Clínica MédicaSíndromes do Paciente na Emergência

Dor lombar aguda no pronto-socorro

É a queixa em que o interno pede exame demais e enxerga de menos, ao mesmo tempo. A esmagadora maioria melhora sozinha, e é por isso que a imagem de rotina piora o cuidado; a minoria que não melhora sozinha tem relógio, e o relógio de uma delas se conta em horas. Este capítulo é sobre separar as duas coisas num corredor cheio, e sobre a alta que não fabrica um doente crônico.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde; Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Protocolos de encaminhamento da atenção primária para a atenção especializada, v. 4: ortopedia adulto. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. ISBN 978-65-5993-223-8

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. Relatório de Recomendação nº 794; Registro de Deliberação nº 791/2022. Tornado oficial pela Portaria Conjunta SAES/SAPS/SECTICS nº 1, de 22 de agosto de 2024

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. Portaria GM/MS nº 6.324, de 26 de dezembro de 2024. ISBN 978-65-5993-710-3

Brasil. Ministério da Saúde. Dengue: diagnóstico e manejo clínico — adulto e criança. 6. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2024

Joinville (SC). Secretaria Municipal da Saúde. Protocolo de enfermagem: atenção ao adulto na demanda espontânea da atenção primária. Joinville, 2020

01

Responda antes de ler

Homem de 51 anos, usuário de droga injetável, com dor lombar há três semanas que não melhora deitado. A radiografia de coluna lombar solicitada no pronto-socorro volta descrita como normal. Como você interpreta esse resultado?

02

O paciente que você vai ver

Sexta-feira, 21h50, pronto-socorro clínico de um hospital geral de cento e sessenta leitos numa cidade de duzentos mil habitantes. O painel mostra trinta e uma pessoas aguardando e três médicos escalados, um deles em sala vermelha desde as oito. Você é o interno do plantão noturno. Na fila de fichas que a classificação de risco empilhou no balcão, três trazem a mesma frase escrita com a mesma caneta: dor nas costas.

A primeira é de Adenilson Prata, 33 anos, motorista de aplicativo. Começou há quatro dias, depois de subir dois lances de escada com um botijão nas costas. É uma faixa na lombar, dos dois lados, não desce da dobra do joelho, piora quando ele se abaixa e some quando ele deita de lado. Ele dormiu, comeu, trabalhou dois dos quatro dias. Chegou de moto. Pulseira verde. Entra andando e senta reclamando, e a primeira frase que diz é a que organiza a consulta inteira: doutor, eu preciso de uma ressonância, e de um atestado de cinco dias.

A segunda é de Doralice Bulhões, 68 anos, diabética há dezoito anos, hipertensa. Dor lombar alta há cinco semanas. Ela conta a história com uma precisão que deveria assustar: a dor não passa deitada, acorda ela por volta das três da manhã, e é pior quando ela vira na cama do que quando ela caminha. Emagreceu, não sabe quanto, mas a saia está sobrando. Há dois meses tratou uma úlcera no calcanhar direito na unidade básica, com antibiótico por dez dias, e a úlcera fechou. Hoje ela está com 36,9 graus. Já veio a este mesmo pronto-socorro duas vezes pela mesma dor, e nas duas saiu com dipirona e orientação de procurar a unidade básica. Esta é a terceira.

A terceira é de Ubirajara Menezes, 72 anos, tabagista de quarenta e cinco anos, hipertenso em uso irregular de medicação. Dor lombar de começo súbito há duas horas, do lado esquerdo, irradiando para a virilha, forte a ponto de ele não conseguir ficar parado. É a primeira vez na vida. A classificação de risco escreveu na ficha, com a melhor das intenções, a palavra que vai custar caro: cólica renal. Pressão 104 por 68, frequência 96. Foi medicado com dipirona endovenosa, melhorou, e agora aguarda o resultado do exame de urina numa maca do corredor.

Os três têm a mesma queixa no painel e não têm a mesma doença. O primeiro tem a doença mais comum do plantão e vai melhorar sozinho — e a decisão que faz mal nele é a que parece mais cuidadosa, porque a chance de a ressonância dele voltar com algum achado degenerativo é alta em qualquer adulto da idade dele, com ou sem dor, e o que ela vier a mostrar não terá relação demonstrável com o que ele sente. A segunda tem uma infecção instalada dentro de uma vértebra, com porta de entrada conhecida, um mês e meio de evolução e nenhuma febre para denunciá-la; ela é o diagnóstico que este pronto-socorro já perdeu duas vezes. O terceiro não tem doença de coluna nenhuma: tem uma aorta que está rompendo para o retroperitônio, e a melhora da dor com a dipirona é a informação mais perigosa da noite.

Nenhum dos três se resolve com exame de imagem pedido de saída. Os três se resolvem com a mesma coisa: uma lista curta de perguntas feitas com palavras concretas, um exame físico de cinco minutos com quatro números escritos no papel, e uma decisão de destino tomada em voz alta. Este capítulo é sobre essa lista, sobre esses números e sobre as três decisões de destino — quem sai hoje, quem não sai, e quem sai mas volta amanhã com hora marcada.

03

Quem adoece disso

Dor na coluna é o ruído de fundo da fila brasileira, não um evento. A Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, que entrevistou 88.531 adultos, encontrou dor crônica na coluna em 21,6% da população adulta (intervalo de confiança de 95%: 21,0 a 22,1), sendo 18,3% entre os homens e 24,5% entre as mulheres. A consequência para o seu plantão é aritmética: numa sala de espera com quarenta adultos, oito têm dor de coluna crônica como condição de base, independentemente do motivo pelo qual vieram hoje. A queixa "dor nas costas" no painel não estreita nada — ela é o começo do trabalho, não parte dele.

Dentro desse ruído mora um punhado de doenças com relógio, e elas são raras o bastante para que ninguém as diagnostique por hábito. A espondilodiscite piogênica responde por 2% a 4% de todos os casos de osteomielite. Você verá poucas na vida de interno, e é exatamente por isso que a régua tem de ser um gatilho escrito e repetido, e não a memória de um caso marcante: memória se forma com repetição, e esta doença não repete o suficiente para formar memória.

O custo de não ter esse gatilho está medido em série brasileira. No serviço de cirurgia da coluna de um hospital estadual em Recife, treze pacientes operados por espondilodiscite tiveram entre o primeiro sintoma e a primeira cirurgia um intervalo médio de 20,25 meses, com variação de um mês a onze anos. Dez dos treze abriram o quadro com dor na região acometida, e só um teve febre como sintoma isolado. Vinte meses não se perdem no centro cirúrgico: perdem-se nas portas por onde o paciente passou antes, e a maioria dessas portas é um pronto-socorro. É o único número deste capítulo que descreve o desempenho de quem atende, e não o comportamento da doença.

A doença mais letal que chega disfarçada de dor lombar não é da coluna. As diretrizes de aneurisma da aorta abdominal da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular listam entre os sintomas do aneurisma a dor abdominal ou nas costas e a dor lombar com irradiação para a região inguinal — a descrição literal da cólica renal — e registram que a análise multivariada aponta a presença de dor abdominal ou lombar significativa, ao lado da expansão rápida, como os maiores preditores de risco de ruptura, independentemente do diâmetro do aneurisma. A leitura clínica é direta e vale para o resto da sua vida profissional: a primeira cólica renal da vida de um homem acima dos sessenta, tabagista, é aneurisma de aorta até que alguém olhe a aorta.

04

Por que acontece o que acontece

A coluna lombar dói com facilidade porque quase tudo nela tem terminação nociceptiva: o anel fibroso posterior, o ligamento longitudinal posterior, a cápsula das facetas, o periósteo, a musculatura e a fáscia. E dói com pouca precisão porque a inervação desse segmento é uma rede entrelaçada, com o mesmo estímulo chegando ao corno posterior por mais de um nível. Daí a primeira consequência prática: a dor lombar comum é descrita como uma faixa, e não como um ponto, e nenhum método de imagem tem resolução para dizer qual daquelas estruturas está gerando o estímulo. O que a máquina fotografa é forma; o que dói é função. As duas coincidem em poucas situações, e este capítulo é sobre reconhecê-las.

O motor de tudo o que vem a seguir é a diferença entre dor que responde à carga e dor que não responde. Em pé e sentado, o disco e as facetas suportam o peso do tronco; deitado, essa carga cai quase a zero. Uma dor produzida por estruturas que sofrem carga melhora quando a carga sai — é a definição operacional de dor mecânica, e ela dispensa exame. Um processo que ocupa espaço dentro do corpo vertebral, seja infecção, seja tumor, seja fratura em osso doente, não depende de carga: cresce, inflama e distende periósteo com o paciente na mesma posição. Some-se a estase venosa do decúbito prolongado e a queda fisiológica do cortisol na segunda metade da madrugada, e você tem a dor que piora deitado e acorda o paciente às três da manhã. Dor que não respeita o repouso não é um item de uma lista decorada: é a tradução clínica de que a causa não é mecânica.

O corpo vertebral é o lugar onde o germe se instala porque é osso esponjoso com medula ricamente vascularizada, e as arteríolas terminam em alça junto aos platôs vertebrais, onde o fluxo desacelera. No adulto o disco é avascular: a infecção começa no platô e atravessa o disco por contiguidade, e é por isso que a doença do adulto se chama espondilodiscite e não discite. O sangue chega ali por duas vias — a arterial, a partir de qualquer bacteremia, e o plexo venoso vertebral, que não tem válvulas e comunica o retorno da pelve e do abdome com a coluna. Por isso a pergunta que abre a suspeita não é "o senhor teve febre", é "onde o senhor teve infecção nos últimos três meses": úlcera de pé, celulite, cateter, fístula de hemodiálise, dente, infecção urinária, procedimento na coluna, injeção de droga. E por isso a hemocultura é colhida antes do antibiótico: o alvo é o germe que passou pelo sangue, e ele some da amostra depois da primeira dose.

A febre falta com frequência porque a infecção vertebral é subaguda e fica contida dentro do osso, sem grande superfície de contato com o sangue, e porque a resposta térmica é atenuada em quem tem diabetes, em quem é idoso, em quem é urêmico e em quem já tomou antibiótico parcial por outro motivo. O que costuma não faltar é a resposta inflamatória sistêmica medida no laboratório: velocidade de hemossedimentação e proteína C reativa elevadas, num paciente com dor que não cede ao repouso. É uma combinação barata, disponível em qualquer plantão, e ela é o instrumento de triagem que compensa a ausência de febre. Ausência de febre não é ausência de infecção; é ausência de febre.

A radiografia mente no começo, e mente por um motivo mecânico. Na espondilodiscite, as alterações radiográficas aparecem tipicamente de duas a três semanas depois do início dos sintomas, e a destruição óssea da osteomielite não é visível até que 35% a 40% da região envolvida esteja destruída. Uma placa lombar normal no paciente com três semanas de dor não afasta infecção nenhuma: ela apenas informa que ainda não há osso suficiente destruído para o método enxergar. A radiografia responde a outras perguntas — alinhamento, altura de corpo vertebral, fratura por fragilidade —, e é razoável pedi-la para essas perguntas. Ela não responde à pergunta da infecção, e usá-la como se respondesse é o mecanismo pelo qual se ganham as duas semanas seguintes de atraso.

Abaixo da primeira ou da segunda vértebra lombar não existe mais medula: o canal contém raízes soltas em líquor, e as raízes sacrais que comandam o detrusor e o esfíncter ficam na porção mais central do feixe, que é justamente a mais exposta a uma compressão vinda de frente e pelo meio. Isso define a ordem em que a função cai, e ela não é a que o paciente espera. Primeiro some a percepção de bexiga cheia. Sem ela o paciente não urina na hora certa, o músculo se estira além do comprimento em que consegue gerar força, e o resultado é urina escapando de uma bexiga que ele não sente — quadro que ele relata como estar urinando bastante. A distensão prolongada estraga o próprio músculo, e a raiz comprimida por muitas horas não recupera função integralmente depois de descomprimida. Por isso o parâmetro da cauda equina é um volume medido, não um relato: o resíduo pós-miccional informa o que a história esconde.

A aorta abdominal dói nas costas porque é retroperitoneal e se apoia na coluna lombar. Quando a parede rompe, o sangue vai para o retroperitônio — um espaço que tampona — e isso produz o mais cruel dos quadros da emergência: o paciente pode ficar horas com pressão aceitável, dor controlada e aparência tranquila enquanto sangra. A dor é visceral, mal localizada, profunda, irradiando para o flanco e para a virilha exatamente como um cálculo ureteral, e o hematoma que se forma comprime o ureter e irrita o psoas, o que pode produzir hematúria e postura antálgica com o quadril fletido. É o motivo pelo qual a hematúria não afasta aneurisma, a melhora com analgésico não afasta aneurisma, e a estabilidade da primeira hora não afasta aneurisma. O que afasta é olhar a aorta.

Falta o mecanismo da incapacidade, que é o desfecho mais provável de todos e o único que o pronto-socorro fabrica sozinho. Dor aguda intensa provoca imobilidade; imobilidade produz descondicionamento em poucos dias; músculo descondicionado dói com carga menor; dor com carga menor confirma no paciente a crença de que se mexer machuca. O circuito se fecha e a dor passa a se manter com estímulo periférico pequeno ou nenhum, o que o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica descreve como dor nociplástica e exemplifica com a lombalgia primária crônica. O ponto que interessa aqui é que a entrada nesse circuito costuma ser verbal: um laudo lido em voz alta, a palavra desgaste, a recomendação de repouso, o atestado longo. A alta do pronto-socorro é o momento em que esse circuito é aberto ou fechado, e por isso ela é intervenção terapêutica, e não papelada.

05

Como se apresenta de verdade

O que entra pela porta com a palavra lombar escrita na ficha é um conjunto de quadros que só se parecem no rótulo. Vale a pena ler esta seção como uma sequência de reconhecimentos, e não como uma lista de doenças: em cada um deles existe uma frase do paciente, ou um achado de exame, que muda a velocidade do atendimento naquele minuto.

A ordem aqui é deliberada. Começa pelo que é quase sempre — porque não reconhecer o comum é o que faz o interno investigar todo mundo — e termina pelo que é quase nunca, mas mata rápido.

Percurso de aprendizagem

Use padrão temporal, exame neurológico, risco de fratura/câncer/infecção e hipóteses extravertebrais. Bandeiras vermelhas orientam investigação; não são diagnósticos isolados.

Na suspeita de cauda equina, organize imagem e especialista em paralelo ao exame e à avaliação vesical. No risco vascular, reconheça as limitações do ultrassom.

Na lombalgia inespecífica, explique por que imagem não ajuda de imediato e ofereça analgesia individualizada, movimento tolerado e seguimento.

A forma que é a regra, e que já se define sem exame

A dor lombar mecânica aguda tem um retrato reconhecível. Começa em relação com um esforço, uma posição mantida ou um movimento, ainda que o paciente nem sempre saiba dizer qual. Instala-se em horas, é uma faixa na região lombar, muitas vezes dos dois lados, com contratura da musculatura paravertebral palpável. Piora com flexão, com o ato de levantar da cadeira, com a manobra de calçar o sapato; alivia deitado, e alivia de verdade, a ponto de o paciente dormir. Não desce abaixo do joelho, ou desce de forma vaga e sem trajeto. Não há febre, não há emagrecimento, não há queixa urinária nova, não há déficit no exame neurológico.

Nesse quadro, o diagnóstico é a lombalgia mecânica inespecífica, e o nome não é confissão de fracasso: é o diagnóstico. Ele significa que a estrutura exata que dói não é identificável e não precisa ser, porque a conduta é a mesma para todas as candidatas. Quem não aceita isso sai à caça de um nome de doença para preencher a linha do diagnóstico, e a imagem sempre fornece um: degeneração, abaulamento, protrusão, retificação da lordose. Todos eles já estavam ali antes da crise e continuarão ali quando ela passar.

A evolução esperada precisa ser dita em prazos para o paciente, porque é ela que sustenta a decisão de não investigar. Os próprios protocolos nacionais de encaminhamento dão a medida do que se espera, ao definirem quando o tratamento deve ser considerado insuficiente: seis semanas para a síndrome radicular sem melhora e oito semanas para a dor lombar sem resposta ao tratamento clínico otimizado. Antes desses prazos, não estar curado não é sinal de erro diagnóstico, e a recorrência ao longo de um ano é comum e não significa doença nova. No pronto-socorro isso se traduz numa frase de conduta: a função deste atendimento não é descobrir o que dói, é excluir a minoria perigosa, tratar a dor bem o suficiente para o paciente se mexer, e devolvê-lo ao movimento com um plano escrito e uma data de retorno.

As nove bandeiras vermelhas, uma a uma, e o que cada uma obriga esta noite

Bandeira vermelha não é diagnóstico e não é indicação automática de imagem. É um dado que aumenta a probabilidade de doença específica e obriga a olhar de novo, com um exame físico dirigido e uma pergunta a mais. Cada uma abaixo vem com o que ela sugere e com o que ela obriga dentro deste plantão.

Idade nos extremos. Nos protocolos brasileiros de encaminhamento, primeiros sintomas antes dos vinte ou depois dos setenta anos entram como sinal de alerta que indica imagem quando o raio-X é normal ou inconclusivo. No adolescente, dor lombar verdadeira é incomum e levanta espondilólise, infecção e tumor ósseo; no idoso, muda a lista inteira de hipóteses, com fratura por fragilidade, metástase, infecção e aneurisma entrando de uma vez. O que a idade obriga hoje: nada sozinha — obriga a somar. Sozinha, a idade avançada leva a probabilidade pós-teste de malignidade a menos de 3% e a de fratura a algo entre 2% e 7%.

Trauma. Trauma significativo em qualquer idade, ou trauma trivial em quem tem osteoporose, uso prolongado de corticoide ou mais de setenta anos. Sugere fratura vertebral. O que obriga: percussão dos processos espinhosos procurando dor focal, e radiografia. Numa revisão sistemática de bandeiras vermelhas, trauma significativo elevou a probabilidade de fratura para 11% (intervalo de confiança de 95%: 8% a 16%), e a presença de contusão ou escoriação sobre a coluna, para 62% (49% a 74%) — este último é o achado de exame físico mais informativo do conjunto, e ninguém o encontra sem levantar a roupa do paciente. Trauma raquimedular com déficit neurológico é outro capítulo e outra porta: aqui interessa a fratura sem déficit e a fratura por fragilidade.

Febre. Sugere infecção da coluna, mas também pielonefrite, dengue e endocardite com embolização. O que obriga: procurar a porta de entrada na pele e nos acessos, colher hemoculturas antes de qualquer antibiótico, pedir provas inflamatórias, examinar o abdome e a punho-percussão lombar, e não interpretar a febre como parte da dor lombar. No Brasil, a combinação de dor lombar e febre num paciente jovem, com mialgia e cefaleia retro-orbitária, é dengue muito mais vezes do que é infecção vertebral — e essa suspeita tem manejo, exame e critério de gravidade próprios, definidos no manual nacional.

Perda de peso não intencional. Sugere neoplasia e infecção crônica. O que obriga: perguntar quanto e em quanto tempo, com referência concreta (roupa, cinto, balança), e examinar mama, próstata, tireoide, pulmão e linfonodos — os sítios que mais mandam metástase para a coluna. Sozinha, a perda de peso tem probabilidade pós-teste de malignidade abaixo de 3%, o que a torna um dado de contexto, e não um gatilho.

Câncer prévio. É a bandeira isolada mais informativa para doença vertebral maligna, e o seu peso muda com o lugar onde você está: na atenção primária, história de câncer leva a probabilidade pós-teste de malignidade a cerca de 7%; num serviço de emergência, ao qual chega uma população já selecionada, a mesma bandeira chega a 33% (22% a 46%). Isto tem consequência direta no seu plantão: a mesma pergunta vale mais aqui do que valeria na unidade básica. O que obriga: em paciente com câncer conhecido e dor lombar nova, a imagem é do dia, não da semana, e a suspeita padrão é metástase com risco de compressão.

Imunossupressão. Corticoide crônico, quimioterapia, transplante, HIV com controle ruim, diabetes de longa data, hemodiálise, cirrose. Sugere infecção com apresentação apagada e sugere fratura, no caso do corticoide. O que obriga: rebaixar o limiar para provas inflamatórias e para imagem, e não usar a ausência de febre como argumento tranquilizador. Uso prolongado de corticoide, isolado, leva a probabilidade de fratura a 33% (10% a 67%) — o intervalo é largo, mas o limite inferior já é alto demais para ignorar.

Uso de droga injetável. Sugere espondilodiscite, abscesso epidural e endocardite, e sugere as três ao mesmo tempo. Os protocolos nacionais de encaminhamento nomeiam esta população junto com a de imunossuprimidos entre as que exigem avaliação em serviço de urgência quando há suspeita de infecção. O que obriga: exame da pele em busca de sítios de punção, ausculta cardíaca procurando sopro novo, hemoculturas, e a decisão de não dar alta antes do resultado das provas inflamatórias.

Dor noturna que não alivia deitado. Sugere processo expansivo no corpo vertebral — infecção, tumor — e, quando vem com rigidez matinal prolongada e melhora com exercício em paciente jovem, sugere doença inflamatória axial. O que obriga: a pergunta precisa ser feita com precisão, porque quase todo mundo com dor diz que dorme mal. A pergunta útil é se a dor melhora depois que ele deita e fica parado. Se a resposta é que piora, ou que ela o acorda e o obriga a levantar, o quadro deixou de ser mecânico.

Déficit neurológico progressivo. É a bandeira que dispensa discussão. Perda de força documentada e que piora entre dois exames separados por horas, ou déficit que se estende a mais de uma raiz, ou qualquer alteração de esfíncter. O que obriga: acionar a referência antes do resultado de qualquer exame. Progressão só é reconhecível se o primeiro exame foi escrito com número e horário — sem isso, o segundo exame não compara com nada.

Duas leituras fecham a seção. A primeira: bandeiras isoladas quase nunca fecham diagnóstico, mas a combinação delas muda a categoria do paciente — múltiplas bandeiras juntas elevaram a probabilidade de fratura para 90%, com intervalo de confiança amplo (34% a 99%). A segunda: bandeira vermelha é sinal de que a régua mudou, não de que a ressonância foi indicada. O que quase toda bandeira obriga é um exame físico melhor e duas ou três perguntas a mais, e isso custa cinco minutos e nenhum exame.

A síndrome da cauda equina, que é a única emergência de horas

Chamar a cauda equina de ciática intensa é um erro de categoria, e não de grau. O que está comprimido não é uma raiz, é o feixe inteiro de raízes lombossacras dentro do canal, por hérnia central volumosa, tumor, abscesso ou hematoma — e por isso o quadro é bilateral, envolve o períneo e tem prazo em horas. Os protocolos brasileiros de encaminhamento a definem por três achados, e basta a suspeita para mandar o paciente para o serviço de urgência: perda de força e alteração de sensibilidade nos membros inferiores, simétrica ou assimétrica; anestesia em sela; e alteração no controle do esfíncter vesical ou anal.

O jeito como ela chega ao pronto-socorro raramente é o do livro. O paciente vem por dor, não por bexiga. Ele diz que a dor melhorou de um lado e piorou do outro, ou que a perna que doía agora está dormente. Diz que está urinando normalmente, e está — em pequenos volumes, várias vezes, sem sentir vontade, porque o que ele tem é transbordamento de uma bexiga que ele já não sente. Diz que ficou com o cós da calça esquisito, ou que não sentiu direito ao se limpar. Sensibilidade em sela é perguntada com essas palavras concretas: se ele sente o papel higiênico, se sente a água do banho na região entre as pernas, se sente quando o jato de urina sai.

Duas coisas, nesse relato, custam função que não volta. A primeira é a melhora da dor. A raiz comprimida ao ponto de perder condução deixa de transmitir também o estímulo doloroso, e o paciente relata alívio. Membro que trocou dor por dormência, no mesmo período em que apareceu dificuldade para urinar, está piorando com aparência de melhora. A segunda é encerrar a avaliação urinária na resposta que o paciente dá. O que vale é o volume que sobra dentro da bexiga logo depois de ele urinar, medido com o aparelho de ultrassom se o serviço tiver um, e com uma sonda de alívio se não tiver. Volume alto, em paciente com dor lombar e alteração de sensibilidade no períneo, muda a classificação do caso naquele minuto, sem esperar imagem.

O tempo aqui não é retórica. A ordem de recuperação das funções depois da descompressão segue a ordem em que elas foram perdidas, e a bexiga, que costuma ser a primeira a cair, é a última a voltar, quando volta. O que se decide no pronto-socorro não é o diagnóstico definitivo: é a velocidade. Acionar a referência de neurocirurgia ou de cirurgia de coluna acontece com a suspeita, em paralelo com o pedido de ressonância, e não depois do resultado.

A infecção da coluna, que é o diagnóstico que o pronto-socorro brasileiro perde

A espondilodiscite e o abscesso epidural espinhal são o par de doenças que este capítulo existe para não deixar passar, porque elas se apresentam exatamente como a queixa mais banal do plantão e porque o dano se instala devagar, com muitas oportunidades de acerto desperdiçadas pelo caminho. A tríade clássica — dor, febre e déficit neurológico — completa é minoria. Na série brasileira citada acima, dez dos treze pacientes abriram o quadro com dor na região acometida e apenas um teve febre isolada como primeira manifestação.

O retrato que reconhece é outro: dor lombar ou dorsal de instalação insidiosa, com semanas de evolução, que não cede com repouso e piora à noite, em alguém que tem porta de entrada. A porta de entrada é o dado que ninguém pergunta. Úlcera de pé diabético tratada há dois meses. Infecção urinária de repetição. Fístula de hemodiálise. Cateter venoso. Foco dentário. Punção lombar ou infiltração recente. Uso de droga injetável. Somada a isso, a dor à percussão dos processos espinhosos num ponto — dor focal, não em faixa — é o achado de exame que mais aponta para dentro do osso.

O abscesso epidural acrescenta a esse quadro uma progressão em degraus que dá o prazo de cada decisão: primeiro a dor localizada na coluna, depois a dor radicular, depois o déficit motor e a alteração de esfíncter, e por fim a paralisia. Entre os dois primeiros degraus e o terceiro pode haver dias; entre o terceiro e o quarto, horas. O paciente que chega no primeiro degrau tem prognóstico excelente e passa despercebido; o que chega no quarto tem prognóstico ruim e chama atenção de todo mundo. O trabalho está inteiro nos degraus do meio.

Há um sinal administrativo que vale como sinal clínico: a revisita. O paciente que volta ao mesmo pronto-socorro pela terceira vez com a mesma dor não está exagerando nem procurando atestado — está informando que a hipótese das duas primeiras vezes estava errada. A conduta correta na terceira visita não é repetir a receita das duas primeiras; é mudar a régua. Provas inflamatórias, hemoculturas se houver febre ou porta de entrada, e exame neurológico documentado com números.

A dor lombar que não é da coluna

Uma parte dos pacientes com "dor nas costas" escrita na ficha tem doença de outro órgão, e essa parte concentra as mortes evitáveis do capítulo. A dor lombar deles é referida ou retroperitoneal, e a ficha diz lombar porque foi assim que o paciente apontou. O recorte aqui é estreito de propósito: o paciente cuja queixa principal é o abdome pertence ao capítulo de dor abdominal no pronto-socorro, com a régua dele. O que interessa nesta seção é o inverso — a doença abdominal ou retroperitoneal que chega classificada como queixa de coluna, e que por isso entra na fila errada, com a pulseira errada e com o exame errado pedido primeiro.

Corte axial anatômico colorido do abdome superior mostra vasos centrais, corpo vertebral, canal vertebral, músculos psoas, rins e alças anteriores.
No corte axial, anterior está em cima e o lado direito do paciente aparece à esquerda. Rins e psoas estão em relação com o retroperitônio; aorta e veia cava mantêm posições distintas junto à coluna. Trata-se de ilustração anatômica, não de tomografia.

A aorta é a primeira da lista. Aneurisma roto ou em ruptura contida dá dor lombar ou de flanco de instalação súbita, muitas vezes com irradiação inguinal e com hematúria, o que faz o quadro ser confundido com cólica renal por qualquer pessoa razoável. O que separa: idade acima de sessenta, tabagismo, hipertensão, primeira crise da vida, ausência de história de cálculo, massa abdominal pulsátil, assimetria de pulsos femorais e hipotensão que aparece e some. O exame que responde é o ultrassom à beira do leito para medir o diâmetro da aorta, e a angiotomografia quando ele mede grande ou é inconclusivo.

O rim vem em seguida, com três quadros distintos. O cálculo ureteral dá cólica com o paciente inquieto, incapaz de encontrar posição, com punho-percussão dolorosa e hematúria. A pielonefrite dá dor lombar contínua com febre, calafrio e sinais urinários, e é a causa mais comum de dor lombar febril na mulher jovem. A pionefrose — obstrução com infecção acima dela — é a emergência urológica que se esconde nas duas anteriores: paciente com cólica, febre e sinais de sepse precisa de desobstrução, e não apenas de antibiótico. O exame que responde é o ultrassom de vias urinárias procurando dilatação.

Completam a lista o pâncreas, com dor epigástrica em faixa que atravessa para o dorso e melhora com o tronco fletido para a frente; a úlcera perfurada e a doença biliar, que dão dor referida ao dorso e abdome que denuncia no exame; as causas ginecológicas em mulher em idade fértil, o que torna o teste de gravidez parte do raciocínio; o herpes-zóster antes das vesículas, que dá dor em faixa unilateral com alodinia da pele por dois a três dias sem nada para ver; e o abscesso de psoas, que dá dor lombar com o quadril mantido fletido e piora à extensão passiva. Em todos, o achado que separa não está na coluna: está no abdome, no flanco, na pele ou na história — e é por isso que o exame do paciente com dor lombar inclui necessariamente o abdome descoberto.

Quem muda o cálculo: idoso, imunossuprimido, gestante, criança

No idoso a lista de hipóteses é outra desde a primeira frase. Fratura por fragilidade acontece sem trauma reconhecível, com dor súbita ligada a um movimento banal e dor focal à percussão. Estenose de canal produz dor e peso nas pernas ao caminhar, com alívio ao sentar ou ao inclinar o tronco para a frente. Metástase e infecção entram na lista por direito próprio. E o aneurisma de aorta é, nesta faixa, a hipótese que não pode ser deixada de fora por conveniência. O erro típico desta faixa etária é fechar o raciocínio na palavra artrose, que aparece em quase todo mundo dessa idade e por isso não distingue ninguém: ela explica igualmente bem o paciente que tem uma metástase e o que não tem.

No imunossuprimido e no diabético de longa data, o que muda é a qualidade do sinal, não a lista. A febre pode faltar, a leucocitose pode faltar, a dor pode ser menor do que a doença. O que resta são provas inflamatórias, a porta de entrada e a evolução temporal. Em quem faz hemodiálise, a bacteremia de repetição pelo acesso vascular torna a espondilodiscite uma hipótese de primeira linha diante de dor lombar nova e persistente.

Na gestante, a dor lombar é quase universal no terceiro trimestre e por isso é a queixa que mais esconde outras coisas: pielonefrite, que é mais frequente e mais grave na gravidez; trabalho de parto prematuro, que pode se manifestar como dor lombar rítmica; e descolamento de placenta, com dor lombar contínua e tônus uterino aumentado. Toda dor lombar em gestante inclui exame obstétrico e exame de urina, e o manejo obstétrico propriamente dito é assunto dos capítulos de obstetrícia.

Na criança e no adolescente, a idade é bandeira por si só, porque dor lombar persistente nessa faixa é incomum. Espondilólise e espondilolistese no atleta, discite, osteomielite vertebral e tumor ósseo entram todos. Dor lombar em criança que dura mais de duas semanas, que acorda à noite ou que vem com claudicação, recusa a andar, febre ou emagrecimento é investigação, não observação.

06

Como fechar o diagnóstico

O interno erra pouco por não conhecer a espondilodiscite. Erra por pedir o exame errado na hora errada, e por deixar de fazer, de graça, a pergunta que teria mudado tudo. Esta seção está na ordem em que a decisão acontece no plantão: primeiro a conversa, depois as mãos, depois o exame de cabeceira, depois o laboratório e a imagem — e por último a pergunta que a maior parte dos serviços brasileiros enfrenta de madrugada, que é o que fazer quando o exame indicado não existe naquele prédio.

A anamnese que decide, e ela cabe em nove perguntas

As perguntas abaixo levam três minutos e substituem a maior parte dos exames que se pedem por insegurança. Elas estão escritas do jeito que devem ser ditas, porque a versão técnica delas produz respostas inúteis.

Primeira: quando começou e o que o senhor estava fazendo? Instalação em segundos, com o paciente capaz de dizer o minuto, é linguagem de ruptura ou de oclusão vascular. Instalação em horas ligada a esforço é linguagem mecânica. Instalação em semanas, arrastada, é linguagem de processo que ocupa espaço.

Segunda: quando o senhor deita e fica parado, melhora? Esta é a pergunta central do capítulo, e ela precisa ser feita nesses termos. "Dorme bem?" não serve, porque quem tem dor dorme mal por definição. O que separa é se o repouso alivia. Se piora deitado, ou se a dor o acorda e o obriga a levantar, o quadro deixou de ser mecânico e a investigação começa.

Terceira: onde o senhor teve infecção nos últimos três meses? Perguntar por ferida, dente, urina, cateter, hemodiálise, injeção. A porta de entrada é o dado que transforma uma dor lombar arrastada em suspeita de infecção vertebral, e ele nunca aparece sozinho na história.

Quarta e quinta, sobre a bexiga e o períneo, ditas em português concreto: o senhor está sentindo vontade de urinar, ou vai ao banheiro porque acha que está na hora? Está escapando urina sem o senhor perceber? O senhor sente o papel higiênico quando se limpa? Sente a água do banho entre as pernas? Uma resposta hesitante em qualquer das quatro obriga a medir o resíduo pós-miccional.

Sexta: o senhor perdeu peso sem querer? Quanto, em quanto tempo, e como o senhor sabe — a roupa, o cinto, a balança. Sétima: o senhor já tratou câncer? Qual, quando, e como terminou. Oitava: o senhor toma corticoide, faz quimioterapia, é transplantado, tem HIV, faz diálise? Nona: houve queda, acidente ou esforço fora do comum, mesmo pequeno?

Há uma décima pergunta que não é sobre o paciente e sim sobre a passagem dele pelo serviço: é a primeira vez que o senhor vem por causa disso? A resposta "é a terceira" tem peso diagnóstico próprio e muda a régua daquele atendimento.

O exame físico que decide, em cinco minutos e com quatro números escritos

O paciente com dor lombar precisa ser examinado sem roupa na região, de pé e deitado. Metade dos achados que separam o comum do grave só aparece com a roupa levantada: escoriação e contusão sobre a coluna, vesículas de zóster, sítios de punção, úlcera de pé, cicatriz cirúrgica na coluna.

A coluna se examina em quatro tempos. Inspeção, procurando deformidade, lesão de pele e postura antálgica. Palpação da musculatura paravertebral, que na lombalgia mecânica está contraída e dolorosa em faixa. Percussão dos processos espinhosos um a um, procurando dor focal em um ponto — este é o achado que aponta para dentro do osso, e ele é diferente do dolorimento difuso da musculatura. Mobilidade, observando o que o paciente consegue fazer, e não o quanto ele diz que dói.

O exame neurológico dos membros inferiores é o que produz os números que a reavaliação vai comparar. Força graduada de zero a cinco, testada em flexão dorsal do hálux e do tornozelo, extensão do joelho e flexão plantar, com o valor de cada lado anotado. Reflexos patelar e aquileu, presentes ou ausentes, comparados. Sensibilidade nos territórios da face anterior da coxa, da face lateral da perna e do dorso do pé, e da planta e borda lateral do pé. Elevação da perna estendida, com o ângulo em que a dor irradiada aparece. Marcha nas pontas dos pés e nos calcanhares, que testa duas raízes em dez segundos.

Nos pacientes com qualquer queixa de esfíncter, de sensibilidade perineal ou com déficit bilateral, o exame inclui a sensibilidade em sela e o toque retal, com tônus em repouso e contração voluntária. Não é exame opcional nesse subgrupo, e a recusa do paciente precisa constar do prontuário com a explicação que lhe foi dada.

Faltam duas partes do exame que ninguém associa a dor lombar e que este capítulo trata como obrigatórias. O abdome descoberto, palpado procurando massa pulsátil e defesa, com ausculta e com os pulsos femorais comparados. E a punho-percussão lombar, junto com a temperatura aferida e não perguntada.

Quatro números vão escritos no prontuário, sempre, com o horário ao lado: a força de cada grupo testado, o ângulo da elevação da perna, o resíduo pós-miccional quando medido, e a temperatura. Sem hora, o exame seguinte não compara com nada, e progressão é justamente aquilo que só existe na comparação.

Qual exame primeiro, e o que exatamente cada um responde

O primeiro exame do paciente com suspeita de cauda equina não é de imagem: é o volume residual da bexiga, medido por ultrassom vesical ou por sondagem de alívio depois que o paciente urina. Ele responde a uma pergunta binária e imediata — a bexiga está esvaziando? — e um resíduo alto num paciente com dor lombar e queixa sensitiva perineal reclassifica o caso naquele minuto, antes de qualquer outra coisa.

As provas inflamatórias respondem à pergunta da infecção. Velocidade de hemossedimentação e proteína C reativa são baratas, existem em qualquer plantão e sobem cedo na espondilodiscite, inclusive em quem não tem febre. O hemograma ajuda menos do que se imagina: leucocitose com desvio é possível, mas é o achado menos frequente do conjunto na infecção óssea. Hemoculturas, dois pares de sítios diferentes, colhidas antes da primeira dose de antibiótico, respondem à pergunta de qual germe é — e essa resposta define o tratamento por semanas.

Urina tipo I com sedimento e creatinina respondem pelo rim. Beta-HCG responde pela mulher em idade fértil. Nenhum deles é rotina cega: cada um responde a uma hipótese que você já formulou.

A radiografia simples da coluna lombar responde a fratura, alinhamento e altura de corpo vertebral. Ela não responde a infecção nas primeiras semanas: as alterações radiográficas na espondilodiscite aparecem tipicamente de duas a três semanas após o início dos sintomas, e a destruição óssea só se torna visível quando 35% a 40% da região está destruída. Uma placa normal em quem tem três semanas de dor arrastada informa apenas que ainda não há osso destruído o bastante para o método enxergar.

A tomografia responde por cálculo, por fratura e por sangramento; sem contraste para pedra e para osso, com contraste arterial quando a pergunta é a aorta. O ultrassom à beira do leito responde por três coisas em poucos minutos e sem transporte do paciente: diâmetro da aorta abdominal, dilatação da via urinária e volume vesical. A ressonância magnética é o exame que responde por infecção e por compressão neural: mostra o edema do corpo vertebral e do disco antes de qualquer destruição óssea, distingue abscesso de tecido inflamatório com o contraste e vê a extensão para o espaço epidural e a compressão das raízes. Na literatura brasileira de imagem da espondilodiscite ela é o método de escolha, seguida pela cintilografia óssea, pela tomografia e, por último, pela radiografia convencional, cujas alterações são tardias.

Uma regra que resolve a maior parte das dúvidas de pedido: escreva no prontuário, antes de solicitar, a pergunta que aquele exame vai responder e o que você fará com cada resposta possível. Exame que não muda conduta em nenhuma das respostas não é solicitado — e essa frase tem valor prático maior aqui do que em qualquer outro capítulo, porque a maca ocupada por um exame inútil é a maca que falta para a pessoa seguinte da fila.

O que não pedir, e o preço de pedir

Imagem de coluna na dor lombar aguda sem bandeira vermelha não se pede. Não é economia: é conduta ativa, e ela tem justificativa clínica própria. Achado degenerativo é tão comum em quem não tem dor que encontrá-lo em quem tem dor não informa a causa; e o laudo, redigido em vocabulário de doença e sem informar com que frequência aquele achado aparece em pessoas da mesma idade sem sintoma nenhum, transmite ao paciente e ao médico uma segurança diagnóstica que os dados não autorizam. A cascata que se abre depois é previsível: o achado vira diagnóstico, o diagnóstico vira medo de se mexer, o medo vira imobilidade, a imobilidade vira incapacidade, e numa fração dos casos tudo isso vira uma cirurgia numa coluna que ia melhorar sozinha.

Ressonância pedida no pronto-socorro para dor de poucos dias sem déficit tem, além disso, um custo específico do lugar: ela transforma um atendimento de trinta minutos em uma permanência de horas, ocupa a maca, adia o paciente seguinte e, quando o serviço não tem o aparelho, transforma um paciente que iria para casa num pedido de transferência que compete com transferências de verdade.

Também não se pede radiografia de coluna para todo mundo. Ela responde a fratura, e a pergunta da fratura só existe quando há trauma, osteoporose, corticoide, idade avançada ou dor focal à percussão. Fora disso ela devolve retificação da lordose e osteófitos — dois achados que o paciente vai levar para casa como se fossem diagnóstico.

E não se pede laboratório em bloco. Provas inflamatórias fazem sentido na suspeita de infecção ou de doença inflamatória; fora disso, um resultado levemente alterado num paciente sem hipótese gera investigação nova sem gerar informação.

O raciocínio geral por trás disso — o dano de intervir onde não há benefício, e como distinguir isso de omissão — é assunto do capítulo de prevenção quaternária. Aqui interessa a versão aplicada: a contrapartida honesta é que não pedir só é seguro quando a lista de bandeiras foi percorrida e escrita. Registrar no prontuário que não há febre, não há perda de peso, não há câncer prévio, não há imunossupressão, não há trauma, não há déficit e não há queixa esfincteriana é o que separa a decisão clínica de não investigar da omissão. Esse registro leva um minuto e é a única defesa possível, para o paciente e para você.

O diferencial resolvido pelo mesmo exame

Separar as causas de dor lombar não é exercício de lista, porque na prática cada exame pedido responde por vários diagnósticos ao mesmo tempo, e o que confirma um é o que exclui o outro.

O resíduo pós-miccional serve aos dois lados: alto, ele levanta cauda equina; baixo, ele derruba a hipótese mais urgente do plantão e libera você para pensar com calma. É o exame de melhor relação entre custo, tempo e decisão em todo o capítulo.

A angiotomografia de abdome pedida pela aorta responde por muito mais do que a aorta: mostra cálculo e hidronefrose, mostra abscesso de psoas, mostra coleção paravertebral, mostra destruição de platô vertebral e mostra doença retroperitoneal. Num paciente idoso com dor lombar aguda e sem diagnóstico, ela é frequentemente o exame que fecha o caso, qualquer que seja o caso.

A ressonância pedida pela infecção responde também pela compressão: ela mostra a espondilodiscite, mostra o abscesso epidural, mostra a metástase e mostra se as raízes estão comprimidas. Por isso, no paciente com dor lombar, febre e déficit neurológico, não faz sentido discutir qual das duas hipóteses investigar primeiro — o mesmo exame responde às duas, e o que decide a urgência é a presença do déficit.

As provas inflamatórias funcionam como filtro cruzado: normais em paciente com semanas de dor, elas tornam infecção e doença inflamatória axial improváveis; muito elevadas, elas retiram do jogo a lombalgia mecânica pura e obrigam a continuar.

O teste de gravidez, feito por hábito em toda mulher em idade fértil com dor abdominal ou lombar, é o exame que impede o erro mais silencioso do plantão, porque muda a lista de hipóteses e muda os exames que podem ser pedidos.

O que o SUS entrega, e o que fazer às duas da manhã sem ressonância

A maior parte dos prontos-socorros brasileiros não tem ressonância magnética disponível de madrugada, e vários não têm em nenhum horário. Isso não muda o diagnóstico; muda a conduta, e a conduta passa a ser a transferência. A decisão de transferir é uma conduta médica, com hora de início, e não uma tarefa administrativa que se delega e se esquece.

O que faz uma transferência acontecer é o conteúdo do pedido. Ele precisa trazer, escrito: a hipótese em uma linha, o horário do primeiro exame neurológico e o do último, com a força graduada de cada grupo nos dois momentos, o resíduo pós-miccional com o volume e o método, a temperatura, as provas inflamatórias com o valor e a hora da coleta, se as hemoculturas já foram colhidas e a que horas, o que já foi administrado, e a pergunta que se quer que o serviço de destino responda. Pedido sem esses dados vira fila; pedido com eles vira prioridade, porque a regulação consegue comparar.

Enquanto a transferência não sai, o paciente com suspeita de cauda equina fica em observação com exame neurológico repetido e horário anotado, e o com suspeita de infecção fica com as hemoculturas já colhidas — porque a primeira dose de antibiótico dada no serviço de origem sem cultura pode custar o agente etiológico, e a cultura negativa já é o basal desta doença mesmo quando tudo é feito certo.

Do lado da farmácia, vale saber o que existe. Na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024, dipirona, paracetamol e ibuprofeno estão no Componente Básico, que é o que a unidade básica e a farmácia municipal dispensam. Naproxeno, codeína e morfina estão no Componente Especializado, com fluxo próprio e não disponíveis no balcão da unidade. Uma busca em texto integral nas 254 páginas do arquivo não devolve ciclobenzaprina nem tramadol.

Isso tem consequência direta na receita de alta: o que não está na lista nacional pode simplesmente não existir no balcão da unidade básica para onde o paciente vai, e cada município monta a sua própria relação a partir dela. Prescrever relaxante muscular ou tramadol para quem depende dessa farmácia é apostar que ele vai conseguir. E, no caso do relaxante muscular, é prescrever algo que, em ensaio conduzido dentro de um pronto-socorro, não acrescentou nada ao anti-inflamatório isolado. A receita que funciona é a que o paciente consegue cumprir.

07

A régua do plantão: quem sai, quem espera e quem não sai

Aprenda a separar lombalgia comum das apresentações em que atraso ameaça função neurológica ou vida. A resposta ao analgésico e uma radiografia normal têm limites claros.

  1. 1Antes de qualquer coisa, a pergunta que não é de coluna: isto pode não ser a coluna? Aorta, rim, pâncreas, útero e anexos, pele. Abdome descoberto palpado, pulsos femorais comparados, punho-percussão lombar, temperatura aferida e teste de gravidez na mulher em idade fértil. Instalação em segundos, primeira crise da vida depois dos sessenta, tabagismo e massa pulsátil interrompem o fluxo aqui e levam a aorta para a frente da fila.
  2. 2Segunda pergunta, sobre a bexiga e o períneo, com palavras concretas: sente vontade de urinar, ou vai porque acha que está na hora? Escapa urina sem perceber? Sente o papel higiênico? Qualquer hesitação manda medir o resíduo pós-miccional agora, por ultrassom vesical ou por sondagem de alívio.
  3. 3Terceira pergunta: quando deita e fica parado, melhora? Se piora deitado, se acorda o paciente ou se obriga a levantar de madrugada, o quadro saiu da categoria mecânica e a investigação começa nesta visita.
  4. 4Quarta: a lista das bandeiras vermelhas, na mesma ordem sempre — idade nos extremos, trauma, febre, perda de peso, câncer prévio, imunossupressão, droga injetável, porta de entrada infecciosa nos últimos três meses, e é a primeira vez que vem por isso?
  5. 5Exame neurológico dirigido com quatro números escritos e a hora ao lado: força de zero a cinco em cada grupo e cada lado, ângulo da elevação da perna estendida, resíduo pós-miccional quando medido, temperatura. Sensibilidade em sela e toque retal em quem tem queixa esfincteriana, sensitiva perineal ou déficit bilateral.
  6. 6Não sai hoje, e a referência é acionada antes do exame: suspeita de cauda equina ou de compressão de cone medular; perda de força progressiva medida objetivamente; dor lombar aguda ou alteração neurológica em quem tem neoplasia acometendo a coluna; suspeita de infecção, sobretudo em imunossuprimido ou usuário de droga endovenosa; suspeita de fratura ou luxação por traumatismo recente; e dor intensa refratária ao tratamento clínico otimizado. É a lista de urgência do protocolo nacional de encaminhamento em ortopedia do adulto, e ela tem seis entradas.
  7. 7Fica em observação com reavaliação horária, sem alta e sem antibiótico antes das hemoculturas: paciente com dor que não cede ao repouso, porta de entrada e provas inflamatórias elevadas, mesmo sem febre e mesmo sem déficit. É a espondilodiscite antes do degrau em que ela se anuncia.
  8. 8Sai hoje com plano escrito, e sem imagem: bandeiras percorridas e registradas como ausentes, exame neurológico normal, dor que alivia deitado, paciente que anda. A alta traz a receita com dose e prazo, a orientação de voltar a se mexer, a data do retorno e a lista escrita do que faz voltar antes — dificuldade nova para urinar, perda de força, febre, dormência entre as pernas, dor que passa a não melhorar deitado.
  9. 9Reavalie a decisão, não só a dor. Alívio com analgésico não é reavaliação: o aneurisma contido melhora com dipirona e a raiz que perde condução dói menos. A alta se decide pelo exame repetido e pela hipótese assumida, com o horário anotado.

Zero a cinco, escrito e com hora

A força é a única variável deste capítulo que tem escala ordinal de verdade, e é a que decide entre observar e acionar. Zero é ausência de contração; um, contração visível sem movimento na articulação; dois, movimento na articulação mas não contra a gravidade; três, movimento contra a gravidade mas não contra resistência; quatro, movimento contra resistência ainda abaixo do normal; cinco, força normal. A escala está no protocolo nacional de encaminhamento em ortopedia do adulto, e o que a torna útil não é conhecê-la: é anotar o grau de cada grupo, de cada lado, com o horário. Progressão só existe na comparação entre dois exames datados, e é a progressão, não o valor isolado, que muda a conduta.

Bandeira vermelha no pronto-socorro: o que ela obriga antes de o paciente sair

BandeiraHipótese que ela levantaO que fazer antes da altaDestino
Início antes dos 20 ou depois dos 70 anosNo jovem, espondilólise, infecção, tumor ósseo; no idoso, fratura, metástase, infecção, aneurismaPercussão dos processos espinhosos, abdome e pulsos, e somar às demais bandeiras antes de decidir imagemSozinha, alta com retorno marcado; com qualquer outra bandeira, investigação nesta visita
Trauma, ou trauma trivial em osso frágilFratura vertebralLevantar a roupa e procurar contusão ou escoriação sobre a coluna; dor focal à percussão; radiografiaAlta se sem déficit e fratura estável; internação ou transferência se instabilidade ou déficit
FebreEspondilodiscite, abscesso epidural, pielonefrite, dengue, endocarditePorta de entrada na pele e nos acessos; hemoculturas antes de antibiótico; provas inflamatórias; abdome e punho-percussãoObservação até o resultado; não sai antes das provas inflamatórias
Perda de peso não intencionalNeoplasia, infecção crônicaQuantificar com referência concreta; exame de mama, próstata, tireoide, pulmão e linfonodosInvestigação em dias, com retorno agendado e não com pedido solto
Câncer prévioMetástase vertebral e compressão medularExame neurológico documentado; imagem no mesmo dia; contato com quem acompanha o pacienteNão sai sem imagem, ou sai com imagem já agendada para as próximas horas
Imunossupressão, diabetes de longa data, hemodiáliseInfecção com apresentação apagada, fratura em uso de corticoideProvas inflamatórias mesmo sem febre; hemoculturas se houver porta de entradaObservação; a ausência de febre não autoriza alta
Uso de droga injetávelEspondilodiscite, abscesso epidural e endocardite, simultâneasPele em busca de sítios de punção, ausculta cardíaca, hemoculturas, provas inflamatóriasObservação até o resultado; é uma das seis entradas de urgência do protocolo nacional
Dor que não alivia deitado, ou que acorda de madrugadaProcesso expansivo no corpo vertebral; em jovem com rigidez matinal, doença inflamatória axialConfirmar a pergunta com precisão; provas inflamatórias; ressonância se houver porta de entrada ou câncer prévioInvestigação nesta visita quando somada a qualquer outra bandeira
Déficit neurológico progressivo ou alteração de esfíncterCauda equina, compressão de cone medular, abscesso epiduralResíduo pós-miccional medido, sensibilidade em sela, toque retal, exame repetido com horaNão sai; referência acionada antes do resultado da imagem

Quando a dor lombar não é da coluna

QuadroO que o denunciaExame que respondeO que não pode atrasar
Aneurisma de aorta abdominal roto ou em ruptura contidaHomem acima de 60, tabagista, primeira crise da vida, dor súbita com irradiação inguinal, massa pulsátil, hipotensão que vai e vemUltrassom à beira do leito medindo o diâmetro da aorta; angiotomografia se grande ou inconclusivoContato com cirurgia vascular; a melhora da dor com analgésico não muda a hipótese
Cálculo ureteralCólica com o paciente inquieto, sem posição de alívio, punho-percussão dolorosa, hematúria, história prévia de pedraUltrassom de vias urinárias; tomografia sem contrasteAnalgesia; e a aorta olhada antes de aceitar o diagnóstico em paciente acima de 60
Pielonefrite e pionefroseDor lombar contínua com febre, calafrio e sintomas urinários; na pionefrose, sinais de sepseUrina com sedimento, ultrassom procurando dilataçãoAntibiótico após hemoculturas; desobstrução urgente se houver dilatação com infecção
Pancreatite agudaDor epigástrica em faixa que atravessa para o dorso, melhora com o tronco fletido, vômitosLipase; ultrassom de vias biliaresReposição volêmica e analgesia
Abscesso de psoasDor lombar com o quadril mantido fletido, piora à extensão passiva, febre arrastadaTomografia de abdomeHemoculturas e drenagem
Herpes-zóster antes das vesículasDor em faixa unilateral que não cruza a linha média, com alodinia da pele, sem achado visível por dois a três diasNenhum; o diagnóstico é a reavaliação da peleReavaliação marcada em 48 horas, e não alta com analgésico e silêncio
Causas obstétricas e ginecológicasMulher em idade fértil, atraso menstrual, dor lombar contínua com tônus uterino aumentado na gestanteBeta-HCG sempre; ultrassom e avaliação obstétricaEncaminhamento obstétrico imediato quando há gestação

O que uma bandeira isolada realmente muda, em probabilidade pós-teste

Bandeira, isoladaDoença procuradaProbabilidade pós-testeLeitura para o plantão
Contusão ou escoriação sobre a colunaFratura62% (intervalo de confiança de 95%: 49% a 74%)É o achado isolado mais informativo do conjunto, e só existe se a roupa for levantada
Uso prolongado de corticoideFratura33% (10% a 67%)Intervalo largo, mas o limite inferior já é alto demais para dispensar radiografia
Trauma significativoFratura11% (8% a 16%)Justifica radiografia, não tomografia de rotina
Idade avançadaFratura2% a 7%Sozinha não indica exame; multiplica o peso das outras bandeiras
História de câncer, na atenção primáriaMalignidade vertebralcerca de 7%Mesmo dado, população diferente: aqui é acompanhamento, não investigação imediata
História de câncer, em serviço de emergênciaMalignidade vertebral33% (22% a 46%)A mesma pergunta vale mais no pronto-socorro; é imagem do dia
Idade avançada, perda de peso ou falha de melhora em um mêsMalignidade vertebralabaixo de 3% cadaSão dados de contexto; não sustentam sozinhos um pedido de ressonância
Várias bandeiras presentes ao mesmo tempoFraturachega a 90% (34% a 99%)O que muda a categoria do paciente é a combinação, não a bandeira avulsa

A lista das seis condições que exigem serviço de urgência na dor lombar está no Protocolo 1 dos protocolos de encaminhamento da atenção primária para a atenção especializada em ortopedia do adulto, do Ministério da Saúde com o TelessaúdeRS da UFRGS, edição de 2022. O mesmo documento define a suspeita de cauda equina por perda de força e alteração de sensibilidade nos membros inferiores, anestesia em sela e alteração de esfíncter, e traz a escala de força de zero a cinco, reescrita no cartão acima com organização própria.

As probabilidades pós-teste da terceira tabela vêm da revisão sistemática de bandeiras vermelhas publicada no BMJ em 2013, que reuniu 14 estudos e 53 bandeiras. Elas foram medidas em populações diferentes e não devem ser somadas entre si; servem para calibrar o peso de cada dado, não para calcular risco individual.

Os cortes de idade divergem entre documentos brasileiros: o protocolo nacional de ortopedia do adulto usa início antes dos 20 ou depois dos 70 anos, enquanto protocolos municipais de acolhimento à demanda espontânea trabalham com menos de 18 e mais de 55. A tabela adota o corte nacional e trata a idade como multiplicador de outras bandeiras, não como gatilho isolado.

As linhas sobre aorta seguem as diretrizes de aneurisma da aorta abdominal da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular, de 2023, que listam a dor lombar com irradiação inguinal entre os sintomas do aneurisma e apontam a dor abdominal ou lombar significativa como um dos maiores preditores de ruptura, independentemente do diâmetro.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo abaixo é a de um plantão, e por isso ela começa em minutos e termina em dias. Os três primeiros marcos valem para todo mundo com dor lombar; do quarto ao sexto, o caminho se divide conforme o que a triagem encontrou; os dois últimos são a alta, que é a intervenção mais frequente e a mais subestimada deste capítulo.

Todas as doses estão escritas por extenso e vêm de documento nacional: o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica do Ministério da Saúde e o manual de manejo clínico da dengue, que é onde a tabela oficial de dipirona e paracetamol do adulto está publicada. O que o SUS financia e por qual componente vem da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024.

  1. Minuto 0 — a triagem que tira o paciente da fila

    Identifique precocemente sinais de compressão neural, doença vascular, infecção, fratura ou malignidade. Alterações urinárias novas, perda sensitiva perineal e déficit motor exigem atenção imediata; dor súbita com risco vascular pede avaliar a aorta. Trauma, osteoporose, corticoide prolongado, câncer e imunossupressão também modificam a prioridade. Não é seguro afirmar que a ausência de apenas três achados garante espera sem risco. A triagem deve integrar sinais vitais, intensidade/evolução e avaliação clínica.

    Prescrição
    • Aferir e registrar temperatura, pressão nos dois braços, frequência cardíaca e saturação — não perguntar se teve febre.
    • Teste de gravidez em toda mulher em idade fértil com dor lombar ou abdominal.
    • Anotar na ficha se é a primeira, a segunda ou a terceira vinda pela mesma dor.
  2. Minuto 0 a 15 — analgesia, que se dá antes do diagnóstico

    Analgesia não atrapalha o raciocínio e não apaga o exame do abdome; o paciente com dor forte é o que dá a pior história e o pior exame físico. Trate a dor primeiro e examine em seguida, com o paciente capaz de colaborar. A escolha de primeira linha é dipirona ou paracetamol, com anti-inflamatório associado quando não há contraindicação. Em dor intensa, a via endovenosa acelera, e não muda a decisão de destino.

    Prescrição
    • Dipirona 500 mg a 1 g (1 a 2 comprimidos de 500 mg, ou 20 a 40 gotas da solução de 500 mg/mL, ou 1 a 2 mL da solução injetável de 500 mg/mL diluídos e aplicados lentamente), por via oral ou endovenosa, até de 6 em 6 horas, sem passar de 4 g em 24 horas. Faixa e frequência conforme o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica, que prescreve dipirona 500 mg, um a dois comprimidos até quatro vezes ao dia.
    • Alternativa ou associação: paracetamol 500 mg a 1 g por via oral, de 6 em 6 horas, sem exceder 4 g em 24 horas, conforme a tabela de doses do manual nacional de manejo clínico da dengue.
    • Anti-inflamatório, quando não houver úlcera ativa, sangramento digestivo, doença renal crônica ou insuficiência cardíaca descompensada: ibuprofeno 600 mg por via oral de 8 em 8 horas, com alimento — o que soma 1.800 mg por dia, dentro da faixa de 1.200 a 2.400 mg diários citada no protocolo nacional de dor crônica.
    • Em maiores de 65 anos ou com antecedente digestivo, associar omeprazol 20 mg por via oral pela manhã enquanto durar o anti-inflamatório.
    • Não prescrever relaxante muscular, benzodiazepínico ou corticoide como reflexo. Escada analgésica, rodízio de opioide e manejo de efeito adverso pertencem ao capítulo de analgesia do paciente internado; aqui a questão é outra e mais simples, e é se o segundo fármaco acrescenta alguma coisa. Em ensaio conduzido dentro de um pronto-socorro, com 323 pacientes com dor lombar aguda não traumática e não radicular, acrescentar ciclobenzaprina ou oxicodona com paracetamol ao anti-inflamatório não melhorou a função em uma semana: a melhora foi de 9,8 pontos com placebo, 10,1 com ciclobenzaprina e 11,1 com o opioide, com diferenças de 0,3 ponto (intervalo de confiança de 95%: -2,6 a 3,2; p = 0,77) e 1,3 ponto (-1,5 a 4,1; p = 0,28).
  3. Minuto 15 a 30 — o exame que decide, com quatro números no papel

    Com a dor controlada, o exame rende. Ele responde a duas perguntas: isto é da coluna, e há déficit? A primeira se responde com o abdome descoberto, os pulsos femorais, a punho-percussão e a pele. A segunda, com força graduada, reflexos, sensibilidade e marcha. Nos pacientes com qualquer queixa esfincteriana, sensitiva perineal ou déficit bilateral, entram a sensibilidade em sela, o toque retal e a medida do resíduo pós-miccional.

    Prescrição
    • Registrar, com horário: força de zero a cinco em dorsiflexão do hálux e do tornozelo, extensão do joelho e flexão plantar, de cada lado; ângulo da elevação da perna estendida; temperatura.
    • Medir o resíduo pós-miccional por ultrassom vesical ou por sondagem de alívio imediatamente após micção espontânea, e registrar o volume e o método.
    • Em suspeita de infecção: hemograma, velocidade de hemossedimentação, proteína C reativa e duas amostras de hemocultura de sítios diferentes, colhidas antes de qualquer antibiótico.
    • Em suspeita vascular: ultrassom à beira do leito medindo o diâmetro da aorta abdominal, dois acessos venosos calibrosos, tipagem sanguínea e prova cruzada.
  4. Hora 0 a 1 — a rota vascular, que é a mais curta

    O paciente com dor lombar súbita, mais de 60 anos, tabagismo ou hipertensão e primeira crise da vida é tratado como aneurisma até que a aorta seja vista. Se ele estiver instável, o destino é o centro cirúrgico e o contato com cirurgia vascular acontece antes do exame; se estiver estável, a angiotomografia é o exame, e ele não vai sozinho para a sala de tomografia. A armadilha desta rota é a melhora: a dor alivia com analgésico e a pressão se recupera com volume, e nada disso significa que parou de sangrar.

    Prescrição
    • Dois acessos venosos calibrosos, monitorização contínua, tipagem e prova cruzada solicitadas na chegada.
    • Contato com cirurgia vascular ou com a regulação de vaga na suspeita, e não depois da imagem.
    • Reposição volêmica contida, mirando o paciente consciente e conversando, e não a normalização da pressão.
    • Angiotomografia de aorta abdominal no paciente estável; ultrassom à beira do leito no instável, sem sair da sala.
  5. Hora 1 — a rota da cauda equina, em que o acionamento vem antes do exame

    Levantada a suspeita, o atendimento se divide em três frentes simultâneas, com pessoas diferentes em cada uma: alguém mede o resíduo pós-miccional, alguém faz o exame perineal com toque retal, e você telefona para a neurocirurgia ou para a cirurgia de coluna e pede a ressonância em caráter de urgência. Deixar o telefonema para depois do laudo é o erro que custa a bexiga. O que não se faz: agendar ressonância ambulatorial, prescrever anti-inflamatório com retorno em sete dias, ou aceitar a melhora da dor como sinal de melhora. Resíduo pós-miccional é dado complementar: um valor baixo não exclui cauda equina incompleta. Toque retal normal também não oferece exclusão segura. Nenhuma dessas avaliações deve atrasar ressonância e contato especializado quando há suspeita clínica.

    Prescrição
    • Resíduo pós-miccional medido e registrado; sonda vesical de demora se houver retenção, com registro do volume drenado.
    • Ressonância magnética de coluna lombossacra em caráter de urgência; se o serviço não tiver o aparelho, abrir a transferência na mesma hora, com o conteúdo descritivo completo.
    • Exame neurológico repetido de hora em hora enquanto o paciente permanecer no serviço, com força graduada e horário.
    • Jejum, acesso venoso e avaliação pré-anestésica encaminhados em paralelo, porque a descompressão é cirúrgica.
  6. Hora 1 a 4 — a rota da infecção da coluna

    Na suspeita de espondilodiscite, colha hemoculturas e marcadores inflamatórios e organize ressonância e avaliação especializada. Em estabilidade hemodinâmica e neurológica, pode-se adiar antibiótico empírico para aumentar a chance de diagnóstico microbiológico, com vigilância e plano definido. Sepse, choque ou comprometimento neurológico grave/progressivo exigem antimicrobiano e avaliação cirúrgica imediatos, buscando culturas sem atraso significativo. A imagem não deve esperar dias pelo resultado final da hemocultura.

    Prescrição
    • Duas amostras de hemocultura de sítios diferentes antes da primeira dose de antibiótico, com o horário registrado.
    • Velocidade de hemossedimentação e proteína C reativa na chegada, com valor e hora anotados para servirem de linha de base.
    • Ressonância magnética com contraste da coluna, que responde por espondilodiscite, abscesso epidural e compressão ao mesmo tempo. Radiografia normal não afasta: as alterações radiográficas aparecem de duas a três semanas depois do início dos sintomas e exigem 35% a 40% da região destruída.
    • Não dar alta com antibiótico oral e retorno se piorar. O paciente com suspeita fica até que as provas inflamatórias e a imagem tenham respondido, ou é transferido.
  7. Hora 2 a 4 — a alta do paciente comum, que é a conduta mais frequente

    A maior parte dos pacientes com dor lombar do seu plantão vai para casa, e a qualidade dessa alta determina se eles voltam em seis semanas curados ou em seis meses incapacitados. A alta tem quatro partes, e nenhuma delas é opcional: a receita com dose e prazo, a orientação de movimento, a data do retorno e a lista escrita do que faz voltar antes. A quinta parte é o que não vai: repouso no leito prolongado, colete, imagem e atestado longo.

    Prescrição
    • Escolher analgesia conforme intensidade, resposta e riscos, com dose máxima e prazo explícitos. Horário regular por curto período pode ajudar quando a dor é contínua; uso se necessário é razoável quando intermitente ou em melhora. Não obrigar todos a cinco dias de dose máxima.
    • Se anti-inflamatório for apropriado, usar a menor dose eficaz pelo menor tempo necessário, considerando risco renal, cardiovascular, digestivo e interações. A dose de 600 mg de ibuprofeno a cada 8 horas é uma possibilidade, não uma exigência para toda lombalgia.
    • Omeprazol 20 mg por via oral pela manhã enquanto durar o anti-inflamatório, em maior de 65 anos ou com antecedente digestivo.
    • Manter atividades toleradas e retomar progressivamente as habituais, com adaptações temporárias. Não prescrever repouso de dois dias como etapa obrigatória; evitar repouso prolongado e orientar sinais que exigem interromper o plano e retornar.
    • Retorno na unidade básica em 7 dias, com data escrita no papel, e não a frase de voltar se piorar.
  8. Da alta ao dia 7 — o que o pronto-socorro entrega à rede

    O que o paciente leva na mão é o que a rede vai receber. Uma alta que diz apenas dor lombar aguda devolve o caso ao ponto zero; uma alta que diz o que foi excluído, com que exame e em que horário, permite que a próxima consulta comece de onde esta parou. Daqui em diante, o cuidado da lombalgia mecânica, da ciática e do retorno ao trabalho pertence ao acompanhamento longitudinal e ao capítulo de lombalgia e hérnia de disco: a partir da segunda semana o que decide a conduta é a evolução, e não mais o risco imediato.

    Prescrição
    • Escrever na alta: bandeiras vermelhas percorridas e ausentes, exame neurológico normal com os grupos testados, e por que a imagem não foi indicada.
    • Entregar por escrito a lista do que faz voltar antes: dificuldade nova para urinar ou escape de urina, perda de força, dormência entre as pernas, febre, dor que passa a não melhorar deitado, ou dor que piora depois de ter melhorado.
    • Atestado pelo tempo estritamente necessário, com retorno ao trabalho adaptado quando possível — afastamento longo é fator de risco para incapacidade, não tratamento.
    • Quando houver bandeira sem indicação de urgência, encaminhar com o conteúdo descritivo mínimo que o protocolo nacional exige, e com o exame já solicitado, em vez de transferir a tarefa inteira para a rede.
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Como saber se está funcionando

Reavaliar dor lombar no pronto-socorro é diferente de reavaliar quase tudo o mais, porque o parâmetro mais fácil de medir — a dor — é o menos confiável. A dor melhora com analgésico no aneurisma que sangra, melhora sozinha na raiz que perdeu condução, e melhora com o tempo na lombalgia comum. Nenhuma dessas três melhoras significa a mesma coisa, e as três produzem a mesma frase no prontuário se ninguém escrever mais nada.

Há um problema de organização que agrava isso e que é específico deste lugar. O paciente com dor lombar em observação é, quase sempre, o paciente de menor prioridade aparente do corredor: ele anda, fala, não está monitorizado e não tem alarme tocando. É o primeiro a ser esquecido quando a sala vermelha enche, e é o único cujo agravamento não dispara nenhum aviso automático. A reavaliação dele, portanto, precisa ser agendada: hora marcada, tarefa nomeada, e alguém responsável por ela.

A passagem de plantão é o outro ponto de perda. O que o plantonista seguinte recebe sobre este paciente costuma ser "dor lombar, aguardando exame", o que apaga toda a informação que decide o caso. A passagem útil é a que entrega três coisas: qual hipótese está sendo assumida, qual achado a mudaria, e qual foi o último exame neurológico com os graus de força e o horário. Sem isso, a reavaliação seguinte não é reavaliação — é um primeiro atendimento repetido.

Cada parâmetro abaixo vem com o intervalo, com o valor que significa que o caminho está certo, e com o que fazer quando ele não acontece. Dois deles não são clínicos: o relógio da transferência e a documentação. Estão aqui porque, nesta queixa, o desfecho depende deles tanto quanto do exame físico.

Força graduada nos mesmos grupos, com o número e a horaA cada hora enquanto o paciente estiver em observação por suspeita de compressão; antes da alta em todos os demais

Esperado: Grau estável ou melhor que o exame anterior, nos mesmos grupos e nos dois lados

Se não melhora: Queda de um grau em qualquer grupo entre dois exames datados é progressão, e progressão é indicação de acionamento imediato da referência, independentemente de a dor ter melhorado. Se não houve exame anterior escrito, o exame de agora vira a linha de base e o próximo é em uma hora.

Resíduo pós-miccionalNa suspeita inicial e novamente em 4 a 6 horas se a primeira medida foi limítrofe ou se surgiu queixa nova

Esperado: Volume baixo e estável, com o paciente relatando vontade de urinar preservada

Se não melhora: Resíduo que sobe, ou que se mantém alto, é indicação de sondagem de demora e de manter o acionamento da referência. Volume alto com o paciente dizendo que urina normalmente é transbordamento, e não deve ser lido como normalidade.

Sensibilidade em sela e tônus do esfíncterJunto de cada exame de força, sempre com as mesmas perguntas concretas

Esperado: Sem alteração nova em relação ao exame anterior

Se não melhora: Qualquer alteração nova é critério de urgência mesmo isolada, e mesmo com resíduo normal. A ausência de exame anterior documentado não pode ser usada como argumento de que nada mudou.

Padrão da dor, e não a intensidade delaEm cada reavaliação, com a mesma pergunta: melhora quando o senhor deita e fica parado?

Esperado: Dor que continua respondendo à posição, com o paciente conseguindo mudar de decúbito

Se não melhora: Dor que deixou de responder à posição durante a observação mudou de categoria. Refaça a lista de bandeiras inteira e considere que a hipótese inicial estava errada, em vez de aumentar a analgesia.

Temperatura e provas inflamatóriasTemperatura de 4 em 4 horas na observação; proteína C reativa e velocidade de hemossedimentação na chegada, como linha de base

Esperado: Afebril e provas normais afastam infecção vertebral com razoável segurança em quem tem semanas de dor

Se não melhora: Provas elevadas sem foco explicam a permanência: o paciente fica, as hemoculturas ficam colhidas e a imagem é garantida. Febre que aparece durante a observação reabre o caso inteiro.

Pressão arterial, frequência e perfusão na suspeita vascularMonitorização contínua desde a suspeita até a definição por imagem ou por cirurgia

Esperado: Estabilidade sem necessidade de volume repetido, com paciente lúcido

Se não melhora: Cada nova expansão volêmica necessária é sinal de sangramento ativo. Hipotensão que retorna depois de responder ao volume é indicação de sala cirúrgica, e não de repetir a tomografia.

Diurese, creatinina e resposta do quadro urinárioNas primeiras horas quando a hipótese é renal, e sempre que houver sondagem

Esperado: Diurese adequada, dor em queda e ausência de febre

Se não melhora: Cólica que não cede com analgesia plena, febre associada ou dilatação da via urinária no ultrassom mudam o destino para desobstrução urgente, e não para ajuste de analgésico.

O relógio da transferênciaRegistrado a cada contato: hora do pedido, quem foi acionado, o que respondeu, e a hora da resposta

Esperado: Resposta e vaga definidas em prazo compatível com a hipótese, contadas em horas na suspeita de cauda equina

Se não melhora: Transferência sem resposta é problema clínico, e não administrativo: escale para a chefia do plantão e para a regulação com o mesmo texto que fundamentou o pedido, e mantenha o paciente em reavaliação horária enquanto isso. O registro do horário é o que permite que alguém mais acima resolva.

O registro escrito, tratado como parâmetro clínicoAo fim de cada reavaliação, e obrigatoriamente antes de qualquer alta ou passagem de plantão

Esperado: Prontuário com a hipótese assumida em uma linha, as bandeiras percorridas e o resultado de cada uma, os graus de força com horário, e o motivo de a imagem ter ou não sido indicada

Se não melhora: Quando o registro não existe, a próxima reavaliação começa do zero e o paciente perde a única coisa que este atendimento produziu de valor. Se você não tiver tempo de escrever tudo, escreva as duas linhas que mais importam: a hipótese assumida e o achado que a mudaria.

A hipótese, revisada em voz altaSempre que qualquer parâmetro acima sair do esperado, e sempre na segunda reavaliação de um mesmo plantão

Esperado: A hipótese continua explicando todos os achados, inclusive os que apareceram depois dela

Se não melhora: Achado novo que a hipótese não explica é hipótese errada, e não achado irrelevante. Refaça a lista de bandeiras inteira, e apresente o caso a alguém — o custo de dizer em voz alta o que você está assumindo é de dois minutos, e é a intervenção mais eficaz do capítulo contra o erro de fixação.

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Onde o erro machuca

Dar alta porque a dor melhorou

O dano: O alívio é a informação menos confiável desta queixa. O aneurisma em ruptura contida alivia com dipirona e recupera pressão com volume; a raiz comprimida a ponto de perder condução dói menos justamente quando o dano se instala; o abscesso epidural passa dias no degrau da dor localizada. Alta assinada com base no escore de dor manda para casa exatamente os três pacientes que não podiam ir.

Como pegar a tempo: A alta se decide pelo exame repetido e pela hipótese assumida, não pela resposta ao analgésico. Antes de assinar, refaça o exame neurológico, escreva os graus de força com o horário, e escreva no prontuário qual hipótese você está assumindo e o que a sustenta. Se a única frase disponível for que o paciente melhorou, a alta ainda não está pronta.

Aceitar que o paciente está urinando sem medir o resíduo

O dano: A perda da sensação de bexiga cheia vem antes da retenção percebida. O paciente urina em pequenos volumes, várias vezes, sem vontade, e descreve isso como normalidade ou como excesso. Enquanto a resposta é aceita, a bexiga distende além do ponto de contração eficaz e a raiz sacral segue comprimida — e a função vesical é a que menos volta depois da descompressão.

Como pegar a tempo: Em todo paciente com déficit, com queixa sensitiva perineal ou com dúvida, meça o resíduo pós-miccional por ultrassom vesical ou por sondagem de alívio logo após a micção, e escreva o volume e o método. A pergunta certa também muda o rendimento: não é se está urinando, é se está sentindo vontade de urinar.

Chamar de cólica renal a primeira cólica de um homem acima dos sessenta

O dano: O aneurisma de aorta em ruptura contida produz dor lombar súbita com irradiação inguinal e pode produzir hematúria pela compressão do ureter — a descrição integral do cálculo. Nesse cenário, a ficha escrita como cólica renal reorganiza o atendimento inteiro em torno da hipótese errada: o paciente é medicado, melhora, e passa a esperar um exame de urina numa maca de corredor enquanto sangra para o retroperitônio.

Como pegar a tempo: Antes de aceitar cálculo em maior de sessenta anos com primeira crise, palpe o abdome procurando massa pulsátil, compare os pulsos femorais e olhe a aorta no ultrassom à beira do leito — três minutos. As diretrizes brasileiras de aneurisma da aorta abdominal apontam a dor abdominal ou lombar significativa como um dos maiores preditores de ruptura, independentemente do diâmetro.

Repetir na terceira visita a conduta das duas primeiras

O dano: A revisita pela mesma queixa é dado clínico, e o serviço que a trata como insistência do paciente perde a única informação nova que ele trouxe: a hipótese anterior não explicou o quadro. É assim que se acumula o atraso medido em série brasileira de espondilodiscite, em que o intervalo médio entre o primeiro sintoma e a primeira cirurgia foi de 20,25 meses, com variação de um mês a onze anos.

Como pegar a tempo: Registre na ficha o número da vinda. Na segunda ou terceira, muda-se a régua, não a receita: provas inflamatórias, hemoculturas se houver febre ou porta de entrada, exame neurológico com números e horário, e revisão ativa da hipótese inicial em voz alta com quem estiver supervisionando.

Começar antibiótico antes de colher as hemoculturas

O dano: Na suspeita de infecção vertebral, o objetivo do atendimento é identificar o germe, porque o tratamento dura semanas e é guiado por ele. A dose empírica dada antes da coleta reduz a chance de isolamento — e a cultura negativa já é o desfecho basal desta doença, com quase um quarto dos casos de uma série brasileira ficando sem agente identificado mesmo com investigação completa. Sem agente, o caminho seguinte é a biópsia, com mais tempo perdido.

Como pegar a tempo: Duas amostras de sítios diferentes antes da primeira dose, com o horário registrado. A exceção é o paciente séptico ou com déficit em progressão: nele, colhe-se e trata-se em seguida, sem esperar resultado. Para todos os outros, a espera é a conduta, e ela precisa estar escrita no prontuário como decisão, e não parecer esquecimento.

Assinar a receita e a alta no piloto automático

O dano: As duas peças que o paciente leva para casa decidem se ele volta curado ou incapacitado, e as duas costumam ser copiadas. O risco não é hipotético nem é só do interno: está impresso em documento oficial. Um protocolo municipal brasileiro de enfermagem para demanda espontânea prescreve, no capítulo de dor lombar, paracetamol 500 mg a 1 g em administração única, ou a cada 6 horas se a febre permanecer, e dipirona em administração única, ou até 40 gotas quatro vezes ao dia se a febre permanecer. A regra de repetição foi copiada do bloco de antitérmico e aplicada a uma queixa que quase nunca tem febre: lida ao pé da letra, ela autoriza uma dose em 24 horas no paciente afebril — 1 g, contra os 4 g que o teto do próprio documento permite, um quarto do que a dor exige. E, no paciente febril, ela manda repetir antitérmico de 6 em 6 horas exatamente na situação em que o quadro de bandeiras vermelhas do mesmo documento, na página anterior, lista febre sem motivo aparente como indicador de doença grave. A regra erra nas duas pontas: subtrata quem tem dor e mascara quem tem doença. Erro parecido está na tabela nacional de doses do manual de manejo clínico da dengue, que é a referência oficial mais consultada para dipirona e paracetamol de adulto: ela apresenta 40 gotas ou 1 comprimido de 500 mg como alternativas equivalentes, e 60 gotas ou 2 comprimidos de 500 mg como a alternativa seguinte. Pelas próprias definições do apêndice — solução de 200 mg/mL, 1 mL igual a 20 gotas, portanto 10 mg por gota —, 40 gotas são 400 mg e não 500 mg, e 60 gotas são 600 mg e não 1.000 mg. Em 24 horas a diferença chega a 1.600 mg: 2.400 mg por dia em gotas contra 4.000 mg em comprimido, apresentados como a mesma prescrição. A linha da dipirona logo acima, no mesmo apêndice, fecha certa — 20 gotas de solução de 500 mg/mL, com 20 gotas por mililitro, são exatamente os 500 mg do comprimido —, o que mostra que a conversão do paracetamol é um deslize de conta, e não uma convenção.

Como pegar a tempo: Confira a conta da apresentação antes de prescrever gotas: concentração dividida pelo número de gotas por mililitro dá o miligrama por gota, e daí sai a dose real. Escreva a dose em miligramas na receita, com a apresentação entre parênteses, para que a conversão não fique a cargo de quem administra. E escreva a analgesia com horário fixo e prazo — de 6 em 6 horas por 5 dias —, não condicionada a sintoma: dor lombar aguda dói o dia inteiro e não tem febre para servir de gatilho.

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O que dizer ao paciente e à família

A conversa deste capítulo tem uma dificuldade específica: na maior parte das vezes você vai explicar por que não vai fazer alguma coisa. Não pedir exame é conduta ativa, e conduta ativa precisa ser dita em voz alta, com a justificativa junto, ou o paciente sai com a impressão de que foi mal atendido — e essa impressão é, ela própria, fator de risco para cronificação.

As falas abaixo estão escritas do jeito que se diz, e não do jeito que se descreve num manual de comunicação. O que estiver entre travessões pode ser adaptado; a estrutura é que importa.

Explicar por que não vai pedir imagem

O senhor tem uma dor de coluna do tipo que melhora sozinha, e eu examinei procurando os sinais que indicariam outra coisa: não há nenhum. Se eu pedir uma ressonância hoje, ela vai encontrar alguma alteração, porque quase todo adulto tem — inclusive quem não sente nada. Encontrar essa alteração não vai me dizer de onde vem a sua dor, e vai fazer o senhor acreditar que tem um problema grave na coluna que não tem. O exame que ajuda o senhor hoje é o que eu já fiz com as mãos. Vou tratar a dor direito e marcar o seu retorno.

Não diga: Evite dizer que não vai pedir porque não é necessário, sem explicar. Evite dizer que não tem nada — ele tem dor, e tem. E evite qualquer versão de que o exame é caro ou de que o sistema não permite: o argumento é clínico, não orçamentário.

Ao paciente que veio pedindo a ressonância e vai sair sem ela

Eu entendo o pedido, e ele faz sentido. Deixa eu explicar o que eu faria com o resultado: se viesse normal, eu trataria o senhor exatamente como vou tratar agora; se viesse com um desgaste, que é o mais provável na sua idade, eu também trataria igual, porque esse achado não explica a dor. Como o exame não muda nada do que eu vou fazer, ele só acrescentaria uma preocupação. Se em seis semanas o senhor não tiver melhorado, aí sim o exame passa a responder alguma coisa, e a gente pede.

Não diga: Evite entrar em disputa. Evite a frase de que ele não precisa, que soa como recusa. E não prometa que vai pedir depois se não for verdade.

Ao paciente que não vai para casa hoje

O senhor veio por uma dor nas costas, mas eu encontrei duas coisas no exame que não combinam com dor de coluna comum — e uma delas é urgente o suficiente para eu não deixar o senhor ir embora antes de ter certeza. Não estou dizendo que é grave; estou dizendo que preciso descartar hoje, e não na semana que vem, porque se for o que eu penso, o tempo muda o resultado.

Não diga: Evite nomear a doença antes de ter o exame, e evite o oposto — deixar o paciente sem entender por que está sendo retido. Não diga que é só por precaução: isso autoriza a pessoa a ir embora.

Ao paciente e à família na transferência de madrugada

Aqui neste hospital não temos o exame que ele precisa fazer agora, e por isso vou transferi-lo. Já falei com o serviço de destino e já mandei o resumo com tudo o que examinei e com os horários. Não é abandono nem desistência: é o contrário. Enquanto o transporte não chega, eu vou reexaminá-lo de hora em hora e anotar, porque qualquer mudança muda a prioridade da vaga.

Não diga: Evite culpar a rede na frente da família — isso aumenta a angústia e não muda nada. E não prometa horário de transporte que não depende de você.

Incerteza honesta com a família do idoso

Ainda não sei o que ela tem. O que eu sei é o que ela não tem: não é uma dor de coluna comum, porque essa melhora quando a pessoa deita, e a dela piora. Existem duas ou três possibilidades, e o exame que estamos esperando vai separá-las. Vou ser honesto sobre o que eu souber, quando eu souber, inclusive se o que eu souber for uma notícia ruim.

Não diga: Evite preencher o silêncio com hipóteses que você ainda não sustenta. Evite tranquilizar antes do resultado. E não use a palavra provável para o que é apenas possível.

Ao paciente que pede atestado longo

Vou dar o atestado, e vou explicar por quanto tempo. Ficar parado por muito tempo piora a dor de coluna em vez de melhorar: o músculo perde condicionamento em poucos dias e passa a doer com esforços menores. O que melhora é voltar a se mexer, mesmo com um pouco de dor. Então vou atestar o tempo necessário para o senhor conseguir se movimentar, e vou escrever também o que o senhor pode fazer no trabalho enquanto se recupera.

Não diga: Evite negar sem alternativa. Evite dar tempo longo para encerrar a conversa. E não sugira que o pedido é ilegítimo.

Quando o paciente chega com um laudo de outro serviço que o assustou

Esse laudo descreve alterações que são comuns na sua faixa etária e que aparecem também em pessoas sem dor nenhuma. O radiologista fez o trabalho dele, que é descrever o que viu. O meu é dizer se o que ele viu explica o que o senhor sente — e, no seu caso, o exame que eu fiz agora não mostra nada que corresponda ao que está no papel. O laudo não é a sua doença; ele é uma fotografia da sua coluna.

Não diga: Evite desqualificar o colega ou o exame. Evite dizer que o laudo está errado. E não deixe o paciente ir embora com a palavra que o assustou sem ter recebido outra no lugar.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Na suspeita de cauda equina, o que vem primeiro: a ressonância ou o telefonema para o serviço de coluna?

Primeiro a imagem, e o diagnóstico antes de qualquer discussão

A confiabilidade do diagnóstico clínico da síndrome da cauda equina é baixa, e por isso o limiar para a ressonância de emergência deve ser baixo também. A decisão de fazer o exame é do médico que examina e não depende de discussão com o serviço de coluna; a ressonância deve ser feita como emergência no próprio hospital que atende, tem precedência sobre exames de rotina, e o diagnóstico deve estar fechado antes do contato com a especialidade. Qualquer motivo de atraso, ou a decisão de não fazer o exame, precisa ficar documentado.

Standards of care for investigation and management of cauda equina syndrome, British Association of Spine Surgeons e Society of British Neurological Surgeons, dezembro de 2018.

Primeiro o acionamento, porque é ele que produz o exame

Quando a ressonância não existe no hospital que atende — a situação da maior parte dos prontos-socorros brasileiros de madrugada —, esperar o exame para acionar significa esperar uma transferência que ainda não foi pedida. Nessa realidade, a suspeita clínica é, por si só, condição de encaminhamento a serviço de urgência, e o acionamento é o que desencadeia tanto a vaga quanto o acesso ao aparelho.

Protocolos de encaminhamento da atenção primária para a atenção especializada em ortopedia do adulto, Ministério da Saúde e TelessaúdeRS/UFRGS, 2022, que lista a suspeita de cauda equina entre as seis condições que indicam encaminhamento a serviço de urgência.

Como decidir

A divergência não é sobre fisiologia; é sobre a forma do sistema de saúde em que cada documento foi escrito. Onde a ressonância está disponível no hospital de origem a qualquer hora, fazer a imagem primeiro é melhor: evita ocupar o serviço de coluna com suspeitas que a imagem vai desfazer, e o próprio documento britânico justifica isso pela baixa confiabilidade do diagnóstico clínico. Onde o aparelho não existe, a mesma sequência vira armadilha, porque o exame depende de uma transferência que só acontece se alguém pedir. A regra que sobrevive aos dois cenários é negativa e vale sempre: nunca deixe a sequência virar esperar o resultado para então telefonar. Pergunte-se onde está o aparelho que vai responder; se ele estiver dentro deste prédio, peça o exame e prossiga; se estiver em outra cidade, o telefonema é o exame. E os dois documentos concordam no que se faz enquanto se espera: reexaminar com horário anotado, e registrar por escrito o motivo de qualquer atraso.

Antibiótico empírico na suspeita de espondilodiscite: começar no pronto-socorro ou esperar a identificação do agente?

Esperar a identificação, no paciente estável

O tratamento dura semanas e é guiado pelo agente; a dose empírica reduz a chance de isolamento em hemocultura e em biópsia, e a cultura negativa já é o desfecho basal desta doença. Em quem está estável, sem febre alta e sem déficit em progressão, algumas horas de espera não alteram o prognóstico e podem definir todo o restante do tratamento.

Série brasileira de espondilodiscite do Hospital Getúlio Vargas, Recife, publicada em Coluna/Columna em 2011, que registra cultura negativa em 23% dos casos e descreve o percurso diagnóstico desses pacientes.

Começar imediatamente após as culturas, pelo risco neurológico

A infecção vertebral com extensão epidural pode progredir de dor para déficit em horas, e a paralisia instalada não se reverte com antibiótico. Diante de suspeita forte, sobretudo em imunossuprimido ou usuário de droga endovenosa, a segurança do paciente pesa mais que a chance de isolamento, e a conduta é colher as culturas e iniciar cobertura em seguida.

Protocolos de encaminhamento em ortopedia do adulto, Ministério da Saúde e TelessaúdeRS/UFRGS, 2022, que classificam a suspeita de infecção — especialmente em imunossuprimidos e usuários de drogas endovenosas — como condição de encaminhamento a serviço de urgência.

Como decidir

O critério que separa as duas posições é neurológico, não microbiológico. Paciente sem déficit, sem sinais de sepse e com acesso garantido à imagem nas próximas horas: colha, documente e espere — e escreva no prontuário que a espera é decisão, com o motivo. Paciente com qualquer déficit, com instabilidade hemodinâmica ou sem previsão de imagem no mesmo dia: colha e trate. A pergunta prática que resolve a beira do leito é uma só — se eu esperar quatro horas, o que pode acontecer com este paciente neste tempo? Se a resposta envolver a palavra paralisia, não se espera.

Qual corte de idade funciona como bandeira vermelha na dor lombar?

Antes dos 20 ou depois dos 70 anos

Corte adotado no protocolo nacional de encaminhamento em ortopedia do adulto, na lista de sinais de alerta que indicam exame de imagem quando a radiografia é normal ou inconclusiva. É o corte mais restritivo dos três e produz menos investigação.

Protocolos de encaminhamento da atenção primária para a atenção especializada em ortopedia do adulto, Ministério da Saúde e TelessaúdeRS/UFRGS, 2022.

Antes dos 18 ou depois dos 55 anos

Corte usado em protocolos municipais de acolhimento à demanda espontânea, herdado da literatura clássica de bandeiras vermelhas em lombalgia. Rastreia mais gente e captura o idoso mais jovem, em quem fratura por fragilidade e neoplasia já são possíveis.

Protocolo de enfermagem de atenção ao adulto na demanda espontânea da atenção primária, Secretaria Municipal da Saúde de Joinville, 2020, cujo quadro de bandeiras vermelhas na dor lombar adota idade menor que 18 e maior que 55 anos.

A idade isolada não deveria ser gatilho

Medida como teste diagnóstico, a idade avançada isolada leva a probabilidade pós-teste de malignidade vertebral a menos de 3% e a de fratura a algo entre 2% e 7% — valores baixos demais para justificar imagem por si sós, ainda que a combinação com outras bandeiras eleve muito essa probabilidade.

Revisão sistemática de bandeiras vermelhas para malignidade e fratura na dor lombar, publicada no BMJ em 2013, com 14 estudos e 53 bandeiras avaliadas.

Como decidir

As três posições descrevem o mesmo dado calibrado para populações diferentes, e é isso que se leva para a beira do leito. O corte alto serve à unidade básica, onde a doença grave é rara e investigar todo mundo produz dano; o corte baixo serve ao acolhimento por profissional que não vai examinar o paciente inteiro e precisa de um filtro generoso; e a leitura da revisão serve para lembrar que nenhum dos dois cortes, sozinho, pede exame. No pronto-socorro, a regra prática que sobrevive às três é tratar a idade como multiplicador: acima de 70 anos, cada outra bandeira pesa mais e o limiar para imagem cai; entre 55 e 70, a idade entra na conta mas não a decide; e em qualquer idade, uma bandeira sozinha pede um exame físico melhor antes de pedir uma máquina.

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O raciocínio, em voz alta

Doralice Bulhões, 68 anos, diabética há dezoito anos e hipertensa, chega ao pronto-socorro às 22h10 de sexta-feira com dor lombar alta há cinco semanas. É a terceira vinda pela mesma queixa. Temperatura de 36,9 graus, pressão 138 por 82, frequência 88. Anda com dificuldade, mas anda. Nas duas vezes anteriores saiu com dipirona e orientação de procurar a unidade básica.

  1. O que penso na primeira frase

    Cinco semanas é tempo demais para lombalgia mecânica aguda, que costuma dar melhora perceptível na primeira semana. Isso não fecha nada, mas tira o caso da prateleira do comum antes mesmo de eu examinar. A terceira vinda pela mesma dor tem peso próprio: as duas hipóteses anteriores não explicaram o quadro, e repetir a receita delas seria repetir o erro delas.

  2. A pergunta que eu faço agora, e por quê

    Pergunto se, quando ela deita e fica parada, a dor melhora. Ela responde que não — que piora ao virar na cama e que acorda por volta das três da manhã. Essa resposta é a mais informativa da consulta inteira: dor que não respeita o repouso não é produzida por estrutura sob carga. Saí do território da lombalgia mecânica e entrei no de processo que ocupa espaço dentro do corpo vertebral.

  3. A segunda pergunta, que quase ninguém faz

    Pergunto onde ela teve infecção nos últimos três meses. Ela conta que tratou uma úlcera no calcanhar direito há dois meses, com antibiótico por dez dias, e que a ferida fechou. É a porta de entrada. O corpo vertebral é osso esponjoso com fluxo lento junto aos platôs, e o sangue de uma bacteremia encontra ali um lugar para ficar. Agora tenho duas peças que se encaixam: dor não mecânica e porta de entrada.

  4. O que penso sobre a ausência de febre

    Ela está afebril, e isso não me tranquiliza. A infecção vertebral é subaguda e fica contida no osso; a resposta térmica é atenuada no diabético de longa data; e ela já recebeu antibiótico parcial por outro motivo há dois meses. Numa série brasileira de pacientes operados por espondilodiscite, a dor foi a manifestação inicial em dez de treze, e apenas um abriu o quadro com febre isolada. Ausência de febre é ausência de febre.

  5. O exame físico, com a roupa levantada

    Musculatura paravertebral sem contratura importante. Percussão dos processos espinhosos dolorosa em um ponto, na transição toracolombar — dor focal, e não em faixa. Força cinco em todos os grupos dos dois lados, reflexos presentes e simétricos, sem alteração de sensibilidade, elevação da perna estendida negativa. Sem queixa urinária, sem alteração de sensibilidade em sela. Anoto os graus de força com o horário: 22h30. O calcanhar direito tem uma cicatriz recente, com a pele fina em volta.

  6. O que peço, e o que espero de cada resposta

    Peço velocidade de hemossedimentação, proteína C reativa, hemograma e duas amostras de hemocultura de sítios diferentes, colhidas agora e antes de qualquer antibiótico. Se as provas inflamatórias vierem normais, infecção vertebral fica improvável e eu reabro a lista. Se vierem elevadas, o caso deixa de ser passível de alta hoje. Peço também radiografia de coluna — não para afastar infecção, mas para ver alinhamento e altura dos corpos vertebrais.

  7. A radiografia volta normal, e o que isso muda

    Nada. As alterações radiográficas na espondilodiscite aparecem tipicamente de duas a três semanas depois do início dos sintomas e exigem que 35% a 40% da região esteja destruída para se tornarem visíveis. Uma placa normal informa apenas que ainda não há osso destruído o bastante para o método enxergar. Se eu usasse essa placa como argumento de alta, estaria dando à minha paciente a terceira alta errada.

  8. As provas inflamatórias voltam alteradas

    Proteína C reativa de 96 mg/L e velocidade de hemossedimentação de 78 mm na primeira hora, com hemograma sem leucocitose — o que é comum na infecção óssea. Anoto os valores com a hora da coleta, porque eles serão a linha de base do acompanhamento. A partir daqui a alta está descartada, e o que resta é definir a imagem e o destino.

  9. O exame que responde, e o que fazer sem ele

    O exame é a ressonância magnética com contraste da coluna, que mostra o edema do corpo vertebral e do disco antes de qualquer destruição óssea, distingue abscesso de tecido inflamatório e revela extensão para o espaço epidural. O hospital não tem o aparelho de plantão. A conduta, então, é a transferência — e ela começa agora, com o pedido trazendo a hipótese, os valores com horário, o exame neurológico com os graus de força, a porta de entrada e o fato de as hemoculturas já estarem colhidas.

  10. O que eu não faço

    Não inicio antibiótico. Ela está estável, sem febre e sem déficit, e o tratamento desta doença dura semanas e é guiado pelo agente: a dose dada antes da coleta apagaria o germe e empurraria o caso para a biópsia, num quadro em que quase um quarto das culturas já é negativo mesmo com tudo feito corretamente. Escrevo no prontuário que a espera é decisão, com o motivo — para que o próximo plantonista não a leia como esquecimento.

  11. O que eu digo a ela e à filha

    Ainda não sei o que a senhora tem. Sei o que a senhora não tem: não é uma dor de coluna comum, porque essa melhora quando a pessoa deita, e a sua piora. Os exames de sangue mostraram inflamação, e existe uma possibilidade de infecção dentro de um osso da coluna, que precisa de um exame que este hospital não faz de madrugada. Vou transferir a senhora hoje. Vou reexaminar de hora em hora enquanto o transporte não chega.

  12. O raciocínio, em uma frase

    Nenhum passo deste caso dependeu de tecnologia. O que mudou o desfecho foram duas perguntas — se melhora deitada, e onde teve infecção —, a percussão de um processo espinhoso, dois exames de sangue baratos e a recusa em aceitar uma radiografia normal como resposta a uma pergunta que ela não responde.

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Faça você

Na mesma noite, uma hora antes, entrou Ubirajara Menezes, 72 anos, tabagista de quarenta e cinco anos e hipertenso em uso irregular de medicação. Dor lombar à esquerda de início súbito há duas horas, irradiando para a virilha, forte a ponto de ele não conseguir ficar parado na maca. É a primeira crise da vida. A classificação de risco escreveu na ficha: cólica renal. Pressão 104 por 68, frequência 96, afebril. Recebeu dipirona endovenosa, melhorou bastante, e agora aguarda o resultado do exame de urina numa maca do corredor. A urina volta com hematúria microscópica.

  1. O que a história diz

    Instalação em minutos, com o paciente capaz de dizer a hora, é linguagem de ruptura ou de oclusão vascular. Primeira crise da vida aos 72 anos, com tabagismo de longa data e hipertensão, coloca uma segunda hipótese na frente da primeira: o aneurisma de aorta abdominal produz dor lombar ou de flanco com irradiação inguinal, e o hematoma retroperitoneal comprime o ureter e pode produzir hematúria.

  2. O que os números dizem

    Pressão de 104 por 68 num hipertenso crônico não é normalidade: é hipotensão relativa. Frequência de 96 num paciente que acabou de receber analgésico e diz que melhorou também não fecha com a tranquilidade da cena. Os dois valores, isolados, seriam ignorados; juntos, e no paciente certo, eles são o sinal.

  3. O que a melhora com dipirona significa

    Nada de tranquilizador. Analgésico resolve dor, e não sangramento. O retroperitônio tampona: o paciente com ruptura contida pode ficar horas com pressão aceitável, dor controlada e boa aparência. A melhora é o dado que, neste caso, mais atrasa o diagnóstico, porque ela reorganiza o atendimento em torno de uma hipótese benigna.

  4. O que a hematúria significa

    Ela não afasta a hipótese vascular; ela é compatível com as duas. Aceitar a hematúria como confirmação de cálculo é usar um achado inespecífico para fechar o diagnóstico mais conveniente, num paciente cuja idade e cujos fatores de risco apontam para o outro lado.

  5. O exame físico que ainda não foi feito

    Ninguém descobriu o abdome deste paciente. Falta palpar procurando massa pulsátil, comparar os pulsos femorais e auscultar. E falta o exame que responde em três minutos, sem tirar o paciente do lugar.

  6. Agora é com você

    Escreva os três próximos passos, em ordem e com o que cada um responde, e escreva também o que você não vai fazer enquanto eles não estiverem prontos.

Ver como fecharíamos

Primeiro: ultrassom à beira do leito medindo o diâmetro da aorta abdominal, sem tirar o paciente da sala — responde em minutos se há aneurisma, e um diâmetro aumentado neste contexto clínico já muda o destino do atendimento. Em paralelo, dois acessos venosos calibrosos, monitorização contínua, tipagem sanguínea e prova cruzada solicitadas. Segundo: contato com cirurgia vascular ou com a regulação de vaga feito com a suspeita, e não depois da imagem definitiva; as diretrizes brasileiras registram a dor abdominal ou lombar significativa como um dos maiores preditores de ruptura, independentemente do diâmetro do aneurisma. Terceiro: angiotomografia de aorta abdominal se o paciente permanecer estável, com acompanhamento na sala de exame — e ultrassom apenas, sem transporte, se ele instabilizar. O que não se faz enquanto isso: mandar o paciente sozinho para a tomografia; repetir analgésico e reavaliar depois; normalizar a pressão com volume até 140 por 90, quando o alvo é um paciente consciente e conversando; e dar alta com o diagnóstico de cólica renal porque a dor melhorou e a urina tem sangue. O ultrassom identifica aneurisma, mas não exclui ruptura retroperitoneal e pode ser inconclusivo por janela ruim. Não use a ausência de líquido livre ou um exame limitado como liberação. Reavaliar analgesia é adequado em paralelo; o erro é usá-la para postergar a investigação vascular.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Na espondilodiscite, as alterações radiográficas aparecem tipicamente de duas a três semanas depois do início dos sintomas, e os achados de destruição óssea só se tornam visíveis quando 35% a 40% da região envolvida está destruída. Uma radiografia normal em quem tem três semanas de dor não mecânica informa apenas que ainda não há osso destruído o bastante para o método enxergar — e usar esse resultado como argumento de alta é o mecanismo pelo qual se ganham mais duas semanas de atraso. O exame que responde é a ressonância magnética com contraste, que mostra o edema do corpo vertebral e do disco antes de qualquer destruição, distingue abscesso de tecido inflamatório e revela extensão epidural.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Explique por que urinar, ter força normal ou melhorar da dor não exclui cauda equina. Compare esse raciocínio com radiografia normal na infecção vertebral.

Em 30 dias

Conduza retorno por lombalgia: uma pessoa com evolução favorável e outra com dor noturna, bacteremia recente ou alteração urinária. Justifique exames, urgência e destino.

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Agora atenda

Agora atenda: homem de 66 anos trazido pela esposa ao pronto-socorro às 23h com dor lombar à direita há três semanas, que ele descreve como pior à noite e que não melhora quando ele deita. Faz hemodiálise três vezes por semana por nefropatia diabética e teve o cateter trocado há dois meses por suspeita de infecção. Está afebril na triagem, anda sozinho até a maca e diz que a dor melhorou um pouco com o remédio que tomou em casa. Percorra a lista de bandeiras vermelhas com as perguntas concretas, examine a coluna e o abdome, decida quais exames pedir e em que ordem, e diga a ele o que vai acontecer nas próximas horas.

Dor lombar aguda no pronto-socorro — Internato | OsceLabs