Clínica Médica › Síndromes do Paciente na Emergência
Agitação psicomotora no pronto-socorro
Alguém grita na sala de espera e a equipe já pede a injeção e as faixas. Este capítulo é sobre a ordem que muda desfecho: medir a glicemia antes de sedar, conversar antes de injetar, e tratar a contenção como o que ela é — um procedimento com indicação escrita, hora marcada e alguém olhando.
Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.057, de 20 de setembro de 2013 (publicada no Diário Oficial da União de 12 de novembro de 2013, Seção I, p. 165-171), modificada pelas Resoluções CFM nº 2.153/2016 e nº 2.165/2017
Conselho Federal de Enfermagem. Resolução COFEN nº 746, de 20 de março de 2024, que normatiza os procedimentos de enfermagem na contenção mecânica de pacientes (Diário Oficial da União de 3 de abril de 2024, Seção 1, p. 91)
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida. 2ª edição. Brasília: Ministério da Saúde, 2016
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3
Mantovani C, Migon MN, Alheira FV, Del-Ben CM. Manejo de paciente agitado ou agressivo. Revista Brasileira de Psiquiatria. 2010;32(Supl II):S96-S103
São Paulo (Cidade). Secretaria Municipal da Saúde. Coordenadoria de Vigilância em Saúde. Manual de Toxicologia Clínica: orientações para assistência e vigilância das intoxicações agudas. 1ª edição. São Paulo: Secretaria Municipal da Saúde, 2017. 465 p.
Bula profissional de haloperidol solução injetável 5 mg/mL, Fresenius Kabi Brasil Ltda. (medicamento genérico; texto aprovado pela Anvisa em 09/12/2025)
Bula profissional de Haldol decanoato solução injetável, Janssen-Cilag Farmacêutica (decanoato de haloperidol 70,52 mg/mL, texto de 19/09/2023)
Bula profissional de Fenergan solução injetável 25 mg/mL (cloridrato de prometazina), Sanofi Medley Farmacêutica Ltda.
Bula profissional de cloridrato de midazolam solução injetável 1 mg/mL e 5 mg/mL, Fresenius Kabi Brasil Ltda. (texto aprovado pela Anvisa em 12/11/2019)
Bula profissional de Clorpromaz solução injetável 5 mg/mL (cloridrato de clorpromazina), União Química Farmacêutica Nacional S.A.
IDSA. Asymptomatic bacteriuria, 2019. https://www.idsociety.org/practice-guideline/asymptomatic-bacteriuria/
ASAM. Alcohol Withdrawal Management, 2020. https://www.asam.org/quality-care/clinical-guidelines/alcohol-withdrawal-management-guideline
Responda antes de ler
23h de uma sexta, pronto-socorro de hospital geral. Um homem de 46 anos, trazido pela irmã, está de pé no corredor, com a camisa aberta e a mão apoiada na parede. Fala alto, diz que está sendo enganado e que quer ir embora, mas responde quando você fala com ele. Não há arma à vista e não há agressão física em curso. A irmã está a três metros, com a história inteira, e ninguém falou com ela ainda. Você tem cinco profissionais disponíveis, glicosímetro, monitor e uma sala de observação vazia. A técnica de enfermagem pergunta se já pode fazer a medicação. Qual é a próxima conduta?
O paciente que você vai ver
Vinte e três horas de uma sexta-feira, pronto-socorro de hospital geral. O primeiro aviso não é uma ficha: é um barulho. Alguém empurra uma cadeira na sala de espera, e a técnica de enfermagem aparece na porta do consultório com a frase que abre este capítulo: doutor, tem um paciente agitado lá fora, a gente já pode fazer a medicação?
O paciente é Nivaldo Peçanha, 46 anos, serralheiro. Está de pé, no meio do corredor, com a camisa aberta e a mão apoiada na parede. Fala alto, mas fala com você: diz que está sendo enganado, que ninguém explica nada, que quer ir embora. A irmã, que o trouxe, está a três metros de distância com a bolsa apertada contra o peito, e é ela quem tem a história — se alguém perguntar.
Repare no que a frase da técnica pede e no que ela deixa de fora. Ela pede uma decisão terapêutica sobre um sintoma cuja causa ninguém procurou. Nivaldo não é uma categoria de triagem; é um homem de 46 anos que, há três horas, estava consertando um portão. Alguma coisa aconteceu entre aquele portão e este corredor, e essa coisa tem nome — ainda desconhecido.
A tentação, aqui, é resolver o barulho. A injeção resolve o barulho em quinze minutos, e resolve tão bem que a pergunta sobre a causa costuma nunca mais ser feita: o paciente dorme, o corredor silencia, a ficha diz agitação psicomotora e o plantão segue. Se a causa era hipoglicemia, ele acorda pior. Se era hipóxia, ele para de respirar. Se era abstinência alcoólica, ele convulsiona na maca do corredor às quatro da manhã.
Este capítulo trata o caminho inverso. A agitação é um sinal, como febre e taquicardia são sinais, e sinal se investiga antes de suprimir. Você vai aprender a fazer três coisas ao mesmo tempo, nos primeiros dois minutos: garantir que ninguém se machuque, medir o que se mede à beira da maca, e falar. Falar é a intervenção com a maior taxa de sucesso deste capítulo, e é a única que não tem efeito colateral.
E vai aprender o que vem depois, quando falar não basta: qual droga, em que dose, por qual via, em qual cenário — e por que a mesma ampola que acalma o paciente psicótico pode matar o paciente que usou cocaína. Depois disso, e só depois, a contenção mecânica, que neste capítulo não é um recurso de enfermagem para um paciente difícil, e sim um procedimento médico com indicação escrita, hora de início, hora de reavaliação e alguém de olho.
Nivaldo, no fim das contas, vai ficar bem. O que decide se ele fica bem em vinte minutos ou entubado em duas horas é a ordem em que você faz as coisas nos próximos cinco.
Quem adoece disso
Agitação não é evento raro de plantão de psiquiatria: é rotina de pronto-socorro geral. Em serviço brasileiro de emergência de hospital geral, os atendimentos por transtorno mental giram em torno de 3% do total, e cerca de um quarto dessas visitas é motivado por comportamento agitado ou violento. A conta é direta: aproximadamente 0,75% de todos os atendimentos, ou um em cada 133 pacientes que atravessam a porta. Num pronto-socorro que faz 300 atendimentos por dia, isso é um pouco mais de dois por dia, todos os dias — mais do que a maioria dos diagnósticos que o interno estuda com afinco.
O número importa por um motivo prático: um evento que acontece duas vezes por dia não pode depender de improviso. Ele exige rotina escrita, equipe treinada e material pronto, porque a improvisação em situação de risco físico é o que produz lesão em paciente e em profissional. É por isso que a diretriz brasileira de manejo do paciente agitado começa pelo ambiente e pela organização do serviço, e não pela farmacologia.
A composição da causa também é conhecida e muda a ordem do raciocínio. Problemas relacionados a substâncias psicoativas — intoxicação e abstinência — estão entre as principais causas de atendimento psiquiátrico de emergência, e álcool e cocaína dominam a estatística brasileira. Transtorno psiquiátrico primário descompensado vem depois, e condição médica geral (hipoglicemia, hipóxia, infecção, trauma craniano, distúrbio metabólico) permeia todas as faixas etárias, com peso crescente conforme a idade sobe. Ou seja: a hipótese psiquiátrica pura é a menos provável das três no paciente que você nunca viu antes.
Um dado brasileiro fecha o quadro e explica por que a parte legal deste capítulo não é formalidade. Em estudo conduzido no Rio de Janeiro, a indicação de contenção mecânica a pacientes agitados apoiou-se fundamentalmente no julgamento clínico sobre a gravidade — mas pacientes mais jovens e com transtorno por uso de substância tiveram maior probabilidade de serem contidos. Quando o critério é julgamento sem régua, o julgamento carrega o que o serviço pensa sobre aquele tipo de paciente. A régua escrita, com indicação, tempo e reavaliação, existe para proteger quem tem menos voz na sala.
Por que acontece o que acontece
Agitação psicomotora é atividade motora excessiva associada a uma experiência subjetiva de tensão. A definição parece vaga, e é justamente essa vagueza que interessa: ela descreve um estado final comum, alcançável por caminhos muito diferentes. O córtex funciona por equilíbrio entre excitação e inibição; qualquer coisa que retire inibição, some excitação ou desorganize a atenção produz o mesmo comportamento observável. É por isso que olhar o comportamento não diz a causa, e por isso a mesma droga não serve para todos.
A neuroglicopenia é a via mais rápida e a mais reversível. O neurônio não estoca glicose; abaixo de cerca de 60 mg/dL a função cortical superior falha primeiro, e falha na ordem inversa da complexidade — julgamento e inibição antes de vigília e reflexos. Ao mesmo tempo, a queda da glicemia dispara resposta adrenérgica: taquicardia, sudorese, tremor, midríase. O resultado é um paciente confuso, suado e agressivo, indistinguível de um intoxicado por estimulante. A diferença é um dedo, uma lanceta e trinta segundos.
A hipóxia e a hipercapnia agem por outro mecanismo e produzem o mesmo quadro. O córtex é o tecido menos tolerante à queda da oferta de oxigênio, e a agitação da insuficiência respiratória é literalmente o cérebro sinalizando falência de suprimento antes de a consciência se apagar. Isto tem uma consequência clínica que vale o capítulo inteiro: sedar um paciente agitado por hipóxia remove a única defesa que ele tinha, que era o esforço respiratório aumentado.
No delirium o problema é a atenção. A combinação de neuroinflamação, atividade anticolinérgica e desequilíbrio dopaminérgico desorganiza a rede que sustenta a atenção sustentada, e o resultado é um estado flutuante, com desorientação, alteração do ciclo sono-vigília e alucinação frequentemente visual. Flutuação é a assinatura: o paciente que às 15 h conversava e às 23 h não sabe onde está tem delirium até prova em contrário, e a causa está quase sempre fora do cérebro — dor, retenção urinária, infecção, droga nova na prescrição. O manejo do idoso já internado tem capítulo próprio; aqui interessa a versão que chega pela porta da rua.
O álcool age em duas direções opostas, e é por isso que ele aparece duas vezes neste capítulo. Na intoxicação aguda, potencia o receptor GABA-A e inibe o NMDA: o paciente fica desinibido, com julgamento ruim, e pode ficar agressivo justamente porque perdeu o freio, ainda que o sistema nervoso esteja deprimido. No uso crônico, o cérebro compensa reduzindo GABA e aumentando NMDA; quando o álcool some, sobra excitação nua. Daí a abstinência, entre 12 e 72 horas da última dose, com tremor, sudorese, alucinação visual, convulsão e, por volta do terceiro dia, delirium tremens com hipertermia e falência cardiovascular. Isto explica por que o benzodiazepínico é tratamento na abstinência (repõe o tônus GABA que falta) e é perigoso na intoxicação (soma depressão à depressão).
Os estimulantes bloqueiam a recaptação de dopamina, noradrenalina e serotonina. A consequência periférica é a síndrome adrenérgica: taquicardia, hipertensão, midríase, sudorese profusa. A consequência central é agitação, psicose e — por aumento de aminoácidos excitatórios — convulsão e hipertermia. O paciente não está só agitado: está produzindo calor e não conseguindo dissipá-lo, e é a hipertermia que leva à rabdomiólise, à insuficiência renal e ao óbito. Sedar aqui não é conforto, é tratamento da hipertermia.
E é aqui que o antipsicótico cobra o preço. Os neurolépticos reduzem o limiar convulsivo, prejudicam a termorregulação central e podem desencadear distonia aguda — três coisas que o intoxicado por estimulante já não pode pagar. Na psicose e na mania, ao contrário, o excesso dopaminérgico mesolímbico é o alvo, e um antipsicótico de alta potência tranquiliza sem derrubar: menos sedação, menos hipotensão, menor efeito quinidina-like sobre o coração, ao custo de mais sintoma extrapiramidal, sobretudo distonia aguda e acatisia. A acatisia merece atenção porque é a armadilha de leitura mais elegante do capítulo: ela é inquietação motora causada pelo remédio, e parece piora da agitação — quem lê assim aumenta a dose e piora o paciente.
Luta sustentada contra a contenção aumenta consumo de oxigênio, calor, lactato e risco de lesão muscular, enquanto imobilização reduz capacidade de proteger a via aérea e mudar de posição. Compressão de tórax, abdome ou pescoço e posição prona aumentam o risco e devem ser evitadas. A prevenção exige equipe treinada, posicionamento seguro, observação próxima, tratamento da causa e reavaliação contínua para retirada. Medicação pode ser necessária se o risco persistir, com monitorização respiratória; a presença de contenção, por si só, não determina sedação.
Como se apresenta de verdade
O que chega pela porta não é um diagnóstico, é um comportamento — e o mesmo comportamento vem de causas que exigem condutas opostas. As seis apresentações abaixo cobrem a quase totalidade do que se vê num pronto-socorro geral. Elas não são mutuamente exclusivas: o etilista crônico faz hipoglicemia, o psicótico usa cocaína, o idoso com delirium tem dor. A lista serve para garantir que nenhuma das seis deixe de ser considerada nos primeiros minutos.
Percurso de aprendizagem
Reconheça delirium, intoxicação, abstinência, dor, hipoglicemia e efeitos adversos de medicamentos antes de atribuir o quadro a doença psiquiátrica primária.
Escolha via e fármaco pela cooperação, causa e urgência. Diferencie intoxicação alcoólica de abstinência e haloperidol imediato de decanoato de depósito.
Depois de medicar ou conter, procure depressão respiratória, acatisia, distonia e hipertermia. Melhor comportamento não significa resolução da doença.
O espectro: da inquietação à violência franca
Agitação é um contínuo, e o ponto em que o paciente está define a intervenção. Na ponta leve há inquietude, angústia, irritabilidade e verborreia: o paciente anda, fala rápido, não consegue ficar sentado, mas conversa. No meio há hostilidade verbal, ameaça, invasão de espaço, recusa de contato. Na ponta grave há agressão física em curso, contra pessoas ou objetos.
A leitura da cena vale tanto quanto a leitura do paciente. O protocolo nacional de urgência organiza isso num roteiro que cabe na cabeça: arredores e presença de armas ou objetos que sirvam de arma, sinais de conflito na rede social, expectativa das pessoas presentes, nível de consciência e capacidade de escolha, e sinais de uso de álcool ou drogas junto com histórico de agressividade. Cinco perguntas, quinze segundos, antes de entrar.
O mesmo protocolo separa a agitação em quatro padrões afetivos, e a separação é útil porque cada um responde a uma fala diferente: raiva (fala exaltada, tensão muscular, hostilidade), euforia (hiperatividade, verborreia, ideia de grandeza, insônia), medo (desconfiança, sensação de ameaça) e confusão mental (desorientação, discurso incoerente). O padrão de confusão mental é o que mais aponta para causa orgânica — e nele a conversa isolada não resolve, porque o problema não é o conteúdo do que se fala.
Uma nota de linguagem que não é preciosismo. O paciente agitado é uma pessoa em sofrimento agudo, quase sempre com julgamento crítico prejudicado e sem reconhecer que está doente. Chamá-lo de surtado, de escandaloso ou de caso social na frente da equipe muda o comportamento da equipe inteira e piora o desfecho: quem foi rotulado é contido mais cedo, medicado com mais dose e investigado com menos cuidado.
A agitação de causa orgânica, que é a que mata
Existem sinais que deslocam a probabilidade para fora da psiquiatria, e eles são baratos. A diretriz brasileira lista: início súbito, idade acima de 40 anos, ausência de história psiquiátrica prévia, alucinações visuais, olfativas ou táteis, discurso desconexo, confusão mental, desorientação, e história ou sinais físicos de trauma. Quanto mais deles, menos provável a hipótese psiquiátrica pura.
A lista de causas médicas gerais associadas a agitação aguda é conhecida e curta o suficiente para caber num plantão: hipoglicemia, hipóxia, traumatismo cranioencefálico, sangramento, hiper e hipotermia, meningite, sepse, acidente vascular cerebral, hemorragia subaracnóidea, estados pós-ictais e estado de mal, tumor cerebral e doença tireoidiana. A elas somam-se, na prática de porta, quatro causas que ninguém escreve em livro e que respondem por muita agitação em idoso: dor não tratada, bexiga cheia, fecaloma e privação de sono.
Duas dessas merecem atenção especial porque são invisíveis se ninguém tocar o paciente. O bexigoma produz agitação intensa em paciente que não consegue verbalizar a queixa, e se resolve com uma sonda em dois minutos; palpar o hipogástrio custa cinco segundos. A dor não tratada faz o mesmo, e o paciente que grita de dor é frequentemente medicado com antipsicótico em vez de analgésico.
A regra que protege o paciente é a mesma do capítulo de alteração do nível de consciência, e vale repeti-la aqui na versão do paciente que responde demais: causa psiquiátrica só pode ser concluída depois de excluídas as orgânicas — nunca por impressão, nunca porque o paciente tem diagnóstico psiquiátrico prévio, nunca porque ele já veio agitado outras vezes. Quem tem esquizofrenia também faz hipoglicemia, hiponatremia por psicotrópico e pneumonia.
O agitado por álcool: intoxicação, abstinência e Wernicke
São três quadros distintos com a mesma pessoa dentro. Na intoxicação aguda, o paciente está desinibido e pode estar agressivo, mas o sistema nervoso está deprimido: fala arrastada, ataxia, sonolência entre os picos de agitação, hálito etílico. O risco aqui é respiratório e de aspiração, não de convulsão, e é por isso que somar benzodiazepínico é uma decisão cara.
Na abstinência, que aparece entre 12 e 72 horas depois da última dose ou de uma redução do consumo, o quadro é o oposto: tremor, sudorese, náusea, ansiedade, hiperreflexia, taquicardia, hipertensão, alucinação visual e crise convulsiva tônico-clônica. Por volta do terceiro dia pode evoluir para delirium tremens, com agitação intensa, hipertermia e falência cardiovascular. A síndrome é autolimitada em cerca de 5 a 7 dias, quando não mata.
A pergunta que separa uma da outra é uma só, e é para o acompanhante: quando ele bebeu pela última vez? Hálito etílico com última dose há uma hora é intoxicação; tremor com última dose há dois dias é abstinência. O erro caro é tratar abstinência como intoxicação e deixar o paciente em observação sem benzodiazepínico, esperando a convulsão.
A encefalopatia de Wernicke é a terceira, e é emergência médica com letalidade em torno de 17%. Nem sempre traz a tríade completa; confusão mental com oftalmoparesia ou ataxia em etilista basta para tratar. A consequência prática é uma só: no etilista, no hepatopata e no desnutrido, a tiamina precede a carga de glicose.
O agitado por estimulante: adrenérgico e quente
Cocaína, crack, anfetamínicos e análogos produzem a síndrome adrenérgica clássica: agitação psicomotora, midríase, taquicardia, hipertensão, sudorese profusa, hipertermia, tremor, hiperreflexia. Nos quadros graves somam-se dor torácica, arritmia, convulsão e estado de mal. A pele encharcada de suor é o sinal que separa o agitado adrenérgico do agitado anticolinérgico, cuja pele é seca, quente e avermelhada — a leitura completa das toxíndromes está no capítulo de intoxicação exógena.
A duração ajuda a antecipar o plantão. Fumada ou por via intravenosa, a cocaína age em menos de um minuto e dura de 30 a 60 minutos; inalada, começa em 1 a 5 minutos e dura de 60 a 90. Meia-vida de 30 a 60 minutos. Ou seja: parte desses pacientes melhora sozinha dentro da janela em que a decisão está sendo tomada — o que é um argumento a favor de sedar com benzodiazepínico e observar, e contra iniciar um antipsicótico de meia-vida longa.
Álcool junto muda o cálculo. Cocaína e etanol formam cocaetileno, com meia-vida mais longa e maior toxicidade, e o etilista tem atividade de colinesterase plasmática reduzida, o que retarda a metabolização da cocaína. O paciente que usou os dois fica agitado por mais tempo e com mais risco cardiovascular.
O ponto que define a conduta é a temperatura. Este é o único cenário deste capítulo em que a temperatura axilar é dado de decisão imediata: hipertermia com agitação sustentada leva a rabdomiólise, insuficiência renal aguda e óbito, e a sedação profunda com benzodiazepínico, junto com medidas de resfriamento, é o tratamento — não o conforto.
O agitado por transtorno psiquiátrico primário
Aqui a agitação decorre de percepção alterada da realidade. No episódio psicótico há delírio, alucinação (mais frequentemente auditiva), discurso desorganizado e comportamento guiado por uma lógica interna coerente com o delírio: o paciente que acha que está sendo envenenado recusa medicação, e recusa com razão, dentro da história que ele está vivendo. No episódio maníaco há hiperatividade, verborreia, redução da necessidade de sono, irritabilidade e grandiosidade. Episódio depressivo com aumento de psicomotricidade também agita.
Alguns transtornos de personalidade, sobretudo os do agrupamento B, produzem agitação por baixa tolerância à frustração e controle pobre de impulsos. A distinção importa para a conduta não farmacológica: aqui o limite claro, colocado sem ameaça e sem barganha, costuma ser mais eficaz do que qualquer droga.
O que faz este cenário parecer mais simples do que é: pacientes com esquizofrenia e transtorno bipolar usam serviços de emergência com frequência maior que a população geral, e por todas as causas — inclusive as clínicas. O diagnóstico prévio na ficha aumenta a probabilidade de descompensação psiquiátrica, mas não reduz a probabilidade de hipoglicemia, de infecção ou de intoxicação por lítio. Ele nunca dispensa a glicemia capilar.
O idoso agitado, e por que ele é caso à parte
Idoso que agita agudamente tem delirium até prova em contrário, e delirium é diagnóstico de causa externa ao cérebro. Infecção urinária, pneumonia, desidratação, dor, retenção urinária, constipação, hipóxia, distúrbio eletrolítico e droga nova respondem pela maior parte. Agitação em quem tinha comportamento estável até ontem é sinal de doença aguda, não de personalidade difícil.
A idade também muda a farmacologia em três frentes ao mesmo tempo. A concentração plasmática de haloperidol é maior em idosos do que em adultos jovens na mesma dose, com depuração menor e meia-vida mais longa — a própria bula recomenda ajuste. Os benzodiazepínicos, além de deprimir, produzem desinibição paradoxal e queda com frequência maior nessa faixa. E o antipsicótico em paciente com demência carrega risco aumentado de evento cerebrovascular, o que torna a decisão de medicar mais custosa do que no adulto jovem.
A consequência prática é uma inversão de ordem: no idoso, a busca da causa reversível vem antes da droga, e a droga, quando entra, entra na menor dose. Palpar bexiga, medir saturação, medir glicemia, perguntar sobre dor e revisar a prescrição das últimas 48 horas resolve mais agitação em idoso do que qualquer ampola. O manejo do delirium no idoso já internado, com escalas e prevenção, tem capítulo próprio nesta coleção; o que este capítulo cobre é o idoso que chega agitado pela porta da emergência.
Como fechar o diagnóstico
A investigação do paciente agitado tem uma peculiaridade: ela começa antes de o paciente colaborar, e boa parte dela é feita com os olhos e com as mãos, não com pedidos. A sequência abaixo é cronológica — o que se faz nos primeiros dois minutos, o que se faz na primeira hora, e o que fica para depois de o paciente estar tranquilo.
A régua para decidir se um exame entra é sempre a mesma: ele muda alguma coisa nas próximas duas horas? Exame que só volta amanhã não organiza a conduta de hoje, e paciente agitado transportado para a sala de exame é paciente fora do monitor, longe da equipe e perto de uma janela.
Primeiro exame: a glicemia capilar, e por quê
A glicemia capilar é o primeiro exame do paciente agitado pela mesma razão que é o primeiro do paciente inconsciente: é o único que responde em menos de um minuto, ao lado da maca, sem transporte e sem colaboração, e identifica uma causa que reverte por completo. Nenhum outro exame deste capítulo tem essas quatro propriedades juntas.
Glicemia <70 mg/dL requer reconhecimento e tratamento, especialmente com manifestações neuroglicopênicas. Glicose IV é indicada se a via oral não for segura; confira concentração, dose em gramas e resposta. Tiamina é administrada precocemente no paciente em risco de deficiência, sem atrasar glicose em hipoglicemia. Não se deve transformar a sequência descrita em protocolos antigos em barreira ao tratamento urgente.
Há um detalhe operacional que decide se a regra funciona na prática: no paciente que se debate, a punção digital é difícil e às vezes perigosa para quem a faz. A solução não é pular o exame; é fazê-lo no momento em que a desescalada verbal comprou colaboração, ou junto com a punção venosa se o paciente já estiver contido. O que não se faz é sedar sem número, porque o paciente sedado com glicemia de 30 mg/dL continua hipoglicêmico e agora sem sintoma que avise.
O exame de sessenta segundos, feito de longe e de perto
Antes de qualquer coisa invasiva, existe um exame inteiro que se faz a três metros de distância. Padrão respiratório e esforço, coloração e sudorese da pele, presença de tremor, marcha e ataxia, se o discurso é articulado ou arrastado, se o olhar fixa ou vagueia, se há ferimento visível ou sangue no couro cabeludo, se as pupilas são simétricas e como estão de tamanho. Nada disso exige tocar o paciente e tudo isso muda hipótese.
Assim que houver colaboração ou contenção, os sinais vitais completos entram — e completos significa os seis. Pressão arterial, frequência cardíaca, frequência respiratória, saturação de oxigênio, temperatura axilar e glicemia capilar. A temperatura é a mais esquecida e a mais informativa: hipertermia num agitado aponta para estimulante, abstinência grave, infecção do sistema nervoso central ou síndrome neuroléptica maligna, e é dado que muda a conduta imediatamente.
A saturação merece a mesma insistência. Agitação com saturação de 88% não é comportamento, é hipóxia, e a conduta é oxigênio, não sedação. O protocolo nacional oferta oxigênio por máscara não reinalante a 10 a 15 L/min sempre que a saturação estiver abaixo de 94% no paciente agudo.
Ao toque, três manobras rendem muito: palpar o hipogástrio à procura de bexigoma, palpar a nuca à procura de rigidez, e olhar o couro cabeludo à procura de ferimento. As três levam menos de um minuto somadas e cada uma delas já mudou o destino de um paciente que ia ser rotulado como psiquiátrico.
A história que vem de terceiros
O paciente agitado quase sempre chega acompanhado, e o acompanhante é a fonte que decide o caso. Ele costuma estar assustado, encostado na parede, e ninguém fala com ele porque toda a atenção está no barulho. Designar uma pessoa da equipe para colher a história com a família enquanto outra conduz a desescalada dobra a informação disponível sem custar tempo.
As perguntas que mais mudam conduta são cinco. Quando começou, e começou de repente ou ao longo de dias? Ele já teve episódio assim antes, e como terminou? O que ele usa — remédio prescrito, álcool, outras drogas — e quando foi a última vez? Teve febre, queda, batida na cabeça, ou ficou sem comer? Mudou alguma medicação nos últimos dias?
Duas respostas específicas são valiosas demais para ficarem implícitas. A primeira: quando bebeu pela última vez, que separa intoxicação de abstinência. A segunda: se é diabético em uso de insulina ou de sulfonilureia, que faz a hipoglicemia saltar de possibilidade a hipótese principal antes mesmo do resultado. Quando não há acompanhante, o próprio corpo do paciente fala — bolso, mochila, receita amassada, marcas de punção, queimadura em polpa digital, pulseira de identificação de outro serviço.
Laboratório: o que pedir, quando pedir e o que não pedir
Não existe painel obrigatório para todo agitado. O que existe é uma decisão por probabilidade: quanto mais sinais de causa orgânica, mais ampla a coleta. No adulto jovem com quadro psiquiátrico conhecido, sinais vitais normais, temperatura normal, glicemia normal e exame neurológico sem alteração, a coleta de rotina raramente muda conduta e serve principalmente para atrasar a transferência.
No outro extremo — idoso, primeiro episódio, febre, alteração de sinais vitais, sinal neurológico, história de trauma, uso de substância — a coleta é ampla e vale a pena: hemograma, eletrólitos com sódio, potássio, cálcio e magnésio, ureia e creatinina, função hepática, gasometria quando há alteração respiratória ou suspeita de distúrbio ácido-básico, e exame de urina no idoso. Na suspeita de agitação prolongada com hipertermia, acrescente creatinoquinase e pesquisa de mioglobinúria, porque rabdomiólise é a complicação silenciosa do paciente que se debateu por uma hora.
Sobre o eletrocardiograma, a régua é objetiva: ele entra antes de dose repetida de antipsicótico em paciente com achado cardiovascular, com uso de outras drogas que prolongam o intervalo QT, ou quando há distúrbio eletrolítico. Ele não precisa preceder a primeira dose intramuscular no paciente que está se debatendo — e tentar fazer eletrocardiograma em paciente agitado costuma render dez eletrodos no chão e nenhum traçado.
O que não vale a pena: dosagem sérica de antipsicótico, que não se correlaciona com o quadro clínico da intoxicação; e triagem toxicológica indiscriminada como se fosse diagnóstico. O exame qualitativo de urina para drogas de abuso responde exposição, não intoxicação atual — a benzoilecgonina permanece detectável na urina por até 60 horas após o uso, e em usuário crônico por muito mais. Ele confirma o que a história já disse e quase nunca muda o que se faz agora.
Imagem de crânio: quando ela muda a conduta
A tomografia de crânio sem contraste responde a poucas perguntas neste capítulo, e é importante saber quais, porque transportar um paciente agitado para a sala de tomografia é uma decisão com risco próprio: fora do monitor, longe da equipe, num corredor, com um aparelho caro por perto.
Ela entra quando há sinal neurológico focal, história ou sinal físico de trauma craniano, uso de anticoagulante, primeira crise convulsiva no episódio, cefaleia de início súbito antes do quadro, ou rebaixamento progressivo do nível de consciência — e nesse último caso a discussão deixa de ser deste capítulo e passa a ser a do paciente que não responde.
Ela não entra como rotina no agitado com sinais vitais normais e exame neurológico normal, e não entra antes da glicemia capilar em nenhuma circunstância. A tomografia é cega para todas as causas metabólicas e tóxicas, que respondem pela maior parte das agitações de causa orgânica.
Ordem prática quando a imagem é necessária mas o paciente não colabora: primeiro estabilize e tranquilize, depois transporte, com monitor e com pelo menos duas pessoas, e nunca com contenção mecânica sem acompanhamento presencial contínuo. Paciente contido dentro do aparelho, sozinho, com a equipe atrás do vidro, é a situação em que a maior parte das complicações da contenção acontece.
O que existe no serviço público, e o que isso muda
Conduta que depende de droga indisponível não é conduta. A lista nacional de medicamentos essenciais de 2024 traz, para este capítulo: haloperidol em duas soluções injetáveis (5 mg/mL e 50 mg/mL) além dos comprimidos de 1 mg e 5 mg e da solução oral de 2 mg/mL; cloridrato de prometazina 25 mg/mL injetável; cloridrato de clorpromazina 5 mg/mL injetável; diazepam 5 mg/mL injetável; lactato de biperideno 5 mg/mL injetável; e glicose 500 mg/mL injetável.
Duas ausências mudam o plano. Olanzapina e ziprasidona, que a diretriz brasileira lista como opções parenterais de bom perfil, constam da relação nacional apenas por via oral, no componente especializado, vinculadas a protocolos de esquizofrenia e transtorno bipolar. E midazolam consta apenas como solução oral de 2 mg/mL: a apresentação injetável, que a mesma diretriz recomenda por via intramuscular, chega ao pronto-socorro pela farmácia hospitalar, como medicamento controlado, e não por essa lista.
A tiamina traz a mesma tensão entre dois documentos do próprio Ministério da Saúde: o protocolo do serviço de urgência prescreve tiamina por via intramuscular antes da glicose no etilista, e a relação nacional de 2024 traz cloridrato de tiamina apenas em comprimido de 300 mg. Na prática, a apresentação injetável existe nos serviços por compra própria — e vale conferir o que há no carro de emergência do seu plantão antes de precisar dela às três da manhã.
A consequência operacional é direta. Na maior parte dos prontos-socorros brasileiros, o par disponível para tranquilização intramuscular é haloperidol mais prometazina, e o benzodiazepínico injetável de armário é o diazepam — que a diretriz recomenda por via oral ou endovenosa e desaconselha por via intramuscular, porque a absorção por essa via é errática. Isso significa que, no paciente sem acesso venoso e sem intoxicação por estimulante, a escolha realista se estreita a duas ampolas — e por isso saber exatamente qual haloperidol está na gaveta deixa de ser detalhe.
Do barulho à decisão: o caminho e as quatro réguas
Aprenda a reduzir a agitação preservando comunicação, ventilação e capacidade de investigar a causa. Segurança, tratamento clínico e abordagem verbal podem ocorrer simultaneamente.
- 1Leia a cena antes de entrar: arredores, objetos que sirvam de arma, quem está junto, nível de consciência e sinais de uso de álcool ou drogas.
- 2Chame gente. Paciente potencialmente violento não se atende sozinho, e a presença da equipe reduz a chance de agressão sem que ninguém encoste no paciente.
- 3Leve o paciente para o ambiente com menos estímulo disponível, com saída acessível para os dois lados, e afaste quem o desestabiliza.
- 4Uma pessoa fala. Apresente-se pelo nome e pela função, fale pausado e firme, mantenha distância de um braço e meio, não dê as costas, não faça anotações.
- 5Ofereça alguma coisa concreta: água, cadeira, banheiro, telefonar para alguém, tirar o casaco. Ofereça escolhas, não ultimatos.
- 6Em paralelo, meça o que se mede: glicemia capilar, saturação, temperatura, pressão, frequência cardíaca e respiratória.
- 7Se houver hipoglicemia, hipóxia, hipertermia ou bexigoma, trate a causa agora — isso costuma encerrar o episódio.
- 8Se a agitação persistir e o paciente aceitar, ofereça medicação por via oral, que é a via preferencial.
- 9Se recusar a via oral e houver risco iminente, use a via intramuscular na dose eficaz mais baixa, escolhida pelo cenário clínico.
- 10Se ainda assim houver risco imediato de dano a si ou a terceiros, e só então, indique contenção mecânica: escreva a indicação, defina o tempo e chame cinco pessoas.
- 11Contido, o paciente fica monitorado com registro periódico: consciência, sinais vitais, perfusão e integridade dos pontos de fixação.
- 12Reavalie a cada 30 minutos: a contenção ainda é necessária? A dose funcionou? Retire assim que possível, com a equipe presente.
- 13Com o paciente tranquilo, feche o diagnóstico da causa e defina destino: alta com plano, observação, internação clínica ou psiquiátrica.
- 14Registre tudo — o que foi tentado antes, por que se indicou, quem estava presente, o que se monitorou — e converse com a família.
| Cenário | Primeira escolha | Volume na apresentação | O que evitar, e por quê |
|---|---|---|---|
| Cooperativo, agitação inicial, aceita via oral | Haloperidol 2,5 a 5 mg por via oral, ou diazepam 10 mg por via oral, ou os dois juntos | Comprimido de 1 mg ou 5 mg; solução oral de 2 mg/mL | Partir direto para o injetável: a via parenteral é a última opção, não a primeira |
| Não cooperativo, sem causa clínica identificada (condição médica geral) | Haloperidol 2,5 a 5 mg por via intramuscular | 0,5 a 1 mL da solução de 5 mg/mL | Benzodiazepínico associado quando há depressão do sistema nervoso central, insuficiência respiratória ou suspeita de trauma craniano |
| Intoxicação por estimulante (cocaína, crack, anfetamínico) | Benzodiazepínico isolado: diazepam 5 a 10 mg por via endovenosa, repetido a cada 5 a 10 minutos; midazolam 5 a 15 mg por via intramuscular se não houver acesso | 2 mL da solução de diazepam 5 mg/mL; 1 a 3 mL da solução de midazolam 5 mg/mL | Neuroléptico e prometazina: reduzem o limiar convulsivo, pioram a hipertermia e induzem distonia |
| Intoxicação aguda por álcool ou outro depressor | Haloperidol 2,5 a 5 mg por via intramuscular | 0,5 a 1 mL da solução de 5 mg/mL | Benzodiazepínico e prometazina, porque somam depressão a um sistema nervoso já deprimido |
| Abstinência alcoólica com agitação | Benzodiazepínico de longa duração, diazepam por via endovenosa, com tiamina precoce, sem atrasar glicose se houver hipoglicemia | 10 mg equivalem a 2 mL da solução de 5 mg/mL | Antipsicótico isolado: não repõe o tônus inibitório que falta e não previne a convulsão |
| Transtorno psiquiátrico primário (psicose, mania) | Haloperidol 2,5 a 5 mg por via intramuscular, isolado ou associado a midazolam 5 a 7,5 mg | 0,5 a 1 mL de haloperidol 5 mg/mL; 1 a 1,5 mL de midazolam 5 mg/mL | Evitar empilhamento de doses; reavaliar causa, tempo de ação, dose acumulada e monitorização antes de repetir ou associar. |
| Gestante agitada | Haloperidol 2,5 a 5 mg por via intramuscular | 0,5 a 1 mL da solução de 5 mg/mL | Escolher por hábito de serviço sem considerar a gestação |
| Idoso com agitação aguda | Tratar a causa reversível primeiro; se medicar, a menor dose de haloperidol | 0,5 mL ou menos da solução de 5 mg/mL | Benzodiazepínico de rotina (queda, desinibição paradoxal) e antipsicótico em demência sem necessidade clara |
As duas soluções injetáveis de haloperidol da lista nacional
| Haloperidol 5 mg/mL | Haloperidol 50 mg/mL (decanoato) | |
|---|---|---|
| Como aparece na Rename 2024 | haloperidol, 5 mg/mL solução injetável | haloperidol, 50 mg/mL solução injetável |
| O que há de fato na ampola | 5 mg de haloperidol em 1 mL | 70,52 mg de decanoato de haloperidol, equivalentes a 50 mg de haloperidol, em óleo de gergelim |
| Para que serve | Estado agudo de agitação psicomotora, ou quando a via oral é impraticável | Manutenção de paciente psicótico crônico já estabilizado |
| Via | Intramuscular (a bula recomenda apenas essa via) | Intramuscular profunda na região glútea; a via intravenosa é proibida |
| Intervalo | Repetível a cada hora se necessário; 4 a 8 horas costumam bastar | Uma vez ao mês |
| Meia-vida de eliminação do haloperidol | Cerca de 24 horas | Cerca de 3 semanas |
| O que acontece se a ampola errada for usada no quadro agudo | - | Dez vezes a dose pretendida, por uma via de depósito, com efeito que não se retira |
Causas que matam, e a pista que as denuncia em menos de dois minutos
| Causa | Pista à beira da maca | O que fazer agora |
|---|---|---|
| Hipoglicemia | Glicemia capilar abaixo de 60 mg/dL; sudorese, tremor, taquicardia | Glicose 50%, 30 a 50 mL por via intravenosa (15 a 25 g); tiamina antes no etilista |
| Hipóxia | Saturação abaixo de 94%; taquipneia, esforço, cianose | Oxigênio por máscara não reinalante, 10 a 15 L/min; procurar a causa da hipoxemia |
| Intoxicação por estimulante | Pele encharcada de suor, midríase, hipertermia, taquicardia | Benzodiazepínico e resfriamento; sem neuroléptico |
| Abstinência alcoólica | Tremor, sudorese, alucinação visual, última dose há mais de 12 horas | Benzodiazepínico de longa duração e tiamina |
| Traumatismo cranioencefálico | Ferimento no couro cabeludo, história de queda, anisocoria, sinal focal | Tomografia de crânio; evitar benzodiazepínico |
| Infecção do sistema nervoso central | Febre, rigidez de nuca, petéquias | Antibiótico precoce; punção lombar conforme o caso |
| Bexigoma e dor não tratada | Hipogástrio distendido e doloroso; fácies de dor; idoso sem queixa verbal | Sondagem vesical de alívio; analgesia adequada |
| Síndrome neuroléptica maligna | Hipertermia, rigidez, sudorese profusa, uso recente de antipsicótico | Suspender o antipsicótico, resfriar, suporte; não insistir na dose |
Contenção mecânica: o que cada norma brasileira exige
| Exigência | Origem | O que significa na prática |
|---|---|---|
| Ser o meio mais adequado para prevenir dano imediato ou iminente | Resolução CFM 2.057/2013, art. 16, § 3º | Se havia alternativa não tentada, a indicação não se sustenta |
| Ser o único meio disponível | Resolução COFEN 746/2024, art. 1º | A norma da enfermagem é ainda mais restritiva que a médica |
| Prescrição médica | Resolução CFM 2.057/2013, art. 16, § 3º | Contenção é ato prescrito, com nome de quem prescreveu e hora |
| Registro em prontuário | CFM art. 16, § 2º; COFEN art. 3º | Razão, duração, avaliações, eventos adversos e monitoramento clínico |
| Supervisão imediata e regular por membro da equipe | CFM art. 16, § 4º; COFEN arts. 1º e 2º | Aplicação sob supervisão direta do enfermeiro e monitoramento contínuo |
| Não prolongar além do necessário | CFM art. 16, § 4º | Tempo determinado na indicação e retirada assim que possível |
| Informar o representante legal ou a família | CFM art. 16, § 5º | Comunicar tão logo possível, não ao final do plantão |
| Cinco pessoas e plano definido | Protocolo AP42 do serviço de urgência; diretriz brasileira | Um coordenador, uma frase de comando, funções distribuídas antes de começar |
| Reavaliação médica periódica | Diretriz brasileira de manejo do paciente agitado | A cada 30 minutos, para decidir se a contenção continua necessária |
| Registro do monitoramento a intervalos curtos | Protocolo AP42 do serviço de urgência | A cada 15 minutos: consciência, sinais vitais, pele e perfusão dos membros contidos |
Volume não é dose. A conversão de miligrama em mililitro depende da concentração que está na sua gaveta, e este capítulo escreve as duas coisas de propósito em toda prescrição.
A ordem das colunas da tabela de cenários é a ordem da decisão: primeiro o cenário clínico, depois a droga. Quem escolhe a droga primeiro acaba encaixando o paciente no cenário que a droga serve.
Repetir é melhor que trocar. Se a primeira dose não bastou, a diretriz brasileira manda repetir a mesma droga na mesma dose, porque a polifarmácia aumenta o risco de evento adverso sem ganho de eficácia.
Nas 24 horas seguintes ao uso de medicação injetável para agitação, a ocorrência de efeitos colaterais e as medidas adotadas devem ser observadas e registradas em prontuário.
As duas normas de contenção convivem e não se contradizem: a do conselho de medicina governa a indicação e a prescrição; a do conselho de enfermagem governa a aplicação e o monitoramento. Serviço que cumpre uma e ignora a outra está descoberto pela metade.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo abaixo cabe em noventa minutos, e a maior parte dos pacientes sai dela no terceiro marco. Os marcos de medicação e contenção existem para a minoria — e é essa minoria que gera a maioria dos eventos adversos, porque é nela que a pressa entra.
Toda prescrição está escrita em miligrama, em mililitro e com a concentração da apresentação, e toda dose tem fonte. Isso não é preciosismo de redação: é a trava contra o erro que abre o bloco de erros deste capítulo.


Minuto 0 — antes de entrar
Leia a cena e organize a equipe. Verifique arredores e presença de objetos que sirvam de arma, quem acompanha o paciente e em que estado, e sinais de uso de álcool ou drogas. Paciente potencialmente violento não é atendido por uma pessoa só: chame quem estiver disponível, inclusive a segurança, e mantenha as pessoas visíveis, sem cercar. Se houver arma de fogo, a mediação passa à autoridade policial, e ninguém da saúde negocia o desarme. Escolha o ambiente com menos estímulo, com saída acessível tanto para você quanto para o paciente, e afaste quem está desestabilizando a situação, ainda que seja um familiar. Nada disso custa tempo: custa menos que um profissional agredido.
Prescrição- Nenhuma medicação neste marco.
- Definir, em voz alta, quem fala com o paciente e quem colhe a história com o acompanhante.
Minuto 0 a 2 — o que se mede à beira da maca
Avalie segurança, via aérea, ventilação, perfusão, temperatura e glicemia o mais cedo possível, em paralelo à abordagem verbal. Hipoglicemia, hipóxia e hipertermia exigem tratamento imediato da causa; podem coexistir com risco que demande tranquilização para permitir o atendimento. Não espere concluir exames se houver perigo iminente, mas obtenha a glicemia assim que viável. A normalização da glicose não garante recuperação neurológica completa. Palpe o hipogástrio, procure trauma, dor e sinais neurológicos conforme acesso seguro ao paciente.
Prescrição- Glicemia capilar, saturação de oxigênio, temperatura axilar, pressão arterial, frequência cardíaca e frequência respiratória.
- Glicemia <70 mg/dL deve ser reconhecida e corrigida; se alteração de consciência ou deglutição insegura, utilizar glicose IV conforme protocolo e reavaliar em cerca de 15 minutos. Glicose a 50% contém 0,5 g/mL: 30–50 mL entregam 15–25 g. Conferir acesso e considerar solução menos concentrada disponível para reduzir lesão por extravasamento.
- Administrar tiamina precocemente no paciente em risco de deficiência, antes ou junto da glicose quando possível, sem atrasar a correção da hipoglicemia. Suspeita de Wernicke requer esquema parenteral terapêutico; dose de profilaxia não o substitui.
- Oferecer oxigênio quando indicado e titular ao alvo clínico. Avaliar ventilação além da saturação; em risco de insuficiência hipercápnica, alvo usual 88–92% enquanto se avalia gasometria. Hipoventilação pode exigir suporte ventilatório mesmo com oximetria preservada pelo oxigênio.
Minuto 2 a 10 — a desescalada verbal, que é tratamento
Esta é a intervenção de maior rendimento do capítulo e a única sem efeito adverso. Uma pessoa fala; as outras ficam visíveis e caladas. Apresente-se pelo nome e pela função. Fale pausado, mas firme, com frases curtas, e repita as propostas. Mantenha distância de cerca de um braço e meio, não cruze os braços, não levante a voz, não dê as costas, não faça anotações e mantenha contato visual. Pergunte o que está acontecendo e escute a resposta inteira, inclusive a linguagem corporal. Reconheça o afeto que está na frente: se é raiva, diga que reconhece a raiva e proponha outra saída; se é medo, ofereça proteção; se é euforia, indique limites com clareza num ambiente com poucos estímulos; se é confusão mental, pare de argumentar e vá procurar a causa orgânica. Ofereça escolhas concretas — água, cadeira, banheiro, ligar para alguém — porque escolha devolve controle. Coloque limites de forma objetiva e acolhedora, sem ameaça, sem humilhação e sem barganha, e assegure ao paciente que você pretende ajudá-lo a recuperar o controle. A maior parte dos episódios termina aqui.
Prescrição- Nenhuma medicação neste marco.
- Identificar, com o paciente, alguém de confiança dele que possa estar presente.
Minuto 10 — a via oral, que é a via preferencial
Sempre que possível, ofereça a medicação por via oral antes de tentar a intramuscular; a administração parenteral é considerada última alternativa. O objetivo declarado não é sedar: é tranquilização rápida, isto é, redução significativa da agitação sem sedação profunda ou prolongada, com o paciente tranquilo e ainda responsivo. Sedação excessiva atrapalha a avaliação, apaga a evolução do quadro e impede a aliança com o paciente. Oferecer a medicação, explicando o que ela é e para que serve, é parte da desescalada — e o aceite muda o tom do restante do atendimento.
Prescrição- Haloperidol 2,5 a 5 mg por via oral (comprimido de 1 mg ou 5 mg; solução oral de 2 mg/mL) — diretriz brasileira de manejo do paciente agitado, 2010.
- Ou diazepam 10 mg por via oral — mesma diretriz.
- Ou os dois associados, quando a agitação é inicial e o paciente coopera — mesma diretriz.
- A escolha depende da causa: benzodiazepínico pode piorar delirium por várias condições clínicas, mas é tratamento importante da abstinência alcoólica e da agitação por estimulantes. Evitar generalizar uma proibição a toda condição médica.
Minuto 15 — a via intramuscular, escolhida pelo cenário
Se a via oral não é viável ou rápida o suficiente diante de risco importante, escolha medicação parenteral conforme causa provável, gravidade e protocolo. Use a menor dose eficaz, confirme concentração, formulação e via e tenha suporte respiratório disponível. Antes de repetir, considere tempo de início/pico, dose acumulada, resposta e efeitos adversos. Repetir ou associar medicamentos exige reavaliação; não há regra universal de repetir sempre a mesma dose nem de proibir toda associação. Reduza doses no idoso ou frágil e evite combinações que agravem depressão respiratória.
Prescrição- Condição médica geral, não cooperativo: haloperidol 2,5 a 5 mg por via intramuscular, ou seja 0,5 a 1 mL da solução de 5 mg/mL — diretriz brasileira de 2010 e bula do haloperidol injetável.
- Transtorno psiquiátrico primário: haloperidol 2,5 a 5 mg por via intramuscular, isolado ou associado a midazolam 5 a 7,5 mg por via intramuscular (1 a 1,5 mL da solução de 5 mg/mL) — diretriz brasileira de 2010.
- Intoxicação por estimulante: diazepam 5 a 10 mg por via endovenosa (1 a 2 mL da solução de 5 mg/mL), repetido a cada 5 a 10 minutos até o controle ou até 1 mg/kg; sem acesso venoso, midazolam 5 a 15 mg por via intramuscular — manual de toxicologia clínica, 2017, e diretriz brasileira de 2010.
- Intoxicação aguda por álcool: haloperidol 2,5 a 5 mg por via intramuscular, sem benzodiazepínico — diretriz brasileira de 2010.
- Abstinência alcoólica com agitação: diazepam 10 mg por via endovenosa (2 mL da solução de 5 mg/mL), repetido conforme resposta, com tiamina precoce, sem atrasar glicose se houver hipoglicemia — protocolo nacional de urgência e manual de toxicologia clínica.
- Distonia aguda após antipsicótico: biperideno 3 a 5 mg (0,6 a 1 mL da solução de 5 mg/mL) — manual de toxicologia clínica, 2017.
- O haloperidol injetável é recomendado apenas por via intramuscular; a via intravenosa exige monitoramento eletrocardiográfico contínuo pelo risco de prolongamento do intervalo QTc — bula do produto.
Se ainda houver risco imediato — a contenção mecânica
Contenção física pode ser necessária por risco iminente de dano, pelo menor tempo possível, enquanto se trata a causa e se usam medidas menos restritivas. Perigo imediato pode exigir intervenções simultâneas, sem percorrer uma sequência demorada de tentativas. Organize equipe treinada, coordenação clara e equipamento adequado ao protocolo. Evite posição prona, compressão de tórax, abdome ou pescoço, hiperextensão e qualquer apoio do peso de profissionais sobre o paciente. Preserve ventilação, circulação e acesso à avaliação; nunca deixe o paciente contido sem vigilância. Reavalie continuamente a necessidade e retire assim que seguro. Medicação é decidida pela causa e pelo risco persistente, não automaticamente pela presença da contenção. Documente indicação, resposta e horários de modo sucinto e útil à continuidade do cuidado.
Prescrição- Escreva a indicação: qual risco concreto, o que foi tentado antes e por que falhou, a hora de início e a hora prevista de reavaliação.
- Registre quem indicou, quem coordenou e quem participou.
- Informe o representante legal ou a família tão logo possível (Resolução CFM 2.057/2013, art. 16, § 5º).
- Se persistir agitação contra a contenção, reavaliar imediatamente via aérea, ventilação, dor, temperatura e causa; ajustar a estratégia e considerar medicação conforme indicação. Evitar luta sustentada, manter vigilância e retirar a contenção assim que seguro, sem tornar sedação obrigatória em toda contenção.
Primeira hora — o que se monitora depois
Após medicação parenteral ou contenção, mantenha observação próxima e monitorização contínua quando indicada, sem esperar o horário formal de registro para reconhecer deterioração. Avalie patência da via aérea, frequência e profundidade respiratórias, saturação, consciência, pressão, pulso e temperatura; capnografia acrescenta informação sobre ventilação quando disponível. Examine pele e perfusão dos membros. Distonia, acatisia, hipotensão, depressão respiratória e rigidez com hipertermia exigem resposta imediata. Os intervalos de 15/30 minutos citados no protocolo são registros/reavaliações programadas, não autorização para deixar o paciente sozinho entre eles.
Prescrição- Monitorização de saturação de oxigênio contínua no paciente sedado por via parenteral.
- Temperatura axilar seriada no agitado por estimulante ou em abstinência.
- Registro do estado de consciência, sinais vitais, pele e perfusão a cada 15 minutos enquanto contido (protocolo nacional de urgência, AP42).
- Reavaliação médica a cada 30 minutos, com decisão explícita sobre manter ou retirar a contenção (diretriz brasileira de 2010).
- Observação e registro de efeitos colaterais nas 24 horas seguintes ao injetável (diretriz brasileira de 2010).
Hora 2 a 24 — fechar a causa, definir destino e registrar
Com o paciente tranquilo, retome o que ficou pendente: o exame físico completo que não foi possível, a história com a família, os exames que a hipótese exige. A pergunta do destino não é psiquiatria ou casa: é qual problema ainda está aberto. Hipoglicemia por sulfonilureia exige observação prolongada; abstinência alcoólica exige leito e esquema; intoxicação por estimulante com hipertermia ou rabdomiólise exige internação clínica; psicose com risco mantido exige avaliação psiquiátrica e vaga. O registro fecha o atendimento e é a parte que protege o paciente antes de proteger o médico: escreva o que se viu, o que se tentou, por que se decidiu, quem estava presente e o que se monitorou. Se houver suspeita de violência envolvida no episódio, a notificação segue o fluxo do serviço.
Prescrição- Reavaliar glicemia capilar antes da alta em todo paciente que recebeu glicose hipertônica.
- Manter tiamina no etilista, conforme o esquema do serviço.
- Prescrever explicitamente a suspensão da contenção, com hora, quando ela for retirada.
- Registrar em prontuário a justificativa clínica da escolha da droga e da indicação da contenção (Resolução CFM 2.057/2013, art. 16, § 2º; Resolução COFEN 746/2024, art. 3º).
Como saber se está funcionando
O alvo deste capítulo não é o paciente dormindo: é o paciente tranquilo e responsivo. Sedação profunda é efeito adverso, não sucesso — ela impede a avaliação médica, esconde a evolução do quadro e destrói a chance de aliança com quem vai continuar sendo tratado depois.
Por isso os parâmetros abaixo têm duas colunas de leitura. Uma diz se a agitação cedeu; a outra diz se o remédio passou do ponto. Um paciente que responde ao chamado, mantém a via aérea e não se debate está no alvo. Um paciente que ronca, dessatura ou não abre os olhos passou do alvo, e isso é uma complicação que precisa de conduta.
Há um segundo alvo, mais silencioso, que é a causa. Agitação que cede com a droga e volta em duas horas quase sempre significa que a causa não foi tratada — e a resposta certa não é aumentar a dose, é refazer a busca.
Esperado: Redução clara da atividade motora e da hostilidade, com o paciente ainda responsivo ao chamado e capaz de conversar. Esse é o alvo declarado da tranquilização rápida.
Se não melhora: Repita a mesma droga na mesma dose, sem trocar nem somar classes. Se a segunda dose também não bastar, pare e refaça a pergunta da causa: hipoglicemia recorrente, hipóxia, dor, bexiga cheia e abstinência não respondem a antipsicótico.
Esperado: Saturação mantida acima de 94% em ar ambiente, sem ronco, sem esforço e sem períodos de apneia.
Se não melhora: Reposicione a via aérea, ofereça oxigênio e reavalie a dose acumulada de depressor do sistema nervoso central. Depressão respiratória consta entre as complicações da contenção e é o desfecho adverso mais rápido deste capítulo.
Esperado: Queda progressiva da temperatura à medida que a agitação cede.
Se não melhora: Aprofunde a sedação com benzodiazepínico e some medidas de resfriamento. Hipertermia mantida com rigidez após antipsicótico levanta síndrome neuroléptica maligna: suspenda o antipsicótico em vez de repeti-lo.
Esperado: Normalização com melhora clínica proporcional. Melhora do comportamento junto com a glicemia fecha o diagnóstico.
Se não melhora: Glicemia que volta a cair aponta para sulfonilureia, insulina de ação longa, hepatopatia ou sepse, e obriga a manter infusão e observação prolongada em vez de alta.
Esperado: Ausência de contratura cervical, desvio conjugado do olhar, trismo e inquietação nova.
Se não melhora: Distonia aguda tem antídoto: biperideno 3 a 5 mg, o que corresponde a 0,6 a 1 mL da solução de 5 mg/mL. Acatisia parece piora da agitação — se a inquietação apareceu depois da dose, o erro é repetir a dose.
Esperado: Extremidades quentes, coradas, com pulso presente e sem marca de garroteamento; faixa firme sem estar apertada, movimento residual preservado.
Se não melhora: Palidez, frieza, marca circular ou queixa de formigamento pedem afrouxamento e reposicionamento imediatos. Redução de perfusão em extremidades e fratura constam da lista de complicações do protocolo nacional.
Esperado: Retirada assim que o risco imediato cessar. A contenção não deve se prolongar além do período necessário ao seu propósito.
Se não melhora: Se depois de duas reavaliações a contenção continuar indicada, revise a sedação e a causa, e chame ajuda. Contenção que se prolonga por falta de decisão é contenção por conveniência da equipe, e isso é vedado.
Esperado: Paciente que permanece tranquilo e orientado enquanto a causa é tratada.
Se não melhora: Recorrência é sinal de causa não tratada ou de efeito de droga que passou. Refaça glicemia, saturação, temperatura, bexiga e dor antes de qualquer dose nova, e considere que a janela de ação da substância usada pelo paciente pode ter terminado.
Onde o erro machuca
O dano: A lista nacional de medicamentos essenciais de 2024 padroniza duas soluções injetáveis de haloperidol lado a lado no mesmo componente, 5 mg/mL e 50 mg/mL, ambas escritas apenas como haloperidol. A de 50 mg/mL é o decanoato: 70,52 mg de decanoato por mililitro, equivalentes a 50 mg de haloperidol, em óleo de gergelim, indicada para manutenção de paciente psicótico crônico já estabilizado, aplicada uma vez por mês em intramuscular profunda e proibida por via intravenosa. Uma ampola de 1 mL de cada uma entrega, respectivamente, 5 mg e 50 mg — dez vezes a dose. E não é só a dose: a meia-vida de eliminação do haloperidol após o decanoato é de cerca de 3 semanas, contra cerca de 24 horas da formulação comum. Um erro que se corrige em um dia vira um erro que dura vinte e um. O paciente sai do pronto-socorro com uma dose mensal de depósito que ninguém indicou, e passa semanas com sedação, parkinsonismo e risco de distonia.
Como pegar a tempo: Escreva sempre nome, concentração, dose em miligrama, volume em mililitro e via: haloperidol 5 mg/mL, 5 mg (1 mL), por via intramuscular. Leia o rótulo da ampola na mão antes de aspirar, e desconfie de qualquer ampola de haloperidol que diga decanoato ou 50 mg/mL. Nos serviços, vale separar fisicamente as duas apresentações e sinalizar a de depósito.
O dano: A hipoglicemia produz agitação com sudorese, tremor e taquicardia, indistinguível à distância de intoxicação por estimulante ou de quadro psiquiátrico. Sedado, o paciente perde os sintomas adrenérgicos que sinalizavam a queda, e a hipoglicemia segue silenciosa dentro de um paciente que agora só está dormindo. O tempo de neuroglicopenia prolongada é o que define a sequela neurológica.
Como pegar a tempo: Trate a glicemia capilar como sinal vital, não como exame. Ela é o primeiro número do atendimento e precede a injeção, a tomografia e a contenção. Se o paciente não permite a punção digital, obtenha-a assim que a desescalada comprar colaboração ou junto com a punção venosa — mas obtenha.
O dano: Cocaína, crack e anfetamínicos produzem agitação com hipertermia e risco convulsivo. Os neurolépticos reduzem o limiar convulsivo, prejudicam a termorregulação, podem induzir distonia e agravam a taquicardia — o manual brasileiro de toxicologia clínica desaconselha expressamente haloperidol e clorpromazina nesse cenário, e desaconselha também a prometazina pela ação anticolinérgica. O paciente que precisava de sedação e resfriamento recebe uma droga que empurra a temperatura e o limiar convulsivo na direção errada, e a via para rabdomiólise e insuficiência renal fica aberta.
Como pegar a tempo: Procure a pele. O agitado encharcado de suor com midríase e hipertermia é adrenérgico até prova em contrário, e o tratamento é benzodiazepínico titulado mais resfriamento. Meça a temperatura axilar em todo agitado — é o número que separa esse cenário dos demais.
O dano: A bula da prometazina injetável contraindica o uso em paciente em coma ou com depressão do sistema nervoso central por qualquer causa — e o agitado por intoxicação alcoólica está exatamente nessa condição, ainda que esteja gritando entre os picos de sonolência. A diretriz brasileira faz a mesma ressalva para os benzodiazepínicos, que devem ser evitados em intoxicados por álcool, barbitúricos ou opioides, em quem tem função respiratória prejudicada e na suspeita de trauma craniano. O desfecho é depressão respiratória e aspiração num paciente deitado, sem proteção de via aérea, num corredor.
Como pegar a tempo: Pergunte quando o paciente bebeu ou usou pela última vez antes de escolher a droga. Na intoxicação aguda por depressor, a escolha é antipsicótico de alta potência em dose baixa. Se a prometazina entrar, lembre que a via é intramuscular profunda e que as vias subcutânea e intra-arterial estão proibidas pelo risco de necrose e gangrena periférica.
O dano: O paciente contido que continua se debatendo mantém contração muscular sustentada contra a faixa, gerando calor, lactato e mioglobina, sem poder beber, sem poder mudar de posição e sem poder proteger a própria via aérea. Se a faixa torácica estiver sobre o diafragma, some restrição ventilatória; se a maca estiver plana e houver vômito, some aspiração. A lista de complicações do protocolo nacional é explícita: desidratação, redução de perfusão em extremidades, fraturas, depressão respiratória e morte súbita. Uma revisão brasileira registra que, num único estado americano, 111 óbitos relacionados à contenção mecânica foram reportados em dez anos, e que boa parte desses eventos é evitável com observação contínua.
Como pegar a tempo: Use equipe e material adequados, preserve ventilação e perfusão e mantenha vigilância contínua. Evite compressão torácica, abdominal ou cervical e posição prona. A necessidade deve ser reavaliada e a contenção retirada assim que seguro; sedação depende da indicação clínica e do risco persistente.
O dano: Agitação de início agudo no idoso exige pesquisar delirium e causas reversíveis, inclusive dor, retenção urinária, hipóxia, medicamentos, alterações metabólicas, infecção e doença neurológica. Não atribua confusão automaticamente a demência nem a uma urina alterada. Bacteriúria sem sintomas urinários ou sinais sistêmicos não explica por si só o delirium. Antipsicóticos e benzodiazepínicos têm riscos específicos nessa população; tratar o desencadeante e reduzir doses é essencial.
Como pegar a tempo: Antes de qualquer ampola, faça as cinco coisas que não custam nada: palpar a bexiga, medir saturação e temperatura, medir glicemia, perguntar sobre dor e revisar a prescrição das últimas 48 horas. Se medicar, use a menor dose. O manejo do delirium no idoso já internado, com prevenção e escalas, tem capítulo próprio nesta coleção.
O que dizer ao paciente e à família
Há três conversas neste capítulo, e a ordem importa. A primeira é com o paciente, e começa antes de qualquer decisão — ela é a intervenção principal, não a formalidade que antecede a injeção. A segunda é com a família, que quase sempre está assustada e culpada. A terceira é com a equipe, depois, e é a que mais se pula.
Uma régua atravessa as três: a agressividade do paciente é sintoma, não afronta pessoal. Quem consegue enxergá-la assim consegue ser empático, e a empatia aqui não é gentileza — é o que reduz o risco de violência mais do que qualquer outra coisa disponível na sala.
E uma advertência sobre o que não prometer. Não prometa alta, não prometa que ninguém vai encostar nele, não prometa que a medicação não vai dar sono. Promessa quebrada com paciente desconfiado destrói a única aliança que estava funcionando, e a próxima equipe começa do zero.
Aproximação inicial, paciente hostil e de pé
“"Meu nome é Ana, sou a médica do plantão. Vou ficar aqui, a esta distância, e não vou encostar no senhor sem avisar. O senhor pode me contar o que está acontecendo? Eu tenho tempo para ouvir." Fale pausado, sem levantar a voz, sem cruzar os braços, mantendo contato visual e sem dar as costas. Se ele der um passo à frente, estenda o braço na altura do tórax dele e repita a frase, sem mudar o tom.”
Não diga: "Se o senhor não se acalmar, eu vou ter que amarrar." Ameaça converte medo em confronto e transforma a equipe em adversária. Também evite discutir o conteúdo do delírio: nem concorde nem confronte, fale sobre o que ele está sentindo.
Oferecendo a medicação por via oral
“"Eu tenho um remédio aqui que vai tirar essa aflição do peito e deixar o senhor mais tranquilo. É um comprimido, o senhor toma com água, e leva uns vinte minutos para começar a fazer efeito. Ele dá um pouco de sono, e é para isso mesmo. O senhor topa?" Ofereça escolha real quando houver: comprimido agora ou depois da água, sentado na cadeira ou na maca.”
Não diga: Chamar de calmante sem explicar, ou dizer que é vitamina. O paciente que descobre depois que foi enganado tem razão em não confiar, e essa desconfiança acompanha todo o resto do atendimento e as próximas vindas dele ao serviço.
Explicando ao paciente a contenção que está começando
“"Seu Nivaldo, eu vou precisar prender seus braços e suas pernas por um tempo, porque agora o senhor está em risco de se machucar e de machucar alguém. Isso não é castigo. Vamos ser cinco pessoas, vai ser rápido, eu fico aqui do lado, e assim que o senhor estiver mais calmo a gente solta." Continue falando durante todo o procedimento, dizendo o que está sendo feito a cada passo.”
Não diga: Fazer em silêncio, ou mudar o tom de voz na hora do comando. O silêncio e a mudança de tom são lidos como ataque e aumentam a resistência — o que aumenta o risco de lesão para todo mundo, inclusive para quem contém.
Primeira conversa com a família, ainda no corredor
“"A senhora chegou na hora certa e o que a senhora contar agora vai decidir o tratamento dele. Ele está agitado, e agitação assim, começando de repente, quase sempre tem uma causa no corpo — açúcar baixo, falta de oxigênio, infecção, bebida, remédio. É isso que a gente está procurando neste momento. Me conta: quando ele ficou assim, o que ele toma, e quando ele bebeu pela última vez?"”
Não diga: "Ele já é assim?", perguntado num tom que devolve a culpa à família. E evite deixar o acompanhante encostado na parede sem ninguém falar com ele: a informação que fecha o caso está com ele.
Comunicando à família que o paciente foi contido
“"Preciso contar uma coisa antes que a senhora entre. Foi necessário conter os braços e as pernas dele com faixas, porque ele estava em risco de se machucar. Está registrado no prontuário por que a gente precisou fazer isso, ele está recebendo medicação e alguém está com ele o tempo todo. A gente vai reavaliar de meia em meia hora e soltar assim que der. A senhora pode vê-lo agora." Informar a família tão logo possível é exigência da norma, e não uma cortesia.”
Não diga: Deixar a família descobrir sozinha ao entrar no quarto, ou tratar a contenção como assunto interno da equipe. E evite prometer um horário exato de retirada que você não controla.
Falando com o paciente depois, quando ele já está tranquilo
“"O senhor lembra do que aconteceu quando chegou? Eu quero te contar o que a gente fez e por quê. O senhor estava com a glicose muito baixa, e isso deixa a pessoa confusa e agressiva sem que ela perceba. A gente precisou segurar o senhor por um tempo para conseguir tratar. Sinto muito pelo susto. Se acontecer de novo, o que a gente faz é isto aqui..." Nomear a causa devolve dignidade a quem se lembra de ter perdido o controle.”
Não diga: Não voltar ao assunto. O paciente que passou por contenção e ninguém explicou depois guarda a experiência como violência, e é bem provável que demore a procurar o serviço na próxima vez em que precisar.
Com a equipe, depois que tudo passou
“"Vamos rever cinco minutos do que aconteceu: o que funcionou, o que a gente faria diferente, e como cada um está." Rever conjuntamente cada decisão é o que faz a equipe melhorar e o que evita que o medo e a raiva de hoje contaminem o próximo paciente agitado.”
Não diga: Transformar a revisão em busca de culpado. A revisão que tem caráter punitivo cala a equipe e destrói o efeito de aprendizagem — e a próxima contenção vai ser pior, não melhor.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
A associação é a prática brasileira consolidada e está no protocolo nacional de urgência
O protocolo de agitação e situação de violência do serviço nacional de urgência prescreve haloperidol 5 mg por via intramuscular associado a prometazina 50 mg por via intramuscular como conduta padrão para tranquilização, repetindo o haloperidol a cada 30 minutos em deslocamentos longos. A prática se sustenta em ensaio pragmático conduzido no Brasil, e a revisão brasileira registra que as evidências disponíveis sugerem efeito sedativo mais pronunciado da associação do que o do haloperidol isolado, com distonia mais frequente entre os que receberam apenas haloperidol. Onde o lorazepam injetável não existe e os antipsicóticos de segunda geração parenterais não chegam, essa é a combinação que o serviço tem em armário.
Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida, 2ª ed., 2016 (protocolo AC40); Mantovani C et al., Rev Bras Psiquiatr 2010;32(Supl II)
As diretrizes internacionais não incluem a prometazina, e a associação tem custo próprio
A prometazina é um anti-histamínico da família das fenotiazinas cuja indicação principal é o controle de condições alérgicas, e as diretrizes internacionais de manejo da agitação não a listam entre as opções farmacológicas. A própria revisão brasileira observa que, por antagonismo dopaminérgico e noradrenérgico, a combinação com haloperidol pode aumentar o risco de hipotensão e de síndrome neuroléptica maligna, e que os dados disponíveis apontam para um efeito primordialmente sedativo — o que colide com o alvo declarado de tranquilizar sem sedar. A bula do produto contraindica o uso em paciente com depressão do sistema nervoso central por qualquer causa.
Mantovani C et al., Rev Bras Psiquiatr 2010;32(Supl II); bula profissional de prometazina solução injetável 25 mg/mL, Sanofi Medley
A pergunta que resolve o caso concreto não é qual escola está certa, e sim qual é o estado do sistema nervoso do paciente à sua frente. Se ele está lúcido, sem depressor a bordo, sem trauma craniano, com pressão folgada e você precisa de sedação mais profunda porque o risco físico é alto e a via oral não é opção, a associação faz sentido e é o que existe. Se há qualquer grau de rebaixamento, hálito etílico, suspeita de intoxicação por depressor, doença respiratória, hipotensão ou idade avançada, o custo da prometazina sobe e o haloperidol isolado em dose baixa é a escolha mais defensável — inclusive porque a distonia, que é o preço do haloperidol isolado, tem antídoto disponível e a hipotensão com depressão respiratória não tem. Quando optar pela associação, escreva o alvo no prontuário e monitore saturação: quem escolhe o efeito mais sedativo assume a vigilância que ele exige.
Benzodiazepínico isolado, com neuroléptico e prometazina proscritos
O manual brasileiro de toxicologia clínica é direto: nos quadros por cocaína e crack, os benzodiazepínicos são fundamentais para o controle da agitação, e a sedação adequada previne rabdomiólise, hipertermia, hipertensão e convulsão. O mesmo texto diz para não usar neurolépticos, nomeando haloperidol e clorpromazina, pelo risco de convulsão, taquicardia, arritmia, piora da hipertermia e indução de reações distônicas, e para evitar medicamentos com ação anticolinérgica importante, nomeando a prometazina. A diretriz brasileira de manejo da agitação vai na mesma direção e reserva, para intoxicação por estimulantes, midazolam 5 a 15 mg por via intramuscular ou diazepam 5 a 10 mg por via endovenosa.
Manual de Toxicologia Clínica, Covisa/Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, 2017; Mantovani C et al., Rev Bras Psiquiatr 2010;32(Supl II), Tabela 3
O esquema padrão vale para todos, com midazolam somado quando há suspeita de estimulante
O protocolo nacional de urgência não faz a exclusão. Ele manda tranquilizar com haloperidol 5 mg por via intramuscular associado a prometazina 50 mg por via intramuscular em qualquer paciente agitado que não tenha cedido às medidas verbais, e acrescenta que somente em pacientes com suspeita de intoxicação por drogas estimulantes se pode associar midazolam 5 mg por via intramuscular. Nesse desenho, o estimulante não muda a base do esquema: apenas autoriza um terceiro fármaco. A vantagem operacional é ter uma conduta única para uma equipe que atende na rua, muitas vezes sem história confiável sobre o que o paciente usou.
Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida, 2ª ed., 2016 (protocolo AC40)
Decida pela informação que você tem e pela reversibilidade do erro. Na rua, sem história e sem monitor, uma conduta única para todos tem valor real, e é isso que o protocolo pré-hospitalar está protegendo. Dentro do pronto-socorro, onde você mede temperatura, olha a pele, tem monitor e tem acesso venoso, a informação existe e o raciocínio por cenário é possível — e aí o argumento toxicológico pesa mais, porque os três danos que o neuroléptico pode somar (convulsão, hipertermia, distonia) são exatamente os que esse paciente já corre. Régua prática: pele encharcada de suor, midríase e temperatura axilar elevada em adulto jovem deslocam a escolha para benzodiazepínico titulado por via endovenosa, com resfriamento. Sem esses achados, e com dúvida sobre a substância, o esquema padrão do serviço é defensável desde que a temperatura seja medida e reavaliada.
É recurso legítimo, admitido e regulado no Brasil, e proibi-lo desprotege quem se machuca
A resolução do conselho de medicina admite expressamente a contenção física, desde que prescrita por médico, registrada em prontuário e quando for o meio mais adequado para prevenir dano imediato ou iminente ao próprio paciente ou a terceiro, com supervisão imediata e regular e pelo menor tempo necessário. A resolução do conselho de enfermagem, de 2024, normatiza a aplicação em vez de proibi-la. E o protocolo nacional de urgência descreve a técnica em detalhe justamente porque a alternativa a uma técnica descrita é a improvisação, que é o que produz fratura, garroteamento e óbito.
Resolução CFM nº 2.057/2013, art. 16, §§ 2º a 5º; Resolução COFEN nº 746/2024; Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, 2ª ed., 2016 (protocolo AP42)
É prática sem sustentação clara em evidência, com dano documentado, e há países que a vedam por lei
A revisão brasileira de manejo do paciente agitado registra que o isolamento e a contenção são práticas extremamente controversas, marcadas historicamente pelo uso coercitivo e punitivo, sem sustentação clara em evidência científica e associadas a efeitos colaterais graves e a óbito; que em países como Reino Unido e Holanda a contenção mecânica não é permitida por lei; e que a variabilidade internacional na frequência do procedimento decorre mais de diferenças culturais e legislativas do que de critérios clínicos. Um estudo brasileiro mostra que pacientes mais jovens e com transtorno por uso de substância têm maior probabilidade de serem contidos.
Mantovani C et al., Rev Bras Psiquiatr 2010;32(Supl II), com Steinert & Lepping, Eur Psychiatry 2009, e Migon MN et al., Gen Hosp Psychiatry 2008
Esta divergência não se decide no plantão, mas ela muda o plantão. O que ela ensina é que a contenção não tem a seu favor um estudo que a valide: o que a sustenta é a ausência de alternativa naquele minuto, e isso é um argumento frágil que se desfaz assim que uma alternativa existir. Na prática, isso vira três perguntas antes de indicar. Primeira: qual dano imediato e concreto eu estou prevenindo, com nome? Segunda: o que eu já tentei — ambiente, conversa, tratar a causa, medicação oral, medicação intramuscular — e por que falhou? Terceira: quanto tempo eu vou manter, e quando eu reavalio? Se a primeira resposta é o paciente está agitado, sem dizer o dano, a indicação não se sustenta. Vale ainda a assimetria de reversibilidade: uma dose de antipsicótico a mais em paciente monitorado tem antídoto e passa em horas; uma contenção mal indicada é lembrada por anos por quem a sofreu, e uma contenção mal executada mata na mesma noite. Por isso a contenção é o último recurso da lista, e não um atalho quando a equipe está com pressa.
O raciocínio, em voz alta
Uma da manhã de domingo, pronto-socorro de hospital geral de porte médio. Os bombeiros trazem Solange Vieira do Amaral, 33 anos, encontrada na rua gritando e batendo em um portão. Ela entra andando, escoltada por dois profissionais, sem contenção. Está encharcada de suor, com a blusa colada ao corpo, fala rápido e não termina as frases, olha para os lados o tempo todo. Não há acompanhante. A equipe tem cinco pessoas disponíveis, monitor, acesso a exames e uma sala de observação com dois leitos.
O que penso agora
Antes de qualquer coisa, leio a cena: ninguém armado, ambiente controlado, ela chegou andando. Isso me dá alguns minutos. Depois olho o corpo, não o comportamento. Suor abundante em madrugada de temperatura amena é um achado, não um detalhe. Fala acelerada, hipervigilância e sudorese em adulto jovem me colocam três hipóteses na frente: síndrome adrenérgica por estimulante, hipoglicemia e episódio maníaco. As duas primeiras matam em horas; a terceira não.
O que peço
Peço as duas coisas que respondem à beira da maca em menos de um minuto: glicemia capilar e os seis sinais vitais completos, com temperatura axilar. Em paralelo, designo uma pessoa para conduzir a conversa e outra para procurar informação — bolso, mochila, documento, qualquer contato. Não peço tomografia, não peço triagem toxicológica e não peço nada que exija tirá-la desta sala.
A resposta
Glicemia capilar 118 mg/dL. Pressão arterial 168 por 104 mmHg, frequência cardíaca 138 bpm, frequência respiratória 26 irpm, saturação 97% em ar ambiente, temperatura axilar 38,9 °C. Pupilas midriáticas e simétricas. Sem rigidez de nuca, sem ferimento no couro cabeludo, hipogástrio livre.
Como isso muda o que penso
A hipoglicemia caiu. E a temperatura mudou o caso de lugar: 38,9 °C em adulto jovem agitado, com midríase, hipertensão, taquicardia e sudorese profusa, é síndrome adrenérgica com hipertermia até prova em contrário. Isso não é mais um problema de comportamento a controlar — é um problema de produção de calor num corpo que não está conseguindo dissipá-lo, e a hipertermia é o que leva à rabdomiólise e à insuficiência renal. Episódio maníaco não faz 38,9 °C. Infecção do sistema nervoso central continua na mesa, mas sem rigidez, sem petéquia e com esse conjunto adrenérgico, ela desce na lista.
O que faço primeiro
Conversa, porque ela ainda fala comigo. Uma pessoa só, distância de um braço e meio, apresentação pelo nome e pela função, frases curtas, luz baixa, sala com pouco estímulo. Ofereço água e uma cadeira. Digo que ela está com o corpo muito quente e que eu preciso esfriá-la e dar um remédio para tirar essa aflição. Em três minutos ela senta e aceita que eu pegue o braço para o acesso — o que muda tudo, porque acesso venoso abre a via que eu quero.
A droga, e por que esta
Diazepam 5 mg por via endovenosa, o que corresponde a 1 mL da solução de 5 mg/mL, repetido a cada 5 a 10 minutos conforme a resposta. Benzodiazepínico é a escolha porque a sedação adequada, aqui, previne rabdomiólise, hipertermia, hipertensão e convulsão — é tratamento, não conforto. Não uso haloperidol nem prometazina: neuroléptico reduz o limiar convulsivo, prejudica a termorregulação e pode desencadear distonia, e a prometazina soma ação anticolinérgica num paciente que precisa suar. Junto com a droga, medidas de resfriamento e hidratação.
Quinze minutos depois
Solange está mais lenta, ainda responde ao chamado, frequência cardíaca 112 bpm, temperatura 38,2 °C, saturação 96% em ar ambiente. Recebeu 10 mg de diazepam ao todo. Continua no monitor, com uma pessoa ao lado. Ainda não indiquei contenção, e neste ponto não vou indicar: o risco imediato cedeu, e conter agora só somaria contração muscular a um corpo que eu estou tentando esfriar.
O que peço agora, que antes não pediria
Agora que ela está tranquila e monitorizada, o laboratório muda conduta: creatinoquinase e função renal, pela agitação prolongada com hipertermia; eletrólitos; gasometria; eletrocardiograma, agora que os eletrodos ficam no lugar. Não peço triagem toxicológica urinária como diagnóstico: ela responderia exposição, não intoxicação atual, e não muda o que estou fazendo.
O resultado e o destino
Creatinoquinase 4.320 U/L, creatinina 1,6 mg/dL, potássio 5,2 mEq/L, urina com pesquisa positiva para mioglobina. Rabdomiólise instalada. Isso decide o destino: internação clínica com hidratação vigorosa e controle de função renal e potássio, e não alta depois que a agitação passar. Sem a temperatura medida na chegada e sem a creatinoquinase pedida depois, esta paciente teria recebido alta às cinco da manhã, tranquila, com insuficiência renal em curso.
O que registro
Escrevo o estado na chegada com os números, o que foi tentado antes da medicação, a justificativa clínica da escolha do benzodiazepínico em vez do antipsicótico, as doses com concentração e volume, a evolução dos sinais vitais e a decisão de não conter. A ausência de contenção também se registra, com a razão — é a evidência de que a alternativa foi considerada e de que havia outra saída.
A conversa que fecha
Quando ela acorda, quatro horas depois, conto o que aconteceu com o nome das coisas: o corpo esquentou muito, o músculo sofreu, o rim está sentindo, e por isso ela precisa ficar. Pergunto se ela quer que a gente ligue para alguém. Não faço sermão sobre o uso, porque sermão às cinco da manhã não muda comportamento e fecha a porta para a única coisa que pode mudar, que é ela voltar a procurar o serviço na próxima vez.
Faça você
Três e vinte da manhã de uma terça-feira, mesmo pronto-socorro. A filha traz Damião Ferraz, 61 anos, pedreiro aposentado. Ela conta que ele bebe todos os dias há muitos anos, que anteontem teve uma virose com vômitos e ficou sem beber desde então, e que desde ontem à noite está confuso, dizendo que tem gente no quarto e tentando sair de casa. Na sala, Damião está sentado na maca, tremendo, encharcado de suor, olhando para o canto do teto e conversando com alguém que não está lá. Reconhece a filha. Não aceita ficar deitado. Pressão arterial 172 por 98 mmHg, frequência cardíaca 124 bpm, frequência respiratória 22 irpm, saturação 95% em ar ambiente, temperatura axilar 37,8 °C, glicemia capilar 96 mg/dL. Sem ferimento, sem rigidez de nuca, hipogástrio livre, sem sinal focal.
Passo 1
Você lê a cena e organiza a equipe: ambiente com pouco estímulo, uma pessoa conduzindo a conversa, a filha por perto porque ele a reconhece e ela o tranquiliza.
Passo 2
Você já tem os seis sinais vitais e a glicemia capilar. A glicemia está normal, a saturação está aceitável, não há bexigoma, não há foco de trauma e não há sinal focal.
Passo 3
A pergunta que separa os cenários já foi respondida pela filha: a última dose de álcool foi há cerca de 48 horas. Tremor, sudorese, hipertensão, taquicardia, febre baixa e alucinação visual completam o quadro.
Passo 4
A desescalada verbal compra colaboração parcial: ele aceita a filha ao lado e aceita o acesso venoso, mas continua tentando levantar e não aceita comprimido.
Passo 5 — faça você
Agora é com você. Diga qual é o diagnóstico sindrômico, qual droga você escolhe, em que dose, por qual via e com que volume na apresentação que existe no serviço, como você repõe tiamina sem atrasar o tratamento de eventual hipoglicemia, o que você decide sobre contenção, e quais três parâmetros você vai monitorar nas próximas duas horas.
Ver como fecharíamos
O quadro sugere abstinência alcoólica grave com possível delirium por abstinência: confusão, alucinações e hiperatividade autonômica já estão presentes. Não espere o terceiro dia, febre alta ou uma janela exata para reconhecer gravidade. Verifique atenção, orientação, outras causas de delirium e possíveis complicações, inclusive aspiração, infecção e distúrbios hidroeletrolíticos. A droga é benzodiazepínico de longa duração, e não antipsicótico: o que falta neste cérebro é tônus inibitório, e o benzodiazepínico repõe exatamente isso, além de prevenir a convulsão que o antipsicótico não previne. Como há acesso venoso, a via é endovenosa: diazepam 10 mg, o que corresponde a 2 mL da solução de 5 mg/mL, repetido conforme a resposta clínica. O protocolo nacional de urgência trabalha com repetição a cada 30 minutos na abstinência, com teto diário definido; o manual de toxicologia usa a titulação até o controle. A via intramuscular para o diazepam é a que se evita, porque a absorção por essa via é errática — e é justamente por isso que o acesso venoso obtido no passo 4 vale tanto. Administre tiamina parenteral precocemente e avalie risco de Wernicke. A glicemia está normal, portanto não há indicação de glicose hipertônica; se ocorrer hipoglicemia, corrigi-la imediatamente, com tiamina antes, junto ou logo após conforme viabilidade. Não prescreva soro glicosado de manutenção automaticamente: volume, eletrólitos e via de alimentação precisam de avaliação própria. Sobre contenção: não está indicada neste momento. Ele reconhece a filha, aceita o acesso, colabora parcialmente e o risco imediato de dano é baixo. A indicação exigiria risco iminente de dano a ele ou a terceiros com as demais possibilidades esgotadas, e elas não foram — a medicação endovenosa ainda nem começou. Se ele piorar e a contenção passar a ser necessária, ela vem com sedação associada, indicação escrita, hora de início, cinco pessoas, faixas próprias e reavaliação a cada 30 minutos, com a filha informada. Mantenha vigilância de consciência, via aérea e ventilação, além de saturação contínua, pressão, frequência cardíaca e temperatura. Reavalie frequentemente dose acumulada, agitação e sinais de abstinência, sem esperar 30 minutos se houver piora. CIWA-Ar depende de participação e não é a melhor ferramenta no delirium; utilize avaliação clínica e escala observacional apropriada ao serviço. O caso requer internação e nível de monitorização proporcional à gravidade e às doses, com avaliação de cuidados intensivos se instável ou refratário.
O paciente ainda conversa, e isso compra os poucos minutos em que as duas intervenções de maior rendimento cabem juntas: a desescalada verbal, que resolve a maior parte dos episódios sem efeito adverso, e a medida à beira da maca do que reverte em minutos. A glicemia capilar é o único exame que responde em menos de um minuto sem transporte e sem colaboração, e identifica uma causa que reverte por completo; a temperatura e a saturação separam estimulante, infecção e hipóxia. Injetar agora inverte a ordem: apaga o sintoma que sinalizava a causa e apaga também a chance de aliança, num paciente que ainda estava falando. A contenção é o último recurso, indicada só quando as demais possibilidades fracassaram e há risco imediato de dano — nada disso se aplica a um homem que está de pé, respondendo, sem agressão em curso. A tomografia é cega para as causas metabólicas e tóxicas, que respondem pela maior parte das agitações de causa orgânica, e transportar um agitado tira o paciente do monitor e da equipe. E entregar o caso à psiquiatria antes de excluir causa orgânica é exatamente o erro que define este capítulo: quem tem transtorno mental também faz hipoglicemia, hipóxia e infecção.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Compare três pacientes agitados: idoso com delirium, adulto com cocaína e hipertermia e etilista após dois dias sem beber. Justifique conduta, fármaco e monitorização em cada um.
Em 30 dias
Reavalie um paciente que ficou quieto após medicação: explique como distinguir melhora de sedação excessiva, quais causas continuam abertas e quando retirar contenção.
Agora atenda
Chega ao pronto-socorro, trazido pela irmã, um homem de 46 anos que está no corredor falando alto, dizendo que está sendo enganado e que quer ir embora. Ele está de pé, ainda conversa, e a equipe já pergunta se pode fazer a medicação. Você tem cinco pessoas disponíveis, glicosímetro, monitor, acesso a exames e a acompanhante do lado de fora. Conduza os primeiros noventa minutos: leia a cena, decida quem fala e quem colhe a história, diga em que ordem você mede o que mede, justifique cada droga no cenário em que a escolheu — com dose, volume e via — e diga, ao final, se a contenção era necessária e como você registraria a decisão.
