Clínica MédicaSíndromes do Paciente Internado

Oligúria e balanço hídrico

Dez da noite, e a frase que chega do posto é sempre a mesma: ele não urina desde as duas da tarde. Antes de pendurar soro ou prescrever diurético, há duas contas de dois minutos — a bexiga está cheia, e quanto ele realmente produziu por quilo e por hora.

Fontes deste capítulo

Younes-Ibrahim M, Rocha E, Reis T, Colares VS, Lima EQ, Andrade LC, Rosa EC, Cardoso HS, Thomé F, Ponce D, Suassuna JHR, Yu L. Guia de assistência nefrológica hospitalar do Departamento de Injúria Renal Aguda da Sociedade Brasileira de Nefrologia. Braz J Nephrol. 2025;47(3):e20240239.

Ávila MON, Rocha PN, Zanetta DMT, Yu L, Burdmann EA. Balanço hídrico, injúria renal aguda e mortalidade de pacientes em unidade de terapia intensiva. J Bras Nefrol. 2014;36(3):379-388.

Mendonça AEO, Barra IP, Anjos JSF, Moura MV, Dantas DNA. Preenchimento e interpretação do balanço hídrico em unidade de terapia intensiva. Revista Ciência Plural (ISSN 2318-0234), Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Protocolo de prevenção de infecção do trato urinário relacionada ao uso de cateter vesical. Versão 1, ano 2025.

Instituto Latino Americano de Sepse. Implementação de protocolo gerenciado de sepse — protocolo clínico: atendimento ao paciente adulto com sepse e choque séptico. Revisado em julho de 2026, em substituição à revisão de agosto de 2018.

01

Responda antes de ler

A folha de balanço de um internado registra 1.000 mililitros de entrada em 24 horas, correspondentes ao soro de manutenção. A prescrição tem ceftriaxona de 12 em 12 horas em 100 mL por dose, azitromicina em 250 mL, omeprazol em 100 mL, três doses de dipirona em 100 mL cada e oito salinizações de 10 mL do acesso. Qual é o problema central desse registro?

02

O paciente que você vai ver

Vinte e duas e dez de uma terça-feira, enfermaria de clínica médica, dezoito leitos. Você está no posto terminando as evoluções quando a técnica de enfermagem apoia a prancheta no balcão e diz, sem se sentar: "doutor, o seu Sebastião não urina desde as duas da tarde". Ela não está pedindo prescrição. Está passando um dado que ninguém pediu para ela medir e que ela mediu assim mesmo, porque olhou a bolsa coletora ao trocar o soro.

Sebastião Rangel tem 68 anos, 74 quilos e está no quarto dia de internação por pneumonia adquirida na comunidade. Entrou pelo pronto-socorro com febre, tosse e confusão, recebeu ceftriaxona e azitromicina, e voltou ao normal no segundo dia — reconhece a filha, come sozinho, reclama da comida. Tem hipertensão e usava losartana em casa. Veio sondado do pronto-socorro, e ninguém retirou o cateter.

Na bolsa há 90 mililitros. A técnica anota o horário do esvaziamento anterior: catorze horas. São oito horas de intervalo. Isso não é "pouca urina": faça a conta antes de qualquer outra coisa, porque ela muda a noite. Noventa mililitros em oito horas são 11 mL por hora, e num homem de 74 quilos isso dá 0,15 mL por quilo por hora. O corte de oligúria é 0,5. Ele está a um terço do corte, e já está abaixo do valor que, mantido por 24 horas, define o estágio mais grave da injúria renal aguda.

A reação treinada, neste momento, é escolher entre dois botões: pendurar soro ou prescrever furosemida. Os dois são erros com a informação que você tem agora, e o mais barato dos dois exames que faltam custa dois minutos e nenhum reagente. Você vai até o leito.

Sebastião está acordado, sem dor, corado, respirando 20 vezes por minuto. Pressão de 128 por 76, frequência de 88. A perna não tem cacifo. Você palpa o hipogástrio: plano, indolor, timpânico à percussão — não há globo. Então você segue o cateter com a mão, do meato ao coletor, como se estivesse conferindo um fio de extensão elétrica. Encontra o que procurava a meio metro do leito: a extensão passa por baixo da coxa dele, faz uma alça que pende abaixo do colchão e sobe de novo até a bolsa, que está pendurada na grade — no mesmo plano da bexiga. Na alça, parada, há uma coluna de urina que não anda para lado nenhum.

Você desfaz a alça, prende a extensão sem tração e desce a bolsa para o suporte, abaixo do nível do leito. Nos dez minutos seguintes drenam 240 mililitros. Sebastião não tinha parado de urinar; a urina é que tinha parado de descer. Essa é a primeira coisa que quase ninguém faz, e é a única das causas de oligúria noturna que se resolve enquanto você está de pé ao lado da cama.

Só que a noite não acabou aí, e é por isso que este capítulo existe. Com a alça desfeita, ele produz 30 mililitros na hora seguinte — ainda 0,41 mL por quilo por hora, ainda abaixo do corte. A dobra explicava parte da baixa drenagem das últimas oito horas; não explica a oligúria dos últimos dois dias, que estava na folha e ninguém somou. E a folha, quando você finalmente a abre, diz que o balanço dele está praticamente zerado. Está errada, e o capítulo inteiro é sobre por que ela erra sempre para o mesmo lado, e sobre o que se faz com um paciente que continua produzindo pouco depois que o problema mecânico foi resolvido.

O balanço registrado e a variação de peso parecem discordar. Isso exige conferir ambos: horário, balança, roupa, edema, entradas, perdas e coleta de urina. Ganho de 3,2 kg pode apoiar retenção, mas não demonstra exatamente 3,2 L nem torna todo o balanço inválido. Oligúria se interpreta por peso, tempo e contexto; média de 24 horas não informa automaticamente cada janela de seis horas.

03

Quem adoece disso

Oligúria não tem estatística própria no Brasil, e não deveria ter: ela é sinal, não diagnóstico. O que tem número é o desfecho do que ela costuma anunciar. A revisão brasileira que reuniu os estudos de balanço hídrico em terapia intensiva parte de uma incidência de injúria renal aguda entre 3% e 15% dos internados, chegando a 30% a 50% dentro da terapia intensiva, com mortalidade hospitalar em torno de 20% e ultrapassando 50% nos mais graves. Traduzindo para a enfermaria de dezoito leitos: em qualquer plantão razoavelmente cheio, um a dois pacientes estão dentro dessa faixa, e o telefonema das dez da noite é a forma mais comum de o quadro se apresentar antes que a creatinina apareça.

O número que muda a conduta, porém, não é o da incidência — é o do acúmulo. A mesma revisão reúne a evidência de que sobrecarga hídrica, definida como acúmulo de líquido maior que 10% do peso de admissão, marca uma população com desfecho pior: no maior conjunto analisado, a mortalidade em 30 dias subiu de 25% para 37% e a de 60 dias, de 35% para 48%. Em quem não dialisou, o risco de morte associado à sobrecarga foi de 3,14; em quem dialisou, 2,07. Num homem de 74 quilos, esses 10% são 7,4 litros — parece muito até você somar quatro dias de balanço positivo de dois litros e perceber que a conta fecha sozinha, sem que ninguém tenha decidido encher esse paciente.

E há um achado que inverte a intuição de quem acha que soro é sempre cuidado. Entre os pacientes que já tinham injúria renal, os que estavam sobrecarregados no momento em que a creatinina atingiu o pico recuperaram a função em 35% dos casos, contra 52% dos que não estavam. A leitura honesta é que o excesso de líquido pode ser marcador de gravidade, e não só causa — a própria revisão faz essa ressalva. Mas a consequência prática independe de qual das duas hipóteses vale: depois que o rim já falhou, continuar oferecendo volume não tem efeito protetor demonstrado sobre a recuperação, e tem associação consistente com desfecho pior.

Existe ainda um dado sobre a qualidade do registro, e ele importa mais para o interno do que qualquer taxa de mortalidade. Os levantamentos brasileiros reunidos no artigo de atualização sobre preenchimento do balanço hídrico descrevem, em unidades públicas, registro incompleto dos líquidos infundidos e eliminados e erro no próprio cálculo do balanço — a ponto de os autores tratarem isso como o problema central do instrumento, e não como acidente de uma unidade. Isso significa que o documento que você vai usar hoje à noite para decidir se dá ou tira volume é, com alta probabilidade, um documento com erro conhecido e direção previsível. Saber para que lado ele erra é a diferença entre usá-lo e ser usado por ele.

04

Por que acontece o que acontece

Urina é o que sobra depois de três etapas em série, e oligúria pode nascer em qualquer uma delas. O glomérulo filtra por diferença de pressão; o túbulo reabsorve o que interessa e devolve o resto; a via urinária conduz o produto até fora. Se a pressão de filtração cai, se o túbulo perde a capacidade de trabalhar, ou se o cano entope, o resultado à beira do leito é o mesmo — bolsa vazia. Por isso o sinal não diz onde está o problema, e por isso a investigação começa pelo fim do cano, que é a etapa mais rápida de descartar.

A etapa da condução é puramente mecânica e é a única que dá para resolver com a mão. Urina represada aumenta a pressão dentro do sistema; essa pressão sobe pelo ureter, alcança o espaço de Bowman e se opõe à pressão que empurra o filtrado para fora do capilar. Filtração é o saldo entre a pressão que empurra e as que resistem; quando a resistência iguala o empurrão, o saldo vai a zero e a produção para, mesmo com rim íntegro e circulação normal. É o mecanismo do globo vesical, e é o mesmo do cateter dobrado — só muda a altura da coluna represada. Um detalhe hidráulico explica a alça do senhor Sebastião: a extensão que pende abaixo do plano da bexiga e sobe de novo até a bolsa cria um sifão invertido, e a coluna de urina parada nessa curva funciona como sifão invertido. O sistema não está entupido; está com o cano em U. Bolsa acima do nível da bexiga faz o mesmo por outro caminho, com o agravante de devolver urina já drenada.

A etapa da pressão de filtração é onde mora a maioria das oligúrias que não se resolvem com a mão, e ela tem duas variáveis, não uma. A pressão de entrada é a pressão arterial média; a de saída é a pressão venosa — o sangue precisa sair do rim para que mais sangue entre. O guia hospitalar da Sociedade Brasileira de Nefrologia enuncia isso de forma direta: a pressão de perfusão renal depende da diferença entre a pressão de entrada e a pressão venosa central, e pressão venosa elevada com congestão venosa renal está associada à injúria renal na insuficiência cardíaca. Guarde essa frase, porque ela é a explicação fisiológica do paciente que este capítulo mais quer que você reconheça: o oligúrico cheio de água, em quem a pressão de saída subiu e estrangulou o rim por trás. Nele, mais volume aumenta justamente a variável errada.

O mesmo raciocínio tem uma terceira forma, menos lembrada e mais grave: quando a pressão dentro do abdome supera a pressão venosa, é ela que passa a ser a pressão de saída do rim. O guia da sociedade recomenda monitorar a pressão intra-abdominal em casos selecionados exatamente por isso. Ascite volumosa e nova, distensão maciça de alças, hematoma retroperitoneal — nesses o rim está sendo comprimido de fora, e nenhuma quantidade de soro corrige uma diferença de pressão que se fecha por compressão externa.

Do outro lado da balança está o rim que ainda funciona e está economizando. Perda de volume real reduz o enchimento das câmaras cardíacas e o débito; barorreceptores disparam; o sistema nervoso simpático, o eixo renina-angiotensina-aldosterona e o hormônio antidiurético entram juntos. Aldosterona manda o túbulo distal reter sódio, e a água acompanha; o hormônio antidiurético abre canais de água no ducto coletor e devolve água livre à circulação. O resultado é pouca urina, concentrada e pobre em sódio — oligúria como resposta adequada de um órgão íntegro. Esse é o paciente em que volume é tratamento, e o único jeito honesto de identificá-lo é pelo conjunto do exame e da história, nunca por um número isolado.

Só que essa mesma resposta é ativada por coisas que não são falta de volume, e é aqui que a intuição falha. A revisão brasileira de balanço hídrico lista as situações de terapia intensiva capazes de acionar o eixo neuroendócrino em pacientes sem qualquer injúria renal: hipotensão, baixo débito cardíaco, a vasodilatação da sepse ainda que sem hipotensão, hipoalbuminemia e ventilação mecânica. Todas fazem o rim reter sal e água como se faltasse volume — e em todas, exceto na primeira fase da hipovolemia verdadeira, encher o paciente não desliga o estímulo. É por isso que existe gente com edema de membros, estertores em bases e, ao mesmo tempo, urina concentrada e escassa: o rim está lendo um sinal de vazio que vem do continente, não do conteúdo.

Falta explicar por que o exame de sangue chega atrasado, e a explicação vale ouro para o balanço. A creatinina é uma concentração, e concentração tem numerador e denominador. O numerador é a creatinina que o rim deixou de excretar, e ele demora a subir porque o marcador é de equilíbrio — o capítulo de injúria renal aguda desta coleção trata desse atraso e do estadiamento. O denominador é a água em que ela está dissolvida, e é ele que o balanço positivo mexe. Paciente que acumulou líquido tem a creatinina diluída, e o número que sai do laboratório subestima a lesão. A revisão brasileira registra a fórmula proposta para desfazer essa diluição: multiplica-se a creatinina medida por um fator que compara a água corporal estimada na admissão, tomada como 60% do peso de entrada, com essa mesma água acrescida do balanço acumulado. Aplicar o fator antecipou o diagnóstico em pelo menos um dia. É a única situação em que fazer conta na folha de balanço muda um exame de sangue.

Por fim, o mecanismo do dano do excesso, que é o que justifica a decisão de não repor. Líquido acumulado não fica no vaso: a inflamação e a hipoalbuminemia aumentam a permeabilidade capilar, e ele vai para o interstício. No pulmão isso vira redução de complacência e piora de troca; no intestino, edema de alças, íleo e aumento da pressão intra-abdominal, que fecha o círculo comprimindo o próprio rim; no rim, congestão venosa. Há ainda um efeito que quase ninguém associa ao balanço: o aumento do volume de distribuição dilui antibióticos hidrofílicos — betalactâmicos, glicopeptídeos e aminoglicosídeos acompanham a água para o interstício e podem ficar em concentração subterapêutica. O paciente encharcado não está apenas com edema; ele pode estar, ao mesmo tempo, subtratado da infecção que motivou a internação.

05

Como se apresenta de verdade

"Não urina" é uma frase, não um quadro. Ela chega da enfermagem em seis formatos clínicos diferentes, e o primeiro trabalho do plantonista é descobrir em qual deles está — porque três deles se resolvem sem soro e sem diurético, e dois pedem condutas exatamente opostas. O que segue é o espectro como ele entra pela porta da enfermaria, e não como o livro o organiza por compartimento.

Uma advertência antes: a forma mais comum de oligúria hospitalar não aparece nesta lista porque não aparece para ninguém. É a do paciente que produz 600 mililitros por dia há três dias, tem "diurese presente" anotada em todos os turnos, e só vira notícia quando a creatinina sobe. Ela é o item final desta seção, e é a razão de o bloco seguinte insistir tanto em taxa.

Percurso de aprendizagem

Conferir gravidade, bexiga e drenagem enquanto transforma volume em taxa. Distinguir urina represada de baixa produção, com imagem vesical quando necessária.

Somar todas as entradas e perdas e comparar com peso padronizado e exame. Conhecer limitações dos índices urinários e das fórmulas de correção.

Justificar cada intervenção e seu critério de interrupção. Planejar ajuda, indicação de suporte renal e seguimento após alta, sem tratar apenas um número.

A parada súbita: quase sempre mecânica, quase sempre reversível

Anúria abrupta pede verificar imediatamente coleta, sonda e obstrução, mas também pode decorrer de lesão vascular, choque ou lesão renal grave. Priorizar avaliação pelo quadro e gravidade, sem concluir que toda interrupção súbita é mecânica.

Em quem não tem cateter, o quadro é o do globo vesical: desconforto ou dor suprapúbica, urgência sem conseguir urinar, massa arredondada acima do púbis, macicez à percussão. No idoso com demência que não comunica, o equivalente é agitação nova sem explicação à noite. A técnica da sondagem, os cortes de volume no ultrassom de cabeceira e a decisão de cateterizar ou não pertencem ao capítulo de sondagem vesical desta coleção — aqui interessa apenas reconhecer que este é o desfecho da bifurcação, e que ele muda de capítulo.

Em quem já tem cateter, e é o cenário mais frequente na enfermaria, o quadro é enganoso porque a presença do dispositivo dá falsa segurança: o raciocínio automático é "tem sonda, logo não é retenção". Tem sonda e pode estar em retenção por dobra, tração, alça pendente, bolsa acima do nível da bexiga, extensão clampeada e esquecida depois de um transporte, ou obstrução por coágulo ou sedimento. A pista que separa dobra de obstrução é o hipogástrio: bexiga cheia com cateter instalado significa que o cateter não está drenando, e nesse caso o achado é reversível ainda no leito.

A anúria verdadeira — ausência total de urina, e não escassez — merece uma nota à parte, porque muda a urgência. Anúria completa com bexiga vazia em paciente com dois rins tem uma lista curta: obstrução alta bilateral, obstrução de rim único, evento vascular renal, ou lesão gravíssima. Nenhuma dessas se administra na enfermaria com soro e observação até de manhã.

O oligúrico seco: o rim íntegro fazendo o que foi desenhado para fazer

É a forma que a maioria dos internos espera encontrar, e é de fato comum — só não é maioria. O paciente tem uma história de perda ou de aporte insuficiente que costuma estar escrita em algum lugar: jejum prolongado para exame, vômitos, diarreia, débito alto de sonda nasogástrica ou de ostomia, drenagem abdominal volumosa, febre alta e sustentada, sangramento, ou simplesmente três dias comendo mal com soro de 500 mililitros pendurado por educação.

À beira do leito ele tem mucosa e axila secas, língua com sulco, pele sem turgor em local confiável — esterno ou fronte no idoso, nunca o dorso da mão —, jugulares colabadas com a cabeceira a 45 graus, taquicardia relativa, enchimento capilar lento, extremidades frias, e queda postural da pressão quando ele senta ou levanta. A urina é escura e concentrada. O peso caiu desde a admissão e o balanço acumulado é negativo.

Peso, balanço, edema, pulmões, pressão e perfusão oferecem informações complementares. Nenhum é infalível. Conferir técnica, repetir medidas discrepantes e usar a tendência para decidir, registrando limitações.

Este é o paciente em que a prova de volume é tratamento e diagnóstico ao mesmo tempo, e ele tende a responder rápido: com o déficit corrigido, o estímulo neuroendócrino cai, o hormônio antidiurético para de reter água livre e a diurese volta em uma a duas horas. Resposta que não vem depois de volume adequado é informação, não fracasso — significa que a hipótese estava errada ou incompleta.

O oligúrico cheio: o paciente que este capítulo mais quer que você reconheça

É a forma que inverte a conduta, e é a que mais escapa, porque o gesto reflexo diante de bolsa vazia é oferecer líquido. O paciente tem edema com cacifo, jugulares túrgidas com a cabeceira a 45 graus, terceira bulha, estertores em bases, ortopneia nova, ganho de peso desde a admissão, balanço acumulado positivo — e, mesmo assim, produz pouca urina. Não há contradição: como o mecanismo explicou, quando a pressão de saída sobe, a diferença que sustenta a filtração se fecha por trás, e o rim para com o paciente afogado.

Os cenários que produzem essa combinação são reconhecíveis e frequentes na enfermaria: insuficiência cardíaca descompensada, cirrose com ascite, síndrome nefrótica, e — o mais silencioso de todos — o paciente que simplesmente recebeu volume demais durante dias sem que ninguém somasse. Este último não tem doença de base que justifique congestão; ele foi construído pela prescrição, e é por isso que a leitura da folha vem antes de qualquer exame.

Existe uma armadilha real e ela precisa ser dita com clareza, porque a simplificação mata dos dois lados: edema periférico não é sinônimo de volume intravascular suficiente. No cirrótico, no cardiopata com débito muito baixo e no hipoalbuminêmico, o líquido está no interstício e pode faltar dentro do vaso ao mesmo tempo. Nesses três, nem o edema autoriza diurético nem o rim seco autoriza volume livre, e a decisão passa por avaliar perfusão — extremidades, enchimento capilar, nível de consciência, lactato quando disponível — em vez de olhar a perna.

O guia hospitalar da Sociedade Brasileira de Nefrologia dá a orientação prática correspondente com todas as letras: evitar expansão volêmica desnecessária, controlando a administração de soros de manutenção e as diluições excessivas de medicações, e desestimular a ingestão hídrica excessiva, especialmente no paciente oligúrico. Note o que está sendo dito. Em quem já está oligúrico, a recomendação de sociedade não é oferecer mais líquido; é auditar o que já está entrando.

O oligúrico séptico: pressão normal e tecido devendo

É a forma mais perigosa de errar, porque o paciente parece estável. A pressão está aceitável, o paciente conversa, e a oligúria é o único órgão falando. No protocolo brasileiro de sepse a oligúria com corte de 0,5 mL por quilo por hora aparece exatamente nesse papel: sinal de disfunção orgânica e de hipoperfusão que autoriza começar a ressuscitação sem esperar a pressão cair.

Na sepse, oligúria pode ocorrer por mecanismos múltiplos e não demonstra déficit de volume. Pequenos bolus observados podem ser apropriados quando há indicação, especialmente com risco de sobrecarga. A referência de 30 mL/kg não elimina individualização e não obriga completar volume sem benefício.

Vale dizer o inverso com a mesma firmeza, porque a confusão entre as duas réguas é comum e cara. Oligúria sem critério de sepse, em paciente afebril, sem foco e sem sinal de hipoperfusão, não autoriza 30 mililitros por quilo de cristaloide. Num homem de 74 quilos isso são 2.220 mililitros de uma vez — volume que, num oligúrico congesto, é a diferença entre uma noite tranquila e uma dessaturação às três da manhã.

O peso muda o corte: por que 1 litro por dia diz coisas opostas

O corte de oligúria é uma taxa por quilo, e isso tem uma consequência que praticamente nenhuma folha de enfermaria respeita: o mesmo volume significa coisas opostas em pacientes diferentes. Numa senhora de 45 quilos, 0,5 mL por quilo por hora são 22,5 mililitros por hora, ou 540 mililitros em 24 horas. Num homem de 110 quilos, são 55 mililitros por hora, ou 1.320 mililitros em 24 horas.

Ponha um litro em 24 horas no meio dos dois. Para a paciente de 45 quilos, um litro é 0,93 mL por quilo por hora — quase o dobro do corte, diurese folgada. Para o homem de 110 quilos, o mesmo litro é 0,38 — oligúria franca, abaixo do corte, e ele levaria a noite inteira sendo anotado como paciente que "urinou um litro". O mesmo vale no plantão: 300 mililitros em seis horas são 1,11 mL por quilo por hora na primeira e 0,45 no segundo.

No paciente muito magro, e sobretudo na idosa de baixo peso, o efeito é o oposto e igualmente traiçoeiro: volumes que parecem alarmantes na folha podem estar normais para o peso dela, e o soro prescrito por susto entra em quem não precisava. É uma das rotas mais comuns para o balanço positivo iatrogênico.

No obeso o cálculo tem uma ressalva honesta. Os critérios de diurese foram construídos e validados sobre o peso corporal do paciente, sem correção, e é assim que a régua está publicada — mas o débito urinário acompanha massa magra e taxa metabólica, não tecido adiposo, e usar 110 quilos de peso real no denominador tende a exigir do rim mais do que ele precisa produzir. A discussão está no bloco de divergências, com as duas posições e o critério de decisão; a conduta segura enquanto isso é calcular pelos dois pesos, escrever os dois números na evolução e tratar o paciente que está entre eles como suspeito, não como normal.

A oligúria que ninguém viu: três dias de "diurese presente"

A forma mais comum não tem sintoma, não gera telefonema e não aparece em nenhuma passagem de plantão. É o paciente cuja folha registra "diurese presente" em todos os turnos, sem volume, e que produz há três dias abaixo do corte sem que ninguém tenha convertido nada. Ela só vira caso quando a creatinina sobe — e aí já perdeu-se a janela em que a causa era reversível com uma revisão de prescrição.

O senhor Sebastião estava nessa forma antes de estar na outra. Nas 24 horas anteriores ao telefonema ele produziu 700 mililitros, número que soa razoável e que qualquer plantonista aceitaria de passagem. Em 74 quilos, 700 mililitros em 24 horas são 0,39 mL por quilo por hora: abaixo do corte, por 24 horas seguidas, com registro completo na folha. A dobra do cateter contribuiu para a baixa drenagem das últimas oito horas e chamou atenção para um problema que já existia há dois dias.

Essa é a razão de o bloco de reavaliação deste capítulo pedir a diurese por turno, com totalização escrita e o peso do paciente ao lado, em qualquer internado com oligúria documentada ou risco dela. Não é zelo burocrático: é a única forma de transformar "presente" em informação, e o guia da sociedade brasileira usa a expressão exata — o que deve ser controlado com rigor não é a diurese, é o fluxo de diurese.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação da oligúria tem uma ordem, e ela é ditada pelo custo de cada pergunta e pela reversibilidade do que ela encontra. Começa com o que se responde com a mão, em dois minutos, sem pedir nada. Depois vem uma conta com o volume que já está na bolsa. Só então se abre a folha e, por último, se pede exame. Quem inverte essa ordem pede ultrassom para um paciente cuja extensão está dobrada, e recebe o laudo às oito da manhã seguinte.

Um princípio atravessa as seis etapas: cada uma delas tem de terminar num número escrito na evolução. Oligúria é o sinal que mais se perde entre plantões, porque "pouca urina" não se transmite. Taxa em mililitros por quilo por hora, volume drenado, peso da balança e balanço acumulado se transmitem.

Primeiro: a bexiga, o cateter e a alça — dois minutos, nenhum reagente

Confirmar se há redução real da diurese e verificar dispositivo, permeabilidade, retenção vesical e dados de coleta. Bexiga vazia não exclui obstrução ureteral bilateral ou em rim único. Lesão renal, hipoperfusão e congestão também podem produzir anúria ou oligúria; a avaliação segue o contexto e a urgência.

No paciente que já tem cateter, o exame não termina no abdome. Siga o cateter com a mão, do meato até a bolsa, procurando quatro coisas na ordem: tração na fixação, dobra ou acotovelamento no tubo, alça pendente abaixo do plano do leito, e a altura da bolsa. O protocolo da Anvisa para cateter vesical é explícito nos quatro pontos — a bolsa deve ficar sempre abaixo do nível da bexiga e fora do chão, o tubo deve estar sem dobras nem alças, a extensão não deve ser clampeada durante transporte, mobilização ou deambulação, e o sistema precisa ser conferido depois de cada movimentação do paciente. Cada um desses itens é uma causa de anúria de bolsa vazia que se desfaz com a mão.

Dois sistemas de drenagem urinária por via uretral: à esquerda, alça dependente e bolsa elevada; à direita, tubo em declive e bolsa abaixo da bexiga.
Verificar dobras, compressões, alças dependentes e posição da bolsa antes de interpretar o débito coletado. Manter fluxo livre, sistema fechado e bolsa abaixo da bexiga, sem apoio no chão. O esquema não ensina inserção da sonda; corrigir o sistema não dispensa investigar oligúria persistente.

Bexiga cheia com cateter sem drenagem exige verificar dobras, posição e obstrução; não presumir apenas coágulos. Manejo por profissional habilitado, com técnica asséptica. Irrigação não é rotina e, se indicada, deve ser suave com solução e técnica apropriadas. Dor, resistência, hematúria ou suspeita de trauma/mau posicionamento exigem parar e avaliar; troca/calibre depende da causa e protocolo.

Registre dois números depois dessa etapa: o volume drenado imediatamente após a desobstrução e o horário. Eles sustentam a conduta, permitem antecipar poliúria pós-desobstrutiva quando o volume foi grande, e impedem que o plantão seguinte repita a investigação inteira.

Segundo: transformar o volume da bolsa em taxa, antes de decidir qualquer coisa

Volume sem intervalo e sem peso não é informação. A conta tem três entradas — mililitros drenados, horas decorridas desde o esvaziamento anterior, e peso do paciente — e uma saída, em mililitros por quilo por hora. Divide-se o volume pelas horas para achar o fluxo, e o fluxo pelo peso. É a mesma operação que o guia da sociedade brasileira exige quando fala em controlar o fluxo de diurese, e não a diurese. Se peso/horário forem estimados, ainda há informação útil: explicitar a incerteza e obter medidas melhores, sem adiar avaliação de gravidade.

No senhor Sebastião: 90 mililitros em 8 horas dão 11,25 mililitros por hora; divididos por 74 quilos, 0,15 mL por quilo por hora. Nas 24 horas anteriores, 700 mililitros dão 29,2 mililitros por hora, ou 0,39. Os dois números estão abaixo do corte de 0,5, e os dois estavam na folha antes de qualquer exame ser pedido.

A entrada mais frágil dessa conta é o peso, e ela precisa de disciplina. Peso estimado a olho erra com facilidade dez quilos, e dez quilos deslocam o corte de diurese em 120 mililitros por dia — o suficiente para reclassificar o paciente. Peso de balança na admissão, escrito na prescrição junto com a função renal estimada, e peso diário na mesma balança e no mesmo horário. O capítulo de hidratação venosa desta coleção trata do peso como base do cálculo de volume; aqui ele é a base do cálculo do corte, e a exigência é a mesma.

Se não houver coletor, buscar método factível de mensurar: recipiente, fralda pesada quando apropriado ou outro registro organizado. Uma grama de diferença pode aproximar um mililitro de urina, com limitações por fezes e outras perdas. Sonda deve ter indicação clínica, não ser colocada automaticamente apenas por conveniência de anotação.

Terceiro: o que entra e ninguém soma

Abra a folha de prescrição e a folha de balanço lado a lado, e compare. A folha de balanço registra, com boa fidelidade, aquilo que alguém pendurou e chamou de hidratação. Tudo o mais que entra por veia é invisível para ela, porque entra com outro nome — entra como antibiótico, como analgésico, como protetor gástrico, como lavagem de acesso.

Some as linhas do senhor Sebastião com o volume de diluente de cada uma. Soro de manutenção, 1.000 mililitros. Ceftriaxona de doze em doze horas, 100 mililitros por dose, 200 no dia. Azitromicina, 250. Dipirona se necessário, três doses, 100 mililitros cada, 300. Omeprazol, 100. Salinização do acesso, oito vezes 10 mililitros, 80. Só de veia, 1.930 mililitros — quase o dobro do que a prescrição "diz" que ele recebe. Acrescente o que a bandeja e a família ofereceram e que ninguém anotou, algo em torno de 600 mililitros, e o total real de entrada passa de 2.500.

A folha registrou 1.000, porque foi o único item que chegou nela com nome de líquido. Essa diferença de 1.530 mililitros por dia não é um detalhe de escrituração: é a diferença entre um balanço lido como neutro e um balanço realmente positivo, e ela se repete todo dia enquanto a prescrição não muda. É exatamente o que o guia da sociedade brasileira manda controlar quando fala em soros de manutenção e diluições excessivas de medicações no paciente oligúrico.

Duas correções práticas, que cabem na prescrição de hoje. Primeira: escreva o volume do diluente ao lado de cada medicação venosa, e peça que ele entre no balanço — a maioria dos serviços não faz isso por hábito, não por norma. Segunda: some o volume de diluição ao volume de manutenção antes de decidir quanto soro prescrever. Um paciente com quatro medicações venosas diluídas já recebe cerca de um litro por dia sem nenhuma linha de hidratação; prescrever mais um litro "de manutenção" por cima duplica a oferta sem que ninguém tenha decidido duplicá-la. O capítulo de hidratação venosa desta coleção calcula a necessidade; este aqui insiste que a conta comece descontando o que já entra por outros nomes.

Quarto: o que sai e ninguém mede — e por que a balança ganha da planilha

Balanço depende de todas as entradas e saídas, inclusive infusões, ingestão, drenos, perdas e episódios não medidos. Falta de informação pode distorcer o resultado em qualquer direção. Reconstruir o período com a equipe e explicitar a incerteza em vez de inventar volume.

O artigo de atualização brasileiro sobre preenchimento do balanço reconhece que o cálculo em adultos nem sempre considera as perdas insensíveis, pela impossibilidade de medir os volumes, e recomenda por isso que o resultado seja interpretado junto com o exame físico e os exames — nunca isolado. Vale acrescentar o que a prática mostra: as estimativas de perda insensível que circulam em documentos brasileiros não coincidem entre si, e a diferença entre elas costuma ser maior que a margem da decisão que se quer tomar. Um homem febril e taquipneico pode perder por pele e pulmão algo entre meio litro e mais de um litro em 24 horas, e nenhuma das duas pontas dessa faixa é anotável.

Peso diário é um controle independente importante, mas não infalível. Ganho de 3,2 kg em quatro dias sugere acúmulo hídrico e merece confronto com o balanço de +1,2 L. Antes de atribuir exatamente 2 L a entradas omitidas, conferir balança, roupas, dispositivos, horário e perdas/ingesta registradas. A discordância pede investigação, não substituição automática de uma medida pela outra.

Manutenção e ressuscitação são indicações diferentes. Para adulto que realmente precisa de manutenção EV, uma referência inicial é 25–30 mL/kg/dia, frequentemente menor, como 20–25 mL/kg/dia, em idoso/frágil ou cardiopata/renal, com individualização e contabilização da ingestão. Oligúria não autoriza essa fórmula automaticamente nem acrescentar 35 mL/kg a um paciente congestionado.

Usar os valores e a tendência do balanço, identificando o que foi medido e o que foi estimado, junto ao peso e ao exame. Discordância pode vir de entradas ou saídas omitidas, duplicação, intervalos diferentes e pesagem inadequada. Corrigir o registro antes de calcular metas e evitar precisão falsa em qualquer instrumento.

Retenção de líquido pode reduzir a concentração medida de creatinina. Fórmulas de correção descritas em estudos ajudam a compreender esse efeito, mas não substituem critérios de IRA e avaliação seriada. Registrar creatinina medida, basal, datas e débito urinário confiável. Não reclassificar um paciente apenas porque estimativas de água corporal transformaram 1,4 em 1,50 mg/dL; a oligúria prolongada ou aumento ≥0,3 mg/dL em 48 horas já podem estabelecer IRA independentemente dessa conta.

Quinto: o sangue e a urina — o que respondem, e o que não respondem depois do diurético

O painel inicial do oligúrico de enfermaria é curto e barato. Do sangue: ureia e creatinina com o basal ao lado, os dois eletrólitos que decidem a noite — potássio primeiro, sódio em seguida —, hemograma, e gasometria venosa quando houver suspeita de acidose. Da urina, no mesmo momento: sumário com sedimento, mais sódio e creatinina em amostra isolada. Nada disso precisa esperar a manhã, e o potássio é o primeiro número a ser lido: passando de 5,5 mmol/L, faz-se o eletrocardiograma antes do resto — a hipercalemia é a emergência que mata enquanto se discute volume, e o guia da sociedade brasileira a trata como a principal emergência nefrológica.

O sedimento é o exame que enxerga o interior do rim no mesmo turno, e o índice de excreção de sódio ajuda a separar rim ávido de rim lesado. Os dois têm interpretação detalhada, com as contas feitas, no capítulo de injúria renal aguda desta coleção, e não vale repeti-las aqui. O que pertence a este capítulo é o momento da coleta e uma limitação de calendário que decide se o exame vale alguma coisa.

Diuréticos aumentam natriurese e reduzem a capacidade da FENa de diferenciar hipoperfusão de lesão tubular. FEureia também tem limitações e pode ser modificada por diuréticos, sepse e outros fatores; não é alternativa imune. Colher antes se útil e viável, mas não atrasar suporte nem descongestão urgente. Sódio urinário após diurético pode responder a outra pergunta, a resposta natriurética, e não se torna universalmente inútil.

Vale dizer também o que esses exames não respondem, porque a expectativa errada gera conduta errada. Nenhum deles diz se o paciente vai responder a volume. Nenhum deles distingue congestão venosa renal de hipovolemia — os dois cursam com rim ávido por sódio. E nenhum deles mede a coisa que decide a noite, que é o estado de volume do paciente; isso continua sendo exame físico, peso e resposta a uma intervenção controlada.

Ultrassom ajuda a investigar obstrução e estrutura renal, mas resultado inicialmente normal não exclui toda obstrução, especialmente precoce ou em contextos específicos. Se a hipótese continua forte, discutir exame adicional e avaliação urológica sem depender de uma única imagem.

Sexto: o que não pedir, o que existe no SUS, e quando chamar

Sódio urinário, FENa e FEureia são auxiliares com limitações. Diuréticos e vários estados clínicos alteram a interpretação; FEureia não é imune a esses fatores. Não tratar nenhum índice isolado como prova de hipovolemia ou de lesão tubular, e não adiar diurético necessário apenas para colher urina antes.

O que existe no SUS, e é praticamente tudo o que este capítulo pede. Balança, fita métrica e recipiente graduado. Do laboratório: ureia e creatinina, potássio e sódio no sangue e na urina, sumário com sedimento, gasometria. Eletrocardiograma. Ultrassonografia de rins e vias urinárias. Cristaloide isotônico e furosemida injetável, esta última no componente básico da Rename 2024, na apresentação de 10 mg por mililitro. Nenhuma das decisões da noite depende de recurso indisponível — dependem de conversão de unidade e de leitura de folha.

Quando parar de investigar e chamar. O guia hospitalar da Sociedade Brasileira de Nefrologia organiza as indicações de suporte renal em urgências clássicas — acidose, distúrbios eletrolíticos, intoxicações, sobrecarga hídrica e uremia — e em indicações baseadas na relação entre demanda e reserva renal, avaliando a trajetória das escórias, a sobrecarga volêmica e o acometimento de outros órgãos. Traduzido para o telefonema da enfermaria: hipercalemia que não responde às medidas clínicas, acidose grave, congestão que não responde a diurético, uremia sintomática e anúria mantida são conversa com o nefrologista agora, não amanhã.

Resposta insuficiente ao diurético com congestão e piora renal exige reavaliação e possível nefrologia precoce. A decisão de diálise depende de complicações refratárias e do conjunto demanda/capacidade, não de ter recebido duas ampolas. Dose, via, perfusão e resistência diurética devem ser avaliadas; ajuste ou bloqueio sequencial pode ser apropriado sob supervisão, sem atrasar diálise quando indicada.

E há uma indicação de chamar que não é de gravidade, e sim de categoria: sedimento com hemácias dismórficas ou cilindros hemáticos aponta doença glomerular, e esse paciente muda de especialista no mesmo dia. É o único achado deste capítulo que pula todas as etapas seguintes.

07

Da bolsa vazia à decisão: o fluxo e as quatro contas

Interpretar débito urinário e balanço com medidas confiáveis, reconhecer retenção e escolher conduta pela perfusão, congestão e causa.

  1. 1Avaliar sinais de urgência e conferir bexiga/drenagem. Globo sugere retenção; ausência à palpação não a exclui, e bexiga vazia não afasta obstrução alta. Instabilidade, anúria ou complicação metabólica exige ajuda imediata.
  2. 2Havendo cateter, siga-o com a mão do meato à bolsa: tração, dobra, alça pendente, bolsa acima do nível da bexiga, extensão clampeada. Corrija o que achar e reavalie em 15 minutos.
  3. 3Converta o volume drenado em taxa: mililitros divididos pelas horas, e o resultado dividido pelo peso. Escreva o número, em mL/kg/h, na evolução.
  4. 4Pesquisar e tratar hipercalemia conforme valor, tendência, contexto e ECG, em paralelo à avaliação de perfusão e volume. Alteração elétrica exige resposta imediata; ECG normal não exclui risco.
  5. 5Abra a folha de prescrição e some as diluições, os bolus e as salinizações — não só a linha de hidratação. Compare com o peso de hoje, não com o balanço somado.
  6. 6Integrar peso, balanço, perfusão, jugular, pulmões e edema. Urina e índices fracionários são complementares quando úteis; tentar colher antes do diurético sem adiar tratamento urgente.
  7. 7Decida a direção e escreva alvo, teto e horário de reavaliação. Prova de volume com alíquota e limite, ou restrição com auditoria da folha — nunca as duas ao mesmo tempo, nunca nenhuma das duas sem hora marcada.

O livro-razão de 24 horas: o que entra e ninguém soma, o que sai e ninguém mede

LinhaOnde ela se escondeVolume típico em 24 hO que fazer para não perdê-la
Soro de manutençãoÉ a única entrada que a folha costuma registrar bem500 a 2.000 mLConfira se o que corre bate com o prescrito — bomba parada e frasco atrasado são comuns
Diluente de antibióticoEntra com nome de antibiótico, não de líquido100 a 250 mL por doseEscreva o volume do diluente ao lado de cada dose e peça que entre no balanço
Diluente de sintomático se necessárioDose dada de madrugada, sem registro de volume100 mL por dose administradaSome as doses efetivamente dadas, não as prescritas
Salinização e lavagem de acessoNunca registrada em lugar nenhum50 a 120 mLEstime pelo número de manipulações do acesso no dia
Bolus esquecido do plantão anteriorSome na passagem de plantão250 a 1.000 mLPergunte diretamente: correu volume à noite, e quanto
Via oral e o copo da famíliaAnotada como aceitação, sem volume300 a 1.000 mLPeça registro em mililitros e oriente o acompanhante
DiureseRegistrada como presente, sem volumeMedir sempreTotalização por turno, com horário de fechamento escrito na prescrição
Perda insensível de baseNão é medida e quase nunca é estimadaDa ordem de meio a um litroNão invente precisão: confronte com o peso da balança
Acréscimo de febre e taquipneiaSome junto com a febreCentenas de mililitros por episódioRegistre horas de febre e frequência respiratória, e trate a faixa como faixa
Dreno, ostomia, sonda aberta, vômitoMedível e frequentemente não medidoMuito variávelColetor graduado por dispositivo, com totalização por turno
Fezes líquidas em fraldaInvisível para a planilhaCentenas de mililitros por diaRegistre número e aspecto das evacuações; pese a fralda onde houver rotina

O mesmo volume, leituras opostas: o corte traduzido para o peso do paciente

PesoO que já é oligúria em 6 h1.000 mL em 24 h valem300 mL em 6 h valem
45 kgAbaixo de 135 mL0,93 mL/kg/h — diurese folgada1,11 mL/kg/h — normal
60 kgAbaixo de 180 mL0,69 mL/kg/h — normal0,83 mL/kg/h — normal
74 kgAbaixo de 222 mL0,56 mL/kg/h — no limite0,68 mL/kg/h — normal
110 kgAbaixo de 330 mL0,38 mL/kg/h — oligúria franca0,45 mL/kg/h — oligúria

A prova de volume escrita: alvo, teto, relógio e o que faz parar

ItemO que escrever na prescriçãoPor quê
Quem entraOligúrico com exame compatível com hipovolemia e sem sinal de congestãoEm quem já está congesto, a prova de volume é o dano
SoluçãoCristaloide isotônicoÉ o que existe e o que se testa; coloide não tem lugar nesta decisão
AlíquotaHipoperfusão pode contribuir, mas considerar congestão, lesão renal e obstrução; resposta ao volume não é garantidaVolume pequeno o bastante para ser reversível e grande o bastante para responder
Alvo de respostaMelhora da perfusão e da condição clínica; acompanhar diurese como tendência nas horas seguintesO alvo de 0,5 mL/kg/h é referência de vigilância, não ordem para repetir soro até atingi-lo na primeira hora
Alvos de apoioQueda da frequência cardíaca, enchimento capilar mais rápido, pressão que sustentaA diurese é o alvo, mas demora mais que a hemodinâmica
ReavaliaçãoExame dirigido ao fim de cada alíquota, com horário escritoProva sem hora marcada vira infusão contínua por esquecimento
TetoReavaliar após cada bolus e interromper sem benefício ou com intolerância; individualizar limiteNão é necessário completar três alíquotas ou 1.500 mL para reconhecer que mais volume pode prejudicar
Parada imediataEstertores novos, queda de saturação, ortopneia, turgência que apareceCongestão nova interrompe a prova mesmo antes do teto
Onde a régua mudaSepse exige avaliar perfusão, mecanismo e tolerância; volume individualizado e vasopressor quando necessárioAí a régua é a do protocolo de sepse, com 30 mL/kg, e não esta

Oligúrico seco ou oligúrico cheio: os achados que decidem a direção

AchadoA favor de faltar volumeA favor de sobrar volumeRessalva que impede leitura automática
Peso desde a admissãoConferir variação de peso e técnica, integrando ao exame e ao balançoSubiuÉ o dado mais confiável dos oito — exige a mesma balança e o mesmo horário
Balanço acumuladoRegistro incompleto exige reconstrução e melhoria da medida; não elimina o valor de todos os dadosPositivoErra por omissão dos dois lados; use como direção, nunca como valor
Jugular a 45 grausColabadaTúrgidaDifícil de ver no pescoço curto, no obeso e em quem não posiciona
Ausculta pulmonarLimpaEstertores em basesPneumonia, fibrose e derrame produzem ruído sem congestão
Edema com cacifoAusentePresente e novoConvive com vaso vazio no cirrótico, no cardiopata e no hipoalbuminêmico
Mucosa, axila e turgorSecosÚmidosPerdem sensibilidade no idoso; não decidem sozinhos
Variação postural da pressãoQueda ao sentar ou levantarAusenteNão é aferível em quem não levanta; betabloqueador mascara a taquicardia
Perfusão periféricaExtremidade fria, enchimento lentoPode estar ruim nos doisPerfusão ruim com jugular túrgida aponta bomba, não volume

A conversão que abre tudo: taxa em mL/kg/h é o volume drenado dividido pelas horas do intervalo e depois pelo peso. Sem intervalo confiável e sem peso de balança, o número não existe. Se peso/horário forem estimados, ainda há informação útil: explicitar a incerteza e obter medidas melhores, sem adiar avaliação de gravidade.

Em curto intervalo, 1 kg de variação pode corresponder aproximadamente a 1 L de água, mas peso também sofre erros de balança, roupas, dispositivos e condições da pesagem. Confrontar com balanço, perdas não medidas e exame; nenhum dos dois vence automaticamente.

A correção de creatinina pela água acumulada é uma estimativa descrita em estudos, não fórmula obrigatória para diagnosticar ou estadiar IRA. No exemplo histórico, 1,4 × (44,4 + 3,2)/44,4 = 1,501 mg/dL. A aparente precisão depende de estimativas frágeis de água corporal e acúmulo, e não deve decidir sozinha um limiar de 1,5 vez o basal.

Furosemida injetável é de 10 mg por mililitro, e a ampola de 2 mL tem 20 mg. Prescreva em miligramas e confira em mililitros: uma dose de 1 mg/kg num paciente de 74 kg são 74 mg, ou 7,4 mL, e não cabe em número redondo de ampolas.

A velocidade importa tanto quanto a dose: a bula da apresentação injetável limita a infusão venosa a 4 mg por minuto, e a 2,5 mg por minuto quando a creatinina passa de 5 mg/dL. Oitenta miligramas levam, no mínimo, 20 minutos — e 32 minutos no segundo caso.

As duas réguas de volume não se misturam. Prova de volume da enfermaria é alíquota de 250 a 500 mL com teto e reavaliação; ressuscitação de 30 mL/kg é do protocolo de sepse e só se aplica a quem preenche o critério. Num paciente de 74 kg a diferença entre as duas é de 500 para 2.220 mililitros.

Recomendações de volume para sepse não devem ser aplicadas a toda oligúria. Mesmo quando a hipoperfusão é séptica, total e velocidade dependem de resposta e tolerância. A decisão deve registrar os dados do paciente e a fonte vigente, sem inferir intenção editorial de uma frase ambígua.

08

A conduta, hora a hora

A conduta da oligúria começa com uma inversão em relação ao reflexo treinado. O reflexo é escolher entre soro e diurético; a conduta é adiar essa escolha por dez minutos e gastar esse tempo em três coisas que não custam nada — a bexiga, a conta e a folha. Em boa parte das noites a escolha nem chega a ser necessária, porque o problema era mecânico ou porque a auditoria da prescrição já mostra o que sobra.

A linha do tempo abaixo é a do senhor Sebastião: 68 anos, 74 quilos de admissão e 77,2 hoje, quarto dia de pneumonia adquirida na comunidade, sondado desde o pronto-socorro, com 90 mililitros em 8 horas na bolsa e 700 mililitros nas 24 horas anteriores. Cada dose citada traz atrás de si o documento que a sustenta, e cada apresentação é a que a farmácia da rede realmente dispensa.

  1. Minuto 0 a 2 — ao lado da cama, antes de qualquer prescrição

    Avaliar gravidade, perfusão e sinais de complicação enquanto se confere bexiga e sistema de drenagem. Corrigir dobras, alças e altura da bolsa, mantendo sistema fechado e fixação sem tração. Ausência de globo palpável não exclui retenção; usar ultrassom vesical quando houver dúvida. Se persistir bexiga cheia com sonda, considerar obstrução ou mau posicionamento e chamar profissional habilitado para manejo asséptico, sem irrigação forçada ou rotina de troca por calibre maior. Registrar volume liberado e resposta.

    Prescrição
    • Nenhuma medicação nesta etapa. A correção é mecânica e feita pelo próprio plantonista.
    • Escrever na evolução: volume drenado após a correção e horário — 240 mL às 22h20.
    • Orientação de enfermagem: manter bolsa coletora sempre abaixo do nível da bexiga e fora do chão; manter sistema fechado; corrigir dobras e alças; não clampear a extensão em transporte, mobilização ou deambulação; conferir o sistema após cada movimentação. Base: protocolo da Anvisa para cateter vesical, versão 1, ano 2025.
  2. Minuto 2 a 10 — a conta e a folha

    Reconstruir o balanço e conferir o peso com técnica comparável. Peso é dado útil, mas pode sofrer erro; registro de entradas e saídas também. Integrar tendência, exame de congestão, perfusão e função renal. Não escolher sempre a balança como verdade absoluta nem usar uma única medida para ordenar fluidos ou diurético.

    Prescrição
    • Diurese por turno, com totalização em 24 horas e horário de fechamento escrito — não aceitar registro de diurese presente sem volume.
    • Peso diário, mesma balança, mesmo horário, antes do café.
    • Registrar no balanço o volume de diluente de cada medicação venosa e o volume de salinização do acesso.
    • Escrever o peso de admissão e o peso do dia no cabeçalho da prescrição, ao lado da função renal estimada.
  3. Minuto 10 a 30 — exame de volemia e coleta, antes de qualquer diurético

    Exame dirigido ao estado de volume, pelo conjunto e não por sinal isolado: jugulares a 45 graus, ausculta de bases, terceira bulha, cacifo, mucosa e axila, enchimento capilar, temperatura das extremidades. No senhor Sebastião, jugulares levemente túrgidas, estertores finos em base direita que já existiam pela pneumonia, cacifo discreto em ambos os tornozelos que não existia na admissão, mucosa úmida, extremidades quentes. A leitura é de paciente sem depleção e provavelmente acumulando. A coleta de urina é feita agora, e a ordem importa: antes da primeira dose de qualquer diurético.

    Prescrição
    • Sumário de urina com sedimento quando indicado; sódio e creatinina urinários podem complementar investigação selecionada. Se esses índices forem úteis, colher antes do diurético quando viável, sem atrasar tratamento de congestão grave. Registrar horário e medicamentos recebidos.
    • Sangue: creatinina e ureia com o basal ao lado, sódio, potássio, hemograma, gasometria venosa.
    • Se houver hipercalemia relevante ou suspeita, obter ECG prontamente e avaliar gravidade em paralelo ao suporte. O ECG não deve atrasar ressuscitação indispensável nem um corte isolado de 5,5 mmol/L decidir toda a sequência.
    • Escolher fluido, diurético ou outra intervenção pelo quadro clínico. A coleta de urina não é condição obrigatória para tratar edema pulmonar, choque ou hipercalemia.
  4. Hora 1 — a decisão de direção, escrita com alvo e teto

    Com bexiga vazia, cateter drenando, taxa abaixo do corte e exame que não mostra depleção, a direção não é repor: é parar de encher e reavaliar. A conduta é a auditoria da entrada, e ela dá mais volume de manobra do que qualquer diurético. Se o exame tivesse apontado depleção — mucosa seca, jugular colabada, perda de peso, balanço negativo —, a conduta seria a prova de volume da tabela, com alíquota, alvo e teto escritos, e não soro contínuo. A escolha entre as duas direções é o ato médico da noite, e ela se escreve.

    Prescrição
    • Suspender o soro de manutenção de 1.000 mL/24 h: o paciente come, bebe e já recebe cerca de 930 mL por dia em diluentes e salinizações.
    • Revisar volumes de todas as infusões e concentrar somente quando a apresentação, a estabilidade e o acesso permitirem, com validação farmacêutica. Azitromicina EV exige concentração e tempo próprios de bula; não reduzir seu diluente ou acelerar apenas para diminuir balanço. Contabilizar o volume final efetivamente administrado.
    • Rever a dipirona se necessário: manter a indicação, trocando a diluição de 100 mL por administração em volume mínimo.
    • Orientar o paciente e o acompanhante quanto à ingestão hídrica, com registro em mililitros — sem restrição rígida nesta etapa, e sem estímulo a beber por conta.
    • Neste caso sem congestão sintomática, não indicar furosemida apenas para aumentar o número da diurese. Amostra urinária já coletada não é alterada por diurético dado depois. Acompanhar resposta à revisão das entradas, perfusão e função renal.
    • Base da conduta: guia hospitalar do Departamento de Injúria Renal Aguda da Sociedade Brasileira de Nefrologia, 2025 — evitar expansão volêmica desnecessária controlando soros de manutenção e diluições excessivas de medicações no paciente oligúrico.
  5. Hora 2 a 3 — a revisão de nefrotoxinas e a decisão sobre a losartana

    A segunda auditoria da noite é a das drogas, e ela classifica cada linha em três destinos: sai da folha hoje, permanece com dose ou intervalo corrigidos, ou permanece como está. No senhor Sebastião, a losartana de casa foi reintroduzida no segundo dia e está ativa; um anti-inflamatório foi prescrito se necessário para dor lombar e recebeu duas doses ontem. O anti-inflamatório sai da folha. A losartana tem sua suspensão temporária discutida conforme pressão, potássio e progressão renal, com a decisão de reintrodução escrita para a alta — e não esquecida. O ajuste das doses do antibiótico à função renal estimada pertence ao capítulo de ajuste de dose desta coleção, e deve ser feito com o peso e a creatinina do dia.

    Prescrição
    • Suspender o anti-inflamatório não esteroide, inclusive o prescrito se necessário.
    • Reavaliar losartana no contexto de hipotensão, hipercalemia, depleção ou IRA progressiva e suspendê-la temporariamente se indicado. Oligúria isolada não torna todo bloqueador do sistema renina-angiotensina nefrotóxico. Registrar critérios de reintrodução e acompanhamento.
    • Revisar dose/intervalo e toxicidade dos medicamentos com a equipe/farmácia. Equações de depuração são menos confiáveis durante creatinina em rápida mudança; integrar tendência, peso pertinente ao fármaco, diurese, níveis quando disponíveis e quadro clínico.
    • Evitar nefrotóxicos desnecessários. Contraste não é proibido até a diurese recuperar: se exame contrastado urgente tiver benefício decisivo, ponderar risco e medidas apropriadas sem atrasar diagnóstico potencialmente salvador.
  6. Hora 6 — o fechamento do turno, que é a primeira medida real

    Seis horas depois da correção mecânica, fecha-se a primeira totalização confiável. É o intervalo do próprio critério: abaixo de 0,5 mL/kg/h por seis horas é oligúria por definição, e num homem de 74 quilos isso significa menos de 222 mililitros no turno. Este é o número que decide se a noite terminou ou começou. Sebastião produziu 260 mililitros nas seis horas seguintes à desobstrução, o que dá 0,59 mL/kg/h — acima do corte, pela primeira vez em dois dias. A conduta se mantém e não se escala.

    Prescrição
    • Totalizar a diurese do turno e escrever a taxa em mL/kg/h na evolução, não só o volume.
    • Manter a suspensão do soro de manutenção e a auditoria das diluições.
    • Reavaliar ausculta e saturação: entrada excessiva se manifesta primeiro no pulmão.
    • Se a oligúria persistir, reavaliar drenagem, perfusão, congestão, função renal e causa. Ausência de congestão não demonstra depleção nem manda testar volume automaticamente. Considerar bolus apenas se houver necessidade provável e tolerância.
  7. Dia 1, manhã — a visita, o peso e a prescrição reescrita

    Na visita, comparar tendência de peso, entradas/saídas, taxa urinária e creatinina com datas. Sebastião pesa 76,6 kg, produziu 1.050 mL/24 h e tem creatinina de 1,4 mg/dL contra basal de 1,0. Usando peso de admissão de 74 kg, a taxa é 0,59 mL/kg/h; informar qual peso foi usado. Acúmulo hídrico pode diluir creatinina, mas uma fórmula aproximada não substitui os critérios clínicos de IRA nem autoriza inventar precisão. Verificar duração da oligúria, variação de creatinina em 48 horas/7 dias e confiabilidade das medidas antes de estadiar.

    Prescrição
    • Manter diurese por turno com totalização e peso diário; escrever ambos na evolução em taxa e em quilos.
    • Repetir creatinina, ureia, sódio e potássio em 24 horas.
    • Manter suspensos anti-inflamatório e bloqueador do receptor de angiotensina; manter antibiótico ajustado à função.
    • Reavaliar diariamente a indicação do cateter vesical: sem indicação ativa, retirar — o dispositivo agora só mede, e infecta enquanto mede.
    • Escrever no plano: se a taxa de diurese passar seis horas sob 0,5 mL/kg/h, ou surgirem congestão sintomática, hipercalemia refratária, acidose grave ou uremia, contatar a nefrologia.
  8. Dia 2 a 3 e alta — o que fica escrito para depois

    A recuperação da diurese não encerra o assunto, e é aqui que a enfermaria mais falha. O paciente que teve injúria renal, mesmo em estágio inicial, tem risco aumentado de evento cardiovascular, de óbito e de doença renal crônica; e a persistência da disfunção entre 7 e 90 dias tem nome próprio — doença renal aguda. O guia da sociedade brasileira orienta seguimento com creatinina e albuminúria em prazo não superior a três meses após a alta, acompanhamento por nefrologista se a alteração persistir depois desse prazo, e avaliação periódica, pelo menos após um ano, mesmo em quem recuperou completamente.

    Prescrição
    • Retirar o cateter vesical assim que não houver indicação ativa, e registrar diurese espontânea por recipiente graduado.
    • Reavaliar indicação de losartana e reintroduzir quando houver estabilidade clínica, pressão e potássio adequados e função renal compatível; não exigir obrigatoriamente retorno exato ao basal. Programar controle de creatinina e potássio após reintrodução, conforme risco.
    • Definir retorno e controle renal após alta conforme gravidade e recuperação: frequentemente em dias a poucas semanas se persistir alteração ou houver mudança de medicamentos. Reavaliar função renal e albuminúria até 3 meses para resolução/DRC; esse prazo não substitui controle precoce quando necessário.
    • Escrever no relatório de alta que houve episódio de injúria renal aguda durante a internação, com o valor basal, o pico e a data — é o dado que o médico da atenção básica não terá de outro jeito.
    • Orientar por escrito: evitar anti-inflamatório não esteroide por conta própria, e procurar avaliação se houver redução da urina, inchaço ou ganho rápido de peso.
    • Base do seguimento: guia hospitalar do Departamento de Injúria Renal Aguda da Sociedade Brasileira de Nefrologia, 2025.
09

Como saber se está funcionando

Acompanhar diurese, creatinina, peso, balanço, perfusão e congestão com técnica consistente. Discordância entre medidas pede conferência. Recuperação de um número não encerra a avaliação, e peso não é medida imune a erro.

Diurese após diurético informa resposta ao medicamento e ajuda a tratar congestão, mas não prova recuperação da filtração. Ainda tem valor clínico quando interpretada com dose, tempo, função renal e estado volêmico. Não declarar que toda urina induzida é irrelevante nem que normaliza o prognóstico.

Poliúria pode acompanhar recuperação renal, mas também diuréticos, diurese osmótica, resolução de obstrução e outros mecanismos. Avaliar volume, sódio, potássio e perdas; fase poliúrica pode exigir reposição individualizada e vigilância, sem presumir cura.

Persistência de oligúria ou congestão, especialmente com função renal em piora, pede reavaliação e ajuda precoce. Não há regra de terceira ampola: distinguir dose insuficiente, resistência diurética e necessidade de suporte renal. Hipercalemia/acidose refratárias, edema pulmonar refratário e manifestações urêmicas relevantes exigem decisão urgente.

Taxa de diurese em mL/kg/hA cada turno, com totalização escrita; e 1 a 2 horas após qualquer intervenção

Esperado: Acima de 0,5 mL/kg/h — num paciente de 74 kg, mais de 37 mL por hora e mais de 222 mL no turno de 6 horas

Se não melhora: Rever medida, perfusão, congestão, obstrução, medicamentos e lesão renal. As opções incluem suporte circulatório, retirada de agressões, tratamento da causa e avaliação de suporte renal, além de ajustar fluidos. Não reduzir a decisão a dar soro ou restringir.

Peso diário na mesma balançaTodo dia, mesmo horário, antes do café

Esperado: Estabilização e depois queda lenta em quem estava acumulando; estabilização e depois subida discreta em quem estava depletado

Se não melhora: Peso subindo mais de 1 kg por dia com diurese abaixo do corte é acúmulo ativo: audite de novo todas as entradas, incluindo diluentes, e reavalie a indicação de diurético para congestão.

Balanço acumulado, lido contra o pesoFechamento diário, com soma acumulada desde a admissão

Esperado: Concordância de direção com a variação de peso

Se não melhora: Conferir técnica e condições da pesagem, intervalos, entradas e saídas. Discordância pode ser erro em qualquer medida; interpretar junto ao exame e não decretar que o peso está sempre certo.

Ausculta pulmonar, saturação e frequência respiratóriaA cada turno em quem está recebendo volume; a cada 15 a 30 minutos durante prova de volume

Esperado: Sem estertores novos, sem queda de saturação, sem aumento da frequência respiratória

Se não melhora: Piora de respiração, oxigenação ou congestão durante expansão exige interromper o bolus e reavaliar. Não há teto obrigatório de 1.500 mL a completar. Tratar a causa e considerar diurético ou outro suporte conforme mecanismo e gravidade.

Potássio séricoDiário enquanto houver oligúria; imediato se houver alteração no eletrocardiograma

Esperado: Abaixo de 5,5 mmol/L

Se não melhora: Hipercalemia é a principal emergência nefrológica e não espera a manhã. As medidas de proteção de membrana, redistribuição e remoção estão no capítulo de potássio desta coleção; a ausência de resposta a elas é indicação de diálise rápida, não de repetição da sequência.

Creatinina e ureia, com o basal ao ladoA cada 24 horas enquanto a diurese estiver abaixo do corte

Esperado: Estabilização/queda da creatinina medida e da ureia conforme causa e evolução, considerando efeito da diluição sem correção matemática obrigatória.

Se não melhora: Ascensão mantida apesar de bexiga livre, volemia ajustada e nefrotoxinas suspensas muda a pergunta de pré-renal para renal, e o caminho é o do capítulo de injúria renal aguda: sedimento, ultrassom e nefrologia.

Resposta à prova de volumeAo fim de cada alíquota de 250 a 500 mL, com horário escrito

Esperado: Aumento da taxa de diurese na hora seguinte, com queda da frequência cardíaca e enchimento capilar mais rápido

Se não melhora: Reavaliar após cada alíquota. Ausência de benefício ou sinais de congestão pode encerrar a tentativa antes de 1.500 mL; não repetir soro para perseguir isoladamente uma taxa urinária. Revisar perfusão, obstrução, causa renal e sepse.

Resposta ao diurético, quando ele foi indicadoDuas horas após a dose venosa

Esperado: Resposta clínica, diurética e, quando útil, natriurética adequada à estratégia de descongestão. O corte de 200 mL/2 h pertence ao teste de estresse com furosemida padronizado, não a qualquer dose terapêutica.

Se não melhora: Verificar dose, tempo, função renal e perfusão, e discutir escalada/nefrologia conforme gravidade. Resultado de teste de estresse é prognóstico e não constitui indicação autônoma de diálise.

Indicação diária do cateter vesicalToda visita

Esperado: Indicação ativa presente; na ausência dela, retirada no mesmo dia

Se não melhora: Cateter mantido por conveniência de medida é a porta de infecção mais frequente do hospital. Sem indicação, retire e passe a medir por recipiente graduado e peso — os critérios de retirada estão no capítulo de sondagem vesical.

Nível de consciência, náusea, soluços e atrito pericárdicoDiário em quem mantém oligúria com escórias em ascensão

Esperado: Ausentes

Se não melhora: Náusea, soluços e alteração de consciência têm causas diversas. No paciente com lesão renal, avaliar uremia e suas complicações, mas não atribuir esses sintomas automaticamente ao rim. Encefalopatia ou pericardite urêmica provável e outras indicações podem exigir suporte renal urgente.

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Onde o erro machuca

Prescrever furosemida para fazer o rim voltar a funcionar

O dano: A furosemida não trata rim: ela bloqueia a reabsorção de sódio na alça e faz sair água. O guia hospitalar da Sociedade Brasileira de Nefrologia a coloca no tratamento de hipervolemia e de hipercalemia, e em nenhum lugar como tratamento da injúria renal. Dada a um paciente que estava seco, ela aprofunda a hipovolemia e converte um quadro funcional e reversível em lesão tubular estabelecida — a própria bula da apresentação injetável adverte que a droga pode causar insuficiência renal aguda quando há hipovolemia ou desidratação, e lista a insuficiência renal com anúria entre as contraindicações. E há um dano silencioso que ninguém contabiliza: a dose de hoje à noite inutiliza o sódio urinário de amanhã de manhã, porque o rim passa a descartar sódio por causa da droga.

Como pegar a tempo: Furosemida não é tratamento para recuperar filtração renal, mas pode tratar sobrecarga. Confirmar indicação, dose, via, perfusão e monitorização; urina ainda não colhida não impede terapia urgente. Conferir concentração e velocidade da apresentação e acompanhar eletrólitos e resposta.

Ler volume sem converter em taxa, e usar o mesmo corte para todo mundo

O dano: Volume sem intervalo e sem peso não é medida, e o mesmo número diz coisas opostas em pacientes diferentes. Um litro em 24 horas é 0,93 mL/kg/h numa senhora de 45 quilos — diurese folgada — e 0,38 num homem de 110 quilos, que é oligúria franca. O erro tem duas vítimas simétricas: o paciente pesado que passa a noite inteira anotado como quem urinou um litro, com a injúria correndo solta, e o paciente leve que recebe soro por susto e entra na rota do balanço positivo iatrogênico. O guia da sociedade brasileira é explícito ao exigir controle rigoroso não da diurese, mas do fluxo de diurese.

Como pegar a tempo: Nenhum volume entra na evolução sem as duas outras entradas da conta. Escreva o intervalo em horas, o peso de balança e o resultado em mL/kg/h. Peça a totalização por turno com horário de fechamento escrito na prescrição, e escreva o peso de admissão e o do dia no cabeçalho da folha, ao lado da função renal estimada. Onde não houver cateter nem colaboração, o peso diário passa a ser o parâmetro principal.

Manter o soro de manutenção em quem já recebe quase um litro por dia em diluentes

O dano: É a rota mais comum e mais silenciosa para o balanço positivo hospitalar, porque nenhuma linha da prescrição parece errada isoladamente. Quatro medicações venosas diluídas e a salinização do acesso somam facilmente 900 a 1.000 mililitros por dia, e nada disso chega à folha de balanço com nome de líquido. Prescrever mais um litro de manutenção por cima duplica a oferta sem que ninguém tenha decidido duplicá-la, e o acúmulo aparece dias depois como edema, estertores, dessaturação e queda da complacência pulmonar. Há ainda o efeito que quase ninguém associa: o aumento do volume de distribuição dilui antibióticos hidrofílicos, e o paciente encharcado pode estar subtratado da infecção que o internou.

Como pegar a tempo: Some as diluições antes de prescrever hidratação, e não depois. Escreva o volume do diluente ao lado de cada medicação venosa e peça que ele entre no balanço. Em quem come e bebe, a linha de manutenção quase sempre é dispensável — o guia da sociedade brasileira manda controlar soros de manutenção e diluições excessivas de medicações justamente no paciente oligúrico. E reduza o volume de diluição ao mínimo que a bula de cada droga autorizar.

Decidir pela planilha de balanço sem pesar o paciente

O dano: A planilha erra dos dois lados e por omissão: perde entradas que chegam com nome de medicação e perde saídas que ninguém consegue medir — insensível, febre, taquipneia, fralda. Os levantamentos brasileiros reunidos no artigo de atualização sobre preenchimento do balanço descrevem registro incompleto e erro de cálculo como problema estrutural do instrumento, não como acidente de uma unidade. Decidir volume por um documento com erro conhecido é escolher a direção por sorteio, e o custo aparece como litros a mais num paciente que já não excreta.

Como pegar a tempo: Pesar em condições padronizadas e auditar balanço com entradas e saídas reais. A equivalência de 1 kg para aproximadamente 1 L em curto período é uma pista, não verdade automática. Quando houver discordância, verificar os dois instrumentos e o quadro clínico.

Colher o sódio urinário depois da primeira dose de diurético

O dano: O diurético de alça faz o rim descartar sódio independentemente do estado de volume, e isso transforma um paciente pré-renal em um paciente que parece ter lesão tubular estabelecida. O exame não fica impreciso: ele fica enganoso, e aponta para o lado errado. Como a dose costuma ser dada de madrugada e a coleta é feita na rotina da manhã, o erro é quase invisível — o resultado chega parecendo válido, e ninguém sabe que ele foi produzido pela prescrição.

Como pegar a tempo: Se índices urinários forem úteis, colher antes do diurético quando possível. Após a dose, registrar tempo e interpretar a finalidade do exame: FENa perde especificidade para etiologia, FEureia também não é imune, e natriurese pode ajudar a avaliar resposta diurética. Nunca atrasar descongestão grave para preservar uma amostra.

Aplicar os 30 mL/kg da sepse a um oligúrico que não tem critério de sepse

O dano: Os 30 mililitros por quilo do protocolo brasileiro de sepse existem para hipoperfusão em paciente séptico, e a oligúria entra ali como um dos sinais que autorizam começar sem esperar a pressão cair. Fora desse contexto, o mesmo volume é apenas volume: num homem de 74 quilos são 2.220 mililitros de uma vez. Num oligúrico já congesto, essa infusão é a diferença entre uma noite tranquila e uma dessaturação de madrugada, com estertores, ortopneia e queda de complacência pulmonar — sem que a diurese melhore, porque o problema dele era pressão de saída, não de entrada.

Como pegar a tempo: Não usar oligúria como indicação automática de 30 mL/kg nem de restrição. Verificar sepse, hipoperfusão, perdas e congestão. Se fluido estiver indicado, reavaliar após cada alíquota e parar sem benefício ou com intolerância; não impor teto universal de três bolsas nem perseguir diurese isoladamente.

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O que dizer ao paciente e à família

A conversa da oligúria tem uma dificuldade específica: o paciente e a família percebem que algo mudou, mas o que mudou é um número que eles não veem e um volume que ninguém mostrou a eles. E com frequência a causa está na prescrição — o anti-inflamatório, o remédio da pressão reintroduzido, o soro que correu demais. Falar disso sem se esconder e sem transformar o quarto em tribunal é parte da conduta, não um adorno dela.

Duas orientações práticas atravessam todas as falas abaixo. Nomeie o que você não sabe, com prazo: incerteza dita com data é informação, incerteza dita sem data é abandono. E dê à família uma tarefa concreta — anotar o que o paciente bebe, avisar quando ele urinar, não oferecer água por conta própria enquanto houver restrição. Família com tarefa participa; família sem tarefa vigia.

Explicar por que você está mexendo na sonda e no soro antes de pedir exame

Seu Sebastião, a urina do senhor está saindo menos do que deveria, e antes de pedir exame eu preciso conferir duas coisas simples aqui do lado da cama. A primeira é se a bexiga está cheia, e ela não está. A segunda é o caminho da sonda, porque às vezes o tubo dobra e a urina fica presa no meio do caminho — foi o que aconteceu agora. Vou desfazer essa dobra e a gente vai ver o que sai nos próximos minutos.

Não diga: Não mexa no dispositivo em silêncio. Paciente que vê o médico manuseando a sonda sem explicação entende que algo deu errado e que estão consertando escondido.

Dizer que a urina diminuiu, sem alarmar e sem minimizar

O rim do senhor está trabalhando menos do que na semana passada. Isso acontece com frequência em quem está internado, muitas vezes tem causa que a gente consegue corrigir, e é justamente por isso que a gente mede a urina de hora em hora agora. Não é uma coisa para o senhor resolver hoje; é uma coisa para a gente acompanhar de perto nos próximos dias.

Não diga: Não diga que o rim está falhando nem que é normal. A primeira frase assusta sem informar, e a segunda tira do paciente a razão de colaborar com a medida.

Explicar que a causa pode estar no tratamento

Estamos conferindo as entradas de líquido, a urina e o peso porque os registros não estão concordando. Vou explicar o que conseguimos confirmar e como ajustaremos o tratamento. Se identificarmos uma falha na administração ou no registro, vamos documentar e corrigir o processo com a equipe.

Não diga: Não use a palavra erro nem culpe um colega nominalmente, e não esconda a relação com a prescrição. A família quase sempre já desconfia, e a omissão é o que destrói a confiança.

Pedir que a família pare de oferecer água por conta própria

Eu sei que parece o contrário do que faz sentido, mas neste momento oferecer mais líquido pode piorar a situação dele. O corpo está segurando água em vez de eliminar, e o excesso vai para o pulmão e para as pernas. O que a senhora pode fazer, e ajuda muito, é anotar tudo que ele beber, em copo ou em colher, e me contar amanhã. E me avisar assim que ele urinar.

Não diga: Não proíba sem explicar o mecanismo e sem oferecer uma tarefa alternativa. Proibição seca é desobedecida no primeiro turno em que ninguém está olhando.

Explicar a pesagem diária, que parece burocracia

Vamos acompanhar o peso todos os dias nas mesmas condições e comparar com o líquido que entra, a urina e o exame. Uma mudança rápida pode indicar água acumulada, mas também precisamos conferir a balança e os registros. Esses dados juntos vão orientar o soro e os outros cuidados.

Não diga: Não trate a pesagem como praxe de enfermagem. Quando o paciente entende que aquele número decide a prescrição, a medida deixa de ser pulada.

Falar de incerteza com prazo, quando a direção ainda não está clara

Neste momento eu ainda não sei dizer se falta líquido ou se está sobrando, e essas duas coisas têm tratamentos opostos — por isso eu não vou chutar. O que eu vou fazer é dar uma quantidade pequena e medida de soro e reavaliar o senhor em uma hora, com estetoscópio e com a medida da urina. Se melhorar, a gente continua. Se não melhorar, eu paro e mudo o caminho.

Não diga: Não diga que vai observar. Observar sem alvo e sem hora soa igual a não fazer nada, e não é o que está acontecendo.

Preparar a conversa sobre nefrologista e diálise, antes que ela seja urgente

Se nas próximas horas a urina não melhorar, ou se os exames de sangue piorarem, eu vou chamar o nefrologista, que é o especialista de rim. Chamar ele não quer dizer que o senhor vai precisar de diálise — quer dizer que a gente quer a opinião de quem faz isso todo dia, no momento em que ainda dá tempo de escolher. Eu prefiro chamar cedo e não precisar do que chamar tarde.

Não diga: Não prometa que não haverá diálise e não anuncie diálise como ameaça. Nenhuma das duas frases sobrevive à evolução do quadro, e as duas custam a confiança da conversa seguinte.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Teste de estresse com furosemida na enfermaria geral, fora da terapia intensiva

A favor: o teste identifica precocemente quem tem maior risco de progressão e de necessidade de diálise, e essa informação muda o momento do telefonema. A dose parte de 1 miligrama por quilo, sobe para 1,5 miligrama por quilo quando o paciente já vinha em uso de diurético, e só se aplica a quem foi considerado euvolêmico ou hipervolêmico; a leitura é a diurese das duas horas seguintes, com corte em 200 mililitros. Quem não responde é o paciente que não se deve continuar observando.

Guia de assistência nefrológica hospitalar do Departamento de Injúria Renal Aguda da Sociedade Brasileira de Nefrologia, Braz J Nephrol 2025;47(3):e20240239

Contra, na enfermaria: a mesma droga que serve de teste é nefrotóxica no paciente errado. A bula da apresentação injetável lista a insuficiência renal com anúria entre as contraindicações e adverte que a furosemida pode causar insuficiência renal aguda quando existe hipovolemia ou desidratação — e a avaliação de volemia à beira do leito, sem monitorização, é justamente o ponto fraco da enfermaria. Num paciente de 74 quilos o teste significa 74 miligramas em bolus, com limite de velocidade de 4 miligramas por minuto, num ambiente sem vigilância contínua.

Bula profissional da furosemida 10 mg/mL solução injetável, Blau Farmacêutica

Como decidir

Teste de estresse com furosemida é ferramenta prognóstica padronizada em pacientes selecionados, após excluir hipovolemia e obstrução e com monitorização adequada. A dose do teste não é a dose obrigatória para toda congestão, e resposta <200 mL/2 h não indica diálise sozinha. Se houver dúvida de volemia, discutir avaliação adicional com a equipe; 500 mL de soro também podem causar dano e não são simplesmente reversíveis.

O balanço acumulado é um número com que se calcula, ou apenas uma direção

É número: a revisão brasileira sobre balanço hídrico e injúria renal propõe usar o balanço acumulado dentro de uma fórmula, corrigindo a creatinina medida pela hemodiluição — multiplica-se a creatinina pela razão entre a água corporal de admissão somada ao acumulado e essa mesma água corporal. O uso dessa correção antecipou o diagnóstico de injúria renal em pelo menos um dia, o que significa que o acumulado carrega informação quantitativa aproveitável.

Ávila MON e cols., Balanço hídrico, injúria renal aguda e mortalidade de pacientes em unidade de terapia intensiva, J Bras Nefrol 2014;36(3):379-388

É direção: o artigo brasileiro de atualização sobre preenchimento e interpretação do balanço reconhece que o cálculo em adultos nem sempre considera as perdas insensíveis, pela impossibilidade de medi-las, e que os levantamentos nacionais descrevem registro incompleto de infundidos e eliminados e erro no próprio cálculo. Por isso ele recomenda que o resultado seja lido em conjunto com o exame físico e com os exames, e não isolado — um número construído sobre omissões conhecidas não sustenta aritmética fina.

Mendonça AEO e cols., Preenchimento e interpretação do balanço hídrico em unidade de terapia intensiva, Revista Ciência Plural (UFRN)

Como decidir

Peso e balanço são complementares. Conferir qualidade de ambos, identificar intervalos e estimativas e integrar exame. Fórmula de correção da creatinina, se discutida, deve ser apresentada como estimativa de pesquisa, não como valor laboratorial substituto ou critério isolado de estágio. Não trocar automaticamente balanço por variação ponderal como se 1 kg fosse sempre exatamente 1 L.

Quanto volume dar ao oligúrico cuja volemia ficou ambígua depois do exame

Régua da sepse: a oligúria com corte de 0,5 mL por quilo por hora é sinal de disfunção orgânica e de hipoperfusão, e, na revisão de 2026, manda avaliar a ressuscitação imediata — 30 mililitros por quilo de cristaloide como volume de referência, começados na primeira hora e terminados em até 3 horas — sem esperar que a pressão caia. Esperar a hipotensão para começar é perder a janela em que a ressuscitação previne isquemia tecidual, inclusive renal.

Instituto Latino Americano de Sepse, protocolo clínico de atendimento ao paciente adulto com sepse e choque séptico, revisão de julho de 2026, que substituiu a de agosto de 2018

Régua da nefrologia hospitalar: evitar expansão volêmica desnecessária, controlando a administração de soros de manutenção e as diluições excessivas de medicações, e desestimular a ingestão hídrica excessiva — com menção expressa ao paciente oligúrico. A recomendação para quem já está oligúrico não é oferecer mais líquido; é auditar o que já entra.

Guia de assistência nefrológica hospitalar do Departamento de Injúria Renal Aguda da Sociedade Brasileira de Nefrologia, Braz J Nephrol 2025;47(3):e20240239

Como decidir

A decisão de fluido depende de hipoperfusão, provável benefício e tolerância, inclusive na sepse. Não há oposição entre bolus pequenos e a referência de 30 mL/kg para hipoperfusão por sepse: essa ressuscitação também é reavaliada durante a administração. Sem indicação de fluido, revisar entradas; com depleção provável, bolus cauteloso. Incerteza sozinha não torna todo desafio de volume seguro.

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O raciocínio, em voz alta

Vinte e três e quarenta, enfermaria de clínica médica. Dona Doralice Bittencourt tem 62 anos, 58 quilos na admissão, e está no sexto dia de internação por colecistite tratada clinicamente, aguardando cirurgia. Tem insuficiência cardíaca conhecida, com fração de ejeção reduzida, e usa furosemida e um bloqueador do receptor de angiotensina em casa — os dois suspensos na admissão e nunca reintroduzidos. A técnica chama: a diurese do turno foi de 120 mililitros em seis horas, ela está sem sonda, urinando espontaneamente em comadre, e queixa-se de falta de ar quando deita.

  1. O que penso agora

    120 mL/6 h/58 kg = 0,34 mL/kg/h: abaixo de 0,5, porém acima de 0,3. A duração e a confiabilidade da coleta importam para estadiamento. Ortopneia pede avaliação respiratória e de congestão, com ajuda precoce se houver deterioração; bexiga e sistema de coleta também devem ser conferidos.

  2. O que faço primeiro

    Hipogástrio sem massa e micção recente tornam retenção volumosa menos provável, sem excluí-la. Se houver dúvida, ultrassom vesical ajuda; bexiga vazia não elimina obstrução ureteral. Continuo a avaliação de perfusão e congestão em paralelo.

  3. O exame que decide a direção

    Jugulares túrgidas com a cabeceira a 45 graus. Estertores finos até um terço dos hemitórax, bilaterais, que a evolução de ontem não registrava. Terceira bulha audível. Cacifo até a metade das pernas. Extremidades frias, enchimento capilar de três segundos. Pressão 104 por 68, frequência 104, saturação 91% em ar ambiente, frequência respiratória 26. É a combinação que mais engana: perfusão ruim e congestão franca ao mesmo tempo.

  4. Como a resposta muda o que penso

    Extremidade fria com jugular túrgida não é falta de volume — é bomba insuficiente com pressão de saída elevada. O rim dela está sendo estrangulado por trás, exatamente pelo mecanismo da pressão venosa que o bloco de mecanismo descreveu. Se eu tivesse lido apenas a perfusão periférica e prescrito soro, teria piorado a única variável que já estava alta.

  5. O que peço

    O peso passou de 58 para 62,4 kg, aumento de 7,6%, compatível com retenção no contexto clínico. A equivalência de 4,4 L é aproximada. Não é preciso atingir 10% para haver sobrecarga clinicamente importante: ortopneia, estertores e hipoxemia já exigem conduta. Obter exames indicados e amostra urinária se útil, sem atrasar descongestão e suporte.

  6. A folha, que é onde estava a causa

    A prescrição tem soro fisiológico de 1.500 mL em 24 horas, prescrito no dia da admissão para uma paciente que estava vomitando e que hoje come normalmente. Tem também piperacilina-tazobactam de seis em seis horas, cada dose em 100 mL, mais 400 mL por dia. Somando as salinizações, ela recebe cerca de 2 litros por veia sem que ninguém tenha decidido isso hoje — e a furosemida que ela tomava em casa, e que sustentava o equilíbrio dela, está suspensa há seis dias.

  7. A decisão

    A direção é retirar volume, não oferecer. Suspendo o soro de manutenção, reduzo as diluições ao mínimo autorizado, e prescrevo furosemida venosa. Aqui a indicação é a que o guia da sociedade brasileira reconhece: tratamento de hipervolemia, com congestão sintomática documentada — ortopneia, estertores novos, queda de saturação. Não estou tratando o rim; estou tirando água do pulmão.

  8. A prescrição, escrita por extenso

    Suspender manutenção sem indicação e avaliar suporte respiratório com a equipe: elevar cabeceira se tolerado e titular oxigênio para faixa apropriada, em geral 92–96% quando não há risco de retenção de CO2. Na congestão, selecionar furosemida EV conforme uso prévio, função renal e resposta, conferindo a administração. Solicitar ajuda imediatamente se houver hipóxia importante, fadiga ou instabilidade; não esperar o efeito diurético para apoiar ventilação.

  9. Como sei se está funcionando

    Duas horas depois: 380 mililitros, o que dá 3,3 mL/kg/h nesse intervalo. A frequência respiratória caiu para 20, a saturação subiu para 95% com 2 litros por minuto, e a ortopneia melhorou o suficiente para ela conseguir deitar. A ausculta ainda tem estertores, mas em menor extensão. O peso de amanhã é que dará a medida real; a diurese de duas horas dá a direção.

  10. O que fica escrito para o plantão seguinte

    Na evolução: peso de admissão e do dia, acumulado de 4,4 litros pela balança, taxa de diurese antes e depois do diurético, e a frase que evita a repetição do erro — a paciente não estava seca, estava congesta, e a oligúria era de pressão de saída. No plano: reintroduzir a furosemida domiciliar antes da alta, reavaliar o bloqueador do receptor com creatinina estável, e prescrever creatinina e albuminúria em até três meses, com retorno marcado, conforme o seguimento pós-injúria renal que o guia da sociedade recomenda.

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Faça você

Duas e vinte da madrugada, mesma enfermaria. Seu Elpídio Vasconcelos tem 71 anos, 110 quilos, e está no terceiro dia de internação por celulite extensa em perna esquerda. É diabético, hipertenso, e caminha com bengala. A técnica avisa que ele urinou 300 mililitros nas últimas seis horas, medidos em papagaio, e que a auxiliar anotou diurese presente no turno anterior sem volume. Ele está sem sonda. Refere sede, boca seca, e não come desde o almoço porque estava enjoado. Pressão 108 por 62 deitado, frequência 96. Sem edema novo além da perna acometida. A folha traz soro fisiológico de 500 mL em 24 horas, oxacilina de quatro em quatro horas em 100 mL por dose, e dipirona se necessário.

  1. Passo 1 — converta antes de julgar

    Trezentos mililitros em seis horas parecem tranquilizadores, e é exatamente por isso que a conta precisa ser feita. Divida o volume pelo intervalo para achar o fluxo por hora, e o fluxo pelo peso de 110 quilos. Compare o resultado com o corte de 0,5 mL/kg/h antes de qualquer outra consideração.

  2. Passo 2 — feche a bifurcação mecânica

    Ele não tem cateter, então o trajeto do tubo não se aplica. Resta o hipogástrio: palpação e percussão. Considere também o que a diabetes acrescenta a essa avaliação, e o que a ausência de dor não exclui num paciente com neuropatia de longa data.

  3. Passo 3 — leia a folha somando o que não parece líquido

    Some as entradas reais de 24 horas: a linha de manutenção, o diluente de cada dose de oxacilina no esquema de seis vezes ao dia, as doses de dipirona efetivamente administradas com o volume de diluição, e as salinizações do acesso. Compare o total com o que a folha de balanço registrou, e depois compare com a necessidade de um homem de 110 quilos que está em jejum desde o almoço.

  4. Passo 4 — decida a direção pelo conjunto, não por um sinal

    Sede, boca seca, jejum desde o almoço e ausência de edema novo apontam para um lado; a pressão limítrofe e a frequência de 96 apontam na mesma direção. Verifique o que falta para fechar essa leitura, incluindo o dado numérico mais confiável dessa avaliação, e diga o que você faria se ele estivesse indisponível.

  5. Passo 5 — escreva a conduta com alvo, teto e horário

    Escolha a régua correta — a da enfermaria ou a da sepse — justificando pela presença ou ausência de critério. Depois escreva a intervenção completa: solução, alíquota, tempo de infusão, alvo de diurese em mL/kg/h e em mililitros por hora para 110 quilos, teto de volume total, horário da reavaliação e os achados que interrompem a prova antes do teto. Diga também qual coleta precisa acontecer antes da primeira dose de qualquer diurético.

Ver como fecharíamos

300 mL/6 h = 50 mL/h; divididos por 110 kg, 0,45 mL/kg/h. Esse cálculo fica abaixo de 0,5 usando peso real, mas um turno anterior sem volume não comprova oligúria anterior. Em obesidade, escolha do peso pode alterar classificação; registrar a base e interpretar com creatinina, perfusão e evolução. Investigar retenção mesmo sem dor em neuropatia diabética. Palpação negativa não a exclui; usar ultrassom vesical se disponível e indicado, com cateterismo apenas pela necessidade clínica. Obstrução alta também pode existir com bexiga vazia. Entradas conhecidas: 500 mL de manutenção + 600 mL de diluente da oxacilina = 1.100 mL/dia. Somar volumes efetivamente administrados de dipirona, salinizações, via oral e demais fontes; a vinheta não informa quantas doses de dipirona nem o volume das salinizações. Não inventar esses dados para fechar 1.400 mL. Peso real de 110 kg e jejum, sozinhos, também não comprovam déficit: avaliar peso/altura, perdas, ingesta, exame e função cardíaca/renal. A infecção já existe; ausência de febre alta, hipotensão ou confusão não exclui sepse. Esclarecer se há disfunção nova atribuível à infecção e hipoperfusão. Nada obriga 3.300 mL apenas pela oligúria. Se o conjunto apoiar depleção e tolerância, testar 250 a 500 mL de cristaloide em 15 a 30 minutos, com reavaliação durante e ao fim. Avaliar perfusão e sintomas, acompanhando diurese nas horas seguintes; 55 mL/h é o equivalente aritmético de 0,5 pelo peso real, não alvo para bolus repetidos. Interromper sem benefício ou com congestão, sem precisar atingir três bolsas/1.500 mL. Colher creatinina, eletrólitos e urina conforme indicação. Índices urinários antes do diurético podem ajudar em situações selecionadas, mas não são obrigatórios nem devem atrasar tratamento. Controlar náusea, retomar ingestão quando segura e recalcular o aporte total. Se persistir oligúria, houver anúria, distúrbio metabólico ou piora, chamar a equipe e avaliar nefrologia.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Os diluentes somam 200 de ceftriaxona, 250 de azitromicina, 100 de omeprazol e 300 de dipirona, mais cerca de 80 mililitros de salinização — perto de 930 mililitros por dia que entram na veia do paciente e não chegam à folha, porque chegam com nome de antibiótico, de analgésico e de lavagem de acesso. Isso quase dobra a oferta real e se repete todo dia enquanto a prescrição não muda. Diluente é volume infundido e conta como aporte. A correção prática é escrever o volume do diluente ao lado de cada medicação venosa e somá-lo antes de decidir quanto soro prescrever — em quem come e bebe, a linha de manutenção costuma ser dispensável. Água endógena é produção, não perda, e perda insensível é saída, não desconto de entrada.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Calcule taxas para pesos diferentes e explique o efeito de uma medida incerta. Compare retenção, depleção e congestão sem usar um sinal isolado.

Em 30 dias

Explique por que furosemida não recupera filtração, por que FEureia não é imune a interferências e quais complicações exigem nefrologia urgente. Monte um plano de alta após IRA.

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Agora atenda

Agora atenda. Dez da noite, enfermaria de clínica médica: a enfermagem chama por causa de uma bolsa coletora quase vazia num paciente internado há quatro dias, e não vai lhe entregar nenhum diagnóstico. O roteiro é o deste capítulo, na mesma sequência: checar a bexiga e o trajeto do cateter antes de pedir exame algum, transformar o volume da bolsa em mililitros por quilo por hora, somar na folha o que entra com nome de medicação, decidir se falta ou se sobra volume, e escrever a conduta com alvo, teto e horário de reavaliação. Vai precisar também dizer ao paciente e à família o que está acontecendo sem prometer o que não pode cumprir.

Oligúria e balanço hídrico — Internato | OsceLabs