Clínica MédicaSíndromes do Paciente na Emergência

Déficit neurológico focal agudo

Um lado do corpo parou de obedecer e alguém precisa dizer a que horas. Este capítulo é sobre o relógio — como se cronometra a janela, o que a tomografia responde e o que ela não responde, o que atrasa a agulha, e os quatro imitadores que fazem trombolisar quem não tinha artéria entupida.

Fontes deste capítulo

Ministério da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Acidente Vascular Cerebral Isquêmico Agudo, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 29, de 12 de dezembro de 2023

Ministério da Saúde — Linha de Cuidados em Acidente Vascular Cerebral (AVC) na Rede de Atenção às Urgências e Emergências

Ministério da Saúde — Protocolos de Suporte Avançado de Vida do SAMU 192. Brasília, 2014

Ministério da Saúde — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) 2024. Brasília, 2024

Bula profissional — Solução de glicose 50% (glicose 500 mg/mL), solução injetável

01

Responda antes de ler

Homem de 52 anos, sem epilepsia conhecida, trazido às 14h com hemiparesia esquerda e disartria. A esposa presenciou o início às 13h40 e conta que, antes de o braço ficar fraco, a mão esquerda dele ficou tremendo sozinha por cerca de um minuto e ele ficou desconectado por mais alguns minutos. Glicemia 96 mg/dL, pressão 150 por 88 mmHg, tomografia sem hemorragia. O residente diz que a descrição é de paresia de Todd e que o protocolo deve ser encerrado. Qual é a conduta correta?

02

O paciente que você vai ver

Domingo, 8h50. Você é o interno de plantão na unidade de pronto atendimento de uma cidade de quarenta mil habitantes. A unidade tem sala de emergência com dois leitos, monitor, oxigênio, laboratório que funciona de segunda a sexta e um aparelho de raio-X. Não tem tomógrafo. O hospital que tem fica a noventa quilômetros, e a ambulância de suporte avançado é uma só, compartilhada com as três cidades vizinhas.

Uma Kombi para na frente e desce um homem apoiado em duas pessoas. É Osvaldo Brito de Sá, 58 anos, motorista de van escolar, morador da rua de trás. Quem dirigiu foi a vizinha, dona Cida, que o encontrou sentado no degrau da varanda de casa quando passou para devolver uma travessa.

Osvaldo está acordado. Olha para você quando você chama o nome dele, acompanha o seu rosto, e quando você pergunta o que aconteceu ele abre a boca, produz um som que começa parecido com uma palavra e para no meio. Tenta de novo. Sai outra coisa. Ele fecha os olhos com força, respira, e bate a mão esquerda na perna — o gesto de quem está irritado consigo mesmo, não de quem está perdido. Isso importa: quem não entende a própria situação não se irrita com a própria fala.

O canto direito da boca está caído. Quando você pede para ele erguer os dois braços e mantê-los, o esquerdo sobe e fica; o direito sobe uns vinte centímetros e desce sozinho em cinco segundos, sem que ele pareça notar que desceu. A perna direita responde ao comando, mas fraca. Ele não tem dor de cabeça — você pergunta por gestos e ele nega com a cabeça, devagar e com clareza.

Dona Cida está do lado, com a travessa ainda na mão, e você faz a pergunta que vai decidir tudo o que acontece nesta manhã: a que horas a senhora viu ele bem pela última vez?

Ela pensa. Diz que encontrou ele às oito e meia, mais ou menos, quando ia devolver a travessa. Você repete a pergunta com outras palavras: não quando a senhora achou ele assim — quando a senhora viu ele normal, falando, andando, antes disso. Ela pensa de novo e responde: sete e meia. Ele estava na padaria da esquina comprando pão, e falou com ela sobre o jogo. Falou normal. Ela tem certeza porque a padaria fecha às oito aos domingos e ela estava na fila atrás dele.

São 8h52. Sete e meia foi há oitenta e dois minutos.

Você tem, portanto, cento e oitenta e oito minutos até o fim da janela de quatro horas e meia — e noventa quilômetros de estrada entre este corredor e o tomógrafo mais próximo. A partir de agora, tudo o que você fizer ou deixar de fazer nesta sala é subtraído desse número. E há uma pergunta que ainda não foi respondida, que nenhuma ambulância resolve e que muda o destino do paciente: isto é mesmo um AVC?

03

Quem adoece disso

No Brasil, o acidente vascular cerebral é a causa mais frequente de óbito na população adulta — cerca de 10% das mortes — e responde por cerca de 10% das internações hospitalares públicas. O país tem a quarta maior taxa de mortalidade por AVC entre os países da América Latina e do Caribe, e a incidência regional gira em torno de 150 casos por 100 mil habitantes por ano. A leitura prática para quem está no plantão é simples: déficit neurológico focal e súbito não é evento raro nem evento de neurologista. É evento de porta — e a porta, na maior parte do país, é uma unidade sem neurologista dentro.

A conta do prejuízo explica por que o capítulo inteiro gira em torno de minutos. A mortalidade nos primeiros trinta dias é de cerca de 10% e chega a 40% no primeiro ano. Entre os que sobrevivem, aproximadamente 70% não retornam ao trabalho e cerca de 30% precisam de auxílio para caminhar. Osvaldo tem 58 anos e dirige van escolar; a diferença entre ele voltar a dirigir e ele não voltar mais está sendo decidida enquanto você lê esta frase.

O que os números brasileiros mostram com mais clareza, porém, não é a doença — é o atraso. Uma coorte nacional que auditou 64 prontuários de pacientes efetivamente trombolisados encontrou tempo médio entre o início dos sintomas e a chegada ao hospital de 98,4 minutos, e tempo porta-agulha médio de 89,8 minutos, com desvio padrão de 39,8. O total, do sintoma à infusão, foi de 191,4 minutos em média. Repare no que esses três números dizem juntos: mesmo nos pacientes que conseguiram ser tratados, o hospital consumiu quase tanto tempo quanto o paciente levou para chegar. O relógio que você controla é o segundo, e ele é aproximadamente metade do problema.

Um tempo porta-agulha de 89,8 minutos significa que, de uma janela de 270 minutos, um terço se gasta dentro do prédio. Para Osvaldo, que chegou com 82 minutos já consumidos e ainda precisa de transporte, um desempenho apenas médio no hospital de destino o joga para fora da janela. Não porque a doença seja rápida demais, mas porque a sequência de tarefas é lenta demais — e a sequência é a única coisa desta história que é inteiramente sua.

Falta o número que muda a natureza da pergunta: nem todo déficit focal agudo é vascular. Uma coorte de 736 pacientes atendidos consecutivamente por sintoma neurológico agudo numa unidade de AVC encontrou infarto isquêmico agudo confirmado em 385 deles (52,3%); outros 93 (12,6%) tinham lesão cerebral diferente imitando isquemia aguda, e 258 (35,1%) tinham imagem normal. Somando, 47,7% dos pacientes admitidos naquela unidade de AVC não tinham lesão aguda de AVC. Esse dado é francês, de um hospital universitário de Tours, e entra aqui com essa etiqueta porque não há equivalente nacional de mesmo porte; a ordem de grandeza, porém, é o que importa. Quase metade de quem entra por uma porta de AVC não está tendo um.

A mesma coorte descreve o perfil de quem imita: paciente do sexo feminino, com poucos fatores de risco vascular, pontuação baixa na escala de gravidade e — atenção a esta — rebaixamento do nível de consciência ou sintomas sugestivos de circulação posterior. Guarde esse perfil não para descartar AVC, mas para saber quando o seu limiar de dúvida deve subir antes de alguém infundir um trombolítico.

Duas consequências práticas fecham o bloco. A primeira: como metade da fila não tem AVC, a régua clínica que separa AVC de imitador não é um detalhe acadêmico — ela é usada, em média, em um paciente a cada dois. A segunda: como o atraso brasileiro está dentro do hospital, a maior parte do benefício que você pode gerar neste capítulo não vem de saber mais medicina do que sabe, e sim de mudar a ordem em que faz o que já sabe fazer.

04

Por que acontece o que acontece

Este bloco não explica o infarto cerebral; explica por que um déficit é focal, por que ele costuma ser negativo, e por que quatro doenças completamente diferentes conseguem produzir a mesma cena na porta. Sem isso, os imitadores viram uma lista para decorar. Com isso, eles viram uma pergunta que se faz ao acompanhante.

Focal significa territorial, e território é anatomia

O cérebro não é um órgão homogêneo: cada pedaço faz uma coisa, e cada pedaço é irrigado por um vaso específico. Quando um vaso fecha, o que para de funcionar é exatamente o conjunto de funções daquele pedaço — nada mais, nada menos. É por isso que o déficit vascular é focal: ele desenha um território arterial, não um sintoma avulso.

Daí decorre a regra que organiza o exame na porta: os achados de um AVC costumam fazer sentido juntos. Afasia com hemiparesia direita e desvio do olhar para a esquerda é um conjunto coerente — tudo isso mora no hemisfério esquerdo, no território da artéria cerebral média. Fraqueza no braço direito com fraqueza na perna esquerda não é coerente com território arterial nenhum, e um achado desses deve fazer você desconfiar antes de acreditar.

Já um insulto metabólico — hipoglicemia, hiponatremia, hipóxia, sepse, droga — atinge o cérebro inteiro ao mesmo tempo e produz tipicamente um quadro global: sonolência, confusão, lentificação, sem lado. É a diferença que separa este capítulo do capítulo de alteração do nível de consciência: lá o problema é difuso e a pergunta é o que está intoxicando o cérebro todo; aqui o problema tem lado, e a pergunta é qual território.

A exceção que estraga a regra, e que por isso precisa ser sabida de cor, é a hipoglicemia. Ela é metabólica e mesmo assim produz déficit focal convincente. Duas coisas explicam isso. Primeiro, os neurônios não têm todos a mesma vulnerabilidade nem o mesmo consumo, e algumas regiões falham antes das outras quando falta substrato. Segundo, e mais importante na prática, o cérebro de quem já teve um AVC antigo tem uma área cicatricial cujos neurônios sobreviventes trabalham no limite; qualquer queda de oferta energética derruba primeiro aquela área, e o paciente reapresenta exatamente o déficit que ele já teve e do qual havia se recuperado. Esse fenômeno tem nome — recrudescência de déficit antigo — e explica também por que uma infecção urinária num idoso com sequela de AVC prévio pode chegar ao pronto-socorro parecendo um AVC novo.

Guarde a consequência, porque ela reaparece três vezes neste capítulo: um déficit focal em quem já teve AVC não prova que há um AVC novo. Prova que há um cérebro com uma região frágil, e obriga a procurar o que a descompensou.

Negativo e positivo: a pergunta que separa vaso de neurônio

Uma artéria que fecha causa perda. O neurônio para de disparar por falta de energia, e o que o paciente relata é ausência: o braço não pega, a fala não sai, o lado do campo visual sumiu, a metade do corpo ficou dormente. São sintomas negativos, e eles se instalam de uma vez — o déficit já nasce do tamanho que vai ter.

Uma crise epiléptica é o contrário: um grupo de neurônios dispara em excesso e de forma sincronizada. O que o paciente ou a testemunha descrevem é acréscimo — o braço tremeu, a mão se contraiu sozinha, formigou, apareceu um cheiro que não existia, a visão encheu de luz. São sintomas positivos, e eles marcham: a descarga se espalha pela superfície do córtex seguindo o mapa do corpo, então o formigamento sobe da mão para o braço e do braço para a face, em segundos.

O problema é o que vem depois. Terminada a crise, aqueles mesmos neurônios ficam exauridos — as bombas iônicas gastaram o estoque energético para restaurar o gradiente que a descarga desfez, e a região fica temporariamente muda. O resultado é uma paresia que é negativa, que tem lado, que dura de minutos a horas e que, olhada isoladamente na porta, é indistinguível de um AVC. Chama-se paralisia de Todd, e é um dos imitadores mais frequentes que você vai encontrar.

É por isso que a pergunta decisiva não é sobre a fraqueza. É sobre o que veio antes dela: antes de o braço ficar fraco, ele tremeu, se contraiu, formigou, ficou duro? Quem responde é a testemunha, não o paciente — porque o paciente esteve inconsciente ou amnéstico durante justamente a parte que importa. É a mesma pessoa que sabe o horário, e é a mesma pessoa que vai embora estacionar o carro.

A régua vale nos dois sentidos e não é absoluta: uma pequena proporção dos AVC, cerca de 10% e especialmente os embólicos, cursa com crise convulsiva concomitante. Ver uma crise não exclui AVC, e crise epiléptica não é contraindicação à trombólise.

Por que a aura da enxaqueca marcha devagar

A aura da enxaqueca é produzida por um fenômeno diferente dos dois anteriores: uma onda de despolarização seguida de silenciamento que atravessa o córtex lentamente, na ordem de poucos milímetros por minuto. Essa velocidade é a assinatura clínica do fenômeno, e é o que permite separá-la de tudo o mais na beira do leito.

Traduzindo para o relato: a aura leva de cinco a vinte minutos para se espalhar de um território para outro, e o paciente consegue contar a progressão. Primeiro apareceu um ponto brilhante à direita do campo visual; depois ele foi crescendo e virando um arco serrilhado; depois começou a formigar a mão; depois o formigamento subiu para o rosto; e só então a fala embolou. Um AVC não faz isso. O déficit vascular não caminha em vinte minutos — ele chega pronto.

E há a sequência positivo-antes-de-negativo: na aura, o escotoma cintilante precede o escotoma cego, e o formigamento precede a dormência. Um AVC começa direto no negativo. Se o relato tem luz antes do escuro e formigamento antes da dormência, e a progressão levou minutos e não segundos, você está diante de aura. A enxaqueca como doença, seus critérios e seu tratamento estão no capítulo de cefaleia no pronto-socorro; aqui ela interessa só como imitadora.

Uma ressalva que o interno precisa ouvir antes de usar isso com segurança: primeira aura da vida, em pessoa que nunca teve enxaqueca, especialmente acima dos cinquenta anos, não se resolve com esse raciocínio. A migrânea com aura tipicamente começa cedo na vida e se repete parecida; um episódio inaugural em idade vascular é AVC até prova em contrário, mesmo com a curva bonita.

Fraqueza funcional: o circuito voluntário e o circuito automático

O quarto imitador é o que gera mais desconforto e mais erro: o déficit funcional, historicamente chamado de conversivo. Ele não é simulação, não é mentira, e o paciente não está escolhendo. É uma falha real na geração do comando voluntário num sistema nervoso estruturalmente intacto — e é justamente essa combinação que produz os sinais que permitem reconhecê-lo.

O comando voluntário e o comando automático não usam exatamente os mesmos circuitos. Quando você pede a alguém para empurrar o pé para baixo, isso é voluntário. Quando essa mesma pessoa levanta a outra perna contra resistência, o quadril do lado oposto se estende sozinho para estabilizar o tronco — isso é automático e não passa pela intenção. Numa lesão de via motora, os dois falham, porque o fio está rompido. Numa fraqueza funcional, o voluntário falha e o automático funciona: o quadril supostamente paralisado empurra a maca com força normal no exato momento em que o paciente está concentrado em levantar a outra perna. Esse é o sinal de Hoover, e ele aparece do lado do déficit funcional.

O mesmo raciocínio explica os outros achados. A fraqueza funcional costuma ceder em solavancos — a força aparece e some durante a mesma manobra, porque o comando é intermitente, e não porque a força máxima esteja reduzida. E a perda de sensibilidade costuma parar exatamente na linha média do corpo, porque é ali que o paciente entende que termina o seu lado. A inervação real não obedece a essa geometria: os territórios sensitivos das duas metades se sobrepõem alguns milímetros através da linha média, e um déficit sensitivo orgânico não termina numa fronteira desenhada com régua.

Nada disso serve para confrontar o paciente, e o capítulo volta a esse ponto no bloco de conversa. Serve para uma decisão de risco: trombolisar um déficit funcional é expor à hemorragia intracraniana alguém que não tinha artéria entupida — e é o único dos quatro imitadores em que o próprio tratamento é o dano.

Quatro quadros descrevem sequências possíveis no AVC, na crise com déficit pós-ictal, na aura e nos sintomas funcionais.
A sequência dos sintomas ajuda a formular hipóteses, mas há sobreposição. AVC pode flutuar ou acompanhar crise; sintoma funcional exige sinais clínicos positivos, e não apenas variação ao longo do tempo.

O corolário que economiza tempo: o mecanismo dita a pergunta

Repare no que estes quatro mecanismos têm em comum: nenhum deles é distinguível pelo exame do déficit no instante em que você olha. Osvaldo com afasia e braço direito fraco é compatível com AVC, com paresia de Todd, com aura complicada e com quadro funcional. O que separa é a forma da curva no tempo — e a forma da curva não está no paciente, está na testemunha.

Por isso, neste capítulo, a anamnese dirigida vem junto do exame e a testemunha vem antes do paciente. Não é elegância acadêmica: é que a testemunha é o único exame complementar que vai embora sozinho.

E é por isso, também, que a glicemia capilar não espera nada. Ela é a única das quatro perguntas que se responde em sessenta segundos com uma gota de sangue, e é a única cujo resultado positivo dispensa toda a cadeia seguinte.

05

Como se apresenta de verdade

O livro descreve hemiparesia súbita com desvio de rima e afasia num hipertenso de sessenta e poucos anos. Esse paciente existe, entra pela porta, e é o mais fácil do seu plantão — desde que alguém tenha olhado o relógio. O problema é o resto da fila: o déficit que não é fraqueza, o déficit que ninguém chamou de déficit, o déficit que já passou e o déficit que não é AVC.

Este bloco percorre esse espectro em quatro passagens: o que conta como focal, quem imita, quem é imitado, e o que muda conforme quem é o paciente.

Percurso de aprendizagem

Diferencie hora de descoberta, último momento conhecido bem e início testemunhado. Relacione esses dados ao exame e à necessidade de imagem; o relógio habitual não elimina todas as janelas possíveis.

Corrija hipoglicemia, reexamine e mantenha investigação quando houver dúvida. Crise no início e sinais funcionais exigem interpretação, não encerramento automático do protocolo.

Aprenda o propósito de TC sem contraste, imagem vascular, triagem de deglutição e avaliação de anticoagulantes. O interno participa do raciocínio e do suporte junto à equipe responsável.

Súbito é a palavra que carrega o peso

A norma nacional é econômica e vale decorar: o déficit neurológico focal de instalação súbita indica a possibilidade de AVC. São três palavras, e cada uma exclui alguma coisa.

Focal exclui o global. Sonolência sem lado, confusão sem lado, tontura inespecífica sem lado não são déficit focal — são outro capítulo, e o paciente que não acorda tem o dele.

Súbito exclui o arrastado. A própria norma federal ensina a ler o tempo como dado diagnóstico: um déficit que se desenvolve ao longo de semanas costuma vir de lesão com efeito de massa, como neoplasia ou abscesso; e o hematoma subdural se distingue do AVC pelo curso mais prolongado e pela combinação de disfunções focais com disfunções difusas. Quando o acompanhante diz que vem piorando há um mês, você mudou de doença sem sair da queixa.

Déficit exclui o excesso. Perda de força é déficit; abalo do braço não é. Perda de campo visual é déficit; luz piscando não é. Voltaremos a isso, porque é a régua que separa vaso de neurônio.

O déficit focal que não é fraqueza

A escala de triagem pré-hospitalar mais usada no país examina três coisas: assimetria facial ao sorrir, queda de um braço estendido por dez segundos, e alteração da fala ao repetir uma frase. É boa e é rápida, e a própria norma registra que a presença de anormalidade em um dos três parâmetros já leva a cerca de 72% de probabilidade de AVC, subindo para mais de 85% quando os três estão alterados.

Só que o documento que a descreve avisa, na mesma página, que alguns pacientes têm sinais focais que a escala não representa — e manda a equipe estar treinada para reconhecer outros achados de início súbito. Vale a pena listar quais, porque é exatamente aí que o déficit passa despercebido na triagem: vertigem associada a desequilíbrio, adormecimento ou formigamento de um hemicorpo, dificuldade de enxergar em um ou nos dois olhos, alteração da marcha, da coordenação e do equilíbrio, perda súbita de memória, e cefaleia súbita e intensa sem causa aparente.

Acrescente os que ninguém verbaliza como sintoma e que só aparecem se você procurar: a hemianopsia, que o paciente descreve como estar esbarrando nas coisas de um lado; a negligência, em que o paciente não usa metade do mundo e não se queixa disso porque não sabe que existe metade faltando; o desvio conjugado do olhar, que se vê antes de perguntar qualquer coisa; a disartria isolada, que a família chama de fala arrastada e atribui a sono; e a ataxia de um lado, que passa por fraqueza até você pedir para o paciente encostar o dedo no seu.

A frase-teste tem detalhe curioso e revelador de como as normas envelhecem em paralelo: a norma nacional do protocolo clínico sugere pedir ao paciente que diga na casa do padeiro nem sempre tem trigo; o protocolo pré-hospitalar sugere o rato roeu a roupa do rei de Roma e registra que o manual de rotinas do próprio Ministério sugere o Brasil é o país do futebol. Três documentos oficiais, três frases. Nenhuma delas é melhor que a outra e a escolha não muda desfecho — mas serve de aviso: quando três normas do mesmo órgão divergem num detalhe operacional, é porque ninguém releu as três juntas. Você vai encontrar divergências maiores adiante neste capítulo, e a atitude correta diante delas é a mesma: entender o que cada documento está protegendo.

Os quatro imitadores que você vai encontrar

A norma nacional lista, como diagnósticos que podem ser confundidos com AVC: hipoglicemia, migrânea com aura, crises convulsivas e o estado pós-ictal, doença de Ménière e outras vestibulopatias periféricas. O protocolo pré-hospitalar amplia a lista e vale reproduzir inteira, porque é a mais completa que existe em documento oficial brasileiro: crises convulsivas não relacionadas a AVC agudo, tumores e infecções do sistema nervoso central, traumatismo cranioencefálico, formas complexas de enxaqueca, distúrbios metabólicos como a hipoglicemia, intoxicações exógenas, esclerose múltipla e outras doenças desmielinizantes, labirintopatias e síncopes, efeitos adversos de medicações, uso de drogas ilícitas, encefalopatia hipertensiva, paralisias de nervos periféricos e distúrbios psicossomáticos.

É uma lista longa e, no plantão, ela colapsa em quatro perguntas curtas — porque quatro entidades respondem pela maioria dos casos e as quatro têm pergunta própria.

A hipoglicemia é a primeira porque é a única que se trata furando o dedo. Produz hemiparesia, disartria e confusão de forma convincente, é totalmente reversível em minutos, e a pergunta que a responde não é uma pergunta: é uma gota de sangue.

A crise com paresia de Todd é a segunda porque é a mais frequentemente perdida. A pergunta é dirigida à testemunha e é sempre a mesma: antes de o braço ficar fraco, ele tremeu, se contraiu, formigou ou ficou duro?

A migrânea com aura é a terceira porque engana pela idade — é a que aparece em gente jovem, sem fator de risco, e assusta a equipe inteira. A pergunta é sobre velocidade e ordem: em quanto tempo o sintoma se espalhou, e o que veio primeiro, a luz ou o escuro?

O déficit funcional é o quarto porque é o único em que o tratamento é o dano. A pergunta é feita com as mãos, no exame: o sinal de Hoover, a fraqueza que cede em solavancos, a sensibilidade que termina exatamente na linha média.

Fora desses quatro, dois merecem atenção especial do interno porque chegam com apresentação enganosamente pura. A recrudescência de déficit antigo — paciente com sequela de AVC prévio que reapresenta o mesmo déficit por causa de infecção, febre, desidratação ou hipoglicemia; a chave é perguntar se o déficit de hoje é igual ao de antes, e procurar ativamente a causa sistêmica. E o hematoma subdural crônico do idoso, que é focal, pode ser de instalação aparentemente súbita quando descompensa, e cujo trauma pode ter sido tão banal que ninguém o registrou como trauma.

O caminho inverso: o AVC que não parece AVC

Se metade da fila imita, uma parte menor e mais perigosa faz o oposto: é AVC e não parece. Esses são os que perdem a janela em silêncio, porque ninguém abre protocolo para eles.

A vertigem isolada é a campeã. Um paciente com tontura rotatória intensa, náusea e vômito, sem fraqueza e sem alteração de fala, é rotulado como labirintite e medicado com antivertiginoso na sala de observação — e uma parte desses tem infarto de cerebelo ou de tronco. O documento municipal de encaminhamento neurológico que este capítulo usa organiza bem a separação, e ela é clínica. Na vertigem periférica, o nistagmo é horizontal ou horizonto-rotatório, tem latência de cerca de vinte segundos ao teste provocativo, é inibido pela fixação do olhar, é fatigável, o desequilíbrio é leve a moderado e o paciente consegue caminhar, e costuma haver sintoma auditivo associado — zumbido, hipoacusia, plenitude. Na vertigem central, o nistagmo pode ser vertical, o que é altamente sugestivo, ou multidirecional; não costuma ter latência e, se tiver, dura no máximo cinco segundos; não é fatigável, podendo durar semanas; não é inibido pela fixação do olhar; o desequilíbrio é grave, com dificuldade de caminhar e até de ficar em pé; e costuma haver outros sinais focais associados, como cefaleia, diplopia, disartria, parestesia, fraqueza ou dismetria.

O mesmo documento registra a bateria de exame ocular conhecida pela sigla HINTS — teste de impulso cefálico, nistagmo e desvio vertical do olhar — como o instrumento que separa central de periférica, e trata HINTS positivo como critério de suspeita central. Duas coisas devem ser ditas com honestidade sobre ele. É a única ferramenta descrita para essa decisão em documento oficial brasileiro acessível, e nenhuma norma federal a descreve. E ele exige treino: aplicado por quem não pratica, o teste de impulso cefálico gera mais confusão do que informação. O interno que não domina a manobra ainda assim consegue decidir com segurança usando três achados que não exigem técnica: nistagmo vertical, incapacidade de ficar de pé sem apoio, e qualquer outro sinal focal associado. Qualquer um dos três desqualifica o rótulo de labirintite.

Depois da vertigem, três apresentações completam o grupo. A afasia isolada, sobretudo a de compreensão, que faz o paciente falar fluentemente coisas sem sentido e ser encaminhado como surto psiquiátrico ou como confuso — a diferença é que o afásico de compreensão falha em obedecer comandos simples sem gesto, e o paciente psiquiátrico geralmente obedece. A negligência isolada, em que o paciente não reclama de nada porque não percebe metade do espaço, e a equipe registra que ele está desatento. E a alteração visual de instalação súbita nos dois olhos, que o paciente atribui a problema de vista e que pode ser lesão occipital bilateral.

Guarde a regra prática que atravessa os quatro: quando o paciente não se queixa do déficit que você está vendo, a chance de ser lesão cerebral aumenta, não diminui.

O déficit que já passou

Uma parte dos pacientes chega com a história de um déficit focal que durou minutos e resolveu completamente antes da chegada — fraqueza que passou, fala que voltou, um olho que apagou e clareou. O exame é normal. A tentação é liberar.

A norma pré-hospitalar é explícita e resolve isso em uma frase: mesmo na suspeita de ataque isquêmico transitório, o paciente deve ser encaminhado ao hospital o mais rápido possível. A razão é aritmética, não conceitual — o risco de um AVC estabelecido é máximo nas horas e primeiros dias seguintes ao evento transitório, e é exatamente nessa janela que a investigação e a prevenção secundária mudam o desfecho. Um paciente com déficit resolvido é um paciente que ainda dá para salvar do AVC que ele não teve.

Há ainda a leitura oposta, que é uma armadilha de trombólise: a resolução completa e espontânea do déficit é, ela própria, critério de exclusão para o trombolítico na norma nacional. Ou seja, quem melhorou completamente não recebe rtPA — mas continua internado, investigado e tratado. Melhorar não é alta.

O que muda conforme quem é o paciente

No idoso, o déficit chega diluído em outras coisas. Ele já tem alguma limitação prévia, alguém já o considera esquecido, e a queda que o trouxe é lida como o problema em vez de como a consequência. Duas condutas protegem: perguntar sempre o que ele fazia sozinho na semana passada, e comparar com hoje; e nunca aceitar o rótulo de estava confuso sem examinar o lado.

No jovem sem fator de risco, a suspeita cai justamente quando deveria subir, porque as causas mudam. Nessa faixa entram a dissecção arterial cervical — que costuma vir precedida de dor no pescoço ou cefaleia e às vezes de trauma trivial, como um movimento brusco ou uma manipulação cervical —, o uso de cocaína e outros estimulantes, e a trombofilia. A dissecção é a que mais escapa, porque o paciente reclama de dor no pescoço e é tratado como contratura.

Na gestante e na puérpera, o risco vascular sobe e coexiste com a pré-eclâmpsia e suas síndromes; um déficit focal com hipertensão e cefaleia no fim da gestação ou no puerpério imediato é urgência dupla e precisa da obstetrícia na sala junto. O manejo obstétrico está no capítulo de emergências hipertensivas da gestação; aqui interessa que gravidez não é contraindicação a investigar, e que a tomografia de crânio com proteção abdominal entrega dose desprezível ao feto.

No diabético, some a hipoglicemia dentro de um quadro que parece vascular. É a população onde a glicemia capilar tem maior chance de mudar tudo, e é a população onde o paciente pode ter as duas coisas ao mesmo tempo — hipoglicemia e AVC. Por isso, no diabético, a régua não é medir a glicemia: é medir, corrigir e reexaminar. Déficit que persiste depois da correção não é da hipoglicemia.

Em quem já teve AVC, o déficit novo compete com a recrudescência do antigo, e a pergunta que separa é se o déficit de hoje é igual ao de antes ou diferente dele. Vale procurar febre, foco infeccioso, desidratação e distúrbio metabólico antes de concluir.

E no paciente psiquiátrico, no usuário de álcool e no morador de rua, o risco não é diagnóstico: é de atribuição. O déficit focal desses pacientes é lido como comportamento antes de ser lido como sinal, e a triagem os coloca no fim da fila. A regra que protege é impessoal e deve ser tratada como trava, não como virtude: déficit focal súbito abre protocolo independentemente de quem é o paciente e de qual é o cheiro da roupa.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação do déficit focal agudo tem uma característica que a separa de quase tudo o mais no pronto-socorro: ela é curta, é cronometrada, e a maior parte dela não depende de aparelho. Quatro coisas precisam ser sabidas antes de qualquer decisão — a que horas começou, quanto está a glicemia, se há sangue dentro do crânio, e se isto é mesmo vascular. Três dessas quatro se respondem sem tomógrafo.

A ordem abaixo não é sugestão: é a ordem que economiza minutos, e cada seção diz o que se perde ao inverter.

Primeiro exame: o relógio

O horário do início não é o horário em que alguém percebeu o déficit. É o último momento em que o paciente foi visto sem sinais e sem sintomas neurológicos — e a norma pré-hospitalar define exatamente assim, acrescentando a regra que resolve o caso mais comum: quando os sintomas são observados ao acordar, considera-se o último momento em que o paciente foi visto sem sintomas antes de dormir.

Essa definição parece burocrática até você ver o que ela faz com um caso real. Uma pessoa deita à meia-noite bem, acorda às seis com hemiparesia e chega ao pronto-socorro às sete. Se o horário fosse o do despertar, ela teria uma hora de evolução e seria candidata folgada. Pela definição correta, ela tem sete horas, e está fora da janela de trombólise — embora possa entrar na janela estendida de trombectomia, decidida por imagem em centro habilitado. Adotar o horário errado aqui não gera um atraso: gera um trombolítico aplicado em quem já tinha infarto consolidado, com risco de hemorragia sem chance de benefício.

Colher esse horário direito é uma técnica, não uma pergunta. Três movimentos aumentam muito o rendimento. Primeiro, formule pelo negativo: não pergunte quando começou, pergunte quando foi a última vez que o senhor o viu falando e andando normalmente. Segundo, ancore num evento, não num número — a novela, o jogo, a missa, a padaria que fecha às oito, o ônibus das sete. Gente não guarda horas; guarda acontecimentos, e acontecimentos têm horário conhecido. Foi assim que dona Cida entregou sete e meia com segurança: não porque olhou o relógio, mas porque a padaria fecha às oito e ela estava na fila atrás dele. Terceiro, procure testemunhas materiais quando não houver humanas — a hora da última mensagem enviada pelo celular, a hora da última ligação atendida, o almoço servido e não comido, o cigarro apagado no cinzeiro. Um horário documentado por objeto vale mais que uma estimativa.

Duas armadilhas fecham a seção. O paciente afásico não pode corrigir a testemunha, e a testemunha frequentemente relata o momento do susto. E o paciente encontrado sozinho, sem ninguém que o tenha visto bem, tem por definição janela indeterminada — não janela zero e não janela fechada. Isso não o exclui de tudo: existe caminho por imagem avançada para janela indeterminada em centro habilitado, e isso é uma razão a mais para acionar a regulação cedo em vez de concluir sozinho que não há o que fazer.

Registre o horário em prontuário como um dado, com a fonte: última vez visto bem às 7h30, informado pela vizinha, ancorado no horário de fechamento da padaria. Quem receber o paciente noventa quilômetros adiante vai tomar decisão sobre esse número, e um número sem fonte é um número que o receptor vai ter de refazer — gastando o tempo que você economizou.

Segundo exame: a gota de sangue

A glicemia capilar é o único exame deste capítulo que pode encerrar o caso na própria sala, e é o único cujo resultado positivo dispensa a tomografia, a ambulância e os noventa quilômetros. Ela não custa nada, não atrasa nada, e resolve o imitador mais frequente e mais reversível.

A norma nacional coloca a glicemia capilar na lista de exames a solicitar diante da suspeita de AVC, ao lado do eletrocardiograma de repouso e dos exames de sangue, e explicita a razão: os exames laboratoriais avaliam a coagulabilidade e situações que possam mimetizar ou agravar um AVC em curso, como hipoglicemia, infecção e distúrbios hidroeletrolíticos.

Na ordem de execução, porém, a glicemia capilar não é um dos exames — ela é o primeiro, e vem antes de o paciente sair da sala. O motivo é operacional: quem vai à tomografia, volta, espera laudo e só então tem a glicemia medida passou meia hora com neuroglicopenia tratável, e neuroglicopenia lesa neurônio como isquemia lesa neurônio.

Corrigida a hipoglicemia, reexamine — e é aqui que mora a sutileza que separa o interno experiente do resto. Déficit que desaparece com a correção era hipoglicemia. Déficit que persiste depois da glicemia normalizada não é da hipoglicemia, mesmo que a glicemia estivesse baixa: o paciente pode ter tido as duas coisas, e o protocolo do AVC continua correndo. A glicemia baixa explica o déficit apenas quando a correção o desfaz.

A norma nacional incorpora exatamente esse raciocínio ao tratar a glicemia abaixo de 50 mg/dL como contraindicação apenas relativa à trombólise, e só quando houver recuperação completa do déficit focal e este for atribuído à hipoglicemia, e não a um AVC. Ou seja: glicemia baixa por si só não tira ninguém da trombólise — o que tira é o déficit ter sumido junto com ela.

Terceiro exame: o que a tomografia responde

A tomografia de crânio sem contraste é o método mais utilizado, mais disponível e de menor custo para a avaliação inicial, e ela existe no protocolo para responder uma pergunta binária: tem sangue dentro da cabeça? A resposta a essa pergunta é o que autoriza ou proíbe o trombolítico, porque trombolisar uma hemorragia é transformar um sangramento contido num sangramento livre.

Ela responde bem essa pergunta, e responde rápido. É o único exame do caminho que não pode ser pulado antes de reperfundir, e é o motivo pelo qual Osvaldo precisa entrar numa ambulância: a unidade onde ele está não pode responder a pergunta que autoriza o tratamento.

A tomografia também mostra, quando presente, a hipodensidade da lesão isquêmica — que não se impregna pelo contraste e costuma ocupar o território da artéria cerebral média — e permite estimar a extensão do infarto já instalado, o que importa porque hipodensidade precoce acometendo mais de um terço do território da cerebral média é critério de exclusão da trombólise na norma nacional, e porque a extensão medida por escore tomográfico entra nos critérios de trombectomia.

Quarto exame: o que a tomografia NÃO responde

Esta é a seção que mais muda conduta de interno, porque o erro que ela previne é cometido todos os dias e tem aparência de rigor: ler tomografia normal como ausência de AVC.

A própria norma nacional publica os números que desmontam isso. A tomografia demonstra sinais precoces de isquemia em até 67% dos casos nas primeiras 3 horas do início dos sintomas, e em até 82% dos casos nas primeiras 6 horas contadas do icto — definido, no mesmo documento, como a última hora em que a pessoa foi vista assintomática. A detecção sobe para aproximadamente 90% após uma semana.

Vire esses números do avesso e você tem o que precisa saber no plantão: nas primeiras três horas, cerca de um terço das tomografias de pacientes que realmente estão tendo AVC isquêmico não mostra sinal precoce nenhum. Quanto mais cedo o paciente chega — isto é, quanto melhor foi o desempenho de todo mundo —, maior a chance de a tomografia sair limpa. Uma tomografia normal em paciente com déficit focal de uma hora não é boa notícia nem má notícia: é o esperado, e é compatível com o cenário em que o tratamento mais funciona.

Repare que isso inverte a intuição herdada de outros exames. Aqui, o exame normal é o que autoriza tratar. Quem descarta AVC não é a tomografia — é a clínica; e quando a clínica diz déficit focal súbito e a tomografia diz nada, as duas estão de acordo.

A lista do que ela também não responde vale ser sabida: ela não diz se a artéria está aberta ou fechada, o que exige estudo vascular; não data o infarto com precisão suficiente para dispensar o horário colhido do acompanhante; não exclui os imitadores, porque hipoglicemia, crise, aura e quadro funcional têm tomografia normal exatamente como o AVC precoce tem; e não exclui a hemorragia subaracnoide, a ponto de a norma nacional listar a suspeita de hemorragia subaracnoide, mesmo com tomografia normal, como critério de exclusão do trombolítico.

Consequência prática única e suficiente: a decisão de tratar é clínica e cronometrada; a tomografia entra para vetar, não para confirmar.

Quatro quadros distinguem a pesquisa inicial de hemorragia, a possibilidade de TC normal na isquemia precoce, a evolução das alterações e a integração clínica.
Uma TC sem contraste inicialmente normal não exclui isquemia cerebral. A interpretação depende da apresentação, do tempo e do protocolo de investigação; não se deve aguardar o surgimento de alterações para avaliar tratamento.

Os exames que a norma manda pedir — e o que não se espera

Diante da suspeita clínica de AVC, a norma nacional determina que sejam solicitados: eletrocardiografia de repouso; glicemia capilar; hemograma completo com contagem de plaquetas; tempo de protrombina com RNI; tempo parcial de tromboplastina ativada; e níveis séricos de potássio, sódio, ureia, creatinina e troponina.

Cada um responde alguma coisa. O eletrocardiograma procura arritmia que aumente o risco de AVC — a fibrilação atrial é a que mais importa —, além de sinais de infarto do miocárdio ou de dissecção de aorta associada. Os exames de coagulação e a contagem de plaquetas medem o risco de sangrar. Sódio, ureia e creatinina procuram o distúrbio metabólico que imita ou agrava.

A necessidade de aguardar exames depende da chance de haver resultado que contraindique ou mude a reperfusão. História de anticoagulação, coagulopatia, hepatopatia relevante, sangramento ou plaquetopenia exige investigação dirigida. Incluir anticoagulantes diretos e última dose: INR e TTPA normais não excluem seu efeito. Exames e avaliação clínica devem correr em paralelo à imagem.

No paciente sem suspeita de alteração relevante, aguardar coagulograma de rotina pode atrasar tratamento sem benefício. Mesmo quando o resultado é necessário para decidir trombólise, a tomografia não deve ficar aguardando o laboratório.

Colha, portanto, tudo de uma vez e no braço não parético — a norma pré-hospitalar já manda instalar o acesso venoso no membro não parético, e a razão é dupla: o membro plégico não avisa quando infiltra, e é o membro que a equipe vai reexaminar a cada quinze minutos.

O que NÃO pedir, e o custo de pedir

Todo exame que não muda a conduta das próximas duas horas está, neste capítulo, competindo com o tratamento. Vale nomear os que mais aparecem.

TC sem contraste pesquisa hemorragia, extensão de alterações isquêmicas e alguns diagnósticos alternativos. Angiotomografia é um exame diferente, que identifica oclusão arterial e pode integrar precocemente o protocolo de suspeita de grande vaso. Não afirmar que contraste nunca acrescenta informação ou que isquemia nunca apresenta realce. Organize imagem vascular e transferência conforme a rede, sem atrasar trombólise indicada.

Ressonância magnética é bem mais sensível e mais precisa para identificar e localizar a lesão, especialmente com técnicas de difusão e perfusão, e a própria norma nacional registra isso — e registra, na mesma frase, o problema: ela consome um tempo de realização maior, que pode ser decisivo para a indicação do tratamento com trombolítico. Ressonância é o exame certo para a pergunta errada nesta hora.

Radiografia de tórax de rotina não responde nada aqui e costuma custar deslocamento e fila. Se houver suspeita clínica específica que a justifique, ela é feita depois da tomografia, não antes.

Exame neurológico completo e detalhado antes da glicemia capilar é o atraso mais sutil de todos, porque tem cara de zelo. A ordem correta é o inverso: gota de sangue, exame dirigido, e o exame detalhado enquanto o resto acontece.

E há o exame que ninguém pede mas todo mundo faz: observar mais um pouco para ver se melhora. Observar é uma conduta e consome janela como qualquer outra. Em déficit focal com janela aberta, observar é escolher não tratar.

O diferencial resolvido na beira do leito

O diferencial não é um bloco separado porque não é assim que se raciocina: o mesmo dado que confirma um exclui o outro, e quase todos eles são dados de anamnese e de exame, não de exame complementar.

Contra a hipoglicemia, a gota de sangue e o reexame após a correção. Contra a crise com paresia de Todd, a pergunta sobre o fenômeno positivo que precedeu — e a lembrança de que crise não impede trombolisar, de modo que a resposta muda a probabilidade, não o direito ao tratamento. Contra a migrânea com aura, a velocidade de progressão em minutos e a sequência positivo-antes-de-negativo, ressalvado que primeira aura da vida em idade vascular não fecha nada. Contra o déficit funcional, o sinal de Hoover, a fraqueza que cede em solavancos e a sensibilidade que para na linha média. Contra a recrudescência de déficit antigo, a comparação com o déficit prévio e a busca ativa de febre, foco infeccioso, desidratação e distúrbio metabólico. Contra o subdural crônico e o tumor, o curso arrastado e a mistura de sinais focais com disfunção difusa. Contra a vertigem periférica, as características do nistagmo, a capacidade de ficar em pé e a presença de sintoma auditivo.

Nenhum desses itens exige tecnologia, e todos exigem tempo de conversa. É por isso que a anamnese, neste capítulo, não é a parte lenta: é a parte que decide.

Uma advertência de calibragem para fechar. A régua tem de servir nas duas direções, e as duas direções têm custo assimétrico. Trombolisar um imitador expõe a hemorragia intracraniana quem não tinha artéria entupida. Não trombolisar um AVC deixa um prejuízo permanente e a chance não volta. Diante da dúvida genuína, com janela aberta e sem contraindicação, o caminho não é decidir sozinho pelo não: é acionar quem decide, e deixar a dúvida registrada e explícita para quem vai decidir.

O que existe no SUS — e o que fazer quando não existe na sua porta

Exame que não se consegue não é conduta, e a maior parte das portas brasileiras não é um centro de AVC. Vale saber o que a norma exige do serviço que pode trombolisar, porque é isso que define para onde o seu paciente vai.

A norma nacional determina que o paciente com suspeita seja encaminhado preferencialmente a hospital habilitado como Centro de Atendimento de Urgência aos Pacientes com AVC, e lista o que esse centro precisa ter: equipe organizada, definida, capacitada e coordenada por neurologista clínico, disponível 24 horas; capacidade de monitorização contínua cardiovascular e respiratória; unidade de terapia intensiva; laboratório de patologia clínica 24 horas; tomógrafo disponível 24 horas; disponibilidade neurocirúrgica 24 horas; e serviço de hemoterapia ou agência transfusional 24 horas, incluindo crioprecipitado.

Leia essa lista como um mapa e não como burocracia: ela explica por que existe transporte. O crioprecipitado está ali porque é o que se usa se o paciente sangrar depois do trombolítico; a neurocirurgia está ali pelo mesmo motivo. Um serviço que trombolisa sem retaguarda para a complicação não está sendo corajoso.

Um dos critérios de inclusão da trombólise é a avaliação de médico neurologista que confirme o AVC isquêmico agudo. Isso não é detalhe: significa que a decisão de trombolisar não é do interno nem do plantonista generalista, e que a sua tarefa na porta é diferente da tarefa de quem decide. A sua tarefa é entregar a esse neurologista, o mais cedo possível, um paciente vivo, com a glicemia medida, com o horário documentado, com acesso no braço certo, com os exames coletados e com a triagem de contraindicações já feita. É isso que encurta o tempo do outro lado.

Onde não há neurologista presencial, o caminho é a regulação e a telemedicina, e o acionamento é precoce por definição — a norma pré-hospitalar manda realizar contato com a regulação médica para definição do encaminhamento e da unidade de destino, e essa ligação não espera resultado de exame nenhum. Numa unidade sem tomógrafo, a ligação para a regulação é literalmente o primeiro procedimento terapêutico do caso, porque o tempo da ambulância corre em paralelo com tudo o que você ainda vai fazer.

E há a decisão que o interno de interior enfrenta e que a norma não escreve com todas as letras: transferir sem imagem. Numa unidade sem tomógrafo, esperar para transferir é esperar por nada — não há o que esperar. Aciona-se a regulação, estabiliza-se, mede-se a glicemia, coleta-se o que der, e o paciente parte. O tempo de estrada é fixo e não negocia; o tempo de sala é o único que se pode encurtar.

07

Da porta à decisão: onde o tempo vai parar

Você deve localizar o déficit, reconhecer imitadores e organizar avaliação de reperfusão preservando tempo e segurança clínica.

  1. 1Porta. Déficit neurológico focal de instalação súbita abre o protocolo, e abre para qualquer pessoa — inclusive a que chega andando, a que cheira a álcool e a que a triagem classificaria de verde. Prioridade máxima, sem passar por outra fila. O paciente vai para uma sala com monitor.
  2. 2Primeiro minuto, feito por quem estiver mais perto: perguntar ao acompanhante a que horas o paciente foi visto bem pela última vez, e escrever o horário com a fonte. Esta pergunta vem antes do exame, porque o acompanhante vai embora e o exame não.
  3. 3Segundo minuto: glicemia capilar. Antes da tomografia, antes do exame detalhado, antes da coleta de sangue.
  4. 4Terceiro minuto: acionar a regulação médica para definir destino. Numa unidade sem tomógrafo, este telefonema é o primeiro procedimento terapêutico do caso — o tempo da ambulância corre em paralelo com todo o resto.
  5. 5Do terceiro ao décimo minuto: exame dirigido. Escala de triagem (face, braços, fala), pesquisa dos déficits que a escala não cobre (campo visual, negligência, desvio do olhar, ataxia, marcha), nível de consciência, pupilas.
  6. 6Em paralelo: monitor, oximetria, acesso venoso periférico no membro NÃO parético, oxigênio se a saturação estiver abaixo de 94%, cabeceira elevada no paciente consciente e decúbito lateral com aspiração de orofaringe se inconsciente.
  7. 7Do décimo ao vigésimo minuto: coleta única — hemograma com plaquetas, RNI, TTPA, sódio, potássio, ureia, creatinina e troponina — e eletrocardiograma de repouso. Nenhum desses resultados segura o paciente na sala.
  8. 8Em paralelo: triagem de contraindicações com o acompanhante, porque essa informação também vai embora junto com ele. Anticoagulante em uso e desde quando; cirurgia de grande porte nos últimos 14 dias; sangramento digestivo ou urinário nos últimos 21 dias; AVC hemorrágico prévio; trauma craniano, cirurgia intracraniana ou AVC grave nos últimos 3 meses; punção lombar nos últimos 7 dias; infarto nos últimos 3 meses; peso estimado.
  9. 9Bifurcação da hipoglicemia: se a glicemia estiver baixa, corrigir e REEXAMINAR. Déficit que sumiu com a correção encerra o protocolo do AVC e abre a investigação da hipoglicemia. Déficit que persiste mantém o protocolo correndo.
  10. 10Bifurcação do imitador: perguntar à testemunha o que aconteceu ANTES de o membro ficar fraco — abalo, contração, formigamento ascendente, rigidez. E perguntar quanto tempo o sintoma levou para se espalhar. A resposta não interrompe o protocolo; muda o que você vai dizer ao neurologista.
  11. 11Pressão arterial: NÃO reduzir na fase pré-hospitalar, exceto se a sistólica estiver acima de 220 mmHg ou a diastólica acima de 120 mmHg, ou se houver doença associada que exija a redução — dissecção de aorta, infarto agudo do miocárdio, edema pulmonar. Mesmo para candidatos à fibrinólise, só medicar a hipertensão acima de 220 por 120.
  12. 12Temperatura: medicar se a axilar estiver acima de 37,8 °C. Febre piora desfecho neurológico e é barata de tratar.
  13. 13Se houver tomógrafo na casa: tomografia de crânio sem contraste, sem esperar resultado de laboratório, com o acompanhante ainda disponível para responder o que faltar.
  14. 14Se NÃO houver tomógrafo: transferência já acionada, paciente estabilizado, glicemia medida e corrigida, acesso instalado, exames coletados e enviados junto, horário documentado com a fonte, contraindicações triadas e escritas. Não há o que esperar — esperar aqui é esperar por nada.
  15. 15Chegada ao centro habilitado: tomografia, avaliação de médico neurologista que confirme AVC isquêmico agudo, e decisão de reperfusão. A partir deste ponto, a dose, a bomba e a vigilância das 24 horas seguintes estão no capítulo de AVC isquêmico agudo, da apostila de Neurologia.

O que o paciente gasta antes de chegar

Tempo médio entre o início dos sintomas e a chegada ao hospital, medido em coorte brasileira: 98,4 minutos, com desvio padrão de 61,2. É o pedaço do relógio que depende de reconhecimento leigo, distância e transporte — e é o que campanhas de rua tentam encurtar. Você não controla este.

O que o hospital gasta depois que ele chega

Tempo porta-agulha médio na mesma coorte: 89,8 minutos, desvio padrão de 39,8. Quase o mesmo tamanho do anterior — e este é inteiramente seu. É triagem, fila de tomografia, espera de laudo, espera de exame laboratorial que a própria norma dispensa, e telefonema que não foi dado no minuto três.

O total medido, do sintoma à agulha

191,4 minutos em média, desvio padrão de 52,9 — em pacientes que conseguiram ser tratados. Setenta e um por cento da janela consumidos antes de a primeira gota entrar na veia. Um desvio padrão acima disso já ultrapassa os 270 minutos.

O que ainda sobrava

Cerca de 79 minutos de folga, em média. É pouco, e é a razão de o capítulo insistir em paralelismo: as tarefas que podem acontecer ao mesmo tempo têm de acontecer ao mesmo tempo. Nada nesta lista fica mais rápido sabendo mais medicina; fica mais rápido mudando a ordem.

ImitadorO que ele tem em comum com o AVCO que o separa, na beira do leitoO que fazer
HipoglicemiaHemiparesia, disartria, confusão, instalação súbitaA glicemia capilar; e a recuperação completa do déficit com a correçãoGlicemia antes da tomografia. Corrigir e reexaminar. Déficit que persiste depois de corrigida não é dela
Crise epiléptica com paresia de ToddDéficit focal negativo que dura horasO fenômeno POSITIVO que veio antes — abalo, contração, formigamento ascendente — e a testemunha que o viuPerguntar explicitamente o que aconteceu antes de o braço ficar fraco. Crise não contraindica trombólise; a resposta muda a probabilidade, não o direito ao tratamento
Migrânea com auraDéficit focal transitório, às vezes com afasiaA marcha lenta, de 5 a 20 minutos, e a sequência positivo-antes-de-negativo: luz antes do escuro, formigamento antes da dormênciaPerguntar em quanto tempo se espalhou e o que veio primeiro. Primeira aura da vida em idade vascular não fecha o diagnóstico
Déficit funcional (conversivo)Hemiparesia completa e convincente, instalação súbitaSinal de Hoover positivo; força que cede em solavancos; sensibilidade que para exatamente na linha médiaExaminar com as mãos antes de decidir. É o único imitador em que o tratamento é o dano
Recrudescência de déficit antigoDéficit focal em paciente com fatores de risco vascularO déficit de hoje é IGUAL ao que ele já teve, e existe uma causa sistêmica nova — febre, infecção urinária, desidratação, hipoglicemiaPerguntar se é o mesmo déficit de antes. Procurar ativamente o foco infeccioso e o distúrbio metabólico
Hematoma subdural crônicoDéficit focal no idosoCurso mais prolongado e combinação de disfunção focal COM disfunção difusa; trauma que pode ter sido banal demais para ser lembradoPerguntar por quedas nas últimas semanas, inclusive as sem impacto. A tomografia responde
Tumor ou abscesso cerebralDéficit focal com o mesmo territórioDéficit que se desenvolveu ao longo de semanas, não de segundosRefazer a linha do tempo com a família. Um déficit lento muda de doença sem mudar de queixa
Encefalopatia hipertensivaPressão muito alta com sintoma neurológicoPredomínio de cefaleia, alteração visual e rebaixamento difuso; costuma faltar o território arterial coerenteNão confundir com o AVC que cursa com hipertensão reativa — no AVC não se baixa a pressão abaixo de 220 por 120
Vertigem periférica (labirintopatia, Ménière)Tontura rotatória intensa com desequilíbrioNistagmo horizontal, com latência, fatigável e inibido pela fixação do olhar; consegue caminhar; sintoma auditivo associadoAntes de rotular labirintite, checar três coisas que dispensam técnica: nistagmo vertical, incapacidade de ficar de pé sem apoio, qualquer outro sinal focal
Paralisia facial periférica (Bell)Boca torta de instalação súbitaAcomete a testa e o fechamento do olho do mesmo lado; na central, a testa é poupadaPedir para franzir a testa e fechar os olhos com força ANTES de abrir protocolo. Testa acometida aponta periférico
Neuropatia compressiva periféricaMembro que não obedece, de instalação súbita, muitas vezes ao acordarO déficit obedece ao território de um nervo, não ao de uma artéria: punho caído isolado com face poupada, pé caído isolado com resto normalTestar se o déficit respeita território de nervo. Perguntar sobre posição durante o sono, álcool, gesso, muleta
Intoxicação exógena e efeito de medicaçãoAlteração neurológica agudaPredomínio difuso, pupilas, hálito, contexto; costuma faltar ladoRevisar a caixa de remédios e a história. O paciente encontrado inconsciente tem capítulo próprio
Esclerose múltipla e desmielinizantesDéficit focal em pessoa jovemInstalação em horas a dias, episódios prévios em outros territórios, neurite óptica na históriaPerguntar por episódios neurológicos anteriores que passaram sozinhos

O que atrasa a agulha, e o que fazer no lugar

O atrasoPor que aconteceO que se perdeO que fazer no lugar
Deixar o acompanhante ir embora antes de colher o horárioEle vai tirar o carro, buscar documento, avisar a família — e ninguém o segurouO único dado do caso que exame nenhum recupera. Sem ele, o paciente pode ficar sem tratamento por indefinição de janelaPerguntar o horário na primeira frase da abordagem, e a triagem de contraindicações antes de liberar a pessoa
Levar o paciente à tomografia sem ter furado o dedoA tomografia parece o exame importante e a glicemia parece detalheMeia hora de neuroglicopenia tratável, e o único diagnóstico que se resolvia na salaGlicemia capilar antes de o paciente sair da sala. Custa sessenta segundos
Esperar RNI, TTPA e plaquetas antes de encaminhar ou tratarParece rigor, e ninguém leu a exceção escrita na normaTrinta a sessenta minutos por rotina, num paciente que a própria norma dispensa de esperarColetar tudo numa punção e seguir. Esperar só nas quatro situações nomeadas: varfarina ou femprocumona, heparina não fracionada endovenosa, plaquetopenia conhecida ou suspeita, e coagulopatia, hepatopatia ou hemorragia na história
Telefonar para a regulação depois de terminar a avaliaçãoA sequência ensinada é avaliar e depois encaminharO tempo de deslocamento da ambulância, que é o maior bloco fixo do caso e o único que roda sozinhoTelefonar no minuto três. A avaliação continua enquanto a ambulância se desloca
Pedir radiografia de tórax, tomografia com contraste ou ressonância de rotinaVontade de fazer o exame completoDeslocamento, fila e punção que não respondem a pergunta que autoriza tratar. A ressonância é mais sensível, e a própria norma diz que o tempo dela pode ser decisivo contra o pacienteTomografia sem contraste, e só ela, nesta hora
Fazer o exame neurológico completo e detalhado antes de tudoTem cara de zelo e de bom alunoDe dez a vinte minutos antes da primeira decisãoExame dirigido primeiro, detalhamento em paralelo com a coleta e o transporte
Observar mais um pouco para ver se melhoraA dúvida diagnóstica é real e observar parece neutroA janela inteira. Observar não é neutro: é escolher não tratarTransformar a dúvida em pergunta objetiva e levá-la a quem decide, com o relógio correndo em paralelo
Recalcular do zero o horário que a unidade de origem já tinha colhidoO horário chegou sem fonte e o receptor não confiaO tempo que a origem havia economizadoEscrever o horário COM a fonte e a âncora: última vez visto bem às 7h30, informado pela vizinha, ancorado no fechamento da padaria

Triagem de contraindicações: o que perguntar ao acompanhante antes de ele ir embora

PerguntePor queO que fazer com a resposta
Ele toma remédio para afinar o sangue? Qual, e tomou hoje?Anticoagulante oral direto nas últimas 48 horas com função renal normal é critério de exclusão; varfarina e femprocumona obrigam a esperar o RNIAnotar o nome da caixa. Se houver dúvida, pedir para trazerem a caixa junto no transporte
Ele fez alguma cirurgia grande nos últimos 14 dias?Cirurgia de grande porte recente é critério de exclusãoData e qual
Teve sangramento pelo intestino ou pela urina no último mês?Hemorragia gastrointestinal ou geniturinária nos últimos 21 dias é critério de exclusãoData aproximada
Ele já teve derrame antes? Foi de sangramento?Histórico de hemorragia intracraniana é critério de exclusão; AVC grave nos últimos 3 meses é contraindicação relativaSe possível, trazer relatório ou tomografia antiga
Bateu a cabeça, operou a cabeça ou teve derrame grave nos últimos 3 meses?Contraindicação relativa, decidida caso a casoRegistrar e informar
Fez punção lombar nos últimos 7 dias? Infartou nos últimos 3 meses?Ambas são contraindicações relativasRegistrar e informar
Antes de o braço ficar fraco, ele tremeu, se contraiu ou formigou?Separa AVC de paresia de Todd — e crise NÃO é contraindicação à trombóliseRegistrar a resposta literal da testemunha
Quanto ele pesa, mais ou menos?A dose do trombolítico é por quilo e tem teto; o peso estimado adianta o preparo no destinoPeso referido serve; anotar que é estimado
Como ele era na semana passada — fazia tudo sozinho?A independência funcional prévia é critério para trombectomiaDescrever em atividades concretas, não em adjetivos

Vertigem central x vertigem periférica

AchadoPeriféricaCentral
Direção do nistagmoHorizontal ou horizonto-rotatórioPode ser vertical (sugestivo), horizontal, rotatório ou multidirecional
Latência ao teste provocativoCerca de 20 segundosNão costuma ter; se tiver, dura no máximo 5 segundos
FatigabilidadeFatigávelNão fatigável — pode durar semanas a meses
Efeito da fixação do olharInibe o nistagmoNão inibe
EquilíbrioDesequilíbrio leve a moderado, geralmente para o lado acometido; consegue caminharDesequilíbrio grave, com dificuldade de caminhar e até de ficar em pé
Sintoma auditivoComum: zumbido, hipoacusia, plenitude auralRaro; quando há surdez súbita unilateral, pesa a favor de central
Outros sinais focaisAusentesCefaleia, diplopia, disartria, parestesia, fraqueza, dismetria
Intensidade de vertigem e nistagmoPronunciados, com náusea e vômitoFrequentemente de menor intensidade que na periférica

O que a tomografia de crânio responde e o que não responde

PerguntaResponde?Consequência prática
Tem sangue dentro do crânio?Sim, e é para isso que ela existe no protocoloÉ a pergunta que autoriza ou proíbe o trombolítico. Sem ela, ninguém reperfunde
Existe infarto já instalado, e de que tamanho?Em parte, e melhora com o tempo decorridoHipodensidade precoce em mais de um terço do território da cerebral média exclui a trombólise
Este paciente está tendo um AVC isquêmico?Não de forma confiável nas primeiras horasAté 67% de sinais precoces em 3 horas e até 82% em 6 horas — logo, cerca de um terço das tomografias sai limpa justamente em quem chega cedo
A artéria está aberta ou fechada?NãoExige estudo vascular, e essa decisão é de quem faz trombectomia, em centro habilitado
Isto é hipoglicemia, crise, aura ou quadro funcional?NãoOs quatro imitadores têm tomografia normal exatamente como o AVC precoce tem. Quem os separa é a clínica
Posso descartar hemorragia subaracnoide?Não completamenteA suspeita de hemorragia subaracnoide é critério de exclusão do trombolítico MESMO com tomografia normal

Três limiares oficiais de glicemia para o mesmo paciente

DocumentoLimiarPara quê
Protocolo pré-hospitalar do SAMU, ficha da hipoglicemiaAbaixo de 60 mg/dL, com sinais e sintomasTratar a hipoglicemia
Protocolo pré-hospitalar do SAMU, ficha do AVCAbaixo de 80 mg/dLTratar o paciente com suspeita de AVC
Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas do AVC isquêmico agudoAbaixo de 50 mg/dLAtribuir o déficit à hipoglicemia — e só se ele se recuperar completamente com a correção

As barras usam a mesma escala e o mesmo zero. A marca no fim de cada uma é o limite de 270 minutos da janela de trombólise; as marcas internas são de hora em hora.

A tabela dos imitadores serve nas duas direções. Ela existe para evitar trombolisar quem não precisa E para evitar rotular de labirintite quem está infartando o cerebelo. Nenhuma linha dela autoriza deixar de acionar o protocolo por conta própria.

A triagem de contraindicações não é a decisão de trombolisar. Um dos critérios de inclusão da norma nacional é a avaliação de médico neurologista que confirme o AVC isquêmico agudo; a sua tarefa na porta é entregar a informação pronta, não decidir por ele.

A dose do trombolítico, o modo de preparo, a velocidade da bomba e a vigilância das primeiras 24 horas depois da infusão estão no capítulo de AVC isquêmico agudo, na apostila de Neurologia. Este capítulo termina na decisão e no transporte.

08

A conduta, hora a hora

O que segue é a linha do tempo de Osvaldo: 58 anos, cerca de 80 kg, afasia e hemiparesia direita, última vez visto bem às 7h30, chegada às 8h50, numa unidade sem tomógrafo a noventa quilômetros do hospital de referência. Ele tem 190 minutos até a janela habitual de 4,5 horas quando você o vê pela primeira vez. Cada marco abaixo consome parte desses minutos, e o objetivo do plantão inteiro é entregá-lo com folga.

Duas advertências antes da prescrição. A primeira: a decisão de trombolisar não é sua. Um dos critérios de inclusão da norma nacional é a avaliação de médico neurologista que confirme o AVC isquêmico agudo, presencial ou por telemedicina. O que segue é o que se faz ANTES dessa decisão e PARA que ela seja possível. A segunda: toda dose escrita aqui foi recalculada contra a apresentação real do frasco, e uma delas não fechou — a diferença está escrita no marco em que ela aparece, porque é exatamente o tipo de erro que se copia sem conferir.

Os horários são os do caso. A estrutura é a de qualquer déficit focal que entre por uma porta sem tomógrafo, que é a maior parte das portas do país.

  1. 8h52 — minuto 0 a 3: o relógio, a gota e o telefone

    Três gestos que somados levam três minutos e definem o resto do caso. Perguntar o horário ao acompanhante e escrevê-lo com a fonte. Furar o dedo. Ligar para a regulação. Nenhum dos três depende de exame, de laudo ou de autorização, e nenhum dos três fica melhor se for feito depois. A ligação para a regulação é o primeiro procedimento terapêutico num serviço sem tomógrafo, porque o deslocamento da ambulância é o maior bloco de tempo fixo do caso e é o único que corre sozinho enquanto você trabalha.

    Prescrição
    • Horário da última vez visto bem: 7h30, informado pela vizinha, ancorado no fechamento da padaria às 8h. Registrar assim, com a fonte, no prontuário e na guia de transferência.
    • Glicemia capilar imediata, antes de qualquer deslocamento do paciente.
    • Contato com a Regulação Médica para definição do encaminhamento e da unidade de destino, informando: déficit focal súbito, horário da última vez visto bem, glicemia e pressão.
    • Manter o acompanhante na unidade até a triagem de contraindicações estar completa. Se ele precisar sair, colher telefone antes.
  2. 8h55 — minuto 3 a 10: o exame que decide, e a bifurcação da hipoglicemia

    Examine face, força e fala, acrescentando campos visuais, olhar, negligência, coordenação e marcha quando segura. Em paralelo, monitorize e meça glicemia. Corrija hipoglicemia e reexamine sem interromper a organização da imagem e do atendimento ao AVC. Melhora completa favorece um imitador metabólico, mas a história pode ainda exigir avaliação vascular; déficit persistente exige manter a investigação de AVC, podendo também refletir lesão por hipoglicemia prolongada. A glicose 50% fornece 0,5 g/mL, mas não é possível prever com uma simples divisão quanto a glicemia subirá em cada paciente: consumo, distribuição e insulina variam. Titule a correção e meça novamente, evitando tanto atraso quanto hiperglicemia desnecessária.

    Prescrição
    • Se glicemia capilar abaixo de 60 mg/dL, ou abaixo de 70 mg/dL com sintomas compatíveis: glicose 50% (500 mg/mL), 20 a 50 mL por via intravenosa — o equivalente a 10 a 25 g, que é a faixa de posologia da bula para a hipoglicemia. Repetir a glicemia e a dose se os sintomas persistirem.
    • No risco nutricional, administrar tiamina prontamente, sem atrasar a glicose na hipoglicemia. Suspeita de Wernicke exige esquema terapêutico próprio, não apenas dose preventiva.
    • Reexaminar o déficit APÓS a correção e registrar o resultado do reexame. É esse registro, e não o valor da glicemia, que decide se o protocolo do AVC continua.
    • Acesso venoso periférico no membro NÃO parético.
    • Oxigênio suplementar se a saturação de pulso estiver abaixo de 94%.
    • Posicionar conforme consciência, ventilação e perfusão. Manter sem ingestão oral até triagem de deglutição; rebaixamento com incapacidade de proteger a via aérea exige suporte e possível intubação, não apenas decúbito lateral.
  3. 9h02 — minuto 10 a 20: a coleta única, o eletrocardiograma e a pergunta da testemunha

    Colha os exames pertinentes em paralelo à imagem. Na ausência de suspeita de coagulopatia, plaquetopenia ou anticoagulação, resultados de rotina não devem atrasar reperfusão. Investigue especificamente anticoagulantes diretos, heparinas e antagonistas da vitamina K: nome, última dose, função renal e testes disponíveis orientam elegibilidade. INR ou TTPA normais não excluem efeito de todo anticoagulante direto. Pergunte à testemunha sobre crise precedente e evolução; uma crise pode ser manifestação de AVC ou produzir paresia de Todd. Essa informação modifica a decisão clínica, mas não autoriza encerrar automaticamente o protocolo.

    Prescrição
    • Coleta única: hemograma completo com contagem de plaquetas, tempo de protrombina com RNI, TTPA, sódio, potássio, ureia, creatinina e troponina.
    • Eletrocardiograma de repouso, procurando fibrilação atrial, sinais de infarto agudo do miocárdio e sinais de dissecção de aorta associada.
    • Triagem de contraindicações com o acompanhante, conforme a tabela do bloco anterior, registrada por escrito.
    • Pergunta dirigida à testemunha sobre fenômeno positivo precedente, com a resposta anotada entre aspas.
    • NÃO administrar ácido acetilsalicílico, heparina ou qualquer antitrombótico antes da tomografia.
    • NÃO usar solução glicosada a 5% para reposição de volume; se precisar de volume, cloreto de sódio a 0,9%.
  4. 9h12 — minuto 20 a 30: o que se trata aqui, e o que não se trata

    Duas coisas se tratam nesta sala porque pioram desfecho e são baratas: febre e hipertensão extrema. Uma terceira, a crise convulsiva, se trata se acontecer — e é onde mora o erro de fonte que este capítulo pede para você conferir. A pressão arterial não se reduz na fase pré-hospitalar, exceto acima de 220 mmHg de sistólica ou 120 mmHg de diastólica, ou quando outra doença associada exigir — dissecção de aorta, infarto agudo do miocárdio, edema pulmonar. Em candidato à fibrinólise, organize com a equipe de AVC o controle necessário para atingir menos de 185/110 antes do tratamento, sem redução abrupta ou atraso evitável. A razão é a mesma que atravessa o capítulo: a área de penumbra depende de pressão de perfusão, e derrubar a pressão de um cérebro com artéria fechada é transformar tecido salvável em infarto. Note que existe um segundo limiar, mais baixo, aplicado já dentro do hospital e depois da imagem, para quem vai receber trombolítico — a norma nacional exclui da trombólise quem mantém sistólica acima de 185 ou diastólica acima de 110 após tratamento anti-hipertensivo. Os dois números não se contradizem: 220/120 é uma referência para isquemia sem reperfusão; 185/110 é o limite pré-trombólise. Diagnóstico, gravidade e protocolo da rede definem onde e como iniciar o controle. Sobre a crise convulsiva, o protocolo pré-hospitalar nacional prescreve fenitoína de 15 a 20 mg/kg por dose, diluída em 250 mL de solução salina, por via intravenosa em 20 minutos. A diluição está certa — a fenitoína precipita em solução glicosada e a bula manda usar cloreto de sódio a 0,9%. O tempo, não. A bula do produto limita a velocidade de infusão a 50 mg por minuto e traz a dose de ataque no estado de mal como 10 a 15 mg/kg. Faça a conta com o paciente da frente: Osvaldo tem cerca de 80 kg; a 20 mg/kg são 1.600 mg, e 1.600 mg em 20 minutos são 80 mg por minuto — sessenta por cento acima do teto. Mesmo no piso da faixa do protocolo, 15 mg/kg em 80 kg são 1.200 mg, que em 20 minutos dão 60 mg por minuto, ainda acima. Fixando o tempo em 20 minutos, a velocidade ultrapassa 50 mg/min em qualquer adulto acima de 66,7 kg na dose de 15 mg/kg, e acima de 50 kg na dose de 20 mg/kg. O que se ultrapassa não é uma formalidade: infusão rápida de fenitoína causa hipotensão e colapso cardiovascular, e a bula registra que a incidência de eventos adversos cresce tanto com a dose quanto com a velocidade. A correção é simples e é aritmética: fixe a velocidade, não o tempo. Calcule a dose pelo peso, divida por 50 mg/min, e infunda no tempo que der — 1.600 mg pedem no mínimo 32 minutos; 1.200 mg pedem 24. Em idoso ou cardiopata, use 25 mg/min e dobre o tempo. E monitore pressão e eletrocardiograma durante a infusão, como a bula exige.

    Prescrição
    • Temperatura axilar acima de 37,8 °C: dipirona 1 g por via intravenosa.
    • Pressão: evitar redução indiscriminada antes de definir o cenário. No AVC isquêmico sem reperfusão, valores acima de 220/120 mmHg ou outra emergência podem exigir redução cautelosa; candidatos a trombólise precisam estar abaixo de 185/110 antes do tratamento. Coordenar com a equipe de AVC e usar fármaco titulável e monitorização quando indicado. Não administrar captopril oral automaticamente antes de avaliar deglutição.
    • O agente e o alvo de pressão dependem do diagnóstico, da estratégia de reperfusão e dos recursos. Evitar queda abrupta e variabilidade excessiva; não transformar uma proibição de ficha pré-hospitalar em regra universal de tratamento hospitalar.
    • Crise persistente por ≥5 minutos ou crises sem recuperação: iniciar benzodiazepínico conforme protocolo de estado de mal, com suporte ventilatório. Se persistir, usar um agente de segunda linha apropriado. Quando escolhida fenitoína, calcular dose e respeitar velocidade máxima de 50 mg/min, menor no idoso/cardiopata, em salina e com ECG/pressão monitorizados. Para 80 kg a 15 mg/kg: 1.200 mg em pelo menos 24 minutos. Fenitoína não substitui o benzodiazepínico inicial e não é profilaxia automática após AVC.
    • Não hiperventilar e não fazer hemodiluição: o protocolo nacional registra que não há evidência de benefício.
  5. 9h20 — a saída: o que viaja junto com o paciente

    A transferência não transporta só um corpo; transporta um dossiê. Cada item abaixo que faltar é um item que o serviço de destino vai ter de refazer, e refazer custa exatamente o tempo que você economizou aqui. A guia de transferência é um instrumento clínico neste caso, não um papel administrativo. Osvaldo sai às 9h20, com 30 minutos consumidos na unidade. Restam 160 minutos de janela e cerca de 70 minutos de estrada. Ele deve chegar por volta das 10h30, com aproximadamente 90 minutos de folga — o suficiente para uma tomografia, uma avaliação neurológica e uma infusão, desde que o serviço de destino não gaste com ele os 89,8 minutos médios da coorte brasileira. É por isso que a ligação prévia importa: o destino que sabe que ele vem começa antes de ele chegar.

    Prescrição
    • Na guia, em local visível: horário da última vez visto bem, COM a fonte e a âncora usada para obtê-lo.
    • Glicemia capilar aferida, valor e horário; se houve correção, o valor após a correção e o resultado do reexame neurológico.
    • Exames já coletados e para onde foram os resultados; traçado do eletrocardiograma junto.
    • Lista de contraindicações triadas, item a item, incluindo as respondidas como não.
    • Medicações de uso, com nome das caixas se a família as trouxer; peso estimado; independência funcional prévia descrita em atividades.
    • Telefone do acompanhante que respondeu as perguntas — o serviço de destino vai precisar dele.
    • Durante o transporte: monitorização, acesso pérvio no membro não parético, cabeceira elevada, reexame neurológico a cada 15 minutos com anotação do horário de qualquer mudança.
  6. 10h30 — na chegada: onde termina a sua parte

    No centro habilitado, o caminho é tomografia sem contraste, avaliação de médico neurologista que confirme o AVC isquêmico agudo, e decisão de reperfusão — trombólise dentro de 4 horas e meia contadas do início dos sintomas até a infusão, trombectomia mecânica nas janelas e nos critérios próprios dela. A partir daqui o capítulo entrega o paciente. A dose do trombolítico, o preparo, o bolus, a velocidade da bomba, os critérios completos de trombectomia, a vigilância das primeiras 24 horas, o manejo da transformação hemorrágica e a prevenção secundária estão no capítulo de AVC isquêmico agudo, na apostila de Neurologia; a decisão sobre a estenose de carótida — quando operar e em quanto tempo depois do evento — está no capítulo de doença carotídea e estenose de carótida, na apostila de Cirurgia Vascular. O que este capítulo pede que você leve do plantão é outra coisa: o horário, a glicemia, o telefone dado no minuto três, a pergunta feita à testemunha, e a ordem em que tudo isso aconteceu. Para compreender a decisão: quatro horas e meia são a janela habitual de trombólise intravenosa, não o prazo após o qual todo tratamento deixa de existir. AVC ao despertar ou de início incerto e oclusão de grande vaso podem ser elegíveis a estratégias de reperfusão por seleção clínica e de imagem. A diretriz AHA/ASA de 2026 amplia a elegibilidade em cenários específicos. Mantenha avaliação urgente e confirme critérios e recursos da rede brasileira; não prometa tratamento nem exclua só pelo relógio.

    Prescrição
    • Passagem verbal ao médico receptor, em ordem fixa: horário da última vez visto bem e como foi obtido; déficit encontrado e se mudou desde a chegada; glicemia e o que aconteceu após a correção; contraindicações triadas; peso e independência prévia.
    • Entregar o acompanhante junto com o paciente sempre que possível — ele é a fonte do dado que decide.
    • Registrar o horário de saída da unidade de origem e o de chegada ao destino. Sem esses dois números, o serviço não consegue medir o próprio atraso no mês que vem.
09

Como saber se está funcionando

A reavaliação deste capítulo tem uma peculiaridade que a distingue da de quase todos os outros: o parâmetro que você acompanha é o próprio déficit, e ele muda em minutos, não em dias. Não existe exame de controle. O que existe é você examinando de novo, com o relógio na mão, e escrevendo a hora.

Isso a torna, ao mesmo tempo, a reavaliação mais barata e a mais esquecida do pronto-socorro. Barata porque não custa nada. Esquecida porque o paciente estável e monitorizado, deitado num canto esperando ambulância, é exatamente o paciente que ninguém volta a examinar.

A régua abaixo vale do momento em que o paciente entra até o momento em que outro médico assume. Depois da infusão do trombolítico existe uma vigilância própria, com horários próprios, e ela está no capítulo de AVC isquêmico agudo, na apostila de Neurologia.

O que acompanhar, e de quanto em quanto tempo

O exame neurológico dirigido se repete a cada 15 minutos, incluindo dentro da ambulância, e o resultado se anota com o horário. Não precisa ser longo: face, força dos quatro membros, fala, nível de consciência e desvio do olhar respondem à pergunta que importa, que é se mudou. O valor desse exame não está em nenhuma das medidas isoladas; está na comparação entre duas delas.

A pressão arterial se afere a cada 15 minutos pelo mesmo motivo, e com dois limiares na cabeça: o de não baixar, que é 220 por 120 nesta fase, e o de que quem vai infundir trombolítico precisa estar abaixo de 185 por 110. A pressão que cai sozinha, sem droga, é mais preocupante que a alta — pode ser dor resolvida, mas pode ser o começo de outra coisa.

A glicemia capilar se repete se o paciente tiver sido corrigido, se estiver sonolento, ou se o quadro mudar sem explicação. A saturação se acompanha continuamente, com meta acima de 94%. A temperatura axilar se afere e se trata acima de 37,8 °C, porque a febre piora desfecho neurológico.

E há um parâmetro que não é neurológico e que mata mais rápido que o AVC no primeiro dia: a via aérea. Paciente com déficit focal que rebaixa, que ronca, que tosse ao engolir a própria saliva ou que vomita está a caminho de uma broncoaspiração. Nada por via oral até que alguém, no destino, faça o rastreio de disfagia — nem água, nem comprimido de pressão, nem o pão que a família trouxe por gentileza.

Melhorou — o que isso significa e o que não significa

Um déficit que melhora antes de qualquer tratamento tem três explicações possíveis, e elas levam a condutas diferentes.

Pode ser ataque isquêmico transitório: a artéria abriu sozinha. O paciente parece bem e está no período de maior risco da vida dele para um AVC estabelecido. Ele não recebe trombolítico — a resolução completa e espontânea do déficit é critério de exclusão na norma nacional —, mas ele também não vai para casa. Vai investigar e prevenir, com urgência.

Pode ser um imitador que se resolveu: a hipoglicemia corrigida, a paresia de Todd que passou, a aura que terminou. Aqui a melhora é diagnóstica, e o que muda é a doença que você vai tratar.

Pode ser flutuação de um AVC em curso, com circulação colateral que abre e fecha. Esse é o mais perigoso dos três porque tranquiliza a equipe justamente quando não deveria: o paciente que melhorou e piorou de novo tem tecido em risco e continua dentro do protocolo.

A conduta que cobre as três é a mesma: melhora não encerra a vigilância nem autoriza reduzir a prioridade. Documente o horário exato em que melhorou e o que exatamente melhorou. Se o déficit voltar, você terá o dado que ninguém mais teria.

Piorou — o que procurar, nesta ordem

Deterioração neurológica em paciente com déficit focal tem uma lista curta de causas, e ela se percorre em minutos.

Primeiro, o que se reverte: glicemia. Refaça. É rápido, é comum e é a única da lista que se resolve na hora.

Segundo, o que é mecânico: via aérea, oxigenação, pressão. Saturação caindo e pressão caindo pioram a penumbra por razões que nada têm a ver com a artéria fechada, e as duas são corrigíveis.

Terceiro, a crise convulsiva — inclusive a não convulsiva, que se manifesta como rebaixamento sem abalo. Em quem tem lesão cortical aguda, é frequente.

Quarto, a progressão do próprio AVC: extensão do território, edema, ou transformação hemorrágica. Isso não se resolve na ambulância e é o motivo pelo qual a ligação para o destino já foi feita.

Quinto, e este é o que o interno esquece: o diagnóstico pode estar errado. Um paciente que piora de um jeito que não faz sentido para o território que você imaginou — que fica sonolento demais, febril, com rigidez de nuca, ou cujo déficit muda de lado — merece que você reabra a hipótese em vez de reforçá-la. Meningite, hemorragia subaracnoide, intoxicação e hematoma subdural continuam existindo depois que o protocolo do AVC foi aberto.

Não melhorou e não piorou — a armadilha do estável

O paciente que fica igual é o que mais frequentemente perde a janela, porque ele não gera alarme. Ninguém corre atrás de quem está estável.

A regra que protege é transformar o tempo em evento: em vez de esperar a ambulância, marque horários. Às 9h15, quanto tempo de janela resta? Às 9h30, a ambulância saiu? Se não, quem ligou de novo? Um caso com déficit focal e janela aberta precisa de alguém responsável pelo relógio, e num plantão pequeno essa pessoa é você.

E há o critério de reabertura da dúvida: se ao fim da avaliação você não conseguir dizer em uma frase qual território arterial explica todos os achados, refaça a hipótese. Achados que não fecham território não são um AVC atípico — são, mais frequentemente, outra coisa.

Como saber se o serviço está funcionando, e não só o paciente

Este é o único capítulo em que a reavaliação tem um segundo sujeito: o serviço. O atraso brasileiro medido é institucional, e instituição não melhora sem número.

Dois números bastam e ambos saem do prontuário: o tempo entre a chegada do paciente e a tomografia, e o tempo entre a chegada e a decisão de reperfusão ou a saída para transferência. Registre o horário de chegada, o de saída e o da tomografia em todo paciente com déficit focal, mesmo nos que acabam não sendo AVC. Sem esses registros, ninguém consegue dizer no mês seguinte onde os 89,8 minutos foram parar.

É a mesma lógica do exame neurológico repetido: uma medida isolada não informa nada, e duas medidas informam tudo.

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Onde o erro machuca

Aceitar acordou assim como horário de início

O dano: O horário do despertar pode estar seis ou oito horas depois do momento em que a artéria fechou. Adotá-lo transforma um paciente fora da janela em candidato aparente a trombolítico, e o resultado é um trombolítico infundido em cima de infarto já consolidado: risco de hemorragia intracraniana sem chance de benefício, porque não há mais penumbra para salvar.

Como pegar a tempo: A definição é a do protocolo nacional e não admite adaptação: quando os sintomas são observados ao acordar, o horário de início é o último momento em que o paciente foi visto sem sintomas antes de dormir. Pergunte a que horas ele foi dormir e quem o viu bem naquele momento. Escreva os dois.

Deixar a testemunha ir embora sem perguntar o que aconteceu ANTES da fraqueza

O dano: A paresia de Todd é indistinguível de um AVC no exame, e o único dado que a separa — o abalo, a contração, o formigamento ascendente que precedeu — só existe na memória de quem estava junto. O paciente não pode entregar esse dado porque esteve inconsciente ou amnéstico exatamente durante a parte que importa. Sem ele, alguém decide sobre trombolítico com metade da informação.

Como pegar a tempo: Faça a pergunta com essas palavras, antes de liberar o acompanhante, e anote a resposta entre aspas: antes de o braço ficar fraco, ele tremeu, se contraiu, formigou ou ficou duro? Se o acompanhante precisar sair, colha o telefone dele antes.

Rotular de labirintite a vertigem de quem não consegue ficar de pé

O dano: Infarto de cerebelo e de tronco se apresenta como vertigem intensa com náusea e vômito, sem fraqueza e sem alteração de fala. Rotulado como labirintite, o paciente recebe antivertiginoso e vai para a observação; perde a janela em silêncio e, se houver edema cerebelar, evolui para compressão de tronco e hidrocefalia — que é uma das poucas complicações neurológicas com cirurgia salvadora e prazo curto.

Como pegar a tempo: Antes de escrever labirintite, cheque três achados que não exigem técnica nenhuma: nistagmo vertical, incapacidade de ficar de pé sem apoio, e qualquer outro sinal focal associado. Qualquer um dos três derruba o rótulo. Vertigem periférica é fatigável, inibida pela fixação do olhar e costuma vir com sintoma auditivo; o paciente caminha, ainda que mal.

Ler tomografia normal como ausência de AVC

O dano: É o erro que se comete com a maior sensação de rigor. Nas primeiras três horas, cerca de um terço dos pacientes com AVC isquêmico real tem tomografia sem sinal precoce nenhum — e a proporção de exames limpos é maior justamente entre os que chegaram cedo, isto é, entre os que mais se beneficiariam. Concluir que não é AVC porque a tomografia está normal é retirar do tratamento exatamente quem tem mais a ganhar com ele.

Como pegar a tempo: Inverta a leitura: nesta doença, a tomografia entra para vetar, não para confirmar. Ela responde se há sangue. Quem diz que é AVC é a clínica — déficit focal de instalação súbita —, e uma tomografia limpa em paciente com uma hora de sintoma é o resultado esperado, não o resultado tranquilizador.

Segurar o paciente na sala esperando RNI, TTPA e plaquetas de rotina

O dano: Trinta a sessenta minutos de janela consumidos por uma espera que a própria norma nacional dispensa. Nos números brasileiros, o tempo porta-agulha médio é de 89,8 minutos, e a espera laboratorial de rotina é um dos blocos que o compõem. Num paciente que chegou com metade da janela já gasta, essa espera é a diferença entre tratar e não tratar.

Como pegar a tempo: Colha sem atrasar imagem. Investigue suspeita de coagulopatia, plaquetopenia e exposição a anticoagulantes, inclusive diretos; confirme última dose e função renal. A lista de quatro situações de um protocolo antigo não é exaustiva.

Telefonar para a regulação só depois de terminar a avaliação

O dano: O deslocamento da ambulância é o maior bloco de tempo fixo do caso e o único que corre sem consumir trabalho seu. Adiá-lo em vinte minutos adia a chegada em vinte minutos, e esses vinte minutos saem inteiros do fim da janela — o pedaço em que já não há mais o que compensar.

Como pegar a tempo: A ligação é o terceiro gesto do atendimento, junto com o horário e a glicemia, e acontece antes do exame neurológico completo. Você tem o que dizer com trinta segundos de avaliação: déficit focal súbito, horário da última vez visto bem, glicemia, pressão.

Baixar a pressão do paciente com déficit focal agudo

O dano: A área de penumbra sobrevive por circulação colateral, e a colateral depende de pressão de perfusão. Derrubar a pressão de um cérebro com artéria ocluída converte tecido salvável em infarto — e o dano é imediato e irreversível. O reflexo de tratar um número alto é forte justamente em quem está começando.

Como pegar a tempo: Alvo de pressão depende da reperfusão planejada e de emergências associadas. Coordene tratamento precoce com a equipe de AVC; não use 220/120 como regra de toda porta nem 185/110 como motivo para reduzir abruptamente sem indicação.

Não reexaminar depois de corrigir a hipoglicemia

O dano: Duas falhas opostas cabem aqui. Uma é encerrar o caso porque a glicemia estava baixa, sem verificar que o déficit continua — e o paciente que tem AVC e hipoglicemia ao mesmo tempo sai do protocolo pela porta errada. A outra é manter o protocolo correndo, com transporte e trombolítico, num paciente cujo déficit já desapareceu junto com a hipoglicemia.

Como pegar a tempo: A conduta é sempre a mesma sequência de três: medir, corrigir, reexaminar — e registrar o resultado do reexame. O que decide não é o valor da glicemia; é o que aconteceu com o déficit depois que ela normalizou.

Confrontar o paciente com déficit funcional

O dano: Dizer a alguém que não há nada de errado, ou que é emocional, produz três danos ao mesmo tempo: rompe o vínculo, dificulta o tratamento efetivo de uma condição que é real e tratável, e — o mais perigoso no plantão — faz o paciente procurar outro serviço, onde ele será reavaliado do zero por alguém sem a informação que você tinha. O oposto também machuca: trombolisar um déficit funcional expõe à hemorragia intracraniana alguém que não tinha artéria entupida.

Como pegar a tempo: Trate o achado como achado. O sinal de Hoover é um dado de exame como qualquer outro, e o que ele indica é que a via motora está íntegra — o que é boa notícia e pode ser dito assim. Nomeie a condição pelo que ela é, real e tratável, e não pelo que ela não é.

Copiar a dose do protocolo sem fazer a conta com o paciente da frente

O dano: O protocolo pré-hospitalar nacional prescreve fenitoína de 15 a 20 mg/kg diluída em 250 mL de salina em 20 minutos. Fixar o tempo em 20 minutos faz a velocidade ultrapassar o teto de 50 mg/min da bula em qualquer adulto acima de 66,7 kg na dose menor, e acima de 50 kg na dose maior — num paciente de 80 kg a 20 mg/kg, são 80 mg/min, sessenta por cento acima do limite. Infusão rápida de fenitoína causa hipotensão e colapso cardiovascular, e o risco cresce com a velocidade.

Como pegar a tempo: Fixe a velocidade, nunca o tempo. Calcule a dose pelo peso, divida por 50 mg/min e infunda no tempo que resultar; em idoso ou cardiopata, use 25 mg/min. Monitorize pressão e eletrocardiograma durante a infusão. E adote o hábito geral: toda vez que um protocolo der dose por quilo e tempo fixo, faça a divisão antes de pendurar.

Deixar a triagem decidir a prioridade pelo cheiro da roupa

O dano: O paciente etilista, o morador de rua, o portador de transtorno mental e o idoso rotulado como confuso têm o déficit focal lido como comportamento e vão para o fim da fila. É um viés documentado, e o custo dele é a janela inteira. Some-se a isso que esses mesmos pacientes acumulam causas concorrentes — hipoglicemia, trauma craniano não relatado, hematoma subdural — que exigem mais avaliação, não menos.

Como pegar a tempo: Trate a regra como trava impessoal, não como virtude pessoal: déficit focal de instalação súbita abre protocolo, ponto. Se você precisar decidir se o paciente merece o protocolo, você já errou a pergunta.

Mandar o horário e os achados sem a fonte

O dano: Um horário sem fonte é um horário que o serviço de destino não pode assumir. O receptor refaz a anamnese, procura o acompanhante que ficou para trás, e gasta exatamente o tempo que a origem havia economizado. Na prática, é como se a informação não tivesse sido colhida.

Como pegar a tempo: Escreva o dado com a procedência e a âncora: última vez visto bem às 7h30, informado pela vizinha, ancorado no horário de fechamento da padaria. Mande o telefone de quem informou. Um dado rastreável é um dado utilizável.

11

O que dizer ao paciente e à família

A conversa deste capítulo é difícil por um motivo específico: você precisa pedir informação com urgência a pessoas assustadas, e precisa fazê-lo sem transmitir pânico — porque pânico atrapalha a memória, e é da memória delas que sai o dado que decide o tratamento.

Há ainda três situações que o interno enfrenta cedo e para as quais ninguém o preparou: falar com quem entende e não consegue responder; dizer que o paciente vai ser levado para longe; e dizer que não é AVC sem que a pessoa ouça que não é nada. As falas abaixo são para dizer em voz alta.

Colher o horário sem contaminar a memória do acompanhante

A senhora vai me ajudar com uma coisa que é a mais importante de todas agora. Não é quando a senhora achou ele assim — é quando a senhora viu ele bem pela última vez, falando e andando normal. Pode ser hoje de manhã, pode ser ontem à noite. Pense num momento: a novela, o café, a missa, alguém que passou na porta. Que horas era esse momento?

Não diga: Evite perguntar que horas começou, porque a pessoa responde a hora em que percebeu. Evite sugerir horários (foi por volta das oito?), porque a testemunha concorda com o número que você ofereceu e o dado se perde. E evite dizer que dessa resposta depende o tratamento antes de ela responder — a pressão faz a pessoa chutar.

Falar com o paciente afásico, que entende tudo

Seu Osvaldo, eu sou o médico que vai cuidar do senhor. Eu sei que o senhor está me entendendo, mesmo sem conseguir montar as palavras agora — isso faz parte do que está acontecendo e não quer dizer que o senhor esteja confuso. Eu vou explicar tudo para o senhor, mesmo que o senhor não consiga me responder. Se eu falar alguma coisa errada, aperte a minha mão com a mão esquerda que eu volto atrás.

Não diga: Evite falar com a família por cima do paciente, na terceira pessoa, como se ele não estivesse ali. Evite levantar a voz — afasia não é surdez. E evite tratá-lo por apelidos infantilizados, que é o reflexo mais comum diante de alguém que não responde.

Explicar a incerteza, quando ainda não se sabe se é AVC

Vou ser honesto com a senhora sobre o que eu sei e o que eu ainda não sei. O que eu sei é que ele tem uma fraqueza de um lado do corpo que começou de repente, e isso a gente trata como derrame até provar que não é. O que eu não sei ainda é se é derrame mesmo — existem algumas outras coisas que causam exatamente isso, e algumas são melhores. Só uma tomografia e um neurologista respondem. O que não pode acontecer é a gente esperar para descobrir, porque se for derrame existe um tratamento que só funciona nas primeiras horas.

Não diga: Evite prometer que é só um susto e evite afirmar que é um derrame antes da imagem. As duas afirmações são apostas, e a segunda tem consequência: uma família que já ouviu derrame processa mal a notícia de que era outra coisa, e passa a duvidar de tudo o que vier depois.

Comunicar a transferência para um hospital distante

A nossa unidade não tem tomógrafo, e sem tomografia ninguém pode dar o remédio que dissolve o coágulo — porque antes é preciso ter certeza de que não é um sangramento. Por isso ele vai para o hospital de Sete Lagoas, que fica a noventa quilômetros. A ambulância já foi chamada, e eu já avisei o médico de lá que ele está indo, para eles começarem a preparar antes de ele chegar. A senhora vai junto, porque as perguntas que eu fiz aqui eles vão fazer de novo, e a senhora é quem sabe responder.

Não diga: Evite dizer aqui a gente não pode fazer nada, porque não é verdade e porque desmonta a confiança na equipe que está cuidando dele agora. Evite estimar horário de chegada e de tratamento com precisão que você não tem.

Dizer que não era AVC — o déficit funcional

Eu tenho uma notícia boa e ela é de verdade: os exames mostram que não houve derrame, e os nervos que levam a ordem do cérebro até o braço estão inteiros. Eu sei disso porque, em um dos testes que eu fiz, a sua perna empurrou com força normal sem que a senhora precisasse pensar nisso. O que está acontecendo é uma falha no comando voluntário, e ela é real — a senhora não está inventando e não está exagerando. Isso tem nome, acontece com muita gente, e tem tratamento com fisioterapia e acompanhamento. O que eu preciso que a senhora saiba é que a fraqueza que a senhora sentiu existiu de verdade.

Não diga: Evite as três frases que fecham a porta: não é nada, é emocional, e está tudo normal. Evite o tom de alívio que soa como quem foi enganado. E não deixe a pessoa sair sem encaminhamento — alta sem destino é o que a faz procurar outro pronto-socorro amanhã.

Dizer que a janela fechou

Preciso explicar por que ele não vai receber aquele remédio que dissolve o coágulo. Esse remédio só é seguro nas primeiras quatro horas e meia depois que o problema começou, e pelo que a senhora me contou já se passou mais tempo que isso. Depois desse prazo, ele passa a causar mais sangramento do que benefício — não é que a gente esteja desistindo dele, é que esse remédio específico já não ajudaria. Existe muita coisa a fazer a partir de agora: cuidar da pressão, evitar complicação, descobrir a causa para que não aconteça de novo, e começar a reabilitação cedo, que é o que mais recupera função.

Não diga: Evite dizer chegou tarde, que transfere culpa para a família e não muda nada. Evite prometer recuperação, e evite negá-la — a recuperação depois do AVC acontece ao longo de semanas e meses, e ninguém sabe o teto dela no primeiro dia.

Perguntar sobre contraindicações sem transformar a conversa em interrogatório

Vou fazer algumas perguntas rápidas que parecem desconexas, mas cada uma delas serve para saber se um remédio específico é seguro para ele. Se a resposta for não sei, tudo bem — me diga não sei, que é melhor do que chutar. Ele toma algum remédio para afinar o sangue? Fez alguma cirurgia grande no último mês? Teve algum sangramento pelo intestino ou pela urina? Já teve derrame antes, e alguém chegou a dizer se foi de sangramento?

Não diga: Evite aceitar toma um monte de remédio como resposta — peça a caixa, ou peça que alguém fotografe a cartela em casa e envie. E não descarte o não sei: registre como não sei, porque quem for decidir precisa distinguir entre a ausência de uma condição e a ausência da informação.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Qual é a janela, afinal: quatro a cinco horas, ou quatro horas e meia contadas até a infusão?

Até 4 a 5 horas do início dos sintomas

Nos quadros sugestivos de AVC isquêmico em maiores de 18 anos há benefício com o uso de trombolítico intra-hospitalar em até 4 a 5 horas do início dos sintomas, e a definição do encaminhamento para unidade referenciada deve ser feita junto com a regulação, a partir de critérios de exclusão factíveis na fase pré-hospitalar.

Ministério da Saúde — Protocolos de Suporte Avançado de Vida do SAMU 192, ficha AC21 (elaboração agosto de 2014, revisão abril de 2015)

Menos de 4,5 horas do início dos sintomas ATÉ A INFUSÃO

Para realização de trombólise, o paciente deve apresentar quadro clínico de AVC com início há menos de 4,5 horas desde o início dos sintomas até a infusão do medicamento.

Ministério da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Acidente Vascular Cerebral Isquêmico Agudo, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 29, de 12 de dezembro de 2023

Como decidir

Aqui não há duas escolas médicas discordando: há uma norma de 2023 e um protocolo operacional cuja ficha de AVC foi revisada pela última vez em 2015, e a diferença é de precisão, não de opinião. Duas coisas mudam na prática e as duas apertam o seu relógio. Primeiro, o número: 4 a 5 horas é uma faixa que, na cabeça de quem está com pressa, vira cinco; a norma vigente diz 4,5 e não abre faixa. Segundo, e mais importante, o ponto final da contagem: a norma vigente conta até a INFUSÃO do medicamento, não até a chegada do paciente. Isso significa que o tempo de tomografia, de laudo, de avaliação neurológica e de preparo da droga está dentro da janela, e não depois dela. Para você, na porta, a consequência é uma só: trabalhe com 4,5 horas e desconte mentalmente o que o destino ainda vai gastar. Quando as duas fontes discordam, prevalece a que é mais nova e mais específica para a decisão — e o protocolo pré-hospitalar continua excelente para o que ele existe para fazer, que é organizar a rua e a ambulância.

Abaixo de que glicemia se trata o paciente com suspeita de AVC?

Abaixo de 80 mg/dL

Na avaliação secundária do paciente com suspeita de AVC, controlar os níveis glicêmicos, medicando se a glicemia capilar estiver abaixo de 80 mg/dL ou acima de 200 mg/dL; se a glicemia estiver abaixo de 80 mg/dL, administrar glicose a 50%, 30 a 50 mL.

Ministério da Saúde — Protocolos de Suporte Avançado de Vida do SAMU 192, ficha AC21, do AVC

Abaixo de 60 mg/dL, e com sinais e sintomas

Suspeitar de hipoglicemia com glicemia capilar abaixo de 60 mg/dL acompanhada de sinais e sintomas como tremores, sudorese, palidez, taquicardia, tontura, cefaleia, fraqueza, parestesias, distúrbios visuais e rebaixamento da consciência; administrar 30 a 50 mL de glicose a 50%.

Ministério da Saúde — Protocolos de Suporte Avançado de Vida do SAMU 192, ficha AC29, da hipoglicemia

Abaixo de 50 mg/dL, e só para atribuir o déficit à hipoglicemia

É contraindicação relativa à trombólise a glicemia abaixo de 50 mg/dL quando houver recuperação completa do déficit focal e este for atribuído à hipoglicemia, e não a um AVC.

Ministério da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Acidente Vascular Cerebral Isquêmico Agudo (2023)

Como decidir

As duas primeiras posições estão no mesmo volume, publicadas pelo mesmo órgão, separadas por vinte miligramas por decilitro — e a ficha do AVC é justamente a mais permissiva, num paciente em que o excesso de glicose faz mal. Faça a conta antes de escolher: a glicose a 50% tem 500 mg/mL, logo 50 mL entregam 25 g; num adulto de 70 kg, 25 g intravenosos elevam a glicemia entre cerca de 60 e 145 mg/dL conforme o volume de distribuição adotado. Um paciente com 75 mg/dL, que não é hipoglicêmico por nenhuma definição corrente, tratado pelo limiar de 80, vai parar entre 135 e 220 mg/dL — e hiperglicemia na fase aguda do AVC é associada a pior desfecho neurológico. Decida assim, para o paciente à sua frente: trate hipoglicemia, não trate um número. Abaixo de 60 mg/dL, ou abaixo de 70 com sintomas compatíveis, corrija sem hesitar, porque neuroglicopenia lesa neurônio como isquemia lesa neurônio. Entre 70 e 80, meça de novo, examine e observe em vez de infundir glicose por protocolo. E, corrigido o valor, o que decide o rumo do caso não é a glicemia: é o reexame do déficit.

Quem crava o horário do início: o médico, ou a classificação de risco?

É tarefa da avaliação médica, junto com o restante da anamnese

Durante o atendimento do paciente, deve-se avaliar o início preciso das manifestações neurológicas e seu curso; o horário do início dos sintomas é o último momento em que o paciente foi visto sem sinais e sintomas neurológicos, informação que pode ser referida pelo próprio paciente, se orientado e coerente, ou pelo acompanhante.

Ministério da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do AVC Isquêmico Agudo (2023) e ficha AC21 do SAMU 192

É atribuição formal do enfermeiro da classificação de risco, antes da avaliação médica

Entre as atribuições do enfermeiro da classificação de risco do pronto-socorro estão precisar a hora de início ou de percepção pelos familiares do déficit neurológico, identificar no discriminador de déficit neurológico os pacientes candidatos à trombólise, e acionar o neurologista do plantão e a coordenação médica imediatamente.

Hospital das Clínicas da UFMG / Ebserh — Protocolo Assistencial nº 42: Trombólise no AVC agudo, versão 3, atualização de dezembro de 2021

Como decidir

A divergência não é sobre qual é o dado, e sim sobre em que minuto do atendimento ele é colhido — e é uma das poucas decisões de organização que muda desfecho de forma mensurável. Colocar o horário na triagem antecipa a informação em vinte ou trinta minutos e a captura enquanto o acompanhante ainda está no balcão; deixá-lo para a avaliação médica garante que quem pergunta sabe reformular a pergunta quando a primeira resposta vem errada, que é o caso mais comum. Para o paciente à sua frente, a escolha é falsa e a resposta é fazer os dois: assuma que o horário da triagem existe, mas nunca o use sem reperguntar você mesmo pelo negativo — quando foi a última vez que o senhor o viu bem, e não quando começou. Se você trabalha num serviço com protocolo escrito, esta é a linha que vale a pena propor: atribuir a pergunta a quem recebe o paciente primeiro, com a redação exata da pergunta impressa na ficha, porque a redação é metade do resultado.

De uma unidade sem tomógrafo, o paciente vai para o centro de AVC ou para onde a regulação determinar?

Preferencialmente ao hospital habilitado como Centro de AVC

O paciente com suspeita de AVC isquêmico agudo deve ser encaminhado, preferencialmente, a hospital habilitado como Centro de Atendimento de Urgência aos Pacientes com Acidente Vascular Cerebral, que disponha de equipe coordenada por neurologista 24 horas, tomógrafo 24 horas, unidade de terapia intensiva, laboratório 24 horas, neurocirurgia 24 horas e agência transfusional com crioprecipitado.

Ministério da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do AVC Isquêmico Agudo (2023)

O destino é definido em conjunto com a Regulação Médica

Realizar contato com a Regulação Médica para definição do encaminhamento e da unidade de saúde de destino; a definição do encaminhamento para unidade referenciada deve ser realizada em conjunto com a regulação, a partir da avaliação de critérios de exclusão factíveis de análise na fase pré-hospitalar.

Ministério da Saúde — Protocolos de Suporte Avançado de Vida do SAMU 192, fichas AC21 e AC29

Como decidir

As duas posições descrevem coisas diferentes que colidem no plantão: uma diz qual é o destino clinicamente adequado, a outra diz quem tem autoridade para definir destino e vaga. Quem decide de fato é a regulação, porque é ela que sabe se o tomógrafo do centro habilitado está funcionando hoje, se há neurologista de plantão e se há vaga — e nada disso está no seu alcance. Sua tarefa é fazer a regulação decidir com a informação certa, e isso significa dizer, na mesma frase da ligação, as quatro coisas que mudam o destino: que é déficit focal de instalação súbita, o horário da última vez visto bem, quanto tempo de janela resta, e que a sua unidade não tem tomógrafo. Um pedido de transferência sem esses quatro dados é regulado como transferência comum. Se o destino oferecido não tiver tomografia disponível, diga isso explicitamente e registre no prontuário que informou — a informação que muda a decisão precisa estar do lado de quem decide, e o registro protege o paciente na próxima ligação.

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O raciocínio, em voz alta

Volte a Osvaldo. 58 anos, cerca de 80 kg, motorista de van escolar, hipertenso em uso irregular de losartana, sem outros antecedentes conhecidos. Chegou às 8h50 numa unidade de pronto atendimento sem tomógrafo, trazido de Kombi pela vizinha. Afasia de expressão, paresia facial direita, braço direito que cai em cinco segundos, perna direita fraca, sem cefaleia. Última vez visto bem às 7h30. Pressão 176 por 96 mmHg, frequência cardíaca 84 bpm, saturação 96% em ar ambiente, temperatura axilar 36,4 °C. O hospital de referência fica a noventa quilômetros. Acompanhe o raciocínio em voz alta.

  1. o que penso nos primeiros trinta segundos

    Afasia associada a hemiparesia e paresia facial direitas sugere lesão no hemisfério dominante esquerdo, em circulação anterior. Afasia não é um déficit do mesmo lado do corpo: ela localiza uma função cortical. O início agudo exige protocolo de AVC. Padrões cruzados ou atípicos pedem localização cuidadosa, inclusive de tronco, e não excluem automaticamente uma causa vascular.

  2. o que faço antes de examinar direito

    Três coisas, em três minutos, e nenhuma delas depende de aparelho. Pergunto o horário à vizinha, pelo negativo, e ancoro num evento: ela responde sete e meia, ancorada no fechamento da padaria. Furo o dedo. E ligo para a regulação — porque a ambulância leva mais tempo para chegar aqui do que eu levo para terminar tudo, e é o único bloco de tempo que corre sozinho enquanto eu trabalho. Digo à regulação as quatro coisas que mudam o destino: déficit focal súbito, última vez visto bem às 7h30, cerca de 185 minutos até a janela habitual de 4,5 horas, e unidade sem tomógrafo.

  3. a gota de sangue

    Glicemia 104 mg/dL afasta hipoglicemia naquele momento, mas não resolve os demais imitadores. Se estivesse baixa, eu corrigiria e reexaminaria imediatamente. Persistência de déficit mantém a investigação de AVC; melhora completa exige explicar a hipoglicemia e avaliar o contexto, sem presumir que todo evento transitório foi necessariamente metabólico.

  4. a pergunta que faço à vizinha antes de ela sair

    Antes de o braço dele ficar fraco, ele tremeu, se contraiu, formigou ou ficou duro? Ela não viu o começo — encontrou ele já assim —, e essa resposta é ela própria um dado: janela colhida por testemunha do estado prévio, não do início. Registro assim. Aproveito e faço a triagem de contraindicações enquanto ela está aqui: não usa anticoagulante, não operou, sem sangramento recente, sem derrame anterior conhecido, sem trauma de cabeça. Anoto o telefone dela e peço que traga a caixa dos remédios se for em casa.

  5. o exame dirigido, e o que eu procuro além da escala

    Face, braços, fala pela escala de triagem: três de três alterados, o que coloca a probabilidade de AVC acima de 85% já nesse gesto. Mas a escala não cobre tudo, então eu procuro o resto: campo visual por confrontação, desvio conjugado do olhar — ele tem, para a esquerda —, negligência, coordenação no lado bom. Nível de consciência preservado. O desvio do olhar para o mesmo lado da lesão fecha ainda mais o território, e não muda o que eu vou fazer; muda o que eu vou dizer ao telefone.

  6. o acesso, a coleta e o que eu decido NÃO fazer

    Acesso no braço esquerdo, que é o não parético, e a coleta inteira na mesma punção: hemograma com plaquetas, RNI, TTPA, sódio, potássio, ureia, creatinina, troponina. Eletrocardiograma: ritmo sinusal, sem fibrilação atrial. Monitor ligado, cabeceira elevada, saturação 96% sem oxigênio suplementar. E o que eu decido não fazer é tão importante quanto: não peço radiografia de tórax, não seguro o paciente esperando o RNI — a norma dispensa a espera fora de quatro situações, e nenhuma delas se aplica a ele —, e não dou aspirina antes de alguém ver o interior daquela cabeça.

  7. a pressão de 176 por 96

    Com PA 176/96, não há indicação de baixar a pressão apenas pelo número. Está abaixo do limite exigido antes de trombólise, e a equipe continuará monitorizando. Se a pressão subir, a estratégia dependerá da reperfusão planejada e de outras emergências, com redução controlada em ambiente adequado.

  8. o que eu escrevo na guia

    Escrevo o horário com a fonte: última vez visto bem às 7h30, informado pela vizinha, ancorado no fechamento da padaria às 8h. Glicemia 104 às 8h55. Contraindicações triadas item a item, incluindo as respondidas como não. Peso estimado 80 kg. Independência prévia descrita em atividade concreta: dirigia van escolar diariamente até ontem. Telefone da vizinha. Traçado do eletrocardiograma junto. Cada item que faltar aqui é um item que o destino vai refazer, gastando o tempo que eu economizei.

  9. a saída, e a conta que eu faço em voz alta

    Ambulância sai às 9h20, com trinta minutos consumidos na unidade. Restam 160 minutos de janela e cerca de 70 minutos de estrada. Chegada prevista por volta das 10h30, com aproximadamente 90 minutos de folga. Isso só é suficiente se o destino não gastar com ele os 89,8 minutos médios de porta-agulha da coorte brasileira — e é por isso que a ligação prévia importa mais do que parece: o serviço que sabe que ele vem começa a se organizar antes de ele chegar. Durante o transporte, reexame neurológico a cada 15 minutos, com anotação do horário de qualquer mudança.

  10. o que acontece do outro lado, e onde eu paro

    Chegada às 10h34. Tomografia de crânio sem contraste às 10h47: sem hemorragia, sem hipodensidade extensa. Repare que a tomografia normal não é má notícia nem contradiz o diagnóstico — nas primeiras três horas, cerca de um terço dos AVC isquêmicos reais não mostra sinal precoce nenhum, e é justamente esse o paciente que mais se beneficia. Avaliação do neurologista por telemedicina, que confirma AVC isquêmico agudo e indica o trombolítico. Infusão iniciada às 11h05, três horas e trinta e cinco minutos após a última vez em que Osvaldo foi visto bem. A dose, o bolus, a bomba e a vigilância das 24 horas seguintes estão no capítulo de AVC isquêmico agudo, na apostila de Neurologia. O que era meu terminou às 9h20, e o que decidiu o caso foi a pergunta feita a uma vizinha com uma travessa na mão.

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Faça você

Mesma manhã, mesma unidade, 9h40 — Osvaldo já saiu de ambulância. Chega Rosimeire Tavares, 46 anos, auxiliar de cozinha de escola, trazida pelo cunhado. Ela está acordada, orientada, e não consegue levantar o braço esquerdo; a perna esquerda arrasta. A fala está arrastada, mas ela responde a tudo. Última vez vista bem: 9h15, quando estava lavando louça na cozinha de casa — o cunhado estava na sala e ouviu a louça cair. Ele correu e a encontrou sentada no chão, encostada no armário, com o braço esquerdo caído. Você pergunta o que aconteceu antes de o braço ficar fraco, e ele responde sem hesitar: a mão dela ficou tremendo sozinha uns dois minutos antes de ela cair, ele viu da porta, e depois ela ficou meio apagada, sem responder direito, por uns cinco minutos. Antecedentes: nunca teve convulsão, não é hipertensa, não é diabética, não usa medicação contínua. Glicemia capilar 98 mg/dL. Pressão 138 por 84 mmHg. Saturação 97%. Temperatura 36,2 °C. São 9h48, e a próxima ambulância disponível chega em quarenta minutos.

  1. o território

    Hemiparesia esquerda com disartria. Pergunte-se primeiro se os achados fecham um território arterial coerente, porque essa é a triagem que antecede todas as outras. Fecham: circulação anterior direita explica o braço, a perna e a disartria do mesmo lado.

  2. o relógio

    Última vez vista bem às 9h15, com testemunha auditiva do momento exato — a louça caindo. São 9h48. Trinta e três minutos de evolução, com janela larguíssima. Este é o cenário mais favorável do capítulo inteiro, e é justamente onde o próximo passo costuma ser errado.

  3. o que a testemunha entregou de graça

    O cunhado descreveu, sem ser induzido, um fenômeno positivo precedendo o déficit — a mão tremendo sozinha por dois minutos — seguido de um período de cerca de cinco minutos de responsividade reduzida. Volte ao bloco de mecanismo e diga em voz alta o que essa sequência descreve, e por que o déficit que veio depois é negativo apesar de a origem ser uma descarga excessiva.

  4. a lista curta

    Enumere o que ainda compete pelo diagnóstico e o que já saiu. A glicemia de 98 tira a hipoglicemia. A ausência de marcha lenta e de sintoma positivo visual pesa contra a aura. A idade, os achados coerentes com território e a testemunha do início pesam contra o quadro funcional — e não custa nada checar o sinal de Hoover enquanto a ambulância não chega.

  5. faça você: qual é a conduta, e por quê

    Agora escreva, antes de ler a resposta, o que você faz nos próximos cinco minutos e o que você diz ao telefone. A pergunta tem duas partes, e a segunda é a que separa quem entendeu o capítulo: a informação do cunhado muda o QUE você faz com esta paciente, ou muda apenas o que você INFORMA a quem vai decidir? E, se ela apresentar nova crise enquanto você espera, com 62 kg de peso, qual é a dose de fenitoína, em que diluente, e em quanto tempo — no mínimo?

Ver como fecharíamos

A conduta não muda: o protocolo continua correndo e a transferência está mantida. A informação do cunhado descreve uma crise focal motora com fenômeno positivo, seguida de um estado pós-ictal breve e de um déficit negativo que persiste — o quadro clássico da paresia de Todd. Mas duas coisas impedem que isso encerre o caso. A primeira é que crise epiléptica NÃO é contraindicação à trombólise, e a norma nacional é explícita nisso: a resposta do cunhado muda a probabilidade do diagnóstico, não o direito ao tratamento. A segunda é que cerca de 10% dos AVC, especialmente os embólicos, cursam com crise convulsiva concomitante — de modo que a crise pode ser o primeiro sinal do AVC, e não a alternativa a ele. Numa mulher de 46 anos sem epilepsia conhecida, uma primeira crise focal da vida é, ela própria, motivo para procurar lesão estrutural aguda. Portanto: transferência mantida, acesso no membro não parético, coleta única, monitorização, reexame a cada 15 minutos, e a informação repassada ao telefone com as palavras exatas da testemunha — a mão tremeu sozinha por dois minutos, seguida de cinco minutos de responsividade reduzida. Quem vai decidir precisa desse dado; o que ele não precisa é que você decida por ele. Sobre a fenitoína, se houver nova crise: 62 kg a 15 mg/kg são 930 mg, diluídos em cloreto de sódio a 0,9% — nunca em solução glicosada, que precipita o produto —, infundidos a no máximo 50 mg por minuto, o que dá um tempo mínimo de 18,6 minutos, ou seja, cerca de 19 minutos. Note que, no peso dela, os 20 minutos do protocolo pré-hospitalar por acaso cabem; a 20 mg/kg, porém, seriam 1.240 mg e o mesmo tempo daria 62 mg/min, acima do teto. Não é o tempo que se fixa — é a velocidade.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Crise focal pode preceder paresia de Todd ou ser manifestação inicial de AVC. Portanto, não se encerra o protocolo só por essa história. A equipe responsável integra descrição, exame, imagem e evolução para decidir se o déficit incapacitante residual decorre de isquemia. Crise no início não é contraindicação automática, mas também não garante indicação de trombólise. A informação muda o raciocínio e a conduta, não apenas o formulário de transferência.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Recalcule os horários de Osvaldo até 12h e explique quais tarefas devem ocorrer em paralelo. Depois reavalie uma hemiparesia persistente após correção da glicemia.

Em 30 dias

Conduza um déficit ao despertar e outro com crise focal precedente. Diga quais dados mudam a elegibilidade para reperfusão e quais resultados não devem atrasar a imagem.

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Agora atenda

Agora atenda: domingo à tarde, unidade de pronto atendimento sem tomógrafo. Um homem de 63 anos é trazido pela filha porque, segundo ela, ficou estranho depois do almoço — não consegue achar as palavras e derrubou o copo com a mão direita. A filha está com pressa, deixou o carro na rampa da ambulância e pergunta se pode voltar depois. Conduza da porta à decisão. Colha o horário pelo negativo e ancore num evento antes de deixar a filha sair, faça a triagem de contraindicações com ela ainda presente, decida a ordem entre a gota de sangue, o telefonema e o exame — e diga em voz alta, para o paciente e para a filha, o que você sabe, o que ainda não sabe, e por que o horário é a pergunta mais importante desta sala.

Déficit neurológico focal agudo — Internato | OsceLabs