Clínica Médica › Síndromes do Paciente na Emergência
Alteração do nível de consciência
Trazem alguém que não acorda e ninguém sabe o que houve. Este capítulo é sobre a ordem que muda desfecho: corrigir primeiro o que se reverte em minutos, examinar o tronco depois, e só então pedir imagem — porque a causa mais comum do rebaixamento não está dentro do crânio.
Ministério da Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida. 2ª ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2016
Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de Vigilância em Saúde, volume 1, 6ª edição revisada. Brasília: Ministério da Saúde, 2024 — texto Doença meningocócica
Secretaria Municipal da Saúde de Ribeirão Preto — Comissão de Controle de Infecção, Comissão de Farmácia e Terapêutica e DASP. Guia de Tratamento Empírico Inicial na Meningite Comunitária. Elaboração: Mônica M. P. Martins Liporaci, 11 de setembro de 2018
Associação de Medicina Intensiva Brasileira; Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Orientações Práticas em Ventilação Mecânica, coordenação de Alexandre Marini Ísola — volume divulgado pelas duas sociedades em setembro de 2024, com o texto fechado em plenária de 20 e 21 de novembro de 2023, em Florianópolis. Artigo que relata o método e os destaques do volume: Ferreira JC, Vianna AOA, Pinheiro BV, Maia IS, Baldisserotto SV, Isola AM, em nome da AMIB e da SBPT. Orientações práticas de ventilação mecânica baseadas em evidências: sugestões de duas sociedades médicas brasileiras. J Bras Pneumol. 2025;51(1):e20240255, co-publicado em Crit Care Sci. 2025;37:e20250242pt. Documento de consenso construído por 75 relatores.
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Responda antes de ler
Paciente de 52 anos, etilista crônico, trazido em coma, com glicemia capilar de 32 mg/dL. A técnica já preparou glicose hipertônica e tiamina, e pergunta em que ordem administrar. Qual é a conduta correta e por quê?
O paciente que você vai ver
Onze e quarenta da noite de uma quarta-feira. A ambulância encosta na rampa e o socorrista entra empurrando a maca com as duas mãos, falando antes de você perguntar: homem, aparenta uns sessenta anos, encontrado caído na calçada em frente a uma pensão, sem documento, sem acompanhante, sem ninguém que soubesse dizer há quanto tempo estava ali. Respira sozinho. Não responde. A pressão que eles pegaram no caminho está anotada no verso de uma folha, e é a única coisa escrita que existe sobre esse paciente no mundo.
Você vai até a maca. Ele está de olhos fechados, imóvel, com a boca entreaberta e um ronco de via aérea que muda de tom quando o pescoço escorrega para o lado. Você chama pelo ombro, alto, e nada. Aperta o leito ungueal, e o braço direito se dobra devagar em direção ao tórax. A roupa tem cheiro de rua e talvez de álcool — talvez, porque metade dos pacientes que chegam assim tem esse cheiro e ele não prova nada.
E aqui começa o problema que este capítulo existe para desarmar. A frase que se forma na sua cabeça é uma pergunta de localização: onde está a lesão. Foi AVC? Foi hemorragia? Bateu a cabeça e ninguém viu? A frase seguinte é uma ordem: tomografia. Você já está mentalmente calculando quanto tempo o aparelho vai demorar, se tem técnico à noite, se dá para descer com ele sem intubar antes.
Nada disso está errado como pergunta. Está errado como ordem. Porque na maioria das vezes em que alguém chega assim, o que apagou esse paciente não é uma lesão que a tomografia mostra: é uma glicemia de 28 mg/dL, um sódio de 112 mEq/L, um lítio acumulado numa insuficiência renal que ninguém sabia que existia, uma caixa de benzodiazepínico vazia no bolso da calça — que você só encontra se alguém tirar a calça —, ou uma amônia alta num cirrótico cuja barriga você ainda não olhou, porque o lençol está por cima. A tomografia responde uma pergunta boa, mas responde devagar, exige transporte e é rigorosamente cega para tudo isso. A glicemia capilar responde outra pergunta, também boa, em quarenta segundos, com o aparelho que já está no bolso da técnica. As duas são legítimas; só uma é gratuita.
A cena tem mais uma camada. Enquanto você decide o que pedir, esse homem está com a língua caindo na faringe a cada vez que a cabeça pende, e o ronco que você ouviu é exatamente o som de uma via aérea que está se fechando devagar. Ele tem reflexo de tosse? Você não sabe, porque não testou. Ele vai vomitar? Se vomitar deitado assim, aspira. E a decisão sobre a via aérea dele não depende de nenhum diagnóstico: depende de saber se ele consegue proteger a própria traqueia, o que é uma pergunta de exame físico e não de exame complementar.
Este capítulo organiza o atendimento à alteração da consciência. Via aérea, ventilação, circulação e glicemia são avaliadas imediatamente, com intervenções em paralelo. Tiamina é importante no risco nutricional, mas não atrasa glicose na hipoglicemia. O exame neurológico orienta imagem e investigação vascular; a suspeita de meningite exige antimicrobiano sem aguardar exames demorados. A cada intervenção, compare consciência, ventilação, pupilas e resposta motora para decidir o próximo passo.
Quem adoece disso
Rebaixamento de consciência não é um evento raro que aparece uma vez por plantão. A revisão sistemática de coma não traumático em terapia intensiva, que reúne catorze estudos e mais de cinco mil pacientes, registra que cerca de 1% das admissões em serviço de emergência é por coma e cerca de 5% por alguma alteração do estado mental. Num pronto-socorro que atende trezentas pessoas por dia, isso é um paciente comatoso por dia e quinze com mentação alterada — e a segunda categoria é a que passa despercebida, porque quem está confuso ainda anda, ainda fala e ainda é triado como caso leve.
A distribuição das causas é o dado que reorganiza a conduta. Na mesma revisão, as causas estruturais respondem por 28% a 64% dos casos, e as não estruturais — metabólicas, tóxicas, anóxicas, infecciosas sistêmicas — por 37% a 75%. Ou seja: mesmo no recorte mais favorável à neurologia, entre um terço e três quartos dos pacientes têm algo que nenhuma imagem de crânio vai mostrar. Individualmente, o acidente vascular cerebral aparece em 6% a 54% das séries, o coma pós-anóxico em 3% a 42%, a intoxicação em menos de 1% a 39% e as causas metabólicas em 1% a 29%. As amplitudes são enormes porque cada serviço recebe uma população diferente, e é exatamente essa a lição: a sua distribuição depende de quem entra pela sua porta, não do que o livro diz.
As infecções mostram isso de forma didática. Nos estudos ocidentais, a infecção do sistema nervoso central responde por 2% a 9% dos comas; nos estudos africanos, por 10% a 51%. O Brasil não é nem um nem outro, e a consequência prática é conservadora: aqui a meningite entra na lista todas as vezes, porque a doença meningocócica é de notificação compulsória em até 24 horas e a letalidade da meningococcemia fica geralmente acima de 40%, com a maioria dos óbitos nas primeiras 48 horas do início dos sintomas. Uma doença que mata nesse ritmo não sobrevive a um diagnóstico feito na segunda passagem de visita.
Sobre o peso das causas tóxicas no Brasil, o número existe e é grande. O levantamento das intoxicações exógenas notificadas ao Sinan no Rio Grande do Sul entre 2007 e 2020 contabilizou 34.953 casos confirmados, com medicamentos como agente mais frequente, em metade deles, e tentativa de suicídio como circunstância mais comum, em quase a metade. O perfil é de adulto jovem, entre 20 e 39 anos, e majoritariamente feminino. A leitura clínica é direta: quando entra um adulto jovem rebaixado sem história, a hipótese de ingestão medicamentosa intencional não é exótica — é a mais provável de todas, e é a que se confirma vasculhando bolso, mochila e história com quem quer que tenha vindo junto.
Um dado brasileiro pediátrico fecha o desenho, ainda que a população seja outra. No estudo do Hospital Infantil Pequeno Príncipe, em Curitiba, com 104 crianças admitidas em coma agudo, meningoencefalite e estado de mal epiléptico juntos responderam por mais da metade dos casos, com causa tóxico-metabólica logo atrás e letalidade global de 22,1%. Em criança, portanto, infecção e crise dominam; no adulto, vascular e tóxico-metabólico. Mesma síndrome, listas de probabilidade diferentes — e o exame que se pede primeiro deveria mudar de acordo. Quanto ao prognóstico, a mortalidade global do coma não traumático nas séries revisadas vai de 25% a 87%, e entre 5% e 25% dos sobreviventes ficam com incapacidade moderada a grave ou em estado vegetativo. Isso não condena o seu paciente: significa que o intervalo entre a chegada e a primeira intervenção correta é curto, e que as intervenções que cabem nesse intervalo são poucas, baratas e quase todas anteriores a qualquer diagnóstico.
Por que acontece o que acontece
Consciência tem duas partes, e elas moram em lugares diferentes. O nível — estar acordado, estar alerta, abrir os olhos — depende do sistema reticular ativador ascendente, uma rede difusa de núcleos que ocupa o tegmento do tronco encefálico entre a ponte e o mesencéfalo e projeta para o tálamo e daí para todo o córtex. O conteúdo — saber quem você é, onde está, o que está acontecendo — é gerado e mediado pelo córtex cerebral. Essa divisão não é um detalhe de anatomia: ela é a razão pela qual dois pacientes com a mesma pontuação numa escala podem ter doenças completamente diferentes, e é a chave de leitura do exame inteiro.
A primeira consequência é geométrica. A rede que sustenta o despertar é pequena e está espremida num espaço de poucos centímetros cúbicos, no centro do tronco. Uma lesão de um centímetro ali dentro — um infarto pontino, uma hemorragia mesencefálica, um trombo na artéria basilar — apaga a consciência instantaneamente, e é uma lesão que caberia despercebida em qualquer outro lugar do encéfalo. Já o córtex é vasto e bilateral: para que uma lesão cortical rebaixe o nível de consciência, ela precisa ser difusa, ou bilateral, ou grande o bastante para deslocar estruturas e comprimir o tronco à distância. Por isso um paciente com um infarto extenso de artéria cerebral média fica hemiplégico e afásico, mas acordado — até que o edema instale desvio de linha média, e aí ele rebaixa. Não foi o córtex que apagou; foi o tronco que passou a ser comprimido.
É essa mesma geometria que dá à pupila o papel de sentinela. A via parassimpática que constringe a pupila viaja na superfície do terceiro nervo craniano, e o terceiro nervo passa exatamente pela borda em que o lobo temporal se insinua sob a tenda do cerebelo. Quando uma massa supratentorial empurra o unco por essa fresta, a primeira estrutura espremida é a fibra pupiloconstritora — antes da via motora, antes do nível de consciência despencar de vez. Uma pupila que dilata e perde o reflexo de um lado só, num paciente que estava rebaixando, é a herniação uncal se anunciando, e é o achado mais urgente do exame neurológico inteiro. Os padrões pupilares por nível anatômico estão tabelados no bloco de fluxos e tabelas; o que importa aqui é entender por que eles existem.
A segunda consequência é o oposto: por que a causa metabólica quase nunca faz sinal focal. Uma alteração de glicose, de sódio, de amônia, de pH ou de osmolaridade não escolhe um território vascular — ela banha todo o encéfalo pelo mesmo sangue. O resultado é uma depressão simétrica e progressiva: o paciente fica lentificado, depois sonolento, depois torporoso, depois não desperta, com as pupilas iguais, os reflexos de tronco preservados por muito tempo e nenhuma assimetria motora. Simetria com progressão gradual é a assinatura do metabólico. Assimetria de instalação súbita é a assinatura do estrutural. É uma regra grosseira, tem exceções célebres — a hipoglicemia é capaz de produzir hemiparesia que reverte com a glicose, e o estado pós-ictal deixa a paralisia de Todd — mas é a primeira bifurcação do raciocínio, e ela se faz com as mãos, não com aparelho.
Vale entender por que a glicose ocupa o lugar que ocupa. O encéfalo não estoca glicose e é responsável por uma fração desproporcional do consumo do corpo inteiro; ele depende da oferta contínua pelo sangue. Quando a glicemia cai, a neuroglicopenia aparece em minutos, escalando de lentificação a confusão, convulsão e coma — e reverte na mesma velocidade quando corrigida, desde que corrigida a tempo. Nenhuma outra causa de rebaixamento tem essa combinação de frequência, gravidade, rapidez de instalação, rapidez de reversão e custo quase nulo do teste. É por isso que a glicemia capilar não é o primeiro exame por convenção: ela é o primeiro exame por matemática.
Tiamina é cofator de vias do metabolismo energético, e sua deficiência pode produzir encefalopatia de Wernicke, frequentemente sem tríade completa. Por isso, deve ser reposta cedo no risco nutricional ou diante de suspeita clínica. Entretanto, não se deve afirmar que uma dose emergencial de glicose obrigatoriamente precipita a síndrome ou exigir a vitamina antes de corrigir neuroglicopenia. Corrija hipoglicemia sem atraso e associe tiamina assim que disponível; a reposição torna-se especialmente relevante durante oferta continuada de carboidratos e recuperação nutricional.
A encefalopatia hepática e a hiponatremia sintomática mostram o mesmo mecanismo por outro caminho, que é osmótico. No fígado insuficiente, a amônia não depurada chega ao encéfalo e é convertida em glutamina dentro do astrócito; a glutamina acumulada puxa água, o astrócito incha e a função sináptica se desorganiza. Na queda rápida do sódio, a água entra no neurônio e no astrócito pelo gradiente. Nos dois casos a consciência é vítima de um problema de água, num órgão preso numa caixa rígida que não tem para onde inchar.
Falta a via mais comum de todas, e ela vem de fora do encéfalo: a oferta de oxigênio. Queda de oxigenação, queda de fluxo ou retenção de gás carbônico produzem rebaixamento antes de qualquer outro sinal neurológico. A hipoxemia deprime porque falta substrato; a hipercapnia deprime por narcose e acidose, e por isso o retentor pode estar apagado com uma oximetria confortável. Este capítulo olha esse eixo pelo lado da consciência; o capítulo de dispneia aguda desta mesma apostila o percorre pelo lado do ar, com o padrão ventilatório, o alvo de saturação e a escolha do dispositivo — e você vai precisar das duas leituras no mesmo paciente.
Uma palavra sobre o que o rebaixamento faz com a via aérea, porque isso é mecanismo e não logística. À medida que o nível cai, o tônus faríngeo se perde e a base da língua desaba contra a parede posterior — o ronco que se ouve à distância. Junto se perdem os reflexos de tosse e de deglutição. O paciente passa a ter, ao mesmo tempo, uma via aérea que se fecha por gravidade e um esôfago que devolve conteúdo sem nada que o impeça de descer. Aspiração maciça em paciente rebaixado é complicação criada pelo atendimento, não pela doença — e é por isso que a decisão sobre a via aérea acontece nos primeiros minutos, antes de qualquer transporte.
Por fim, o mecanismo que sustenta a ordem estabilizar-antes-de-diagnosticar. As intervenções dos primeiros minutos agem todas sobre a via final comum de qualquer causa de rebaixamento — manter o neurônio vivo enquanto o diagnóstico não chega — e têm dano baixo quando aplicadas ao paciente errado. A terapêutica específica tem as propriedades opostas: só funciona no diagnóstico certo e machuca no errado. Executar primeiro o que é verdadeiro em quase todos os cenários, e adiar o que só é verdadeiro em um, é a definição operacional de bom raciocínio sob incerteza.

Como se apresenta de verdade
Rebaixamento não é um estado, é um espectro — e o paciente atravessa esse espectro nos dois sentidos ao longo do plantão. Descrever em que ponto ele está, com uma linguagem que a próxima pessoa entenda, é a primeira tarefa. Descrever com que padrão ele chegou lá é a segunda, e é a que aponta a causa. O que segue percorre o espectro, depois os quatro sinais que localizam a lesão, depois os sinais de fora do crânio que decidem conduta — e termina no grupo de quadros que se parecem com coma e não são.
Percurso de aprendizagem
Organize ações paralelas: via aérea, ventilação, perfusão, glicemia e exame neurológico breve. Nenhum número de Glasgow substitui a avaliação de proteção e ventilação.
Explique como sinais focais, pupilas e motricidade ocular orientam a investigação, lembrando que causas metabólicas também podem produzir assimetrias e a TC inicial pode não mostrar isquemia.
Use a resposta terapêutica para atualizar hipóteses, não para encerrar o caso. Hipoglicemia, opioides de longa ação e coingestões exigem procurar recorrência e causas associadas.
O espectro, e por que o adjetivo sozinho não serve
As palavras clássicas descrevem profundidade crescente. Letargia ou sonolência é o paciente que desperta ao chamado, interage e volta a dormir assim que você para de estimular. Torpor ou estupor é o paciente que só desperta com estímulo vigoroso e repetido, responde de forma incompleta e volta imediatamente. Coma é a ausência de despertar, sem abertura ocular, sem obediência a comando e sem qualquer resposta com propósito, mesmo à dor — e o protocolo de coma do Neurocritical Care Society acrescenta uma condição temporal a essa definição: mais de uma hora, para separar coma de perda transitória de consciência.
O problema desses adjetivos é que eles não passam informação entre plantões. Dizer que o paciente está torporoso comunica pouco a quem não o viu; dizer que ele abre os olhos ao chamado, fala palavras desconexas e localiza a dor comunica tudo, inclusive a evolução. Por isso a descrição do nível se faz por componentes, não por rótulo — a escala de Glasgow está desmembrada item a item na tabela do bloco de fluxos, junto com a escala FOUR na versão validada em português.
E a soma engana de um jeito específico. Quem não fala porque está intubado, afásico ou é estrangeiro perde pontos que nada têm a ver com o nível de consciência; quem é hemiplégico perde pontos motores pela lesão focal, não pela profundidade do coma. O inverso é o mais traiçoeiro: o coma de olhos abertos eleva a pontuação de abertura ocular sem que exista despertar real. O capítulo de rebaixamento do livro brasileiro de urgências lista exatamente essas quatro armadilhas, e a defesa contra todas é a mesma — registrar os componentes e o contexto, nunca só o número.
Os quatro sinais que localizam: pupilas, olhos, motor e respiração
Depois de dizer quão fundo, o exame diz onde. Quatro conjuntos de achados fazem esse trabalho, todos de exame físico puro, ao lado da maca, em três ou quatro minutos: pupilas, motricidade ocular, resposta motora e padrão respiratório. A lógica que os une é a mesma — cada nível do tronco abriga um circuito diferente, e a falência sobe ou desce por esses níveis de forma previsível. As três tabelas correspondentes estão no bloco de fluxos.
As pupilas são o achado mais rentável porque combinam tamanho e reatividade num gesto de dois segundos: separam causa tóxica de estrutural e, dentro da estrutural, apontam a altura da lesão. Um detalhe operacional vale mais que a teoria — a pupila se examina com luz ambiente baixa, lanterna decente, olho por olho, procurando também a resposta consensual. Pupila avaliada com o teto aceso e uma lanterna fraca de celular é pupila não avaliada. A motricidade ocular, logo depois, é o achado mais subestimado: pesquisa-se por desvios conjugados espontâneos e, com o pescoço liberado, pela manobra oculocefálica — contraindicada em qualquer possibilidade de instabilidade cervical, o que inclui todo paciente encontrado caído sem testemunha.
A resposta motora é o componente que mais informa sobre profundidade e o que mais varia entre examinadores. Duas distinções valem o esforço. A primeira é entre resposta com propósito e resposta reflexa: localizar a dor, empurrar a mão do examinador, levar a mão ao tubo é propósito; retirar, flexionar ou estender em bloco não é. A segunda é entre as duas posturas patológicas, porque elas localizam — a flexão anormal, com adução do braço e flexão do punho sobre o tórax, indica disfunção mais alta; a extensão anormal, com braços estendidos e pronados, indica disfunção mais baixa, e é a pior das duas. Ver a postura migrar de flexora para extensora ao longo de uma hora é ver a deterioração descer o tronco.
O padrão respiratório fecha o conjunto, e é o que ninguém olha porque o monitor já mostra um número. Aqui o número não interessa: interessa o desenho da respiração no tempo, que localiza tão bem quanto a pupila e antecipa a parada respiratória. Um cuidado antes de aceitar o achado como neurológico — respiração profunda e rápida sustentada é, muito mais frequentemente, acidose metabólica compensada do que lesão alta de tronco.
Os sinais que não são neurológicos e decidem a conduta
Depois do exame do tronco, o exame do resto — e é aqui que o diagnóstico costuma sair. Febre, rigidez de nuca e petéquias formam a tríade que aciona o antibiótico imediato. O Guia de Vigilância em Saúde registra que lesões petequiais acompanham cerca de 60% das meningites meningocócicas e alerta que a erupção é menos visível em peles mais escuras, recomendando examinar solas dos pés e palmas das mãos; alteração do estado mental consta do próprio quadro de sinais da doença. A temperatura informa nas duas direções: infecções e estados epilépticos tendem à hipertermia, enquanto intoxicações agudas tendem a produzir coma com hipotermia — e um paciente rebaixado e frio merece uma pergunta séria sobre o que tomou, e, se idoso, sobre hipotireoidismo grave e insuficiência adrenal.
O exame da pele, dos bolsos e da boca é parte do exame neurológico deste paciente, por mais estranho que soe: marcas de punção, adesivo transdérmico de opioide esquecido no ombro, hálito cetônico, mordedura lateral de língua, liberação esfincteriana, icterícia, ascite, trauma occipital que só aparece quando se rola o paciente. O protocolo AC25 do SAMU registra que ferimento de lábio ou língua e liberação esfincteriana sugerem estado pós-convulsivo, e que alteração pupilar deve levantar a hipótese de intoxicação exógena.
O contexto muda a lista de probabilidade. No idoso, causas metabólicas e infecciosas dominam e a febre pode faltar. No cirrótico, o erro clássico é atribuir tudo à encefalopatia hepática e perder a hemorragia digestiva, a infecção do líquido ascítico ou o hematoma subdural — comum nessa população pela coagulopatia e pelas quedas. No diabético, o rebaixamento pode ser hipoglicemia, cetoacidose ou estado hiperosmolar, três condutas opostas e indistinguíveis à inspeção. No imunossuprimido, a lista se abre para infecções fora da conta e a imagem passa a ser com contraste. E na gestante, a eclâmpsia entra entre as causas de rebaixamento com crise, com tratamento próprio e prioridade absoluta.
O que parece coma e não é
Cinco quadros imitam rebaixamento e são confundidos rotineiramente. Errar em qualquer um deles produz dano — em dois casos, dano grave. A tabela do bloco de fluxos resume o que separa cada um; aqui vai o raciocínio.
O delirium é o primeiro e o mais comum, e a fronteira dele com este capítulo é bem definida. Delirium é distúrbio agudo e flutuante da atenção e da cognição, tipicamente do paciente já internado, com forma hiperativa e forma hipoativa — e é a hipoativa, a do paciente quieto e sonolento, que se confunde com rebaixamento e passa despercebida porque não incomoda ninguém. O manejo do delirium instalado, o rastreio sistemático com instrumento validado, o pacote de prevenção e a decisão de medicar são assunto do capítulo de delirium no paciente internado, e ele não se repete aqui. A regra de fronteira é simples: este capítulo trata do rebaixamento agudo e indiferenciado de quem acaba de chegar sem diagnóstico; aquele trata da alteração cognitiva flutuante de quem já está internado e cuja linha de base você conhece. Quando o paciente internado rebaixa de forma nova e abrupta, e não flutua, ele volta para cá — e a primeira coisa é a glicemia.
O estado pós-ictal é a segunda armadilha, e a mais frequente no pronto-socorro. Depois de uma crise, o paciente fica sonolento, confuso e às vezes com déficit motor focal transitório, que reverte em minutos a horas. É indistinguível de outras causas se ninguém viu a crise — e por isso os sinais indiretos importam tanto. O problema é o gêmeo mau do pós-ictal: o estado de mal epiléptico não convulsivo, em que a crise continua acontecendo dentro do cérebro sem manifestação motora visível. O paciente parece apenas rebaixado, a tomografia é normal, os exames metabólicos são normais, e ele não melhora. Coma sem explicação e sem melhora é indicação de eletroencefalograma, e o protocolo de coma do Neurocritical Care Society é explícito ao lembrar que crises não convulsivas frequentemente não têm nenhum correlato estrutural na imagem.
A síndrome do encarceramento é a que produz o pior dano quando perdida. Uma lesão da base da ponte — quase sempre oclusão de artéria basilar — desconecta as vias motoras e deixa o paciente tetraplégico e anártrico, sem movimento facial, sem fala, incapaz de qualquer resposta. Só que o sistema reticular está poupado: ele está desperto, ouve tudo o que se diz na sala e entende. A única motricidade preservada costuma ser vertical do olhar e a abertura ocular. É por isso que a manobra que separa esse quadro de um coma verdadeiro é gratuita e deve ser feita em todo paciente arresponsivo: pedir explicitamente que abra e feche os olhos, e que olhe para cima e para baixo. Se ele obedecer, ele não está em coma — está preso, e é uma emergência vascular com tratamento dependente de tempo.
A catatonia e o coma psicogênico fecham a lista. Na catatonia, o paciente pode ficar imóvel, mudo e não responsivo, às vezes mantendo posturas impostas; no quadro psicogênico, há resistência ativa à abertura ocular, fechamento palpebral rápido quando a pálpebra é solta e reflexos de tronco todos íntegros e simétricos. A regra que protege o paciente é rígida e vem do capítulo brasileiro de urgências: causa psiquiátrica só pode ser concluída depois de excluídas as causas orgânicas — nunca antes, nunca por impressão, nunca porque o paciente tem diagnóstico psiquiátrico prévio. Quem tem transtorno mental também faz hipoglicemia, intoxicação por lítio, hiponatremia por psicotrópico e hemorragia subdural.
Como fechar o diagnóstico
Este é o bloco em que o interno erra, e o erro raramente é ignorar uma doença. O erro é de sequência: pedir o exame certo na hora errada, ou pedir o exame caro antes do exame gratuito, ou transportar para a tomografia um paciente cuja via aérea ainda não foi resolvida. A investigação do rebaixamento tem uma ordem que quase nunca é a ordem em que as ideias aparecem na cabeça, e vale decorá-la como sequência antes de entender cada peça.
A ordem é: glicemia capilar, exame físico completo com o exame do tronco, a leva laboratorial e o eletrocardiograma saindo junto do acesso venoso, tomografia de crânio sem contraste, punção lombar — e eletroencefalograma quando nada explicou. O antibiótico, quando a suspeita de infecção do sistema nervoso central existe, não ocupa lugar nessa fila: ele atravessa a fila.
A glicemia capilar, antes de qualquer outra coisa
É o único exame que se faz sem sair do lado do paciente, custa centavos, responde em menos de um minuto e identifica uma causa que reverte por completo. O protocolo de inconsciência do SAMU coloca a glicemia capilar na avaliação secundária, e o protocolo de coma do Neurocritical Care Society é ainda mais direto: o teste é feito em todos os pacientes inconscientes, sem exceção e sem triagem prévia. Os cortes que disparam o tratamento estão na tabela de causas reversíveis do bloco de fluxos, e a regra prática é que sintoma neurológico com glicemia baixa se trata sem esperar confirmação laboratorial.
Duas advertências de leitura. Glicemia normal não encerra o assunto — retira uma hipótese, apenas. Usar a fita normal como prova de que o problema é neurológico é uma inversão lógica: ela prova que não é hipoglicemia, e nada além. E o inverso também conta: glicemia muito alta abre a porta da cetoacidose e do estado hiperosmolar, e aí a fita é o começo de outra investigação — gasometria, cetonas, e o sódio corrigido para a glicemia, porque o sódio medido num paciente muito hiperglicêmico mente sobre o sódio real.
A leva que sai junto com o acesso, e o que cada tubo responde
No mesmo gesto em que se punciona a veia, sai a bateria. Não é pedir tudo por reflexo defensivo: é que cada tubo responde uma pergunta distinta e todas estão abertas ao mesmo tempo neste paciente.
Sódio, potássio, creatinina e ureia respondem por distúrbio osmótico e uremia. O sódio é o eletrólito que mais rebaixa, na queda e na elevação, e o valor absoluto importa menos que a velocidade da mudança. Creatinina e ureia fazem mais que identificar a uremia: reconfiguram o raciocínio inteiro, porque insuficiência renal significa que qualquer droga de eliminação renal usada por esse paciente pode ter acumulado até a faixa tóxica. Transaminases, bilirrubinas, coagulograma e amônia respondem pelo eixo hepático — e a amônia é mal usada: apoia a suspeita de encefalopatia hepática em quem tem doença hepática conhecida, mas não serve como rastreio de causa de coma em quem não tem contexto, e o valor se correlaciona mal com a profundidade do rebaixamento.
A gasometria arterial responde três perguntas de uma vez: oxigenação, ventilação e acidose. É o exame que flagra a hipercapnia do retentor que ninguém suspeitou e que revela acidose metabólica com ânion-gap elevado, reorientando para intoxicação, cetoacidose, uremia ou hipoperfusão. Como calcular o gap e julgar a compensação é assunto do capítulo de gasometria desta coleção; aqui ela entra apenas como exame de primeira hora.
Hemograma e culturas respondem pelo eixo infeccioso e devem sair antes do antibiótico sempre que isso não custe tempo — hemoculturas de dois sítios distintos, urina e o que mais o exame apontar. O Guia de Vigilância em Saúde resolve a tensão: a coleta é preferencialmente prévia, mas o tratamento imediato não a impede, recomendando-se apenas que ela ocorra o mais próximo possível do início do tratamento.
O rastreio toxicológico é o mais mal compreendido do pacote, por dois defeitos. Positivo não prova causalidade — um benzodiazepínico na urina pode ser de ontem e não explicar o coma de hoje. E negativo não exclui: o protocolo de coma registra que várias substâncias capazes de produzir inconsciência escapam dos rastreios comuns, e cita nominalmente os análogos do fentanil. Por isso a toxíndrome examinada à beira do leito vale mais que o laboratório, e está tabelada no bloco de fluxos. Dois exames dirigidos completam o quadro quando o contexto pede: paracetamol e salicilato séricos, que têm tratamento específico, e co-oximetria na suspeita de monóxido de carbono — situação em que a oximetria comum mente, mostrando saturação confortável em quem está sem transporte de oxigênio.
O eletrocardiograma, que não é exame de coração aqui
O protocolo AC25 do SAMU inclui eletrocardiograma de doze derivações na avaliação do inconsciente, e não por precaução cardiológica genérica: ele responde a três perguntas deste paciente. Arritmia com baixo débito causando hipoperfusão cerebral, que tem tratamento imediato e completamente distinto de tudo o mais. Distúrbio eletrolítico, porque as alterações da onda T e do intervalo QT apontam potássio e cálcio antes de o laboratório voltar. E, a mais rentável em quem não tem história, o padrão de intoxicação — alargamento do QRS aponta antidepressivo tricíclico, uma emergência com conduta própria, e prolongamento do QT aponta várias classes de psicotrópicos. Nesse paciente, o eletrocardiograma é um exame toxicológico que volta em três minutos.
Quando a tomografia entra — e o que ela não vê
A tomografia de crânio sem contraste entra depois da estabilização e da glicemia, e entra em dois cenários: quando o exame sugere causa estrutural, e quando a causa continua obscura depois da avaliação inicial. O protocolo de coma do Neurocritical Care Society formula isso de um jeito que vale memorizar: até prova em contrário, o coma é presumido estrutural e deve ser avaliado com tomografia sem contraste emergente, porque o manejo neurocirúrgico pode ser necessário com urgência. O que sugere estrutural é conhecido: história de trauma, início abrupto, exame com assimetria de nervo craniano ou de resposta motora, imunossupressão, neoplasia — e ausência de causa tóxico-metabólica evidente.
O ponto que quase nunca se ensina é o que a tomografia não vê. Ela é cega, ou quase, para a isquemia nas primeiras horas, para a patologia de tronco — que é justamente a que apaga a consciência —, para toda causa metabólica e tóxica, e para crise não convulsiva. Comatoso com tomografia normal não é paciente sem doença grave: em muitos casos é o oposto, porque a causa mais tempo-dependente do coma súbito, a oclusão de artéria basilar, pode ter tomografia simples pouco alterada. O sinal de artéria basilar hiperdensa deve ser procurado ativamente, e a suspeita de isquemia de tronco é indicação de angiotomografia de crânio e pescoço, não de repetir a tomografia simples. Na suspeita de infecção do sistema nervoso central, o exame se faz com e sem contraste, para avaliar abscesso, coleções extra-axiais, hidrocefalia e infartos vasculíticos; quando nada explica o coma, ou há suspeita de isquemia hiperaguda, o passo seguinte é a ressonância.
Um lembrete de segurança que pertence a este bloco e não ao de conduta: transportar um paciente rebaixado para a tomografia significa deixá-lo dez a vinte minutos numa sala mal monitorizada, deitado, longe do carrinho de emergência e frequentemente sozinho com um técnico. A decisão sobre a via aérea precisa estar tomada antes de o paciente sair da sala de emergência, não durante o exame.
Quando a punção lombar entra — e por que o antibiótico não espera por ela
A punção lombar entra quando existe suspeita de infecção do sistema nervoso central, de doença inflamatória ou autoimune, de infiltração neoplásica das meninges, e também quando há suspeita clínica de hemorragia subaracnóidea apresentada mais de vinte e quatro horas após a cefaleia, mesmo com tomografia sem contraste negativa. Antes de puncionar, é preciso garantir que não há sinais clínicos nem radiográficos de hipertensão intracraniana ou lesão expansiva, sob pena de herniação — e é essa cautela que coloca a tomografia antes da punção na maior parte dos pacientes com rebaixamento, já que rebaixamento é ele próprio um dos sinais que motivam a cautela.
E aqui está a regra que mais salva vida neste capítulo inteiro, e a que mais é desrespeitada na prática. O antibiótico da meningite não espera pela punção lombar, e não espera pela tomografia. O protocolo de coma instrui a iniciar antimicrobiano e dexametasona antes da tomografia quando há suspeita de meningoencefalite infecciosa, e diz de forma literal para não atrasar a terapia por causa da punção diagnóstica. O guia brasileiro de tratamento empírico da meningite comunitária diz o mesmo com outras palavras: diante da suspeita clínica, inicia-se o antimicrobiano antes dos resultados de exames e do líquor, porque o retardo aumenta o número de sequelas e eleva a mortalidade.
Como conciliar isso com o Guia de Vigilância em Saúde, que pede o antibiótico de preferência logo após a punção e a hemocultura? Sem conflito real: a chave está na palavra preferência. Se a punção pode ser feita agora, faça e trate em seguida — o rendimento da cultura é melhor. Se ela vai demorar, por falta de tomografia, de quem puncione, por instabilidade ou porque a plaqueta ainda não voltou, trate agora e puncione depois; o próprio Guia registra que o tratamento imediato não impede a coleta, e bacterioscopia, látex e reação em cadeia da polimerase seguem rendendo depois da primeira dose. E, além da bactéria: em paciente com febre, crise e rebaixamento, a encefalite herpética entra na lista, o protocolo de coma manda tratar empiricamente sem esperar confirmação, e a reação em cadeia da polimerase para herpes-vírus se pede junto do restante — não numa segunda coleta, dias depois, quando alguém finalmente pensou nisso.
O eletroencefalograma, e o paciente que não melhora
Existe um ponto em que tudo voltou normal e o paciente continua sem acordar: glicemia corrigida, eletrólitos normais, tomografia sem lesão, rastreio toxicológico negativo. Duas hipóteses sobrevivem a todos esses exames — estado de mal epiléptico não convulsivo, que só o eletroencefalograma diagnostica, e isquemia de tronco, que exige angiotomografia ou ressonância. O protocolo de coma lista as duas juntas justamente por se apresentarem sem foco e sem alteração estrutural aparente, e acrescenta um alerta fino: discinesia orofacial e posturas anormais aparecem no acidente vascular de tronco e são confundidas com crise, levando o médico a tratar como epilepsia um paciente que precisa de reperfusão. A regra operacional é ter o gatilho declarado — coma sem etiologia definida depois da bateria e da imagem manda pedir eletroencefalograma e investigação vascular de tronco, e não 'observar e reavaliar amanhã'.
O que existe no SUS, e o que fazer quando não existe
Quase toda a investigação deste capítulo é disponível na rede pública e barata: glicemia capilar, eletrólitos, função renal e hepática, hemograma, gasometria, culturas, eletrocardiograma. Ceftriaxona, ampicilina, dexametasona, glicose hipertônica, tiamina, diazepam e fenitoína constam do componente estratégico da assistência farmacêutica. Nada do essencial aqui depende de recurso escasso.
Três itens são desigualmente distribuídos e merecem plano B declarado. Tomografia à noite falta em muitos municípios, e a consequência é que o antibiótico empírico da meningite fica ainda mais precoce — esperar transferência para tomografar é atrasar tratamento. Amônia e dosagem sérica de drogas frequentemente não são feitas no plantão, e a decisão terapêutica passa a se apoiar no contexto clínico, com o resultado servindo para confirmar e não para iniciar. Eletroencefalograma de urgência é raro fora dos grandes centros, e a suspeita de estado de mal não convulsivo num serviço sem o exame é motivo legítimo de transferência. Some a isso um recurso gratuito e subutilizado: o Disque-Intoxicação da Anvisa, no 0800 722 6001, atendido pela rede de trinta e cinco centros de assistência toxicológica em dezenove estados — numa suspeita de agente incomum, essa ligação resolve em minutos o que uma busca desorganizada não resolve em uma hora.
O fluxo, as escalas e as tabelas do paciente que não acorda
Você deve estabilizar o paciente rebaixado, tratar causas reversíveis imediatamente e localizar os próximos passos pelo exame e pela resposta.
- 1Confirme a arresponsividade com estímulo graduado — voz, toque em face e mãos, e só então estímulo doloroso (compressão de leito ungueal, trapézio ou incisura supraorbitária).
- 2Cheque expansibilidade torácica e pulso central. Sem respiração e sem pulso, o protocolo muda para parada cardiorrespiratória.
- 3Abra e mantenha a via aérea, aspire se houver secreção, e ofereça oxigênio se a saturação estiver abaixo do alvo. Imobilize a coluna cervical se a queda não foi presenciada.
- 4Meça a glicemia e corrija imediatamente se baixa. No risco de deficiência de tiamina, administre a vitamina prontamente, sem atrasar glicose. Se a medida não estiver disponível e a suspeita de hipoglicemia for forte, a necessidade de tratamento não deve esperar indefinidamente pelo aparelho.
- 5Monitorize ritmo, pressão, oximetria e temperatura. Obtenha dois acessos venosos e colha a bateria completa no mesmo gesto.
- 6Faça o exame focado: nível pelos componentes da escala, pupilas, motricidade ocular, resposta motora e padrão respiratório. Peça explicitamente que abra e feche os olhos e olhe para cima e para baixo, para não perder uma síndrome do encarceramento.
- 7Examine o resto do corpo: temperatura, rigidez de nuca, petéquias, pele, hálito, língua, sinais de trauma, marcas de punção, adesivos. Vasculhe bolsos e mochila.
- 8Colha a história de 60 segundos com quem trouxe o paciente, e o eletrocardiograma de 12 derivações.
- 9Se há febre com rigidez de nuca, petéquias ou crise convulsiva, inicie antimicrobiano e corticoide AGORA — antes da tomografia e sem esperar a punção lombar.
- 10Faça a tomografia de crânio sem contraste se o exame sugere causa estrutural ou se a causa segue obscura. Resolva a via aérea antes de transportar.
- 11Puncione o líquor quando houver suspeita de infecção do sistema nervoso central, depois de excluída lesão expansiva na imagem.
- 12Se nada explicou e o paciente não melhora, peça eletroencefalograma e investigação vascular de tronco (angiotomografia ou ressonância).
Nível diencefálico
Pupilas pequenas e simétricas, com fotomotor preservado. Respiração em ciclos que crescem, decrescem e param. É o nível mais alto e o mais reversível — e é o padrão que a encefalopatia metabólica difusa imita com perfeição.
Nível mesencefálico
Pupilas em posição média, fixas, às vezes irregulares. Respiração profunda e rápida sustentada. A deterioração desceu um andar. Uma pupila só, dilatada e arreativa, aponta compressão do terceiro nervo por herniação uncal — emergência neurocirúrgica.
Nível pontino
Pupilas puntiformes e simétricas, com fotomotor presente mas difícil de ver. Respiração com pausas inspiratórias longas. Pupila puntiforme, porém, é o achado que mais engana: a intoxicação por opioide desenha o mesmo — e reverte com antídoto.
Nível bulbar
Pupilas dilatadas e arreativas dos dois lados. Respiração irregular, agrupada ou caótica, com falhas. É o último andar antes da apneia. Atenção: barbitúrico, atropínico, anóxia e hipotermia grave desenham o mesmo sem lesão bulbar.
| Componente | Resposta | Pontos |
|---|---|---|
| Abertura ocular | Espontânea | 4 |
| Abertura ocular | Ao chamado | 3 |
| Abertura ocular | À dor | 2 |
| Abertura ocular | Ausente | 1 |
| Resposta verbal | Orientado | 5 |
| Resposta verbal | Confuso | 4 |
| Resposta verbal | Palavras impróprias | 3 |
| Resposta verbal | Sons incompreensíveis | 2 |
| Resposta verbal | Ausente | 1 |
| Resposta motora | Obedece a comandos | 6 |
| Resposta motora | Localiza o estímulo doloroso | 5 |
| Resposta motora | Retirada inespecífica à dor (flexão normal) | 4 |
| Resposta motora | Flexão anormal à dor — decorticação | 3 |
| Resposta motora | Extensão à dor — descerebração | 2 |
| Resposta motora | Ausente | 1 |
Pupilas: o que cada padrão localiza ou denuncia
| Pupilas | Reflexo fotomotor | O que sugere |
|---|---|---|
| Mióticas e isocóricas | Presente nos dois olhos | Padrão diencefálico; também é o padrão da encefalopatia metabólica difusa |
| Puntiformes e isocóricas | Presente (difícil de ver) | Lesão pontina — ou intoxicação por opioide, ou síndrome colinérgica |
| Média e fixa, por vezes irregular | Ausente nos dois olhos | Lesão mesencefálica |
| Levemente midriáticas e isocóricas | Ausente nos dois olhos | Padrão mesencefálico |
| Midriáticas e isocóricas | Ausente nos dois olhos | Padrão tectal; também barbitúrico, atropina, anóxia global e hipotermia |
| Midriáticas e reativas | Presente | Lesão pré-tectal; também estimulantes — cocaína, anfetamínicos, alucinógenos |
| Anisocóricas, uma francamente midriática | Ausente do lado midriático | Compressão do terceiro nervo por herniação uncal — emergência neurocirúrgica |
| Anisocóricas, ambas reagindo | Presente nos dois olhos | Síndrome de Horner; também efeito local de colírio ou de medicação inalada |
Padrão respiratório e o nível correspondente
| Padrão | Como se reconhece | O que sugere |
|---|---|---|
| Cheyne-Stokes | Ciclos que crescem, decrescem e param, de forma regular e repetida | Encefalopatia metabólica global; disfunção de prosencéfalo ou diencéfalo |
| Hiperventilação neurogênica central | Respiração profunda e rápida, sustentada | Encefalopatia metabólica; lesão alta de tronco (rara). Antes de aceitar, exclua acidose metabólica compensada |
| Apnêustica | Pausa inspiratória prolongada, com o tórax travado cheio | Lesão pontina bilateral |
| Biot / agrupada | Respirações profundas e espaçadas, com apneias entre elas | Lesão pontina; junção pontobulbar |
| Atáxica | Amplitude e intervalo completamente irregulares | Lesão da junção pontobulbar — precede a apneia |
| Apneia | Ausência de esforço respiratório | Lesão bilateral do bulbo ventrolateral |
Motricidade ocular extrínseca: o achado e a lesão-alvo
| Achado | Lesão-alvo |
|---|---|
| Abdução presente, adução ausente | Fascículo longitudinal medial ou nervo oculomotor |
| Adução presente, abdução ausente | Nervo abducente |
| Horizontal normal, vertical alterado | Lesão mesodiencefálica |
| Vertical normal, horizontal alterado | Lesão pontina |
| Movimentos preservados | Lesão supratentorial focal, difusa ou multifocal |
| Movimentos comprometidos ou ausentes | Lesão estrutural infratentorial — ou causa tóxica |
Estrutural × não estrutural: o que inclina para cada lado
| Achado | Inclina para estrutural | Inclina para não estrutural |
|---|---|---|
| Instalação | Súbita, em segundos a minutos | Progressiva, em horas a dias |
| Nervos cranianos e resposta motora | Assimétricos — hemiparesia, postura de um lado | Simétricos nos dois lados |
| Pupilas | Anisocoria, arreatividade unilateral | Simétricas e reativas por muito tempo |
| História | Trauma, neoplasia, imunossupressão, anticoagulação | Medicação, álcool, droga, doença renal ou hepática, diabetes |
| Cuidado | Tomografia normal NÃO exclui isquemia precoce, tronco nem basilar | Exame não focal NÃO exclui crise não convulsiva nem isquemia de tronco |
Causas reversíveis, em ordem de rapidez de reversão
| Causa | Como se identifica na hora | O que dispara o tratamento | Em quanto reverte |
|---|---|---|---|
| Hipoglicemia | Glicemia capilar à beira do leito | Abaixo de 60 mg/dL com sintomas (SAMU); abaixo de 70 mg/dL (protocolos de coma e de álcool) | Minutos |
| Hipoxemia | Oximetria de pulso | Saturação abaixo de 94% no primeiro atendimento | Minutos |
| Intoxicação por opioide | Toxíndrome: pupila puntiforme, bradipneia, coma | Depressão respiratória com toxíndrome compatível | 2 a 3 minutos por dose de antídoto |
| Crise convulsiva em curso | Observação direta da crise | Crise com mais de 5 minutos de duração | Minutos, com benzodiazepínico |
| Hipercapnia | Gasometria arterial | Retenção com acidose respiratória e rebaixamento | Minutos a horas, com suporte ventilatório |
| Meningite bacteriana | Febre com rigidez de nuca, petéquias ou crise | Suspeita clínica — não espera exame | Horas a dias; o ganho é evitar sequela e óbito |
| Hiponatremia sintomática | Sódio sérico | Sódio baixo com rebaixamento ou crise | Horas — e a correção rápida demais causa lesão própria |
| Encefalopatia hepática | Contexto de hepatopatia; amônia apoia | Hepatopatia com rebaixamento e fator precipitante | Horas a dias |
| Encefalopatia de Wernicke | Contexto nutricional; a clínica vale mais que o laboratório | Risco nutricional com rebaixamento — trata-se empiricamente | Horas a dias; o atraso deixa sequela permanente |
Escala FOUR, versão validada em português: os quatro domínios
| Pontos | Resposta ocular | Resposta motora | Reflexos de tronco | Respiração |
|---|---|---|---|---|
| 4 | Pálpebras abrem espontaneamente | Faz sinal de positivo, punho ou sinal de paz | Reflexos pupilar e corneano presentes | Não intubado, respiração regular |
| 3 | Pálpebras abrem ao comando verbal | Localiza a dor | Uma pupila dilatada e fixa | Não intubado, respiração irregular |
| 2 | Pálpebras abrem à dor | Flexão à dor | Pupilar OU corneano ausente | Respira acima da frequência do ventilador |
| 1 | Pálpebras permanecem fechadas à dor | Extensão à dor | Pupilar E corneano ausentes | Respira na frequência do ventilador |
| 0 | Pálpebras permanecem fechadas | Sem resposta ou flácido | Pupilar, corneano e de tosse ausentes | Apneico ou abaixo da frequência do ventilador |
Toxíndromes: o padrão à beira do leito que aponta a classe
| Síndrome | Pupilas | Pele e temperatura | Outros achados | Classes envolvidas |
|---|---|---|---|---|
| Opioide (narcótica) | Miose | Fria, hipotermia | Depressão respiratória, bradicardia, hipotensão, hiporreflexia, redução de ruídos intestinais | Morfina, codeína, tramadol, fentanil, metadona, heroína, oxicodona |
| Depressiva (sedativo-hipnótica) | Variável | Fria | Sonolência, torpor, coma, depressão respiratória | Benzodiazepínicos, barbitúricos, etanol |
| Anticolinérgica | Midríase | Seca, quente e avermelhada; hipertermia | Mucosas secas, taquicardia, retenção urinária, agitação, alucinação, coma | Atropina, escopolamina, tricíclicos, antipsicóticos, anti-histamínicos, Solanaceae |
| Colinérgica | Miose (por vezes midríase) | Úmida, sudorese profusa | Salivação, lacrimejamento, secreção brônquica, broncoespasmo, diarreia, fasciculações, convulsão, coma | Organofosforados, carbamatos (chumbinho) |
| Simpatomimética | Midríase | Úmida com sudorese; hipertermia | Hipertensão, taquicardia, arritmia, hiperreflexia, agitação, convulsão, coma | Cocaína, anfetamínicos, descongestionantes, cafeína, teofilina |
| Extrapiramidal | Variável | Normal | Hipertonia, desvio conjugado do olhar, trismo, opistótono | Fenotiazínicos, butirofenonas, metoclopramida, bromoprida, lítio |
O que confunde com coma — e o que separa
| Quadro | Como se parece com coma | O que separa |
|---|---|---|
| Delirium hipoativo | Paciente quieto, sonolento, pouco responsivo | Flutua ao longo do dia; a atenção é o déficit central; contexto de paciente já internado. Assunto do capítulo de delirium — mas rebaixamento novo e abrupto volta para cá, começando pela glicemia |
| Estado pós-ictal | Sonolência e confusão, às vezes com déficit focal | Crise presenciada, mordedura lateral de língua, liberação esfincteriana; melhora progressiva em minutos a horas |
| Estado de mal não convulsivo | Rebaixamento sem foco, sem melhora, imagem normal | Só o eletroencefalograma faz o diagnóstico. Suspeitar sempre que o coma não tiver explicação |
| Síndrome do encarceramento | Tetraplegia, anartria, ausência de resposta | O paciente está DESPERTO: obedece ao comando de abrir e fechar os olhos e de olhar para cima e para baixo. Oclusão de basilar até prova em contrário |
| Catatonia | Imobilidade, mutismo, ausência de resposta | Pode manter posturas impostas; reflexos de tronco íntegros; contexto psiquiátrico. Diagnóstico só depois de excluída causa orgânica |
| Coma psicogênico | Olhos fechados, sem resposta a estímulo | Resistência ativa à abertura ocular, fechamento palpebral rápido ao soltar a pálpebra, todos os reflexos de tronco normais e simétricos |
| Afasia de Wernicke | Fala incompreensível, não obedece a comandos | Está alerta, olha, gesticula, tem abertura ocular espontânea — o déficit é de linguagem, não de nível |
Registre os três componentes da escala separadamente, e não só a soma. Somas iguais escondem pacientes muito diferentes — e a soma cai por afasia, intubação e hemiparesia sem que o nível de consciência tenha mudado.
Existe uma versão da escala que incorpora a pupila: subtrai-se 1 ponto se uma pupila estiver arreativa e 2 se as duas estiverem, o que estende a faixa para baixo e separa melhor os mais graves. Foi descrita para trauma cranioencefálico, mas a lógica de somar a informação do tronco à do despertar é a mesma que este capítulo defende no exame inteiro.
A escala FOUR foi validada em português num pronto-socorro universitário de Uberaba, com concordância alta entre examinadores. A vantagem é medir o que a escala clássica não mede — reflexos de tronco e padrão respiratório — e continuar aplicável no intubado.
A manobra oculocefálica é contraindicada em qualquer suspeita de instabilidade cervical. Paciente encontrado caído, sem testemunha da queda, entra nessa categoria por definição.
A conduta, hora a hora
O que segue é a linha do tempo do paciente da cena — o homem sem documento, sem história e sem acompanhante. Ela vale para qualquer rebaixamento agudo indiferenciado, e a lógica dos marcos é sempre a mesma: primeiro o que mantém o neurônio vivo enquanto o diagnóstico não chega, depois o que reverte causa em minutos, depois o que exige exame e transporte.
Duas prioridades atravessam o atendimento: corrigir a hipoglicemia imediatamente, associando tiamina prontamente quando indicada; e iniciar tratamento da meningite bacteriana suspeita sem atraso por tomografia ou punção lombar. São ações guiadas pelo risco clínico, realizadas em paralelo ao suporte.
Sobre a via aérea, uma advertência de calibração. O número que todo mundo decora — coma com escala de Glasgow igual ou menor que 8 — é um dos critérios de intubação na lesão encefálica aguda, e não o único: o consenso brasileiro de ventilação mecânica lista, ao lado dele, a perda do reflexo de proteção de via aérea, a hipertensão intracraniana grave, a evidência clínica de herniação e a indicação não neurológica. Isso importa nos dois sentidos. Um paciente com escore 10 que vomita, não tosse e não engole precisa de via aérea definitiva, e o número não autoriza esperar. Um paciente com escore 7 por hipoglicemia, cuja causa pode responder rapidamente à glicose que já está correndo, exige suporte e avaliação contínua da via aérea; uma resposta rápida pode evitar intubação, mas não é garantida e não permite adiar proteção quando necessária. O escore descreve; quem decide é a capacidade de proteger a traqueia e a trajetória do paciente.
0 a 5 minutos — antes de qualquer diagnóstico
Confirmar a arresponsividade, checar respiração e pulso, abrir a via aérea, aspirar secreção e posicionar em decúbito lateral se não houver suspeita de trauma. Imobilizar a coluna cervical se a queda não foi presenciada. Ofertar oxigênio, monitorizar, obter dois acessos e medir a glicemia capilar no mesmo minuto. Este marco não tem hipótese diagnóstica nenhuma: é idêntico para todas as causas.
Prescrição- Oxigênio sob máscara não reinalante, 10 a 15 L/min, se saturação de pulso abaixo de 94% (Protocolos SAMU 192, AC25 e AC29)
- Decúbito lateral de recuperação na ausência de evidência de trauma, pelo risco de aspiração de secreções (SAMU 192, ATox 4)
- Glicemia capilar imediata em todo paciente inconsciente, sem triagem prévia (SAMU 192, AC25; ENLS Coma v6.0)
- Dois acessos venosos periféricos, com coleta da bateria laboratorial no mesmo gesto
5 a 15 minutos — o que reverte causa em minutos
Meça a glicemia e corrija a hipoglicemia imediatamente. No risco nutricional, dê tiamina prontamente sem atrasar a glicose. Se houver suspeita de opioide com ventilação inadequada, ventile e administre naloxona, titulando conforme gravidade. Crise convulsiva com cinco minutos ou mais, ou crises sem recuperação, exige tratamento imediato. Gasometria e ECG entram em paralelo conforme o quadro.
Prescrição- Tiamina parenteral no risco nutricional, sem atrasar a glicose. Doses preventivas, como 100 mg/dia, não equivalem ao tratamento de Wernicke; suspeita clínica exige protocolo terapêutico intravenoso, habitualmente em doses maiores e fracionadas.
- Administre tiamina pela via parenteral e esquema disponíveis apropriados à indicação; não use uma apresentação ou dose do atendimento pré-hospitalar como tratamento universal de Wernicke. Reavalie nutrição, magnésio e risco de realimentação.
- Hipoglicemia com rebaixamento: glicose IV, por exemplo 15–25 g, titulada à resposta conforme protocolo. Glicose 50% contém 0,5 g/mL: 30–50 mL fornecem 15–25 g. Conferir acesso pelo risco de extravasamento; soluções menos concentradas podem ser utilizadas. Repetir glicemia em cerca de 15 minutos ou antes se necessário e prevenir recorrência.
- Naloxona na suspeita de depressão respiratória por opioide: apoiar ventilação imediatamente e usar via IV titulada quando disponível. Pequenas doses iniciais, como 0,04 mg, cabem no usuário dependente que ainda ventila; apneia ou hipoxemia grave exigem reversão rápida, sem escalonamento excessivamente lento. Repetir e aumentar conforme resposta, usando protocolo e apresentação disponíveis. Via intranasal ou IM pode ser usada quando não há acesso; não ensinar via endotraqueal como rotina nem um teto de 4 mg como prova de ausência de opioide.
- Crise com mais de 5 minutos: diazepam 10 mg por via intravenosa lenta, a 1 a 2 mg/min, interrompendo assim que a crise cessar; repetir a cada 5 a 10 minutos até o máximo de 30 mg (SAMU 192, AC26)
- Crise que persiste após a dose máxima de diazepam: fenitoína 15 a 20 mg/kg por via intravenosa, em acesso de grosso calibre, diluída em 250 a 500 mL de salina 0,9%, com velocidade máxima de infusão de 50 mg/min; dose adicional de 5 a 10 mg/kg se necessário (SAMU 192, AC26)
15 a 60 minutos — a infecção que não espera, depois a imagem
Febre com rigidez de nuca, petéquias, crise convulsiva ou rebaixamento febril sem outra explicação: o antimicrobiano empírico entra AGORA, com o corticoide junto ou pouco antes, e antes da tomografia. Colher hemoculturas se isso não custar tempo. Depois, tomografia sem contraste — com a via aérea resolvida antes do transporte. A punção vem depois da imagem, sem sinal de lesão expansiva. Com febre e crise, somar cobertura para encefalite herpética e pedir a reação em cadeia da polimerase para herpes-vírus no líquor.
Prescrição- Ceftriaxona 2 g por via endovenosa de 12 em 12 horas — esquema empírico do adulto na meningite comunitária, por 10 a 14 dias (SMS Ribeirão Preto, 2018). Na doença meningocócica confirmada, o Guia de Vigilância em Saúde mantém a mesma dose e intervalo, por 7 dias
- Acrescentar ampicilina 300 a 400 mg/kg/dia por via endovenosa, de 4 em 4 horas, por 21 dias, no grupo de risco para Listeria: acima de 65 anos, imunodeprimidos e gestantes (SMS Ribeirão Preto, 2018)
- Dexametasona no adulto com forte suspeita de meningite bacteriana, quando indicada: 10 mg IV a cada 6 horas, iniciada antes ou junto à primeira dose de antibiótico, sem atrasá-lo. Reavaliar continuação conforme líquor e agente, em geral até 4 dias nas indicações pertinentes. Não confundir com corticosteroide para choque; epidemia meningocócica tem orientação específica.
- Suspeita de encefalite herpética (febre, crise convulsiva e rebaixamento): aciclovir 10 mg/kg por via endovenosa de 8 em 8 horas, infundido em 1 hora para evitar lesão renal, com ajuste por clearance de creatinina (Guia Farmacêutico do Hospital Sírio-Libanês). O protocolo de coma do Neurocritical Care Society orienta iniciar empiricamente quando o quadro sugere, sem aguardar confirmação
- Intubação orotraqueal se houver coma com escala de Glasgow igual ou menor que 8, perda do reflexo de proteção de via aérea, hipertensão intracraniana grave, evidência clínica de herniação ou indicação não neurológica (AMIB/SBPT, 2023)
- Tomografia de crânio sem contraste, emergencial, em todo paciente inconsciente com causa estrutural presumida ou causa não esclarecida após a avaliação inicial (ENLS Coma v6.0). Com e sem contraste quando a hipótese é infecção do sistema nervoso central
1 a 6 horas — a causa nomeada e o destino definido
Com os exames de volta, o paciente sai de 'rebaixamento indiferenciado' e entra num diagnóstico com tratamento próprio. Três decisões: o tratamento específico da causa encontrada; o destino, porque quase todo paciente que chegou em coma vai para leito monitorizado e a vaga se pede cedo, não quando o corredor esvaziar; e a revisão das hipóteses que ficaram abertas — se a imagem e o metabólico foram normais e ele não acorda, sobram crise não convulsiva e isquemia de tronco, e as duas exigem exame solicitado agora.
Prescrição- Notificar caso suspeito de doença meningocócica às Secretarias Municipal e Estadual de Saúde em até 24 horas, e imediatamente se houver surto, aglomerado de casos ou óbito (Guia de Vigilância em Saúde, 2024)
- Quimioprofilaxia dos contatos próximos com rifampicina 10 mg/kg por dose, máximo de 600 mg, de 12 em 12 horas por 2 dias, preferencialmente até 48 horas da exposição; alternativas são ceftriaxona 250 mg intramuscular ou ciprofloxacino 500 mg oral, em dose única (Guia de Vigilância em Saúde, 2024)
- Paciente intubado com lesão encefálica aguda: alvo de PaO2 entre 80 e 120 mmHg e de PaCO2 entre 35 e 45 mmHg, com ou sem hipertensão intracraniana (AMIB/SBPT, 2023)
- Suspeita de intoxicação por agente incomum: acionar o centro de informação e assistência toxicológica de referência, ou o Disque-Intoxicação da Anvisa, 0800 722 6001 (SAMU 192, ATox 1)
Depois das 6 horas — o que fazer com o paciente que não acordou
Nem todo paciente acorda, e a conduta desse momento não é esperar: é reabrir o diagnóstico com uma pergunta nova — o que tratei estava certo, mas era a única coisa? Coexistência de causas é a regra: o etilista que fez hipoglicemia também caiu e tem hematoma subdural; o séptico que rebaixou também está em crise não convulsiva. Em paralelo começam os cuidados que evitam que a internação produza dano próprio: proteção ocular, prevenção de lesão por pressão, profilaxia de tromboembolismo, cabeceira elevada.
Prescrição- Eletroencefalograma na suspeita de crise não convulsiva ou estado de mal não convulsivo — quadro que frequentemente não tem correlato estrutural na tomografia (ENLS Coma v6.0)
- Angiotomografia de crânio e pescoço quando o exame sugere achado focal de tronco ou há suspeita de isquemia de artéria basilar; ressonância quando a causa do coma não é explicada pelos demais exames (ENLS Coma v6.0)
- Traqueostomia a considerar no paciente em ventilação mecânica com lesão encefálica aguda que persiste com rebaixamento do nível de consciência ou que falhou em uma ou mais tentativas de extubação (AMIB/SBPT, 2023)
Como saber se está funcionando
Este é o bloco que separa quem prescreve de quem conduz. A conduta inicial do rebaixamento é curta e razoavelmente padronizada; o que distingue o interno bom é saber, quarenta minutos depois, dizer se aquilo funcionou — e o que fazer quando não funcionou.
Cada intervenção tem uma janela própria de resposta, e ela é curta: antídoto e glicose respondem em minutos, correção eletrolítica e antibiótico em horas. Ausência de resposta dentro da janela não é motivo para repetir a dose indefinidamente — é motivo para reabrir o diagnóstico. Reavaliar significa refazer o mesmo exame e comparar com o anterior: é o que transforma um retrato numa trajetória.
Um cuidado de execução: se o paciente for sedado para intubação, a escala perde valor de acompanhamento e a pupila passa a ser o principal parâmetro neurológico disponível. Por isso o exame neurológico completo se faz e se registra antes de qualquer sedativo ou bloqueador — depois disso, o exame que você não fez está perdido para sempre.
Esperado: Ganho de pelo menos um ponto em qualquer componente, ou passagem de resposta reflexa para resposta com propósito. Na hipoglicemia corrigida, a expectativa é despertar em minutos
Se não melhora: Repetir a glicemia capilar; conferir se a tiamina foi dada; reabrir a hipótese de segunda causa coexistente. Coma que não melhora após correção metabólica é indicação de eletroencefalograma e de investigação vascular de tronco
Esperado: Acompanhar simetria e reatividade das pupilas em conjunto com consciência e ventilação. Na suspeita de opioide, o alvo da naloxona é recuperar ventilação adequada; mudança pupilar isolada não confirma nem exclui a causa.
Se não melhora: Anisocoria NOVA com arreatividade unilateral é herniação até prova em contrário: acionar neurocirurgia, elevar cabeceira, garantir via aérea. A hiperventilação, com redução da PaCO2, é opção apenas TRANSITÓRIA na herniação ou na elevação progressiva e grave da pressão intracraniana, até o tratamento definitivo
Esperado: Ritmo regular, sem pausas, sem uso de musculatura acessória e sem sinal de obstrução alta
Se não melhora: Progressão de ciclos regulares para respirações agrupadas ou irregulares indica que a deterioração desceu o tronco: via aérea definitiva imediata, sem aguardar novo escore
Esperado: Normalização com melhora clínica proporcional
Se não melhora: Glicemia corrigida com rebaixamento persistente exige buscar causas associadas e considerar lesão por hipoglicemia prolongada; não prova que a glicose baixa nunca contribuiu. Recorrência requer suspender ou rever o agente causal, tratar e monitorizar. Sulfonilureia pode exigir octreotida em discussão com toxicologia, além de glicose e observação prolongada.
Esperado: No paciente com lesão encefálica aguda, PaO2 entre 80 e 120 mmHg e PaCO2 entre 35 e 45 mmHg, com ou sem hipertensão intracraniana
Se não melhora: Hipercapnia persistente com rebaixamento é indicação de ventilação invasiva; a ventilação não invasiva é contraindicada de forma absoluta com escala de Glasgow abaixo de 8
Esperado: Queda da febre e melhora do nível de consciência nas primeiras 24 a 48 horas do antimicrobiano adequado
Se não melhora: Rever cobertura — o grupo de risco para Listeria precisa de ampicilina associada, e não é coberto por cefalosporina isolada. Rever a hipótese de encefalite viral, de abscesso e de coleção que precise de drenagem. Rever a possibilidade de foco extracraniano
Esperado: Simetria mantida; migração de postura anormal para retirada, e de retirada para localização
Se não melhora: Assimetria NOVA, ou migração de flexão anormal para extensão anormal, indica progressão estrutural: imagem imediata, mesmo que a tomografia anterior tenha sido normal
Onde o erro machuca
O dano: O paciente sai da sala de emergência, passa vinte minutos num corredor mal monitorizado e volta com a mesma hipoglicemia que tinha na chegada — só que agora com vinte minutos a mais de neuroglicopenia. Hipoglicemia prolongada deixa sequela cognitiva permanente, e todo o tempo perdido foi gasto num exame que é cego para a causa.
Como pegar a tempo: Regra fixa: nenhum paciente rebaixado sai da sala de emergência sem glicemia capilar medida e anotada. O aparelho está no bolso da técnica e o resultado vem antes de o pedido de tomografia ser impresso.
O dano: Neuroglicopenia prolongada pode causar lesão cerebral. A deficiência de tiamina também deve ser tratada prontamente, mas não há justificativa para manter hipoglicemia enquanto se procura ou prepara a vitamina. Nutrição ou glicose repetida sem reposição em uma pessoa deficiente merece atenção adicional.
Como pegar a tempo: Corrija imediatamente a hipoglicemia e administre tiamina prontamente no risco nutricional, antes se já disponível ou em paralelo/assim que possível. Não aguarde dosagem sérica. Diferencie suplementação preventiva de tratamento de encefalopatia de Wernicke, que requer esquema parenteral terapêutico.
O dano: Em quem usa benzodiazepínico cronicamente, o antagonista precipita abstinência aguda com convulsões de difícil controle — e o próprio protocolo brasileiro registra essa advertência. Pior: se houver coingestão de antidepressivo tricíclico, remover a proteção anticonvulsivante do benzodiazepínico desmascara crises e arritmia. O médico troca um paciente que respira sozinho por um paciente em estado de mal.
Como pegar a tempo: Nunca use o antagonista como teste diagnóstico. Ele existe para reverter depressão respiratória em ingestão isolada e conhecida de benzodiazepínico, em quem não é usuário crônico. Fora disso, o tratamento do coma benzodiazepínico é suporte ventilatório e tempo.
O dano: O retardo eleva sequela e mortalidade, e o guia brasileiro de meningite comunitária diz isso com todas as letras. A janela é de horas numa doença cuja forma septicêmica tem letalidade acima de 40%, com a maioria dos óbitos nas primeiras 48 horas. O líquor colhido depois da primeira dose ainda rende bacterioscopia, látex e reação em cadeia da polimerase — o paciente que morreu esperando não rende nada.
Como pegar a tempo: Estabeleça o gatilho antes de precisar dele: febre com rigidez de nuca, petéquias, crise convulsiva ou rebaixamento febril sem outra explicação dispara antimicrobiano e corticoide imediatamente. Colha hemocultura se não custar tempo. Puncione depois.
O dano: É o erro que mais mata neste capítulo, porque é o mais confortável: explica tudo, dispensa investigação e vem com um viés moral que faz o paciente ser reavaliado menos. Só que quem bebe também cai e sangra dentro do crânio, faz hipoglicemia, faz hiponatremia, aspira, faz pancreatite, faz encefalopatia hepática e toma outras substâncias junto. O hematoma subdural do etilista é diagnosticado tarde justamente porque o rebaixamento foi atribuído à embriaguez.
Como pegar a tempo: O hálito etílico não é diagnóstico — é um dado a mais. Todo paciente com hálito etílico e rebaixamento recebe a mesma investigação de qualquer outro: glicemia, exame do tronco, exame do couro cabeludo procurando trauma, e reavaliação seriada. E quem não melhora na velocidade esperada para álcool tem outra coisa.
O dano: Aspiração maciça de conteúdo gástrico, com pneumonite química, hipoxemia grave e, não raro, ventilação prolongada. É complicação inteiramente produzida pelo atendimento — o paciente entrou com uma doença e saiu com duas.
Como pegar a tempo: Na ausência de suspeita de trauma, decúbito lateral de recuperação, aspirador montado e testado ao lado da maca. Avalie tosse e deglutição explicitamente e registre. A decisão sobre via aérea definitiva é tomada antes do transporte, nunca durante.
O dano: A tomografia é cega para isquemia precoce, para lesão de tronco, para crise não convulsiva e, por definição, para toda causa metabólica e tóxica. A oclusão de artéria basilar — que apaga a consciência de forma súbita e tem tratamento dependente de tempo — pode ter tomografia simples pouco alterada. O paciente é transferido para a enfermaria com o rótulo de 'tomografia normal' e perde a janela.
Como pegar a tempo: Trate 'tomografia normal' como informação parcial: ela exclui um grupo de causas, não a gravidade. Coma sem etiologia definida depois da imagem exige eletroencefalograma e investigação vascular de tronco, e essa solicitação é feita na mesma passagem, não na visita seguinte.
O que dizer ao paciente e à família
Falar com a família de quem não acorda tem duas dificuldades sobrepostas. Você precisa comunicar gravidade sem ter diagnóstico — e a tentação é preencher o vazio com uma hipótese que ainda não se sustenta, o que vira quebra de confiança depois. E essa mesma família é a sua principal fonte de informação clínica: você precisa colher história de alguém em pânico. As duas tarefas acontecem na mesma conversa e, quase sempre, em pé, num corredor.
A colheita tem uma ordem que rende em sessenta segundos: o que ele toma, o que mudou nos últimos dias, a que ele tem acesso, e se houve queda ou pancada na cabeça. Nessa ordem, porque é a ordem de rendimento — medicação é a resposta que mais muda conduta, e a caixa que está em casa vale mais que qualquer descrição de memória. Peça explicitamente que alguém vá buscar as caixas, todas, inclusive as vazias.
Primeiro contato, ainda sem diagnóstico, com o paciente instável
“O senhor está muito grave. Ele não está acordando e a gente ainda não sabe por quê. Neste momento a nossa prioridade é garantir que ele respire bem e corrigir as coisas que podem ser corrigidas agora — já medimos o açúcar do sangue e já colhemos exames. Vou saber mais nos próximos trinta a quarenta minutos e volto para conversar com a senhora assim que tiver informação nova, mesmo que seja pouca.”
Não diga: Evite 'ainda é cedo para dizer' como frase isolada — soa como recusa a informar. Evite prometer prazo de diagnóstico ('em uma hora a gente sabe'). E evite minimizar com 'vamos ver', que a família ouve como descaso.
Colhendo a história em 60 segundos com o acompanhante
“Preciso de quatro respostas rápidas, elas podem mudar o tratamento agora. Primeira: que remédios ele toma, todos, inclusive os de dormir, os de pressão e os de diabetes? Segunda: mudou alguma coisa nos últimos dias — remédio novo, dose trocada, ele parou algum, ficou vomitando, ficou sem comer? Terceira: ele tem acesso a bebida, a droga, ou a remédio de outra pessoa em casa? Quarta: ele caiu ou bateu a cabeça, mesmo que faz alguns dias e mesmo que tenha parecido bobagem?”
Não diga: Evite a pergunta genérica 'ele tem algum problema de saúde?', que quase sempre volta como 'não, ele é forte'. Evite julgar ao perguntar sobre álcool e drogas — a informação some. E evite aceitar 'ele toma um remedinho pra dormir': peça o nome e peça a caixa.
Quando a causa é tentativa de autoextermínio por medicamento
“O que aconteceu foi uma intoxicação por medicamento, e a gente está tratando isso agora. Sei que é muito difícil ouvir. Quero que a senhora saiba de duas coisas: a maior parte dessas situações tem boa recuperação clínica, e ninguém aqui vai tratar ele com menos cuidado por causa disso. Assim que ele estiver estável, a equipe de saúde mental vai conversar com ele e com a família — isso faz parte do tratamento, não é um extra.”
Não diga: Evite qualquer formulação que atribua culpa, à família ou ao paciente. Evite 'ele fez isso com ele mesmo'. Evite detalhar a quantidade ou o método para outros parentes na frente do corredor — a privacidade continua valendo.
Explicando por que se começou antibiótico sem confirmação
“A gente começou o antibiótico antes de ter o exame pronto, e quero explicar por quê. Existe uma infecção que pode acometer as membranas que cobrem o cérebro e ela piora em horas. Se a gente esperar o resultado para começar, o remédio chega tarde. Se no fim não for isso, a gente suspende — o risco de ter dado antibiótico à toa é muito menor que o risco de ter esperado.”
Não diga: Evite dizer que 'é só por precaução', porque isso faz o tratamento parecer dispensável e prepara a recusa. Evite prometer que a punção lombar não tem risco. E evite o termo 'meningite' solto, sem explicar, com outras famílias ouvindo no corredor.
Quando o paciente não acordou depois de corrigir tudo o que era corrigível
“Corrigimos o que estava alterado e ele ainda não acordou. Isso significa que tem uma causa que os primeiros exames não mostraram, e por isso pedi dois exames a mais — um do funcionamento elétrico do cérebro e um dos vasos. Não vou fingir que tenho resposta hoje. O que posso garantir é que a gente não parou de investigar, e que eu volto a falar com a senhora assim que qualquer um dos dois voltar.”
Não diga: Evite fazer prognóstico de recuperação neurológica nas primeiras horas — é cedo e o erro é grande nos dois sentidos. Evite 'agora é esperar'. E evite deixar a família descobrir por terceiros que exames novos foram pedidos.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Protocolo do SAMU 192: antídoto disponível, com dose definida e advertência explícita
O protocolo brasileiro de intoxicação por medicamentos depressores do sistema nervoso central prevê flumazenil nos quadros com depressão respiratória, quando uma única classe medicamentosa está envolvida, na dose de 0,1 a 0,2 mg por via intravenosa ou intraóssea em 15 a 30 segundos, repetível até a reversão da depressão respiratória ou até o máximo de 1 mg. O mesmo protocolo instrui a evitar o antídoto em pacientes dependentes de benzodiazepínicos, pelo risco de desencadear síndrome de abstinência com convulsões de difícil controle.
Ministério da Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida, 2ª ed., 2016, protocolo ATox 11
Protocolo de coma do Neurocritical Care Society: o antagonista não figura na abordagem do coma indiferenciado
O protocolo de abordagem ao paciente em coma exclui ou trata sobredose de opioide ou de benzodiazepínico como item de checklist, mas os antídotos que ele nomeia na conduta do coma metabólico são a naloxona para opioide e a N-acetilcisteína para paracetamol. Para o coma por sedativo-hipnótico, o documento descreve o quadro (bradicardia, depressão respiratória) e os exames a considerar, sem prescrever antagonista — a conduta implícita é suporte, incluindo suporte ventilatório.
Halstead MR, Kandiah PA. ENLS — Approach to the Patient With Coma Protocol, v6.0, Neurocritical Care Society, 2024
A pergunta que resolve o caso à sua frente é: eu sei o que ele tomou, e ele é usuário crônico? Ingestão isolada, conhecida e documentada de benzodiazepínico, em quem não usa a droga cronicamente, com depressão respiratória instalada — é a situação em que o antagonista tem chance de evitar uma intubação, com risco baixo de abstinência. Paciente sem história, com coingestão possível (a regra na tentativa de autoextermínio), usuário crônico, ou com qualquer suspeita de tricíclico junto — é a situação em que o antagonista converte um paciente que respira sozinho num paciente em estado de mal. Pese sobretudo a reversibilidade do erro: quem entuba desnecessariamente extuba em algumas horas; quem precipita abstinência convulsiva não desfaz.
Protocolo do SAMU 192: escalonamento em quatro degraus, começando muito baixo
O protocolo brasileiro prescreve naloxona por via intravenosa, intraóssea ou endotraqueal em degraus sucessivos — 0,04 mg na primeira dose, 0,4 mg na segunda, 2 mg na terceira e 10 mg na quarta —, com repetições a cada 2 a 3 minutos e indicação restrita aos quadros com depressão respiratória em que uma única classe está envolvida. A dose inicial muito pequena existe para reverter a depressão respiratória sem reverter a analgesia nem precipitar abstinência.
Ministério da Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida, 2ª ed., 2016, protocolo ATox 11
Protocolo de coma do Neurocritical Care Society: administrar e repetir conforme necessário até 4 mg
Diante de suspeita de toxíndrome opioide — história de uso de droga, coma, apneia ou bradipneia, pupilas pequenas —, o protocolo orienta administrar naloxona por via intravenosa ou intramuscular e repetir conforme a necessidade até o total de 4 mg, admitindo a via intranasal como início quando não houver acesso, com troca para intravenosa ou intramuscular assim que possível.
Halstead MR, Kandiah PA. ENLS — Approach to the Patient With Coma Protocol, v6.0, Neurocritical Care Society, 2024
Decide o que você teme mais neste paciente. Se o risco imediato é a apneia — cianótico, respiração agônica, saturação despencando, sem via aérea garantida —, a prioridade é restaurar ventilação, e escalonar devagar custa minutos que ele não tem. Se ele ventila, ainda que mal, e é usuário crônico conhecido, começar baixo evita transformar um paciente sonolento e estável num paciente agitado, vomitando e em abstinência aguda dentro da sala — o que costuma terminar em contenção e em fuga do serviço sem tratamento. Considere ainda a duração: a naloxona tem meia-vida mais curta que a de vários opioides, sobretudo metadona e formulações de liberação prolongada. Quem reverte assume observação prolongada — reversão não é alta.
Protocolo de coma do Neurocritical Care Society: excluir lesão expansiva na imagem antes de puncionar
O documento orienta cautela para garantir que não haja sinais clínicos ou radiográficos de pressão intracraniana elevada antes da punção lombar, para evitar o risco de herniação, e afirma que lesão ocupante de espaço deve ser afastada com tomografia sem contraste antes do procedimento. No mesmo protocolo, porém, está a instrução de iniciar antimicrobiano e dexametasona ANTES da tomografia quando há suspeita de meningoencefalite, e de especificamente não atrasar a terapia por causa da punção diagnóstica.
Halstead MR, Kandiah PA. ENLS — Approach to the Patient With Coma Protocol, v6.0, Neurocritical Care Society, 2024
Documentos brasileiros de meningite: a punção é o passo diagnóstico, e o antibiótico é o passo que não espera
O Guia de Vigilância em Saúde estabelece que a antibioticoterapia deve ser instituída o mais precocemente possível, de preferência logo após a punção lombar e a coleta de hemocultura, e registra que a adoção imediata do tratamento não impede a coleta de material — recomendando apenas que ela seja feita o mais próximo possível do início do tratamento. O guia municipal de tratamento empírico é ainda mais direto: diante da suspeita clínica, inicia-se o antimicrobiano antes dos resultados de exames e do líquor, porque o retardo eleva sequelas e mortalidade. Nenhum dos dois condiciona a punção a uma tomografia prévia obrigatória.
Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, vol. 1, 6ª ed. rev., 2024 — Doença meningocócica; e SMS de Ribeirão Preto, Guia de Tratamento Empírico Inicial na Meningite Comunitária, 2018
Repare que a divergência não é sobre o antibiótico — nisso os documentos concordam, e a concordância é o que mais importa: trate antes. A divergência é sobre quem precisa de imagem antes da punção. Decida pelo exame que você acabou de fazer: rebaixamento importante, sinal focal, papiledema, crise de início recente, imunossupressão ou doença prévia do sistema nervoso central colocam o paciente no grupo em que a imagem vem antes. Paciente alerta, sem foco, sem crise e imunocompetente não precisa esperar tomografia para ser puncionado — e esperar, onde a tomografia demora, é atrasar diagnóstico sem ganhar segurança. O erro grave, nos dois cenários, é o mesmo: deixar o paciente sem antibiótico enquanto a fila de exames anda.
Escala de Glasgow: linguagem universal, com limitações conhecidas e documentadas
É a escala usada em praticamente toda a literatura de coma — a revisão sistemática de coma não traumático registra que ela foi o critério de inclusão padrão dos estudos, com a maioria adotando pontuação igual ou menor que 10 como definição operacional. Os protocolos brasileiros de emergência e o consenso de ventilação mecânica ancoram decisões nela, incluindo a de via aérea definitiva. Suas limitações são catalogadas: perde-se o componente verbal no intubado e no afásico, a resposta motora comprometida gera escore falsamente baixo, e o coma de olhos abertos gera pontuação falsamente alta.
Horsting MWB et al. BMC Anesthesiol. 2015;15:65; e Machado IAO, Pereira ILC, França JAF. Rebaixamento do nível de consciência. In: Urgências e Emergências Médicas, Sarvier, 2023
Escala FOUR: mede o tronco e a respiração, e continua aplicável no intubado
A escala avalia quatro domínios — resposta ocular, resposta motora, reflexos de tronco encefálico e respiração —, cada um de zero a quatro pontos. A versão brasileira foi validada em 188 pacientes adultos no pronto-socorro de um hospital universitário de Uberaba, com consistência interna alta e concordância entre observadores muito alta. A vantagem declarada é justamente medir parâmetros que a escala clássica não mede e permanecer aplicável no paciente intubado, em quem o componente verbal desaparece.
Bernardinelli FCP et al. Tradução, adaptação e validação da escala Full Outline of UnResponsiveness para o português do Brasil. Texto & Contexto Enfermagem. 2022;31:e20210427
Decida pelo uso que a informação vai ter. Se a pontuação vai ser comunicada por telefone ao regulador, ao neurocirurgião ou ao serviço que vai receber o paciente, a escala clássica é a que todos entendem sem tradução, e trocar de escala na hora de transferir cria ruído em vez de precisão. Se ela vai servir para acompanhar a evolução do seu paciente intubado e sedado nas próximas horas, a clássica perde justamente o componente que mais pesa nela, e a que mede reflexo de tronco e padrão respiratório informa mais sobre a trajetória. Repare no que a validação brasileira mostra: especificidade alta com sensibilidade modesta significa que pontuação ruim é sinal forte, mas pontuação boa não tranquiliza sozinha. A saída prática que dispensa a escolha é registrar os componentes do exame — quem registra componentes reconstrói qualquer das duas escalas depois; quem registra só o número não reconstrói nada.
O raciocínio, em voz alta
Homem de aproximadamente 60 anos, sem documento e sem acompanhante, trazido pelo SAMU após ser encontrado caído na calçada. Respira espontaneamente, não responde ao chamado. Roupa com odor etílico. Pressão 132x80 mmHg, frequência cardíaca 104 bpm, frequência respiratória 20 irpm, saturação 92% em ar ambiente, temperatura axilar 35,4 °C. Ronco de via aérea que muda com a posição da cabeça.
o que penso agora
Antes de qualquer hipótese, tenho um problema de via aérea: o ronco é a língua caindo, e ele está em decúbito dorsal com risco de aspiração. A hipótese mais confortável é álcool, e é exatamente por isso que não confio nela — ela explica tudo e dispensa investigação. A temperatura baixa me interessa: intoxicação aguda tende a cursar com hipotermia, e infecção tenderia ao contrário.
o que faço primeiro
Elevo o mento, aspiro, coloco em decúbito lateral e ofereço oxigênio. Monitorizo, pego dois acessos e mando medir a glicemia capilar antes de qualquer pedido de exame. Colho a bateria completa no mesmo gesto da punção venosa e peço eletrocardiograma de doze derivações.
achado
Glicemia capilar de 38 mg/dL.
como a resposta muda o que penso
A glicemia identifica uma causa tratável, que pode coexistir com trauma, intoxicação, infecção ou evento vascular. Corrijo agora e mantenho o exame e a investigação dirigidos. O contexto de uso de álcool reforça a necessidade de avaliar nutrição e fornecer tiamina; odor etílico sozinho não explica o coma.
conduta
Administro glicose intravenosa imediatamente e tiamina parenteral prontamente, sem que a preparação da vitamina atrase a correção da hipoglicemia. Confiro ventilação e proteção da via aérea continuamente, repito glicemia e exame neurológico e trato recorrência ou causas concomitantes.
achado
Cinco minutos depois, a glicemia está em 142 mg/dL. O paciente abriu os olhos ao chamado, resmunga palavras desconexas e localiza o estímulo doloroso com o braço direito — mas o braço esquerdo apenas flexiona em bloco. Pupilas de 3 mm, iguais, ambas reagindo. No exame do couro cabeludo, ao rolar o paciente, há uma tumefação occipital com escoriação recente.
o que penso agora
A hipoglicemia era real e foi corrigida — a melhora do nível prova isso. Só que sobrou uma assimetria motora, e assimetria não é padrão de causa metabólica. Somando isso ao trauma de couro cabeludo que ninguém tinha visto porque ele estava deitado sobre ele, tenho uma segunda causa, estrutural, sobreposta à primeira. É a regra do capítulo: coexistência é comum, e o etilista é o paciente que mais reúne causas ao mesmo tempo.
o que peço
Tomografia de crânio sem contraste, agora — mas não antes de decidir a via aérea. Ele abriu os olhos, tem tosse e engole, então não intubo por causa do escore: mantenho decúbito lateral, aspirador montado e alguém treinado acompanhando o transporte. Peço também o coagulograma, que já estava colhido, porque isso muda o manejo se houver sangramento.
achado
Tomografia com hematoma subdural agudo à direita, de espessura moderada, com apagamento de sulcos e desvio de linha média de 4 mm. Plaquetas de 88.000/mm³ e INR de 1,6.
raciocínio final
Dois diagnósticos num paciente só, e nenhum dos dois teria sido feito se eu tivesse parado no primeiro. A hipoglicemia era a causa do coma profundo e reverteu; o hematoma é a causa da assimetria e do risco das próximas horas. Aciono a neurocirurgia, corrijo a coagulopatia conforme o protocolo do serviço, mantenho cabeceira elevada, garanto vaga em leito monitorizado e reavalio nível, pupilas e simetria motora a cada 15 minutos. E deixo escrito no prontuário o exame neurológico completo de agora, porque se ele for sedado e intubado nas próximas horas, este será o último exame confiável que alguém terá dele.
Faça você
Mulher de 24 anos, trazida pela irmã por 'não estar acordando direito'. Estava bem na véspera. Sem doença conhecida, sem uso de medicação contínuo, sem febre. Abre os olhos à dor, emite sons incompreensíveis, retira o membro à dor de forma inespecífica e simétrica. Pupilas de 2 mm, iguais, ambas reagindo. Sem rigidez de nuca, sem petéquias. Pressão 100x62 mmHg, frequência cardíaca 58 bpm, frequência respiratória 9 irpm, saturação 91% em ar ambiente, temperatura axilar 35,8 °C. Glicemia capilar 96 mg/dL.
achado
Rebaixamento sem sinal focal, com pupilas simétricas e reativas, sem febre e sem rigidez de nuca. A glicemia já foi medida e está normal, o que retira a hipótese mais rápida da lista sem esclarecer nada.
o que chama atenção nos sinais vitais
Três parâmetros apontam na mesma direção: frequência respiratória baixa, frequência cardíaca baixa e temperatura abaixo do normal. Somados às pupilas de 2 mm, formam um padrão reconhecível — e é um padrão que tem antídoto.
história que falta
A irmã, questionada em sessenta segundos, conta que a paciente terminou um relacionamento na semana passada, que a mãe delas usa medicação para dormir e para dor, e que a caixa que ficava na cabeceira da mãe está vazia.
conduta
— sua vez —
Ver como fecharíamos
Trata-se de toxíndrome opioide — miose, bradipneia, bradicardia, hipotermia, hipotensão e coma —, num perfil epidemiológico que é o mais frequente da intoxicação exógena no Brasil: mulher adulta jovem, medicamento de casa, circunstância intencional. A conduta é: (1) via aérea e ventilação primeiro — posicionar, aspirar, ofertar oxigênio sob máscara não reinalante, com saturação abaixo de 94%, e ventilar com bolsa-válvula-máscara já diante de ventilação inadequada, sem esperar queda adicional da frequência; (2) naloxona escalonada por via intravenosa, com dose inicial e escalonamento ajustados à gravidade, repetindo em intervalos curtos conforme resposta e protocolo até reverter a depressão respiratória, com a meta sendo restaurar a ventilação e não acordar completamente a paciente; (3) manter monitorização prolongada mesmo após a reversão, porque a meia-vida da naloxona é mais curta que a de vários opioides e o rebaixamento pode retornar — reversão não é critério de alta; (4) coingestão é a regra na tentativa de autoextermínio, então colher paracetamol e salicilato séricos, fazer eletrocardiograma procurando alargamento de QRS (tricíclico) e prolongamento de QT, e colher a bateria metabólica completa; (5) não usar flumazenil às cegas, mesmo que a caixa vazia da mãe possa ter contido benzodiazepínico — sem certeza do agente único e com coingestão possível, o antagonista pode precipitar convulsão de difícil controle; (6) acionar o centro de assistência toxicológica de referência se houver dúvida sobre o agente; e (7) garantir avaliação de saúde mental antes da alta, com a família orientada sobre guarda de medicamentos em casa.
Glicemia de 32 mg/dL com coma exige glicose imediata. Tiamina deve ser administrada prontamente pelo risco de deficiência, sem aguardar dosagem e sem depender da tríade completa de Wernicke. A vitamina pode preceder a glicose se já estiver disponível, mas não existe justificativa para atrasar a correção. O erro da alternativa que manda esperar dosagem de tiamina é adiar reposição indicada; dar somente uma das duas também deixa um problema sem tratamento. A dose preventiva de tiamina não substitui o esquema terapêutico se houver suspeita de Wernicke.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Refaça o atendimento do paciente com glicemia de 32 mg/dL: diga o que a equipe faz em paralelo e por que a tiamina não pode atrasar glicose. Depois avalie a ventilação de uma suspeita de intoxicação sem miose.
Em 30 dias
Conduza um coma com TC inicial normal. Priorize EEG e investigação da circulação posterior quando indicados, explique a manobra para reconhecer encarceramento e indique o que muda se surgir anisocoria.
Agora atenda
Chega ao pronto-socorro um homem de 58 anos trazido por vizinhos, encontrado caído no quintal de casa, sem testemunhas do ocorrido e sem acompanhante que saiba informar. Não responde ao chamado, respira espontaneamente e apresenta ronco à respiração. Você tem monitor, acesso, glicosímetro e uma equipe esperando a sua primeira ordem. Conduza os primeiros sessenta minutos: decida a sequência, justifique cada exame no momento em que o pede e diga, ao final, se o que você fez funcionou.
