Clínica MédicaSíndromes do Paciente na Emergência

Intoxicação exógena

A síndrome tóxica se lê no exame físico, e ela decide antes do laboratório

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de Vigilância em Saúde. 6. ed. rev. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. v. 3, cap. Intoxicação exógena, p. 1181-1193.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. Protocolos ATox 1, 2, 4, 8, 11, 12 e 14.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria SCTIE n.º 79, de 14 de dezembro de 2018. Anexo: Diretrizes Brasileiras para diagnóstico e tratamento das intoxicações por agrotóxicos — capítulo 2 (inibidores de colinesterase).

São Paulo (Município). Secretaria Municipal da Saúde. Coordenadoria de Vigilância em Saúde. Manual de Toxicologia Clínica: orientações para assistência e vigilância das intoxicações agudas. 1. ed. São Paulo: SMS, 2017. 465 p.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3.

01

Responda antes de ler

Homem de 28 anos chega ao pronto-socorro trazido pela família, que relata ingestão de um vidro de comprimidos há tempo indeterminado, entre duas e seis horas antes. Está sonolento, mas mantém via aérea e responde ao chamado. Um colega propõe passar sonda nasogástrica, lavar o estômago com soro fisiológico e administrar carvão ativado em seguida. Sobre a descontaminação gastrintestinal neste caso, qual afirmação está correta?

02

O paciente que você vai ver

Três e dez da manhã de um domingo, pronto-socorro clínico de hospital geral. A ambulância encosta e o socorrista entra empurrando a maca sem esperar pergunta: mulher, aparenta trinta e poucos anos, encontrada caída no chão do banheiro pela colega de quarto, que ligou para o 192 e não veio junto. Não há acompanhante. Não há documento. Não há ficha de encaminhamento além do papel do SAMU com três linhas.

Ela respira. Está de olhos fechados, abre-os quando você aperta o trapézio e volta a fechar. Não fala. Frequência respiratória 10, saturação 91% em ar ambiente, frequência cardíaca 52, pressão 92 por 58, temperatura axilar 35,4 graus. A pele está seca e fria. As pupilas, quando você aproxima a lanterna, são dois pontos: dois milímetros, iguais, e o fotomotor existe mas é difícil de enxergar de tão pequeno o movimento. O abdome está silencioso à ausculta.

Você tem, nesse momento, exatamente zero de história. Não sabe o que ela tomou, se tomou, quando, quanto, nem se tomou uma coisa só. O laboratório do hospital não faz pesquisa toxicológica; o mais próximo que faz manda o resultado em três dias. E é a essa altura que a pergunta que o interno faz costuma ser a errada: alguém pergunta se dá para pedir um exame toxicológico. A pergunta certa já foi respondida — pelos sinais vitais, pelas pupilas, pela pele, pelo abdome silencioso e pela frequência respiratória. O conjunto tem nome, tem classe e tem antídoto, e a decisão pode ser tomada agora.

Este capítulo é sobre esse paciente: o que chega sem história, o que é encontrado no chão, o que é trazido por quem não sabe contar. A história que não existe é substituída por um exame físico feito em ordem e em segundos — e a maior parte do que se vai fazer por ele não é antídoto nenhum, é via aérea, glicemia, temperatura e tempo.

03

Quem adoece disso

A intoxicação exógena não é um evento raro que se estuda por completude: é a forma mais comum pela qual uma pessoa se machuca de propósito no Brasil. No Sinan, em 2021, foram notificados 114.159 casos de violência autoprovocada, e a intoxicação foi o meio em 67,1% deles — muito à frente de objeto cortante, com 17,9%, e de enforcamento, com 6,6%. São cerca de 76 mil intoxicações autoprovocadas notificadas em um ano, algo como duzentas por dia no país inteiro. Se você faz plantão em pronto-socorro de porta aberta, esse paciente é do seu cotidiano, não do seu livro.

O perfil muda o que você espera ver antes de ver. Das notificações de 2021, 70,3% foram em mulheres e 60,2% na faixa de 20 a 49 anos; adolescentes de 15 a 19 anos responderam por 21,5% do total. Quase um terço tinha alguma deficiência ou transtorno registrado, e em 91,5% desses o registro era de transtorno mental ou comportamental. A leitura prática: diante de uma mulher jovem, rebaixada, sem história, sem trauma e sem febre, intoxicação por medicamento de casa é a hipótese de maior probabilidade a priori — e a coingestão, mais de uma substância na mesma tentativa, é a regra, não a exceção.

A contrapartida é que quem morre por suicídio no Brasil tem outro perfil: dos 15.507 suicídios de 2021, 77,8% foram em homens. A população que chega viva ao seu plantão por intoxicação não é, portanto, a mesma que aparece na estatística de mortalidade. Isso tem duas consequências. A primeira é que a letalidade imediata do episódio que você atende costuma ser baixa — a maioria sobrevive à noite. A segunda é que a tentativa que você atende é o fator de risco mais forte que existe para a morte que virá depois; o desfecho do seu atendimento não é a alta clínica, é o encaminhamento que impede a próxima.

Fora da circunstância intencional, o mapa é outro: a exposição da criança pequena a produto de uso domiciliar, medicamento ou planta guardados ao alcance; a exposição ocupacional a inseticida inibidor de colinesterase, mais frequente no trabalhador rural; e o uso de raticida clandestino, que no Brasil costuma ser carbamato ou organofosforado desviado da lavoura, já que a única classe permitida como raticida é a dos anticoagulantes cumarínicos. A idade e o cenário reorganizam a lista de agentes prováveis antes de qualquer exame.

04

Por que acontece o que acontece

A síndrome tóxica existe porque o número de alvos farmacológicos é pequeno. Centenas de substâncias diferentes acabam agindo sobre os mesmos poucos sistemas — colinérgico, adrenérgico, opioide, gabaérgico, dopaminérgico — e, quando o alvo é o mesmo, o corpo responde igual, independentemente do nome no rótulo. É por isso que um conjunto de sinais consegue apontar uma classe sem que ninguém saiba qual foi a molécula.

O sistema nervoso autônomo é o que torna isso legível a olho nu, porque ele governa ao mesmo tempo estruturas que ficam expostas ao exame: a pupila, a glândula sudorípara, as glândulas salivar e lacrimal, o músculo liso brônquico, o músculo liso intestinal, o nó sinusal e o esfíncter urinário. Uma droga que estimula o receptor muscarínico faz, na mesma tacada, miose, sialorreia, lacrimejamento, broncorreia, diarreia, bradicardia e incontinência — a soma que os protocolos abreviam como sialorreia, lacrimejamento, micção, diarreia, cólica e emese. Uma droga que bloqueia o mesmo receptor faz exatamente o contrário: midríase, pele seca e vermelha, mucosa seca, retenção urinária, íleo e taquicardia.

Daí sai a chave de leitura mais útil do capítulo. Duas síndromes cursam com agitação e duas com sonolência; o que separa cada par é a secreção. O agitado com pele encharcada de suor é adrenérgico; o agitado com pele seca e quente é anticolinérgico. O sonolento com secreção abundante é colinérgico; o sonolento seco é opioide ou sedativo. Suor e secreção são grátis, aparecem em três segundos de exame e resolvem metade do diagnóstico diferencial.

Duas colunas relacionam estímulo e bloqueio muscarínicos a pupilas, secreções, brônquios, intestino, bexiga e coração.
Estímulo muscarínico favorece secreções e atividade parassimpática; o bloqueio produz tendências opostas em vários órgãos. Fasciculações decorrem de efeito nicotínico. O quadro clínico final resulta do conjunto de ações do agente.

O rebaixamento de consciência de origem tóxica tem mecanismo próprio e assinatura própria. Os depressores agem sobre o complexo receptor do ácido gama-aminobutírico ou sobre o receptor opioide, deprimindo de forma difusa o sistema reticular ativador ascendente. Como a depressão é difusa e não focal, o exame neurológico é simétrico: pupilas iguais, sem desvio do olhar, sem assimetria motora. E como a droga também deprime o centro respiratório e reduz o tônus vasomotor e a produção de calor, o paciente tende à bradipneia, à hipotensão e à hipotermia. Coma simétrico em paciente frio e respirando devagar é um padrão, e o padrão tem dono.

Dois mecanismos merecem destaque porque mudam a conduta imediata sem passar por antídoto nenhum. O primeiro é o bloqueio do canal rápido de sódio, próprio dos antidepressivos tricíclicos: ele alarga o complexo QRS e produz arritmia ventricular e hipotensão, e é a razão pela qual o eletrocardiograma funciona como exame toxicológico que volta em três minutos. O segundo é a hipoglicemia, que não é síndrome tóxica e sim causa reversível que se instala em cima de qualquer intoxicação — por álcool, por hipoglicemiante oral, por insulina, ou simplesmente pelo jejum de quem está caído há horas.

Por fim, o mecanismo que explica por que existe uma intoxicação que não dá sinal nenhum. O paracetamol é metabolizado por conjugação e sulfatação, e uma fração pequena segue pelo citocromo P450 gerando um metabólito reativo que a glutationa neutraliza. Na sobredose, as vias de conjugação saturam, a produção do metabólito reativo aumenta e a glutationa se esgota; a partir daí ele se liga às proteínas do hepatócito e mata a célula. Nada disso dói. O paciente passa as primeiras 24 horas assintomático ou com náusea, a lesão hepática aparece no laboratório entre 24 e 72 horas, e a icterícia com coagulopatia só chega depois de 72 horas — quando o antídoto já perdeu a maior parte do efeito. A janela em que a intervenção funciona é exatamente a janela em que o paciente parece bem.

05

Como se apresenta de verdade

O intoxicado que chega com história é um problema de farmacologia. O que chega sem história é um problema de exame físico — e o exame tem uma ordem, porque cada item responde a uma pergunta diferente e alguns respondem a perguntas que não podem esperar.

Percurso de aprendizagem

No paciente sem história, comece pelo suporte e pelas causas reversíveis. Toxíndrome é uma hipótese operacional; coingestões podem alterar pupilas, frequência e padrão clínico.

Para cada antídoto, defina indicação, dose, concentração, alvo e risco de recorrência. Naloxona exige avaliar ventilação; atropina exige avaliar secreções e perfusão.

Diferencie triagem toxicológica de dosagens quantitativas que orientam tratamento. No paracetamol, cronologia, formulação e evolução laboratorial definem interpretação e término do antídoto.

O roteiro de segundos, na ordem em que se faz

Enquanto a equipe monitoriza e pega acesso, você faz sete coisas, todas de cabeceira e nenhuma delas cara. A ordem importa porque as duas primeiras podem matar em minutos e as demais não.

Primeiro, a respiração: frequência, esforço e ausculta. Bradipneia com pausas é depressão do centro respiratório e é o que mata o intoxicado antes de qualquer outra coisa. Ausculta com estertores e roncos difusos em paciente que não é cardiopata nem pneumopata pode não ser pulmão doente — pode ser secreção de origem colinérgica, e aí a droga que resolve é atropina, não furosemida.

Segundo, a glicemia capilar. Um minuto, sem sair do lado da maca, e identifica uma causa que reverte por completo. Não existe justificativa para não medir.

Terceiro, as pupilas: tamanho, simetria e resposta, examinadas com a luz do ambiente baixa. Puntiforme aponta opioide ou colinérgico; midriática aponta adrenérgico ou anticolinérgico; assimétrica tira o caso do território tóxico e o joga no território estrutural.

Quarto, a pele: úmida ou seca, quente ou fria, corada ou pálida. É o dado que separa as duas síndromes agitadas entre si e as duas sonolentas entre si. Passe as costas da mão na axila — axila seca em paciente agitado e quente é anticolinérgico até prova em contrário.

Quinto, a temperatura, medida e não estimada. Intoxicação aguda tende ao coma com hipotermia; hipertermia levanta anticolinérgico, adrenérgico, síndrome serotoninérgica ou uma infecção que não tem nada a ver com veneno.

Sexto, o abdome: ausculte antes de palpar. Ruídos aumentados com cólica e diarreia é colinérgico; abdome silencioso com distensão e bexiga palpável é anticolinérgico ou opioide. O íleo paralítico é um dos poucos achados que fecham diagnóstico de classe com estetoscópio.

Sétimo, o corpo inteiro e o hálito: marcas de agulha, sinais de trauma, odor de álcool, odor de solvente, odor de alho que aponta organofosforado, lesões corrosivas em lábio e boca. Role o paciente. Trauma occipital, adesivo transdérmico esquecido nas costas e liberação esfincteriana só aparecem se alguém rolar.

As seis síndromes, do jeito que aparecem na maca

A síndrome opioide é a mais reconhecível e a que mais tem o que fazer. Miose puntiforme, bradipneia, sonolência ou coma, bradicardia, hipotensão, hipotermia, hiporreflexia e redução dos ruídos intestinais. O paciente da cena de abertura é este.

A síndrome sedativo-hipnótica, por benzodiazepínico, barbitúrico ou etanol, é quase a mesma foto — sonolência, torpor ou coma, depressão respiratória, hipotensão, bradicardia, normotermia ou hipotermia —, e a pupila costuma ser pequena também. A diferença clínica útil não está no exame, está na resposta: a depressão respiratória do opioide desaparece com antídoto e a do sedativo, em geral, não.

A síndrome colinérgica é a molhada. Miose, sialorreia, lacrimejamento, sudorese profusa, aumento de secreção brônquica, broncoespasmo, vômito, diarreia, incontinência, bradicardia, fasciculação muscular, e pode chegar a convulsão e coma. Os agentes são os inseticidas organofosforados e os carbamatos, incluindo o raticida clandestino. O odor de alho e a fasciculação são os dois sinais que ninguém confunde depois de ver uma vez.

Seis quadros comparam síndromes opioide, sedativo-hipnótica, colinérgica, antimuscarínica, simpatomimética e extrapiramidal.
Reconhecer uma toxíndrome exige combinar ventilação, consciência, pupilas, pele, sinais autonômicos e movimento. Pupila, pele e pulso isolados não separam com segurança todos os quadros, sobretudo em coexposições.

A síndrome anticolinérgica é a seca. Midríase, pele quente, seca e avermelhada, mucosa seca, hipertermia, taquicardia, retenção urinária, redução do peristaltismo até o íleo, e um estado mental muito característico: delírio com alucinação, ataxia e agitação, em vez da sonolência. Antidepressivo tricíclico, anti-histamínico, antipsicótico, escopolamina, antiparkinsoniano e plantas da família das solanáceas fazem isso.

A síndrome adrenérgica é a molhada e agitada. Midríase, taquicardia, hipertensão, hipertermia, sudorese, hiperreflexia, tremor, agitação, e convulsão nos casos graves. Cocaína, anfetamínicos e análogos, descongestionante nasal, cafeína e teofilina.

A síndrome extrapiramidal não deprime nem excita: ela distorce o movimento. Hipertonia, distonia orofacial, trismo, desvio conjugado do olhar, mioclonia e, no extremo, opistótono, com o paciente lúcido e assustado. Metoclopramida e bromoprida são as causas mais comuns no pronto-socorro brasileiro, e o quadro é confundido com crise convulsiva e com transtorno conversivo com frequência incômoda. Tem antídoto e responde em minutos.

O que muda em quem não é o adulto jovem padrão

Na criança pequena, a circunstância é quase sempre não intencional e o agente é o que estava ao alcance, o que muda o cardápio de hipóteses: produto de higiene e limpeza, medicamento do adulto da casa, planta ornamental, inseticida doméstico. A dose por quilo de peso é desproporcional e o quadro pode ser grave com quantidade pequena. As doses pediátricas de antídoto estão em Intoxicações exógenas agudas e antídotos (organofosforados, benzodiazepínicos, paracetamol, opioides, monóxido de carbono), na apostila de Toxicologia, e o manejo pediátrico da exposição acidental é de Acidentes na infância: prevenção, afogamento, queimadura e intoxicação exógena, na apostila de Emergências Pediátricas; do lado que interessa aqui, vale a regra de sempre investigar se há mais crianças expostas no mesmo domicílio e de olhar a criança com quadro autonômico exuberante e sem exposição testemunhada com a hipótese de inseticida colinérgico na cabeça.

No idoso, dois agravantes se somam. A polifarmácia faz da intoxicação um evento que não precisa de intenção: basta a dose dobrada de um anticolinérgico, ou o acúmulo de um medicamento de eliminação renal em quem perdeu função. E a apresentação é enganosa, porque delirium por anticolinérgico é lido como demência descompensada, e sonolência por benzodiazepínico é lida como acidente vascular. Qualquer disfunção renal reconfigura o raciocínio, porque droga de eliminação renal pode ter acumulado até a faixa tóxica sem que ninguém tenha tomado nada a mais — o ajuste tem capítulo próprio nesta coleção.

Na gestante, o Guia de Vigilância marca gestantes e lactantes como grupo de suscetibilidade aumentada e como ponto de atenção que exige medida imediata. Na prática, a decisão que importa é a de não subtratar: o antídoto que a mãe precisa é o antídoto que o feto precisa, porque a hipóxia e a hipotensão maternas machucam mais do que a droga.

No paciente com transtorno mental prévio, a armadilha é a inversa e é a mais grave de todas: atribuir o rebaixamento ao transtorno. Quem tem diagnóstico psiquiátrico também faz hipoglicemia, intoxicação por lítio, hiponatremia por psicotrópico e hematoma subdural. A causa psiquiátrica é conclusão de exclusão, nunca de impressão.

E há o paciente que chega acordado, conversando e assintomático. Ele é o mais perigoso do plantão, por três motivos: o paracetamol não dá sintoma na janela em que tem tratamento; o inibidor de colinesterase altamente lipossolúvel pode dar a primeira fraqueza muscular depois de 48 horas; e a apresentação de liberação prolongada estica a absorção por horas. Assintomático agora não é o mesmo que sem risco.

06

Como fechar o diagnóstico

A regra que organiza este bloco inteiro cabe numa frase: nenhum exame de sangue chega a tempo de decidir o que fazer nos primeiros trinta minutos, e o único que decide qualquer coisa nas primeiras horas é o nível sérico de paracetamol. O resto do laboratório serve para medir o dano e para achar a causa reversível, não para nomear o veneno.

O que se pede primeiro, e o que cada um responde

A glicemia capilar vem antes de tudo e não é bem um exame: é um gesto. Responde a pergunta que tem tratamento imediato e completo, custa menos de um minuto e é gratuita. Todo paciente com alteração do nível de consciência mede glicemia, sem exceção, e a correção não espera confirmação laboratorial.

O eletrocardiograma de doze derivações é o exame mais rentável do intoxicado sem história, e volta em três minutos. Ele responde três perguntas de uma vez. Primeira: o QRS está alargado? Alargamento aponta bloqueio de canal de sódio, cujo protótipo é o antidepressivo tricíclico, e essa é uma emergência com conduta própria e imediata. Segunda: o intervalo QT está prolongado? Aponta várias classes de psicotrópicos e antiarrítmicos e antecipa arritmia. Terceira: há alteração de onda T e de intervalo compatível com distúrbio de potássio ou de cálcio? Isso aparece antes do laboratório voltar. Somado à bradicardia ou à taquicardia, o traçado é a segunda metade do exame físico.

Duas faixas de ECG sintético comparam complexos QRS de 80 e 160 milissegundos em grade temporal, com a largura marcada.
O QRS é medido do início ao fim da despolarização ventricular. Alargamento pode acompanhar bloqueio de canal de sódio em uma intoxicação, mas também ocorre por outros mecanismos. Os traçados são modelos didáticos, não exames de pacientes.

A gasometria arterial responde oxigenação, ventilação e estado acidobásico numa amostra só. No intoxicado ela tem duas funções: flagrar a hipercapnia da depressão respiratória em quem ainda satura bem com oxigênio, e mostrar acidose metabólica, que reorienta o raciocínio para intoxicação, cetoacidose, uremia ou hipoperfusão. Como calcular o ânion-gap e julgar a compensação é assunto do capítulo de gasometria desta coleção; aqui ela entra como exame de primeira hora.

A bateria metabólica — hemograma, sódio, potássio, ureia, creatinina, transaminases, bilirrubinas e coagulograma — não identifica agente nenhum. Ela mede órgão. Creatinina alterada muda a farmacocinética de tudo que o paciente usa e levanta a hipótese de acúmulo; transaminases e tempo de protrombina são o eixo que denuncia hepatotoxicidade antes da icterícia.

Dosagens quantitativas dirigidas podem mudar a conduta: paracetamol, salicilato, lítio, digoxina e outros agentes têm indicações próprias. Para paracetamol, o nomograma exige história temporal adequada e amostra colhida a partir de quatro horas, no contexto para o qual foi validado. Horário desconhecido, exposições repetidas por mais de 24 horas e administração intravenosa exigem outras estratégias. Certos produtos de liberação estendida admitem uso do nomograma com nova dosagem em situações selecionadas; não generalizar para toda formulação modificada. Discuta amostragem e tratamento com CIATox.

O beta-hCG em toda mulher em idade fértil, e a dosagem de eletrólitos e de função renal antes de qualquer droga de eliminação renal, completam o pacote de rotina.

O rastreio toxicológico, e por que ele quase nunca decide

É aqui que o interno perde tempo. O rastreio toxicológico urinário tem três defeitos que, somados, o tiram do caminho crítico. O primeiro é o prazo: na maioria dos serviços brasileiros ele não existe, e onde existe volta em horas ou dias — depois de a conduta já ter sido tomada. O segundo é que positivo não prova causalidade: um benzodiazepínico detectado na urina pode ser de ontem e não explicar o coma de hoje. O terceiro é que negativo não exclui: várias substâncias capazes de rebaixar consciência não são cobertas pelos painéis usuais.

A consequência prática é dura e vale escrever por extenso: a decisão sobre via aérea, sobre glicose, sobre antídoto e sobre destino do paciente se toma antes e independentemente do rastreio. Ele serve para documentação, para vigilância epidemiológica e para casos em que a dúvida persiste depois de tudo — nunca como gatilho de conduta.

Há um recurso melhor, gratuito e sistematicamente subutilizado: o Centro de Informação e Assistência Toxicológica de referência da sua região, ou o Disque-Intoxicação da Anvisa, no 0800 722 6001. Diante de agente incomum, de produto sem rótulo, de dúvida sobre um antídoto ou sobre uma dose, essa ligação resolve em minutos o que uma busca desorganizada não resolve em uma hora. Os protocolos do SAMU instruem a acionar esse contato como parte da conduta, e não como último recurso.

O diferencial: o que não é intoxicação, e como se exclui

O intoxicado sem história compete com uma lista curta de imitadores, e cada um sai por um exame diferente. Hipoglicemia sai pela glicemia capilar. Hipóxia e hipercapnia saem pela oximetria e pela gasometria. Distúrbio de sódio, uremia e insuficiência hepática saem pela bateria metabólica. Infecção do sistema nervoso central sai pela temperatura, pela rigidez de nuca e, quando a suspeita persiste, pela punção lombar. Estado pós-convulsivo se denuncia pela mordedura lateral de língua e pela liberação esfincteriana. Lesão estrutural se denuncia pela assimetria: pupila desigual, desvio do olhar, déficit motor de um lado — e aí o exame é a tomografia, com urgência.

O caminho inverso também vale, e é a fronteira deste capítulo com o de alteração do nível de consciência. Lá está a abordagem geral do rebaixamento: a escala de coma, o que a tomografia enxerga e o que ela não enxerga, quando pensar em estado de mal não convulsivo e em oclusão de artéria basilar. Aqui está o que muda quando a causa é tóxica — e o que muda é isto: o exame é simétrico, a tomografia é normal e vai continuar normal, e o tratamento não está na imagem.

Duas confusões merecem nome. A primeira é a sepse: paciente hipotenso, taquicárdico e rebaixado pode ser choque séptico, e o intoxicado hipotérmico com pele fria se parece com o séptico de apresentação atípica. A temperatura ajuda mas não decide, e a regra de segurança é que a suspeita de sepse não espera a intoxicação ser descartada — o pacote da primeira hora tem capítulo próprio nesta coleção e roda em paralelo. A segunda é o trauma cranioencefálico associado: o intoxicado cai, e a queda pode ter causado uma lesão que a intoxicação está mascarando. Todo paciente encontrado no chão merece um exame do crânio com a mão e uma pergunta explícita sobre trauma.

O que existe no SUS, e o que isso decide

Antídoto que não está na farmácia não é conduta. A Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 desenha o que se pode prescrever de verdade, e o desenho tem surpresas.

No Componente Básico, o que qualquer serviço municipal pode ter: sulfato de atropina 0,25 mg/mL solução injetável, cloridrato de naloxona 0,4 mg/mL solução injetável, flumazenil 0,1 mg/mL solução injetável, metilsulfato de pralidoxima 200 mg, carvão vegetal ativado em pó para suspensão oral, glicose 50% injetável, biperideno (comprimido de 2 e 4 mg e solução injetável de 5 mg/mL) e cloridrato de tiamina 300 mg comprimido. No Componente Estratégico, a hidroxocobalamina 5 g, antídoto do cianeto. No Especializado, o mesilato de desferroxamina 500 mg, para o ferro, e a penicilamina 250 mg.

Três leituras saem dessa lista e valem mais que a lista. A primeira: a acetilcisteína, antídoto do paracetamol, não consta da Rename 2024 — o que significa que sua disponibilidade depende de padronização local, e que descobrir se o seu hospital tem, e onde guarda, é tarefa a se fazer num plantão calmo, não às três da manhã com o nível sérico na mão. A segunda: a tiamina aparece só como comprimido de 300 mg, embora os protocolos de urgência prescrevam 300 mg por via intramuscular; a apresentação injetável, quando existe, veio por padronização local. A terceira: a pralidoxima está na lista básica, mas a diretriz brasileira de intoxicação por agrotóxicos recomenda contra o uso de oximas — ter o medicamento e ter indicação são coisas diferentes, e é a segunda que decide.

Do lado dos exames, o mesmo raciocínio. Glicemia capilar e eletrocardiograma existem em todo lugar e decidem. Gasometria e bateria metabólica existem na maioria dos hospitais e medem dano. Nível sérico de paracetamol existe em poucos, e onde não existe a decisão sobre o antídoto passa a ser feita pela história de ingestão e pelo risco estimado, tratando quando há dúvida. Rastreio toxicológico é o que menos existe e o que menos falta.

07

Fluxos e tabelas

Você deve reconhecer toxíndromes, proteger ventilação e circulação e selecionar antídotos, exames e descontaminação segundo a exposição.

  1. 1Segurança da cena e proteção da equipe: roupa impregnada de inseticida contamina quem atende.
  2. 2Via aérea e ventilação: bradipneia e pausas são o que mata primeiro.
  3. 3Meça glicemia e corrija imediatamente a hipoglicemia. No risco nutricional, dê tiamina prontamente sem atrasar glicose.
  4. 4Monitorização, acesso venoso e eletrocardiograma de doze derivações.
  5. 5Exame dirigido em segundos: pupila, pele, temperatura, secreção, ruídos intestinais, nível de consciência.
  6. 6Nomear a síndrome tóxica pelo conjunto e, com ela, a classe do agente.
  7. 7Antídoto apenas se a síndrome o indica e o benefício supera o risco. Suporte sempre.
  8. 8Ligar para o CIATox de referência ou para o Disque-Intoxicação (0800 722 6001) na dúvida sobre agente, dose ou antídoto.
  9. 9Colher paracetamol sérico em toda ingestão intencional, e eletrocardiograma procurando alargamento de QRS.
  10. 10Notificar no Sinan; sendo tentativa de suicídio, também na Ficha de Violência Interpessoal e Autoprovocada, em até 24 horas.
  11. 11Avaliação de saúde mental antes da alta, com o paciente lúcido.

Duas coisas que se fazem sempre e são de graça

Glicemia capilar e temperatura medida. A primeira acha uma causa que reverte por completo em minutos; a segunda separa o coma tóxico, que tende à hipotermia, da infecção e do estado de mal, que tendem à hipertermia. Nenhuma das duas depende de laboratório, de tomógrafo ou de plantonista sênior.

Seco ou molhado decide metade

Agitado e encharcado de suor: adrenérgico. Agitado, quente e com axila seca: anticolinérgico. Sonolento e cheio de secreção: colinérgico. Sonolento e seco: opioide ou sedativo. Passe as costas da mão na axila antes de pedir qualquer coisa.

O que não decide nada agora

Rastreio toxicológico: demora, positivo não prova causa e negativo não exclui. A conduta de via aérea, glicose, antídoto e destino se toma antes dele e sem ele.

O paciente acordado e assintomático

É o mais perigoso da sala se houve ingestão de paracetamol, de agente de liberação prolongada ou de inibidor de colinesterase lipossolúvel. Assintomático agora não é sem risco: a observação mínima na exposição a inibidor de colinesterase é de 6 a 12 horas, e o paracetamol só aparece no laboratório depois de 24 horas.

As seis síndromes tóxicas à beira do leito

SíndromePupilaPele e secreçãoCardiorrespiratório e temperaturaEstado mentalAgentes típicosTratamento específico
OpioideMiose puntiformeSecaBradipneia, bradicardia, hipotensão, hipotermiaSonolência a comaMorfina, codeína, tramadol, fentanila, metadona, loperamida, heroínaNaloxona
Sedativo-hipnóticaMioseSecaDepressão respiratória, bradicardia, hipotensão, normo ou hipotermiaSonolência, torpor, comaBenzodiazepínicos, fenobarbital, etanolSuporte; flumazenil só em condições estritas
ColinérgicaMiose (pode variar)Sudorese, sialorreia, lacrimejamento, broncorreiaBroncoespasmo, bradicardia, secreção pulmonar; fasciculaçãoSonolência a coma, convulsãoOrganofosforados, carbamatos, raticida clandestino, alguns cogumelosAtropina em doses incrementais
AnticolinérgicaMidríasePele seca, quente e vermelha; mucosa secaTaquicardia, hipertensão, hipertermia, retenção urinária, íleoDelírio, alucinação, agitação, ataxiaTricíclicos, anti-histamínicos, antipsicóticos, escopolamina, solanáceasSuporte; alargamento de QRS tem conduta própria
AdrenérgicaMidríaseSudorese abundanteTaquicardia, hipertensão, hipertermia, hiperreflexia, tremorAgitação, alucinação, convulsãoCocaína, anfetamínicos, descongestionante nasal, cafeína, teofilinaBenzodiazepínico e resfriamento; suporte
ExtrapiramidalSem padrãoSem padrãoSinais vitais em geral preservadosLúcido, com hipertonia, trismo, distonia, desvio do olharMetoclopramida, bromoprida, haloperidol, fenotiazínicosBiperideno

Os antídotos que existem de verdade, na apresentação em que chegam à sua mão

AntídotoApresentação (Rename 2024)QuandoDoseQuanto é em volume
NaloxonaCloridrato 0,4 mg/mL injetável (Básico)Síndrome opioide com depressão respiratória0,04 mg, depois 0,4 mg, depois 2 mg, depois 10 mg, a cada 2 a 3 minutos, até reverter a ventilação0,04 mg = 0,1 mL; 0,4 mg = 1 ampola; 2 mg = 5 ampolas; 10 mg = 25 ampolas
AtropinaSulfato 0,25 mg/mL injetável (Básico)Síndrome colinérgica com secreção brônquica e bradicardiaAtaque de 0,6 a 3 mg, dobrando a cada 5 minutos até atropinizar; manutenção de 10 a 20% da dose total por hora1 mg = 4 ampolas; 2 mg = 8; 4 mg = 16; 8 mg = 32. Separe a caixa inteira antes de começar
Glicose 50%500 mg/mL injetável (Básico)Glicemia capilar abaixo de 70 mg/dL40 mL por via intravenosa, repetindo se persistir40 mL = 20 g = 4 ampolas de 10 mL
TiaminaCloridrato 300 mg comprimido (Básico)Etilismo, desnutrição, vômito prolongado ou cirurgia bariátrica, antes da carga de glicose300 mg; os protocolos de urgência usam a via intramuscular quando há apresentação injetável padronizada1 ampola de 100 mg/mL, quando disponível
BiperidenoLactato 5 mg/mL injetável (Básico)Síndrome extrapiramidal por antiemético ou antipsicótico3 a 5 mg por via intramuscular ou intravenosa no adulto5 mg = 1 ampola de 1 mL
Flumazenil0,1 mg/mL injetável (Básico)Depressão respiratória por benzodiazepínico isolado, sem coingestão e sem dependência0,1 a 0,2 mg em 15 a 30 segundos, repetindo até no máximo 1 mg0,1 mg = 1 mL; teto de 1 mg = 10 mL
AcetilcisteínaFora da Rename 2024; depende de padronização localRisco de hepatotoxicidade por paracetamolProtocolo intravenoso de 21 horas: 150 mg/kg em 1 hora, 50 mg/kg em 4 horas, 100 mg/kg em 16 horasAdulto de 70 kg: 10,5 g, 3,5 g e 7 g — cerca de 70 ampolas de 300 mg/3 mL no total
Hidroxocobalamina5 g pó para solução injetável (Estratégico)Intoxicação por cianeto, inclusive inalação de fumaça de incêndio5 g por via intravenosa em 15 minutos no adulto; 70 mg/kg na criança1 frasco de 5 g reconstituído em 200 mL
DesferroxaminaMesilato 500 mg pó injetável (Especializado)Intoxicação grave por sais de ferro15 mg/kg/h por via intravenosa, sem exceder 6 gAdulto de 70 kg: cerca de 1 g por hora

O que se abandonou na descontaminação, e o que ficou no lugar

PráticaSituação hojeO que se faz no lugar
Indução de vômito e xarope de ipecaNão recomendada. Aumentar o volume no estômago pode acelerar o esvaziamento gástrico e a absorçãoNada. Se o vômito ocorrer espontaneamente, não se inibe
Leite, água ou remédio caseiro para diluirProscrito pela diretriz brasileira de intoxicação por agrotóxicosNada por via oral
Lavagem gástrica de rotinaRecomendação forte contra, na diretriz brasileira de 2018; o protocolo do SAMU a exclui do atendimento pré-hospitalarConsiderada só em ingestão de dose potencialmente letal ocorrida há menos de 60 minutos, em paciente consciente, com via aérea protegida e fora de cáusticos e solventes
Carvão ativado para todo mundoRecomendação condicional contra o uso de rotina; ensaio com 1.310 pacientes não mostrou redução de mortalidade em dose única nem múltiplaDose única de 1 g/kg, teto de 50 g, diluída em 8 mL por grama, só na ingestão de agente adsorvível em quantidade potencialmente tóxica e nos primeiros 60 minutos, com via aérea protegida
Flumazenil como teste diagnósticoNão se faz. O antídoto é contraindicado no dependente e na coingestão, pelo risco de convulsão de difícil controleSuporte ventilatório e monitorização, que são reversíveis; eletrocardiograma procurando alargamento de QRS
Oximas na intoxicação colinérgicaRecomendação condicional contra, na diretriz brasileira; não usadas rotineiramente nos carbamatos; agente incerto/misto e situações selecionadas exigem discussão com CIAToxAtropina em doses incrementais e suporte ventilatório

O carvão ativado não adsorve álcoois, sais de ferro nem lítio, e é contraindicado na exposição a hidrocarbonetos, óleos essenciais, hipoclorito de sódio e cáusticos.

Na exposição a solvente, não se passa sonda, não se lava o estômago e não se dá nada por via oral: a volatilização do conteúdo gástrico leva a aspiração do vapor.

Na atropinização, priorize controle de secreções brônquicas, ventilação e perfusão. Miose persistente não é indicação de perseguir midríase. Uma pressão sistólica acima de 80 mmHg, usada como referência em protocolo antigo, não garante perfusão adequada para todo adulto.

08

A conduta, hora a hora

A conduta do intoxicado é, em quase todos os casos, suporte: via aérea, ventilação, volume, glicose, temperatura e tempo. Os antídotos verdadeiros são poucos, e a maior parte dos pacientes atendidos por sobredose de medicamento não recebe nenhum deles e sai andando. O que decide o desfecho é a qualidade do suporte nas primeiras horas e a decisão de encaminhamento no fim.

A linha do tempo abaixo é do adulto encontrado inconsciente sem história. Toda dose está escrita por extenso, com a fonte que a sustenta, e com o volume que corresponde à apresentação disponível no SUS — porque erro de diluição de antídoto mata, e porque a atropinização de uma síndrome colinérgica grave consome dezenas de ampolas de 0,25 mg em poucos minutos, algo que ninguém percebe até ver a bandeja.

  1. Minuto 0 — antes de qualquer hipótese

    Segurança da equipe e da cena primeiro: roupa impregnada de inseticida contamina quem atende, e o vômito do paciente é fonte de contaminação. Retire as vestes com cuidado, cortando se necessário. Em seguida, via aérea: aspire secreção, posicione, ofereça oxigênio sob máscara não reinalante se a saturação estiver abaixo de 94% e ventile com bolsa-válvula-máscara se a frequência respiratória cair. Sem evidência de trauma, mantenha o paciente em posição de recuperação pelo risco de aspiração. Monitorize, pegue acesso venoso calibroso e colha as amostras nesse mesmo momento.

    Adulto em decúbito lateral, com mão próxima ao rosto, perna superior fletida e cabeça apoiada sem travesseiro volumoso; aspirador permanece separado.
    Posição lateral de recuperação para uma pessoa inconsciente que respira normalmente, com vigilância contínua da ventilação. A necessidade de proteção de via aérea e a possibilidade de trauma exigem avaliação própria; o posicionamento não substitui essas decisões.
    Prescrição
    • Oxigênio sob máscara não reinalante, 10 a 15 L/min, se saturação abaixo de 94% (SAMU 192, ATox 1).
    • Aspiração de vias aéreas e posição de recuperação, na ausência de trauma (SAMU 192, ATox 1).
    • Acesso venoso periférico calibroso, com coleta de amostras para exames de rotina e toxicológicos (Manual de Toxicologia Clínica, SMS-SP, 2017).
  2. Minuto 2 — as duas coisas de graça

    Meça glicemia imediatamente e corrija hipoglicemia. Associe tiamina no risco nutricional sem atrasar glicose. Meça a temperatura e procure causas tóxicas e não tóxicas: hipotermia não confirma intoxicação e febre pode ser infecciosa. Na hipertermia por toxíndrome, resfriamento físico, controle da agitação e suporte são centrais; antitérmico não corrige esse mecanismo.

    Prescrição
    • Glicose 50%, 40 mL por via intravenosa, se glicemia capilar abaixo de 70 mg/dL; repetir a medida e a dose se a hipoglicemia persistir (SAMU 192, ATox 4). Equivale a 20 g, ou 4 ampolas de 10 mL.
    • Tiamina parenteral prontamente no risco de deficiência, sem atrasar glicose na hipoglicemia. Diferenciar profilaxia de tratamento de Wernicke e seguir o esquema adequado à indicação.
    • Medidas físicas de resfriamento na hipertermia; antitérmicos usuais não são eficazes (SAMU 192, ATox 1).
  3. Minuto 5 — nomear a síndrome e o eletrocardiograma

    Faça o roteiro de segundos e nomeie a síndrome. Em paralelo, eletrocardiograma de doze derivações: você está procurando alargamento de QRS, que aponta bloqueio de canal de sódio, e prolongamento de QT. Colha gasometria arterial. É neste momento, e não depois do laboratório, que se decide se há indicação de antídoto.

    Prescrição
    • Eletrocardiograma de doze derivações e monitorização cardíaca contínua (Manual de Toxicologia Clínica, SMS-SP, 2017).
    • Gasometria arterial, hemograma, sódio, potássio, ureia, creatinina, transaminases, bilirrubinas e coagulograma (Manual de Toxicologia Clínica, SMS-SP, 2017).
    • Paracetamol sérico em toda ingestão intencional, colhido pelo menos 4 horas após a ingestão (Manual de Toxicologia Clínica, SMS-SP, 2017).
    • Beta-hCG em mulher em idade fértil.
  4. Minuto 10 — o antídoto, quando ele é o certo

    Na síndrome opioide com depressão respiratória, naloxona escalonada, e a meta é restaurar a ventilação, não acordar o paciente: reverter demais em usuário crônico transforma um paciente sonolento e estável em um paciente agitado, vomitando e em abstinência. Na síndrome colinérgica, atropina em doses incrementais até atropinizar, tendo como alvo a ausculta limpa e a axila seca — nunca a pupila. Na síndrome extrapiramidal, biperideno. Outras exposições também têm tratamentos específicos, como acetilcisteína no paracetamol e bicarbonato no bloqueio de canal de sódio. Reconhecer a síndrome orienta a primeira ação, mas não encerra a busca pelo agente e por indicações de antídoto ou eliminação extracorpórea.

    Prescrição
    • Naloxona IV titulada à ventilação: uma dose inicial de 0,04 mg pode ser usada no dependente que ainda ventila; apneia ou hipoxemia grave exigem ventilação assistida e reversão rápida. Repetir e aumentar conforme resposta e protocolo, sem impor a sequência 0,04 → 0,4 → 2 → 10 mg como universal. A apresentação de 0,4 mg/mL contém 0,04 mg em 0,1 mL antes da diluição; após diluir 1 mL em 9 mL de diluente, a concentração é 0,04 mg/mL.
    • Atropina, ataque de 0,6 a 3 mg por via intravenosa, dobrando a dose a cada 5 minutos até atropinização — frequência cardíaca acima de 80 bpm, pressão sistólica acima de 80 mmHg e ausculta pulmonar limpa (Diretrizes Brasileiras para intoxicações por agrotóxicos, Portaria SCTIE/MS n.º 79/2018). Com ampolas de 0,25 mg, 1 mg são 4 ampolas e 8 mg são 32.
    • Atropina, manutenção em infusão contínua de 10 a 20% da dose total necessária para atropinizar, por hora, em solução salina 0,9% (Portaria SCTIE/MS n.º 79/2018).
    • Biperideno 3 a 5 mg por via intramuscular ou intravenosa no adulto, na liberação extrapiramidal (SAMU 192, ATox 11). São 0,6 a 1 mL da apresentação de 5 mg/mL.
    • Não administrar flumazenil às cegas em paciente rebaixado sem agente definido (SAMU 192, ATox 11).
  5. Minuto 30 — descontaminação, se ainda couber

    Não induza vômitos nem faça lavagem gástrica de rotina. Carvão ativado tem indicação selecionada, para substância adsorvível e exposição relevante, com via aérea segura; formulações e absorção prolongada podem justificar uso depois de uma hora após discussão toxicológica. No coma de causa e horário desconhecidos, não administrar por reflexo. Na exposição externa, proteja a equipe e retire o agente: remover roupas e descontaminar pele conforme a substância; remover partículas secas antes de irrigar quando aplicável. Irrigar olhos prontamente e manter lavagem conforme pH e produto, sem usar apenas o relógio para encerrá-la.

    Prescrição
    • Carvão vegetal ativado, dose única de 1 g/kg até o máximo de 50 g, diluído a 8 mL por grama em soro fisiológico ou água potável, por via oral ou sonda, apenas nas condições acima (SAMU 192, ATox 14). Em adulto, 50 g em 400 mL.
    • Descontaminação cutânea: retirar as vestes e lavar a superfície exposta com água corrente abundante (SAMU 192, ATox 14).
    • Descontaminação ocular: lavagem com fluxo contínuo de soro fisiológico ou água, pálpebras abertas, do canto medial para a lateral, por no mínimo 20 minutos (SAMU 192, ATox 14).
  6. Hora 1 a hora 6 — o paracetamol que ninguém contou

    Considere paracetamol em ingestão intencional ou história pouco confiável, mesmo sem sintomas. Com horário conhecido, planeje dosagem a partir de quatro horas. Se houver suspeita relevante e esperar o resultado atrasar o início do antídoto além de oito horas, comece acetilcisteína enquanto investiga. Horário desconhecido e exposições repetidas exigem integração de concentração, aminotransferases e história. O benefício é maior cedo, mas o tratamento também pode beneficiar hepatotoxicidade tardia. Antes de parar, reavalie concentração, função hepática, coagulação e estado clínico; completar 21 horas não basta.

    Prescrição
    • Acetilcisteína intravenosa, protocolo de 21 horas: 150 mg/kg em 200 mL de soro glicosado a 5% em 60 minutos; depois 50 mg/kg em 500 mL em 4 horas; depois 100 mg/kg em 1.000 mL em 16 horas (Manual de Toxicologia Clínica, SMS-SP, 2017). Em adulto de 70 kg são 10,5 g, 3,5 g e 7 g — 21 g no total, cerca de 70 ampolas de 300 mg/3 mL.
    • Alternativa oral, quando não houver apresentação injetável e o paciente estiver acordado e sem vômito: 140 mg/kg de ataque, depois 70 mg/kg a cada 4 horas, em 17 doses (Manual de Toxicologia Clínica, SMS-SP, 2017).
    • Repetir transaminases, tempo de protrombina com razão normalizada internacional e função renal a cada 12 a 24 horas enquanto durar o tratamento.
  7. Hora 6 a hora 24 — observação e decisão de destino

    A observação é ativa e tem prazo. Na exposição a inibidor de colinesterase, o mínimo é de 6 a 12 horas de monitorização de alerta, sinais neurológicos, sinais vitais e oximetria; e há compostos altamente lipossolúveis que dão a primeira fraqueza muscular e insuficiência respiratória depois de 48 horas. Quem recebeu naloxona fica em observação prolongada, porque a meia-vida do antídoto é mais curta que a de vários opioides e o rebaixamento pode voltar — reversão não é critério de alta. Vaga de terapia intensiva se decide por instabilidade, necessidade de via aérea avançada, arritmia ou acidose refratária, não pelo nome do agente.

    Prescrição
    • Monitorização por no mínimo 6 a 12 horas na exposição a inibidores de colinesterase, com avaliação de alerta, sinais neurológicos, sinais vitais e oximetria (Portaria SCTIE/MS n.º 79/2018).
    • Manter monitorização prolongada após reversão com naloxona, pelo risco de recorrência da depressão respiratória (SAMU 192, ATox 11).
    • Reavaliar glicemia capilar a cada 4 a 6 horas enquanto o paciente permanecer rebaixado ou em jejum.
  8. Antes da alta — o que não é cortesia

    Duas coisas acontecem antes de qualquer alta. A primeira é a notificação: intoxicação exógena é agravo de notificação compulsória semanal, na Ficha de Investigação de Intoxicação Exógena, com preenchimento qualificado do campo do agente tóxico — nome comercial ou popular e princípio ativo. Sendo tentativa de suicídio, também se notifica na Ficha de Notificação Individual de Violência Interpessoal e Autoprovocada, em até 24 horas. A segunda é a avaliação de saúde mental, com o paciente lúcido: paciente sóbrio às seis da manhã foi desintoxicado, não avaliado. A avaliação de risco e o manejo são assunto do capítulo de risco de suicídio desta coleção; o que não se negocia aqui é o gatilho — toda intoxicação de circunstância intencional, ou de circunstância indeterminada em adulto, dispara essa avaliação antes da saída.

    Prescrição
    • Notificação no Sinan pela Ficha de Investigação de Intoxicação Exógena, com o campo do agente tóxico preenchido em nome comercial ou popular e princípio ativo (Guia de Vigilância em Saúde, 6. ed. rev., 2024).
    • Notificação na Ficha de Violência Interpessoal e Autoprovocada em até 24 horas quando a circunstância for tentativa de suicídio (Guia de Vigilância em Saúde, 6. ed. rev., 2024).
    • Avaliação de saúde mental com o paciente lúcido, registrada em prontuário, antes da alta.
    • Orientação escrita à família sobre guarda de medicamentos e produtos químicos em casa, e endereço do serviço de retorno.
09

Como saber se está funcionando

Cada intervenção do intoxicado tem uma janela de resposta própria, e todas são curtas. Antídoto e glicose respondem em minutos; suporte ventilatório responde na hora seguinte; a hepatotoxicidade do paracetamol se mede em dias. Ausência de resposta dentro da janela não é motivo para repetir a dose indefinidamente — é motivo para reabrir o diagnóstico.

Reavaliar significa refazer o mesmo exame e comparar com o anterior: as mesmas pupilas, a mesma ausculta, a mesma axila, a mesma frequência respiratória, anotados com horário. Uma foto isolada não diz nada; duas fotas separadas por dez minutos dizem se a conduta está funcionando.

Frequência respiratória e saturaçãoA cada 5 minutos na primeira meia hora; depois, contínuo

Esperado: Ventilação efetiva, volume corrente e frequência adequados, melhora da hipoxemia e proteção da via aérea. Após naloxona, frequência e SpO2 isoladas, sobretudo com oxigênio, podem não revelar hipoventilação residual; considere capnografia quando disponível.

Se não melhora: Mantenha ventilação assistida e prepare via aérea avançada se necessária. Ausência de resposta após doses adequadas de naloxona exige rever causa, coingestão, administração e potência/duração do opioide; 10 mg não é um teste universal que exclua participação opioide. Escalonamento e infusão devem ser discutidos conforme a resposta e com toxicologia.

Glicemia capilarImediatamente após a correção e a cada 4 a 6 horas enquanto rebaixado ou em jejum

Esperado: Acima de 70 mg/dL e estável

Se não melhora: Hipoglicemia que recorre após correção aponta hipoglicemiante oral de meia-vida longa, insulina ou insuficiência hepática. Repetir a glicose não basta: instale infusão contínua e busque a causa.

Nível de consciênciaA cada 15 minutos na primeira hora, depois de hora em hora

Esperado: Melhora progressiva ao longo de horas, à medida que a droga é metabolizada

Se não melhora: Paciente que não melhora em 6 a 12 horas, ou que piora, sai do território tóxico. Reabra o diagnóstico com tomografia de crânio, punção lombar se houver febre ou rigidez, e a hipótese de estado de mal não convulsivo — o roteiro completo está no capítulo de alteração do nível de consciência.

Secreção brônquica, sialorreia e axila (na síndrome colinérgica)A cada 5 minutos durante a atropinização

Esperado: Ausculta que limpa, sialorreia que cessa, axila que seca. Estes são os alvos; a miose reverte tarde e não serve de alvo

Se não melhora: Persistindo broncorreia e comprometimento ventilatório, reavalie a necessidade de atropina e suporte. Suspeita de toxicidade pelo antídoto exige avaliação imediata de temperatura, consciência, trânsito intestinal, retenção urinária e hemodinâmica, com ajuste ou pausa conforme gravidade. Não espere completar exatamente três sinais para intervir em uma reação grave.

Complexo QRS no eletrocardiogramaNa chegada e a cada 2 a 4 horas nas primeiras 12 horas se houve ingestão de agente com atividade em canal de sódio

Esperado: QRS estreito e estável

Se não melhora: QRS que alarga ao longo da observação é sinal de piora e antecede arritmia ventricular e hipotensão. Chame ajuda, transfira para leito monitorizado e conduza como intoxicação por bloqueador de canal de sódio.

Transaminases, razão normalizada internacional e creatinina (após ingestão de paracetamol)Na chegada e a cada 12 a 24 horas

Esperado: Transaminases estáveis e coagulação normal ao longo das primeiras 72 horas

Se não melhora: Transaminases em elevação com prolongamento da razão normalizada internacional indicam hepatotoxicidade instalada. Mantenha a última fase do protocolo de acetilcisteína, contate o CIATox e discuta transferência para serviço com hepatologia e possibilidade de transplante.

TemperaturaA cada hora

Esperado: Normotermia após aquecimento passivo ou resfriamento físico

Se não melhora: Hipertermia que não cede com medidas físicas em paciente rígido levanta síndrome serotoninérgica e síndrome neuroléptica maligna, que têm conduta própria. Hipotermia persistente reclama aquecimento ativo, porque abaixo de 32 graus o miocárdio fica irritável.

Diurese e função renalA cada 6 horas

Esperado: Diurese acima de 0,5 mL/kg/h

Se não melhora: Oligúria em intoxicado levanta rabdomiólise, hipovolemia e nefrotoxicidade direta. A investigação e o manejo da injúria renal aguda têm capítulo próprio nesta coleção; aqui, a decisão imediata é reavaliar volume e revisar toda a prescrição em busca de droga de eliminação renal.

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Onde o erro machuca

Esperar o exame toxicológico para decidir

O dano: O rastreio demora horas ou dias, não existe na maioria dos serviços, e nem positivo nem negativo muda a conduta. Enquanto se espera, o paciente segue com a via aérea desprotegida, a hipoglicemia não corrigida e o antídoto não administrado. O tempo perdido é o tempo em que a naloxona, a atropina e a acetilcisteína funcionam.

Como pegar a tempo: Fixe a sequência: glicemia, eletrocardiograma e exame dirigido decidem; o rastreio documenta. Se você se pegar dizendo 'vamos aguardar o toxicológico', pergunte em voz alta o que exatamente mudaria com o resultado.

Não medir a glicemia capilar em paciente rebaixado

O dano: Deixa passar a única causa que reverte por completo em minutos, e que pode conviver com qualquer intoxicação. O dano da hipoglicemia prolongada é neurológico e irreversível.

Como pegar a tempo: Meça glicemia imediatamente e trate hipoglicemia sem atraso. No risco nutricional, associe tiamina prontamente, sem esperar a vitamina para administrar glicose. Se não houver medida rápida disponível e a suspeita for forte, discuta tratamento imediato em paralelo à obtenção do valor.

Usar a pupila como alvo da atropinização

O dano: A miose é um dos últimos sinais a reverter na intoxicação colinérgica. Quem espera a pupila dilatar para parar a atropina dá dose demais; quem espera a pupila dilatar para acreditar que a atropina está funcionando para cedo e deixa o paciente afogado na própria secreção. A morte na síndrome colinérgica é respiratória.

Como pegar a tempo: Os alvos são ausculta pulmonar limpa, axila seca, frequência cardíaca acima de 80 bpm e pressão sistólica acima de 80 mmHg. Reavalie a cada cinco minutos e dobre a dose enquanto houver secreção.

Subestimar quantas ampolas a atropinização consome

O dano: Com a apresentação de 0,25 mg/mL, 1 mg são 4 ampolas e 8 mg são 32. Um esquema incremental que dobra a cada 5 minutos chega a dezenas de ampolas em poucos minutos. Quando a equipe descobre que a gaveta acabou no meio da titulação, o paciente já está piorando.

Como pegar a tempo: Ao nomear a síndrome colinérgica, mande buscar a caixa inteira de atropina antes de começar, e avise a farmácia. Calcule o volume junto com a dose, sempre.

Dar carvão ativado por reflexo, em paciente rebaixado

O dano: Pneumonia aspirativa, e a lista de complicações relatadas vai de empiema e pneumotórax a insuficiência respiratória e síndrome do desconforto respiratório agudo. E o benefício é pequeno: no maior ensaio disponível, com 1.310 pacientes, nem dose única nem doses múltiplas reduziram mortalidade.

Como pegar a tempo: Carvão não é rotina. Considere agente adsorvível, dose, tempo, formulação, trânsito intestinal e proteção da via aérea. O benefício costuma ser maior cedo, mas 60 minutos não é limite absoluto para todas as exposições. Horário desconhecido exige análise com toxicologia; não prova que a ingestão ocorreu fora de qualquer janela útil.

Aplicar flumazenil como teste diagnóstico no coma sem causa definida

O dano: Retira a proteção anticonvulsivante do benzodiazepínico em um paciente que frequentemente ingeriu mais de uma substância, e pode desencadear convulsão de difícil controle e arritmia. O protocolo brasileiro instrui explicitamente a evitar o antídoto no dependente.

Como pegar a tempo: Suporte ventilatório é reversível; antagonista não é. Se a tentação aparecer, faça o eletrocardiograma primeiro: alargamento de QRS resolve a discussão e reorienta o manejo inteiro.

Tratar a intoxicação e esquecer o paracetamol

O dano: É a intoxicação silenciosa: assintomática nas primeiras 24 horas, laboratorialmente evidente entre 24 e 72 horas, e clinicamente evidente quando o antídoto já perdeu quase todo o efeito. O paciente recebe alta bem e volta ictérico e coagulopata.

Como pegar a tempo: Em toda ingestão intencional, colha paracetamol sérico pelo menos 4 horas depois. Sem dosagem disponível, e havendo história de ingestão de analgésico ou antigripal, trate. Lembre que o paracetamol vem escondido em associações com codeína e em antigripais.

Concluir causa psiquiátrica antes de excluir causa orgânica

O dano: Quem tem transtorno mental prévio também faz hipoglicemia, hiponatremia por psicotrópico, intoxicação por lítio e hematoma subdural. O rótulo psiquiátrico colado cedo faz o paciente ser transferido sem tomografia, sem eletrólitos e sem observação.

Como pegar a tempo: Causa psiquiátrica é conclusão de exclusão. E o inverso também: o paciente clinicamente estabilizado não está pronto para alta enquanto não for avaliado quanto ao risco, com ele lúcido.

Dar alta na madrugada, com o paciente recém-sóbrio

O dano: Perde-se a única janela em que o serviço tem contato com uma pessoa cujo maior fator de risco para morrer por suicídio acabou de se materializar. A avaliação feita sob efeito agudo ou em abstinência mede um estado que vai mudar, e não vale.

Como pegar a tempo: Mantenha ambiente seguro e observação até poder avaliar com o paciente lúcido. Sobriedade recuperada não é critério de alta, e a avaliação de saúde mental precede a saída — o manejo do risco está no capítulo de risco de suicídio desta coleção.

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O que dizer ao paciente e à família

Neste capítulo, quase toda a conversa acontece com quem não é o paciente, porque o paciente está rebaixado. E boa parte dela é com pessoas que estão assustadas, envergonhadas ou culpadas — o que muda o tom, não o conteúdo.

Colhendo história com quem trouxe, quando não há acompanhante próximo

Preciso da sua ajuda com quatro coisas, e qualquer uma delas muda o que eu faço agora: o que ela pode ter tomado, quanto, que horas foi, e se pode ter sido mais de uma coisa. Se você conseguir voltar lá e trazer as caixas, os frascos, as cartelas, até as vazias, isso vale mais que qualquer exame que eu peça daqui.

Não diga: Não pergunte apenas 'o que ela tomou'. Pergunte o que havia ao alcance, quais medicamentos os outros moradores usam, se ela esteve em algum lugar diferente e a que horas foi vista bem pela última vez.

Contando à família que se trata de intoxicação por medicamento, em circunstância provavelmente intencional

O que aconteceu foi uma intoxicação por medicamento, e é isso que estamos tratando agora. Ela está respirando com nossa ajuda, está monitorizada e a maior parte desses casos tem boa recuperação clínica. Sei que é muito difícil ouvir. Quero que a senhora saiba de duas coisas: ninguém aqui vai cuidar dela com menos atenção por causa disso, e assim que ela estiver estável a equipe de saúde mental vai conversar com ela antes de qualquer alta.

Não diga: Não use as palavras 'ela tentou se matar' como abertura, não pergunte 'por que ela fez isso' e não prometa que não vai acontecer de novo.

Quando não se sabe o agente, e a família quer um nome

Ainda não sabemos qual foi a substância, e é possível que a gente não venha a saber. Isso incomoda, eu entendo, mas mudou pouco o tratamento: o que decide o que fazemos é o exame dela, e o exame já apontou o grupo de medicamento e o antídoto certo. O exame que identifica a substância demora dias e chegaria depois do tratamento.

Não diga: Não invente um agente para dar uma resposta, e não diga 'estamos aguardando o exame' quando não se está aguardando nada — isso cria a expectativa de que o resultado vai mudar alguma coisa.

Com o paciente, quando ele acorda

Bom dia. Você deu entrada aqui ontem à noite muito sonolento e a gente precisou ajudar você a respirar por algumas horas. Agora você está estável. Eu preciso entender o que aconteceu, no seu tempo, e não vim aqui julgar nada. Antes de você ir para casa, uma colega da saúde mental vai conversar com você — isso faz parte do atendimento, como o soro e o exame.

Não diga: Não interrogue sobre a quantidade nem sobre a intenção logo na primeira frase, não anuncie a avaliação de saúde mental como castigo ou condição, e não deixe a conversa para o momento da alta.

Orientando a família na alta

Duas coisas práticas mudam risco de verdade em casa. A primeira é onde ficam os medicamentos: guardados num lugar só, fora do alcance, e com alguém responsável por entregar a dose do dia. A segunda é este papel, com o endereço e o horário do serviço em que ele vai ser atendido, e o que fazer se piorar antes disso. Não é desconfiança de ninguém: é o mesmo cuidado que a gente teria com qualquer remédio depois de uma internação.

Não diga: Não transfira à família a responsabilidade de vigilância contínua, e não dê alta com encaminhamento apenas verbal.

Notificando, quando a família estranha

Vou preencher uma ficha de notificação, que é obrigatória para todo caso de intoxicação. Ela vai para a vigilância em saúde e serve para o serviço saber o que está acontecendo no município e agir. Não é boletim de ocorrência, não é denúncia e não muda o atendimento dela.

Não diga: Não deixe de notificar por receio da reação da família, e não apresente a notificação como formalidade sem sentido.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Descontaminação gástrica: lavagem e carvão de rotina, ou medida de exceção

Habitual, em duas etapas, até 1 a 2 horas

A descontaminação gastrintestinal se divide habitualmente em lavagem gástrica seguida de carvão ativado, com maior benefício na ausência de fatores de risco para complicação, na ingestão de quantidade potencialmente tóxica e nas ingestões recentes, isto é, até 1 a 2 horas da exposição. A indicação pode ser mais tardia quando o agente reduz o trânsito intestinal ou é de liberação prolongada.

Manual de Toxicologia Clínica, COVISA/SMS-SP, 1. ed., 2017

Fora da rotina, janela de 60 minutos

Não é recomendável o uso rotineiro de lavagem gástrica, com recomendação forte contra a intervenção, nem o uso rotineiro de carvão ativado, com recomendação condicional contra. O ensaio de referência, com 1.310 pacientes randomizados em dose única, doses múltiplas e nenhuma dose, não mostrou redução de mortalidade, de necessidade de intubação nem de convulsão. Ambas ficam restritas à ingestão de dose potencialmente letal ocorrida há menos de 60 minutos, com via aérea protegida.

Diretrizes Brasileiras para diagnóstico e tratamento das intoxicações por agrotóxicos, capítulo 2, Portaria SCTIE/MS n.º 79/2018

Como decidir

A evidência de uma exposição a agrotóxico não deve ser generalizada a todas as intoxicações medicamentosas. Lavagem gástrica permanece excepcional. Carvão depende de substância, dose, absorção, intervalo e via aérea; apresentações de liberação prolongada e algumas grandes ingestões podem merecer avaliação depois de uma hora. No rebaixado sem história, o risco de aspiração e a incerteza impedem uso automático. Ligue ao CIATox para decidir a exceção, mantendo suporte.

Oximas na intoxicação por inibidores de colinesterase

Contra o uso

Não se recomenda o uso de oximas na intoxicação por inibidores de colinesterase, com recomendação condicional contra a intervenção. A avaliação de cinco ensaios randomizados com pralidoxima não mostrou benefício em mortalidade, necessidade de ventilação mecânica ou síndrome intermediária, e há indícios de que possam ser prejudiciais no autoenvenenamento grave. São contraindicadas nas intoxicações por carbamatos.

Diretrizes Brasileiras para diagnóstico e tratamento das intoxicações por agrotóxicos, capítulo 2, Portaria SCTIE/MS n.º 79/2018

Disponível como insumo essencial

O metilsulfato de pralidoxima 200 mg solução injetável integra o Componente Básico da Assistência Farmacêutica, o que significa que é medicamento de aquisição e disponibilização prevista no nível municipal, e vários serviços mantêm a oxima em protocolo institucional de intoxicação por organofosforados.

Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024, Ministério da Saúde

Como decidir

Ter o medicamento e ter indicação para ele são coisas diferentes, e é a indicação que decide. A diretriz nacional é o documento que avaliou desfecho clínico e recomendou contra; a Rename é uma lista de disponibilidade, não uma recomendação de uso. Na prática de plantão, a decisão é: atropinize e ventile, que é o que muda mortalidade, e não gaste tempo procurando oxima. Se o protocolo do seu serviço prevê a oxima, isso é decisão institucional legítima e não é sua para revogar no meio do atendimento — mas ela nunca substitui nem atrasa a atropina, e em carbamatos isolados não é uso de rotina; intoxicação de agente desconhecido ou misto exige decisão toxicológica, sem proibição universal para todo cenário.

N-acetilcisteína: intravenosa em 21 horas ou oral em 17 doses

Protocolo intravenoso de 21 horas

Ataque de 150 mg/kg em 200 mL de soro glicosado a 5% em 60 minutos, seguido de 50 mg/kg em 500 mL em 4 horas e de 100 mg/kg em 1.000 mL em 16 horas. Curso completo em 21 horas.

Manual de Toxicologia Clínica, COVISA/SMS-SP, 1. ed., 2017

Protocolo oral de 17 doses

Ataque de 140 mg/kg por via oral, em 200 mL de soro glicosado a 5%, suco ou água, seguido de 70 mg/kg a cada 4 horas, num total de 17 doses. Curso completo em torno de 72 horas.

Manual de Toxicologia Clínica, COVISA/SMS-SP, 1. ed., 2017

Como decidir

A mesma fonte oferece os dois sem hierarquia, então a escolha é sua e depende do paciente à sua frente. No intoxicado sem história, que vomita, está rebaixado ou tem via aérea insegura, a via oral não é confiável: escolha a intravenosa, com dose administrada de modo controlado e reavaliação antes de encerrar o esquema. A via oral cabe quando não há apresentação injetável padronizada no serviço, o paciente está acordado, orientado e sem vômito, e alguém vai administrar 17 doses ao longo de três dias sem falhar nenhuma — condição menos trivial do que parece em enfermaria cheia. Some a isso um dado que pesa: a acetilcisteína não consta da Rename 2024, de modo que a apresentação que existe é a que o seu hospital padronizou, e é ela que define a via na prática. Descubra isso antes de precisar.

Qual é o alvo da atropinização

Frequência acima de 80 bpm e ausculta limpa

Dobrar a dose a cada 5 minutos até o paciente estar atropinizado, definido como frequência cardíaca acima de 80 bpm, pressão arterial sistólica acima de 80 mmHg e ausculta pulmonar limpa. A reversão da constrição pupilar pode ser tardia e não deve ser usada para determinar a continuidade da atropina.

Diretrizes Brasileiras para diagnóstico e tratamento das intoxicações por agrotóxicos, capítulo 2, Portaria SCTIE/MS n.º 79/2018

Frequência em torno de 120 bpm

Dose inicial de 1 a 4 mg no adulto, repetida a cada 5, 10, 15 ou 30 minutos até obter atropinização adequada, caracterizada por boa saturação de oxigênio, frequência cardíaca em torno de 120 bpm e redução da hipersecreção pulmonar.

Manual de Toxicologia Clínica, COVISA/SMS-SP, 1. ed., 2017

Como decidir

A distância entre 80 e 120 bpm é grande e vira dose de atropina em quantidade muito diferente. O que os dois documentos têm em comum é o alvo que realmente importa: a secreção. Atropinize pela ausculta e pela axila, e use a frequência cardíaca como piso de segurança, não como meta — subir de 50 para 90 bpm com ausculta limpa é atropinização suficiente, e não há motivo para perseguir 120. No outro extremo, taquicardia isolada não indica suspender a atropina, porque pode vir de hipóxia, hipovolemia ou pneumonia; toxicidade clinicamente relevante pode exigir ajuste ou pausa sem esperar completar três sinais — taquicardia grave, ausência de ruídos peristálticos, hipertermia, delírio ou retenção urinária. Se o paciente tem cardiopatia isquêmica conhecida, o custo de uma taquicardia alta é maior, e isso empurra a decisão para o alvo mais baixo.

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O raciocínio, em voz alta

Retome a mulher da abertura: encontrada caída no chão do banheiro, trazida sem acompanhante e sem documento, três e dez da manhã. Abre os olhos à dor e volta a fechar, não fala. Frequência respiratória 10, saturação 91% em ar ambiente, frequência cardíaca 52, pressão 92 por 58, temperatura axilar 35,4 graus. Pele seca e fria, pupilas de 2 mm iguais e reativas, abdome silencioso. Sem sinais de trauma à inspeção inicial. O laboratório do hospital não faz pesquisa toxicológica.

  1. O que penso antes de tocar em qualquer exame

    Tenho um problema de via aérea antes de ter um diagnóstico: frequência respiratória de 10 com saturação de 91% em paciente que não protege a via aérea é depressão respiratória, e é o que mata primeiro. Peço oxigênio sob máscara não reinalante, aspiro, posiciono em decúbito lateral e mando monitorizar. Só então penso em causa.

  2. O que faço de graça, e por quê

    Glicemia capilar e temperatura. A glicemia volta 96 mg/dL — tirei a causa mais reversível da mesa em um minuto. A temperatura de 35,4 graus me interessa: intoxicação aguda tende ao coma com hipotermia, enquanto infecção e estado de mal tenderiam ao contrário. Não é prova, mas empurra a probabilidade.

  3. O exame de segundos, e o que ele monta

    Quatro achados apontam na mesma direção: frequência respiratória baixa, frequência cardíaca baixa, temperatura baixa e pupila de 2 mm. Some a pele seca e o abdome silencioso. Isso não é um conjunto qualquer: é a síndrome opioide, e ela tem antídoto. O que exclui a colinérgica, que também faz miose e bradicardia, é justamente a secreção — esta paciente está seca, e a colinérgica encharca.

  4. O que peço, e o que espero de cada um

    Eletrocardiograma de doze derivações, procurando alargamento de QRS, porque coingestão é a regra e tricíclico tem conduta própria e urgente. Gasometria arterial, esperando hipercapnia que a oximetria não mostra. Bateria metabólica, para medir órgão. E paracetamol sérico, que é o único exame toxicológico que muda conduta — mas só vale colhido pelo menos 4 horas depois da ingestão, e eu não sei que horas ela ingeriu.

  5. O antídoto, e qual é a meta dele

    Naloxona escalonada por via intravenosa: 0,04 mg, depois 0,4 mg, depois 2 mg, a cada 2 a 3 minutos. Com a apresentação de 0,4 mg/mL, isso é 0,1 mL, depois 1 mL, depois 5 mL — diluo uma ampola em 9 mL de fisiológico para conseguir medir a primeira dose. A meta é a frequência respiratória subir acima de 12, não a paciente acordar. Começo baixo porque, se ela for usuária crônica, reverter demais transforma uma paciente estável numa paciente agitada, vomitando e em abstinência dentro da sala.

  6. A resposta, e o que ela muda

    Depois da segunda dose a frequência respiratória sobe para 16 e a saturação vai a 96%. Isso confirma a toxíndrome opioide melhor que qualquer exame — e não é critério de alta. A meia-vida da naloxona é mais curta que a de vários opioides, então ela fica em observação prolongada e monitorizada, com a naloxona à mão.

  7. O que eu não faço

    Não faço lavagem gástrica nem administro carvão automaticamente. A paciente está rebaixada, sem proteção confiável e com agente, dose e tempo incertos. Consulto toxicologia se os dados posteriores sugerirem indicação específica de descontaminação. Evito flumazenil empírico pelo risco em uso crônico e coingestão; o suporte não depende do resultado de uma triagem toxicológica.

  8. O paracetamol que ninguém contou

    Quatro horas depois da admissão, com ela mais acordada, ela confirma que tomou comprimidos de mais de um vidro, sem saber dizer quais. Colho paracetamol sérico. Como não sei o horário da ingestão, o nomograma não é interpretável com segurança — e a regra é tratar quando há dúvida com história de ingestão de dose potencialmente tóxica. Inicio acetilcisteína intravenosa pelo protocolo de 21 horas, depois de confirmar com a farmácia que o hospital padronizou a apresentação injetável.

  9. O que fecha o atendimento

    Notifico no Sinan pela Ficha de Investigação de Intoxicação Exógena e, por ser tentativa de suicídio, também pela Ficha de Violência Interpessoal e Autoprovocada, dentro de 24 horas. Peço avaliação de saúde mental com ela lúcida, antes de qualquer alta, e registro isso no prontuário. Oriento a família sobre guarda de medicamentos e entrego o encaminhamento por escrito. O desfecho do meu plantão não é a alta clínica: é o encaminhamento que impede a próxima.

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Faça você

Segunda-feira, 11h20, unidade de pronto atendimento em município do interior com base agrícola. Um homem de 46 anos é trazido por dois colegas de trabalho. Estava pulverizando lavoura desde as sete da manhã, começou a passar mal por volta das dez e foi encontrado sentado, confuso, no fim de um talhão. Está sonolento, responde com monossílabos. A camisa está encharcada e há um odor forte no ambiente. Frequência respiratória 26, saturação 88% em ar ambiente, frequência cardíaca 46, pressão 96 por 60, temperatura 36,1 graus. Pupilas puntiformes. Ausculta com estertores difusos e roncos nos dois hemitórax. Sialorreia visível, sudorese profusa, e fasciculação em coxa direita. Ruídos hidroaéreos aumentados; ele evacuou na roupa. A farmácia da unidade tem atropina em ampolas de 1 mL com 0,25 mg/mL.

  1. Passo 1 — a segurança que vem antes do paciente

    A camisa encharcada e o odor no ambiente dizem que o agente ainda está na cena. Antes de qualquer coisa: equipamento de proteção da equipe, retirada cuidadosa das vestes (cortando, se preciso), e lavagem da pele com água corrente abundante. Atendimento em ambiente arejado, longe do local da exposição.

  2. Passo 2 — a síndrome, montada no exame

    Miose, sialorreia, sudorese profusa, secreção brônquica com estertores difusos, bradicardia, diarreia, incontinência e fasciculação. É a síndrome colinérgica, e neste cenário o agente é um inibidor de colinesterase — inseticida organofosforado ou carbamato. O estertor difuso não é edema cardiogênico e não se trata com diurético.

  3. Passo 3 — o que se faz primeiro

    Via aérea e oxigênio em alto fluxo, aspiração de secreção, monitorização, acesso venoso, glicemia capilar e eletrocardiograma. A morte aqui é respiratória, por secreção e por fraqueza muscular, e a decisão sobre via aérea avançada pode chegar rápido.

  4. Passo 4 — o antídoto, e como se sabe que ele está funcionando

    Sua vez. Escreva a prescrição de atropina por extenso: dose de ataque, intervalo de reavaliação, como se escalona, quais são os alvos de atropinização e como se faz a manutenção. Diga também quantas ampolas de 0,25 mg cada degrau consome, o que você manda a equipe buscar antes de começar, e qual achado do exame não serve de alvo. Por fim: você prescreveria oxima neste paciente? Justifique.

Ver como fecharíamos

Atropina em doses incrementais, por via intravenosa: ataque de 0,6 a 3 mg, dobrando a dose a cada 5 minutos até atropinizar. Começando por 1 mg, a sequência é 1, 2, 4, 8 e 16 mg — respectivamente 4, 8, 16, 32 e 64 ampolas de 0,25 mg, o que acumula 31 mg e 124 ampolas se for preciso chegar ao quinto degrau. Por isso, ao nomear a síndrome, a primeira ordem é buscar a caixa inteira de atropina e avisar a farmácia. Os alvos de atropinização são ausculta pulmonar limpa, axila seca, frequência cardíaca acima de 80 bpm e pressão sistólica acima de 80 mmHg. A miose não serve de alvo: é um dos últimos sinais a reverter, e quem espera a pupila dilatar dá dose demais. Alcançada a atropinização, mantenha infusão contínua de 10 a 20% da dose total necessária, por hora, em solução salina a 0,9% — no exemplo dos 31 mg, algo entre 3 e 6 mg por hora. Reavalie continuamente e monitorize os cinco sinais de toxicidade por atropina: taquicardia grave, ausência de ruídos peristálticos, hipertermia, delírio e retenção urinária; três deles indicam pausar a infusão e reavaliar a cada 30 minutos, e a taquicardia isolada não indica suspender. A atropina age mal na acidose, então corrija a ventilação e a acidose em paralelo. Sobre a oxima: não. A diretriz brasileira recomenda contra o uso de oximas na intoxicação por inibidores de colinesterase, com base em cinco ensaios randomizados que não mostraram benefício em mortalidade, ventilação mecânica ou síndrome intermediária, e as oximas são contraindicadas nos carbamatos — que, neste país e neste cenário, são uma possibilidade concreta. Complete com observação de no mínimo 6 a 12 horas, notificação no Sinan com o campo do agente tóxico preenchido, marcação do campo de exposição decorrente do trabalho e emissão da comunicação de acidente de trabalho se ele for segurado.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

O caso não justifica descontaminação automática. Há sonolência, substância desconhecida e incerteza temporal; capacidade de responder ao chamado não garante proteção contra aspiração. Lavagem gástrica é excepcional e vômito induzido não é recomendado. Carvão pode ser considerado em exposições selecionadas, inclusive depois de uma hora quando houver absorção prolongada, mas isso exige análise do agente, dose, formulação e via aérea. Um estudo em agrotóxicos não prova ausência de benefício para todos os medicamentos. A prioridade agora é suporte e esclarecimento com toxicologia.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Calcule o volume de naloxona antes e depois da diluição e o total de atropina de uma sequência de 1, 2, 4 e 8 mg. Explique qual resposta faria interromper o escalonamento.

Em 30 dias

Conduza uma ingestão intencional com substância e horário incertos. Decida o que tratar já, quando colher paracetamol, se há indicação de carvão e quais condições clínicas e de saúde mental devem ser resolvidas antes da alta.

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Agora atenda

Três e vinte da manhã, você é o interno do plantão clínico de um hospital geral de médio porte. A ambulância traz uma mulher de 34 anos encontrada caída em casa pela irmã, que ficou para trás e não veio junto. Não há história, não há documento e o laboratório do hospital não faz pesquisa toxicológica. Ela abre os olhos à dor, respira 10 vezes por minuto, satura 91% em ar ambiente, está bradicárdica, hipotensa, hipotérmica, com pupilas de 2 mm, pele seca e abdome silencioso. Conduza: diga em que ordem examina, o que pede primeiro, que síndrome tóxica você nomeia e com base em quais achados, prescreva o antídoto por extenso com a dose em miligramas e o volume na apresentação de 0,4 mg/mL, diga qual é a meta da titulação, justifique por que não passa sonda, não dá carvão e não usa flumazenil, e explique o que precisa acontecer antes de essa paciente receber alta.

Intoxicação exógena — Internato | OsceLabs