Clínica Médica › Síndromes do Paciente na Emergência
Cefaleia no pronto-socorro
Quase toda dor de cabeça que entra pela porta é primária e vai embora com analgesia. A minoria que rompe, infecta ou comprime não se separa pela intensidade da dor: separa-se pela pergunta de quanto tempo a dor levou do zero ao máximo — que é a pergunta que menos se faz. Este capítulo é sobre fazer essa pergunta, decidir imagem com critério, tratar a crise de verdade e escrever uma alta que funcione.
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Bulas para o profissional de saúde aprovadas pela Anvisa: dipirona monoidratada comprimido 500 mg e solução gotas 500 mg/mL (Geolab), dipirona monoidratada solução injetável 500 mg/mL (Hypofarma), paracetamol solução gotas 200 mg/mL (Geolab), fosfato dissódico de dexametasona solução injetável 4 mg/mL (Eurofarma) e cloridrato de clorpromazina solução injetável 5 mg/mL (União Química)
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Homem de 63 anos chega ao pronto-socorro com cefaleia há um dia, temperatura de 38,4 e confusão iniciada na tarde de hoje. Está sonolento, com Glasgow 14, sem déficit motor, sem déficit de nervo craniano, com fundoscopia sem papiledema e rigidez de nuca presente. O tomógrafo do serviço está disponível, mas há dois pacientes na frente e a previsão é de duas horas. Qual é a sequência correta?
O paciente que você vai ver
Onze e quarenta da noite de um sábado, pronto-atendimento de hospital geral. O painel mostra vinte e nove pessoas esperando e, entre elas, quatro fichas trazem exatamente a mesma frase escrita pela classificação de risco: dor de cabeça. As quatro receberam pulseira verde. Você é o interno do plantão, e o clínico está na sala de emergência há vinte minutos com outro caso.
A primeira é a Rosangela, 32 anos, professora. Tem enxaqueca desde a adolescência, e a crise de hoje é a de sempre: começou devagar depois do almoço, foi apertando ao longo da tarde, é do lado esquerdo, lateja, piora quando ela anda, e ela já vomitou duas vezes. Está deitada na maca com o antebraço sobre os olhos e pede que apaguem a luz. É a que mais dor tem das quatro, e é a que menos preocupa.
O segundo é o Jonas, 44 anos, motorista de van escolar. A dor começou hoje às cinco e vinte da tarde, enquanto ele levantava um galão de água no fundo do quintal. Ele sabe a hora porque olhou o relógio: foi do nada para o insuportável antes de conseguir largar o galão no chão. Vomitou, sentou no chão, ficou ali uns quarenta minutos. Tomou um analgésico que a cunhada tinha em casa e melhorou bastante. Agora, seis horas depois, está sentado na cadeira da recepção, conversando, com dor 3 de 10, e já avisou a enfermeira que, se demorar, vai embora porque trabalha cedo. O exame neurológico dele é normal. É o único dos quatro que pode morrer esta noite.
O terceiro é o senhor Nivaldo, 63 anos, aposentado, trazido pela filha. Está com dor de cabeça desde ontem, temperatura de 38,4 medida na triagem, e a filha diz que ele está trocando as palavras desde a tarde e que dormiu o caminho inteiro dentro do carro. Ele responde ao nome, mas demora. Está na fila verde porque a queixa que a filha deu na recepção foi dor de cabeça, e a palavra confusão não foi escrita em lugar nenhum.
A quarta é a dona Marlene, 58 anos, diarista. Dor de cabeça quase todo dia há uns quatro meses, em aperto, dos dois lados. Ela toma, por conta própria, dois a três comprimidos de um analgésico com cafeína por dia, todo dia, e diz que agora eles não fazem mais o efeito que faziam. A pressão medida na triagem foi 178 por 104, e a enfermeira escreveu na ficha, de boa-fé, cefaleia hipertensiva. Se a consulta seguir o que está escrito na ficha, ela sai daqui com um anti-hipertensivo, um analgésico injetável e a doença dela intocada. Há uma ressalva decisiva: cefaleia nova aos 58 anos é sinal de alerta para causa secundária. O uso excessivo de analgésico pode contribuir, mas não encerra o diagnóstico; investigar padrão prévio de cefaleia e causas secundárias conforme história, exame e necessidade de imagem. Não transferir para esta paciente a conduta de um adulto jovem com cefaleia primária já estabelecida.
Essas quatro pessoas desenham o problema inteiro. A intensidade da dor não separa nenhuma delas: quem mais sofre é a que menos corre risco, e quem menos incomoda é o que pode voltar a romper em vinte e quatro horas. O sinal vital não separa: a pressão alta está na paciente em quem a pressão não é a causa. O tempo de queixa não separa: a dor mais antiga é a mais crônica e a mais nova é a mais aguda, e nenhuma das duas coisas decide sozinha. A idade separa um pouco, a febre separa bastante, e o dado que mais separa é um só, e é gratuito: quanto tempo a dor levou do zero até o máximo.
É essa a pergunta que decide o plantão. Na Rosangela a resposta é horas, e horas é o desenho de uma cefaleia primária. No Jonas a resposta é segundos, com o relógio na mão, e segundos é o desenho de alguma coisa que se rompeu. A melhora com o analgésico não desfaz o desenho: sangue no espaço subaracnóideo dói muito e depois dói menos, e o aneurisma que sangrou uma vez continua exatamente onde estava. É a pergunta mais barata da medicina de urgência, e é a que menos se faz, porque a conversa costuma começar por onde dói e por quanto dói, e não por quanto tempo levou para chegar lá.
O erro aqui é simétrico, e os dois lados custam caro. De um lado, o pronto-socorro que tomografa toda dor de cabeça: irradia, entope a fila de quem precisa, encontra achados incidentais que geram investigação sem fim e, ainda assim, não resolve, porque tomografia normal não exclui várias das coisas que se está procurando. Do outro, o pronto-socorro que dá alta com o carimbo de cefaleia tensional para quem teve um sangramento sentinela, e que descobre isso quando o paciente volta em coma. Nenhum dos dois erros se conserta comprando mais tomógrafo. Os dois se consertam com uma anamnese de quatro minutos, um exame que inclui o fundo de olho e a nuca, e uma régua escrita para decidir a imagem.
Quem adoece disso
Cefaleia responde por 4,5% dos atendimentos das unidades de emergência brasileiras e é o quarto motivo mais frequente de consulta nas unidades de urgência, segundo o protocolo nacional da Academia Brasileira de Neurologia e da Sociedade Brasileira de Cefaleia. Nos ambulatórios de clínica médica é a terceira queixa mais frequente, com 10,3%, atrás apenas de infecções de vias aéreas e dispepsias, e responde por 9,3% das consultas não agendadas nas unidades de saúde. A consequência desses números não é epidemiológica, é de calibração: esta é uma das poucas queixas que o interno vai atender centenas de vezes antes de se formar, e régua treinada no volume se descalibra sozinha. Aqui ela se descalibra para o lado de achar que já se sabe o que é antes de perguntar.
A prevalência de cefaleia ao longo da vida é de 94% nos homens e 99% nas mulheres, e cerca de 70% das pessoas tiveram o sintoma no último ano. Praticamente todo mundo tem dor de cabeça; pouquíssima gente tem dor de cabeça grave. Essa desproporção é a razão de a cefaleia secundária ser tão fácil de perder: a probabilidade a priori empurra o raciocínio para a hipótese banal, e a hipótese banal está certa na esmagadora maioria das vezes. O que se treina aqui não é desconfiar de todo mundo, é ter um filtro que muda a probabilidade antes de decidir.
A migrânea tem prevalência anual de 15,8% no Brasil, acometendo cerca de 22% das mulheres e 9% dos homens, com pico entre os 30 e os 50 anos; três em cada quatro casos são sem aura e cerca de 80% dos pacientes têm um familiar direto acometido. A cefaleia em salvas é rara em comparação, com um caso a cada mil pessoas e 85% delas em homens, mas produz uma dor descrita como excruciante e costuma passar anos sem diagnóstico. São números de consultório, e servem a uma decisão de pronto-socorro: a chance de a pessoa à sua frente ter uma cefaleia primária é altíssima antes mesmo de você abrir a boca, e é por isso que o achado capaz de reclassificá-la precisa ser procurado ativamente, e não esperado.
O número que muda a conduta é o que aparece quando se aplica o filtro certo. Na coorte canadense de 3.132 adultos que chegaram à emergência com cefaleia não traumática que atingiu o pico em até uma hora, com Glasgow 15 e sem déficit focal, 240 tinham hemorragia subaracnóidea, ou 7,7% do grupo. Numa segunda coorte, de 2.131 pacientes com a mesma definição, foram 132, ou 6,2%. Na fila inteira do pronto-socorro, hemorragia subaracnóidea é raridade; dentro do subgrupo que responde segundos ou poucos minutos à pergunta de quanto tempo a dor levou para chegar ao máximo, é um em cada quinze. A pergunta não descreve o paciente: reclassifica o paciente.
O mesmo vale na direção oposta. Numa série prospectiva de cem pacientes atendidos por cefaleia numa emergência hospitalar e classificados entre crítico e urgente pelo protocolo de Manchester, o diagnóstico final foi de cefaleia secundária em 65% e de cefaleia primária em apenas 33%, com 37 diagnósticos diferentes. Não é que a cefaleia secundária seja comum: é que a triagem, quando funciona, já concentrou os casos. Quem atende a fila verde e quem atende a sala vermelha estão diante de populações com prevalências opostas, e usar a mesma desconfiança nos dois lugares erra dos dois lados.
Um dado brasileiro fecha o quadro pelo lado do que se pode fazer. A cefaleia não tem Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas no Ministério da Saúde: a régua nacional é o protocolo de urgência da Academia Brasileira de Neurologia com a Sociedade Brasileira de Cefaleia, complementado pelos protocolos de encaminhamento da atenção primária. Isso tem consequência prática direta na prescrição. A lista de medicamentos que o serviço público tem para tratar a crise é a da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais, e o sumatriptano, que o próprio protocolo nacional recomenda como resgate, não está nela — nem ele nem qualquer outro triptano, nem os derivados ergotamínicos. Dipirona, paracetamol, ácido acetilsalicílico, ibuprofeno, metoclopramida, clorpromazina e dexametasona estão. Quem prescreve sem saber disso prescreve para um paciente que não vai conseguir o remédio.
Por que acontece o que acontece
O cérebro não dói. O parênquima cerebral não tem nociceptor, e por isso pode ser cortado, coagulado e biopsiado em paciente acordado sem que ele sinta nada. O que dói dentro do crânio é uma lista curta e vale a pena decorá-la, porque ela explica quase todo o capítulo: a dura-máter, sobretudo a da base do crânio e a que forra os grandes seios venosos; as artérias meníngeas e as grandes artérias da base; os próprios seios venosos; os nervos cranianos trigêmeo, glossofaríngeo e vago; e as raízes cervicais superiores, de C1 a C3. Fora do crânio doem a pele e os músculos pericranianos, as artérias superficiais, a mucosa dos seios paranasais, o olho, os dentes e a articulação temporomandibular.
A primeira consequência disso é contraintuitiva e derruba um medo comum. Como o tecido cerebral é insensível, um tumor só produz dor quando cresce o bastante para tracionar, deslocar ou comprimir alguma daquelas estruturas, ou quando eleva a pressão dentro da caixa. Quando isso acontece, quase sempre já apareceu outra coisa junto: crise convulsiva, déficit focal, mudança de comportamento, papiledema, vômito. Cefaleia isolada, sem nenhum outro achado, é uma forma ineficiente de um tumor se apresentar — e é por isso que tomografia pedida por dor de cabeça crônica sem sinal de alerta rende tão pouco. O exame não é ruim; a pergunta é que estava mal formulada.
A segunda consequência é a que estraga a intuição de localizar a lesão pela localização da dor. As aferências do primeiro ramo do trigêmeo e as das raízes C1 a C3 convergem sobre o mesmo grupo de neurônios de segunda ordem, no complexo trigeminocervical, na transição entre o bulbo e a medula cervical alta. Um único neurônio ali recebe informação da dura da fossa posterior, da musculatura da nuca e da testa. Por isso lesão de fossa posterior dói na testa, dissecção de artéria vertebral dói atrás da orelha e na nuca, e problema de coluna cervical alta dói na região frontal. Onde dói não diz onde está: quem diz é a instalação, o que acompanha e o exame.
Na migrânea, o gerador é o sistema trigeminovascular. Fibras do trigêmeo que envolvem os vasos meníngeos são ativadas e liberam neuropeptídeos, entre eles o peptídeo relacionado ao gene da calcitonina, produzindo vasodilatação e inflamação neurogênica estéril. Isso sensibiliza o próprio nociceptor, e é a sensibilização periférica que dá o caráter pulsátil e a piora com esforço físico: cada sístole distende um vaso já sensibilizado, e andar, subir escada ou abaixar a cabeça aumenta a pressão transmural. Depois de uma a duas horas de crise, a sensibilização sobe para o neurônio de segunda ordem e para o tálamo, e aparecem a alodínia do couro cabeludo — pentear o cabelo dói, o óculos incomoda — e a fotofobia e a fonofobia, que não são frescura do paciente, são amplificação sensorial documentada.
Dessa mesma fisiologia saem três decisões práticas. A primeira: a náusea e o vômito da migrânea vêm com gastroparesia, e estômago parado absorve mal. O comprimido que o paciente tomou em casa às vezes nem chegou ao sangue, e é por isso que o pronto-socorro usa via parenteral e associa antiemético — não apenas para o conforto, mas para a absorção. A segunda: os triptanos são agonistas dos receptores 5-HT1B e 5-HT1D, e agem exatamente aí, inibindo a liberação de neuropeptídeo e contraindo o vaso dilatado; é por serem vasoconstritores que são contraindicados em doença coronariana, vasculopatia periférica, hipertensão não controlada e em quem já usou outro vasoconstritor naquele dia. A terceira: a aura é uma onda de despolarização que atravessa o córtex a poucos milímetros por minuto, e é essa velocidade que explica por que a aura típica se instala progressivamente ao longo de pelo menos cinco minutos e dura até sessenta. Déficit que aparece instantâneo e completo não é aura: é vascular até prova em contrário.
A clorpromazina e a metoclopramida entram no tratamento da crise porque bloqueiam receptores dopaminérgicos centrais, e o bloqueio tem efeito analgésico próprio na migrânea, além do antiemético. Como são drogas de classe, seus efeitos adversos são previsíveis pela farmacologia e não são surpresas: a clorpromazina bloqueia também receptores alfa-1 e causa hipotensão postural, e o bloqueio dopaminérgico produz sintomas extrapiramidais, sobretudo acatisia — aquela inquietação que o paciente descreve como não conseguir ficar parado, e que é fácil confundir com ansiedade ou com piora da dor. É por isso que o protocolo nacional manda vigiar pressão e sinais extrapiramidais, orientar o paciente a não se levantar de repente, e não repetir a dose se qualquer um dos dois aparecer.
A hemorragia subaracnóidea produz a curva de dor mais característica da medicina, e a curva vem da física do evento. Sangue arterial irrompe no espaço subaracnóideo em fração de segundo, e duas coisas acontecem simultaneamente: a pressão intracraniana sobe de forma abrupta, o que reduz momentaneamente a pressão de perfusão cerebral e explica a síncope no início do quadro, e o sangue irrita quimicamente as leptomeninges. A dor acompanha a curva da pressão, e a curva da pressão é vertical. É por isso que o dado diagnóstico é o tempo até o pico e não a intensidade: uma crise de enxaqueca pode ser mais dolorosa do que uma hemorragia sentinela, mas nenhuma crise de enxaqueca chega ao pico em cinco segundos. A rigidez de nuca, quando aparece, aparece depois — porque depende da inflamação química das raízes, que leva horas.
O mesmo raciocínio explica por que a tomografia tem prazo de validade nesse diagnóstico. O sangue aparece hiperdenso na tomografia porque a hemoglobina atenua mais o raio X do que o líquido cefalorraquidiano. Com o passar das horas, o coágulo é diluído e removido pela circulação liquórica e a hemoglobina se degrada, de modo que a densidade cai progressivamente até o sangue ficar indistinguível do liquor. Nas primeiras horas a sensibilidade é praticamente total; no fim do primeiro dia já caiu; depois de alguns dias, uma hemorragia que existiu pode não deixar rastro nenhum na imagem. Um detalhe da mesma física merece registro: em anemia grave a hemoglobina é menor, o sangue atenua menos, e a hemorragia fica mais difícil de ver.
A punção lombar depende de outra biologia, e por isso tem o prazo invertido. As hemácias que caem no liquor precisam ser lisadas, e a hemoglobina liberada é convertida em oxi-hemoglobina e depois em bilirrubina por enzimas das leptomeninges e dos macrófagos. Isso não é instantâneo: leva horas. A xantocromia, que é a cor amarelada conferida por esses pigmentos, torna-se confiável a partir de cerca de doze horas do início da dor. Antes disso, o que se tem no tubo é sangue, e sangue no tubo tanto pode vir do espaço subaracnóideo quanto do vaso que a agulha atravessou. Ou seja: a tomografia é mais sensível cedo e a punção é mais informativa tarde, e as duas juntas cobrem a linha do tempo que nenhuma cobre sozinha.
Na meningite bacteriana, bactérias no espaço subaracnóideo desencadeiam liberação maciça de citocinas, aumento da permeabilidade da barreira hematoencefálica, edema e elevação da pressão intracraniana. A rigidez de nuca é um reflexo de proteção: as raízes inflamadas doem quando estiradas, e a musculatura cervical se contrai para impedir a flexão. Esse mecanismo tem uma implicação clínica dura. O sinal só existe depois que a inflamação atingiu as raízes, e por isso ele falta em parte dos casos, especialmente no idoso, no imunossuprimido e no paciente com rebaixamento de consciência. Ausência de rigidez de nuca não exclui meningite, e é exatamente por isso que a suspeita se baseia no conjunto — febre, cefaleia, alteração de consciência, exantema — e não num sinal isolado.
A hipertensão intracraniana obedece à doutrina de Monro-Kellie: crânio é caixa rígida, e o volume de sangue, liquor e parênquima soma um valor fixo. Quando alguma coisa cresce, o sistema compensa deslocando liquor e sangue venoso até não haver mais o que deslocar, e a partir daí pequenos aumentos de volume produzem grandes aumentos de pressão. Daí vêm as três perguntas da cefaleia progressiva. Dói mais deitado e ao acordar, porque o decúbito reduz a drenagem venosa e a hipoventilação do sono retém gás carbônico, que é vasodilatador cerebral. Piora com tosse, espirro, esforço evacuatório e atividade sexual, porque a manobra de Valsalva aumenta a pressão venosa central e, com ela, a intracraniana. E produz papiledema, porque a pressão do espaço subaracnóideo se transmite pela bainha do nervo óptico e estrangula o transporte axonal na cabeça do nervo. O fundo de olho, aqui, não é refinamento de especialista: é o único jeito de medir pressão intracraniana sem furar o paciente.
A cefaleia por uso excessivo de medicação tem mecanismo próprio e é uma doença criada no balcão da farmácia e no consultório. O uso frequente de analgésico altera os sistemas moduladores descendentes da dor, que partem do tronco encefálico e normalmente freiam a transmissão nociceptiva, e reduz o limiar de disparo do sistema trigeminovascular. Cada dose alivia e é seguida de rebote, o rebote pede outra dose, e o paciente entra numa espiral em que a droga que tratava a crise passou a produzi-la. A consequência terapêutica é dura e precisa ser dita ao paciente antes de começar: a única conduta que funciona é retirar o analgésico, e a retirada piora a dor por dias a semanas antes de melhorar. Quem não avisa isso perde o paciente na primeira semana.
Por fim, a arterite de células gigantes fecha o bloco porque é o mecanismo que justifica a única cefaleia em que o tratamento começa antes do diagnóstico. É uma vasculite granulomatosa de artérias de médio calibre com lâmina elástica interna, e a artéria temporal superficial é apenas a mais acessível delas. A inflamação da parede espessa o vaso e reduz a luz, e é isso que produz a dor no trajeto da artéria, o couro cabeludo doloroso ao toque e a claudicação de mandíbula, que é isquemia do masseter durante a mastigação. O problema é que os ramos ciliares posteriores, que irrigam a cabeça do nervo óptico, sofrem o mesmo processo: quando ocluem, o paciente perde a visão de forma súbita e definitiva, e frequentemente o outro olho segue em dias. O corticoide não espera biópsia porque a biópsia não devolve o nervo óptico.

Como se apresenta de verdade
O espectro da cefaleia no pronto-socorro não se organiza por onde dói nem por quanto dói. Organiza-se por três eixos, e os três são de anamnese: a curva de instalação, o que veio junto e o que mudou em relação ao que o paciente já tinha. Quem organiza assim consegue classificar quase todo mundo em dois minutos; quem organiza por localização e intensidade fica com uma lista de adjetivos que não decide nada.
O protocolo nacional brasileiro trabalha com quatro cenários, e vale usá-los porque são a linguagem em que o encaminhamento e a regulação estão escritos: cefaleia aguda recorrente, que é o paciente com crises que se repetem; cefaleia crônica não progressiva, que é a dor quase diária que não muda; cefaleia crônica progressiva, que é a que piora ao longo de semanas; e cefaleia aguda emergente, que é a dor nova ou francamente diferente das anteriores. As três primeiras quase nunca matam esta noite. A quarta é o capítulo inteiro.
Percurso de aprendizagem
Pergunte pelo tempo até o pico, mudança do padrão, idade de início, sintomas sistêmicos e visuais. Intensidade atual baixa e melhora com analgésico não excluem emergência.
Na cefaleia em trovoada, explique por que cronologia, qualidade da TC e risco clínico determinam o próximo exame. Na suspeita de meningite, exames não podem atrasar antibiótico.
Na cefaleia primária, escolha via e medicamento pela situação clínica e revise uso excessivo. Retorno, prevenção e sinais de alerta completam o tratamento.
As cinco curvas de instalação, e por que elas decidem
Peça ao paciente que separe duas coisas que ele mistura naturalmente: quando a dor começou e quando ela chegou ao máximo. A pergunta que funciona é concreta: do momento em que o senhor sentiu a primeira fisgada até o momento em que a dor estava no pior que ficou, passou quanto tempo — segundos, minutos, horas? E complete: o que o senhor estava fazendo exatamente nesse momento? A resposta desenha uma de cinco curvas.
Instalação súbita, com pico em menos de um minuto, é o que o protocolo nacional chama de cefaleia de instalação súbita e o que a literatura chama de cefaleia em trovoada. A lista de causas é curta e quase toda vascular: hemorragia subaracnóidea, hemorragia intraparenquimatosa, dissecção de artéria cervical, trombose venosa cerebral, apoplexia hipofisária, hidrocefalia aguda e a síndrome de vasoconstrição cerebral reversível. Não existe cefaleia primária que se instale assim na primeira vez, e a única forma segura de tratar esse dado é como emergência até prova em contrário.
Instalação aguda em minutos a horas, com o paciente progressivamente pior ao longo do dia, é a curva da migrânea, da cefaleia tensional e também de boa parte das secundárias infecciosas e inflamatórias. Aqui a curva não decide sozinha: quem decide é a febre, o exame neurológico e o contexto.
Instalação subaguda progressiva, em dias a semanas, com a dor piorando degrau a degrau e sem voltar ao zero entre um dia e outro, é a curva mais perigosa fora da emergência. Aponta para processo expansivo, hematoma subdural crônico, hipertensão intracraniana, abscesso, meningite crônica, arterite. É a curva que mais se subestima porque o paciente chega andando e não parece grave.
Dor crônica não progressiva, presente há meses, sempre igual, é a curva das cefaleias primárias crônicas e da cefaleia por uso excessivo de analgésico. Não é emergência, mas é a que mais sai do pronto-socorro sem diagnóstico correto.
E a curva em crises curtas e repetidas, várias por dia, com intervalos completamente livres, sobretudo se despertam o paciente de madrugada, é a das cefaleias trigêmino-autonômicas. Nessa faixa, quinze a cento e oitenta minutos de dor excruciante estritamente de um lado, com olho vermelho, lacrimejamento, nariz entupido e agitação, tem nome e tem tratamento imediato.

As primárias que enchem a sala de espera
A migrânea, na descrição do protocolo nacional, é dor de forte intensidade, latejante, unilateral em dois terços das crises e trocando de lado entre elas, que piora com atividade física e vem com náusea, vômito, fotofobia e fonofobia. A crise dura de quatro a setenta e duas horas. A aura, quando existe, é um distúrbio visual que se instala ao longo de pelo menos cinco minutos e dura até sessenta, com pontos luminosos ou perda de parte do campo, às vezes seguida de parestesia unilateral ou dificuldade para falar. Passadas as setenta e duas horas de dor contínua, com intervalos livres menores que doze horas, o quadro tem nome próprio e conduta própria: estado migranoso.
A cefaleia do tipo tensional é a mais frequente de todas: dor em aperto ou pressão, leve a moderada, quase sempre dos dois lados, que aparece no fim do dia, não impede as atividades e pode até melhorar com exercício leve. Náusea e vômito estão ausentes. Pode haver dor à palpação cuidadosa da musculatura pericraniana. O erro típico com ela não é diagnóstico: é usar o rótulo como sinônimo de dor sem causa, e carimbá-lo em quem não foi perguntado.
A cefaleia em salvas acomete uma pessoa em mil, oito em cada dez são homens, e a apresentação é inconfundível quando se conhece: dor excruciante em torno de um olho, sempre do mesmo lado, de quinze a cento e oitenta minutos, com hiperemia conjuntival, lacrimejamento, congestão nasal, sudorese, ptose ou miose do mesmo lado, e uma inquietude motora que é o oposto do paciente com enxaqueca — este quer ficar imóvel no escuro, aquele anda pela sala. Ela tem tratamento agudo específico e não responde a analgésico comum.
A classificação completa dessas três, os critérios diagnósticos formais e sobretudo o tratamento profilático são assunto dos capítulos de Neurologia sobre cefaleias primárias, e não são reescritos aqui. O que este capítulo precisa é do suficiente para reconhecê-las na porta, tratar a crise e não confundi-las com o que se parece com elas.
A primeira dor de cabeça da vida não é primária
Há uma armadilha lógica escondida nos critérios diagnósticos e ela vale ouro no pronto-socorro. A classificação internacional exige pelo menos cinco crises para se diagnosticar migrânea sem aura. O número não é decorativo: existe porque uma ou poucas crises são indistinguíveis de crises sintomáticas de outra doença. Ou seja, o paciente que chega dizendo que nunca tinha tido dor de cabeça assim antes não pode receber, naquele atendimento, o diagnóstico de cefaleia primária. Ele pode ter uma, e provavelmente tem; mas o diagnóstico ainda não está disponível, e o rótulo aplicado ali é uma aposta, não uma conclusão.
O protocolo nacional coloca a primeira cefaleia da vida entre os sinais de alerta, junto com a cefaleia de início súbito, e é por isso. A conduta prática que sai daí é simples e evita a maior parte dos desastres desta queixa: em toda dor de cabeça, pergunte se ela é parecida com alguma que o paciente já teve. Se a resposta for que é a de sempre, o terreno é conhecido. Se for que é a primeira, ou que é diferente, o paciente mudou de categoria, mesmo que a dor esteja fraca e mesmo que ele já tenha diagnóstico de enxaqueca há vinte anos.
O corolário é a frase que mais custa vida nesta queixa: mas ele já tem enxaqueca. Ter enxaqueca não protege contra hemorragia subaracnóidea, contra meningite ou contra trombose venosa; protege apenas contra o médico continuar perguntando. O paciente com cefaleia primária conhecida que chega com uma dor diferente da dele é um paciente com cefaleia nova, e a lista se refaz inteira.
A que rompe: as súbitas
A hemorragia subaracnóidea é o diagnóstico que organiza a urgência da cefaleia, não porque seja o mais comum, mas porque é o mais tempo-dependente e o mais fácil de perder. A apresentação clássica é a dor que atinge o máximo em segundos, muitas vezes durante esforço, evacuação, tosse ou atividade sexual, com náusea, vômito, e às vezes perda transitória da consciência no início. Rigidez de nuca aparece em parte dos casos, mas costuma levar horas. O paciente pode estar perfeitamente lúcido, sem nenhum déficit, com a dor já bem menor por causa do analgésico que tomou em casa — e essa apresentação boa é justamente a mais perigosa, porque é a que recebe alta.
A hemorragia sentinela merece nome próprio na sua cabeça. É um sangramento pequeno que precede o sangramento grande em dias a semanas, dói forte, passa, e o paciente segue a vida. Quando ele procura o serviço, está no melhor momento possível para ser salvo e no pior momento possível para ser levado a sério. É a razão de a pergunta sobre instalação valer para dor que já passou.
A dissecção de artéria carótida ou vertebral costuma vir com dor cervical e occipital ou periorbitária de instalação abrupta, frequentemente após um movimento brusco do pescoço, manipulação cervical ou trauma pequeno, e pode trazer síndrome de Horner do mesmo lado — pálpebra caída e pupila menor — ou sintomas isquêmicos horas a dias depois. A trombose venosa cerebral engana porque a cefaleia pode ser o único sintoma por dias: é mais comum em mulheres em uso de contraceptivo hormonal, na gestação e no puerpério, em trombofilias, desidratação e infecção de face ou ouvido, e pode se apresentar com crise convulsiva, papiledema ou déficit que não respeita território arterial. A apoplexia hipofisária é a dor súbita retro-orbitária com alteração visual, oftalmoplegia e sinais de insuficiência adrenal aguda; a conduta, com a hidrocortisona que não espera ressonância nem cortisol, está em Doenças da hipófise (diabetes insípido, acromegalia, hipopituitarismo), na apostila de Endocrinologia. A síndrome de vasoconstrição cerebral reversível dá cefaleias em trovoada repetidas ao longo de dias a semanas, tipicamente em mulheres, no puerpério ou associadas a vasoconstritores, cocaína, anfetaminas e alguns antidepressivos.
A suspeita e a conduta imediata dessas condições são deste capítulo. O manejo depois do diagnóstico — controle pressórico, nimodipino, tratamento do aneurisma, indicação cirúrgica, anticoagulação da trombose venosa — pertence aos capítulos de acidente vascular cerebral hemorrágico e hemorragia subaracnóidea e ao de acidente vascular cerebral isquêmico, e sai remetido.
A que infecta: febre com cefaleia
A definição de caso suspeito de meningite do Guia de Vigilância em Saúde é deliberadamente ampla: adulto com febre, cefaleia, vômitos, rigidez de nuca, sinais de irritação meníngea, convulsões e/ou manchas vermelhas no corpo. Na meningococcemia, o mesmo documento manda atentar para eritema ou exantema e para sinais inespecíficos de septicemia como hipotensão, diarreia, dor abdominal, dor em membros inferiores, mialgia e rebaixamento do sensório. A amplitude é proposital: perder o caso custa mais do que investigar um caso a mais.
A tríade clássica de febre, rigidez de nuca e alteração do estado mental está completa numa minoria dos pacientes, e a ausência de rigidez de nuca não afasta o diagnóstico — especialmente no idoso, no imunossuprimido e em quem já está rebaixado. Na prática, o gatilho para agir é a combinação de febre com cefaleia e qualquer um dos seguintes: confusão, sonolência, crise convulsiva, exantema petequial ou aspecto toxêmico. Foi exatamente essa combinação que a triagem do senhor Nivaldo, no começo do capítulo, não capturou, porque a queixa registrada foi dor de cabeça e a confusão não foi escrita.
No Brasil há um ruído específico e ele funciona nos dois sentidos. Febre com cefaleia intensa, dor retro-orbitária e mialgia em período epidêmico é dengue até que se pense o contrário, e essa é a hipótese certa na esmagadora maioria das vezes. Só que meningite meningocócica também dá febre, cefaleia, mialgia e manchas na pele, e o exantema petequial que não desaparece à digitopressão é um achado que muda tudo. A regra prática que resolve os dois lados: em síndrome febril com cefaleia, examine a pele inteira despida e o nível de consciência com atenção, e trate como arbovirose apenas quem não tem nenhum dos sinais que apontam para o sistema nervoso central. O manejo da dengue, seus sinais de alarme e o que não prescrever nela são do capítulo de dengue, zika e chikungunya.
O que este capítulo cobre é a decisão da porta: o que levanta a suspeita, o que se faz antes da punção lombar e em que ordem. A investigação etiológica completa, o tratamento por agente e o seguimento pertencem aos capítulos de meningites, e ficam remetidos.
A que comprime: as progressivas
A cefaleia atribuída a distúrbio intracraniano não vascular, na descrição do protocolo nacional, é dor diária de intensidade progressiva, holocraniana, pior ao acordar pela manhã e durante atividade física, tosse ou manobra de Valsalva. Esse conjunto de três características — progressiva, pior ao acordar, pior com Valsalva — é o retrato falado da hipertensão intracraniana, e é o que se procura ativamente na anamnese de qualquer dor de cabeça que dure semanas.
Os diagnósticos por trás são neoplasia intracraniana primária ou metastática, hematoma subdural crônico, abscesso cerebral, hidrocefalia, meningites crônicas associadas ou não ao vírus da imunodeficiência humana, e hipertensão intracraniana idiopática. O hematoma subdural crônico merece destaque prático porque é o mais tratável e o mais esquecido: idoso, em uso de anticoagulante ou antiagregante, com queda que ninguém lembra de mencionar porque foi há três semanas e não teve consequência aparente, agora com dor de cabeça, lentificação e às vezes um déficit discreto. Pergunte por queda em todo idoso com cefaleia nova, com essas palavras, porque o dado não vem espontaneamente.
A hipertensão intracraniana idiopática tem um perfil que vale reconhecer: mulher jovem com sobrepeso, cefaleia diária progressiva, obscurecimentos visuais transitórios de segundos ao mudar de posição, zumbido pulsátil e diplopia por paresia do sexto nervo. O achado que fecha a suspeita é o papiledema, e ele só existe para quem olha o fundo de olho.
A que cega: as duas urgências oculares
Arterite de células gigantes é a cefaleia em que o relógio corre contra a visão. O perfil é paciente acima de cinquenta anos, com cefaleia nova ou de padrão novo, tipicamente temporal, associada a dor à palpação e endurecimento da artéria temporal superficial, claudicação de mandíbula ao mastigar, dor no couro cabeludo ao pentear ou ao deitar no travesseiro, sintomas de polimialgia reumática, febre baixa e perda de peso. O TelessaúdeRS coloca exatamente esse conjunto entre os sinais de alerta que exigem manejo em serviço de urgência: padrão novo de cefaleia iniciada em paciente com mais de cinquenta anos, com dor à palpação e edema da artéria temporal superficial, mialgias e velocidade de hemossedimentação elevada. A perda visual, quando acontece, é súbita, indolor e definitiva, e o segundo olho costuma seguir em dias.
Glaucoma agudo de ângulo fechado entra aqui porque se apresenta como dor de cabeça e é diagnosticado como enxaqueca com frequência assustadora. A dor é intensa, periorbitária ou hemicraniana, com náusea e vômito exuberantes que desviam a atenção para o abdome, e vem com olho vermelho, visão borrada, halos coloridos ao redor das luzes e uma pupila em midríase média que não reage. O TelessaúdeRS lista a suspeita de glaucoma entre os sinais de alerta, descrevendo-a como pupila fixa com midríase média e olho vermelho. O detalhe que evita o erro é banal: em toda cefaleia com vômito, olhe os olhos do paciente com a luz do ambiente acesa antes de apagá-la para ele descansar.
O que muda em quem não é o adulto padrão
No idoso, a probabilidade de causa secundária sobe de forma acentuada, e a apresentação empobrece: menos dor, menos sinal meníngeo, mais confusão. Cefaleia nova depois dos cinquenta anos já é sinal de alerta no protocolo nacional e nos protocolos de encaminhamento; depois dos sessenta e cinco, a lista internacional de sinais de alerta a mantém como item independente. Some a isso a pergunta sobre queda e sobre anticoagulante, que muda a conduta sozinha.
No imunossuprimido — pessoa vivendo com o vírus da imunodeficiência humana, transplantado, em quimioterapia, em corticoide crônico ou em imunobiológico — cefaleia é achado de alto risco por definição, e os dois protocolos brasileiros colocam a imunossupressão entre os sinais de alerta. O espectro muda: criptococose, neurotoxoplasmose, tuberculose do sistema nervoso central, linfoma. E a inflamação amortecida faz a febre e a rigidez de nuca faltarem justamente em quem mais precisa delas.
Na gestante e na puérpera, cefaleia nova tem lista própria e curta: pré-eclâmpsia e eclâmpsia, trombose venosa cerebral, síndrome de vasoconstrição cerebral reversível, encefalopatia posterior reversível e, no pós-parto recente com anestesia neuroaxial, cefaleia pós-punção — esta última tipicamente postural, pior de pé e melhor deitada, o que é o oposto da cefaleia por hipertensão intracraniana. Cefaleia com pressão elevada após a vigésima semana de gestação é pré-eclâmpsia até prova em contrário, e o manejo está no capítulo de pré-eclâmpsia.
No paciente em uso de anticoagulante ou com discrasia sanguínea, qualquer cefaleia nova sobe de categoria, e o protocolo de encaminhamento a lista explicitamente. E no paciente com câncer, cefaleia de padrão novo é metástase até que se demonstre o contrário, mesmo com o tumor primário controlado.
A cefaleia que a pressão não explica
A ficha da dona Marlene dizia cefaleia hipertensiva, e é o rótulo que mais se escreve sem critério no Brasil. A classificação internacional é numérica e clara sobre isso: para atribuir a dor à hipertensão arterial é preciso pressão sistólica de pelo menos 180 mmHg e/ou diastólica de pelo menos 120 mmHg, e é preciso que a dor tenha surgido em relação temporal com a elevação e melhore quando a pressão melhora. E o mesmo documento diz, com todas as letras, que hipertensão leve, de 140 a 159 por 90 a 99 mmHg, e moderada, de 160 a 179 por 100 a 109 mmHg, não parecem causar cefaleia.
A inversão causal é o que faz o estrago. Dor forte eleva a pressão pela descarga adrenérgica; a pressão elevada é então medida na triagem e vira o diagnóstico; o diagnóstico dispensa a investigação; e a causa real da dor sai pela porta com o paciente. O teste é barato e leva quarenta e cinco minutos: trate a dor, deixe o paciente deitado em ambiente calmo e meça a pressão de novo. Se a pressão caiu junto com a dor, ela era consequência.
Há uma exceção que puxa na direção contrária e não pode ser esquecida. Pressão muito elevada com cefaleia, alteração visual, confusão, náusea ou crise convulsiva pode ser encefalopatia hipertensiva, que é emergência hipertensiva de verdade e exige redução controlada da pressão em ambiente monitorizado. A diferença entre as duas situações não está no número: está em haver ou não lesão aguda de órgão-alvo. A régua completa da emergência e da urgência hipertensiva é do capítulo de crise hipertensiva.
A cefaleia que o balcão da farmácia criou
A cefaleia por uso excessivo de medicação se apresenta como dor em quinze ou mais dias por mês, em alguém que já tinha cefaleia antes, que vem usando analgésico com regularidade e cuja dor mudou de caráter: perdeu a pulsação, perdeu boa parte da náusea e da fotofobia, ficou mais difusa, mais constante e menos responsiva ao remédio que antes resolvia. O paciente costuma descrever exatamente isso — que o comprimido não faz mais o efeito que fazia — e essa frase é diagnóstica quando acompanhada da contagem.
A contagem tem números diferentes por classe, e essa é a parte que quase ninguém sabe de cabeça. Analgésicos simples e anti-inflamatórios, incluindo paracetamol, dipirona e ácido acetilsalicílico, configuram uso excessivo a partir de quinze dias por mês. Triptanos, derivados ergotamínicos, opioides e analgésicos combinados — aqueles que trazem cafeína ou codeína junto — configuram a partir de dez dias por mês. Em qualquer dos casos, é preciso que o uso esteja assim há mais de três meses. A combinação de várias classes, mesmo sem que nenhuma isoladamente ultrapasse seu limite, conta a partir de dez dias por mês somados.
A consequência para o pronto-socorro é direta e é sobre a sua própria prescrição. Toda dose que você dá é um dia de uso; todo receituário de analgésico de horário fixo por tempo indeterminado é uma máquina de produzir essa doença; e o paciente que volta pela quarta vez no mês para tomar dipirona venosa não está sendo mal atendido por falta de remédio, está sendo mantido doente pelo remédio. Perguntar quantos dias por mês o paciente toma analgésico é tão parte do exame quanto medir a pressão, e leva o mesmo tempo.
Como fechar o diagnóstico
Na cefaleia, o exame que fecha o diagnóstico quase nunca é o primeiro exame pedido, e o que decide quem precisa de exame não é exame nenhum. A história é o instrumento diagnóstico, e ela tem sensibilidade melhor do que a tomografia para várias das doenças que se está procurando — porque a tomografia é normal na meningite, na arterite, na trombose venosa em fase inicial e na hemorragia subaracnóidea tardia, e a história não é.
Este bloco tem uma ordem: primeiro o que perguntar, depois o que examinar, depois quem tomografa, depois o que fazer quando a tomografia volta normal, e por último o que não pedir e o que o serviço público tem.
As sete perguntas, na ordem, sempre
A primeira é a que mais decide e a que menos se faz: em quanto tempo a dor foi do zero ao máximo? Segundos, minutos, horas? Faça a pergunta com essas três opções na boca, porque a pergunta aberta devolve há quanto tempo começou, que é outra coisa. Complete com o que o paciente estava fazendo naquele instante, porque esforço, tosse, evacuação e atividade sexual são gatilhos que apontam para o mesmo grupo vascular. E não desconte a pergunta porque a dor já melhorou: hemorragia sentinela é exatamente isso, uma dor terrível que passou.
A segunda: é parecida com alguma dor que você já teve? A resposta divide o mundo entre terreno conhecido e terreno novo. Se o paciente tem cefaleia primária, pergunte especificamente o que está diferente desta vez — o lado, a intensidade, o que acompanha, a resposta ao remédio de sempre.
A terceira: o que veio junto? Febre, calafrio, vômito, alteração da visão, dificuldade para falar, fraqueza, formigamento, crise convulsiva, confusão, sonolência, manchas na pele, rigidez ou dor no pescoço. Cada um desses aponta para um lado diferente do mapa, e é essa a razão de a lista de sinais de alerta ser um mapa e não uma lista para decorar.
A quarta: o que piora e o que melhora? Piora ao deitar, ao acordar, ao tossir, ao espirrar, ao fazer força — hipertensão intracraniana. Melhora ao deitar e piora ao ficar de pé — hipotensão liquórica, inclusive a pós-punção. Piora com a mastigação — arterite. Piora com movimento habitual e melhora no escuro e no silêncio — migrânea.
A quinta: quantos anos você tem, e quando essa dor começou na sua vida? Cefaleia que começa depois dos cinquenta anos é sinal de alerta no protocolo nacional brasileiro e nos protocolos de encaminhamento; a lista internacional de sinais de alerta usa sessenta e cinco anos como corte próprio. Onde as duas divergem, este capítulo fica com cinquenta, porque é o corte brasileiro, porque é o corte a partir do qual a arterite de células gigantes existe, e porque na validação prospectiva da lista internacional o item que foi de fato medido e teve sensibilidade de 64,4% foi o de início após os cinquenta anos.
A sexta: o que você tem e o que você toma? Câncer em qualquer época, vírus da imunodeficiência humana, imunossupressor, corticoide, anticoagulante ou antiagregante, discrasia sanguínea, gestação ou parto recente, contraceptivo hormonal, cocaína ou anfetamina, e queda ou pancada na cabeça nas últimas semanas. A pergunta sobre queda precisa ser feita com essas palavras ao idoso, porque uma queda sem consequência aparente há três semanas não é lembrada espontaneamente.
A sétima: quantos dias por mês você toma remédio para dor de cabeça? Peça um número, não um advérbio. Essa pergunta não serve para hoje: serve para o diagnóstico que ninguém faz e que é a causa mais comum de dor de cabeça diária no consultório.
O exame que muda decisão, em cinco minutos
Comece pelos sinais vitais completos, e a temperatura é o dado que mais se deixa de medir. Pressão nos dois braços em cefaleia súbita, frequência cardíaca, frequência respiratória, saturação e glicemia capilar. Nível de consciência com a escala de coma de Glasgow anotada com o número, não com adjetivo — foi a lentificação do senhor Nivaldo que a triagem não registrou.
Pescoço: rigidez de nuca testada com o paciente deitado e relaxado, flexionando passivamente o pescoço. Os sinais de Kernig e de Brudzinski entram na definição de caso suspeito do Guia de Vigilância em Saúde e devem ser feitos, mas sabendo o que são: quando presentes ajudam muito, e quando ausentes não afastam nada. A meningite não é excluída pelo pescoço mole.
Exame neurológico dirigido: pupilas e reação à luz, movimentos oculares à procura de paresia de terceiro ou de sexto nervo, campo visual por confrontação, mímica facial, força nos quatro membros graduada de 0 a 5 e escrita com o número, sensibilidade comparada, coordenação e marcha. Paresia de terceiro nervo com pupila dilatada em paciente com cefaleia súbita é aneurisma de comunicante posterior até prova em contrário e não espera nada.
Fundo de olho, e este é o exame que o interno pula e que decide sozinho. Sem midriático, na sala mais escura disponível, procurando uma coisa só: borramento das margens do disco óptico. Papiledema muda a conduta em três direções ao mesmo tempo — obriga imagem, contraindica punção lombar imediata e coloca a hipertensão intracraniana no topo da lista. Aproveite a mesma olhada para ver se a pupila está em midríase média e fixa, com o olho vermelho, que é glaucoma agudo.
Artérias temporais em todo paciente acima de cinquenta anos com dor de cabeça nova: palpe as duas, procurando dor, endurecimento, nodularidade e ausência de pulso. E a pele inteira, despida, procurando exantema petequial que não some à digitopressão, que é meningococcemia até prova em contrário.
Complete com o que a queixa pedir: seios paranasais, ouvidos, articulação temporomandibular, coluna cervical e ausculta de carótidas. São segundos cada um e resolvem uma parte das cefaleias que estariam a caminho da tomografia.
Quem tomografa, e o que a tomografia responde
O exame de primeira linha na emergência é a tomografia de crânio sem contraste, e a razão é o que ela responde rápido: sangue agudo, efeito de massa com desvio de linha média, hidrocefalia e herniação. É o exame que decide se existe alguma coisa que precisa de neurocirurgia agora, e é por isso que ele vem antes de qualquer outro, inclusive antes da punção lombar quando há indicação de imagem.
A régua de indicação, no pronto-socorro brasileiro, é a lista de sinais de alerta do protocolo nacional, o mnemônico de cinco letras que ele chama de sinais sistêmicos, sinais neurológicos, início após os cinquenta anos, início súbito ou primeira cefaleia, e mudança de padrão. A lista internacional expandida acrescenta itens que valem a pena ter na cabeça e que o protocolo de 2018 não traz separadamente: cefaleia postural, cefaleia desencadeada por espirro, tosse ou exercício, papiledema como item próprio, olho doloroso com sinais autonômicos, início após trauma, gestação e puerpério, e uso excessivo de analgésico ou droga nova no início da dor. Na validação prospectiva em emergência hospitalar, essa lista expandida teve sensibilidade de 100% para detectar cefaleia de alto risco, com área sob a curva de 0,66 — que é o retrato exato do que ela é: excelente para não perder, ruim para discriminar. Ela diz quem investigar; não diz quem tem a doença.
Dentro do subgrupo específico da cefaleia que atinge o pico em até uma hora, em paciente com mais de quinze anos, alerta e sem déficit focal, existe uma regra de decisão derivada e validada com seis itens: idade de quarenta anos ou mais, dor ou rigidez no pescoço, perda de consciência presenciada, início durante esforço, dor em trovoada com pico instantâneo, e limitação à flexão do pescoço ao exame. Presente qualquer um deles, investigue. Na coorte que a derivou, com 2.131 pacientes e 132 hemorragias, a sensibilidade foi de 100%, com intervalo de confiança de 97,2% a 100%, e a especificidade de 15,3%. Leia esses dois números juntos: a regra praticamente não erra para menos e praticamente não exclui ninguém. Ela não existe para autorizar tomografia — existe para dar cobertura a não pedir, e só nos raríssimos pacientes que não têm nenhum dos seis itens. A regra não se aplica a quem tem déficit novo, papiledema, aneurisma ou hemorragia prévios, tumor cerebral, derivação ventricular, ou cefaleias recorrentes iguais a essa por mais de seis meses.
Fora da emergência, os protocolos de encaminhamento dão a régua da investigação eletiva com imagem: padrão novo ou mudança recente no padrão da cefaleia, início depois dos cinquenta anos, evolução insidiosa e progressiva com ápice em poucas semanas ou meses, dor que acorda durante o sono, e dor desencadeada por esforço, coito, tosse, atividade física ou manobra de Valsalva. Vale notar que esses protocolos preveem que a própria atenção primária solicite a tomografia ou a ressonância, e reservam o encaminhamento à neurologia para quando o exame não estiver disponível na unidade. Não pedir imagem não é um valor em si; pedir sem pergunta é que é o problema.
A tomografia normal que não encerra o caso
Este é o ponto do capítulo em que o interno mais dá alta errada. Tomografia de crânio normal em paciente com cefaleia em trovoada não exclui hemorragia subaracnóidea — a menos que ela tenha sido feita dentro de uma janela estreita e sob condições específicas. Fora dessa janela, o exame normal obriga o passo seguinte, e o passo seguinte é a punção lombar.
A janela é de seis horas contadas do início da dor, e ela tem origem numa coorte prospectiva de 3.132 pacientes em onze emergências universitárias canadenses. Entre os 953 pacientes tomografados dentro das seis horas, os 121 casos de hemorragia subaracnóidea foram todos identificados: sensibilidade de 100%, com intervalo de confiança de 97,0% a 100%, e valor preditivo negativo de 100%. Na coorte inteira, sem restrição de tempo, a sensibilidade da tomografia caiu para 92,9%. Uma metanálise posterior, reunindo cerca de 8.907 pacientes de cinco estudos, encontrou sensibilidade de 98,7% para a tomografia feita nas primeiras seis horas, com treze casos perdidos, e razão de verossimilhança negativa de 0,010.
As condições importam tanto quanto o relógio, e é a parte que se costuma esquecer ao citar a janela. O estudo original exigia tomógrafo multidetector de geração moderna, com cortes finos, e laudo de radiologista qualificado. Também excluía pacientes com déficit focal, papiledema, história de aneurisma, hemorragia prévia, tumor ou derivação ventricular. A janela de seis horas é um resultado sobre um exame bem feito e bem lido num paciente selecionado — não é uma propriedade genérica de qualquer tomógrafo.
A decisão deste capítulo, para o pronto-socorro brasileiro, é a seguinte. Se a tomografia foi feita dentro de seis horas do início exato da dor, em tomógrafo multidetector, com laudo de radiologista, e o paciente está neurologicamente normal, a punção lombar pode ser dispensada, e essa dispensa é conversada com o paciente. Em qualquer outra circunstância — tomografia depois de seis horas, hora de início incerta, aparelho antigo, laudo feito pelo plantonista sem radiologista, ou suspeita clínica forte apesar do exame normal — a punção lombar é obrigatória, e a alta antes dela é o erro. A razão de o capítulo escolher o lado mais conservador está numa revisão sistemática de 2025, com 63 estudos e 38.237 pacientes: a sensibilidade agrupada da tomografia foi de 0,94 no geral e de 0,995 nas primeiras seis horas, com a maioria dos estudos classificada como de alto risco de viés, e a recomendação explícita de que, havendo forte suspeita clínica com tomografia normal feita em menos de seis horas, a punção lombar seja realizada. Numa rede em que o tomógrafo, o corte e o leitor variam de plantão para plantão, o capítulo trata as seis horas como exceção a ser justificada, e não como regra.
Se a punção não puder ser feita no serviço, isso não vira alta: vira transferência. A conduta do protocolo nacional para cefaleia de instalação súbita é exatamente essa — acionar a central de regulação e encaminhar imediatamente ao hospital terciário, mantendo o paciente em leito de observação, em jejum, com acesso venoso e via aérea protegida.
A punção lombar, feita de modo que valha alguma coisa
A punção só responde à pergunta se for feita na hora certa e colhida do jeito certo. A xantocromia depende da degradação da hemoglobina dentro do liquor e leva horas para se formar, o que significa que ela é confiável a partir de cerca de doze horas do início da dor. Punção feita muito cedo pode devolver liquor límpido numa hemorragia real, e punção feita muito tarde perde a contagem de hemácias.
Quando indicada, colher líquor em tubos numerados e avaliar hemácias, xantocromia pelo método disponível e contexto. Queda de hemácias entre tubos pode ocorrer após punção traumática, mas não exclui hemorragia subaracnóidea; não use esse achado isoladamente. Celularidade, glicose pareada, proteína, cultura e testes adicionais dependem da hipótese. Medir pressão de abertura em posição e técnica adequadas quando pertinente, depois de avaliar segurança da punção.
Um limite prático precisa ser dito porque muda a leitura do resultado. A xantocromia pode ser pesquisada por espectrofotometria ou por inspeção visual do sobrenadante após centrifugação, e a inspeção visual é menos sensível. Descubra qual das duas o laboratório do seu serviço faz, porque isso muda o peso de um resultado negativo: se for inspeção visual, negativo em quem tem história muito sugestiva não fecha o caso sozinho, e a conversa com o neurologista ou o neurocirurgião de referência entra antes da alta.
Antes da punção, avalie estabilidade cardiorrespiratória, coagulopatia, anticoagulantes, infecção local e risco de herniação. Rebaixamento importante, focalidade, papiledema, crise recente e imunossupressão grave podem indicar imagem prévia conforme a hipótese e o protocolo. Esses são critérios de avaliação de risco, não uma lista completa aplicável indistintamente a todo procedimento. Se a punção atrasar na suspeita de meningite, trate imediatamente e obtenha o material assim que seguro.
O mapa do que a tomografia normal não exclui
TC normal não exclui toda causa secundária de cefaleia. Na suspeita persistente de HSA, após TC negativa, considerar PL ou angio-TC conforme momento, risco e protocolo; meningite/encefalite pedem LCR quando seguro, sem atrasar tratamento. Suspeita de trombose venosa requer estudo venoso; dissecção, estudo arterial; lesão de fossa posterior/hipófise, RM. Na suspeita de arterite com sintoma visual, tratar urgentemente sem aguardar biópsia. Hipertensão intracraniana idiopática exige avaliação clínica, imagem adequada incluindo exclusão de trombose venosa, composição do LCR e pressão de abertura; um valor alto isolado não fecha.
A regra que resume o mapa cabe numa frase e vale escrevê-la no prontuário quando for o caso: o exame normal descarta o que ele enxerga, e o que ele enxerga é sangue agudo, massa grande, hidrocefalia e desvio. Todo o resto continua em aberto, e continuar em aberto é uma conclusão do atendimento, não um fim dele.
O que não pedir, e o que custa pedir
Não peça tomografia em paciente com cefaleia primária conhecida, crise igual às anteriores, sem nenhum sinal de alerta e com exame neurológico normal. O rendimento é próximo de zero, o exame irradia, e a fila que ele ocupa é a mesma em que espera quem tem uma cefaleia progressiva de seis semanas. O raciocínio de fundo é o mesmo da lombalgia, capítulo em que não pedir imagem é a conduta ativa, e o mesmo da prevenção quaternária: exame que não muda conduta não é cuidado a mais, é dano em potencial.
Não peça tomografia com contraste como primeiro exame na emergência: o contraste não acrescenta nada para sangue agudo e atrasa. Não peça ressonância de rotina no pronto-socorro para dor de cabeça: ela é o exame de segunda linha para perguntas específicas, e usá-la como triagem é confundir o exame mais sensível com o exame mais útil. Não peça eletroencefalograma para investigar cefaleia. Não peça radiografia de seios da face para decidir sinusite: o diagnóstico é clínico e o exame não muda a conduta. E não peça exames em série para tranquilizar o paciente, porque o efeito tranquilizador de um exame normal é breve e a ansiedade volta pedindo o próximo.
O custo de pedir tem quatro parcelas que não aparecem na conta do serviço. Radiação ionizante em quem frequentemente é jovem e vai repetir o exame outras vezes ao longo da vida. Achado incidental, que gera investigação, encaminhamento, ressonância de controle e medo, e cuja probabilidade sobe com a idade e com o número de exames feitos. Tempo, porque a tomografia atrasa em horas o atendimento de quem está na fila. E o mais caro de todos: o falso encerramento — o exame normal que faz o médico parar de pensar num paciente cuja doença a tomografia não veria de qualquer jeito.
O diferencial se resolve aqui, e não em capítulo separado
Separar o diferencial num bloco próprio mentiria sobre como o raciocínio funciona, porque na cefaleia o exame que confirma uma hipótese é o que exclui a outra. A tomografia que procura sangue também mostra a massa e a hidrocefalia. A punção que procura xantocromia também traz a celularidade que faz o diagnóstico de meningite. A velocidade de hemossedimentação que sustenta a arterite também sobe na infecção e no câncer, e por isso ela só significa alguma coisa dentro de um quadro clínico compatível. A angiotomografia venosa que procura trombose responde uma pergunta que nenhum dos outros responde.
Por isso a sequência é sempre a mesma e é curta: a história define a categoria, o exame físico confirma ou derruba a categoria, a tomografia responde a pergunta cirúrgica, e o exame seguinte responde a pergunta que sobrou. Quando não sobra pergunta, acabou. Quando sobra e você não sabe qual é, esse é o momento de chamar ajuda — e não de pedir mais um exame para ver o que aparece.
O que o serviço público tem
Tomografia de crânio sem contraste está disponível na maior parte das unidades de pronto atendimento e dos hospitais gerais, com disponibilidade que varia por turno: em muitos serviços do interior o técnico entra de manhã e o aparelho fica desligado à noite. Isso não é detalhe administrativo, é dado clínico — muda a decisão de transferir e o horário em que se transfere, e precisa ser sabido antes de o paciente chegar, não durante.
Punção lombar é procedimento de baixo custo e alta disponibilidade, limitado na prática pela agulha adequada e pela segurança do executante; a análise básica do liquor com celularidade, proteína, glicose, bacterioscopia e cultura existe na rede. Velocidade de hemossedimentação e proteína C reativa são exames básicos e disponíveis. Ressonância magnética e angiotomografia dependem de regulação e concentram-se no nível terciário, o que na prática significa transferência, e não pedido.
Do lado do tratamento, a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 tem dipirona em comprimido de 500 mg, solução oral de 500 mg/mL e solução injetável de 500 mg/mL; paracetamol em comprimido de 500 mg e solução oral de 200 mg/mL; ácido acetilsalicílico em comprimido de 500 mg; ibuprofeno em comprimidos de 200, 300 e 600 mg; metoclopramida em comprimido de 10 mg e solução injetável de 5 mg/mL; clorpromazina em solução injetável de 5 mg/mL e comprimidos de 25 e 100 mg; dexametasona em comprimido de 4 mg e solução injetável de 4 mg/mL; e ceftriaxona em pó para solução injetável de 250 mg, 500 mg e 1 g. Não tem sumatriptano nem nenhum outro triptano, e não tem derivados ergotamínicos. É por isso que a etapa do resgate com triptano, que o protocolo nacional prevê para a crise que não cede em uma hora, aparece no próprio protocolo com a ressalva de se disponível — e por isso a etapa seguinte, com dexametasona e clorpromazina, é a que de fato se executa na maioria dos serviços brasileiros.
As três velocidades da dor de cabeça
Você deve reconhecer cefaleias que exigem investigação urgente, interpretar os limites da TC e tratar a dor com um plano de reavaliação.
- 1Sinais vitais completos, com temperatura medida e nível de consciência anotado com o número da escala de coma de Glasgow. Febre, rebaixamento, exantema petequial ou aspecto toxêmico tiram o paciente da fila verde na hora.
- 2A pergunta da instalação: em quanto tempo a dor foi do zero ao máximo — segundos, minutos ou horas — e o que o paciente estava fazendo nesse momento. Pico em menos de um minuto é cefaleia de instalação súbita, e a categoria não muda porque a dor já passou.
- 3É a primeira dor de cabeça da vida, ou é diferente das que ele já teve? Terreno novo muda a categoria mesmo em quem tem cefaleia primária conhecida há vinte anos.
- 4Os sinais de alerta, perguntados sempre na mesma ordem: sintomas sistêmicos e febre; câncer, imunossupressão ou vírus da imunodeficiência humana; déficit neurológico, convulsão ou alteração de consciência; início após os cinquenta anos; início súbito; mudança de padrão ou dor progressiva; cefaleia postural; dor desencadeada por tosse, espirro ou esforço; papiledema; olho doloroso e vermelho; trauma craniano recente; gestação ou puerpério; e uso de analgésico em muitos dias por mês ou droga nova.
- 5Exame dirigido em cinco minutos: pescoço, pupilas, movimentos oculares, campo visual por confrontação, força graduada com número, marcha, fundo de olho à procura de papiledema, artérias temporais acima dos cinquenta anos e a pele inteira à procura de petéquias.
- 6Com febre e qualquer sinal do sistema nervoso central: via da meningite. Hemocultura, antibiótico dentro da primeira hora, punção lombar assim que possível e antes do antibiótico se isso não atrasar, imagem antes da punção somente se houver Glasgow abaixo de 10, déficit focal, déficit de nervo craniano, papiledema, crise convulsiva recente ou imunossupressão grave. Notificação em até 24 horas.
- 7Sem febre, com instalação súbita ou qualquer sinal de alerta: tomografia de crânio sem contraste. Sangue, massa, hidrocefalia ou desvio mudam o caso para neurocirurgia agora.
- 8Tomografia normal em cefaleia de instalação súbita: se ela foi feita dentro de seis horas do início exato, em tomógrafo multidetector, com laudo de radiologista e exame neurológico normal, a punção pode ser dispensada em decisão compartilhada. Em qualquer outra circunstância, punção lombar — e, se o serviço não faz, transferência pela central de regulação, nunca alta.
- 9Sem febre e sem nenhum sinal de alerta, com exame neurológico e fundo de olho normais: trate a crise por via parenteral, mantenha em penumbra e reavalie em uma hora. Melhorou, alta com orientação escrita e retorno marcado. Não melhorou em duas horas apesar do esquema completo, acione a referência.
- 10Antes de assinar a alta, três coisas na mão do paciente: a lista escrita do que o traz de volta no mesmo dia, a contagem de dias por mês em que ele pode usar analgésico, e o encaminhamento para seguimento na unidade básica.
Agora — a janela é de minutos
Pico da dor em menos de um minuto, com ou sem dor no momento da consulta. Rebaixamento de consciência, déficit focal novo, crise convulsiva, papiledema, exantema petequial, febre com confusão, paresia do terceiro nervo com pupila dilatada, ou perda visual. Aqui a sequência é estabilizar, tomografar e acionar a referência antes do laudo, mantendo jejum, acesso venoso e leito de observação. O que se perde nesta faixa não é conforto: é cérebro, visão ou vida, e não volta.
Hoje — a janela é de horas
Cefaleia nova com sinal de alerta e sem critério de emergência: início depois dos cinquenta anos, câncer, imunossupressão, anticoagulante, gestação ou puerpério, trauma nas últimas semanas, dor desencadeada por tosse ou esforço, cefaleia postural, olho vermelho e doloroso, artéria temporal dolorosa. Investigação no mesmo atendimento, com o exame que responde àquela bandeira e a hipótese escrita no pedido. Não é para casa com retorno em quinze dias.
Em dias — a janela é de semanas, e ela fecha
Dor que piora em degraus ao longo de semanas, sem voltar à linha de base, pior ao acordar e com tosse ou esforço. Aqui o paciente chega andando, conversa normalmente e parece o menos urgente da fila — e é a categoria em que mais se perde tempo. Investigação com imagem programada, encaminhamento com prioridade, e a lista escrita de sinais que o trazem de volta antes da data.
Os sinais de alerta como mapa: o que cada um levanta, o que fazer e em que prazo
| Sinal de alerta | Para onde ele aponta | O que fazer, e em que prazo |
|---|---|---|
| Instalação súbita, pico em menos de 1 minuto | Hemorragia subaracnóidea, hemorragia intraparenquimatosa, dissecção de artéria cervical, trombose venosa cerebral, apoplexia hipofisária, hidrocefalia aguda, vasoconstrição cerebral reversível | Agora: tomografia sem contraste imediata; punção lombar se ela for normal e a janela de seis horas não estiver garantida; central de regulação acionada. Vale mesmo com dor já resolvida |
| Febre com cefaleia e qualquer sinal do sistema nervoso central | Meningite bacteriana, meningococcemia, encefalite, abscesso, empiema | Agora: hemocultura, antibiótico na primeira hora, punção lombar assim que possível, imagem antes da punção só se houver contraindicação. Notificação em até 24 horas |
| Exantema petequial que não desaparece à digitopressão | Doença meningocócica com meningococcemia | Agora: ceftriaxona sem esperar exame, isolamento respiratório por gotículas nas primeiras 24 horas de tratamento, notificação imediata e quimioprofilaxia dos contatos próximos |
| Déficit neurológico focal, convulsão, alteração de consciência ou papiledema | Lesão expansiva, hemorragia, acidente vascular cerebral, hipertensão intracraniana, encefalite | Agora: tomografia. Papiledema contraindica punção lombar antes da imagem e obriga investigar pressão intracraniana |
| Início após os 50 anos, com artéria temporal dolorosa, claudicação de mandíbula ou sintoma visual | Arterite de células gigantes | Hoje: velocidade de hemossedimentação e proteína C reativa, corticoide iniciado na suspeita com sintoma visual sem esperar exame ou biópsia, oftalmologia e reumatologia acionadas |
| Olho vermelho e doloroso, com midríase média fixa, halos e vômitos | Glaucoma agudo de ângulo fechado | Agora: oftalmologia no mesmo turno. É perda visual por horas de atraso, e o vômito costuma desviar a investigação para o abdome |
| Câncer em qualquer época, com cefaleia de padrão novo | Metástase intracraniana, carcinomatose meníngea, trombose venosa | Hoje: imagem no mesmo atendimento, com o antecedente escrito no pedido |
| Imunossupressão, transplante, corticoide crônico ou vírus da imunodeficiência humana | Criptococose, neurotoxoplasmose, tuberculose do sistema nervoso central, linfoma, abscesso | Hoje: imagem e punção lombar com pressão de abertura medida. Febre e rigidez de nuca podem faltar; a ausência delas não afasta |
| Anticoagulante, antiagregante ou discrasia sanguínea; trauma craniano nas últimas semanas | Hematoma subdural agudo ou crônico, hemorragia intraparenquimatosa | Hoje: tomografia. Em idoso, pergunte por queda com essas palavras — o episódio não vem espontaneamente |
| Dor progressiva em semanas, pior ao acordar, pior com tosse, espirro ou esforço | Processo expansivo, hidrocefalia, hipertensão intracraniana idiopática, meningite crônica, hematoma subdural crônico | Investigação em dias, com imagem programada e prioridade no encaminhamento; fundo de olho no atendimento de hoje |
| Cefaleia postural, pior de pé e melhor deitado | Hipotensão liquórica, inclusive cefaleia pós-punção após anestesia neuroaxial | Investigação em dias; no pós-parto recente com raquianestesia, o padrão postural é o dado que fecha a suspeita |
| Gestação ou puerpério, com cefaleia nova | Pré-eclâmpsia e eclâmpsia, trombose venosa cerebral, vasoconstrição cerebral reversível, encefalopatia posterior reversível | Agora: pressão arterial, proteinúria e avaliação obstétrica. Cefaleia com pressão elevada após a 20ª semana é pré-eclâmpsia até prova em contrário |
| Mudança de padrão numa cefaleia primária conhecida | Qualquer secundária; o antecedente de enxaqueca não protege contra nenhuma delas | Refaça a lista inteira como se fosse a primeira consulta, e decida pelo que a lista devolver |
| Analgésico em muitos dias por mês, com dor que ficou diária | Cefaleia por uso excessivo de medicação | Não é emergência e não se resolve com mais analgésico venoso. Conte os dias, explique a retirada e encaminhe para seguimento |
Tempo até o pico, e o que ele aponta
| Tempo do zero ao máximo | Como o paciente descreve | O que entra na lista primeiro |
|---|---|---|
| Segundos a menos de 1 minuto | Foi do nada para o insuportável; deu como um estouro; eu me lembro da hora exata | Hemorragia subaracnóidea, hemorragia intraparenquimatosa, dissecção, trombose venosa, apoplexia hipofisária, vasoconstrição cerebral reversível |
| Minutos a poucas horas | Foi apertando ao longo da tarde | Migrânea, cefaleia tensional, sinusite, infecções sistêmicas, meningite em fase inicial |
| Dias a semanas, em degraus | Todo dia um pouco pior, e não passa como antes | Processo expansivo, hematoma subdural crônico, hipertensão intracraniana, abscesso, meningite crônica, arterite |
| Meses, sempre igual | É todo dia, é assim há muito tempo | Cefaleia tensional crônica, migrânea crônica, cefaleia por uso excessivo de medicação |
| Crises curtas e repetidas no mesmo dia | Vem, arrebenta, some em uma hora, e volta de madrugada | Cefaleia em salvas e outras trigêmino-autonômicas |
Regra de Ottawa para hemorragia subaracnóidea — quando ela se aplica, e o que ela decide
| Item | Conteúdo |
|---|---|
| Aplica-se a | Paciente com mais de 15 anos, alerta, com cefaleia não traumática que atingiu o pico em até 1 hora |
| Não se aplica a | Déficit neurológico novo, papiledema, aneurisma ou hemorragia subaracnóidea prévios, tumor cerebral, derivação ventricular, ou cefaleias recorrentes iguais a esta há mais de seis meses |
| Os seis itens | Idade de 40 anos ou mais; dor ou rigidez no pescoço; perda de consciência presenciada; início durante esforço; dor em trovoada com pico instantâneo; limitação à flexão do pescoço ao exame |
| Como se lê | Qualquer item presente obriga investigar. Nenhum item presente permite não investigar |
| Desempenho na coorte de derivação | 2.131 pacientes, 132 hemorragias; sensibilidade de 100% (intervalo de confiança de 97,2% a 100%) e especificidade de 15,3% |
| O que isso significa na prática | Quase todo mundo que entra na regra sai dela com indicação de exame. Ela serve para dar cobertura ao raro paciente que não precisa, não para justificar o pedido de quem já ia pedir |
Tomografia de crânio normal: o que ela exclui e o que ela não exclui
| Hipótese | A tomografia sem contraste exclui? | Qual é o próximo passo |
|---|---|---|
| Hemorragia subaracnóidea nas primeiras 6 horas | Praticamente sim, se multidetector e com laudo de radiologista | Decisão compartilhada sobre dispensar a punção lombar |
| Hemorragia subaracnóidea depois de 6 horas | Não | Punção lombar com xantocromia, a partir de 12 horas do início da dor |
| Meningite e encefalite | Não | Punção lombar; o antibiótico não espera por ela |
| Trombose venosa cerebral | Não | Angiotomografia ou angiorressonância em fase venosa |
| Dissecção de artéria carótida ou vertebral | Não | Angiotomografia de vasos cervicais e intracranianos |
| Arterite de células gigantes | Não | Velocidade de hemossedimentação e proteína C reativa; corticoide na suspeita com sintoma visual |
| Lesão pequena de fossa posterior ou de hipófise | Não | Ressonância magnética |
| Hipertensão intracraniana idiopática | Não | Pressão de abertura medida na punção lombar, com imagem normal |
| Glaucoma agudo de ângulo fechado | Não, e o exame nem olha para lá | Exame ocular e oftalmologia no mesmo turno |
Analgesia da crise no pronto-socorro: o que se prescreve, e quanto isso é em mililitros
| Medicamento e apresentação | Dose e via | Volume real e observação |
|---|---|---|
| Dipirona solução injetável 500 mg/mL, ampola de 2 mL | 1 g por via intravenosa | 2 mL, diluídos e infundidos devagar. A bula limita a velocidade a 1 mL por minuto, o que dá pelo menos 2 minutos de infusão, com o paciente deitado e sob supervisão |
| Cetoprofeno 100 mg | 100 mg por via intravenosa, diluído em 100 mL de soro fisiológico 0,9%, ou 100 mg por via intramuscular | Confira função renal, história de úlcera e uso de anticoagulante antes |
| Dimenidrinato injetável | 30 mg por via intravenosa, diluído em 100 mL de soro fisiológico 0,9%, ou 50 mg por via intramuscular | Antiemético do protocolo nacional para a crise com vômito ou uso prévio de medicação |
| Metoclopramida solução injetável 5 mg/mL | 10 mg por via intravenosa lenta | 2 mL. Alternativa disponível na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais; vigie acatisia |
| Dexametasona solução injetável 4 mg/mL, ampola de 2,5 mL | 10 mg por via intravenosa lenta | 2,5 mL, conferindo a apresentação e o volume total da ampola. A bula registra que cada mL contém 4 mg de dexametasona ácido fosfórico, equivalentes a 3,33 mg de dexametasona |
| Clorpromazina solução injetável 5 mg/mL, ampola de 5 mL (25 mg) | 0,1 a 0,25 mg/kg por via intramuscular | Num adulto de 70 kg, 7 a 17,5 mg, ou 1,4 a 3,5 mL. Repetir a cada hora, no máximo três vezes; não repetir se houver hipotensão ou sintoma extrapiramidal |
| Sumatriptano 6 mg, seringa de 0,5 mL | 6 mg por via subcutânea, repetível em 2 horas | Concentração de 12 mg/mL. Não consta da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024; o protocolo nacional o prevê com a ressalva de se disponível |
| Oxigênio a 100%, máscara sem recirculação | 10 a 12 litros por minuto durante 20 minutos | Tratamento da crise de cefaleia em salvas. Analgésico comum e opioide são ineficazes nela |
| Dipirona por via oral, comprimido de 500 mg ou solução de 500 mg/mL | 500 a 1.000 mg a cada 6 horas, no máximo 4 g ao dia | 1 a 2 comprimidos, ou 20 a 40 gotas: a bula define 20 gotas por mililitro, e cada gota tem 25 mg |
| Paracetamol por via oral, comprimido de 500 mg | 750 a 1.000 mg a cada 6 horas, no máximo 4 g ao dia | 1 comprimido e meio a 2 comprimidos. Prefira o comprimido às gotas no adulto, pelo motivo explicado nas notas |
| Ibuprofeno por via oral, comprimidos de 200, 300 e 600 mg | 400 a 800 mg a cada 6 a 8 horas | Mesmas cautelas dos anti-inflamatórios; evitar em suspeita de dengue |
O protocolo nacional é explícito e a frase merece ser lida como está: não prescrever opioide para o tratamento da crise de enxaqueca, porque existem medicações mais eficazes que não têm o risco de abuso e dependência. Na cefaleia em salvas, o mesmo documento acrescenta que analgésicos comuns e opioides são ineficazes e não devem ser utilizados. A escada analgésica e o lugar legítimo do opioide são assunto do capítulo de analgesia no paciente internado; na crise de cefaleia primária, ele não tem lugar.
Há uma inconsistência aritmética dentro da bula do paracetamol em gotas que muda a dose entregue ao adulto, e por isso este capítulo prefere o comprimido. A mesma bula declara que cada mililitro contém 200 mg e corresponde a 14 a 16 gotas — o que dá 12,5 a 14,3 mg por gota — e, adiante, que 55 gotas equivalem a 1.000 mg, o que exigiria 18,2 mg por gota. Pela concentração declarada, 55 gotas entregam entre 688 e 786 mg, ou seja, de 21% a 31% menos do que a própria bula afirma. Prescrever paracetamol em gotas para adulto é, na prática, prescrever uma dose que não se sabe.
A bula da dipirona injetável lista como diluentes compatíveis a solução de glicose a 5%, o soro fisiológico a 0,9% e o Ringer-lactato, e não menciona água para injetáveis — que é o diluente que o protocolo nacional cita. Onde os dois divergem, siga a bula, que é o documento que responde por compatibilidade e estabilidade, e mantenha a velocidade máxima de 1 mL por minuto, que é o que previne a hipotensão.
A dose de clorpromazina usada na cefaleia é muito menor do que a da bula, que parte de 25 a 100 mg para uso psiquiátrico hospitalar. Isso não é erro: é outra indicação, com outro alvo. Prescreva pelo peso, deixe o paciente deitado, meça a pressão antes e depois, e trate acatisia como efeito adverso previsível da classe, e não como piora da dor.
A bula da clorpromazina injetável brasileira autoriza apenas a via intramuscular, e o protocolo nacional prescreve exatamente por essa via. Parte da literatura internacional usa a droga por via intravenosa diluída. Onde o rótulo nacional e o artigo divergem, o capítulo fica com a via da bula e do protocolo brasileiro.
As três velocidades não são categorias de gravidade da dor: são categorias de prazo. Um paciente com dor 3 de 10 pode estar na primeira coluna, e um paciente com dor 10 de 10 pode estar na terceira. Quem classifica pela intensidade inverte as duas.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo abaixo é a do paciente adulto que entra no pronto-socorro com dor de cabeça. Ela tem um tronco comum, que vale para todos, e três vias que se abrem em pontos diferentes: a da crise primária, a da instalação súbita e a da febre com sinal do sistema nervoso central. Quem estiver na via da instalação súbita ou na da febre não passa pelos marcos de analgesia na ordem escrita: pula para a sua via, e o relógio dela começa no minuto em que a suspeita nasce.
As doses da crise são as do protocolo nacional da Academia Brasileira de Neurologia com a Sociedade Brasileira de Cefaleia, com as apresentações e os volumes conferidos nas bulas profissionais aprovadas pela Anvisa e a disponibilidade conferida na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024. As da meningite são as do Guia de Vigilância em Saúde, complementadas pela diretriz alemã de meningite bacteriana do adulto no ponto em que o documento brasileiro não entra. Antes de qualquer anti-inflamatório, confira função renal, história de úlcera, uso de anticoagulante e alergia; o ajuste está no capítulo de ajuste de dose na disfunção renal e hepática desta apostila.
Minuto 0 — a triagem que você refaz
A classificação de risco escreveu dor de cabeça e deu pulseira verde. Antes de aceitar a cor, confira os três dados que a triagem mais deixa passar nesta queixa: temperatura medida, nível de consciência e a pele. Foi assim que um paciente com febre e confusão ficou na fila verde do começo deste capítulo. Reclassificar não é desautorizar a enfermagem: é o que a régua de acesso do Estado descreve, colocando na faixa vermelha a cefaleia associada a alteração do exame neurológico, distúrbio de comportamento, convulsão ou instalação súbita.
Prescrição- Temperatura axilar medida em todo paciente com dor de cabeça, sem exceção
- Pressão arterial nos dois braços quando a instalação foi súbita; frequência cardíaca, frequência respiratória, saturação e glicemia capilar em todos
- Escala de coma de Glasgow anotada com o número, e não com adjetivo
- Pele inspecionada à procura de exantema petequial que não desaparece à digitopressão
Minuto 0 a 3 — a pergunta que decide
Antes de qualquer hipótese, três perguntas na mesma ordem, sempre: em quanto tempo a dor foi do zero ao máximo, em segundos, minutos ou horas; o que você estava fazendo nesse momento; e é parecida com alguma dor que você já teve. Nenhum analgésico é prescrito antes que essas três estejam respondidas e escritas, porque o analgésico apaga a informação que ainda não foi colhida — e porque a resposta muda o destino do paciente antes de mudar o remédio.
Prescrição- Registrar no prontuário a hora exata do início da dor, com o relógio, e não apenas há quantas horas ela começou
- Registrar o tempo até o pico com a palavra que o paciente usou, entre segundos, minutos e horas
- Registrar se é a primeira cefaleia da vida, e, em quem já tem cefaleia primária, o que está diferente desta vez
- Perguntar e registrar a lista de sinais de alerta, um a um, inclusive os negados — a negativa escrita é o que permite comparar na próxima consulta
Minuto 3 a 8 — o exame, com fundo de olho
Exame dirigido, com o paciente sentado e depois deitado. Pescoço, pupilas, movimentos oculares, campo visual por confrontação, força graduada com número, sensibilidade, marcha, e o fundo de olho, que é o marco que o interno mais pula e o que mais muda conduta. Acima dos cinquenta anos, as artérias temporais entram no exame de rotina desta queixa.
Prescrição- Rigidez de nuca testada com flexão passiva do pescoço, com o paciente deitado e relaxado; Kernig e Brudzinski registrados, sabendo que a ausência deles não afasta meningite
- Fundo de olho sem midriático, na sala mais escura disponível, procurando borramento das margens do disco óptico
- Pupilas e motricidade ocular: midríase média fixa com olho vermelho é glaucoma agudo; ptose com pupila dilatada e cefaleia súbita é aneurisma até prova em contrário
- Palpação das duas artérias temporais em todo paciente acima de cinquenta anos com cefaleia nova
- Força graduada de 0 a 5 e escrita com o número, para permitir comparação na reavaliação
Minuto 8 — a decisão de imagem, tomada em voz alta
Com a lista e o exame na mão, a decisão de imagem é explícita e tem justificativa escrita no prontuário. Sem nenhum sinal de alerta, com exame neurológico e fundo de olho normais e crise igual às anteriores, a decisão é não tomografar, e isso é conduta, não economia. Com sinal de alerta, a decisão é pedir o exame que responde àquele sinal, com a hipótese escrita no pedido. O que não existe é pedir para ver o que aparece.
Prescrição- Sem sinal de alerta: nenhuma imagem. Registrar no prontuário exame neurológico e fundoscopia normais, sem sinais de alerta, sem indicação de imagem neste atendimento, e a data do retorno
- Com sinal de alerta: tomografia de crânio sem contraste, com a hipótese escrita no pedido
- Todo pedido de imagem sai com a hipótese diagnóstica, e não com a queixa copiada da triagem
- Se o serviço não tem tomógrafo ligado neste turno, a decisão de transferir é tomada agora e não depois da analgesia
Hora 0 — a crise de migrânea, prescrição por extenso
Paciente em repouso, em penumbra, em ambiente silencioso, preferencialmente em leito de observação: o protocolo nacional coloca isso como primeira medida em todos os casos, e não é conforto, é tratamento. Acesso venoso, antiemético se houver vômito ou se o paciente já tomou medicação em casa, reposição de fluidos se houver desidratação, e o analgésico por via parenteral, porque a gastroparesia da crise faz o comprimido não ser absorvido.
Prescrição- Repouso em penumbra, ambiente silencioso, em leito de observação
- Dimenidrinato 30 mg por via intravenosa, diluído em 100 mL de soro fisiológico 0,9%, ou 50 mg por via intramuscular, se vômitos ou uso prévio de medicação. Alternativa disponível na rede: metoclopramida 10 mg por via intravenosa lenta, que são 2 mL da solução de 5 mg/mL
- Soro fisiológico 0,9% por via intravenosa se houver sinais de desidratação
- Dipirona 1 g por via intravenosa: 2 mL da ampola de 500 mg/mL, diluídos, infundidos a no máximo 1 mL por minuto, com o paciente deitado — pelo menos 2 minutos de infusão
- Cetoprofeno 100 mg por via intravenosa, diluído em 100 mL de soro fisiológico 0,9%, ou 100 mg por via intramuscular
- Sem opioide. O protocolo nacional é explícito: não prescrever opioide para o tratamento da crise de enxaqueca
Hora 0 — as outras duas crises primárias
Cefaleia do tipo tensional episódica não precisa de exame nem de encaminhamento a especialista, e o próprio protocolo nacional manda dizer isso ao paciente e à família. Trata-se com analgésico oral e orientação. Cefaleia em salvas tem tratamento próprio e imediato, e é a única em que analgésico comum e opioide são declaradamente ineficazes.
Prescrição- Tensional: paracetamol 750 a 1.000 mg até de 6 em 6 horas, ou dipirona 500 a 1.000 mg até de 6 em 6 horas, respeitando 4 g por dia de qualquer um dos dois
- Tensional, alternativa anti-inflamatória: ibuprofeno 400 a 800 mg até de 6 em 6 horas; ou diclofenaco 50 mg até de 8 em 8 horas; ou naproxeno sódico 500 mg na primeira dose e 250 mg até de 6 em 6 horas
- Tensional: orientação de sono regular, redução de álcool, manejo de estresse e retorno à unidade básica para seguimento
- Salvas: oxigênio a 100% em máscara sem recirculação, 10 a 12 litros por minuto durante 20 minutos
- Salvas: sumatriptano 6 mg por via subcutânea, 0,5 mL da seringa de 12 mg/mL, quando disponível — evitar se o paciente usou vasoconstritor
- Salvas: encaminhamento ao neurologista após a crise, com orientação de evitar álcool e substâncias voláteis até o fim do período de crises
Hora 1 — a reavaliação que decide o próximo passo
Reavalie em uma hora, com a intensidade anotada em escala numérica de zero a dez, a mesma que foi usada na chegada. Se melhorou, o paciente vai para casa com orientação escrita e retorno na unidade básica. Se não melhorou, sobe-se o degrau. Se piorou ou apareceu qualquer sinal de alerta que não estava lá na chegada, o caso volta ao começo e a lista se refaz inteira.
Prescrição- Dor anotada em escala numérica na chegada, em 1 hora e em 2 horas, sempre pelo mesmo instrumento
- Se não houve melhora em 1 hora: sumatriptano 6 mg por via subcutânea, repetível em 2 horas, quando disponível no serviço
- Pressão arterial medida antes e depois de qualquer dose de clorpromazina
- Reavaliação do exame neurológico, e não apenas da dor
Hora 2 — a dor que não cede e o estado migranoso
Dor contínua por mais de setenta e duas horas, com intervalos livres menores que doze horas, é estado migranoso e tem esquema próprio. E dor que não cede após duas horas de tratamento otimizado, mesmo sem completar setenta e duas horas, é motivo de acionar a referência — não de repetir a mesma medicação uma quarta vez.
Prescrição- Acesso e hidratação se houver desidratação ou intolerância oral. Jejum e 500 mL em infusão aberta não são medidas automáticas para toda crise; ajustar volume e via à condição clínica.
- Dexametasona, quando selecionada como adjuvante: 10 mg IV lentamente. Na concentração de 4 mg/mL, a dose ocupa 2,5 mL; conferir o volume da ampola, que não é necessariamente 2,5 mL. Não presumir que seja o melhor medicamento para alívio imediato nem esperar sua resposta para oferecer resgate apropriado.
- Na crise refratária, reavaliar diagnóstico e tratamentos já administrados. Antagonista dopaminérgico, como metoclopramida ou clorpromazina conforme protocolo e disponibilidade, pode integrar o resgate; conferir hipotensão, QT, acatisia e distonia. Não tornar a falta de resposta à dexametasona condição obrigatória para usá-lo.
- Manter infusão de soro fisiológico 0,9% durante e após a clorpromazina, e orientar o paciente a não se levantar bruscamente
- Repetir a clorpromazina a cada hora, no máximo três vezes. Não repetir se houver hipotensão ou qualquer sintoma extrapiramidal
- Sem melhora após as três doses: acionar a central de regulação e encaminhar ao hospital terciário para avaliação de neurologista
Via paralela — instalação súbita, o relógio começa agora
Pico da dor em menos de um minuto, com ou sem dor no momento da consulta, com ou sem rigidez de nuca. A conduta do protocolo nacional é acionar a central de regulação e encaminhar imediatamente ao hospital terciário, mantendo suporte no setor de urgência. Se o serviço tem tomógrafo, a tomografia é feita enquanto a transferência é articulada — e nunca no lugar dela.
Prescrição- Jejum, leito de observação, via aérea protegida, oxigênio se necessário e acesso venoso periférico
- Tomografia de crânio sem contraste imediata, com a hora exata do início da dor escrita no pedido
- Analgesia sim, e sem culpa: dipirona 1 g por via intravenosa não apaga o diagnóstico nem impede a investigação, e dor não tratada eleva a pressão arterial, que é o que se quer evitar aqui
- Se a tomografia for normal e a janela de seis horas não estiver garantida: punção lombar no serviço ou transferência para onde ela seja feita. Alta não é opção
- Central de regulação acionada antes do laudo, e não depois
- Registrar no prontuário a hora do início, a hora da tomografia e o intervalo entre as duas — é esse intervalo que decide se a punção pode ser dispensada
Via paralela — febre com sinal do sistema nervoso central
Febre e cefaleia com confusão, sonolência, rigidez de nuca, crise convulsiva, exantema petequial ou aspecto toxêmico é meningite até prova em contrário, e o relógio que importa é o do antibiótico. A diretriz global da Organização Mundial da Saúde, de 2025, orienta punção lombar assim que possível e, de preferência, antes do antimicrobiano — e é explícita ao dizer que o tratamento não deve ser adiado por imagem nem quando a punção precisa ser adiada. O Guia de Vigilância em Saúde diz o mesmo pelo outro lado: a adoção imediata do tratamento adequado não impede a coleta de material para o diagnóstico etiológico.
Prescrição- Colher hemoculturas antes do antibiótico quando isso não causar atraso relevante; dificuldade de coleta não justifica postergar tratamento.
- Punção lombar cedo, quando segura e sem atrasar antibiótico. Avaliar necessidade de imagem prévia conforme consciência, focalidade, papiledema, crise recente e imunossupressão. Conferir também estabilidade, coagulação/anticoagulantes e infecção no local de punção; TC normal não elimina todas as contraindicações.
- Ceftriaxona 2 g por via intravenosa de 12 em 12 horas no adulto, iniciada na primeira hora, conforme o Guia de Vigilância em Saúde; 7 dias na doença meningocócica, 10 a 14 dias na etiologia pneumocócica
- Ampicilina 2 g por via intravenosa de 4 em 4 horas associada à ceftriaxona quando houver fator de risco para Listeria — idade acima de sessenta anos, gestação ou imunossupressão — conforme a diretriz alemã de meningite bacteriana do adulto
- Dexametasona 10 mg por via intravenosa de 6 em 6 horas, iniciada com a primeira dose do antibiótico e mantida por até 4 dias se a etiologia pneumocócica for confirmada ou permanecer provável, conforme a mesma diretriz e a diretriz da Organização Mundial da Saúde. São 2,5 mL da ampola de 4 mg/mL a cada dose
- Precaução para gotículas nas primeiras 24 horas de antibioticoterapia adequada na suspeita de doença meningocócica — é o período em que o Guia de Vigilância em Saúde situa a eliminação do meningococo da nasofaringe
- Notificação em até 24 horas às secretarias municipal e estadual de saúde, com preenchimento da ficha de investigação de meningite no sistema de informação de agravos de notificação
- Quimioprofilaxia dos contatos próximos com rifampicina 10 mg/kg por dose, no máximo 600 mg, de 12 em 12 horas por 2 dias, preferencialmente até 48 horas da exposição; e para o próprio paciente na alta, exceto se ele foi tratado com ceftriaxona
Alta — a orientação que funciona é escrita
A alta segura desta queixa não é a que diz para voltar se piorar. É a que entrega uma lista escrita e curta do que traz o paciente de volta no mesmo dia, com quem ele deve procurar e onde. O protocolo nacional lista, para o paciente que sai com cefaleia em investigação, os sinais que devem fazê-lo procurar a unidade de pronto atendimento ou ligar para o serviço de atendimento móvel de urgência: convulsões, vômitos, rebaixamento do nível de consciência, visão dupla, estrabismo ou perda de força.
Prescrição- Lista escrita e entregue na mão, com estes itens: dor que volta de repente e chega ao máximo em segundos; febre; vômito que não para; confusão ou sonolência; visão dupla ou perda de visão; fraqueza, formigamento ou dificuldade para falar; convulsão; manchas vermelhas na pele que não somem quando se aperta
- Analgesia domiciliar com prazo escrito: dipirona 500 a 1.000 mg até de 6 em 6 horas, ou paracetamol 750 a 1.000 mg até de 6 em 6 horas, por no máximo 3 a 5 dias, sem ultrapassar 4 g por dia
- O número que evita a próxima doença: analgésico em no máximo 10 a 15 dias por mês, dependendo da classe, e a frase de que usar mais do que isso passa a causar dor de cabeça
- Retorno na unidade básica de saúde com data escrita, para seguimento e para decidir profilaxia se as crises forem frequentes
- Relatório de contrarreferência com o que foi feito, o que foi excluído e o que ficou pendente — inclusive a frase de que a tomografia normal não excluiu tal e tal coisa, quando for o caso
Encaminhamento — quem vai para onde, e com que prioridade
O encaminhamento não é o fim do atendimento: é uma decisão com critério e com prazo, e ela é escrita. Os protocolos de encaminhamento definem quem vai para a emergência, quem precisa de imagem antes e quem vai para a neurologia ambulatorial, e a régua estadual de regulação define a cor da prioridade.
Prescrição- Emergência agora: qualquer sinal de alerta com critério de gravidade, instalação súbita, febre com sinal do sistema nervoso central, déficit focal, papiledema, suspeita de arterite com sintoma visual, suspeita de glaucoma agudo
- Investigação com imagem, sem critério de emergência: padrão novo ou mudança recente de padrão; início após os cinquenta anos; evolução insidiosa e progressiva com ápice em semanas ou meses; dor que acorda o paciente à noite; dor desencadeada por esforço, coito, tosse ou manobra de Valsalva
- Neurologia ambulatorial: migrânea ou cefaleia tensional refratárias ao tratamento profilático na atenção primária, com pelo menos três meses de tentativa; outras cefaleias primárias que não sejam migrânea nem tensional; e o paciente que precisa de imagem quando o exame não está disponível na atenção primária
- Neurocirurgia: alteração na imagem com potencial indicação cirúrgica
- Todo encaminhamento sai com a descrição do padrão da dor, o exame neurológico, o resultado de imagem quando existir, o que já foi tentado e por quanto tempo
Como saber se está funcionando
Na cefaleia, a reavaliação tem duas funções que costumam ser confundidas. A primeira é medir a resposta ao tratamento da dor, e ela se faz em uma e em duas horas. A segunda é reabrir o diagnóstico, e essa se faz olhando para o exame neurológico e para a lista de sinais de alerta, e não para o número da dor. Paciente que melhorou da dor e piorou do exame é um paciente que piorou.
Há uma armadilha de sentido nesta queixa que não existe na maioria das outras. Melhora da dor com analgésico não é informação diagnóstica: hemorragia subaracnóidea melhora com dipirona, meningite melhora com dipirona, e tumor melhora com dipirona. A resposta ao analgésico diz que o analgésico funcionou; não diz o que o paciente tem. Usar a melhora como argumento para dar alta é o erro mais silencioso do plantão.
Esperado: Queda de pelo menos metade da intensidade inicial em 1 hora, e dor tolerável ou ausente em 2 horas
Se não melhora: Suba o degrau do protocolo em vez de repetir a mesma droga: se ainda não usou antiemético, use; se ainda não usou anti-inflamatório parenteral, use; e considere a etapa da dexametasona e da clorpromazina. Antes de subir, confira se o paciente recebeu de fato o que foi prescrito e em que horário. Persistindo dor após duas horas de esquema completo, o passo é acionar a referência — e não a quarta dose.
Esperado: Consegue abrir os olhos com a luz acesa, sentar sem tontura, andar até o corredor, beber água sem vomitar e conversar sem interromper por causa da dor
Se não melhora: Paciente com dor referida como 3 de 10 que ainda vomita, ainda não tolera a luz ou ainda não consegue ficar de pé não tem alta, mesmo com o número bom. O número é o que ele diz; a função é o que se vê. E função que não volta apesar da dor em queda levanta duas hipóteses distintas: efeito da medicação, sobretudo hipotensão pela clorpromazina, ou diagnóstico errado.
Esperado: Cessação do vômito e tolerância a líquidos por via oral
Se não melhora: Vômito persistente em cefaleia não é apenas sintoma da enxaqueca: é também sinal de hipertensão intracraniana e de meningite. Se o vômito não cede com o antiemético e a dor não cede com o analgésico, essa combinação por si só reabre a lista de sinais de alerta e costuma justificar imagem, mesmo em quem tinha entrado sem indicação.
Esperado: Idêntico ao da chegada, com a mesma pontuação na escala de coma de Glasgow e a mesma força graduada com número
Se não melhora: Qualquer piora — um ponto a menos na escala, uma pupila que mudou, uma fala que ficou arrastada, um déficit novo — cancela o plano em curso e recomeça o caso. Foi para permitir essa comparação que a força foi anotada com número e não com adjetivo. Sonolência atribuída ao remédio é a explicação mais confortável e a mais perigosa: confira a pupila e a glicemia antes de aceitá-la.
Esperado: Estabilidade, sem queda sintomática e sem tontura ao sentar
Se não melhora: Hipotensão após clorpromazina é efeito de classe, por bloqueio alfa-1, e a conduta é decúbito, expansão com soro fisiológico e suspender a repetição da droga — o protocolo nacional é explícito ao dizer para não repetir a dose se houver hipotensão. Hipotensão após dipirona intravenosa costuma ser velocidade de infusão: a bula limita a 1 mL por minuto e exige o paciente deitado.
Esperado: Ausência de inquietação motora, de rigidez e de contratura
Se não melhora: Acatisia é descrita pelo paciente como não conseguir ficar parado, e é frequentemente confundida com ansiedade ou com piora da dor — o que leva a mais uma dose da droga que a está causando. Reconhecida, ela impede a repetição da dose, conforme o protocolo nacional, e melhora com a suspensão da medicação. Distonia aguda com desvio do olhar ou torcicolo responde a anticolinérgico e não deve ser confundida com crise convulsiva.
Esperado: Queda dos níveis pressóricos junto com a queda da dor
Se não melhora: Pressão que permanece muito elevada depois de a dor ceder pede outra explicação e o caminho é o do capítulo de crise hipertensiva. Mas atenção à direção da inferência: pressão que caiu junto com a dor mostra que ela era consequência, e o diagnóstico de cefaleia atribuída à hipertensão exige, pela classificação internacional, sistólica de pelo menos 180 ou diastólica de pelo menos 120 mmHg, com melhora da dor acompanhando a melhora da pressão.
Esperado: Crise resolvida, sem recorrência que exija nova ida ao pronto-socorro
Se não melhora: Recorrência da crise de migrânea em 24 a 48 horas é comum e não significa erro diagnóstico. O que significa erro é tratá-la de novo do mesmo jeito e mandar embora de novo: o paciente que volta pela terceira vez no mês precisa de profilaxia e de seguimento, não de mais uma dose venosa. E todo paciente que retorna com uma dor diferente daquela pela qual foi atendido é um paciente novo, com a lista de sinais de alerta refeita do zero.
Esperado: Sem retorno da dor súbita, sem sinal neurológico novo
Se não melhora: Esta é a reavaliação que quase nunca é combinada, e é a que sustenta a decisão de dispensar a punção. Se a dispensa foi feita, ela precisa vir acompanhada de um plano: com quem o paciente fala, em quanto tempo, e o que o traz de volta imediatamente. Sem esse plano, a dispensa deixa de ser decisão compartilhada e vira alta sem investigação.
Esperado: Queda da febre e melhora do nível de consciência em 24 a 48 horas do início do antibiótico correto
Se não melhora: Falta de melhora em 48 horas levanta quatro possibilidades, nesta ordem: agente não coberto pelo esquema, complicação intracraniana como empiema, abscesso, ventriculite ou trombose de seio venoso, foco não drenado como otite, mastoidite ou sinusite, e diagnóstico errado. A conduta é imagem, revisão do esquema e infectologia — e não subir a dose do que já está correndo.
Esperado: Menos de dez dias por mês para triptano, ergotamínico, opioide ou analgésico combinado, e menos de quinze dias por mês para analgésico simples e anti-inflamatório
Se não melhora: Contagem acima do limite por mais de três meses fecha o diagnóstico de cefaleia por uso excessivo de medicação, e o tratamento é retirar. Avise antes de começar que a dor piora por dias a semanas antes de melhorar, marque um retorno próximo para atravessar essa fase, e trate a crise de retirada com uma medicação de resgate combinada e limitada. Sem esse aviso, o paciente desiste na primeira semana e volta pior.
Onde o erro machuca
O dano: É a omissão que mata nesta queixa. Sem a pergunta, a hemorragia sentinela é atendida como cefaleia tensional, recebe analgesia, melhora — porque melhora mesmo — e vai para casa. O ressangramento acontece em dias, com mortalidade muito maior do que a do primeiro episódio, e nesse ponto não há mais decisão a tomar. O paciente que sofre esse dano é justamente o que parecia melhor na fila.
Como pegar a tempo: Faça a pergunta com as três opções na boca — segundos, minutos ou horas — em toda dor de cabeça, inclusive nas que já passaram, inclusive nas fracas, inclusive em quem já tem enxaqueca. Escreva a resposta no prontuário com a palavra que o paciente usou e a hora exata do início. Custa quinze segundos e é o dado mais valioso do atendimento.
O dano: O antecedente de cefaleia primária não protege contra nenhuma cefaleia secundária, mas protege muito bem contra o médico continuar perguntando. O paciente com enxaqueca de vinte anos que chega com uma dor diferente é um paciente com cefaleia nova, e o rótulo antigo faz a investigação parar antes de começar.
Como pegar a tempo: Pergunte sempre o que está diferente desta vez: o lado, a velocidade de instalação, o que acompanha, a resposta ao remédio de sempre. Se o paciente responde que essa é diferente, ele mudou de categoria e a lista se refaz inteira, por mais consolidado que seja o diagnóstico dele.
O dano: A sensibilidade da tomografia para hemorragia subaracnóidea é de praticamente 100% nas primeiras seis horas e cai para cerca de 93% quando se considera qualquer tempo de evolução, porque o sangue se dilui e a hemoglobina se degrada. Dar alta com exame normal feito dez horas depois do início é assinar um exame que já não responde à pergunta, e o paciente sai com um documento que aumenta a confiança de todo mundo sem ter aumentado a segurança de ninguém.
Como pegar a tempo: Escreva no pedido e no prontuário a hora exata do início da dor e a hora da tomografia, e calcule o intervalo. Fora das seis horas, ou com aparelho e leitura que não garantam a qualidade do estudo original, a conduta é punção lombar — e, se o serviço não faz, transferência.
O dano: Febre é o achado que mais reclassifica esta queixa, e é o que mais se deixa de medir porque a queixa registrada foi dor de cabeça e não febre. Sem ela, a meningite entra na fila verde e a antibioticoterapia atrasa horas — e nessa doença o atraso do antibiótico é medido em desfecho neurológico e em mortalidade.
Como pegar a tempo: Temperatura axilar em todo paciente com cefaleia, sem exceção, e conferida por você quando a triagem não registrou. Some a isso o nível de consciência anotado com número e a inspeção da pele inteira despida.
O dano: Papiledema é o único sinal físico que mede pressão intracraniana à beira do leito, e ele muda a conduta em três direções ao mesmo tempo: obriga imagem, contraindica punção lombar imediata e coloca hipertensão intracraniana no topo da lista. Sem esse exame, uma punção lombar pode ser feita em quem não podia recebê-la, e uma hipertensão intracraniana idiopática pode evoluir para perda visual permanente enquanto se trata a paciente de enxaqueca.
Como pegar a tempo: Fundo de olho em toda cefaleia com sinal de alerta e em toda cefaleia progressiva, sem midriático, na sala mais escura disponível, procurando uma coisa só: borramento das margens do disco. Se você não consegue ver, isso não é o mesmo que exame normal — registre que não foi possível visualizar e considere a alternativa.
O dano: É a inversão causal mais comum do pronto-socorro brasileiro. A dor eleva a pressão, a pressão medida vira o diagnóstico, o diagnóstico dispensa a investigação e a causa real vai embora com o paciente. Além de fechar o caso errado, o rótulo produz uma segunda vítima: o anti-hipertensivo prescrito para um paciente que não precisava dele.
Como pegar a tempo: A classificação internacional exige sistólica de pelo menos 180 mmHg ou diastólica de pelo menos 120 mmHg para atribuir a dor à hipertensão, e afirma que hipertensão leve e moderada não parecem causar cefaleia. Trate a dor, deixe o paciente deitado em ambiente calmo e meça a pressão de novo em quarenta e cinco minutos. Se caiu junto com a dor, ela era consequência.
O dano: Cada hora de atraso na primeira dose piora o desfecho, e o atraso quase sempre nasce de uma boa intenção: esperar a imagem para poder puncionar com segurança, ou esperar o liquor para não atrapalhar a cultura. A diretriz global da Organização Mundial da Saúde, de 2025, corta o dilema pela raiz ao dizer que o tratamento não deve ser adiado por imagem nem quando a punção precisa ser adiada.
Como pegar a tempo: Colha hemoculturas, que levam minutos, e comece a ceftriaxona. A punção depois do antibiótico perde a cultura do liquor, mas mantém a celularidade, a bioquímica e o painel molecular, e o Guia de Vigilância em Saúde é explícito ao dizer que o tratamento imediato não impede a coleta. Perder a cultura é um preço; perder o paciente é outro.
O dano: O opioide alivia por poucas horas, não trata o mecanismo, aumenta a recorrência, provoca náusea e, sobretudo, é a classe que produz cefaleia por uso excessivo de medicação a partir de dez dias por mês. O protocolo nacional é explícito ao dizer para não prescrevê-lo na crise de enxaqueca, e ao dizer que na cefaleia em salvas ele é ineficaz. Cada ampola prescrita ensina o paciente a voltar pedindo por ela.
Como pegar a tempo: Use o degrau seguinte do protocolo, e não a classe seguinte de potência: antiemético, anti-inflamatório parenteral, dexametasona e clorpromazina. Se o esquema completo falhou em duas horas, o próximo passo é a referência, e não o opioide. O lugar legítimo do opioide está no capítulo de analgesia no paciente internado, e não é aqui.
O dano: A inquietação da acatisia é lida como piora da dor ou como ansiedade, e a resposta natural é dar mais uma dose da mesma droga, o que piora o quadro. A hipotensão, somada a um paciente em jejum e desidratado que se levanta de repente, produz síncope e queda dentro do serviço.
Como pegar a tempo: O protocolo nacional já traz a regra: não repetir a dose se houver hipotensão ou sinal ou sintoma extrapiramidal. Meça a pressão antes e depois de cada dose, pergunte especificamente se o paciente está conseguindo ficar parado, mantenha a infusão de soro correndo e oriente a não se levantar bruscamente.
O dano: É a causa mais comum de dor de cabeça diária no consultório, é reversível, e passa despercebida porque ninguém pergunta o número. Pior: o pronto-socorro alimenta a doença. Cada dose venosa é um dia de uso, e o paciente que volta toda semana está sendo mantido doente pelo tratamento que recebe.
Como pegar a tempo: Peça um número, não um advérbio: quantos dias por mês você toma remédio para dor de cabeça? Ensine os limites — quinze dias por mês para analgésico simples e anti-inflamatório, dez dias por mês para triptano, ergotamínico, opioide e analgésico combinado — e escreva isso na orientação de alta, junto com a explicação de que a retirada piora antes de melhorar.
O dano: A hipótese está certa quase sempre, e é exatamente por isso que ela é perigosa. Meningite meningocócica também dá febre, cefaleia, mialgia e manchas na pele, e a diferença entre as duas apresentações inclui um achado que se vê em cinco segundos e só se vê quem procura: o exantema petequial que não desaparece à digitopressão.
Como pegar a tempo: Em toda síndrome febril com cefaleia, examine a pele inteira despida e avalie o nível de consciência com atenção antes de fechar o diagnóstico. Confusão, sonolência, rigidez de nuca, crise convulsiva ou petéquias mudam a via, e a via nova começa com hemocultura e antibiótico.
O dano: O efeito tranquilizador de um exame normal é breve e a ansiedade volta pedindo o próximo. Enquanto isso, o exame irradia, ocupa a fila de quem tem cefaleia progressiva de seis semanas, e pode encontrar um achado incidental que gera investigação, encaminhamento e medo. O dano mais caro, porém, é o falso encerramento: o exame normal faz o médico parar de pensar num paciente cuja doença a tomografia não veria de qualquer jeito.
Como pegar a tempo: Antes de assinar o pedido, escreva a hipótese que ele vai testar e diga em voz alta o que muda se ele vier normal. Se nada muda, o exame não era necessário. Troque o pedido por três coisas que custam o mesmo tempo: o exame neurológico com fundo de olho, a explicação do que a dor é e do que ela não é, e a lista escrita de retorno.
O dano: É a orientação mais dada e a menos útil. O paciente que teve hemorragia sentinela pode ficar dias sem piorar; o que tem tumor não piora hoje; e o que tem meningite piora rápido demais para reconhecer sozinho o que é piora. Sem uma lista concreta, o retorno depende do julgamento de quem não tem como julgar.
Como pegar a tempo: Entregue a lista escrita, com estas palavras: dor que volta de repente e chega ao máximo em segundos, febre, vômito que não para, confusão ou sono demais, visão dupla ou perda de visão, fraqueza ou dificuldade para falar, convulsão, manchas na pele que não somem quando se aperta. Diga onde ir e para quem ligar, e escreva a data do retorno na unidade básica.
O que dizer ao paciente e à família
A conversa mais frequente deste capítulo não é a do diagnóstico grave. É a de explicar por que não se vai pedir um exame que o paciente veio buscar, e ela acontece dezenas de vezes por mês, sempre com a sala cheia. Feita com pressa, o paciente entende descaso, procura outro serviço, faz o exame de qualquer jeito e volta com um laudo que agora precisa ser desfeito. Feita direito, ela é parte do tratamento.
O erro de linguagem que mais custa aqui é o oposto do que se costuma temer. Não é assustar: é minimizar. Quem ouve que não tem nada entende que a dor não é real, que o médico não acreditou nele e que voltar seria incomodar — e é justamente o retorno que faz a conduta sem imagem ser segura. Diga que a dor é real, diga o que você examinou e o que estava normal, diga o que espera que aconteça, e entregue por escrito o que traz o paciente de volta.
Por que eu não vou pedir a tomografia
“Eu entendo o pedido, e vou explicar por que a minha conduta é outra — não é economia, é o que eu faria comigo. Eu examinei a senhora inteira: a força dos braços e das pernas está normal, os movimentos dos olhos estão normais, eu olhei o fundo do seu olho com essa luz e o nervo está normal, e o seu pescoço está solto. E a dor de hoje é igual às que a senhora já tem há anos, começou devagar e foi apertando, que é o jeito de começar da dor de cabeça que a senhora tem. Nessa combinação, a tomografia praticamente não encontra nada, e ela tem dois problemas. Ela irradia, e a senhora provavelmente vai precisar de outros exames ao longo da vida. E ela às vezes encontra alguma coisinha que não tem relação com a dor, e aí a gente entra num caminho de mais exames e mais medo sem ter resolvido nada. O que eu vou fazer é tratar a dor agora, marcar o seu retorno na unidade, e deixar escrito na sua mão cinco situações que trazem a senhora de volta no mesmo dia, sem esperar a data. Se alguma delas acontecer, o exame entra na hora, e vai entrar para responder uma pergunta que hoje eu ainda não tenho.”
Não diga: Não precisa de exame nenhum, isso é só tensão. Tomografia não muda nada mesmo. Aqui não tem, então nem adianta. Se a senhora quiser, faça particular.
Por que eu vou fazer punção lombar mesmo com a tomografia normal
“A tomografia veio normal, e isso é uma boa notícia. Mas eu preciso te explicar o que ela respondeu e o que ela não respondeu. Pelo que você me contou, a dor foi do nada para o insuportável em poucos segundos, e esse jeito de começar tem uma lista curta de causas, entre elas um sangramento fino em volta do cérebro. A tomografia enxerga esse sangramento muito bem nas primeiras horas. Depois disso o sangue vai se diluindo e o exame passa a não enxergar mais, mesmo quando o sangramento existiu. A sua dor começou há dez horas, então a tomografia normal, neste momento, ainda não descarta. O exame que descarta é uma coleta de líquido nas costas, com anestesia local. Você vai sentir a picada da anestesia e depois uma pressão. Leva uns quinze minutos. A complicação mais comum é uma dor de cabeça nos dias seguintes, que passa e que a gente sabe tratar. Eu sei que é chato ouvir isso depois de um exame normal, e eu não estou insistindo por desconfiança de você. Estou insistindo porque, se for isso, tratar agora muda tudo, e descobrir depois não muda mais nada.”
Não diga: É só protocolo. Vou fazer por precaução. Provavelmente não é nada, mas melhor garantir. Se você não quiser, tudo bem, assina aqui e vai para casa.
A suspeita de sangramento, e a transferência
“Eu preciso te contar o que estou pensando, e prefiro te contar agora do que depois. Do jeito que essa dor começou, uma das possibilidades é um sangramento em volta do cérebro, e é uma possibilidade séria. Não é o que eu tenho certeza; é o que eu preciso descartar hoje, aqui, sem esperar. Para isso, você vai ficar em jejum, com soro no braço, deitado, e nós já acionamos a vaga em um hospital que tem neurologista e neurocirurgião. Se for isso, tem tratamento, e o tratamento funciona muito melhor quando é feito cedo — é por isso que estou com pressa. Enquanto a vaga sai, eu vou tratar a sua dor, porque dor descontrolada aumenta a pressão e isso não ajuda em nada. Você quer que eu explique alguma coisa para alguém da sua família agora? Eu falo com quem você quiser.”
Não diga: Vai ter que ir para outro hospital, não sei quando. É melhor não falar em sangramento para não assustar. Fica calmo que não deve ser nada.
A suspeita de meningite, o isolamento e a família
“O conjunto que o seu pai tem — febre, dor de cabeça e essa confusão de hoje — pode ser uma infecção nas membranas que envolvem o cérebro. É grave e tem tratamento, e o tratamento é melhor quanto mais cedo começa. Por isso a gente já colheu sangue e já vai começar o antibiótico na veia, antes de ter qualquer resultado. Também vamos colher o líquido da coluna, que é o exame que diz qual é o germe. Nas primeiras vinte e quatro horas ele vai ficar num quarto separado e quem entrar vai usar máscara — não é castigo nem descaso, é para proteger vocês. E há uma coisa importante para a família: se for o tipo de germe que a gente suspeita, todas as pessoas que moram na mesma casa e quem tem contato próximo vão precisar tomar um antibiótico preventivo, em comprimido, por dois dias. Eu vou deixar isso escrito e a equipe de vigilância vai entrar em contato. Isso é obrigatório por lei notificar, e é o que protege as outras pessoas.”
Não diga: É meningite, mas fica tranquilo. Vamos esperar o exame para começar o remédio. Não precisa avisar ninguém em casa.
O paciente que quer algo mais forte
“Eu entendo, e não estou duvidando da sua dor. Só que mais forte, aqui, não quer dizer melhor. Os remédios mais fortes que você está imaginando são da família da morfina, e nessa dor específica eles funcionam pior do que o que a gente está usando: aliviam por poucas horas, aumentam a chance de a dor voltar mais forte no dia seguinte, dão enjoo, e, se você usar mais do que dez dias por mês, eles passam a causar a dor de cabeça em vez de tratar. Isso não é opinião minha: está escrito no protocolo nacional de cefaleia. O que eu vou fazer é subir o degrau certo, que é diferente de subir a potência. Você já recebeu o remédio para o enjoo e o anti-inflamatório. Se em uma hora não melhorar, eu tenho mais duas coisas para usar, e elas funcionam. E se nem essas resolverem, eu não repito a mesma coisa uma quarta vez: eu chamo a referência, porque aí o problema é outro.”
Não diga: Não posso dar, é controlado. Aqui não tem. Você já tomou demais, agora aguenta. Isso é vício.
A conversa do analgésico que virou a doença
“Eu quero te mostrar uma coisa, e ela vai parecer estranha no começo. Você me disse que toma dois a três comprimidos por dia, todo dia, há uns quatro meses, e que eles não fazem mais o efeito que faziam. Isso tem nome, e é um diagnóstico, não uma opinião sobre você: quando o remédio de dor é usado muitos dias por mês, o próprio remédio passa a produzir a dor. O alívio dura pouco, a dor volta, você toma de novo, e o ciclo se fecha. A conta é essa: remédio simples, no máximo quinze dias por mês; remédio com cafeína, com codeína ou os específicos de enxaqueca, no máximo dez dias por mês. Você está muito acima. E eu preciso ser honesto sobre a parte difícil: para melhorar, é preciso parar, e nas primeiras uma a duas semanas a dor piora antes de melhorar. É por isso que muita gente tenta sozinha e desiste. Eu não vou te mandar parar hoje e te deixar sozinha nisso: vou te encaminhar para a unidade com o meu relatório, para você começar com acompanhamento, com um remédio de resgate combinado e com data de retorno, e para avaliarem um tratamento preventivo, que é o que impede as crises de virem.”
Não diga: A senhora está viciada em analgésico. Para de tomar isso. O problema é a senhora que toma remédio demais. Isso é psicológico.
A pressão que não era a causa
“A sua pressão chegou aqui em 178 por 104, e eu vi que está escrito na ficha que a dor seria da pressão. Eu preciso te explicar por que eu não acho que seja assim. A dor forte, sozinha, faz a pressão subir — é o corpo reagindo. Então, quando alguém chega com dor e pressão alta, na maioria das vezes a dor veio primeiro. Existe uma dor de cabeça causada pela pressão, mas ela só entra na conta quando os números são bem mais altos do que os seus, e quando a dor melhora junto com a pressão. Vamos fazer o teste: eu vou tratar a sua dor, você vai ficar deitada aqui num lugar calmo, e daqui a quarenta e cinco minutos a gente mede de novo. Se a pressão cair junto com a dor, a gente confirma que ela era consequência, e aí o assunto passa a ser a sua dor de cabeça, que é o que de fato precisa de tratamento. E a sua pressão continua sendo importante, mas ela vai ser acompanhada na unidade, com medidas em dias diferentes, e não decidida hoje, no meio de uma crise de dor.”
Não diga: É a pressão mesmo, toma esse remédio embaixo da língua. Sua pressão está altíssima, isso pode dar um derrame agora.
A alta com incerteza honesta
“Eu vou te dar alta, e quero que você saia daqui sabendo exatamente o que eu sei e o que eu não sei. O que eu sei: o seu exame neurológico está normal, o fundo do seu olho está normal, você não tem febre, e a tomografia não mostrou sangramento, tumor, nem líquido represado. O que eu não sei: eu não tenho o nome exato da sua dor de cabeça hoje, e isso é comum e não é falha. A maior parte das dores de cabeça não recebe nome na primeira consulta, e o nome aparece com o tempo, olhando como ela se comporta. Por isso, duas coisas. A primeira é esta folha, com sete situações escritas. Se qualquer uma delas acontecer, você volta no mesmo dia, sem esperar a data e sem pedir desculpa. A segunda é este retorno marcado na unidade, com data, porque é lá que a gente vai ver se esse padrão se repete e decidir se você precisa de um tratamento preventivo. Voltar não é incomodar: faz parte do plano que eu estou te dando.”
Não diga: Está tudo normal, pode ir para casa. Se piorar, volta. Não deu nada nos exames, então não é nada.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
A tomografia precoce basta: a punção pode ser dispensada
Numa coorte prospectiva de 3.132 pacientes, os 953 tomografados dentro de seis horas do início da dor tiveram sensibilidade de 100%, com intervalo de confiança de 97,0% a 100%, para os 121 casos de hemorragia subaracnóidea. Uma metanálise posterior de cinco estudos, com cerca de 8.907 pacientes, encontrou sensibilidade de 98,7% e razão de verossimilhança negativa de 0,010 para a tomografia precoce, e concluiu explicitamente que a alta sensibilidade coloca em questão a necessidade de sempre puncionar depois de uma tomografia normal.
Perry JJ et al., BMJ 2011;343:d4277; Dubosh NM et al., Stroke 2016;47(3):750-755
A punção continua indicada quando a suspeita clínica é forte
Uma revisão sistemática de 63 estudos com 38.237 pacientes, publicada em 2025, encontrou sensibilidade agrupada de 0,94 para a tomografia em qualquer tempo e de 0,995 nas primeiras seis horas, mas classificou 57% dos estudos como de alto risco de viés e estimou o número de hemorragias que seriam perdidas por ano se a punção saísse do fluxo diagnóstico. Recomenda, com todas as letras, que havendo forte suspeita clínica com tomografia normal feita em menos de seis horas, a punção lombar seja realizada.
Gillespie CS et al., Brain and Spine 2025;5:104200
Repare no que os dois lados têm em comum: nenhum discute o número, os dois discutem a transferência do número para o seu serviço. A sensibilidade de 100% do estudo original foi obtida com tomógrafo multidetector de geração moderna, cortes finos e laudo de radiologista qualificado, em pacientes sem déficit focal, sem papiledema e sem antecedente de aneurisma. Três perguntas decidem para o paciente à sua frente. A hora de início é conhecida com precisão, ou o paciente diz que foi no fim da tarde? O exame foi feito em aparelho multidetector e laudado por radiologista, ou foi visto pelo plantonista no monitor? E qual é a força da sua suspeita clínica: o paciente descreveu um estouro em segundos durante esforço, ou é uma história vaga que virou súbita depois de três reperguntas? Com as três respostas favoráveis e um paciente que entende a incerteza residual, dispensar a punção é defensável — e a decisão precisa ser compartilhada e registrada, com plano de retorno em 24 horas. Com qualquer uma delas desfavorável, puncione. E o critério que resolve o desempate na rede brasileira é a reversibilidade do erro: uma punção desnecessária custa desconforto e alguns dias de cefaleia pós-punção; uma hemorragia perdida custa a vida do paciente no ressangramento.
Iniciar com a primeira dose do antibiótico
A diretriz global da Organização Mundial da Saúde, de 2025, recomenda que corticosteroide intravenoso seja iniciado com a primeira dose do antibiótico na meningite pneumocócica suspeita ou provável, em cenários não epidêmicos em que a punção foi feita, e mantido por no máximo quatro dias se a meningite bacteriana for confirmada. A diretriz alemã de meningite bacteriana do adulto recomenda dexametasona 10 mg por via intravenosa quatro vezes ao dia junto do antibiótico em todo adulto com suspeita clínica de meningite bacteriana adquirida na comunidade, mantida por quatro dias quando o pneumococo é identificado ou permanece provável.
World Health Organization, WHO guidelines on meningitis diagnosis, treatment and care, 2025; Klein M et al., Neurological Research and Practice 2023;5:44
O documento brasileiro não a incorpora
O Guia de Vigilância em Saúde não traz recomendação de corticoide adjuvante nos capítulos de doença meningocócica e de outras meningites, e a única menção a corticoide é sobre o choque, em tom reticente: registra que o uso nessas situações é discutível, porque há controvérsias a respeito da influência favorável ao prognóstico. O esquema brasileiro do adulto é antibiótico, suporte e reposição de líquidos.
Brasil, Ministério da Saúde, Guia de Vigilância em Saúde, volume 1, 6ª edição revisada, 2024, capítulos Doença meningocócica e Outras meningites
A divergência não é sobre o efeito da droga, é sobre o que cada documento se propõe a fazer. O Guia de Vigilância em Saúde é um documento de vigilância epidemiológica: ele define caso, notificação, esquema antimicrobiano e profilaxia de contatos, e não é um manual de terapia intensiva. O silêncio dele sobre corticoide adjuvante não é uma recomendação contra. Duas coisas decidem à beira do leito. A primeira é a probabilidade de pneumococo, que é onde o benefício está mais bem estabelecido: adulto com meningite adquirida na comunidade, sem exantema petequial, com foco otogênico ou sinusal, ou com bacterioscopia mostrando coco Gram-positivo. A segunda é o momento: o benefício depende de a dexametasona entrar com a primeira dose do antibiótico ou antes dela — começar depois é perder a janela. Se você não vai conseguir dar as duas coisas juntas, dê o antibiótico e siga em frente, porque o antibiótico é o que salva. E, seja qual for a decisão, registre-a e comunique-a à referência, porque quem receber o paciente precisa saber se o corticoide entrou e quando.
Cinquenta anos
O protocolo nacional brasileiro de urgência lista, entre os sinais de alerta, a cefaleia que iniciou após os cinquenta anos. Os protocolos de encaminhamento da atenção primária usam o mesmo corte em duas listas distintas: entre os sinais de alerta que sugerem manejo em serviço de urgência, com a descrição do padrão novo de cefaleia após os cinquenta anos com artéria temporal dolorosa e velocidade de hemossedimentação elevada; e entre as condições que indicam investigação com imagem fora da emergência.
Academia Brasileira de Neurologia e Sociedade Brasileira de Cefaleia, Protocolo nacional para diagnóstico e manejo das cefaleias nas unidades de urgência do Brasil, 2018; TelessaúdeRS-UFRGS, Protocolos de encaminhamento para Neurologia Adulto, atualização de 2020
Sessenta e cinco anos
A lista internacional de sinais de alerta publicada em 2019, que reúne quinze itens e revisa a sensibilidade e a especificidade de cada um, define o item de idade como início após os sessenta e cinco anos, e não após os cinquenta. Na validação prospectiva dessa mesma lista em emergência hospitalar, entretanto, o item efetivamente medido foi o de início após os cinquenta anos, com sensibilidade de 64,4%.
Do TP et al., Neurology 2019;92(3):134-144; García-Azorín D et al., Cephalalgia 2022;42(14):1521-1531
Este é o tipo de divergência que parece detalhe e muda quem entra na sua rede de segurança. Corte mais baixo captura mais gente e gera mais exame; corte mais alto perde casos de arterite de células gigantes, que praticamente não existe abaixo dos cinquenta anos e cuja perda custa visão irreversível. Decida pela consequência do erro em cada direção e pelo que a bandeira aponta: a idade não é uma bandeira única, é duas coisas ao mesmo tempo — o risco crescente de lesão estrutural, que sobe de forma contínua com a década, e o risco de arterite, que tem um piso etário nítido nos cinquenta. Este capítulo usa cinquenta anos como gatilho para procurar ativamente arterite, palpar as artérias temporais e considerar velocidade de hemossedimentação e proteína C reativa, e trata a idade acima disso como um item que se soma aos outros, e não como indicação automática de tomografia. É também o corte dos dois documentos brasileiros, que é o que o serviço em que você trabalha vai cobrar.
Intramuscular, que é o que o rótulo autoriza
O protocolo nacional de urgência prescreve clorpromazina 0,1 a 0,25 mg/kg por via intramuscular, com a ampola de 25 mg em 5 mL, repetível a cada hora por no máximo três vezes, com a orientação de vigiar hipotensão e sintomas extrapiramidais e de não repetir se qualquer um dos dois aparecer. A bula profissional brasileira da solução injetável de 5 mg/mL registra que a administração deve ser somente por via intramuscular.
Academia Brasileira de Neurologia e Sociedade Brasileira de Cefaleia, Protocolo nacional, 2018; bula profissional de cloridrato de clorpromazina solução injetável 5 mg/mL, União Química
Intravenosa diluída, com o paciente monitorizado
O consenso brasileiro de tratamento da crise migranosa de 2000 prescrevia, para a crise refratária, clorpromazina 0,1 mg/kg por via intravenosa administrada em três minutos, repetível a cada quatro horas, associada a dexametasona. A versão de 2016 do consenso mantém a via intravenosa na dose pediátrica que descreve.
Sociedade Brasileira de Cefaleia, Recomendações para o tratamento da crise migranosa, Arquivos de Neuro-Psiquiatria 2000;58(2A); Bordini CA et al., Arquivos de Neuro-Psiquiatria 2016;74(3):262-271
A divergência é entre o que o rótulo autoriza e o que a prática de serviços especializados faz, e ela decide o que você escreve na prescrição num plantão em que a responsabilidade é sua. Três coisas pesam. A primeira é a estrutura: a via intravenosa exige monitorização de pressão e um paciente que possa permanecer deitado e vigiado, o que nem toda unidade de pronto atendimento oferece. A segunda é a autoria da prescrição: interno prescreve sob supervisão, e prescrever fora do que a bula autoriza é uma decisão do preceptor, tomada explicitamente e registrada. A terceira é a reversibilidade: a hipotensão da via intravenosa aparece mais rápido e é mais profunda, e o ganho de velocidade sobre a via intramuscular não compensa esse risco fora de um ambiente monitorizado. Este capítulo prescreve a via intramuscular, que é a do rótulo e a do protocolo nacional, e trata a via intravenosa como decisão de serviço com estrutura para ela — não como alternativa equivalente a ser escolhida por conveniência.
O raciocínio, em voz alta
Meia-noite e vinte. O Jonas, 44 anos, motorista de van escolar, é chamado da fila verde. Ele entra andando, senta sozinho, e a primeira coisa que diz é que já está quase bom e que só ficou porque a esposa insistiu. Refere dor de cabeça que começou hoje às cinco e vinte da tarde e que agora está em 3 de 10. Não tem febre, não tem doença conhecida, não usa medicação de uso contínuo. Pressão 152 por 92, frequência cardíaca 78, temperatura 36,4, glicemia 104. Glasgow 15, orientado, fala normal.
O que penso agora
Antes de qualquer hipótese, eu tenho um paciente que parece bem e uma queixa que já melhorou — que é exatamente a combinação que costuma sair daqui sem investigação. Então a primeira coisa não é decidir o diagnóstico: é fazer a pergunta que ainda não foi feita. Ele disse quando começou. Não disse em quanto tempo chegou ao máximo.
O que pergunto
Do momento em que o senhor sentiu a primeira fisgada até o momento em que a dor estava no pior que ficou, passou quanto tempo: segundos, minutos ou horas? E o que o senhor estava fazendo exatamente nesse momento?
A resposta muda o caso
Ele responde sem hesitar: foi na hora. Eu estava levantando um galão de água, deu uma pancada na cabeça e eu não consegui nem colocar o galão no chão. Vomitei ali mesmo e sentei no chão. Olhei o relógio porque achei que ia desmaiar: cinco e vinte. Aqui o caso deixa de ser fila verde. Pico em segundos, durante esforço, com vômito, é cefaleia de instalação súbita, e a lista de causas é quase toda vascular.
O que penso agora
A melhora com o analgésico que ele tomou em casa não é argumento a favor de benignidade — sangue no espaço subaracnóideo dói e depois dói menos, e a dipirona funciona nele como funciona em qualquer dor. A pressão de 152 por 92 também não é diagnóstico: é reação. O que eu tenho é um paciente na categoria em que, entre os que atingem o pico em até uma hora, cerca de um em cada quinze tem hemorragia subaracnóidea. E ele está com o exame normal, que é o retrato do sangramento sentinela.
O que examino
Pescoço com resistência discreta à flexão passiva, sem Kernig e sem Brudzinski. Pupilas isocóricas e reagentes, movimentos oculares completos, sem ptose. Campo visual por confrontação normal. Força 5 em todos os grupos, sensibilidade preservada, marcha normal. Fundo de olho sem borramento das margens do disco. Pele sem petéquias. O exame normal não retira o paciente da categoria: a regra de decisão que se aplica aqui exige exatamente um paciente alerta e sem déficit focal para ser usada.
Aplico a régua em voz alta
Dos seis itens da regra de Ottawa, ele tem quatro: idade de 44 anos, dor no pescoço, início durante esforço e dor em trovoada com pico instantâneo. Um item já obrigaria a investigar. E é bom lembrar o que a regra faz e o que ela não faz: ela tem sensibilidade de 100% e especificidade de 15%, o que quer dizer que ela quase não deixa passar e quase não libera ninguém. Ela não está autorizando o exame; ela está impedindo a alta.
O que peço, e por quê
Tomografia de crânio sem contraste, com a hora exata do início escrita no pedido: cefaleia com pico em segundos durante esforço às 17h20, investigar hemorragia subaracnóidea. Enquanto o exame é feito, o paciente fica em leito de observação, em jejum, com acesso venoso, e recebe analgesia — dipirona 1 g por via intravenosa, dois mililitros da ampola de 500 mg por mililitro, diluídos e infundidos em pelo menos dois minutos, com ele deitado. Tratar a dor não apaga o diagnóstico e evita o pico pressórico.
A resposta chega e ela não encerra
Uma e quarenta da manhã: tomografia sem sinais de hemorragia, sem lesão expansiva, sem hidrocefalia, sem desvio de linha média. Este é o momento em que o interno dá alta, e é o erro do capítulo. A conta é simples e precisa ser feita no papel: a dor começou às 17h20 e a tomografia foi feita à 01h10. São quase oito horas. A janela em que a tomografia tem sensibilidade praticamente total é de seis horas. Fora dela, a sensibilidade cai — na coorte inteira, sem restrição de tempo, ela foi de 92,9%.
O que faço a seguir
A investigação de hemorragia subaracnóidea precisa prosseguir. Punção lombar é uma rota importante após TC negativa fora da janela de maior sensibilidade, considerando método de pesquisa de xantocromia, hemácias e tempo de evolução. Não se deve simplesmente aguardar doze horas sem um plano e monitorização; discutir com a referência a investigação imediata, inclusive angiotomografia quando adotada no protocolo. A escolha deve considerar diagnósticos alternativos e as limitações de cada exame. Aciono transferência quando o serviço não consegue completar a avaliação de forma segura.
O que digo a ele
Explico que a tomografia normal é uma boa notícia mas não fecha o caso, porque ela foi feita tarde para o tipo de sangramento que estou procurando; que o exame que fecha é a coleta de líquido nas costas; e que ele não vai embora hoje. Digo também por que não estou insistindo por desconfiança dele: se for isso, tratar agora muda tudo, e descobrir depois não muda mais nada. Ele reclama do trabalho de amanhã. Eu escrevo o atestado e não mudo a conduta.
O desfecho, e o que ele ensina
Liquor com xantocromia. Angiotomografia mostrando aneurisma de artéria comunicante posterior. Ele foi tratado e voltou ao trabalho. Não houve nada de sofisticado neste caso: o exame físico era normal, a tomografia era normal, e todo o desfecho dependeu de duas coisas gratuitas — uma pergunta sobre tempo até o pico e uma subtração de horários feita no papel antes de assinar a alta.
Faça você
Quarta-feira, 15h40, pronto-atendimento. Dona Ivanilde, 66 anos, aposentada, vem sozinha. Queixa-se de dor de cabeça há três semanas, do lado direito, na região da têmpora, que começou devagar e vem piorando; é a primeira vez na vida que ela tem dor de cabeça assim. Dorme mal por causa da dor e diz que dói encostar a cabeça no travesseiro daquele lado. Perdeu uns quatro quilos nos últimos dois meses sem fazer dieta, e anda sentindo o corpo dolorido de manhã, principalmente ombros e quadris. Conta, quando perguntada, que ontem à tarde a vista do olho direito escureceu por uns dois minutos e depois voltou ao normal, e que achou que fosse fraqueza. Refere ainda que o maxilar cansa e dói quando ela mastiga carne, e que agora corta a carne bem pequena para não precisar mastigar muito. Temperatura 37,6. Pressão 138 por 84. Ao exame: consciente, orientada, exame neurológico sem déficit, fundo de olho sem papiledema, acuidade visual grosseiramente preservada nos dois olhos no momento. A artéria temporal direita está endurecida, dolorosa à palpação e sem pulso palpável. Você pediu tomografia de crânio sem contraste, que voltou normal.
Passo 1 — a categoria
É uma cefaleia nova depois dos 50 anos, progressiva, com sintomas sistêmicos e visuais: a prioridade é investigar uma causa secundária. Ter menos de cinco crises não exclui toda cefaleia primária; neste caso, os sinais de alerta e o padrão clínico é que impedem atribuir o quadro a migrânea.
Passo 2 — as bandeiras
Conte-as: início depois dos cinquenta anos; primeira cefaleia da vida; padrão progressivo; sintomas sistêmicos com febre baixa e perda de peso; e um sintoma visual transitório. Cada uma delas isolada já indicaria investigação. Juntas, elas não apontam para lugares diferentes: convergem para um único diagnóstico.
Passo 3 — os achados que fecham o quadro
Claudicação de mandíbula, dor no couro cabeludo ao deitar do lado da dor, dor à palpação com endurecimento e ausência de pulso na artéria temporal, e sintomas de polimialgia reumática nos ombros e quadris. O escurecimento visual de dois minutos é amaurose fugaz, e nesse contexto é o aviso que precede a perda definitiva.
Passo 4 — o que a tomografia normal significa aqui
Significa que não há sangue, massa, hidrocefalia nem desvio. Não significa nada sobre a hipótese principal, porque a doença dela está na parede de artérias que a tomografia sem contraste não avalia. Este é o exemplo mais limpo do capítulo de um exame normal que não encerra, e de um exame que nem sequer olhava para o lugar certo.
Passo 5 — decida e escreva
Escreva agora, antes de ler a resposta: quais exames você pede neste atendimento, o que você prescreve e em que momento, o que você não espera para prescrever, para quem você encaminha e em que prazo, e o que você escreve na orientação de retorno. Justifique cada item pela consequência do erro em cada direção.
Ver como fecharíamos
O diagnóstico de trabalho é arterite de células gigantes com sintoma visual, e a conduta muda de categoria por causa da amaurose fugaz. Peça velocidade de hemossedimentação e proteína C reativa neste atendimento, junto com hemograma — mas o ponto central é que o corticoide não espera pelo resultado nem pela biópsia da artéria temporal, porque o que está em jogo é a visão do olho direito e, em dias, a do esquerdo, e a perda é irreversível. A biópsia da artéria temporal continua indicada e é feita em seguida: o que não se faz é adiar o corticoide por causa dela. Acione oftalmologia no mesmo turno pela amaurose fugaz e reumatologia para a condução, e transfira se o seu serviço não tem essas especialidades, com a suspeita escrita no encaminhamento e o horário da primeira dose registrado. Trate a dor com analgésico simples, sem opioide. E não deixe a alta acontecer com a frase de que a tomografia estava normal: o relatório precisa dizer, por escrito, que a tomografia normal não avalia a hipótese principal, que a velocidade de hemossedimentação e a proteína C reativa foram colhidas e que o corticoide foi iniciado por suspeita de arterite com sintoma visual. Na orientação de retorno, além da lista habitual, uma frase específica: qualquer novo escurecimento ou perda de visão, em qualquer dos olhos, é retorno imediato ao pronto-socorro, sem esperar consulta. O erro que este caso pune não é diagnóstico — é de sequência: quem espera o resultado da velocidade de hemossedimentação para decidir o corticoide, ou quem manda para casa com consulta marcada porque a tomografia veio normal, faz tudo certo na ordem errada e a paciente perde a visão no intervalo.
Nenhuma das contraindicações à punção imediata está presente: o Glasgow é 14, não há déficit focal nem de nervo craniano, não há papiledema, não houve crise convulsiva e não há imunossupressão grave. A punção pode e deve ser feita agora, sem esperar imagem, e a diretriz global de meningite de 2025 é explícita ao dizer que o tratamento não deve ser adiado por imagem nem quando a punção precisa ser adiada. O Guia de Vigilância em Saúde brasileiro reforça pelo outro lado: o tratamento imediato não impede a coleta de material para diagnóstico etiológico. Dispensar a punção joga fora o diagnóstico etiológico e a duração correta do tratamento, e adiá-la para depois inviabiliza a definição do agente. A descrição não identifica indicação obrigatória de TC prévia segundo a estratégia apresentada, mas também é preciso avaliar coagulação, anticoagulantes, infecção local e estabilidade. Se qualquer etapa atrasar, inicie antimicrobiano e dexametasona quando indicada antes da punção.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Compare TC negativa às 3 horas e às 8 horas em uma primeira cefaleia em trovoada. Explique as condições e limitações de cada resultado, sem tratar seis horas como garantia universal.
Em 30 dias
Conduza três situações: migrânea habitual, cefaleia com febre e confusão, e cefaleia nova com amaurose fugaz. Justifique o tratamento que começa antes da confirmação em cada emergência.
Agora atenda
Agora atenda: homem de 63 anos trazido pela filha ao pronto-socorro às 23h, com dor de cabeça desde ontem e temperatura de 38,4 aferida na triagem. A filha diz que ele está trocando as palavras desde a tarde e que dormiu o caminho inteiro dentro do carro; ele responde ao nome, mas demora. Foi classificado como verde porque a queixa registrada na recepção foi dor de cabeça. Faça a anamnese que decide, examine — inclusive pescoço, fundo de olho e a pele inteira —, defina a categoria e a via, decida imagem e punção lombar com critério e diga o que vem antes do quê, e escreva a prescrição inteira com dose, via, frequência e duração. Diga também, em voz alta, o que você vai falar para a filha sobre isolamento, sobre notificação e sobre o que a família dele vai precisar tomar.
