Clínica MédicaSíndromes do Paciente na Emergência

Febre sem foco no adulto

A pergunta que abre o atendimento não é qual antibiótico, e sim se este paciente está séptico e onde está a infecção. E, no Brasil, a resposta muitas vezes está em duas perguntas que ninguém faz na triagem: veio de onde, e há quantos dias.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de Vigilância em Saúde. 6. ed. rev. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. Capítulos Malária (v. 2), Febre amarela, no bloco Arboviroses de importância em saúde pública no Brasil (v. 2), Leptospirose (v. 3), Febre maculosa (v. 3) e Doença meningocócica (v. 1).

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de Doenças Transmissíveis. Dengue: diagnóstico e manejo clínico — adulto e criança. 6. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.

Instituto Latino Americano de Sepse. Implementação de Protocolo Gerenciado de Sepse — Protocolo Clínico: atendimento ao paciente adulto com sepse e choque séptico. Revisado em julho de 2026, em substituição à revisão de agosto de 2018.

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. ISBN 978-65-5993-710-3.

Grupo Hospitalar Conceição. Protocolo de Neutropenia Febril. Porto Alegre: Gerência de Ensino e Pesquisa, Grupo Hospitalar Conceição, 2019.

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Responda antes de ler

Durante a discussão de um caso de febre sem foco, o residente pergunta como você usou o escore qSOFA na avaliação. O paciente em questão tem febre de 38,3 graus, está orientado, com frequência respiratória de 20 e pressão sistólica de 112, e o escore, portanto, é zero. Qual é a interpretação correta desse escore neste contexto?

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O paciente que você vai ver

Sexta-feira, 19h40, pronto-socorro clínico de um hospital geral de 140 leitos numa cidade de duzentos mil habitantes. Você é o interno da noite. O plantonista está na sala vermelha com uma parada desde as sete e meia, e a classificação de risco empilhou três fichas no seu balcão com exatamente a mesma palavra escrita no campo da queixa: febre.

A primeira é do Jandir Bezerra, 34 anos, pedreiro. Febre há três dias, com calafrio que faz a cama tremer, dor de cabeça e vômito. Ele está sentado, conversando, um pouco pálido. A ficha diz temperatura axilar de 38,6 graus e pressão de 118 por 74. O exame que você faz é normal: pulmão limpo, abdome sem dor, garganta sem nada, urina sem queixa. Você escreve virose no prontuário e pensa em sintomático e alta. O que não está na ficha, porque ninguém perguntou, é que ele voltou de uma frente de obra em Boa Vista há doze dias.

A segunda é da Dalva Prazeres, 71 anos, diabética, hipertensa. A filha diz que ela está estranha desde ontem, que comeu pouco e que hoje não quis levantar. A temperatura na triagem foi 37,6 graus, e a ficha recebeu pulseira verde por isso. A pressão está 98 por 56. A pressão dela em casa, diz a filha quando você pergunta, é sempre por volta de 150. A frequência respiratória ninguém contou, porque quase nunca se conta. Você conta: 26.

A terceira é do Ítalo Nepomuceno, 19 anos, estudante, febre há cinco dias, dor no corpo, dor atrás dos olhos. Ele chega com o diagnóstico pronto na boca: acha que é dengue, o vizinho teve. E pergunta se pode tomar aquele anti-inflamatório que a tia dela usa para dor nas costas, porque a dipirona não está segurando.

Os três têm febre e nenhum tem foco. A tentação, no corredor cheio, é resolver os três com o mesmo gesto: um deles ganha antibiótico porque a febre é alta, os outros dois ganham sintomático e alta. Feito assim, você erra os três. O primeiro tem uma doença que não responde a antibiótico nenhum e cujo exame diagnóstico tem prazo. A segunda já saiu da categoria em que se investiga com calma. E o terceiro está a uma receita de distância de sangrar.

O que separa os três não é o número no termômetro. É a ordem das perguntas, e ela é sempre a mesma: este paciente está grave agora? Se não está, de onde ele veio, o que ele tocou, há quantos dias começou, e o que eu deixei de examinar.

03

Quem adoece disso

O ponto de partida é desconfortável e precisa ser dito com todas as letras: no adulto que chega ao pronto-socorro com febre e sem foco, a lista de hipóteses que mais mata no Brasil não é uma lista de bactérias que respondem a ceftriaxona. É uma lista de doenças de notificação compulsória, com exposição geográfica, janela de incubação e tratamento próprio — e o antibiótico de amplo espectro prescrito por reflexo não trata nenhuma delas.

Malária. Em 2023 foram 139.884 casos autóctones registrados na região amazônica, alta de 8,8% em relação ao ano anterior, com concentração crescente em áreas de garimpo e em terras indígenas, segundo o boletim epidemiológico da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. No país, o Plasmodium vivax responde por cerca de 90% dos casos. A consequência prática é de triagem, não de infectologia: um adulto febril que esteve na Amazônia nas últimas semanas não é caso de observação — é caso de gota espessa no mesmo atendimento, porque o Guia de Vigilância em Saúde estabelece que o diagnóstico seja feito em menos de 24 horas a partir do início dos sintomas, justamente para evitar as formas graves.

Leptospirose. A letalidade geral dos casos notificados no Brasil é de 9%, e passa de 50% entre os que desenvolvem hemorragia pulmonar. A doença é endêmica e vira epidêmica nos períodos chuvosos, nas capitais e regiões metropolitanas, por causa das enchentes. Traduzindo para o plantão: depois de uma chuva forte, a pergunta sobre contato com água de enchente, esgoto ou lixo deixa de ser detalhe de anamnese e vira triagem, porque a antibioticoterapia começa na suspeita e o paciente com hemorragia pulmonar pode chegar sem icterícia e sem hemoptise.

Febre maculosa e doença meningocócica são as duas em que o relógio é mais curto. Na febre maculosa, a letalidade da forma grave não tratada pode chegar a 80%, o exantema costuma surgir só entre o segundo e o sexto dia de doença e pode simplesmente não aparecer — e a doxiciclina, quando iniciada nos primeiros cinco dias, faz a febre desaparecer em 24 a 72 horas. Na meningococcemia, a letalidade fica geralmente acima de 40% e a maioria dos óbitos ocorre nas primeiras 48 horas do início dos sintomas. Nas duas, esperar a confirmação laboratorial para tratar é uma decisão com mortalidade conhecida.

Junte os quatro números e a régua do capítulo aparece sozinha. Febre sem foco não é uma consulta que pode ser resolvida por eliminação lenta: é uma consulta em que uma minoria pequena de pacientes tem um diagnóstico de prazo curto, e a única ferramenta que separa essa minoria do resto é uma conversa de dois minutos sobre onde a pessoa esteve e o que ela tocou.

04

Por que acontece o que acontece

Febre é elevação regulada da temperatura, e a palavra que importa é regulada. Produtos microbianos e restos celulares são reconhecidos por células de defesa, que liberam citocinas — interleucina 1, interleucina 6, fator de necrose tumoral. Essas citocinas alcançam a região pré-óptica do hipotálamo e induzem prostaglandina E2, que desloca o ponto de ajuste térmico para cima. O termostato não quebrou: ele foi reprogramado. Todo o resto do quadro clínico é o corpo obedecendo ao novo número.

É por isso que o paciente com 39,2 graus chega tremendo e com as mãos geladas. Enquanto a temperatura corporal está abaixo do novo ponto de ajuste, o organismo faz o que faria numa sala fria: vasoconstrição periférica para reter calor e contração muscular involuntária para produzi-lo. O calafrio com tremor de cama, que na anamnese o paciente descreve como um frio que não passa nem debaixo do cobertor, corresponde a uma subida rápida do ponto de ajuste — o tipo de subida que acompanha descargas bacterianas na corrente sanguínea. Quando o ponto de ajuste desce, o corpo dissipa: vasodilatação, rubor e sudorese. Calafrio intenso e sudorese profusa em quem tem febre não são detalhes pitorescos; são o dado que sugere bacteremia e que justifica colher hemocultura no momento em que ocorrem.

Existe uma exceção que muda a conduta inteira: hipertermia não é febre. No golpe de calor, na crise tireotóxica e nas síndromes por drogas com hiperatividade muscular, o ponto de ajuste hipotalâmico está normal, e o que ocorre é produção de calor acima da capacidade de dissipação. A diferença é operacional, e o manual de toxicologia clínica da vigilância municipal de São Paulo a enuncia com todas as letras ao orientar o manejo da síndrome serotoninérgica: antitérmico não surte efeito, porque a elevação da temperatura vem da hiperatividade muscular, e não de prostaglandina no hipotálamo. Antitérmico age baixando o ponto de ajuste; se o ponto de ajuste nunca subiu, ele não tem onde agir. Nesses quadros o que reduz temperatura é resfriamento físico, sedação e retirada do agente. As duas síndromes que o interno precisa saber nomear são a serotoninérgica, que aparece em quem usa antidepressivo inibidor seletivo da recaptação de serotonina, sobretudo com um segundo agente serotoninérgico associado, e a neuroléptica maligna, descrita como distúrbio neurovegetativo agudo com hipertermia que pode chegar a 42 graus, rigidez muscular, tremor intenso, sudorese profusa, taquicardia, oscilação da pressão arterial e alteração do sensório até o coma, com risco de rabdomiólise e lesão renal aguda. O reconhecimento completo das síndromes tóxicas é do capítulo de intoxicação exógena; o gesto que separa os dois mundos é daqui: um febril que não responde a antitérmico nenhum, com rigidez muscular ou com pele seca, não é um febril com antibiótico insuficiente.

A segunda consequência do mecanismo é a mais desconfortável: a via final é única. Bactéria, vírus, protozoário, riquétsia, trombo em resolução, hematoma sendo reabsorvido, linfoma, lúpus e uma dúzia de medicamentos produzem citocinas e chegam ao mesmo hipotálamo. O termômetro, portanto, não diagnostica nada, e a altura da febre também não. Um adulto com 40 graus pode ter influenza, e um adulto com 37,7 graus pode estar em choque séptico. Qualquer raciocínio que comece pelo número é um raciocínio que não vai chegar ao foco.

Silhuetas frontal e posterior indicam olhos, boca, pele, períneo, articulações, coluna e panturrilhas como regiões do exame dirigido.
O exame da pessoa com febre pode revelar pistas fora do foco inicialmente suspeito. A exposição deve ser proporcional à necessidade clínica, explicada e realizada com privacidade; os pontos indicam regiões, não um diagnóstico.

Se a via é única, por que existe a categoria febre sem foco? Porque o foco só produz sintoma local quando o processo se instala num órgão e o irrita. Nos primeiros dias de uma bacteremia primária, nas infecções de germes intracelulares como riquétsia e salmonela, e nas viroses sistêmicas, o alvo é o endotélio e o sistema fagocitário — que estão em toda parte e doem em lugar nenhum. Daí a regra que sustenta o capítulo: exame físico sem achado não afasta infecção grave. Ele apenas informa que a doença ainda não escolheu um órgão para machucar, e o tempo entre esse momento e a escolha é justamente o tempo em que o tratamento funciona melhor.

O caminho da infecção até a disfunção orgânica passa pelo mesmo endotélio. Citocinas em concentração alta ativam a célula endotelial, que aumenta a permeabilidade, vasodilata e expõe superfície pró-coagulante. O resultado é extravasamento de plasma, queda da resistência vascular e microtrombose — três formas simultâneas de reduzir a entrega de oxigênio ao tecido. Quando a oferta cai abaixo do consumo, a célula troca a via oxidativa pela glicólise anaeróbia e o lactato sobe. Nada disso exige exame para ser suspeitado à beira do leito: o cérebro, o pulmão e o rim são os três órgãos que denunciam hipoperfusão primeiro, e é por isso que a avaliação de gravidade cabe em três gestos — falar com o paciente, contar a frequência respiratória e medir a pressão comparando com a habitual dele.

O tempo de febre é um dado fisiopatológico, não uma formalidade da anamnese, porque cada agente tem um período de incubação e uma duração típica. Menos de sete dias de febre é o território das arboviroses, das bacterianas agudas, da malária, da leptospirose precoce e da riquetsiose. De uma a três semanas entra a lista que exige paciência: febre tifoide, mononucleose, endocardite subaguda, tuberculose, abscessos profundos. Acima de três semanas, o raciocínio muda de casa e vira investigação de febre de duração prolongada, que é assunto de ambulatório e de internação eletiva, não de decisão de porta. Perguntar há quantos dias, portanto, não é preencher campo: é escolher qual das três listas você vai usar.

Por último, o mecanismo explica por que a pressa cega. O antimicrobiano administrado antes da coleta reduz a chance de a hemocultura crescer, e o antitérmico prescrito de horário apaga a curva térmica — que, no paciente sem diagnóstico, é o principal instrumento de acompanhamento que você tem. Nos dois casos o dano é o mesmo: some a informação que decidiria o passo seguinte, e o paciente fica preso a um tratamento empírico que ninguém consegue mais ajustar nem suspender. Colher antes de tratar e medicar febre por desconforto, e não por número, são as duas decisões diagnósticas mais baratas do plantão.

05

Como se apresenta de verdade

A febre sem foco quase nunca se apresenta como um enigma interessante. Ela se apresenta como uma fila. Numa noite de plantão, a maioria dos febris adultos que atravessam a porta tem uma doença viral autolimitada que vai embora sozinha, e o trabalho clínico consiste em separar dessa maioria o punhado de pacientes que tem outra coisa, sem transformar a separação num rastreamento caro que atrasa a fila e não muda conduta.

As seções abaixo percorrem as apresentações que exigem decisões diferentes. Vale um aviso antes: nenhum dos quadros descritos aqui aparece completo. O paciente com leptospirose grave chega antes da icterícia, o com febre maculosa chega antes do exantema e o idoso com pielonefrite chega antes da febre. Reconhecer significa reconhecer a versão incompleta.

Percurso de aprendizagem

Distinga febre de hipertermia e procure disfunção orgânica, imunossupressão e exposições que exigem tratamento oportuno, especialmente malária, riquetsiose e leptospirose.

No paciente de baixo risco, evite transformar hemocultura, urina e tomografia em pacote obrigatório. No paciente grave, investigue e trate em paralelo.

A reavaliação é parte do diagnóstico. Combine prazo, sinais de alarme e acompanhamento de exames pendentes, considerando a piora possível na defervescência da dengue.

O termômetro, o calendário e a febre que já foi medicada

No Brasil a aferição de rotina é axilar, e é sobre ela que os documentos nacionais foram escritos. O corte operacional para o adulto imunocompetente costuma ser 37,8 graus axilares, e vários protocolos de triagem de sepse abrem por esse valor; os critérios de vigilância de infecção usam acima de 38. O detalhe que interessa é que o corte muda conforme o hospedeiro, e não conforme o termômetro. No neutropênico, o protocolo brasileiro do Grupo Hospitalar Conceição adota deliberadamente 37,5 graus axilares em medida única, com uma justificativa que vale para o pronto-socorro inteiro: existe o hábito de medicar o paciente com temperaturas próximas de 38, o que subdiagnostica a febre exatamente em quem menos pode perdê-la.

Daí vem a primeira armadilha do plantão, e ela é operacional. Boa parte dos adultos que chega ao pronto-socorro já tomou antitérmico em casa ou recebeu dipirona na triagem antes de você ver o paciente. Temperatura de 36,9 graus em quem tomou dipirona há noventa minutos não é ausência de febre: é febre tratada. A pergunta que resolve é curta, tomou alguma coisa, o quê, e a que horas, e ela precisa entrar antes de você registrar afebril no prontuário.

A segunda armadilha é a febre referida e não medida. A família descreve o paciente quente, e o paciente chega com 37,1 graus. Isso não invalida a história: a curva térmica de quase todas as doenças febris tem picos e vales, e a maioria das pessoas mede exatamente quando se sente pior. Trate a febre referida como febre até que uma medida seriada mostre o contrário, e prescreva a medida seriada.

A terceira é o calendário, que muda a lista mais do que a temperatura. Um adulto com um dia de febre e exame normal é, quase sempre, um adulto que precisa de reavaliação marcada. O mesmo adulto com cinco dias de febre já passou do tempo em que a maioria das viroses respiratórias resolve, e a lista se estreita para arbovirose em fase crítica, malária, leptospirose, riquetsiose, infecção bacteriana que ainda não localizou e febre não infecciosa. Anote a data de início da febre no prontuário com o mesmo cuidado com que se anota a pressão, porque é ela que o médico do retorno vai usar.

A síndrome febril indiferenciada, que é o que a maioria realmente tem

A apresentação mais comum é a mais chata de descrever: febre, dor de cabeça, dor no corpo, prostração, às vezes náusea, com exame físico que não acha nada. É o quadro que os documentos brasileiros chamam de síndrome febril aguda, e é o mesmo pórtico por onde entram a influenza, a dengue, a leptospirose na fase precoce, a malária, a riquetsiose, a fase aguda da infecção pelo vírus da imunodeficiência humana e a bacteremia que ainda não localizou.

Como o quadro é o mesmo, o que separa não está nele. Está em três coisas fora do quadro: a exposição, a janela de tempo e a evolução. Exposição é onde a pessoa esteve e o que ela tocou. Janela é a compatibilidade entre a exposição e o período de incubação: a febre amarela incuba de três a seis dias, com relatos de até quinze; a leptospirose de um a trinta dias, com média entre cinco e catorze; a febre maculosa de dois a catorze dias. Evolução é o que acontece nas próximas 24 a 48 horas, e é por isso que a reavaliação marcada é parte do diagnóstico, e não uma gentileza.

Duas pistas semiológicas merecem ser procuradas ativamente nessa apresentação, porque são baratas e mudam a probabilidade. A primeira é a mialgia desproporcional em panturrilhas e região lombar, associada a sufusão conjuntival, que é hiperemia e edema da conjuntiva ao longo das fissuras palpebrais, presente em cerca de 30% dos pacientes com leptospirose e que aparece no fim da fase precoce. A segunda é a dissociação entre pulso e temperatura: bradicardia relativa acompanhando febre alta, o sinal de Faget, descrito na febre amarela e clássico também na febre tifoide. Nenhuma das duas é sensível o bastante para excluir nada quando ausente; as duas, quando presentes, reorganizam a lista.

Com exantema, com sangramento, com icterícia: as três apresentações que estreitam a lista

Quando aparece exantema, a lista muda de tamanho. O manual nacional de dengue organiza o diferencial por síndrome, e vale carregar essa organização na cabeça: síndrome exantemática febril inclui rubéola, sarampo, escarlatina, eritema infeccioso, enteroviroses, mononucleose, citomegalovirose, farmacodermia, Zika e outras arboviroses. Síndrome hemorrágica febril inclui hantavirose, febre amarela, leptospirose, riquetsiose e púrpuras. Síndrome de choque febril inclui meningococcemia, septicemia, febre purpúrica brasileira e síndrome do choque tóxico.

Duas dessas apresentações são emergências absolutas e precisam ser reconhecidas por quem está na porta. A primeira é o exantema petequial ou purpúrico que não desaparece à digitopressão, em paciente febril e com aparência de doente. Isso é meningococcemia até prova em contrário: a letalidade fica geralmente acima de 40%, a maioria dos óbitos ocorre nas primeiras 48 horas do início dos sintomas e o coma pode sobrevir em algumas horas. A segunda é o exantema maculopapular que começa entre o segundo e o sexto dia de febre em alguém com história de contato com carrapato, mata, pasto ou cão de sítio, e que evolui para petequial e purpúrico nos casos graves: febre maculosa.

O ponto que mais custa vidas nas duas é o mesmo: esperar a pele. O Guia de Vigilância em Saúde é explícito ao dizer que, na febre maculosa brasileira, o exantema pode estar ausente, e que a ausência dele não é critério de exclusão. Na doença meningocócica, a petéquia é sinal específico, mas o quadro começa com sintomas inespecíficos comuns, febre, vômitos, letargia, cefaleia, dor muscular e articular. Quem só considera as duas hipóteses depois que a pele muda está considerando tarde.

A icterícia tem valor próprio. Icterícia de tonalidade alaranjada intensa, a chamada icterícia rubínica, aparecendo entre o terceiro e o sétimo dia de uma síndrome febril com mialgia, é o achado que sugere leptospirose grave, e é preditor de pior prognóstico pela associação com a síndrome de Weil, que reúne icterícia, insuficiência renal e hemorragia, mais comumente pulmonar. Aqui há uma inversão que precisa estar escrita: hemorragia pulmonar e insuficiência renal ocorrem também em pacientes anictéricos, e a hemorragia pulmonar maciça costuma só ser identificada quando alguém faz a radiografia de tórax. Febre com insuficiência respiratória, mesmo sem hemoptise e sem icterícia, mantém a leptospirose grave na mesa.

O idoso e o diabético: quando o sinal não é a temperatura

No idoso, a apresentação típica de infecção grave é comportamental. Confusão nova, queda, recusa alimentar, prostração desproporcional e perda de funcionalidade em dias aparecem antes da febre, e às vezes no lugar dela. A resposta febril do idoso é atenuada, e por isso a mesma pneumonia que dá 39 graus no adulto jovem dá 37,6 graus na dona Dalva da cena.

O erro que se comete com essa paciente tem nome e endereço: chamar de sem febre quem está com 37,6 graus e tratar a confusão como delirium sem causa. Confusão nova em idoso é sinal de infecção até prova em contrário, e a busca de foco nesse paciente precisa ser feita inteira no mesmo atendimento, porque ele tem menos reserva para esperar o segundo atendimento.

Há um segundo ajuste de calibração que vale só para esse grupo e que muda a classificação de gravidade. Hipotensão no idoso hipertenso não se lê pelo número absoluto. Uma pressão sistólica de 98 milímetros de mercúrio parece aceitável; se a habitual dessa paciente é 150, houve queda de 52 milímetros de mercúrio, e queda maior que 40 já figura entre as disfunções orgânicas usadas para diagnosticar sepse. A pergunta que resolve é feita à família e leva dez segundos: qual é a pressão dela em casa.

No diabético, o ajuste é outro. A glicemia descompensada é frequentemente o primeiro sinal de infecção, e a neuropatia esconde dois focos clássicos: a úlcera de pé infectada, que não dói, e a pielonefrite, que pode cursar com pouca dor lombar. Retirar o sapato e a meia do diabético febril é gesto obrigatório, não preciosismo de exame completo.

O imunossuprimido e o neutropênico: a febre que é emergência antes de ser diagnóstico

Uma fração pequena dos febris que chegam pela porta tem imunidade comprometida, e nela a regra do capítulo se inverte. Corticoide em dose alta, quimioterapia recente, transplante, uso de imunobiológico, infecção pelo vírus da imunodeficiência humana com contagem baixa de linfócitos T CD4 e asplenia produzem o mesmo efeito: o sinal local está apagado. Sem neutrófilo não há pus, sem pus não há sinal flogístico, e sem sinal flogístico o exame físico continua normal com uma infecção instalada por baixo.

O caso extremo é a neutropenia febril, e ele é a primeira das duas exceções em que a primeira dose não espera nada. O protocolo brasileiro do Grupo Hospitalar Conceição fixa o alvo entre o início dos sintomas e o início do antibiótico em 60 minutos, com mortalidade crescente depois desse ponto de corte, e define o caso por contagem absoluta de neutrófilos abaixo de 1.000 por microlitro com temperatura axilar igual ou maior que 37,5 graus em medida única. O paciente conversando e com aparência boa não muda a decisão: o antibiótico entra, e o hemograma é colhido junto, não antes.

Dois sítios pedem exame dirigido nesse paciente, porque são portas de entrada que passam despercebidas: a mucosa oral, com mucosite, e a região perianal. O toque retal não se faz no neutropênico, pelo risco de bacteremia e de sangramento, e a inspeção resolve. O manejo completo da neutropenia febril, incluindo esquema, escalonamento e duração, é do capítulo A febre que não espera, na apostila de Oncologia; o que é da porta é reconhecer, colher e não atrasar.

A outra exceção é a suspeita de meningococcemia. Febre, aparência tóxica e exantema petequial ou purpúrico autorizam a primeira dose antes de qualquer resultado, e a antibioticoterapia recomendada para o adulto com doença meningocócica é ceftriaxona 2 gramas por via endovenosa a cada 12 horas por sete dias. A punção lombar, a indicação de corticoide e o manejo da meningite pertencem ao capítulo de cefaleia no pronto-socorro; o que é daqui é a decisão de não esperar.

A febre que não é infecção

Uma parte dos febris sem foco não tem infecção nenhuma, e a lista é curta o suficiente para ser memorizada. Febre medicamentosa é a primeira e a menos lembrada: paciente clinicamente bem demais para o número da febre, exames sem sinal de infecção, às vezes exantema ou eosinofilia, e uma droga iniciada nas últimas semanas. O tratamento é suspender a suspeita e reavaliar a curva térmica.

Tromboembolismo venoso vem em seguida. Trombose venosa profunda e embolia pulmonar dão febre, quase sempre baixa, e o quadro chega ao pronto-socorro como febre com taquicardia e às vezes com dispneia, sem achado radiológico que explique. Edema assimétrico de panturrilha em quem tem febre é motivo para pensar em anticoagulação, não em antibiótico.

Depois vêm as causas endócrinas e inflamatórias: crise tireotóxica, que se apresenta com febre, taquicardia desproporcional e agitação; doenças reumatológicas em atividade; e neoplasias, sobretudo linfomas, que dão febre arrastada com investigação infecciosa repetidamente negativa. Nenhuma dessas se fecha no pronto-socorro, e nenhuma delas precisa ser fechada lá. O que precisa é não receber o quarto ciclo de antibiótico empírico enquanto ninguém pensa nelas.

Por fim, um grupo que se comporta como febre mas não é: as hipertermias por droga, com hiperatividade muscular e temperatura que não cede a antitérmico. Duas merecem nome próprio na porta. Na síndrome serotoninérgica, o paciente usa antidepressivo inibidor seletivo da recaptação de serotonina, em geral com um segundo agente serotoninérgico associado, e chega agitado, com tremor e hiper-reflexia. Na síndrome neuroléptica maligna, ligada a antipsicótico ou à retirada abrupta de agonista dopaminérgico como a levodopa, o achado dominante é o oposto: rigidez muscular difusa, com sudorese profusa, oscilação pressórica e rebaixamento, e temperatura que pode alcançar 42 graus. Nas duas, a hiperatividade muscular leva a rabdomiólise e a lesão renal aguda, e é por ela que se pede creatinofosfoquinase e se procura mioglobinúria. O reconhecimento completo das toxíndromes é do capítulo de intoxicação exógena, e o exame que as identifica é o conjunto de pupila, pele, tônus e ruídos hidroaéreos, não o termômetro. O que interessa aqui é a regra de saída, e ela é curta: se a temperatura não responde a duas doses adequadas de antitérmico e o paciente tem rigidez, agitação ou pele seca, pare de procurar bactéria, revise a lista de medicamentos em uso e o que foi suspenso nos últimos dias, e comece a procurar droga.

06

Como fechar o diagnóstico

Este é o bloco que decide o capítulo. O interno não erra febre sem foco por desconhecer as doenças; erra porque inverte a ordem. Pede exame antes de examinar, examina antes de perguntar de onde o paciente veio, e decide sobre antibiótico antes de decidir se há disfunção orgânica.

A ordem correta tem seis passos e é sempre a mesma. Primeiro decidir se o paciente está grave agora, porque isso define o relógio. Depois a anamnese de exposição, que é o exame de maior rendimento diagnóstico do plantão e não custa nada. Depois o exame físico feito inteiro. Só então o que pedir, o que não pedir, e o que fazer quando nada disso acha foco.

Passo 1 — Este paciente está séptico agora?

Antes de qualquer hipótese etiológica, responda a uma pergunta binária: há disfunção orgânica? A lista brasileira que o Instituto Latino Americano de Sepse usa em protocolo gerenciado é curta e cabe na beira do leito: hipotensão, com pressão sistólica abaixo de 90, pressão arterial média abaixo de 65 ou hipotensão relativa, sistólica abaixo da basal conhecida — que esta apostila mede como queda de mais de 40 milímetros de mercúrio em relação à habitual; oligúria, com débito urinário igual ou menor que 0,5 mL/kg/h, ou creatinina acima de 2 mg/dL; relação entre pressão parcial de oxigênio e fração inspirada abaixo de 300, ou necessidade de oxigênio para manter saturação acima de 90%; plaquetas abaixo de 100.000 por milímetro cúbico, ou queda de 50% em relação ao maior valor dos últimos três dias; lactato acima do valor de referência, de 2 mmol/L ou 18 mg/dL; rebaixamento do nível de consciência, agitação ou delirium; e elevação de bilirrubinas acima de duas vezes a referência.

Três dessas disfunções são avaliáveis sem nenhum exame, e são as que você deve procurar em menos de um minuto: fale com o paciente e compare com o basal que a família descreve; conte a frequência respiratória por sessenta segundos, com a mão no pulso para o paciente não perceber; e meça a pressão perguntando qual é a habitual. Presença de qualquer disfunção sem outra explicação plausível, em paciente com foco infeccioso presumível, autoriza o diagnóstico de sepse e o início imediato do pacote de tratamento, segundo o mesmo protocolo.

O qSOFA merece um parágrafo próprio porque é o escore mais mal usado da emergência brasileira. Ele tem três componentes: rebaixamento do nível de consciência, frequência respiratória igual ou maior que 22 e pressão sistólica igual ou abaixo de 100. O protocolo do Instituto Latino Americano de Sepse, na revisão de 2026, lembra que a diretriz internacional daquele ano não recomendou o escore para triagem porque ele é pouco sensível, descreve-o como validado para prever deterioração, e conclui que ele não deve ser usado para triagem de suspeita de sepse, e sim, depois de uma triagem feita com critérios mais sensíveis, para identificar quem tem maior risco de morrer. Traduzindo: qSOFA com dois pontos é motivo para priorizar e para chamar ajuda; qSOFA com zero ponto não é motivo para relaxar. Ele responde quem morre, não quem tem sepse.

O lactato entra quando há suspeita de sepse, dentro da primeira hora e encaminhado imediatamente ao laboratório para evitar resultado falsamente elevado. Ele não é sensível o suficiente para servir de porteiro — o paciente pode ter sepse com lactato normal —, mas valor acima de duas vezes a referência institucional é, no protocolo brasileiro, sinal de hipoperfusão que dispara ressuscitação volêmica mesmo sem hipotensão. Se não houver disfunção alguma, você comprou tempo, e o resto deste bloco é sobre como gastar bem esse tempo.

Uma ressalva que muda a conduta de um subgrupo inteiro e que está escrita no próprio protocolo: no paciente com disfunção aparente cujo quadro sugere processo infeccioso atípico, como dengue, malária e leptospirose, a equipe pode optar por seguir fluxo específico, que leve em conta as peculiaridades do atendimento a esses pacientes. Isso não é permissão para ir mais devagar; é o reconhecimento de que a hidratação da dengue grave, a artesunato da malária grave e a penicilina da leptospirose não são o pacote empírico de amplo espectro, e que aplicá-lo aos três seria tratar mal os três.

Passo 2 — A anamnese que acha o foco: sete perguntas e um calendário

Quando o exame não acha, quem acha é a história. As perguntas abaixo levam três minutos somadas, não custam nada e são o que separa uma virose de uma doença de notificação compulsória. Faça todas, sempre, e faça na ordem, porque a primeira resposta reorganiza as seguintes.

Viagem e deslocamento. Esteve fora da cidade nos últimos trinta dias, e onde? A resposta Amazônia legal coloca malária no topo — e, para malária, a pergunta vai aos últimos doze meses e inclui malária anterior, porque há acesso que começa depois de 30 dias e recaída de vivax até um ano depois, como mostra o capítulo Malária: diagnóstico e tratamento, na apostila de Infectologia. A resposta área rural ou de mata no Centro-Oeste, no Sudeste ou no Sul, em quem não tem vacina, coloca febre amarela. Viagem internacional acrescenta a lista do destino. E, como as janelas de incubação são curtas, a data importa tanto quanto o lugar: febre que começou 25 dias depois de uma viagem de três dias à mata não é febre amarela, cuja incubação vai de três a seis dias e, excepcionalmente, até quinze; mas pode perfeitamente ser malária por Plasmodium vivax, que recidiva.

Água. Entrou em contato com água de enchente, esgoto, lama, córrego ou caixa d'água nas últimas três semanas? Trabalha com limpeza urbana, coleta de lixo, desentupimento ou saneamento? A leptospirose incuba de um a trinta dias, com média entre cinco e catorze, e é a doença cuja pergunta o pronto-socorro mais esquece justamente na época em que ela mais aparece, que é depois da chuva.

Animal e mata. Retirou carrapato do corpo, andou em pasto ou capim alto, tem cão que circula em área rural, esteve em cavalo, capivara ou trilha? Na febre maculosa, o tempo de permanência do carrapato no corpo pode ser inferior a oito horas, e a incubação vai de dois a catorze dias, o que significa que muita gente não lembra da picada. Pergunte pelo lugar, não só pelo bicho.

Trabalho, sexo e drogas. A ocupação entrega exposições inteiras: veterinário, tratador, magarefe, laboratorista, agricultor, militar, bombeiro. A pergunta sobre sexo, feita com naturalidade e sem plateia, abre a hipótese de infecção aguda pelo vírus da imunodeficiência humana, que se apresenta como síndrome febril com faringite, adenomegalia e exantema, e a de sífilis secundária. A pergunta sobre uso de droga injetável abre endocardite, abscesso e infecção de partes moles, e muda o exame físico que você vai fazer.

Procedimento, prótese e medicação. Fez algum procedimento nos últimos trinta dias, inclusive dentário, endoscópico ou estético? Tem prótese valvar, prótese ortopédica, marca-passo ou cateter de longa permanência? Está em uso de corticoide, quimioterapia, imunobiológico? Começou alguma medicação nova nas últimas semanas? E, por fim, a pergunta que reordena tudo: tem alguém em casa com o mesmo quadro, e há casos na vizinhança?

Passo 3 — O exame que se faz inteiro, e os sete pontos que se esquece

Febre sem foco é, com frequência desconfortável, febre com foco não procurado. O exame do paciente febril não é o exame de rotina com mais atenção: é uma lista de gestos, e nenhum deles é opcional. Comece descobrindo o paciente. Sem tirar a roupa não existe exame de pele, e sem exame de pele não existe diagnóstico de meningococcemia, de febre maculosa, de erisipela em fase inicial nem de fasciíte.

Pele inteira, e não a pele que aparece: dorso, região sacral, região inguinal, axilas, planta dos pés, espaços interdigitais, couro cabeludo e locais de punção. Procure exantema, petéquia que não some à digitopressão, lesão com bordas delimitadas, área de dor desproporcional ao aspecto, crepitação e a escara de inoculação, que na febre maculosa aparece como lesão de meio a dois centímetros no ponto da picada.

Boca e orofaringe, com lanterna e abaixador: mucosite, abscesso dentário, amigdalite, candidíase, lesões que sugerem imunossupressão. Períneo e região perianal, por inspeção, sobretudo no imunossuprimido e no acamado. Panturrilhas, comparando diâmetros e empastamento, porque trombose venosa profunda dá febre e porque a mialgia de panturrilha é pista de leptospirose. Coluna, com percussão dos processos espinhosos de cima a baixo, procurando o ponto doloroso da espondilodiscite e do abscesso epidural.

Continue com o que a pressa costuma cortar: articulações, uma a uma, procurando a monoartrite quente que muda o destino do paciente; ausculta cardíaca procurando sopro novo, que em febre prolongada com bacteremia sugere endocardite; palpação de fígado, baço e cadeias linfonodais; fundo de olho quando há suspeita de endocardite, de doença disseminada ou de imunossupressão; e, no homem com queixa urinária ou febre sem foco, o toque de próstata, que não se faz apenas no neutropênico.

Terminado o exame, você está numa de três situações. Achou um foco provável, e a investigação passa a ser dirigida a ele. Achou um sinal de gravidade, e o relógio mudou. Ou não achou nada, e essa é a situação mais comum e a que exige mais disciplina, porque é onde nasce o antibiótico desnecessário. Registre no prontuário o que foi examinado, sítio por sítio, com as palavras que o médico do retorno vai precisar: pele inspecionada inteira, dorso examinado, panturrilhas simétricas, orofaringe sem lesão.

Passo 4 — O que pedir na porta, e a hemocultura antes do antibiótico

O painel inicial do adulto febril sem foco é curto e responde a perguntas concretas. Hemograma completo responde por duas vias: leucocitose ou leucopenia com desvio sugerem infecção bacteriana, e plaquetopenia aponta para arbovirose, leptospirose, malária, riquetsiose e sepse. Creatinina, ureia e eletrólitos entram porque compõem a avaliação de disfunção orgânica e porque a leptospirose e a malária grave cursam com lesão renal. Bilirrubinas e transaminases separam o febril com icterícia. Urina tipo 1 entra quando há sintoma urinário, quando o paciente é idoso ou diabético, ou quando não há foco após exame completo.

Hemocultura é o exame mais mal colhido do hospital e o que mais depende de você. A regra é: duas amostras, de duas venopunções distintas, em sítios diferentes, com um par de frascos, aeróbio e anaeróbio, em cada, que é o que o kit de sepse de um protocolo público brasileiro padroniza. Duas coisas decidem o rendimento: o volume de sangue em cada frasco, que está indicado no próprio frasco do sistema usado no seu serviço e que quase ninguém confere, e o número de amostras, porque uma amostra isolada não permite distinguir patógeno de contaminante de pele. O momento ideal é o do calafrio, que corresponde à descarga bacteriana, mas não adie a coleta esperando o calafrio seguinte.

E aqui está a regra que dá o título a este passo: colher antes de administrar o antimicrobiano. O protocolo brasileiro de sepse, na revisão de 2026, pede hemoculturas antes da administração do antibiótico e tão cedo quanto possível — ao menos 20 mL de sangue, de preferência de sítios distintos —, deixa as culturas dos demais sítios pertinentes saírem logo depois da primeira dose quando for preciso, e acrescenta a única exceção que existe: caso não seja possível colher a hemocultura antes da primeira dose, a administração não deve ser postergada. A ordem de prioridade, portanto, é clara e não admite meio-termo. No paciente com disfunção orgânica, o antibiótico não espera; a cultura, se der, vem antes; no paciente sem disfunção, a cultura vem antes porque há tempo, e é justamente esse tempo que compra o diagnóstico.

Os exames que a exposição pede entram junto, e não depois. Gota espessa ou teste rápido para malária em qualquer febril que esteve em área endêmica, com a régua nacional de diagnóstico em menos de 24 horas do início dos sintomas. Sorologia para leptospirose enviada ao laboratório central de saúde pública, com leucograma de urgência quando a hipótese é considerada. Sorologia ou pesquisa de antígeno para dengue conforme o dia de doença, e hemograma com hematócrito e plaquetas na suspeita. Coleta para febre maculosa quando há exposição compatível. Nenhum desses resultados precisa voltar para o tratamento começar, o que nos leva ao passo seguinte.

Imagem entra por pergunta, não por protocolo. Radiografia de tórax quando há sintoma respiratório, hipoxemia, taquipneia ou ausência de foco após exame completo, e ela é obrigatória quando se cogita leptospirose grave, porque a hemorragia pulmonar costuma ser vista antes de ser ouvida. Ultrassonografia à beira do leito responde perguntas objetivas, como hidronefrose, colecistite e derrame. Tomografia entra quando há suspeita de coleção profunda ou quando o quadro neurológico exige, e não como varredura de quem tem febre e exame normal.

Passo 5 — O que não pedir, e o custo de pedir

Proteína C reativa como decisor. Ela sobe em qualquer inflamação, infecciosa ou não, e não separa viral de bacteriana com confiabilidade suficiente para autorizar ou negar antibiótico. Como tendência, medida no retorno, ela ajuda. Como número isolado na porta, ela produz duas decisões erradas com igual frequência: antibiótico em quem tinha virose e alta em quem tinha bacteremia com marcador ainda baixo.

Urocultura em quem não tem sintoma urinário e já tem outro foco. O protocolo municipal de manejo de infecção urinária no adulto é direto ao exigir sintoma além da cultura, e bacteriúria assintomática é achado frequente em idosos e em pessoas sondadas. Tratar a cultura em vez de tratar o paciente encerra a investigação cedo demais, e o foco verdadeiro continua lá.

Painéis sorológicos amplos pedidos em bloco na primeira consulta. Sorologia colhida no primeiro dia de febre para doenças cuja resposta de anticorpos leva dias a semanas devolve resultado negativo que ninguém sabe interpretar, e esse negativo é usado para excluir. Peça a sorologia com a fase da doença em mente e, quando o método depender de amostras pareadas, informe isso ao paciente e ao serviço de vigilância desde a primeira coleta.

Antibiótico como exame diagnóstico. A frase teste terapêutico não existe em febre sem foco no adulto imunocompetente estável. O antibiótico empírico nessa situação faz três coisas ruins de uma vez: reduz o rendimento das culturas, produz melhora inespecífica que é lida como confirmação e cria efeito adverso e resistência sem indicação. Se a hipótese for uma doença tratável empiricamente, trate essa doença com o esquema dela — doxiciclina para riquetsiose, doxiciclina ou amoxicilina para leptospirose —, não com espectro largo genérico.

E, no topo da lista do que não fazer, o anti-inflamatório. O manual nacional de dengue determina não utilizar salicilatos, anti-inflamatórios não esteroides nem corticosteroides, e registra que a hemorragia digestiva grave é mais frequente em quem tem história de úlcera ou gastrite e em quem usou ácido acetilsalicílico, anti-inflamatório não esteroide ou anticoagulante. Enquanto arbovirose estiver na lista — e no Brasil, em paciente febril com dor no corpo, ela quase sempre está —, o analgésico é dipirona ou paracetamol.

Passo 6 — O que existe no SUS, e o que fazer quando não se acha foco nenhum

Quase tudo o que este capítulo indica está disponível na rede pública, e saber por qual porta muda a conduta. Pela Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024, dipirona, paracetamol, amoxicilina e ceftriaxona estão no Componente Básico, que é o do município. Doxiciclina, em comprimido, comprimido solúvel e pó para solução injetável, e o cloranfenicol em suspensão oral estão no Componente Estratégico, distribuído pelo Ministério da Saúde. Todos os antimaláricos — arteméter com lumefantrina, artesunato, artesunato com mefloquina, cloroquina, primaquina e tafenoquina — também estão no Componente Estratégico, o que significa que não se compra em farmácia e que o serviço precisa acioná-los pela vigilância.

Duas consequências práticas disso. A primeira: doxiciclina endovenosa e cloranfenicol líquido não estão na farmácia do pronto-socorro médio, e a febre maculosa suspeitada às três da manhã exige que alguém acione o serviço de vigilância. Saber disso antes de precisar é o que evita perder as primeiras horas. A segunda: o diagnóstico e o tratamento da malária são gratuitos e organizados em rede própria, com notificação em até 24 horas na região extra-amazônica e em até sete dias na região amazônica, e com registro no sistema de informação específico.

Feito tudo isso, sobra a situação mais comum do plantão: paciente febril, exame normal, exames iniciais sem foco, sem disfunção orgânica. Ela é a que mais gera antibiótico desnecessário, porque não fazer nada parece omissão. Não é. A conduta aqui tem nome e tem conteúdo: culturas colhidas, exposição documentada, exame inteiro registrado, sintomático prescrito, e reavaliação marcada com hora, com quem e onde.

A regra de decisão fica assim. Sem disfunção orgânica, imunocompetente, com condições de retorno e com quem o observe em casa: alta com retorno em 24 a 48 horas e lista escrita de sinais de alarme. Sem disfunção, mas com fragilidade — idoso, diabético descompensado, morador de rua, sem quem observe, sem transporte, quinto dia de arbovirose — observação de 6 a 12 horas ou internação, porque a limitação não é clínica e sim social, e o desfecho não distingue as duas. Com disfunção orgânica, com neutropenia ou com suspeita de meningococcemia: tratamento imediato, com o resto sendo feito em paralelo.

E, em qualquer dos casos, existe uma lista curta do que se esconde bem e que precisa ser revista antes de você encerrar: abscesso profundo, endocardite, espondilodiscite, tuberculose, infecção do sistema nervoso central sem rigidez de nuca, malária, e a febre que não é infecção. Passar essa lista mentalmente leva vinte segundos e é o último filtro antes de escrever a alta.

07

Decidir na porta: o fluxo, as sete perguntas e quem recebe antibiótico agora

Aprenda a usar gravidade, tempo de doença e exposições para conduzir febre sem foco. Um exame inicial normal não exclui doença em evolução, e investigação deve responder a hipóteses.

  1. 11. Confirme a temperatura e o método, e pergunte se o paciente tomou antitérmico e a que horas. Afebril medicado não é afebril.
  2. 22. Conte a frequência respiratória por sessenta segundos. É o sinal vital que mais falta na ficha e o que mais antecipa deterioração.
  3. 33. Meça a pressão e pergunte à família qual é a habitual. Queda maior que 40 milímetros de mercúrio conta como disfunção mesmo com número que parece normal.
  4. 44. Fale com o paciente e compare com o basal descrito por quem o trouxe. Confusão nova em idoso é sinal de infecção, não de idade.
  5. 55. Se houver qualquer disfunção orgânica com suspeita de infecção, o diagnóstico é sepse: siga o pacote de 1 hora e o capítulo de sepse, e chame ajuda.
  6. 66. Se o paciente for neutropênico ou tiver exantema petequial com aparência tóxica, pare aqui: a primeira dose entra agora, e as culturas saem junto, não antes.
  7. 77. Sem disfunção e sem essas duas exceções, faça as sete perguntas de exposição: viagem, água, animal e mata, trabalho, sexo, drogas, procedimento e prótese.
  8. 88. Situe a febre no calendário: data de início, número de dias, e compatibilidade entre a exposição e o período de incubação de cada hipótese.
  9. 99. Faça o exame inteiro, com o paciente despido e virado: pele toda, boca, períneo, panturrilhas, coluna, articulações, sopro novo, e próstata ou fundo de olho quando indicado.
  10. 1010. Colha o que responde a uma pergunta: duas hemoculturas de sítios distintos, com par de frascos aeróbio e anaeróbio em cada, hemograma, função renal, transaminases e bilirrubinas, e o exame que a exposição pediu, incluindo gota espessa em quem esteve em área endêmica.
  11. 1111. Decida sobre o antimicrobiano pela tabela de quem não pode esperar. Foco definido, disfunção, neutropenia, imunossupressão grave, suspeita de meningococcemia, leptospirose ou febre maculosa: agora. Estável, imunocompetente, sem foco: aguardar.
  12. 1212. Prescreva antitérmico para conforto, com dose e intervalo, e sem anti-inflamatório enquanto arbovirose estiver na lista.
  13. 1313. Notifique o que é de notificação compulsória e registre no prontuário o que foi examinado, o que foi colhido e o que foi dispensado, com o motivo.
  14. 1414. Decida o destino e escreva o retorno: hora, local, com quem, e a lista de sinais de alarme entregue por escrito ao paciente e a quem o acompanha.

As sete perguntas de exposição e o que cada resposta coloca na lista

PerguntaResposta que muda a listaO que entraO que fazer ainda neste atendimento
Esteve fora da cidade nos últimos 30 dias, e onde? Para malária, nos últimos doze meses — e já teve malária?Amazônia legal, garimpo, terra indígena, ou viagem internacional a área endêmicaMalária, e a lista do destinoGota espessa ou teste rápido no mesmo atendimento, com meta nacional de diagnóstico em menos de 24 horas do início dos sintomas; notificação imediata na região extra-amazônica
Esteve em área rural, de mata ou de cerrado, e tem vacina de febre amarela?Deslocamento a área silvestre nos últimos 15 dias, sem vacinaçãoFebre amarela, com incubação de três a seis dias e até quinze em casos esporádicosTransaminases, bilirrubinas, função renal e coagulograma; internação de todo caso suspeito de forma moderada ou grave; notificação
Teve contato com água de enchente, esgoto, lama ou lixo?Exposição nos últimos 30 dias, em geral entre cinco e catorze dias antesLeptospirose, sobretudo com mialgia de panturrilha e sufusão conjuntivalLeucograma de urgência, sorologia ao laboratório central, radiografia de tórax se houver qualquer sintoma respiratório, e antibiótico na suspeita
Retirou carrapato, andou em pasto ou capim alto, tem cão de sítio?Exposição nos últimos catorze dias, mesmo sem lembrar da picadaFebre maculosa, com ou sem exantemaDoxiciclina imediatamente na suspeita, sem esperar confirmação; procurar escara de inoculação; notificação
Qual é a sua profissão, e o que você faz nela?Limpeza urbana, saneamento, agricultura, veterinária, matadouro, laboratório, resgateLeptospirose, brucelose, riquetsiose, exposições ocupacionais específicasDocumentar a exposição no prontuário; a informação orienta a vigilância e a investigação de surto
Teve parceria sexual nova, e usa alguma droga injetável?Prática sexual desprotegida recente; uso de droga injetávelInfecção aguda pelo vírus da imunodeficiência humana, sífilis, endocardite, abscesso de partes molesOferecer teste rápido; auscultar procurando sopro novo; inspecionar locais de punção e articulações
Fez procedimento nos últimos 30 dias, ou tem prótese ou cateter?Procedimento invasivo, inclusive dentário; prótese valvar ou ortopédica; marca-passo; cateter de longa permanênciaBacteremia relacionada a dispositivo, endocardite, infecção de próteseHemoculturas antes do antibiótico; exame do sítio; contato com a equipe que implantou o dispositivo

Quem recebe antimicrobiano agora e quem pode aguardar investigação

SituaçãoDecisãoPor quê
Febre com qualquer disfunção orgânica e foco infeccioso presumívelAgora, dentro da primeira hora, com culturas colhidas antes se isso não atrasar a doseIsso é sepse pela definição usada em protocolo gerenciado no Brasil, e o atraso da primeira dose é o fator modificável de maior peso
Neutropenia febrilAgora, com alvo de 60 minutos entre o início dos sintomas e a dose, mesmo sem foco e com o paciente conversandoSem neutrófilo não há sinal local, e a mortalidade cresce a partir desse ponto de corte
Febre com exantema petequial ou purpúrico e aparência tóxicaAgora, com ceftriaxona por via endovenosaMeningococcemia tem letalidade geralmente acima de 40%, com a maioria dos óbitos nas primeiras 48 horas
Suspeita de febre maculosa por exposição compatível, com ou sem exantemaAgora, com doxiciclina, sem aguardar confirmação laboratorialA letalidade da forma grave não tratada pode chegar a 80%, e o exantema pode estar ausente
Suspeita de leptospiroseAgora, ajustando a droga à fase e à gravidadeA antibioticoterapia começa na suspeita, e a eficácia é maior na primeira semana de sintomas
Foco definido que exige tratamento por si, como pielonefrite, pneumonia, erisipela ou colangiteAgora, dirigido ao focoA decisão já foi tomada pelo diagnóstico, e esperar cultura não a muda
Suspeita de dengue, Zika ou chikungunya sem sinal de outra infecçãoNão iniciar antimicrobiano; classificar, hidratar e reavaliarSão doenças virais, e a decisão que salva é hidratação e reavaliação, não antibiótico
Adulto imunocompetente, estável, sem disfunção e sem foco após exame completoAguardar, com culturas colhidas, sintomático prescrito e reavaliação marcada em 24 a 48 horasO tempo comprado é o que permite achar o diagnóstico; o antibiótico aqui mascara o quadro e não trata a lista mais provável

As febres brasileiras da porta: exposição, janela, pista e o que não espera confirmação

DoençaExposição e janelaPista clínica que mais ajudaConduta que começa na suspeita
MaláriaPermanência em área endêmica, sobretudo Amazônia legal; recidivas de Plasmodium vivax podem ocorrer meses depoisFebre com calafrio intenso e sudorese, em paroxismos; plaquetopenia; exame físico pobreGota espessa, esfregaço ou teste rápido em menos de 24 horas do início dos sintomas; tratamento pela espécie identificada, com medicamentos do Componente Estratégico; se negativa e a suspeita persiste, repetir em 24 ou 48 horas
LeptospiroseÁgua de enchente, esgoto, lama, roedores; incubação de 1 a 30 dias, média de 5 a 14Mialgia intensa de panturrilha e lombar; sufusão conjuntival em cerca de 30%; icterícia rubínica entre o terceiro e o sétimo diaFase precoce: doxiciclina 100 mg por via oral a cada 12 horas por 5 a 7 dias, ou amoxicilina 500 mg por via oral a cada 8 horas por 5 a 7 dias. Fase tardia ou sinal de alerta: penicilina cristalina 1.500.000 UI por via intravenosa a cada 6 horas, ou ceftriaxona 1 a 2 g por via intravenosa a cada 24 horas, por pelo menos sete dias
Febre maculosaCarrapato, pasto, mata, cão de sítio; permanência do carrapato pode ser inferior a oito horas; incubação de 2 a 14 diasExantema maculopapular do segundo ao sexto dia, que pode faltar; escara de inoculação de 0,5 a 2 cm; cefaleia e mialgia intensasDoxiciclina 100 mg por via oral ou endovenosa a cada 12 horas, mantida por pelo menos sete dias e até três dias após o fim da febre, conforme evolução/protocolo; na impossibilidade, cloranfenicol 500 mg por via oral a cada 6 horas; no caso grave, a via venosa do SUS é a doxiciclina injetável — o cloranfenicol venoso do Guia não existe no elenco (Um carrapato, uma membrana, uma pálpebra, um cisto e um gato, na apostila de Infectologia)
Dengue e demais arboviroses urbanasÁrea com transmissão; febre alta de 2 a 7 dias na dengue, 2 a 3 dias na chikungunya, subfebril de 1 a 2 dias na ZikaDor retro-orbitária, exantema do terceiro ao sexto dia na dengue e do segundo ao quinto na chikungunya; artralgia intensa aponta chikungunya; conjuntivite frequente aponta ZikaClassificar e hidratar conforme o manual nacional; antitérmico com dipirona ou paracetamol; proibidos salicilato, anti-inflamatório não esteroide e corticosteroide; o manejo completo está no capítulo de dengue, Zika e chikungunya
Febre amarelaÁrea silvestre sem vacinação; incubação de 3 a 6 dias, até 15 em casos esporádicosFebre alta de início súbito, cefaleia intensa, sinal de Faget; apresentação bifásica com remissão de 6 a 48 horas entre o terceiro e o quinto diaInternar todo caso suspeito de forma moderada ou grave; hidratação com manutenção da euvolemia; vacinar após a alta os casos não confirmados; notificação
Doença meningocócicaContato próximo com caso; qualquer idade; quadro que evolui em horasPetéquia ou púrpura que não some à digitopressão, aparência tóxica, rigidez de nuca quando há meningiteCeftriaxona 2 g por via endovenosa a cada 12 horas por sete dias no adulto; isolamento e notificação imediata; quimioprofilaxia dos contatos organizada pela vigilância

O que pedir e o que não pedir no adulto febril sem foco

ExameO que ele respondeQuando pedirQuando não pedir
Hemograma completoSugere infecção bacteriana por leucocitose ou leucopenia com desvio, e aponta arbovirose, malária e leptospirose pela plaquetopeniaEm praticamente todo febril sem focoNão há situação em que atrapalhe; o que atrapalha é decidir só por ele
Duas hemoculturas de sítios distintos, quatro frascosIdentifica o agente e permite descalonar depoisSuspeita de sepse, calafrio com tremor, febre em imunossuprimido, prótese ou dispositivo, febre prolongadaUma amostra só, ou frascos com volume abaixo do indicado pelo fabricante, entrega resultado que não distingue patógeno de contaminante
Gota espessa, esfregaço ou teste rápido para maláriaConfirma ou afasta malária, e identifica a espécieQualquer febril que esteve em área endêmica, no mesmo atendimentoNão substitua pela sorologia nem adie para o dia seguinte; se negativa com suspeita mantida, repita em 24 ou 48 horas
Função renal, eletrólitos, transaminases e bilirrubinasCompõem a avaliação de disfunção orgânica e separam o febril com icteríciaFebre com qualquer sinal de gravidade, icterícia, idoso, diabético, suspeita de leptospirose ou febre amarelaDispensável no jovem com um dia de febre, exame normal e retorno garantido
Lactato arterialSinaliza hipoperfusão e dispara ressuscitação volêmica quando acima de duas vezes a referênciaSempre que houver suspeita de sepse, dentro da primeira hora e enviado imediatamenteNão use como porteiro: lactato normal não afasta sepse
Urina tipo 1 e uroculturaIdentificam foco urinárioSintoma urinário, idoso, diabético, gestante, ou ausência de foco após exame completoSem sintoma urinário e com outro foco já identificado; bacteriúria sem sintoma não se trata e encerra a investigação cedo demais
Radiografia de tóraxMostra consolidação, derrame e infiltrado da hemorragia pulmonarSintoma respiratório, hipoxemia, taquipneia, ausência de foco, ou suspeita de leptospirose graveRepetição diária sem mudança clínica não acrescenta
Proteína C reativaConfirma inflamação, sem dizer de que tipoComo tendência, comparada entre a porta e o retornoComo decisor isolado de antibiótico na primeira consulta
Tomografia de corpo inteiro como varreduraNada que a história e o exame já não tenham perguntado melhorSuspeita dirigida de coleção profunda ou de doença do sistema nervoso centralNo febril estável, sem foco e com exame normal, ela adia a reavaliação e expõe o paciente sem mudar conduta

Os cortes de temperatura mudam com o propósito do documento e com o hospedeiro, não com a fisiologia: acima de 38 nos critérios de vigilância de infecção, 37,8 axilares em vários protocolos de triagem de sepse, 37,5 axilares em medida única no neutropênico pelo protocolo brasileiro do Grupo Hospitalar Conceição. Use o corte do documento que você está seguindo e escreva no prontuário qual foi.

As três faixas percentuais das formas clínicas de febre amarela, no Guia de Vigilância em Saúde, não fecham entre si, e a conta é curta. O texto diz que as formas leves ou assintomáticas representam de 40% a 60% dos casos, que as formas leves e moderadas representam de 20% a 60%, e que as graves e malignas representam de 20% a 40%. A segunda faixa contém a primeira, e mesmo assim tem piso mais baixo, o que é impossível; e a soma dos limites superiores das faixas exclusivas chega a 160%. Os números só fecham nos extremos, com 60% de leves e 40% de graves. A leitura segura é qualitativa e é a que muda conduta: a maioria dos casos é leve, e uma minoria relevante evolui para forma grave, com letalidade de 20% a 50% dentro dessa minoria.

Ainda sobre número que não fecha, agora no escore de risco da neutropenia febril. A tabela do protocolo do Grupo Hospitalar Conceição soma, no máximo, 26 pontos: 5 de estado geral bom, 5 de ausência de hipotensão, 4 de ausência de doença pulmonar obstrutiva crônica, 4 de tumor sólido ou neoplasia hematológica sem infecção fúngica prévia, 3 de ausência de desidratação, 3 de paciente ambulatorial e 2 de idade abaixo de 60 anos. O protocolo define baixo risco como pontuação acima de 21; o corte validado, descrito na revisão brasileira sobre o tema, é pontuação igual ou superior a 21, com valor preditivo positivo de 91%. Enumerando as 192 combinações possíveis daquela tabela, 14 alcançam 21 ou mais e 6 delas pontuam exatamente 21: ler acima de 21 em vez de a partir de 21 reclassifica como alto risco 6 dos 14 perfis de baixo risco, quase metade. Na porta o efeito é internar quem poderia ir para casa; e, como internação de neutropênico não é decisão sem custo, vale conferir o sinal do corte antes de aplicá-lo.

Notificação não é burocracia de fim de plantão: malária, leptospirose, febre maculosa, febre amarela, doença meningocócica, dengue e as demais arboviroses são de notificação compulsória, e algumas delas em até 24 horas. A ficha preenchida no atendimento é o que aciona a investigação de contatos, a quimioprofilaxia e o bloqueio, e nenhuma delas acontece se a notificação esperar a confirmação laboratorial.

A febre sem foco esbarra num critério que perdeu o número. O ILAS listava entre as disfunções, em agosto de 2018, a queda maior que 40 mmHg da pressão habitual; na revisão de julho de 2026, escreve só sistólica inferior à basal conhecida. Tomado à letra, o febril que vive em 120 e chega com 112 teria disfunção orgânica por 8 mmHg, e quase todo febril vasodilatado viraria séptico. O documento conserva os 40 mmHg quando define o hipotenso candidato a volume, e a diretriz internacional de 2026 que o embasa exige queda acentuada; com essas duas âncoras, esta apostila adota a queda de mais de 40 mmHg da sistólica habitual como régua de hipotensão relativa, e a leitura sem número fica anotada aqui, datada, sem uso.

O volume da ressuscitação também pede leitura. Quando a revisão de 2026 do ILAS escreve até 30 mL/kg, do início na primeira hora ao fim em 3 horas, e ao mesmo tempo manda registrar a reposição incompleta, pressupõe um volume esperado; a diretriz internacional de 2026, sobre a qual o protocolo se apoia, fala em pelo menos 30 mL/kg nesse prazo. Assim, esta apostila adota 30 mL/kg como volume de referência, iniciado na primeira hora e terminado em até 3 horas, com volume menor decidido por fluido-tolerância ou falta de resposta e com o motivo escrito no prontuário. Num adulto de 70 kg, 30 × 70 dá 2.100 mL.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo abaixo começa no momento em que você pega a ficha. Toda dose citada vem com o documento que a sustenta: as doses de antimicrobiano vêm do Guia de Vigilância em Saúde na edição de 2024; as de antitérmico, das bulas profissionais aprovadas pela Anvisa e do manual nacional de dengue; e as medidas de ressuscitação, do protocolo clínico do Instituto Latino Americano de Sepse.

  1. 0 a 10 minutos — à beira do leito, antes de qualquer hipótese

    Vá ao leito, olhe o paciente inteiro de longe antes de tocá-lo e responda à única pergunta que muda o relógio: há disfunção orgânica? Três gestos bastam para começar: falar, contar a respiração e medir a pressão comparando com a habitual. Nada mais é prioridade enquanto isso não estiver respondido.

    Prescrição
    • Sinais vitais completos, incluindo temperatura axilar e frequência respiratória contada por sessenta segundos, repetidos a cada 4 horas ou antes se houver mudança
    • Glicemia capilar em todo febril com alteração de comportamento, em diabético e em etilista
    • Oximetria de pulso; oxigênio suplementar por cateter nasal de 1 a 3 L/min titulado para saturação acima de 94%, se houver hipoxemia
    • Acesso venoso periférico calibroso em quem tem qualquer sinal de gravidade; nos demais, acesso conforme a necessidade da coleta
    • Registro no prontuário da data de início da febre, do último antitérmico tomado e do horário
  2. 10 a 60 minutos — o paciente com disfunção orgânica

    Disfunção orgânica com foco infeccioso presumível é sepse, e a partir daqui o capítulo que comanda é o de sepse. O que é específico do febril sem foco é uma coisa só: sem foco identificado, a escolha do antimicrobiano empírico se faz pela epidemiologia e pela porta de entrada mais provável, e a busca do foco continua em paralelo com o tratamento, não depois dele. Se a hipótese for dengue grave, malária grave ou leptospirose, o protocolo brasileiro autoriza expressamente o fluxo específico daquela doença, que não é o esquema empírico de amplo espectro.

    Prescrição
    • Lactato quando houver suspeita de sepse/hipoperfusão; a coleta venosa pode ser suficiente, sem exigir punção arterial apenas para dosá-lo. Gasometria arterial depende da necessidade de avaliar oxigenação e ventilação.
    • Hemograma completo, creatinina, ureia, eletrólitos, bilirrubinas, transaminases e coagulograma
    • Duas hemoculturas de sítios distintos, com par de frascos aeróbio e anaeróbio em cada, e culturas dos demais sítios pertinentes, colhidas antes do antimicrobiano sempre que isso não atrase a primeira dose
    • Na hipoperfusão induzida por sepse ou choque séptico, cristaloide com referência inicial de 30 mL/kg nas primeiras 3 horas, individualizado e reavaliado em alíquotas. Avaliar resposta de perfusão, responsividade e sinais de congestão; lactato elevado isoladamente não determina volume ilimitado. Doenças como dengue e causas não infecciosas de choque requerem fluxos específicos.
    • Na hipotensão persistente ou choque instável, iniciar noradrenalina precocemente, inclusive em paralelo ao volume quando necessário. Não esperar completar 30 mL/kg ou transcorrer 30–40 minutos de hipotensão. Acesso periférico adequado e vigiado pode evitar atraso enquanto se organiza acesso definitivo.
    • Antimicrobiano endovenoso de amplo espectro dirigido ao foco suspeito dentro da primeira hora, seguindo a padronização do serviço de controle de infecção da instituição
  3. 0 a 60 minutos — as duas febres cuja primeira dose não espera nada

    Duas situações invertem a regra do capítulo. Na neutropenia febril, a meta é iniciar antibiótico até 60 minutos do reconhecimento, o mais cedo possível, e o paciente que se sente bem é exatamente o que mais engana. Na suspeita de meningococcemia, febre com exantema petequial ou purpúrico e aparência tóxica autoriza a dose antes de qualquer resultado, porque a letalidade fica geralmente acima de 40% e a maioria dos óbitos ocorre nas primeiras 48 horas.

    Prescrição
    • Suspeita de neutropenia febril: hemograma com contagem absoluta de neutrófilos e hemoculturas antes do antimicrobiano se obtidas rapidamente, sem atrasar o tratamento. Iniciar esquema empírico com atividade antipseudomonas tão cedo quanto possível, com meta de até 60 minutos do reconhecimento/triagem; não esperar o hemograma em paciente de alto risco com forte suspeita.
    • Neutropenia febril: inspeção da mucosa oral e da região perianal sem toque retal, pelo risco de bacteremia e sangramento
    • Suspeita de meningococcemia: ceftriaxona 2 g por via endovenosa a cada 12 horas, por sete dias no adulto, conforme o Guia de Vigilância em Saúde
    • Suspeita de meningococcemia: precaução para gotículas nas primeiras 24 horas de tratamento, notificação imediata e comunicação à vigilância para quimioprofilaxia dos contatos
    • Nas duas: reserva de leito monitorado e comunicação ao plantonista responsável no mesmo momento da prescrição
  4. 0 a 60 minutos — o antitérmico, que é decisão clínica e não gentileza

    Antitérmico se prescreve para conforto, não para número, e a escolha tem consequência. Enquanto arbovirose estiver na lista, o manual nacional de dengue determina não utilizar salicilatos, anti-inflamatórios não esteroides nem corticosteroides, e a razão é sangramento. Registre no prontuário a hora de cada dose, porque a curva térmica é o instrumento de acompanhamento do paciente sem diagnóstico. E existe um cenário em que o antitérmico é a conduta errada por construção: quando a temperatura vem de hiperatividade muscular, e não do hipotálamo. Aí o que baixa a temperatura é medida física, sedação e retirada do agente.

    Prescrição
    • Dipirona 500 mg por via oral a cada 6 horas, se necessário, para desconforto, conforme o manual nacional de dengue
    • Dipirona solução injetável 500 mg/mL, 2 mL (1 g) por via endovenosa a cada 6 horas, se necessário, injetada muito lentamente e sem exceder 1 mL por minuto, conforme a bula profissional; a mesma bula recomenda cautela com doses únicas parenterais acima de 1 g e fixa o teto diário em 10 mL, equivalentes a 5 g
    • Paracetamol 500 mg por via oral a cada 4 a 6 horas, podendo chegar a 1 g por dose a cada 6 horas, sem exceder 4 g em 24 horas, conforme a bula profissional e o manual nacional de dengue
    • Não prescrever ácido acetilsalicílico, anti-inflamatório não esteroide nem corticosteroide enquanto dengue ou outra arbovirose estiver na lista
    • Não prescrever antitérmico de horário automático em paciente cuja febre é o único parâmetro de acompanhamento: prescreva se necessário, com registro do horário de cada administração
    • Se a temperatura não ceder a antitérmico e houver rigidez, tremor ou agitação: suspender o agente suspeito, iniciar resfriamento por medidas físicas e sedar com benzodiazepínico, evitando haloperidol na suspeita de síndrome serotoninérgica, conforme o manual de toxicologia clínica da vigilância municipal de São Paulo
    • Hipertermia acima de 41 graus ou refratária às medidas acima: considerar sedação, bloqueio neuromuscular e intubação orotraqueal, e acionar o centro de informação toxicológica
    • Hipertermia com rabdomiólise por hiperatividade muscular não controlada por outros métodos, como na síndrome neuroléptica maligna: dantroleno 2 a 3 mg/kg por via intravenosa em bolus, repetido a cada 5 a 10 minutos até o máximo de 10 mg/kg por dia, infundido em acesso venoso exclusivo; associar hidratação venosa generosa para manter fluxo renal, pela mioglobinúria
    • Na síndrome serotoninérgica refratária ao benzodiazepínico e ao resfriamento: ciproeptadina 12 mg por via oral ou por sonda, seguidos de 4 mg por hora por 3 a 4 doses
  5. 1 a 3 horas — o paciente sem disfunção: a hora que você comprou

    Aqui o tempo está do seu lado, e usá-lo é a conduta. Complete a anamnese de exposição, faça o exame com o paciente despido e virado, e colha o que responde a uma pergunta. Este é o marco em que o diagnóstico costuma aparecer, e é também o marco que a fila faz o interno pular.

    Prescrição
    • Hemoculturas quando houver suspeita relevante de bacteremia, sepse, endocardite, imunossupressão de risco ou outra indicação específica. Não são rotina em todo adulto saudável com febre breve sem foco e avaliação tranquilizadora.
    • Selecionar exames pela duração, gravidade, comorbidades e hipóteses. Hemograma, função renal e provas hepáticas podem ser úteis, mas não constituem painel obrigatório para qualquer febre aguda de baixo risco.
    • Urina e urocultura quando a hipótese urinária for plausível. Idade ou diabetes isoladamente não justificam pesquisa/tratamento de bacteriúria; em febre sistêmica sem foco, avaliar a indicação no contexto e evitar atribuir causalidade automática a um resultado positivo.
    • Gota espessa, esfregaço ou teste rápido para malária em todo paciente que esteve em área endêmica, com o resultado buscado no mesmo atendimento
    • Radiografia de tórax se sinais, sintomas ou risco sustentarem hipótese pulmonar, inclusive hipoxemia/taquipneia e suspeita de leptospirose grave. Ausência de foco, isoladamente, não obriga imagem em todo paciente de baixo risco.
    • Reavaliação médica com sinais vitais completos em até 3 horas, com gatilhos escritos: novo pico acima de 38,5, queda de pressão, frequência respiratória acima de 24, sonolência, sangramento ou surgimento de exantema
  6. 1 a 3 horas — quando a exposição aponta: o antibiótico dirigido

    Quando a história entrega a exposição, o tratamento deixa de ser empírico e passa a ser dirigido, e ele começa na suspeita. Nas três doenças abaixo, aguardar confirmação laboratorial é uma decisão com mortalidade conhecida, e o Guia de Vigilância em Saúde é explícito em pedir que o tratamento seja iniciado antes do resultado.

    Prescrição
    • Febre maculosa suspeitada: doxiciclina 100 mg por via oral ou endovenosa a cada 12 horas, conforme a gravidade, mantida por três dias após o término da febre, em geral por sete dias no total; a doxiciclina deve ser priorizada sempre que possível
    • Febre maculosa, quando a doxiciclina não for possível: cloranfenicol 500 mg por via oral a cada 6 horas, mantido por três dias após o fim da febre; nos casos graves, doxiciclina injetável, pedida à vigilância — o cloranfenicol venoso que o Guia prescreve não existe no elenco do SUS (Um carrapato, uma membrana, uma pálpebra, um cisto e um gato, na apostila de Infectologia)
    • Leptospirose em fase precoce: doxiciclina 100 mg por via oral a cada 12 horas por 5 a 7 dias, contraindicada em gestante e em portador de nefropatia ou hepatopatia; alternativa, amoxicilina 500 mg por via oral a cada 8 horas por 5 a 7 dias
    • Leptospirose com sinal de alerta ou em fase tardia: penicilina cristalina 1.500.000 UI por via intravenosa a cada 6 horas, ou ceftriaxona 1 g por via intravenosa a cada 24 horas, subindo para 2 g por dia quando houver dúvida diagnóstica, ou ampicilina 1 g por via intravenosa a cada 6 horas; o tratamento intravenoso dura pelo menos sete dias
    • Malária confirmada: tratamento definido pela espécie identificada, com os medicamentos do Componente Estratégico distribuídos pelo Ministério da Saúde, e notificação — imediata, em até 24 horas, fora da região amazônica; semanal, pelo Sivep-Malária, dentro dela —; o esquema por espécie, peso e idade está no capítulo Malária: diagnóstico e tratamento, na apostila de Infectologia, e não se improvisa no plantão
    • Suspeita de dengue sem sinal de alarme: sem antimicrobiano, com hidratação oral prescrita em mililitros, sintomático e retorno no dia da melhora da febre; a classificação e a hidratação por grupo estão no capítulo de dengue, Zika e chikungunya
  7. 3 a 12 horas — a decisão de destino, que é a decisão do capítulo

    A decisão que mais machuca em febre sem foco não é a de tratar: é a de liberar. Ela se toma com três perguntas, e nenhuma delas é sobre a temperatura. Este paciente tem disfunção orgânica ou fator de risco que o coloque perto dela? Existe hipótese de prazo curto ainda em aberto? E existe quem o observe em casa e o traga de volta se piorar?

    Prescrição
    • Internar: qualquer disfunção orgânica, neutropenia febril, suspeita de meningococcemia, leptospirose com sinal de alerta, febre amarela em forma moderada ou grave, dengue nos grupos que exigem leito, febre em imunossuprimido grave, e febre com foco que exige antimicrobiano endovenoso
    • Observar de 6 a 12 horas: febre com resposta incompleta ao sintomático, idoso com exame ainda pobre, diabético descompensado, quinto dia de arbovirose, exame inicial normal com paciente que impressiona mal, e todo caso em que você não conseguiu garantir o retorno
    • Alta possível no imunocompetente estável, com avaliação tranquilizadora, hipóteses urgentes suficientemente avaliadas, tolerância oral e retorno viável. Culturas somente quando indicadas; se colhidas, combinar como os resultados serão acompanhados.
    • Em todos os liberados: retorno agendado em 24 a 48 horas, com local, horário e nome do serviço escritos na receita
    • Contato telefônico do serviço registrado na orientação de alta, e busca ativa quando o paciente com suspeita de doença de notificação não comparecer ao retorno
  8. Alta, retorno e notificação

    A alta do febril sem diagnóstico exige três coisas escritas, e é aqui que o interno costuma soltar a mão. Sem elas, o paciente volta pior para outro médico que não sabe o que já foi feito, e a única informação transmitida é a palavra virose.

    Prescrição
    • Prescrição com dose, via, frequência e duração de cada medicamento, incluindo o antitérmico e o que foi proibido, com o motivo escrito
    • Lista de sinais de alarme entregue por escrito ao paciente e a quem o acompanha: sangramento de qualquer tipo, manchas roxas na pele, dor abdominal intensa, vômitos persistentes, sonolência ou irritabilidade, falta de ar, diminuição do volume de urina, tontura ao levantar, e febre que persiste além do quinto dia
    • Resumo de alta com a data de início da febre, a exposição documentada, o exame físico feito, os exames colhidos e os resultados pendentes, com o telefone para checagem
    • Notificação preenchida no atendimento para malária, leptospirose, febre maculosa, febre amarela, doença meningocócica, dengue e demais arboviroses, sem esperar a confirmação laboratorial
    • Registro de quem foi comunicado: preceptor, plantonista, vigilância epidemiológica e serviço de controle de infecção quando pertinente
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Como saber se está funcionando

A pergunta que o internato não ensina é esta: como sei, daqui a um ou dois dias, se o que decidi estava certo? Em febre sem foco a resposta é mais difícil do que parece, porque o parâmetro mais visível, a temperatura, é o que responde mais devagar e o mais fácil de mascarar com antitérmico. O que se acompanha, então, são perfusão, função orgânica e a evolução do quadro na direção de um foco.

Vale uma regra de ouro antes da tabela: em febre sem foco, não melhorar não significa antibiótico errado. Significa, na maioria das vezes, diagnóstico errado. Reveja a hipótese antes de trocar a droga.

Estado geral e nível de consciênciaEm até 3 horas na observação; no retorno de 24 a 48 horas em quem foi para casa

Esperado: Paciente mais interativo, aceitando líquidos, de pé sem tontura. No idoso, a confusão que era nova regride junto com o quadro.

Se não melhora: Rebaixamento novo ou progressivo é deterioração, não febre. Reavalie disfunção orgânica, meça glicemia, considere infecção do sistema nervoso central, malária grave e leptospirose, e chame ajuda.

Frequência respiratóriaA cada aferição de sinais vitais

Esperado: Queda progressiva junto com a febre

Se não melhora: Frequência acima de 24, ou acima de 28 na suspeita de leptospirose, é sinal de alerta e pede radiografia de tórax mesmo com ausculta limpa: a hemorragia pulmonar costuma ser vista antes de ser ouvida.

Pressão arterial comparada com a habitual1 a 6 horas

Esperado: Estabilidade sem necessidade de volume adicional, com pressão próxima à habitual do paciente

Se não melhora: Queda maior que 40 milímetros de mercúrio em relação à habitual conta como disfunção mesmo com número absoluto normal. Hipotensão que não responde a volume é choque, e o paciente muda de capítulo e de leito.

Diurese6 a 24 horas

Esperado: Débito acima de 0,5 mL/kg/h

Se não melhora: Oligúria persistente é critério de disfunção orgânica e, na leptospirose, é o ponto em que a conduta muda de ambulatorial para hospitalar. Num adulto de 70 kg, 0,5 mL/kg/h equivalem a 35 mL por hora, ou 840 mL em 24 horas: some o volume antes de chamar a diurese de adequada.

LactatoColeta inicial na primeira hora; controle após a intervenção inicial se o inicial veio alterado — se passava do dobro da referência, em até 4 horas contadas da abertura do protocolo

Esperado: Queda progressiva em relação ao valor inicial

Se não melhora: Lactato que não cai indica hipoperfusão mantida ou foco não controlado. Reveja se há coleção a drenar, se o antimicrobiano cobre a hipótese e se a hipótese ainda é a mesma.

Temperatura e curva térmica48 a 72 horas de tratamento dirigido; a cada 4 horas na observação

Esperado: Redução da amplitude e da frequência dos picos. Na febre maculosa tratada com doxiciclina nos primeiros cinco dias de doença, a febre tende a desaparecer entre 24 e 72 horas do início da terapia, e esse prazo é um dos melhores testes de coerência da hipótese.

Se não melhora: Não troque o esquema pelo termômetro. Percorra a lista: hipótese errada, exposição não perguntada, foco não drenado, febre não infecciosa, febre medicamentosa e hipertermia por droga.

Hemograma, com plaquetas e hematócrito24 a 72 horas, e diariamente na suspeita de arbovirose com risco

Esperado: Plaquetas estáveis ou em recuperação; hematócrito estável

Se não melhora: Plaquetopenia progressiva com hemoconcentração aponta extravasamento e muda a conduta de hidratação. Plaquetopenia com icterícia e creatinina em alta aponta leptospirose grave ou malária grave.

Função renal e transaminases24 horas na observação, e no retorno

Esperado: Creatinina estável ou em queda

Se não melhora: Creatinina em alta em paciente febril é disfunção orgânica, e nas febres brasileiras é o marcador que mais antecipa gravidade em leptospirose, malária e febre amarela. Reavalie perfusão, revise drogas nefrotóxicas e reconsidere o destino.

Gota espessa ou teste rápido para malária, quando a suspeita se mantémRepetir em 24 ou 48 horas se o primeiro exame foi negativo

Esperado: Negativação sustentada com melhora clínica, ou identificação da espécie

Se não melhora: O Guia de Vigilância em Saúde orienta repetir o exame em 24 ou 48 horas, ou até a confirmação de outra doença. Um exame negativo em quem esteve em área endêmica e continua febril não é resposta, é um exame colhido cedo.

HemoculturasChecar crescimento em 24 a 48 horas, por telefone com o laboratório se preciso

Esperado: Ausência de crescimento no paciente que melhorou, ou identificação que permite dirigir e estreitar o tratamento

Se não melhora: Crescimento em uma só amostra de germe de pele costuma ser contaminação; crescimento nas duas amostras é bacteremia até prova em contrário e obriga a procurar a porta de entrada, inclusive endocardite.

O paciente que voltou pior no retorno24 a 48 horas

Esperado: Comparecimento ao retorno, com o exame do dia comparado ao da porta

Se não melhora: Refaça o exame inteiro, e não apenas o que já foi examinado: o foco que não existia no primeiro dia costuma existir no terceiro. Rediscuta a lista de exposição, procure o que se esconde bem, e considere internar quem já usou duas oportunidades de diagnóstico ambulatorial.

Quando parar de investigarConforme a evolução

Esperado: Paciente afebril por 48 horas, comendo, andando, com marcadores em queda e sem hipótese de prazo curto em aberto

Se não melhora: Febre que persiste além de duas semanas com investigação inicial negativa muda de categoria e sai do pronto-socorro: vira investigação de febre de duração prolongada, com condução ambulatorial ou internação programada, e não mais reavaliações sucessivas na porta.

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Onde o erro machuca

Escrever virose no prontuário sem ter perguntado de onde o paciente veio

O dano: É o erro que mais mata neste capítulo, e ele não deixa rastro: o paciente vai embora com sintomático, volta em três dias com malária grave, leptospirose com hemorragia pulmonar ou febre maculosa no sexto dia, e ninguém liga uma coisa à outra. As três doenças começam exatamente como uma virose, todas têm tratamento eficaz quando iniciado cedo e todas perdem eficácia com o tempo. Na malária, o alvo nacional é diagnosticar em menos de 24 horas do início dos sintomas, justamente para evitar as formas graves; na febre maculosa, a letalidade da forma grave não tratada pode chegar a 80%.

Como pegar a tempo: Faça as sete perguntas de exposição em todo febril sem foco e escreva as respostas, inclusive as negativas. Uma linha no prontuário resolve: sem viagem nos últimos 30 dias, sem contato com água de enchente, sem exposição a carrapato. O médico do retorno precisa saber que a pergunta foi feita, e não apenas que a resposta não apareceu.

Prescrever anti-inflamatório para a febre com dor no corpo

O dano: No Brasil, febre com mialgia em adulto tem arbovirose na lista quase o ano inteiro. O manual nacional de dengue determina não utilizar salicilatos, anti-inflamatórios não esteroides nem corticosteroides, e registra que a hemorragia digestiva grave é mais frequente em quem usou ácido acetilsalicílico, anti-inflamatório não esteroide ou anticoagulante, inclusive sem trombocitopenia e sem hemoconcentração. O paciente sai do pronto-socorro com uma receita que aumenta a chance de ele sangrar na fase crítica, que começa justamente quando a febre cede.

Como pegar a tempo: Enquanto arbovirose estiver na lista, o analgésico é dipirona ou paracetamol, com dose e teto escritos. Pergunte também o que o paciente já tomou em casa e o que tem na caixinha, porque a automedicação com anti-inflamatório é regra, não exceção, e escreva na orientação de alta o nome das classes proibidas.

Iniciar antibiótico de amplo espectro no febril estável e sem foco, como teste terapêutico

O dano: Três danos ao mesmo tempo. O primeiro é microbiológico: cultura colhida depois da primeira dose perde rendimento, e o paciente fica sem a informação que permitiria estreitar o tratamento. O segundo é diagnóstico: a melhora inespecífica é lida como confirmação, e a investigação para. O terceiro é que o esquema empírico de amplo espectro não trata nenhuma das doenças mais prováveis nesse cenário brasileiro, que são virais, parasitárias ou tratadas com doxiciclina.

Como pegar a tempo: Antes de prescrever, responda a duas perguntas: há disfunção orgânica? há neutropenia ou exantema petequial? Se as duas respostas forem não e o exame foi feito inteiro, a conduta correta é culturas colhidas, sintomático, exposição documentada e reavaliação marcada com hora. Se a exposição apontar uma doença tratável, trate essa doença com o esquema dela, não com espectro largo genérico.

Esperar o exantema para pensar em febre maculosa ou em meningococcemia

O dano: Nas duas doenças a pele chega tarde, e nas duas o atraso tem letalidade conhecida. Na febre maculosa, o exantema costuma surgir entre o segundo e o sexto dia de doença e o Guia de Vigilância em Saúde é explícito ao dizer que ele pode estar ausente e que a ausência não é critério de exclusão. Na doença meningocócica, o quadro começa com febre, vômitos, letargia, cefaleia e dor muscular, e o coma pode sobrevir em algumas horas, com a maioria dos óbitos nas primeiras 48.

Como pegar a tempo: Nas duas, a decisão é tomada pela exposição e pela aparência do paciente, não pela pele. Exposição a carrapato, pasto ou cão de sítio nos últimos catorze dias, em paciente febril com cefaleia e mialgia intensas, autoriza doxiciclina. Aparência tóxica com febre autoriza ceftriaxona e isolamento. E, quando a pele existir, examine-a inteira e à luz, com o paciente despido.

Chamar de sem febre o idoso com 37,6 graus e chamar de normal a pressão de 98 por 56

O dano: É assim que se perde a infecção grave do paciente que menos reserva tem. A resposta febril do idoso é atenuada, e a apresentação típica de infecção grave nele é confusão nova, queda ou recusa alimentar. E o número absoluto da pressão engana no hipertenso: uma sistólica de 98 em quem vive com 150 representa queda de 52 milímetros de mercúrio, e, no critério usado em protocolo gerenciado de sepse no Brasil, isso é hipotensão relativa, que a revisão de 2026 descreve como sistólica abaixo da basal conhecida e esta apostila lê como queda de mais de 40 milímetros de mercúrio — e, portanto, disfunção orgânica.

Como pegar a tempo: No idoso febril ou com confusão nova, trate a confusão como sinal de infecção até prova em contrário, faça a busca de foco inteira no mesmo atendimento e pergunte à família qual é a pressão habitual antes de classificar a pressão medida. E conte a frequência respiratória: é o sinal vital que mais falta na ficha e o que mais antecipa deterioração.

Liberar o febril sem diagnóstico sem retorno marcado e sem sinais de alarme por escrito

O dano: Em febre sem foco, a reavaliação não é cortesia: é o exame diagnóstico mais importante que existe, porque o que separa a virose da doença grave é a evolução das próximas 24 a 48 horas. Alta sem retorno transfere para o paciente a decisão de quando voltar, e ele volta pelo sintoma errado ou não volta. Quando volta, encontra outro médico, sem a data de início da febre, sem a exposição documentada e sem saber o que já foi colhido, e a investigação recomeça do zero com dois dias perdidos.

Como pegar a tempo: Escreva três coisas: o retorno com data, hora e local; a lista de sinais de alarme entregue em papel ao paciente e a quem o acompanha; e o resumo do que foi examinado, colhido e dispensado, com os resultados pendentes e o telefone para checagem. Nos casos com suspeita de doença de notificação, notifique no atendimento e combine busca ativa se o paciente não comparecer.

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O que dizer ao paciente e à família

A febre sem diagnóstico é uma das poucas situações do pronto-socorro em que a conversa é parte do tratamento, e não um acessório dele. O paciente vai para casa com a doença ainda em curso, e a segurança dele depende inteiramente do que ele entendeu. Duas coisas precisam sair da sua boca com clareza: que você ainda não sabe, e o que exatamente faria ele voltar.

Dizer que ainda não se sabe, sem que isso soe como descaso

Vou ser direto com o senhor: hoje eu ainda não sei qual é a causa da sua febre, e isso é comum nos primeiros dias. O que eu sei, e isso é o mais importante agora, é que o senhor não tem nenhum sinal de gravidade neste momento. Examinei o senhor inteiro, colhi exames e pedi os testes específicos para as doenças que a sua história levanta. O que decide o diagnóstico, nessa fase, é como a doença evolui nos próximos dois dias, e por isso eu vou querer ver o senhor de novo em 24 horas.

Não diga: Dizer é uma virose como se fosse um diagnóstico fechado. Vira promessa, e quando o paciente piora ele perde a confiança em tudo o que você disse depois. Evite também não é nada: se não fosse nada, ele não estaria com febre há cinco dias.

Explicar por que não vai começar antibiótico

Eu entendo a preocupação, e vou explicar por que não vou dar antibiótico agora. Antibiótico trata bactéria, e a maior parte das febres como a sua não é por bactéria. Se eu der agora, sem saber, acontecem duas coisas ruins: os exames que estão no laboratório deixam de conseguir identificar o que o senhor tem, e o senhor toma um remédio que pode fazer mal sem tratar a doença. O que eu vou fazer é diferente: deixei os exames colhidos, marquei o seu retorno para amanhã e escrevi aqui os sinais que fazem o senhor voltar antes.

Não diga: Dizer antibiótico não é necessário e encerrar. A família ouve nada será feito. E evite prometer que nunca vai precisar: se a evolução mudar, você vai precisar, e é melhor ter dito isso hoje.

Entregar os sinais de alarme de modo que sejam usados

Eu escrevi nesta folha os sinais que significam volte agora, e quero que a senhora leve para casa e deixe na geladeira. São estes: qualquer sangramento, inclusive gengiva ou nariz; manchas roxas na pele que não somem quando a senhora aperta; dor forte na barriga; vômito que não para; muito sono ou dificuldade de acordar; falta de ar; urinar muito pouco; ou tontura quando se levanta. Se qualquer um aparecer, não espere o horário do retorno. Vem direto, a qualquer hora, e traz esta folha.

Não diga: Dizer se piorar, volte. Piorar não é um critério: para o paciente febril, tudo parece pior à noite. E não entregue a lista só de boca, porque nenhuma pessoa com 39 graus memoriza oito itens.

Perguntar sobre sexo e sobre drogas sem constranger

Vou fazer duas perguntas que eu faço a todo mundo com febre, porque elas mudam o que eu procuro, e o que a senhora responder fica entre nós. Nos últimos meses, houve alguma relação sexual sem preservativo, com parceria nova? E a senhora usa alguma substância injetável, ou já usou? Não estou julgando nada; estou decidindo se preciso pedir um teste rápido e se preciso ouvir o seu coração com mais atenção.

Não diga: Perguntar com acompanhante do lado sem antes oferecer um momento a sós, e perguntar em tom de interrogatório. Evite também pular a pergunta por constrangimento seu: a infecção aguda pelo vírus da imunodeficiência humana se apresenta exatamente como esta febre.

Explicar por que a dengue proíbe o anti-inflamatório que sempre resolveu a dor dele

Eu sei que esse remédio costuma resolver a sua dor, e é por isso que preciso explicar. Se for dengue, a doença mexe com as plaquetas, que são as células que fazem o sangue coagular. Esse tipo de anti-inflamatório atrapalha a coagulação e irrita o estômago ao mesmo tempo, e a combinação faz sangrar. Vou prescrever dipirona ou paracetamol, que aliviam a dor sem esse risco, com o horário escrito. E vou pedir que você não tome nada por conta própria até o retorno.

Não diga: Proibir sem explicar o motivo. Sem a explicação, o paciente toma em casa quando a dor apertar. E evite dizer que dipirona é fraca: prescreva a dose adequada, com o intervalo certo, e o paciente não vai procurar substituto.

Explicar a notificação compulsória, quando o paciente pergunta se ele está em apuros

Sim, eu preenchi uma ficha de notificação, e vou explicar o que isso significa, porque assusta quando a gente ouve. Algumas doenças precisam ser comunicadas à vigilância em saúde por lei, não porque o senhor fez algo errado, mas porque elas podem atingir outras pessoas do mesmo lugar. Na prática, isso quer dizer que alguém pode ligar para confirmar dados, e que a equipe pode ir ao seu bairro. Para o senhor, não muda nada no atendimento e não custa nada.

Não diga: Notificar sem avisar, e depois a família receber uma ligação da vigilância sem entender. Evite também transformar a notificação em ameaça velada, do tipo agora eles vão atrás.

Comunicar a internação de quem chegou andando e ainda não tem diagnóstico

Preciso dar uma notícia que não era o esperado quando vocês chegaram. Eu ainda não sei o nome da doença, mas encontrei sinais de que ela já está afetando o funcionamento de alguns órgãos: a pressão está mais baixa que a habitual dele, ele está respirando mais rápido e o exame de rim veio alterado. Isso muda o meu plano. Ele vai ficar internado, vamos começar o tratamento hoje e continuar procurando a causa em paralelo. Eu volto a falar com vocês assim que os primeiros exames voltarem.

Não diga: Usar sepse ou septicemia sem traduzir, e prometer desfecho. Evite também adiar a conversa até que o diagnóstico exista: a família precisa acompanhar a mudança de plano no momento em que ela acontece, não depois.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

A prova do laço ainda deve ser feita no febril com suspeita de arbovirose?

Manual nacional de dengue: a técnica segue descrita e padronizada

O Ministério da Saúde manteve a prova do laço no material oficial de diagnóstico e manejo clínico, com técnica detalhada: calcula-se a média entre as pressões sistólica e diastólica, insufla-se o manguito nesse valor por cinco minutos no adulto e três na criança, desenha-se um quadrado de 2,5 centímetros de lado no antebraço e contam-se as petéquias formadas, considerando positiva a prova com 20 ou mais no adulto e 10 ou mais na criança. O argumento a favor é operacional: é um teste de beira de leito, sem custo, que documenta fragilidade capilar em serviços que muitas vezes não têm hemograma disponível na hora.

Brasil. Ministério da Saúde. Dengue: diagnóstico e manejo clínico — adulto e criança. 6. ed. Brasília, 2024. Apêndice G.

Revisão sistemática da Opas e da Organização Mundial da Saúde: valor preditivo baixo

O próprio manual nacional registra que uma revisão sistemática publicada em 2022 identificou 217 estudos nos quais o valor de predição da prova do laço foi baixo para formas graves e como critério de hospitalização, e acrescenta que, nessas circunstâncias, a realização da prova pode trazer discordância na condução dos casos. O argumento contrário é, portanto, de segurança decisória: um teste com baixo valor preditivo aplicado a uma decisão de gravidade produz confiança falsa nos dois sentidos.

Revisão sistemática da Opas e da Organização Mundial da Saúde, de 2022, registrada no Apêndice G do manual nacional de dengue, 6. ed., 2024.

Como decidir

Para o paciente à sua frente, decida pela assimetria dos erros. A prova positiva acrescenta informação e aumenta o seu limiar para liberar; a prova negativa não subtrai nada e não pode ser usada para mandar para casa quem tem sinal de alarme, quinto dia de doença ou plaquetopenia. Onde há hemograma disponível, ele decide e a prova é acessória. Onde não há, faça a prova, registre o resultado e trate-a como pista, nunca como critério de alta. E, em qualquer cenário, o que decide o destino é a classificação de risco e a evolução, não o número de petéquias no quadrado.

Antimicrobiano de amplo espectro na primeira hora para todo febril grave, ou fluxo específico quando a hipótese é uma febre brasileira?

Protocolo gerenciado de sepse: antimicrobiano de amplo espectro dentro da primeira hora

O protocolo clínico brasileiro para sepse e choque séptico estabelece que, identificada disfunção orgânica em paciente com foco infeccioso presumível, o pacote de tratamento deve ser executado dentro da primeira hora, e nele está a prescrição e a administração de antimicrobiano de amplo espectro por via endovenosa, dirigido ao foco suspeito, com doses plenas e sem ajuste inicial para função renal. O argumento é de tempo: o atraso da primeira dose é o fator modificável de maior peso sobre a mortalidade, e a incerteza diagnóstica não é motivo para esperar.

Instituto Latino Americano de Sepse. Protocolo Clínico: atendimento ao paciente adulto com sepse e choque séptico. Revisado em julho de 2026, em substituição à revisão de agosto de 2018.

Guias nacionais das doenças febris: tratamento específico, e não espectro largo

Os documentos do Ministério da Saúde tratam essas doenças com esquemas próprios e estreitos. A leptospirose grave recebe penicilina cristalina, ampicilina, ceftriaxona ou cefotaxima; a febre maculosa recebe doxiciclina ou cloranfenicol; a malária grave recebe antimalárico específico pela espécie; e a dengue grave não recebe antimicrobiano nenhum, e sim hidratação guiada por classificação de risco. Aplicar a essas quatro o esquema empírico de amplo espectro trata mal as quatro, atrasa a droga certa e não muda o desfecho de nenhuma.

Brasil. Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, 6. ed. rev., 2024, capítulos Leptospirose, Febre maculosa e Malária; e Dengue: diagnóstico e manejo clínico, 6. ed., 2024.

Como decidir

As duas posições convivem, e o próprio protocolo de sepse escreve a ponte: em paciente com disfunção aparente cujo quadro sugere processo infeccioso atípico, como dengue, malária e leptospirose, a equipe pode optar por seguir fluxo específico. Na prática, decida pela força da pista epidemiológica. Se a exposição é clara e a apresentação é típica, comece pela droga específica e faça o resto do pacote, que é volume, lactato, culturas e monitorização, do mesmo jeito. Se a pista é fraca, se o paciente está em choque ou se a hipótese pode ser bacteriana, cubra amplo e acrescente a droga específica: doxiciclina e antimalárico não competem com beta-lactâmico, somam-se a ele. E, quando escolher o fluxo específico, escreva o motivo no prontuário, porque quem assume o plantão precisa saber que a decisão foi tomada, e não esquecida.

Qual corte de temperatura define febre em quem não pode esperar?

Critério internacional: 38,3 graus orais em medida única, ou 38 graus mantidos por mais de uma hora

As associações médicas americanas e europeias definem febre no paciente neutropênico por aferição oral: uma medida isolada igual ou maior que 38,3 graus, ou temperatura oral igual ou maior que 38 graus mantida por mais de uma hora. O argumento é de especificidade: cortes mais baixos capturam variação circadiana normal e transformam em emergência quadros que não são, com custo de internação e de antibiótico.

Critério das associações médicas americanas e europeias, descrito no Protocolo de Neutropenia Febril do Grupo Hospitalar Conceição, 2019.

Protocolo brasileiro: 37,5 graus axilares em medida única

O protocolo do Grupo Hospitalar Conceição adota deliberadamente um corte mais baixo e um método diferente, com três justificativas escritas: no Brasil a aferição de rotina é axilar, e a temperatura axilar é cerca de meio grau mais baixa que a oral; existe o hábito de medicar o paciente com temperaturas próximas de 38, o que subdiagnostica a febre; e, considerando a mortalidade e o perfil dos pacientes atendidos, optou-se pelo critério mais conservador, que já havia sido validado em ensaio clínico com aferição axilar.

Grupo Hospitalar Conceição. Protocolo de Neutropenia Febril. Porto Alegre, 2019.

Como decidir

Esta é uma divergência de calibração, não de conceito: os dois lados concordam que o atraso mata. Para o paciente à sua frente, deixe o corte seguir o hospedeiro e o termômetro que você tem. Em quem tem margem, como o adulto imunocompetente estável, um corte mais alto evita rastreamento desnecessário e não custa desfecho. Em quem não tem margem, como o neutropênico, o asplênico, o transplantado e o idoso frágil, use o corte mais baixo, porque o erro de tratar quem não precisava é reversível e o de não tratar não é. E lembre-se de que o termômetro do seu serviço é axilar: aplicar corte oral a medida axilar desloca a decisão em meio grau, na direção errada.

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O raciocínio, em voz alta

Domingo, 16h20, pronto-socorro clínico de um hospital geral no litoral, três semanas depois de uma chuva que alagou dois bairros. Hélio Quintanilha, 47 anos, motorista, chega andando, acompanhado da esposa. Febre há cinco dias, dor de cabeça, dor no corpo. Tomou dipirona em casa hoje de manhã. Temperatura axilar 38,1 graus, pressão 112 por 68, frequência cardíaca 104, saturação 95% em ar ambiente. A ficha da triagem diz: síndrome gripal, pulseira verde.

  1. o que penso antes de examinar

    Antes de qualquer hipótese, preciso responder à pergunta que define o relógio: há disfunção orgânica? Falo com ele e está orientado, sem alteração em relação ao que a esposa descreve. A pressão está próxima da que ele conta ter em casa. Falta o sinal vital que ninguém contou: sento ao lado, ponho a mão no pulso e conto a respiração por sessenta segundos. Vinte e seis. Isso não é síndrome gripal com pulseira verde; isso é frequência respiratória que já entra na conversa de gravidade, e muda a minha ordem de trabalho.

  2. onde situo a febre no calendário

    Quinto dia de febre. Isso me tira do território das viroses respiratórias, que na maioria já teriam cedido, e me coloca em três listas ao mesmo tempo: arbovirose entrando na fase crítica, leptospirose passando para a fase tardia, e infecção bacteriana que ainda não localizou. O quinto dia é, em qualquer dessas hipóteses, o dia em que se decide o desfecho, e não o dia de mandar para casa com sintomático.

  3. as sete perguntas

    Viagem: nenhuma. Animal e mata: nada. Procedimento e prótese: nada. Trabalho: motorista, mas com uma informação que só aparece porque eu insisto — ele passou dois dias ajudando o cunhado a esvaziar e limpar um galpão que alagou, há doze dias, de bermuda e chinelo, com água na altura do joelho. Está dentro da janela de incubação da leptospirose, que vai de um a trinta dias com média entre cinco e catorze. A pergunta durou vinte segundos e reorganizou o caso inteiro.

  4. o que examino, e o que acho

    Peço que ele tire a camisa e as calças. Pele sem exantema e sem petéquias, e o dorso também. Orofaringe sem lesão. Ausculta com estertores crepitantes finos em base direita, discretos, que eu não teria procurado se estivesse apressado. Abdome sem dor. E as duas coisas que eu fui procurar de propósito: as panturrilhas doem à palpação de um jeito desproporcional ao resto, e os olhos têm hiperemia e edema de conjuntiva ao longo das fissuras palpebrais. Sufusão conjuntival, presente em cerca de 30% dos pacientes com leptospirose e que aparece no fim da fase precoce.

  5. o que a ausência de icterícia significa, e o que não significa

    Ele não está ictérico, e é aqui que se perde esse paciente. A icterícia rubínica costuma aparecer entre o terceiro e o sétimo dia e é preditor de pior prognóstico, mas o Guia de Vigilância em Saúde é explícito ao dizer que hemorragia pulmonar e insuficiência renal ocorrem também em pacientes anictéricos, e que não se deve usar a icterícia para identificar quem está em risco. Ele tem febre, frequência respiratória de 26 e estertores crepitantes. O algoritmo nacional considera sinal de alerta a presença de qualquer um destes: frequência respiratória acima de 28, estertores crepitantes, ou saturação abaixo de 92% em ar ambiente. Os crepitantes bastam, e sinal de alerta manda para hospital de referência, não para casa.

  6. o que peço, e por quê

    Leucograma de urgência, que é o exame que o próprio algoritmo pede na porta. Hemograma completo com plaquetas, creatinina, ureia, eletrólitos, bilirrubinas e transaminases, pelas disfunções. Duas hemoculturas de sítios distintos, com par de frascos aeróbio e anaeróbio em cada, colhidas antes de qualquer antibiótico. Sorologia para leptospirose enviada ao laboratório central de saúde pública. E, sobretudo, radiografia de tórax — não porque a ausculta pediu, mas porque a hemorragia pulmonar da leptospirose costuma ser identificada na radiografia antes de qualquer hemoptise.

  7. o que eu decido antes de qualquer resultado

    Não espero. A antibioticoterapia da leptospirose começa no momento da suspeita, sem aguardar confirmação laboratorial, e a eficácia é maior na primeira semana de sintomas — ele está no quinto dia. Como ele tem sinal de alerta, o esquema não é o da fase precoce: prescrevo ceftriaxona 1 g por via intravenosa a cada 24 horas, com a alternativa de penicilina cristalina 1.500.000 UI a cada 6 horas, e planejo pelo menos sete dias de tratamento intravenoso. Preencho a ficha de investigação e comunico a vigilância no mesmo atendimento.

  8. como a resposta muda o que penso

    A radiografia mostra infiltrado intersticial bilateral discreto, que ninguém teria pedido para uma pulseira verde. A creatinina volta 2,3, as plaquetas em 88.000, as bilirrubinas discretamente elevadas com predomínio direto. Três disfunções orgânicas em um paciente que chegou andando. Ele sai da categoria de investigação com calma e entra na de tratamento imediato com leito monitorado. Chamo o plantonista, reservo o leito e reavalio a diurese com sonda vesical de alívio, porque a presença ou ausência de diurese é o que decide o próximo passo do algoritmo.

  9. 48 horas depois

    Ele permanece febril no primeiro dia inteiro de antibiótico, o que é esperado e não motivo para trocar a droga. A creatinina sobe até 3,1 e depois estabiliza; a diurese se mantém acima de 0,5 mL/kg/h, o que num homem de 78 quilos significa mais de 39 mL por hora, e é isso que o afasta da diálise. As hemoculturas não crescem. A sorologia confirma leptospirose. No terceiro dia ele está afebril, a plaquetopenia se corrige e a função renal começa a cair.

  10. o que teria dado errado

    Três desvios plausíveis, todos comuns. Se eu não tivesse contado a frequência respiratória, ele teria seguido como pulseira verde e ido para casa com sintomático — e o estertor discreto não é ouvido por quem está com pressa. Se eu não tivesse feito a pergunta sobre água, teria escrito virose no quinto dia de doença. E se eu tivesse esperado a sorologia para começar o antibiótico, teria perdido a janela em que ele funciona melhor, num paciente cuja forma grave tem letalidade acima de 50% quando evolui para hemorragia pulmonar.

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Faça você

Quinta-feira, 21h10, unidade de pronto atendimento de uma cidade média do interior. Sandra Vilaça, 29 anos, técnica de enfermagem, chega sozinha. Febre há quatro dias, sempre no fim da tarde, com calafrio que ela descreve como um frio de dentro para fora, seguido de suor que encharca a roupa. Entre os picos, ela se sente razoavelmente bem. Dor de cabeça e dor no corpo. Sem tosse, sem disúria, sem diarreia. Temperatura axilar 38,4 graus, pressão 118 por 72, frequência cardíaca 98, frequência respiratória 18, saturação 98%. Exame físico sem qualquer achado, exceto discreta dor à palpação em hipocôndrio esquerdo. Ela conta, quando você pergunta, que voltou há treze dias de um período de dois meses trabalhando numa unidade de saúde em Boa Vista, Roraima. O hemograma que a unidade colheu volta com hemoglobina 11,2, leucócitos 4.200 sem desvio e plaquetas 92.000.

  1. o que chama atenção antes de qualquer hipótese

    Não há disfunção orgânica: ela está orientada, com pressão normal para ela, frequência respiratória de 18 e saturação normal. Isso significa que o tempo está do meu lado e que a conduta correta é usar esse tempo, não abreviar o atendimento. O que chama atenção é outra coisa: exame físico praticamente vazio em alguém com quatro dias de febre, e três dados que combinam entre si — febre em paroxismos com calafrio e sudorese, plaquetopenia, e desconforto em hipocôndrio esquerdo, que pode ser esplenomegalia discreta.

  2. o que a exposição coloca na lista, e o que a janela permite

    Ela esteve dois meses na Amazônia legal e voltou há treze dias. Malária entra no topo da lista, não como raridade: a região amazônica concentrou 139.884 casos autóctones em 2023, com alta de 8,8% sobre o ano anterior, e o Plasmodium vivax responde por cerca de 90% dos casos no país. A janela fecha: a febre começou nove dias depois do retorno, dentro do período de incubação. E a plaquetopenia, que muita gente lê automaticamente como dengue, é achado comum também na malária.

  3. o erro que quase todo mundo comete aqui

    A exposição amazônica com febre e plaquetopenia obriga investigar malária no mesmo atendimento. Dengue também continua possível e pode deteriorar na defervescência; ausência de antiviral específico não significa ausência de urgência. Não use uma hipótese para encerrar a outra. A malária precisa de diagnóstico e tratamento oportunos, sem adiar para uma consulta eletiva.

  4. conduta

    — sua vez —

Ver como fecharíamos

A conduta é pedir gota espessa, esfregaço delgado ou teste rápido para malária no mesmo atendimento, e buscar o resultado antes de decidir o destino, porque ele muda a conduta em minutos e não em dias. Junto vão hemograma já colhido, creatinina, ureia, bilirrubinas e transaminases, para avaliar critérios de gravidade, e sorologia ou pesquisa de antígeno para dengue conforme o dia de doença, já que as duas hipóteses convivem. Nada de anti-inflamatório: enquanto arbovirose estiver na lista, o antitérmico é dipirona 500 mg por via oral a cada 6 horas se necessário, ou paracetamol 500 mg a 1 g a cada 6 horas, sem exceder 4 g em 24 horas. Confirmada a malária, o tratamento é definido pela espécie identificada, com medicamentos do Componente Estratégico distribuídos pelo Ministério da Saúde, e a notificação é imediata, em até 24 horas, porque ela está na região extra-amazônica. Se a gota espessa vier negativa e a suspeita se mantiver, o exame se repete em 24 ou 48 horas, ou até a confirmação de outra doença — um exame negativo em quem esteve em área endêmica e continua febril não é resposta, é um exame colhido cedo. E, como não há disfunção orgânica, ela pode aguardar em observação com reavaliação em 4 a 6 horas, com gatilhos escritos e retorno garantido — intervalo do seguimento da suspeita de malária, que o protocolo do ILAS manda para fluxo próprio, e não o prazo de até três horas que a revisão de 2026 dá à investigação simplificada do febril sem disfunção que entrou no protocolo de sepse; se qualquer critério de gravidade aparecer, como rebaixamento, icterícia, oligúria com menos de 400 mL em 24 horas ou dispneia, o caso vira malária grave e muda de leito.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

O protocolo brasileiro de sepse registra que o escore, formado por rebaixamento do nível de consciência, frequência respiratória igual ou maior que 22 e pressão sistólica igual ou abaixo de 100, é pouco sensível — na revisão de 2026, lembra que a diretriz internacional daquele ano não o recomendou para triagem e o descreve como validado para deterioração clínica —, e conclui que ele não deve ser usado para triagem de suspeita de sepse, e sim para identificar, depois de uma triagem feita com critérios mais sensíveis, quem tem maior risco de morrer. Na prática, dois pontos ou mais são motivo para priorizar e chamar ajuda; zero ponto não afasta nada e não substitui a busca ativa das disfunções orgânicas, que incluem oligúria, plaquetopenia, hiperlactatemia e hiperbilirrubinemia, nenhuma delas presente no escore.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Compare febre de dois dias sem exposição, febre após viagem à Amazônia e febre durante nadir de quimioterapia. Diga qual exame ou tratamento tem prioridade e por quê.

Em 30 dias

Reavalie um idoso afebril com confusão e taquipneia. Explique o que define gravidade, por que qSOFA zero não excluiria sepse e como evitar antibiótico por bacteriúria incidental.

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Agora atenda

Agora atenda: sexta-feira, 23h10, você é o interno de plantão no pronto-socorro clínico de um hospital geral, com o preceptor na sala vermelha. Entra um homem de 41 anos, pedreiro, com febre há três dias, dor de cabeça e dor no corpo, que já tomou dipirona em casa e chega com 37,4 graus na triagem. Ele parece bem e quer atestado para voltar ao trabalho na segunda. Faça a anamnese de exposição inteira, conte a frequência respiratória, examine o paciente despido, decida se ele recebe antimicrobiano hoje, prescreva o antitérmico com dose e intervalo e explique a ele, em voz alta, o que faria ele voltar antes do retorno marcado.

Febre sem foco no adulto — Internato | OsceLabs