Clínica MédicaSíndromes do Paciente na Emergência

Classificação de risco na porta

Classificação de risco e triagem: por que o interno precisa entender

A porta do pronto-socorro trocou a ordem de chegada pela ordem de gravidade, e essa troca é uma decisão ética antes de ser operacional. Este capítulo é sobre como se decide quem espera, sobre o que a cor promete e o que ela não diz, e sobre os dois erros da fila — o que mata por atraso e o que mata por lotação.

Fontes deste capítulo

Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.077, de 24 de julho de 2014. Dispõe sobre a normatização do funcionamento dos Serviços Hospitalares de Urgência e Emergência, bem como do dimensionamento da equipe médica e do sistema de trabalho. Publicada no D.O.U. de 16 de setembro de 2014, Seção I, p. 80

Conselho Federal de Enfermagem. Resolução COFEN nº 661, de 9 de março de 2021. Atualiza e normatiza a participação da Equipe de Enfermagem na atividade de Classificação de Risco. Publicada no D.O.U. nº 47, de 11 de março de 2021, Seção 1

Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 1.451, de 10 de março de 1995. Estabelece normas mínimas para o funcionamento dos estabelecimentos de saúde de Pronto Socorro. Publicada no D.O.U. de 17 de março de 1995, Seção I, p. 3666

Santa Catarina. Secretaria de Estado da Saúde, Superintendência de Urgência e Emergência. Protocolo catarinense de acolhimento com classificação de risco (PCACR). 2. ed. atual. Florianópolis: SES/SC, 2025. 178 p. ISBN 978-85-62522-22-2

Grupo Brasileiro de Classificação de Risco. Diretrizes para implementação do Sistema Manchester de Classificação de Risco nos pontos de atenção às urgências e emergências. Segunda edição brasileira

01

Responda antes de ler

Você é o interno de plantão numa unidade que usa um protocolo com cinco cores e tempo-alvo de 120 minutos para a prioridade baixa. Um homem de 52 anos foi classificado como prioridade baixa às 14h10 por dor lombar após esforço. São 16h40 e ele ainda não foi chamado. Ele não pediu nada, não reclamou e está sentado no mesmo lugar. Qual é a conduta correta?

02

O paciente que você vai ver

Sábado, 15h40, unidade de pronto atendimento de bairro. Você é o interno da tarde e o preceptor te desviou do consultório com uma frase que soou como castigo: hoje você fica na classificação de risco, sentado do lado da Rosilene, e não abre a boca sem falar comigo antes. Você não gostou. A classificação é aquele cubículo por onde todo mundo passa depressa, entre a recepção e o corredor, e onde nunca acontece medicina de verdade — é o que você achava até as 15h40.

O cubículo tem uma mesa, duas cadeiras, um computador, um esfigmomanômetro, um oxímetro de dedo, um glicosímetro, um termômetro e uma caixa de pulseiras coloridas. Tem também uma janela de vidro que dá para a sala de espera, e é essa janela, você vai entender ao longo da tarde, o equipamento mais importante da sala. Do lado de fora, o painel eletrônico mostra 31 pessoas aguardando. Duas delas estão em pé porque não há cadeira.

A Rosilene chama em voz alta, na porta, e as pessoas entram uma de cada vez. Em quarenta minutos passam por ali: um rapaz com um corte no supercílio que sangrou muito e já parou; uma senhora com dor no joelho há três meses que veio porque o posto está em reforma; um homem de trinta e poucos anos com febre e dor no corpo desde ontem; uma mãe com um bebê que vomitou duas vezes; um motoboy que caiu e está com o antebraço torto. Cada um sai com uma pulseira e um destino. Nenhum deles sai com diagnóstico, e é isso que você ainda não entendeu.

Às 16h20 entra uma mulher de 26 anos, grávida de 34 semanas, sozinha, com a carteira da gestante na mão. Ela diz que está com dor de cabeça há dois dias, que já tomou dipirona, que veio porque a dor não passa e porque hoje a vista ficou embaçada duas vezes. A Rosilene mede a pressão com o manguito que está pendurado ao lado da mesa, o mesmo de todo mundo, e o número que aparece é 138 por 88. Ela pergunta se a dor é forte, e a paciente, que é professora e mede as palavras, responde que é chata, não que é forte. A queixa registrada no sistema fica sendo cefaleia. A pulseira que sai da impressora é verde. A paciente agradece, senta na terceira fileira e abre o celular.

Quinze minutos depois entra o seu Ubirajara, 74 anos, trazido pelo vizinho. Ele não tem queixa. Ou melhor: a queixa dele, quando você insiste, é que está fraco. Não tem febre, não tem dor, não tem falta de ar, responde tudo com um sim curto e olha para o vizinho antes de cada resposta. O vizinho diz que ele não é assim, que ontem ele varreu a calçada e hoje não quis almoçar. A pressão dá 104 por 62. A frequência cardíaca, 96. A temperatura, 36,1. Nada disso dispara nada no fluxograma que a Rosilene abriu, que se chama indisposição no adulto. A pulseira também sai verde.

E há o Cleiton, 29 anos, que chegou às 14h com dor lombar depois de descarregar caminhão, recebeu pulseira verde às 14h20 e às 17h30 se levanta, entrega a ficha na recepção e vai embora. Ninguém anota nada. Ninguém pergunta nada. Ele não aparece em estatística nenhuma, e o serviço nunca vai saber o que aconteceu com ele.

Às 18h a Rosilene se levanta pela primeira vez em duas horas e meia, olha pela janela e vai direto até a terceira fileira. Você não entende por quê. Ela volta com a gestante pelo braço, senta de novo no cubículo, tira o manguito grande do armário — porque o braço da paciente é largo e o manguito de sempre estava apertando — e mede de novo: 162 por 104. A pulseira verde é cortada com a tesoura e uma laranja é colocada no lugar. Da porta, a Rosilene grita o nome do plantonista.

Quando você pergunta o que ela viu, a resposta não é um sinal vital. É isto: a paciente tinha trocado de posição três vezes na cadeira em quinze minutos e estava com a mão na testa. Este capítulo é sobre a cadeira, sobre a janela e sobre o que aconteceu entre a primeira medida e a segunda. É sobre a decisão que a porta toma o tempo inteiro, sem você, e que decide quanto tempo o seu paciente vai levar para chegar até você.

03

Quem adoece disso

A fila do pronto-socorro brasileiro é majoritariamente verde, e essa é a primeira coisa que muda a leitura do plantão. Num estudo de 976 atendimentos do pronto-socorro de um hospital universitário de Londrina, a distribuição foi de 1,5% de vermelhos, 20,5% de amarelos, 60,3% de verdes e 17,7% de azuis. Ou seja: a cada cem pessoas que atravessam a porta, cerca de duas são o paciente que o filme mostra, e setenta e oito são pessoas que vão esperar duas ou quatro horas por um atendimento que, na maioria das vezes, termina em alta no mesmo dia — 79,8% dos verdes e 100% dos azuis daquela amostra foram para casa depois de vistos pelo médico.

A tradução clínica disso é desconfortável para quem chega ao internato querendo emergência: o seu trabalho na porta não é achar o paciente grave no meio de pessoas saudáveis. É sustentar, por seis horas seguidas, a atenção necessária para achar dois pacientes graves no meio de setenta e oito que provavelmente não são — sabendo que a fadiga trabalha contra você e que o custo do erro é assimétrico.

O mesmo estudo classificou 82,3% da demanda como adequada ao serviço de urgência, somando vermelhos, amarelos e verdes. O número é aritmeticamente correto, mas vale ver onde a régua foi colocada: bastou considerar apenas o azul como demanda inadequada. Se o corte for movido para amarelo ou pior, isto é, se a pergunta virar quantos pacientes precisavam mesmo de um hospital terciário, a mesma amostra devolve 215 de 976, ou 22,0%. Os dados são os mesmos; o que muda é a palavra adequada. Guarde isso, porque é sobre esse deslocamento de régua que se discute superlotação em reunião de gestão.

A qualidade da própria classificação também é mensurável, e ela é média. Numa auditoria de 400 prontuários de um serviço de emergência público do Sul do país, com auditores certificados pelo grupo brasileiro do Manchester como padrão-ouro, os enfermeiros classificadores acertaram o nível de prioridade em 68,8% dos casos: 25,5% foram subtriagem e 5,7% supertriagem. O acerto simultâneo das três escolhas — fluxograma, discriminador e prioridade — foi de 39,5%. O ponto que interessa ao interno não é o percentual: é a causa. Das 102 subtriagens, 85 vieram de ausência de registro de um sinal vital ou parâmetro que o próprio fluxograma exigia, sendo 50 casos de glicemia capilar não medida e 33 de escala de coma não registrada. Oito em cada dez subtriagens daquele serviço não foram erro de julgamento clínico: foram medida que não aconteceu.

E há o efeito de escolher um protocolo em vez de outro. Um trabalho de Belo Horizonte reclassificou os mesmos 344 pacientes pelo protocolo próprio do hospital e pelo Manchester informatizado. As duas cores coincidiram em 182 casos — pela conta direta da tabela cruzada, 52,9%. Em 101 pacientes o Manchester subiu a prioridade e em 61 baixou. Um paciente que o protocolo da casa chamou de verde, o Manchester chamou de vermelho, e seis que a casa chamou de amarelo viraram vermelhos. Quase metade da fila troca de lugar quando se troca o instrumento, o que diz duas coisas ao mesmo tempo: que a cor é uma medida com incerteza real, e que discutir qual protocolo o serviço usa não é conversa de burocrata. Uma observação de método, que vale como hábito: esse artigo declara ter avaliado 382 prontuários, mas o parágrafo de resultados abre dizendo do total de 204 pacientes, e a tabela cruzada soma 344 — que é exatamente 382 menos os 38 prontuários que o próprio texto informa terem sido retirados por não haver fluxograma compatível com a queixa. O 204 se explica pela conta ao lado: 382 vezes 0,534, o percentual de mulheres declarado na mesma frase, dá 204,0. O número é o de mulheres, colocado no lugar do total. As tabelas fecham linha a linha e coluna a coluna; o corpo do texto, não. Somar as colunas antes de citar um número é o que separa ler um artigo de repetir um resumo.

Por fim, o custo humano de quem opera a porta. Numa avaliação de estrutura, processo e resultado do acolhimento com classificação de risco de uma unidade de pronto atendimento catarinense, feita com 37 médicos e enfermeiros, o resultado geral nas três dimensões foi precário — e o item mais mal avaliado de vinte e um foi a discussão dos fluxogramas pela equipe, isto é, exatamente a conversa que faria o instrumento melhorar. Em um estudo qualitativo com profissionais de enfermagem de um hospital de referência do Rio Grande do Norte, a violência sofrida no setor foi descrita como cotidiana, predominantemente verbal, vinda dos usuários e também de médicos, e metade dos entrevistados nunca havia passado por capacitação para trabalhar ali — apesar de a norma do conselho profissional exigir curso específico no protocolo adotado pela instituição.

04

Por que acontece o que acontece

A classificação de risco não é uma tecnologia de eficiência que por acaso tem efeito ético. É o contrário: é uma decisão ética que precisou de uma tecnologia. A ordem de chegada parece justa porque é impessoal, e é exatamente essa impessoalidade que a torna cruel numa fila em que as pessoas não têm o mesmo relógio. Atender por ordem de chegada significa que quem entrou às 14h com dor no joelho há três meses será visto antes de quem entrou às 16h com uma dissecção de aorta — e a fila terá funcionado perfeitamente segundo a sua própria regra enquanto alguém morre nela. A Política Nacional de Humanização formulou isso como troca de paradigma, e a palavra que ela usa é equidade: tratar de forma diferente quem está em situação diferente é o que produz igualdade de acesso, e tratar todo mundo igual é o que produz a desigualdade.

A segunda escolha estrutural é a que o interno mais confunde: a classificação ordena por tempo tolerável de espera, não por diagnóstico e nem por gravidade absoluta. A pergunta que o classificador responde não é o que este paciente tem, e nem sequer se ele é grave. É quanto tempo ele pode esperar sem que a espera lhe cause dano. São perguntas diferentes com respostas diferentes. Um paciente com câncer avançado e dor controlada é gravíssimo e pode esperar; um adolescente hígido com uma queimadura química no olho não tem doença nenhuma e não pode esperar dez minutos. Por isso a régua da classificação é o relógio.

Daí decorre a arquitetura que todos os protocolos em uso no Brasil compartilham, com nomes diferentes. Primeiro, uma queixa de entrada dita pelo paciente, que seleciona um caminho — o fluxograma. O Sistema Manchester trabalha com 55 fluxogramas, sendo 53 de rotina e dois para múltiplas vítimas; o protocolo estadual catarinense trabalha com 83, sendo 40 de adulto e 43 pediátricos. Segundo, dentro do caminho escolhido, uma lista ordenada de discriminadores, que são perguntas fechadas com definição prévia em glossário, percorridas da prioridade mais alta para a mais baixa. Terceiro, a regra de parada: o primeiro discriminador que der positivo define a cor, e a busca acaba ali. Um único descritor basta. Quarto, a cor, que carrega um tempo-alvo até a primeira avaliação médica.

Essa arquitetura é uma máquina de reduzir variabilidade, e é isso que ela entrega — não acurácia diagnóstica. Repare no que o desenho faz: tira do classificador a decisão sobre a gravidade e devolve a ele apenas duas decisões, que caminho seguir e qual pergunta já é verdadeira. Por isso a auditoria brasileira encontrou concordância substancial na escolha do fluxograma e apenas moderada na escolha do discriminador e da prioridade. A parte fácil é a que depende da queixa; a parte difícil é a que depende de medir, olhar e definir.

A escolha do número de níveis também tem uma razão mecânica. Escalas de três níveis existem e são aceitas por indicadores nacionais, mas as de cinco níveis são preferidas por serem mais fidedignas e mais confiáveis: cinco degraus permitem separar quem não pode esperar nada de quem pode esperar dez minutos, e essa é uma distinção que decide desfecho. O degrau extra também dá lugar à cor que quase ninguém discute e que é a mais politicamente carregada — o azul, que na prática nomeia a pessoa que não tinha por que estar ali. Aí mora a maior parte do conflito da porta, e voltaremos a ele.

Toda ferramenta de rastreio compra sensibilidade com especificidade, e a classificação de risco não é exceção. Ela é deliberadamente desenhada para errar mais para cima do que para baixo, porque os dois erros não custam a mesma coisa. Subtriagem é atraso de tratamento em quem precisava; supertriagem é consumo de recurso em quem não precisava. Escrito assim, parece óbvio que se deve errar para cima sempre. Não é. Num serviço com uma sala vermelha de dois leitos, cada supertriagem ocupa metade da capacidade de resposta ao próximo paciente que chegar de verdade. A supertriagem não é gentileza: é uma transferência de risco de um paciente identificável para um paciente ainda desconhecido, e por isso ela também mata — só que sem nome e sem prontuário.

A quarta propriedade estrutural é a que o interno mais precisa carregar para o corredor: a classificação é um retrato de um processo em movimento. O paciente foi classificado com os dados de um instante, muitas vezes menos de quatro minutos depois de sentar, às vezes antes do pico da doença. Uma apendicite de quatro horas de evolução pode não ter nada que dispare um discriminador; a mesma apendicite três horas depois tem. Por isso todos os protocolos brasileiros escrevem a mesma frase com palavras diferentes: a classificação é dinâmica, e quem espera precisa ser reavaliado — periodicamente, quando pede reavaliação por piora, e sempre que o tempo-alvo estourar. A cor não é um diagnóstico e não é um contrato permanente; é uma hipótese com prazo de validade.

Fecha o mecanismo a razão de a porta ser operada por enfermeiro. Não é acaso histórico nem economia. É que a tarefa exige, ao mesmo tempo, escuta sob pressão, medida correta de sinais vitais e aplicação disciplinada de um algoritmo — um conjunto que a formação de enfermagem treina e que a legislação brasileira reconheceu: a classificação de risco e a priorização da assistência são atividade privativa do enfermeiro dentro da equipe de enfermagem, condicionada a capacitação específica no protocolo da casa e à proibição de fazer outra coisa ao mesmo tempo. E é por isso que a norma médica que torna obrigatório o acolhimento com classificação de risco fecha a porta pelo outro lado, com uma trava que resolve metade dos conflitos deste capítulo: nenhum paciente pode ser dispensado ou encaminhado a outra unidade por profissional que não seja médico. Classificar não é decidir se atende. É decidir quando.

05

Como se apresenta de verdade

O que chega na porta não é doença: é queixa. E a distância entre uma coisa e a outra é o objeto deste bloco. O paciente não sabe o nome do que tem, escolhe a palavra que lhe parece mais educada ou mais convincente, e essa palavra vai selecionar o caminho pelo qual ele será avaliado. O que segue é o espectro real de como as pessoas se apresentam na classificação, incluindo os cinco tipos de paciente que a fila sistematicamente subestima.

Na classificação de risco, profissional acompanha medida automática da pressão com manguito no braço descoberto e antebraço apoiado, enquanto outras pessoas aguardam.
A classificação de risco combina queixa, sinais, contexto e reavaliação. A medida da pressão exige técnica adequada; o desenho mostra braço descoberto e apoiado, sem transformar um único sinal vital na classificação inteira.

Percurso de aprendizagem

Conheça o protocolo da unidade, seus tempos e os dados que cada fluxograma exige. Descritor não verificado não equivale a descritor negativo.

Observe pacientes que esperam, inclusive quem pouco reclama, tem declínio funcional ou pretende sair. Mudança clínica pode tornar inadequada a classificação inicial.

Use a documentação para transmitir achados e resposta, mantendo atendimento e reavaliação como prioridades. Avalie subtriagem e supertriagem pelo efeito sobre o cuidado.

A queixa de entrada escolhe o caminho, e o caminho errado não tem volta

A primeira decisão da classificação é qual fluxograma abrir, e ela é tomada a partir de uma frase dita por alguém que não é médico. Dor de estômago abre um caminho; dor no peito abre outro. Tontura abre um; desmaio abre outro. Como a busca dentro do fluxograma para no primeiro discriminador positivo, um caminho errado não é corrigido mais adiante: ele simplesmente nunca faz a pergunta que teria mudado a cor. É por isso que a auditoria brasileira encontrou o melhor desempenho justamente na escolha do fluxograma, com concordância substancial entre auditores e classificadores, e desempenho bem pior no discriminador — o caminho é a parte fácil, porque a queixa é dada; o resto é trabalho.

A consequência prática para o interno é uma só, e vale a tarde inteira: quando você reavaliar um paciente que já veio classificado, não comece pela cor. Comece perguntando qual foi a queixa registrada. Se a queixa que está no sistema não é a queixa que o paciente conta para você, a classificação inteira foi feita em outro caminho e precisa ser refeita, não ajustada.

Isso acontece o tempo todo por um motivo banal: o paciente conta na recepção o que acha que faz a fila andar, e conta no consultório o que realmente sente. Também acontece porque queixa dolorosa e queixa constrangedora não são ditas em voz alta num guichê com fila atrás. Sangramento vaginal, violência doméstica, ideação suicida e dor testicular chegam à porta com nomes genéricos, e é dentro do cubículo com a porta fechada que eles aparecem — se houver um cubículo com porta.

O paciente que não consegue explicar

É o grupo de maior risco de subtriagem, e ele é grande: o idoso com déficit cognitivo, a pessoa com deficiência intelectual, o paciente afásico, o surdo sem intérprete, o imigrante que não fala português, a pessoa com baixa escolaridade que não tem vocabulário para descrever sintoma, o paciente em uso de álcool, a criança pequena. Todos eles têm a mesma vulnerabilidade estrutural: o instrumento da porta começa por uma frase, e eles não conseguem produzir a frase certa.

O seu Ubirajara da cena inaugural é o caso típico e o mais difícil de todos. Fraqueza não é discriminador em protocolo nenhum. Ausência de queixa não pontua. Sinais vitais no limite — pressão de 104 por 62 em quem vive com 150, frequência de 96, temperatura normal — não disparam nada. E, no entanto, o dado mais forte da avaliação inteira já foi dito, e foi dito por outra pessoa: ele não é assim, ontem varreu a calçada e hoje não quis almoçar. A mudança aguda em relação ao basal é informação clínica de primeira linha, e ela mora com o acompanhante, não com o paciente.

Existem três correções baratas e que dependem só de você. A primeira é perguntar ao acompanhante qual é o basal, sempre, em qualquer paciente idoso. A segunda é perguntar a pressão habitual: 104 por 62 é normal para a população e é queda relevante para quem vive com 150, e essa comparação custa uma pergunta. A terceira é olhar a caixa de remédios, porque betabloqueador e neuropatia autonômica do diabético apagam a taquicardia, que é o sinal compensatório mais precoce — o paciente parece estável porque o corpo dele perdeu a capacidade de mostrar que não está.

A leitura clínica do paciente já dentro do serviço, quando a instabilidade se instala, é assunto do capítulo dos primeiros cinco minutos desta mesma apostila. Aqui a pergunta é anterior: o que faz esse paciente ser visto em uma hora em vez de em quatro.

A gestante, a puérpera e a queixa que parece leve

A gestante é o exemplo mais didático de por que a cor não pode ser lida sem o contexto. A fisiologia da gestação muda os valores de referência de pressão, de frequência e de hemograma, e muda também a capacidade de compensar: a gestante compensa bem e depois despenca. Uma queixa que em outra pessoa é banal — dor de cabeça, dor epigástrica, inchaço que piorou, vista embaçada, sangramento discreto — muda de categoria no terceiro trimestre e no puerpério.

Os protocolos reconhecem isso de formas diferentes, e é bom saber qual está em vigor no seu serviço. O protocolo estadual catarinense recomenda que, nas portas de maternidade, se use o protocolo específico de acolhimento com classificação de risco em obstetrícia do Ministério da Saúde, e mantém fluxos próprios do ciclo gravídico-puerperal para as unidades que não têm maternidade. Protocolos municipais colocam a gestante com pressão sistólica igual ou acima de 160 ou diastólica igual ou acima de 110, com ou sem sintomas, direto no eixo vermelho. E há serviços em que a gestante simplesmente entra na mesma fila que todo mundo, com a mesma tabela de referência de todo mundo.

Aí entra o detalhe técnico que decidiu a tarde da cena: a medida da pressão é um procedimento com requisito material, e o requisito é o manguito compatível com a circunferência do braço. Manguito estreito demais superestima; largo demais subestima. O protocolo catarinense dedica seção própria ao procedimento de aferição e à tabela de dimensões do manguito por circunferência do membro, e faz isso porque a medida errada de pressão na porta é uma das poucas coisas capazes de mudar sozinha a cor de um paciente. Uma diferença de 24 mmHg entre uma medida e outra na mesma paciente, com quase duas horas de intervalo, é a diferença entre esperar duas horas e ser atendida agora.

A régua que o interno leva daqui não é a régua da pré-eclâmpsia, que tem capítulo próprio nesta coleção. É esta: gestante ou puérpera com queixa qualquer não é um paciente comum com um dado a mais. É outro paciente, com outra tabela — e se a tabela do seu serviço não é outra, a diferença tem de ser feita pela sua cabeça.

O paciente que já tomou remédio, e o que isso apaga

Boa parte das pessoas que chega à porta já se automedicou, e uma parte recebe analgésico ou antitérmico na própria recepção antes de ser classificada. O efeito disso na classificação é direto, porque dois dos discriminadores gerais mais usados são justamente dor e temperatura.

Temperatura axilar de 36,8 em quem tomou dipirona há noventa minutos não é ausência de febre: é febre tratada. Dor referida como 3 em quem tomou dois comprimidos de analgésico às onze horas não é dor leve: é dor parcialmente controlada. A pergunta que resolve é curta e cabe nos quatro minutos — tomou alguma coisa, o quê e a que horas — e ela precisa ser registrada, porque quem vai ler o registro é você, no consultório, quarenta minutos depois.

O caso simétrico também existe e engana na outra direção: o paciente que chega com dor 10 de 10 na escala e sai da consulta caminhando e conversando ao telefone. Dor é sintoma subjetivo, e a escala mede o relato, não o dano. Nenhum protocolo pede que se desconfie do paciente — todos pedem que a dor seja avaliada em conjunto com o restante. A dor isolada, sem alteração de sinal vital, sem achado objetivo e sem uma história compatível, é o discriminador que mais produz supertriagem no Brasil.

O paciente que parece bem

É a apresentação que produz os erros mais caros, e ela tem três formas. A primeira é o jovem compensado: pressão de 106 por 64 e frequência de 118 num rapaz de 24 anos é vasoconstrição funcionando, não estabilidade — e a compensação do jovem termina de repente, não gradualmente. A segunda é o paciente que anda: chegar pelas próprias pernas é lido, por todo mundo, como sinal de baixa gravidade, e não é. A cartilha da Política Nacional de Humanização registra exatamente essa advertência, que o paciente que chega andando, sem sinal visível de problema físico e muito angustiado, pode estar em risco maior. A terceira é o paciente educado, que responde chata quando poderia responder insuportável.

Essa terceira forma é sistemática e desigual. Quem tem mais escolaridade e mais familiaridade com serviços de saúde descreve sintoma com precisão e insiste; quem tem menos aceita a primeira resposta e senta. O resultado é que a fila, deixada sozinha, tende a favorecer quem já é favorecido — o que é a inversão exata do princípio que criou a classificação de risco. Não há discriminador para isso. Há só o profissional na cadeira, sabendo que existe.

A contramedida operacional é a reavaliação da sala de espera, e é ela que faz a diferença entre um serviço que classifica e um serviço que vigia. O protocolo catarinense exige que a sala de classificação permita ao enfermeiro enxergar a sala de espera, e chega a desaconselhar películas, cortinas e persianas que criem barreira visual, recomendando câmera quando a visão direta não for possível. A janela não é conforto: é instrumento.

O paciente que ninguém quer classificar

Há um grupo que chega à porta carregando estigma junto com a queixa: a pessoa em situação de rua, o paciente agitado, quem está sob efeito de álcool ou outras drogas, o paciente psiquiátrico conhecido do serviço, a pessoa algemada sob escolta, o usuário rotulado de poliqueixoso. Todos correm o mesmo risco duplo — de ter a queixa atribuída à condição de base e de ser classificado com uma cor que expressa o incômodo da equipe, não o risco.

Os protocolos brasileiros tentam antecipar isso por listas. O protocolo municipal de Ribeirão Preto nomeia, entre os pacientes que exigem atenção especial da equipe, a pessoa idosa, a pessoa com deficiência física ou mental, quem tem dificuldade de locomoção, a gestante, a vítima de violência sexual e doméstica, o paciente escoltado ou privado de liberdade e, com todas as letras, o paciente perturbador. O protocolo catarinense orienta que pessoas conduzidas por agentes prisionais possam ter preferência por razão de segurança, sem que isso altere a avaliação da condição clínica. A existência dessas listas é confissão de que o problema é real.

O caso mais perigoso do grupo é a alteração aguda de comportamento em quem já tem transtorno psiquiátrico. Agitação nova, confusão nova ou rebaixamento em qualquer paciente é discriminador de prioridade alta, independentemente de diagnóstico prévio — protocolo municipal e protocolo estadual convergem em colocar rebaixamento do nível de consciência ou alteração do estado mental como prioridade máxima ou alta. A régua para o interno é simples de enunciar e difícil de cumprir num plantão cansado: o rótulo do paciente nunca explica um sinal novo. O manejo da agitação em si tem capítulo próprio nesta apostila; a decisão da porta é anterior, e é só uma — esse paciente não espera com os outros.

06

Como fechar o diagnóstico

Na porta, investigar não é pedir exame — é medir, perguntar e olhar. Os instrumentos são cinco e cabem numa gaveta, e a diferença entre um serviço que classifica bem e um que classifica mal está quase toda em se eles foram usados, não em quais são. O que segue é o que a classificação de risco pergunta, o que ela responde, o que ela não pode fazer, e o que muda quando o serviço não tem o que o protocolo pressupõe.

Antes disso, uma regra de ordem que a auditoria brasileira transforma em número: o discriminador só existe depois que a medida existe. Não medir o que o fluxograma pede não deixa o paciente sem informação — deixa o paciente com uma informação falsa, porque o discriminador não checado é descartado por omissão e a busca desce um degrau.

Os cinco instrumentos da gaveta, e por que cada um erra

O protocolo estadual catarinense lista o que precisa haver numa sala de classificação: esfigmomanômetro e estetoscópio, oxímetro ou monitor multiparâmetros, termômetro axilar digital, glicosímetro, relógio, além de computador, protocolo impresso ou em sistema, material de curativo provisório e material de identificação da prioridade. O material do representante brasileiro do Manchester é praticamente o mesmo. Nada ali é caro e nada ali é raro. Cada um, porém, tem um modo característico de errar, e o interno precisa reconhecer os cinco.

A pressão arterial erra pelo manguito. A largura da bolsa tem de corresponder à circunferência do braço; manguito estreito num braço largo superestima e pode transformar uma pressão normal em urgência hipertensiva, e o manguito largo demais faz o contrário, que é pior. O protocolo catarinense traz seção própria de procedimento de aferição e um quadro de dimensões do manguito por circunferência do membro exatamente por isso. Também erra pela pressa: medir com o paciente ainda ofegante de subir a rampa, sem apoio do braço, sem repouso, com a perna cruzada.

A frequência respiratória erra por não ser medida. É o único sinal vital que nenhum aparelho entrega sozinho: exige sessenta segundos de relógio olhando o tórax. Numa sala em que a norma profissional prevê tempo médio de quatro minutos por classificação, sessenta segundos é um quarto do orçamento inteiro — e por isso ela é o campo mais preenchido por estimativa em todo o hospital brasileiro. Nos protocolos que usam faixas de frequência respiratória como descritor, e são todos, um número inventado produz uma cor inventada.

A oximetria erra por perfusão. Extremidade fria, esmalte escuro, unha postiça, tremor e hipotensão dão leitura baixa ou instável em paciente que não está hipoxêmico, e o oposto também ocorre. A temperatura axilar erra por técnica e por antitérmico prévio, e é o parâmetro em que os protocolos brasileiros mais divergem entre si nas faixas. A glicemia capilar erra sobretudo por não ser feita — foi a medida ausente em 50 das 102 subtriagens da auditoria brasileira, e é a única da lista capaz de encerrar um caso em dois minutos.

A regra operacional que sai daqui é curta: quando você reavaliar um paciente e o número não bater com o que você está vendo, o primeiro suspeito não é o paciente nem o classificador. É o instrumento e a técnica. Meça de novo você mesmo, com o manguito certo, com o paciente sentado e apoiado, contando a respiração com relógio.

Fluxograma e discriminador: onde a classificação realmente falha

A auditoria brasileira de 400 prontuários decompôs a classificação nas três escolhas que a compõem e mediu cada uma. Escolher o fluxograma certo: acerto de 73,5%, com concordância substancial em relação aos auditores. Escolher o discriminador certo: 47,8%, concordância apenas moderada. Escolher a prioridade certa: 68,8%, também moderada. E acertar as três simultaneamente: 39,5%.

O padrão nesses números é claro. A escolha do caminho é a mais fácil porque é a mais determinada pela queixa. A escolha do discriminador é a mais difícil porque é onde entram a medida, a definição de glossário e o julgamento. E a prioridade acerta mais que o discriminador, o que à primeira vista é estranho — é possível chegar à cor certa pelo motivo errado, o que funciona hoje e não ensina nada para amanhã, porque a auditoria e a melhoria do protocolo dependem justamente do discriminador registrado.

A composição do erro é ainda mais instrutiva. Das 102 subtriagens, 85 tiveram como causa a ausência de registro de um sinal vital ou parâmetro exigido pelo fluxograma: 50 de glicemia capilar não verificada ou não anotada, 33 de escala de coma não registrada para afastar o descritor de alteração súbita da consciência e 2 de dor sem registro para afastar o descritor de dor intensa. Some: 50 mais 33 mais 2 dá exatamente 85. Ou seja, 83% das subtriagens daquele serviço — 85 de 102 — foram falhas de execução, não de conhecimento clínico. O classificador sabia o que fazer e não fez, ou fez e não anotou, que para o resto do sistema dá no mesmo.

Isso muda o que o interno deve procurar quando pega uma ficha classificada. Não procure primeiro se a cor está certa. Procure primeiro se os campos que o fluxograma exigia estão preenchidos. Ficha com queixa de rebaixamento e sem glicemia anotada, ficha com dor e sem escala de dor, ficha com dispneia e sem saturação: nessas, a cor é um palpite com aparência de resultado.

Uma limitação honesta desse estudo precisa acompanhar o número, porque ela muda o que ele autoriza a dizer. A amostra excluiu os pacientes classificados como verde e azul, que foram referenciados para outros níveis de atenção. Portanto os 25,5% de subtriagem foram medidos apenas entre vermelhos, laranjas e amarelos — e a subtriagem que mais assusta, a do paciente laranja que recebeu pulseira verde e foi para a sala de espera, está estruturalmente fora do denominador. O número real da porta não é conhecido por esse trabalho; é, quase certamente, pior.

O que a classificação não faz, e o que custa fazer

A classificação de risco não estabelece diagnóstico. O material do representante brasileiro do Manchester diz isso em uma linha, e o protocolo estadual catarinense repete: não é objetivo da metodologia qualquer tentativa de estabelecer presunção diagnóstica. Isso não é modéstia metodológica, é definição de escopo — o instrumento foi validado para prever tempo tolerável de espera, e não para prever doença. Ler a pulseira amarela como suspeita de alguma coisa é usar o resultado fora da faixa em que ele foi medido.

A classificação também não dispensa e não encaminha sozinha. Esta é a trava mais importante do capítulo e ela é normativa: a resolução do Conselho Federal de Medicina sobre serviços hospitalares de urgência e emergência determina que todo paciente que teve acesso ao serviço seja obrigatoriamente atendido por um médico, não podendo, sob nenhuma justificativa, ser dispensado ou encaminhado a outra unidade por profissional que não seja o médico. O protocolo estadual catarinense escreve a mesma regra do lado da enfermagem: nenhum paciente com queixa pode ser dispensado sem ser acolhido, classificado e encaminhado de forma responsável ao atendimento médico.

O custo de violar essa regra é duplo. Para o paciente, é o risco de sair sem avaliação médica com um quadro que ainda não se declarou. Para o profissional da porta, é ficar sozinho com uma decisão que a lei não lhe dá — e essa exposição é a raiz de boa parte da violência descrita no setor, porque é o classificador que dá a notícia de que o serviço não vai atender, mesmo quando a decisão não é dele.

Por fim, a classificação não substitui a avaliação médica quando os dois discordam. Protocolo municipal brasileiro escreve isso na coluna de competências do médico com todas as letras: ao chamar o paciente, reclassificar se necessário, conforme sua avaliação e sua decisão sobre a classificação anterior. Discordar da cor não é conflito profissional: é o funcionamento previsto do sistema. O que não é previsto é discordar em silêncio e deixar a cor errada no registro, porque a cor registrada é o que a auditoria vai ler e o que o próximo plantão vai enxergar.

O que se antecipa na porta, e o preço de antecipar

Alguns serviços deslocam para a classificação atos que tradicionalmente ficavam depois dela, e o exemplo clássico é o eletrocardiograma. A ficha de indicador da ANS registra que, em Portugal, o fluxograma de dor torácica do Manchester permite ao enfermeiro classificador antecipar o eletrocardiograma na área de triagem, com leitura rápida por um médico, e observa que no Brasil conflitos sobre a autonomia do profissional de enfermagem podem impedir que essa agilização aconteça. Protocolos brasileiros fazem o mesmo movimento por outros caminhos: usando um escore de alerta precoce como atalho de classificação diante de suspeita de infecção, ou abrindo protocolo institucional de dor torácica ainda na porta.

A vantagem é óbvia e é o relógio: o exame que decide passa a correr em paralelo à espera em vez de depois dela. O preço, menos óbvio, tem três parcelas. A primeira é o tempo do classificador, que é finito e está normatizado — cada minuto gasto antecipando algo é um minuto em que ninguém está sendo classificado e a fila de não classificados cresce. A segunda é o resultado sem dono: traçado impresso e deixado no balcão tem valor zero, e antecipar sem combinar quem lê e em quanto tempo cria um exame órfão. A terceira é o escopo: antecipar exame é diferente de antecipar conduta, e a segunda coisa esbarra na trava do parágrafo anterior.

A régua que o interno pode usar sem depender de decisão institucional é esta: antecipe apenas o que muda a cor ou o lugar do paciente nos próximos minutos, e só quando houver alguém definido para ler o resultado agora. Fora disso, o que a porta antecipa é fila. As indicações específicas de abertura de protocolo por queixa — dor torácica, déficit neurológico focal, sepse — têm capítulos próprios nesta apostila e é lá que as réguas moram.

Os protocolos em uso no Brasil, e a coisa que a cor não carrega

Existem hoje, convivendo no mesmo país, pelo menos quatro arranjos. O Sistema Manchester, licenciado, com representante brasileiro exclusivo, 55 fluxogramas e capacitação certificada com auditoria interna e externa. Protocolos estaduais públicos e gratuitos, como o catarinense, com 83 fluxogramas próprios, descritores definidos em glossário, uso condicionado à autorização da secretaria e proibição de alteração local. Protocolos municipais construídos pelas próprias equipes, alguns declaradamente baseados no Manchester e outros com desenho próprio. E, em serviços menores, escalas de três níveis, que a ficha de indicador da ANS reconhece como aceitáveis embora prefira as de cinco.

Todos usam cores parecidas, e é aí que mora a armadilha que este bloco existe para desfazer: a cor não carrega o tempo. O tempo é definido pelo protocolo, e os protocolos brasileiros discordam. No Sistema Manchester, conforme o material do representante brasileiro, os tempos-alvo até a avaliação médica são vermelho imediato, laranja 10 minutos, amarelo 60, verde 120 e azul 240. O protocolo estadual catarinense de 2025 adota vermelho imediato, laranja 15 minutos, amarelo 60, verde 120 e azul 240. Um protocolo municipal paulista trabalha com quatro cores, sem laranja, e coloca o amarelo em até 30 minutos. E a ficha de indicador da ANS, ao listar os tempos que atribui ao Manchester, publica amarelo em 30 minutos, verde em 60 e azul em 120.

Essa última lista merece a conta, porque ela é de uma agência reguladora federal e circula como referência em auditoria. A ficha publica um único tempo por nível e o atribui, na mesma linha, a três sistemas diferentes — o Manchester, a escala australiana e a escala canadense —, que não compartilham tempos-alvo. Os números escolhidos são os da escala australiana: imediato, 10, 30, 60 e 120 minutos, corretos para ela. Aplicados ao Manchester, mantêm o vermelho e o laranja e reduzem exatamente à metade os três níveis seguintes, na comparação com a lista do representante brasileiro do próprio Manchester: 60 vira 30, 120 vira 60 e 240 vira 120. A consequência prática não é acadêmica: um serviço auditado contra essa lista aparece descumprindo o tempo-alvo em pacientes de prioridade média que, pela régua do protocolo que ele de fato usa, foram atendidos dentro do prazo.

Um segundo caso, com dois erros na mesma página, veio de um material de referência hospedado em domínio de secretaria estadual de saúde. Nele o amarelo aparece com tempo de espera de 50 minutos, número que não existe em nenhum dos protocolos citados neste capítulo, e a escala de dor é apresentada com as faixas 1 a 4 para dor leve, 5 a 7 para dor moderada e, na terceira linha, de 8 a 10 dias para a cor laranja — trocando o escore pela duração no exato ponto em que a decisão é a mais grave das três. Lido ao pé da letra por alguém em treinamento, esse trecho manda classificar como laranja quem tem dor há mais de oito dias, que é a definição de dor crônica e, na maioria dos protocolos, indicação de prioridade baixa.

Há ainda uma contradição interna no próprio documento de implementação do Manchester no Brasil, e ela é pequena mas vale como exercício de leitura crítica de fonte oficial: a mesma publicação descreve o curso presencial de classificador como tendo 12 horas em uma página e oito horas em outra, e o programa impresso do curso vai das 8h às 17h com almoço de uma hora e dois intervalos de quinze minutos, o que dá sete horas e meia de aula. Nenhum dos três números confere com os outros dois.

O que o interno faz com tudo isso é uma coisa só: descobrir, no primeiro dia do estágio, qual protocolo está em vigor no serviço e quais são os tempos dele. Sem isso, você não sabe se o paciente amarelo que está esperando há 45 minutos está dentro ou fora do prazo — e essa é a pergunta que decide se você vai tocar a fila ou não.

O que existe no SUS, e o que fazer quando não existe

O que a classificação de risco exige existe na esmagadora maioria dos serviços brasileiros, porque é barato: os cinco instrumentos da gaveta, um protocolo, uma sala e um enfermeiro capacitado. Existe também a base normativa completa — obrigatoriedade pela resolução médica, competência definida pela resolução de enfermagem, protocolo estadual gratuito em vários estados e indicador nacional com meta de 100% dos pacientes classificados.

O que costuma faltar é outra coisa, e é sempre a mesma lista. Falta segundo posto de classificação: o material do representante brasileiro do Manchester recomenda abrir novo posto acima de dez pacientes aguardando classificação, e o protocolo catarinense manda abrir quando alguém estiver esperando mais de quinze minutos para ser classificado. Falta capacitação: metade dos profissionais entrevistados naquele estudo do Rio Grande do Norte nunca havia feito curso para o setor, embora a norma do conselho exija curso específico no protocolo da casa. Falta ambiência: sala sem visão da espera, sem porta, com o classificador acumulando outra função — o que a norma proíbe expressamente.

E falta, com frequência, o outro lado da porta. A resolução médica que torna a classificação obrigatória também exige leitos de retaguarda em número suficiente, fixa em 24 horas a permanência máxima no setor de urgência e proíbe internação dentro dele. Quando a retaguarda não existe, a fila para de andar por baixo, e nenhuma melhoria da triagem resolve isso: classificar melhor não cria leito. A mesma resolução dá ao plantonista um instrumento subutilizado — acionar o coordenador de fluxo, e na ausência dele o diretor técnico, diante de superlotação ou de paciente que precisa de terapia intensiva sem leito disponível, com a obrigação de o diretor técnico notificar o gestor e o conselho regional.

Quando falta o essencial, o que não se pode fazer é deixar de classificar. Sem sistema informatizado, classifica-se no papel com registro manual da cor no prontuário, que é como boa parte do país opera. Sem glicosímetro na sala, mede-se a glicemia no primeiro leito disponível antes de mandar o paciente para a espera, e não depois. Sem sala com porta, faz-se a pergunta constrangedora em voz baixa e se registra o que foi dito. O que nunca é aceitável é a combinação que mais se vê e que produz o pior desfecho: paciente com queixa, sem classificação e sem médico, sentado numa cadeira porque a fila estava grande.

07

A porta, em ordem

Aprenda a reconhecer urgência antes e depois da classificação, interpretar corretamente uma cor e comunicar a mudança clínica à equipe responsável.

  1. 1Chegada e recepção. O paciente é recebido, tem a ficha aberta e passa a existir para o serviço. É aqui que começa a contar o relógio que ninguém mede: o tempo porta-classificação. Enquanto não foi classificado, todo paciente é prioridade máxima até prova em contrário.
  2. 2Espera pela classificação, com teto. A régua do representante brasileiro do Manchester é de dez minutos entre a chegada e a classificação, com abertura de novo posto acima de dez pacientes aguardando; a do protocolo estadual catarinense é abrir novo posto quando alguém estiver esperando mais de quinze minutos, porque quinze minutos é o tempo-alvo do paciente de prioridade alta naquele protocolo. Quem varre a fila de não classificados é a recepção e a vigilância, que precisam saber o que chamar de imediato.
  3. 3Chamada e apresentação. Chamada em voz alta, na recepção, para que o paciente veja quem chama e ouça o próprio nome, com cumprimento e apresentação do profissional. Parece protocolo de etiqueta e não é: é o primeiro momento em que alguém olha para o paciente andar até a sala.
  4. 4Escuta e queixa de entrada. História breve do que trouxe a pessoa ao serviço, com início, duração e evolução, mais alergias, antecedentes e medicações em uso. É esta frase que seleciona o fluxograma, e é a escolha mais determinante da avaliação inteira.
  5. 5Medida. Os sinais vitais que o fluxograma escolhido exigir, com o instrumento certo e a técnica certa: pressão com manguito compatível com a circunferência do braço, frequência respiratória contada em sessenta segundos, temperatura axilar, saturação, glicemia capilar quando indicada, escala de dor e escala de coma quando o descritor depender delas.
  6. 6Percurso dos discriminadores. Percorrer os descritores do fluxograma a partir da prioridade mais alta, em ordem descendente. O primeiro descritor positivo define a prioridade e encerra a busca; um único descritor basta. Descritor que não pôde ser checado por falta de medida não é descritor negativo — é lacuna, e precisa ser fechada antes.
  7. 7Cor, registro e encaminhamento. Identificação da prioridade com pulseira ou etiqueta e registro obrigatório em prontuário, com data e hora, queixa, alergias, antecedentes, sinais vitais do fluxograma, sinais objetivos, resultado da classificação, encaminhamento e identificação de quem classificou. Sem registro, a classificação existe para o paciente e não existe para o sistema.
  8. 8Informação ao paciente. Dizer a cor, dizer o tempo provável de espera e dizer para onde ele vai. É dever previsto em protocolo, não cortesia — e é a intervenção isolada que mais reduz conflito na sala de espera.
  9. 9Sala de espera sob vigilância. Reavaliação periódica de quem ainda não foi atendido, de quem pede reavaliação por piora e de quem já esperou mais do que o tempo-alvo do protocolo. É aqui que a classificação deixa de ser um evento e vira um processo.
  10. 10Atendimento médico e reclassificação. Ao chamar o paciente, o médico reavalia e reclassifica quando sua avaliação diverge da anterior, registrando a nova cor. Todo paciente que entrou no serviço será atendido por médico; nenhum é dispensado ou encaminhado a outra unidade por profissional não médico.
  11. 11Desfecho e saída. Alta com orientação escrita e encaminhamento responsável, internação, observação ou transferência. O paciente que desiste de esperar também tem desfecho e ele precisa ser registrado, com hora, tentativas de chamada e a informação de que ele optou por não aguardar.
Nível de prioridadeSistema Manchester (material do representante brasileiro)Protocolo estadual catarinense, 2ª ed., 2025Protocolo municipal de quatro cores (Ribeirão Preto, 2024)Ficha de indicador E-ACE-01 da ANS, 2012
1 — vermelhoImediato (0 minuto)Imediato (0 minuto)Imediato, direto à sala de urgênciaImediato
2 — laranja10 minutos15 minutosNão existe: o protocolo trabalha com quatro cores10 minutos
3 — amarelo60 minutos60 minutosAté 30 minutos30 minutos
4 — verde120 minutos120 minutosEm média 120 minutos60 minutos
5 — azul240 minutos240 minutosEm média 240 minutos120 minutos
Chegada até a classificaçãoNão mais que 10 minutos; abrir novo posto acima de 10 aguardandoAbrir novo posto se alguém aguardar mais de 15 minutosNão fixado no documentoNão fixado na ficha
Duração da própria classificaçãoEm média de 1 a 3 minutosMédia de 4 minutos, pela norma do conselho de enfermagemNão fixado no documentoNão fixado na ficha

Quem decide o quê na porta, por força de norma

NormaO que ela fixaO que muda para o interno
Resolução CFM nº 2.077/2014, art. 2ºTorna obrigatório o acolhimento com classificação de risco nos serviços hospitalares de urgência e emergência e determina que o acesso do paciente à classificação seja imediato, dimensionando-se o número de classificadores para issoFila de não classificados é descumprimento de norma, não fatalidade. O argumento para pedir um segundo posto de classificação existe por escrito
Resolução CFM nº 2.077/2014, art. 3ºTodo paciente que teve acesso ao serviço será obrigatoriamente atendido por médico, não podendo ser dispensado ou encaminhado a outra unidade por profissional que não seja médicoNinguém sai da porta sem avaliação médica. Se alguém pedir para você validar uma dispensa feita na triagem, a resposta é ver o paciente
Resolução CFM nº 2.077/2014, arts. 14, 16 e 17Permanência máxima de 24 horas no setor, exigência de leitos de retaguarda suficientes e dever de acionar o coordenador de fluxo diante de superlotação ou de falta de leito de terapia intensivaO gargalo da saída tem responsável nominal e caminho formal de escalonamento, que termina em notificação ao gestor e ao conselho regional
Resolução COFEN nº 661/2021, art. 1ºClassificação de risco e priorização da assistência são privativas do enfermeiro dentro da equipe de enfermagem, exigem curso específico no protocolo adotado pela instituição e consultório adequado; parâmetro de 4 minutos por classificação, com limite de 15 por horaO interno não classifica sozinho e o técnico de enfermagem auxilia, medindo e conduzindo, sem atribuir a cor
Resolução COFEN nº 661/2021, art. 2ºDurante a classificação, o enfermeiro não deve exercer outras atividades ao mesmo tempoClassificador que também punciona, medica e atende telefone está fora da norma, e a fila que ele produz é previsível
Resolução CFM nº 1.451/1995, art. 1ºDefine urgência como agravo imprevisto com ou sem risco potencial de vida que exige assistência médica imediata, e emergência como constatação médica de risco iminente de vida ou sofrimento intensoEmergência, no direito brasileiro, é constatação médica. A classificação de risco identifica prioridade; quem constata emergência é o médico
Leis de prioridade (pessoa idosa, pessoa com deficiência e mobilidade reduzida) na leitura do protocolo estadual catarinenseA prioridade legal vira preferência de atendimento dentro da mesma cor, nunca entre cores; a pessoa idosa com mais de 80 anos tem preferência sobre as demais pessoas idosas da mesma prioridadeIdade e gestação nunca ultrapassam gravidade. Elas ordenam quem vai primeiro entre iguais

Gatilhos que obrigam a olhar de novo para quem está esperando

GatilhoQuem percebeO que fazer
Tempo-alvo da cor estouradoO sistema, o painel ou o relógio de quem está na salaReavaliar o paciente antes de qualquer coisa, porque a hipótese que gerou a cor tem prazo de validade; se ele piorou, reclassificar e registrar a nova cor com a hora
Piora referida pelo próprio paciente ou pelo acompanhanteQuem pede reavaliação no balcãoReavaliar sempre, sem triagem do pedido. Pedido de reavaliação recusado é o desenho de erro mais evitável da porta
Mudança visível na sala de esperaQuem tem a sala no campo de visãoIr até lá. Trocar de posição repetidamente, deitar no chão, sudorese, palidez, dificuldade de ficar sentado, acompanhante que se levanta duas vezes
Sinal vital que não foi medido na primeira passagemQuem lê a ficha depois, inclusive o internoMedir e completar. Descritor não checado não é descritor negativo, e foi essa lacuna que gerou 83% das subtriagens na auditoria brasileira
Divergência entre a queixa registrada e a queixa contada ao médicoO médico, ao chamarRefazer a classificação pelo fluxograma correto em vez de ajustar a cor, porque o caminho errado nunca chegou a fazer a pergunta certa
Chegada de paciente grave que consome a sala vermelhaA equipe inteiraRever a fila: com a capacidade de resposta reduzida, a margem de tolerância de quem está esperando encolheu, mesmo que nenhum paciente da fila tenha mudado

Os dois erros da fila, lado a lado

SubtriagemSupertriagem
O que éAtribuir prioridade menor que a devidaAtribuir prioridade maior que a devida
Quem pagaO próprio paciente, por atraso de tratamentoO próximo paciente grave, que encontra a sala e a equipe ocupadas
Como aparecePiora na sala de espera, evasão, retorno em 48 a 72 horas com internação, óbito de quem estava classificado como baixa prioridadeSala vermelha cheia de paciente estável, tempo-alvo do laranja descumprido, equipe dessensibilizada ao chamado
Frequência medida no Brasil25,5% em auditoria de 400 prontuários, num serviço que excluía verdes e azuis da amostra5,7% na mesma auditoria
Causa dominanteMedida que não foi feita ou não foi registrada: 85 das 102 subtriagensDor isolada sem achado objetivo e classificação defensiva sob pressão
Como reduzirFechar as lacunas de medida antes de percorrer os descritores e reavaliar a sala de espera com hora marcadaAuditar as classificações de alta prioridade com a mesma frequência com que se auditam as de baixa
Por que não basta errar sempre para cimaPorque a capacidade de resposta é finita: cada supertriagem transfere risco de um paciente identificável para um paciente ainda desconhecido

As colunas de tempo da primeira tabela não são versões diferentes do mesmo número: são réguas distintas, em vigor ao mesmo tempo em serviços diferentes do país. A comparação só faz sentido para uma finalidade — descobrir qual delas vale no lugar onde você está.

A linha do amarelo é a que mais varia e é também a mais populosa da fila depois do verde. Entre 30 e 60 minutos há uma hora inteira de diferença de vigilância para o mesmo paciente com a mesma pulseira.

A ficha de indicador da ANS é de 2012 e não foi construída para ser régua clínica: ela define como medir a cobertura da classificação, e a lista de tempos aparece na seção de parâmetros e recomendações, atribuída de uma só vez a três sistemas que não compartilham tempos-alvo. Ainda assim, é o que circula como referência oficial em auditoria de prestador.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo deste capítulo não é a de uma doença: é a do paciente atravessando a porta, e ela dura entre dez minutos e quatro horas conforme a cor. O que segue é o que se faz em cada marco, quem faz e com que amparo normativo. Duas advertências antes de começar.

A primeira é sobre o seu papel. O interno não classifica: a atribuição da prioridade é privativa do enfermeiro dentro da equipe de enfermagem e depende de capacitação específica no protocolo da casa. O que o interno faz é ler classificação, reavaliar paciente classificado, reclassificar junto com quem tem competência para isso, e sobretudo enxergar a fila — que é a parte que ninguém ensina e que decide o desfecho de gente que você nunca chega a atender.

As ações abaixo organizam reconhecimento de gravidade, reavaliação e comunicação. Conheça o protocolo local e as atribuições da equipe, mas não espere terminar formulários para atender uma emergência.

  1. Antes de qualquer paciente — o que você descobre no primeiro dia do estágio

    Três perguntas que ninguém faz e que mudam o seu plantão inteiro: qual protocolo de classificação está em vigor aqui, quais são os tempos-alvo de cada cor nele, e quem é o médico coordenador de fluxo. Sem a primeira e a segunda, você não sabe se um paciente amarelo esperando há 45 minutos está dentro ou fora do prazo. Sem a terceira, você não tem para quem escalonar quando a fila travar. Descubra também onde fica o registro de reclassificação e como se anota um paciente que foi embora.

    Prescrição
    • Identificar o protocolo adotado pela instituição e seus tempos-alvo por cor — o protocolo é o que define o tempo, e as réguas brasileiras divergem entre si no amarelo, no laranja e no azul (GBCR, Diretrizes de implementação do Sistema Manchester; SES/SC, PCACR 2ª ed., 2025)
    • Identificar o médico coordenador de fluxo, obrigatório em serviços com mais de 50.000 atendimentos por ano, e o caminho de acionamento na ausência dele, que é o diretor técnico (Resolução CFM nº 2.077/2014, arts. 5º e 17)
    • Localizar no prontuário, em papel ou em sistema, o campo em que a classificação e a reclassificação são registradas com data, hora e identificação do responsável (SES/SC, PCACR; Resolução COFEN nº 514/2016 conforme adotada pelo PCACR)
  2. Minuto 0 — chegada, antes de qualquer classificação

    Antes da classificação formal, procure sinais que exigem atendimento imediato: ausência de resposta, dificuldade respiratória importante, hemorragia, convulsão e sinais de choque ou outra emergência. Ausência de cor significa risco ainda não avaliado, não que todos precisem ocupar a sala de reanimação. Reconhecer deterioração é tarefa de toda a equipe; o registro formal pode ser completado depois do suporte urgente.

    Prescrição
    • Garantir que o tempo de acesso do paciente à classificação de risco seja imediato, dimensionando o número de classificadores para atingir esse objetivo (Resolução CFM nº 2.077/2014, art. 2º, parágrafo único)
    • Conduzir diretamente à sala de emergência, sem passar pela fila de classificação, o paciente com risco iminente de morte, ausência ou instabilidade de sinais vitais; a classificação desses pacientes é feita depois, pela equipe da sala vermelha ou por fluxo interno (SES/SC, PCACR, itens 4.2.2 e 8.1)
    • Classificar também o paciente trazido por ambulância, priorizando essa classificação para liberar a unidade móvel para a próxima ocorrência (SES/SC, PCACR, item 4.2)
  3. Minuto 0 a 10 — a espera pela classificação, que é a fila invisível

    Existem duas filas na porta e quase todo mundo só enxerga a segunda. A primeira é a dos pacientes que ainda não foram classificados: eles não têm cor, não têm tempo-alvo, não aparecem em indicador nenhum e são, por definição, os que menos se sabe. É nessa fila que acontecem os desfechos que ninguém explica depois. O gatilho para abri-la é numérico e está escrito nos protocolos.

    Prescrição
    • Manter o tempo entre a chegada do paciente ao serviço e a classificação de risco em não mais que dez minutos (GBCR, Diretrizes de implementação do Sistema Manchester)
    • Abrir novo posto de classificação, ou quantos forem necessários, quando houver mais de dez pacientes aguardando para serem classificados (GBCR) ou quando algum paciente estiver aguardando mais de quinze minutos para ser classificado (SES/SC, PCACR, item 3.3)
    • Não acumular outras atividades no profissional que está classificando, porque a norma proíbe o exercício simultâneo de outras funções durante a classificação de risco (Resolução COFEN nº 661/2021, art. 2º)
  4. A classificação — quatro minutos que decidem quatro horas

    Chamada em voz alta, apresentação, escuta breve da queixa com início e duração, alergias, antecedentes e medicações, medida dos sinais vitais que o fluxograma exigir, percurso dos descritores da prioridade mais alta para a mais baixa, e parada no primeiro positivo. É isso, e cabe no orçamento de tempo da norma — mas só cabe se ninguém interromper e se os instrumentos estiverem na mesa. Repare que a medida vem antes do percurso dos descritores, e não depois: descritor que depende de um número que não foi medido não pode ser considerado negativo.

    Prescrição
    • Observar tempo médio de quatro minutos por classificação, com limite de até quinze classificações por hora, para segurança do paciente e do profissional (Resolução COFEN nº 661/2021, art. 1º, § 2º)
    • Aferir a pressão arterial com manguito compatível com a circunferência do braço, seguindo o procedimento de aferição, porque manguito incompatível altera o valor e pode alterar a cor (SES/SC, PCACR, itens 8.3.4 e Quadro 11)
    • Verificar glicemia capilar em todo paciente diabético e em todo paciente com sinais ou sintomas de hiper ou hipoglicemia, alteração do nível de consciência ou suspeita de cetoacidose (Autarquia Municipal de Saúde de Londrina, Protocolo de ACCR, 2022; SES/SC, PCACR, item 8.8)
    • Percorrer os descritores a partir da prioridade máxima até encontrar o adequado; um único descritor é suficiente para determinar a prioridade (SES/SC, PCACR, item 6)
    • Registrar em prontuário, no mínimo: data e hora, nome do acompanhante quando criança ou pessoa idosa, breve histórico com duração, alergias, antecedentes, sinais vitais do fluxograma adotado, sinais objetivos, resultado da classificação, encaminhamento e nome completo com registro profissional de quem classificou (SES/SC, PCACR, item 7)
  5. Logo depois da cor — identificação, destino e informação

    Três atos que parecem burocráticos e são clínicos. A pulseira ou etiqueta permite que qualquer pessoa do serviço saiba a prioridade sem abrir o prontuário. O destino separa fisicamente os eixos de gravidade, o que reduz o tempo do grave e evita que o não grave ocupe a área errada. E a informação de tempo provável de espera é a intervenção mais barata que existe contra o conflito na sala de espera — a ficha de indicador da ANS registra, na própria seção de limitações, que o paciente não urgente muitas vezes não aceita que a decisão de ser atendido caiba a outro profissional.

    Prescrição
    • Identificar a prioridade clínica do usuário com pulseira, adesivo ou etiqueta, e registrar a cor no prontuário (GBCR; SES/SC, PCACR, item 3.1)
    • Separar os fluxos e as áreas de primeiro atendimento dos pacientes de menor gravidade dos de maior gravidade (GBCR, Premissas para implementação)
    • Informar o paciente e o acompanhante sobre o tempo provável de espera para o atendimento médico (SES/SC, PCACR, item 3.3, citando a cartilha do Ministério da Saúde de 2009)
    • Não classificar quem procura o serviço apenas para procedimento de enfermagem — retirada de pontos, curativo, troca de sonda, administração de medicamento prescrito — encaminhando-os pelo fluxo interno próprio (SES/SC, PCACR, item 2)
  6. A sala de espera — a hora em que a classificação vira vigilância

    A classificação representa um momento e precisa de vigilância durante a espera. Defina quem reavalia, em que intervalo e como chamar ajuda. O interno pode identificar piora e comunicar imediatamente ao responsável, dentro de sua supervisão. Uma ronda a cada hora pode integrar o fluxo, mas não substitui observação proporcional ao risco nem resposta imediata a mudança clínica.

    Prescrição
    • Reavaliar periodicamente o risco de quem ainda não foi atendido, de quem solicita reavaliação por piora dos sintomas e de quem já esperou mais do que o tempo estabelecido no protocolo, reclassificando quando houver alteração (SES/SC, PCACR, item 3.3; Autarquia Municipal de Saúde de Londrina, 2022)
    • Manter a sala de classificação com visualização direta da sala de espera, evitando películas, cortinas e persianas que criem barreira visual; onde a visão direta não for possível, prever câmera para controle visual do ambiente (SES/SC, PCACR, item 3.1)
    • Registrar a nova classificação quando houver reclassificação, e não apenas corrigir a cor, porque o registro anterior é o que a auditoria e o turno seguinte vão ler (Ribeirão Preto, Protocolo de ACCR, 2ª versão, 2024)
  7. O paciente que desiste — o desfecho que ninguém mede

    Se o paciente avisa que pretende sair, pergunte o motivo e ofereça reavaliação breve, sobretudo após espera longa ou diante de nova queixa. Explique que a avaliação médica ainda não foi concluída e ofereça alternativas viáveis. Sinais de deterioração exigem atendimento imediato; capacidade e recusa são avaliadas conforme o contexto. Se sair, forneça sinais de retorno e registre sucintamente o que foi avaliado e orientado. O acompanhamento institucional dessas saídas serve para melhorar acesso e segurança; não substitui o cuidado ainda possível naquele momento.

    Prescrição
    • Registrar em evolução o paciente que não aguardou o tempo de acolhimento e o que foi classificado e desistiu de ser atendido, anotando que optou por não esperar (SES/SC, PCACR, item 7)
    • Antes de considerar evadido, chamar o paciente três vezes com intervalo de dez minutos entre as chamadas, com anotação assinada e carimbada na ficha de atendimento — pelo enfermeiro quando o paciente ainda não havia sido classificado, e pelo médico quando já havia (Ribeirão Preto, Protocolo de ACCR, 2ª versão, 2024)
    • Acompanhar saídas antes da conclusão como indicador de segurança e acesso, segundo o fluxo institucional. A classificação como incidente/evento adverso depende da ocorrência e dos critérios utilizados; não presumir dano em todas as saídas.
    • Entregar por escrito o encaminhamento dos pacientes direcionados a outros pontos de atenção, sempre após o atendimento médico (SES/SC, PCACR, item 7)
  8. Quando o tempo-alvo estoura — o que o serviço deve, e o que você faz

    Tempo-alvo descumprido de forma frequente não é problema do classificador: é sinal de que a capacidade de resposta do serviço está abaixo da demanda, e o material de implementação do Manchester manda a instituição reavaliar os fluxos quando isso vira rotina. O que muda para o interno é mais modesto e mais concreto: quando a fila estoura, a validade da cor de todo mundo caiu, porque a cor foi atribuída supondo um tempo de espera que não vai acontecer. Nessa hora, ou se reavalia, ou se está operando com dados vencidos.

    Prescrição
    • Reavaliar quem excedeu o tempo de espera previsto no protocolo, e não apenas quem piorou visivelmente (SES/SC, PCACR, item 3.3)
    • Acionar o médico coordenador de fluxo, e na inexistência dele o diretor técnico, quando forem detectadas condições inadequadas de atendimento, superlotação com ausência de leitos vagos ou paciente que necessite de terapia intensiva sem leito disponível (Resolução CFM nº 2.077/2014, art. 17)
    • Respeitar o teto de 24 horas de permanência no serviço de urgência, após o qual o paciente deve ter alta, ser internado ou transferido; internação dentro do próprio setor de urgência é vedada (Resolução CFM nº 2.077/2014, arts. 14 e 15)
    • Escalar a preferência de atendimento apenas dentro da mesma cor — pessoa idosa, gestante, lactante e pessoa com deficiência têm preferência sobre os demais pacientes da mesma prioridade clínica, e a pessoa idosa com mais de 80 anos sobre as demais pessoas idosas da mesma prioridade (SES/SC, PCACR, item 4.3)
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Como saber se está funcionando

Este bloco responde a uma pergunta que quase ninguém faz no internato: como se sabe se a porta está funcionando. A resposta não é a satisfação do usuário nem o número de atendimentos. São oito medidas, quase todas disponíveis no sistema que o serviço já tem, e o motivo de valer a pena conhecê-las é que o interno é frequentemente a única pessoa que circula entre a porta, o consultório e a enfermaria — e portanto a única que enxerga o efeito de uma ponta na outra.

Antes da lista, a regra que organiza a leitura de todas elas: nenhuma dessas medidas significa qualquer coisa isolada. O que informa é a comparação com o tempo-alvo do protocolo que o serviço adota e a tendência ao longo das semanas. Um serviço com 40% de amarelos atendidos fora do prazo pode estar melhorando ou piorando, e a diferença entre as duas coisas é a única que importa.

Cobertura da classificação: proporção de pacientes classificados sobre pacientes admitidosMensal, que é a periodicidade prevista na ficha de indicador nacional

Esperado: Meta de 100% dos pacientes admitidos submetidos à classificação de risco em um ano. Qualquer valor abaixo disso significa que existe gente atravessando a porta sem que ninguém tenha estimado quanto tempo ela pode esperar

Se não melhora: Procure onde está o vazamento antes de treinar mais gente: costuma ser o paciente trazido por ambulância que vai direto para dentro sem classificação registrada, o retorno para reavaliação e o paciente que vem só para procedimento. Os dois primeiros precisam ser classificados por fluxo interno; o terceiro, por definição de protocolo, não entra no denominador

Tempo entre a chegada e a classificaçãoContinuamente, e sobretudo nos picos de demanda de cada serviço

Esperado: Não mais que dez minutos pela régua do representante brasileiro do Manchester; abertura de novo posto quando alguém aguarda mais de quinze minutos, pela régua estadual catarinense

Se não melhora: É o indicador que mais responde a decisão de gestão e menos a esforço individual. O gatilho para abrir novo posto é numérico e está escrito; se ele é descumprido de forma sistemática, o caminho é o coordenador de fluxo, com registro. Enquanto isso não acontece, a contramedida disponível é alguém varrer a fila de não classificados com os olhos, procurando o que não pode esperar a vez

Cumprimento do tempo-alvo por cor, medido separadamente em cada corSemanal, por cor e por turno

Esperado: Que a proporção de pacientes atendidos dentro do tempo-alvo do protocolo do serviço seja alta nas cores de maior prioridade e que a curva não piore. O número absoluto importa menos que a tendência e que a comparação com a régua correta

Se não melhora: Descumprimento frequente do tempo-alvo é indicação formal de a instituição reavaliar os fluxos de atendimento. Antes disso, verifique se a régua usada na medição é a do protocolo em vigor: um serviço que usa Manchester e é auditado contra uma lista que coloca o amarelo em 30 minutos aparece falhando em pacientes atendidos dentro do prazo

Taxa de subtriagem e supertriagem por auditoria de prontuárioPeriodicamente, com amostra aleatória, por auditor capacitado no protocolo

Esperado: Acerto de nível de prioridade acima do patamar descrito na literatura brasileira, que foi de 68,8% num serviço auditado, com subtriagem de 25,5% e supertriagem de 5,7%. Mais importante que o patamar é a composição do erro

Se não melhora: Antes de concluir que o problema é julgamento clínico, separe as subtriagens por causa. Na auditoria brasileira, 85 das 102 vieram de sinal vital ou parâmetro não registrado, e apenas 17 de outras causas. Falha de execução se corrige com checagem obrigatória de campo no sistema; falha de julgamento se corrige com discussão de caso — são intervenções diferentes e trocá-las não funciona

Taxa de reclassificação e origem delaMensal, separando reclassificação para cima e para baixo, e separando quem pediu

Esperado: Taxa diferente de zero. Reclassificação é o dispositivo de segurança do sistema, e serviço que nunca reclassifica não está estável: está cego

Se não melhora: Taxa zerada quase sempre significa que a reavaliação da sala de espera não existe ou que a reclassificação não tem onde ser registrada. Se todas as reclassificações vierem do médico no momento da consulta, o problema é o mesmo: ninguém está olhando a fila entre a classificação e a chamada

Evasão: pacientes que saíram sem serem atendidos, por cor e por tempo de esperaMensal, e sempre que houver mudança de escala ou de fluxo

Esperado: Que exista o número. É o indicador mais frequentemente ausente dos painéis brasileiros e o que carrega o maior risco não medido, porque nele estão misturados o paciente que melhorou, o que foi embora para outro serviço e o que estava subtriado

Se não melhora: Comece registrando, com o procedimento das três chamadas e da anotação em ficha. Depois cruze com a cor e com o tempo de espera: evasão concentrada em uma cor aponta descumprimento de tempo-alvo naquela faixa; evasão distribuída aponta problema de informação e de comunicação na sala de espera

Retorno não programado em 48 a 72 horas, com desfechoMensal, cruzando com a cor atribuída na primeira passagem

Esperado: Retorno precoce que termina em internação ou em cor mais alta que a da primeira visita é o melhor marcador indireto de subtriagem que um serviço consegue produzir sem contratar auditor

Se não melhora: Puxe os prontuários dos casos e leia a classificação original procurando duas coisas: a queixa registrada e os campos vazios. Se a queixa da primeira passagem não é a da segunda, o problema é a escuta na porta; se os campos estão vazios, o problema é medida. São dois planos de ação distintos

Violência contra a equipe da porta, registradaContínua, com notificação formal e não apenas relato verbal

Esperado: Que os eventos sejam notificados. Em estudo brasileiro com profissionais de emergência, praticamente todos relataram violência ocupacional e nenhum havia feito registro formal da agressão sofrida — o que torna o problema invisível para a gestão e impossível de dimensionar

Se não melhora: Violência na porta responde a três coisas concretas antes de responder a segurança patrimonial: informação de tempo de espera dada ao paciente, ambiência que permita explicar sem plateia, e cumprimento do tempo-alvo. Se a fila estoura, nenhuma comunicação salva. E se a agressão vem da própria equipe médica, como descrito na literatura brasileira, a intervenção é interna e não passa por vigilante

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Onde o erro machuca

Classificar pela queixa que a recepção digitou, sem escutar o paciente

O dano: A queixa escrita no guichê seleciona o fluxograma, e fluxograma errado nunca chega a fazer a pergunta que mudaria a cor, porque a busca para no primeiro descritor positivo do caminho errado. O paciente sai com uma cor tecnicamente correta dentro de um caminho que não é o dele. É assim que dor torácica registrada como dor de estômago vira consulta de rotina.

Como pegar a tempo: Escute a queixa outra vez, com o paciente na sua frente, mesmo que ela já esteja no sistema. E quando você chamar um paciente já classificado, comece perguntando o que o trouxe — se a resposta não bate com o campo da ficha, refaça a classificação pelo caminho certo em vez de ajustar a cor.

Deixar em branco o campo que o fluxograma exigia, ou preencher por estimativa

O dano: Descritor que não pôde ser checado é descartado por omissão, e a busca desce um degrau: o paciente cai de cor por falta de um dado, não por ausência de gravidade. Na auditoria brasileira de 400 prontuários, 85 das 102 subtriagens vieram exatamente disso, sendo 50 de glicemia capilar não verificada e 33 de escala de coma não registrada. Frequência respiratória copiada da folha anterior produz o mesmo efeito com aparência de rotina cumprida.

Como pegar a tempo: Feche a lacuna antes de percorrer os descritores, não depois. E quando for reavaliar uma ficha, leia primeiro os campos vazios: numa queixa de rebaixamento sem glicemia anotada, a cor é um palpite com aparência de resultado.

Ler a cor como diagnóstico, e lê-la como definitiva

O dano: São dois erros com o mesmo dano. Tratar amarelo como suspeita de alguma coisa usa o instrumento fora da faixa em que ele foi validado — ele prevê tempo tolerável de espera, não doença, e os próprios documentos do método dizem que não se propõe a estabelecer presunção diagnóstica. E tratar a cor como definitiva ignora que ela foi atribuída com os dados de um instante, muitas vezes antes do pico da doença. A apendicite de quatro horas não dispara descritor; a de sete horas dispara.

Como pegar a tempo: Trate a cor como uma hipótese com prazo de validade, e o prazo é o tempo-alvo do protocolo do seu serviço. Quando o prazo estourou, a hipótese venceu: ou se reavalia, ou se está operando com dado antigo.

Errar sempre para cima, na crença de que supertriagem é o erro seguro

O dano: A capacidade de resposta é finita e a supertriagem a consome. Cada paciente estável ocupando um leito de sala vermelha é metade da capacidade indisponível para o próximo paciente que chegar de verdade, num serviço com dois leitos. Pior: a supertriagem repetida dessensibiliza a equipe ao chamado, e o custo é cobrado depois, no paciente em que o chamado era verdadeiro. O erro tem vítima; ela é que não tem prontuário.

Como pegar a tempo: Reconheça a assimetria sem transformá-la em regra automática. Auditar as classificações de alta prioridade com a mesma frequência com que se auditam as de baixa é o que mantém a régua calibrada — na auditoria brasileira, supertriagem foi 5,7%, quase cinco vezes menos frequente que subtriagem, e ainda assim é o número que ninguém mede nos serviços.

Dispensar, encaminhar ou orientar a procurar outro serviço sem avaliação médica

O dano: Além de o quadro poder ainda não ter se declarado, esta é a violação normativa mais direta da porta: todo paciente que teve acesso ao serviço deve ser obrigatoriamente atendido por médico, não podendo ser dispensado ou encaminhado a outra unidade por profissional que não seja o médico. E o dano é duplo, porque quem carrega a notícia é o classificador — que fica sozinho com uma decisão que a lei não lhe dá, e recebe a reação por ela.

Como pegar a tempo: Nenhum paciente com queixa sai sem acolhimento, classificação e encaminhamento responsável. Quando o encaminhamento para outro ponto da rede for a conduta certa, ele acontece depois do atendimento médico e sai por escrito. Se alguém pedir que você valide uma dispensa feita na triagem, a resposta é ver o paciente.

Responder à hostilidade com silêncio, ou explicar a fila usando a cor

O dano: A violência na porta é predominantemente verbal, cotidiana e disparada por uma coisa específica: a discordância do usuário com a cor recebida e com o encaminhamento a outro serviço. A própria ficha de indicador nacional registra que o paciente não urgente frequentemente não aceita que a decisão sobre ser atendido caiba a outro profissional. Silêncio confirma a suspeita de descaso; e dizer que ele é verde entrega ao paciente um rótulo que soa como julgamento sobre a queixa dele, sem lhe dar nenhuma informação útil.

Como pegar a tempo: Explique o critério e o tempo, não a cor. Que a ordem é por gravidade e não por chegada, que a pessoa que passou na frente tinha um problema que não podia esperar, quanto tempo é o previsto e o que fazer se algo piorar enquanto espera. E registre o evento quando houver agressão: em estudo brasileiro, praticamente todos os profissionais relataram violência ocupacional e nenhum havia feito registro formal, o que torna o problema invisível para quem poderia resolvê-lo.

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O que dizer ao paciente e à família

Na porta você fala com três interlocutores e com objetivos diferentes. Com o paciente e o acompanhante, para dar informação que reduz o medo e o conflito. Com a equipe da classificação, para pedir e para discordar sem transformar a discordância em disputa. E com a sala de espera inteira, que ouve tudo o que é dito no balcão e tira conclusões.

A regra que vale para as três é a mesma: prometa processo, nunca desfecho e nunca horário exato. Você pode prometer que vai voltar, que vai reavaliar, que ninguém sai sem ser visto por um médico. Não pode prometer que serão vinte minutos.

E há uma escolha de vocabulário que resolve metade dos atritos: fale de tempo e de critério, não de cor. A cor é uma etiqueta interna do serviço, e para quem está do outro lado do balcão ela soa como um juízo sobre o valor da queixa.

O homem que chegou antes e viu outra pessoa passar na frente

O senhor tem razão, ele chegou depois. Aqui a ordem não é a de chegada, é a de gravidade: quem tem um problema que pode piorar em minutos entra antes, e isso vale para o senhor também se em algum momento a sua situação mudar. Pelo que a gente avaliou, o seu caso é dos que podem esperar com segurança, e a previsão é de cerca de duas horas. Se sentir qualquer coisa piorar nesse tempo, o senhor volta aqui e a gente reavalia na hora — não precisa esperar a chamada.

Não diga: Dizer só que ele é verde, ou responder que a fila é assim mesmo. A primeira frase entrega um rótulo sem explicação, e a segunda entrega uma regra sem autor. Também evite dar horário exato: previsão descumprida vira motivo de conflito maior do que a espera.

O acompanhante que grita no balcão, com a sala de espera assistindo

Eu vou resolver isso com o senhor, mas preciso que a gente converse ali dentro, porque ali eu consigo olhar a ficha e explicar direito. Me diga uma coisa antes: o que mudou nela desde que vocês chegaram? Se piorou alguma coisa, isso muda a avaliação e eu reavalio agora.

Não diga: Discutir de pé no balcão, com plateia, e sobretudo defender a classificação antes de ouvir o que mudou. Boa parte das reclamações no balcão é um pedido de reavaliação mal formulado, e recusá-lo é o erro mais evitável da porta.

Dizer que o paciente vai ser atendido em outro serviço

O que a senhora tem precisa de acompanhamento, mas não precisa ser hoje aqui: aqui a gente resolve o que não pode esperar, e esse tipo de caso é resolvido melhor na unidade básica, com quem vai poder acompanhar. Só que a senhora não vai sair daqui sem passar pelo médico — ele vai avaliar e é ele que faz o encaminhamento, por escrito, com o que a senhora precisa levar.

Não diga: Mandar o paciente para outro serviço direto da triagem. Além de ser a maior fonte de agressão descrita no setor, é vedado: encaminhamento a outra unidade não pode ser feito por profissional que não seja médico.

O paciente que diz que vai embora porque está esperando há muito tempo

O senhor pode ir embora, é um direito seu, e eu prefiro que o senhor saiba de duas coisas antes. A primeira é que o senhor ainda não passou pelo médico, então a gente não sabe se o que o senhor tem precisa de alguma coisa hoje. A segunda é o que faria o senhor voltar imediatamente, sem esperar fila: e aí eu digo quais são os sinais, para o seu caso. Vou anotar aqui que o senhor optou por não esperar, e se mudar de ideia é só me procurar.

Não diga: Deixar sair em silêncio, e também tentar segurar pelo medo. O registro protege o paciente e o serviço; a lista de sinais de retorno é a única coisa clinicamente útil que ainda dá para entregar a quem está saindo.

Pedir ao acompanhante a informação que o paciente idoso não consegue dar

Três perguntas rápidas, a senhora me ajuda mais que o exame agora. Ele é assim no dia a dia, ou isso começou de ontem para hoje? A pressão dele em casa costuma ser quanto? A senhora tem aí a caixa de remédios dele, ou uma foto das receitas?

Não diga: Aceitar o sim curto do paciente como resposta. E não deixar o acompanhante de fora por pressa: o basal, a pressão habitual e a lista de medicações mudam a leitura dos sinais vitais que você acabou de medir, e nenhuma das três está no prontuário.

Falar com a paciente cuja pulseira você vai trocar

Eu preciso medir a sua pressão de novo, com outro aparelho, porque o primeiro pode não ter sido o certo para o seu braço. Se o valor for o que eu estou achando que é, a senhora não vai esperar mais: vai passar agora. Isso não significa que aconteceu alguma coisa nova; significa que a gente mediu melhor.

Não diga: Trocar a pulseira sem explicar, ou explicar como se alguém tivesse errado. A reclassificação é o funcionamento previsto do sistema, não um conserto de falha — e apresentá-la como falha ensina a equipe a evitar reclassificar.

Discordar da cor com quem classificou, sem transformar em disputa

Rosilene, uma dúvida no leito da espera: ela veio como cefaleia e está classificada como verde, mas a pressão que eu medi agora com o manguito grande deu 162 por 104 e ela tem 34 semanas. Você consegue reclassificar comigo e registrar? Eu já vou chamar o plantonista.

Não diga: Reclassificar sozinho e por cima, e também o oposto — discordar em silêncio e deixar a cor errada no registro. A cor registrada é o que a auditoria vai ler e o que o próximo turno vai enxergar. Discordância que não vira registro não existe.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Protocolo internacional licenciado ou protocolo público próprio?

Sistema Manchester, licenciado, com certificação e auditoria externa

Cinquenta e cinco fluxogramas, sendo 53 de rotina e dois para múltiplas vítimas, discriminadores com definição prévia, cinco prioridades com tempo-alvo e uma cadeia de qualidade que é o argumento principal: capacitação certificada com validade internacional, curso de auditor interno, acompanhamento presencial, auditoria externa e selo. A defesa é a comparabilidade — o mesmo amarelo significa a mesma coisa em qualquer serviço certificado, o que permite auditar, comparar instituições e detectar deriva do próprio protocolo ao longo do tempo. O custo é real: contrato com o representante brasileiro, material adquirido, capacitação paga e revalidação a cada atualização do protocolo.

Grupo Brasileiro de Classificação de Risco — Diretrizes para implementação do Sistema Manchester de Classificação de Risco nos pontos de atenção às urgências e emergências, segunda edição brasileira

Protocolo público estadual, gratuito, construído para a rede que vai usá-lo

Oitenta e três fluxogramas, sendo 40 de adulto e 43 pediátricos, com glossário de descritores, uso gratuito mediante autorização da secretaria e capacitação pela própria rede, e uma comissão estadual permanente que recebe pedidos de alteração vindos das unidades por processo formal. A defesa é dupla: custo zero para o município e conteúdo desenhado sobre a epidemiologia e a estrutura reais da rede, incluindo fluxos odontológicos, psiquiátricos e obstétricos e um capítulo próprio de vulnerabilidade e notificação de violência. O preço é a menor comparabilidade entre estados e a dependência de uma estrutura estadual que precisa se manter viva para revisar o protocolo.

Santa Catarina, Secretaria de Estado da Saúde — Protocolo catarinense de acolhimento com classificação de risco (PCACR), 2. ed. atual., 2025

Como decidir

Para o paciente à sua frente, essa decisão já foi tomada e não é sua: vale o protocolo que está impresso na sala, e classificar com os cortes de outro sistema produz decisão errada com aparência de rigor. O que muda para você é a vigilância. Descubra qual é o protocolo e onde ele difere do que você estudou — se o serviço usa quatro cores e você aprendeu cinco, o paciente que seria laranja em outro lugar está compartilhando cor com o que seria amarelo, e a diferença de vigilância é sua para fazer com a cabeça. Se você estiver participando da escolha institucional, os critérios são três e nenhum é a marca. Primeiro, qual protocolo a equipe consegue de fato usar todo dia, porque protocolo que ninguém aplica tem desempenho zero. Segundo, existe estrutura para capacitar e auditar, sem o que qualquer protocolo vira formulário. Terceiro, com quem esse serviço precisa comparar seus dados — hospital que faz parte de rede estadual ganha mais em falar a língua da rede do que em ter certificação que os vizinhos não têm.

Quem pode classificar: só o enfermeiro, ou qualquer profissional de nível superior capacitado?

Privativo do enfermeiro dentro da equipe de enfermagem

A norma vigente do conselho federal de enfermagem estabelece que a classificação de risco e a priorização da assistência são privativas do enfermeiro dentro da equipe de enfermagem, exigem curso de capacitação específico para o protocolo adotado pela instituição e consultório em condições adequadas, fixam parâmetro de quatro minutos por classificação com limite de quinze por hora e proíbem o exercício de outras atividades ao mesmo tempo. O técnico de enfermagem auxilia — mede sinais vitais, faz antropometria, conduz o paciente pelos fluxos — mas não atribui a prioridade. A norma anterior sobre o tema, de 2012, está revogada desde 2021, e materiais de treinamento em circulação ainda a citam.

Resolução COFEN nº 661, de 9 de março de 2021, arts. 1º, 2º e 5º

Profissional de saúde de nível superior, médico ou enfermeiro, com treinamento específico

A régua do regulamento técnico federal de urgência e emergência, replicada por protocolos municipais e pelo próprio protocolo estadual catarinense, é que o processo seja realizado por profissional de saúde de nível superior, mediante treinamento específico e uso de protocolos preestabelecidos, com o objetivo de avaliar o grau de urgência e ordenar prioridades. Protocolos municipais que a adotam escrevem médico ou enfermeiro. O protocolo catarinense concilia as duas leituras: registra a régua de nível superior e observa que, na maioria dos serviços, quem faz é o enfermeiro, o que está normatizado como atribuição privativa pela norma do conselho de enfermagem.

Aparecida de Goiânia, Protocolo de classificação de risco baseado no protocolo de Manchester, 2025; e Santa Catarina, PCACR, 2. ed., 2025, item 4.2

Como decidir

Não confunda o que a divergência é. Ela não decide se você, interno ou médico, pode olhar um paciente na fila — pode e deve. Ela decide quem atribui a cor no registro, e essa parte, na prática brasileira, é do enfermeiro, com a trava de que ninguém sai sem médico. Na porta em que você trabalha, a pergunta prática é outra e tem resposta imediata: quem está classificando teve capacitação no protocolo desta casa? Em estudo brasileiro do setor, metade dos entrevistados não tinha, apesar da exigência normativa — e isso importa mais para o desfecho do paciente do que a discussão de competência, porque o instrumento só funciona nas mãos de quem foi treinado nele. Para você, a regra de convivência é curta: não classifique por cima de quem tem a atribuição, não deixe cor que você considera errada sem discutir e sem registrar, e leve a discordância para a reclassificação formal, que é o dispositivo que o sistema tem para isso.

Prioridade legal e prioridade clínica: como conciliar idade e gestação com gravidade?

A prioridade da lei opera dentro da cor, nunca entre cores

O critério da situação clínica define, sem exceção, a classificação de risco, e é ela que determina a prioridade de atendimento. Depois disso, e já dentro de cada cor, a preferência de atendimento se aplica a pessoas idosas, gestantes, lactantes e pessoas com deficiência física, mental, intelectual ou sensorial, com preferência especial da pessoa idosa acima de 80 anos sobre as demais pessoas idosas da mesma prioridade. O protocolo chega a adotar palavras diferentes para as duas coisas — prioridade para a clínica, preferência para a legal — justamente para impedir a confusão, e cita que o próprio estatuto da pessoa com deficiência condiciona a prioridade, nos serviços de emergência, aos protocolos de atendimento médico.

Santa Catarina, PCACR, 2. ed. atual., 2025, item 4.3, lendo o Estatuto da Pessoa Idosa, o Estatuto da Pessoa com Deficiência e a Lei nº 10.048/2000

A prioridade legal ganha uma faixa própria dentro da fila de baixo risco

Protocolos municipais brasileiros resolvem o mesmo problema criando uma categoria intermediária que não existe no Manchester: além de vermelho, amarelo e verde, um verde prioritário, com fluxo próprio e chamada separada. Outros mantêm quatro cores e resolvem por lista de pacientes que exigem atenção especial da equipe, nomeando pessoa idosa, pessoa com deficiência, acamado, gestante, vítima de violência sexual ou doméstica, paciente escoltado ou privado de liberdade. A defesa dessa solução é operacional: torna a preferência visível para quem espera, o que reduz conflito de balcão, e não obriga a equipe a fazer a ordenação de cabeça dentro de uma cor com dezenas de pessoas.

Londrina, Protocolo de acolhimento com avaliação e classificação de risco, 2022; e Ribeirão Preto, Acolhimento com classificação de risco no serviço de urgência e emergência, 2ª versão, 2024

Como decidir

As duas posições concordam no que mais importa e discordam na engenharia. Nenhuma das duas permite que idade ou gestação ultrapassem gravidade — a diferença é se a preferência legal vira uma ordenação invisível dentro da cor ou uma faixa visível ao lado dela. Para o paciente à sua frente, use a regra do protocolo do seu serviço e resolva a dúvida sempre para o mesmo lado: quando você não souber se a preferência legal ordena dentro ou fora da cor, ordene dentro, porque essa é a leitura que nunca coloca um paciente mais grave atrás de um menos grave. Duas ressalvas clínicas se impõem sobre qualquer arranjo administrativo. A primeira é que gestação e idade avançada não são só categorias jurídicas: elas mudam a fisiologia e, portanto, mudam a leitura dos sinais vitais que produziram a cor — o que muitas vezes significa que aquele paciente não deveria estar naquela cor. A segunda é que a faixa preferencial visível resolve conflito na sala de espera e cria um risco novo, o de a equipe achar que já cuidou do idoso ao colocá-lo numa fila mais curta, quando ele é justamente o paciente que mais se apresenta fora do figurino.

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O raciocínio, em voz alta

Volte à unidade de pronto atendimento das 16h20 de sábado, com 31 pessoas no painel. Entra Josefa, 26 anos, gestante de 34 semanas, sozinha, com a carteira da gestante na mão. Diz que está com dor de cabeça há dois dias, que já tomou dipirona e que hoje a vista embaçou duas vezes. Acompanhe o raciocínio em voz alta, do lado de fora da cadeira de quem classifica.

  1. o que a queixa de entrada já decidiu, antes de qualquer medida

    A palavra que ela usou foi dor de cabeça, e essa palavra vai abrir um caminho. Cefaleia é um fluxograma com descritores organizados em torno de intensidade da dor, sinais neurológicos, febre e início súbito. Repare no que esse caminho não pergunta por conta própria: se ela está grávida e de quanto tempo. A gestação não é uma queixa, é uma condição — e num serviço sem fluxo obstétrico próprio, ela só entra na avaliação se alguém perguntar. O primeiro ato correto aqui não é medir nada: é perguntar as semanas e olhar a carteira que ela trouxe na mão.

  2. o segundo dado, que ela deu e que quase se perdeu

    Ela disse que a vista embaçou duas vezes hoje. Alteração visual é descritor de prioridade alta na maioria dos fluxogramas de cefaleia, e é dado neurológico agudo em qualquer paciente. Ela não disse isso primeiro, disse depois, no meio da frase, com o tom de quem está complementando. Sintoma dito em segundo lugar não vale menos que sintoma dito em primeiro — a ordem em que as pessoas contam obedece à educação delas, não à gravidade.

  3. a intensidade, e a palavra que engana

    Perguntada se a dor é forte, ela responde que é chata. Josefa é professora e mede as palavras. Se a escala for aplicada como pergunta fechada de zero a dez, ela provavelmente diz cinco. Cinco é dor moderada e não sobe a cor sozinho em protocolo nenhum. Aqui está o ponto em que o instrumento e a pessoa não se encontram: a escala mede o relato, e o relato é modulado por quem relata. A contramedida não é desconfiar dela — é não deixar a dor decidir sozinha, e olhar o resto.

  4. a medida, e o instrumento errado

    A pressão sai 138 por 88, medida com o manguito que está pendurado ao lado da mesa, o mesmo de todos os pacientes do dia. O braço de Josefa é largo. Manguito estreito demais para a circunferência do braço superestima a pressão; largo demais subestima — e neste caso o erro foi na direção que não deveria acontecer, porque a medida real era maior. O protocolo estadual catarinense dedica seção inteira ao procedimento de aferição e um quadro de dimensões do manguito por circunferência do membro exatamente por causa desta cena: a pressão é o único sinal vital da porta em que a escolha do material muda o número o suficiente para mudar a cor.

  5. a cor que sai, e por que ela é defensável e errada ao mesmo tempo

    Com cefaleia moderada, sem febre, sem sinal neurológico registrado e com pressão de 138 por 88, o percurso dos descritores desce até verde. E é importante dizer isto sem ironia: dentro do caminho escolhido e com os números que existiam na tela, a classificação está correta. O erro não foi de julgamento, foi de entrada — a alteração visual não foi registrada e a pressão foi medida com o instrumento errado. Foi assim que 85 das 102 subtriagens de uma auditoria brasileira aconteceram: por medida que não foi feita ou não foi anotada, não por falta de conhecimento.

  6. as duas horas seguintes, e a única defesa que resta

    Josefa senta na terceira fileira e abre o celular. A partir daqui, a única coisa entre ela e um desfecho ruim é a reavaliação da sala de espera — que os protocolos brasileiros exigem para quem ainda não foi atendido, para quem pede reavaliação por piora e para quem já esperou mais do que o tempo do protocolo. A pulseira verde promete 120 minutos. Às 18h, esse prazo estourou, e com ele venceu a hipótese que gerou a cor.

  7. o que a enfermeira viu pela janela, que não era um sinal vital

    Ela trocou de posição três vezes em quinze minutos e está com a mão na testa. Isso não pontua em escore nenhum e não é descritor de fluxograma nenhum. É o dado que existe apenas porque alguém tinha a sala de espera no campo de visão — e é por isso que a ambiência da sala de classificação é normatizada, com recomendação explícita de evitar películas, cortinas e persianas que criem barreira visual, e de usar câmera quando a visão direta não for possível. A janela é equipamento.

  8. a segunda medida, e o que ela muda

    Manguito grande, paciente sentada e apoiada: 162 por 104. Não é uma pressão nova; é a mesma paciente medida direito. Vinte e quatro milímetros de mercúrio de diferença na sistólica separam esperar duas horas de ser atendida agora, e a diferença inteira coube na escolha de um pedaço de pano. Somado à alteração visual referida, o quadro sai do caminho da cefaleia comum e entra na faixa em que protocolos municipais colocam a gestante direto no eixo de maior gravidade, com ou sem sintomas.

  9. o que se faz com a cor antiga

    A pulseira verde é cortada e uma laranja entra no lugar, e a reclassificação é registrada com hora — não substituída em silêncio. Isso importa por dois motivos. O primeiro é assistencial: quem assumir o plantão precisa enxergar que houve mudança e quando. O segundo é de sistema: a taxa de reclassificação é indicador de segurança, e serviço que reclassifica sem registrar aparece nos relatórios como serviço que nunca erra e nunca corrige, que é o pior dos dois mundos.

  10. o que o interno faz agora, e o que não faz

    Não classifica, não reclassifica sozinho e não decide destino: chama o plantonista, conta em uma frase o que mudou e por quê, e fica com a paciente. O manejo obstétrico a partir daqui — a régua da pré-eclâmpsia, os exames, a conduta e o destino — é assunto do capítulo próprio desta coleção, e é lá que ele deve ser lido. O que este capítulo entrega é a parte que quase ninguém ensina: como uma paciente que precisava ser vista em 15 minutos passou 100 minutos numa cadeira de plástico, e quais das cinco coisas que produziram isso estavam ao alcance de quem estava na sala.

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Faça você

Mesma tarde, 16h35. Seu Ubirajara, 74 anos, trazido pelo vizinho. Ele não tem queixa: quando você insiste, diz que está fraco. Sem febre, sem dor, sem falta de ar, sem tosse. Responde tudo com um sim curto e olha para o vizinho antes de cada resposta. O vizinho diz que ele não é assim, que ontem varreu a calçada e hoje não quis almoçar. Pressão 104 por 62, frequência cardíaca 96, frequência respiratória 20, temperatura axilar 36,1, saturação 96% em ar ambiente. A enfermeira abriu o fluxograma de indisposição no adulto, nenhum descritor deu positivo, e a pulseira saiu verde. O painel mostra 31 pessoas esperando e o tempo-alvo do verde, neste serviço, é de 120 minutos.

  1. o que a ficha diz, e o que ela não diz

    A ficha diz fraqueza, cinco sinais vitais dentro de faixas que não pontuam e uma cor. O que ela não diz é o dado mais forte da avaliação inteira, porque ele não foi dito pelo paciente e não tem campo no formulário: a mudança aguda em relação ao basal, referida por quem convive com ele. Varreu a calçada ontem e hoje não quis almoçar é declínio funcional agudo em 24 horas, e em paciente idoso isso tem o mesmo peso clínico que uma queixa localizada tem num paciente jovem.

  2. os números, relidos contra o basal

    Pressão de 104/62 e frequência de 96 precisam de contexto; não são universalmente valores que deixam de pontuar em qualquer escala. Compare com o basal, observe perfusão e revise medicamentos. Betabloqueador pode atenuar taquicardia, tornando uma frequência aparentemente pouco elevada menos tranquilizadora, não mais. Nenhum desses números isolados determina diagnóstico ou cor.

  3. a lacuna que ninguém fechou

    Falta um número na ficha, e é justamente o que mais frequentemente falta nas subtriagens medidas no Brasil: a glicemia capilar. Ele não tem diagnóstico de diabetes registrado e não está francamente rebaixado, então o campo ficou vazio. Mas prostração aguda sem foco em idoso é exatamente o quadro em que a glicemia decide, para os dois lados, e é o único exame da gaveta capaz de encerrar o caso em dois minutos.

  4. conduta

    — sua vez —

Ver como fecharíamos

Trate-o como paciente de vigilância curta, não como verde de 120 minutos, e faça isso pelo caminho formal em vez de por cima da classificação. Primeiro, feche as lacunas de medida: glicemia capilar agora, pressão habitual perguntada ao vizinho e comparada com a de hoje, caixa de remédios conferida procurando betabloqueador e hipoglicemiante oral, e frequência respiratória contada por sessenta segundos com relógio — 20 anotado de olho é o número mais provável de estar errado na ficha. Segundo, registre o dado que hoje não tem campo: declínio funcional agudo em 24 horas referido pelo acompanhante, com as palavras dele. Terceiro, leve isso a quem tem a atribuição de classificar e peça reclassificação conjunta, porque descritor que não pôde ser checado por falta de medida não é descritor negativo, e a cor foi atribuída com uma lacuna. Quarto, independentemente da cor que sair, ele não volta para a fileira do fundo sem hora marcada de reavaliação: paciente idoso com mudança aguda de estado geral e sem explicação é o perfil que mais se apresenta fora do figurino e o que mais se perde na sala de espera. E, se a glicemia vier baixa ou se qualquer sinal vital mudar, o caso deixa de ser de classificação e passa a ser de estabilização — a sequência que se executa antes de saber o diagnóstico está no capítulo dos primeiros cinco minutos, nesta mesma apostila. O ponto do caso não é acertar o que ele tem: é reconhecer que a ficha verde foi produzida por três ausências — de pergunta, de medida e de campo — e que todas as três estavam ao alcance de quem estava na sala.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Os protocolos brasileiros preveem três gatilhos de reavaliação de quem ainda não foi atendido: periodicamente, quando o paciente solicita por piora, e quando o tempo de espera ultrapassa o estabelecido no protocolo. O terceiro é o que se aplica aqui, e ele não depende de o paciente reclamar — a cor foi atribuída supondo um tempo de espera que não aconteceu, de modo que a hipótese venceu. Manter a fila porque o paciente não pediu nada inverte a lógica: quem menos reclama costuma ser quem menos consegue reclamar. Chamar antes dos pacientes de prioridade mais alta troca a ordem de gravidade pela de espera, que é exatamente o modelo que a classificação de risco veio substituir. Esperar quatro horas aplica ao paciente o prazo de outra cor. E tratar o assunto apenas como indicador de gestão deixa o paciente onde ele está: reavaliar não é atribuir cor, e olhar um paciente que esperou demais está ao alcance de qualquer profissional da equipe.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Reavalie a gestante com cefaleia/alteração visual e o idoso com declínio funcional. Explique que dados mudam a prioridade e por que uma pressão isolada não resolve nenhum dos casos.

Em 30 dias

Descreva o que fazer com três pessoas na espera: uma que piorou, uma que ultrapassou o tempo-alvo e uma que pretende ir embora. Defina avaliação, comunicação e continuidade.

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Agora atenda

Agora atenda: sábado, 19h20, unidade de pronto atendimento, 27 pessoas no painel e o plantonista na sala de emergência há quarenta minutos. A enfermeira da classificação te chama porque um acompanhante está gritando no balcão: trouxe o pai de 81 anos há uma hora e quarenta com fraqueza e tontura, recebeu pulseira verde, e viu três pessoas passarem na frente. Reavalie o paciente na sua frente, feche as lacunas de medida da ficha, decida se pede reclassificação e por qual descritor, explique ao filho por que os outros passaram antes — sem usar a cor como resposta — e diga a ele o que faria o pai ser chamado imediatamente.

Classificação de risco e triagem – Classificação de risco na porta — Internato | OsceLabs