Clínica MédicaSíndromes do Paciente Internado

Dor torácica intra-hospitalar

O paciente foi internado por outra coisa, está deitado há dias, tem acesso, tem droga nova — e agora aperta o peito às três da manhã. A lista de causas não é a mesma da porta, e a probabilidade de cada uma mudou porque ele está internado. Este capítulo é sobre essa inversão.

Fontes deste capítulo

Sociedade Brasileira de Cardiologia — Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2024 (Arq Bras Cardiol. 2024;121(9):e20240590)

Sociedade Brasileira de Cardiologia, Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular, Colégio Brasileiro de Radiologia e Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia — Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso – 2022 (Arq Bras Cardiol. 2022;118(4):797-857)

Sociedade Brasileira de Cardiologia e Federación Latinoamericana de Medicina de Emergencias — Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência – 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250620)

Sociedade Brasileira de Cardiologia — Diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre a Análise e Emissão de Laudos Eletrocardiográficos – 2022 (Arq Bras Cardiol. 2022;119(4):638-680)

Sociedade Brasileira de Cardiologia — I Diretriz Brasileira de Miocardites e Pericardites (Arq Bras Cardiol. 2013;100(4 Supl. 1):1-36)

01

Responda antes de ler

Você confere a prescrição de uma paciente de 74 anos, internada há cinco dias por pielonefrite, que acabou de referir dor torácica. A enoxaparina profilática está prescrita desde a admissão. Na folha de checagem, os quadrados dos dois últimos dias estão vazios, sem anotação de recusa nem de suspensão. O que você faz com esse achado?

02

O paciente que você vai ver

Duas e cinquenta da madrugada, enfermaria de clínica médica de catorze leitos, hospital geral de porte médio. Você é o interno de plantão. O telefone do posto toca e a técnica de enfermagem diz uma frase curta, do jeito que se diz de madrugada: o senhor Onofre do 7 está com dor no peito.

Você conhece o senhor Onofre Vilaça Sampaio de nome e de visita. Sessenta e oito anos, 74 quilos, aposentado da lavoura, ex-tabagista de quarenta anos-maço. Entrou pelo pronto-socorro há seis dias com exacerbação de doença pulmonar obstrutiva crônica: chegou dispneico, chiando, e melhorou. Está no quinto dia de antibiótico, no terceiro de corticoide venoso, com oxigênio por cateter nasal a 1 litro por minuto durante a noite. Anteontem sentou na poltrona pela primeira vez. Ontem foi ao banheiro com ajuda. A prescrição do dia tem doze itens, e um deles é a profilaxia.

Quando você chega ao leito, ele está sentado na beira da cama, apoiado nas duas mãos, e diz que a dor começou quando ele voltou do banheiro, há uns vinte minutos. Aponta o lado direito do tórax com dois dedos e diz que dói mais quando puxa o ar. Está molhado de suor. O monitor não existe naquele quarto; o que existe é um oxímetro de dedo que a técnica trouxe no bolso, e ele marca 88% com o cateter ligado. Frequência cardíaca 118. Frequência respiratória 28. Pressão 104 por 68.

Agora repare no que essa cena tem de diferente da cena que você aprendeu. Este homem não chegou com dor torácica: ele já estava aqui. Tem seis dias de prontuário, um eletrocardiograma feito na admissão, exames de anteontem, uma prescrição inteira que alguém escreveu e uma folha de enfermagem que registra o que foi administrado. Tudo isso é informação diagnóstica, e nada disso existe para o paciente que entra pela porta. Em compensação, seis dias deitado, com acesso venoso, jejum intermitente, corticoide novo e antibiótico novo mudaram as probabilidades de tudo que pode estar acontecendo com o peito dele. A pergunta que abre este atendimento não é qual é a dor torácica dele. É outra, e ela se responde em dez segundos, na prescrição e na folha da enfermagem: ele estava em profilaxia para trombose? E recebeu, ou estava só prescrita?

03

Quem adoece disso

Não existe, no Brasil, registro nacional de dor torácica que comece dentro do hospital — o que existe é o registro das doenças que a causam, e é por elas que se monta a estatística. Ela não se parece com a da porta. No pronto-socorro, a coorte é de gente que veio de casa por causa da dor; na enfermaria, a coorte é de gente que já estava deitada, e a dor é um evento novo dentro de uma internação que tinha outro motivo. Isso muda a probabilidade pré-teste de cada hipótese antes de qualquer exame, e é a única coisa que este capítulo pede que você guarde como princípio.

O tromboembolismo venoso é o exemplo mais brutal dessa mudança. Leia os números que o protocolo de tromboprofilaxia do hospital universitário federal de Dourados reúne para justificar a própria existência: acima de metade dos internados por causa clínica está em risco aumentado; quase todo mundo que dorme num leito de hospital tem pelo menos um fator de risco; e algo perto de dois em cada cinco acumulam três ou mais. O mesmo documento chama a embolia pulmonar do que ela é dentro de um hospital: a morte evitável que mais se repete. A consequência para o interno de plantão é direta. No seu paciente da porta, embolia era uma hipótese que precisava de um gatilho na história para entrar na lista; no seu paciente do leito 7, ela entra na lista pelo simples fato de ele estar no leito 7 há seis dias.

No paciente cirúrgico a inversão é ainda maior, e vem com número. A Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória da Sociedade Brasileira de Cardiologia, de 2024, resume dois estudos que mudaram o assunto. No VISION, que monitorou com troponina todos os operados acima de 45 anos internados por pelo menos um dia, a incidência de injúria miocárdica após cirurgia não cardíaca foi de 18%, e 93% desses pacientes não tiveram sintoma nenhum. No BASEL-PMI, que monitorou os acima de 65 anos e os acima de 45 com doença aterosclerótica conhecida, a incidência de injúria ou infarto perioperatório foi de 16%, com apenas 18% de sintomáticos — e a mortalidade em 30 dias foi de 9% contra 1% nos que não tiveram o evento, e de 23% contra 9% em um ano. Guarde a assimetria: quase um em cada cinco operados de risco tem lesão miocárdica no pós-operatório, e a esmagadora maioria não avisa. A dor torácica pós-operatória é a exceção, não a regra — e por isso quem espera a dor para pensar em coração no pós-operatório fica sabendo pelo desfecho.

As causas que só existem dentro do hospital são raras em números absolutos e caras em desfecho, o que é exatamente o perfil que exige lembrança ativa. A mediastinite após cirurgia cardíaca com esternotomia aparece em torno de 2,4% dos operados — 25 casos em 1038 cirurgias consecutivas numa série brasileira do Pronto Socorro Cardiológico de Pernambuco — e matou 32% dos acometidos naquela série. O detalhe que interessa ao interno de enfermaria está no tempo e na queixa: o quadro apareceu em média 13 dias após a cirurgia, com variação de 5 a 35 dias, e a queixa inicial mais frequente foi dor retroesternal, presente em 92% dos casos. Ou seja: a complicação mais temida da esternotomia costuma se apresentar como aquilo que todo mundo já decidiu chamar de dor da cirurgia.

Por fim, o número que organiza a leitura de todos os outros. A pericardite responde por cerca de 5% dos pacientes de emergência que têm dor torácica e nos quais se afastou insuficiência coronariana aguda, e por 1% dos que têm supradesnivelamento do segmento ST. Números pequenos — na porta. Dentro do hospital, a mesma doença ganha três gatilhos que não existiam lá fora: o infarto que ocorreu ontem, a cirurgia cardíaca de semana passada e a insuficiência renal em diálise, esta última produzindo derrame pericárdico em 20% dos pacientes. Nada disso torna a pericardite comum. Torna-a plausível num paciente específico, que é como a probabilidade pré-teste funciona.

04

Por que acontece o que acontece

O tórax não ganhou inervação nova por causa da internação. O que mudou foi tudo que gera estímulo dentro dele. A dor visceral do coração, da aorta, do esôfago e do mediastino continua entrando na medula pelas mesmas raízes torácicas altas e continua sendo mal localizada; a dor pleural e a dor da parede continuam sendo bem localizadas e ligadas ao movimento respiratório. Portanto o mecanismo básico não é o que este capítulo precisa explicar. O que precisa é outra coisa: por que a internação fabrica alguns desses estímulos e apaga outros.

Comece pelo que a internação fabrica. Seis dias de decúbito produzem estase venosa em membros inferiores e pelve; a doença que motivou a internação — infecção, neoplasia, insuficiência cardíaca, doença inflamatória — produz um estado inflamatório com aumento de fatores procoagulantes; e a punção venosa, o cateter central e a própria imobilidade produzem lesão endotelial. É a tríade clássica montada de propósito pelo ambiente. Quando um trombo dessa origem se aloja num ramo da artéria pulmonar, a dor não vem da artéria: vem da pleura que recobre o segmento isquemiado e inflamado. Daí a assinatura da dor pleurítica, bem localizada, que piora à inspiração profunda. E daí a armadilha, que é a mesma da porta com peso diferente aqui: quanto mais central e mais grave o êmbolo, menos ele dói, porque o problema deixa de ser irritação pleural e passa a ser a pressão que o coágulo impõe subitamente ao ventrículo direito: ele dilata, achata o septo contra a cavidade esquerda, e o débito cai porque o coração esquerdo deixa de encher. O paciente grave da enfermaria não aponta o peito com dois dedos: ele fica hipotenso, sonolento e taquicárdico.

O segundo mecanismo fabricado pela internação é o desequilíbrio entre oferta e consumo de oxigênio no miocárdio sem que nenhuma placa tenha se rompido. É a definição do infarto de tipo 2, e a enfermaria é a fábrica dele. Anemia por sangramento ou por colheita repetida reduz a oferta; taquicardia por febre, dor ou hipovolemia aumenta o consumo e encurta a diástole, que é quando a coronária enche; hipoxemia reduz o conteúdo arterial de oxigênio; hipotensão reduz a pressão de perfusão coronariana; a resposta adrenérgica ao trauma cirúrgico aumenta os dois lados da conta. Nenhum desses fenômenos precisa de aterosclerose grave para produzir necrose de miócito — precisa apenas de uma coronária que não consiga aumentar o fluxo quando pedido. A diretriz perioperatória de 2024 mostra o tamanho disso na distribuição etiológica que publica: dentro do universo da injúria ou infarto perioperatório, o infarto de tipo 1, por aterotrombose com rotura de placa, responde por 7%, enquanto o de tipo 2, por desequilíbrio entre oferta e consumo, responde por 72%.

Troponina identifica injúria miocárdica. A forma aguda exige ascensão/queda significativa, avaliada pelo ensaio, concentrações e intervalo; o corte de 20% não é regra única, e deltas absolutos podem ser preferíveis perto do percentil 99. Infarto requer injúria aguda com evidência de isquemia clínica, eletrocardiográfica, por imagem ou trombo quando pertinente. A presença de anemia ou sepse não demonstra automaticamente tipo 2 nem exclui placa rota. Valores estáveis podem sugerir injúria crônica, mas também refletir coleta tardia ou intervalo inadequado; integrar os dados.

O terceiro grupo de mecanismos é o que o hospital cria com as próprias mãos. Toda punção acima da clavícula ou na parede torácica pode perfurar a pleura: a punção de veia subclávia ou jugular interna, o bloqueio, a toracocentese, a biópsia. O ar entra no espaço pleural, o pulmão colaba, e se houver mecanismo valvular o mediastino se desloca e o retorno venoso é interrompido — momento em que o problema deixa de ser respiratório e passa a ser circulatório. A endoscopia digestiva alta e a passagem de sonda podem lesar o esôfago; rompida a parede, o conteúdo digestivo vaza para dentro do mediastino, e o que se instala ali é uma inflamação química que depois infecta — com ar palpável sob a pele do pescoço e ar desenhando as estruturas do mediastino na radiografia. A esternotomia expõe o osso e o espaço retroesternal, e a irrigação esternal fica comprometida quando se usam as artérias torácicas internas na revascularização — o que faz do mediastino um sítio de infecção profunda de ferida operatória. O dreno de tórax dói porque atravessa músculo e pleura parietal, ambos ricamente inervados. E o cateter central pode doer por três razões distintas: mau posicionamento com a ponta encostando em parede vascular ou átrio, trombose da veia cateterizada, e infecção de corrente sanguínea associada ao dispositivo.

O quarto mecanismo é o pericárdio, e ele entra pela porta da inflamação. O pericárdio parietal recebe inervação do nervo frênico, e por isso a dor referida vai à borda do trapézio e muda com a posição do corpo, melhorando com a flexão anterior do tórax. Dentro do hospital ele inflama por três caminhos com relógios distintos, descritos pela diretriz nacional de miocardites e pericardites: a pericardite epistenocárdica, dos três primeiros dias após um infarto, por acometimento do epicárdio e do pericárdio adjacente; a síndrome de Dressler, de três semanas a seis meses depois, por atividade autoimune; e a pericardite bacteriana, que tem entre suas origens a cirurgia cardíaca ou torácica, além de pneumonia e empiema. Some a essas a pericardite urêmica e a associada à diálise, e você tem o mapa das pericardites que aparecem em quem já está internado.

O quinto mecanismo é o mais frequente e o mais desprezado: a parede e o esôfago. Dias de decúbito em colchão ruim, tosse repetida, a posição para a punção, a fisioterapia respiratória e o próprio esforço de sentar produzem dor musculoesquelética real, reprodutível à palpação, que muda com o movimento do tronco. E o refluxo e a dispepsia ganham um empurrão inteiro dentro do hospital: decúbito prolongado, jejum e realimentação irregulares, corticoide, anti-inflamatório, antibiótico de mucosa agressiva, potássio por via oral e a sonda enteral. Nenhuma dessas duas coisas é diagnóstico de exclusão barato. São diagnósticos com achados próprios — dor reprodutível à palpação numa; queimação retroesternal ligada à posição e à alimentação na outra — e a única forma honesta de chegar a eles é encontrar o achado, não deixar de encontrar outra coisa.

Junte os cinco e você tem a régua que este capítulo pede. Não decore a lista de causas de dor torácica: pergunte o que a internação deste paciente fabricou. Quantos dias deitado, com qual profilaxia, e recebida quando. Que procedimento foi feito nas últimas horas, e onde entrou a agulha. Que droga entrou ontem e não existia antes. Quanto caiu a hemoglobina desde a admissão. Se houve infarto ou cirurgia cardíaca recente. Cada uma dessas respostas move a probabilidade de uma hipótese específica, e é essa movimentação, e não a descrição da dor, que decide qual exame você pede primeiro às três da manhã.

Paciente no leito cercado por cinco detalhes anatômicos: trombo em artéria pulmonar, área subendocárdica pálida, ar pleural, pericárdio inflamado e musculatura intercostal destacada.
Possibilidades de dor torácica durante a internação: tromboembolismo pulmonar, isquemia miocárdica, pneumotórax, pericardite e dor da parede torácica. As imagens representam hipóteses independentes. Isquemia por desequilíbrio entre oferta e demanda pode ocorrer com ou sem obstrução coronariana; esses mecanismos também ocorrem fora do hospital.
05

Como se apresenta de verdade

Dor torácica na enfermaria tem um problema de apresentação antes de ter um problema de diagnóstico. Ela raramente chega como queixa isolada: chega junto de uma internação que já tem explicação para quase tudo. O paciente operado tem uma incisão que dói; o pneumopata tem tosse que dói; quem está deitado há uma semana tem coluna que dói; quem toma anti-inflamatório e corticoide tem estômago que queima. Cada uma dessas explicações é verdadeira em algum paciente e falsa neste, e nenhuma delas se anuncia.

Some a isso um segundo problema, que é de quem conta. Boa parte dos internados por quem você responde de madrugada não descreve dor com as palavras do livro: são idosos, diabéticos, sedados, confusos, com afasia, entubados ou simplesmente exaustos. Quem descreve a queixa, muitas vezes, é a técnica de enfermagem — e a frase que chega ao telefone tem cinco palavras.

As seis formas abaixo cobrem quase tudo que aparece. Repare que a primeira delas é justamente a que não dói.

Percurso de aprendizagem

Comece pela gravidade e obtenha ECG em até 10 minutos quando houver suspeita de SCA. Recupere prescrição, checagens e traçado antigo em paralelo.

Distingua informação confirmada de suspeita: dose não checada, troponina elevada e ECG sem supra não encerram diagnóstico. Separe injúria, infarto e mecanismo.

No pós-operatório, discuta simultaneamente risco hemorrágico e trombótico. Planeje apoio, imagem, tratamento e reavaliação sem impor esperas editoriais.

A dor que não existe: o infarto do pós-operatório

A forma mais importante de dor torácica no paciente internado é a que não se manifesta como dor. No estudo VISION, que dosou troponina em todos os operados acima de 45 anos internados por pelo menos um dia, 93% dos que tiveram injúria miocárdica após cirurgia não cardíaca não relataram sintoma nenhum. No BASEL-PMI, que monitorou os acima de 65 anos e os acima de 45 com doença aterosclerótica conhecida, apenas 18% eram sintomáticos. Os dois números aparecem lado a lado na diretriz de avaliação cardiovascular perioperatória de 2024, e é dela também a explicação de por que isso acontece: boa parte dos eventos ocorre ainda no intraoperatório, e o que sobra é abafado pela analgesia potente do pós-operatório.

A diretriz acrescenta um segundo motivo, e este é sobre você e não sobre o paciente: quando a dor existe, ela costuma ser atribuída a causas mais óbvias — a incisão, a posição em que o paciente ficou na mesa. Dispneia e náusea, que seriam as pistas seguintes, têm explicação alternativa pronta no mesmo período: atelectasia e efeito de medicamento. O resultado é que a hipótese de infarto perioperatório é sistematicamente subvalorizada pela equipe, e não por ignorância — por competição com explicações plausíveis.

O eletrocardiograma não resolve o problema sozinho. Só 25% dos pacientes com infarto perioperatório apresentam alteração isquêmica no traçado, o que significa que três em cada quatro têm eletrocardiograma que não fecha o diagnóstico. É por isso que a diretriz trata a dosagem seriada de troponina como peça central nesse cenário específico, e não como exame de rotina para todo mundo.

Então o que você vê, se não vê dor? Vê o que sobra quando o miocárdio perde músculo em silêncio: hipotensão que não se explica pelo balanço hídrico, taquicardia que não cede a volume nem a antitérmico, dessaturação nova, oligúria, náusea sem vômito, uma confusão que apareceu do nada num idoso, e a frase mais inespecífica e mais subestimada da enfermaria, que é o paciente dizer que não está se sentindo bem. Nenhuma dessas coisas é diagnóstico. Todas são motivo para olhar o coração num pós-operatório de risco.

A dor que aparece quando o paciente levanta

A dor da embolia pulmonar tem assinatura reconhecível quando é periférica: começa de repente, é apontada com um ou dois dedos, fica de um lado só e piora quando o paciente puxa o ar. Vem quase sempre com taquicardia e com dispneia desproporcional ao que o exame do tórax mostra. Na enfermaria ela ganha, além disso, um gatilho de horário: aparece quando o paciente que passou dias deitado se levanta para ir ao banheiro, senta na poltrona ou é mobilizado pela fisioterapia. A relação temporal não demonstra que mobilizar causou a embolização; mobilização indicada não deve ser evitada por esse receio.

A armadilha está do outro lado do espectro. Quanto mais central e mais grave a embolia, menos ela dói, porque deixa de ser um problema de pleura irritada e passa a ser um problema de bomba. Esse paciente não aponta o peito: fica pálido, hipotenso, sonolento, taquicárdico e sudorético, e pode ter perdido a consciência antes de você chegar. A diretriz conjunta sobre tromboembolismo venoso registra síncope em torno de 17% dos casos de embolia pulmonar e ressalta que ela se associa a alta prevalência de instabilidade hemodinâmica e de falência do ventrículo direito. Quem desmaiou no caminho do banheiro e voltou taquicárdico não teve uma lipotimia de quem levantou rápido até que se prove o contrário.

Existe ainda a forma que não dói nem derruba: o paciente que apenas fica mais taquipneico, com saturação um pouco pior, e que a equipe da manhã encontra com o cateter de oxigênio subido de 1 para 3 litros sem que ninguém tenha registrado por quê. O aumento silencioso da oferta de oxigênio ao longo de um plantão é sinal clínico, e ele está escrito na folha de enfermagem.

A dor que muda com a posição — e com o dia da internação

A dor pericárdica é a que melhor se deixa reconhecer pela história, porque traz três marcas juntas: muda com a respiração, muda com a posição do corpo — melhora quando o paciente inclina o tronco para a frente — e pode ser referida à borda do trapézio, por conta da inervação frênica. Some a isso o atrito pericárdico, que é fugaz: some entre uma ausculta e outra, e por isso vale voltar a auscultar mais tarde antes de registrar que não há atrito.

O que muda dentro do hospital não é a dor: é o calendário. A diretriz nacional de miocardites e pericardites descreve a pericardite peri-infarto, também chamada epistenocárdica, aparecendo no segundo ou terceiro dia depois de um infarto transmural, com curso benigno e sem piorar o prognóstico; e a síndrome de Dressler, de origem autoimune, aparecendo de três semanas a seis meses depois. São dois relógios diferentes para a mesma queixa, e a data do infarto está no prontuário que você tem na mão.

A cirurgia cardíaca acrescenta o relógio dela: a mesma diretriz relata pericardite pós-operatória em torno de 20% das cirurgias de revascularização do miocárdio, com aparecimento de dias a meses. E a doença renal acrescenta dois: a pericardite urêmica ocorre em torno de 10% dos pacientes, antecedendo a diálise ou logo depois do início dela, e a pericardite associada à diálise em torno de 15% dos que fazem hemodiálise, ligada sobretudo a hipervolemia e a diálise inadequada. Derrame pericárdico aparece em 20% dos pacientes com insuficiência renal.

E aqui vem o detalhe que mais engana na enfermaria de nefrologia: a mesma diretriz registra que o paciente com doença renal terminal costuma ter menos dor torácica, e que o eletrocardiograma dele frequentemente não mostra as alterações típicas da pericardite aguda, por ausência de inflamação miocárdica. Quer dizer: no paciente em que a pericardite é mais provável, as duas pistas clássicas são as mais fracas.

Vale saber de cor quais achados transformam pericardite em internação e investigação etiológica, porque eles mudam o destino do paciente naquela noite: elevação de enzimas de necrose miocárdica, febre acima de 38 graus com leucocitose — que levanta pericardite purulenta —, derrame volumoso com ou sem tamponamento, imunocomprometimento, uso prévio de anticoagulante oral, e disfunção global ao ecocardiograma sugerindo miopericardite.

A dor que tem endereço no corpo

Há um grupo de dores que o hospital produz com as próprias mãos, e todas têm em comum o fato de terem um lugar exato: a ferida operatória, o trajeto do dreno, o sítio da punção, o ponto onde a costela encosta no colchão. O erro aqui nunca é deixar de encontrá-las — é encontrá-las e parar de pensar.

O exemplo que justifica essa desconfiança é a mediastinite depois de esternotomia. Numa série brasileira de 1038 cirurgias cardiovasculares consecutivas, do Pronto Socorro Cardiológico de Pernambuco, ocorreram 25 casos, e a queixa inicial mais frequente foi dor retroesternal, em 92% deles. O quadro apareceu entre 5 e 35 dias após a cirurgia, com média de 13,1 dias — ou seja, num momento em que a dor esternal do operado já é considerada normal por todo mundo, inclusive por ele. Três pacientes daquela série abriram o quadro depois de 30 dias. A letalidade foi de 32%.

O que separa a dor esperada da mediastinite é o exame, não o relato: instabilidade do esterno à palpação ou à tosse, secreção pela ferida, hiperemia e calor nas bordas, deiscência, febre e leucocitose novas. Na mesma série, deiscência de esterno acompanhou quase metade dos casos. Os fatores que concentram o risco também estavam lá: 80% dos acometidos eram hipertensos, 56% diabéticos, 56% tabagistas, e a revascularização respondeu por 84% dos casos.

O dreno de tórax dói porque atravessa músculo e pleura parietal, e essa dor tem trajeto e piora com o movimento do tronco e com a tosse. O que não é esperado é dor que aumenta com o passar dos dias, dor acompanhada de febre nova, enfisema subcutâneo crescente ao redor do sítio, ou dor que apareceu logo depois de alguém mexer no dreno. A dor da parede torácica, por sua vez, é reprodutível: você aperta e o paciente reconhece a dor que estava sentindo. Reprodutível não quer dizer isolada — um paciente pode ter costocondrite e embolia no mesmo dia, e o segundo diagnóstico não perde a vaga para o primeiro.

O cateter venoso central dói de três maneiras diferentes, e vale distingui-las porque a conduta muda: por má posição, quando a ponta encosta em parede vascular ou em átrio e a dor acompanha a infusão; por trombose da veia cateterizada, quando aparecem edema e circulação colateral do lado do cateter; e por infecção de corrente sanguínea associada ao dispositivo, quando entram febre e calafrio, muitas vezes durante a infusão.

A dor que veio pelo tubo: esôfago, sonda e endoscopia

A internação empurra o esôfago de todos os lados ao mesmo tempo. O paciente passa o dia deitado, come em horários irregulares ou fica em jejum e depois recebe volume de uma vez, toma corticoide, anti-inflamatório, antibiótico de mucosa agressiva e potássio por via oral, e ainda pode ter uma sonda enteral atravessando o esfíncter. O resultado é uma dor retroesternal em queimação, que piora deitado e depois de comer, e que responde ao antiácido — e que é verdadeira na maior parte das vezes.

O problema não é a dispepsia existir; é ela ser usada como saída. O paciente tem dor torácica, alguém prescreve um antiácido, a dor melhora um pouco e o episódio nunca mais é revisto. Alívio com sintomático não é teste diagnóstico: a dor isquêmica também melhora quando o paciente descansa, e a dor pleurítica também melhora quando ele para de respirar fundo.

Do outro lado da mesma via está a lesão de parede. A perfuração esofágica é evento incomum e de quadro clínico inespecífico, e por isso costuma ser diagnosticada tarde — é assim que a descreve a série do Hospital das Clínicas de Botucatu, com 24 pacientes atendidos em oito anos. Entre as causas que não eram câncer, três perfurações vieram de procedimento endoscópico, três de cirurgia antirrefluxo, uma de balão de Blackmore e uma de pós-operatório de diverticulectomia — todas situações que existem dentro do hospital, e nenhuma delas rara na vida de um interno.

O que faz suspeitar: dor retroesternal intensa e contínua que começou logo depois de uma endoscopia, de uma dilatação, da passagem de uma sonda ou de vômitos repetidos; enfisema subcutâneo no pescoço ou na parede torácica; febre precoce; derrame pleural novo. Na lesão do esôfago cervical o quadro é mais localizado, com dor e abaulamento no pescoço, e a evolução costuma ser favorável; a lesão do esôfago torácico é a que se comporta mal.

Quem não conta que está com dor

Toda a descrição acima pressupõe um paciente que relata. A enfermaria trabalha o tempo todo com quem não relata, e é bom nomear esses grupos, porque neles a apresentação inteira muda de forma.

O idoso com delirium não diz que dói: fica agitado à noite e arranca o acesso, ou fica quieto demais, que é a forma hipoativa e a mais perdida. O diabético de longa data tem neuropatia autonômica e chega com dispneia, náusea ou mal-estar no lugar da dor. O renal crônico em diálise, como já dito, dói menos e tem eletrocardiograma menos expressivo. O paciente com afasia depois de um acidente vascular cerebral pode estar apontando o peito sem que ninguém interprete o gesto. O sedado e o entubado não têm queixa nenhuma: neles a dor aparece como taquicardia, hipertensão, agitação ou assincronia com o ventilador.

E há o paciente com analgesia contínua, que é o caso do pós-operatório recente. Uma bomba de morfina bem ajustada apaga a dor incisional e apaga também a dor isquêmica, sem avisar qual das duas apagou. Nesses pacientes o sinal vital vale mais que a queixa, e é por isso que a diretriz perioperatória recomenda vigilância ativa com troponina e eletrocardiograma no primeiro e no segundo dia de pós-operatório para quem tem risco intermediário ou alto — vigilância, e não resposta a sintoma.

A consequência prática é uma só, e ela organiza o bloco seguinte: no paciente internado, quem abre a investigação de dor torácica frequentemente não é a dor.

06

Como fechar o diagnóstico

Este é o bloco que decide o capítulo, e a diferença dele para o do pronto-socorro não está na lista de exames: está na ordem e na origem da informação. Na porta, a investigação começa do zero e o primeiro dado vem de um aparelho. Na enfermaria, os três dados mais valiosos já existem antes de você pedir qualquer coisa — a prescrição, a folha de enfermagem e o eletrocardiograma da admissão — e todos os três estão a menos de trinta passos do leito.

A sequência que este capítulo defende tem cinco degraus e uma regra. Os degraus: ler a prescrição e a folha; examinar dirigido pelo que a internação fabricou; fazer o eletrocardiograma e compará-lo com o antigo; pedir só os exames que respondem a uma pergunta que você já formulou; e reavaliar. A regra é que nenhum exame entra sem pergunta. No paciente internado, exame pedido por reflexo não é neutro — ele produz achado, e achado sem pergunta produz conduta.

Os dez segundos que valem mais que o primeiro exame

A primeira avaliação é do paciente, com ECG precoce quando houver suspeita de SCA. Em paralelo, obter prescrição, checagem e histórico: o que foi prescrito pode diferir do que foi recebido, e essa diferença precisa ser esclarecida.

Verificar indicação, prescrição e administração da profilaxia. Ausência de checagem pode representar omissão ou falha de registro: perguntar à enfermagem e conferir os demais registros. Até esclarecer, documentar administração não confirmada, sem afirmar como fato que a dose não foi dada. Se a omissão for confirmada, registrar e corrigir o processo; a profilaxia reduz risco, mas sua presença ou ausência não confirma nem exclui TEP.

Repare no que essa pergunta faz com a lista de hipóteses. Se a profilaxia vinha sendo feita, a embolia continua na lista, mas mais abaixo — profilaxia reduz risco, não o elimina. Se não vinha, ela sobe para o topo antes de qualquer exame. E a resposta muda também o que você vai escrever no prontuário depois, porque falha de administração é evento de segurança do paciente e precisa ser registrada como fato, sem procurar culpado.

Duas tabelas fictícias comparam medicamentos prescritos e registros de administração; uma linha sem checagem é destacada para esclarecimento com a equipe.
Confrontar prescrição, registros de administração e informações da equipe ajuda a reconhecer atrasos, suspensões, omissões e falhas documentais. Ausência de checagem não comprova, isoladamente, ausência de administração. Os itens e horários são fictícios.

Na mesma leitura, outras seis perguntas se respondem sem sair do posto de enfermagem. Há quantos dias este paciente está deitado, e quando ele saiu do leito pela última vez? Que procedimento foi feito nas últimas 24 horas, e onde entrou a agulha — punção venosa central, toracocentese, biópsia, endoscopia, passagem de sonda? Que droga entrou na prescrição nas últimas 48 horas e não existia antes? Quanto caiu a hemoglobina desde a admissão, e por quê? Houve infarto ou cirurgia cardíaca recente, e em que data exatamente? Qual foi a diurese e o balanço das últimas 24 horas?

As respostas movem hipóteses específicas, uma a uma. Sete dias de decúbito e profilaxia falha movem embolia. Punção subclávia há três horas move pneumotórax. Corticoide novo, anti-inflamatório novo e potássio por via oral movem esôfago e estômago. Hemoglobina que caiu de 11 para 7 move infarto de tipo 2, porque anemia é queda de oferta. Esternotomia há duas semanas move mediastinite. Infarto anteontem move pericardite peri-infarto. Endoscopia hoje à tarde move perfuração. Nenhuma dessas conclusões precisou de exame complementar para ser formulada — e é a formulação que decide qual exame você vai pedir.

Uma dessas perguntas só a técnica de enfermagem responde: o que mudou desde o começo do plantão. Ela sabe se o paciente levantou, comeu, vomitou ou reclamou de algo antes. O bloco da conversa traz as palavras; o que importa aqui é que isso é dado clínico, e vem de graça.

O eletrocardiograma comparado com o da admissão

O eletrocardiograma é o exame mais barato, mais rápido e mais disponível dessa noite, e no paciente internado ele tem uma vantagem que não existe na porta: quase sempre há um traçado anterior, feito na admissão ou no pré-operatório, guardado no prontuário. É justamente essa vantagem que mais se desperdiça. Fazer o traçado novo e não procurar o antigo transforma o melhor exame comparativo que você tem num exame isolado.

A comparação responde a duas perguntas que o traçado sozinho não responde. A primeira: isto é novo? Bloqueio de ramo, alteração de repolarização, onda Q, sobrecarga — muita coisa que parece isquemia aguda já estava lá na admissão, e quem não compara interna o paciente numa rota errada. A segunda, mais importante: mudou desde ontem? Uma inversão de onda T que não existia no traçado do pré-operatório vale muito mais do que a mesma inversão vista pela primeira vez.

Na suspeita de oclusão, avaliar elevação nova de ST no ponto J em pelo menos duas derivações contíguas: em geral ≥1 mm, exceto V2–V3, onde os limiares são ≥1,5 mm em mulheres, ≥2 mm em homens de 40 anos ou mais e ≥2,5 mm em homens menores de 40 anos. Esses cortes não se estendem a V1. Depressão nova horizontal/descendente de ST também pode indicar isquemia, especialmente em derivações contíguas. Integrar padrão, sintomas, reciprocidade e traçados seriados; não excluir oclusão porque o traçado não preenche um único critério numérico.

BRE novo ou presumivelmente novo, isoladamente, não é equivalente automático de infarto com supra. Com dor persistente, choque ou alta suspeita, procurar critérios de Sgarbossa/modificados e discutir reperfusão urgentemente; um BRE antigo não protege contra oclusão aguda. Depressão difusa de ST com elevação em aVR pode refletir isquemia extensa ou desequilíbrio global e exige avaliação urgente, sem identificar sozinha uma artéria específica. Não exigir alteração concomitante da onda T para reconhecer toda lesão isquêmica.

Duas advertências específicas do paciente internado. A primeira: a diretriz perioperatória lembra que alteração isquêmica precisa ser diferenciada de distúrbio eletrolítico, hipotermia, efeito de droga e posicionamento incorreto das derivações — e a enfermaria tem as quatro coisas ao mesmo tempo, com potássio alterado, paciente frio de madrugada, prescrição de doze itens e eletrodo colocado às pressas em quem não consegue virar na cama. Antes de acreditar num traçado estranho, confira onde estão os eletrodos e repita. A segunda: no infarto perioperatório, só um quarto dos pacientes tem alteração isquêmica no traçado. Eletrocardiograma normal no pós-operatório de risco não fecha nada.

Troponina: peça com uma pergunta, não por reflexo

Troponina acima do percentil 99 indica injúria miocárdica, não necessariamente necrose por placa rota. Sepse, TEP, taquiarritmia, insuficiência cardíaca, doença renal e outras condições podem elevar o marcador. Ascensão/queda, magnitude, sintomas, ECG e imagem ajudam a distinguir injúria aguda, crônica e infarto.

A diretriz perioperatória reúne populações em que elevação basal de troponina foi frequente, chegando a cerca de metade em determinados grupos. Isso não significa que metade de qualquer enfermaria tenha valor basal alterado nem que toda elevação pré-operatória seja crônica. Procurar resultados prévios e contexto; uma coleta isolada não comprova estabilidade.

O valor absoluto acima do percentil 99 já informa que existe injúria; a curva ajuda a definir se é aguda. Interpretar valores e deltas pelo ensaio e pelo algoritmo validado do serviço, com horário dos sintomas e das coletas. Sem valor prévio, repetir conforme protocolo, sem adiar tratamento quando a clínica/ECG já indicar urgência.

A segunda regra é sobre a quem pedir. A diretriz brasileira de dor torácica de 2025 é explícita ao alertar que a solicitação indiscriminada em paciente de baixa suspeita derruba o valor preditivo positivo abaixo de 50% — ou seja, mais da metade dos resultados alterados vai apontar para o lado errado. Num pronto-socorro, isso gera observação desnecessária. Numa enfermaria, gera uma cascata mais cara: o paciente internado por pneumonia vira paciente com síndrome coronariana, ganha dupla antiagregação, perde a vaga da alta, e o sangramento que vier depois será da conduta, não da doença.

A utilidade de repetir troponina depende da pergunta clínica. Após diagnóstico estabelecido e evolução estável, dosagens seriadas sem finalidade podem ser dispensáveis. Nova dor, suspeita de reinfarto, complicação ou evolução indeterminada exigem reavaliação; a passagem de 48 horas não proíbe novo exame.

Interpretar valores com o ensaio, intervalo, tendência e contexto. Um aumento/queda demonstra lesão aguda quando apropriado, mas infarto exige evidência de isquemia. Percentual fixo de 20% não se aplica indistintamente a todo ensaio e faixa de concentração. Acompanhamento adicional é decidido pela necessidade clínica.

Quando a hipótese é embolia: por que o escore vale menos aqui

Distinguir Wells para TVP de Wells para TEP: são regras diferentes, aplicadas a perguntas distintas. Estudos de acurácia do escore de TVP em internados não devem ser transferidos diretamente ao diagnóstico de TEP. Estimar a probabilidade de embolia pelo algoritmo apropriado e julgamento clínico, reconhecendo que hospitalização reduz a utilidade do D-dímero por sua baixa especificidade.

O motivo é fácil de ver quando você olha os itens do escore com olhos de enfermaria. Acamado por mais de três dias ou cirurgia maior nas últimas quatro semanas: quase todo internado pontua. Imobilização de membro inferior: pontua. Câncer ativo ou tratado nos últimos seis meses: boa parte da enfermaria oncológica pontua. Um escore em que quase todos marcam os mesmos itens perde a capacidade de separar quem tem de quem não tem. Isso não significa abandoná-lo — significa que, no internado, ele não pode ser a única coisa que decide, e que uma pontuação baixa não tranquiliza tanto quanto tranquilizaria num ambulatório.

O D-dímero sofre do mesmo problema, agravado. Segundo a mesma diretriz, o ensaio quantitativo tem sensibilidade próxima de 95% e especificidade de 40%, e essa especificidade cai para algo em torno de 10% no idoso. Ele sobe em infarto, acidente vascular encefálico, inflamação, câncer ativo e gravidez — e uma enfermaria é uma coleção de pessoas com inflamação, câncer ativo ou pós-operatório recente. Existe o corte ajustado pela idade para quem tem mais de 50 anos, obtido multiplicando a idade em anos por 10 microgramas por litro, que uma revisão sistemática apontou como tão seguro quanto o corte fixo; ainda assim, no internado o resultado positivo é quase esperado.

D-dímero serve sobretudo para excluir TEP em probabilidade baixa/intermediária ou TEP improvável, conforme algoritmo e ensaio. Em alta probabilidade, seguir para imagem sem usá-lo como filtro. Ultrassom de membros inferiores é útil quando indicado, especialmente com sinais de TVP ou impossibilidade de angiotomografia, mas não é etapa obrigatória de toda investigação de TEP.

O que sobra de útil à beira do leito, às três da manhã, é o ultrassom de compressão. A diretriz descreve quatro protocolos, e dois deles cabem no plantão: o estendido, de três pontos, que avalia a compressibilidade da veia femoral comum até a poplítea; e o de dois pontos, que avalia a femoral comum na virilha e a poplítea. A perda de compressibilidade da veia é o indicador mais confiável de trombo. Os números comparativos importam para você saber o que está comprando: numa comparação direta, o protocolo de três pontos teve sensibilidade de 90,57% contra 82,76% do de dois pontos, com a mesma especificidade de 98,52%; numa metanálise de 17 estudos, os dois protocolos ficaram equivalentes, com taxas de falso-negativo de 4,0% e 4,1%. E há a ressalva que decide o assunto na prática: a acurácia depende de treinamento formal, e o exame completo, feito por quem faz ultrassonografia vascular, continua sendo a recomendação de maior classe.

Quem confirma ou afasta a embolia é a angiotomografia das artérias pulmonares, e no internado ela chega com duas contas que não existem na porta: a creatinina de hoje, quase sempre pior do que a da admissão, e a logística de transportar até o tomógrafo um paciente com oxigênio, bomba de infusão e dreno, de madrugada, com um maqueiro. Nenhuma das duas é motivo para não fazer; as duas são motivo para decidir antes se o resultado vai mudar a conduta, e para começar a anticoagulação antes do exame quando a probabilidade for alta e não houver sangramento.

O ecocardiograma tem papel definido e limitado nessa pergunta: no paciente estável, o valor preditivo negativo fica entre 40 e 50%, e exame normal não exclui embolia. Ele é útil quando o paciente está instável e você precisa saber se o ventrículo direito está sofrendo, e é útil para as outras hipóteses do capítulo — derrame pericárdico, tamponamento, disfunção segmentar nova.

O que a beira do leito ainda decide

Há um exame físico dirigido para este capítulo, e ele não é o exame cardiovascular completo: é a inspeção de tudo que foi feito no paciente. Descubra o tórax inteiro, inclusive as costas, o que exige virar o paciente e é exatamente o passo que se pula às três da manhã.

Procure, nesta ordem: a ferida operatória, se houver — bordas, secreção, calor, e estabilidade do esterno quando o paciente tosse; os sítios de punção, incluindo o do acesso central e o de qualquer punção pleural recente; o trajeto e o funcionamento do dreno, se existir, com atenção a borbulhamento novo; a pele do pescoço e da região supraclavicular, procurando a crepitação fina do enfisema subcutâneo; a parede torácica, apertando as junções costocondrais e pedindo ao paciente que diga se é aquela a dor; as panturrilhas, comparando circunferência e procurando empastamento; e as jugulares, com o paciente a 45 graus.

A ausculta responde a perguntas específicas. Murmúrio abolido de um lado com hipertimpanismo, em quem acabou de ser puncionado, é pneumotórax por critério clínico e não pedido de exame. Atrito pericárdico é fugaz e pede segunda ausculta. Bulhas abafadas com turgência jugular e hipotensão sugerem tamponamento.

A radiografia de tórax no leito é o exame de imagem realmente disponível de madrugada, e ela responde bem a algumas perguntas e mal a outras. Responde bem: há derrame pleural novo? Há consolidação? O cateter central está na posição esperada? O dreno está onde deveria? Há ar no mediastino? Responde mal: pneumotórax pequeno e anterior escapa com frequência no filme feito em decúbito, e o mediastino aparece alargado por causa da técnica, sem que haja doença de aorta. Leia o filme sabendo dessas duas limitações, e peça sempre com a pergunta escrita no pedido — o radiologista de plantão responde melhor a uma pergunta do que a um pedido de rotina.

O que não pedir, e o que existe às três da manhã

Três pedidos custam mais do que rendem neste cenário. Primeiro: creatinofosfoquinase fração MB onde já existe troponina quantitativa. O dano não está na conta do laboratório e sim na decisão: quando o valor da fração MB volta normal ao lado de uma troponina alterada, quem já tinha motivo para agir para e discute. Segundo: D-dímero em paciente internado com probabilidade alta de embolia, porque a imagem será feita de qualquer forma e o resultado só adia. Terceiro, e o mais comum: troponina disparada para todo mundo que reclamou do peito, sem hipótese formulada, num ambiente onde metade dos pacientes tem valor basal alterado.

Do lado do que existe, seja realista sobre o hospital em que você está. Eletrocardiograma existe em qualquer hospital que interne paciente, e o traçado antigo está no prontuário. Radiografia portátil existe na maioria. Quase todo laboratório hospitalar tem troponina quantitativa; nem todo tem o ensaio de alta sensibilidade, e o que essa diferença muda é o intervalo entre uma coleta e outra — o raciocínio continua o mesmo. Ultrassom à beira do leito depende de haver aparelho e de haver alguém treinado, o que raramente coincide de madrugada. Angiotomografia depende de tomógrafo e de técnico no plantão; se não houver, a decisão deixa de ser qual exame pedir e passa a ser se este paciente precisa de transferência, e isso se decide agora, não às sete da manhã.

Quando o exame que confirmaria a hipótese não está disponível, a conduta não fica em suspenso: ela passa a ser tomada pela probabilidade. Um paciente com sete dias de leito, profilaxia não administrada, dor pleurítica súbita, taquicardia e queda de saturação tem probabilidade alta de embolia sem tomógrafo nenhum, e a decisão sobre anticoagular é clínica. O exame que falta muda o que você escreve no prontuário — hipótese, e não diagnóstico —, não muda o que você faz pelo paciente.

07

O caminho, a janela e o que cada achado move

Avaliar dor torácica e equivalentes isquêmicos no internado com ECG precoce, hipóteses concorrentes e decisões supervisionadas.

  1. 11. Chegue ao leito e olhe o paciente antes de olhar o papel. Nível de consciência, cor, esforço respiratório, se está sentado ou deitado. Peça sinais vitais completos, com frequência respiratória contada e saturação com onda confiável.
  2. 22. Bifurque aqui. Paciente instável — hipotensão, rebaixamento, dispneia intensa, saturação que não sobe, arritmia — sai deste fluxo e entra na estabilização imediata, com monitorização, acesso, oxigênio e pedido de ajuda. O diagnóstico vem depois; a decisão de chamar retaguarda é agora.
  3. 33. Paciente estável: leia a prescrição do dia e a folha de checagem da enfermagem. Profilaxia de tromboembolismo prescrita? Checada? Que droga entrou nas últimas 48 horas? Que procedimento foi feito nas últimas 24? Há quantos dias ele está deitado?
  4. 44. Examine dirigido pelo que você acabou de ler: ferida operatória, sítios de punção, dreno, cateter, pescoço, parede torácica, panturrilhas, jugulares. Descubra o tórax inteiro e vire o paciente.
  5. 55. Obter e interpretar ECG em até 10 minutos da suspeita de SCA, em paralelo à história e ao exame; comparar com prévio sem atrasar reconhecimento de oclusão. Traçado normal ou antigo não exclui evento novo.
  6. 66. Formular hipóteses concorrentes e pedir exames dirigidos em paralelo às medidas urgentes. Informação de profilaxia acrescenta contexto, mas não precede obrigatoriamente ECG nem substitui avaliação de isquemia, aorta e causas pulmonares.
  7. 77. Na suspeita elevada de TEP, discutir anticoagulação antes da imagem quando o risco hemorrágico permitir. Instabilidade exige equipe e avaliação à beira do leito. Pneumotórax hipertensivo pede descompressão clínica imediata; tamponamento exige avaliação urgente e drenagem por equipe capacitada, geralmente guiada por imagem.
  8. 88. Reavalie com hora marcada e registre no prontuário o que encontrou, o que levantou, o que pediu, o que já excluiu e o que a equipe da manhã precisa fazer. Deixe escrito, com número, o gatilho de reavaliação para a enfermagem.

A janela de 48 horas do infarto perioperatório

Dor torácica nova exige avaliação clínica e ECG oportuno. Troponina deve responder à suspeita de lesão/isquemia e seguir o algoritmo do ensaio local; não esperar marcador para acionar reperfusão diante de quadro indicativo. Evitar repetições sem pergunta, mas reconhecer que nova dor, complicação ou tendência ainda incerta pode justificar nova dosagem mesmo após 48 horas.

Os três relógios da pericardite dentro do hospital

A mesma dor tem três datas de aparecimento, e a data está no prontuário. Peri-infarto, também chamada epistenocárdica: segundo ou terceiro dia depois de um infarto transmural, curso benigno. Pós-cirurgia cardíaca: de dias a meses, relatada em torno de 20% das revascularizações do miocárdio. Síndrome de Dressler: de três semanas a seis meses, de origem autoimune. Fora desses relógios ficam a urêmica e a associada à diálise, que seguem o calendário da doença renal e não o do hospital.

O que a internação fabricou, e o que isso move na lista

O que você encontra na prescrição, na folha ou no prontuárioHipótese que sobeO que confirma ou afastaOnde olhar primeiro
Profilaxia de tromboembolismo não checada na folha, em paciente deitado há diasEmbolia pulmonarUltrassom de compressão e angiotomografia; o escore de Wells separa mal aqui, e o D-dímero positivo era esperadoA folha de checagem, o horário de aprazamento e as panturrilhas
Cirurgia não cardíaca de risco intermediário ou alto nas últimas 48 horasInjúria ou infarto perioperatório, na maioria das vezes sem dorTroponina seriada lida contra o valor do pré-operatório, com eletrocardiograma nos mesmos momentosO resultado de troponina do pré-operatório, se existir
Hemoglobina que caiu, febre nova, taquicardia sustentada ou hipotensãoInfarto de tipo 2, por desequilíbrio entre oferta e consumoCorrigir o gatilho e reavaliar; troponina interpretada pelo delta, nunca pelo valor isoladoO hemograma de hoje comparado com o da admissão
Punção de subclávia ou jugular, toracocentese ou biópsia nas últimas horasPneumotórax, com ou sem componente hipertensivoAusculta e percussão comparadas entre os lados; radiografia, lembrando que o filme feito deitado esconde ar anteriorO sítio da punção e a ausculta dos dois hemitórax
Esternotomia entre 5 e 35 dias atrás, com dor retroesternal que não cedeMediastiniteEstabilidade do esterno à tosse, secreção e hiperemia da ferida, hemograma, cultura de exsudatoA ferida operatória, descoberta e apalpada
Infarto há dois ou três dias, cirurgia cardíaca recente, diálise ou uremiaPericarditeDor que muda com a posição, atrito à ausculta repetida, ecocardiograma para derrameA data do evento, escrita no prontuário
Endoscopia, dilatação, passagem de sonda ou vômitos repetidosPerfuração de esôfagoEnfisema subcutâneo, ar no mediastino na radiografia, estudo contrastadoO pescoço e a região supraclavicular, apalpados
Cateter central em uso, dor durante a infusão, edema do braço, febre com calafrioMá posição da ponta, trombose da veia cateterizada ou infecção associada ao dispositivoRadiografia para a posição da ponta, ultrassom da veia, hemoculturas colhidas em paresO trajeto do cateter e o membro do mesmo lado

Injúria, infarto de tipo 2 e infarto de tipo 1: o que muda na sua noite

O que éComo se reconhece no internadoO que fazer primeiro
Injúria miocárdica crônicaTroponina acima do percentil 99 sem variação relevante entre coletas. Padrão do renal crônico, do portador de insuficiência cardíaca e de boa parte de quem chega para operarRegistrar o valor como basal e não abrir rota de síndrome coronariana por causa dele
Injúria miocárdica agudaElevação/queda significativa da troponina, com ao menos um valor acima do percentil 99. A variação relevante depende de ensaio, intervalo, concentração basal e contexto; 20% não é regra universal. Sem evidência de isquemia, classificar como injúria aguda e investigar a causa.Procurar o gatilho: sepse, embolia, taquiarritmia, anemia, insuficiência cardíaca descompensada
Infarto de tipo 2Injúria aguda com elemento clínico de isquemia, num contexto claro de desequilíbrio entre oferta e consumo. É a etiologia mais frequente do infarto perioperatórioCorrigir desequilíbrio de oferta/consumo e investigar causa com a equipe: anemia/sangramento, hipóxia, sepse, hipotensão e arritmia. Taquicardia sinusal compensatória não exige bloqueio de frequência automático.
Infarto de tipo 1Injúria aguda com elemento clínico de isquemia por aterotrombose. Minoria dos infartos perioperatórios, mas é o que exige decisão antitrombóticaRota de síndrome coronariana, com a escolha do antiagregante discutida junto do cirurgião por causa do risco de sangramento

A distribuição etiológica citada na tabela vem da Figura 9 da diretriz de avaliação cardiovascular perioperatória de 2024, e ela merece uma ressalva de leitura. A figura divide a etiologia em seis caixas — causa não cardíaca, infarto de tipo 1, infarto de tipo 2, injúria miocárdica sem gatilho claro, insuficiência cardíaca aguda e taquiarritmias — mas imprime apenas cinco percentuais: 13%, 7%, 72%, 4% e 5%. Somados, dão 101%, e a caixa da injúria sem gatilho claro fica sem fatia nenhuma. O arredondamento de cada fatia explica boa parte do ponto excedente, mas não explica a caixa sem número. A conclusão que interessa não muda: o desequilíbrio entre oferta e consumo domina o infarto perioperatório, e a aterotrombose é minoria. O que muda é o quanto você pode citar a figura como se ela fechasse — não fecha.

Duas das séries brasileiras usadas neste capítulo trazem tabelas que não fecham, e conferir isso é bom treino de leitura. Na série de mediastinite, a tabela de agentes etiológicos atribui 28,8% ao Staphylococcus aureus com 7 casos em 25 — mas 7 sobre 25 é 28,0%, a coluna somada dá 100,8% contra os 100,0% impressos no total, e o próprio texto do artigo escreve 28%, o que aponta erro de digitação e não de contagem. Na série de perfurações esofágicas, a tabela de etiologia atribui 8,3% a uma linha de um único caso entre 24, quando 1 sobre 24 é 4,1%; com esse valor a coluna soma 103,9% contra os 100,00% impressos. Nos dois casos os números de que este capítulo se serve não dependem da linha defeituosa, e nos dois a conferência levou menos de um minuto: some a coluna e divida cada linha pelo total.

Quando o paciente se instabiliza antes de qualquer diagnóstico, a conduta é a mesma de sempre e não espera hipótese: cabeceira elevada, monitorização, acesso venoso, oxigênio guiado pela oximetria, eletrocardiograma de doze derivações e pedido de ajuda. Essa sequência está nas fichas de dor torácica do protocolo nacional de suporte avançado de vida, e ela é o piso do atendimento em qualquer lugar do hospital.

08

A conduta, hora a hora

Dor torácica nova no internado exige avaliação, ECG e tratamento em paralelo. O prontuário acrescenta contexto, mas não autoriza esperar vinte minutos para intervir nem trinta para colher troponina indicada. O objetivo é reconhecer rapidamente ameaças à vida e usar dados prévios para melhorar a decisão.

A linha do tempo abaixo assume o cenário mais comum e mais desconfortável: um interno sozinho, de madrugada, numa enfermaria sem monitor, com retaguarda por telefone. Onde o seu hospital for melhor que isso, a sequência só fica mais fácil. Onde for pior, o passo que não pode faltar é o de chamar ajuda cedo.

As doses são referências para discussão supervisionada. Confirmar rótulo, concentração, graduação da seringa, função renal e protocolo local; não presumir disponibilidade na gaveta da enfermaria nem adaptar a escolha clínica apenas para caber numa apresentação.

  1. Minuto 0 — no telefone, a caminho do leito

    A ligação da enfermagem tem cinco palavras, e dá para transformá-la em três dados antes de sair da sala de plantão. Peça sinais vitais completos, com frequência respiratória contada e saturação com onda confiável; peça que levem o aparelho de eletrocardiograma para o quarto; e pergunte se o paciente está sentado, deitado ou agitado, porque a posição que ele escolheu já diz alguma coisa. No caminho, abra o prontuário: motivo da internação, dia de internação, cirurgia ou procedimento recente.

    Prescrição
    • Nada é prescrito neste momento. O que se pede é medida e material: sinais vitais completos, oxímetro e aparelho de eletrocardiograma no leito.
    • Se a enfermagem descrever hipotensão, rebaixamento, sudorese fria ou dispneia intensa, peça que chamem a retaguarda enquanto você caminha — não depois de você chegar.
  2. Minuto 0 a 3 — o paciente antes do papel

    Chegando ao leito, olhe o paciente antes de qualquer folha. A pergunta é binária: ele está estável ou não? Instabilidade é hipotensão, rebaixamento do nível de consciência, dispneia intensa, saturação que não sobe com oxigênio, extremidades frias, pulsos finos, arritmia. Se ele estiver instável, o capítulo inteiro fica em suspenso e você faz a estabilização que não depende de diagnóstico — e chama ajuda antes de terminar de fazê-la.

    Prescrição
    • Posicionar conforme conforto respiratório, perfusão e proteção da via aérea; cabeceira elevada quando tolerada. Não impor 45° ao paciente hipotenso ou incapaz de proteger a via aérea.
    • Oxigênio se hipoxemia, com alvo individual. Na suspeita de SCA, não é rotina com SpO2 ≥90% e sem outra indicação; na DPOC com risco de insuficiência hipercápnica, alvo usual 88% a 92%. Desconforto com saturação adequada exige investigar e tratar a causa, não oxigênio automático.
    • Monitorização de sinais vitais e monitorização cardíaca; acesso venoso periférico (SAMU 192, mesma ficha)
    • ECG de 12 derivações obtido e interpretado em até 10 minutos do reconhecimento da queixa/suspeita de SCA; repetir se sintomas persistirem ou mudarem. Recuperar traçado prévio em paralelo, sem atrasar decisão urgente.
    • Chamar a retaguarda. Numa enfermaria sem monitor, o pedido de ajuda é parte da estabilização, não o passo seguinte a ela.
  3. Minuto 3 a 8 — as duas folhas

    Durante avaliação e ECG, pedir que tragam prescrição e checagens. Conferir profilaxia, doses realmente recebidas, medicamentos novos e procedimentos. Campo em branco é administração não confirmada: esclarecer com enfermagem e registros antes de afirmar omissão. Essas informações ajustam probabilidade, mas não substituem história, exame, ECG e suporte nem exigem abandonar o paciente sintomático.

    Prescrição
    • Investigar e tratar em paralelo conforme a hipótese e a gravidade. Não há etapa obrigatória sem medicamentos: SCA provável, pneumotórax hipertensivo ou choque exigem medidas precoces específicas.
    • Conferir antitrombóticos prescritos e efetivamente administrados, registrando o que foi confirmado. Campo de checagem vazio representa administração não confirmada: esclarecer com equipe e registros antes de afirmar omissão. Não duplicar dose nem iniciar anticoagulação terapêutica apenas pela lacuna documental.
  4. Nos primeiros 10 minutos — ECG e exame dirigido em paralelo

    Volte ao leito e examine dirigido pelo que leu: ferida operatória e estabilidade do esterno, sítios de punção, dreno, cateter e o membro do mesmo lado, pescoço e região supraclavicular à procura de enfisema subcutâneo, parede torácica apalpada junção por junção, panturrilhas, jugulares a 45 graus. Descubra o tórax inteiro e vire o paciente. Em paralelo, faça o eletrocardiograma e mande alguém buscar o traçado da admissão ou do pré-operatório. Comparar os dois é o exame mais barato da noite.

    Prescrição
    • Eletrocardiograma de doze derivações, com o traçado prévio recuperado e colocado ao lado. Se o traçado novo estiver estranho, confira a posição dos eletrodos e repita antes de acreditar (Diretriz da SBC sobre Análise e Emissão de Laudos Eletrocardiográficos, 2022) A busca do prévio ou conferência técnica não deve atrasar reperfusão quando houver indicação clínica/eletrocardiográfica.
    • Repita o traçado sempre que a dor voltar, sempre que o paciente piorar e sempre que um resultado novo mudar a hipótese
    • Se houver suspeita clínica de pneumotórax hipertensivo com instabilidade, acionar equipe capacitada para descompressão imediata sem esperar radiografia. Pneumotórax estável após punção exige confirmação e manejo conforme tamanho e repercussão; ausência de murmúrio isolada não manda descomprimir todos.
  5. Desde a avaliação inicial — analgesia e tratamento dirigido, sem etapas de espera

    Aliviar a dor com segurança e registrar resposta, sem retardar ECG, tratamento de SCA provável ou avaliação de outras ameaças. Analgesia não apaga a obrigação de reavaliar. A escolha de antitrombótico é precoce e baseada em hipóteses e contraindicações; um relógio editorial não define quando o paciente pode recebê-lo.

    Prescrição
    • Registre a dor por escrito antes de medicar: localização, caráter, fatores de piora, intensidade e hora. É esse registro que permite dizer, às cinco da manhã, se melhorou
    • Se o quadro for isquêmico e não houver contraindicação: dinitrato de isossorbida 5 mg por via sublingual, repetível a intervalos de 3 a 5 minutos até o máximo de 15 mg, com controle de pressão e frequência (SAMU 192, ficha de dor torácica não traumática)
    • Contraindicações ao nitrato: pressão sistólica abaixo de 90 mmHg, frequência abaixo de 50 ou acima de 100 batimentos por minuto, suspeita de infarto de ventrículo direito ou inferior com envolvimento do ventrículo direito, e uso recente de inibidor de fosfodiesterase-5 (SAMU 192, mesma ficha)
    • Morfina IV apenas em dor isquêmica intensa persistente apesar do tratamento apropriado, sob supervisão, por exemplo 2 mg lentamente e titulação cautelosa. Confirmar concentração e diluição do produto, pressão, ventilação e uso de outros sedativos; pode causar hipotensão, depressão respiratória e retardar absorção de P2Y12. Não é etapa obrigatória nem deve atrasar reperfusão.
    • Se SCA for provável e não houver contraindicação, discutir AAS precocemente com a equipe, tipicamente 160 a 325 mg por via oral mastigado, conforme protocolo. Suspeita de dissecção, sangramento e pós-operatório modificam a decisão; não impor espera de 30 minutos. Anticoagulante e segundo antiagregante dependem da estratégia e do risco hemorrágico.
  6. Desde a avaliação inicial — exames indicados em paralelo ao ECG e tratamento

    Agora sim, os exames — e cada um com a pergunta escrita no pedido. Troponina se houver suspeita de isquemia, sabendo que o que informa é o delta e que o valor prévio, se existir, é o denominador. Hemograma para ver quanto caiu a hemoglobina desde a admissão. Ureia, creatinina e eletrólitos, que decidem ajuste de dose mais tarde. Radiografia de tórax no leito com a pergunta escrita. Gasometria se houver hipoxemia que não se explica.

    Prescrição
    • Troponina agora, e a repetição programada com o intervalo que o seu kit permite. Anote no pedido a hora da coleta, porque a leitura é a curva e não o ponto
    • Hemograma, ureia, creatinina, sódio, potássio e glicemia, colhidos na mesma punção
    • Radiografia de tórax no leito, com a pergunta escrita no pedido — derrame novo? consolidação? posição da ponta do cateter? ar no mediastino?
    • Vigilância perioperatória com troponina/ECG conforme risco do paciente, risco da cirurgia e protocolo. Não extrapolar recomendação contra rastreamento de baixo risco para proibir investigação de sintoma novo, alteração hemodinâmica ou suspeita de isquemia.
  7. Assim que a hipótese vascular se sustentar — sem esperar uma hora

    Suspeita de TEP com probabilidade elevada exige imagem rápida e avaliação simultânea de risco hemorrágico. Se houver demora e risco de sangramento aceitável, a equipe pode iniciar anticoagulação terapêutica antes da confirmação. No pós-operatório ou na instabilidade, acionar retaguarda/cirurgião imediatamente para escolher agente, suporte e eventual reperfusão. Não há garantia de que o dano de anticoagular seja reversível ou gerenciável.

    Prescrição
    • Enoxaparina sódica 1 mg por quilo por via subcutânea a cada 12 horas, ou 1,5 mg por quilo a cada 24 horas; em quadro tromboembólico complicado a bula recomenda o esquema de 12 em 12 horas (bula profissional de enoxaparina sódica, Blau Farmacêutica)
    • Na concentração de 100 mg/mL, 74 mg correspondem a 0,74 mL. Usar seringa graduada/apresentação que permita medir com segurança, conforme farmácia; não orientar desprezo de 0,06 mL se a graduação não permitir. A dose e o intervalo são definidos clinicamente, não pelo número de seringas disponível.
    • Com clearance de creatinina <30 mL/min, a bula citada ajusta tratamento para 1 mg/kg SC a cada 24 horas; em 74 kg, 74 mg/dia. Isso é metade do total de 1 mg/kg a cada 12 horas, mas dois terços de 1,5 mg/kg/dia. Função renal muito reduzida, instabilidade, HIT, sangramento e procedimentos podem exigir outro agente/estratégia.
    • Ajuste renal da dose profilática, para quando ela for reintroduzida: 40 mg por dia passam a 20 mg por dia (mesma bula)
    • Angiotomografia de artérias pulmonares assim que houver tomógrafo e transporte seguro. Se não houver nenhum dos dois no seu hospital naquela hora, a pergunta passa a ser transferência
    • Se o paciente estiver instável, não o mande para o tomógrafo: estabilize, chame ajuda e peça ecocardiograma à beira do leito para ver o ventrículo direito
  8. Hora 3 até a visita da manhã — destino, registro e a prescrição do dia

    O episódio termina com três decisões e um texto. As decisões: onde este paciente passa o resto da noite (no mesmo leito, num leito monitorizado, ou fora deste hospital); com que frequência ele será reavaliado e por quem; e o que muda na prescrição do dia seguinte. O texto é a evolução, e ela é a única parte deste atendimento que vai sobreviver ao seu plantão.

    Prescrição
    • Escreva na evolução, com hora: o que o paciente relatou, o que você encontrou no exame, o que a folha de enfermagem mostrou, o traçado comparado com o prévio, os exames pedidos com a pergunta de cada um, a hipótese principal e as que já foram afastadas
    • Deixe gatilho de reavaliação escrito para a enfermagem, com número: chamar se a dor voltar, se a saturação cair abaixo do alvo, se a frequência cardíaca passar do valor que você definiu, se a pressão sistólica cair abaixo do valor que você definiu
    • Revise a profilaxia de tromboembolismo na prescrição do dia seguinte. Se ela falhou por problema de processo — aprazamento, jejum, dispensação —, corrija o processo e não apenas a linha da prescrição
    • Se o traçado mostrou oclusão coronária, este paciente saiu deste capítulo: ele entra na rota de síndrome coronariana, com a prescrição inteira que pertence ao capítulo correspondente
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Como saber se está funcionando

Reavaliar é a parte do atendimento noturno que mais se perde, e o motivo é logístico: você atendeu o leito 7 às três da manhã e às três e vinte foi chamado no leito 12. Sem hora marcada e sem gatilho escrito, a reavaliação não acontece — e o paciente que tem embolia pequena às três tem embolia grande às cinco.

A régua deste capítulo é simples: cada hipótese que você levantou tem um parâmetro que a acompanha e um prazo em que ela deveria dar sinal. Escreva o parâmetro, o prazo e o valor que dispara chamada, e entregue isso à enfermagem por escrito. Quem reavalia o paciente entre uma passagem sua e outra é a técnica que está no corredor, e ela reavalia bem quando sabe exatamente o que olhar.

A dor — presença e caráter, não só a nota de zero a dezA cada 30 a 60 minutos enquanto persistir, registrada com hora

Esperado: Que a dor diminua e, sobretudo, que não mude de caráter. Dor que muda de pleurítica para opressiva, ou que passa a irradiar, é hipótese nova

Se não melhora: Dor persistente, instabilidade, alteração elétrica ou deterioração exigem reavaliação e ajuda imediatas. Não esperar completar nitrato ou opioide para acionar cardiologia/time. Rever hipóteses, repetir ECG quando indicado e tratar a causa, monitorizando a resposta e os efeitos dos medicamentos.

Frequência cardíacaA cada 30 minutos na primeira hora, depois de hora em hora

Esperado: Queda progressiva à medida que a dor cede e o gatilho é corrigido. Taquicardia que acompanha dor e melhora com ela costuma ser resposta; taquicardia que fica é sinal

Se não melhora: Taquicardia persistente exige revisar dor, anemia, hipovolemia, infecção, TEP e arritmia. Não confirma embolia isoladamente; tratar a causa e repetir ECG conforme quadro, sem bloquear automaticamente uma taquicardia sinusal compensatória.

Saturação e, principalmente, quanto oxigênio é preciso para mantê-laContínua se houver oxímetro no leito; a cada 30 a 60 minutos se for medida pontual

Esperado: Saturação dentro do alvo definido para aquele paciente, com a mesma oferta de oxigênio de antes do episódio

Se não melhora: O número que importa não é a saturação: é a oferta necessária para alcançá-la. Paciente que precisou subir de 1 para 3 litros durante a noite piorou, mesmo com saturação igual. Registre a oferta junto do valor, sempre, e reinvestigue quem precisou subir

Pressão arterial e perfusão periféricaA cada 30 minutos na primeira hora, depois conforme a estabilidade

Esperado: Estabilidade, com extremidades quentes e enchimento capilar preservado

Se não melhora: Hipotensão nova em paciente com dor torácica na enfermaria tem três causas que precisam ser separadas rápido: embolia com sobrecarga de ventrículo direito, infarto extenso e tamponamento. Nas três a conduta imediata inclui chamar ajuda; nas duas últimas o ecocardiograma à beira do leito é o que decide

O eletrocardiogramaAo voltar a dor, a qualquer piora clínica, e sempre que um resultado novo mudar a hipótese. No pós-operatório de risco intermediário ou alto, também no primeiro e no segundo dia, por vigilância

Esperado: Traçado estável em relação ao anterior. A comparação é sempre com o traçado prévio, não com a descrição do laudo

Se não melhora: Alteração nova de ST ou de onda T em duas derivações concordantes muda o destino do paciente naquela hora. Antes de agir sobre um traçado esquisito, confira eletrodos, potássio e temperatura — mas confira rápido, e repita

A troponina — a variação entre coletas, nunca o valor isoladoNa avaliação inicial e na repetição que o kit do seu serviço permite; no pós-operatório de vigilância, no primeiro e no segundo dia

Esperado: Interpretar tendência da troponina com sintomas, ECG e tempos de coleta. Pode continuar subindo após correção do gatilho por cinética de liberação; isso não comprova sozinho tratamento ineficaz ou mudança de tipo de infarto.

Se não melhora: Troponina que continua subindo depois de corrigido o gatilho pede duas coisas: revisão do diagnóstico e conversa com a cardiologia. Troponina que sobe sem nenhum elemento clínico de isquemia é injúria, e injúria pede que se procure a causa — não que se comece antiagregação

A hemoglobina, quando o gatilho suspeito foi anemiaNa avaliação inicial e depois conforme o sangramento suspeito

Esperado: Estabilização, e melhora da taquicardia junto com ela

Se não melhora: Queda continuada aponta sangramento ativo, e isso muda por completo a conversa sobre anticoagular. Procure o sítio: dreno, ferida, trato digestivo, sítio de punção, retroperitônio

A ferida operatória, o sítio de punção e o drenoA cada reavaliação, com curativo aberto pelo menos uma vez no episódio

Esperado: Ferida sem secreção nova, esterno estável à tosse, sítio de punção sem enfisema, dreno sem borbulhamento novo

Se não melhora: Piora local em qualquer um desses pontos muda o time que precisa ser chamado. Esterno instável com secreção pede cirurgia cardíaca agora, e não na visita da manhã; enfisema subcutâneo que cresce ao redor de um sítio de punção pede radiografia imediata

A hipótese, revisada em voz altaDuas horas depois do primeiro atendimento, e na passagem de plantão

Esperado: Que ela tenha se confirmado, se afastado, ou que exista um exame pendente com hora marcada

Se não melhora: Se nada se confirmou e nada melhorou, o erro provável está na lista e não no exame. Volte à prescrição e à folha de enfermagem procurando o que passou batido: uma droga nova, um procedimento que ninguém mencionou, uma data de cirurgia que você leu errado

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Onde o erro machuca

Ler a profilaxia na prescrição e não conferir na folha de checagem

O dano: Prescrito e administrado são coisas diferentes, e a distância entre os dois tem causas banais: jejum para um procedimento, paciente fora do leito no horário do aprazamento, dispensação que não chegou, recusa. Quem lê só a prescrição conclui que o paciente estava protegido e rebaixa a embolia na lista — exatamente no paciente em que ela deveria subir. O dano tem duas partes: a hipótese certa desce de posição na madrugada em que ela era a certa, e a falha de administração continua acontecendo amanhã, porque ninguém a registrou

Como pegar a tempo: Conferir prescrição, checagem e relato da enfermagem. Registrar dose não confirmada quando houver apenas campo em branco; confirmar omissão antes de comunicá-la como fato. Se comprovada, corrigir processo e profilaxia conforme indicação atual, sem duplicar doses às cegas.

Fazer o eletrocardiograma novo e não procurar o da admissão

O dano: O paciente internado quase sempre tem traçado prévio, e é isso que torna o exame comparativo. Sem a comparação, o erro corre nos dois sentidos. Num deles, uma alteração antiga — bloqueio de ramo, onda Q de infarto velho, alteração de repolarização crônica — é lida como aguda, e o paciente entra numa rota de síndrome coronariana que não é dele, com antiagregação num pós-operatório recente. No outro, uma inversão de onda T discreta e nova passa por normal, porque isolada ela é mesmo inespecífica

Como pegar a tempo: Peça o traçado antigo no mesmo momento em que pede o novo, e coloque os dois lado a lado antes de interpretar. Na evolução, escreva a comparação, não só a descrição: registrar que a alteração já existia no traçado do dia tal poupa o próximo plantonista de repetir sua dúvida do zero A busca do prévio ou conferência técnica não deve atrasar reperfusão quando houver indicação clínica/eletrocardiográfica.

Pedir troponina por reflexo em quem reclamou do peito, sem pergunta formulada

O dano: Numa enfermaria, até metade dos pacientes cirúrgicos já tem troponina de alta sensibilidade acima do percentil 99 antes de qualquer incisão, e sepse, insuficiência renal, embolia, taquiarritmia e insuficiência cardíaca elevam o marcador por mecanismos que nada têm a ver com placa. Pedir sem suspeita derruba o valor preditivo positivo abaixo de 50%: mais da metade dos resultados alterados aponta para o lado errado. A cascata que se segue é cara — dupla antiagregação em quem operou, cateterismo em quem tinha injúria crônica, alta adiada, e um diagnóstico de infarto que acompanha o paciente por anos no relatório

Como pegar a tempo: Pedir troponina diante de suspeita de SCA, deterioração compatível ou indicação de vigilância perioperatória. Interpretar magnitude e curva com ECG e contexto. Baixo risco cirúrgico não impede investigar sintoma novo; biomarcador positivo não obriga antiagregação.

Esperar a dor para pensar no coração do paciente que acabou de operar

O dano: É a inversão mais cara deste capítulo. A esmagadora maioria dos que têm injúria miocárdica depois de cirurgia não cardíaca não sente nada, e a mortalidade em 30 dias de quem tem o evento é várias vezes a de quem não tem. Quem usa a dor como porta de entrada fica sabendo do evento pelo desfecho. Piora o quadro o fato de que só um quarto desses pacientes tem alteração isquêmica no eletrocardiograma.

Como pegar a tempo: Trate o pós-operatório de risco como um paciente sob vigilância, não sob observação passiva: troponina e eletrocardiograma no pré-operatório e nos dois primeiros dias, para quem tem risco intermediário ou alto. E leia os sinais que substituem a dor — hipotensão sem explicação, taquicardia que não cede, dessaturação nova, oligúria, confusão que apareceu do nada

Aceitar que é a dor da cirurgia, do dreno ou da costela sem descobrir o tórax

O dano: Toda dor com endereço tem uma explicação pronta e verdadeira em algum paciente. Na série brasileira de mediastinite, a queixa inicial mais frequente foi justamente dor retroesternal, em 92% dos casos, e o quadro apareceu em média 13 dias depois da cirurgia — quando a dor esternal já é considerada normal por todo mundo. A letalidade daquela série foi de 32%. O mesmo raciocínio vale para o enfisema subcutâneo que ninguém apalpou porque o curativo não foi aberto

Como pegar a tempo: Descubra o tórax inteiro, vire o paciente, abra o curativo pelo menos uma vez no episódio e peça que ele tussa enquanto você apoia as mãos no esterno. Instabilidade esternal, secreção, hiperemia, crepitação, febre nova e leucocitose transformam dor esperada em urgência cirúrgica. Escreva na evolução que a ferida foi examinada, com o que você viu

Fechar em dispepsia ou dor muscular porque o resto voltou normal

O dano: Esses dois diagnósticos são verdadeiros com muita frequência, e é exatamente por isso que servem de saída. Fechados por exclusão preguiçosa, produzem duas perdas: o episódio deixa de ser reavaliado, porque já tem nome; e o alívio parcial com antiácido ou analgésico vira, no prontuário, prova de que era isso — quando dor isquêmica melhora com repouso e dor pleurítica melhora quando o paciente para de respirar fundo

Como pegar a tempo: Chegue a eles pelo achado positivo, não pela ausência dos outros: dor reprodutível na palpação da junção costocondral, que o paciente reconhece como a mesma; ou queimação retroesternal ligada ao decúbito e à alimentação, num paciente com sonda, corticoide ou anti-inflamatório. E, mesmo assim, deixe gatilho de reavaliação escrito: achado positivo não impede que exista uma segunda doença na mesma noite

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O que dizer ao paciente e à família

As conversas deste capítulo acontecem quase todas de madrugada, com pessoas cansadas, e quase todas envolvem admitir que você ainda não sabe. Isso é diferente do pronto-socorro, onde ninguém espera que você saiba: aqui o paciente já está internado há dias, já foi examinado por várias pessoas, e a família presume que o hospital sabe o que ele tem.

Há uma conversa a mais, que não existe em outros capítulos: a que se tem quando você descobre que algo prescrito não foi feito. Ela é delicada por dois motivos — porque envolve o trabalho de outra pessoa e porque envolve dizer ao paciente que houve uma falha. Nenhum dos dois motivos autoriza esconder.

Ao paciente, no leito, antes de ter qualquer resultado

Seu Onofre, o senhor está com dor no peito e eu ainda não sei a causa. Vou fazer três coisas agora: um exame do coração que leva cinco minutos, um exame do senhor da cabeça aos pés e uma coleta de sangue. Enquanto isso o senhor fica com o oxigênio e eu não saio da enfermaria. Assim que eu tiver o primeiro resultado, eu volto aqui e conto o que encontrei — mesmo que seja para dizer que ainda não sei.

Não diga: Evite fica tranquilo que não é nada e evite deve ser da gastrite. Tranquilizar sem dado compra silêncio agora e credibilidade depois, e o paciente que ouviu não é nada demora mais para chamar quando piorar

Quando o paciente pergunta diretamente se é do coração

É uma das possibilidades, e é por isso que estou fazendo o exame do coração agora. Há outras: um coágulo no pulmão, uma inflamação em volta do coração, dor da parede do peito. Elas se separam com exame, não com conversa — e por isso vou pedir alguns. O que eu posso prometer é que nenhuma delas vai ficar sem ser considerada esta noite.

Não diga: Evite responder não com o exame ainda por vir, e evite responder é sim antes de ter critério. As duas respostas se tornam difíceis de desdizer, e o paciente carrega a primeira versão por muito tempo

À técnica de enfermagem, pedindo a folha de checagem

Preciso da folha dele dos últimos três dias, principalmente a das medicações da noite. E me conta o que mudou desde o começo do seu plantão — ele levantou, comeu, vomitou, reclamou de alguma coisa antes disso? Você foi quem passou a noite com ele, então essa parte só você tem.

Não diga: Evite abrir com por que a enoxaparina não foi feita. A pergunta necessária é a mesma, mas a ordem importa: informação primeiro, processo depois. Quem se sente auditado responde o mínimo, e você precisa do máximo

Ao paciente de pós-operatório que não quer exame nenhum e só quer dormir

Eu entendo, o senhor operou há dois dias e está exausto. Mas quem acabou de operar tem uma chance maior de ter um problema no coração, e esse problema quase sempre não dói — é por isso que eu preciso do exame mesmo com o senhor se sentindo razoavelmente bem. São cinco minutos de eletro e uma coleta. Depois disso eu apago a luz e deixo o senhor dormir.

Não diga: Evite ceder por pena e evite insistir sem explicar. O paciente que recusa quase sempre está recusando o incômodo, não o cuidado — e a explicação de trinta segundos costuma resolver

Quando a profilaxia estava prescrita e não foi administrada

Doutor, tem uma coisa que eu preciso te contar: a medicação que previne coágulo estava prescrita, mas nos últimos dois dias ela não foi aplicada. Isso não causou necessariamente o que o senhor está sentindo, mas aumenta a chance de ser um coágulo, e por isso vou investigar essa possibilidade primeiro. Já registrei o que aconteceu e já corrigi a prescrição de hoje.

Não diga: Evite omitir e evite culpar alguém na frente do paciente. Falha de processo se registra no prontuário e se comunica ao serviço; o paciente precisa saber o fato e o que você fez a respeito, não quem errou

Pedindo ajuda à retaguarda por telefone

É o interno da enfermaria. Leito 7, senhor de 68 anos, sexto dia de internação por exacerbação de doença pulmonar obstrutiva crônica. Começou com dor pleurítica à direita há vinte minutos, saturando 88% com um litro, frequência 118, respiratória 28, pressão 104 por 68. Profilaxia de trombose prescrita mas não checada nos últimos dois dias. Eletro feito, comparado com o da admissão, com taquicardia sinusal e com inversão nova de T nas precordiais direitas. Minha hipótese principal é embolia pulmonar. Quero começar anticoagulação agora e pedir angiotomografia. Preciso de avaliação presencial imediata para definirmos suporte, anticoagulação e segurança do transporte.

Não diga: Evite começar por o paciente do 7 está com dor no peito, o que te faz. Diga identificação, contexto, o que encontrou, sua hipótese, o que você quer fazer e o que precisa da outra pessoa. Termine com um pedido claro, não com uma pergunta aberta

Na passagem de plantão, para a equipe da manhã

O 7 teve dor torácica às três da manhã. Levantei embolia pela profilaxia não administrada e pela dor pleurítica com dessaturação. Comecei anticoagulação plena às quatro, angiotomografia pedida e ainda não feita porque o tomógrafo estava com o plantão da trauma. Eletro comparado com o da admissão, com inversão nova de T nas precordiais direitas; troponina inicial coletada, segunda coleta programada para as oito. O que falta é o exame e a segunda troponina. Se ele piorar antes disso, o plano é chamar a intensiva.

Não diga: Evite passar só o diagnóstico e o que foi feito. O que se perde na passagem de plantão é sempre o pendente e o plano B — diga em voz alta o que ainda não voltou e o que você faria se estivesse aqui

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Vigilância com troponina no pós-operatório: em todo paciente de risco intermediário ou alto, ou só nos de risco muito alto?

Vigiar todo risco intermediário ou alto

Monitorizar de forma ampla. A recomendação é de dosar troponina no pré-operatório e no primeiro e segundo dias de pós-operatório em todo paciente de risco intermediário ou alto submetido a cirurgia não cardíaca de risco intermediário ou alto, com eletrocardiograma nos mesmos três momentos. O argumento é a epidemiologia: a maioria esmagadora dos infartos perioperatórios não dói, apenas um quarto tem alteração isquêmica no traçado, e a mortalidade em 30 dias de quem tem o evento é várias vezes maior que a de quem não tem. Ampliar a rede é o que impede que o evento seja descoberto pelo desfecho.

Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória da Sociedade Brasileira de Cardiologia, 2024 — recomendação classe I, nível B

Reservar a vigilância ao risco muito alto

Restringir a rede. A mesma diretriz reconhece que não há consenso definitivo sobre em quais pacientes exatamente a monitorização tem melhor relação de custo e efetividade, e descreve o dilema com todas as letras: monitorizando indiscriminadamente não se perde nenhum evento, mas realizam-se muitos exames normais. A esse custo se soma o que a diretriz de dor torácica de 2025 mede do outro lado — solicitação em paciente de baixa suspeita derruba o valor preditivo positivo abaixo de 50% —, e num paciente internado o resultado alterado raramente termina em nada: termina em consulta, exame adicional e, às vezes, em antiagregação.

Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória da SBC, 2024 (item sobre custo-efetividade da monitorização) e Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência, 2025

Como decidir

Seguir o protocolo perioperatório de vigilância conforme risco do paciente e cirurgia, com plano de interpretação e resposta. Ausência de valor basal não elimina indicação das coletas posteriores. A recomendação contra rastreamento de baixo risco não contraindica investigação de sintomas ou deterioração. Não inferir infarto de todo resultado positivo: procurar curva, evidência de isquemia e causas alternativas.

Começar a anticoagulação plena antes da imagem, no paciente que operou há poucos dias

Primeira dose antes da imagem

Começar. Quando a probabilidade clínica é alta, a investigação por imagem é obrigatória e o resultado do D-dímero não modifica a conduta — ou seja, a decisão já está tomada antes do exame. Esperar o tomógrafo numa enfermaria de madrugada significa, na prática, esperar horas, e o intervalo entre a suspeita e a primeira dose é tempo em que o trombo pode crescer ou embolizar de novo. Quem tem probabilidade alta e não tem sangramento recebe a primeira dose e depois faz o exame.

Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso da SBC, SBACV, CBR e SBPT, 2022

Avaliar o risco de sangramento com quem operou

Segurar até avaliar o risco hemorrágico com quem operou. Os protocolos hospitalares de tromboprofilaxia listam contraindicações absolutas e relativas ao anticoagulante — sangramento ativo, plaquetopenia grave, coagulopatia, procedimento neuroaxial recente, pós-operatório imediato de determinadas cirurgias — e essas listas existem justamente porque a hemorragia num paciente recém-operado tem consequência cirúrgica, não apenas hematológica. Nesse cenário a dose plena não é um passo intermediário reversível: ela muda o que o cirurgião pode fazer nas próximas horas.

Protocolo PRT.DCDT.001 de Tromboprofilaxia venosa em pacientes internados, Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados / Ebserh, versão 02, e Protocolo para Avaliação de Risco de Tromboembolismo Venoso em Pacientes Internados do Hospital Sírio-Libanês

Como decidir

Ponderar probabilidade de TEP, gravidade, tempo até imagem e risco hemorrágico em decisão imediata com equipe responsável. Instabilidade não torna anticoagular automaticamente seguro: pode haver sangramento oculto, dissecção ou contraindicação relevante. Pós-operatório recente também não proíbe todo anticoagulante. Se risco aceitável e imagem atrasada, iniciar tratamento pode ser adequado; choque exige discutir reperfusão, agente e suporte, com ecocardiografia à beira do leito e transporte seguro. Registrar hipótese, dados e decisão conjunta.

Ultrassom de compressão feito pelo plantonista à beira do leito, ou esperar o exame vascular completo?

Fazer o exame abreviado à beira do leito

Fazer à beira do leito. Os protocolos abreviados existem e estão descritos: o estendido, de três pontos, avalia a compressibilidade da veia femoral comum até a poplítea; o de dois pontos avalia a femoral comum na virilha e a poplítea. Numa metanálise de 17 estudos, os dois protocolos tiveram desempenho equivalente, com sensibilidade combinada de 0,91 e 0,90 e taxas de falso-negativo de 4,0% e 4,1%; e médicos de emergência conseguem executá-los após treinamento, com boa reprodutibilidade. Numa enfermaria de madrugada, um exame imperfeito que existe vale mais que um exame perfeito que só acontece às dez da manhã.

Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso, 2022 — protocolo de três pontos com classe II e nível de evidência A

Decidir com o exame vascular completo

Esperar o exame completo, ou pelo menos não decidir só com o abreviado. O exame completo de ecografia vascular é a recomendação de maior classe para o diagnóstico de trombose venosa profunda aguda, e a diferença não é teórica: numa comparação direta, o protocolo de três pontos teve sensibilidade de 90,57% contra 82,76% do de dois pontos; e num estudo com 2.451 pacientes avaliados por emergencistas experientes, o de dois pontos deixaria de diagnosticar 23 dos 362 casos de trombose proximal, isto é, 6,2%. A própria diretriz observa que a acurácia depende de treinamento regular e substancial, e que os estudos publicados variam de treinamentos de dez minutos a formações longas.

Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso, 2022 — exame completo com classe I e nível de evidência A, recomendado pelo Colégio Brasileiro de Radiologia e pela Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular

Como decidir

POCUS pode orientar rapidamente quando realizado por profissional capacitado e interpretado no contexto. Achado positivo não confirma automaticamente toda hipótese, e exame negativo não exclui diagnósticos como embolia ou síndrome aórtica. Usar a informação para decisões urgentes e selecionar confirmação apropriada, sem atrasar suporte.

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O raciocínio, em voz alta

Duas e cinquenta da madrugada. Senhor Onofre Vilaça Sampaio, 68 anos, 74 quilos, sexto dia de internação por exacerbação de doença pulmonar obstrutiva crônica, quinto dia de antibiótico, terceiro de corticoide venoso, oxigênio por cateter nasal a 1 litro por minuto à noite. Voltou do banheiro há vinte minutos e começou com dor no hemitórax direito, apontada com dois dedos, que piora quando ele puxa o ar. Está sentado na beira da cama, suado. Oxímetro de dedo marca 88% com o cateter ligado. Frequência cardíaca 118, respiratória 28, pressão 104 por 68. Não há monitor naquele quarto.

  1. O que penso antes de tocar nele

    A lista já está reordenada pelo contexto, antes do exame. Seis dias de decúbito com mobilização recente, dor pleurítica súbita logo após o esforço de caminhar, taquicardia e queda de saturação colocam embolia pulmonar no topo. Competindo de verdade logo abaixo: pneumotórax espontâneo, porque ele é enfisematoso, e pneumonia com componente pleural, porque ele está internado justamente por doença pulmonar. Síndrome coronariana continua na lista — ex-tabagista de quarenta anos-maço, taquicárdico e hipoxêmico é a receita do desequilíbrio entre oferta e consumo.

  2. A primeira decisão: ele está estável?

    Pressão de 104 por 68 não é hipotensão franca, mas a pergunta certa é outra: baixa em relação a quê? Peço a folha de sinais vitais e vejo que ele vinha em 130 por 80 nos últimos dias. Uma queda de quase trinta milímetros de mercúrio em quem está taquicárdico e taquipneico muda a leitura: ele não está instável, mas está caminhando para isso. Isso encurta o meu tempo e antecipa a decisão de chamar ajuda.

  3. O que peço enquanto examino

    Aciono retaguarda agora e peço ECG, acesso e monitorização. Por ter DPOC, há risco de insuficiência hipercápnica, mas retenção crônica não está demonstrada apenas pelo diagnóstico. Uso alvo inicial habitual de 88% a 92%, verificando necessidade de suporte e gasometria pelo quadro; não aumento oxigênio apenas para perseguir 94%. A saturação de 88% precisa ser interpretada junto à deterioração, e não como segurança isolada.

  4. As duas folhas, e o que elas mostram

    A prescrição do dia tem doze itens, e um deles é enoxaparina 40 mg por via subcutânea uma vez ao dia, aprazada para as 20 horas. A folha de checagem mostra o quadrado marcado nos primeiros quatro dias. Nos dois últimos, os dois quadrados estão em branco: no quinto dia ele desceu para uma radiografia às 19h40 e voltou às 21h30; no sexto ficou em jejum para um exame que acabou não sendo feito. Confirmo com a enfermagem e os demais registros que as doses não foram administradas; somente então documento a omissão. É a informação mais importante da noite, e ela custou noventa segundos.

  5. O que isso faz com a minha lista

    Antes da folha, embolia era a hipótese principal por contexto. Depois da folha, ela é a hipótese principal por contexto e por falha de proteção — quarenta e oito horas sem profilaxia num paciente acamado, inflamado e desidratado. Isso não confirma nada, mas eleva a probabilidade pré-teste o suficiente para mudar o que eu faço a seguir: eu deixo de esperar o exame para decidir e passo a decidir pela probabilidade.

  6. O exame físico dirigido

    Descubro o tórax inteiro e viro o paciente. Não há ferida operatória, dreno, cateter central nem crepitação no pescoço. À ausculta, murmúrio globalmente diminuído, como já era, com estertores finos na base direita que não estavam descritos ontem, e sem hipertimpanismo. A parede torácica não reproduz a dor quando eu aperto, e as jugulares não estão túrgidas a 45 graus. A panturrilha direita mede dois centímetros a mais que a esquerda e está discretamente empastada — achado que ninguém procurou nos últimos seis dias, porque ele estava internado por pulmão.

  7. Os dois traçados, lado a lado

    O ECG tem taquicardia e inversões novas de T em V1–V4; baixa voltagem e P apiculada já existiam. Isso apoia sobrecarga direita no contexto, sem confirmar TEP nem excluir SCA. Ausência de supra não exclui oclusão, e infradesnivelamento não é requisito para reconhecer toda isquemia. Mantenho avaliação integrada e repito o traçado se houver mudança.

  8. O que peço, e o que deliberadamente não peço

    Peço troponina agora com repetição programada, hemograma, ureia, creatinina, eletrólitos, gasometria arterial e radiografia de tórax no leito com a pergunta escrita no pedido. Não peço D-dímero: a probabilidade já é alta, um resultado positivo não mudaria nada e um negativo não me faria cancelar a tomografia. Não peço creatinofosfoquinase fração MB. Peço a angiotomografia de artérias pulmonares e descubro que o tomógrafo está ocupado com um politraumatizado — o exame sai em duas ou três horas.

  9. A decisão que não espera o exame

    Com retaguarda já acionada, discutimos probabilidade de TEP, risco de sangramento, plaquetas e função renal atual. Se houver demora da imagem e risco hemorrágico aceitável, a equipe inicia anticoagulação terapêutica. Enoxaparina 1 mg/kg a cada 12 horas é uma opção com função renal adequada: para 74 kg, 74 mg por dose, preparados de forma mensurável e segura. A escolha depende de estabilidade e estratégia, não de caber em uma seringa; considerar ajuste ou outro agente se clearance <30 mL/min.

  10. O telefonema, e o que eu peço de verdade

    Ligo para a retaguarda com a frase montada: identificação, contexto, achados, hipótese, o que já fiz e o que quero. Termino com um pedido específico — que ela veja o paciente antes do transporte, porque a pressão está caindo e eu não quero levar um paciente instável para dentro de um tomógrafo. Não pergunto o que você acha; digo o que pretendo fazer e onde preciso dela.

  11. O que eu digo ao paciente, e o que registro

    Digo a ele que a dor pode ser um coágulo no pulmão, que por isso já comecei o remédio que afina o sangue e que ainda vou fazer um exame de imagem para confirmar. Digo também, sem rodeio, que a medicação de prevenção não foi aplicada nos dois últimos dias, que isso já foi corrigido e registrado, e que aumenta a chance de ser um coágulo. Na evolução escrevo tudo com hora: queixa, sinais vitais comparados com os dos dias anteriores, o achado da panturrilha, a comparação dos dois traçados, a falha de administração como fato, a hipótese, a conduta e os gatilhos de chamada para a enfermagem.

  12. O desfecho, e a lição que fica

    A angiotomografia confirma TEP segmentar à direita. Troponina discretamente elevada e pouco variável indica injúria no contexto, podendo refletir sobrecarga direita; o pequeno delta isolado não exclui infarto nem define cronologia sem considerar tempos e clínica. ECG, imagem, biomarcadores e estado hemodinâmico orientam estratificação. A folha e o exame sustentaram suspeita e ação, enquanto a tomografia forneceu confirmação anatômica.

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Faça você

Seis e vinte da manhã, enfermaria de cirurgia geral. A técnica de enfermagem te para antes da visita: o senhor Genésio Bittencourt, do leito 4, está estranho. Genésio tem 71 anos, 68 quilos, é diabético há vinte anos e hipertenso, e está no segundo dia de pós-operatório de laparotomia por hérnia inguinal encarcerada, operada de urgência. Ele não reclama de dor no peito: reclama de enjoo e diz que a noite foi ruim. Está com bomba de analgesia com morfina desde a sala de recuperação. Sinais vitais da madrugada: frequência cardíaca 108 às duas horas e 112 às cinco; pressão 96 por 58, contra 140 por 85 no pré-operatório; frequência respiratória 24; saturação 93% em ar ambiente; temperatura 36,8. Diurese de 90 mL em seis horas. Hemoglobina de ontem à tarde 8,9, contra 12,4 na admissão. Curativo abdominal limpo e seco; dreno de Penrose com 40 mL serossanguinolentos em 24 horas.

  1. Passo 1 — o que este paciente tem de diferente do senhor Onofre

    Genésio não tem dor torácica, e é por isso que ele está neste capítulo. É um pós-operatório de urgência, diabético, com analgesia contínua com opioide — três motivos independentes para não sentir nem relatar dor isquêmica. No lugar da dor ele tem sinais: taquicardia progressiva, queda importante de pressão em relação ao valor dele, taquipneia, oligúria e uma hemoglobina 3,5 pontos menor que a de ontem na admissão.

  2. Passo 2 — a lista, reordenada pelo que a internação fabricou

    Cirurgia de urgência há 48 horas, diabético, com queda de hemoglobina, taquicardia e hipotensão relativa. Isso põe no topo o infarto perioperatório, que na maioria das vezes é de tipo 2 — e aqui há dois gatilhos explícitos, anemia e taquicardia. Competem de perto: sangramento pós-operatório em andamento, que seria a causa da própria anemia; sepse de foco abdominal no segundo dia de uma cirurgia de víscera encarcerada; e embolia pulmonar, porque ele é pós-operado e imobilizado.

  3. Passo 3 — as duas folhas

    A prescrição traz analgesia contínua com morfina, antibiótico, hidratação e enoxaparina 40 mg por dia, aprazada para as 22 horas. A folha de checagem mostra a profilaxia marcada nos dois dias. Não há registro de nova dose de analgésico de resgate na madrugada, e não há registro de dor. A folha de balanço mostra entrada de 2.100 mL e saída de 600 mL nas últimas 24 horas.

  4. Passo 4 — o exame dirigido

    Abdome distendido, doloroso difusamente à palpação, com ruídos hidroaéreos diminuídos — achado que exige reavaliação cirúrgica neste contexto de deterioração. Ferida limpa. Extremidades frias, enchimento capilar de três segundos. Ausculta pulmonar com murmúrio reduzido em ambas as bases, sem estertores assimétricos. Jugulares não túrgidas. Panturrilhas simétricas, sem empastamento. Não há atrito pericárdico.

  5. Passo 5 — o eletrocardiograma, comparado

    O traçado de agora mostra taquicardia sinusal a 112 e infradesnivelamento de ST de cerca de 1 mm em derivação inferior e de V4 a V6, horizontal, medido 60 milissegundos depois do ponto J, com onda T achatada nas mesmas derivações. O traçado do pré-operatório, recuperado da pasta, mostra ritmo sinusal a 78 sem alteração de ST e com ondas T normais.

  6. Passo 6 — os exames que voltam às sete da manhã

    Hemoglobina 8,1 (era 8,9 ontem à tarde e 12,4 na admissão). Leucócitos 14.200 sem desvio importante. Creatinina 1,6 (era 1,0 na admissão). Lactato 2,8. Troponina de alta sensibilidade acima do percentil 99 do kit, com a segunda coleta, colhida três horas depois, quase o dobro da primeira. Não existe troponina do pré-operatório: a cirurgia foi de urgência e ninguém colheu.

  7. Passo 7 — agora é com você

    Formule a hipótese principal com o gatilho junto dela, decida a conduta das próximas duas horas e escreva o que você faria com a troponina que dobrou. Três perguntas para organizar a resposta: isto é injúria, infarto de tipo 2 ou infarto de tipo 1, e o que sustenta a sua escolha? O que você corrige primeiro? E o que você não prescreve neste paciente, mesmo com troponina em ascensão?

Ver como fecharíamos

Há injúria miocárdica aguda com alterações novas compatíveis com isquemia, sustentando infarto perioperatório. Desequilíbrio de oferta/consumo por anemia e hipoperfusão torna tipo 2 uma hipótese importante; tipo 1 não está excluído nem deve ser tratado como exceção irrelevante apenas por haver gatilhos. O delta depende do ensaio e do contexto, não de um corte universal de 20%. Chamar cirurgião e cardiologia/retaguarda desde já, monitorizar e investigar fonte da queda de hemoglobina e choque. A ausência de sangue no dreno não exclui hemorragia interna; hemodiluição também pode contribuir. Abdome difusamente doloroso com deterioração não deve ser normalizado como esperado do segundo dia. Avaliar perfusão, oxigenação, ECG seriado, hemograma, coagulação e imagem conforme segurança. Reservar sangue e decidir transfusão pela isquemia, repercussão e sangramento; não se trata de um paciente estável ao qual aplicar isoladamente limiar de 7 g/dL. Corrigir a causa da taquicardia sinusal, como hipovolemia, anemia, dor ou infecção; não prescrever bloqueador de frequência para um mecanismo compensatório sem avaliação. Reposição deve ser cautelosa e dirigida, com hemocomponentes e controle da fonte quando indicados. Transferência para leito monitorizado é urgente. Não iniciar dupla antiagregação e anticoagulação plena automaticamente por troponina crescente em provável sangramento recente. A decisão antitrombótica e invasiva é conjunta agora, conforme suspeita de tipo 1, isquemia persistente, ECG, hemostasia e cirurgia; não depende de aguardar que a troponina continue subindo depois de corrigir tudo. Evitar nitrato com hipotensão/hipoperfusão. D-dímero tem baixa utilidade neste contexto, mas não seria positivo por definição. A falta de troponina pré-operatória dificulta comparação, sem impedir reconhecer a dinâmica atual. Quando houver indicação de vigilância, ausência de basal não justifica deixar de acompanhar. Diferenciar injúria, infarto e mecanismo com dados clínicos e exames, mantendo as incertezas registradas.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Campo em branco significa administração não confirmada. Esclarecer com a equipe e registros, documentar o que se sabe e evitar afirmar omissão comprovada sem confirmação. Se não foi administrada, isso acrescenta risco e exige corrigir o processo, mas não confirma TEP. Não duplicar, suspender ou trocar anticoagulante somente pela falta de checagem.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Explique como investigar dor pleurítica sem atrasar ECG. Interprete uma troponina isolada e uma curva sem usar 20% como regra universal.

Em 30 dias

Conduza um caso de TEP suspeito após cirurgia e um de isquemia com anemia. Explicite incertezas, decisões com retaguarda e critérios de transferência.

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Agora atenda

Agora atenda. A chamada vem da enfermagem no meio da noite, com cinco palavras e nenhum contexto, e o paciente já está internado há dias por outra coisa. Faça na ordem o que este capítulo descreveu: olhe o paciente antes do papel, decida se ele está estável, leia a prescrição e a folha de checagem, examine dirigido pelo que a internação fabricou, compare os dois eletrocardiogramas, formule a hipótese com o gatilho junto e só então peça exame. O paciente-IA responde ao que você perguntar e mostra o que você examinar — inclusive quando você não descobre o tórax nem procura o traçado antigo. Preste atenção nos dias de decúbito, no que foi feito nas últimas 24 horas e no que a folha de enfermagem checou de verdade: é ali que a resposta costuma aparecer primeiro, muito antes de qualquer exame voltar.