Clínica MédicaSíndromes do Paciente na Emergência

Palpitações e arritmia no pronto-socorro

Diante de um coração acelerado, a primeira pergunta não é qual arritmia é essa. É se o paciente está estável — e a resposta muda tudo o que vem depois, porque instabilidade pede choque, não droga.

Fontes deste capítulo

Ministério da Saúde — Protocolos de Suporte Avançado de Vida do SAMU 192, fichas AC13 (bradicardia), AC14 (taquiarritmia com pulso) e AC15 (algoritmo geral das taquiarritmias com pulso)

TelessaúdeRS-UFRGS e Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul — Protocolos de Regulação Ambulatorial: Cardiologia Adulto, versão digital 2022. Protocolo 3 (Arritmias) e Protocolo 4 (Síncope ou Perda Transitória da Consciência)

Ministério da Saúde — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) 2024. Brasília, 2024

Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas e Sociedade Brasileira de Cardiologia — Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial – 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250618)

Sociedade Brasileira de Cardiologia — Diretriz sobre a Análise e Emissão de Laudos Eletrocardiográficos – 2022 (Arq Bras Cardiol. 2022;119(4):638-680)

01

Responda antes de ler

Homem de 62 anos, com infarto do miocárdio há quatro anos, chega ao pronto-socorro com palpitação há uma hora. Está lúcido, sem dor torácica, sem dispneia, pressão arterial 122 por 78. O eletrocardiograma mostra taquicardia regular a 160 por minuto com complexos QRS de 150 milissegundos. O plantonista pede sua opinião sobre o raciocínio que deve governar a conduta. O que você responde?

02

O paciente que você vai ver

Sábado, 20h10, pronto-socorro clínico de um hospital geral de cento e vinte leitos numa cidade de duzentos mil habitantes. A sala vermelha tem dois leitos e os dois estão vazios, o que no seu plantão é uma informação instável. Você é o interno da escala noturna, com um plantonista que está no momento resolvendo uma intercorrência na enfermaria do terceiro andar e desce quando chamado.

A técnica de enfermagem da classificação de risco aparece no corredor com uma cadeira de rodas e não espera você perguntar: "doutor, essa aqui eu trouxe direto, o pulso dela eu não consigo contar".

Na cadeira está Doralice Tavares Pimentel, 64 anos, costureira aposentada, 68 quilos. Está acordada, olhando para você, e responde ao próprio nome antes que alguém peça. Tem a mão direita fechada sobre o esterno, e é ali que ela põe a queixa quando você pergunta o que houve: "começou uma batedeira, doutor. Do nada". Ela olha para o relógio da parede e refaz a conta em voz alta: estava lavando a louça do jantar, o rádio estava tocando, e começou. Faz umas duas horas. Talvez duas e meia.

O monitor demora quarenta segundos para ser conectado e mostra 168 batimentos por minuto. A pressão arterial, medida no braço esquerdo com manguito adequado, é 118 por 76. A saturação é 96% em ar ambiente. A frequência respiratória é 20. A glicemia capilar é 104. A temperatura axilar é 36,4 graus. Ela está corada, com a pele seca e morna, sem turgência jugular visível a quarenta e cinco graus, e o enchimento capilar volta em menos de dois segundos.

Você pergunta se dói o peito. Ela pensa e diz que não dói: aperta, mas não dói, e o que aperta é a sensação da batedeira mesmo. Pergunta se falta ar. Ela diz que cansa se andar, mas que sentada está bem. Pergunta se desmaiou. Ela diz que não, e depois corrige: quando levantou da pia para chamar o vizinho, escureceu tudo por um instante e ela precisou se segurar na parede — mas não caiu e não apagou.

A história pregressa cabe em quatro linhas, e ela a entrega com a organização de quem já contou isso várias vezes. Hipertensão há doze anos, em uso de losartana 50 miligramas de manhã e hidroclorotiazida 25 miligramas de manhã. Não é diabética. Nunca infartou, nunca internou por coração. Não fuma, não bebe. Tomou dois cafés à tarde, que é o que ela sempre toma. Não usa remédio para emagrecer, para dormir nem para gripe — e a essa última pergunta ela responde "só o xarope, mas isso foi na semana passada".

Já aconteceu antes. Três ou quatro vezes nos últimos dois anos, sempre parecido, sempre passando sozinho em dez ou quinze minutos, sempre em casa, sempre sem procurar ninguém. Uma vez, há uns oito meses, foi diferente: a batedeira começou, ela sentou no sofá, escureceu a vista e ela acordou no chão da sala, com o marido sacudindo o ombro dela. Foi ao posto na segunda-feira seguinte, contaram que foi pressão baixa, e ela voltou para casa com a orientação de beber mais água.

É isso que está na sua frente às 20h14: uma senhora de 64 anos, sentada, falando frases inteiras, com pressão de 118 por 76 e um coração a 168 por minuto que ela sente e você não sabe nomear. O eletrocardiograma ainda não foi feito. E, antes de qualquer nome de arritmia, existe uma pergunta que decide se você vai buscar uma seringa ou um desfibrilador.

03

Quem adoece disso

Palpitação é queixa de porta, não de enfermaria: chega andando, com sinais vitais que a triagem classifica de amarelo para baixo, e sai da fila mais rápido do que qualquer outra queixa cardiológica — muitas vezes com um diagnóstico de ansiedade que ninguém escreveu no papel mas todo mundo assumiu. O problema é que a mesma queixa é a forma de apresentação de arritmias que matam, e a única coisa que separa uma da outra é um exame de dez minutos e trinta reais.

A arritmia sustentada mais comum da prática clínica é a fibrilação atrial, e o Brasil está no meio de uma curva de crescimento que é demográfica antes de ser cardiológica. A prevalência de fibrilação e flutter atrial padronizada por idade passou de 519 para 537 casos por 100 mil habitantes entre 1990 e 2019 — um aumento de 3,5% em quase três décadas, que parece pouco até você lembrar que a padronização por idade justamente remove o efeito do envelhecimento, e que a população brasileira nesse período envelheceu muito. O número absoluto de pessoas com fibrilação atrial no país cresceu bem mais do que 3,5%.

Quando se procura fibrilação atrial numa população brasileira de verdade, em vez de estimar, os números sobem. No Estudo Longitudinal da Saúde do Adulto, que fez eletrocardiograma em 13.260 participantes, 2,5% tinham fibrilação ou flutter atrial — e o uso de anticoagulante era baixo, especialmente entre as mulheres. Numa amostra de 1.524 idosos moradores da cidade de São Paulo, a prevalência chegou a 2,9% nos homens e 2,0% nas mulheres. Traduzindo para a sua sala de espera: numa fila de cinquenta pessoas acima de sessenta anos, uma ou duas têm fibrilação atrial, e parte delas não sabe.

O que faz esses números virarem conduta é a consequência. A fibrilação atrial multiplica por quatro, em média, a chance de acidente vascular cerebral, e é justamente por isso que a decisão sobre anticoagulação, tomada ou adiada na sua sala, vale mais para o prognóstico daquela pessoa do que a frequência cardíaca que você conseguir baixar naquela noite. Um paciente que sai do pronto-socorro com a frequência controlada e sem que ninguém tenha pensado em risco embólico saiu pior atendido do que parece.

E existe uma epidemiologia brasileira que quase nenhum outro país precisa considerar. A cardiopatia chagásica se manifesta por palpitação, tontura, dispneia, lipotimia, síncope e morte súbita — nessa ordem no texto do protocolo nacional, e nem sempre nessa ordem na vida. Mais da metade das pessoas infectadas pelo Trypanosoma cruzi apresenta alterações eletrocardiográficas, e a morte súbita responde por 55% a 65% das mortes entre quem já tem cardiopatia estabelecida. Perguntar de onde a pessoa veio, onde morou na infância e se a casa era de pau a pique não é curiosidade regional: é estratificação de risco, e muda o que você faz com um traçado de complexo largo.

A última peça da epidemiologia deste capítulo é a que liga a palpitação ao capítulo vizinho. Uma parte relevante das síncopes que chegam ao pronto-socorro é de origem cardíaca, e a palpitação que precede o desmaio é justamente o sintoma que separa a síncope arrítmica da vasovagal. Quando a palpitação vem antes do escurecimento, o desmaio deixa de ser um evento benigno e passa a ser a segunda manifestação de uma arritmia que já se anunciou uma vez.

04

Por que acontece o que acontece

Palpitação é a percepção consciente do próprio batimento. Isso quer dizer que ela depende de duas coisas: do que o coração está fazendo e do quanto aquela pessoa percebe. As duas variam de forma independente, e é por isso que existe extrassístole isolada que aterroriza e taquicardia de 170 que passa despercebida por horas — até o paciente subir uma escada.

Para a emergência, o mecanismo que importa não é o eletrofisiológico fino, e sim o hemodinâmico: por que uma frequência alta derruba débito em uma pessoa e não derruba em outra. Essa é a pergunta que a definição de instabilidade responde, e é a única fisiopatologia que muda a sua conduta nos primeiros dez minutos.

Por que frequência alta reduz débito — e por que nem sempre reduz

Débito cardíaco é frequência multiplicada por volume sistólico. A leitura ingênua dessa fórmula sugere que quanto mais rápido, maior o débito, e por um intervalo isso é verdade. Depois, deixa de ser: o enchimento ventricular acontece na diástole, e a diástole é a parte do ciclo que encurta quando a frequência sobe. Em algum ponto o ventrículo passa a ejetar um volume tão pequeno que a multiplicação não compensa mais, e o débito cai.

Onde fica esse ponto depende do ventrículo. Um coração de 30 anos, complacente, com átrio que se contrai no tempo certo, aguenta 180 por minuto sem cair o débito. Um ventrículo hipertrofiado pela hipertensão de doze anos, rígido, que depende da contração atrial para completar o enchimento, entra em falência com frequências bem menores. Isso explica por que a mesma taquicardia de 170 produz uma paciente conversando e outra hipotensa: a variável não é a frequência, é o ventrículo que a recebe.

Dois modificadores pesam nessa conta. Na fibrilação atrial some a contração atrial organizada, que em coração rígido pode responder por um quarto do enchimento — perder isso é perder débito antes mesmo de a frequência subir. E na taquicardia de origem ventricular a despolarização não desce pelo sistema de condução, e sim de célula em célula pelo miocárdio: a contração perde sincronia, o volume ejetado por batimento cai mais ainda, e é por isso que a mesma frequência tolerada numa taquicardia supraventricular pode ser catastrófica numa ventricular.

O que a largura do complexo está dizendo sobre o caminho do estímulo

O complexo QRS é o tempo que o estímulo leva para despolarizar os dois ventrículos. Quando ele desce pelo nó atrioventricular, pelo feixe de His e pelos ramos, o sistema distribui o impulso quase simultaneamente e o complexo é estreito: menos de 120 milissegundos, que a 25 milímetros por segundo são três quadradinhos pequenos.

Complexo largo significa que o estímulo não usou a via rápida, e há exatamente três razões possíveis para isso. Ou ele nasceu no próprio ventrículo, e por isso se propaga devagar, de miócito em miócito — é a taquicardia ventricular. Ou nasceu acima e encontrou um ramo bloqueado, permanente ou funcional, e teve de contornar — é a taquicardia supraventricular com aberrância. Ou desceu por uma via acessória que liga átrio e ventrículo por fora do nó, ativando o músculo antes que o estímulo normal chegue — é a pré-excitação.

Três modelos de ativação ventricular comparam condução pelo His–Purkinje, propagação miocárdica e via acessória, acompanhados de traçados esquemáticos.
A sequência de ativação modifica a morfologia e a duração do QRS. A largura isolada não define origem ventricular: bloqueios de ramo, pré-excitação, fármacos e eletrólitos também podem interferir.

As três produzem um traçado parecido e uma delas mata em minutos. Essa assimetria é a razão de existir a regra que este capítulo repete: taquicardia de complexo largo é ventricular até prova em contrário. Não é humildade diagnóstica; é aritmética de consequências.

Reentrada: por que a manobra vagal e a adenosina funcionam

A taquicardia supraventricular paroxística típica é uma reentrada: o estímulo encontra um circuito com duas vias de velocidades e períodos refratários diferentes, gira dentro dele e sai despolarizando os ventrículos a cada volta. O circuito quase sempre inclui o nó atrioventricular, seja porque ele contém as duas vias dentro de si, seja porque ele é o braço descendente de um circuito que sobe por uma via acessória.

Um circuito que depende do nó atrioventricular tem um ponto fraco óbvio: bloqueie o nó por um segundo e o giro para. É exatamente isso que a manobra vagal faz por via reflexa e o que a adenosina faz por via farmacológica, com meia-vida inferior a dez segundos. Não é que a droga trate a arritmia; ela interrompe o circuito, e o ritmo sinusal reassume porque estava lá o tempo todo, esperando.

A consequência prática vem em seguida: se o circuito não passa pelo nó, bloquear o nó não interrompe nada. Na fibrilação atrial e no flutter, o mecanismo mora dentro do átrio e o nó é só o portão que deixa passar alguns estímulos — bloquear o portão diminui a frequência ventricular e faz aparecer no traçado a atividade atrial que estava escondida, mas não reverte o ritmo. A bula da adenosina diz isso com todas as letras: a droga não converte flutter atrial nem taquicardia ventricular.

Por que a fibrilação atrial forma trombo, e por que reverter pode ser perigoso

Na fibrilação atrial a atividade elétrica atrial é caótica, entre 450 e 700 ciclos por minuto, e o átrio deixa de ter contração mecânica organizada. O sangue estagna, principalmente no apêndice atrial esquerdo, que é um fundo de saco com paredes trabeculadas feito para ser esvaziado por uma contração que não está mais acontecendo. Estase, lesão endotelial e inflamação atrial completam a tríade, e o trombo se organiza ali dentro ao longo de horas a dias.

Enquanto o átrio fibrila, o trombo tende a ficar onde está. Quando o ritmo sinusal volta, a contração atrial volta com ele — e não volta imediatamente perfeita: existe um período de atordoamento em que o átrio contrai mal, e depois ele passa a contrair de verdade. É nesse retorno da sístole atrial que um trombo formado nos dias anteriores é ejetado.

Aqui está o mecanismo inteiro da armadilha mais importante deste capítulo. Reverter uma fibrilação atrial não é uma intervenção neutra que, no pior caso, não funciona: é uma intervenção que pode transformar um trombo parado em um acidente vascular cerebral, e o risco não depende de o choque ser elétrico ou químico — depende de haver trombo. Por isso a pergunta que precede qualquer tentativa de reversão eletiva não é qual droga, e sim há quanto tempo esse ritmo está aí.

As causas que aceleram o coração sem que exista doença elétrica

Nem todo coração acelerado tem defeito de fiação. Boa parte das taquicardias que chegam ao pronto-socorro é sinusal, e taquicardia sinusal é um sintoma, não um diagnóstico: o nó sinusal está fazendo exatamente o que deveria diante de febre, dor, hipovolemia, anemia, hipoxemia, sepse, embolia pulmonar, abstinência ou excesso de catecolaminas.

Três mecanismos explicam quase toda a palpitação sem arritmia. O primeiro é o aumento do inotropismo: qualquer coisa que faça o coração bater com mais força — ansiedade, exercício, febre, tireotoxicose, descongestionante — torna o batimento perceptível sem que ele esteja desorganizado. O segundo é a anemia: com menos hemoglobina por mililitro, o organismo compensa aumentando o débito, e a pessoa sente. O terceiro é a extrassístole, em que o que se percebe não é o batimento extra, e sim a pausa que vem depois e a batida forte que sucede a pausa, com o ventrículo mais cheio — é a "falha" que os pacientes descrevem com a mão fazendo um gesto de tropeço.

A tireotoxicose merece linha própria porque atravessa as duas categorias. Ela produz palpitação por hiperadrenergia e também é causa reconhecida de fibrilação atrial, especialmente no idoso, em que às vezes é a única manifestação do hipertireoidismo. Por isso a função tireoidiana entra na investigação da palpitação recorrente, e não como exame de rotina automático.

05

Como se apresenta de verdade

O que entra pela porta não é uma arritmia: é uma pessoa com uma palavra. "Batedeira", "descompasso", "o coração na boca", "uma falha", "tá acelerado", "tá pulando". Cada uma dessas palavras é um dado, e algumas delas já estreitam o diagnóstico antes do eletrocardiograma — desde que você pergunte as três coisas que a palavra não diz: como começa, como termina e o que estava acontecendo quando começou.

Percurso de aprendizagem

Primeiro confirme se a arritmia causa a instabilidade ou se a frequência é uma resposta compensatória. Depois classifique regularidade e largura do QRS.

Compare TSV regular, FA, TV monomórfica, TV polimórfica e FA pré-excitada: a aparência de taquicardia não torna intercambiáveis seus tratamentos.

Após controlar o ritmo ou a frequência, reavalie ECG, sintomas, causas reversíveis, risco embólico e necessidade de seguimento. Conheça doses em miligramas e a concentração realmente disponível.

As perguntas que valem mais do que o adjetivo

Peça para a pessoa bater na mesa o ritmo que ela sente. É um gesto simples e informativo: batidas regulares e rápidas apontam para taquicardia regular; batidas embaralhadas, sem métrica, apontam para fibrilação atrial; batidas espaçadas com um tropeço no meio apontam para extrassístoles.

O início decide muito. Palpitação de reentrada começa como um interruptor: num segundo não estava, no seguinte está, e a pessoa costuma saber dizer o que estava fazendo. A da taquicardia sinusal e a da ansiedade sobem em rampa, ao longo de minutos, geralmente em cima de um contexto — a discussão, a notícia, a subida da ladeira, a febre.

O término conta o resto. Terminar de repente, também como um interruptor, aponta de novo para reentrada, e um detalhe reforça: quem já teve várias crises às vezes descobriu sozinho que prender a respiração e fazer força, ou tomar um copo de água gelada, encerra o episódio. Isso é manobra vagal feita em casa, e é um dado de mecanismo. Terminar devagar, esmaecendo, é mais compatível com taquicardia sinusal.

A duração e a frequência dos episódios organizam a urgência. Segundos, várias vezes por dia, com sensação de tropeço, quase sempre é extrassistolia. Minutos a horas, poucas vezes por ano, começando e terminando de supetão, é o padrão paroxístico. Contínua há dias, com cansaço progressivo, é o padrão da fibrilação atrial que se instalou e ninguém percebeu.

E há duas perguntas que nunca podem faltar, porque procuram gravidade e não diagnóstico: houve desmaio ou quase-desmaio junto? Houve alguém na família que morreu de repente antes dos quarenta anos? Uma resposta afirmativa a qualquer das duas muda o destino do paciente independentemente do que o eletrocardiograma mostrar naquela noite.

Complexo estreito e regular: a taquicardia supraventricular paroxística

É a apresentação mais característica e a mais gratificante de tratar. Adulto jovem ou de meia-idade, geralmente sem doença cardíaca, com crises que começam e terminam de repente, frequência tipicamente entre 150 e 220 por minuto, notavelmente constante — o monitor mostra o mesmo número por minutos a fio, o que já é uma pista, porque taquicardia sinusal oscila.

Os sintomas acompanhantes são desconforto torácico em aperto, sensação de pulsação no pescoço (a contração atrial contra a valva tricúspide fechada, que os pacientes descrevem como um martelo na garganta), ansiedade intensa, poliúria depois da crise. Nada disso é ameaça em si: no coração estruturalmente normal, essa arritmia raramente evolui para colapso, e a maioria das pessoas suporta bem por horas.

O que a torna perigosa é a exceção. Se por trás dela existe um ventrículo doente, uma coronariopatia significativa ou uma estenose aórtica, a mesma frequência pode isquemiar, congestionar ou hipotensar. Por isso a apresentação não decide sozinha: a estabilidade decide.

No traçado, o complexo é estreito, o ritmo é regular, e a onda P frequentemente não aparece — está escondida dentro do QRS ou logo depois dele, deformando a porção final do complexo. Procurar a onda P e não achar não é falha de leitura: é achado compatível.

Complexo estreito e irregular: fibrilação atrial e flutter

Aqui a irregularidade é o diagnóstico. Na fibrilação atrial, a atividade elétrica atrial é caótica e o nó atrioventricular deixa passar estímulos sem qualquer padrão: os intervalos entre um complexo e outro são todos diferentes, e não há onda P — há ondulação fina ou grosseira da linha de base, as ondas f. Quando os intervalos ficam regulares em alguém sabidamente em fibrilação, isso não é melhora: significa dissociação atrioventricular, e é achado a investigar.

A apresentação clínica varia mais do que em qualquer outra arritmia deste capítulo. Existe quem chegue com a queixa exata — "meu coração está embaralhado desde ontem". Existe quem chegue por cansaço aos esforços há duas semanas, sem palpitação nenhuma. E existe quem chegue por outro motivo, com a fibrilação atrial descoberta no monitor da sala de sutura. As três são a mesma doença e correm o mesmo risco embólico.

O flutter atrial é o primo organizado: o circuito gira no átrio direito com frequência de 240 a 340 por minuto, e o nó atrioventricular filtra em proporções fixas. Quando a condução é 2:1, a frequência ventricular fica em torno de 150 e o ritmo é regular — o que faz o flutter se disfarçar de taquicardia supraventricular. Suspeite de flutter sempre que a frequência estiver teimosamente próxima de 150, e procure as ondas em dente de serra nas derivações inferiores.

Uma informação da história vale mais que o traçado nesse grupo, e é a que muda a conduta: há quanto tempo isso começou. Não é a pergunta que o paciente espera, e quase sempre a resposta é imprecisa. Registre a imprecisão como ela é, porque a conduta em fibrilação atrial de início indeterminado é diferente da conduta em fibrilação atrial de início conhecido e recente.

Complexo largo: a apresentação que não admite otimismo

Taquicardia com complexo QRS acima de 120 milissegundos. A regra que governa a conduta é curta: 80% das taquicardias de complexo largo são de origem ventricular, e a presença de cardiopatia estrutural reforça essa probabilidade a ponto de tornar o raciocínio quase automático. Homem de 62 anos com infarto prévio e taquicardia de complexo largo tem taquicardia ventricular até que se prove o contrário, e a prova não se produz no primeiro atendimento.

Clinicamente ela pode se apresentar de qualquer jeito, e essa é a parte contraintuitiva: existe taquicardia ventricular com paciente conversando, pressão preservada e queixa apenas de palpitação. Estabilidade hemodinâmica não afasta origem ventricular. Quem trata como supraventricular porque "o paciente está bem demais para ser ventricular" está usando um critério que não existe.

Alguns achados, quando presentes, praticamente selam o diagnóstico à beira do leito, e vale procurá-los no traçado de doze derivações: dissociação atrioventricular, isto é, ondas P marchando em frequência própria, mais lenta que a dos complexos; batimentos de fusão, com morfologia híbrida; e batimentos de captura, um complexo estreito no meio da taquicardia. Ausência deles não afasta nada — existem algoritmos eletrocardiográficos para os casos duvidosos, e eles pertencem ao cardiologista, não à sua primeira hora.

Duas variantes merecem reconhecimento imediato. A torsades de pointes é polimórfica, com os complexos girando em torno da linha de base, geralmente autolimitada e recorrente, precedida de intervalo QT longo no ritmo de base — e o QT longo costuma ter causa achável: droga, hipocalemia, hipomagnesemia. E a taquicardia irregular de complexo largo, com complexos de larguras e morfologias variáveis e frequências que passam de 200, levanta a hipótese de fibrilação atrial conduzida por via acessória, que é a situação em que bloquear o nó atrioventricular piora tudo.

Quando o coração está lento: a outra metade da queixa

Nem toda palpitação é rápida. Parte dos pacientes descreve pausa, tropeço, ou a sensação de que o coração "parou por um instante", e essa descrição às vezes corresponde a bloqueio atrioventricular avançado ou a doença do nó sinusal com pausas.

O que precisa ser reconhecido na porta é a bradicardia com sinais de baixo débito: frequência abaixo de 60 acompanhada de hipotensão, alteração aguda do estado mental, sinais de choque, insuficiência cardíaca aguda ou desconforto torácico isquêmico. Essa combinação tem conduta própria — atropina, e marca-passo transcutâneo sem demora quando o bloqueio é de segundo grau tipo II ou de terceiro grau —, e ela está escrita no capítulo de síncope desta apostila, com as doses conferidas. Aqui basta reconhecer e não perder tempo.

Para o ambulatório, o critério de encaminhamento é objetivo: bradicardia sinusal sintomática com frequência abaixo de 50 por minuto vai para a cardiologia, depois de avaliada em serviço de emergência. E há alterações que sozinhas impedem a alta despreocupada, mesmo com o paciente assintomático no momento: bloqueio atrioventricular de segundo grau tipo Mobitz II, bloqueio de terceiro grau, bloqueio sinoatrial repetitivo e pausas maiores que três segundos.

Uma pergunta simples resolve boa parte dos casos de bradicardia sintomática na porta: o que essa pessoa está tomando. Betabloqueador, verapamil, diltiazem, digoxina, amiodarona e a combinação de dois deles produzem bradicardia e bloqueio com uma frequência que surpreende quem não pergunta. Em idoso com função renal em queda, a mesma dose de sempre vira dose nova.

A palpitação que não é arritmia — e por que isso não dispensa o eletrocardiograma

Ansiedade e transtorno de pânico produzem palpitação verdadeira, com taquicardia sinusal real, e são causa frequente. Anemia produz palpitação por débito aumentado, e a pergunta sobre sangramento menstrual, hematoquezia ou melena costuma render mais que a ausculta. Tireotoxicose produz palpitação e produz fibrilação atrial, às vezes como manifestação isolada no idoso. Cafeína em quantidade não habitual, energético, cocaína, anfetamínicos e formulações para emagrecer entram na mesma prateleira.

Um item merece destaque porque é banal, comprado sem receita e quase nunca lembrado na anamnese: descongestionantes nasais e antigripais combinados contêm vasoconstritores simpaticomiméticos, e a pessoa não os considera remédio. Pergunte por nome de caixa, não por princípio ativo, e pergunte também por xarope, gotas nasais e chá para emagrecer.

Agora a parte que separa este capítulo de um raciocínio preguiçoso. Encontrar uma causa não cardíaca plausível não substitui o eletrocardiograma, por dois motivos. Primeiro, porque as duas coisas coexistem: a pessoa ansiosa também pode ter uma via acessória, e a anêmica pode estar em fibrilação atrial justamente porque anemizou. Segundo, porque a alternativa — não fazer o exame — só é aceitável se o exame fosse caro, demorado ou arriscado, e ele não é nenhuma das três coisas. O eletrocardiograma de doze derivações leva menos tempo do que a discussão sobre se ele é necessário.

A régua da atenção primária diz a mesma coisa por escrito, e vale conhecê-la porque é o que se espera do encaminhamento: a investigação inicial da palpitação recorrente inclui anamnese e exame físico, eletrocardiograma, hemograma, função tireoidiana e eletrólitos, além de afastar causas psicogênicas e exógenas, como uso de medicamentos e ingestão de substâncias estimulantes. Repare que o eletrocardiograma está na lista antes de qualquer rótulo psiquiátrico, não depois.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação da palpitação no pronto-socorro tem uma ordem que não é negociável, e ela não começa pelo exame. Começa por uma decisão clínica de dois minutos que determina se haverá tempo de investigar. Depois vem um exame que responde quase tudo o que a urgência precisa saber, e só depois vêm os outros, cada um com uma pergunta própria.

O que confunde o interno é achar que precisa nomear a arritmia para tratá-la. Não precisa. Duas perguntas sobre o traçado — largo ou estreito, regular ou irregular — resolvem a conduta de urgência das taquiarritmias sem nenhum diagnóstico eletrofisiológico. O nome exato é problema do cardiologista, e ele tem tempo; você não.

Primeiro: este paciente está estável? — a definição operacional

Instabilidade não é impressão. É uma lista, e ela existe justamente para que a decisão mais grave do atendimento não dependa de quem está de plantão. Instabilidade, no protocolo brasileiro de suporte avançado de vida, é a presença de qualquer um destes achados em paciente com taquiarritmia: alteração do nível de consciência; dor torácica; hipotensão ou outros sinais de choque; insuficiência cardíaca aguda; dispneia; congestão pulmonar; queda da saturação.

Reduzida ao que o interno precisa memorizar e olhar em sequência, a lista tem quatro portas: hipotensão, dor torácica isquêmica, congestão aguda e rebaixamento de consciência. Encontrou uma delas, com a taquiarritmia presente, a conduta muda de categoria.

Falta um qualificador, e ele é a parte difícil. A instabilidade precisa ser atribuível à taquicardia. Uma pessoa em choque séptico com frequência de 140 não tem instabilidade causada pela taquicardia: tem taquicardia causada pela instabilidade, e cardioverter isso é agredir um paciente sem tratar a causa. O protocolo escreve isso como uma etapa própria: se sinais e sintomas persistirem depois das medidas iniciais, avaliar o grau de instabilidade e determinar se está relacionada à taquicardia. A regra de bolso que funciona à beira do leito é a frequência: taquicardia sinusal por causa secundária raramente ultrapassa 150 no adulto, e frequências acima disso, com início súbito e ritmo constante, apontam para arritmia primária.

Some a isso a busca ativa das causas reversíveis, que a mesma ficha manda fazer em paralelo e o interno costuma pular: hipovolemia, hipóxia, distúrbio acidobásico, hipo e hipercalemia, hipotermia; e do outro lado tensão no tórax por pneumotórax, tamponamento, toxinas, trombose coronariana e pulmonar. Desidratação, sangramento, anemia e infecção são as que mais aparecem em pronto-socorro e as que mais se corrigem com o que você já tem na mão.

Quando a taquiarritmia causa instabilidade, o tratamento elétrico é imediato: cardioversão sincronizada nos ritmos com pulso que permitem sincronização; desfibrilação não sincronizada na TV polimórfica sustentada. Sedação, magnésio ou outros medicamentos não devem atrasar o choque indicado. A distinção do ritmo continua necessária no paciente instável.

Dois ECGs sintéticos mostram um marcador de choque sobre a onda R e outro sobre a onda T.
A sincronização com a onda R reduz a possibilidade de choque durante a repolarização vulnerável. Um choque sobre T pode induzir fibrilação ventricular; isso é um risco, não um desfecho inevitável. FV e TV sem pulso exigem desfibrilação não sincronizada.

O eletrocardiograma de doze derivações, e as duas perguntas que ele responde

É o exame que decide, e o tempo dele importa: eletrocardiograma de doze derivações em todo paciente com palpitação, o mais cedo possível, sem que isso atrase a monitorização e o acesso venoso. A tira do monitor não substitui as doze derivações, porque nela você não mede largura de complexo com confiança, não vê dissociação atrioventricular e não localiza nada.

Primeira pergunta: o complexo é largo ou estreito? O limiar é 120 milissegundos, que ao papel padrão de 25 milímetros por segundo equivale a exatamente três quadradinhos pequenos, já que cada quadradinho vale 40 milissegundos. Meça na derivação em que o complexo é mais largo, e meça do início ao fim, incluindo os empastamentos. Na dúvida entre 110 e 130, trate como largo: o erro de tratar um estreito como largo custa pouco, e o inverso custa uma parada.

Segunda pergunta: o ritmo é regular ou irregular? Não confie no olho para isso. Pegue um papel, marque três complexos consecutivos com a borda e ande com a marca ao longo do traçado; ou use o compasso, se houver. A irregularidade da fibrilação atrial é grosseira e aparece rápido nesse teste; a irregularidade sutil da taquicardia sinusal com extrassístoles, também.

Com as duas respostas você tem quatro quadrantes e quatro condutas, e nenhuma delas exige diagnóstico. Estreito e regular: manobra vagal e adenosina. Estreito e irregular: controle de frequência e a conversa sobre anticoagulação. Largo e regular: tratar como ventricular. Largo e irregular: a situação mais perigosa da lista, que pede cardiologista e cautela redobrada com bloqueadores do nó.

Terceira pergunta, que não muda a conduta imediata mas muda o destino: existe alguma alteração de risco no traçado, mesmo fora da crise? A lista brasileira é objetiva — alterações isquêmicas de segmento ST ou onda T; taquicardia ventricular; taquicardia supraventricular paroxística; fibrilação ou flutter com alta resposta ventricular; taquicardia ventricular polimórfica não sustentada e intervalos QT curto ou longo; disfunção de marca-passo ou desfibrilador implantável; bradicardia sinusal persistente abaixo de 40; síndrome de Brugada; bloqueio atrioventricular de segundo grau Mobitz II ou de terceiro grau; bloqueio sinoatrial repetitivo ou pausas maiores que três segundos. Qualquer um desses achados tira o paciente da fila da alta.

Registrar a arritmia: o exame que não se pode remarcar

Existe um erro de investigação que é exclusivo deste capítulo e não tem conserto depois: perder o traçado da crise. A palpitação paroxística é autolimitada por definição, e a janela em que ela está registrável dura o tempo em que o paciente está sintomático na sua frente. Quem manda fazer o eletrocardiograma "quando ela melhorar um pouco" perde o exame mais valioso do episódio.

Regra prática: se o paciente chega com a queixa em curso, o eletrocardiograma é feito com a queixa em curso, antes de qualquer medicação, inclusive antes da manobra vagal. E se você vai administrar adenosina, deixe o monitor registrando em papel durante a injeção — a droga bloqueia o nó por alguns segundos e desnuda a atividade atrial, transformando um traçado ambíguo em um flutter evidente. Esse registro é diagnóstico mesmo quando a reversão não acontece.

Depois da reversão, faça um novo eletrocardiograma em ritmo sinusal. Ele responde perguntas que o traçado da crise não responde: existe onda delta com intervalo PR curto, sugerindo via acessória? Existe intervalo QT longo? Existe zona inativa de infarto antigo? Existe bloqueio de ramo que explique um complexo largo prévio? O par de traçados, crise e sinusal, vale mais do que a soma dos dois isolados, e é o que o cardiologista vai querer ver.

Quando a queixa é recorrente e o paciente chega assintomático, com eletrocardiograma normal, o exame que responde é a monitorização prolongada — Holter de vinte e quatro a setenta e duas horas, ou monitor de eventos quando os episódios são raros. Esse exame é ambulatorial, não de pronto-socorro, e a sua tarefa naquela noite é garantir que ele seja pedido e que o paciente saiba por que vai fazê-lo.

Os exames que acompanham — e o que cada um responde

Eletrólitos, com potássio e magnésio, respondem duas perguntas de uma vez: existe uma causa reversível da arritmia e existe um risco proarrítmico se eu medicar. Hipocalemia e hipomagnesemia predispõem a torsades de pointes, e nenhum antiarrítmico é seguro sobre um potássio de 2,8. Em quem usa diurético, como a paciente da cena, esse exame não é opcional.

Hemograma responde pela anemia, que é causa de taquicardia e agravante de qualquer outra. Função tireoidiana responde pela tireotoxicose, e é o exame que mais muda conduta em fibrilação atrial de primeira apresentação, especialmente no idoso. Função renal responde por dose: define o que se pode prescrever e em quanto, e explica bradicardia por acúmulo de droga em quem sempre tomou a mesma quantidade.

Troponina merece um parágrafo de cautela, porque é o exame mais pedido e o mais mal interpretado nessa situação. Taquicardia sustentada eleva troponina por desbalanço entre oferta e consumo, sem que exista placa rota: é injúria miocárdica secundária, não infarto tipo 1. Peça troponina quando houver dor torácica isquêmica, alteração isquêmica no traçado ou suspeita clínica de síndrome coronariana — não como reflexo diante de qualquer taquicardia. E interprete o valor sabendo que uma elevação discreta em quem passou três horas a 180 por minuto é esperada, e que o que decide é a curva e o contexto, não o primeiro número.

Radiografia de tórax entra quando há dispneia, congestão ou dúvida sobre causa pulmonar. Gasometria entra quando há hipoxemia ou suspeita de distúrbio acidobásico. Beta-hCG entra em toda mulher em idade fértil antes de qualquer droga ou radiação — e não porque a arritmia seja diferente na gestante, mas porque a conduta seguinte é.

O que não pedir, e o custo de pedir. Ecocardiograma de urgência não é exame de triagem de palpitação: ele não muda a conduta das próximas horas na imensa maioria dos casos, atrasa o fluxo e ocupa um recurso escasso; peça-o quando houver suspeita de doença estrutural que altere a decisão imediata, como tamponamento ou disfunção grave. Dosagem de eletrólitos repetida de hora em hora sem intervenção entre elas não gera informação. Tomografia de tórax para embolia pulmonar em quem não tem hipótese clínica de embolia gera achado incidental, contraste e nefropatia. E o custo do exame desnecessário aqui não é só financeiro: é o tempo do paciente da maca ao lado.

O diferencial, resolvido dentro da própria investigação

O diferencial da palpitação não se resolve numa lista à parte, porque cada exame que confirma uma hipótese exclui outra. É mais honesto pensá-lo como uma sequência de bifurcações.

O eletrocardiograma feito durante a crise separa arritmia de não arritmia, e é definitivo: taquicardia sinusal com onda P normal precedendo cada complexo, em frequência compatível com o contexto, encerra a discussão sobre arritmia primária e abre a discussão sobre a causa da taquicardia sinusal. Essa é a maior bifurcação do capítulo, e ela é resolvida por um exame de dez minutos.

Dentro das arritmias, a largura do complexo separa supraventricular de ventricular, com a ressalva de que o estreito é confiável e o largo não: complexo estreito exclui origem ventricular na prática; complexo largo não exclui origem supraventricular, apenas a torna minoritária. A regularidade separa reentrada de fibrilação atrial. E a resposta à manobra vagal ou à adenosina separa o que depende do nó atrioventricular do que não depende, com um detalhe que às vezes se esquece: a ausência de reversão também é informação, e informação de peso, porque desloca o diagnóstico para flutter, taquicardia atrial ou taquicardia ventricular.

Fora do coração, três hipóteses se resolvem com exames de sangue e uma com a anamnese. Anemia, pelo hemograma. Tireotoxicose, pelo perfil tireoidiano. Distúrbio eletrolítico, pelo painel. E o uso de substância estimulante, apenas por perguntar direito — nenhum exame de rotina no pronto-socorro brasileiro vai mostrar o descongestionante que a pessoa tomou às seis da tarde.

Por fim, dois diagnósticos que não são de palpitação mas se apresentam com ela e não podem sair da cabeça: síndrome coronariana aguda, que pode se manifestar por taquiarritmia, e embolia pulmonar, que se manifesta por taquicardia sinusal com dispneia e às vezes por fibrilação atrial de início recente. Nenhum dos dois se afasta com o traçado normal da arritmia; afastam-se pensando neles.

O que existe no Sistema Único de Saúde — exame e droga que não se consegue não são conduta

A investigação e a conduta deste capítulo dependem do que está disponível, e vale saber o que a lista nacional de medicamentos essenciais garante em 2024. Constam do componente Básico, entre o que este capítulo usa: cloridrato de amiodarona injetável a 50 mg/mL e comprimido de 200 mg; cloridrato de verapamil injetável a 2,5 mg/mL e comprimidos de 80 e 120 mg; propafenona em comprimidos de 150 e 300 mg; digoxina em comprimido de 0,25 mg e elixir; varfarina sódica em comprimidos de 1 e 5 mg; sulfato de atropina a 0,25 mg/mL; sulfato de magnésio a 10% e a 50%; lidocaína a 1% e a 2%. Isso cobre a maior parte do que a urgência precisa.

Quatro ausências mudam a prescrição, e a mais importante é a primeira. A adenosina, que é a droga de escolha na taquicardia de complexo estreito e regular, não figura na relação nacional de medicamentos essenciais de 2024 — a busca pelo princípio ativo e pelo radical da palavra não retorna nenhuma linha em nenhum componente. Ela existe no Brasil, com registro, apresentação de 3 mg/mL em ampola de 2 mL e bula com tarja de uso restrito a hospitais; o que ela não tem é a garantia de padronização que a lista essencial confere. Na prática, isso significa que a disponibilidade depende da farmácia daquele hospital, e que a pergunta "temos adenosina aqui?" precisa ser feita antes de você precisar dela, não depois.

As outras três ausências: o sotalol, recomendado pela diretriz brasileira de fibrilação atrial para manutenção de ritmo, não está na lista; o diltiazem, citado como opção de controle agudo de frequência, também não — e a própria diretriz reconhece que os antagonistas do cálcio por via intravenosa têm disponibilidade reduzida no Brasil, o que torna o verapamil injetável, esse sim padronizado, a alternativa concreta da lista; e nenhum anticoagulante oral de ação direta consta da relação, de modo que a anticoagulação garantida pela lista essencial é a varfarina, com todo o custo de controle de razão normalizada internacional que ela implica.

Há ainda uma ausência que não é de medicamento: o metoprolol figura na relação apenas em apresentações orais, succinato de liberação prolongada e tartarato de 100 mg. A apresentação intravenosa, que os protocolos de emergência prescrevem, não está padronizada na lista essencial. Isso não impede que exista no carrinho do seu hospital — impede que você conte com ela em qualquer serviço.

A consequência prática dessas quatro linhas é uma só, e ela é pedagógica antes de ser logística: conheça o carrinho de emergência do lugar onde você trabalha antes do plantão em que vai precisar dele. Saber a dose da adenosina de cor não ajuda se a caixa não existe na unidade, e saber que ela pode não existir é o que faz você planejar a alternativa com antecedência.

Do lado dos exames, o essencial é acessível: eletrocardiograma, hemograma, eletrólitos e função tireoidiana estão previstos na investigação inicial da palpitação recorrente pela própria régua da atenção primária, e o Holter é exame ambulatorial regulado. O ecocardiograma é o gargalo real na maior parte das regiões, e é por isso que os protocolos de encaminhamento tratam a impossibilidade de realizá-lo na atenção primária como critério explícito para encaminhar ao especialista, em vez de fingir que o exame estará disponível.

07

Duas perguntas, quatro condutas — e a carga que o desfibrilador vai receber

Aprenda a relacionar ritmo, repercussão hemodinâmica e mecanismo antes de escolher choque ou fármaco. O tratamento deve melhorar perfusão e sintomas e incluir o risco residual.

  1. 1Chegada. Paciente com palpitação, taquicardia ou bradicardia percebida. Antes de qualquer pergunta diagnóstica: monitor cardíaco, oximetria, pressão arterial nos dois braços quando possível, acesso venoso periférico calibroso e glicemia capilar. Oxigênio apenas se houver hipoxemia, dispneia ou aumento do trabalho respiratório.
  2. 2Este paciente está estável? Procure ativamente as quatro portas: hipotensão ou outros sinais de choque; dor torácica isquêmica; congestão pulmonar ou insuficiência cardíaca aguda; alteração do nível de consciência. Some dispneia e queda de saturação. Uma delas basta.
  3. 3A instabilidade é atribuível à taquicardia? Se a frequência está abaixo de 150 e existe causa evidente para taquicardia sinusal — sepse, sangramento, desidratação, hipóxia, dor —, trate a causa e não cardioverta. Se o início foi súbito, o ritmo é constante e a frequência é alta, a arritmia é a causa.
  4. 4Instabilidade causada pela taquiarritmia: realize tratamento elétrico imediato. Com pulso e ritmo passível de sincronização, faça cardioversão sincronizada; na TV polimórfica sustentada, faça choque não sincronizado em energia de desfibrilação. Chame ajuda e ofereça sedação quando possível, sem atrasar o choque. Se perder o pulso, inicie o protocolo de parada cardiorrespiratória.
  5. 5Estável: eletrocardiograma de doze derivações, feito durante a crise, antes de qualquer medicação — inclusive antes da manobra vagal.
  6. 6Pergunta 1 do traçado: o complexo é estreito, abaixo de 120 milissegundos, ou largo, de 120 milissegundos para cima? Três quadradinhos pequenos ao papel padrão. Na dúvida, considere largo.
  7. 7Pergunta 2 do traçado: o ritmo é regular ou irregular? Confirme com a borda de um papel marcando três complexos consecutivos, não a olho.
  8. 8Estreito e regular: manobra vagal bem feita, com o monitor registrando. Se não reverter, adenosina 6 mg em bolus rápido seguida de 20 mL de soro fisiológico, com o membro elevado.
  9. 9Estreito e regular que não reverteu: segunda dose de adenosina, 12 mg, com o mesmo cuidado. Uma terceira dose de 12 mg pode ser considerada. Se persistir, o caminho é controle de frequência e avaliação do cardiologista.
  10. 10Estreito e irregular, provável fibrilação atrial: controle de frequência. E, antes de qualquer ideia de reverter, a pergunta que decide — há quanto tempo esse ritmo está aí?
  11. 11Fibrilação atrial com início conhecido e recente, em paciente de baixo risco embólico, ou com início superior a 24 horas ou desconhecido: as duas rotas são diferentes, e a segunda exige imagem transesofágica ou três semanas de anticoagulação antes da reversão eletiva. Essa decisão não é do interno sozinho.
  12. 12Largo e regular: trate como taquicardia ventricular. Amiodarona 150 mg diluída em glicose a 5%, infundida em 10 minutos, repetível até 450 mg no total. Se a qualquer momento surgir instabilidade, cardioversão sincronizada.
  13. 13Largo e irregular: diferencie TV polimórfica, incluindo torsades, de fibrilação atrial com via acessória ou bloqueio de ramo. TV polimórfica sustentada exige desfibrilação imediata; magnésio e correção dos precipitantes na torsades não substituem o choque. Na FA pré-excitada instável, faça cardioversão sincronizada e evite bloqueadores do nó atrioventricular. Chame ajuda especializada, sem atrasar o tratamento da instabilidade.
  14. 14Depois da reversão ou do controle: novo eletrocardiograma em ritmo sinusal, eletrólitos, hemograma, função tireoidiana e função renal. Procure causa reversível e droga culpada.
  15. 15Decisão de destino. Alta com Holter e retorno, observação, internação ou avaliação do cardiologista ainda hoje — a tabela de destino do bloco seguinte separa os três grupos.

A carga inicial sobe com a desorganização do ritmo

As cargas iniciais da cardioversão sincronizada não são arbitrárias: elas acompanham o quanto o ritmo está desorganizado, porque massa atrial fibrilando exige mais energia para ser silenciada de uma vez do que um circuito único de reentrada. Da esquerda para a direita: 50 a 100 joules no complexo estreito e regular; 100 joules no complexo largo e regular; 120 a 200 joules no complexo estreito e irregular em aparelho bifásico; 200 joules no mesmo ritmo em aparelho monofásico. Se o ritmo não reverteu, a carga sobe gradativamente — a barra da direita, com o sinal de acréscimo, é a escalada. Sincronizado significa que o aparelho espera a onda R para disparar: choque não sincronizado sobre onda T pode induzir fibrilação ventricular, e por isso a tecla de sincronismo é conferida antes de cada disparo, inclusive antes do segundo.

TraçadoO que costuma serConduta de urgência no estávelSe instável
Estreito e regularTaquicardia supraventricular paroxística por reentrada; flutter com condução fixa quando a frequência ronda 150Manobra vagal com registro; adenosina 6 mg, depois 12 mg, depois 12 mg; se persistir, controle de frequência e cardiologistaCardioversão sincronizada com 50 a 100 J
Estreito e irregularFibrilação atrial; flutter com condução variável; taquicardia atrial multifocalControle de frequência; avaliar tempo de início e risco embólico antes de qualquer tentativa de reversãoCardioversão sincronizada com 120 a 200 J bifásico, 200 J monofásico
Largo e regularTaquicardia ventricular em cerca de quatro de cada cinco casos; supraventricular com aberrância no restanteTratar como ventricular: amiodarona 150 mg em 10 minutos, até 450 mg no totalCardioversão sincronizada com 100 J
Largo e irregularTorsades de pointes; fibrilação atrial conduzida por via acessória; fibrilação atrial com bloqueio de ramoSulfato de magnésio se torsades; evitar bloqueadores do nó se houver suspeita de via acessória; cardiologistaTV polimórfica sustentada: desfibrilação não sincronizada. FA com instabilidade atribuível à arritmia: cardioversão sincronizada; na suspeita de pré-excitação, evitar bloqueadores do nó AV.
Sinusal, com onda P normal antes de cada complexoFebre, dor, hipovolemia, anemia, hipoxemia, sepse, embolia, abstinência, estimulante, tireotoxicoseTratar a causa. Não existe indicação de baixar a frequência com droga ou choqueA instabilidade não é da taquicardia: trate o choque, não o ritmo
Bradicardia abaixo de 60 com baixo débitoBloqueio atrioventricular avançado, doença do nó sinusal, efeito de droga, hipercalemiaAtropina e marca-passo transcutâneo — conduta detalhada no capítulo de síncope desta apostilaNão retardar o marca-passo transcutâneo no bloqueio de segundo grau tipo II ou de terceiro grau

O que impede a alta, mesmo com o paciente bem no momento

AchadoPor que segura o paciente
Síncope ou quase-síncope junto com a palpitaçãoDesloca a arritmia de sintomática para hemodinamicamente significativa; a próxima crise pode ser presenciada por ninguém
História familiar de morte súbita antes dos 40 anos em pais ou irmãosLevanta canalopatia e miocardiopatia hereditária; muda a investigação e alcança a família
Cardiopatia estabelecida — infarto prévio, insuficiência cardíaca, valvopatia, miocardiopatiaMultiplica o risco de que a arritmia seja ventricular e de que ela recorra com repercussão
Taquicardia ventricular, mesmo não sustentada, ou intervalo QT longo ou curto no traçadoConsta da lista brasileira de alterações eletrocardiográficas que indicam encaminhamento à emergência
Bloqueio atrioventricular de segundo grau Mobitz II, de terceiro grau, ou pausas maiores que três segundosRisco de assistolia; indicação potencial de marca-passo definitivo
Síndrome de Brugada, ou pré-excitação com onda delta e taquicardia sintomáticaRisco de morte súbita e de arritmia conduzida por via acessória; encaminhamento especializado
Fibrilação ou flutter atrial com alta resposta ventricular ainda não controladaSai da lista de alta pelo próprio risco hemodinâmico, além do embólico
Disfunção de marca-passo ou de desfibrilador implantávelO dispositivo é a causa e a solução; exige interrogação do aparelho
Bradicardia sinusal persistente abaixo de 40 por minutoConsta da mesma lista de alterações que indicam avaliação em emergência
Alterações isquêmicas de segmento ST ou de onda TA arritmia pode ser manifestação de síndrome coronariana aguda, e o caminho passa a ser o da dor torácica

O que a lista nacional de medicamentos essenciais garante, e o que ela deixa de fora

FármacoSituação na RENAME 2024Consequência para a sua prescrição
AdenosinaNão consta em nenhum componenteA droga de escolha da taquicardia de complexo estreito e regular depende da padronização local. Confira o carrinho antes do plantão
Cloridrato de amiodaronaComponente Básico: injetável 50 mg/mL e comprimido 200 mgDisponível para o complexo largo, para controle agudo de frequência quando as demais falham e para a cardiopatia chagásica
Cloridrato de verapamilComponente Básico: injetável 2,5 mg/mL e comprimidos de 80 e 120 mgÉ o antagonista do cálcio intravenoso padronizado. Contraindicado na disfunção sistólica e na suspeita de via acessória
MetoprololComponente Básico apenas por via oral: succinato de liberação prolongada e tartarato de 100 mgA apresentação intravenosa que os protocolos de emergência prescrevem não está na lista essencial
Diltiazem e sotalolNão constamO diltiazem intravenoso citado como opção de controle agudo e o sotalol recomendado para manutenção de ritmo não são garantidos pela lista
PropafenonaComponente Básico: comprimidos de 150 e 300 mgSustenta a reversão química e o esquema de dose única em coração estruturalmente normal, decisão do cardiologista
DigoxinaComponente Básico: comprimido de 0,25 mg e elixir de 0,05 mg/mLExiste por via oral; a via intravenosa usada no controle agudo não está na lista
Varfarina sódicaComponente Básico: comprimidos de 1 e 5 mgÉ a anticoagulação garantida pela lista. Nenhum anticoagulante oral de ação direta consta da relação
Sulfato de magnésioComponente Básico: injetável a 10% e a 50%Cobre a torsades de pointes e o uso adjuvante no controle de resposta ventricular
Sulfato de atropinaComponente Básico: injetável 0,25 mg/mLCobre a bradicardia sintomática. Uma ampola de 1 mL tem 0,25 mg, e a dose de 0,5 mg exige duas

As duas perguntas do traçado resolvem a conduta de urgência, não o diagnóstico. Um paciente pode sair do pronto-socorro estabilizado, com o ritmo revertido e sem que ninguém saiba se a reentrada era nodal ou por via acessória — e isso está certo. O que não pode é sair sem o par de traçados, crise e ritmo sinusal, que permite ao cardiologista responder essa pergunta depois.

A tabela de conduta pressupõe que a instabilidade já foi procurada e afastada. Ela não tem uma coluna "se piorar" porque a piora não é uma variante da mesma via: é a saída para a coluna da direita, a qualquer momento, inclusive no meio da infusão de uma droga.

As cargas do card são as iniciais recomendadas pelo protocolo brasileiro de suporte avançado de vida. Um ensaio recente citado pela diretriz brasileira de fibrilação atrial sugere que o choque com energia máxima é mais eficaz do que o aumento escalonado, e a própria diretriz o apresenta como alternativa em casos refratários às doses habituais de 200 joules — o que é uma discussão de refratariedade, não a regra da primeira tentativa.

A tabela de disponibilidade descreve a lista nacional, não o estoque do seu hospital. Serviço de referência costuma ter adenosina e diltiazem; unidade de pronto atendimento de município pequeno costuma ter amiodarona e pouco mais. A régua útil não é decorar a lista: é abrir o carrinho no primeiro dia de escala e saber o que existe ali.

Nenhuma das quatro condutas de urgência exige que você nomeie a arritmia. Isso é deliberado: o custo de esperar o nome é medido em minutos de perfusão, e o benefício do nome é quase todo posterior ao atendimento.

As referências citadas apresentam limites diferentes para metoprolol intravenoso: o protocolo de suporte avançado usa 5 mg a cada 5 minutos até 15 mg, e a diretriz brasileira de FA de 2025 admite 2,5–5 mg em até quatro doses. Essa diferença não demonstra, por si só, que o ambiente de atendimento seja sua causa. A prescrição deve escolher um protocolo aplicável, indicar teto cumulativo e monitorar pressão, frequência, condução e insuficiência cardíaca. Não combinar doses e tetos de documentos diferentes nem perseguir a dose máxima diante de resposta suficiente ou intolerância.

Um erro aritmético da diretriz brasileira de fibrilação atrial de 2025, que muda a leitura de quem for aplicá-la ao pé da letra. A diretriz adota o escore CHA2DS2-VA e explica a troca de nome: o sexo feminino foi abolido do sistema de pontuação. A Tabela 5 do próprio documento lista sete itens — insuficiência cardíaca ou disfunção ventricular esquerda, 1 ponto; hipertensão, 1; idade de 75 anos ou mais, 2; diabetes, 1; acidente vascular cerebral, ataque isquêmico transitório ou embolia sistêmica, 2; doença vascular, 1; idade entre 65 e 74 anos, 1 — que somam no máximo 9 pontos, e nenhum deles é o sexo. A seção de cardioversão, porém, continua pontuando por sexo em duas passagens: diz que o baixo risco corresponde a escore zero em homens e 1 em mulheres, e que a rota mais cautelosa se aplica a escore igual ou maior que 2 em homens e igual ou maior que 3 em mulheres. Pela tabela que a própria diretriz publica, uma mulher sem nenhum fator de risco soma zero, e não 1. O ponto sobrando vem do escore anterior, o CHA2DS2-VASc, cujo máximo era 10 exatamente porque incluía 1 ponto para sexo feminino: 10 menos 9 é o ponto que foi removido, e é ele que reaparece na frase. Enquanto o texto não for corrigido, quem manda é a tabela — calcule sem pontuar sexo e leia os limiares como iguais para homens e mulheres.

Outra imprecisão de fonte oficial, menor mas exatamente no ponto que o interno mede. O algoritmo geral das taquiarritmias com pulso do protocolo brasileiro de suporte avançado de vida separa complexo estreito, definido como menor que 0,12 segundo, de complexo largo, definido como maior que 0,12 segundo. Como as duas desigualdades são estritas, um complexo de exatamente 0,12 segundo — 120 milissegundos, três quadradinhos redondos ao papel padrão — não cai em nenhum dos dois ramos do fluxograma. O texto da ficha correspondente fecha o intervalo, definindo complexo largo como maior ou igual a 0,12 segundo, e é essa a leitura a seguir: 120 milissegundos exatos é complexo largo. A régua importa porque 120 é justamente o número que mais aparece na medida, e porque o erro de tratar um estreito como largo custa muito menos do que o inverso.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo abaixo cobre da chegada à decisão de destino, que neste capítulo raramente passa de seis horas. Toda dose vem com a fonte brasileira que a sustenta e com a conta da ampola, porque prescrever miligramas sem saber quantas ampolas isso é já custou tempo em sala de emergência.

Uma advertência antes de começar. Os marcos 4 a 7 são alternativos, não sequenciais: você entra em um deles conforme a resposta às duas perguntas do traçado, e não percorre os quatro.

  1. Minuto 0 — antes de qualquer pergunta diagnóstica

    Monitor cardíaco, oximetria, pressão arterial, acesso venoso e ECG de doze derivações durante os sintomas, sem atrasar estabilização. Para adenosina, prefira acesso periférico proximal pérvio que permita bolus e flush rápidos; o braço direito não é obrigatório. Oxigênio se houver hipoxemia, com alvo definido pela condição clínica. Dispneia com saturação normal exige avaliar a causa e o trabalho respiratório; oxigênio não substitui esse tratamento. Avalie glicemia conforme apresentação, sobretudo alteração de consciência ou suspeita metabólica.

  2. Minuto 2 — a pergunta que decide o resto do atendimento

    Procure as quatro portas da instabilidade, e procure-as com as mãos e os olhos, não com o monitor: pressão arterial aferida, pele e enchimento capilar, ausculta pulmonar buscando congestão, nível de consciência, e a pergunta direta sobre dor torácica. Some dispneia e queda de saturação. A ficha brasileira de taquiarritmia lista alteração de nível de consciência, dor torácica, hipotensão ou outros sinais de choque, insuficiência cardíaca aguda, dispneia, congestão pulmonar e queda de saturação. Em paralelo, identifique e trate as causas reversíveis: hipovolemia, hipoxemia, distúrbio do potássio, acidose, hipotermia, e do outro lado pneumotórax hipertensivo, tamponamento, toxinas, trombose coronariana e pulmonar. Desidratação, sangramento, anemia e infecção são as que mais aparecem, e a diretriz brasileira de fibrilação atrial manda descartá-las e tratá-las antes de atribuir a instabilidade à arritmia.

  3. Minuto 3 no paciente instável — cardioversão elétrica sincronizada

    Se a taquiarritmia causa hipotensão, choque, alteração de consciência, dor isquêmica ou insuficiência cardíaca aguda, faça cardioversão sincronizada, com sedação quando viável sem atrasar o choque. Taquicardia sinusal compensatória exige tratar a causa, não cardioversão. AHA 2025: referências iniciais de 200 J para fibrilação/flutter atrial e 100 J para taquicardia regular estreita ou TV monomórfica; respeitar equipamento e protocolo. Confira marcadores de sincronismo antes de cada disparo e aumente energia conforme resposta. TV polimórfica exige choque não sincronizado em energia de desfibrilação; se sincronizar provocar atraso crítico, não prolongue a instabilidade aguardando o aparelho. Na FA instável, anticoagulação deve ser avaliada e iniciada assim que possível, sem atrasar a cardioversão salvadora. Reavalie pulso, perfusão, ventilação e ritmo depois de cada intervenção.

  4. Minuto 5 no estável com complexo estreito e regular — manobra vagal e adenosina

    Na taquicardia regular de QRS estreito estável, registre o ritmo e tente Valsalva modificada: paciente semissentado a 45°, esforço expiratório por 15 segundos contra resistência aproximada de 40 mmHg; em seguida, deite-o e eleve passivamente as pernas a 45° por 15 segundos, retornando à posição semissentada para avaliar o ritmo. Uma seringa pode auxiliar, mas não mede exatamente a pressão. Se persistir, adenosina 6 mg IV em bolus rápido seguida imediatamente de flush de 20 mL; se necessário, 12 mg conforme protocolo. A apresentação de 3 mg/mL em 2 mL contém 6 mg: uma ampola na primeira dose, duas na segunda. Mantenha ECG contínuo e material de reanimação. Avise sobre possível rubor, desconforto torácico e sensação desagradável breve; não ocorrem obrigatoriamente em todos. Considere redução de dose em transplante cardíaco e interações que potencializam o efeito conforme protocolo/bula; evite em broncoespasmo/asma relevante e bloqueio avançado sem marca-passo. Quando adenosina não está disponível ou não é adequada, verapamil/diltiazem podem ser opções em pacientes selecionados, com pressão e função sistólica adequadas, sem pré-excitação. A decisão é supervisionada e a disponibilidade local precisa ser conferida.

  5. Minuto 5 no estável com complexo estreito e irregular — controle de frequência primeiro

    Na FA estável, controle de frequência, controle de ritmo e prevenção de embolia são decisões relacionadas. Um alvo inicial abaixo de 110/min pode ser aceitável se sintomas e perfusão melhorarem, mas não é meta universal nem obriga alvo abaixo de 80 no seguimento. Escolha o fármaco pela pressão, congestão, função ventricular, medicamentos e presença de pré-excitação. Betabloqueador pode ser usado em paciente compensado; verapamil/diltiazem devem ser evitados na disfunção sistólica significativa. Insuficiência cardíaca agudamente descompensada ou hipoperfusão exige cautela com fármacos que deprimem contratilidade. Digoxina pode ser considerada em situações selecionadas, com dose ajustada à função renal e monitorização, reconhecendo início mais lento. Amiodarona IV pode ser opção em casos selecionados de descompensação ou refratariedade, mas também cardioverte: não deve ser apresentada como controle de frequência isento de risco embólico. FA de duração desconhecida pede estratégia de anticoagulação e avaliação especializada; cardioversão eletiva pode ocorrer após anticoagulação terapêutica adequada ou exclusão de trombo por imagem apropriada, com anticoagulação posterior conforme protocolo. Se surgir instabilidade causada pelo ritmo, cardioverta sem esperar essas etapas. Não use bloqueadores nodais nem amiodarona IV em FA pré-excitada.

  6. Minuto 5 no estável com complexo largo — tratar como ventricular

    QRS largo não define uma única terapia. Taquicardia regular monomórfica deve ser tratada como TV até esclarecimento, com monitorização e ajuda experiente. Se estável, amiodarona 150 mg IV em 10 minutos é uma opção; repetir conforme resposta e protocolo, seguida de manutenção, por exemplo 1 mg/min nas primeiras 6 horas no algoritmo AHA. Uma ampola de 3 mL a 50 mg/mL contém 150 mg; confira a formulação, diluente e concentração da bula local. Não transforme esse esquema em injeção rápida de três minutos no paciente com pulso. Procainamida é outra opção em situações selecionadas, evitando insuficiência cardíaca importante e QT prolongado. Em taquicardia irregular larga, considere FA pré-excitada: evite adenosina, verapamil/diltiazem, betabloqueador, digoxina e amiodarona IV; discutir cardioversão ou antiarrítmico apropriado com especialista. Torsades é TV polimórfica associada a QT longo: suspenda fármacos causadores, corrija potássio/magnésio e administre magnésio conforme protocolo, em infusão controlada no paciente com pulso. Sulfato de magnésio 1–2 g equivale a 10–20 mL da solução a 10% ou 2–4 mL da solução a 50%, antes da diluição. TV polimórfica instável exige desfibrilação imediata, sem esperar magnésio; TV monomórfica instável exige cardioversão sincronizada.

  7. Minuto 5 na bradicardia com baixo débito

    Na bradicardia com comprometimento cardiopulmonar, atropina 1 mg IV, repetida a cada 3–5 minutos até 3 mg, conforme AHA 2025. Na apresentação 0,25 mg/mL em ampola de 1 mL, são quatro ampolas por dose e doze no total máximo. Bloqueio de alto grau, especialmente com QRS largo, pode não responder: prepare marca-passo transcutâneo imediatamente, sem esperar a dose máxima, e considere infusão cronotrópica como ponte conforme protocolo. Confirme captura elétrica e mecânica. Ofereça analgesia/sedação se viável e investigue fármacos, hipercalemia, hipóxia e isquemia em paralelo ao suporte.

  8. Hora 2 a 6 — a decisão de destino

    O destino depende do risco residual e da resposta sustentada. Após TSV revertida, paciente assintomático, sem cardiopatia ou sinais de risco, com ECG pós-reversão adequado e acesso ao seguimento pode ter alta após observação individualizada. Entregue o registro dos ritmos, ensine manobra vagal quando apropriado e organize avaliação de recorrências; Holter não é obrigatório quando o ritmo já foi documentado. Escolha monitorização ambulatorial pela frequência dos episódios: um Holter de 24 horas tem baixo rendimento para eventos separados por meses. Duas doses de adenosina, isoladamente, não obrigam internação. Sintomas persistentes, recorrência, distúrbios ainda não corrigidos, suspeita de congestão, início indeterminado de FA sem plano seguro ou dificuldade importante de retorno podem justificar observação. Taquicardia de QRS largo, síncope associada, hipoperfusão, suspeita de isquemia, pré-excitação sintomática e disfunção de dispositivo exigem avaliação especializada urgente. Na FA, não conclua o atendimento apenas com uma frequência melhor: planeje anticoagulação, investigação de cardiopatia e seguimento.

09

Como saber se está funcionando

Este é o bloco que o internato costuma pular. O aluno sabe prescrever adenosina; não sabe dizer, dez minutos depois, se aquilo deu certo, e não sabe o que fazer quando não deu. As respostas abaixo são curtas de propósito, porque a reavaliação de uma taquiarritmia acontece em minutos, não em dias.

Uma regra atravessa as quatro seções: em arritmia, reavaliar não é perguntar como o paciente está se sentindo. É olhar o mesmo conjunto de parâmetros que definiu a instabilidade lá atrás, com o mesmo rigor, no relógio.

O que acompanhar, e de quanto em quanto tempo

Frequência cardíaca no monitor, contínua. Pressão arterial a cada 5 minutos enquanto houver arritmia ativa ou droga em infusão, e a cada 15 minutos depois de estabilizado. Saturação contínua. Nível de consciência, avaliado por conversa e não por impressão. Ausculta pulmonar a cada reavaliação, procurando congestão que apareceu.

Traçado impresso em três momentos que não se pode perder: durante a crise, durante a intervenção — a tira do monitor rodando enquanto a adenosina entra — e depois da reversão, agora em doze derivações. Quem só imprime o primeiro e o último perde o registro que mais frequentemente fecha diagnóstico.

Diurese vale a pena em quem chegou hipotenso ou congesto: é o marcador mais barato de perfusão renal recuperada, e uma sonda vesical não é necessária para isso na maioria dos casos — pergunte e anote.

E há um parâmetro que não é do paciente: o relógio. Anote a hora da manobra vagal, a hora de cada dose, a hora do choque e a hora da reversão. Uma reversão que ninguém sabe a que horas aconteceu vira um dado inútil na passagem de plantão e no encaminhamento.

Um cuidado sobre o eletrocardiograma pós-reversão: ele pode mostrar alterações transitórias de repolarização que não significam isquemia. Compare com o traçado de base quando existir, e não escale a investigação coronariana com base apenas nessa alteração em quem não tinha dor.

O que significa melhora, em número

Na taquicardia supraventricular tratada com manobra vagal ou adenosina, melhora é reversão: o monitor muda de 180 constantes para ritmo sinusal, geralmente depois de uma pausa de alguns segundos que assusta quem nunca viu. Pausa curta seguida de ritmo sinusal é resposta esperada, não complicação. Melhora parcial não existe nessa arritmia — ou o circuito parou ou não parou.

Na fibrilação atrial tratada com controle de frequência, melhora é frequência de repouso abaixo de 110 por minuto com o paciente confortável, e a diretriz brasileira aceita esse alvo leniente sem prejuízo de eventos em pacientes assintomáticos. Se ele saiu de 150 para 130 e continua dispneico, isso não é melhora suficiente.

Em qualquer arritmia, melhora hemodinâmica é a reversão do que definiu instabilidade: pressão sistólica que subiu e se manteve, dor torácica que cedeu, consciência que clareou, ausculta que limpou, saturação que voltou. Se a frequência caiu e a pressão continua em 80, a arritmia não era o problema principal.

Um marcador de segurança para não esquecer depois da amiodarona: reavalie a pressão arterial nos primeiros 10 minutos de infusão. Hipotensão relacionada à velocidade de administração é o efeito adverso mais comum na urgência, e a correção costuma ser diminuir o gotejamento, não suspender a droga.

E um marcador de segurança depois de qualquer antiarrítmico: intervalo QT no traçado pós-reversão. Amiodarona e sotalol prolongam o QT, e a torsades de pointes que pode surgir horas depois é a complicação que se previne olhando o traçado e o potássio, não perguntando ao paciente.

Quando não melhora — a sequência de revisão

Primeiro, revise o diagnóstico do ritmo, não a dose. Taquicardia de complexo estreito e regular que não responde a duas doses adequadas de adenosina, com a técnica correta, muito provavelmente não é reentrada nodal: é flutter atrial com condução fixa ou taquicardia atrial, e ambas pedem controle de frequência, não mais adenosina. Aqui o registro durante a injeção paga o investimento, porque o bloqueio transitório do nó costuma revelar as ondas de flutter.

Segundo, revise a técnica antes de culpar a droga. Adenosina com meia-vida inferior a dez segundos precisa de acesso proximal, bolus rápido em um a dois segundos, flush imediato de 20 mL e elevação do membro. Injetada devagar, por acesso de dorso da mão, sem flush, a droga se degrada antes de chegar ao coração — e a falha é do método.

Terceiro, revise as causas reversíveis que você já procurou uma vez. Potássio, magnésio, hipóxia, hipovolemia, febre, dor, droga em uso. Arritmia que recorre logo após reverter quase sempre tem um combustível ainda aceso.

Quarto, reconsidere se aquilo é mesmo arritmia primária. Taquicardia sinusal persistente apesar de tudo é a apresentação de sepse, embolia pulmonar, sangramento oculto e tireotoxicose — e nenhuma delas melhora com antiarrítmico.

Quinto, escale. Se o paciente deteriorou, a resposta é cardioversão sincronizada, não a próxima droga. Se ele está estável e refratário, a resposta é o cardiologista, e o protocolo brasileiro autoriza explicitamente aguardar essa avaliação sem medicar no paciente estável e sem sintomas importantes. Pedir ajuda cedo em arritmia não é fraqueza: é o que a estrutura do serviço espera de você.

A reavaliação que acontece depois da alta

Boa parte da reavaliação deste capítulo não é sua — é do retorno, e ela falha quando o paciente sai sem entender o que precisa ser reavaliado. Combine três coisas explicitamente antes da alta: o exame que vai ser feito, a data do retorno e os sinais que trazem a pessoa de volta antes disso.

O exame, na maior parte dos casos, é o Holter de 24 horas, e ele tem uma limitação que precisa ser dita ao paciente: ele só flagra o que acontecer nas 24 horas em que estiver ligado. Quem tem crise a cada dois meses provavelmente terá Holter normal, e isso não significa que não haja arritmia — significa que o exame seguinte é o monitor de eventos, de duração maior.

Os sinais de retorno imediato são quatro, e se dizem em uma frase cada: desmaio; palpitação junto com dor no peito; palpitação junto com falta de ar que não passa sentado; e palpitação que dura mais de vinte ou trinta minutos sem ceder com a manobra que você ensinou. Escreva no papel da alta, porque ninguém memoriza orientação verbal depois de uma noite no pronto-socorro.

Para quem sai com fibrilação atrial nova, o retorno é mais curto e tem tarefa específica: definir anticoagulação. O escore de risco embólico é calculado com dados que você já tem — insuficiência cardíaca ou disfunção ventricular, hipertensão, idade, diabetes, acidente vascular prévio, doença vascular — e a decisão de anticoagular ou não é a que mais muda o prognóstico daquela pessoa nos próximos cinco anos. Deixar isso implícito no encaminhamento é a forma mais comum de perdê-lo.

10

Onde o erro machuca

Tratar antes de responder se o paciente está estável, escolhendo a droga pelo nome da arritmia

O dano: O paciente instável não tem os minutos que a droga leva para agir, e várias delas hipotensam por conta própria. Enquanto se discute qual antiarrítmico usar em alguém com pressão de 70 e consciência rebaixada, a perfusão coronariana e cerebral segue caindo, e o ritmo que era cardiovertível vira parada. O inverso do erro também acontece e também machuca: cardioverter uma taquicardia sinusal de 140 em um paciente séptico agride sem tratar a causa.

Como pegar a tempo: Faça a pergunta da estabilidade em voz alta, na frente da equipe, antes de pedir qualquer medicação. Percorra as quatro portas — hipotensão, dor torácica isquêmica, congestão aguda, rebaixamento — e depois faça a segunda pergunta: essa instabilidade é da taquicardia? Frequência abaixo de 150 com causa evidente aponta para taquicardia sinusal secundária, e nesse caso o alvo é a causa.

Tratar taquicardia de complexo largo como se fosse supraventricular porque o paciente está conversando

O dano: Cerca de 80% das taquicardias de complexo largo são de origem ventricular, e a proporção é ainda maior quando existe cardiopatia estrutural. Bloqueadores do nó atrioventricular dados a uma taquicardia ventricular não a revertem, deprimem o inotropismo e podem precipitar colapso hemodinâmico em quem estava compensado. O verapamil intravenoso é o exemplo clássico desse desfecho.

Como pegar a tempo: A regra é de mão única: complexo largo é ventricular até prova em contrário, e a prova não se produz na primeira hora. Estabilidade hemodinâmica não é argumento — existe taquicardia ventricular com paciente lúcido e pressão preservada. Procure dissociação atrioventricular, batimentos de fusão e de captura no traçado de doze derivações; se não achar, siga tratando como ventricular.

Reverter uma fibrilação atrial de início indeterminado porque a frequência estava alta e o paciente incomodado

O dano: A volta da contração atrial ejeta o trombo que se organizou no apêndice atrial esquerdo enquanto o átrio fibrilava, e o resultado é um acidente vascular cerebral em quem entrou andando no pronto-socorro. O risco existe tanto na cardioversão elétrica quanto na química — o mecanismo é o retorno da sístole atrial, não a via pela qual o ritmo voltou.

Como pegar a tempo: A pergunta que precede a decisão é temporal, não farmacológica: há quanto tempo esse ritmo está aí? Duração superior a 24 horas ou desconhecida exige ecocardiograma transesofágico sem trombo ou três semanas de anticoagulação antes da reversão eletiva, e a anticoagulação segue por pelo menos quatro semanas depois do choque, independentemente do escore. Quando a resposta for "não sei", controle a frequência e encaminhe. A exceção é o paciente instável, que se cardioverte e se anticoagula em seguida.

Dar adenosina de qualquer jeito e concluir que a droga não funcionou

O dano: A meia-vida da adenosina é inferior a dez segundos. Injetada devagar, por veia distal do dorso da mão, sem flush imediato, ela se degrada no trajeto e não chega ao nó atrioventricular em concentração útil. O paciente recebe o desconforto sem o benefício, o médico conclui que não é uma reentrada nodal e o diagnóstico se desloca para o lado errado. Há ainda o dano de omissão: administrar em asmático, contraindicação explícita da bula, ou não avisar o paciente do rubor, do aperto torácico e da sensação de morte iminente que duram alguns segundos.

Como pegar a tempo: Acesso proximal, de preferência em fossa antecubital do braço direito. Bolus em um a dois segundos, seguido imediatamente por 20 mL de soro fisiológico pela mesma via e elevação do membro. Monitor registrando em papel durante a injeção. Avise o paciente antes, em uma frase. E antes de injetar, faça três perguntas: asma, uso de dipiridamol ou carbamazepina, transplante cardíaco — as duas últimas pedem redução para 3 mg.

Rotular a palpitação como ansiedade e liberar sem eletrocardiograma

O dano: É o erro de maior alcance deste capítulo, porque acontece com o paciente que parece mais fácil e porque parece justificado: mulher jovem, tensa, exame normal, tudo aponta para ansiedade. Só que uma via acessória, um intervalo QT longo e uma síndrome de Brugada não produzem sinal ao exame físico — produzem um traçado alterado e, meses depois, uma síncope ou uma morte súbita. E ansiedade coexiste com arritmia; o diagnóstico de uma não é a exclusão da outra.

Como pegar a tempo: Regra sem exceção: toda palpitação faz eletrocardiograma de doze derivações, e ele é feito com o sintoma em curso quando o sintoma está em curso. A régua brasileira da atenção primária põe o eletrocardiograma dentro da investigação inicial da palpitação recorrente, junto com hemograma, função tireoidiana e eletrólitos, antes de qualquer rótulo psicogênico. Se o traçado for normal e a história for recorrente, o encaminhamento é para investigação de palpitação de origem indeterminada, não para casa com alprazolam.

Dar alta sem procurar o que a arritmia estava anunciando — e sem o traçado na mão do paciente

O dano: A arritmia revertida é o evento; o risco é o que sobra. Sai de alta o paciente que teve síncope junto com a palpitação, ou que tem parente de primeiro grau morto de repente antes dos 40 anos, ou cujo traçado em ritmo sinusal mostra pré-excitação, QT longo ou zona inativa — e nenhuma dessas informações foi perguntada ou olhada. Some a isso a perda material do traçado: o paciente chega ao cardiologista dois meses depois sem o registro da crise, e o exame mais valioso do episódio deixou de existir.

Como pegar a tempo: Antes de assinar a alta, três perguntas e uma providência. Houve desmaio ou quase-desmaio? Há morte súbita antes dos 40 anos na família? Existe cardiopatia conhecida? E imprima duas cópias do par de traçados, crise e ritmo sinusal, uma para o prontuário e outra para o paciente levar, com data e hora escritas à mão. O encaminhamento vai junto, com o conteúdo mínimo preenchido: tempo de evolução, frequência dos episódios, tipo de arritmia quando estabelecida, medicações com posologia e a resposta explícita sobre história familiar.

11

O que dizer ao paciente e à família

O paciente com palpitação chega com medo e sai com uma explicação — e a qualidade dessa explicação determina se ele vai fazer o Holter, tomar o anticoagulante e voltar quando precisar. As falas abaixo são para dizer, não para parafrasear.

Antes da adenosina, e antes do choque

A adenosina precisa de aviso, porque o efeito é intenso e dura segundos. "Vou aplicar um remédio na veia que age muito rápido. Nos primeiros dez ou quinze segundos a senhora vai sentir o rosto quente, um aperto no peito e uma sensação muito ruim, de que algo está errado. É esperado, passa sozinho e vai muito rápido. Eu vou ficar aqui do lado o tempo todo." Dizer isso muda a experiência de um susto para um procedimento.

A cardioversão elétrica no paciente instável tem outro tempo e outra frase, mais curta: "o coração está em um ritmo que está fazendo a pressão cair. Vou dar um remédio para a senhora dormir alguns minutos e dar um choque no coração para ele voltar ao normal. É rápido e a senhora não vai lembrar." Não prometa ausência de dor sem sedação adequada, e não descreva o procedimento como se fosse opcional quando não é.

Se houver acompanhante, diga a mesma coisa a ele, com uma frase a mais: "o senhor vai ouvir o aparelho apitar e vai ver a equipe se afastar da maca; isso é normal e faz parte." O acompanhante que entende não interrompe.

Quando o coração voltou ao normal e a causa é conhecida e benigna

Esse é o desfecho mais comum e o mais mal comunicado, porque a tentação é dizer "não foi nada". Não foi nada é falso e desmonta o retorno. O que se diz é: "a senhora teve uma arritmia. O coração entrou num ritmo acelerado por causa de um curto-circuito elétrico, e nós conseguimos interromper. Isso não é infarto e não deixou sequela. Mas pode acontecer de novo, e por isso a senhora vai fazer um exame e voltar."

Explique o mecanismo em uma frase que se sustente: "existe um caminho elétrico a mais dentro do coração, e de vez em quando o estímulo fica girando nele. Não é fraqueza do coração; é fiação." Pacientes que entendem isso param de temer que o coração vá parar.

Ensine a manobra vagal com o paciente fazendo na sua frente, uma vez. "Se acontecer de novo, sente ou deite, respire fundo e faça força como se fosse evacuar, por quinze segundos. Muita gente consegue interromper assim." E delimite: "se não parar em vinte ou trinta minutos, ou se vier junto dor no peito, falta de ar ou desmaio, venha na hora."

Quando a causa ainda não é conhecida

Incerteza dita com clareza tranquiliza mais do que certeza inventada. "O exame de hoje mostrou que o ritmo estava alterado. O que ainda não sabemos é por quê, e é isso que os próximos exames vão responder. O que eu posso dizer com segurança é que hoje a senhora está estável e que o exame não mostrou nada que exija internação agora."

Diga o que você está procurando, em palavras concretas: "vamos ver se a tireoide está acelerada, se está faltando sangue, se algum sal do corpo está fora do lugar, e vamos gravar o coração por um dia inteiro para pegar a arritmia acontecendo." A pessoa que sabe o que se procura comparece ao exame.

Não prometa que o exame vai achar. "Esse aparelho grava vinte e quatro horas. Se a crise não acontecer nesse dia, ele pode vir normal — e isso não quer dizer que não existe nada. Quer dizer que a gente vai precisar de um aparelho que grava por mais tempo." Antecipar o resultado normal evita o abandono que vem depois dele.

A conversa sobre anticoagulação, que é a mais difícil

Quem sai com fibrilação atrial nova precisa entender que o remédio principal não é para o coração bater direito, é para o cérebro. "A arritmia que a senhora tem faz o sangue ficar parado num cantinho do coração, e ali pode se formar um coágulo. Se ele sair de lá, vai para a cabeça e causa um derrame. O remédio que a gente vai discutir serve para impedir esse coágulo."

Diga o risco dos dois lados, porque o paciente vai ouvir do vizinho que anticoagulante faz sangrar. "É verdade que esse remédio aumenta o risco de sangramento. E também é verdade que, para quem tem essa arritmia e os fatores de risco que a senhora tem, o risco de derrame sem o remédio é maior do que o risco de sangramento com ele. Por isso a conta fecha a favor de tomar." Se a conta não fechar a favor, diga isso também.

E não decida sozinho o que não é seu para decidir naquela noite. A escolha entre iniciar o anticoagulante já no pronto-socorro ou deixá-la para o retorno depende de fatores que às vezes só o seguimento resolve, e o pior desfecho é o paciente sair sem que ninguém tenha nem levantado o assunto. Escreva no encaminhamento, em letras próprias, que a anticoagulação precisa ser definida — e diga ao paciente que essa é a pergunta mais importante da consulta seguinte.

Quando a notícia é ruim, e quando o assunto é a família

Existe um cenário em que o paciente entra por palpitação e sai com uma doença: pré-excitação com taquicardia sintomática, intervalo QT longo, cardiopatia estrutural encontrada, cardiopatia chagásica. Aqui não se improvisa. Sente, avise que vai dar uma notícia importante, dê a informação em uma frase e cale a boca para a pessoa reagir.

"O exame do coração da senhora mostrou uma alteração que precisa ser avaliada por um cardiologista com urgência. Não é um infarto. É uma alteração elétrica que aumenta o risco de a arritmia voltar de forma perigosa, e existe tratamento para isso." Depois pare. Não emende a explicação técnica no mesmo fôlego.

Quando o achado é hereditário, ou quando há morte súbita precoce na família, a conversa deixa de ser só com o paciente. "Algumas dessas alterações são de família. Isso quer dizer que os filhos e os irmãos da senhora podem precisar fazer um eletrocardiograma também. Quem vai orientar isso direito é o cardiologista, mas é importante que a senhora leve essa pergunta para ele." Não transforme isso em alarme; transforme em tarefa.

E o que não prometer, em nenhum dos cenários: que não vai voltar a acontecer; que o exame vai encontrar a causa; que a arritmia não tem relação com risco nenhum; e que o cardiologista vai atender na semana que vem, quando você sabe que a fila do serviço é de meses. Prometer prazo que não se controla é a maneira mais rápida de perder a confiança de um paciente que precisará voltar.

12

Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Qual é a primeira droga na taquicardia supraventricular estável que não reverteu com manobra vagal: adenosina ou antagonista do cálcio intravenoso

Adenosina primeiro

É a sequência do protocolo brasileiro de suporte avançado de vida: manobras vagais e, se não houver reversão, adenosina 6 mg em bolus seguida de 20 mL de soro fisiológico, com segunda e eventual terceira dose de 12 mg. Os argumentos são a meia-vida inferior a dez segundos, que torna o efeito adverso autolimitado; a ausência de efeito inotrópico negativo sustentado, o que a torna utilizável em quem tem função ventricular duvidosa; e o valor diagnóstico do bloqueio transitório do nó, que desnuda flutter e taquicardia atrial quando a reversão não acontece.

Ministério da Saúde, Protocolos de Suporte Avançado de Vida do SAMU 192, fichas AC14 e AC15; bula profissional da adenosina 3 mg/mL, Hipolabor

Antagonista do cálcio intravenoso primeiro

A relação nacional de medicamentos essenciais de 2024 padroniza o cloridrato de verapamil injetável a 2,5 mg/mL no componente Básico e não inclui a adenosina em componente algum, o que faz do antagonista do cálcio a droga com disponibilidade garantida em serviços que dependem da lista. A diretriz brasileira de fibrilação atrial reconhece os antagonistas do cálcio entre os fármacos mais usados para lentificar a condução atrioventricular, com a ressalva de que os apresentados por via intravenosa têm disponibilidade reduzida no país. A favor pesam ainda a menor incidência de recorrência precoce e a ausência do desconforto intenso e transitório que a adenosina provoca; contra pesam o efeito inotrópico negativo e o risco de hipotensão sustentada, que exigem função sistólica preservada e excluem a suspeita de via acessória.

Ministério da Saúde, Relação Nacional de Medicamentos Essenciais 2024; Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas e Sociedade Brasileira de Cardiologia, Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial – 2025

Como decidir

A divergência é menos farmacológica do que geográfica, e é assim que ela se resolve à beira do leito. Se o seu serviço tem adenosina no carrinho, use adenosina: a meia-vida ultracurta torna o erro reversível em segundos, e a informação diagnóstica que ela produz é um ganho extra. Se o serviço não tem, o verapamil intravenoso é a alternativa padronizada, e aí três condições precisam estar satisfeitas antes: função sistólica sem disfunção conhecida, complexo estreito e regular sem qualquer suspeita de pré-excitação, e ausência de betabloqueador recente. A reversibilidade do erro é o critério que ordena as duas: com adenosina você tem dez segundos de consequência; com verapamil, meia hora. Por isso, no paciente cuja função ventricular você não conhece, a preferência pende para a adenosina quando ela existe — e, quando não existe, a decisão sobe para o plantonista.

Fibrilação atrial de início recente e paciente estável no pronto-socorro: tentar reverter agora ou controlar a frequência e reavaliar

Reverter no primeiro atendimento

Quando a duração é conhecida e inferior a 24 horas e o risco embólico é baixo, a diretriz brasileira permite a cardioversão precedida apenas de anticoagulação parenteral ou de anticoagulante oral de ação direta, e a cardioversão elétrica restaura o ritmo sinusal de forma mais rápida e efetiva do que os fármacos antiarrítmicos, reduzindo o tempo de hospitalização. O argumento clínico é que quanto mais precoce a reversão, maior a taxa de sucesso e menor o remodelamento atrial — e que devolver o paciente ao ritmo sinusal na primeira apresentação é a melhor chance que ele terá de mantê-lo.

Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas e Sociedade Brasileira de Cardiologia, Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial – 2025, seções de cardioversão elétrica e química

Controlar a frequência e esperar

A mesma diretriz registra que um ensaio clínico randomizado mostrou equivalência entre a conduta expectante — apenas controle da frequência, com cardioversão se necessário em 48 horas — e a cardioversão imediata em pacientes com fibrilação atrial paroxística, e observa que a reversão espontânea dessa arritmia é alta, especialmente nas formas paroxísticas. O argumento é que boa parte dos pacientes reverte sozinha, e que cada cardioversão evitada é uma sedação evitada, um risco embólico evitado e um leito de observação economizado. A própria diretriz acrescenta a ressalva de que a estratégia expectante é de difícil aplicação no nosso meio, porque depende de garantir o retorno em 48 horas.

Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas e Sociedade Brasileira de Cardiologia, Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial – 2025, seção de cardioversão química

Como decidir

Três variáveis decidem, e nenhuma é preferência de escola. A primeira é a certeza do tempo: se a duração é imprecisa, a discussão acaba, porque reverter deixa de ser uma opção sem imagem ou anticoagulação prévia. A segunda é o sintoma: paciente muito sintomático apesar da frequência controlada tende para a reversão; paciente que melhora bem com o controle da frequência tende para a espera. A terceira, e a mais importante no Brasil, é se você consegue garantir o retorno — a estratégia expectante pressupõe reavaliação em 48 horas, e prometer isso onde a fila é de meses transforma uma conduta baseada em evidência numa alta sem seguimento. Diante da dúvida, o caminho reversível é o controle de frequência com encaminhamento explícito: ele não fecha nenhuma porta, e a reversão continua possível amanhã. Reverter, quando mal indicado, não tem volta.

Taquicardia de complexo largo em paciente estável e pouco sintomático: iniciar antiarrítmico ou aguardar a avaliação especializada sem medicar

Iniciar amiodarona

A conduta escrita na ficha brasileira de taquiarritmia com pulso para o paciente estável com complexo largo é controlar com amiodarona 150 mg intravenosa em 10 minutos, repetível até a dose total de 450 mg, tanto no ritmo regular quanto no irregular, com sulfato de magnésio reservado à torsades de pointes. O argumento é que a taquicardia ventricular sustentada é instável por natureza e pode deteriorar sem aviso, que o tempo até a avaliação especializada é imprevisível, e que a amiodarona é a droga com melhor perfil de segurança em coração possivelmente doente — sendo, além disso, a única padronizada por via intravenosa na lista nacional.

Ministério da Saúde, Protocolos de Suporte Avançado de Vida do SAMU 192, ficha AC14 (taquiarritmia com pulso)

Aguardar sem medicar

A mesma ficha, nas suas observações, registra que nos casos de pacientes estáveis, sem sinais de instabilidade e sem sintomas importantes, com taquicardia de complexo estreito regular que não reverteu com adenosina, de complexo estreito irregular ou de complexo largo, pode-se aguardar a avaliação do cardiologista sem medicar. O argumento é que todo antiarrítmico é potencialmente proarrítmico, que a escolha errada em complexo largo pode acelerar a resposta ventricular quando existe via acessória, e que o paciente estável dispõe do bem mais escasso do pronto-socorro, que é tempo.

Ministério da Saúde, Protocolos de Suporte Avançado de Vida do SAMU 192, ficha AC14, seção de observações

A leitura de que as duas frases falam de cenários diferentes

Uma terceira posição sustenta que não existe contradição, e sim dois contextos dentro do mesmo documento: a conduta de medicar descreve o atendimento com transporte prolongado e sem retaguarda, enquanto a observação sobre aguardar descreve a situação em que a avaliação especializada está disponível em minutos. Nessa leitura, a variável decisiva não é a droga, é a distância até o cardiologista.

Ministério da Saúde, Protocolos de Suporte Avançado de Vida do SAMU 192, ficha AC14, comparação entre a seção de conduta e a de observações

Como decidir

Quatro perguntas ordenam a decisão, e a primeira derruba a discussão inteira: o paciente está estável mesmo? Reavaliada a pressão, a consciência, a ausculta e a dor torácica, se a taquiarritmia for a causa da instabilidade, indique cardioversão sincronizada nos ritmos apropriados; na TV polimórfica sustentada, desfibrilação não sincronizada. Não espere medicamento para executar o choque indicado. Segunda: o ritmo é regular ou irregular? Complexo largo e irregular levanta a hipótese de via acessória, e nesse caso a cautela com qualquer droga que bloqueie o nó pesa a favor de esperar e chamar. Terceira: quanto tempo até a avaliação especializada? Se o cardiologista chega em vinte minutos, esperar é razoável; se o hospital fica a cento e oitenta quilômetros e o transporte é o seu, medicar é razoável. Quarta: você tem monitorização contínua e desfibrilador ao lado enquanto espera? Se não tiver, não espere sem tratar. A regra que sobra é a que vale para tudo neste capítulo: estabilidade compra tempo, e o tempo comprado se gasta pedindo ajuda, não hesitando sozinho.

13

O raciocínio, em voz alta

Doralice Tavares Pimentel, 64 anos, costureira aposentada, 68 quilos. Chega ao pronto-socorro às 20h10 de um sábado, trazida da classificação de risco direto para a sala, com "batedeira" iniciada há cerca de duas horas enquanto lavava a louça. Está acordada, orientada e conversando. Monitor com 168 batimentos por minuto, pressão arterial 118 por 76 no braço esquerdo, saturação 96% em ar ambiente, frequência respiratória 20, glicemia capilar 104, temperatura 36,4. Sem dor torácica; refere aperto que ela atribui à própria batedeira. Sem dispneia em repouso. Refere escurecimento visual momentâneo ao levantar-se da pia, sem queda e sem perda de consciência. Hipertensa há doze anos em uso de losartana 50 mg e hidroclorotiazida 25 mg pela manhã. Não diabética, sem infarto ou internação cardiológica prévia, não fuma, não bebe. Dois cafés à tarde, como sempre. Episódios semelhantes três ou quatro vezes nos últimos dois anos, autolimitados; um deles, há oito meses, terminou com perda de consciência e queda na sala de casa, atribuída na época a pressão baixa.

  1. O que penso agora, antes de qualquer exame

    Tenho uma taquiarritmia com pulso em paciente que fala frases inteiras. Antes de qualquer nome, tenho uma pergunta única a responder: ela está estável? Percorro as quatro portas. Pressão 118 por 76, sem sinal de choque — não há hipotensão. Não há dor torácica isquêmica; o aperto que ela descreve é a percepção da própria taquicardia, e a diferença entre as duas coisas se faz perguntando se doía antes de a batedeira começar. Está lúcida e orientada. Falta a quarta porta, congestão, e essa eu preciso ir buscar com o estetoscópio, não deduzir. Enquanto isso: monitor, oximetria, acesso venoso em fossa antecubital direita, glicemia — já feita — e eletrocardiograma de doze derivações agora, com o sintoma em curso. Dor que começa durante a taquicardia e melhora após reversão pode decorrer do desequilíbrio de oferta e demanda, mas essa sequência não exclui isquemia ou síndrome coronariana aguda. Integre características da dor, risco, ECG e evolução antes de decidir sobre troponina e observação.

  2. O que peço, e o que encontro

    Ausculto: murmúrio vesicular presente e simétrico, sem estertores, sem sibilos. Jugulares sem turgência a 45 graus. Extremidades quentes, enchimento capilar abaixo de dois segundos. Sem edema. A quarta porta está fechada: não há congestão aguda. Registro no prontuário a hora e as quatro respostas, porque essa é a decisão que governa tudo o que vem depois.

  3. Como a resposta muda o que penso

    Ela está estável. Isso me compra tempo, e o tempo comprado se gasta fazendo o exame certo antes de medicar — não hesitando. Deixo o material de sedação e o desfibrilador na sala mesmo assim, porque estabilidade é um estado, não uma garantia. E anoto mentalmente que o escurecimento visual ao levantar não é instabilidade agora: é um dado de gravidade do episódio, e ele vai voltar a pesar na hora da alta.

  4. O que peço

    Eletrocardiograma de doze derivações, feito às 20h16, com ela ainda sintomática. Taquicardia regular a 168 por minuto. Complexo QRS medido na derivação mais larga: pouco menos de três quadradinhos, cerca de 100 milissegundos. Ondas P não identificáveis. Sem supradesnivelamento, sem infradesnivelamento significativo, sem onda Q patológica.

  5. Como a resposta muda o que penso

    Duas perguntas respondidas: complexo estreito e ritmo regular. Isso me põe no primeiro quadrante da tabela, e a conduta sai daí sem que eu precise nomear a arritmia. Provavelmente é uma taquicardia supraventricular paroxística por reentrada, mas preciso guardar uma reserva: frequência teimosamente em torno de 150 sugeriria flutter com condução 2 para 1, e 168 não é 150, o que torna o flutter menos provável sem excluí-lo. A ausência de onda P visível é achado compatível, não falha de leitura. Sigo para a manobra vagal.

  6. O que faço, e o que a resposta muda

    Na taquicardia regular de QRS estreito estável, registre o ritmo e tente Valsalva modificada: paciente semissentado a 45°, esforço expiratório por 15 segundos contra resistência aproximada de 40 mmHg; em seguida, deite-o e eleve passivamente as pernas a 45° por 15 segundos, retornando à posição semissentada para avaliar o ritmo. Uma seringa pode auxiliar, mas não mede exatamente a pressão. Se persistir, adenosina 6 mg IV em bolus rápido seguida imediatamente de flush de 20 mL; se necessário, 12 mg conforme protocolo. A apresentação de 3 mg/mL em 2 mL contém 6 mg: uma ampola na primeira dose, duas na segunda. Mantenha ECG contínuo e material de reanimação. Avise sobre possível rubor, desconforto torácico e sensação desagradável breve; não ocorrem obrigatoriamente em todos. Considere redução de dose em transplante cardíaco e interações que potencializam o efeito conforme protocolo/bula; evite em broncoespasmo/asma relevante e bloqueio avançado sem marca-passo. Quando adenosina não está disponível ou não é adequada, verapamil/diltiazem podem ser opções em pacientes selecionados, com pressão e função sistólica adequadas, sem pré-excitação. A decisão é supervisionada e a disponibilidade local precisa ser conferida.

  7. O que peço, e a checagem antes de injetar

    Adenosina. Antes, três perguntas: asma ou doença pulmonar que a faça chiar? Não. Usa dipiridamol ou carbamazepina? Não. É transplantada cardíaca? Não. Então a dose é a cheia. Aviso a paciente do rubor, do aperto e da sensação ruim de alguns segundos. Peço à técnica que mantenha o traçado impresso rodando. Adenosina 6 mg — uma ampola de 2 mL a 3 mg/mL — em bolus rápido pelo acesso antecubital direito, seguida imediatamente de 20 mL de soro fisiológico e elevação do braço.

  8. Como a resposta muda o que penso

    Ela fica vermelha, leva a mão ao peito, diz que vai morrer, e em oito segundos está falando normalmente de novo. O monitor mostrou uma lentificação de dois batimentos e voltou a 168. O traçado impresso durante o bloqueio transitório do nó não revelou ondas em dente de serra: mais um argumento contra flutter. A dose não foi suficiente, e a bula prevê exatamente isso. Segunda dose de adenosina, 12 mg, que são duas ampolas, com o mesmo flush e a mesma elevação.

  9. O que acontece

    Pausa de cerca de três segundos, um batimento de escape, e ritmo sinusal a 74 por minuto. Ela diz que "parou". A pressão passa a 126 por 78. O aperto no peito desapareceu junto com a taquicardia — o que confirma retrospectivamente que ele era percepção da arritmia, e não isquemia. Anoto a hora: 20h34. Dor que começa durante a taquicardia e melhora após reversão pode decorrer do desequilíbrio de oferta e demanda, mas essa sequência não exclui isquemia ou síndrome coronariana aguda. Integre características da dor, risco, ECG e evolução antes de decidir sobre troponina e observação.

  10. O que peço depois de reverter

    Após a reversão, faça ECG de doze derivações e reavalie sintomas e perfusão. Eletrólitos, função renal, hemograma e investigação tireoidiana devem responder a hipóteses e às necessidades do tratamento, sem transformar todo painel em obrigação para qualquer TSV. Troponina é indicada quando houver suspeita de isquemia; uma elevação pode representar lesão por demanda, mas precisa de interpretação clínica e, quando indicado, medidas seriadas. Ecocardiograma é particularmente relevante diante de cardiopatia ou insuficiência cardíaca suspeita.

  11. Como a resposta muda o que penso

    Potássio de 3,1 miliequivalentes por litro. Magnésio de 1,6 miligrama por decilitro. Hemoglobina 12,8. Função renal normal. Função tireoidiana ainda pendente para o dia seguinte. O potássio baixo tem dono: hidroclorotiazida 25 mg diária há doze anos, sem controle recente. Isso muda duas coisas ao mesmo tempo. Primeira, é um combustível para recorrência, e reponho potássio e magnésio antes de pensar em alta. Segunda, é um dado para o encaminhamento, porque o esquema anti-hipertensivo dela vai precisar ser revisto.

  12. A decisão de destino, que é a parte que se erra

    A reversão para ritmo sinusal é importante, mas não encerra a avaliação. Houve quase-síncope neste episódio e síncope franca com queda oito meses antes, ainda não investigada. Esses dados aumentam a preocupação e justificam observação, correção dos fatores reversíveis e avaliação do risco antes da alta. O ECG de hoje não prova que a síncope antiga teve o mesmo mecanismo. Solicitar avaliação cardiológica conforme o risco e escolher monitorização pela frequência e gravidade dos eventos: um Holter de 24 horas pode não capturar sintomas separados por meses. Integrar o ECG após reversão, sintomas residuais, eletrólitos e investigação etiológica; orientar retorno e seguimento com prazo e responsabilidade definidos.

  13. O que sai escrito, e o que sai na mão dela

    No prontuário: hora de chegada, quatro respostas da avaliação de estabilidade, hora do eletrocardiograma de crise, hora e resultado da manobra vagal, hora e dose de cada adenosina, hora da reversão, resultado do traçado em ritmo sinusal, exames e conduta. No encaminhamento à cardiologia: taquicardia supraventricular paroxística revertida com adenosina, terceiro ou quarto episódio em dois anos, com quase-síncope no episódio atual e síncope com queda em episódio prévio, sem história familiar de morte súbita, medicações em uso com posologia, hipocalemia de 3,1 em uso de tiazídico, eletrocardiograma de crise e de ritmo sinusal anexados. Na mão dela: as duas cópias dos traçados com data e hora, a orientação escrita da manobra vagal e as quatro frases que a trazem de volta imediatamente — desmaio, dor no peito junto com a batedeira, falta de ar que não passa sentada, ou crise que dura mais de meia hora.

14

Faça você

Terça-feira, 15h20, unidade de pronto atendimento de um município de 90 mil habitantes. Ubirajara Menezes Fontoura, 57 anos, motorista de caminhão, 94 quilos, chega andando, acompanhado do colega de viagem. Queixa-se de cansaço aos esforços há mais ou menos uma semana e de uma sensação de "coração embaralhado" que ele nota principalmente à noite, deitado. Hoje subiu a rampa do estacionamento e precisou parar no meio. Não sabe dizer quando começou; acha que "faz uns dias", talvez desde o fim de semana anterior, talvez antes. Nunca teve isso. Hipertenso, em uso irregular de losartana 50 mg — ficou sem tomar por duas semanas no mês passado porque acabou a receita. Não é diabético. Fuma meio maço por dia há trinta anos. Bebe cerveja nos fins de semana. Ao exame: acordado, orientado, sem sofrimento respiratório em repouso. Pressão arterial 132 por 84. Frequência no monitor variando entre 128 e 150. Saturação 95% em ar ambiente. Frequência respiratória 20. Temperatura 36,2. Ausculta pulmonar com discretos estertores em bases, jugulares planas a 45 graus, sem edema de membros inferiores. Pulso radial irregular e de amplitude variável. Glicemia capilar 112.

  1. Passo 1

    Responda a pergunta que precede todas as outras, item por item: este paciente está estável? Percorra as quatro portas e diga qual delas você considera aberta, qual fechada e qual você ainda não tem informação suficiente para fechar.

  2. Passo 2

    Se você concluiu que existe alguma dúvida sobre congestão, diga exatamente que informação adicional resolveria essa dúvida e como você a obteria nos próximos dez minutos, sem depender de exame que a unidade pode não ter.

  3. Passo 3

    Descreva o que você pede nos primeiros cinco minutos, na ordem, e justifique por que o eletrocardiograma precisa ser feito agora e não depois de uma tentativa de medicação.

  4. Passo 4

    O eletrocardiograma mostra taquicardia com frequência média de 138 por minuto, complexos QRS de 92 milissegundos, intervalos entre complexos todos diferentes, ausência de ondas P e ondulação fina da linha de base. Aplique as duas perguntas do traçado e diga em qual dos quatro quadrantes esse paciente cai.

  5. Passo 5

    Defina a meta inicial de frequência e perfusão. Compare as opções de controle e diga que informação falta para prescrever com segurança diante de estertores e função ventricular desconhecida. Explique por que amiodarona também exige avaliar risco embólico.

  6. Passo 6

    Liste os exames que podem mudar a conduta e a pergunta respondida por cada um. Compare a contribuição de eletrólitos, função tireoidiana e avaliação estrutural cardíaca.

  7. Passo 7

    Duas horas depois a frequência está em 96 por minuto, o paciente refere melhora do cansaço e a pressão está em 128 por 80. O colega de viagem pergunta se dá para "colocar o coração no ritmo certo hoje mesmo e liberar, porque a carga precisa chegar amanhã". Decida e justifique: reverter agora, ou não. E, decidida essa questão, escreva o destino deste paciente e o que precisa estar no papel que ele leva.

Ver como fecharíamos

Passo 1. Ele não preenche instabilidade que obrigue cardioversão imediata, mas o caso não é limpo. Hipotensão: ausente, pressão 132 por 84. Dor torácica isquêmica: ausente, e vale perguntar diretamente, porque "cansaço" às vezes é equivalente anginoso em quem tem trinta anos de tabagismo. Rebaixamento de consciência: ausente. Congestão aguda: é a porta duvidosa — há estertores discretos em bases e dispneia aos esforços há uma semana, mas as jugulares estão planas e não há edema. O que fecha essa porta é o conjunto, e o conjunto aqui aponta para congestão incipiente, não para edema agudo. Passo 2. Mantenha o paciente monitorizado e avalie ortopneia, esforço respiratório, perfusão, jugulares e distribuição dos estertores. Reavalie saturação em repouso; não é necessário fazê-lo caminhar no corredor durante taquicardia ainda não esclarecida. Radiografia e ultrassom à beira do leito, quando disponíveis e realizados por profissional habilitado, ajudam a distinguir congestão de outras causas. Ecocardiograma ganha prioridade se houver suspeita de disfunção ventricular que altere a escolha do fármaco. Passo 3. Monitor, oximetria, pressão nos dois braços, acesso venoso periférico, glicemia — já feita —, e eletrocardiograma de doze derivações. O eletrocardiograma vem antes de qualquer medicação porque ele é o exame que decide a conduta, e porque medicar antes pode alterar o ritmo e apagar o registro que o cardiologista precisará ver. Nesse paciente há um motivo adicional: o pulso é irregular, e a distinção entre fibrilação atrial e flutter com condução variável não se faz no pulso. Passo 4. Complexo estreito, 92 milissegundos, portanto abaixo dos 120 que definem largo. Ritmo irregular, com intervalos todos diferentes, sem ondas P, com ondulação fina da linha de base. Ele cai no quadrante do complexo estreito e irregular: fibrilação atrial, com resposta ventricular elevada segundo as faixas brasileiras de laudo, já que está acima de 110. Passo 5. A meta inicial é aliviar sintomas e obter frequência de repouso em torno de menos de 110/min, com pressão e perfusão preservadas, sem perseguir apenas o número. Os estertores e a função ventricular desconhecida pedem avaliação supervisionada antes de bloqueador nodal IV. Se estiver compensado, sem disfunção sistólica importante ou pré-excitação, betabloqueador pode ser considerado; evite verapamil/diltiazem se houver disfunção sistólica significativa. Na descompensação em que essas opções não são adequadas, digoxina é uma possibilidade, com dose individualizada à função renal e monitorização. Amiodarona IV pode ser necessária em casos selecionados, mas não é a escolha automática desta vinheta: ela pode restaurar ritmo sinusal e traz a mesma necessidade de avaliar risco embólico. O caso não fornece dados suficientes para uma única prescrição IV obrigatória. A resposta competente identifica o dado faltante, pede ajuda e acompanha a resposta à opção escolhida. Passo 6. Potássio e magnésio procuram fatores corrigíveis; função renal orienta doses e anticoagulante; hemograma pesquisa anemia conforme contexto. Função tireoidiana integra a investigação da primeira FA, mas não é universalmente o exame que mais muda a conduta imediata. Radiografia/ultrassom podem avaliar congestão e ecocardiograma deve ser organizado com prioridade compatível com suspeita de insuficiência cardíaca. Troponina depende de suspeita clínica de lesão isquêmica, incluindo equivalentes anginosos e alterações do ECG, e não apenas da presença de palpitação. Passo 7. Não faça cardioversão eletiva desprotegida apenas para liberar a viagem. A duração é desconhecida: discutir anticoagulação terapêutica e cardioversão após período adequado ou estratégia com imagem para excluir trombo, seguida de anticoagulação por pelo menos quatro semanas e avaliação de indicação prolongada. O risco envolve trombo prévio e disfunção atrial transitória após a reversão, não só a primeira contração. Uma estratégia com imagem e anticoagulação pode permitir reversão precoce quando indicada e disponível; início desconhecido não significa proibição absoluta de reverter hoje. Instabilidade atribuída à FA exige cardioversão imediata, com anticoagulação tão logo viável. Destino: ele não vai para casa hoje. Fica em observação com a frequência controlada e reavaliação da congestão; a fibrilação atrial é de primeira apresentação, com resposta ventricular elevada ainda recém-controlada e suspeita de congestão — três motivos que constam da lista do que impede a alta despreocupada. A avaliação do cardiologista é necessária, e a discussão sobre anticoagulação precisa começar hoje e estar escrita: ele tem hipertensão, e o escore de risco embólico é calculado com os dados que já estão na ficha. No papel que ele leva vão o eletrocardiograma da chegada, o eletrocardiograma de controle, a lista de medicações com posologia, a resposta explícita sobre história familiar de morte súbita, e a frase que define a consulta seguinte: definir anticoagulação. Uma orientação a mais, que este paciente em particular precisa ouvir: ele é motorista profissional, e dirigir com fibrilação atrial sintomática e não controlada é assunto para a avaliação especializada, não para a sua alta.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A regra é de mão única e a diretriz brasileira de laudos eletrocardiográficos dá o número que a sustenta: 80% das taquicardias de complexo largo são de origem ventricular, e a presença de cardiopatia estrutural reforça essa possibilidade — um infarto prévio é exatamente esse reforço. Estabilidade hemodinâmica não é argumento contra origem ventricular: existe taquicardia ventricular com paciente lúcido, sem dor e com pressão preservada, e usar o conforto do paciente como critério diagnóstico é inventar um dado que não existe. Frequência isolada não separa ventricular de supraventricular. A idade não inverte a probabilidade; o bloqueio de ramo preexistente explica parte dos casos, mas continua sendo a minoria. E usar bloqueador do nó atrioventricular como teste terapêutico é a manobra que mais mata neste capítulo: em taquicardia ventricular ele não reverte, deprime o inotropismo e pode precipitar colapso em quem estava compensado.

15

Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
16

Plano de revisão

Em 7 dias

Explique a técnica da Valsalva modificada, a administração de adenosina e a diferença entre cardioversão sincronizada e desfibrilação. Calcule 1 mg de atropina com ampolas de 0,25 mg.

Em 30 dias

Conduza FA de início desconhecido com suspeita de congestão. Justifique a escolha do controle de frequência e explique por que amiodarona não elimina a preocupação com embolia.

17

Agora atenda

Agora atenda. O paciente com palpitação é o que mais engana na fila do pronto-socorro: chega andando, fala frases inteiras e sai rápido — às vezes rápido demais. Neste atendimento, resista à vontade de nomear a arritmia antes de responder se ele está estável, procure as quatro portas com as mãos e o estetoscópio em vez de deduzi-las do monitor, e não deixe o eletrocardiograma para depois da primeira medicação. Repare também no que a história oferece de graça e quase ninguém colhe: como a crise começa, como termina, se veio desmaio junto, e se alguém na família morreu de repente antes dos quarenta anos. E, antes de decidir o destino, releia o que você escreveu: se não houver hora, dose e ampola, a próxima equipe vai começar do zero.

Palpitações e arritmia no pronto-socorro — Internato | OsceLabs