Clínica MédicaSíndromes do Paciente Internado

Parada cardiorrespiratória na enfermaria

Você não vai comandar a parada, e este capítulo não vai fingir que vai. O que se cobra do interno é o que decide o desfecho antes de qualquer droga: reconhecer que é parada, chamar do jeito certo, comprimir bem — e não atrapalhar quem chegou.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida. Brasília: Ministério da Saúde, 2014 (protocolos com revisões até janeiro de 2016).

Bernoche C, Timerman S, Polastri TF, et al. Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar e Cuidados Cardiovasculares de Emergência da Sociedade Brasileira de Cardiologia — 2019. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. 2019;113(3):449-663.

Hospital Universitário Walter Cantídio, Universidade Federal do Ceará / Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares. Protocolo PRO.GAS.002 — Time de Resposta Rápida. Emissão em 4 de dezembro de 2020, versão 1.

Silva RMFL, Silva BAGL, Silva FJM, Amaral CFS. Ressuscitação cardiopulmonar de adultos com parada cardíaca intra-hospitalar utilizando o estilo Utstein. Revista Brasileira de Terapia Intensiva. 2016;28(4):427-435.

Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 1.805, de 9 de novembro de 2006. Publicada no Diário Oficial da União de 28 de novembro de 2006, Seção I, p. 169.

01

Responda antes de ler

Você é o interno e está comprimindo há quase dois minutos numa parada de enfermaria. A equipe chegou e está preparando o desfibrilador. Um colega comenta que você deveria comprimir mais forte e mais rápido. Qual é o conjunto de parâmetros que define uma compressão de boa qualidade no adulto?

02

O paciente que você vai ver

Seis e vinte da manhã de uma quarta-feira, enfermaria de clínica médica de dezesseis leitos num hospital municipal do interior. Você é o interno de plantão. O residente subiu para a unidade de terapia intensiva há uns quarenta minutos e o clínico plantonista está no pronto-socorro, dois andares abaixo. A técnica de enfermagem, que estava passando a medicação das seis, sai do quarto do leito 14 andando rápido e diz uma frase sem verbo: doutor, o seu Otacílio.

Otacílio Bulhões tem 66 anos, 72 quilos, e está no quinto dia de internação por erisipela extensa de perna esquerda. Tem doença renal crônica conhecida, em acompanhamento no ambulatório, e nunca dialisou. Ontem à tarde, na visita, alguém reintroduziu o enalapril e a espironolactona que ele usava em casa e prescreveu um anti-inflamatório para a dor da perna. Ele passou a noite quieto. Às quatro da manhã a folha registra que estava sonolento, e às cinco a técnica anotou que ele reclamou de fraqueza nas pernas e não quis água. Ninguém foi chamado.

Você entra no quarto. Ele está em decúbito dorsal, com a cabeceira a trinta graus, olhos entreabertos, e não responde ao próprio nome dito alto. Você aperta o trapézio dele com força e nada acontece. O tórax faz, a cada seis ou sete segundos, um movimento que engana: a boca abre, o queixo sobe, e sai um ruído grosso, arrastado, parecido com um ronco muito lento. Se você tivesse chegado de longe e olhado por dois segundos, teria dito que ele estava respirando.

É aqui que este capítulo começa, e é aqui que ele se perde na maioria das vezes. Aquele movimento não é respiração: é o que sobra do tronco cerebral quando o coração já parou, e ele tem nome — gasping, ou respiração agônica. O erro que se comete diante dele não é de conhecimento. É de tempo: a pessoa fica olhando, chama de novo, sacode o ombro, volta ao corredor para pedir opinião. Cada uma dessas coisas custa segundos que não voltam, e são exatamente os segundos que decidem se aquele senhor vai ter um cérebro depois.

Sem resposta e sem respiração normal, acione ajuda/código de emergência e avalie pulso por no máximo dez segundos. Na ausência de pulso definido, inicie compressões imediatamente. Outra pessoa ajusta altura da cama, aciona modo de reanimação ou providencia superfície firme em paralelo; não gastar os primeiros segundos organizando o colchão antes de começar.

O que acontece nos próximos vinte minutos não vai ser conduzido por você. Vai chegar gente com mais treino e mais autoridade, e é assim que deve ser. Mas quatro coisas dependem inteiramente de você e já aconteceram ou já falharam antes de qualquer um chegar: alguém reconheceu que era parada, alguém chamou do jeito certo, alguém começou a comprimir bem, e alguém sabia onde ficava o desfibrilador. Nenhuma dessas quatro é uma decisão de especialista. Todas as quatro são suas.

E há uma quinta coisa, que ninguém ensina e que separa o interno útil do interno que estorva: saber ficar. Quando a sala encher, vai haver seis pessoas em volta de uma cama de oitenta centímetros, e o valor que você agrega deixa de ser o de quem opina e passa a ser o de quem comprime no ritmo certo, conta em voz alta, troca sem ser mandado e responde uma coisa que só você sabe — o que esse senhor tomou ontem, e por quê.

Guarde a pergunta que o resto do capítulo responde, porque ela não é 'qual droga'. É: o que aconteceu com o potássio deste senhor entre a visita de ontem à tarde e as seis e vinte de hoje, e por que a resposta a essa pergunta vale mais do que qualquer coisa que você vá fazer com a caneta nos próximos dez minutos.

03

Quem adoece disso

A frequência de ritmos iniciais varia entre parada intra-hospitalar e extra-hospitalar, local, causa, tempo de reconhecimento e população. Percentuais históricos, como alta proporção de fibrilação ventricular em coortes selecionadas, não descrevem automaticamente o cenário atual da enfermaria. Use o ritmo que o monitor mostra e o algoritmo adequado, mantendo busca de causas e qualidade de RCP.

A casuística brasileira que mais serve a este capítulo acompanhou por um ano 89 adultos reanimados num hospital universitário de Minas Gerais, com registro padronizado. O ritmo inicial mais frequente foi assistolia ou bradiarritmia, em 42,7%. A parada aconteceu, em média, 10,3 dias depois da internação. Setenta e um por cento tiveram retorno da circulação. Nove por cento saíram vivos do hospital, e 6% continuavam vivos seis meses depois. Leia os três números na ordem em que eles aparecem: reverter a parada é o resultado comum; sobreviver a ela não é. Isso não desautoriza reanimar — desautoriza prometer.

O mesmo estudo mede a distância entre duas coisas que costumam ser tratadas como uma só. O tempo médio entre a parada e o início das compressões foi de 0,68 minuto, ou seja, quarenta segundos. O tempo médio até a desfibrilação foi de 7,1 minutos, dez vezes maior. E isso num serviço de terapia intensiva, com monitor ligado e equipe treinada ao lado. Traduzindo para a enfermaria, onde não há monitor e a pessoa mais próxima é uma técnica passando medicação: começar a comprimir depressa é um problema resolvível com quem já está no quarto; colocar as pás no tórax depressa é um problema de logística do andar, e é por isso que saber onde fica o desfibrilador é conhecimento clínico, não detalhe administrativo.

Um quarto número muda o que se faz depois que dá certo. Entre os pacientes que retornaram, 61,4% tiveram nova parada, a maior parte nas primeiras 24 horas. Quer dizer que o retorno da circulação não encerra o episódio: abre uma janela de altíssimo risco em que o paciente precisa de monitor, de causa tratada e de leito com vigilância contínua. O interno que comemora o pulso e vai tomar café perdeu o segundo tempo do jogo. Os autores desse estudo colheram em terapia intensiva e dizem isso com todas as letras — o que significa que, para a enfermaria, a comparação com enfermaria exige cautela: populações, causas, gravidade e estrutura diferem.

Por fim, a estatística que explica por que este capítulo tem um vizinho. Os estudos que originaram os times de resposta rápida mostraram que a parada intra-hospitalar costuma ser precedida de deterioração clínica com seis a oito horas de antecedência, e é sobre esse achado que os hospitais montaram códigos de acionamento por cor. Num hospital universitário público do Ceará, o protocolo do time de resposta rápida fixa metas de tempo por gravidade: uma hora no código verde, trinta minutos no amarelo, sete minutos no laranja e chegada imediata no vermelho — e o código vermelho tem exatamente dois critérios, desconforto respiratório intenso e parada cardiorrespiratória. A leitura clínica é direta: quando você aciona o código mais alto, o sistema já perdeu a chance de agir nos outros três. Uma parte grande das paradas de enfermaria é uma deterioração de horas que ninguém escalou.

04

Por que acontece o que acontece

Na parada, a circulação efetiva está ausente ou insuficiente para produzir pulso definido e sustentar órgãos. Pode existir atividade elétrica e até movimento cardíaco residual sem perfusão adequada. A dúvida sobre pulso não deve prolongar a avaliação além de dez segundos nem atrasar compressões. Achado ultrassonográfico isolado não substitui a avaliação de circulação e a decisão de suporte.

O parâmetro que decide o desfecho é a pressão de perfusão coronariana — a diferença entre a pressão dentro da aorta e a pressão dentro do átrio direito durante a fase de relaxamento. Ela é o que efetivamente irriga o miocárdio parado, e a diretriz brasileira registra que valores a partir de 15 mmHg predizem o retorno da circulação. Essa pressão não é uma constante do paciente: ela é construída ao longo de uma sequência de compressões e desmonta em poucos segundos quando as compressões param. É por isso que a pausa é o inimigo, e não a força.

Profundidade de 5–6 cm e frequência de 100–120/min são alvos de qualidade no adulto. Compressões rasas tendem a gerar menos fluxo; profundidade excessiva aumenta risco de lesão. Não são fronteiras físicas em que 4,9 cm deixam de ejetar qualquer sangue ou 6,1 cm nunca acrescentam fluxo. Treinar posição, retorno completo e feedback ajuda a aproximar os alvos com segurança.

Fluxo durante RCP depende de frequência, profundidade, retorno completo e poucas interrupções. Compressões fracas e pausas prolongadas prejudicam a perfusão. Revezar a cada dois minutos, ou antes se a qualidade cair, coordenando com o ciclo e evitando demora na troca.

Há ainda um mecanismo que trabalha contra a intuição de quem quer ajudar: ventilar demais mata. Cada insuflação aumenta a pressão dentro do tórax, e pressão intratorácica alta reduz o retorno venoso, que é justamente o que a descompressão estava tentando produzir. O resultado é queda do débito gerado pela compressão. Por isso a proporção é de 30 para 2 sem via aérea avançada, com insuflação de 1 segundo e apenas o volume que faz o tórax subir; e por isso, depois de instalado um tubo, o número certo é uma insuflação a cada 6 segundos, com compressão contínua por baixo — não uma a cada dois segundos, que é o que a mão ansiosa faz sozinha.

Agora a parte elétrica, que é o que separa os dois grandes destinos. Na fibrilação ventricular, o miocárdio não está morto: está com milhares de frentes de despolarização desorganizadas consumindo energia. O choque não parte o coração — ele despolariza tudo ao mesmo tempo e devolve ao nó sinusal a chance de recomeçar. Isso só funciona enquanto sobrar substrato energético, e é por isso que a amplitude da fibrilação diminui com o tempo até virar uma linha quase reta. O corolário assusta e é verdadeiro: fibrilação que ninguém tratou vira, em poucos minutos, uma assistolia que ninguém consegue tratar.

No outro destino, a atividade elétrica sem pulso, existe comando elétrico chegando e não existe bomba respondendo, ou existe bomba respondendo e não existe volume nem passagem. Não há choque que resolva isso, porque não há desorganização elétrica para reorganizar. Aqui o tratamento é literalmente a causa, e a lista curta que a memória guarda como cinco H e cinco T é uma lista de mecanismos: falta de oxigênio, falta de volume, excesso de ácido, distúrbio do potássio, hipotermia, veneno, sangue represado no pericárdio, ar preso na pleura, artéria coronária entupida, artéria pulmonar entupida. Compressão sozinha, aqui, é um ventilador ligado numa sala em chamas.

Hipercalemia pode alterar o ECG de formas variáveis; a sequência clássica não ocorre em todos os pacientes e ECG aparentemente pouco alterado não exclui gravidade. Na PCR, suspeitar pela história e dados disponíveis e tratar causa provável sem atrasar RCP. Cálcio, insulina/glicose e outras medidas têm indicações específicas; não são rotina para toda parada.

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Como se apresenta de verdade

A parada de enfermaria quase nunca chega anunciada como parada. Ela chega como um paciente que 'está estranho', como uma técnica que chama sem saber explicar o quê, como um alarme de oxímetro, como alguém encontrado dormindo numa posição errada. O espectro abaixo é o das seis formas em que ela realmente aparece, e a ordem não é acadêmica: começa pelas duas em que o interno erra por excesso de zelo, passa pelas duas em que o cenário muda o que se faz, e termina pelas duas que exigem uma decisão que não é técnica.

Diante de irresponsividade, ausência de respiração normal e pulso não definido em até 10 segundos, iniciar RCP. Comprimir alguém com circulação pode causar lesões, não apenas constrangimento; a recomendação aceita esse risco para evitar atraso fatal quando a avaliação é incerta. Se respira normalmente ou apresenta sinais claros de circulação, reavaliar e oferecer o suporte indicado.

Percurso de aprendizagem

Treinar reconhecimento, chamado e compressão como sequência imediata. Otimizar cama e material em paralelo, com papéis claros e pausas mínimas.

Ligar o ritmo à ação, conferir dose e apresentação sem atrasar choque e considerar causas reversíveis desde o início, sem ancorar no potássio.

Planejar suporte pós-retorno e discutir proporcionalidade, vontade do paciente e documentação com o médico responsável. Aprendizagem inclui simulação prática e debriefing.

Inconsciente não é o mesmo que em parada

A confusão mais comum do plantão não é entre parada e vida normal: é entre parada e as outras quatro coisas que deixam um paciente irresponsivo numa enfermaria. Hipoglicemia, crise convulsiva no período pós-ictal, sedação excessiva por opioide ou benzodiazepínico e evento neurológico agudo produzem um corpo que não responde ao chamado, e nenhum deles se trata com compressão torácica. O que separa os quatro da parada é uma coisa só, e ela leva dez segundos: pulso central.

Checar resposta por chamado e toque, pedir ajuda e avaliar respiração/pulso em até 10 segundos. Sem pulso definido e sem respiração normal, iniciar compressões. Com pulso e ventilação inadequada, ventilar 10 vezes/min e reavaliar pulso. Estímulo doloroso repetido ou supraorbitário não é etapa obrigatória e pode atrasar o suporte.

A parada respiratória isolada é a apresentação que o interno mais deixa passar, porque ela é a única em que existe janela para impedir a outra. Na enfermaria brasileira ela tem um endereço frequente: o paciente que recebeu opioide de resgate na madrugada e hipoventilou. O manejo completo dessa situação, incluindo a reversão, está no capítulo de dessaturação aguda na enfermaria desta apostila; aqui interessa reter o achado que a define — tórax parado com carótida batendo — e a consequência, que é ventilar imediatamente em vez de comprimir um coração que ainda está trabalhando.

Uma armadilha final, esta anotada expressamente pela diretriz brasileira: sempre suspeitar de parada em paciente durante uma crise convulsiva. Convulsão é manifestação possível de hipoperfusão cerebral súbita, e o paciente que 'teve uma convulsão' e não acorda pode ser um paciente que parou e cujo cérebro protestou. Não termine a avaliação de uma crise convulsiva sem ter posto a mão na carótida.

O gasping, que é o sinal mais enganoso da medicina de plantão

Gasping é uma respiração agônica: movimentos lentos, irregulares, ruidosos, com abertura da boca e elevação do queixo, entremeados de pausas longas. Ele acontece em uma parte relevante das paradas presenciadas e persiste por minutos depois de o coração ter parado, porque é um reflexo de tronco cerebral e não uma ventilação eficaz. Do ponto de vista da troca gasosa, ele não vale nada. Do ponto de vista de quem está olhando, ele vale exatamente o que não deveria: parece vida.

Gasping é respiração anormal e não deve tranquilizar. No profissional de saúde, a decisão entre RCP e ventilação de resgate integra pulso definido em até 10 segundos; gasping isolado não prova ausência de circulação. Acionar ajuda e agir, sem aguardar monitorização.

Não distinguir sono de gasping apenas por frequência: sono, apneia, opioides e distúrbios respiratórios podem produzir padrões lentos/irregulares. Em paciente irresponsivo, avaliar respiração e pulso prontamente. Contar ruídos à distância não substitui a abordagem e não deve atrasá-la.

E existe a variante silenciosa, que engana pelo caminho oposto: a parada sem nenhum movimento respiratório, em paciente em posição confortável, encontrado pela equipe da manhã. Aqui não há dúvida diagnóstica — há dúvida de tempo, e ela muda o que se faz. O que responde essa pergunta não é o exame do paciente, é o prontuário e a folha de sinais vitais: qual foi o último horário em que alguém registrou ter visto aquele paciente vivo, e o que estava anotado nesse registro.

O pulso que se procura por dez segundos, e não por trinta

A checagem de pulso é o ponto do reconhecimento em que o excesso de cuidado vira dano, e o número que a corrige está escrito nos dois documentos brasileiros: em até 10 segundos, checando pulso central e respiração simultaneamente. Não é uma sugestão de eficiência. É o reconhecimento honesto de que a palpação de pulso em paciente hipoperfundido é um exame ruim, que profissionais treinados erram nos dois sentidos, e que passar trinta segundos tentando ter certeza produz trinta segundos sem fluxo cerebral em troca de uma certeza que não vem.

A técnica importa mais do que o tempo. Pulso central significa carótida no adulto — nunca radial, que some cedo na hipotensão e faria você chamar de parada um paciente chocado que ainda tem circulação. Localize a cartilagem tireóidea, deslize dois dedos para o sulco entre ela e o músculo esternocleidomastóideo do mesmo lado, e pressione com a polpa, não com a ponta. Um lado de cada vez, nunca os dois ao mesmo tempo. Se você está com luva grossa ou com a mão fria, isso piora a sua percepção, e é mais um motivo para não estender a busca.

Existe uma situação em que a checagem é ainda menos confiável e que é comum na enfermaria: o paciente obeso, com pescoço curto, edemaciado, ou com curativo cervical. Nesses casos você vai gastar os dez segundos e sair sem resposta, e a conduta diante da ausência de resposta é a mesma da ausência de pulso. A regra que a diretriz brasileira escreve para o socorrista que não detecta pulso ou está em dúvida é iniciar os ciclos de compressão.

Uma nota sobre o outro extremo da checagem, que aparece mais tarde na reanimação e é onde o interno costuma ser útil: durante os ciclos, o pulso não se checa a cada dois minutos por hábito. Ele só se checa quando o monitor mostra um ritmo organizado, e aí sim por 5 a 10 segundos. Checar pulso com fibrilação na tela é interromper compressão para confirmar uma coisa que a tela já respondeu.

A parada presenciada e a parada encontrada

As duas apresentações têm o mesmo nome e prognósticos que não se parecem. Na parada presenciada, alguém viu o paciente perder a consciência: o tempo sem fluxo é conhecido e curto, o ritmo inicial tem chance maior de ser chocável, e o desfibrilador chegando em três a cinco minutos muda o desfecho de verdade. Na parada encontrada, ninguém sabe há quanto tempo aquilo está acontecendo, o ritmo inicial provavelmente já degenerou para assistolia, e o desfecho depende muito mais de haver uma causa reversível do que de qualquer coisa elétrica.

Na enfermaria, a maior parte é encontrada, e é por isso que os números intra-hospitalares brasileiros são o que são. Mas há uma subcategoria que o interno produz sozinho e que vale nomear: a parada presenciada e tratada como encontrada. Acontece quando o paciente colapsa na frente de alguém que fica paralisado, ou que sai do quarto para buscar ajuda em vez de gritar do lugar onde está. Cada segundo gasto ali converte, na prática, uma parada com bom prognóstico numa parada com prognóstico ruim.

Uma terceira variante merece atenção porque muda a primeira conduta: a parada que acontece durante um procedimento ou logo depois dele. Punção de veia subclávia que evoluiu com dispneia e colapso levanta pneumotórax hipertensivo; sedação para endoscopia levanta hipoventilação e droga; troca de bolsa de hemoderivado levanta reação hemolítica; diálise levanta distúrbio eletrolítico agudo e embolia gasosa. Em todas, o dado que orienta a equipe inteira é o que estava sendo feito no minuto anterior, e a pessoa que sabe isso costuma ser o interno ou a técnica que estava no quarto.

Por fim, a variante mais brasileira de todas: a parada do paciente que estava esperando vaga de terapia intensiva na enfermaria. Ele é, por definição, um paciente crítico num lugar sem estrutura para paciente crítico. A apresentação não muda; o que muda é que o carro de emergência daquele andar precisa estar conferido, a equipe precisa saber quem chama quem, e a decisão sobre reanimação precisa ter sido tomada antes — porque será tomada de qualquer jeito, e às três da manhã ela é tomada pior.

A parada que vinha avisando há horas

Existe uma apresentação que só é visível depois, e é justamente a que este capítulo quer que você aprenda a ver antes: a deterioração lenta. Os estudos que fundamentam os times de resposta rápida mostraram que a parada intra-hospitalar costuma ser precedida de alteração clínica com seis a oito horas de antecedência, e é sobre esse achado que os protocolos brasileiros de acionamento por cor foram construídos.

O padrão é sempre parecido e sempre banal quando lido isoladamente. Uma frequência respiratória que subiu de 18 para 26 e ninguém somou. Uma saturação que caiu de 96% para 91% e alguém apenas aumentou o oxigênio. Um paciente que ficou mais quieto desde a tarde. Uma diurese que rareou. Um comentário do acompanhante de que ele não está do jeito de sempre. E há um critério, no código mais leve do protocolo cearense, que não depende de número nenhum: a equipe estar preocupada com o quadro já basta para pedir avaliação médica. É a única porta de entrada do sistema aberta ao julgamento de quem está ao lado da cama o dia inteiro.

O senhor do leito 14 é esse caso. Sonolência às quatro, fraqueza nas pernas às cinco, recusa de líquido, e uma prescrição de ontem com três drogas que sobem potássio num paciente renal. Nada disso, sozinho, dispara alarme. Somados, e lidos por alguém que sabe o que a combinação faz, valeriam uma dosagem de potássio às cinco da manhã e um eletrocardiograma. A parada das seis e vinte não foi o começo do evento: foi o fim dele.

A conclusão que este capítulo cobra do interno tem duas partes. A primeira é que escalar cedo é a única intervenção que muda a estatística, e o capítulo de hipotensão na enfermaria desta apostila trata em detalhe do paciente que ainda está deteriorando e de como pedir ajuda a tempo. A segunda é mais dura: quando a deterioração não foi escalada, ninguém errou de forma identificável, e é exatamente por isso que o erro se repete. A pergunta que se leva de uma parada de enfermaria para a reunião da manhã não é quem falhou. É em que hora este paciente ainda era salvável.

A parada em que reanimar é a conduta errada

A sexta apresentação é uma parada que não deveria receber compressão, e ela existe em duas formas distintas que não podem ser confundidas. A primeira é a morte evidente: rigidez cadavérica, livores de hipóstase, e as demais situações de lesão incompatível com a vida que o protocolo nacional lista no seu próprio critério de não iniciar manobras. Diante delas não se reanima porque não há a quem reanimar, e a conduta é comunicar e constatar.

A segunda forma é a que gera conflito, porque não é evidente e é frequentíssima: o paciente com doença incurável em fase terminal, no qual a reanimação seria uma intervenção fútil. O Código de Ética Médica fecha as duas saídas. Um artigo proíbe encurtar a vida do paciente mesmo a pedido dele; o parágrafo seguinte proíbe o oposto, ao obrigar, na doença incurável e terminal, a oferecer o que houver de cuidado paliativo e a não empreender ação diagnóstica ou terapêutica inútil nem obstinada, considerando a vontade que o paciente expressou ou, na impossibilidade, a de quem o representa. E o princípio fundamental XXII manda evitar procedimentos desnecessários nas situações irreversíveis e terminais.

A resolução do conselho federal sobre ortotanásia entra no mesmo terreno por outro ângulo. Diante de doença grave e incurável já em fase terminal, ela autoriza o médico a não iniciar ou a retirar o que apenas prolonga o morrer, desde que essa seja a vontade do próprio doente ou de quem o represente legalmente. E prende a autorização a três exigências no mesmo artigo: explicar as opções de tratamento, fundamentar a decisão e escrevê-la na pasta, e garantir ao doente o direito de pedir uma segunda opinião. O alívio de sintomas e a assistência integral continuam obrigatórios — limitar reanimação nunca significa limitar cuidado.

Sem plano conhecido e com informação insuficiente, o interno aciona o médico e inicia suporte básico enquanto a equipe esclarece a proporcionalidade e a vontade do paciente. Ausência de formulário não obriga o médico a manter intervenção reconhecidamente fútil nem invalida relato confiável de manifestação prévia. A decisão é clínica e ética, fundamentada e registrada, com cuidado de conforto contínuo; não esperar a segunda-feira para que o médico responsável avalie.

Depois do pulso: organizar o cuidado e aprender com a reanimação

O retorno da circulação muda a prioridade, mas não encerra a emergência. O paciente pode continuar sem proteger a via aérea, respirar de forma insuficiente ou depender de suporte para manter pressão. Reavalie sistematicamente e comunique o retorno à equipe sem dispersar os profissionais. Confirme ritmo, pulso, pressão e sinais de perfusão e mantenha monitorização. Não retire equipamentos porque o primeiro valor melhorou. A transição precisa de liderança: alguém acompanha ventilação, outro circulação, outro reúne os dados e organiza o destino. O interno pode contribuir executando uma tarefa clara e informando imediatamente os achados ao responsável.

Na avaliação respiratória, confirme dispositivo, posição e eficácia da ventilação com os recursos apropriados. Observe expansão, frequência, capnografia quando disponível e gasometria conforme indicação. Saturação pode ter sinal ruim na baixa perfusão, e um valor isolado não mede eliminação de CO2. Ajustar oxigênio e ventilação exige integrar esses dados, evitando hipoxemia e excesso desnecessário. Se a pessoa está intubada, alterações bruscas devem levar à avaliação do tubo, circuito e paciente. Não assumir que o suporte que servia durante as compressões continua adequado depois do retorno. Reavaliar após cada mudança é essencial para perceber resposta e complicações.

A pressão recuperada deve ser interpretada com perfusão e suporte em uso. Registre se há vasopressor, sua concentração e dose, além de volume e medicamentos administrados durante a reanimação. Hipotensão pode ter causas distintas, incluindo disfunção cardíaca transitória, vasodilatação e déficit de volume, com possibilidade de mecanismos mistos. O próximo bolus não deve ser repetição automática do anterior. A equipe precisa avaliar benefício provável e tolerância e pesquisar causas tratáveis. Quando a circulação está instável, monitorização próxima e ajuda especializada são necessárias enquanto se organiza o cuidado intensivo.

Pesquisar a causa continua urgente depois do retorno. Reconstrua os acontecimentos anteriores, os primeiros ritmos e as respostas às intervenções. Dor torácica, deterioração respiratória, sangramento, medicamentos e alterações eletrolíticas orientam hipóteses, mas não demonstram sozinhos a etiologia. ECG, exames e imagem devem responder às perguntas relevantes e às possibilidades de tratamento. Se houver suspeita de condição que exige intervenção imediata, o acionamento da equipe correspondente não deve esperar a conclusão de toda a investigação. O registro de horários ajuda a entender a sequência sem transformar uma coincidência temporal em relação causal comprovada.

O exame neurológico precisa considerar sedação, temperatura, distúrbios metabólicos e o momento em relação à parada. Registre consciência, pupilas, resposta motora e crises suspeitas, comunicando alterações. Não atribua um prognóstico definitivo a uma avaliação precoce isolada. A ausência de despertar logo após o retorno pode ter múltiplas explicações e exige acompanhamento e investigação conforme a equipe. A conversa com familiares deve refletir essa incerteza: descrever o estado atual, o suporte e as próximas avaliações. Evite tanto prometer recuperação porque o pulso voltou quanto afirmar impossibilidade de recuperação com base em um único sinal.

Temperatura, glicemia e eletrólitos também fazem parte do cuidado continuado. Não são detalhes para a manhã seguinte quando há alteração clinicamente relevante. Se insulina e glicose foram usadas para hipercalemia, garantir o plano de controle glicêmico e de potássio; o efeito pode mudar após o retorno e há risco de recorrência ou hipoglicemia. Conferir os medicamentos realmente administrados evita duplicidade e permite interpretar resultados. Um exame colhido durante a parada tem contexto diferente de outro após suporte e perfusão recuperados. Registrar momento, intervenção e unidade torna a tendência compreensível para quem assume o caso.

A transferência deve ocorrer com suporte compatível com a condição atual. Antes de sair, verificar acesso, oxigênio, ventilação, bomba, monitor e equipe acompanhante e confirmar que o setor de destino está informado. A existência de vaga não torna automaticamente seguro um transporte sem preparação. Entregar resumo com causa provável, ritmos, tempo de RCP conhecido, choques, drogas, retorno, estado atual e pendências. Se algum horário é estimado, declarar isso. O interno pode ajudar a conferir o material e organizar o registro, mas decisões sobre transporte e suporte devem ser compartilhadas com os profissionais responsáveis.

Na comunicação com a família, separar fatos de expectativas ajuda a construir confiança. Explique que a circulação parou, quais medidas foram feitas e qual é a condição naquele momento, sem jargão desnecessário. Diga o que está sendo investigado e quando haverá nova atualização. Se não souber uma resposta, assuma a incerteza e encaminhe a pergunta ao responsável. Reconheça reações diferentes, como silêncio, perguntas repetidas ou dificuldade de compreender. Não usar percentuais de uma série de pacientes como previsão individual. O apoio à família continua necessário mesmo quando a equipe está concentrada em transferir e estabilizar.

Depois que o atendimento estiver organizado, uma revisão breve com a equipe pode transformar o episódio em aprendizado. Pergunte o que facilitou e o que atrasou compressões, análise de ritmo, desfibrilação, acesso e comunicação. Busque fatos concretos, como posição do equipamento ou uma prescrição ambígua, em vez de avaliações pessoais. Um desfecho favorável não prova que o processo foi perfeito, assim como um óbito não demonstra erro de atendimento. A revisão deve considerar os dados e recursos disponíveis no momento. Escolher uma melhoria executável costuma ser mais útil que produzir uma lista extensa sem responsável.

Para o treinamento do internato, ensaie também a função que você desempenhará ao chegar depois de outros profissionais. Apresente-se, procure o líder e assuma uma tarefa necessária sem interromper quem está comprimindo ou ventilando. Se identificar risco, comunique com clareza e confirme entendimento. Pratique calcular a dose a partir da concentração e repetir em voz alta a ordem recebida antes de executá-la. Ao final, confira se o registro representa o que ocorreu. Essas habilidades de coordenação e comunicação ajudam a manter qualidade de suporte em uma situação na qual cada pessoa dispõe de informação incompleta.

06

Como fechar o diagnóstico

Investigar uma parada tem uma gramática própria, e ela contraria tudo o que se aprende sobre investigação. Não há tempo de pedir e esperar, não há paciente que responda pergunta, e o exame físico se reduz a duas informações. O que existe é uma tela com um traçado, uma lista curta de causas que a enfermaria costuma produzir, e um punhado de exames que só valem se forem colhidos enquanto alguém comprime — nunca em lugar de alguém comprimir.

Por isso a ordem aqui não é do mais barato ao mais caro, e sim do que muda a próxima ação nos próximos dois minutos. Primeiro o ritmo, porque ele responde a única pergunta binária da parada. Depois a confirmação do ritmo quando ele é uma linha reta, porque essa é a leitura com maior chance de erro grave. Depois as causas reversíveis, filtradas pelo que uma enfermaria de fato fabrica. Depois o que se colhe da mesma punção e o que não se pede. Depois o que existe de verdade no andar. E por último o que se investiga quando o pulso volta, que é uma investigação diferente da primeira.

Uma regra atravessa o bloco inteiro e vale repetir antes de começar: nenhum exame deste capítulo autoriza pausar as compressões além dos 10 segundos que a análise de ritmo consome. Se um exame exige mais do que isso, ele espera, ou é feito por outra pessoa, com outras mãos, enquanto a compressão continua.

O ritmo é o exame, e ele responde uma pergunta só

Assim que o desfibrilador chega, as pás ou os eletrodos vão no tórax desnudo e seco, as compressões param pelo tempo estritamente necessário para ver a tela, e a pergunta é uma: este ritmo é chocável? Chocável significa fibrilação ventricular ou taquicardia ventricular sem pulso. Não chocável significa assistolia ou atividade elétrica sem pulso. Essa bifurcação é a espinha inteira do atendimento, e tudo o que vem depois — qual droga, quando, em que intervalo — pendura-se nela.

Para quem está do lado, a diferença prática é o que se faz nos próximos cinco segundos. Se é chocável, alguém vai avisar em voz alta que vai chocar, e a sua obrigação é tirar as mãos, olhar em volta, conferir que ninguém está encostado no leito nem na cama, e retomar a compressão imediatamente depois do choque, sem esperar ninguém mandar. Se é não chocável, você nem tira as mãos por mais tempo do que a olhada exigiu: retoma na hora, porque não há nada a preparar e cada segundo de pausa é um segundo sem perfusão coronariana.

O interno costuma achar que precisa saber ler o traçado para ser útil, e isso é meia verdade. Fibrilação ventricular é um traçado caótico, sem complexos identificáveis, com amplitude que diminui à medida que o tempo passa. Taquicardia ventricular sem pulso tem complexos largos, regulares e rápidos, e a informação decisiva não está na tela — está na carótida que você acabou de não achar. Atividade elétrica sem pulso é qualquer ritmo organizado, inclusive um ritmo sinusal de aparência normal, sem pulso correspondente; é o ritmo que mais confunde, porque a tela parece boa. Assistolia é uma linha praticamente reta.

A energia bifásica inicial segue o fabricante; se desconhecida, usar a máxima disponível, sem atrasar o choque. Os aparelhos não têm todos a mesma energia máxima. Choques seguintes podem manter ou aumentar a energia conforme equipamento e protocolo. No monofásico, 360 J. Conferir modo de desfibrilação não sincronizada, contato e segurança; DEA orienta análise/choque conforme programação.

Uma observação de segurança que vale mais do que parece em enfermaria: o protocolo nacional manda certificar-se de que não há alto fluxo de oxigênio direcionado ao tórax do paciente antes de chocar. Numa enfermaria, isso significa afastar a máscara de oxigênio do leito antes do choque, e não deixá-la solta sobre o travesseiro, ao lado do tórax que vai receber uma descarga.

A linha reta que pode não ser assistolia

Em aparente assistolia, conferir conexões, derivações e ganho sem prolongar pausa. Reconhecer ritmo não chocável e manter RCP, adrenalina conforme algoritmo e busca das causas reversíveis. Problema técnico e fibrilação fina são possibilidades, não os únicos diagnósticos a considerar.

Confirmar cabos, eletrodos, ganho e outra derivação quando a tela parece reta, aproveitando a pausa curta de análise. Não gastar trinta segundos sem comprimir para concluir essas verificações; se demorar, retomar RCP enquanto se corrige o equipamento. Cabo defeituoso requer providenciar substituição sem abandonar o suporte.

Se as três checagens mantiverem a linha reta, é assistolia confirmada, e a conduta muda de rota: não se choca, retoma-se a compressão imediatamente e a adrenalina entra o mais cedo possível. Se qualquer uma delas revelar fibrilação, o paciente muda de protocolo na hora e passa a ter indicação de choque. Repare no que isso significa para quem está do lado da cama: o protocolo da linha reta é a única situação da parada em que uma checagem cuidadosa vale mais do que velocidade, e ainda assim ela tem prazo de 10 segundos.

Amplitude baixa de FV pode acompanhar duração maior e menor reserva energética, mas também depende da derivação, contato e aparelho. Não permite datar a parada nem afastar indicação de desfibrilar uma FV reconhecida. O ganho ajuda a leitura, sem transformar toda linha reta em FV fina.

As causas reversíveis, filtradas pelo que a enfermaria produz

A lista canônica é a dos cinco H e cinco T, e ela está nos dois documentos brasileiros deste capítulo: hipóxia, hipovolemia, hidrogênio no sentido de acidose, distúrbio do potássio, hipotermia; tóxicos, tamponamento cardíaco, tensão no tórax por pneumotórax hipertensivo, trombose coronária e tromboembolismo pulmonar. Decorada assim, a lista é inútil na hora do aperto — dez itens que ninguém percorre com uma sala cheia de gente. O que a torna operacional é filtrá-la pelo lugar: numa enfermaria de clínica médica brasileira, quatro delas explicam a maioria, e a quinta está escrita na prescrição.

Doença renal, tratamento dialítico interrompido, exposições e resultado recente podem aumentar suspeita de hipercalemia como causa. Um potássio de 5,5 isolado não prova a etiologia da parada. Integrar contexto e gasometria rápida quando disponível, sem interromper suporte. A equipe decide terapias específicas com prescrição e monitorização adequadas.

A segunda é a hipoxemia, e ela é a causa mais comum de parada não chocável em enfermaria porque é a via final de quase tudo que aconteceu antes: pneumonia que piorou, broncoaspiração, obstrução de via aérea, hipoventilação por sedativo. A investigação aqui é retrospectiva e leva quinze segundos: qual era a saturação da última aferição, qual o dispositivo e o fluxo de oxigênio que o paciente estava usando, e o que a folha registrou de frequência respiratória nas últimas horas. O manejo do paciente que ainda está hipoxêmico, antes de parar, é do capítulo de dessaturação aguda na enfermaria.

A terceira é a hipovolemia, e na enfermaria ela quase sempre é sangramento — digestivo, retroperitoneal no anticoagulado, ou de sítio cirúrgico. A pista é a folha e o corpo: hemoglobina em queda nos últimos dias, melena registrada, dreno cheio, curativo encharcado, ou simplesmente um paciente pálido que ninguém tinha reavaliado. A quarta é o tromboembolismo pulmonar, e a pista é o contexto escrito no próprio prontuário — imobilidade, pós-operatório recente, neoplasia, profilaxia ausente ou interrompida —, tipicamente num paciente que colapsou de forma súbita ao ser mobilizado.

A quinta não é uma causa nova: é o veneno, e o veneno da enfermaria é a prescrição. Opioide e benzodiazepínico levam à parada pela via respiratória. Betabloqueador e bloqueador de canal de cálcio, em paciente que já vinha bradicárdico, levam pela via da bomba. Digital em paciente com potássio alterado leva pela via elétrica. Antiarrítmicos e antipsicóticos que alargam o intervalo QT levam por torção das pontas. E potássio endovenoso mal diluído ou mal programado leva pela via mais direta de todas. A pergunta que abre essa investigação é banal, dura cinco segundos, e quem costuma saber a resposta é o interno: o que este paciente recebeu nas últimas horas, e o que mudou na prescrição de ontem?

Feche a seção com as duas que exigem procedimento e que o interno não vai executar, mas precisa levantar em voz alta, porque quem chegou não estava no quarto: pneumotórax hipertensivo, em paciente que fez punção de veia central, toracocentese ou estava em ventilação com pressão positiva; e tamponamento cardíaco, no paciente com neoplasia, uremia ou procedimento cardíaco recente. Nas duas, o tratamento é mecânico e imediato, e nenhuma quantidade de adrenalina substitui a agulha.

O que se colhe durante, e o que não se pede

Coletar exames que possam mudar tratamento, sem retirar mãos necessárias à RCP. Glicose e eletrólitos em amostra confiável ajudam a tratar causas; glicemia capilar em baixo fluxo e potássio em amostra hemolisada têm limitações. Um resultado deve ser relacionado à história, às intervenções e à qualidade da amostra. Exames não atrasam desfibrilação nem tratamento de causa altamente provável.

O eletrocardiograma de doze derivações não é exame de parada — durante a reanimação, o ritmo vem do monitor do desfibrilador. Ele passa a ser obrigatório depois do retorno da circulação, e aí é o protocolo nacional de cuidados pós-ressuscitação que o exige, junto com controle glicêmico e avaliação de sinais vitais. O que vale a pena ir buscar durante a parada é o traçado antigo, se existir: um eletrocardiograma de admissão ou de dois dias atrás, comparado com o ritmo de agora, responde perguntas que nenhuma coleta responderia a tempo.

Capnografia confirma e monitora via aérea e fornece informação sobre fluxo pulmonar e ventilação. ETCO₂ baixo/decrescente pede revisar compressões, tubo, ventilação e causa da parada; TEP pode reduzir muito o valor mesmo com técnica adequada. Subida abrupta pode sugerir retorno, que deve ser avaliado clinicamente. Um número isolado não mede apenas a mão nem autoriza cessar RCP.

POCUS durante RCP só deve ser usado por equipe capacitada quando pode responder a uma pergunta sem aumentar a pausa de compressões. Preparar imagem antes da análise programada e retomar compressões rapidamente. Não usar ausência de movimento como critério isolado de interrupção nem atrasar choque por ultrassom.

O que existe de verdade na enfermaria do Sistema Único de Saúde

Conhecer localização e acesso rápido ao carro/desfibrilador e assegurar sua manutenção. Reposição após uso, checagem de lacre, funcionamento, bateria/eletrodos e validade seguem rotina institucional e requisitos aplicáveis. Não generalizar uma proporção de carros por leitos de determinada portaria a todas as enfermarias. O objetivo prático é disponibilidade imediata e equipe treinada.

A mesma diretriz classifica o conteúdo do carro em três níveis de prioridade: nível 1 são os itens essenciais, que precisam estar disponíveis imediatamente; nível 2 são os altamente recomendados, disponíveis em no máximo 15 minutos, e que devem permanecer no próprio carro quando esse prazo não puder ser garantido; nível 3 são recomendados e opcionais. Traduzido para a realidade do interno: se um item que você vai precisar em três minutos não está no carro do seu andar, ele não existe. Descobrir isso durante a parada é tarde.

Lista nacional de medicamentos não garante estoque de uma farmácia. Conferir epinefrina, amiodarona ou alternativa, materiais de acesso e drogas para causas especiais nas apresentações efetivamente disponíveis. Conferir cálcio, sua forma salina e concentração, e onde obtê-lo com rapidez. A revisão prévia do carro evita improviso; jamais presumir que ampola e dose são sinônimos.

Sobre o desfibrilador, três perguntas devem estar respondidas antes de qualquer plantão: onde ele fica, se é manual ou automático externo, e se as pás são de adulto. O aparelho automático externo interpreta o ritmo sozinho e cabe a quem opera apenas apertar o botão quando indicado, o que o torna utilizável por qualquer profissional. O manual exige que alguém leia a tela e selecione a energia. Nos dois casos, a diretriz brasileira recomenda manter as compressões enquanto o aparelho é preparado e conectado, interrompendo apenas para a análise do ritmo.

Duas ausências estruturais mudam a conduta e precisam ser assumidas em vez de lamentadas. Sem gasômetro de plantão, a hipercalemia não será confirmada durante a parada, e a decisão de tratá-la empiricamente passa a ser clínica — paciente renal, oligúrico, com as drogas de risco na prescrição e complexo largo no monitor. Sem capnografia, a qualidade da compressão não terá medida objetiva, e o substituto é humano: alguém designado para olhar frequência, profundidade, retorno do tórax e cronometrar o rodízio. Serviço sem equipamento não é serviço sem critério; é serviço em que o critério precisa ser dito em voz alta.

Depois que o pulso volta, a investigação recomeça

Retorno da circulação exige suporte contínuo, pesquisa da causa e prevenção de nova deterioração. A recorrência varia entre coortes e não pode ser prevista por uma porcentagem única. Manter monitorização, verificar ventilação, pressão, ritmo, temperatura e distúrbios metabólicos e organizar transferência com acompanhamento adequado.

Após retorno, estabilização e investigação ocorrem juntas. Manter monitorização contínua, oxigenação titulada para 90–98% quando confiável, ventilação guiada por PaCO₂ e hemodinâmica com PAM ≥65 mmHg. ECG, eletrólitos, glicose e exames dirigidos à causa. Preparar transporte com equipe, monitor/desfibrilador, oxigênio e via aérea adequados; não deixar o paciente aguardando sem cuidado equivalente.

O eletrocardiograma pós-retorno é o exame de maior rendimento do conjunto, porque responde a duas das três perguntas ao mesmo tempo. Ele mostra isquemia, que é causa; mostra a duração do QRS e a morfologia da onda T, que refazem a leitura do potássio; e mostra o intervalo QT, que aponta para as drogas que podem ter causado torção das pontas e que precisam ser suspensas antes que o paciente pare de novo. Some a isso o laboratório completo com eletrólitos, função renal, gasometria e marcadores de necrose, que agora pode ser colhido com calma.

A investigação da causa de base, a partir daqui, é a mesma que você faria em qualquer paciente grave, e ela pertence aos capítulos correspondentes desta coleção — infarto com supradesnivelamento, tromboembolismo, sepse, distúrbio do potássio. O que pertence a este capítulo é o item que não pertence a nenhum outro: revisar a prescrição inteira antes de sair do quarto. O paciente que parou por hipercalemia continua com o inibidor da enzima conversora prescrito para as oito da manhã se ninguém suspender, e a prescrição não se suspende sozinha porque houve uma parada.

Por fim, um exame que não é de sangue e que muda o cuidado das próximas horas: quem é a família, onde ela está, e o que ela já sabe. É informação clínica porque decide quem consente, quem recebe a notícia e quem responde à pergunta sobre o que o paciente teria querido, caso ele pare de novo — e qual é o risco e o plano se houver recorrência, sem aplicar a taxa do estudo a esse indivíduo.

07

Do primeiro olhar ao encerramento: a ordem que o interno segue

Iniciar RCP sem atraso, integrar desfibrilação e tratamento de causas e organizar o cuidado após retorno, dentro da atuação supervisionada do interno.

  1. 1Reconhecer rapidamente irresponsividade e pedir ajuda. Checar pulso central e respiração simultaneamente por até 10 segundos. Sem respiração normal e sem pulso definido, iniciar RCP imediatamente; gasping não é respiração eficaz.
  2. 2Segundos 10 a 30 — Chame, e chame com conteúdo. Grite do lugar onde você está, sem sair do quarto: o que é, onde é e o que precisa vir. Parada no leito tal, tragam o carro de emergência e o desfibrilador, chamem o plantonista. Se o serviço tem código de cores, este é o código mais alto, o que exige chegada imediata. Peça a alguém que anote a hora do início — esse horário vai organizar tudo o que vem depois.
  3. 3Comprimir imediatamente e otimizar superfície em paralelo. Modo CPR do colchão, prancha quando útil e ajuste de altura não devem atrasar ou interromper por tempo relevante as compressões.
  4. 4Desde o início: 100–120 compressões/min, 5–6 cm no adulto, retorno completo e pausas mínimas. Base da palma na metade inferior do esterno; 30:2 sem via aérea avançada, insuflações apenas até elevar o tórax.
  5. 5Desfibrilador assim que disponível, com interrupção mínima para análise/choque. Energia conforme fabricante ou máxima se desconhecida. Confirmar linha reta com cabos, ganho e outra derivação sem prolongar pausa; ritmo organizado pede pulso por até 10 segundos.
  6. 6Minuto 2 a 10 — Cicle sem parar de comprimir. Ciclos de dois minutos, checagem de ritmo entre eles, rodízio de quem comprime a cada dois minutos ainda que ninguém se sinta cansado. Acesso venoso periférico calibroso ou intraósseo obtido por outra pessoa, e drogas administradas sem interromper as compressões. Enquanto isso, responda em voz alta a única pergunta que talvez só você saiba: o que este paciente tomou nas últimas horas.
  7. 7Minuto 5 a 20 — Persiga a causa, não a droga. Percorra a lista de cinco H e cinco T filtrada pela enfermaria: potássio, oxigênio, volume, ácido, veneno da prescrição, pericárdio, pleura, coronária, artéria pulmonar. Cada hipótese que você levanta em voz alta é uma informação que a equipe que chegou não tem, porque ela não estava no quarto e não leu aquela prescrição.
  8. 8Após retorno: equipe e monitorização contínuas, oxigênio titulado, ventilação, PAM ≥65 e investigação/tratamento da causa. Providenciar cuidado intensivo, ECG, glicose e eletrólitos. Se não segue comandos, planejar controle de temperatura, avaliação de convulsões e prognóstico tardio multimodal.

Chocável — a mão sai e volta

FV/TV sem pulso: desfibrilar precocemente com energia do fabricante ou máxima se desconhecida; retomar RCP imediatamente. No algoritmo AHA 2025, epinefrina após segundo choque e amiodarona ou lidocaína após terceiro, durante compressões.

Não chocável — a mão nem sai

Minimizar interrupções: compressões de qualidade, pausas breves para análise de ritmo e choque e troca rápida de compressor. Avaliar pulso apenas quando o ritmo organizado e o contexto sugerirem retorno, por no máximo dez segundos. Não ensinar ausência absoluta de pausas como se impedisse análise ou desfibrilação.

1 T apiculada2 P achatada3 PR longo4 QRS largo5 onda sinusoidal6 FV / assistoliapotassio crescente

O potássio conta a história no traçado

Paciente renal/oligúrico com medicamentos que elevam K e QRS largo tem forte suspeita de hipercalemia. O ECG não segue sempre uma sequência previsível e QRS largo não confirma sozinho. Tratar causa provável sob liderança da equipe e buscar eletrólitos sem atrasar RCP.

As causas reversíveis com o endereço que elas têm numa enfermaria

CausaQuem é o pacienteO que levanta a hipótese na horaO que se faz durante a parada
Potássio altoRenal crônico, oligúrico, lise tumoral, grande queimado, rabdomiólisePrescrição com espironolactona, inibidor da enzima conversora, bloqueador do receptor de angiotensina, anti-inflamatório não esteroidal ou a associação de sulfametoxazol com trimetoprima; complexo largo no monitor; potássio já alto no último exameGluconato de cálcio a 10% pelo acesso, seguido de salina; solução polarizante depois; gasometria com eletrólitos se houver gasômetro
HipóxiaPneumonia, broncoaspiração, doença pulmonar avançada, sedado, obstrução de via aéreaSaturação caindo nas horas anteriores, frequência respiratória subindo na folha, oxigênio aumentado sem reavaliação, opioide ou benzodiazepínico administradoVentilação eficaz com bolsa-válvula-máscara e oxigênio, via aérea avançada pelo profissional mais experiente, aspiração se houver secreção ou conteúdo gástrico
HipovolemiaSangramento digestivo, anticoagulado, pós-operatório, politransfundidoMelena ou hematêmese registradas, dreno enchendo, curativo encharcado, hemoglobina em queda nos últimos dias, palidez novaCristaloide em infusão rápida por acesso calibroso, controle da fonte acionado, hemocomponentes solicitados pela clínica e não pelo hematócrito
Tóxicos da própria prescriçãoQualquer paciente internado, e sobretudo o idoso com muitos itens na folhaOpioide ou benzodiazepínico de resgate na madrugada, betabloqueador ou bloqueador de canal de cálcio em paciente já bradicárdico, droga que alarga o intervalo QT, potássio endovenoso correndoSuspender o que estiver infundindo naquele instante; antídoto quando existir; magnésio na torção das pontas; dizer em voz alta o que foi administrado
Trombose pulmonarImobilizado, pós-operatório recente, neoplasia, profilaxia ausente ou suspensaColapso súbito ao ser mobilizado, hipoxemia desproporcional ao exame do tórax, fator de risco escrito no próprio prontuárioCompressão de qualidade mantida por mais tempo, com trombolítico empírico considerado pela equipe que assumiu
Tamponamento e pneumotórax hipertensivoPunção de veia central, toracocentese, drenagem, ventilação com pressão positiva, neoplasia, uremiaProcedimento realizado nas horas anteriores; murmúrio abolido de um lado; ritmo organizado sem pulso em paciente com o contexto certoDescompressão ou drenagem imediatas, e punção pericárdica por quem tem treino — nenhuma droga substitui a agulha

Dose de epinefrina na PCR adulta: 1 mg IV/IO. A ampola de 1 mL a 1 mg/mL contém essa massa; diluir com 9 mL gera 10 mL a 0,1 mg/mL. Confirmar padronização e administrar a dose correta, sem confundir apresentações e vias. Registrar a hora e manter intervalo de 3–5 minutos.

A conta da amiodarona também fecha na primeira tentativa. Cada ampola traz 3 mL de solução a 50 mg por mililitro, o que dá 150 mg. A primeira dose da fibrilação refratária, de 300 mg, consome duas ampolas; a segunda, de 150 mg, consome uma. Diluídas em 20 mL de glicose a 5%, como manda a bula, o volume total da primeira dose fica em 26 mL. Se alguém abrir uma ampola achando que ela tem 300 mg, o paciente recebe metade da dose e ninguém percebe.

A conta que não fecha é a do bicarbonato, e ela está na bula do próprio produto. A solução é declarada a 8,4%, com 1.000 mEq por litro, o que dá 1 mEq por mililitro — e 50 mL, portanto, são 50 mEq. A bula escreve que a dose inicial da parada é de uma a duas seringas de 50 mL, e converte esse volume como 44,6 a 100 mEq. O limite de baixo está errado: 44,6 mEq são 50 mL de uma solução a 7,5%, que é outro produto. O erro se repete na linha seguinte, que dá 50 mL como sendo 44,6 a 50 mEq, uma faixa impossível para um volume fixo. Use a aritmética do próprio rótulo: 1 mEq por mililitro.

Bicarbonato não é medicamento rotineiro da PCR; acidemia que acompanha a parada não o indica automaticamente. Pode integrar tratamento de causas selecionadas, como intoxicação por bloqueadores de canal de sódio e hipercalemia conforme protocolo. Corrigir causa e ventilação/perfusão, considerando riscos de sódio, CO₂, cálcio e incompatibilidade de linhas.

08

A conduta, hora a hora

Reconhecimento, chamado e compressões são imediatos. O relógio descreve prioridades simultâneas, não autoriza aguardar 60 ou 90 segundos para RCP. Desfibrilador é conectado assim que chega, e os demais procedimentos ocorrem sem interromper o que mantém perfusão. O interno inicia suporte básico e comunica história/medicamentos; a equipe habilitada assume decisões avançadas e reparte funções.

O preparo exige conferir medicamento, dose, concentração, volume, diluente, via e indicação. Aritmética correta não torna uma indicação apropriada nem comprova estoque no hospital. Os protocolos históricos citados são comparados ao algoritmo AHA 2025 para a sequência operacional atual; recomendações específicas, como hipercalemia, são identificadas separadamente.

O peso usado nas contas abaixo é o do paciente do bloco de cena, 72 quilos, porque dose por quilo sem um número concreto ao lado não se fixa. Duas das drogas deste capítulo — adrenalina e amiodarona — têm dose fixa no adulto e não dependem do peso, e isso é uma vantagem real na hora do aperto.

  1. Imediatamente — reconhecer, chamar e iniciar RCP

    Verificar rapidamente responsividade por chamado e toque nos ombros, pedir ajuda e acionar o código local. Avaliar respiração e pulso central simultaneamente por no máximo 10 segundos; não é necessário completar esse tempo quando a conclusão já é clara. Ausência de respiração normal ou gasping, sem pulso definitivamente identificado, exige RCP imediata. Não repetir estímulos dolorosos nem esperar monitor para começar.

    Prescrição
    • Checagem simultânea de pulso central e respiração em até 10 segundos; sem pulso, com pulso ausente ou em dúvida, iniciar compressões (protocolo nacional de suporte avançado de vida do serviço móvel de urgência, protocolo de parada e ressuscitação no adulto; atualização da diretriz de ressuscitação da Sociedade Brasileira de Cardiologia)
    • Com pulso definido e respiração ausente ou inadequada, ventilar 1 vez a cada 6 segundos (10/min) e reavaliar pulso a cada 2 minutos, ou antes se houver mudança. Se suspeita de opioide, naloxona sem atrasar ventilação.
    • Acionar o código de parada do próprio hospital, identificando leito e solicitando desfibrilador/equipe. Cores e ramais variam entre instituições; conhecer o fluxo antes do plantão.
    • Delegar o registro de horários enquanto a equipe inicia suporte. Anotar reconhecimento, início da RCP, ritmos, choques, drogas e retorno de circulação; não colocar a anotação antes de compressões e desfibrilação indicadas.
  2. Em paralelo à RCP — ajustar superfície e ergonomia sem atraso

    Começar compressões imediatamente onde o paciente está. Superfície firme e altura adequada melhoram a eficácia; outra pessoa pode acionar modo CPR/desinsuflação do colchão e ajustar cama ou prancha enquanto a RCP prossegue. Não buscar prancha nem transferir para o chão à custa de atraso ou pausa prolongada. A preparação ajuda a qualidade, mas não é condição para iniciar.

    Prescrição
    • Iniciar compressões imediatamente e melhorar posição/superfície em paralelo com ajuda, sem atrasar ou interromper desnecessariamente a RCP.
    • Colchão pneumático desinsuflado pela válvula de emergência, ou prancha rígida sob o dorso; travesseiro retirado; grade do lado em que você vai comprimir abaixada
    • Altura ajustada: cama baixada ou banqueta usada, de modo que você consiga manter os braços estendidos e os ombros acima do ponto de compressão — não é conforto, é o que permite usar o peso do tronco em vez da força do braço
    • Designar profissional para acolher o acompanhante. Presença durante RCP pode ser oferecida conforme desejo, segurança e apoio disponível; não é obrigatória a retirada de toda família.
  3. Desde o reconhecimento — compressões e ventilação de qualidade

    Tudo o que vem depois depende de a compressão estar certa, e ela tem cinco parâmetros mensuráveis. O que fixa os cinco não é a leitura: é contar em voz alta e pedir que alguém confira você, do mesmo jeito que você vai conferir o próximo.

    Prescrição
    • Base da palma de uma mão sobre a metade inferior do esterno, a outra mão sobre a primeira e entrelaçada, braços estendidos e ombros a cerca de 90 graus acima da vítima (atualização da diretriz de ressuscitação da Sociedade Brasileira de Cardiologia, capítulo de suporte básico no adulto)
    • Frequência de 100 a 120 compressões por minuto, profundidade de no mínimo 5 centímetros sem exceder 6, com retorno completo do tórax a cada compressão e sem apoiar-se no tórax entre elas (mesma diretriz e protocolo nacional)
    • Ciclos de 30 compressões para 2 insuflações enquanto não houver via aérea avançada, com pausa máxima de 10 segundos para as duas insuflações (protocolo nacional; a diretriz brasileira classifica a proporção 30 para 2 como conduta aconselhável para o profissional com dispositivo de barreira)
    • Insuflações de 1 segundo cada, com volume apenas suficiente para elevar o tórax visivelmente, preferencialmente com bolsa-válvula-máscara com reservatório e oxigênio suplementar; hiperventilar é contraindicado e reduz o débito gerado pela compressão (mesma diretriz)
    • Rodízio de quem comprime a cada 2 minutos, combinado antes e cronometrado por alguém, ainda que o socorrista diga que aguenta mais
    • Alvo de fração de compressão torácica de no mínimo 60% e idealmente 80% do tempo total do atendimento — ou seja, o tempo somado de mãos fora do tórax é o indicador de qualidade que a equipe deve perseguir
  4. Assim que disponível — conectar desfibrilador sem esperar completar um ciclo

    O aparelho chega, as pás vão ao tórax, as compressões param pelo tempo da olhada e a equipe decide entre dois caminhos. A regra que o interno precisa ter automatizada é o que fazer com as próprias mãos em cada um deles: no chocável, sair, conferir que ninguém encosta, e voltar imediatamente depois do choque; no não chocável, voltar na hora, sem esperar instrução.

    Prescrição
    • Pás ou eletrodos no tórax desnudo e seco; manter as compressões enquanto o desfibrilador é preparado e conectado, interrompendo apenas para a análise do ritmo (diretriz brasileira de ressuscitação; protocolo nacional)
    • FV/TV sem pulso: choque bifásico na energia recomendada pelo fabricante (por exemplo, 120–200 J); se desconhecida, usar máxima disponível. Choques seguintes com energia igual ou maior conforme aparelho. Monofásico: 360 J. O DEA orienta sua própria sequência. Não confundir máximo de todo bifásico com 200 J.
    • Antes do choque, solicitar em voz alta que todos se afastem e certificar-se de que não há alto fluxo de oxigênio direcionado ao tórax do paciente (protocolo nacional)
    • Após o choque, reiniciar imediatamente a ressuscitação por mais 2 minutos, sem checar pulso e sem checar ritmo (protocolo nacional e diretriz brasileira)
    • Linha reta na tela: protocolo da linha reta em menos de 10 segundos — conferir conexão de cabos e eletrodos, aumentar o ganho do sinal e checar o ritmo em outra derivação — antes de assumir assistolia (protocolo nacional de assistolia)
    • Ritmo organizado no monitor após um ciclo: checar pulso carotídeo por 5 a 10 segundos; sem pulso palpável nesse período, o quadro é atividade elétrica sem pulso (diretriz brasileira)
  5. Minuto 2 a 10 — as drogas, com a ampola que existe no carro

    Nenhuma droga da parada substitui compressão, e nenhuma justifica interromper compressão para ser administrada — o protocolo nacional escreve isso literalmente. O que o interno precisa saber é o que cada ampola contém, porque em serviço pequeno é ele que abre a caixa e aspira. As três contas abaixo fecham na primeira tentativa, e é por isso que elas devem ser feitas antes, e não durante.

    Prescrição
    • Epinefrina 1 mg IV/IO a cada 3–5 minutos na PCR, sem pausar compressões. Conferir apresentação e preparo: uma ampola de 1 mg/mL com 1 mL contém 1 mg; se diluída com 9 mL de salina, resulta em 10 mL a 0,1 mg/mL, administrando a dose completa conforme padronização. Não confundir com dose IM da anafilaxia nem com infusão de vasopressor. Após acesso periférico, flush de salina conforme protocolo.
    • No algoritmo AHA 2025: epinefrina o mais cedo possível em AESP/assistolia; em FV/TV sem pulso, durante o ciclo após o segundo choque. Desfibrilação não espera o acesso ou a medicação.
    • FV/TV sem pulso persistente: considerar amiodarona 300 mg IV/IO no ciclo após o terceiro choque; segunda dose 150 mg se indicada em ciclo subsequente. Ampolas de 3 mL a 50 mg/mL contêm 150 mg: duas na primeira dose, uma na segunda. Conferir diluente/preparo do produto e protocolo; não interromper RCP para administrar.
    • Lidocaína é alternativa à amiodarona, não exige sua indisponibilidade: primeira dose 1–1,5 mg/kg IV/IO; segunda 0,5–0,75 mg/kg. Para 72 kg, 72–108 mg e 36–54 mg. Conferir concentração e dose acumulada; não alternar antiarrítmicos de rotina.
    • Sulfato de magnésio somente na parada secundária a hipomagnesemia ou na taquicardia ventricular polimórfica do tipo torção das pontas: 1 a 2 g por via intravenosa ou intraóssea, diluídos em 10 a 20 mL de glicose a 5% (protocolo nacional; a diretriz brasileira reforça que o magnésio não deve ser usado de rotina)
    • Na PCR com forte suspeita de hipercalemia, equipe pode tratar empiricamente sem atrasar RCP/epinefrina. A UKKA recomenda cloreto de cálcio 10%, 10 mL IV em administração rápida, com acesso seguro; gluconato 10% tem cerca de um terço do cálcio elementar por mL e exige volume equivalente apropriado, usualmente 30 mL, se for a alternativa padronizada. Confirmar sal, concentração, via e protocolo de PCR; não extrapolar velocidade de infusão de paciente com pulso. Não misturar cálcio e bicarbonato na mesma linha sem lavagem apropriada. A evidência específica de desfecho na PCR é limitada; investigar outras causas em paralelo.
    • Conferir previamente disponibilidade, apresentação e protocolo de cálcio no carro/farmácia. Inclusão ou ausência em lista nacional não comprova estoque local.
  6. Desde os primeiros ciclos — causas, acesso e via aérea em paralelo

    A partir do segundo ou terceiro ciclo, quatro coisas acontecem ao mesmo tempo e é aqui que uma sala cheia vira uma sala confusa. O papel do interno muda: ele deixa de ser quem executa tudo e passa a ser quem mantém a compressão íntegra enquanto os outros trabalham, e quem responde a pergunta da causa.

    Prescrição
    • Bolsa-máscara eficaz pode ser mantida; tubo ou dispositivo supraglótico depende de experiência, recursos e situação. Via aérea avançada não deve atrasar choque nem prolongar pausa. Confirmar tubo com capnografia de onda contínua e monitorar posição.
    • Depois do dispositivo instalado, compressões contínuas na frequência de 100 a 120 por minuto sem pausa para ventilar, com uma insuflação a cada 6 segundos, ou 10 por minuto, não sincronizadas, e checagem de ritmo a cada 2 minutos (protocolo nacional e diretriz brasileira)
    • Acesso venoso periférico calibroso ou acesso intraósseo obtido por outra pessoa, sem interromper as compressões (protocolo nacional)
    • Capnografia de onda contínua: valor baixo ou em queda pede revisão da qualidade da RCP, ventilação, tubo e causas, incluindo TEP. Elevação abrupta pode indicar retorno circulatório, sem prova isolada. Não usar um corte único para encerrar esforços.
    • Glicose por método confiável e gasometria/eletrólitos se puderem alterar conduta sem interromper RCP. Glicemia capilar pode ser imprecisa em baixo fluxo; confirmar em amostra venosa/arterial quando disponível. Tratar hipoglicemia verdadeira e monitorar quando administrar insulina.
    • Percorrer em voz alta os cinco H e cinco T — hipóxia, hipovolemia, acidose, distúrbio do potássio, hipotermia, tóxicos, tamponamento, pneumotórax hipertensivo, trombose coronária e tromboembolismo pulmonar (protocolo nacional e diretriz brasileira) — dizendo qual deles se aplica a este paciente e por quê
  7. Quando o pulso volta — a hora em que o risco não caiu

    Retorno da circulação inicia cuidados intensivos, com risco de recorrência e lesão secundária. Manter equipe, monitorização e tratamento da causa. A taxa de recorrência de 61,4% citada no estudo histórico do capítulo é daquela amostra; não prevê o destino individual nem a frequência atual da enfermaria.

    Prescrição
    • Manter monitorização cardíaca contínua e atenção permanente a nova parada (protocolo nacional de cuidados pós-ressuscitação)
    • Após retorno, usar FiO₂ 100% até medir oxigenação de forma confiável; depois titular para SpO₂ 90–98% ou PaO₂ 60–105 mmHg no algoritmo AHA 2025. Ajustar ventilação para PaCO₂ 35–45 mmHg, considerando acidemia grave e contexto. Evitar hipoxemia, hiperoxemia e hiperventilação.
    • Eletrocardiograma de 12 derivações imediatamente, avaliando isquemia, duração do QRS e intervalo QT — as três leituras que apontam causa e risco de recorrência (mesmo protocolo)
    • Glicemia controlada e tratada; sinais vitais reavaliados; causas reversíveis tratadas e não apenas listadas (mesmo protocolo)
    • Tratar hipotensão com meta inicial de PAM ≥65 mmHg e perfusão adequada. Fluido em alíquotas somente se indicado e tolerado; não prescrever 1–2 L automaticamente no renal/cardiopata. Vasopressor e suporte adicional dependem do mecanismo e da equipe.
    • Tratar hipercalemia sem esperar retorno circulatório quando essa for a causa fortemente suspeita. Um esquema UKKA é insulina regular 10 unidades IV com glicose 25 g (50 mL de glicose 50%), conforme protocolo e acesso. Medir glicose no basal, a cada 30 minutos nas primeiras 2 horas e depois de hora em hora até pelo menos 6 horas; prolongar conforme risco e doses repetidas, sobretudo em insuficiência renal. Glicemia basal <126 mg/dL pode exigir glicose 10% a 50 mL/h por 5 horas, individualizando volume. Reavaliar K em cerca de 1, 2, 4 e 6 horas e depois conforme evolução; acionar nefrologia e considerar remoção efetiva de K/diálise.
    • Vaga em leito monitorado solicitada imediatamente, e transporte preparado com material de via aérea e monitor — o paciente pós-parada não desce para exame nem sobe para a terapia intensiva sem equipe e sem monitor
    • Se não seguir comandos: estratégia deliberada de controle de temperatura (32–37,5 °C conforme protocolo), avaliação/tratamento de convulsões e EEG quando indicado. Prognóstico neurológico deve ser multimodal e tardio, em geral ≥72 horas após retorno/normotermia e sem confundidores. Não usar ausência de despertar imediato como irreversibilidade.
  8. Quando não volta — encerrar, registrar e cuidar de quem ficou

    A decisão de encerrar esforços não é do interno e não deve ser tomada sozinha por ninguém. A diretriz brasileira registra que não existe recomendação clara sobre o momento de cessar, e que a determinação é difícil e deve se basear em consenso entre os membros da equipe. O protocolo nacional lista os fatores que se considera antes de interromper — assistolia confirmada pelo protocolo da linha reta, causas reversíveis afastadas, exaustão da equipe — e diz expressamente que não há parâmetro de tempo para essa decisão. O que é do interno é o que vem depois, e é muito.

    Prescrição
    • Antes de encerrar, refazer o protocolo da linha reta e percorrer os cinco H e cinco T uma última vez em voz alta, nomeando o que foi afastado e como (protocolo nacional de interrupção da ressuscitação)
    • Esforços prolongados por mais tempo em hipotermia, intoxicação e demais causas potencialmente reversíveis (mesmo protocolo)
    • Registro imediato no prontuário, feito antes de sair do andar: horário do reconhecimento, quem foi acionado e quando, ritmo inicial e ritmos subsequentes, número de choques e energia, drogas com dose e horário, duração total, causa presumida e horário do óbito ou do retorno da circulação. O registro padronizado da ressuscitação intra-hospitalar segue o modelo Utstein e é indicador de qualidade, não burocracia (diretriz brasileira de ressuscitação)
    • Comunicação à família feita pelo médico responsável, em ambiente reservado, sentado, com a equipe de enfermagem ciente do que foi dito — as palavras estão no bloco de conversa deste capítulo
    • Documentação do óbito conforme o capítulo de declaração de óbito e atestados desta coleção, incluindo a decisão sobre necessidade de verificação de óbito quando a causa não estiver esclarecida
    • Reposição e conferência de todo o material do carro de emergência imediatamente após o uso, com novo lacre de segurança e teste do monitor e do desfibrilador (diretriz brasileira de ressuscitação) — o próximo paciente do andar depende disso
    • Conversa breve com a equipe antes de todos se dispersarem, revendo o que funcionou e o que atrasou; e atenção explícita a quem estava no quarto quando aconteceu, em geral a técnica de enfermagem e o próprio interno
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Como saber se está funcionando

Durante RCP, ciclos de compressões e análise do ritmo costumam ser organizados a cada dois minutos, com pausas mínimas. Outros parâmetros têm vigilância contínua ou momento específico: qualidade de compressão, ventilação, segurança do acesso, relógio das drogas e sinais de retorno. Após retorno da circulação, a monitorização muda e permanece contínua; não aplicar um único intervalo a todas as ações.

Uma segunda regra organiza o bloco inteiro: cada parâmetro tem um dono nomeado. A pessoa que comprime não conta o tempo, não olha a tela e não prepara droga — ela conta compressões em voz alta. Se ninguém for nomeado, todo mundo faz um pouco de tudo e ninguém faz nada bem, e é assim que uma sala com seis profissionais entrega uma reanimação pior do que uma sala com dois.

E uma terceira, que é a que mais dói de aprender: o parâmetro que informa não é o que você sente. Quem comprime não percebe a própria queda de qualidade, quem ventila não percebe que está hiperventilando, e quem lidera não percebe quanto tempo passou. Todos os três precisam de alguém de fora dizendo o número.

Qualidade da compressão, conferida por outra pessoaContinuamente, com verificação explícita a cada ciclo de 2 minutos

Esperado: Frequência entre 100 e 120 por minuto, profundidade entre 5 e 6 centímetros, retorno completo do tórax e nenhuma mão apoiada no esterno entre as compressões — os quatro parâmetros da diretriz brasileira de ressuscitação, e não apenas a frequência.

Se não melhora: Quem comprime é o último a saber que está comprimindo mal. Se a profundidade caiu, a frequência acelerou ou o tórax não está voltando, a correção é a troca imediata, e não o aviso. Uma pessoa fora do ciclo deve ter a função explícita de olhar e falar.

Rodízio de quem comprimeA cada 2 minutos, cronometrado, combinado antes de começar

Esperado: Troca feita na checagem de ritmo, de modo que a pausa da troca coincida com a pausa que já ia acontecer — quem entra já está posicionado do outro lado da cama antes de a checagem começar.

Se não melhora: Rodízio que atrasa é rodízio que produz duas pausas em vez de uma. Se a equipe é pequena e não há quem trocar, encurte para a troca possível e assuma a queda de qualidade em voz alta, para que quem lidera saiba com que compressão está contando.

Tempo somado de mãos fora do tóraxAo final de cada ciclo, mentalmente, e ao final da parada, no registro

Esperado: Fração de compressão torácica de no mínimo 60% e idealmente 80% do tempo total, com pausa máxima de 10 segundos para as duas insuflações e para a análise do ritmo (diretriz brasileira de ressuscitação).

Se não melhora: Se as pausas estão longas, procure a causa fora do tórax: discussão à beira do leito, droga sendo aspirada com a compressão parada, alguém procurando material no carro, tentativa de acesso venoso que virou o centro das atenções. Nenhuma dessas exige pausa — todas exigem outra pessoa.

Ritmo no monitorA cada 2 minutos, com a menor pausa possível

Esperado: Mudança de categoria, e não de detalhe: chocável virou não chocável, ou o contrário; linha reta apareceu; ritmo organizado surgiu. É a categoria que muda a próxima ação.

Se não melhora: Linha reta nova exige protocolo da linha reta em menos de 10 segundos, com cabos, ganho e derivação, antes de ser aceita como assistolia. Fibrilação que persiste após choque, compressão e vasopressor é a indicação do antiarrítmico, e não motivo para aumentar a frequência das checagens.

Pulso central, mas só quando o ritmo é organizadoApós um ciclo, quando e apenas quando o monitor mostrar ritmo organizado

Esperado: Pulso carotídeo palpável em 5 a 10 segundos. Ausência de pulso com ritmo organizado define atividade elétrica sem pulso e devolve o paciente ao ciclo, sem choque (diretriz brasileira de ressuscitação).

Se não melhora: Checar pulso com fibrilação na tela é pausa desperdiçada. E checar pulso por trinta segundos porque 'talvez tenha alguma coisa' é a versão prolongada do mesmo erro: dez segundos é o teto, aqui como no reconhecimento.

Dióxido de carbono exalado, quando houver capnografiaContinuamente, com leitura ao final de cada ciclo

Esperado: ETCO₂ estável ou em melhora no contexto da RCP; interpretar com ventilação, via aérea e causa. Elevação abrupta pode sinalizar retorno circulatório.

Se não melhora: Revisar técnica, tubo, ventilação e causas. ETCO₂ persistentemente baixo tem valor prognóstico limitado no conjunto; não usar <10 mmHg ou um tempo isolado para encerrar esforços.

Ventilação, vigiada contra o excessoA cada ciclo, olhando o tórax e não o balão

Esperado: Elevação visível do tórax com insuflação de 1 segundo; depois da via aérea avançada, uma insuflação a cada 6 segundos, ou 10 por minuto, com compressões contínuas por baixo.

Se não melhora: Se o tórax não sobe, revisar vedação, posicionamento, obstrução, dispositivo e mecânica pulmonar, incluindo pneumotórax. Técnica com duas pessoas pode melhorar ventilação por máscara. Evitar insuflação excessiva e pausas longas.

Causa reversível, revisitada em voz altaA cada 2 ou 3 ciclos, nomeando o que foi afastado e como

Esperado: A lista de cinco H e cinco T percorrida com o paciente concreto, e não recitada: qual delas se aplica a este prontuário, o que já foi feito por ela, e o que falta.

Se não melhora: Reanimação que passa de dez minutos sem hipótese nomeada é reanimação em piloto automático. Volte à prescrição de ontem, à última função renal, ao procedimento das últimas horas e ao que estava infundindo no momento — as respostas dessas quatro perguntas mudam a conduta mais do que a próxima ampola de adrenalina.

Nas primeiras 24 horas depois do retorno: recorrênciaMonitorização e vigilância contínuas após retorno, com reavaliação imediata se mudança

Esperado: Oxigenação/ventilação apropriadas, PAM ≥65, glicose segura e causa tratada, com prevenção de lesão secundária e plano de terapia intensiva.

Se não melhora: Deterioração exige atendimento imediato e revisão da causa, sem aguardar visita horária. A recorrência de 61,4% é dado de amostra histórica, não probabilidade individual. Manter equipe, monitor/desfibrilador e suporte enquanto aguarda vaga.

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Onde o erro machuca

Gastar mais de dez segundos decidindo se é parada

O dano: É o erro que mais custa e o que menos parece erro, porque se disfarça de prudência. Cada dez segundos adicionais de checagem são dez segundos sem fluxo cerebral, e eles se somam aos que já passaram antes de alguém entrar no quarto. Na prática de enfermaria o atraso vem em parcelas: chamar de novo pelo nome, sacudir o ombro, ir até o corredor perguntar a opinião de alguém, procurar o oxímetro para 'confirmar'. Nenhuma dessas parcelas parece grande, e somadas viram minutos.

Como pegar a tempo: Automatize a sequência: nome e estímulo doloroso central, pulso carotídeo e respiração ao mesmo tempo por no máximo 10 segundos, decisão. Trate gasping como ausência de respiração. Diante de dúvida honesta, comece a comprimir — a própria diretriz brasileira manda iniciar quando o socorrista não detecta pulso ou está em dúvida, e o custo de comprimir quem tinha pulso é incomparavelmente menor do que o inverso.

Sair do quarto para pedir ajuda

O dano: Parece a coisa mais natural do mundo e transforma uma parada presenciada, que é a de melhor prognóstico, numa parada encontrada. Enquanto você caminha até o posto de enfermagem, ninguém está comprimindo, e você volta com gente que também não sabe o que precisa trazer. Uma variação igualmente cara é chamar sem conteúdo — gritar por socorro sem dizer que é parada, sem dizer o leito e sem pedir o carro — o que faz o desfibrilador chegar dois ou três minutos depois de ter sido possível.

Como pegar a tempo: Grite do lugar onde você está, com três informações fixas na mesma frase: o que é, onde é, o que precisa vir. Parada no leito tal, carro de emergência e desfibrilador, chamem o plantonista. Se o serviço tem código de cores, use o código mais alto, que é o único com meta de chegada imediata. E peça que alguém marque a hora do início antes de qualquer outra coisa.

Comprimir sobre superfície mole, ou em altura errada

O dano: A energia da compressão se dissipa no colchão e a profundidade real fica muito abaixo dos 5 centímetros, ainda que a sensação na mão seja de esforço grande. O paciente recebe um simulacro de reanimação por vários minutos, e a equipe que chega assume um paciente que, na conta do fluxo, ficou sem compressão desde o começo. O erro gêmeo é comprimir com a cama alta e os braços dobrados: a força passa a vir do bíceps, cansa em menos de um minuto e a qualidade desaba antes do primeiro rodízio.

Como pegar a tempo: Comece compressões imediatamente e ajuste colchão, prancha e altura em paralelo. Não gastar tempo buscando uma superfície ideal. Acompanhe profundidade real e retorno torácico; se houver fadiga ou técnica insuficiente, corrigir e trocar compressor rapidamente, sem pausas prolongadas.

Aceitar linha reta como assistolia sem fazer o protocolo da linha reta

O dano: A linha reta tem duas causas com condutas opostas, e a diretriz brasileira resume o custo do erro numa frase: deixar de desfibrilar uma fibrilação é inadmissível, e desfibrilar assistolia piora o prognóstico. Na enfermaria, a causa mais banal de linha reta na tela nem é clínica — é um eletrodo solto ou um cabo mal conectado no aparelho que ninguém testou nesta semana. Aceitar essa imagem significa não chocar um paciente que ainda tinha ritmo tratável.

Como pegar a tempo: Faça as três checagens em menos de 10 segundos, sempre na mesma ordem: conexão de cabos e eletrodos, aumento do ganho do sinal, troca da derivação. Só depois disso a palavra assistolia entra na sala. E confira o lacre e o teste do desfibrilador do seu andar em dia de plantão calmo, porque essa é a única hora em que dá para consertar.

Encher a sala de gente e esvaziar o tórax de compressão

O dano: Numa parada de enfermaria com equipe grande, a fração de tempo comprimindo costuma cair, e não subir. As pausas se multiplicam por motivos que parecem legítimos: uma discussão sobre a próxima droga, alguém aspirando ampola com todo mundo parado esperando, uma segunda tentativa de acesso venoso que vira o centro das atenções, três pessoas checando pulso ao mesmo tempo. Ninguém errou isoladamente e o paciente ficou metade do tempo sem fluxo.

Como pegar a tempo: Papéis nomeados em voz alta e mantidos: um comprime, um ventila, um cronometra e conta ciclos, um prepara e administra droga, um registra. Quem não tem papel sai do círculo de um metro em volta da cama. E a regra que resolve a maioria das pausas: nada que possa ser feito com a compressão acontecendo será feito com a compressão parada — o protocolo nacional escreve isso ao proibir interromper a ressuscitação para administrar drogas.

Copiar dose de documento oficial sem refazer a conta contra a ampola

O dano: Fonte oficial brasileira erra unidade, e o erro atravessa revisões sem ser pego por ninguém. A bula profissional do bicarbonato de sódio a 8,4% declara, na própria composição, 1.000 mEq por litro — ou seja, 1 mEq por mililitro. Na posologia da parada cardíaca, ela manda administrar uma a duas seringas de 50 mL e converte esse volume como 44,6 a 100 mEq. O limite inferior não pertence a esse produto: 44,6 mEq são 50 mL de uma solução a 7,5%, cuja concentração é 0,893 mEq por mililitro. A linha seguinte piora, ao dar 50 mL como 44,6 a 50 mEq, uma faixa que um volume fixo não pode ter. Quem prescreve pelo número da bula, e não pela concentração do frasco, escreve uma dose que não corresponde ao que está pendurado.

Como pegar a tempo: Refaça o percurso inverso antes de aspirar qualquer coisa: da dose que você quer até o volume, e do volume até o rótulo do frasco que está na sua mão. Quando o resultado não bate com o número impresso no documento, desconfie do documento — a aritmética do rótulo é a única autoridade nessa hora. As três contas deste capítulo devem estar prontas antes do plantão, e todas fecham na primeira tentativa: 1 mg de adrenalina é uma ampola de 1 mL a 1 mg/mL; 300 mg de amiodarona saem de duas ampolas com 150 mg cada; e o bicarbonato a 8,4% tem 1 mEq por mililitro, de modo que 50 mL são 50 mEq.

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O que dizer ao paciente e à família

A parada tem uma característica comunicativa que nenhuma outra emergência tem: o paciente não participa. Tudo o que se diz é dito para outras pessoas — o acompanhante que estava no quarto, a família que chega correndo, a técnica que encontrou, a equipe que assumiu. E é dito nas piores condições possíveis: em pé, com pressa, no corredor, por alguém que está com adrenalina no próprio sangue.

Três regras organizam as falas abaixo. Nomeie a ação antes do temor, porque quem espera no corredor precisa primeiro saber que alguém está agindo. Não prometa nada — nem sobrevida, nem tempo, nem que vai ficar tudo bem —, porque a estatística brasileira de sobrevida até a alta depois de uma parada dentro do hospital não sustenta promessa nenhuma. E ponha hora em toda incerteza: dizer que ainda não se sabe só é aceitável quando vem colado a um horário em que alguém volta para falar.

A presença de familiares durante a reanimação deve ser avaliada conforme condições, preferência e protocolo, idealmente com profissional designado para apoiá-los. Não é necessário impor saída de toda família por regra universal. A prioridade é manter atendimento seguro e comunicação clara, evitando prometer desfecho.

Ao acompanhante que está no quarto, nos primeiros segundos, enquanto você já começou

A circulação dele parou e a equipe está fazendo reanimação. Precisamos de espaço para trabalhar; alguém ficará com vocês, explicará o que está acontecendo e avaliará se é possível acompanhar com apoio, conforme a situação e o protocolo do serviço.

Não diga: Evite mandar sair sem dizer o motivo — o silêncio no corredor é interpretado como o pior desfecho possível, e frequentemente está certo. E evite pedir que a pessoa 'espere um instantinho' sem nomear quem vai voltar e quando: instante indefinido em corredor de hospital é a definição de sofrimento evitável.

À família que chegou e pergunta o que está acontecendo, com o atendimento ainda em curso

O coração dele parou às seis e vinte e a equipe está fazendo massagem cardíaca desde o primeiro minuto. Somos cinco pessoas na sala, tem médico, tem enfermagem, e o desfibrilador está lá dentro. Eu não sei ainda como isso vai terminar, e não vou dizer à senhora uma coisa que eu não sei. O que eu posso prometer é que a senhora vai ser informada assim que houver qualquer definição, e que ninguém vai sair daqui sem falar com a senhora.

Não diga: Evite 'está tudo sob controle', que é falso e cobra o preço em quinze minutos. Evite explicar ritmo, droga e fisiologia — a família não está processando informação técnica agora, e o detalhe vira ruído. E evite números de sobrevida nesse momento: eles são verdadeiros e são cruéis fora de contexto.

À família, comunicando o óbito, com o médico responsável presente

Eu tenho uma notícia difícil. Nós fizemos manobras de ressuscitação por vinte minutos, com massagem, medicação e desfibrilador, e o coração dele não voltou a bater. Ele morreu às seis e cinquenta. Sinto muito. Vou ficar aqui com a senhora, e daqui a pouco, quando a senhora quiser, eu explico o que aconteceu e o que a gente entende que causou. A senhora vai poder entrar para ficar com ele.

Não diga: Evite eufemismo — 'ele nos deixou', 'não resistiu', 'a gente perdeu ele'. Palavra ambígua obriga a família a perguntar de novo, e a segunda vez dói mais que a primeira. Evite também explicar a causa antes de dar a notícia: a informação técnica dita antes da palavra 'morreu' não é ouvida por ninguém.

Ao paciente lúcido com doença avançada, dias antes, na conversa que evita a reanimação de omissão

Eu queria conversar sobre uma coisa que a gente costuma deixar para depois e depois fica tarde. Pela sua doença, pode acontecer de o seu coração parar em algum momento, e existe um tratamento para isso que é bem agressivo — massagem no peito, tubo na garganta, choque. Em quem tem uma doença como a sua, esse tratamento raramente devolve a pessoa ao estado em que ela estava. Eu queria saber o que o senhor pensa sobre isso, porque a sua opinião é a que manda, e ela vai ficar escrita no seu prontuário. Nada do que a gente decidir aqui muda uma vírgula do resto: remédio para dor, para falta de ar, para enjoo, presença da família — tudo isso continua igual ou melhor.

Não diga: Evite a pergunta fechada 'o senhor quer que a gente faça tudo?', porque ninguém responde não a essa formulação e ela não informa nada. Evite o termo técnico sem tradução. E evite deixar a conversa sem produto: uma conversa que não vira registro no prontuário é uma conversa que não existiu às seis e vinte da manhã de um sábado.

À técnica de enfermagem que encontrou o paciente, depois que tudo acabou

Você fez certo em me chamar do jeito que chamou, e o fato de você ter percebido de manhã cedo é o que fez a gente estar lá dentro em menos de um minuto. Eu queria te perguntar uma coisa clínica: o que exatamente ele te disse às cinco, quando reclamou das pernas? E queria te dizer outra: encontrar paciente assim é pesado, e não tem nada de errado em ficar mal com isso. Se você quiser conversar hoje ou depois, me procura.

Não diga: Evite perguntar por que ela não chamou antes, ainda que essa seja a pergunta que o caso levanta. A revisão do que falhou é da reunião de equipe, com o sistema em pauta, e não do corredor com uma pessoa. E evite sair do andar sem dizer nada a quem estava no quarto — o silêncio depois de um óbito é lido como culpa atribuída.

Ao plantonista que acabou de entrar na sala, em quinze segundos e sem largar a compressão

Homem, 66 anos, leito 14, quinto dia de internação por erisipela, renal crônico. Encontrado sem pulso às seis e vinte, compressões iniciadas imediatamente após reconhecer a parada. Reintroduziram enalapril e espironolactona ontem à tarde e prescreveram anti-inflamatório. Estava sonolento desde as quatro e com fraqueza nas pernas às cinco. Minha preocupação é potássio.

Não diga: Evite narrar a internação inteira desde a admissão — quem chegou precisa de contexto em uma frase e de hipótese em outra. Evite também calar a hipótese por achar que não é seu papel dizer: a informação sobre a prescrição de ontem provavelmente só você tem, e ela vale mais do que a sua opinião sobre a próxima droga. E não pare de comprimir para falar.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Quando a adrenalina entra na parada com ritmo chocável, e de quanto em quanto tempo ela se repete

Logo depois do primeiro choque e do primeiro ciclo

O protocolo escreve a administração da epinefrina como quinto passo da sequência, imediatamente após o choque, o reinício das compressões e a obtenção do acesso vascular — antes, portanto, do antiarrítmico, que só aparece no passo seguinte. A dose é de 1 mg em bólus, seguida de 20 mL de salina e elevação do membro, repetida a cada 3 a 5 minutos.

Ministério da Saúde, Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, protocolo de fibrilação ventricular e taquicardia ventricular sem pulso

A partir do segundo ciclo, e o momento ideal é desconhecido

A diretriz registra explicitamente que o momento para administrar o vasopressor não foi estabelecido e que se deve considerar seu início após o estabelecimento do acesso venoso, recomendando 1 mg a cada 3 a 5 minutos a partir do segundo ciclo no ritmo chocável. Reserva a administração precoce, de preferência no primeiro ciclo, para os ritmos não chocáveis, onde três estudos mostraram melhora de sobrevida.

Sociedade Brasileira de Cardiologia, atualização da diretriz de ressuscitação cardiopulmonar e cuidados cardiovasculares de emergência, 2019, capítulo de suporte avançado de vida no adulto

Intervalo mínimo de 2 a 3 minutos

A bula profissional do produto estipula, para a ressuscitação cardíaca no adulto, a dose intravenosa inicial de 1 mg, podendo ser repetida quantas vezes forem necessárias, respeitando um intervalo mínimo de 2 a 3 minutos — janela mais curta do que a dos dois documentos brasileiros de referência.

Bula profissional da epinefrina, solução injetável de 1 mg/mL, aprovada pela agência reguladora em 1º de junho de 2023

Como decidir

Para sequência operacional, adotar algoritmo institucional atualizado. AHA 2025: epinefrina imediatamente em AESP/assistolia e após o segundo choque em FV/TV sem pulso, a cada 3–5 minutos. Choque e compressões têm prioridade; não usar intervalo menor de bula como rotina de PCR. Em enfermaria pode já haver acesso, portanto não presumir que o momento da medicação é apenas teórico. Registrar doses evita repetição precoce.

Com quanta energia se dá o primeiro choque num desfibrilador bifásico

Sempre na potência máxima do aparelho

O protocolo escreve, em todos os passos em que a desfibrilação aparece, choque único na potência máxima do aparelho: 360 joules no monofásico e 200 no bifásico. Não abre exceção nem condiciona a energia à orientação do fabricante.

Ministério da Saúde, Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, protocolos de parada e ressuscitação no adulto e de fibrilação ventricular

De 120 a 200 joules, conforme o fabricante

A diretriz recomenda energia de 120 a 200 joules no bifásico segundo a orientação do fabricante, com grau de recomendação I; a energia máxima disponível fica reservada para quando essa orientação for desconhecida, com grau de recomendação menor. Choques subsequentes devem ocorrer com energia equivalente ou superior.

Sociedade Brasileira de Cardiologia, atualização da diretriz de ressuscitação cardiopulmonar e cuidados cardiovasculares de emergência, 2019, capítulos de terapias elétricas e de suporte avançado no adulto

Como decidir

A divergência é sobre quem manda: o fabricante do aparelho ou uma regra única memorizável. Os dois lados têm o mesmo objetivo e escolhem custos diferentes — a diretriz protege a eficácia do equipamento específico, o protocolo protege quem vai operar sob estresse e não vai ler manual. Decida pelo aparelho que existe no seu andar, e decida antes do plantão: vá até o desfibrilador, leia a etiqueta e descubra a energia recomendada pelo fabricante e a máxima disponível. Se a etiqueta responde, use o número dela. Se não responde, ou se você não teve como conferir, use a energia máxima — que é exatamente o que a diretriz manda fazer quando a orientação é desconhecida, e é onde as duas fontes se reencontram. O que nenhuma das duas autoriza é hesitar entre valores com o paciente em fibrilação: escolher rápido um número aceitável vale mais do que escolher devagar o número ótimo.

O que basta para não iniciar a reanimação de um paciente com doença terminal

Vontade da pessoa ou do representante, com registro e direito a segunda opinião

Doença grave e incurável já em fase terminal autoriza o médico a não iniciar ou a retirar aquilo que apenas prolonga o morrer, e a chave da autorização é a vontade do próprio doente ou de quem o represente legalmente. A norma amarra três exigências ao mesmo artigo: explicar as opções terapêuticas, fundamentar a decisão e escrevê-la na pasta, e garantir o direito a uma segunda opinião. O artigo seguinte impede a leitura torta: o alívio de sintomas e a assistência integral continuam devidos.

Conselho Federal de Medicina, Resolução nº 1.805, de 9 de novembro de 2006

A vontade prévia do paciente prevalece sobre a da família

A manifestação prévia do paciente tem precedência sobre pareceres que não sejam médicos, e a norma nomeia entre eles, expressamente, o que a família deseja; o que o paciente comunicou diretamente ao médico é escrito por ele na pasta. A precedência tem um limite: a diretiva deixa de ser considerada quando, na análise do médico, contrariar os preceitos do Código de Ética Médica. E quando não existe diretiva, nem representante designado, nem acordo entre familiares, a norma manda buscar o comitê de bioética que a instituição tiver, a comissão de ética do hospital, ou o conselho regional e federal.

Conselho Federal de Medicina, Resolução nº 1.995, de 9 de agosto de 2012

Diretiva escrita em prontuário ou registrada em cartório, e a família não contesta

O protocolo de decisão de não ressuscitação lista, entre os critérios para não iniciar manobras, a presença de diretiva antecipada de não reanimação, definida como manifestação de paciente maior de 18 anos ou emancipado, em pleno gozo de suas faculdades mentais, escrita em prontuário médico ou em documento registrado em cartório — e acrescenta que os familiares não podem contestá-la. Os demais critérios são sinais de morte evidente e cena insegura.

Ministério da Saúde, Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, protocolo de decisão de não ressuscitação

Como decidir

Distinguir falta de informação de indicação obrigatória de tratamento. Em dúvida real e sem plano conhecido, o interno inicia RCP e chama imediatamente o médico, que considera prognóstico, proporcionalidade e vontade previamente expressa. Diretivas não exigem cartório nem formulário especial para serem consideradas; relatos de familiares devem ser avaliados quanto a conteúdo e confiabilidade. Documentar decisão e comunicação. Direito a segunda opinião não significa exigir que ela já tenha ocorrido. Ausência de documento não autoriza insistência inútil nem uma decisão isolada do estudante.

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O raciocínio, em voz alta

Onze e dez da manhã de uma segunda-feira, enfermaria de clínica médica. Delmiro Peixoto Lira tem 61 anos, 80 quilos, e está internado desde ontem à noite com dor torácica e alterações eletrocardiográficas, aguardando vaga em leito monitorado que ainda não saiu. Você está ao pé da cama conferindo a prescrição com ele quando ele para de falar no meio de uma frase, revira os olhos e cai para trás no travesseiro. São 11h11.

  1. O que penso no primeiro segundo

    Isto é uma parada presenciada, e presenciada é a categoria de melhor prognóstico que existe — desde que eu não a converta em encontrada. O paciente é cardiopata agudo esperando monitor, o que aumenta a chance de o ritmo ser chocável. Tudo o que eu fizer nos próximos trinta segundos decide o desfecho, e nada disso exige que eu saiba mais do que já sei.

  2. Reconheço, e não gasto tempo com isso

    Chamo pelo nome dele em voz alta e comprimo o trapézio com força: nada. Ponho dois dedos na carótida esquerda enquanto olho o tórax e conto até dez. O tórax não se move e não há pulso. São 11h11 e vinte segundos, e o diagnóstico está feito. Não vou procurar radial, não vou pedir o oxímetro, não vou chamar de novo.

  3. Chamo do lugar onde estou

    Grito para o corredor três informações na mesma frase: parada no leito 6, tragam o carro e o desfibrilador, chamem o plantonista agora. Não saio do quarto e não vou até o posto. A técnica que estava no corredor repete a frase em voz alta e sai correndo — é assim que eu sei que ela entendeu. Peço a ela que anote a hora: 11h11.

  4. Começo e otimizo a superfície em paralelo

    Inicio compressões sem aguardar preparo completo da cama. Enquanto comprimo, outra pessoa aciona modo CPR/desinsuflação e ajusta altura ou prancha se isso puder ser feito sem pausa relevante. A qualidade melhora com superfície firme; buscar material ou transferir para o chão não pode criar atraso.

  5. Comprimo, e conto em voz alta

    Base da palma sobre a metade inferior do esterno, mão sobre mão, braços retos, ombros por cima. Deprimo cinco centímetros e deixo o tórax voltar inteiro entre uma compressão e outra. Conto alto até trinta e paro para duas insuflações com a bolsa-válvula-máscara que a técnica já conectou ao oxigênio. Contar alto não é teatro: é o que faz quem chega entrar no meu ritmo em vez de eu no dela.

  6. O desfibrilador chega, e a tela responde a única pergunta

    Onze e catorze. A enfermeira posiciona as pás no tórax desnudo, todos se afastam e a tela mostra um traçado caótico, sem complexos identificáveis, de amplitude ainda alta. É fibrilação ventricular — ritmo chocável, e chocável cedo. O plantonista, que acabou de entrar, seleciona a energia recomendada para aquele aparelho bifásico, usando a máxima se desconhecida, confere que ninguém encosta na cama, afasta a máscara de oxigênio do tórax e choca.

  7. O que faço no segundo seguinte ao choque

    Volto as mãos ao esterno imediatamente, sem checar pulso e sem checar ritmo, e retomo os ciclos. Esta é a parte que se erra por educação: a vontade de olhar a tela depois do choque é enorme e custa vinte segundos de perfusão coronariana. O protocolo é claro em mandar reiniciar imediatamente e reavaliar só depois de dois minutos.

  8. Como a resposta muda o que penso

    Onze e dezesseis, fim do ciclo: a tela mostra ritmo organizado, com complexos estreitos a cerca de 90 por minuto. Agora, e só agora, checo carótida por dez segundos — e há pulso. Retorno da circulação em cinco minutos de parada presenciada, com um único choque. Se não houvesse pulso apesar do ritmo organizado, isso seria atividade elétrica sem pulso, eu voltaria a comprimir sem chocar, e a pergunta passaria a ser a causa.

  9. O que eu faço enquanto todo mundo relaxa

    Mantenho equipe e monitorização. Titular oxigênio para SpO₂ 90–98% quando confiável, ajustar ventilação e manter PAM ≥65 conforme contexto. ECG imediato e avaliação coronária conforme achados; glicose, eletrólitos e investigação da causa. Se não segue comandos, controle de temperatura e avaliação neurológica em terapia intensiva, sem prognóstico precoce. Reavaliar prescrição e preparar transporte seguro; risco de recorrência existe, sem aplicar uma porcentagem histórica ao indivíduo.

  10. O que fica escrito antes de eu sair do andar

    Horário do reconhecimento, horário do início das compressões, horário e energia do choque, ritmo inicial e ritmo pós-choque, horário do retorno da circulação, drogas administradas com dose e hora, quem estava presente e o que foi combinado. Depois, três providências: prescrição revista item por item, carro de emergência reposto e lacrado, e conversa com a família — que estava na lanchonete quando isso aconteceu e ainda não sabe de nada.

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Faça você

Domingo, 4h40, enfermaria de clínica médica de um hospital geral de porte médio. Dona Leonilda Quirino Xavier tem 84 anos, 44 quilos, e está no décimo primeiro dia de internação. O diagnóstico da pasta é adenocarcinoma de pâncreas com metástases hepáticas e peritoneais, sem indicação de tratamento oncológico específico, em uso de morfina para dor e sonda nasoenteral. A evolução da equipe assistente de sexta-feira registra a frase 'prognóstico reservado, conversar com a família'. Não há nada escrito depois disso. A técnica bate na porta da sala de plantão e diz que a dona Leonilda está diferente. Você encontra a paciente irresponsiva ao chamado e ao estímulo doloroso, com movimentos respiratórios lentos e ruidosos a cada oito segundos, sem pulso carotídeo palpável em dez segundos. Não há rigidez, não há livores. A filha dorme na poltrona ao lado.

  1. Passo 1 — O que o quadro já diz, tecnicamente

    A checagem foi feita corretamente e o resultado é inequívoco: irresponsiva, com respiração agônica e sem pulso central. Pelo critério dos dois documentos brasileiros de referência, isto é parada cardiorrespiratória. Ausência de rigidez cadavérica e de livores de hipóstase afasta os sinais de morte evidente que autorizariam não iniciar manobras.

  2. Passo 2 — O que a pasta diz, e o que ela não diz

    A pasta não contém um plano claro. Isso é falha de comunicação, mas não prova que nunca houve manifestação verbal da paciente. Procurar informações disponíveis e ouvir a filha com a equipe, sem deixar o interno decidir sozinho nem aguardar a volta do oncologista. Uma frase genérica de prognóstico reservado não documenta por si só ordem de não reanimar.

  3. Passo 3 — Quem está no andar às quatro e quarenta de um domingo

    Você é o interno. O clínico plantonista cobre o pronto-socorro e a enfermaria e está atendendo um paciente com dor torácica dois andares abaixo. A equipe assistente e o oncologista voltam na segunda-feira. A filha, que acorda com a movimentação, é a única familiar presente e diz, chorando, que 'a mãe não queria sofrer mais'.

  4. Passo 4 — O que já está acontecendo enquanto você pensa

    Na incerteza presente, iniciar suporte e chamar imediatamente o médico permite avaliar o quadro enquanto se obtêm informações. RCP também tem danos; não é literalmente reversível. A informação confiável sobre desejos e proporcionalidade pode justificar rever sua continuidade de modo fundamentado.

  5. Passo 5 — Sua vez

    Descreva a ação imediata do interno e como aciona o médico. Explique como ouvir a filha e esclarecer manifestações prévias, sem tratá-las como irrelevantes nem presumir representante legal. Diga o que documentar e como deveria ter sido planejado o cuidado antes da deterioração.

Ver como fecharíamos

Neste cenário de incerteza, iniciar RCP e acionar imediatamente o médico responsável pelo plantão. O estudante não deve decidir sozinho uma limitação nem esperar o oncologista voltar. Em paralelo, a equipe verifica o plano conhecido e ouve a filha: o que a paciente disse, quando, em que contexto e com que compreensão. Não desqualificar a fala porque a filha está emocionada ou porque falta cartório/formulário. Ela pode transmitir vontade prévia relevante, embora “não sofrer” não esclareça automaticamente uma escolha específica sobre RCP nem comprove representação legal. O médico integra informação confiável, prognóstico e proporcionalidade; ausência de documento não obriga manter tratamento reconhecidamente inútil. Evitar RCP simbólica. As resoluções do CFM exigem respeito à vontade, informação sobre opções, fundamentação/registro e direito a segunda opinião; não exigem que uma segunda opinião já tenha ocorrido em todo caso. Documentar horários, ritmos, intervenções, informação disponível e decisão com sua justificativa, além das palavras relevantes da filha. Se houver retorno, manter suporte apropriado e discutir prontamente objetivos do cuidado, envolvendo a paciente se recuperar capacidade. Se a equipe decidir limitar ou encerrar, continuar alívio de sintomas, presença e comunicação. O cuidado antecipado deveria ter esclarecido desejos e recomendação clínica, registrado um plano acessível e passado esse plano entre equipes; não basta anotar “conversar com a família”.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

No adulto, visar 100–120 compressões/min, profundidade de 5–6 cm, retorno completo e mínima interrupção, com troca de compressor a cada dois minutos ou antes se a qualidade cair. Frequência excessiva pode prejudicar profundidade e retorno; compressões rasas tendem a gerar menos fluxo e excessivamente profundas elevam risco de lesão. Os alvos não são limites físicos de tudo ou nada. Preparar a troca, usar feedback quando disponível e coordenar análise/choque ajuda a manter perfusão.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Demonstre a primeira sequência em simulação e explique o que muda com pulso, sem pulso e depois do choque. Confira preparo de epinefrina e uma conta de dose.

Em 30 dias

Conduza uma simulação de AESP com hipercalemia e outra de FV, incluindo retorno da circulação, monitorização glicêmica e passagem de cuidado. Discuta uma decisão de limitação sem transformar falta de formulário em regra absoluta.

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Agora atenda

Atenda o paciente irresponsivo: reconheça rapidamente, peça ajuda e cheque pulso/respiração em até 10 segundos. Sem pulso definido e sem respiração normal, inicie RCP imediatamente; ajuste a superfície em paralelo e conecte desfibrilador assim que chegar. Pratique compressões, ventilação, comunicação em circuito fechado e passagem das causas prováveis. Depois do retorno, organize suporte e pendências. Discuta decisões de proporcionalidade com a equipe, ouvindo desejos conhecidos do paciente.

Parada cardiorrespiratória na enfermaria — Internato | OsceLabs