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Dor abdominal no pronto-socorro
Sete de cada dez pacientes com dor abdominal saem do pronto-socorro no mesmo plantão. A decisão que mais machuca neste capítulo não é a de operar — é a de liberar, e ela é tomada por você, de pé, com o corredor cheio.
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Responda antes de ler
Mulher de 63 anos, obesa, com dor em fossa ilíaca esquerda há 3 dias, febre de 38,2 °C e leucocitose de 15.400. Abdome doloroso em fossa ilíaca esquerda, com defesa localizada. Está estável hemodinamicamente. Qual exame de imagem responde melhor à pergunta clínica, e por quê?
O paciente que você vai ver
Vinte e uma e quarenta de uma quinta-feira. O painel de senhas mostra trinta e oito pessoas esperando por dois médicos. Das seis macas da sala de observação, cinco estão ocupadas desde a manhã, e a coordenação já passou duas vezes pedindo para girar leito porque a ambulância da regulação está a caminho com um paciente para vaga zero.
O senhor Antônio Ferreira, 68 anos, chegou andando às sete da noite com a filha. A queixa registrada na triagem é curta: dor de barriga há dois dias. Pressão de 148 por 86, frequência cardíaca de 96, temperatura de 36,2 °C, saturação de 96%, dor que ele descreve como 6 numa escala de 0 a 10. Classificação de risco: verde. Ele está sentado na cadeira do corredor, tomou um antiespasmódico em casa e diz que melhorou um pouco.
Na maca ao lado, uma mulher de 24 anos com dor em cólica no flanco direito grita a cada onda, já vomitou duas vezes e tem a família em volta pedindo alguma coisa para a dor. Ela ocupa toda a atenção do corredor. Ele não ocupa nenhuma.
Você examina o senhor Antônio: abdome flácido, doloroso à palpação profunda de forma difusa, sem defesa, sem descompressão dolorosa, ruídos hidroaéreos presentes. É um exame normal demais para um homem que, quando você insiste na pergunta, descreve a dor das primeiras horas como a pior que já sentiu na vida. A filha acrescenta uma coisa que não estava na triagem: ele parou de comer ontem, porque diz que dói depois que come.
A conduta que se oferece sozinha é dipirona, um soro, reavaliar e liberar. Ela é a conduta certa para a maioria absoluta das pessoas que entram nesse pronto-socorro com essa mesma frase na triagem. Este capítulo é inteiro sobre reconhecer a minoria em que ela é a decisão que mata — e sobre fazer isso sem tomografar as trinta e oito pessoas do painel.
Quem adoece disso
A dor abdominal responde por 7% a 10% de todos os atendimentos de emergência — número da literatura internacional compilada pela diretriz de apendicite da WSES. É, em qualquer plantão, a queixa que mais se repete depois do trauma. A consequência prática vem antes de qualquer discussão diagnóstica: é a queixa em que você vai treinar a sua régua de alta dezenas de vezes por mês, e uma régua treinada no volume é uma régua que se descalibra sozinha para o lado de liberar.
O dado brasileiro que mais diz sobre o risco dessa régua é o registro do DATASUS de janeiro de 2018, levantado pelo trabalho publicado na Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões: 3.419 internações codificadas como R10, dor abdominal e pélvica, somando 18.553 dias de internação e 329 óbitos, uma letalidade de 9,62% naquela amostra. R10 é código de sintoma, não de doença: internar sob ele significa que o diagnóstico não fechou. Quase um em cada dez desses pacientes morreu. Dor sem diagnóstico não é sinônimo de dor benigna, e essa é a frase que sustenta o capítulo inteiro.
A mesma publicação acompanhou 330 prontuários de pronto-socorro em Criciúma, Santa Catarina, com idade média de 39,5 anos: 71,2% receberam alta após a avaliação e 28,8% tiveram internação, cirurgia ou óbito. Sete em cada dez vão para casa — a alta é, de longe, a decisão que você mais vai tomar nessa queixa, e é a única das três decisões deste capítulo que ninguém revisa, porque o paciente que vai embora some do seu campo de visão. Some a isso que cerca de 40% das pessoas que procuram atendimento por dor abdominal permanecem sem diagnóstico definido, número da literatura internacional citado pelo mesmo trabalho brasileiro: dor abdominal inespecífica é desfecho legítimo, e quem não aceita isso acaba tomografando todo mundo para escrever um nome no papel.
Quem adoece de coisa grave também tem endereço. Na série do Hospital do Trabalhador, em Curitiba, entre os abdomes agudos não traumáticos a apendicite e a colecistite somaram mais da metade dos casos e a obstrução intestinal ficou perto de 11%; a mortalidade foi de 2,06% em 2019 e de 4,02% em 2020, e a idade de 60 anos ou mais multiplicou por quase 14 a chance de óbito intra-hospitalar no período de pandemia. A idade quase não muda quais doenças aparecem. Muda a chance de morrer delas. E acima dos 75 anos a isquemia mesentérica passa a ser causa mais prevalente de abdome agudo do que a apendicite, segundo a diretriz da WSES — um dado que reorganiza a lista de hipóteses do idoso antes mesmo do exame físico.
Por que acontece o que acontece
Existem três dores abdominais diferentes, com fibras diferentes, mapas diferentes e significados diferentes. Saber qual delas o paciente está descrevendo separa mais casos do que qualquer exame de sangue, e é de graça.
A dor visceral vem das vísceras ocas e maciças por fibras C amielínicas, que sobem junto com o simpático e entram na medula por vários segmentos e pelos dois lados. Um cabo desses não consegue dizer o próprio nome: a dor sai mal localizada, na linha média, e é sentida no território embriológico do órgão, não no lugar onde ele está. Intestino anterior — estômago, duodeno, fígado, vias biliares, pâncreas — dói no epigástrio. Intestino médio — delgado, apêndice, ceco, cólon até a metade do transverso — dói em volta do umbigo. Intestino posterior — cólon esquerdo, reto, bexiga, útero — dói no hipogástrio. O estímulo que aciona essa via é distensão, estiramento, isquemia e inflamação; corte e queimadura não doem. E como a via é a mesma dos reflexos autonômicos, ela vem acompanhada de náusea, sudorese e palidez — o paciente branco e suando não está necessariamente chocado, pode estar apenas com uma víscera distendida.
A dor parietal é outra coisa. O peritônio parietal é inervado por fibras A-delta de nervos somáticos segmentares, e o resultado é o oposto: dor bem localizada, que o paciente aponta com a ponta de um dedo, que piora com a tosse e com o solavanco da maca, e que faz o paciente ficar imóvel de propósito. Ela aparece quando o processo alcança a parede. Reconhecê-la é reconhecer que a doença mudou de estágio.
É por isso que a dor migra, e a migração é a linha do tempo da doença dentro do paciente. Na apendicite, a obstrução da luz distende o apêndice e produz dor visceral em volta do umbigo; seis a doze horas depois a serosa inflamada encosta no peritônio parietal da fossa ilíaca direita e a dor muda de lugar e de caráter ao mesmo tempo. A mesma mecânica explica a colecistite que começa no epigástrio e se fixa no hipocôndrio direito, e a diverticulite que começa difusa e se fixa na fossa ilíaca esquerda. Quando o paciente conta essa mudança espontaneamente, ele está lhe entregando o estágio da doença sem que você peça nada.
Dor referida pode surgir porque aferências viscerais e somáticas convergem em circuitos comuns. Irritação diafragmática pode causar dor no ombro pela participação do nervo frênico, de C3 a C5. Isquemia miocárdica pode se apresentar com desconforto epigástrico, náusea ou sudorese, inclusive sem dor torácica. Isso não se explica dizendo que T1–T5 é o dermátomo do epigástrio: vias viscerais e respostas autonômicas tornam a localização menos simples. Pneumonia basal e pleurite diafragmática também podem causar dor abdominal alta. O objetivo clínico é reconhecer esses padrões e pedir o exame pertinente, sem usar o quadrante para excluir uma origem extra-abdominal.
O idoso dói pouco por três motivos que se somam, e nenhum deles é que a doença seja mais branda. A resposta inflamatória é atenuada, então febre e leucocitose faltam com mais frequência. A parede abdominal tem menos massa muscular, então a defesa involuntária é menos perceptível à palpação — o abdome em tábua clássico exige músculo para ficar em tábua. E a farmácia de casa apaga sinal: corticoide bloqueia a inflamação, anti-inflamatório mascara a dor e a febre, opioide crônico eleva o limiar, betabloqueador segura a taquicardia que seria o seu primeiro aviso. O imunossuprimido é a mesma história em escala mais dura: sem neutrófilo não se monta peritonite exuberante, e o abdome pode permanecer flácido com a víscera já perfurada.
Falta o mecanismo que explica o pior cenário do capítulo. Na isquemia mesentérica a lesão começa na mucosa e caminha para a serosa, e a diretriz da WSES é explícita ao dizer que é justamente por isso que há dor intensa sem achado no começo — o peritônio parietal ainda não foi alcançado. Quando o abdome finalmente fica rígido, a alça já está infartada. Essa é a única situação da medicina de emergência em que um exame físico normal é o achado mais preocupante do caso, e é a razão de a recomendação 1 daquela diretriz dizer, com grau 1C, que dor abdominal intensa desproporcional ao exame físico deve ser tratada como isquemia mesentérica até que se prove o contrário.

Como se apresenta de verdade
O quadrante entra na conversa depois. O que organiza a lista de hipóteses antes dele são duas informações que estão na história e não custam nada: como a dor instalou e há quanto tempo ela dura. O protocolo AC30 do SAMU descreve três padrões de instalação, e eles têm donos diferentes.
Depois vem uma segunda camada, que é o motivo de este capítulo existir separado: há grupos de pacientes em que o quadro clínico mente por construção. Não é que eles tenham doenças diferentes — é que a mesma doença produz neles menos sinal do que produziria em você. Reconhecer que o paciente à sua frente pertence a um desses grupos muda o limiar de investigar antes de mudar qualquer hipótese.
Percurso de aprendizagem
Use início, migração, fatores de risco e repercussão para ordenar as hipóteses. Dor desproporcional ao exame, choque, peritonismo e possibilidade de gestação mudam a urgência.
Escolha a imagem pela pergunta: apêndice não visualizado não equivale a apêndice normal, e lactato normal não exclui isquemia mesentérica precoce.
Trate a dor e compare exames seriados. Para decidir alta, integre a evolução com risco residual e retorno viável; não espere o analgésico perder o efeito para considerar o exame válido.
Instalação: o dado da história que mais separa
Instalação explosiva, em segundos, com o paciente capaz de dizer o minuto exato: é linguagem de ruptura ou de oclusão vascular. Úlcera perfurada, aneurisma de aorta abdominal roto, embolia mesentérica, gravidez ectópica rota, torção de ovário. Nesse grupo, o tempo até a decisão vale mais que o refinamento da hipótese.
Instalação rápida e progressiva, em uma a duas horas, chegando a um platô intenso: é linguagem de obstrução de víscera oca com distensão. Cólica biliar, cólica renal, obstrução intestinal, pancreatite. A dor sobe rápido, mas o paciente consegue contar uma escalada.
Instalação gradual, ao longo de várias horas ou dias, com piora lenta: é linguagem de inflamação que caminha da mucosa para a serosa. Apendicite, colecistite, diverticulite, doença inflamatória pélvica. É o grupo que mais depende da reavaliação, porque o momento em que você examina é um ponto de uma curva, e um ponto não tem direção.
Somando ao tempo total: instalação súbita com menos de seis horas de evolução e exame pobre é a combinação mais perigosa do pronto-socorro, porque o exame ainda não teve tempo de ficar positivo.
O quadrante ajuda, e depois atrapalha
A localização estreita a lista, e a tabela de diferencial por quadrante no bloco seguinte serve para isso. Mas ela tem dois furos que valem mais que a própria tabela. O primeiro é que a dor visceral, no começo, não está no quadrante do órgão — está no território embriológico dele, e é por isso que apendicite e colecistite passam horas na região errada do mapa. O segundo é que quatro diagnósticos ignoram quadrante por completo: obstrução intestinal, isquemia mesentérica, peritonite estabelecida e as causas que não vêm do abdome. A leitura prática: use o quadrante para escolher a primeira imagem, nunca para decidir se o paciente está grave — isso se decide por sinais vitais, por instalação e pelo exame seriado.
O idoso: o grupo em que a régua toda muda
O idoso com dor abdominal é outro paciente. Chega mais tarde, dói menos do que a doença justifica, faz febre com menos frequência, e tem proporção maior de doenças com relógio curto — isquemia mesentérica, obstrução por brida ou por tumor, colecistite alitiásica, úlcera perfurada em uso de anti-inflamatório.
Três dados de história valem, nele, mais do que o exame físico. Fibrilação atrial ou infarto recente, porque a fonte embólica está dada e cerca de metade das isquemias mesentéricas embólicas ocorre em portadores de fibrilação atrial. Dor pós-prandial habitual com perda de peso e medo de comer, porque é a angina mesentérica que precede a trombose. E cirurgia abdominal prévia, porque brida é a causa mais comum de obstrução do adulto operado.
A regra operacional é fácil de dizer e difícil de cumprir num plantão cheio: no idoso, o limiar para pedir imagem e para observar é mais baixo, e a alta exige exame seriado documentado, não um exame só. Um abdome flácido aos 80 anos não tem o mesmo poder de tranquilizar que teria aos 20.
O imunossuprimido, o transplantado e quem usa corticoide
Corticoide sistêmico, quimioterapia recente, imunobiológico, transplante, HIV com contagem baixa de CD4, neutropenia: em todos, a resposta que produz os sinais clássicos está bloqueada. O paciente pode ter víscera perfurada com abdome flácido, sem febre e com leucograma que não sobe — ou que despenca, o que é pior sinal ainda.
Três inversões valem a pena decorar. Ausência de defesa não afasta peritonite. Taquicardia persistente sem causa aparente pesa mais que a palpação. E a imagem entra cedo, porque o exame físico foi retirado de campo pela própria doença de base: quem usa corticoide crônico e tem dor abdominal nova merece tomografia com limiar baixo, não observação prolongada às cegas.
A gestante
A gestação desloca as vísceras e muda a semiologia: o apêndice sobe com o crescimento uterino, a leucocitose fisiológica torna o hemograma quase inútil como discriminador, e o útero gravídico afasta o omento, o que empobrece o bloqueio de processos inflamatórios. Náusea e vômito, que em outro paciente seriam sinal, aqui são ruído.
Duas prioridades organizam a avaliação. Antes das 12 semanas, ou com atraso menstrual e teste positivo sem gestação tópica documentada, a pergunta é gravidez ectópica — o quadro da tuba rota, no protocolo da FEBRASGO, é dor lancinante que se generaliza pelo hemoperitônio, com palidez sem sangramento visível, taquicardia e hipotensão, e dor no ombro em alguns casos; nessa situação o diagnóstico é clínico e não se espera exame. Depois disso, a pergunta é apendicite, que continua sendo a causa cirúrgica não obstétrica mais comum na gestação e cujo atraso custa mais ao feto do que a cirurgia.
A imagem da gestante começa e frequentemente termina no ultrassom. A diretriz da WSES aceita, na gestante com quadro duvidoso de apendicite, um período curto de observação hospitalar com ultrassonografia transabdominal repetida. Radiação não é motivo para deixar de investigar uma gestante que precisa de tomografia, mas é motivo para tentar o ultrassom primeiro e para envolver a obstetrícia na decisão.
O obeso, o diabético e quem bebe
No obeso, a palpação perde resolução por razão física: a parede interpõe tecido entre a sua mão e o peritônio, e sinais localizados ficam apagados. A imagem sobe de prioridade, e o ultrassom perde janela — nesse paciente, a tomografia costuma ser o exame que efetivamente responde.
No diabético de longa data, a neuropatia autonômica reduz a percepção de dor visceral, e há duas armadilhas simétricas. A cetoacidose produz dor intensa com vômitos e defesa que imita abdome agudo cirúrgico e desaparece com o tratamento metabólico — glicemia capilar e cetose entram cedo. E o inverso: a infecção abdominal descompensa o diabetes, e tratar só a cetoacidose de quem tem colecistite é perder as duas.
No etilista, a pancreatite é a hipótese óbvia e a hepatopatia é a que se esquece. Cirrótico com ascite e dor abdominal difusa, mesmo discreta, mesmo sem febre, tem peritonite bacteriana espontânea até que a paracentese diagnóstica diga o contrário — e a paracentese é procedimento de pronto-socorro, não de enfermaria.
Quando a dor não vem do abdome
Há um grupo de diagnósticos que passa despercebido por dias porque a queixa registrada na triagem fecha o campo de busca no abdome, e todos eles cabem numa pergunta de história e num exame que você já sabe fazer. A tabela de causas extra-abdominais do bloco seguinte lista os sete que mais aparecem, com o que denuncia cada um e o exame que resolve.
Dois merecem uma frase a mais porque o erro neles é caro nos dois sentidos. O primeiro é o infarto de parede inferior, que é a razão de o eletrocardiograma ser obrigatório em dor de andar superior do abdome acima dos 50 anos, no diabético e em quem tem fator de risco cardiovascular — e a dissecção que se estende para o segmento abdominal está no mesmo bloco de decisões, tratado no capítulo de dor torácica desta apostila. O segundo é a crise vaso-oclusiva da doença falciforme: tratar como crise o que é colecistite ou sequestro esplênico custa tanto quanto tratar como abdome agudo o que é crise, e o que quase sempre desempata é o padrão das crises anteriores do próprio paciente.
Como fechar o diagnóstico
O interno erra pouco por não conhecer a doença e muito por pedir o exame errado na hora errada. Na dor abdominal esse erro tem duas formas simétricas: pedir tomografia para quem precisava de uma reavaliação em duas horas, e pedir uma reavaliação em duas horas para quem precisava de tomografia agora. Nenhum exame de sangue distingue esses dois pacientes. O que distingue é o que você já fez antes de pedir qualquer coisa.
A ordem que segue não é uma lista de exames obrigatórios. É uma ordem de perguntas, e cada exame só entra quando existe uma pergunta que ele responde e que muda o que você vai fazer nas próximas horas.
Antes do primeiro tubo: o que a história e o exame ainda decidem
Três perguntas de história mudam conduta mais do que qualquer painel laboratorial. Como começou — explosiva, progressiva ou gradual. Já operou o abdome — porque brida é a primeira causa de obstrução no adulto operado. E o que mudou desde que começou — dor que migrou, que mudou de caráter, que passou a doer ao movimento, ou parada de eliminação de gases e fezes.
No exame, duas regiões somem quando o plantão está cheio e fecham diagnóstico sozinhas: as hérnias, palpadas nas regiões inguinais e na cicatriz umbilical, e o toque retal quando há suspeita de sangramento digestivo ou de fecaloma. E a irritação peritoneal se pesquisa melhor pedindo para o paciente tossir do que com a descompressão brusca, que dói muito e informa pouco.
Se ao fim desses cinco minutos há abdome em tábua, instabilidade hemodinâmica ou dor desproporcional a um exame pobre, a investigação laboratorial deixa de ser o próximo passo. O próximo passo é a sala, e os exames são colhidos lá dentro enquanto a cirurgia é chamada.
Sangue: o que pedir, e o que um leucograma normal não exclui
O painel básico de quem vai ficar para investigar está na prescrição do bloco da conduta, e cada exame acrescentado a ele deve corresponder a uma pergunta escrita. O ponto que mais custa caro é este: leucograma normal não exclui doença cirúrgica. A diretriz de apendicite da WSES é explícita ao dizer que marcadores bioquímicos não sustentam sozinhos nem a confirmação nem a exclusão, e que devem ser usados junto com escores clínicos, nunca no lugar deles. Perfuração de víscera nas primeiras horas, isquemia mesentérica precoce, obstrução sem sofrimento de alça e praticamente qualquer quadro em idoso, imunossuprimido ou usuário de corticoide podem cursar com contagem normal. Um leucograma de 8.900 num paciente com dor migratória e defesa localizada não é um argumento para a alta — é um número que não respondeu a pergunta.
A leitura oposta também vale: leucocitose isolada em paciente com exame abdominal normal não é indicação de tomografia. O trabalho brasileiro de Criciúma encontrou associação independente com desfecho adverso para um conjunto de variáveis — sexo masculino, idade de 50 anos ou mais, temperatura acima de 37,3 °C, anemia, leucocitose, neutrofilia, linfopenia e hiperamilasemia —, o que diz exatamente isso: nenhuma decide sozinha, e o valor está na soma com o quadro.
A proteína C reativa tem um uso que compensa o pedido: ela é lenta. Valor alto em paciente com poucas horas de dor sugere que o processo é mais antigo do que ele contou; valor normal em dor de três dias com exame convincente pesa contra causa inflamatória, sem excluí-la.
Beta-hCG em toda mulher em idade fértil: a regra sem exceção
Inclua teste de gravidez quando houver possibilidade de gestação e dor abdominal ou pélvica; contracepção eficaz reduz a probabilidade, mas não a elimina. O DIU reduz o risco absoluto de gravidez, inclusive ectópica. Entretanto, se ocorrer uma gestação com DIU, é preciso localizar a gestação porque a proporção de ectópicas entre essas falhas é maior. Pergunte com privacidade e respeito, explique o teste e não use a ausência de atraso ou sangramento como único filtro.
A gravidez ectópica ocorre em 1% a 2% das gestações e é a principal causa de mortalidade materna no primeiro trimestre, segundo o protocolo da FEBRASGO, que registra que, na gestação tubária íntegra, a história costuma ser pouco esclarecedora e o exame clínico frequentemente não elucida — o quadro que você deveria pegar é justamente o que não se anuncia.
Com beta-hCG positivo, a sequência é ultrassonografia transvaginal lida junto com o valor quantitativo. O protocolo usa 3.500 mUI/mL como zona discriminatória: com valor igual ou acima e cavidade uterina vazia, o diagnóstico é gravidez ectópica; abaixo dela e sem massa anexial, repete-se em 48 horas, e a subida esperada numa gestação tópica viável é de cerca de 49% quando o valor inicial está abaixo de 1.500 mUI/mL. Massa anexial extraovariana com anel tubário, hematossalpinge ou embrião fecha o diagnóstico independentemente do valor.
E o cenário que dispensa tudo isso: atraso menstrual, dor de instalação súbita, palidez sem sangramento visível, taquicardia e hipotensão. No protocolo da FEBRASGO, o diagnóstico da tuba rota é clínico — aí o beta-hCG é colhido a caminho da sala, não antes dela.
Urina: o exame que mais fecha caso errado
O exame de urina é barato, rápido e responsável por uma quantidade desproporcional de altas equivocadas. O motivo é anatômico: o ureter direito passa ao lado do apêndice, o apêndice pélvico encosta na bexiga, e um processo inflamatório vizinho produz leucocitúria e hematúria sem que exista infecção urinária nenhuma. Sedimento alterado em dor de fossa ilíaca direita não é diagnóstico de cistite — é achado compatível com apendicite, e deve ser escrito assim.
A regra prática: infecção urinária como diagnóstico final de dor abdominal exige que o quadro seja de infecção urinária, com disúria, urgência e dor suprapúbica ou lombar, e que o abdome não tenha sinal localizado. O exame resolve bem duas perguntas: cálculo ureteral, com hematúria num quadro de dor lombar em cólica irradiada para a região inguinal — o padrão descrito no protocolo AC34 do SAMU —, e pielonefrite, em que febre, punho-percussão positiva e sedimento infeccioso mudam a conduta para antibiótico e internação.
Lactato: o que ele responde e o que ele não responde
O lactato responde uma pergunta só: existe hipoperfusão tecidual agora. Serve para reconhecer quem já está mal e para acompanhar resposta, e por isso entra na avaliação de quem tem sinais vitais alterados, na cadência que o capítulo dos primeiros cinco minutos desta apostila detalha.
O que ele não faz é excluir isquemia mesentérica. A diretriz da WSES é direta: diferenciar isquemia precoce de lesão intestinal irreversível pelo nível de lactato isoladamente não é confiável, e a elevação acima de 2 mmol/L já se associa a isquemia irreversível — quando ele sobe, frequentemente é tarde. A mesma diretriz registra que acidose láctica com dor abdominal justifica angiotomografia precoce mesmo em paciente que parece bem, e que o D-dímero, com ponto de corte de 0,9 mg/L, teve especificidade, sensibilidade e acurácia de 82%, 60% e 79% — números que não sustentam decisão isolada.
Eletrocardiograma: quem leva, e por quê
Eletrocardiograma em até dez minutos para dor de andar superior do abdome em três grupos: acima de 50 anos, diabético de qualquer idade, e portador de doença coronariana conhecida ou de dois ou mais fatores de risco. A justificativa está no mecanismo — os aferentes da parede inferior do coração entram na medula no mesmo território que projeta para o epigástrio. O custo de fazer é um traçado; o de não fazer é tratar um infarto inferior com dipirona e antiemético por seis horas. A leitura do traçado está no capítulo de dor torácica desta apostila; aqui a regra é só quem recebe o exame.
Imagem: quando ultrassom, quando tomografia, quando nenhuma
A primeira decisão de imagem não é qual exame — é se o paciente pode sair da sua vista. Paciente instável não vai para o tomógrafo. Ele vai para a sala de emergência, e o que se faz ali é ultrassom à beira do leito, que responde três perguntas em minutos: há líquido livre, há aorta abdominal dilatada, há distensão de alças ou de via biliar. Levar um hipotenso ao corredor da tomografia é a decisão que transforma um caso grave em um caso perdido.
Com o paciente estável, o ultrassom é o primeiro exame nas perguntas que ele responde bem: vesícula e vias biliares, rim e via urinária, útero e anexos, gestante, criança e adulto jovem magro com suspeita de apendicite, e a triagem de aneurisma de aorta abdominal. A diretriz da WSES o recomenda como primeira ferramenta diagnóstica quando há indicação de imagem, com grau 1B, e ele tem uma vantagem específica para quem vai ser reavaliado: pode ser repetido quantas vezes o quadro exigir.
O limite dele precisa ser dito com todas as letras, porque é onde o interno se engana com mais frequência: apêndice não visualizado não é apêndice normal. A política do ACEP classifica o apêndice não visualizado ou parcialmente visualizado como exame equívoco, e registra que, no adulto, um ultrassom inequivocamente positivo tem acurácia comparável à da tomografia — o poder do exame está no positivo. Diante de exame equívoco com suspeita mantida, as saídas são tomografia, avaliação cirúrgica ou observação com reexame.
A tomografia de abdome e pelve com contraste endovenoso é o exame de maior rendimento na dor abdominal indiferenciada do adulto. As indicações que mais claramente a justificam: suspeita de obstrução, de perfuração, de isquemia mesentérica — aí, angiotomografia —, de diverticulite complicada ou de abscesso; dor acima de 50 anos sem hipótese definida após a avaliação inicial; e paciente imunossuprimido. A política do ACEP recomenda contraste endovenoso quando viável e registra que contraste oral ou retal não melhora a acurácia — o que elimina as duas horas de preparo que o corredor não tem.
Na suspeita de isquemia mesentérica a regra é mais dura que em qualquer outro cenário deste capítulo: angiotomografia sem demora, com grau 1A, porque cada seis horas de atraso no diagnóstico dobra a mortalidade. A mesma diretriz registra que a radiografia simples não é recomendada para avaliar isquemia intestinal, com grau 1B, e que um exame normal não a exclui. Vale generalizar: a radiografia de abdome agudo tem hoje uso estreito — pneumoperitônio em cúpula quando não há tomógrafo, e níveis hidroaéreos em obstrução de quadro típico. Fora disso, consome tempo e devolve pouco.
E existe o paciente que não precisa de imagem nenhuma. Adulto jovem, sinais vitais normais, dor de poucas horas sem sinal localizado nem sinal de alarme, que aceita líquidos e tem retorno garantido: a conduta é analgesia, reavaliação e orientação de retorno. Tomografá-lo adiciona radiação, gera achados incidentais que puxam uma segunda investigação e, principalmente, produz a falsa sensação de alta validada por exame — quando o que valida a alta é o exame seriado que deixou de ser feito porque o tomógrafo respondeu no lugar dele.
No paciente com dor abdominal recorrente e tomografia negativa recente, a diretriz GRACE-2 é honesta sobre o tamanho da evidência: não há como identificar com precisão quem pode dispensar a repetição quando existe uma tomografia negativa nos últimos 12 meses, e a orientação é decidir com o paciente. A mesma diretriz sugere não pedir ultrassom após tomografia com contraste negativa, exceto quando a preocupação for pélvica ou biliar.
O que o SUS entrega, e o que fazer quando não entrega
Hemograma, bioquímica, exame de urina, beta-hCG, eletrocardiograma e radiografia estão disponíveis em praticamente qualquer unidade de pronto atendimento da rede. Ultrassonografia, em boa parte delas no horário comercial e em bem menos à noite e no fim de semana. Tomografia costuma existir no hospital de referência da região, e não na unidade onde o paciente entrou.
Quando o exame que responderia a pergunta não está no seu serviço, existem três saídas legítimas e uma ilegítima. As legítimas: transferir para onde o exame existe, quando a suspeita é de doença com relógio curto; internar para observação com reexame documentado, quando a suspeita é de doença que se declara em horas; e liberar com retorno marcado e orientação escrita, quando o paciente é de baixo risco e a reavaliação está garantida. A ilegítima é liberar porque não havia como investigar, escrevendo no prontuário um diagnóstico que o serviço não tinha meios de confirmar.
E quem transfere por suspeita de isquemia mesentérica, de aneurisma roto ou de perfuração não espera exame de sangue: a regulação é acionada em paralelo à coleta, e o paciente sai com acesso, analgesia e volume.
As três portas
Você deve identificar dor abdominal com risco imediato, escolher investigação dirigida e reavaliar sem adiar o alívio da dor.
- 1Sinais vitais completos, com temperatura e frequência respiratória, e a sequência de avaliação do capítulo dos primeiros cinco minutos desta apostila. Alteração significativa manda o paciente para a sala antes de qualquer hipótese diagnóstica.
- 2Três perguntas de história: como instalou, já operou o abdome, o que mudou desde que começou. Nas mulheres em idade fértil, beta-hCG entra aqui, junto com a coleta inicial.
- 3Exame abdominal completo com o paciente despido, incluindo regiões inguinais, cicatriz umbilical e toque retal quando indicado.
- 4Se há abdome em tábua, instabilidade hemodinâmica, dor desproporcional a exame pobre, distensão com parada de eliminação, ou sangramento digestivo com repercussão: porta 1. Sala, monitor, dois acessos, cirurgia chamada, exames colhidos lá dentro.
- 5Se não há critério de sala mas há qualquer sinal de alarme da tabela abaixo, ou o paciente pertence a um dos grupos que enganam: porta 2. Maca, analgesia, exames dirigidos, imagem conforme o quadrante, e um horário anotado para o reexame.
- 6Se não há sinal de alarme, o exame é normal, o paciente aceita líquidos e a dor cede com analgesia simples: porta 3, e ela só abre com os cinco critérios de alta segura cumpridos, todos, não a maioria.
- 7Reexaminar antes da alta e comparar com o início e a resposta terapêutica. Não esperar a analgesia cessar: o exame continua útil sob analgesia. Definir destino pela trajetória e risco residual.
Dor leve — 1 a 4
Analgésico simples, com anti-inflamatório associado nesta faixa. Dor que cede por completo e não volta em duas horas pesa a favor da alta, se os outros critérios estiverem cumpridos.
Dor moderada — 5 a 7
Analgésico simples associado a opioide fraco. É a faixa em que a maioria chega. A resposta à primeira dose é informação: quem melhora e sustenta a melhora se comporta diferente de quem volta a doer em uma hora.
Dor intensa — 8 a 10
Opioide forte, titulado. Nesta faixa a analgesia deixa de ser conforto e vira parte da avaliação: dor que não cede a dose adequada de opioide é sinal de alarme por si só, e reabre a hipótese de isquemia, perfuração ou distensão de víscera sob pressão.
Sinais de alarme — o que tira o paciente da fila
| Sinal de alarme | O que ele sugere | O que fazer com ele |
|---|---|---|
| Instabilidade hemodinâmica | Hemorragia, sepse abdominal, isquemia avançada | Porta 1: sala, dois acessos, volume, cirurgia chamada. Sem tomógrafo até estabilizar |
| Abdome em tábua ou dor à tosse | Peritonite estabelecida | Porta 1: avaliação cirúrgica imediata, antibiótico e jejum |
| Dor intensa com exame pobre | Isquemia mesentérica precoce, torção, cólica de víscera sob pressão | Angiotomografia sem demora se há fator de risco vascular ou fibrilação atrial |
| Instalação explosiva, em segundos | Ruptura ou oclusão vascular aguda | Porta 1 ou 2 conforme sinais vitais, com imagem no menor prazo possível |
| Distensão com parada de gases e fezes | Obstrução intestinal | Porta 2 com sonda nasogástrica, tomografia e avaliação cirúrgica |
| Vômito bilioso ou fecaloide | Obstrução alta e obstrução distal, respectivamente | Sonda nasogástrica, jejum, imagem e avaliação cirúrgica |
| Sangramento digestivo com repercussão | Hemorragia alta ou baixa ativa | Porta 1, acesso calibroso, tipagem e reserva, endoscopia conforme o caso |
| Dor que não cede a opioide adequado | Isquemia, perfuração, distensão sob pressão | Reabrir a hipótese, não repetir a dose às cegas |
| Febre com calafrio e icterícia | Colangite | Antibiótico precoce e drenagem biliar; internação |
Diferencial por quadrante — e qual imagem responde primeiro
| Região | Hipóteses que decidem conduta | Primeira imagem |
|---|---|---|
| Hipocôndrio direito | Colecistite, colangite, coledocolitíase, hepatite, abscesso hepático, pneumonia de base direita | Ultrassom de abdome superior |
| Epigástrio | Úlcera péptica e perfuração, pancreatite, infarto de parede inferior, dissecção de aorta | Eletrocardiograma primeiro; depois tomografia se houver suspeita de perfuração |
| Hipocôndrio esquerdo | Pancreatite de cauda, infarto ou ruptura esplênica, pneumonia de base esquerda | Tomografia; ultrassom se a suspeita for esplênica com instabilidade |
| Flanco e região lombar | Cólica renal, pielonefrite, aneurisma de aorta abdominal | Ultrassom; tomografia sem contraste para cálculo, angiotomografia se suspeita de aneurisma |
| Periumbilical | Apendicite inicial, obstrução, isquemia mesentérica, aneurisma | Tomografia; angiotomografia se houver fator de risco vascular |
| Fossa ilíaca direita | Apendicite, ileíte, ectópica, torção ovariana, doença inflamatória pélvica | Ultrassom em jovens e gestantes; tomografia se equívoco ou paciente acima de 50 anos |
| Hipogástrio | Retenção urinária, doença inflamatória pélvica, ectópica, diverticulite pélvica | Ultrassom pélvico e transvaginal |
| Fossa ilíaca esquerda | Diverticulite, obstrução por neoplasia, torção ou cisto ovariano | Tomografia com contraste endovenoso |
| Dor difusa sem ponto | Isquemia mesentérica, obstrução, peritonite, causas metabólicas | Tomografia; angiotomografia se houver suspeita vascular |
Populações que enganam — o que muda em cada uma
| Grupo | Por que o quadro mente | O que muda na sua conduta |
|---|---|---|
| Idoso | Resposta inflamatória atenuada, menos massa muscular na parede, medicação que apaga sinal, doenças de relógio mais curto | Limiar mais baixo de imagem; alta proibida sem exame seriado documentado |
| Imunossuprimido e usuário de corticoide | Sem resposta inflamatória não há defesa nem febre; leucograma pode não subir ou até cair | Imagem precoce; abdome flácido não afasta perfuração |
| Gestante | Apêndice deslocado, leucocitose fisiológica, omento afastado, náusea que é ruído | Beta-hCG e ultrassom antes de tudo; obstetrícia envolvida; atraso custa mais que a cirurgia |
| Obeso | A parede interpõe tecido e apaga sinais localizados; ultrassom perde janela | Tomografia responde onde o ultrassom não responde |
| Diabético de longa data | Neuropatia autonômica reduz a dor visceral; cetoacidose imita abdome cirúrgico | Glicemia e cetose cedo; tratar o metabólico não encerra a busca pelo foco |
| Etilista e cirrótico | Ascite dilui o sinal peritoneal; dor discreta com peritonite espontânea instalada | Paracentese diagnóstica no pronto-socorro, não na enfermaria |
| Usuário crônico de opioide | Limiar de dor elevado e constipação de base que confunde com obstrução | Valorize sinal vital e imagem; a intensidade relatada perde valor comparativo |
Causas fora do abdome que doem no abdome
| Causa | O que na apresentação denuncia | O exame que resolve |
|---|---|---|
| Infarto de parede inferior | Dor epigástrica com náusea, sudorese e mal-estar desproporcional; idade acima de 50, diabetes, fatores de risco | Eletrocardiograma em até 10 minutos |
| Dissecção de aorta estendida | Dor que migra para o dorso, assimetria de pulso ou de pressão | Angiotomografia; ver o capítulo de dor torácica |
| Pneumonia de base | Frequência respiratória alta, saturação baixa, tosse; defesa em hipocôndrio | Ausculta e radiografia de tórax |
| Cetoacidose diabética | Vômitos, respiração de Kussmaul, desidratação, hálito cetônico | Glicemia capilar, cetonemia ou cetonúria e gasometria |
| Crise vaso-oclusiva falciforme | Dor intensa e recorrente com exame pobre, em paciente com histórico conhecido | Comparar com o padrão das crises anteriores; investigar foco se for diferente |
| Herpes-zóster | Dor em queimação em faixa, num dermátomo, sem cruzar a linha média | Inspeção da pele do dorso com o paciente sentado |
| Insuficiência adrenal e hipercalcemia | Dor difusa com vômitos, hipotensão ou confusão sem foco abdominal | Sódio, potássio, cálcio e glicemia |
Antes da alta: verificar evolução, estabilidade e continuidade do cuidado
| Critério | Como se verifica | Por que ele está na lista |
|---|---|---|
| Reexame documentado sem piora | Avaliações seriadas e reexame antes da alta, com intervalo definido pelo risco e pela evolução; duas horas não são requisito universal. | É o único item que capta doença em evolução; imagem normal não o substitui |
| Sinais vitais normais na saída | Aferição completa no momento da alta, não a da triagem | Taquicardia persistente sem causa é o sinal que mais volta de madrugada |
| Dor controlada e em queda | Escala numérica menor que na chegada e sem necessidade de nova dose na última hora | Dor que exige redose antes da alta é dor que vai voltar em casa |
| Aceita líquidos e não vomita | Teste com líquidos claros observado, não relatado | Filtra obstrução, gastroparesia e o paciente que não vai conseguir hidratar em casa |
| Retorno garantido e compreendido | Paciente repete com as próprias palavras quando deve voltar e com o que | Orientação dada sem verificação não é orientação |
A lista de alta organiza dimensões que precisam ser avaliadas; não é uma regra de predição validada nem uma garantia de risco zero. Individualize o tempo de observação e a necessidade de exames. Suspeita persistente de doença relevante impede que a lista seja usada para abreviar a investigação.
Escore clínico não substitui julgamento nem dispensa imagem no adulto. A diretriz da WSES reconhece bom desempenho aos escores AIR e AAS para identificar risco baixo de apendicite, com grau 1A, e ao mesmo tempo diz que nenhum deles confirma o diagnóstico sozinho; a política do ACEP vai além e recomenda, no adulto, não usar regra de predição clínica para decidir quem dispensa imagem, por dados insuficientes. Use os escores para organizar o raciocínio e para conversar com a cirurgia, não para justificar uma alta.
Um paciente pode mudar de porta a qualquer momento, e quase sempre muda para pior. A porta 3 decidida às 22h não continua aberta às 2h: enquanto ele estiver no serviço, vale o último exame, não o primeiro.
As faixas que o protocolo AC30 do SAMU marca como potencial de gravidade na dor abdominal não traumática são pulso acima de 100, diastólica abaixo de 60 ou acima de 120, sistólica abaixo de 90 ou acima de 220, hipertermia e mau estado geral. São valores grosseiros de propósito, feitos para a rua; no pronto-socorro, use a régua do capítulo dos primeiros cinco minutos, mais sensível para a deterioração lenta.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo abaixo é do paciente que chega andando, com sinais vitais aceitáveis e dor abdominal sem diagnóstico. O paciente que chega instável não tem linha do tempo: ele tem a sequência do capítulo dos primeiros cinco minutos desta apostila, e este capítulo só volta a valer depois que ela terminou.
Todas as doses de analgésico e antiemético citadas são as do protocolo AC37 do SAMU 192, com o acréscimo do esquema de cólica nefrética do AC34; as doses de antimicrobiano são os esquemas empíricos das diretrizes da WSES para infecção intra-abdominal. Ajuste função renal e hepática antes de prescrever, e confira alergia em todas as etapas.
Minuto 0 a 5 — antes de qualquer hipótese
Sinais vitais completos, com temperatura e frequência respiratória medida com relógio na mão. Se algum parâmetro estiver fora das faixas de gravidade, o paciente sai do corredor e vai para a sala — a decisão de porta vem antes da decisão de exame.
Prescrição- Acesso venoso periférico calibroso, dois se houver qualquer suspeita de sangramento ou de sepse
- Glicemia capilar imediata se vômitos, desidratação ou alteração de consciência
- Eletrocardiograma em até 10 minutos se dor em andar superior, idade acima de 50 anos, diabetes ou fatores de risco cardiovascular
Minuto 5 a 15 — quem vai para a sala agora
Quatro achados fecham a decisão sem esperar exame: instabilidade hemodinâmica, peritonismo importante ou generalizado, dor intensa desproporcional a exame pobre em paciente com risco vascular, e sangramento digestivo com repercussão. A cirurgia é chamada agora e os exames são colhidos dentro da sala. O instável exige ressuscitação e decisão conjunta sobre intervenção ou imagem urgente, com transporte monitorizado quando indispensável; não deve ser enviado a uma investigação que atrase o controle da causa; se houver ultrassom à beira do leito, ele responde líquido livre, aorta e distensão de alças em minutos.
Prescrição- Soro fisiológico 0,9% 500 mL intravenoso em bolus, reavaliando perfusão, ausculta e jugular a cada 500 mL
- Oxigênio suplementar para manter saturação de 94% ou mais, se abaixo disso
- Coleta na sala: hemograma, ureia, creatinina, sódio, potássio, gasometria com lactato, tipagem sanguínea e prova cruzada, amilase e lipase, beta-hCG em mulher em idade fértil
Desde a avaliação inicial — analgesia e investigação em paralelo
Analgesia adequada faz parte do atendimento e não precisa aguardar o diagnóstico ou o cirurgião. A evidência disponível não mostra aumento de erro diagnóstico com opioides usados adequadamente na dor abdominal aguda. Escolha a via e titule a dose considerando intensidade, idade, fragilidade, pressão e função orgânica. Reexamine a localização, defesa, evolução e sinais vitais: aliviar a dor ajuda o paciente e não dispensa investigar a causa.
Prescrição- Dipirona sódica 1 g intravenosa lenta — qualquer faixa de dor (AC37)
- Paracetamol 500 mg via oral — alternativa na dor leve, se o paciente aceita via oral (AC37)
- Dor leve, 1 a 4: acrescentar anti-inflamatório se não houver contraindicação — cetoprofeno 100 mg intravenoso, ou tenoxicam 20 a 40 mg intravenoso, ou cetorolaco 30 mg intravenoso (AC37)
- Dor moderada, 5 a 7: tramadol 100 mg intravenoso lento, diluído (AC37)
- Dor intensa: morfina IV em pequenas alíquotas, por exemplo 1–2 mg, com reavaliação em 5–10 minutos e ajuste por idade, fragilidade e função renal. Fentanil IV em alíquotas tituladas é alternativa monitorizada; evitar apresentar 100–200 mcg como dose inicial obrigatória para qualquer adulto. Acompanhar ventilação, consciência e pressão.
- Cólica renal confirmada: dipirona 1 g intravenosa associada a anti-inflamatório — cetoprofeno 100 mg, cetorolaco 30 mg, parecoxibe 40 mg ou tenoxicam 40 mg intravenoso (AC34)
- Náusea e vômito: ondansetrona 4 mg intravenosa infundida em 2 a 5 minutos, diluída; ou dimenidrinato 30 mg intravenoso lento e diluído (AC34 e AC37)
- Opioide sempre em infusão lenta: o AC37 registra que a infusão rápida pode provocar rigidez torácica e laringoespasmo
Minuto 15 a 60 — o que se pede, e em que ordem
Beta-hCG em toda mulher em idade fértil entra no primeiro tubo, sem depender de história. A imagem só é pedida depois de você ter escrito a hipótese que ela vai testar: pedido sem hipótese devolve um laudo que não pesa nem a favor nem contra nada.
Prescrição- Hemograma, proteína C reativa, ureia, creatinina, sódio, potássio, glicemia — em todos os que vão ficar
- Amilase e lipase se dor em andar superior ou em faixa; transaminases, bilirrubinas e fosfatase alcalina se dor em hipocôndrio direito ou icterícia
- Exame de urina — lendo o resultado como achado compatível, não como diagnóstico, quando há dor localizada em fossa ilíaca
- Beta-hCG quantitativo em toda mulher entre a menarca e a menopausa
- Gasometria com lactato se sinais vitais alterados ou suspeita de hipoperfusão
- Imagem: ultrassom para vesícula, vias biliares, rim, pelve, gestante e jovem magro; tomografia com contraste endovenoso para obstrução, perfuração, diverticulite, imunossuprimido e adulto acima de 50 anos sem hipótese; angiotomografia se suspeita de isquemia mesentérica ou de aneurisma
Hora 1 a 2 — jejum, sonda e antibiótico, cada um com seu critério
Jejum não é rotina de dor abdominal: é para quem tem chance real de ir ao centro cirúrgico nas próximas horas, para quem vomita e para quem tem suspeita de obstrução. Manter em jejum por seis horas um paciente que vai receber alta atrasa a própria decisão, porque a aceitação de líquidos é critério de alta segura. A sonda nasogástrica entra na obstrução com distensão e vômitos, para descompressão, não como teste diagnóstico. E o antibiótico tem indicação estreita antes do diagnóstico: peritonite, sepse de foco abdominal presumido, colangite e diverticulite complicada. Fora disso, apaga sinal, atrasa cultura e não trata nada.
Prescrição- Jejum se suspeita cirúrgica, vômitos ou obstrução; liberação de líquidos claros no restante, como parte da avaliação
- Sonda nasogástrica em obstrução com distensão e vômitos, aberta em sifonagem
- Infecção intra-abdominal comunitária, paciente não crítico: ceftriaxona 2 g intravenosa a cada 24 horas associada a metronidazol 500 mg intravenoso a cada 6 horas; ou amoxicilina-clavulanato 1,2 a 2,2 g intravenoso a cada 8 horas (WSES)
- Alergia a betalactâmico: ciprofloxacino 400 mg intravenoso a cada 12 horas associado a metronidazol 500 mg intravenoso a cada 6 horas (WSES)
- Paciente crítico ou com sepse: piperacilina-tazobactam 4,5 g intravenoso a cada 6 horas; com risco de germe produtor de betalactamase de espectro estendido, meropeném 1 g intravenoso a cada 8 horas (WSES)
- Em sepse ou choque séptico, o antimicrobiano corre o mais cedo possível, depois de colher hemoculturas, sem esperar a imagem
Hora 2 a 6 — o exame seriado, que é o exame mais valioso do capítulo
Reexamine comparando a evolução e mantenha analgesia. Exame estável, dor em melhora, sinais vitais adequados e tolerância oral favorecem alta quando as hipóteses graves foram investigadas proporcionalmente ao risco. Nem um exame seriado normal nem uma tomografia normal eliminam toda possibilidade de doença. A decisão integra a pergunta clínica, o desempenho do exame e a capacidade de retorno.
Prescrição- Reexame abdominal completo com pelo menos 2 horas de intervalo, registrado no prontuário com horário
- Sinais vitais repetidos na mesma cadência do reexame
- Teste de aceitação de líquidos claros, observado por alguém da equipe
- Hemograma e lactato repetidos apenas se o primeiro estava alterado ou se o quadro mudou
Hora 4 a 6 — a decisão que não pode ser adiada
Ao fim da janela, saia com uma das três portas escrita no prontuário e com o motivo dela. Internar para observação é decisão legítima e muitas vezes a mais honesta: a diretriz da WSES registra que atraso hospitalar de até 24 horas é seguro na apendicite não complicada e que além disso o risco de desfecho adverso aumenta — existe janela para observar, e ela tem fim. Liberar é legítimo quando os cinco critérios estão cumpridos. Ilegítimo é deixar o paciente na maca sem decisão, esperando que o próximo plantonista resolva.
Prescrição- Porta 1 — centro cirúrgico ou sala: cirurgia acionada, jejum, volume, antibiótico se indicado, reserva de sangue quando houver chance de transfusão
- Porta 2 — internação ou observação prolongada: prescrição de analgesia com horário fixo e resgate, reavaliação de 4 em 4 horas anotada, e a hipótese escrita para quem assumir
- Porta 3 — alta: receita de analgésico por 3 dias, orientação escrita com os sinais de retorno, retorno agendado em 12 a 24 horas para reavaliação, e o registro dos dois exames abdominais no prontuário
Como saber se está funcionando
Este é o bloco que separa o interno que sabe prescrever do interno que sabe conduzir. Na dor abdominal indiferenciada, reexaminar o paciente em duas a quatro horas muda a decisão com mais frequência do que qualquer exame de imagem, e é o único recurso que está disponível em todo serviço, a qualquer hora, sem fila e sem custo.
A lógica é simples: a maior parte das doenças cirúrgicas do abdome se declara pela progressão, e a progressão só é visível com dois pontos. Um exame isolado descreve um instante de uma curva e não diz para onde ela aponta. Por isso a regra operacional deste capítulo é que nenhuma alta por dor abdominal sai com um exame só.
Esperado: Mesma localização ou melhora; dor que continua difusa, sem ponto, e que cede com analgesia simples
Se não melhora: Dor que migrou de difusa para localizada, ou que mudou de cólica para contínua, mudou de estágio. Migração periumbilical para fossa ilíaca direita é apendicite até prova em contrário e muda a porta, mesmo com leucograma normal. Dor que passou a doer ao movimento e à tosse alcançou o peritônio parietal: chame a cirurgia antes da imagem.
Esperado: Ausente e permanecendo ausente, com o paciente tolerando a palpação profunda como tolerava antes
Se não melhora: Defesa nova, dor à tosse nova ou rigidez é indicação de avaliação cirúrgica imediata e de antibiótico, sem esperar a próxima janela de reavaliação. No idoso e no imunossuprimido, a ausência de defesa não tem esse poder de tranquilizar — aqui o parâmetro que manda é a taquicardia e o estado geral.
Esperado: Normalização após analgesia e hidratação, com frequência cardíaca abaixo de 100 e estável em duas medidas
Se não melhora: Taquicardia que persiste depois de dor controlada e volume reposto não é ansiedade: é sangramento, sepse ou terceiro espaço. Reveja o exame, colha lactato e hemograma, e não assine alta. Este é o parâmetro que mais frequentemente estava anormal no prontuário do paciente que voltou pior.
Esperado: Afebril, ou febre que cede com antitérmico e não retorna
Se não melhora: Febre nova em paciente que chegou afebril desloca a hipótese para causa inflamatória ou infecciosa e indica imagem. Febre com calafrio e icterícia é colangite: antibiótico precoce e definição de drenagem biliar, não observação.
Esperado: Vômitos cessam após antiemético e o paciente elimina gases
Se não melhora: Vômito que se repete apesar do antiemético, sobretudo bilioso ou fecaloide, com parada de eliminação, é obstrução até prova em contrário: sonda nasogástrica, jejum, imagem e cirurgia avisada. Repetir a dose do antiemético em vez de reabrir a hipótese é o erro típico dessa hora.
Esperado: Queda de pelo menos 2 pontos na escala numérica e paciente capaz de mudar de posição sem se contorcer
Se não melhora: Dor que não cede a dose adequada de opioide é sinal de alarme e não pedido de mais analgesia. Reabra isquemia mesentérica, perfuração e distensão de víscera sob pressão, e peça a imagem que a hipótese exige. Antes de subir o degrau, confira se a dose prescrita foi realmente administrada e no horário — falha de administração é causa banal e frequente de dor que não cede.
Esperado: Aceita líquidos claros sem vomitar e sem piora da dor
Se não melhora: Quem vomita o que bebe não vai conseguir se hidratar nem tomar o analgésico em casa, e a alta vira retorno em poucas horas. Vômito ao ingerir líquido em paciente com dor abdominal reabre obstrução e gastroparesia. Mantenha em observação e reveja a hipótese.
Esperado: Subida compatível com gestação tópica viável — cerca de 49% em 48 horas quando o valor inicial está abaixo de 1.500 mUI/mL, conforme o protocolo da FEBRASGO
Se não melhora: Curva que sobe menos que o esperado, que fica em platô ou que cai indica gestação inviável, tópica ou ectópica, e exige nova ultrassonografia e avaliação da ginecologia. Essa paciente sai do pronto-socorro com data, hora e serviço do retorno escritos — não com a orientação de repetir quando puder.
Onde o erro machuca
O dano: A doença cirúrgica do abdome se declara pela progressão. Quem foi examinado às 20h com abdome flácido e liberado às 22h sem novo exame leva para casa uma apendicite que já mudou de estágio dentro do próprio pronto-socorro. A perfuração acontece em casa, e a próxima entrada é pela porta da sepse.
Como pegar a tempo: Reavaliar evolução, sinais vitais, exame abdominal e risco antes da alta. Intervalo e duração da observação dependem do caso; não exigir duas horas universais nem internar apenas porque esse tempo não passou.
O dano: A gravidez ectópica é a principal causa de mortalidade materna no primeiro trimestre, e a tuba íntegra tem história pouco esclarecedora e exame que frequentemente não elucida. A paciente liberada com diagnóstico de cólica volta em choque hemorrágico, e o intervalo entre uma coisa e outra pode ser de horas.
Como pegar a tempo: Investigue gravidez em pacientes com possibilidade biológica de gestação e dor abdominal ou pélvica, mesmo com contracepção e sem atraso menstrual claro. Converse com privacidade e explique a finalidade do teste; a história orienta a avaliação, sem presumir desonestidade. No caso apresentado, o DIU não dispensa beta-hCG.
O dano: Leucograma normal convive com apendicite, com perfuração nas primeiras horas, com isquemia mesentérica precoce e com praticamente qualquer quadro em idoso ou imunossuprimido. Quando ele vira o argumento da alta, o médico troca um exame físico que estava dizendo alguma coisa por um número que não respondeu nada.
Como pegar a tempo: Escreva a conduta antes de olhar o hemograma. Se, com exame e história na mão, você ia observar, um leucograma normal não muda isso — só um reexame melhor muda. Use os marcadores junto do quadro, como a própria diretriz da WSES orienta, nunca no lugar dele.
O dano: Três danos somados: o paciente fica horas fora do seu campo de visão justamente na janela em que a doença se declararia; achados incidentais puxam uma investigação que ninguém pediu; e o laudo normal produz uma sensação de alta validada que o exame seriado teria contradito — tomografia normal em dor de três horas não exclui apendicite que ainda não inflamou.
Como pegar a tempo: Escreva a hipótese antes de pedir a imagem e diga a si mesmo o que muda se o exame vier normal. Se nada muda, o exame não era necessário. E mantenha o reexame na conta mesmo depois de um laudo normal.
O dano: O paciente passa horas com dor intensa, fica pouco colaborativo no exame — o que piora justamente a avaliação que se queria preservar —, e a conduta se apoia numa crença derrubada por ensaios randomizados. O dano é imediato e evitável, e o benefício alegado não existe.
Como pegar a tempo: Trate a dor desde o início, escolhendo medicamento, via e dose pela intensidade, idade, função renal/hepática e condição hemodinâmica. Opioide pode ser indicado e deve ser titulado em pequenas doses com monitorização. Reexamine sem exigir que o efeito analgésico desapareça; melhora da dor, sozinha, não exclui doença grave.
O dano: Aplicar no idoso a mesma régua do adulto jovem é liberar isquemia mesentérica, colecistite alitiásica e obstrução por neoplasia com um abdome descrito como flácido e um leucograma de 9.000 — e a série brasileira mostra o preço, com a idade de 60 anos ou mais multiplicando a chance de óbito intra-hospitalar.
Como pegar a tempo: Adote uma régua diferente por escrito: acima de 65 anos, limiar mais baixo para imagem, observação com reexame documentado e alta que exige os cinco critérios sem exceção. Pergunte ativamente sobre fibrilação atrial, cirurgia abdominal prévia e dor pós-prandial com perda de peso.
O dano: O apêndice pélvico e o ureter direito irritam a bexiga e o trato urinário e produzem leucocitúria e hematúria sem infecção. O paciente sai com antibiótico para cistite e volta com apêndice perfurado 48 horas depois, e no retorno o diagnóstico anterior escrito no papel atrasa a revisão da hipótese.
Como pegar a tempo: Exija que o quadro seja de infecção urinária, e não apenas o sedimento: sintomas urinários, ausência de sinal abdominal localizado, e nada de dor migratória. Sedimento alterado em dor de fossa ilíaca direita é achado compatível com apendicite, e deve ser escrito assim no prontuário.
O dano: Alívio transitório da dor pode criar falsa segurança se substituir a avaliação etiológica e o exame seriado. O problema é decidir a alta apenas pela melhora, não examinar um paciente que recebeu analgesia. Persistência de sinais de alarme exige investigação mesmo quando ele está confortável.
Como pegar a tempo: Antes da alta, integre trajetória da dor, exame seriado, sinais vitais, tolerância oral quando relevante, exames indicados e possibilidade de retorno. Registre horários para comparar a evolução. Não é necessário deixar a dor retornar nem obedecer a um intervalo universal de duas horas; reavalie mais cedo se o quadro mudar.
O dano: Orientação verbal em corredor, com o paciente ainda sob efeito de analgésico e o acompanhante com pressa, não sobrevive à noite. Quem precisaria voltar em 12 horas volta em 3 dias, e a doença que teria uma cirurgia simples chega com abscesso.
Como pegar a tempo: Entregue por escrito os sinais que trazem de volta, marque retorno em 12 a 24 horas com data e local, e peça ao paciente que repita com as próprias palavras o que fará se a dor mudar de lugar ou aumentar. A verificação leva um minuto e é a única parte da orientação que se pode auditar.
O que dizer ao paciente e à família
A conversa mais importante deste capítulo não é a do diagnóstico grave. É a da alta sem diagnóstico fechado: acontece dezenas de vezes por plantão, sempre com pressa, e é ela que determina se o paciente vai voltar a tempo.
O erro de linguagem que mais custa é transformar dor abdominal inespecífica em nada. Quem ouve que não tem nada entende que voltar é incomodar — e é o retorno que faz a alta ser segura. Diga que a avaliação de hoje afastou o que era urgente, que a causa ainda não está definida, e que ela pode depender de como a dor se comportar nas próximas horas.
Alta sem diagnóstico fechado — a conversa central do capítulo
“Examinei o senhor duas vezes, com duas horas de diferença, e os exames que pedi não mostraram nada urgente. Isso quer dizer que hoje eu descartei as causas que exigiriam cirurgia ou internação agora. O que eu ainda não tenho é o nome da causa da dor, e isso acontece com muita gente: em boa parte dos casos a dor melhora sozinha em um ou dois dias. Por isso o senhor vai para casa, mas com data para voltar: amanhã, neste mesmo serviço, para eu examinar de novo. E tem quatro coisas que fazem o senhor voltar antes, a qualquer hora: se a dor mudar de lugar, principalmente se ela se juntar num ponto só; se ela ficar mais forte do que está agora; se aparecer febre; ou se o senhor vomitar e não conseguir beber água. Pode me repetir quais são, para eu ter certeza de que ficou claro?”
Não diga: O senhor não tem nada. Foi só gases. Os exames deram tudo normal, pode ficar tranquilo. Se piorar, procure um médico.
Ao paciente que vai ficar para investigar
“A senhora vai ficar aqui pelas próximas horas, e eu quero explicar por quê, porque não é castigo nem é fila. Doença de barriga muda ao longo do tempo, e o exame de agora é uma foto. Eu preciso de duas fotos para saber para onde isso está indo. Vou passar de novo aqui em duas horas, vou apertar a barriga nos mesmos lugares e comparar. Enquanto isso a senhora vai receber remédio para dor — e é importante que me diga se ele fez efeito, porque isso também me ajuda a entender o que está acontecendo.”
Não diga: Vou deixar em observação até liberar uma vaga. Estamos esperando o exame. Aguarde que o médico passa depois.
Ao acompanhante do idoso que parece bem
“Eu sei que o seu pai não parece estar tão mal quanto outras pessoas que o senhor viu aqui hoje. É exatamente por isso que eu vou investigar mais nele, e não menos. Acima dos 65 anos a barriga dói menos do que a doença justifica, a febre muitas vezes não aparece, e o exame de sangue pode vir normal com um quadro sério em curso. Então eu vou pedir uma tomografia e vou reexaminá-lo antes de qualquer decisão. Se em algum momento ele ficar mais sonolento, mais confuso ou parar de responder como responde normalmente, me chame na hora — mudança no jeito dele vale tanto quanto piora da dor.”
Não diga: Ele está bem, é só uma dorzinha da idade. Se fosse grave ele estaria se contorcendo.
Pedindo beta-hCG sem constranger e sem abrir mão da regra
“Junto com os exames de sangue eu vou pedir um teste de gravidez. É rotina para toda mulher na sua faixa de idade que chega com dor na barriga, independentemente do que você me contar — não é porque eu ache alguma coisa. Existe um tipo de gravidez que se implanta fora do útero e que dá exatamente essa dor, e ela é perigosa e tratável. O resultado é seu; se você preferir conversar sobre ele sem a sua mãe na sala, é só me dizer e eu chamo você separado.”
Não diga: Você não pode estar grávida, né? Tem certeza? Então nem precisa fazer.
Ao paciente que quer ir embora antes da hora
“A melhora da dor é importante, mas ainda preciso concluir a avaliação e comparar seu exame com o início. O remédio não impede essa avaliação nem precisamos deixar a dor voltar. Vou explicar o que ainda falta e os sinais que exigem retorno se houver alta.”
Não diga: Se sair agora eu não me responsabilizo. Assine aqui então. O senhor está indo contra a orientação médica.
Ao paciente que volta pela terceira vez com a mesma dor
“Vi no seu prontuário que esta é a terceira vez este ano, com uma dor parecida, e que a tomografia de quatro meses atrás estava normal. Isso muda o que eu faço hoje: em vez de repetir o mesmo caminho, eu vou examinar a senhora, checar se tem algum sinal diferente das outras vezes e conversar sobre o que faz mais sentido daqui para a frente. Repetir tomografia sem sinal novo tem pouca chance de encontrar algo e acumula radiação. Dor que volta assim precisa de investigação com tempo e com um médico que a acompanhe, e não de um exame novo por consulta. Vou encaminhá-la para isso, e continuo tratando a dor de hoje.”
Não diga: De novo? Não tem nada, já fizemos tomografia. É emocional. Isso aqui é pronto-socorro, não é consultório.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Imagem seccional cedo, com contraste endovenoso, em quem tem risco
A tomografia é o exame que mais muda conduta no adulto com dor abdominal sem hipótese definida, e nas suspeitas de obstrução, perfuração, isquemia e diverticulite complicada ela é o exame que responde. A política do ACEP recomenda contraste endovenoso quando viável e registra que contraste oral ou retal não melhora a acurácia, o que remove o principal argumento logístico contra pedi-la cedo.
American College of Emergency Physicians, Clinical Policy on suspected appendicitis, Ann Emerg Med, 2023, questão crítica 3, nível B
Ultrassom primeiro, tomografia de baixa dose depois, e só quando o ultrassom não responde
A diretriz da WSES recomenda o ultrassom à beira do leito como primeira ferramenta de imagem quando há indicação, com grau 1B, e a combinação de parâmetros clínicos com ultrassom para reduzir a necessidade de tomografia, com grau 1B. Quando a tomografia é necessária em adolescente ou adulto jovem com ultrassom negativo, a recomendação é a de baixa dose com contraste, com grau 1A.
World Society of Emergency Surgery, Jerusalem guidelines 2020 update, World J Emerg Surg, recomendações 1.7, 1.10 e 1.11
Contenção na dor recorrente de baixo risco, com decisão compartilhada
Na dor abdominal recorrente de baixo risco com tomografia negativa nos últimos 12 meses, a evidência não permite identificar com precisão quem pode dispensar a repetição, e a orientação é decidir junto com o paciente. A mesma diretriz sugere não acrescentar ultrassom após tomografia com contraste negativa, exceto se a preocupação for pélvica ou biliar.
GRACE-2, Broder et al., Acad Emerg Med, 2022
Três coisas decidem para o paciente à sua frente. A reversibilidade do erro: em suspeita de isquemia mesentérica, de perfuração ou de aneurisma, não pedir é irreversível em horas e pedir custa radiação — a assimetria resolve sozinha. A qualidade do exame físico disponível: em obeso, idoso, imunossuprimido e usuário crônico de opioide o exame perde resolução, e a imagem sobe de prioridade porque o substituto dela piorou. E a disponibilidade real de reavaliação: onde você pode reexaminar em duas horas e trazer de volta amanhã, a observação seriada substitui a tomografia com segurança no paciente de baixo risco; onde ele mora a três horas e não vai voltar, a mesma decisão passa a ser outra.
Analgesia plena e precoce, incluindo opioide, sem esperar diagnóstico
A revisão sistemática com oito ensaios randomizados conclui que o uso de opioide na dor abdominal aguda não aumenta o risco de erro diagnóstico nem de erro na decisão terapêutica, com ganho na intensidade da dor e no conforto do paciente. A prática histórica de adiar analgesia até o diagnóstico não se sustenta nesses dados.
Manterola et al., Analgesia in patients with acute abdominal pain, Cochrane Database Syst Rev, 2011, CD005660
Analgesia criteriosa e escalonada, com cautela em cenários específicos
O protocolo brasileiro escalona por intensidade — analgésico simples em qualquer faixa, opioide fraco na dor moderada, opioide forte na intensa — e pede critério adicional no choque, na hipotensão com sistólica abaixo de 90 mmHg, na bradicardia, na intoxicação e na gestação, além de infusão lenta pelo risco de rigidez torácica e laringoespasmo.
Ministério da Saúde, Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, 2016, protocolos AC30 e AC37
Estratégia poupadora de opioide na dor recorrente de baixo risco
Para o subgrupo específico de adultos com dor abdominal recorrente de baixo risco, a recomendação é uma estratégia de controle da dor que minimize o opioide, considerando o padrão de repetição das visitas e o risco de exposição acumulada.
GRACE-2, Broder et al., Acad Emerg Med, 2022
As três discordam menos do que parece: a Cochrane responde se o opioide atrapalha o diagnóstico, e ele não atrapalha; o protocolo brasileiro responde como administrá-lo com segurança hemodinâmica; e a GRACE-2 responde o que fazer com quem retorna muitas vezes. Decida por intensidade e cenário: dor intensa em quadro agudo recebe opioide titulado agora, com atenção redobrada à pressão e ao ritmo se houver hipotensão; dor moderada começa por analgésico simples com opioide fraco; e quem está na quinta visita do ano pelo mesmo padrão merece conversa sobre acompanhamento e uma estratégia que não o exponha repetidamente ao opioide. O que nenhuma das três posições sustenta é deixar a dor sem tratamento para preservar o exame.
Janela hospitalar curta e definida, com limite em 24 horas
Na apendicite não complicada, um atraso hospitalar de até 24 horas para a apendicectomia é seguro e não aumenta complicação nem perfuração, com grau 1B, e há recomendação explícita contra estender esse atraso além de 24 horas a partir da admissão, também com grau 1B. Existe, portanto, uma janela de observação com fim documentado.
World Society of Emergency Surgery, Jerusalem guidelines 2020 update, World J Emerg Surg, recomendações 3.1 e 3.2
Observação hospitalar curta com reexame, em vez de decisão imediata, nos quadros duvidosos
Em situações de exame equívoco, a conduta aceita é observação com reavaliação clínica e repetição do exame de imagem antes de decidir — a diretriz descreve isso explicitamente para a gestante com apendicite duvidosa, e o mesmo princípio orienta a conduta após imagem negativa com dor persistente ou progressiva.
World Society of Emergency Surgery, Jerusalem guidelines 2020 update, World J Emerg Surg, recomendações 1.2.2 e 1.12
Nenhum documento fixa o intervalo do retorno ambulatorial
As diretrizes disponíveis definem prazos dentro do hospital — janela cirúrgica, tempo de observação, repetição de imagem — e não estabelecem em quantas horas o paciente liberado com dor abdominal inespecífica deve ser reavaliado fora dele. O prazo do retorno é decisão do serviço e do médico que assina a alta.
Leitura conjunta das diretrizes da WSES (2020), da política do ACEP (2023) e da GRACE-2 (2022)
Como o intervalo não vem escrito em documento, ele precisa ser decidido, e este capítulo decide: retorno para reavaliação em 12 a 24 horas para todo paciente liberado com dor abdominal sem diagnóstico definido, com retorno imediato diante de qualquer um dos quatro sinais entregues por escrito. O raciocínio que sustenta o número é o mesmo da janela cirúrgica de 24 horas: é dentro dela que a apendicite muda de estágio, e um retorno marcado para 48 ou 72 horas cai fora da janela em que a decisão ainda seria simples. Encurte para 12 horas em idoso, imunossuprimido, gestante, diabético e em quem mora longe ou não tem quem observe em casa — nesses, considere trocar a alta por observação hospitalar. E registre o horário do retorno no prontuário e no papel do paciente: prazo combinado de boca, na prática, não existe.
O raciocínio, em voz alta
Volte ao senhor Antônio Ferreira, 68 anos, 21h40. Dor abdominal difusa há dois dias, chegou andando, classificado como verde. Pressão 148 por 86, frequência cardíaca 96, temperatura 36,2 °C, saturação 96%, dor 6 de 10. Abdome flácido, doloroso à palpação profunda de forma difusa, sem defesa, sem descompressão, ruídos hidroaéreos presentes. A filha conta que ele parou de comer ontem porque dói depois que come.
o que penso agora
Antes de qualquer hipótese, verifico se ele tem critério de porta 1. Não tem: está estável, sem abdome em tábua, sem sangramento. Mas duas coisas não fecham. A primeira é a desproporção: um homem que descreve a dor inicial como a pior da vida e cujo abdome não dói quase nada à palpação. A segunda é a idade — acima de 65, a mesma foto clínica vale menos como garantia.
o que peço à história
Três perguntas dirigidas, antes de qualquer exame. Como começou: ele diz que foi de repente, anteontem de manhã, forte desde o primeiro minuto — instalação explosiva. Já operou o abdome: nunca. E o que mudou: parou de comer porque dói depois de comer, e isso já acontecia antes, em menor grau, nos últimos dois meses, junto com perda de peso que a filha estima em cinco quilos.
como a resposta muda o que penso
Dor pós-prandial habitual com perda de peso e medo de comer é angina mesentérica, e ela precede a trombose da artéria mesentérica superior. Somada à instalação explosiva e à desproporção entre dor e exame, a hipótese principal deixa de ser inespecífica e passa a ser isquemia mesentérica. Isso reorganiza tudo: acima dos 75 anos ela já é causa mais prevalente de abdome agudo do que a apendicite, e aqui o relógio é o desfecho.
o que ainda não examinei
Pulso irregular — e está irregular, com frequência variando entre 90 e 110. Peço eletrocardiograma imediatamente, pelo duplo motivo: ele tem dor em andar superior e mais de 50 anos, o que já indicaria o traçado, e agora eu procuro fibrilação atrial como fonte embólica. O eletrocardiograma mostra fibrilação atrial de resposta ventricular variável, sem supra de ST. Cerca de metade das isquemias mesentéricas embólicas ocorre em portadores de fibrilação atrial.
o que peço, e o que não espero
Angiotomografia de abdome, sem demora. Não espero o hemograma, não peço radiografia de abdome e não uso o lactato como filtro. A diretriz da WSES é explícita nos três pontos: angiotomografia sem demora com grau 1A, radiografia simples não recomendada com grau 1B, e o lactato incapaz de diferenciar isquemia precoce de lesão irreversível isoladamente. Cada seis horas de atraso dobra a mortalidade — e ele já tem dois dias de dor.
o que faço enquanto o exame não sai
Acesso, soro fisiológico, e analgesia de verdade. A dor dele é 6, mas ele é um idoso estoico; pergunto de novo com a escala explicada e ele responde 8. Morfina intravenosa titulada, 2 mg a cada 5 a 10 minutos, infusão lenta. Não adio a analgesia para preservar o exame — o exame já está preservado no que escrevi, e a evidência não sustenta esse adiamento. Aviso a cirurgia agora, com a hipótese escrita, e não depois do laudo.
o exame volta
Lactato de 1,8 mmol/L, dentro da faixa. Leucócitos de 11.200. Se eu tivesse usado esses dois números como filtro, teria mandado o senhor Antônio para casa. Lactato normal não exclui isquemia mesentérica — quando ele sobe, a elevação já se associa a lesão intestinal irreversível. A angiotomografia mostra falha de enchimento na artéria mesentérica superior, com alça de delgado de realce reduzido e sem pneumatose.
o que a resposta muda na conduta
Diagnóstico fechado sem peritonite estabelecida e sem sinal de alça inviável na imagem. Isso mantém as opções abertas — revascularização endovascular ou cirurgia —, e é a diferença que o tempo comprou. Início imediato de ressuscitação volêmica, correção de eletrólitos, descompressão nasogástrica, antibiótico e discussão da via de revascularização com a equipe. A conduta específica de revascularização é da cirurgia; a minha parte era chegar até aqui antes de a alça infartar.
e a mulher de 24 anos da maca ao lado
Cólica renal confirmada por hematúria e tomografia sem contraste com cálculo ureteral de 4 mm à direita. Recebeu dipirona 1 g e cetoprofeno 100 mg intravenoso conforme o protocolo AC34, ficou sem dor em quarenta minutos, urinou, aceitou líquidos e foi para casa com analgesia e retorno agendado. Ela gritava e estava bem; ele estava quieto e estava morrendo. O barulho da sala não é índice de gravidade — é índice de dor, e as duas coisas não são a mesma. As três decisões que quase adiaram o diagnóstico dele são todas defensáveis num corredor cheio: aceitar a dor 6 relatada sem reperguntar com a escala explicada, deixar o abdome flácido tranquilizar aos 68 anos, e deixar o lactato normal desempatar.
Faça você
Terça-feira, 14h20. Mulher de 31 anos, sem comorbidades, chega andando com dor abdominal que começou há dez horas em volta do umbigo e que há duas horas se concentrou na fossa ilíaca direita. Náusea, sem vômitos, sem febre, sem sintomas urinários, sem alteração do hábito intestinal. Última menstruação há 12 dias, regular. Pressão 118 por 74, frequência cardíaca 88, temperatura 36,8 °C. Abdome com dor à palpação em fossa ilíaca direita, sem defesa, com dor discreta à tosse. Beta-hCG negativo. Leucócitos 8.900 com 68% de neutrófilos, proteína C reativa 14 mg/L. Ultrassom de abdome e pelve: útero e anexos sem alterações, sem líquido livre, apêndice não visualizado. Você prescreveu dipirona 1 g intravenosa às 15h10 e a dor caiu de 7 para 4. São 16h e a maca é necessária para outro paciente.
leitura da história
Dor visceral periumbilical que migrou para a fossa ilíaca direita em dez horas é a linha do tempo da apendicite: obstrução da luz, distensão, e depois contato da serosa inflamada com o peritônio parietal. A migração é o dado mais forte do caso, e ela veio espontaneamente.
leitura do exame físico
Dor localizada em fossa ilíaca direita com dor à tosse indica que o peritônio parietal já está envolvido, ainda que sem defesa franca. É um exame que já mudou de estágio em relação ao que teria sido às seis da manhã.
leitura dos exames
Leucograma normal e proteína C reativa baixa não excluem apendicite — marcadores bioquímicos não sustentam sozinhos a exclusão. E o ultrassom com apêndice não visualizado é, por definição, um exame equívoco: o poder do ultrassom aqui está no positivo, não no negativo.
a decisão
— sua vez —
Ver como fecharíamos
Não é alta. Somando migração da dor, dor à tosse localizada e ultrassom equívoco com suspeita mantida, ela está na porta 2 — e a queda de 7 para 4 depois de dipirona não exclui apendicite: mantenha analgesia e reexamine, sem esperar que seu efeito desapareça. Concretamente: mantenha em observação, prescreva analgesia com horário e resgate, deixe em jejum pela chance de centro cirúrgico, reexamine em duas horas com o mesmo método e escreva os dois exames. Se houver tomógrafo, ela é candidata a tomografia agora, porque isso encurta a janela; se não houver, avise a cirurgia com a hipótese escrita e mantenha o reexame de duas em duas horas. A janela de observação existe e tem fim, e se aparecer defesa, febre ou vômitos a decisão sobe de porta antes da próxima reavaliação.
A pergunta clínica aqui não é só qual é o diagnóstico, é qual é o estágio — diverticulite não complicada e diverticulite com abscesso ou perfuração recebem condutas diferentes, e só a tomografia com contraste endovenoso responde as duas coisas. Some a isso um fator do próprio caso: na paciente obesa o ultrassom perde janela e a palpação perde resolução, o que empurra a imagem seccional para cima na ordem. A política do ACEP recomenda contraste endovenoso quando viável e registra que contraste oral ou retal não melhora a acurácia, o que elimina a espera de preparo. A radiografia devolve pouco fora da suspeita de pneumoperitônio com tomógrafo indisponível. A ressonância não está disponível na urgência da maior parte dos serviços e não muda a decisão desta noite. Colonoscopia na fase aguda é contraindicada pelo risco de perfuração.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Compare o caso de dor migratória com ultrassom equívoco e o caso de dor desproporcional com lactato normal. Explique por que cada um precisa de investigação diferente.
Em 30 dias
Conduza uma dor abdominal ainda sem diagnóstico: escolha analgesia, imagem ou observação, indique o que reavaliar e explique em que condições a alta será aceitável.
Agora atenda
Agora atenda: mulher de 72 anos trazida pela filha ao pronto-socorro com dor abdominal difusa há um dia, sem febre, que já melhorou de intensidade desde a manhã. Ela usa prednisona por polimialgia reumática e faz uso irregular de anti-inflamatório para dor no joelho. Sinais vitais na triagem estão dentro da faixa, e o abdome está flácido. Decida quem ela é entre as três portas — e defenda a decisão para a filha, que quer levá-la para casa.
