Clínica MédicaSíndromes do Paciente Internado

Queda do paciente internado

A enfermagem liga dizendo que o do 7 está no chão, e as duas decisões que mais erram vêm logo em seguida: se pode levantar antes de examinar, e se pede tomografia num idoso anticoagulado que está conversando com você. Este capítulo é sobre isso — e sobre a parte que quase ninguém associa a queda, que é a prescrição de ontem à noite.

Fontes deste capítulo

Ministério da Saúde / Anvisa / Fiocruz — Protocolo Prevenção de Quedas (Anexo 01 dos Protocolos Básicos de Segurança do Paciente, aprovados pela Portaria GM/MS nº 2.095, de 24 de setembro de 2013)

Ministério da Saúde — Portaria GM/MS nº 2.095, de 24 de setembro de 2013, que aprova os Protocolos Básicos de Segurança do Paciente

Agência Nacional de Vigilância Sanitária — Resolução RDC nº 36, de 25 de julho de 2013, que institui ações para a segurança do paciente em serviços de saúde (Diário Oficial da União nº 143, de 26 de julho de 2013, Seção 1, páginas 32 e 33)

Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo — Atendimento de Urgência ao Paciente Vítima de Trauma: Diretrizes Clínicas. Versão 2018, aprovada em 30 de setembro de 2018

Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares / Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro — Protocolo PRT.NPM.006: Quedas, prevenção e atendimento imediato. Versão 2, emissão de 3 de setembro de 2020

01

Responda antes de ler

Confirmada fratura do colo do fêmur numa paciente de 82 anos que caiu na enfermaria às 4h10, com hemoglobina de 11,2 g/dL e sem descompensação clínica. Quais condutas a diretriz brasileira determina enquanto ela aguarda a cirurgia?

02

O paciente que você vai ver

Quatro e dez da manhã, enfermaria de clínica médica de dezoito leitos. O telefone do posto toca e a técnica de enfermagem diz seis palavras: a do 7 está no chão. Você é o interno de plantão. Do outro lado da linha há uma pausa curta, e depois a frase que decide a próxima hora: a gente já pode levantar?

O leito 7 é da dona Rosalina Zanotto, 82 anos, 54 quilos, quinto dia de internação por pneumonia adquirida na comunidade. Ela melhorou: está afebril há dois dias, saturando 95% em ar ambiente, comendo. Tem fibrilação atrial e usa varfarina há sete anos. Ontem à tarde, na visita, você a encontrou sentada na poltrona conversando com a filha, e escreveu no evolutivo que ela estava bem. Foi você quem prescreveu, ontem às onze da manhã, dois itens que agora importam: furosemida às 8h e às 20h, porque ela estava com edema de membros inferiores, e zolpidem se necessário à noite, porque ela reclamou que não dormia com o barulho da enfermaria. O zolpidem foi administrado às 23h40 e está checado na folha.

Quando você chega, ela está sentada no chão do banheiro, encostada na parede, acordada, com a mão no quadril direito. Diz que foi ao banheiro sozinha porque estava com muita vontade de urinar e não quis incomodar ninguém, que se levantou depressa, que a vista escureceu, e que a partir daí não lembra direito. Há um pouco de sangue no couro cabeludo, atrás. A técnica está ao lado dela, com as mãos sob as axilas da paciente, esperando você dizer alguma coisa.

Uma queda hospitalar pode causar lesão importante mesmo quando parece pequena, mas nem toda queda produz dano irreversível. Avaliar primeiro estabilidade, trauma e sintomas; depois investigar fatores contribuintes e ajustar prevenção. O episódio pode ser multifatorial, e a prescrição precisa ser revista sem presumir que todos os medicamentos envolvidos sejam a causa comprovada.

03

Quem adoece disso

Comece pela ordem de grandeza, porque ela reposiciona a queda de raridade para rotina. Num hospital universitário de 843 leitos do Sul do Brasil, contando as unidades clínicas, cirúrgicas, a psiquiátrica e a emergência, ocorreram 2.296 quedas em 1.350.256 pacientes-dia entre 2011 e 2015 — índice médio de 1,70 queda por mil pacientes-dia. A meta da própria instituição era de até 2 por mil pacientes-dia. Traduzindo para o tamanho da enfermaria em que você trabalha: uma unidade de vinte leitos, cheia, produz cerca de seiscentos pacientes-dia por mês, o que dá aproximadamente uma queda por mês nesse mesmo patamar. Não é um evento de carreira, é um evento de plantão.

O segundo número diz quem cai e quando. Acompanhando prospectivamente 1.487 pacientes adultos de dois hospitais universitários gaúchos, 104 caíram durante a internação — 7,0%. E a distribuição no tempo é o dado que muda a sua rotina: 51,9% caíram no primeiro dia de internação e 26,0% no segundo. Somando, quase oito em cada dez quedas aconteceram nas primeiras 48 horas. É exatamente a janela em que o paciente ainda não conhece o quarto, ainda não sabe de que lado fica o banheiro, está mais descompensado do que estará depois, e acabou de receber uma prescrição inteira de medicamentos que ele nunca tomou juntos. A avaliação de risco de queda não é tarefa do terceiro dia: ela é da admissão, como manda o protocolo nacional, e se repete todo dia até a alta.

O terceiro número é o do dano, e ele desmonta a ideia de que queda hospitalar é susto. Numa série de 597 quedas notificadas em unidades clínico-cirúrgicas de um hospital geral ao longo de quase cinco anos, 260 tiveram dano — 43% delas. Entre essas 260, o dano foi leve em 210 casos (80,8%), moderado em 19 (7,3%) e grave em 31 (11,9%). Houve cinco óbitos decorrentes das quedas, 1,9% do total com dano: três entre cinco e sete dias depois do evento, e dois em menos de 24 horas. Entre os danos graves havia 12 fraturas, duas delas de fêmur, e 10 casos de perda de consciência ou alteração do estado mental. Guarde os cinco óbitos: três deles não aconteceram na noite da queda, e sim quase uma semana depois. Queda com dano é evento de trajetória, não de plantão — e por isso o dano dela não aparece para quem só olha o paciente no dia seguinte.

O quarto número é o retrato do evento, e ele descreve a cena da dona Rosalina quase item por item. Nessa mesma série, 78% dos pacientes que caíram com dano tinham 65 anos ou mais, com média de 73 anos; 55% eram mulheres; 68% estavam internados por tratamento clínico, não cirúrgico; e 85% já tinham fator de risco identificado antes de cair, sendo os mais frequentes a alteração da marcha (68%), o nível de consciência alterado (35%) e o uso de pelo menos três medicamentos de risco (31%). A queda foi da própria altura em 165 dos 260 casos; o local foi o quarto do paciente em 175 e o banheiro em 81. E o dado mais desconfortável: em 59,4% das quedas o paciente estava sozinho, e em apenas 3,8% havia um profissional de saúde junto. Num hospital privado de São Paulo, a mesma fotografia: 41,3% dos eventos no turno noturno, 65,0% no quarto e 26,3% no banheiro. A queda tem endereço, horário e perfil — idoso, à noite, indo ao banheiro, sozinho, já sinalizado como de risco.

Feche com a consequência que justifica todo o resto do capítulo. A fratura do fêmur proximal no idoso, que é o desfecho que mais tememos, não é um problema ortopédico com um mês de duração: numa revisão de 25 estudos somando 24.062 pacientes com mais de 60 anos, a mortalidade foi de 5,5% durante a internação e de 19,2% ao fim de um ano, contra 5,2% em um ano nos grupos-controle sem fratura. Em dois anos, 24,9% contra 9,6%. Não se trata de dizer que a fratura causa sozinha essa diferença — os quatro fatores mais associados à mortalidade nessa revisão foram idade avançada, número de doenças associadas, sexo masculino e déficit cognitivo, que são justamente as características de quem cai. O que o número diz é outra coisa, e é suficiente: o paciente que quebra o quadril no seu plantão entra num grupo em que um em cada cinco não estará vivo daqui a um ano. Isso muda o preço de trinta segundos de pressa às quatro da manhã.

04

Por que acontece o que acontece

Cair é falhar em manter o centro de gravidade sobre a base de apoio. Isso depende de três coisas funcionando ao mesmo tempo: informação sensorial confiável (visão, propriocepção, aparelho vestibular), processamento central rápido o bastante para corrigir antes de o corpo passar do ponto, e força muscular suficiente para executar a correção. O idoso internado costuma ter as três reduzidas de base. O hospital então acrescenta um quarto elemento, que é o único inteiramente seu: a prescrição. E o valor pedagógico da queda hospitalar está aí — dos quatro elementos, três já chegaram prontos com o paciente e um foi escrito por você na véspera.

A prescrição derruba por três rotas, e vale separá-las porque a conduta é diferente em cada uma. A primeira rota é a do processamento: benzodiazepínico, hipnótico não benzodiazepínico, opioide, antipsicótico, antidepressivo, anti-histamínico de primeira geração e relaxante muscular reduzem vigília, atenção e tempo de reação. O paciente até percebe que está desequilibrando, mas percebe tarde e corrige devagar. O protocolo nacional de prevenção de quedas nomeia essas classes uma a uma entre os fatores de risco, e nomeia junto os antiarrítmicos, a digoxina, os diuréticos, os laxativos, os vasodilatadores, os hipoglicemiantes orais e a insulina — além de listar a própria polifarmácia, definida ali como o uso de quatro ou mais medicamentos, como fator autônomo. Isso é a versão brasileira e oficial da regra que o interno precisa internalizar: o que conta não é a droga isolada, é a soma da folha.

A segunda rota é hemodinâmica, e é a mais subestimada porque é silenciosa enquanto o paciente está deitado. Anti-hipertensivo, diurético, nitrato, alfabloqueador e antidepressivo tricíclico reduzem a capacidade de sustentar pressão quando o paciente muda de decúbito. As diretrizes brasileiras de hipertensão definem hipotensão ortostática como redução de 20 mmHg ou mais na pressão sistólica, ou de 10 mmHg ou mais na diastólica, dentro do terceiro minuto em pé, e mandam procurá-la ativamente em idosos, diabéticos, disautonômicos e em quem usa anti-hipertensivo, medindo a pressão a 1 e a 3 minutos depois de o paciente ficar de pé. Cerca de 20% dos idosos têm hipotensão ortostática, e cerca de 30% dos idosos institucionalizados têm hipotensão pós-prandial. Repare no que isso implica no seu andar: o paciente internado passa vinte e três horas por dia deitado, a pressão dele é aferida deitado, e o único momento em que ele fica em pé é justamente aquele em que ninguém está medindo nada. A hipotensão ortostática da enfermaria não é subdiagnosticada por dificuldade técnica. É subdiagnosticada porque exige levantar o paciente, e levantar o paciente dá trabalho.

Vale aqui uma correção de rota, porque a leitura preguiçosa desse parágrafo produz um erro pior do que o que ele corrige. Concluir que anti-hipertensivo derruba idoso e portanto não se deve tratar hipertensão no idoso é ir contra a evidência: as mesmas diretrizes registram, com grau de recomendação I e nível de evidência B, que em ensaios clínicos randomizados o controle da hipertensão reduziu eventos cardiovasculares sem aumento do risco de hipotensão ortostática ou de quedas com lesão. O que derruba não é tratar; é tratar sem medir em pé, é o horário mal escolhido, é a dose empilhada com outra droga hipotensora, e é a hipertensão mal controlada, que a própria diretriz lista como causa de hipotensão ortostática. A conduta correta é medir, não é abandonar.

A terceira rota é a que quase nunca aparece nas listas, e é a que explica o horário das quedas: a prescrição obriga o paciente a levantar. Diurético aprazado às 20h coloca um idoso de pé às três da manhã. Hidratação venosa correndo a noite inteira faz o mesmo. Laxativo e preparo de cólon fazem o mesmo, com urgência maior e menos tempo de decisão. Sonda vesical retirada à noite deixa um paciente com bexiga cheia e sem prática de ir ao banheiro. O protocolo nacional trata isso explicitamente ao mandar verificar o uso de diuréticos e laxantes e o preparo para exames dentro das medidas de necessidades fisiológicas, e ao recomendar horários regulares programados para levar o paciente ao banheiro. É a rota mais fácil de consertar e a que menos gente conserta, porque consertá-la exige olhar a coluna de horários da prescrição, e não a coluna de nomes.

Some as três e você entende por que o banheiro é o epicentro. Ali o paciente está de pé, sozinho, com pressa, depois de levantar rápido de uma cama, num piso que pode estar molhado, num ambiente que ele não conhece, com a mão ocupada segurando roupa ou equipo, e sem nada em que se apoiar na hora em que a vista escurece. Na série brasileira, 31,2% das quedas com dano aconteceram no banheiro, contra 67,3% no quarto — e o quarto inclui o trajeto até o banheiro. Não é coincidência que a medida preventiva mais repetida nos protocolos brasileiros seja a mais prosaica de todas: orientar o paciente e o acompanhante a só levantar do leito acompanhados por profissional da equipe, mesmo quando há acompanhante presente.

Pessoa idosa em pé ao lado do leito, com apoio na grade e postura instável, diante do trajeto até o banheiro; três detalhes mostram medicamentos, manguito e contexto noturno.
Quedas na enfermaria podem resultar da combinação de fatores relacionados ao paciente, medicamentos, alterações posturais e ambiente. A passagem do leito para o banheiro à noite é uma oportunidade para avaliar necessidade de ajuda e organizar mobilidade segura. Os símbolos indicam fatores a investigar, sem estabelecer causalidade em um paciente específico. Cena sintética educacional.

Falta a segunda metade do mecanismo, que não é sobre cair e sim sobre o que a queda encontra quando chega. O dano depende de amplificadores que o hospital também conhece de antemão: osteoporose, fratura prévia, uso de anticoagulante e discrasias sanguíneas. O protocolo nacional é explícito ao mandar avaliar esses fatores já na admissão, separadamente do risco de cair — são duas perguntas diferentes, e um paciente pode ter risco baixo de cair e risco altíssimo de se machucar se cair. É o caso do idoso anticoagulado com marcha normal: ele cai pouco, e quando cai pode sangrar dentro do crânio a partir de um trauma que em qualquer outra pessoa daria um galo. Na cabeça de um idoso, o encéfalo atrofiado deixa as veias que atravessam o espaço subdural esticadas, e um movimento de aceleração e desaceleração modesto basta para rompê-las; o sangue então se acumula devagar, num crânio que tem espaço sobrando, e por isso o quadro pode levar horas ou dias para aparecer. Essa combinação — pouca energia, muito estrago, apresentação atrasada — é a razão de a decisão sobre imagem neste capítulo não poder depender de o paciente estar bem agora.

Por fim, o mecanismo que inverte a leitura de tudo: às vezes a queda não é o acidente, é o sintoma. Síncope por arritmia, hipoglicemia por insulina ou hipoglicemiante, sepse em curso com hipotensão e confusão, acidente vascular cerebral com hemiparesia discreta, crise convulsiva não presenciada, anemia aguda por sangramento — todos se apresentam como queda no paciente internado, e todos são o diagnóstico que interessa. O protocolo nacional lista, entre as condições de saúde que aumentam o risco, justamente síncope, convulsão, tontura, anemia, acidente vascular cerebral prévio e alterações metabólicas como a hipoglicemia. A regra prática que sai daí é curta e vale escrever no evolutivo: toda queda exige considerar causas clínicas, incluindo neurológicas e cardiovasculares, sem presumir que estejam presentes, e o exame que exclui isso não é o do quadril — é o do ritmo, da glicemia e da consciência.

05

Como se apresenta de verdade

A queda chega até você em três formatos, e eles não valem a mesma coisa. O primeiro é a queda presenciada, em que alguém viu e consegue contar o que aconteceu antes: se ele tropeçou, se escorregou, se desmaiou, se estava tonto ao levantar. O segundo é o paciente encontrado no chão, sem testemunha, que é o formato mais comum de madrugada e o mais perigoso, porque você não sabe se ele caiu e bateu a cabeça ou se ele perdeu a consciência e por isso caiu. O terceiro é o que quase ninguém chama de queda, e que é queda pela definição oficial brasileira.

Vale fixar essa definição antes de qualquer outra coisa, porque ela é mais larga do que a intuição. Para o protocolo nacional, queda é o deslocamento não intencional do corpo para um nível inferior à posição inicial, com ou sem dano, e considera-se queda tanto quando o paciente é encontrado no chão quanto quando, durante o deslocamento, ele necessita de amparo, ainda que não chegue ao chão. Cai nessa definição o paciente que deslizou da poltrona, o que escorregou do vaso sanitário, o que foi segurado pela filha no meio do corredor e o que a técnica segurou pelo braço a tempo. Nenhum deles chegou ao chão e todos são quedas — e é por isso que o número de quedas da sua enfermaria depende muito mais de quem define do que de quem cai.

Percurso de aprendizagem

Começar por ameaças à vida, dor e possível trauma, evitando tanto levantar às pressas quanto atrasar suporte por regra de imobilidade.

Decidir imagem com critérios e contexto, distinguir anticoagulante de AAS isolado e reconhecer fratura oculta. Reavaliar consciência, glicose e possível síncope.

Revisar medicamentos, ambiente e assistência sem concluir culpa ou causalidade pela prescrição isolada. Planejar mobilidade, comunicação e prevenção secundária.

O paciente encontrado no chão, sem ninguém que tenha visto

É a apresentação que mais exige de você e a que mais recebe conduta apressada. O problema é que a pergunta central não tem resposta pela inspeção: houve perda de consciência antes da queda, ou a perda de consciência foi consequência do trauma de crânio? A distinção muda tudo, porque no primeiro caso o diagnóstico é síncope, arritmia, hipoglicemia ou crise convulsiva, e no segundo é traumatismo cranioencefálico. Os protocolos institucionais brasileiros separam explicitamente as duas situações no atendimento imediato, tratando a queda como agente causador do evento por um lado e a queda como consequência de mal súbito por outro, e mandando seguir as diretrizes de ressuscitação quando a hipótese é a segunda.

Memória do episódio ajuda, mas não separa com certeza tropeço de síncope: amnésia pode ocorrer e relatos podem ser incompletos. Buscar testemunhas, pródromos, posição, duração, recuperação, trauma e sinais de causa cardíaca ou neurológica.

Uma armadilha específica desse formato: a ausência de testemunha empurra a equipe a escrever no prontuário uma versão do paciente que não é observação, e sim reconstrução. Registrar que o paciente refere ter tropeçado é diferente de registrar que o paciente tropeçou. Num idoso com déficit cognitivo, com amnésia pós-traumática ou com delirium, a narrativa dele sobre o próprio evento é justamente o dado menos confiável que existe — e é o único que costuma sobrar no prontuário no dia seguinte.

A queda que ninguém chama de queda

O paciente escorregou e a técnica segurou. O acompanhante amparou o pai que ia caindo da poltrona. O paciente sentou no chão devagar, sem bater. Nos três casos a equipe se tranquiliza, ninguém chama o médico, e nada é escrito. Pela definição oficial, nos três casos houve queda, porque a definição inclui expressamente quem necessitou de amparo durante o deslocamento sem chegar ao chão.

Isso não é preciosismo de terminologia, e a razão é clínica antes de ser administrativa. O paciente que precisou ser amparado hoje é o mesmo que vai cair sozinho amanhã, e o amparo de hoje é a única chance que a equipe terá de agir antes do dano. História prévia de queda é um dos fatores de risco de peso nos instrumentos brasileiros de avaliação, e a queda de anteontem, se não foi escrita, simplesmente não existe para quem admite o paciente na próxima internação. O quase-evento é informação de graça, e é a que mais se perde.

Há também a versão do quase-evento que já produziu dano e passa por outra coisa. O paciente que foi amparado, mas no movimento torceu o ombro, e no dia seguinte não levanta o braço. O que bateu o joelho na cama ao ser segurado, e três dias depois tem um hematoma que ninguém explica. Quando o evento não foi registrado, o achado do terceiro dia entra no prontuário como sintoma novo e gera uma investigação inteira que a linha de uma anotação teria evitado.

A queda que é sintoma de outra coisa

Esta é a apresentação que separa o interno que atende a queda do interno que atende o paciente. Em uma parte relevante dos casos, o evento mecânico é apenas o modo como uma doença nova se anunciou, e tratar o joelho ralado enquanto a causa segue trabalhando é o equivalente, aqui, a sedar um delirium sem procurar o motivo.

A lista é curta e cabe na cabeça. Cardiovascular: arritmia com baixo débito transitório, bloqueio atrioventricular, infarto sem dor, estenose aórtica com síncope de esforço, embolia pulmonar. Metabólica: hipoglicemia, sobretudo em quem usa insulina ou hipoglicemiante oral, e distúrbio de sódio. Infecciosa: sepse em curso, em que a queda pode preceder a febre e a hipotensão registrada. Neurológica: acidente vascular cerebral com déficit discreto, crise convulsiva não presenciada com estado pós-ictal, hematoma subdural crônico de uma queda anterior. E a categoria transversal, que é a mais comum de todas no idoso: o delirium, que tem capítulo próprio nesta coleção e que aqui interessa por uma razão só — ele multiplica a chance de cair e a chance de que a queda não seja notificada corretamente, porque o paciente confuso não conta o que aconteceu.

O que denuncia que a queda é sintoma, e não acidente, é o contexto e não a lesão. Cinco perguntas resolvem a triagem: houve pródromo (escurecimento visual, palpitação, sudorese, náusea) ou o paciente apagou sem aviso? Ele estava em pé, sentado ou deitado quando começou? Havia sintoma novo nas horas anteriores (dispneia, dor torácica, febre, confusão)? Houve liberação esfincteriana, mordedura de língua ou período de desorientação prolongada depois? E o que aconteceu com os sinais vitais imediatamente depois, incluindo glicemia capilar e ritmo? Queda sem pródromo, com o paciente sentado ou deitado, é a que mais merece eletrocardiograma imediato.

O que muda no idoso anticoagulado, e por que ele engana

O idoso em uso de anticoagulante ou de antiagregante que bate a cabeça é a apresentação em que a clínica mais mente. Ele chega ao seu exame lúcido, orientado, com Glasgow 15, respondendo tudo, muitas vezes constrangido por ter dado trabalho — e é exatamente essa apresentação tranquilizadora que produz o erro. O sangramento intracraniano nesse paciente pode se instalar devagar, num crânio com espaço de sobra, e por isso ele tem uma janela de horas a dias entre o trauma e o primeiro sintoma.

Fontes brasileiras históricas usam classificação de risco e observação mais conservadoras; sua data deve ficar explícita. A decisão atual integra critérios de TCE, tipo de antitrombótico, exame, mecanismo e confiabilidade da história. AAS isolado não é equivalente a varfarina. O caso de Rosalina tem indicação de TC pelo conjunto, sem precisar transformar todo usuário de antiagregante em regra absoluta.

Duas honestidades sobre essa régua. A primeira é de data: o documento da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia tem elaboração final de 2001 e é anterior aos anticoagulantes orais diretos; ele nomeia distúrbio de coagulação e crase sanguínea, e não classes de medicamento. Quem faz a ponte nominal para anticoagulante e antiagregante é a diretriz estadual de 2018. A segunda é de escopo: o manejo do traumatismo cranioencefálico grave, a hipertensão intracraniana e a decisão de reverter anticoagulação são do capítulo de trauma cranioencefálico desta coleção. O que é seu, aqui, é a decisão anterior a tudo isso — se o idoso anticoagulado da sua enfermaria que caiu, bateu a cabeça e está conversando vai ou não fazer imagem, e por quanto tempo ele fica sob observação depois.

O quadril: o achado que se vê da porta e o que não se vê em lugar nenhum

A fratura do fêmur proximal tem uma apresentação clássica que vale conhecer de cor porque ela é visível antes de o paciente ser tocado: o membro inferior encurtado, em rotação externa, com o pé caído para fora, e dor intensa na virilha ou na região trocantérica à mínima mobilização, com incapacidade de elevar o calcanhar do plano da cama. Quando esse conjunto está presente, a decisão está tomada — imobilizar, analgesiar, imagem e ortopedia — e a única coisa que ainda pode dar errado é alguém tentar levantar o paciente antes.

O problema é a outra apresentação, que é frequente e não tem sinal nenhum. Fraturas impactadas do colo femoral e fraturas por insuficiência em osso osteoporótico podem cursar com deformidade ausente e com o paciente conseguindo, com dor, apoiar o pé. O idoso com déficit cognitivo agrava isso porque não localiza nem quantifica a dor. E a radiografia simples inicial pode ser normal nessas fraturas. Daí uma regra que evita a maior parte dos casos perdidos: dor persistente em quadril, virilha, coxa ou joelho depois de uma queda, ou recusa nova de descarregar peso, mantém a hipótese de fratura em pé mesmo com radiografia normal, e o que se faz é manter a restrição de carga, discutir com a ortopedia e repetir a imagem ou avançar para outro método.

Ausência de proteção com as mãos pode sugerir perda súbita de consciência ou resposta reduzida, mas não prova sedação. Idade, limitação motora, rapidez da queda e mecanismo também influenciam. Investigar o conjunto.

Depois da primeira queda: o medo, a imobilidade e a segunda queda

A queda tem uma apresentação tardia que raramente é atribuída a ela: o paciente que, dias depois, não quer mais sair da cama. O protocolo nacional registra que a queda gera impacto negativo sobre a mobilidade do paciente, além de ansiedade, depressão e medo de cair de novo, o que acaba por aumentar o risco de nova queda. É um ciclo mecanicamente coerente: o medo produz imobilidade, a imobilidade produz perda de força e de equilíbrio em dias, e a perda de força produz a queda seguinte.

A equipe tende a colaborar com esse ciclo, e com boa intenção. Depois de uma queda com dano, a reação institucional espontânea é reduzir a mobilização, prescrever repouso, elevar grades, aproximar do posto. Três dessas quatro medidas aumentam a imobilidade. É por isso que a conduta correta depois de uma queda inclui explicitamente a retomada precoce e supervisionada da mobilização, e não a suspensão dela — e o protocolo nacional, ao listar as medidas específicas, insiste em avaliar a independência e a autonomia para deambulação e a necessidade de dispositivo de marcha, que são intervenções de recolocar o paciente em pé com apoio, não de mantê-lo deitado.

Manter uma prescrição após a queda pode ser apropriado ou inadequado; o essencial é haver revisão e justificativa clínica. Não inferir ausência de avaliação apenas porque a lista de medicamentos não mudou. Registrar a decisão e os demais fatores corrigidos.

Da avaliação após a queda à recuperação segura da mobilidade

A primeira decisão após uma queda é avaliar a pessoa onde está, com rapidez e apoio. Observe consciência, respiração, circulação e queixas, identificando necessidade de suporte imediato. Evitar movimentação precipitada não significa deixar alguém sem avaliação ou analgesia. Se houver ameaça à vida, ela orienta a ação. Quando estável, procure sinais de trauma e obtenha o mecanismo antes de planejar transferência. O fato de o paciente conversar ou ter sido encontrado sentado não exclui lesão. O interno deve chamar o responsável conforme gravidade e colaborar com exame, registro e organização da assistência.

Reconstruir o evento exige distinguir o que foi testemunhado do que foi inferido. Pergunte onde estava, o que tentava fazer, se sentiu tontura, palpitação, falta de ar ou dor, se perdeu a consciência e como se recuperou. Consulte quem estava próximo, sem presumir que o relato será completo. No paciente com alteração cognitiva, a ausência de descrição não permite classificar o episódio como simples escorregão. Ao registrar, use expressões como encontrado ao lado da cama ou queda relatada pelo acompanhante quando esses são os fatos. Não inventar precisão de horário ou sequência melhora a qualidade da investigação.

A avaliação de lesão deve considerar o corpo inteiro e a queixa principal. Dor cervical, torácica, abdominal ou de extremidade pode ser pouco expressiva inicialmente, e medo ou confusão podem limitar o relato. Examine com cuidado e evite manobras que forcem uma região suspeita. Se houver dor persistente ao apoiar, deformidade ou incapacidade nova, imagem e avaliação especializada podem ser necessárias. Uma radiografia normal não elimina toda fratura oculta. O plano deve registrar o que foi examinado, os limites da avaliação e o que exigirá nova investigação, sem dar alta de uma hipótese apenas porque um exame foi tranquilizador.

Após trauma craniano, o risco depende de sinais, mecanismo, estado basal e tratamento em uso. Confira qual antitrombótico é realmente tomado e quando foi administrado; anticoagulantes e antiagregantes não são uma categoria única. Investigue perda de consciência, amnésia, vômitos, cefaleia, crise e alteração neurológica. A indicação de tomografia e observação deve seguir protocolo apropriado ao quadro. Não pedir que a família decida se vale fazer exame apenas pelo receio de transporte, nem usar uma tomografia normal como explicação para qualquer sonolência posterior. Mudança clínica exige reavaliação, inclusive de causas não traumáticas.

Uma observação neurológica útil descreve componentes e tendência. Glasgow total sem seus elementos pode esconder mudanças diferentes; pupilas e sinais focais também precisam de contexto. Sedação, surdez, linguagem e demência interferem na avaliação e devem ser registradas. Se houver deterioração, confirme rapidamente o achado e acione o responsável, sem aguardar completar o cronograma. A frequência planejada pode ser modificada pela evolução. Ao passar o cuidado, informe a basal conhecida e o que estava limitado, para que a próxima equipe não interprete um achado antigo como novo nem deixe de perceber uma mudança real.

A investigação da causa da queda pode continuar depois de atender o trauma, mas não deve desaparecer da agenda. Dor ou fratura explicam o estado após o episódio, não necessariamente por que ele ocorreu. Considerar síncope, arritmia, hipoglicemia, hipotensão ortostática, doença aguda, fraqueza, urgência urinária, barreiras ambientais e medicamentos, conforme história. Várias causas podem atuar juntas. Se a paciente levantou à noite para urinar e escorregou, isso não prova que o diurético seja a única causa nem que suspender o medicamento resolva tudo. A intervenção precisa responder aos fatores realmente identificados.

A revisão medicamentosa deve relacionar indicação, dose, horário, início recente e efeito observado. Confira o que foi administrado, não apenas o que está na prescrição. Sedativos, hipotensores e outros fármacos podem contribuir, mas interrompê-los também pode trazer riscos. Discuta com o responsável quais ajustes são adequados e acompanhe resposta. Uma lista que não mudou pode representar decisão clínica correta; uma lista muito modificada pode produzir novas complicações. O registro deve explicar o raciocínio e o plano de revisão, evitando tratar quantidade de medicamentos retirados como medida de qualidade.

Quando for seguro avaliar ortostatismo, organize a técnica e a assistência antes de levantar. Considere lesões, sintomas, capacidade motora e necessidade de apoio. A pressão deve ser medida de forma comparável, com braço na altura apropriada, e interpretada junto dos sintomas. Tontura importante, escurecimento visual ou instabilidade pede interrupção e avaliação, não insistência para completar o teste. Um resultado positivo pode apontar contribuição, sem provar a causa do evento anterior. Se o teste não puder ser feito, documentar a razão e planejar outra avaliação é melhor que registrar normal por ausência de medida.

Prevenção precisa alcançar a atividade que o paciente deseja realizar. Se ele levanta para ir ao banheiro, deixar uma placa de risco pode ser insuficiente. Verifique acesso à campainha, tempo de resposta, iluminação, calçado, trajeto, altura da cama e possibilidade de ajuda. Pergunte o que o levou a tentar sozinho. Urgência, constrangimento ou receio de incomodar podem ser fatores modificáveis. O plano deve ser combinado com paciente e equipe e atualizado quando a condição muda. Não responsabilizar apenas o acompanhante pela vigilância, sobretudo quando a pessoa necessita de assistência profissional para transferências.

O receio de nova queda pode levar a repouso excessivo e perda funcional. Depois de avaliar lesões e estabilidade, construir um plano de mobilização segura com fisioterapia, enfermagem e equipe médica. Descrever o nível de assistência e a tarefa permitida ajuda mais que liberar mobilização sem detalhes. A progressão deve observar dor, sintomas, equilíbrio e capacidade, e pode precisar de equipamento ou treino. Não prometer que todos voltarão a andar no dia seguinte nem manter no leito por tempo indefinido apenas por medo. Reavaliar permite ajustar o equilíbrio entre proteção e recuperação.

Analgesia adequada facilita exame, conforto e participação na recuperação, mas exige vigilância. Pergunte sobre dor em repouso e ao movimento, observe sinais não verbais quando necessário e acompanhe resposta após administrar. Se um opioide for indicado, considerar dose e vulnerabilidade e avaliar consciência e respiração. Bloqueios regionais podem ser úteis em cenários apropriados, com profissional habilitado e análise de contraindicações. Dor persistente apesar de tratamento não deve ser resolvida somente acrescentando sedativos; pode indicar lesão não identificada ou outra complicação. O plano é revisto pelo resultado clínico, não pela presença de uma linha de analgesia na prescrição.

Registrar e notificar têm funções complementares. O prontuário sustenta o cuidado do paciente e deve conter achados, decisões, orientações e evolução. A notificação permite analisar fatores contribuintes e melhorar processos do serviço. Ela não depende de haver dano grave para que o episódio mereça atenção e não equivale a uma conclusão de culpa. Explique os fatos à família com transparência, incluindo incertezas e medidas tomadas. Evite prometer que uma mudança isolada impedirá qualquer recorrência. A equipe deve confirmar que as medidas propostas chegaram ao cuidado diário, e não apenas ao formulário.

Na alta, comunicar a queda e suas consequências evita perder uma informação importante. Informe lesões confirmadas ou ainda em investigação, mudanças de medicação, capacidade funcional atual, necessidade de assistência e plano de retorno. Confirme se a casa e os cuidadores dispõem dos recursos necessários e encaminhe reabilitação quando indicada. Se houver orientação após trauma craniano, descreva sinais que exigem retorno e quem poderá acompanhar. Não basta dizer evitar quedas: paciente e família precisam entender como levantar, a quem pedir ajuda e o que fazer diante de sintomas novos. Ajustar o plano à realidade torna a orientação executável.

Um exercício de raciocínio é comparar três pacientes: um com lesão importante após queda mecânica testemunhada, outro sem trauma relevante após síncope e outro encontrado no chão com história incerta. O primeiro exige cuidado da lesão e prevenção; o segundo pode precisar de investigação urgente da causa mesmo com exame traumático normal; o terceiro demanda trabalhar explicitamente com incerteza. Os caminhos se sobrepõem, mas não são intercambiáveis. Apresente ao supervisor por que determinada hipótese merece prioridade e o que faria mudá-la. Essa explicação permite avaliar raciocínio e detectar decisões baseadas apenas no aspecto inicial.

Ao revisar o caso depois, compare o plano com o que ocorreu de fato. A imagem indicada foi feita? A analgesia melhorou conforto sem excesso de sedação? O nível de assistência foi comunicado e respeitado? O paciente retomou atividades permitidas ou permaneceu no leito por dúvida da equipe? Cada resposta pode revelar uma pendência concreta. Resolver essas pendências é parte da responsabilidade clínica, mesmo quando a primeira avaliação foi adequada. No internato, aprender a acompanhar a execução e a resposta transforma a queda de um evento isolado num cuidado continuado até a recuperação e a transição de setor.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação da queda tem duas perguntas que correm em paralelo e não se substituem. A primeira é o que quebrou: cabeça, quadril, punho, coluna, pele. A segunda é por que ele caiu: qual causa clínica e qual falha de processo produziram este evento. Serviços que só respondem a primeira produzem um paciente com o joelho suturado que cai de novo na quarta-feira. Serviços que só respondem a segunda produzem uma boa análise de causa raiz sobre um paciente com fratura de colo não diagnosticada.

Avaliar onde o paciente está antes de mobilização desnecessária, preservando segurança. Se já foi mobilizado, ainda é possível reconstruir história, examinar e investigar. Não considerar informação perdida por definição, nem manter posição que comprometa suporte vital.

Os primeiros noventa segundos: examinar no chão

O protocolo institucional da rede de hospitais universitários federais coloca a sequência na ordem certa e ela é a que este capítulo adota: avaliar pulso, respiração, nível de consciência e cinemática do trauma antes de qualquer mobilização. Repare que três desses quatro itens levam segundos e o quarto é uma pergunta feita a quem estava por perto. Não há nenhuma economia real em pular essa etapa.

A decisão de proteção da coluna combina mecanismo, exame, idade, estado cognitivo, intoxicação e lesões distrativas. Negar dor e movimentar-se não afasta lesão na idosa com história incompleta. Na suspeita, restringir movimento e discutir imagem; movimentação segura depende de profissionais treinados e dispositivos disponíveis, não de uma regra universal de três pessoas e prancha longa. Priorizar via aérea e circulação.

Evitar manter paciente no chão mais tempo que o necessário. Mesmo alguém que conversa pode ter dor, frio, sangramento ou risco de deterioração; a avaliação deve ser ágil. Acomodar com transferência planejada e monitorização, sem considerar a espera totalmente sem custo.

Se o paciente está inconsciente, a queda deixou de ser o assunto: a conduta é de parada e de via aérea, seguindo as diretrizes de ressuscitação, e a queda passa a ser o dado da história. Se está consciente, os quatro itens seguintes são conferidos ainda no chão: glicemia capilar, saturação, pressão arterial e frequência com ritmo, porque os quatro respondem à pergunta sobre causa e dois deles têm tratamento imediato.

O exame dirigido, e o membro encurtado e rodado

Com a coluna resolvida, o exame que decide leva cinco minutos e tem quatro estações. Consciência e neurológico: nível de consciência com a escala de coma de Glasgow, pupilas em diâmetro, simetria e fotorreatividade, força e sensibilidade nos quatro membros, fala, e comparação com o basal — que você obtém do evolutivo da manhã e da enfermagem do plantão, não da impressão de quem chegou agora. Cabeça: inspeção e palpação de todo o couro cabeludo procurando hematoma, laceração e afundamento, além de equimose periorbitária e retroauricular e de saída de líquido pelo nariz ou pelo ouvido.

Inspecionar quadril e membros e avaliar dor, deformidade e circulação/sensibilidade. Encurtamento/rotação externa apoiam fratura, mas sua ausência não a exclui. Não usar teste de elevação da perna como prova de exclusão nem forçar mobilização dolorosa. Dor na virilha, quadril, coxa ou joelho após queda exige hipótese de fratura e imagem apropriada, com analgesia.

Quarta estação, o resto do esqueleto e a pele: punho e antebraço (a fratura de quem caiu apoiando a mão), ombro, arcos costais, e uma inspeção da pele inteira, incluindo o dorso, procurando laceração, hematoma expansivo e a pele fina do idoso que descola em retalho. Documente o que encontrou com localização anatômica, porque o protocolo institucional exige exatamente isso no registro, e porque o hematoma que ninguém descreveu hoje vira achado inexplicado na terça-feira.

Duas coisas que o exame precisa responder e que costumam ficar de fora. Primeira: há dispositivo tracionado? Acesso venoso arrancado, sonda vesical tracionada com sangramento uretral, dreno deslocado, cateter central que saiu parcialmente — o protocolo institucional trata isso na etapa circulatória, e a conduta é avaliar integridade e tracionamento de cateteres e drenos antes de mobilizar. Segunda: quanto tempo ele ficou no chão? Se foram horas, acrescente temperatura, creatinina e creatinoquinase à investigação, porque rabdomiólise e lesão renal aguda entram na conta.

A cabeça: quem faz tomografia, e a decisão que mais se erra

Aplicar critérios de TCE atuais dentro de seu escopo. GCS ≤12 inicial, déficit, crise pós-trauma, sinais de fratura e vômitos repetidos justificam TC urgente; GCS <15 persistente após 2 horas também. GCS 13–14 inicial merece avaliação imediata, sem declarar que todo caso exige a mesma conduta sem contexto. Corrigir hipoglicemia e outras causas em paralelo, sem atrasar imagem quando indicada.

Anticoagulantes e antiagregantes não são uma categoria homogênea. No anticoagulante ou antiagregante que não seja AAS isolado, considerar TC após TCE mesmo sem outro critério, conforme contexto/protocolo. AAS isolado não é indicação automática no NICE. A regra canadense tem critérios de inclusão e exclusão e não deve ser aplicada livremente para dispensar imagem em anticoagulados.

Rosalina deve fazer TC: além da varfarina, tem 82 anos, lacuna de memória e trauma craniano comprovado. Exame normal reduz algumas preocupações, mas não exclui hemorragia. Pedir INR e revisar dose/horário e demais medicamentos. Se houver sangramento intracraniano, acionar tratamento de reversão e neurocirurgia em paralelo, sem esperar parecer para reconhecer a emergência.

Idade ≥65 associada a perda de consciência/amnésia após trauma é outro critério relevante. História incerta e dificuldade de exame reduzem o limiar para investigar, mas TC não substitui conhecer basal e repetir exame. Não confundir toda amnésia breve ou toda cefaleia com critério isolado universal; integrar gravidade e evolução.

Quanto tempo observar, a segunda tomografia, e o que não pedir

Uma TC normal tem valor clínico, embora não elimine todo risco futuro. Recomendações atuais não exigem repetir TC ou internar todo usuário de antitrombótico com exame no basal e imagem sem hemorragia, se não há outro motivo. Nesta paciente já internada, planejar observação conforme trauma, sintomas, INR, comorbidades e segurança, sem tratá-la como obrigação universal de 24 horas.

Glasgow deve ser acompanhado por componentes e comparado à basal, considerando sedação e outras causas. Queda sustentada, novo déficit, vômitos persistentes, cefaleia progressiva ou alteração pupilar exigem reavaliação urgente e decisão sobre imagem. Conferir variação pequena sem adiar avaliação de deterioração real.

Agora o que não fazer. Radiografia de crânio como triagem de trauma craniano no adulto não responde a pergunta que interessa, que é sobre o conteúdo e não sobre a caixa — crânio íntegro convive com hematoma, e fratura sem lesão intracraniana muda pouco a conduta imediata. Tomografia de corpo inteiro por reflexo, no paciente que caiu da própria altura, tem custo alto e rendimento baixo, e transporta um paciente idoso e dolorido para fora da enfermaria em troca de pouca informação; peça a imagem do segmento que o exame apontou. E a armadilha que mais custa: radiografia de bacia normal não exclui fratura de colo femoral, e a conduta diante de dor persistente ou de recusa nova de descarregar peso é manter a hipótese, manter a restrição de carga e conversar com a ortopedia, não dar alta da suspeita.

Há um exame que costuma ser esquecido e que rende mais que a maioria: o eletrocardiograma. Toda queda sem pródromo, com o paciente parado, e toda queda em que a testemunha descreve perda de consciência súbita, merece traçado imediato — arritmia pode ameaçar a vida neste episódio e em recorrências. Somem-se a glicemia capilar, que é obrigatória e imediata, e o hemograma, que interessa quando há anticoagulação, sangramento visível ou suspeita de anemia como causa.

Por que ele caiu: a causa clínica e a leitura da prescrição

Hipotensão ortostática pode contribuir para a queda, mas um teste positivo não prova que explicou o episódio. Integrar sintomas no momento, medicamentos, hidratação, arritmias, força e ambiente. Avaliar de modo seguro e corrigir fatores identificados.

Revisar classes, doses, interações, indicação e alterações recentes, incluindo medicamentos condicionais e os trazidos de casa. Contagem é sinalizador: o protocolo citado usa quatro ou mais, outras definições usam cinco; nenhum corte diagnostica causalidade nem obriga retirar tratamento necessário. Conferir sedação, hipotensão, hipoglicemia e necessidades de eliminação produzidas pelo conjunto.

Terceira passada, e é a que quase ninguém faz: pelos horários. Que hora foi aprazado o diurético? Que hora foi administrado o hipnótico, e o paciente levantou depois disso? Existe hidratação venosa correndo à noite? O laxativo está aprazado de forma a produzir urgência de madrugada? Há preparo de cólon ou jejum prolongado para exame do dia seguinte, que o protocolo nacional manda expressamente considerar na avaliação clínica? A coluna de horários é onde a prescrição encontra a queda, e ela não aparece na revisão que só lê nomes de fármacos. Nesta enfermaria e nesta noite, foi ali que estava a resposta.

Confira também o que foi administrado de fato, e não o que foi prescrito. A folha checada mostra a dose extra de analgésico que alguém deu às três da manhã, o se necessário que virou de horário, e a medicação que foi antecipada. E confira o que mudou nas últimas 24 horas: droga nova, dose aumentada, droga suspensa. O protocolo nacional dá o exemplo canônico dessa reavaliação ao lembrar que pacientes que começam a receber sedativos têm o risco de queda aumentado, e que o surgimento de novo risco deve ser comunicado ao paciente, aos familiares e a toda a equipe de cuidado.

O que existe no SUS, e o que isso muda na sua conduta

Medidas preventivas simples incluem revisão de medicamentos, exame funcional, avaliação de ortostase quando segura, calçado, iluminação, campainha e acesso ao banheiro. Elas exigem tempo, pessoal e organização e não são literalmente gratuitas. Identificar barreiras reais permite pedir recursos e pactuar um plano executável com equipe e paciente.

O que depende de recurso é outra coisa, e vale saber nomear quando você discutir o caso com a chefia: pessoal de enfermagem em número suficiente para acompanhar o paciente ao banheiro na madrugada, que o próprio protocolo nomeia ao listar a insuficiência e a inadequação dos recursos humanos entre os fatores ambientais e organizacionais de risco; acompanhante liberado fora do horário de visita; camas com altura regulável; barra de apoio no banheiro; e fisioterapia diária para mobilizar em vez de imobilizar. Esses itens são de gestão, e é honesto reconhecer que o interno não os resolve — o que ele resolve é não empurrar para a enfermagem, na forma de prescrição, um risco que ele mesmo criou.

Se houver indicação de neuroimagem e ela não estiver disponível, organizar encaminhamento com suporte e monitorização apropriados. Observação local não substitui indiscriminadamente a imagem necessária nem exige esperar deterioração para transferir.

Por fim, um recurso que existe em todo hospital brasileiro e que a maioria dos internos não sabe usar: o Núcleo de Segurança do Paciente. Ele é obrigatório por norma da Anvisa, é quem recebe a notificação da queda, é quem analisa os fatores contribuintes e é quem tem mandato para propor mudanças de processo — trocar o horário padrão dos diuréticos da enfermaria, comprar barras de apoio, mudar a escala noturna. A notificação que você faz às cinco da manhã é a matéria-prima dele. Sem ela, o núcleo trabalha com um andar invisível.

07

A ordem dos primeiros minutos, a régua da imagem e o que se escreve depois

Avaliar lesões e causas de queda em paralelo, transferir com segurança e preservar mobilidade com um plano individualizado.

  1. 1Pedir avaliação presencial imediata e evitar levantar às pressas, mantendo alguém ao lado. Movimento necessário para segurança, via aérea ou RCP não deve ser impedido.
  2. 2Equipe verifica ABC, sinais e glicose e inicia tratamento urgente conforme competência/protocolo. Não esperar chegada do médico para corrigir ameaça imediata.
  3. 3Chegue e avalie, no chão, quatro coisas: pulso, respiração, nível de consciência e cinemática do trauma. As três primeiras levam segundos; a quarta é uma pergunta feita a quem estava por perto.
  4. 4Se o paciente está inconsciente, a queda deixa de ser o assunto: a conduta é de via aérea e de ressuscitação, e a queda passa a ser dado da história.
  5. 5Decidir proteção da coluna pela história, exame, confiabilidade, idade e regra aplicável; cinemática isolada não exclui lesão. Técnica de transferência e dispositivo dependem do caso, evitando permanência em prancha longa.
  6. 6Ainda no chão, e antes de qualquer outra coisa: glicemia capilar, saturação, pressão arterial, frequência e ritmo. Dois desses têm tratamento imediato, e os quatro respondem à pergunta sobre a causa.
  7. 7Faça o exame dirigido em quatro estações — neurológico com escala de coma de Glasgow e pupilas; cabeça e couro cabeludo inteiro; quadril e pelve; e o resto do esqueleto com a pele toda, dorso incluído.
  8. 8Inspecione os membros inferiores antes de encostar neles: a deformidade clássica do fêmur proximal fraturado é visível sem toque, e reconhecê-la cedo evita a mobilização que desloca o osso. Daí em diante o paciente não se move sem analgesia e sem plano.
  9. 9Confira os dispositivos: acesso arrancado, sonda tracionada com sangramento uretral, dreno deslocado, cateter central parcialmente exteriorizado. Isso se avalia antes de mobilizar, não depois.
  10. 10Pergunte à enfermagem há quanto tempo ele está no chão. Se foram horas, acrescente temperatura, creatinina e creatinoquinase à lista, porque hipotermia, desidratação, rabdomiólise e lesão renal aguda entram na conta.
  11. 11Usar critérios de imagem após suspeita de TCE. Idade, amnésia, exame e antitrombótico específico importam; varfarina não equivale a AAS isolado.
  12. 12Só então mobilize, com a analgesia prescrita antes do movimento, e leve o paciente ao leito — ou direto ao setor de imagem, se a tomografia já estiver decidida e o transporte for seguro.
  13. 13Leia a prescrição inteira em três passadas: pelos nomes das classes, pelo número total de itens e pela coluna de horários. A terceira é a que quase ninguém faz e a que costuma ter a resposta.
  14. 14Meça a pressão em pé quando o paciente estiver estável e liberado para levantar — deitado após cinco minutos de repouso, e de novo a 1 e a 3 minutos em pé.
  15. 15Registrar fatos, horários e incertezas, comunicar paciente/família e equipe e notificar o núcleo de segurança. Comunicação clínica não precisa esperar preencher a notificação.

A notificação: prazo, sigilo e destino

A resolução da Anvisa que institui as ações de segurança do paciente torna obrigatório o Núcleo de Segurança do Paciente, inclui expressamente a prevenção de quedas no Plano de Segurança do Paciente e fixa os prazos: notificação mensal ao Sistema Nacional de Vigilância Sanitária até o décimo quinto dia útil do mês subsequente ao mês de vigilância, e em até 72 horas quando o evento adverso evolui para óbito. As notificações ficam guardadas à disposição da autoridade sanitária. No protocolo institucional da rede de hospitais universitários federais, a notificação é eletrônica, tem aba própria para quedas e segue para a base nacional de vigilância — e o texto é explícito quanto ao ponto que mais trava o interno: os dados do notificador e do notificado são sigilosos. Notificar não é depor contra ninguém.

O índice de quedas, e o denominador que muda o número

O protocolo nacional define o índice como o número de eventos dividido pelo número de pacientes-dia, multiplicado por mil, e recomenda acompanhá-lo em diagrama de controle. Um dos protocolos da rede de hospitais universitários federais repete essa fórmula; outro, da mesma rede, divide as quedas pelo número de pacientes internados. São dois números diferentes com o mesmo nome, e eles não se comparam: um serviço com internações longas produz muitos pacientes-dia e poucos pacientes, de modo que a mesma realidade assistencial aparece boa numa conta e ruim na outra. Antes de comemorar ou de se alarmar com o indicador do seu andar, descubra qual é o denominador dele.

Imagem de crânio depois da queda: os três degraus, e onde mora o idoso da sua enfermaria

Situação do pacienteDecisão de imagemO que vem depois da imagem
Glasgow abaixo do basal após trauma suspeitoAvaliar imediatamente e corrigir causas reversíveis em paralelo. NICE: TC em até 1 h com GCS ≤12 inicial ou <15 após 2 h, além de outros critérios; deterioração exige decisão urgenteNão esperar 2 h se houver gravidade/outro critério; observar evolução e causas metabólicas, sem atribuir rebaixamento apenas ao trauma
Glasgow 15, sem fator de riscoAplicar regra validada dentro de seus critérios de inclusão, considerando mecanismo, perda de consciência/amnésia e idadeObservação clínica com o gatilho de nova imagem escrito na prescrição, e não guardado na sua cabeça
Anticoagulante ou antiagregante após TCE, com Glasgow 15Considerar TC mesmo sem outro critério no anticoagulante ou antiagregante exceto AAS isolado; integrar risco e protocolo. Na vinheta, idade/amnésia e varfarina apoiam TCTC normal e exame no basal não exigem repetição ou internação por antitrombótico isolado; individualizar por outras indicações e capacidade de vigilância
Qualquer Glasgow, com rebaixamento em relação ao basal, déficit focal novo, crise convulsiva, vômitos repetidos, cefaleia progressiva, amnésia do evento ou sinal de fratura de base de crânioDéficit, crise pós-trauma, sinais de fratura, vômitos repetidos e deterioração pedem avaliação/TC urgente; amnésia isolada é combinada aos demais critériosConduta pelo achado. Sem achado, a observação continua, porque o processo hemorrágico pode estar em formação no momento do primeiro exame
Paciente que não pode ser examinado com confiança: demência sem linha de base clara, afasia, delirium instaladoReduzir limiar para imagem conforme risco; TC complementa e não substitui exame neurológico e avaliação seriadaReavaliação comparada à linha de base obtida com a enfermagem do plantão anterior e com quem convive com ele

O que quebrou: o que decide à beira do leito, o que pedir e a armadilha de cada segmento

SegmentoO que decide sem exameImagemA armadilha
Fêmur proximal e quadrilMembro encurtado e em rotação externa; dor na virilha ou na região trocantérica à mínima mobilização; incapacidade de elevar o calcanhar do plano do leito com o joelho estendidoRadiografias adequadas, sem forçar posição dolorosa; avançar para RM/TC quando suspeita persisteA fratura impactada e a fratura por insuficiência podem não ter deformidade nenhuma, e a radiografia inicial pode ser normal. Dor persistente ou recusa nova de descarregar peso mantém a hipótese em pé
Punho e antebraçoDor, deformidade e impotência funcional em quem caiu apoiando a mãoRadiografia do punho em duas incidênciasMecanismo e relato ajudam; lesão ou ausência de lesão no punho não provam reflexo preservado nem sedação
Coluna cervical e dorsalDor à palpação da linha média, déficit motor ou sensitivo novo, e a cinemática que não exclui lesãoImagem conforme a cinemática, com o paciente imobilizado desde antes do transporteA decisão de imobilizar é tomada antes da imagem e antes de mover, e não depois de um exame que só sai daqui a duas horas
Crânio e faceNível de consciência comparado ao basal, pupilas, hematoma e laceração em todo o couro cabeludo, equimose periorbitária e retroauricular, saída de líquido pelo nariz ou pelo ouvidoTomografia sem contraste, pela primeira tabelaA radiografia de crânio como triagem responde sobre a caixa e não sobre o conteúdo: crânio íntegro convive com hematoma
Pele e partes molesInspeção da pele inteira, inclusive o dorso, procurando laceração, hematoma expansivo e o descolamento em retalho da pele fina do idosoNenhuma, na maior parte das vezesO hematoma que ninguém descreveu hoje vira achado inexplicado na terça-feira e gera uma investigação inteira que uma linha de anotação teria evitado

As diretrizes brasileiras para o tratamento da fratura do colo do fêmur em idosos, aprovadas pela Portaria Conjunta nº 21, de 24 de setembro de 2018, trazem um erro de leitura que vale conhecer antes de citar o documento. O texto afirma que o estudo Saúde, Bem-estar e Envelhecimento encontrou queda em 28,6% dos idosos e que 26,2% dessas quedas ocorreram entre 60 e 74 anos e 36,9% acima de 75 anos, sendo mais frequentes nas mulheres (33,0%) do que nos homens (22,3%). Some: 26,2 mais 36,9 dá 63,1, e 33,0 mais 22,3 dá 55,3. Nenhum dos dois pares fecha em cem, logo nenhum deles reparte as quedas entre si. São prevalências dentro de cada faixa e dentro de cada sexo — leitura que a própria frase confirma ao dizer, uma linha antes, que a queda aumentava com a faixa etária. Cite esses números como prevalência por estrato, nunca como fatia do total.

No mesmo documento, a lista de condições a corrigir depressa para não atrasar a cirurgia traz, entre duas linhas escritas como não controlada, um item impresso como arritmia cardíaca ou isquemia controlada. Lido ao pé da letra, ele diz o contrário do que a lista faz, porque uma condição já controlada não atrasa cirurgia nenhuma. Leia-o pelo vizinho de cima e pelo de baixo.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo organiza o caso, mas suporte de ameaças, analgesia e investigação podem ocorrer em paralelo. Se a paciente já foi levantada, a história e o exame continuam úteis; não presumir que a cinemática foi perdida ou que todos os demais cenários seguem a mesma sequência. Registrar horário conhecido ou estimado, fonte e incerteza.

Registrar o horário conhecido ou estimado, distinguindo queda testemunhada, relato e momento em que o paciente foi encontrado. Muitas quedas são não testemunhadas; não inventar precisão. Descrever posição, sintomas, lesões, sinais, avaliação e providências, com fluxo de notificação e prevenção.

  1. Minuto 0 — o telefonema

    Orientar acompanhante/equipe a permanecer com a paciente, verificar segurança, responsividade, respiração e circulação e acionar avaliação imediata. Evitar levantá-la às pressas antes da avaliação de lesões. Se houver ameaça à vida, vômito com risco de aspiração ou ambiente inseguro, realizar o movimento necessário ao suporte com proteção possível da coluna; a regra não é deixá-la imóvel a qualquer custo. A enfermagem pode avaliar e iniciar medidas previstas em seu escopo e protocolo.

    Prescrição
    • Evitar mobilização desnecessária até avaliação inicial; suporte de via aérea, RCP e retirada de perigo imediato têm prioridade, com técnica apropriada.
    • Acompanhamento presencial contínuo até a chegada do médico
    • Sinais vitais, oximetria no suporte que já usa e glicemia. Não retirar oxigênio necessário para medir saturação em ar ambiente.
    • Tratar ameaças imediatas conforme protocolo e equipe habilitada, incluindo hipoglicemia e dor; não suspender toda intervenção até a chegada do médico.
  2. Minuto 0 a 3 — no chão, antes de mover

    Avaliar ABC, consciência, mecanismo, dor e exame neurológico, preservando alinhamento e conforto. Estar sentada, mover membros ou negar dor não exclui lesão cervical, sobretudo em idosa com dor distrativa no quadril e história incompleta. Restrição de movimento e imagem dependem de avaliação clínica e regra apropriada à população. Se suspeita de lesão, movimentar com equipe treinada e dispositivo adequado; prancha longa é recurso de transferência/resgate, não superfície para permanência. Não impor colar/prancha a toda queda sem testemunha nem forçar posição dolorosa.

    Prescrição
    • Avaliar pulso, respiração, nível de consciência e cinemática do trauma antes de mobilizar
    • Na suspeita de lesão vertebral, restringir movimento e mobilizar com equipe treinada, escolhendo técnica/dispositivo segundo quadro e protocolo. Evitar permanência prolongada em prancha e reavaliar indicação de colar.
    • Avaliar integridade e tracionamento de cateteres, sondas e drenos antes de mover o paciente
    • Registrar a hora exata do evento e a hora da avaliação médica
  3. Minuto 3 a 8 — os quatro números que respondem por que ele caiu

    Ainda no chão, e antes do exame ortopédico, colha os quatro dados que mudam a conduta imediata e que respondem à segunda pergunta do capítulo. Glicemia capilar, porque hipoglicemia derruba, se corrige em minutos e some do laboratório colhido meia hora depois. Saturação, porque hipoxemia derruba e porque o oxímetro está a três passos. Pressão arterial, deitado, para ter a referência de onde ele partiu. E frequência com ritmo — palpado agora e traçado logo em seguida, porque arritmia pode ameaçar a vida já neste episódio e também recorrer. Queda sem pródromo, com o paciente parado, é a apresentação que mais merece eletrocardiograma imediato.

    Prescrição
    • Glicemia capilar imediata; corrigir hipoglicemia na hora, sem esperar coleta laboratorial
    • Oximetria no ar ambiente apenas se já estiver sem oxigênio; manter suporte necessário e titular pelo alvo.
    • Pressão arterial em decúbito, frequência cardíaca e ritmo
    • Eletrocardiograma de 12 derivações imediato quando não houve pródromo, quando o paciente estava parado ou quando alguém descreve perda súbita de consciência
    • Temperatura, creatinina e creatinoquinase se o tempo no chão foi de horas
  4. Minuto 8 a 15 — o exame dirigido, e o membro que se olha antes de tocar

    Pesquisar dor, deformidade, encurtamento, rotação e capacidade funcional sem forçar o membro. Elevar a perna ou conseguir apoiar não exclui fratura oculta. Dor persistente ou suspeita clínica após radiografia normal exige discussão de imagem adicional, frequentemente ressonância ou tomografia conforme disponibilidade e indicação.

    Prescrição
    • Escala de coma de Glasgow, pupilas e exame neurológico comparado ao basal registrado no prontuário
    • Inspeção e palpação de todo o couro cabeludo; procurar equimose periorbitária, equimose retroauricular e otorreia ou rinorreia liquórica
    • Inspeção, palpação cuidadosa e avaliação neurovascular dos membros. Não forçar elevação da perna, rotação do quadril, marcha nem repetidas compressões da pelve se houver suspeita de fratura.
    • Inspeção da pele inteira, incluindo o dorso, com descrição do dano e da localização anatômica no prontuário
  5. Desde a avaliação inicial — analgesia, imagem indicada e transporte seguro

    Após trauma craniano, decidir tomografia por sinais clínicos, mecanismo, perda de consciência/amnesia e fatores de risco. Anticoagulantes e alguns antiagregantes modificam a avaliação; AAS isolado não tem a mesma regra que anticoagulação. Exame normal não determina internação ou repetição de TC para todos: considerar estado neurológico basal, sintomas, indicação de observação e capacidade de acompanhamento.

    Prescrição
    • Rosalina tem trauma craniano, amnésia, idade de 82 anos e varfarina: solicitar TC de crânio sem contraste prontamente e INR, sem esperar INR para decidir imagem. Não generalizar AAS isolado como indicação automática; usar regra atual e protocolo adequado. Deterioração, déficit ou sinais de fratura aumentam a urgência.
    • Radiografias apropriadas da bacia/quadril na suspeita de fratura proximal; posicionamento pela equipe de imagem sem forçar rotação dolorosa. Persistindo suspeita com radiografia normal, RM preferencial ou TC se RM indisponível/contraindicada, mantendo proteção de carga.
    • Analgesia precoce com paracetamol ou dipirona conforme contraindicações, via segura e fragilidade. Se usar dipirona IV, conferir apresentação e velocidade, monitorando hipotensão; 1 g corresponde a 2 mL da solução 500 mg/mL, sem tornar 1 g a cada 6 horas obrigatório para toda idosa. Dor intensa pode exigir opioide titulado em dose baixa e/ou bloqueio regional por profissional habilitado, com vigilância respiratória.
    • Não prescrever anti-inflamatório não hormonal na suspeita de fratura do colo do fêmur (Portaria Conjunta nº 21/2018)
    • Não instalar tração pré-operatória no membro fraturado — os riscos superam os benefícios (Portaria Conjunta nº 21/2018)
    • Solicitar ortopedia precocemente; bloqueio regional pode ajudar já na forte suspeita, conforme profissional habilitado, anatomia, anticoagulação e protocolo, sem esperar radiografia para iniciar analgesia apropriada.
  6. Hora 1 a 2 — a vigilância escrita, o registro e a notificação

    TC normal reduz a probabilidade de certas lesões agudas, mas não elimina toda complicação nem obriga observação prolongada universal. Definir conduta pela condição clínica e riscos, com instruções e reavaliação se houver piora. Alteração persistente ou nova do sensório requer avaliação imediata, incluindo outras causas clínicas.

    Prescrição
    • Se indicada observação por TCE, definir exame neurológico e sinais vitais por profissional capacitado. Um esquema NICE é a cada 30 minutos até Glasgow 15; depois a cada 30 minutos por 2 horas, de hora em hora por 4 horas e então de 2 em 2 horas, individualizando basal e risco. Deterioração exige avaliação imediata, sem esperar o próximo horário.
    • Se houver piora neurológica, reavaliar imediatamente Glasgow por componentes, pupilas, sinais focais e causas clínicas; discutir nova neuroimagem conforme achados. Não aguardar o próximo horário de observação. Pequena variação de um ponto exige conferência e contexto, não diagnóstico automático de sangramento.
    • Registro em prontuário com data e hora da queda, tipo de queda, local e condições, dano e localização anatômica, quem avaliou, conduta adotada e resposta do paciente
    • Notificação do evento ao Núcleo de Segurança do Paciente no mesmo plantão, inclusive quando não houve dano
    • Comunicar o evento e o novo risco na passagem de plantão, ao paciente e à família
  7. Hora 2 a 12 — a segunda investigação: a prescrição de ontem e a pressão em pé

    Terminado o inventário do dano, começa a investigação que evita a próxima queda. A prescrição rende mais que boa parte do laboratório, e se lê em três passadas: pelos nomes das classes que o protocolo nacional lista como fator de risco, pelo número total de itens — o protocolo citado usa quatro ou mais como sinalizador de polifarmácia, sem corte universal — e pela coluna de horários, que é onde a folha encontra a queda. No caso da dona Rosalina, as duas passadas fáceis já entregam: hipnótico administrado às 23h40 e diurético aprazado às 20h. Falta a medida que quase ninguém faz, e que é o único jeito de saber se a rota hemodinâmica participou: a pressão aferida com o paciente de pé, pelo critério e pelos tempos definidos nas diretrizes brasileiras de hipertensão. Ela não se colhe no chão, no meio do evento; colhe-se depois, com o paciente estável e autorizado a levantar, e com alguém segurando o braço dele.

    Prescrição
    • Suspender o zolpidem recentemente prescrito e tratar causas de insônia com medidas ambientais. Em uso crônico de benzodiazepínico ou hipnótico, avaliar dependência e retirada gradual; suspensão abrupta pode causar abstinência. Não substituir automaticamente por outro sedativo.
    • Reavaliar indicação, dose e horários do diurético e todas as entradas. Se ainda precisar de duas doses, preferir manhã/início da tarde quando viável, sem concentrar obrigatoriamente tudo numa dose. Congestão aguda pode exigir tratamento noturno com auxílio para eliminações.
    • Rever laxativo, preparo de exame e jejum programados de forma a não produzir urgência de eliminação durante a madrugada
    • Quando seguro, avaliar hipotensão ortostática com repouso prévio, medidas e sintomas ao levantar conforme protocolo. Manter braço apoiado na altura do coração para evitar erro hidrostático; interromper se houver pré-síncope ou instabilidade. Não realizar teste antes de avaliar lesões e segurança para ficar em pé.
    • Conferir na folha checada o que foi de fato administrado nas últimas 24 horas, incluindo doses condicionais, e o que foi introduzido, aumentado ou suspenso
    • Reavaliar o risco de queda hoje mesmo, porque a norma nacional determina reavaliação a cada episódio de queda durante a internação
  8. Dia 1 até a alta — a cirurgia em 48 horas, a mobilização precoce e o que vai no sumário

    Se houve fratura do colo do fêmur, o relógio que importa é o das diretrizes brasileiras aprovadas pela Portaria Conjunta nº 21, de 2018: o tratamento cirúrgico deve ser feito com a maior brevidade possível, desde que o paciente esteja clinicamente apto, evitando ultrapassar 48 horas a partir da ocorrência da fratura — e o documento registra que o ideal, segundo as duas diretrizes que ele adapta, seria operar em até 36 horas. O papel do interno nesse prazo é claro e é clínico: as condições que atrasam a cirurgia são as que ele corrige. Anemia, anticoagulação, depleção de volume, distúrbio eletrolítico, diabetes descompensado, insuficiência cardíaca descompensada, infecção pulmonar aguda e exacerbação de doença pulmonar crônica estão nominalmente na lista, e cada dia de espera é pneumonia, lesão por pressão, delirium e mortalidade. Se não houve fratura, o trabalho é outro e igualmente ativo: a resposta institucional espontânea à queda é reduzir mobilização, prescrever repouso e elevar grades, e três dessas quatro medidas produzem imobilidade — que é justamente o que gera a segunda queda. E o que sai no sumário de alta importa: queda que não é escrita não existe para quem admitir esse paciente da próxima vez, e história prévia de queda é um dos fatores de peso de qualquer instrumento de avaliação de risco.

    Prescrição
    • Com fratura confirmada, sinalizar à ortopedia a hora do evento e o alvo de cirurgia em até 48 horas a partir da fratura; documentar a cada dia qual condição clínica está impedindo a cirurgia e o que está sendo feito para corrigi-la
    • Corrigir ativamente as condições que atrasam a cirurgia: anemia, depleção de volume, distúrbio eletrolítico, descompensação de diabetes, de insuficiência cardíaca ou de doença pulmonar, e infecção aguda (Portaria Conjunta nº 21/2018)
    • Creatinina como rotina pré-operatória para todos; albumina conforme a avaliação clínica (Portaria Conjunta nº 21/2018)
    • Transfusão depende de sintomas, estabilidade, sangramento e contexto, com estratégia restritiva na maioria. Hb ≥8 g/dL não é proibição absoluta em isquemia ou hemorragia relevante; Hb 11,2 no caso estável não indica transfusão profilática.
    • Fisioterapia precoce, dentro de 48 horas do pós-operatório, e mobilização supervisionada em vez de repouso no leito (Portaria Conjunta nº 21/2018, força de recomendação forte)
    • Avaliar saúde óssea e prevenção secundária após fratura por fragilidade: aporte total de cálcio pela dieta/suplemento, vitamina D conforme idade/deficiência e terapia para osteoporose individualizada. Não prescrever 1.200 mg de suplemento além de dieta automaticamente; limites renais variam entre fármacos e formulações, e doença mineral renal exige avaliação própria.
    • No sumário de alta: a queda, a data, o dano, a causa identificada, o que foi retirado da prescrição por causa dela e o plano de mobilização
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Como saber se está funcionando

A queda tem uma peculiaridade que confunde a leitura de resposta: o evento já acabou quando você chega. Não há febre para baixar nem pressão para subir, e por isso a equipe tende a considerar o caso encerrado quando o paciente volta ao leito. Só que este capítulo tem três desfechos em aberto, com relógios diferentes, e cada um se acompanha de um jeito. O primeiro é o dano que ainda pode aparecer, e ele corre em horas a dias. O segundo é a causa, que continua trabalhando enquanto ninguém a encontra. O terceiro é a próxima queda, que se mede em dias e é a única que você tem chance de impedir.

Guarde o número que dá a escala do primeiro relógio: na série brasileira de quedas com dano, houve cinco óbitos decorrentes das quedas, e três deles aconteceram entre cinco e sete dias depois do evento. Quem só olha o paciente na manhã seguinte e o encontra bem não mediu nada — mediu o dia seguinte.

O nível de consciência e a pupilaSe em observação por TCE: a cada 30 min inicialmente, espaçando conforme estabilidade e protocolo; mudança clínica exige avaliação imediata

Esperado: Exame no basal, sinais vitais estáveis e ausência de sintomas progressivos. Integrar TC e evolução: nem imagem normal exclui todo risco, nem 12–24 h sem mudança garantem ausência de complicação tardia.

Se não melhora: Qualquer queda de ponto no Glasgow, anisocoria nova, cefaleia que piora, vômito repetido ou déficit focal novo dispara nova tomografia imediatamente, a qualquer hora, sem esperar a visita. O motivo está no bloco anterior e vale repetir em uma linha: a imagem descreve o instante em que foi feita, e o sangramento pode crescer depois dela. E há a apresentação tardia, que é a que mais escapa: confusão nova num idoso, dias depois, com o trauma já esquecido por todo mundo, é a forma clássica do sangramento subdural do idoso — a pergunta sobre queda recente precisa ser feita de forma ativa, porque ninguém a oferece.

A dor do quadril e a capacidade de descarregar pesoA cada plantão nas primeiras 72 horas, e sempre que a equipe relatar recusa nova de levantar

Esperado: Dor decrescente com analgesia de horário e retomada progressiva da carga com apoio. Ausência de dor à elevação do calcanhar com o joelho estendido.

Se não melhora: Manter restrição de carga e analgesia, com ortopedia e RM para suspeita de fratura oculta; TC se RM indisponível ou contraindicada. Se TC negativa e forte suspeita persiste, discutir RM. Não instruir interno a tracionar/rodar quadril para provocar achado em nova radiografia. Organizar referência se não há recurso.

A pressão arterial em péNa primeira vez em que o paciente for liberado a levantar depois da queda, e de novo 48 horas após qualquer mudança de anti-hipertensivo, diurético ou psicotrópico

Esperado: Sistólica que não cai 20 mmHg nem mais, e diastólica que não cai 10 mmHg nem mais, em nenhuma das duas aferições em pé, sem tontura e sem escurecimento visual.

Se não melhora: Confirmar técnica e sintomas e revisar causas de hipotensão ortostática: doença aguda, volemia, medicamentos e disfunção autonômica. Não suspender todo anti-hipertensivo por reflexo nem concluir que tratamento de pressão nunca contribui para queda; individualizar pela resposta e risco. Hidratação, sal e compressão também dependem de cardiopatia, doença renal e avaliação vascular. Levantar progressivamente com ajuda e interromper diante de sintomas, sem insistir em um tempo fixo sentado.

A causa que você identificouConforme a causa: ritmo e eletrocardiograma se houve suspeita de arritmia; glicemia capilar seriada se houve hipoglicemia; temperatura e marcadores se havia infecção em curso; exame neurológico se a hipótese foi evento vascular

Esperado: Que cada causa levantada tenha um parâmetro objetivo em acompanhamento e que ele se resolva. Queda cuja causa nunca foi nomeada é queda que vai se repetir.

Se não melhora: Causa que não responde ao tratamento é motivo para reabrir o diagnóstico dela, não para intensificar as medidas ambientais de prevenção. E lembre que as causas se somam: encontrar o hipnótico não encerra a lista quando o diurético das 20h continua aprazado. Se a busca completa não achou nada, e sobretudo se houve perda de consciência sem pródromo com o paciente parado, a investigação de síncope tem capítulo próprio e continua fora daqui.

A mobilidade e o medo de cair de novoDiariamente, com a informação vinda da fisioterapia e da enfermagem, e não da sua impressão na visita

Esperado: Mobilização supervisionada assim que segura e tolerada, sem espera arbitrária de 24–48 h se não há lesão impeditiva. Após cirurgia de quadril, avaliação e mobilização precoces, frequentemente no dia seguinte conforme plano ortopédico.

Se não melhora: Paciente que passou a recusar sair do leito depois da queda está no começo do ciclo que produz a segunda: medo gera imobilidade, imobilidade gera perda de força e de equilíbrio em dias, e a perda de força gera a queda seguinte. A resposta é o oposto da intuição institucional — mobilização supervisionada, avaliação de dispositivo de marcha, calçado adequado e um acompanhante liberado, em vez de repouso prescrito e grades elevadas.

A prescrição, item por itemTodo dia, na visita, até a alta

Esperado: Medicamentos com indicação, dose e horário revistos, reduzindo risco sem impor número máximo. Registrar plano de mobilidade e assistência para eliminações, e reavaliar após mudança clínica.

Se não melhora: Nova queda exige reavaliar causa, lesões e execução do plano. Prescrição idêntica não prova que ninguém reavaliou nem que a causa é a mesma. Registrar fatos e fatores possíveis, sem acusação baseada apenas na folha, e discutir melhorias com núcleo/equipe.

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Onde o erro machuca

Mandar levantar antes de examinar

O dano: É o único erro do capítulo que não tem correção posterior. Uma fratura instável de coluna mobilizada por duas pessoas apressadas, um colo femoral impactado que se desloca no movimento, um paciente com lesão que ninguém viu porque a única testemunha do estado em que ele estava foi apagada. E há o dano invisível: a partir do momento em que ele está sentado na cama, a cinemática vira relato, e ninguém mais sabe se houve impacto de cabeça. Você perdeu ao mesmo tempo a segurança e a informação.

Como pegar a tempo: Pedir que permaneçam com o paciente e evitem movimentá-lo sem avaliação, salvo ameaça imediata ou necessidade de RCP. Chegar rapidamente, avaliar resposta, respiração, circulação e trauma e chamar apoio. A avaliação deve ser eficiente e proporcional, sem ensinar que dois minutos nunca têm custo.

Aceitar Glasgow 15 como alta de preocupação no paciente anticoagulado

O dano: É a decisão que mais se erra e a que o capítulo existe para corrigir. O idoso anticoagulado que bate a cabeça chega ao exame lúcido, orientado e constrangido por ter dado trabalho, e é essa apresentação tranquilizadora que produz o erro. O encéfalo atrofiado deixa as veias que atravessam o espaço subdural esticadas, o crânio tem espaço sobrando, o sangue se acumula devagar — e a primeira manifestação clínica pode ser o rebaixamento, horas ou dias depois, com o trauma já esquecido por todos. Nesse cenário específico, a ausência completa de achado clínico não tem valor preditivo.

Como pegar a tempo: Trate a régua como uma pergunta de três degraus e descubra em qual o paciente está antes de discutir qualquer coisa. Anticoagulante, antiagregante ou distúrbio de coagulação tiram o paciente do fluxo que dispensaria a imagem, e a decisão passa a ser tomografia mais observação com gatilho escrito. Onde não há tomógrafo, o que se decide é transferência — e cedo, enquanto o paciente ainda está bem, porque regulação e transporte consomem exatamente as horas em que o hematoma cresce.

Dar alta da suspeita de fratura porque a radiografia veio normal

O dano: Fraturas impactadas do colo femoral e fraturas por insuficiência em osso osteoporótico cursam com deformidade ausente, com o paciente conseguindo apoiar o pé com dor, e com radiografia inicial normal — a prevalência de fratura oculta é estimada entre 3% e 9%. O idoso com déficit cognitivo agrava tudo porque não localiza nem quantifica a dor. O que acontece então é previsível: o paciente é mobilizado, a fratura se desloca, e o diagnóstico sai três dias depois com um osso em pior situação e o relógio das 48 horas já perdido.

Como pegar a tempo: Deixe a hipótese aberta pelo sintoma, não pelo exame. Dor persistente em quadril, virilha, coxa ou joelho, ou recusa nova de descarregar peso, mantém a suspeita mesmo com imagem normal: restrição de carga, conversa com a ortopedia e avanço para ressonância magnética, que é o método de escolha para a fratura oculta. Lembre também da dor referida no joelho, que já custou muito diagnóstico a quem examinou só o segmento de que o paciente reclamava.

Tratar a lesão e não procurar por que ele caiu

O dano: É a diferença entre atender a queda e atender o paciente. Arritmia com baixo débito, hipoglicemia, sepse em curso, evento vascular cerebral discreto, crise convulsiva não presenciada e sangramento agudo entram pela porta da enfermaria disfarçados de tombo — e é a doença de trás que decide o prognóstico, não o corte no couro cabeludo. Suturar a laceração e devolver o paciente ao leito com a arritmia intacta é entregá-lo à segunda ocorrência, que costuma ser pior que a primeira porque agora ninguém está esperando por ela.

Como pegar a tempo: Considere causas clínicas além do trauma. Cinco perguntas resolvem a triagem: houve pródromo ou ele apagou sem aviso; ele estava em pé, sentado ou deitado; havia sintoma novo nas horas anteriores; houve liberação esfincteriana, mordedura de língua ou desorientação prolongada depois; e o que aconteceu com os sinais vitais logo em seguida, incluindo glicemia e ritmo. Queda sem pródromo, com o paciente parado, é a que mais merece eletrocardiograma imediato.

Responder à queda com repouso, grade elevada e contenção

O dano: É a reação institucional espontânea, é bem-intencionada e produz exatamente o desfecho que quer evitar. Repouso e imobilidade geram perda de força e de equilíbrio em poucos dias, num paciente que já estava no limite, e o protocolo nacional registra que a queda gera medo de cair de novo, o que por si aumenta o risco de nova queda. Grade elevada num paciente que decidiu levantar transforma uma queda da altura da cama numa queda por cima de um obstáculo. E a contenção mecânica tem norma própria e capítulo próprio nesta coleção, o do delirium, que é onde ela é discutida com a regra que a governa.

Como pegar a tempo: A prescrição depois da queda inclui mobilização supervisionada precoce, avaliação de dispositivo de marcha, calçado adequado, campainha ao alcance e acompanhante liberado — não repouso. A cama fica na posição mais baixa e travada; a grade não substitui a presença de alguém. E o item mais repetido dos protocolos brasileiros continua sendo o mais prosaico: orientar paciente e acompanhante a só levantar do leito acompanhados por um profissional.

Deixar o evento sem registro, ou notificar e parar aí

O dano: São dois erros que se somam. O primeiro é omitir: queda não escrita não chega à passagem de plantão, não chega ao sumário de alta e não existe para quem admitir esse paciente na próxima internação — apagando justamente o fator de risco de maior peso nos instrumentos de avaliação. O quase-evento sofre disso em dobro: o paciente que a técnica amparou hoje é o que cai sozinho amanhã, e o amparo é a única chance de agir antes do dano. O segundo erro é notificar e considerar a tarefa cumprida, deixando o formulário morrer numa planilha sem que ninguém mude um horário de aprazamento.

Como pegar a tempo: Escreva os oito itens que o protocolo institucional exige, na hora, e notifique no mesmo plantão, com dano ou sem dano. Depois use o Núcleo de Segurança do Paciente pelo que ele é: obrigatório por norma, responsável por analisar os fatores contribuintes e com mandato para propor mudança de processo. E desarme, em você e na equipe, a ideia de que notificar é se acusar — a resolução que cria o núcleo define cultura de segurança como aquela que troca a culpa e a punição pela oportunidade de aprender com as falhas, e o protocolo institucional garante o sigilo dos dados de quem notifica e de quem é notificado. O sinal de que isso funcionou é contraintuitivo: quando um hospital brasileiro facilitou a notificação e treinou as equipes, o índice de quedas subiu — e os próprios autores registram que o aumento acompanhou as ações administrativas e educacionais, não uma piora do cuidado.

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O que dizer ao paciente e à família

A conversa da queda tem uma pergunta que chega antes de todas as outras, e é a razão de este bloco existir: de quem foi a culpa. Ela pode vir educada, pode vir com o celular gravando, e pode vir só nos olhos de quem está encostado na porta do quarto. Ignorá-la não faz com que ela vá embora — faz com que ela seja respondida por outra pessoa, geralmente pelo silêncio, e o silêncio responde que houve algo a esconder.

A régua que orienta as falas abaixo é simples e não é jurídica: diga o que aconteceu, diga o que você está fazendo, diga o que você não sabe ainda, e não distribua responsabilidade sobre pessoa nenhuma na frente da família. Culpa individual não é matéria da conversa de beira de leito, e a norma que institui a segurança do paciente no país orienta na mesma direção ao definir cultura de segurança como a que substitui a culpa e a punição pela oportunidade de aprender com as falhas.

A filha chega às cinco da manhã e a primeira pergunta é de quem foi a culpa

Vou contar o que aconteceu com detalhe, porque a senhora tem direito a saber. Sua mãe levantou sozinha para ir ao banheiro por volta das quatro da manhã, sentiu a vista escurecer e caiu. Ela bateu a cabeça e tem um corte no couro cabeludo. Sobre culpa: eu não vou apontar ninguém agora, e vou explicar por quê. Uma queda no hospital quase nunca tem uma causa única — costuma ter três ou quatro coisas somadas, e algumas delas estão na conduta médica, inclusive na minha. Duas medicações que eu prescrevi ontem entram nessa conta, e eu já mexi nas duas. O evento vai ser notificado e analisado formalmente pelo serviço, que é o procedimento previsto justamente para descobrir o que falhou e mudar. O que eu preciso da senhora agora é outra coisa: informação. Como ela andava em casa, se já tinha caído antes, e o que ela toma que a gente talvez não saiba.

Não diga: Dizer que foi ela quem não chamou a enfermagem. Pode até ser verdade e é irrelevante como resposta: transfere a responsabilidade para uma senhora de 82 anos com vontade de urinar às quatro da manhã, encerra a conversa e encerra a investigação junto.

Explicar por que vai fazer tomografia numa paciente que está conversando e sem sintoma

Sua mãe bateu a cabeça e usa varfarina, que aumenta o risco de sangramento. Mesmo conversando, ela precisa de tomografia pelo conjunto de informações. Depois vamos juntar o resultado ao exame e definir a vigilância. Se surgir sonolência diferente, dor de cabeça que piora, vômitos ou fraqueza, chamem imediatamente; isso pode exigir nova avaliação e imagem.

Não diga: Explicar a decisão como protocolo do hospital. A família aceita, mas não entende, e no dia seguinte recusa a segunda tomografia por achar que é repetição desnecessária. O que sustenta a conduta é o mecanismo, e ele cabe em três frases.

Dizer que a prescrição de ontem, escrita por você, contribuiu para a queda

Tem uma parte disso que eu preciso falar diretamente. Ontem eu prescrevi um remédio para ela dormir, porque ela reclamou do barulho da enfermaria, e um diurético em duas doses, uma delas às oito da noite. O remédio para dormir deixa a pessoa mais lenta para reagir quando desequilibra, e o diurético de fim de tarde faz a pessoa acordar de madrugada com vontade de urinar. Os dois podem ter contribuído para que ela levantasse com sono e urgência; ainda estamos avaliando as outras causas. Eu já suspendi o primeiro e mudei o horário do segundo, e isso vai ficar registrado no prontuário e na notificação do evento. Eu não estou dizendo isso para me penitenciar; estou dizendo porque, se a senhora não souber, alguém vai prescrever de novo na próxima internação.

Não diga: Omitir a parte da prescrição e falar só do banheiro e do piso. A família quase sempre descobre depois, ao ler o prontuário ou ao ouvir a equipe, e a confiança que se perde nesse momento não volta na mesma internação.

A família pede que a paciente fique presa na cama para não cair de novo

Eu entendo o medo, e ele é razoável. Mas amarrar ou prender na cama piora exatamente o que a senhora quer evitar. Quem fica parado perde força e equilíbrio em poucos dias, e aí a próxima queda é mais provável e mais grave. Quem é contido também luta contra a contenção, e se machuca nisso. O que funciona é o contrário: ela vai levantar, com alguém junto, várias vezes por dia, e vai ganhar força de novo. O que eu posso combinar com vocês é presença — se um de vocês puder ficar à noite, isso vale mais que qualquer grade. E a campainha fica na mão dela, e a cama fica baixa e travada.

Não diga: Prometer que ela não vai cair de novo. Não se promete isso. O que se promete é o que se controla: presença, prescrição revista, chamada atendida, e mobilização acompanhada.

Explicar por que ela vai sair da cama amanhã, e não ficar de repouso

A reação natural depois de uma queda é dizer para a pessoa não sair da cama, e é o que quase toda família pede. Só que repouso, aqui, é remédio errado. Em poucos dias sem andar, uma pessoa da idade dela perde força de perna e perde equilíbrio de um jeito que não se recupera rápido — e é isso que produz a queda seguinte. Então o plano é o oposto: fisioterapia, levantar com apoio, sentar na poltrona para as refeições, e sempre com alguém junto. Se em algum momento ela disser que está com medo de levantar, me avise, porque medo de cair também é um problema que se trata, e não algo para deixar passar.

Não diga: Dizer apenas que ela precisa se movimentar. Sem o mecanismo, soa como descuido de quem já deixou a paciente cair uma vez, e a família passa a impedir a mobilização por conta própria.

A conversa com a técnica de enfermagem que estava de plantão

Vou registrar e notificar os fatos para analisarmos os fatores que contribuíram e melhorarmos o cuidado. Precisamos conferir medicamentos, horários, ambiente e assistência disponível. Você pode me ajudar a reconstruir quando ela foi vista bem e como foi encontrada? O registro segue as regras de acesso e confidencialidade do serviço; não vou antecipar uma conclusão sobre responsabilidade.

Não diga: Notificar sem avisar a equipe. É o caminho mais rápido para que a próxima queda não seja contada a você — e a queda que ninguém conta é a que se repete com a mesma prescrição.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Avaliar risco de queda: escala validada, julgamento clínico, ou os dois?

A norma nacional exige a avaliação e não adota escala alguma

O protocolo nacional determina que o risco de queda seja avaliado na admissão de todo paciente e reavaliado diariamente até a alta, além de a cada transferência de setor, a cada mudança do quadro clínico e a cada episódio de queda. Mas ele registra expressamente que não adota nenhuma escala em particular, e observa que a Morse Fall Scale e as demais não são de acesso livre, dependendo de autorização dos autores. O que ele entrega no lugar é uma lista de fatores de risco por domínio — demográfico, psicocognitivo, condições de saúde, funcionalidade, comprometimento sensorial, equilíbrio, medicamentos e história prévia de queda — e uma avaliação separada dos fatores que agravam o dano, como osteoporose, fratura anterior, uso de anticoagulante e discrasias sanguíneas.

Ministério da Saúde / Anvisa / Fiocruz — Protocolo Prevenção de Quedas (Anexo 01 dos Protocolos Básicos de Segurança do Paciente, Portaria GM/MS nº 2.095/2013)

A rede pública opera com a Morse em versão brasileira

Os protocolos institucionais da rede federal de hospitais universitários adotam a Morse Fall Scale em versão brasileira, aplicada pela enfermagem na admissão e diariamente, com sinalização visual à beira do leito, alocação do paciente de alto risco próximo ao posto e exigência de que o diagnóstico de enfermagem de risco de queda conste da prescrição do paciente classificado como de alto risco. O monitoramento é feito por indicadores de processo — proporção de pacientes com avaliação realizada na admissão e proporção de pacientes de alto risco com o diagnóstico registrado — além do número de quedas com e sem dano.

Ebserh — Protocolo PRT.STGQ.003, Prevenção de quedas, HU Júlio Bandeira/UFCG, versão 3, 2024; e Protocolo PRT.NPM.006, Quedas: prevenção e atendimento imediato, HC/UFTM, versão 2, 2020

A medição da escala mostra o preço do corte

O estudo que validou a versão brasileira acompanhou 1.487 pacientes de dois hospitais universitários e mediu o que o corte de 45 pontos entrega: área sob a curva de 0,848, sensibilidade de 95,2% e especificidade de 64,0%. O preço aparece na distribuição: 597 pacientes, ou 40,1% de toda a população internada, ficaram classificados como de risco elevado, e desses 99 caíram — pouco menos de um em cada seis. Do outro lado, dos 890 pacientes abaixo do corte, apenas 5 caíram. O alfa de Cronbach de 0,278 indica que os itens medem coisas diferentes entre si, e dois deles, diagnóstico secundário e terapia endovenosa, não discriminaram quem caiu de quem não caiu.

Urbanetto JS et al. — Análise da capacidade de predição de risco e validade da Morse Fall Scale versão brasileira (Rev Gaúcha Enferm. 2016;37(4):e62200)

Como decidir

Avaliar fatores individuais e capacidade funcional de todos os pacientes pertinentes; não usar escore baixo como exclusão do risco. Desempenho em uma coorte não garante segurança na sua enfermaria, e valor preditivo depende da população/intervenções. Se escala integra o protocolo local, aplicá-la sem substituir plano clínico: mobilidade, cognição, medicamentos, continência, ambiente e consequências possíveis. Avaliar necessidade de apoio concreto em cada turno.

Idoso em uso de anticoagulante, com Glasgow 15 e exame normal: tomografia para todos ou seleção caso a caso?

Fora da régua que dispensaria a imagem, com avaliação individualizada

A diretriz estadual de trauma adota, no traumatismo craniencefálico leve com Glasgow 15, os critérios canadenses para decidir a tomografia — e abre uma exceção nominal para quem toma antiagregante plaquetário, para quem toma anticoagulante e para quem tem distúrbio da coagulação, determinando que sejam avaliados caso a caso. Ela não manda, com todas as letras, tomografar todos: manda tirá-los da regra de decisão e devolver a escolha ao julgamento clínico.

Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo — Atendimento de Urgência ao Paciente Vítima de Trauma: Diretrizes Clínicas, versão 2018

Alto risco: tomografia sempre e internação mesmo com exame normal

O Projeto Diretrizes da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia coloca o distúrbio de coagulação e de crase sanguínea na faixa de alto risco de vir a ter, ou de desenvolver, lesão que exija neurocirurgia. E para essa faixa a conduta é determinada, não discricionária: todos tomografam, e todos ficam internados para reavaliação ainda que a imagem venha limpa. O mesmo texto acrescenta que a deterioração clínica nas horas seguintes indica repetir o exame, porque o sangramento pode estar em curso no instante da primeira imagem.

Sociedade Brasileira de Neurocirurgia / AMB / CFM — Projeto Diretrizes: Diagnóstico e Conduta no Paciente com Traumatismo Craniencefálico Leve (elaboração final em 31 de agosto de 2001)

O protocolo de quedas não decide a imagem e remete ao atendimento do trauma

O protocolo institucional que organiza o atendimento imediato à queda estrutura a avaliação em etapas, com escala de coma de Glasgow e checagem pupilar na etapa neurológica, e distingue a queda como agente causador do evento da queda como consequência de mal súbito, remetendo a primeira às diretrizes de atendimento ao trauma e a segunda às de ressuscitação. Ele determina que médico e enfermeiro façam julgamento crítico do evento, da cinemática e dos recursos da unidade, e que exames sejam solicitados quando necessário — sem fixar qual paciente faz imagem de crânio.

Ebserh — Protocolo PRT.NPM.006, Quedas: prevenção e atendimento imediato, HC/UFTM, versão 2, emissão de 3 de setembro de 2020

Como decidir

Separar indicação da primeira TC, necessidade de observação e repetição de imagem. Na paciente anticoagulada com trauma/amnésia, TC precoce é apropriada; critérios atuais distinguem AAS isolado dos demais antitrombóticos. TC normal e exame no basal não obrigam nova imagem ou internação apenas pelo medicamento. Com deterioração, reavaliar urgentemente. Se TC indicada não existe no serviço, providenciar transferência e vigilância enquanto aguarda, sem tratar ausência de recurso como exclusão do risco.

Depois da queda, o que se faz com o anti-hipertensivo e com o diurético?

As classes estão nominalmente entre os fatores de risco de queda

O protocolo nacional relaciona, entre os fatores de risco ligados a medicamento, classes que o interno não costuma associar a queda: antiarrítmico, digitálico, diurético, laxativo, vasodilatador, hipoglicemiante oral e insulina, ao lado dos psicotrópicos. Trata ainda o número de itens como fator por si — quatro ou mais medicamentos já configuram polifarmácia. E, nas medidas específicas, manda conferir diurético, laxante e preparo de exame dentro da avaliação das necessidades fisiológicas, além de recomendar horário programado para levar o paciente ao banheiro.

Ministério da Saúde / Anvisa / Fiocruz — Protocolo Prevenção de Quedas (Anexo 01, Portaria GM/MS nº 2.095/2013)

Tratar a hipertensão não aumentou queda com lesão

As diretrizes brasileiras de hipertensão trazem, na maior força de recomendação e com evidência de ensaios randomizados, o achado que desarma a conclusão apressada: tratar a hipertensão reduziu desfecho cardiovascular sem que a ortostase piorasse e sem que as quedas com lesão aumentassem. O mesmo documento nomeia a hipertensão mal controlada entre as causas de hipotensão ortostática, e destaca, entre os fármacos que provocam ou pioram o quadro, os alfabloqueadores, os diuréticos, os simpatolíticos, os nitratos e os antidepressivos tricíclicos. Determina ainda que a ortostase seja procurada de forma ativa nos grupos de maior risco, com a pressão aferida no primeiro e no terceiro minuto de ortostatismo.

SBC / SBH / SBN — Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial 2020 (Arq Bras Cardiol. 2021;116(3):516-658)

A intervenção institucional é sobre como levantar, não sobre suspender

O protocolo institucional trata a hipotensão postural sem mexer na prescrição: orienta paciente, familiares e acompanhantes a que o paciente se levante progressivamente, elevando a cabeceira a 30 graus e sentando-se no leito com os pés apoiados no chão por cinco a dez minutos antes de sair da cama, e sempre com ajuda de um profissional da equipe de cuidado.

Ebserh — Protocolo PRT.NPM.006, Quedas: prevenção e atendimento imediato, HC/UFTM, versão 2, 2020

Como decidir

Revisar benefício e dano de cada fármaco, pressão, volemia, função renal, glicose e administração real. Zolpidem recente sem indicação forte pode ser retirado; benzodiazepínico crônico exige plano para evitar abstinência. Diurético pode necessitar redução, suspensão ou mudança de horário conforme congestão/depleção, não apenas transferência obrigatória para manhã. Hipotensão sintomática permite ajustar anti-hipertensivos; ensaios populacionais não provam segurança de toda dose no idoso frágil. Teste ortostático negativo não exclui fenômeno intermitente. Planejar reavaliação após ajustes.

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O raciocínio, em voz alta

Volte à dona Rosalina Zanotto. 82 anos, 54 quilos, quinto dia de internação por pneumonia adquirida na comunidade, já afebril e saturando bem. Fibrilação atrial em uso de varfarina há sete anos. São 4h10 e ela está sentada no chão do banheiro, encostada na parede, acordada, com a mão no quadril direito e sangue no couro cabeludo. A técnica está com as mãos sob as axilas dela, esperando você dizer alguma coisa. Acompanhe o raciocínio em voz alta.

  1. o que eu digo ao telefone, antes de sair da sala

    Peço que permaneçam com a paciente, evitem levantá-la às pressas, avaliem segurança/ABC e acionem ajuda conforme gravidade. Sinais, glicose e suporte indicado podem começar antes de minha chegada. Pergunto se alguém presenciou e quando foi vista bem; ausência de testemunha aumenta incerteza, sem comprovar um mecanismo.

  2. os primeiros noventa segundos, no chão

    Respira e responde, com pulso irregular a 88, compatível com a FA conhecida. Tem impacto craniano e história incompleta, além de dor no quadril. Não libero coluna por ausência de dor cervical nem por ter se movido; idade e lesão distrativa limitam essa avaliação. Protejo movimentos, solicito avaliação do responsável e considero imagem cervical conforme critérios, com transferência segura e analgesia.

  3. os quatro números, ainda no chão

    Glicose 104 e SpO₂ 95% no momento tornam hipoglicemia/hipoxemia atuais improváveis, mas não reconstroem com certeza o instante da queda. PA 122/70 deitada e FA a 88 não excluem ortostase nem arritmia transitória. O pródromo favorece mecanismo postural, sem fechar causa; ECG e monitorização conforme risco, com ortostase apenas quando levantar for seguro.

  4. o exame dirigido, e o que eu olho antes de tocar

    Glasgow 15, pupilas reativas e exame sem déficit. Laceração occipital exige cuidado local e avaliação da situação vacinal conforme ferida. Dor trocantérica permanece apesar de ausência de deformidade; elevar a perna não exclui fratura. Solicito imagem do quadril conforme suspeita e protejo carga até esclarecimento. Ausência de dor no punho não prova falha de reflexo de proteção.

  5. a decisão que muda tudo, e por que ela é fácil

    Solicito TC sem contraste pela idade, amnésia, trauma craniano e varfarina, além de INR sem atrasar imagem. Organizo vigilância clínica individualizada e gatilhos de escalada; se indicada observação por TCE, começar com avaliações frequentes, não apenas de 2 em 2 horas desde o início. TC normal com basal preservado não exige automaticamente repetição, mas qualquer deterioração deve ser avaliada prontamente.

  6. a segunda investigação: a folha de prescrição

    Zolpidem recém-prescrito e diurético noturno são fatores contribuintes plausíveis, sem prova de causa exclusiva. Suspendo o hipnótico recente e reviso necessidade/dose/horário da furosemida conforme congestão. Se duas doses forem necessárias, considerar manhã e início da tarde; garantir ajuda para eliminações. Registro motivo dos ajustes e acompanho pressão, sintomas e mobilidade.

  7. o que eu não faço, e o que eu faço antes de sair do plantão

    Não peço radiografia de crânio como triagem nem TC de corpo inteiro por reflexo. Discuto varfarina com o responsável à luz de INR, TC, sangramento e risco trombótico: reversão não é automática após queda sem hemorragia, mas sangramento intracraniano exige ação urgente em paralelo à neurocirurgia. Mobilização assim que segura após esclarecer lesões, sem esperar amanhã arbitrariamente. Registro e notifico fatos, converso sobre possíveis contribuintes e evito afirmar causalidade ainda não demonstrada.

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Faça você

Agora é o senhor Nivaldo Tarouco, do leito 12. 68 anos, 91 quilos, terceiro dia de internação por celulite extensa em perna direita, em antibiótico venoso, respondendo bem. Diabético tipo 2 em insulina NPH pela manhã e à noite, hipertenso em uso de enalapril e hidroclorotiazida, sem anticoagulante e sem antiagregante. Às 3h50 a técnica o encontra sentado no chão ao lado do leito, pálido, sudoreico, confuso, sem lembrar de nada. Não bateu a cabeça, segundo ele — mas ele não lembra do trajeto. Sinais vitais colhidos no chão: pressão 104x62, frequência 96 e regular, temperatura 36,2, frequência respiratória 18, saturação 96% em ar ambiente. Glasgow 14 (E4V4M6), olhos abertos espontaneamente e fala confusa, sem déficit focal, pupilas simétricas. Membros inferiores simétricos, sem encurtamento e sem rotação externa; ele consegue elevar os dois calcanhares do plano do leito. A ceia da noite foi recusada porque ele estava enjoado.

  1. o dado que precisa ser colhido antes de qualquer outro

    Glicemia capilar. Ele usa insulina NPH noturna, recusou a ceia, está pálido, sudoreico e confuso às quatro da manhã — a hipoglicemia responde por esse quadro inteiro, se corrige em minutos e desaparece do laboratório colhido meia hora depois. Não é um exame da investigação: é a primeira coisa que se pede, ainda no chão, junto de saturação, pressão e ritmo.

  2. por que a queda dele não é a mesma da dona Rosalina

    Não usar antitrombótico não elimina risco de TCE. Nivaldo está abaixo do basal, com história incerta e possível causa metabólica: avaliar e corrigir hipoglicemia se presente enquanto investiga trauma. Glasgow deve ser decomposto em suas respostas e repetido; nenhuma etiqueta substitui a avaliação clínica.

  3. a ordem em que as duas hipóteses se resolvem

    Corrigir hipoglicemia documentada e reavaliar consciência, sem esperar a resposta para acionar ajuda ou imagem se houver outro critério urgente. Recuperar Glasgow não exclui trauma; persistência do rebaixamento amplia investigação além de TCE. Em paciente de 68 anos com amnésia e possível impacto craniano, manter baixo limiar para TC.

  4. conduta

    Escreva o plano de suporte, glicose, investigação de trauma e causa, monitorização e revisão da NPH. Diga o que muda se a glicose vier baixa e se vier normal.

Ver como fecharíamos

Avaliar ABC, segurança, trauma e glicemia imediatamente. Se houver hipoglicemia, tratar por via apropriada ao nível de consciência, rechecando em cerca de 15 minutos até correção e mantendo vigilância de recorrência pelo efeito da NPH. Evitar via oral se não deglute com segurança. Rever dose, alimentação e função renal; não atribuir o episódio à insulina sem medir. Reavaliar Glasgow por componentes e investigar lesões sem se tranquilizar apenas porque voltou ao basal. Nivaldo tem 68 anos, amnésia e história incapaz de excluir impacto craniano; discutir TC prontamente conforme critérios. Proteger coluna quando indicada e não forçar teste de marcha/quadril antes de afastar lesão. ECG e investigação dirigida de possível síncope, além de revisão de todos os medicamentos e sinais de infecção/sangramento conforme contexto. Uma PA isolada de 104/62 não confirma hipotensão causal; ortostase só quando seguro. Medicação pode requerer ajuste, sem retirada automática de toda proteção cardiovascular. Registrar horário conhecido ou estimado, achados, condutas, resposta e pendências; notificar e comunicar o plano ao paciente/família e próximo turno. Retomar mobilidade com apoio assim que seguro e garantir assistência para alimentação e eliminações.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Organizar cirurgia precoce após avaliação e correção de problemas relevantes, evitando atraso desnecessário. Analgesia começa prontamente e pode incluir bloqueio regional por profissional habilitado, conforme contraindicações; dor não controlada pode exigir opioide titulado e monitorizado. Evitar tração rotineira e avaliar riscos de anti-inflamatórios no idoso. A referência de até 48 horas não autoriza esperar para organizar o cuidado. Hb de 11,2 g/dL em paciente estável não justifica transfusão para um alvo arbitrário. Limiares restritivos precisam de contexto; Hb ≥8 não é proibição absoluta em qualquer situação clínica.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Explique o que muda entre varfarina, AAS isolado e ausência de antitrombótico após trauma. Demonstre avaliação de ortostase quando segura.

Em 30 dias

Compare queda com hipoglicemia, síncope e fratura oculta. Monte plano de analgesia, imagem, monitorização e mobilidade, explicitando incertezas e fatores modificáveis.

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Agora atenda

Agora atenda: homem de 74 anos, sétimo dia de internação por descompensação de insuficiência cardíaca, em uso de furosemida e de ácido acetilsalicílico, encontrado caído no corredor perto do banheiro às 5h20, acordado e com dor no ombro esquerdo. Comece pelo telefonema e vá até a visita da manhã seguinte. Enuncie o que avalia antes de autorizar qualquer mobilização, decida a imagem justificando a régua que usou, e explique ao filho, com as suas palavras, por que a queda vai ser notificada.

Queda do paciente internado — Internato | OsceLabs