, é qual pergunta cada exame responde e em que ordem as respostas mudam a conduta. Três instrumentos de beira de leito — o exame de perfusão, o eletrocardiograma e a própria resposta a uma quantidade medida de volume — resolvem a maior parte dos casos antes de o laboratório voltar. O laboratório entra para medir a dívida acumulada e procurar disfunção de órgão, não para autorizar você a começar.
A ordem é ditada pela gravidade e não pela curiosidade. Nenhum exame que exige tirar o paciente hipotenso do leito é exame dos primeiros vinte minutos: tomografia, radiografia na sala de raio X e ecocardiograma formal na madrugada são pedidos que competem com o tratamento. O protocolo de deterioração clínica da rede pública do Distrito Federal chega a condicionar a radiografia de tórax do paciente instável a um achado clínico, ausculta com ruídos adventícios associada a febre de 38 graus ou mais na ausência de exame anterior, em vez de tratá-la como etapa obrigatória. Estabilize, separe com o que está à beira do leito, e só então mande para o exame que confirma.
O exame que se faz com a mão, e por que ele vem primeiro
O primeiro exame da hipotensão não usa aparelho. São cinco leituras, todas gratuitas, todas mais precoces que o número da pressão: nível de consciência comparado ao basal, temperatura e cor da pele com procura ativa de livedo, tempo de enchimento capilar, débito urinário somado das últimas horas e ausculta rápida de pulmão e coração com inspeção das jugulares. Elas respondem a duas perguntas de uma vez: o paciente está mal perfundido, e a pressão de enchimento está alta ou baixa.
A pressão venosa jugular ajuda a estimar pressão de enchimento, com limitações de técnica e interpretação. Não separa sozinha choque hipovolêmico de cardiogênico, nem exclui mecanismos mistos. Integrar pulmões, perfusão, história e ultrassom quando apropriado.
O débito urinário precisa ser contado, não estimado. O corte do documento do Distrito Federal é 0,5 mL por quilo por hora, ou menos de 30 mL por hora, e ele exige uma soma que quase nunca está pronta na papeleta de madrugada. Se o paciente tem sonda vesical, esvazie e marque a hora, para ter uma medida limpa da hora seguinte. Se não tem, a decisão de sondar é clínica e não automática: sonda em paciente instável serve para medir resposta ao tratamento, e essa é uma indicação legítima, mas ela cria risco de infecção — o balanço entre as duas coisas está no capítulo de sondagem vesical.
Fecha o exame de mão a comparação com o basal do próprio paciente. Abra a folha de sinais vitais da internação inteira e olhe a coluna da pressão. Se ela vinha em 130 por 80 e hoje está em 84 por 52, a queda é de 46 mmHg na sistólica e cruza a régua de hipotensão relativa que esta apostila adota, a queda de mais de 40 mmHg em relação à habitual. Se ela vinha em 95 por 60 desde a admissão e hoje está em 90 por 58, o número é parecido e o significado é oposto. A folha é o exame complementar mais barato do hospital e o único que já está pronto.
Lactato e gasometria: quanto o tecido está devendo
Lactato elevado é marcador de gravidade e desequilíbrio metabólico, com produção aumentada e/ou depuração reduzida. Não mede exclusivamente metabolismo anaeróbio nem demonstra sozinho dívida de oxigênio. Na suspeita de choque, colher precocemente, encaminhar conforme técnica do laboratório e interpretar junto à perfusão; a tendência após intervenção ajuda a avaliar o conjunto.
Valor acima de 2 mmol/L merece avaliação no contexto clínico; elevações maiores aumentam preocupação, mas nenhum corte isolado autoriza litros de soro independentemente de causa e tolerância. Se elevado, repetir após intervenção em prazo compatível com gravidade, usualmente nas primeiras horas. Não perseguir normalização com fluidos quando outros dados indicarem boa perfusão ou congestão.
Duas advertências evitam interpretação errada. Lactato alto não é sinônimo de hipoperfusão: convulsão recente, uso de beta-agonista inalatório em dose alta, insuficiência hepática, metformina e algumas intoxicações elevam lactato sem choque. E o próprio protocolo adverte que se persegue a queda do lactato, não necessariamente a normalização, sob risco de intervenções desnecessárias e potencialmente deletérias, e que hiperlactatemia residual isolada, sem outros sinais clínicos de hipoperfusão, não necessariamente precisa ser tratada. O lactato orienta; quem manda é a clínica.
A gasometria acrescenta a leitura ácido-base e o eletrólito imediato. Acidose metabólica com ânion-gap aumentado em paciente hipoperfundido é a assinatura do lactato. Acidose metabólica sem ânion-gap alto, com história de diarreia ou de perdas por sonda, aponta para perda de bicarbonato. E a mesma amostra flagra hipercalemia e hipoglicemia, dois achados que mudam a conduta nos primeiros minutos. O passo a passo da interpretação está no capítulo de gasometria arterial desta coleção; aqui interessa a decisão que ela dispara.
Eletrocardiograma: três perguntas em dois minutos
O eletrocardiograma de doze derivações é o exame de melhor relação entre custo, tempo e mudança de conduta no paciente hipotenso de enfermaria, e responde a três perguntas de uma vez. A primeira é o ritmo: existe uma taquiarritmia ou uma bradiarritmia que, sozinha, explica a hipotensão e tem tratamento imediato? A segunda é a isquemia, inclusive no paciente sem dor nenhuma — e o idoso e o diabético frequentemente não têm dor. A terceira é o distúrbio eletrolítico com cara elétrica, sobretudo a hipercalemia, cujo traçado chega em trinta segundos enquanto o potássio do laboratório demora quarenta minutos.
A leitura sistemática em oito passos está no capítulo de eletrocardiograma na prática. O que este capítulo acrescenta é a pergunta hemodinâmica que se faz sobre o traçado: a arritmia é a causa ou a consequência? A diretriz brasileira de fibrilação atrial é explícita ao mandar afastar causas secundárias da instabilidade — desidratação, sangramento, anemia, infecção — antes de tratar a arritmia como causa. Uma fibrilação atrial a 140 numa senhora séptica e desidratada pode ceder com volume e antibiótico; cardiovertê-la sem corrigir o que a produziu costuma resultar em recidiva imediata.
Ainda assim, existe o cenário em que a arritmia é a causa e não espera. Na fibrilação atrial com instabilidade hemodinâmica, a diretriz brasileira recomenda cardioversão elétrica sincronizada de imediato, com 200 joules em aparelho bifásico. Quando a instabilidade não é franca, o controle agudo da frequência é a alternativa, e a própria diretriz observa que, entre os betabloqueadores endovenosos, o esmolol é o mais indicado por causa da meia-vida curta — precisamente porque hipotensão é um efeito esperado, e uma droga de meia-vida curta é uma droga de erro reversível. O documento registra também que os antagonistas do cálcio endovenosos têm disponibilidade reduzida no país.
Uma derivação extra vale a pena no hipotenso com suspeita de infarto: a precordial direita. Infarto de ventrículo direito é a exceção que se apresenta com hipotensão, jugulares túrgidas e pulmões limpos, e é a única hipotensão congesta em que volume é tratamento e nitrato é veneno. A conduta completa está no capítulo de infarto com supradesnivelamento do segmento ST; aqui o que importa é lembrar de virar os eletrodos antes de prescrever qualquer vasodilatador.
A leva da mesma punção: o que cada tubo responde
Ao puncionar o acesso, colha tudo de uma vez. A leva não é pacote de rotina disfarçado: cada item procura uma disfunção específica. O protocolo nacional de sepse põe no pacote de uma hora a gasometria com lactato arterial — e, na revisão de 2026, registra hemograma completo, creatinina, bilirrubina e coagulograma como a coleta que os serviços costumam somar a ela —, e o protocolo do Distrito Federal, para o estrato de maior risco, acrescenta ureia, sódio, potássio, transaminases, creatinoquinase, desidrogenase láctica e proteína C reativa, com coagulograma solicitado apenas se o anterior tiver mais de seis horas.
A tradução de cada tubo em pergunta clínica é o que evita pedir sem saber por quê. Hemograma: existe anemia aguda que sustente a hipotensão, ou plaquetopenia que conte como disfunção — abaixo de 100.000 por milímetro cúbico, ou queda de 50% em relação ao maior valor dos últimos três dias? Creatinina e ureia: o rim já sofreu, e a partir de 2 mg/dL de creatinina isso conta como disfunção pela régua nacional. Sódio e potássio: existe distúrbio que explique ou complique, sendo a hipercalemia a que mata mais rápido? Bilirrubinas acima de duas vezes a referência e coagulograma alargado: a disfunção já é multissistêmica?
Hemoculturas entram quando há suspeita de infecção, e entram antes do antimicrobiano — mas sem atrasá-lo. Na revisão de 2026, o protocolo nacional pede ao menos 20 mL de sangue, de preferência de sítios distintos, e é explícito: se não for possível colher antes da primeira dose, a administração não deve ser postergada. O documento do Distrito Federal orienta colher dois pares de hemocultura de sítios diferentes diante de febre de 38 graus ou mais em paciente que ainda não está em antimicrobiano prescrito. Em paciente já em antibiótico, a cultura continua valendo: positividade menor não é positividade zero, e a amostra de agora é a que vai explicar a falha do esquema atual.
Considerar crise adrenal em contexto compatível, incluindo uso ou retirada de glicocorticoide e doença adrenal primária. Colher exames oportunos quando possível, sem atrasar tratamento urgente. A ausência de corticoide prévio não exclui insuficiência adrenal.
A prova de volume é exame, não conduta
A prova de volume é o teste diagnóstico mais informativo do paciente hipotenso, e é tratada como conduta administrativa na maioria dos plantões. Ela só é prova se tiver quatro elementos escritos antes de abrir a pinça: uma quantidade definida, um tempo definido, um alvo definido e uma reavaliação com hora marcada. Sem esses quatro, não é prova, é soro correndo — e soro correndo sem alvo é a definição da conduta que não vira solução.
Expansão volêmica deve corresponder a uma necessidade identificada ou teste clínico justificado. A referência de 30 mL/kg pertence à ressuscitação de hipoperfusão séptica e não a toda hipotensão. Hemorragia, falência de bomba e causas obstrutivas exigem estratégias próprias.
Resposta sustentada a um bolus sugere componente responsivo a fluido, mas não confirma hipovolemia pura nem obriga a completar um volume fixo. Resposta transitória pode ocorrer em perdas persistentes e vasoplegia. Ausência de melhora ou congestão exige interromper bolus e revisar mecanismo, sem declarar automaticamente excluída toda deficiência de volume. Choques mistos são comuns.
Em cardiopatia ou doença renal, ajustar tanto total quanto velocidade e rever necessidade desde o primeiro bolus. Apenas infundir lentamente não elimina o risco de sobrecarga. Piora respiratória ou ausência de benefício pede interrupção e nova avaliação.
Prefira testes dinâmicos quando aplicáveis: mudança de volume sistólico ou débito durante elevação passiva das pernas ou pequeno desafio de fluido. A variação de pressão de pulso exige condições específicas, frequentemente ausentes na enfermaria. PVC, diâmetro da cava e pressão arterial isolada não predizem de modo confiável responsividade. Perfusão periférica, consciência e diurese ajudam a avaliar necessidade e resposta, e congestão informa tolerância.
POCUS por profissional treinado pode integrar função ventricular, pericárdio, pulmões e vasos. Cava fina ou distendida, sozinha, não autoriza nem proíbe fluido; pressão intratorácica, ventilação e função direita modificam a imagem. Linhas B também ocorrem fora de congestão cardiogênica; ausência de deslizamento não é específica de pneumotórax. Interpretar padrões completos junto ao quadro, sem atrasar tratamento de emergência.
O que não pedir, o que custa, e o que existe no plantão
Quatro pedidos frequentes e o preço de cada um. Tomografia no paciente que ainda não estabilizou: transporta-se um paciente crítico para fora do andar, sem equipe e sem monitor decente, para obter uma imagem que não muda os próximos vinte minutos. Radiografia na sala de raio X, pela mesma razão — se a imagem de tórax é necessária agora, ela é no leito. Ecocardiograma formal de madrugada, que raramente existe e cuja espera vira desculpa para não decidir. E o hemograma pedido como prova de que não há sangramento agudo, quando o hematócrito da primeira hora ainda não caiu.
Há também o exame que não se pede porque já se sabe a resposta: gasometria arterial repetida de dez em dez minutos não substitui reavaliação clínica, e culturas colhidas de todos os sítios sem hipótese apenas produzem colonização para tratar depois. E há a conduta que se disfarça de exame: pedir avaliação da cardiologia às três da manhã, sem antes ter feito o eletrocardiograma e o exame de perfusão, transfere a decisão sem transferir a informação.
Sobre disponibilidade, a régua precisa funcionar com o que existe. Aparelho de pressão com manguitos de tamanhos diferentes, oxímetro, termômetro, glicosímetro, estetoscópio, eletrocardiógrafo, acesso venoso periférico calibroso e cristaloide existem em qualquer enfermaria do Sistema Único de Saúde. O protocolo do Distrito Federal chega a padronizar o cateter de calibre 18 ou maior para o paciente do estrato mais grave, e essa exigência não é preciosismo: o fluxo por um cateter depende do calibre muito mais que proporcionalmente, e um cateter fino não entrega 30 mL por quilo em uma hora.
O que falta com frequência é o lactato com resultado em trinta minutos, que exige gasômetro no próprio serviço e um fluxo de transporte de amostra que funcione de madrugada, e o ultrassom à beira do leito com operador treinado. Quando eles não existem, a avaliação de perfusão não desaparece: ela volta a ser clínica, e o próprio protocolo nacional fornece a lista alternativa, que serve para indicar a ressuscitação e para reavaliá-la — enchimento capilar, débito urinário, nível de consciência e a resposta pressórica à infusão de fluidos; o livedo continua valendo para indicar a reposição, mas a revisão de 2026 o tirou da lista de reavaliação. Um serviço sem gasômetro não é um serviço sem critério.
Confirmar previamente disponibilidade de vasoativos, concentrações, bombas e vias no serviço. A Rename orienta padronização, mas não garante estoque hospitalar. A equipe precisa conhecer preparo, equivalência sal/base, dupla checagem e protocolo de extravasamento antes de iniciar uma infusão.
Do telefonema à droga: a ordem que não se inverte
Reconhecer choque pela perfusão, interpretar pressão no contexto e escolher suporte hemodinâmico sem transformar a reposição em rotina.
- 1Segundos 0 a 60 — Meça de novo, direito, enquanto olha. Manguito do tamanho do braço, sobre a pele e não sobre a manga, dois a três centímetros acima da fossa cubital, membro na altura do coração, nos dois braços. Evite o braço com fístula, com edema importante ou com infusão correndo. Enquanto o aparelho insufla, você já está vendo o que importa: o paciente responde? A cor da pele mudou? Há suor? Há esforço para respirar?
- 2Minuto 1 a 2 — Decida com a mão se é choque. Pegue a mão do paciente e sinta a temperatura até o punho; comprima a polpa digital, solte e conte os segundos; levante o lençol e procure livedo no joelho; some a diurese das últimas horas na papeleta em vez de estimá-la. Pressão baixa com mão quente, urina saindo e consciência intacta é um problema; pressão razoável com mão fria e fralda seca é outro, e o segundo é mais grave.
- 3Examinar jugular, pulmões, coração e sinais de congestão, reconhecendo as limitações do exame. Esses achados orientam hipóteses e tolerância a fluidos; não separam de forma infalível hipovolemia, cardiogênico e obstrutivo.
- 4Minuto 3 a 4 — Abra a prescrição e a folha de sinais vitais, nesta ordem. Procure anti-hipertensivo, diurético, opioide, sedativo, nitrato, antipsicótico e antibiótico em infusão rápida; anote o horário de administração de cada um e cruze com a curva de pressão do dia. Depois olhe a coluna da pressão desde a admissão: o que é habitual para este paciente, e quanto ele caiu em relação a isso.
- 5Minuto 4 a 6 — Se a decisão foi volume, abra a prova com os quatro elementos escritos. Quantidade definida, tempo definido, alvo definido e hora da reavaliação, os quatro no prontuário antes de o soro começar a correr. Sem os quatro, aquilo deixa de ser exame e vira soro correndo — e soro correndo sem alvo é a conduta que nunca vira solução, porque ninguém sabe quando parar nem o que significaria ter dado certo.
- 6Após intervenção, reavaliar pressão, perfusão e tolerância. Melhora não obriga continuar volume; decidir se ainda existe necessidade. Ausência de resposta exige rever mecanismo e escalar suporte.
- 7Acionar ajuda desde a identificação do choque. Se houver hipotensão importante, persistente ou ausência de tolerância a volume, iniciar noradrenalina sob supervisão sem esperar 30 minutos ou cateter central; reavaliar em paralelo a causa e a necessidade de leito monitorizado.
Sem congestão aparente — avaliar indicação e resposta a fluido
Jugular pouco visível e pulmões limpos podem apoiar baixo enchimento, mas não demonstram ventrículo vazio nem responsividade a volume. Integrar perdas, medicamentos, perfusão, técnica do exame e ultrassom quando disponível. Se houver indicação, administrar bolus fracionado e avaliar benefício e tolerância; não usar a jugular isoladamente como autorização para abrir a pinça.
Coluna alta com crepitação — volume é o dano
Volume adicional pode causar dano quando não há necessidade, resposta ou tolerância. O risco não é igual para todo bolus de 500 mL: depende de mecanismo, coração, rim e fase do atendimento. Usar reavaliação clínica e testes apropriados para decidir.
Coluna alta com pulmão limpo — pare e pense no lado direito
Infarto de ventrículo direito pode cursar com dependência de pré-carga, mas também com congestão e choque. Expansão cautelosa pode ser testada em contexto selecionado; reperfusão, ritmo, vasopressor e suporte especializado podem ser indispensáveis. Não reduzir o tratamento a dar soro.
| Família de causa | O que a perfusão e a jugular mostram | O que confirma sem laboratório | Os primeiros vinte minutos |
|---|---|---|---|
| Hipovolêmica — falta o que encher | Mão fria, enchimento capilar acima de dois segundos, diurese escassa e concentrada; jugular colabada, pulmão limpo | Mucosas secas, prega cutânea que desaparece devagar, balanço hídrico negativo, jejum ou perdas somadas na papeleta, melena ou dreno cheio no sangramento | Prova de volume com alvo e hora; procurar ativamente sangramento oculto; suspender diurético; se houver sangramento com sinais de hipoperfusão, acionar transfusão pela clínica e não pelo hematócrito da primeira hora |
| Distributiva — sobra o leito vascular | Pele que pode estar quente e rosada com enchimento rápido na fase inicial, e ainda assim rim e cérebro mal perfundidos; jugular colabada | Foco infeccioso presumível, dispositivo invasivo, febre ou hipotermia; hipotensão minutos após medicamento, contraste ou hemoderivado; bolsa de sangue pendurada agora | Sepse: pacote de primeira hora com culturas, antimicrobiano e volume. Anafilaxia: adrenalina intramuscular imediata. Reação transfusional: parar a transfusão, manter a linha com salina, preservar bolsa e equipo, refazer a conferência e acionar a hemoterapia |
| Cardiogênica — a bomba não vence | Mão fria e enchimento lentificado com sinais de congestão; jugular túrgida com crepitação, terceira bulha, fígado doloroso | Eletrocardiograma com isquemia ou arritmia; ortopneia e edema novos; ganho de peso e balanço positivo na folha; sopro novo | Nada de bólus generoso; inotrópico e vasoconstritor conforme o perfil; cardioversão elétrica sincronizada se a arritmia for a causa da instabilidade, enquanto se avaliam e tratam também desidratação, sangramento, anemia e infecção |
| Obstrutiva — há uma barreira mecânica | Mão fria, hipotensão que não responde a volume; jugular túrgida com pulmão limpo, às vezes hipoxemia desproporcional ao exame | Murmúrio abolido de um lado com hipertimpanismo no pneumotórax; bulhas abafadas no tamponamento; fator de risco de tromboembolismo escrito no próprio prontuário | Descompressão imediata no pneumotórax hipertensivo, sem esperar imagem; acionar a rota de imagem e a discussão de anticoagulação na embolia; chamar quem drena o pericárdio no tamponamento, mantendo pressão de perfusão enquanto isso |
| Iatrogênica — a droga fez o que devia fazer | Pode cursar com qualquer padrão de perfusão, e o achado que a denuncia não é do exame físico: é o horário | Curva de pressão da folha caindo sempre no mesmo intervalo depois do mesmo horário de administração; anti-hipertensivo mantido por inércia; opioide ou sedativo de resgate da madrugada; corticoide crônico suspenso na admissão | Suspender ou segurar o agente identificado e registrar a suspensão; corrigir o volume que faltava por trás; na suspeita de insuficiência adrenal, hidrocortisona endovenosa sem esperar dosagem hormonal |
A pressão arterial média se estima de cabeça somando a sistólica ao dobro da diastólica e dividindo por três. Para 84 por 52 dá 62,7 mmHg, já abaixo do limiar de 65; para 90 por 60 dá 70; para 100 por 50 dá 66,7. Repare no que essa conta faz com a pressão convergente: 110 por 90 tem sistólica tranquilizadora e média de 96,7, enquanto 100 por 40 tem sistólica parecida e média de 60. O número que o monitor mostra grande não é o número que decide.
O índice de choque é a frequência cardíaca dividida pela sistólica, e é a conta que enxerga o paciente ainda compensado. Valores em torno de 0,5 a 0,7 são normais e valores acima de 0,9 marcam quem está segurando a pressão às custas de reserva. Uma senhora com 112 batimentos e 84 de sistólica tem 1,33 — e nenhum dos dois números isolados soaria tão grave quanto a divisão dos dois.
A hemoglobina é expressa em g/dL. Um limiar restritivo próximo de 7 g/dL aplica-se a muitos pacientes estáveis, com exceções clínicas; choque hemorrágico não deve esperar queda laboratorial nem depender desse corte. Diante de unidade incoerente em prescrição ou referência, interromper a execução, conferir fonte atual e pedir dupla checagem.
A tabela de classes do choque hipovolêmico do protocolo do serviço móvel de urgência tem faixas que se sobrepõem, e convém saber disso antes de usá-la à beira do leito: a frequência ventilatória da classe III é de 30 a 40 e a da classe IV é acima de 35, de modo que quem respira 38 vezes por minuto cabe nas duas. O mesmo acontece com a frequência cardíaca no limite de 120, que aparece ao mesmo tempo na classe II e na classe III. A leitura útil dessa tabela é a tendência, não a classificação exata.
No escore de alerta precoce adotado pela rede pública do Distrito Federal, a sistólica é o parâmetro que mais pontua na faixa baixa: 81 a 100 mmHg vale 1 ponto, 71 a 80 vale 2 e 70 ou menos vale 3. O próprio documento diverge de si mesmo sobre onde começa o alerta — um trecho diz que o risco cresce a partir de 3 pontos e outro fixa a faixa de alerta em 4 a 6, com 7 ou mais significando risco iminente de morte. Na prática de enfermaria, trate 3 pontos como o momento de ir ver.
Uma vez que o vasopressor esteja correndo, o manguito passa a pedir conferência. Na revisão de 2018, o protocolo nacional de sepse recomendava pressão arterial invasiva no paciente em vasopressor porque a aferição não invasiva não seria fidedigna; na de 2026, a invasiva fica indicada quando a dose de vasopressor é intermediária ou alta, quando ela sobe ou quando se somam drogas, quando há gasometrias arteriais repetidas e quando as medidas não invasivas não conferem, e o manguito, sem ela, vale em medidas seriadas com vigilância clínica. Onde o manguito é o que há, a consequência prática é conhecida: titule pela perfusão — mão, enchimento capilar, diurese, consciência — e não apenas pelo número da tela.
Queda acentuada em relação ao basal pode sinalizar deterioração, mesmo sem PAS abaixo de 90 mmHg. O corte histórico de 40 mmHg é um alerta, não definição autossuficiente de choque nem meta para elevar todo hipertenso ao valor habitual. Examinar perfusão e causas concorrentes, e individualizar a meta após estabilização.
Os 30 mL/kg são referência inicial para hipoperfusão por sepse/choque séptico, com reavaliação da necessidade e tolerância, não meta obrigatória para todas as causas de hipotensão. Em 58 kg, a conta é 1.740 mL. Registrar resposta a cada etapa e motivos para restringir fluido; iniciar vasopressor cedo quando a pressão e a gravidade exigirem.
Em choque séptico com disfunção cardíaca e hipoperfusão persistente apesar de volume adequado e pressão restaurada, discutir dobutamina associada à noradrenalina ou adrenalina isolada. Não acrescentar inotrópico apenas por mão fria ou lactato isolado. Seleção e titulação requerem monitorização e equipe experiente.
PAM de 65 mmHg é uma meta inicial habitual, não fronteira biológica absoluta entre circulação normal e choque. Definição Sepsis-3 de choque séptico exige vasopressor para manter PAM ≥65 e lactato >2 mmol/L apesar de reposição adequada. Necessidade de vasopressor com lactato normal continua grave e exige tratamento; documentar achados sem forçar rótulos.
A conduta, hora a hora
Na hipotensão, avaliar imediatamente via aérea, respiração, circulação e consciência, conferir medida e glicemia e chamar ajuda conforme gravidade. Monitor, acesso e revisão de infusões ocorrem em paralelo. Posição é individualizada; elevar pernas não serve para todos. O mecanismo orienta volume, sangue, vasopressor e outras intervenções, com reavaliação frequente. Choque pode ser misto, e um único sinal não define a prescrição.
As doses são exemplos para aprendizagem e precisam de conferência na apresentação real do serviço: sal, quantidade de base, concentração, volume final e velocidade. Um cálculo correto com uma apresentação hipotética não comprova que aquele frasco está disponível. Conferir com farmácia e médico responsável antes de transformar o exemplo em prescrição.
Minuto 0 a 3 — antes de saber a causa
Avalie ABC, perfusão e pressão com manguito adequado, sem interromper o suporte. Acione ajuda imediata se houver choque. Posicione conforme respiração e hemodinâmica; elevação passiva das pernas pode ser um teste reversível quando tolerada, mas sua interpretação ideal exige medida de débito ou volume sistólico. Garanta acesso, monitorização, glicemia e ECG. Em gestante com compressão aortocava, deslocar o útero/decúbito lateral conforme situação, sem atribuir toda hipotensão ao útero.
Prescrição- Elevação passiva das pernas, se apropriada: passar de semissentado para tronco horizontal e pernas a 45°, acompanhando mudança de volume sistólico/débito por método disponível. A pressão isolada tem sensibilidade insuficiente para confirmar ou excluir responsividade. Interromper se houver desconforto ou piora respiratória.
- Acesso venoso periférico com cateter de calibre 18 ou maior, dois se possível — a rede pública do Distrito Federal padroniza esse calibre para o estrato de maior gravidade, e não é preciosismo: cateter fino não entrega 30 mL/kg em uma hora
- Monitorização multiparâmetros contínua de pressão arterial, frequência cardíaca, frequência respiratória e oximetria, com o carrinho de emergência conferido e o paciente em leito próximo ao posto de enfermagem (protocolo de prevenção da deterioração clínica da Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal, rotina do estrato de risco iminente de morte)
- Glicemia capilar imediata, e correção de hipoglicemia antes de qualquer outra hipótese
- Oferecer oxigênio se houver hipoxemia ou situação crítica com leitura ainda não confiável, titulando assim que possível; em geral 92% a 96% neste percurso, ou 88% a 92% em risco de insuficiência hipercápnica. Oxigênio não substitui correção da perfusão.
- Eletrocardiograma de doze derivações à beira do leito, com precordiais direitas se houver suspeita de infarto
Minuto 3 a 5 — desligar a causa que você mesmo ligou
Esta é a causa mais frequente da enfermaria e a que menos aparece na primeira hipótese. Abra a prescrição e a folha de sinais vitais lado a lado e procure o horário: se a queda se repete após a mesma administração, aumenta a suspeita de efeito medicamentoso, sem excluir causas associadas. Suspenda ou segure o agente, registre a suspensão no prontuário e avise a enfermagem em voz alta, porque prescrição suspensa que ninguém leu continua sendo administrada. E não esqueça a insuficiência adrenal do paciente que usava corticoide em casa: ela responde pouco a volume, pouco a vasopressor, e muito a hidrocortisona.
Prescrição- Suspender anti-hipertensivos de horário, diurético de alça, nitrato e antipsicótico de ação alfa-bloqueadora; registrar cada suspensão com o motivo e o horário
- Segurar opioide e sedativo, inclusive os condicionais, e recontar as doses de resgate administradas na madrugada — no paciente que também hipoventila, a reversão do opioide está detalhada no capítulo de dessaturação aguda na enfermaria desta apostila
- Se houver hipotensão durante infusão de medicamento, interromper temporariamente a exposição suspeita e avaliar anafilaxia/reação grave. Não apenas reduzir a velocidade antes dessa avaliação. Reinício, diluição e ritmo dependem do agente, da gravidade e da decisão da equipe.
- Na suspeita de insuficiência adrenal por corticoterapia interrompida ou por estresse sem aumento de dose: succinato sódico de hidrocortisona 100 mg por via intravenosa, administrado em cerca de 30 segundos, e depois 50 mg a cada 6 horas (200 mg/dia), sem esperar o cortisol, pelo protocolo federal da insuficiência adrenal — a faixa mais larga da bula (100 a 500 mg, repetível a cada 2, 4 ou 6 horas; Blau Farmacêutica, 29/08/2018) não é a régua desta apostila; o manejo completo está em Insuficiência adrenal e crise addisoniana, na apostila de Endocrinologia
- A equivalência entre sal e base depende da apresentação. Conferir rótulo e bula do frasco disponível; inclusão na Rename não garante estoque em cada hospital. Prescrever em mg de hidrocortisona e informar preparo compatível com o produto.
- Colher cortisol basal antes da primeira dose quando isso não atrasar o tratamento; a dosagem confirma depois, e a hipotensão não espera confirmação
Desde a avaliação inicial — fluido quando houver indicação e tolerância
Avaliar perfusão e estado volêmico pelo conjunto: história, perdas, exame, pulmões, jugulares, diurese e ultrassom quando disponível e bem executado. Jugular pouco visível e pulmões sem estertores não comprovam hipovolemia. Se houver indicação de teste com volume, usar etapa observada com critérios de resposta e interrupção. Considerar mecanismo do choque antes de repetir.
Prescrição- Cristaloide isotônico, soro fisiológico 0,9% ou ringer lactato, em bolsas fracionadas de 250 a 500 mL, infundidas em 10 a 15 minutos cada, com reavaliação entre elas; o protocolo do serviço móvel de urgência escreve, para o choque distributivo do adulto, 5 a 10 mL/kg nos primeiros 5 a 10 minutos, o que para 58 quilos são 290 a 580 mL
- Na hipoperfusão induzida por sepse ou choque séptico, 30 mL/kg nas primeiras 3 horas é uma referência inicial sugerida, individualizada por resposta e risco de sobrecarga. Para 58 kg: 1.740 mL; 70 kg: 2.100 mL; 80 kg: 2.400 mL. Não é prescrição universal de toda hipotensão, sobretudo na hemorragia ou falência cardíaca. Reavaliar em bolus e usar vasopressor precocemente quando indicado.
- Em hemorragia importante, priorizar controle da fonte, equipe de emergência e hemocomponentes conforme gravidade/protocolo. Cristaloide isotônico aquecido pode ser ponte em pequenos volumes, evitando atrasar sangue ou diluir coagulação com litros sucessivos.
- No cardiopata, reduzir a velocidade de infusão conforme a disfunção sistólica ou diastólica conhecida, e registrar no prontuário a decisão de não repor, parcial ou integralmente, quando ela for tomada (protocolo do Instituto Latino Americano de Sepse)
- Critérios de parada escritos na própria prescrição: crepitação nova, queda de saturação, aparecimento de ortopneia ou turgência jugular que não havia. Qualquer um deles fecha a pinça na hora e obriga a reavaliar a hipótese
- Alvo escrito: pressão arterial média igual ou acima de 65 mmHg com retorno da diurese, reaquecimento das extremidades e enchimento capilar abaixo de dois segundos — perfusão e não apenas número
Minuto 5 a 20 — quando o volume é o dano
Má perfusão com congestão sugere choque cardiogênico ou mecanismo misto e exige ajuda imediata, ECG e avaliação cardíaca à beira do leito quando disponível. Evitar bolus generosos. Na hipotensão importante, noradrenalina pode sustentar pressão; associar inotrópico se houver baixo débito persistente e indicação. Dobutamina também vasodilata e pode piorar hipotensão. Descongestão, suporte respiratório e tratamento da causa são coordenados pela equipe, sem uma regra universal de esperar restauração completa do débito para todo diurético.
Prescrição- Dobutamina quando indicada para baixo débito, em infusão monitorizada, exemplo inicial 2,5 mcg/kg/min com titulação pela resposta e efeitos adversos. Início de ação é rápido, em minutos; não aguardar duas horas se houver piora. A faixa e a necessidade de vasopressor associado dependem do quadro e protocolo.
- Preparo da dobutamina: 20 mL da solução de 12,5 mg/mL somam 250 mg; diluídos até 250 mL de soro glicosado a 5%, a bolsa fica com 1.000 mcg/mL. Para 58 quilos, 2,5 mcg/kg/min são 145 mcg/min, ou seja 8,7 mL/h; para 70 quilos, 10,5 mL/h (a apresentação de 12,5 mg/mL é a padronizada na lista nacional de medicamentos essenciais)
- Betabloqueador pode atenuar resposta à dobutamina, sem representar contraindicação absoluta. Vigiar taquiarritmia, isquemia e queda de pressão; ajustar estratégia com equipe experiente.
- Noradrenalina associada à dobutamina quando a hipotensão for importante ou houver vasoplegia inflamatória junto, conforme a mesma diretriz
- Na congestão, decidir diurético IV em conjunto com estabilização da perfusão e suporte hemodinâmico. Exemplo em quem não usa diurético: furosemida 20 a 40 mg IV; em uso prévio, considerar dose diária oral, função renal e resposta. Não usar dose alta isolada como substituto do tratamento do choque.
- Proibições explícitas enquanto a pressão estiver baixa: nitrato, nitroprussiato e qualquer vasodilatador — e a proibição é absoluta se houver suspeita de infarto de ventrículo direito, em que o vasodilatador derruba o pouco enchimento que resta
Minuto 5 a 15 — a distributiva que tem hora marcada
Duas causas distributivas têm gatilho identificável, relógio e tratamento que reverte, e por isso não podem esperar a investigação: a anafilaxia e a reação transfusional. Em ambas, a pergunta que abre o caso é a mesma — o que entrou neste paciente nos últimos minutos? Medicamento novo, contraste, dieta, hemoderivado. Na anafilaxia, o erro que mata é o atraso da adrenalina, e não exigir urticária para agir é parte da regra. Na reação transfusional, a primeira conduta não é droga nenhuma: é parar a bolsa e preservar a prova.
Prescrição- Anafilaxia no adulto: adrenalina 0,5 mg IM na face anterolateral da coxa, correspondente a 0,5 mL de 1 mg/mL; repetir após 5 minutos se persistirem alterações de via aérea, respiração ou circulação. Em adulto de baixo peso, individualizar por 0,01 mg/kg até 0,5 mg.
- Na prática do adulto, o teto manda: para 58 quilos a conta dá 0,58 mg e se aplica 0,5 mg, que é 0,5 mL da solução de 1 mg/mL; para qualquer adulto acima de 50 quilos o volume é o mesmo. A apresentação de epinefrina 1 mg/mL está na lista nacional de medicamentos essenciais
- Anafilaxia com choque: cristaloide isotônico em bolus, frequentemente 500 a 1.000 mL no adulto, com reavaliação e repetição conforme resposta. Adrenalina IM continua sendo primeira linha. Persistência após duas doses adequadas exige equipe capacitada para infusão IV titulada e suporte avançado; evitar bolus IV de adrenalina fora de contexto especializado de peri-parada/PCR.
- Reação transfusional, na ordem: interromper a transfusão imediatamente; manter a linha pérvia com solução salina em equipo novo; preservar a bolsa restante e o equipo original para investigação; refazer a conferência entre a identificação do paciente e a etiqueta do componente; acionar o serviço de hemoterapia (manual de transfusão sanguínea da fundação de hematologia e hemoterapia do Amazonas)
- Registrar o horário de início da transfusão e o horário do sintoma: a definição de hipotensão relacionada à transfusão no adulto exige queda de pelo menos 30 mmHg na sistólica com valor final igual ou abaixo de 80 mmHg dentro de uma hora da transfusão
- Suspeita de sepse como causa distributiva: pacote de primeira hora com culturas, antimicrobiano e volume, iniciado imediatamente após a identificação e detalhado no capítulo de sepse desta coleção
Precocemente, junto à reposição quando indicado — não aguardar acesso central
Se houver hipotensão com hipoperfusão persistente, acionar ajuda e iniciar/titular vasopressor conforme mecanismo e resposta, sem esperar 30–40 minutos. Noradrenalina pode começar por acesso periférico apropriado e monitorizado enquanto se organiza acesso definitivo. A decisão não exige completar um volume predeterminado; verificar simultaneamente congestão, responsividade, hemorragia e causas cardiogênicas ou obstrutivas.
Prescrição- Noradrenalina em bomba, titulada à perfusão e pressão. Exemplo inicial 0,05 a 0,1 mcg/kg/min, podendo exigir outra dose pela gravidade e protocolo. Na instabilidade, ajustar em intervalos de poucos minutos; não esperar obrigatoriamente 15 minutos. Doses de 0,2 ou 1,0 mcg/kg/min não constituem tetos universais: necessidade crescente exige reavaliação imediata e estratégia de choque refratário em ambiente apropriado.
- Preparo: a apresentação padronizada na lista nacional é hemitartarato de norepinefrina 2 mg/mL, e a ampola de 4 mL contém 8 mg do sal, equivalentes a 4 mg de noradrenalina base. Quatro ampolas somam 16 mg de base; diluídas em 234 mL de soro glicosado a 5%, a bolsa fica com 250 mL a 64 mcg/mL
- Na bolsa de 64 mcg/mL, para 58 kg: 0,1 mcg/kg/min = 5,4 mL/h; 0,2 = 10,9 mL/h; 1,0 = 54,4 mL/h. Para 70 kg: 6,6; 13,1 e 65,6 mL/h, respectivamente. O último valor é exercício de cálculo, não teto de dose nem proposta de escalada automática. Conferir dupla checagem, peso e concentração.
- Se periférica, usar acesso confiável em veia de bom calibre, preferencialmente no membro superior em região proximal, sítio visível e vigilância frequente conforme protocolo. Providenciar acesso central se duração, dose ou condições locais exigirem. Na suspeita de extravasamento, interromper e transferir a infusão, aspirar pelo cateter sem lavar, manter o acesso para manejo inicial e acionar protocolo específico, incluindo fentolamina quando indicada e disponível.
- Necessidade crescente de noradrenalina ou hipoperfusão persistente exige revisar causa, sangramento, função cardíaca, infecção/foco, volume e acesso. Não prova diagnóstico errado nem toxicidade por cruzar 0,2 mcg/kg/min. Discutir vasopressina e outras estratégias conforme mecanismo e equipe.
- Baixo débito ou sinais clínicos de hipoperfusão que persistem depois de volume adequado e vasopressor: dobutamina associada à noradrenalina, ou adrenalina isolada (protocolo do Instituto Latino Americano de Sepse, revisão de 2026, lido junto da diretriz internacional que ele declara como base — ver notas do critério)
No reconhecimento do choque — ajuda imediata e definição do local de cuidado
Chamar não é admitir derrota, é cumprir protocolo. A rede pública do Distrito Federal escreve isso em forma de estrato: no estrato intermediário o escore é refeito de quatro em quatro horas; no seguinte, de hora em hora, com avaliação do médico plantonista solicitada; no mais grave, o paciente é encaminhado ao box de emergência. Faça a ligação e anote a hora na evolução. Depois de ligar, o seu lugar é ao lado da cama: a medida de pressão dos próximos quinze minutos ainda é sua, e ninguém assume um paciente instável por telefone.
Prescrição- Estruture a ligação em seis informações, sempre na mesma ordem: identificação e motivo da internação; pressão habitual contra a pressão de agora; o que o exame de perfusão mostrou; o que já foi feito e há quantos minutos; sua hipótese; e o pedido explícito, com prazo
- Pedir avaliação presencial imediata no choque, apoio para estabilização e leito monitorizado. Não transformar a ligação em autorização remota para o interno conduzir vasoativos sozinho.
- Registre no prontuário a hora da chamada, para quem foi feita, o que foi combinado e o horário da reavaliação que você mesmo marcou
- Solicite vaga em leito monitorado assim que a necessidade de vasopressor se configurar; no levantamento de Londrina, 53,3% dos atendimentos de código amarelo terminaram em pedido de leito monitorado, e a espera em demanda reprimida associou-se a maior chance de morte
- Mantenha o escore de alerta precoce sendo refeito de hora em hora pela enfermagem enquanto a instabilidade durar, com gatilho escrito para nova chamada (protocolo de prevenção da deterioração clínica da Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal)
Hora 1 ao dia seguinte — reescrever para não repetir
O episódio termina quando a prescrição muda. Se a causa foi iatrogênica, alguém precisa decidir se a droga volta, em que dose e quando — e escrever isso, porque o plantão seguinte não estava lá. Se foi hipovolemia, a manutenção precisa ser recalculada para o paciente de hoje e não para o da admissão. Se foi sepse, cardiogênica ou obstrutiva, o capítulo correspondente assume a partir daqui. O que este capítulo cobra é a passagem: o que aconteceu, o que foi feito, o que está pendente e qual é o gatilho para chamar de novo.
Prescrição- Reavaliar a prescrição inteira item por item, e não apenas o item suspeito: o paciente que hipotendeu com um anti-hipertensivo costuma ter também diurético, opioide e jejum na mesma folha
- Recalcular a hidratação de manutenção para o peso, as perdas e a ingesta de hoje — o cálculo e a escolha da solução estão no capítulo de hidratação venosa desta apostila
- Prescrever balanço hídrico com soma de entradas e saídas por turno, e diurese anotada em mililitros por hora, não em cruzes
- Definir a meta pressórica individual do paciente e escrevê-la, junto com o gatilho explícito de nova chamada, para que a enfermagem não precise adivinhar o que é aceitável naquele leito
- Decidir e registrar se o anti-hipertensivo suspenso volta, em que dose e a partir de quando — a conciliação medicamentosa da alta é do capítulo de conciliação medicamentosa desta apostila, mas a decisão de hoje é sua
- Escrever no prontuário o episódio em quatro linhas: horário, achados, condutas e resposta. É esse texto que a passagem de plantão vai ler às sete da manhã
Como saber se está funcionando
Reavaliar é um compromisso com hora marcada, não uma visita de oportunidade. O horário se escreve antes de sair do quarto, os parâmetros se definem antes de tratar, e o alvo já está no papel quando o soro começa a correr. A prova de volume só é prova por causa disso: sem esses três combinados, o líquido vira rotina e ninguém consegue afirmar se ele funcionou.
Após cada bolus, decidir se ainda há necessidade de fluido, se houve benefício e se o paciente tolera mais. Melhorar não impõe repetir: se a perfusão se restabeleceu, a próxima etapa pode ser apenas manutenção adequada ou via oral. Resposta transitória exige busca de perda em curso e vasoplegia; congestão ou ausência de benefício pede revisão imediata.
O protocolo nacional de sepse lista as formas de reavaliar a continuidade da ressuscitação, e elas cabem em duas categorias; a segunda é a que serve à enfermaria brasileira de madrugada. A primeira depende de equipamento: pressão venosa central, variação de pressão de pulso, variação da distensibilidade da veia cava e débito cardíaco medido por ecocardiografia ou cateter de artéria pulmonar. A segunda não depende de nada: normalização do enchimento capilar, elevação passiva das pernas, melhora da pressão depois do fluido, e sinais indiretos como melhora do nível de consciência e retorno da diurese. A revisão de 2026 tirou da lista a saturação venosa central e o livedo, e pede que se prefiram, onde existirem, os métodos dinâmicos de fluido-responsividade e de fluido-tolerância. Um serviço sem gasômetro e sem ultrassom continua tendo critério.
A basal ajuda a contextualizar a pressão, mas o alvo não é necessariamente devolver todo paciente ao número habitual. Queda relativa pode ser relevante ou refletir tratamento apropriado de hipertensão. Decidir pela perfusão, consciência, diurese, comorbidades e tendência; elevar vasopressor apenas para recuperar a sistólica habitual pode causar dano.
Esperado: Meta inicial habitual de PAM em torno de 65 mmHg, individualizada pela resposta e contexto. Não elevar automaticamente ao valor hipertensivo de antes nem tolerar hipoperfusão por um prazo fixo. Conferir técnica e tendência do manguito; monitorização invasiva pode ser necessária.
Se não melhora: Reavaliar pressão, perfusão, causa e tolerância a fluido imediatamente. Vasopressor pode ser necessário desde o início, sem esperar acumular meia hora abaixo do alvo; usar acesso periférico adequado como ponte quando indicado.
Esperado: Enchimento abaixo de dois segundos e reaquecimento progressivo do dorso da mão e do antebraço. É o parâmetro que melhora antes do número da pressão e o que melhor separa melhora real de melhora de manguito.
Se não melhora: Perfusão periférica ruim apesar de pressão melhor pode refletir baixo débito, vasoconstrição, alteração microcirculatória ou temperatura local. Avaliar o conjunto, idealmente com função cardíaca, antes de aumentar vasopressor ou iniciar inotrópico; nenhum desses ajustes decorre apenas da mão fria.
Esperado: Redução da extensão do rendilhado, do joelho em direção à periferia. Aparece e desaparece antes de qualquer exame de sangue, e está na lista de sinais de hipoperfusão do protocolo nacional de sepse.
Se não melhora: Livedo que sobe para a coxa apesar de pressão razoável é sinal de que a perfusão está piorando enquanto a tela melhora. Reavalie a hipótese inteira e antecipe a chamada de ajuda.
Esperado: Acima de 0,5 mL por quilo por hora, ou acima de 30 mL por hora, os dois cortes operacionais do protocolo de deterioração clínica da rede pública do Distrito Federal. Para 58 quilos, o piso é 29 mL por hora.
Se não melhora: Se há sonda, esvazie e marque a hora para obter uma medida limpa. Se não há, decida a sondagem pelo que ela vai mudar na conduta — medir resposta em paciente instável é indicação legítima, e o balanço entre isso e o risco de infecção está no capítulo de sondagem vesical desta coleção. Oligúria que persiste após volume adequado já é disfunção renal, e o capítulo de injúria renal aguda assume a partir daí.
Esperado: Retorno ao estado de base do paciente, e não apenas 'sonolento mas responsivo'. Melhora da consciência é um dos sinais indiretos de reperfusão que o protocolo nacional lista.
Se não melhora: Consciência que piora com pressão que melhorou pede outra explicação: hipoglicemia, sedativo residual, distúrbio de sódio, evento neurológico. O caminho está no capítulo de alteração do nível de consciência desta coleção.
Esperado: Ausculta sem crepitação nova e saturação estável com o mesmo dispositivo e o mesmo fluxo de sempre. Este parâmetro não mede melhora: mede dano.
Se não melhora: Crepitação nova ou queda de saturação durante a infusão fecham a pinça imediatamente e reabrem o diagnóstico. Não é detalhe para reavaliar de manhã: o paciente que estava hipovolêmico às três e quarenta pode estar congesto às quatro e dez porque você acertou a conta e errou a velocidade.
Esperado: Queda em relação ao valor inicial, que é a meta escrita no protocolo nacional de sepse — sem exigir normalização. O resultado deve estar disponível em cerca de 30 minutos, e a amostra precisa seguir imediatamente ao laboratório para não dar falso positivo por demora de bancada.
Se não melhora: Lactato que não cai com pressão que subiu significa perfusão de órgão ainda ruim, ou causa não hemodinâmica — convulsão recente, beta-agonista, insuficiência hepática, metformina. O próprio protocolo adverte contra perseguir a normalização a qualquer custo: hiperlactatemia residual isolada, sem outros sinais de hipoperfusão, não precisa necessariamente ser tratada.
Esperado: Queda da pontuação, com a sistólica saindo das faixas que pontuam 2 e 3. É o parâmetro que sobrevive à sua saída do andar, porque a enfermagem continua aplicando quando você já está em outro leito.
Se não melhora: Pontuação que não cai, ou que volta a subir depois de ter caído, é motivo de nova chamada mesmo que a pressão isolada esteja aceitável — e o gatilho para essa nova chamada precisa estar escrito por você na prescrição, não deixado ao julgamento de quem assumir o turno.
Esperado: Dose estável ou em desmame progressivo depois da ressuscitação completada, com perfusão mantida. Anote a dose por quilo, porque é ela que se compara entre plantões, e a vazão muda com a diluição.
Se não melhora: Necessidade crescente de noradrenalina exige revisão urgente de mecanismo, fonte, volume, coração, medida de pressão e funcionamento da infusão. Dose acima de 0,2 µg/kg/min não é um teto absoluto; a titulação e associação de suporte devem ocorrer com equipe experiente em ambiente apropriado.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro central deste capítulo porque ele parece conduta. Aberta a pinça sem os quatro elementos escritos, ninguém sabe quando parar: o hipovolêmico recebe menos do que precisa porque a bolsa foi programada para seis horas, e o congesto recebe três litros porque a prescrição dizia apenas 'hidratação'. No segundo caso o resultado aparece como piora respiratória de madrugada, e a equipe atribui a piora à doença de base em vez de atribuí-la à prescrição.
Como pegar a tempo: Escreva quanto, em quanto tempo, para chegar onde e quando você volta, os quatro no prontuário antes de o soro começar. Fracione em bolsas de 250 a 500 mL e ausculte as bases entre elas. Se você não consegue enunciar o que significaria 'ter funcionado', ainda não é uma prova de volume.
O dano: Pressão e fluxo não são a mesma coisa. O paciente que apertou a resistência para compensar a queda do débito exibe pressão aceitável com mão gelada, quatro segundos de enchimento capilar e fralda seca — e a pressão é o último parâmetro a cair, não o primeiro. Quem valida a melhora só pelo manguito abandona um paciente que continua acumulando dívida de oxigênio em rim e cérebro.
Como pegar a tempo: Antes de aceitar a melhora, refaça as cinco leituras gratuitas: consciência, cor e temperatura da pele com procura de livedo, enchimento capilar contado, diurese somada e ausculta com inspeção da jugular. Pressão que subiu com mão que continua fria não é melhora, é vasoconstrição.
O dano: A maior parte dos erros de aferição empurra o número para baixo, e a conduta que se segue é feita sobre um paciente que não estava hipotenso: soro em quem não precisa, suspensão de anti-hipertensivo que fazia falta, transferência para leito monitorado que outro paciente precisava mais. O inverso também acontece e é pior: no paciente em fibrilação atrial, o aparelho automático registra o ciclo isolado de maior amplitude em vez da média, superestima a pressão e esconde o hipotenso atrás de uma leitura tranquilizadora.
Como pegar a tempo: Repetir medidas com técnica correta em paralelo ao atendimento. Arritmia e choque podem reduzir a precisão de alguns aparelhos, mas manguito não perde automaticamente toda validade quando entra vasopressor. Comparar medidas seriadas, perfusão e monitorização invasiva quando indicada.
O dano: Documentos oficiais brasileiros erram unidade, e o erro sobrevive a revisões. A bula profissional do hemitartarato de norepinefrina manda infundir, para estados hipotensivos agudos, uma dose inicial de 2 a 3 mL por minuto da diluição de uma ampola em 1.000 mL — e escreve, entre parênteses, que isso corresponde a 2 a 6 mg de noradrenalina base. Não corresponde. Essa diluição tem 4 mcg de base por mililitro, de modo que 2 a 3 mL por minuto são 8 a 12 mcg por minuto: a bula erra por 250 a 500 vezes, e o próprio parágrafo seguinte se contradiz ao dar a manutenção corretamente em microgramas. Para infundir 2 mg por minuto daquela bolsa seriam necessários 500 mL por minuto, ou seja, a bolsa inteira em dois minutos. O protocolo nacional de sepse tem erro da mesma família ao escrever hemoglobina abaixo de 7 mg/dL onde o limiar pretendido é 7 g/dL, mil vezes maior.
Como pegar a tempo: Faça sempre o caminho de volta: da dose por quilo até o volume por hora, e do volume por hora até a ampola que existe na farmácia. Se a conta não fecha, a fonte está errada, não a sua matemática. Os números corretos para 58 quilos estão no bloco de conduta — 0,1 mcg/kg/min correspondem a 5,4 mL/h da bolsa de 64 mcg/mL —, e batem com a diretriz brasileira de insuficiência cardíaca, que abre a noradrenalina em 0,1 a 0,2 mcg/kg/min.
O dano: A causa mais frequente de hipotensão na enfermaria está escrita na folha, e é a que menos entra na primeira hipótese. Anti-hipertensivo mantido por inércia num paciente que agora está em jejum, comendo menos sal e perdendo mais líquido; diurético em dose de ambulatório em quem já está seco; opioide de resgate da madrugada que ninguém contabilizou; corticoide crônico suspenso na admissão. Quem pula essa etapa pede tomografia, transporta um paciente instável para fora do andar e volta com a resposta que estava a dois metros do leito.
Como pegar a tempo: Cruze a curva de pressão da folha de sinais vitais com os horários de administração da prescrição. Leva dois minutos e é o exame complementar mais barato do hospital. Se a queda tem hora marcada, a hipótese medicamentosa ganha força — e a conduta é suspender, registrar e avisar a enfermagem em voz alta.
O dano: É a decisão que mais adia a chamada de ajuda, e o adiamento tem preço medido. Na casuística de Londrina, a mortalidade hospitalar de quem precisou de um código amarelo foi de 56,7%, contra 4,3% de mortalidade global do hospital no período, e os pacientes que ficaram esperando leito monitorado em demanda reprimida tiveram chance de morte mais de três vezes maior. O paciente hipotenso da enfermaria já é um paciente de prognóstico ruim; observar sem critério transforma vantagem de tempo em atraso.
Como pegar a tempo: Toda decisão de observar precisa de três coisas escritas: o parâmetro que vai ser medido, a hora em que você volta, e o valor que dispara a nova chamada. Deixe o gatilho na prescrição, com nome e número, para que a enfermagem não precise interpretar. E faça a ligação enquanto o quadro ainda tem margem, porque leito monitorado leva mais tempo para aparecer do que o paciente leva para piorar.
O que dizer ao paciente e à família
Pressão baixa tem uma vantagem comunicativa perversa: quase ninguém sente. O paciente que está desviando sangue da pele e do rim costuma estar acordado, conversando, às vezes reclamando apenas de que o aparelho aperta. Isso significa que a gravidade não se autoexplica, e que a pessoa deitada ali vai formar a impressão dela a partir do que você disser e de como você se mover pelo quarto. Falar pouco e agir muito assusta; falar demais sobre hipóteses também.
Três regras atravessam as falas abaixo. Nomeie o que está sendo feito antes de nomear o que se suspeita, porque quem está deitado precisa primeiro saber que alguém agiu. Não prometa diagnóstico nem desfecho, e diga com todas as letras quando ainda não souber. E dê prazo a toda incerteza: a frase 'ainda não sei' é tolerável quando vem seguida de 'volto aqui às quatro e vinte para medir de novo'.
À paciente acordada, enquanto você refaz a medida e pega a mão dela
“Dona Dalva, sou eu, o médico do plantão. A pressão da senhora está mais baixa do que vinha estando, e eu vou medir de novo com um aparelho do tamanho certo para o seu braço. Vou pegar a sua mão para ver a temperatura e apertar a ponta do seu dedo, e vou perguntar umas coisas enquanto faço isso. A senhora não precisa fazer nada, só ficar deitada. Vou levantar as suas pernas por um minuto, e isso pode dar uma sensação estranha, mas passa.”
Não diga: Evite dizer que 'está tudo bem' porque ela está conversando. Ela está conversando porque o organismo está fechando a pele e o rim para manter o cérebro — e o conforto dela agora não é garantia de nada daqui a vinte minutos.
Ao acompanhante que pergunta se é grave, antes de você saber
“A pressão dele caiu bastante em relação ao que vinha sendo, e eu ainda não sei o motivo. Existem algumas causas possíveis e elas têm tratamentos diferentes, por isso eu vou fazer as coisas em ordem em vez de chutar. Já pedi exames, já estou com soro correndo e vou reavaliar daqui a quinze minutos, aqui do lado. Se em quinze minutos ele não melhorar, eu vou chamar mais gente, e eu aviso o senhor quando fizer isso.”
Não diga: Evite 'é só a pressão' e evite listar as cinco hipóteses. A primeira minimiza e cobra o preço depois; a segunda transfere sua ansiedade diagnóstica para quem não tem como processá-la.
À técnica de enfermagem que te chamou, no corredor
“Você fez certo em me chamar, e o que você me disse sobre ter medido duas vezes foi importante. Vou precisar de três coisas nas próximas duas horas: pressão de quinze em quinze minutos até eu dizer o contrário, diurese anotada em mililitros com a hora ao lado, e me chamar na hora se a sistólica ficar abaixo de 85, se ela ficar sonolenta ou se aparecer falta de ar. Vou deixar isso escrito na prescrição para não depender de eu estar por perto.”
Não diga: Evite pedir 'me avisa se piorar'. Piorar é uma palavra que cada pessoa calibra diferente às três da manhã. Gatilho é número, sintoma e prazo — e vai escrito.
Ao paciente ou à família, quando a causa é um remédio que o hospital prescreveu
“A queda de pressão foi provavelmente causada pelo remédio de pressão que ele toma em casa e que continuou sendo dado aqui. Em casa aquela dose estava certa; aqui, com ele comendo pouco e perdendo mais líquido, ela ficou forte demais. Já suspendi, e a equipe está avisada. Isso não é um erro dele nem motivo para parar o remédio para sempre: significa que a dose precisa ser reavaliada antes da alta, e isso vai ficar escrito no prontuário e na receita.”
Não diga: Evite tanto o silêncio quanto a autoflagelação. Omitir a causa cria desconfiança quando ela aparecer na conta da alta; dramatizar leva a família a suspender por conta própria um anti-hipertensivo que ela vai precisar em casa.
Ao plantonista ou à terapia intensiva, no telefone
“Sou o interno da enfermaria. Dalva, 74 anos, pielonefrite, pressão caiu de 130/80 para 84/52 com enchimento de quatro segundos, extremidades frias e diurese incerta. Há sinais de choque. Iniciamos monitorização, acesso e avaliação de fluido; preciso de avaliação presencial imediata e apoio para vasoativo e leito monitorizado, conforme resposta. Vou permanecer com a equipe no leito.”
Não diga: Evite narrar o caso do começo e esperar que o outro conclua o pedido. Peça uma coisa nomeada, com prazo. E registre no prontuário a hora da ligação, para quem foi feita e o que ficou combinado.
À família, quando o leito monitorado não existe agora
“Ela precisa de um leito com monitorização e equipe para cuidados intensivos; a vaga já foi solicitada. Enquanto aguardamos, estamos mantendo o suporte disponível e chamamos a equipe responsável para acompanhamento próximo. Se houver mudança, vamos agir e informar vocês. Assim que houver notícia da transferência, eu aviso.”
Não diga: Evite prometer horário de vaga e evite dizer que 'aqui é a mesma coisa'. Não é a mesma coisa, e a família sabe. O que se promete é o que está sob seu controle: presença, medida na hora certa e informação sem que precisem perguntar.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Hipotensão que não corrige com volume e pede vasopressor, independente do lactato
Choque séptico é sepse que evoluiu com hipotensão não corrigida pela reposição volêmica inicial, com pressão média em 65 mmHg ou abaixo e necessidade de vasopressor, de forma independente de alterações do lactato. A revisão de 2026 pôs o vasopressor no texto da definição e registra que o critério de choque não mudou; a de 2018 dizia que a campanha internacional de sobrevivência à sepse não havia adotado o conceito que exige lactato acima da referência depois da reposição inicial, e seguia essa régua em vez da definição de 2016.
Instituto Latino Americano de Sepse, protocolo clínico de atendimento ao paciente adulto com sepse e choque séptico, revisão de julho de 2026, que substituiu a de agosto de 2018
Hipotensão refratária somada a lactato igual ou acima de 2 mmol/L
Choque séptico é sepse que evoluiu com hipotensão refratária, exigindo vasopressor para manter pressão média igual ou acima de 65 mmHg, associada a lactato igual ou acima de 2 mmol/L após reposição volêmica adequada. É a definição internacional de 2016 adotada na íntegra, e ela exclui do rótulo o paciente que precisa de droga mas cujo lactato ficou normal.
RioSaúde, protocolo clínico PTC.DEA.001 de sepse, revisão de março de 2023
Sepse com sinais de hipoperfusão, sem exigir hipotensão
Sepse é definida por sinais inflamatórios sistêmicos somados a foco infeccioso suspeito, e choque séptico é a associação da sepse com sinais de hipoperfusão, não sendo obrigatória a presença de hipotensão. É a definição anterior a 2016 e aparece num protocolo cujo capítulo de choque tem elaboração em 2014 e revisão em 2015.
Ministério da Saúde, Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, 2ª edição, 2016, protocolo AC16
Separar a definição formal dos gatilhos de tratamento. Sepsis-3 caracteriza choque séptico por vasopressor necessário para manter PAM ≥65 mmHg e lactato >2 mmol/L apesar de reposição adequada. Sem lactato disponível, ou com lactato normal, registrar suspeita de choque de provável origem infecciosa e os achados presentes; não atrasar suporte, antimicrobiano indicado, controle de foco ou transferência. A necessidade do leito depende da condição clínica, não de escolher um rótulo mais inclusivo.
Sistólica acima de 80 mmHg, deliberadamente abaixo do normal
No choque hipovolêmico, a reposição com cristaloide isotônico tem como objetivo manter a sistólica acima de 80 mmHg — e apenas no traumatismo cranioencefálico o alvo sobe para acima de 90 mmHg. O raciocínio é que pressão alta demais antes do controle do sangramento desfaz coágulo e aumenta a perda.
Ministério da Saúde, Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, 2ª edição, 2016, protocolo de choque
Pressão arterial média igual ou acima de 65 mmHg, sem tolerar déficit
Em choque séptico, a meta inicial habitual de PAM é em torno de 65 mmHg, individualizada conforme contexto e perfusão. Hipotensão clinicamente relevante exige intervenção imediata; menções históricas a 30–40 minutos não definem período seguro de espera. Não transportar esse alvo para todos os tipos de choque.
Instituto Latino Americano de Sepse, protocolo clínico, revisão de julho de 2026, que substituiu a de agosto de 2018
Na hemorragia, controlar a fonte e repor hemoderivados conforme gravidade. Hipotensão permissiva é estratégia específica de alguns cenários de trauma sem lesão cerebral, não alvo para toda hemorragia. Em traumatismo craniano, evitar hipotensão e seguir metas do protocolo de neurotrauma; PAS de 90 mmHg não deve ser ensinada como meta suficiente de ressuscitação. Individualizar em outras condições que exigem perfusão preservada.
Pode e deve começar periférica, porque o tempo é o dano
Início periférico de noradrenalina pode reduzir atraso quando há indicação, com acesso adequado, bomba, supervisão e vigilância de extravasamento. Providenciar acesso definitivo conforme evolução. O motivo para começar cedo é a necessidade de perfusão, não a autorização para esperar um prazo fixo de hipotensão.
Instituto Latino Americano de Sepse, protocolo clínico, revisão de julho de 2026, que substituiu a de agosto de 2018
Veia de grande calibre, de preferência antecubital, pelo risco de necrose
As infusões devem ser feitas em veia de grande porte, particularmente na antecubital, evitando veias de membros inferiores; deve-se ter cuidado para evitar extravasamento, do qual pode resultar necrose local, e o antídoto indicado é a fentolamina infiltrada na área. A bula não autoriza nem proíbe o acesso periférico de rotina: ela descreve a condição em que a infusão é segura.
Bula profissional do hemitartarato de norepinefrina, Hipolabor Farmacêutica, registro 1.1343.0126
As duas posições convivem melhor do que parecem, e a decisão é sobre qual veia periférica, não sobre se pode. Comece pela regra que reconcilia as duas: veia de grosso calibre em fossa antecubital ou acima, cateter seguro, nunca dorso da mão nem membro inferior, sítio visível e inspecionado a cada meia hora, e uma pessoa nomeada responsável por essa inspeção. Escreva na prescrição a conduta do extravasamento, porque quem vai vê-lo primeiro é a enfermagem e não você. O que não é aceitável é a inversão que a enfermaria faz com frequência: deixar o paciente meia hora abaixo de 65 mmHg de pressão média esperando um cateter central que depende de material, de kit e de alguém livre. O risco da necrose é local, tratável e visível; o risco da espera é renal, cerebral e silencioso. Comece periférica com vigilância escrita e troque para central assim que ele existir.
O raciocínio, em voz alta
Cinco e vinte da manhã, enfermaria de clínica médica. Seu Argemiro Peçanha tem 71 anos, 64 quilos, e está no quarto dia de internação por celulite de perna direita. É hipertenso de longa data, usa losartana e anlodipino, e está em jejum desde as vinte e duas horas de ontem para uma endoscopia que foi remarcada e ninguém liberou a dieta. A técnica te chama porque a pressão está 88 por 54. Ele está acordado, um pouco lento, e diz que está com sede.
O que penso ao entrar
Sistólica de 88 é quase 90, e é exatamente essa proximidade que engana. Antes de decidir qualquer coisa, preciso de duas informações que não estão no monitor: qual era a pressão dele nos dias anteriores, e se ele está perfundindo agora.
Confiro a medida e abro a folha
Refaço com manguito adequado nos dois braços: 86 por 52 e 84 por 50. Adotando o braço de maior valor, como manda a diretriz, a média calculada dá 63 mmHg, abaixo de 65. Na folha, a pressão vinha entre 150 e 160 de sistólica desde a admissão. A queda é de mais de 60 mmHg em relação ao habitual — em conjunto com os sinais de hipoperfusão, isso sustenta choque, e nenhum alarme de monitor tocaria.
A mão, o joelho e a fralda
Mão fria até o punho, enchimento capilar de três segundos, sem livedo. A diurese somada dá 90 mL em cinco horas, ou seja 18 mL por hora — abaixo do piso de 32 mL por hora para 64 quilos. Mucosas secas. Ele está mal perfundido e está seco.
A jugular decide qual líquido
Jugular pouco visível e pulmões limpos tornam sobrecarga aparente menos provável e apoiam testar pequeno volume no contexto de perdas e baixa ingesta. Não excluem choque cardiogênico, obstrutivo ou misto. Peço ajuda já na identificação de má perfusão e obtenho ECG, sem esperar a resposta ao soro.
Abro a prescrição, e o horário responde
Losartana e anlodipino de horário, mantidos desde a admissão, com administração às vinte e duas horas. Dieta zero desde a mesma hora. Hidratação de manutenção prescrita no primeiro dia e nunca revista. A queda tem hora marcada e tem explicação somada: droga vasodilatadora em cima de jejum de sete horas.
A prova de volume, escrita antes de correr
Prescrevo 500 mL de soro fisiológico em 15 minutos, com alvo de pressão média acima de 65 mmHg, retorno da diurese e reaquecimento da mão, e reavaliação às 5h45 feita por mim. Suspendo os dois anti-hipertensivos, registro a suspensão e aviso a técnica em voz alta. Ausculto as bases antes de abrir a pinça.
Como a resposta muda o que eu penso
Às 5h45, após a primeira bolsa, a pressão é 104/62, PAM aproximada de 76, mão mais morna e enchimento de dois segundos. Isso sugere benefício, mas não confirma causa exclusiva. Não repito automaticamente outros 500 mL: verifico déficit ainda presente, tolerância, exames e possibilidade de hidratação oral. Às 6h30, o total urinário da primeira hora é de 60 mL. Se a melhora não se sustentar, revisar perdas, sepse e outros mecanismos com a equipe.
O que fica escrito para o plantão da manhã
Quatro linhas na evolução: horário, achados, condutas e resposta. Mais o que a manhã precisa decidir — quando a dieta volta, se os anti-hipertensivos retornam e em que dose, e a meta pressórica individual dele, com o gatilho numérico de nova chamada deixado na prescrição para a enfermagem.
Faça você
Três e cinquenta da manhã, enfermaria de ortopedia. Dona Terezinha Ubaldo tem 69 anos, 78 quilos, e está no segundo dia de pós-operatório de artroplastia de quadril direito. A técnica te chama porque ela ficou subitamente mal ao ser virada no leito. Pressão 82 por 50, frequência cardíaca 124, frequência respiratória 28, saturação 89% em ar ambiente, temperatura 36,8 °C. Está acordada, angustiada, sem dor torácica. A mão está fria e o enchimento capilar leva quatro segundos. A pressão vinha em torno de 130 por 80 desde a cirurgia.
Passo 1 — O que a apresentação já diz
Instalação súbita, no pós-operatório recente de cirurgia ortopédica de grande porte, em paciente acamada. Queda de quase 50 mmHg em relação ao habitual, com má perfusão. A instalação súbita, e não progressiva, já separa este quadro do jejum somado e do anti-hipertensivo de horário.
Passo 2 — O que o pescoço e o tórax mostram
Com a cabeceira a 45 graus, a jugular está túrgida. A ausculta pulmonar é limpa e simétrica, sem crepitação e sem abolição de murmúrio. Não há terceira bulha. As bulhas são taquicárdicas e não estão abafadas.
Passo 3 — O que a prescrição e a folha informam
Não há anti-hipertensivo, não há opioide administrado desde a meia-noite e a última tromboprofilaxia registrada foi há mais de trinta horas. O balanço hídrico está equilibrado e a diurese vinha normal até a hora anterior.
Passo 4 — Os dois primeiros minutos
Monitorização, acesso calibroso, glicemia capilar, oxigênio titulado por causa da saturação e eletrocardiograma de doze derivações à beira do leito, com precordiais direitas. E a decisão que não pode ser tomada no reflexo: abrir ou não a pinça do soro.
Passo 5 — Sua vez
Diga qual é o mecanismo, o que a combinação de jugular túrgida com pulmão limpo autoriza e o que ela proíbe, quanto de volume você daria e com que critério de parada, e o que você pede ao telefone nos próximos cinco minutos.
Ver como fecharíamos
Há choque e forte suspeita de TEP com repercussão hemodinâmica, mas ainda não confirmação. Jugular túrgida com pulmões limpos sugere comprometimento direito; ECG com derivações direitas e ecocardiografia/POCUS qualificado ajudam a diferenciar infarto de VD, TEP e tamponamento. Bulhas não abafadas e ausculta simétrica não excluem tamponamento ou outras causas por si sós. Chamar ajuda imediatamente, apoiar ABC, monitorizar e discutir noradrenalina precoce. Não administrar 30 mL/kg por reflexo. Se avaliação sugerir baixo enchimento e possível benefício, considerar pequeno desafio de 250 mL, no máximo cerca de 500 mL antes de nova decisão, interrompendo com aumento da congestão, piora respiratória ou ausência de benefício. Com jugular já túrgida, a indicação precisa ser particularmente cuidadosa. Solicitar equipe de emergência/UTI e avaliação à beira do leito; angiotomografia depende de segurança do transporte. Em TEP de alto risco, discutir reperfusão urgente e anticoagulação conforme risco hemorrágico do pós-operatório. O interno organiza dados, suporte e comunicação enquanto a equipe responsável define intervenções especializadas; não aguarda cinco minutos para começar a ligação.
O quadro reúne os sinais que o manual de transfusão da fundação de hematologia do Amazonas lista para reação aguda: hipotensão, calafrio, elevação térmica de um grau, dor lombar e hemoglobinúria. A conduta é uma sequência, não um medicamento, e a ordem protege duas coisas ao mesmo tempo — o paciente e a investigação. Manter a linha pérvia com salina permite tratar; preservar bolsa e equipo permite descobrir se houve troca administrativa, que é causa de hemólise aguda; refazer a conferência entre paciente e etiqueta é o passo que mais rapidamente confirma ou afasta esse erro. Reduzir a velocidade continua infundindo o agente da reação. Tratar como sepse sem parar a bolsa mantém a exposição e apaga a hipótese mais provável. E descartar o material elimina a única prova disponível. Urina escura sugere, mas não confirma hemoglobinúria; a temperatura de 37,9 °C não preenche todos os critérios de reação febril, sem reduzir a urgência da reação sistêmica. ABC, tratamento do choque e investigação de hemólise ou contaminação ocorrem em paralelo.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Explique a diferença entre pressão, débito e perfusão. Em três vinhetas, escolha quando testar fluido e quando chamar equipe para vasoativo precoce.
Em 30 dias
Recalcule noradrenalina para outro peso e concentração, com dupla checagem. Discuta por que resposta a volume não confirma causa única e por que choque não permite esperar trinta minutos por ajuda.
Agora atenda
Agora atenda. Vai chegar um telefonema de madrugada com dois números e nenhuma história, e o que se cobra de você é a ordem: medida refeita antes de qualquer conduta, perfusão examinada com a própria mão, jugular procurada antes de escolher o líquido, prescrição e folha de sinais vitais abertas lado a lado, e só então a caneta — com quantidade, tempo, alvo e horário de retorno. O paciente-IA vai responder ao que for perguntado e revelar o que for examinado, de modo que o exame não feito também aparece no resultado. Repare especialmente na temperatura das extremidades, no enchimento capilar contado por você, na diurese somada e nos horários de administração da prescrição.
