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Tontura e vertigem no pronto-socorro
A palavra que o paciente usa não localiza nada. Este capítulo troca a pergunta "o que o senhor sente" por três outras — quando começou, o que desencadeia e quanto dura —, porque é o padrão temporal que separa as caixas: a tontura que tem tratamento de dois minutos na maca, a que é neurite e passa sozinha, e a que é infarto de cerebelo com tomografia normal.
Ministério da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Acidente Vascular Cerebral Isquêmico Agudo, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 29, de 12 de dezembro de 2023
Ministério da Saúde — Linha de Cuidados em Acidente Vascular Cerebral (AVC) na Rede de Atenção às Urgências e Emergências
Ministério da Saúde — Protocolos de Suporte Avançado de Vida do SAMU 192. Brasília, 2014
Ministério da Saúde — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) 2024. Brasília, 2024
TelessaúdeRS-UFRGS — Protocolos de Encaminhamento para Neurologia Adulto (aprovados por resolução CIB/RS). Elaborado em 03/02/2016, última atualização em 06/05/2020
Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba — Protocolo de Encaminhamento da Atenção Primária para a Atenção Especializada, Volume 15: Problemas Neurológicos
Bula profissional — Dimenidrin (dimenidrinato + cloridrato de piridoxina) solução oral 25 mg/mL + 5 mg/mL, Vitamedic Indústria Farmacêutica
Bula — Meclin (dicloridrato de meclozina) comprimidos 25 mg e 50 mg, Apsen Farmacêutica
Bittar RSM, Oiticica J, Bottino MA, Ganança FF, Dimitrov R. Estudo epidemiológico populacional da prevalência de tontura na cidade de São Paulo. Brazilian Journal of Otorhinolaryngology. 2013;79(6):688-98
Pereira CB, Scaff M. Vertigem de posicionamento paroxística benigna. Arquivos de Neuro-Psiquiatria. 2001;59(2-B):466-70
Silva JAG, Silva EB, Branco CA. Infarto agudo do cerebelo simulando tumor da fossa posterior. Arquivos de Neuro-Psiquiatria. 1992;50(1)
Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem — e-Book Educação em Radiologia na Graduação, capítulo Tomografia Computadorizada
Telessaúde Goiás (NUTTS/UFG) — Síndrome Vestibular Aguda. Publicado em 21 de julho de 2025
SAEM. GRACE-3: Acute dizziness and vertigo in the emergency department. https://www.saem.org/publications/grace/grace-3
Responda antes de ler
Você vai prescrever meclozina para a fase aguda de uma provável neurite vestibular em um homem de 66 anos. A bula aprovada do fabricante brasileiro estabelece, para vertigem, 25 a 100 mg por dia em doses divididas. Qual prescrição respeita esse limite?
O paciente que você vai ver
Sábado, 8h40, unidade de pronto atendimento de bairro. A classificação de risco trabalhou rápido e empilhou três fichas verdes na mesma fileira de cadeiras. Nas três, o campo da queixa traz a mesma palavra, escrita com a mesma caneta: tontura.
Você vai atender os três em sequência, e a primeira coisa a entender é que essa palavra não é um diagnóstico nem uma pista — é um espaço em branco. Três pessoas a usaram para descrever três coisas que não têm o mesmo órgão, o mesmo risco nem o mesmo destino. O que separa uma da outra não está na palavra, e também não vai estar na resposta à pergunta que você tem vontade de fazer primeiro.
Dona Marinalva Bezerra tem 68 anos, é costureira aposentada e entrou andando, com a bolsa no braço. Conta que ontem de manhã, quando se virou na cama para desligar o despertador, o quarto girou. Girou de verdade: o teto passou por cima dela, ela agarrou o colchão e ficou quieta. Passou. Achou que era pressão. Ao longo do dia aconteceu mais umas seis ou sete vezes, sempre quando deitava, quando levantava da cama ou quando erguia a cabeça para pegar linha na prateleira de cima. Cada vez dura o que ela chama de um susto — e quando você insiste, ela mede: menos do que ela levaria para contar até vinte. Entre uma e outra ela fica bem. Veio hoje porque a filha ficou com medo. Não tem zumbido, não ficou surda, não tem dor de cabeça, não sentiu fraqueza em lugar nenhum. Está sentada na sua frente, tranquila, e enquanto fala mantém a cabeça imóvel, num cuidado que ela adquiriu sozinha em vinte e quatro horas.
Cleusa Amaral tem 44 anos, é cozinheira de escola e chegou de cadeira de rodas, empurrada pelo marido, com um saco plástico no colo. Começou anteontem à noite, de uma hora para outra, e não parou mais: o mundo gira sem parar, piora se ela mexe a cabeça mas não some se ela fica parada, e ela vomitou tanto que já não tem o que vomitar. Ficou em casa ontem inteiro deitada de lado no escuro. Hoje o marido tentou levá-la ao banheiro e ela não conseguiu ficar de pé: caiu sentada na beira da cama, e caiu sempre para o mesmo lado. Não ouve pior de um ouvido, não tem zumbido, fala normalmente, mexe os quatro membros. Nunca teve nada parecido. Não toma remédio nenhum, a não ser um anticoncepcional que largou há anos. O marido conta que ela já foi a um pronto-socorro na madrugada de ontem, onde tomou uma medicação na veia, melhorou por três horas e voltou ao mesmo. O papel que trouxe de lá tem duas palavras escritas à mão: crise labiríntica.
Ederaldo Pinho tem 61 anos, é motorista de van escolar, hipertenso e diabético há doze anos. Ele não usa a palavra girar. Diz que quando levanta da cadeira ou sai da cama, escurece a vista, dá um zunido no ouvido e as pernas amolecem — e que, se ele não se segurar, cai. Dura poucos segundos e some assim que ele senta de novo. Já aconteceu umas quatro vezes esta semana, sempre ao levantar, nunca deitado. O médico da unidade básica trocou o remédio da pressão há dez dias, e ele trouxe a caixa nova no bolso. Está ansioso porque dirige crianças e alguém disse a ele que isso pode ser labirintite.
Três fichas iguais, três problemas diferentes. Uma tem cristal solto num tubo do labirinto e sai daqui curada em dois minutos, sem receita. Uma pode estar com o nervo vestibular inflamado — ou com um pedaço de cerebelo infartado, e o exame que separa as duas coisas não é a tomografia. Uma não tem nada de labirinto: tem pressão caindo quando fica de pé, e o antivertiginoso que alguém vai querer prescrever é exatamente o remédio que aumenta a chance de ele cair no meio da rua.
O capítulo inteiro é sobre como se chega nesse parágrafo em quinze minutos de consulta, sem exame de imagem e sem laboratório. E sobre por que o hospital brasileiro, com frequência, chega em outro: dá dimenidrinato nos três e libera os três.
Quem adoece disso
Tontura é uma das queixas mais comuns que existem, e o número brasileiro é maior do que a intuição sugere. Um inquérito de campo com 1.960 entrevistas na população adulta da cidade de São Paulo, feito em 2012, mediu prevalência de 42% da queixa, com dois picos: 49% na faixa de 46 a 55 anos e 44% entre os idosos. A consequência prática vem em seguida, no mesmo estudo: apenas 8,3% da população tem tontura de origem vestibular. Ou seja: 8,3 dividido por 42 dá cerca de um quinto, de modo que, na população geral, quatro de cada cinco pessoas que dizem sentir tontura não têm doença do labirinto. Escrever "labirintite" na ficha antes de perguntar qualquer coisa é apostar contra a probabilidade de base.
O mesmo estudo mostra por que a queixa chega tarde e mal contada. O sintoma atrapalha as atividades diárias de 67% dos sintomáticos e causa incapacidade em 27%, mas só 46% deles procuram atendimento médico. Quem chega, portanto, costuma ser quem já não aguenta mais — o que significa que a fila de tontura do pronto-socorro é um recorte enviesado da tontura do mundo, com mais gravidade e mais tempo de sintoma do que a média. Isso deveria elevar a sua suspeita, não baixá-la.
Dentro da fatia vestibular, uma causa domina. A vertigem posicional paroxística benigna é a causa mais comum de vertigem, e a revisão brasileira que este capítulo usa registra que aos 70 anos, 30% dos idosos já apresentaram pelo menos um episódio. Ela acomete o canal semicircular posterior em 85% a 95% dos casos, o horizontal em 5% a 10%, e o anterior é raro. Guarde os dois fatos juntos: a causa mais frequente de vertigem no seu plantão tem tratamento mecânico de dois minutos, feito na maca, sem remédio — e você vai acertar o canal em nove de cada dez vezes examinando um canal só.
Do outro lado da fila está a minoria que carrega quase todo o risco. Um estudo prospectivo nacional citado pela norma federal aponta incidência anual de 108 casos de acidente vascular cerebral por 100 mil habitantes; a linha de cuidados do Ministério registra incidência latino-americana em torno de 150 por 100 mil, e acrescenta que no Brasil o AVC é a causa mais frequente de óbito na população adulta, respondendo por 10% das mortes e por 10% das internações hospitalares públicas. A norma também diz, com todas as letras, que os AVC de circulação posterior são menos frequentes e de pior prognóstico, e que os pacientes comumente apresentam coma, tetraparesia, alterações de nervos cranianos, diplopia, vertigem ou ataxia. A vertigem está na lista oficial de apresentações de AVC, escrita em documento nacional vigente, e ainda assim é a apresentação que mais sai andando do pronto-socorro com um comprimido na mão.
Junte as três estatísticas e você tem o desenho do problema. A queixa é onipresente, a maior parte não é vestibular, dentro do vestibular a causa dominante se cura na maca, e a minoria central é a que mata e incapacita. Nenhuma dessas quatro coisas se distingue pela palavra que o paciente usa. Todas se distinguem pelo tempo.
Por que acontece o que acontece
Este bloco existe para você poder deduzir o exame em vez de decorá-lo. São cinco mecanismos, e cada um deles vira, adiante no capítulo, uma manobra de beira de leito ou uma decisão de conduta. O que não vira nada disso ficou de fora.
Equilíbrio é um cálculo com três entradas — e tontura é o erro do cálculo
O cérebro não tem um sensor de equilíbrio. Ele tem três fontes de informação sobre onde o corpo está e para onde está indo: o labirinto de cada orelha interna, que mede aceleração angular e linear da cabeça; a visão, que informa onde o horizonte está; e a propriocepção, que informa onde estão os pés, os tornozelos e o pescoço. As três chegam ao tronco encefálico e ao cerebelo, e o que o cérebro produz é uma leitura única, coerente, que você não percebe justamente porque é coerente.
Tontura é o que se sente quando as três discordam. Isso muda tudo, porque significa que a queixa não localiza o defeito: ela sinaliza que o cálculo deu erro, sem dizer qual entrada mentiu. Um labirinto que parou de funcionar produz tontura. Um cerebelo infartado, que é quem confere as contas, produz tontura. Uma pressão que cai ao levantar produz tontura, porque a perfusão do próprio circuito falha. Uma neuropatia de pés em diabético produz tontura ao caminhar no escuro, quando a visão para de compensar a propriocepção que já não chega. Uma catarata madura piora a tontura de quem já tinha labirinto ruim.
É por isso que o inquérito populacional brasileiro encontra 42% de prevalência da queixa e só 8,3% de tontura vestibular: a maior parte das tonturas do mundo não sai do labirinto. E é por isso que a primeira pergunta útil nunca é sobre a qualidade da sensação. A sensação é o alarme; ele toca igual para incêndio e para fumaça de churrasco.
O labirinto trabalha em par, e a vertigem é a diferença entre os dois
Cada nervo vestibular dispara continuamente, mesmo com a cabeça parada. Esse disparo de repouso é simétrico: o da direita e o da esquerda se equilibram, e o cérebro lê a diferença entre eles como zero — cabeça parada. Quando você gira a cabeça para a direita, o labirinto direito aumenta o disparo e o esquerdo diminui; a diferença deixa de ser zero, e essa diferença é a sensação de rotação.
Agora destrua um dos dois de repente. Um nervo vestibular inflamado, ou um labirinto sem perfusão, para de disparar. A diferença entre os dois lados deixa de ser zero mesmo com a cabeça imóvel — e o cérebro faz a única leitura que sabe fazer com esse dado: você está girando. O paciente sente rotação intensa e contínua, com a cabeça parada, e vomita, porque o mesmo núcleo vestibular tem conexão direta com o centro do vômito. É esse o quadro de Cleusa.
O mesmo desequilíbrio produz o nistagmo: os olhos são arrastados lentamente para o lado do labirinto que parou, e uma sacada rápida os traz de volta. Por convenção o nistagmo é batizado pela fase rápida, que bate para longe do lado doente. Guarde a lógica, porque ela devolve sentido a duas observações que parecem arbitrárias: o nistagmo periférico é unidirecional (a diferença entre os dois lados tem um sinal só, e ele não muda porque o paciente olhou para o outro lado) e é inibido pela fixação do olhar (a visão é uma das três entradas do cálculo, e ela sozinha consegue segurar os olhos no alvo quando a via visual está intacta). Um nistagmo que muda de direção conforme a direção do olhar, ou que não cede quando o paciente fixa um ponto, não está sendo produzido por uma diferença simples entre dois labirintos.
E há a consequência terapêutica, que é a mais esquecida: o cérebro corrige essa assimetria sozinho. Ao longo de dias e semanas, os núcleos vestibulares reajustam o disparo de repouso do lado que sobrou até a diferença voltar a ler zero. Chama-se compensação central, e é o motivo de a neurite vestibular melhorar progressivamente por semanas sem que ninguém trate a causa. É também o motivo de o protocolo estadual limitar o sintomático a três dias: o anti-histamínico e o benzodiazepínico funcionam deprimindo o núcleo vestibular, e um núcleo deprimido é um núcleo que não recalibra. O remédio que alivia hoje atrasa a cura da semana que vem. Isso não é opinião de escola: está escrito no quadro de tratamento do protocolo, com a justificativa junto.
Canalolitíase: uma pedra solta dentro de um tubo
A vertigem posicional paroxística benigna não é doença de nervo nem de perfusão. É um problema mecânico, e a revisão brasileira que este capítulo usa o descreve como tal. Pequenos fragmentos de carbonato de cálcio — otólitos — se soltam da mácula do utrículo e caem dentro de um canal semicircular, onde passam a flutuar livres na endolinfa. Quando a cabeça muda de posição, a gravidade puxa o fragmento, o fragmento arrasta a endolinfa, a endolinfa deflete a cúpula, e a cúpula manda ao cérebro a mensagem de que a cabeça está girando — quando ela já parou.
Vale a pena ver o mecanismo explicar, um a um, todos os achados que você vai usar no exame. A latência de alguns segundos entre a manobra e a vertigem é o tempo que o fragmento leva para começar a se mover. A ineficácia das manobras lentas existe porque um movimento devagar desloca a pedra sem gerar corrente suficiente para defletir a cúpula — deitar o paciente com delicadeza é o jeito mais comum de obter um exame falsamente negativo. A duração curta, de segundos, é o tempo até o fragmento atingir o ponto mais baixo do canal e parar de arrastar líquido. A fatigabilidade vem da fragmentação do cálculo com as repetições. A reativação após repouso vem da reagregação dos fragmentos. E a inversão do nistagmo quando o paciente senta é a pedra fazendo o caminho de volta pelo mesmo tubo.
A anatomia explica por que quase sempre é o mesmo canal. O canal posterior tem a abertura situada abaixo do utrículo: otólito solto cai nele por gravidade. A entrada do canal anterior é muito mais difícil de alcançar, e por isso o acometimento anterior é raro. O canal horizontal tem abertura larga, e rotações laterais — virar na cama durante o sono — ajudam as partículas a sair dele sozinhas. Daí a distribuição: 85% a 95% posterior, 5% a 10% horizontal.
Duas conclusões práticas caem daqui, e são o coração da conduta deste capítulo. Se o problema é uma pedra no lugar errado, o tratamento é levar a pedra ao lugar certo — não sedar o paciente. E, se a pedra está no canal posterior em nove de cada dez casos, a manobra diagnóstica que trabalha no plano do canal posterior resolve quase toda a casuística com um teste só.

O reflexo vestíbulo-ocular, e por que o resultado normal é o assustador
Se você fixa o olhar num ponto e alguém gira sua cabeça de repente, seus olhos permanecem no ponto. Isso não é a visão perseguindo o alvo: a perseguição visual é lenta demais para isso. Quem faz é o reflexo vestíbulo-ocular, um arco de três neurônios que sai do labirinto, passa pelo núcleo vestibular no tronco e chega ao núcleo do nervo que move o olho. Ele responde em milissegundos, e é ele que mantém o mundo estável enquanto você anda.
Esse arco é o alvo do teste do impulso cefálico. Você pede ao paciente que fixe o olhar no seu nariz e gira a cabeça dele rapidamente para um lado. Se o arco daquele lado está quebrado — labirinto ou nervo vestibular doente —, os olhos são arrastados junto com a cabeça e só depois voltam ao alvo com uma sacada de correção que você vê. Essa sacada é o achado periférico. O protocolo estadual descreve exatamente isso, e o coloca como característica da neurite vestibular aguda.
Agora vem a parte contraintuitiva, e ela é a razão de este parágrafo existir. Se a lesão não está no arco, mas no cerebelo ou no tronco acima dele, o arco continua íntegro: os olhos ficam grudados no alvo e não há sacada nenhuma. Um teste do impulso cefálico normal, num paciente que está girando há dois dias e não consegue ficar de pé, é o resultado que aponta para o centro. O exame que parece tranquilizador é o que deveria assustar. Essa inversão é a fonte da maior confusão de linguagem que existe sobre este tema em documento brasileiro, e o capítulo volta a ela no bloco de investigação, com a conta do dano.
Os outros dois componentes da bateria de exame ocular seguem a mesma lógica de arco. O nistagmo que muda de direção com a direção do olhar implica um gerador que não é a diferença entre dois labirintos. E o desalinhamento vertical dos olhos, que aparece ao cobrir e descobrir um olho de cada vez, vem da via que liga o núcleo vestibular aos núcleos oculomotores dentro do tronco: é uma via central, e o desvio denuncia lesão nela.
Por que a tomografia é ruim justamente onde o perigo mora
A norma nacional é honesta sobre o desempenho da tomografia no AVC isquêmico: ela demonstra sinais precoces de isquemia em até 67% dos casos nas primeiras 3 horas, em até 82% nas primeiras 6 horas, e a detecção sobe para cerca de 90% depois de uma semana. Repare no que está sendo medido: sinais precoces de isquemia, e não exclusão de infarto. A mesma página descreve a lesão isquêmica como hipodensidade que não se impregna pelo contraste, "geralmente no território suprido pela artéria cerebral média" — ou seja, a expectativa de imagem que a norma constrói é calibrada na circulação anterior.
Há duas razões físicas para a fossa posterior ser pior do que essa média. A primeira é a densidade do osso que a envolve. O capítulo de tomografia publicado pelo Colégio Brasileiro de Radiologia explica que artefatos de endurecimento do feixe são frequentes e causados por objetos densos que absorvem os fótons de energia mais baixa, deixando passar só os de alta energia, e que artefatos em estrias resultam desse endurecimento e da dispersão em objetos densos. As pirâmides petrosas e a base do crânio envolvem o tronco e o cerebelo com o osso mais denso da cabeça: a imagem que chega ali já vem degradada por construção.
A segunda é o tamanho. Um infarto de tronco que produz vertigem incapacitante pode medir poucos milímetros, e um infarto cerebelar que não chega a comprometer um terço de um hemisfério nem sequer produz edema importante — o relato brasileiro que este capítulo usa registra que edema intenso não foi observado em infartos menores que isso. Lesão pequena em região de imagem degradada é o pior par possível para a tomografia.
A consequência é uma frase que vale carregar para o plantão: no paciente com síndrome vestibular aguda, a tomografia serve para excluir sangramento e efeito de massa, e não serve para excluir infarto. A norma nacional aponta o caminho quando diz que a ressonância é bem mais sensível e precisa na identificação e localização da lesão vascular, especialmente com técnicas de difusão — e reconhece, na mesma frase, que ela consome mais tempo. Você vai trabalhar, na maioria das portas brasileiras, sem esse exame. É exatamente por isso que o exame de beira de leito não é um consolo: é o instrumento principal.
O infarto de cerebelo tem duas fases, e a segunda começa quando você já mandou para casa
Falta um mecanismo, e ele é o que transforma a decisão de internar em decisão de vida. O tecido cerebelar infartado incha. Como a fossa posterior é um compartimento rígido e pequeno, o edema de uma área grande empurra o quarto ventrículo, obstrui a circulação do líquor e comprime o tronco encefálico. O relato brasileiro de infarto cerebelar que este capítulo usa descreve o processo em dois tempos: uma sintomatologia inicial de náusea, vômitos, cefaleia, vertigem e ataxia — que é exatamente o que entrou pela sua porta — e uma sintomatologia de alarme de meningismo, distúrbio da consciência, lesão de nervos cranianos, sinais piramidais e alteração de respiração e circulação.
O detalhe cruel está na frase seguinte do mesmo texto: a sintomatologia de alarme inicia o processo grave de descompensação. Ela não avisa antes; ela é o começo do desastre. E o dado clínico mais importante para indicar a descompressão cirúrgica é o comprometimento progressivo da consciência — progressivo, isto é, só visível para quem reexamina o mesmo paciente depois de algumas horas.
Junte com a janela temporal: o edema não é máximo na primeira hora. Ele cresce ao longo do primeiro e do segundo dia. O paciente que você examina às nove da manhã com vertigem, vômito e marcha atáxica pode estar no melhor momento do quadro dele. É por isso que este capítulo insiste, do começo ao fim, numa pergunta que não é diagnóstica e sim de destino: quem fica.
Como se apresenta de verdade
O livro descreve vertigem rotatória com náusea e nistagmo horizontal, e chama isso de periférico. Esse paciente existe. O problema é que o paciente com infarto de cerebelo também tem vertigem rotatória, náusea e nistagmo — e o que separa os dois não é nada do que está nessa frase.
Este bloco percorre o espectro em quatro passagens: por que a pergunta usual não funciona, quais são as três caixas em que o quadro cabe, o que faz o AVC de fossa posterior atravessar o pronto-socorro sem ser visto, e o que muda conforme quem é o paciente.
Percurso de aprendizagem
Separe sintoma contínuo piorado pelo movimento de episódios realmente desencadeados por posição. A diferença escolhe entre avaliação da síndrome vestibular aguda, Dix-Hallpike e investigação de outras causas.
Diferencie sinais de alarme de testes de exclusão: não conseguir andar aumenta preocupação, mas andar ou não ter paresia não exclui AVC. HINTS exige paciente apropriado e examinador treinado.
Na VPPB, trate com reposicionamento; no sintoma intenso, use medicação pelo menor período necessário e reavalie segurança funcional. TC normal não fecha a origem da vertigem.
A pergunta que não responde nada
"O que o senhor sente?" é a pergunta que todo mundo faz primeiro, e é a menos informativa da consulta. Três razões.
A primeira é que o vocabulário é ambíguo por natureza. O próprio artigo brasileiro de epidemiologia registra que tontura abrange sensações descritas das mais diversas formas — vertigem rotatória, desequilíbrio, flutuação, instabilidade, pré-síncope, lipotimia, cinetose, oscilopsia, quedas — e que as tonturas de origem não vestibular costumam ser mal definidas, referidas como mal-estar, zonzeira ou cabeça leve. O paciente não tem palavra melhor porque a língua não tem.
A segunda é que a descrição não é estável. Perguntada de novo dez minutos depois, com outras palavras, a mesma pessoa costuma escolher outro descritor — e escolhe conforme o que você ofereceu. Se você pergunta "gira ou escurece?", boa parte responde a última coisa que ouviu.
A terceira, e a mais decisiva, é que a qualidade da sensação não localiza a lesão. Um infarto no bulbo lateral gira igualzinho a uma neurite. Uma revisão brasileira de vertigem posicional registra que até um terço dos pacientes com o quadro mais bem definido que existe — a vertigem posicional paroxística benigna — apresenta queixas bastante atípicas. Se a doença mais estereotipada erra a descrição em um terço dos casos, a descrição não pode ser o eixo do raciocínio.
Troque a pergunta por três. Quando começou — hoje de manhã, anteontem, há três meses. O que desencadeia — deitar, virar na cama, levantar, olhar para cima, ou nada. Quanto dura cada episódio — segundos, minutos, horas, ou é contínuo desde que começou. Não é acaso que essas três informações sejam exatamente o conteúdo descritivo mínimo que os dois protocolos oficiais de encaminhamento exigem por escrito: duração dos episódios, tempo de evolução, frequência e fatores desencadeantes. O formulário oficial já pergunta o tempo; é o médico que insiste em perguntar a sensação.
E acrescente uma quarta pergunta que não é sobre a tontura: o que o senhor está tomando? O quadro de medicamentos do protocolo estadual lista álcool e cocaína, aminoglicosídeos, antiarrítmicos, fenitoína e fenobarbital, antidepressivos, anti-histamínicos sedativos, anti-hipertensivos, benzodiazepínicos, furosemida, nitratos, lítio e relaxantes musculares. Num idoso polimedicado, essa lista resolve mais consultas do que qualquer manobra.
As três caixas: contínua, episódica desencadeada, episódica espontânea
As respostas às três perguntas dividem a fila em três caixas, e a caixa define o que fazer em seguida. Esta é a espinha do capítulo.
Caixa 1 — síndrome vestibular aguda contínua. Começou de uma vez, há horas ou dias, e não parou mais. Piora com o movimento da cabeça, mas está presente com a cabeça parada. Vem com náusea, vômitos, nistagmo espontâneo e intolerância a movimento. É a caixa de Cleusa. Aqui moram a neurite vestibular e o infarto de cerebelo ou de tronco, e todo o risco do capítulo está dentro dela. A pergunta desta caixa não é qual o diagnóstico: é se o paciente vai ficar.
Caixa 2 — síndrome vestibular episódica desencadeada. Só acontece quando a cabeça muda de posição, dura segundos, e entre os episódios a pessoa está bem. É a caixa de dona Marinalva. Aqui mora a vertigem posicional paroxística benigna, que é a causa mais comum de vertigem, e mora também a hipotensão ortostática, que é desencadeada por uma mudança de posição específica — ficar de pé — e que o exame de pressão deitado e em pé separa em dois minutos. A pergunta desta caixa é qual manobra fazer.
Caixa 3 — síndrome vestibular episódica espontânea. Crises de minutos a horas, sem gatilho, com retorno ao normal entre elas. Aqui moram a doença de Ménière — que, segundo o quadro do protocolo estadual, começa pelos sintomas cocleares e só depois vem a vertigem, com pico rápido e duração de vinte minutos a horas, raramente passando de 24 horas —, a migrânea vestibular, e o ataque isquêmico transitório de circulação posterior. A pergunta desta caixa é se houve sintoma neurológico junto, porque crise breve e repetida em quem tem fator de risco vascular é aviso, não alívio.
E a caixa que não é vestibular. Pré-síncope ao levantar, desequilíbrio multissensorial do idoso, efeito de medicamento, ansiedade. É a caixa de seu Ederaldo. Ela se reconhece porque o paciente não descreve rotação e porque o gatilho é postural e não cefálico: ficar de pé, não virar a cabeça.
Guarde a diferença operacional entre a caixa 1 e a caixa 2, porque ela muda o exame que você faz. Na caixa 1, o nistagmo é espontâneo: está lá antes de você tocar no paciente. Na caixa 2, o nistagmo não existe até você provocar com uma manobra de posicionamento — e some em segundos depois. Fazer manobra de posicionamento em quem já está tonto e vomitando não separa nada e ainda faz o paciente vomitar em você.
"Vertigem rotatória é periférico" — de onde vem a frase e por que ela mata
A frase tem uma origem legítima. O quadro de suspeita do protocolo estadual registra que, na vertigem periférica, vertigem e nistagmo são pronunciados, com náusea e vômito, enquanto na central vertigem e nistagmo são de menor intensidade e raramente vêm com zumbido e hipoacusia. Em média, isso é verdade: o labirinto agudo é mais dramático que o cerebelo.
O erro está em usar média para decidir caso. Intensidade e qualidade da sensação são características de tendência, não critérios; a mesma tabela que traz essa linha traz outras cinco que são de exame, e são essas que decidem. A norma federal, do lado do AVC, fecha o argumento sem margem: entre os sinais e sintomas comuns do AVC de circulação posterior ela lista vertigem ou ataxia ao lado de coma, tetraparesia, alterações de nervos cranianos e diplopia. E o protocolo pré-hospitalar do SAMU coloca "vertigem ou perda do equilíbrio ou da coordenação motora" na lista de sinais que fazem suspeitar de AVC isquêmico, junto com a plegia e a afasia súbitas.
Ou seja: no papel oficial brasileiro, vertigem já é sinal de alerta de AVC. Quem trata vertigem rotatória como prova de origem periférica está contrariando dois documentos do próprio Ministério, não apenas a literatura internacional.
Há uma segunda metade da frase, tão difundida quanto e igualmente falsa: a de que a presença de náusea e vômito intensos indica labirinto. Náusea e vômito vêm da conexão entre núcleo vestibular e centro do vômito, e essa conexão está dentro do tronco encefálico — quem infarta o tronco a ativa do mesmo jeito. Vomitar muito não protege ninguém.
O AVC de fossa posterior que atravessa o pronto-socorro
Quatro coisas se somam para deixar esse paciente passar, e vale nomear as quatro porque cada uma tem antídoto.
A tomografia normal. É o mais poderoso dos quatro, porque é um exame que dá uma resposta e a resposta é tranquilizadora. A norma nacional mede o desempenho da tomografia em sinais precoces de isquemia — 67% nas primeiras 3 horas — e descreve a lesão típica no território da artéria cerebral média. Ninguém escreveu que ela exclui infarto de tronco, e ainda assim é assim que o laudo normal é lido no corredor. O antídoto é uma frase no prontuário: tomografia sem sangramento e sem efeito de massa, o que não exclui isquemia de fossa posterior.
A escala de triagem que não olha para lá. A escala pré-hospitalar mais usada no país examina assimetria facial, queda de braço estendido e alteração da fala. Um infarto de cerebelo pode não alterar nenhum dos três. A própria norma federal antecipa o buraco e manda a equipe estar treinada para reconhecer outros sinais de início súbito — e o primeiro item da lista que ela oferece é vertigem associada à falta de equilíbrio. O antídoto é lembrar que triagem negativa não é exame neurológico.
A ausência de déficit motor, que derruba o escore. A escala hospitalar que a norma manda priorizar pontua principalmente força, linguagem, campo visual e sensibilidade; o item que enxerga cerebelo é a ataxia apendicular, e vale no máximo dois pontos. Um paciente que não consegue ficar de pé por lesão cerebelar pode somar pontuação baixa. Isso não é detalhe acadêmico: os critérios de trombectomia de janela estendida da norma nacional exigem pontuação 6 ou mais nessa escala e, além disso, exigem explicitamente AVC isquêmico de circulação anterior. A janela estendida, na norma brasileira, não foi escrita para o paciente deste capítulo. O antídoto é não confundir escore baixo com gravidade baixa, e registrar a incapacidade de marcha em palavras, já que ela não cabe no número.
A idade que baixa a guarda. A norma diz que o AVC ocorre predominantemente em adultos de meia-idade e idosos, e o clínico usa isso como prior — legitimamente. Só que a queixa de tontura tem pico populacional justamente na faixa de 46 a 55 anos, e nenhum dos dois protocolos brasileiros de encaminhamento usa juventude como critério de exclusão de origem central. A lista de gravidade do protocolo estadual é toda de exame — sinais focais, novo tipo de cefaleia especialmente occipital, surdez aguda unilateral, nistagmo vertical —, sem nenhuma linha de idade. O documento municipal tem um critério etário, e ele corre no sentido oposto: início dos sintomas acima de 50 anos favorece o encaminhamento à neurologia. Nenhum dos dois autoriza dispensar o exame porque o paciente é jovem.
Há ainda três apresentações centrais que enganam por serem discretas demais. A surdez súbita unilateral acompanhando vertigem aguda: os dois protocolos brasileiros a listam como sinal de gravidade que manda para emergência, porque a artéria que irriga o labirinto vem da mesma circulação posterior que irriga o tronco. A cefaleia occipital nova junto com a vertigem, que o protocolo estadual nomeia com essa exata qualificação. E a incapacidade de ficar em pé sem apoio, que é o achado mais barato e mais desprezado do plantão — o paciente é examinado deitado na maca, sai da maca de cadeira de rodas, e ninguém descobre que ele não anda.
O que muda conforme quem é o paciente
No idoso, quase nunca há uma causa só. Convivem labirinto envelhecido, visão ruim, propriocepção diminuída, artrose cervical, remédio novo e pressão que cai ao levantar; a tontura é a soma. O erro aqui não é errar o diagnóstico, é procurar um diagnóstico. Duas condutas rendem mais do que qualquer exame: rever a lista de medicamentos contra o quadro do protocolo e medir a pressão deitado e em pé. E há uma armadilha registrada em documento oficial: a lista de fatores de risco de queda do protocolo do SAMU inclui, na mesma frase, pacientes com tontura e pacientes em uso de medicamentos depressores e anti-histamínicos. O antivertiginoso que se prescreve para a tontura do idoso está, no mesmo papel, como fator de risco para a queda que ele vai sofrer.
No hipertenso e no diabético de longa data, o fator de risco vascular muda a régua da caixa 3: crises breves e repetidas de vertigem sem gatilho, em quem tem doença aterosclerótica, entram na conversa como ataque isquêmico transitório de circulação posterior até prova em contrário. O documento municipal registra fatores ateroscleróticos associados entre os critérios de suspeita central. E no diabético há um segundo caminho: hipoglicemia produz tontura, e o protocolo do SAMU a lista entre os sintomas de glicemia capilar abaixo de 60 mg/dL, junto com tremores, sudorese, palidez e rebaixamento. Uma gota de sangue resolve.
No paciente jovem sem fator de risco, o mais provável continua sendo vestibular — e o que não muda é o exame. Juventude reduz a probabilidade pré-teste; não anula nenhum achado. Um jovem que não fica de pé, ou que tem nistagmo vertical espontâneo, ou que tem qualquer sinal focal, cai na mesma via do idoso com os mesmos achados.
Na enxaqueca, a vertigem pode ser a crise inteira, sem dor de cabeça nenhuma. A norma nacional lista a migrânea com aura entre as condições confundidas com AVC, e a diferença que mais ajuda é a história antiga: crises parecidas ao longo de anos, com fotofobia e fonofobia junto, em alguém que já tem enxaqueca conhecida. Primeira crise da vida em pessoa com idade vascular não fecha nada.
Na gestante e na puérpera, a tontura postural é banal, mas dois cuidados mudam a conduta: a lista de medicamentos que servem encolhe, e pré-eclâmpsia entra no diferencial — o protocolo obstétrico do SAMU lista cefaleia, tontura e confusão mental entre os sinais de gravidade da síndrome hipertensiva da gestação. Medir a pressão de quem chega tonta grávida não é formalidade.
Como fechar o diagnóstico
Este é o bloco que decide o capítulo, e ele começa com uma inversão. Na maior parte das síndromes do pronto-socorro, o exame complementar estreita o diagnóstico. Aqui ele não estreita: a tomografia responde outra pergunta, o laboratório responde quase nada, e o exame que separa neurite de infarto de cerebelo é feito com as mãos, em dois minutos, sem custo.
A ordem abaixo é a ordem do plantão: primeiro o que classifica a caixa, depois a manobra que trata, depois a bateria ocular e o que ela realmente diz, depois os exames baratos que resolvem a caixa não vestibular, depois a imagem — e por último o que não pedir e o que existe no SUS.
1. O primeiro exame é a marcha, e ele é gratuito
Antes de qualquer manobra, faça o paciente ficar de pé e andar três passos sem apoio, com você do lado. Este é o exame de maior rendimento do capítulo inteiro, e é o que menos se faz, porque o paciente já chegou deitado e ninguém o levanta.
O que ele responde: o quadro do protocolo estadual separa desequilíbrio leve a moderado, mas o paciente consegue caminhar (periférico) de grave desequilíbrio, com dificuldade para caminhar ou mesmo ficar em pé (central). Não é sutileza de neurologista: é a diferença entre a pessoa que levanta cambaleando para o lado e a que não consegue sair da maca. E é o primeiro dos três achados que dispensam técnica.
Os outros dois, que fecham a mesma régua herdada do capítulo de déficit focal desta apostila: nistagmo vertical espontâneo e qualquer outro sinal neurológico focal associado. Qualquer um dos três desqualifica o rótulo de labirintite. Este capítulo acrescenta uma precisão que faltava lá e que importa aqui: o nistagmo vertical que condena é o espontâneo, aquele que já está presente com o paciente parado, olhando para a frente. O nistagmo que só existe dentro de uma manobra de posicionamento, dura trinta segundos e inverte quando o paciente senta é outra coisa, e o próximo item explica por quê.
Complete a beira de leito com o resto do exame neurológico que cabe em três minutos e que os dois protocolos exigem por escrito no encaminhamento: fala, movimentos oculares e diplopia, sensibilidade da face, força dos quatro membros, prova índice-nariz e calcanhar-joelho, e otoscopia. Dismetria em um lado, disartria, diplopia, parestesia de hemiface — qualquer um desses tira o paciente da caixa periférica.
2. Dix-Hallpike: quando fazer, como fazer, e como é o positivo
A manobra de Dix-Hallpike é para a caixa 2 — o paciente que só fica tonto quando muda de posição e está bem entre os episódios. Fazê-la em quem está com vertigem contínua há dois dias não separa nada, porque o nistagmo espontâneo dele vai estar lá antes, durante e depois.
O passo a passo é o do protocolo estadual, e ele tem detalhes que decidem o resultado. Explique ao paciente que a manobra pode provocar vertigem e que ele precisa manter os olhos abertos mesmo assim, porque o que você vai olhar são os olhos dele. Sente-o na maca numa altura tal que, ao deitar, a cabeça fique para fora da borda. Gire a cabeça 45 graus para o lado a examinar e peça que fixe um ponto à frente. Segure a cabeça e deite-o rapidamente, mantendo a cabeça pendente cerca de 20 graus abaixo do plano da maca. Espere ali, olhando os olhos, por cerca de vinte segundos. Depois sente-o de novo e observe outra vez.
A palavra que carrega o exame é rapidamente. O mecanismo já explicou por quê: manobra lenta desloca o otólito sem gerar corrente suficiente para defletir a cúpula. Deitar o paciente com delicadeza é a causa mais comum de Dix-Hallpike falso-negativo em mão de interno.
O positivo tem assinatura, e vale reconhecê-la inteira porque ela é o que diferencia a pedra do cerebelo. A revisão brasileira descreve: nistagmo com componente vertical para cima somado a um componente rotatório batendo no sentido do ouvido de baixo; latência de poucos segundos até aparecer; duração curta, de até cerca de 40 segundos; inversão da direção quando o paciente é colocado de novo sentado; e diminuição da intensidade com manobras repetidas, isto é, fatigabilidade. Cinco características, e as cinco vêm da pedra andando no tubo.
Aqui mora uma imprecisão dos dois documentos brasileiros de encaminhamento que vale conhecer antes de aplicar a régua deles ao pé da letra. Os dois listam nistagmo vertical como altamente sugestivo de origem central, sem dizer se estão falando do nistagmo espontâneo ou do provocado; e o quadro que descreve a vertigem posicional chama o nistagmo dela de "horizontal ou rotatório", sem mencionar o componente vertical para cima que a literatura neurológica brasileira descreve. Lidas literalmente e juntas, as duas linhas mandam encaminhar à emergência todo paciente com vertigem posicional clássica. A saída é a distinção que este capítulo já fez: nistagmo vertical espontâneo e sustentado é sinal central; componente vertical dentro de uma manobra de posicionamento, com latência, curta duração, inversão ao sentar e fatigabilidade, é a pedra.

3. A bateria ocular, o que ela mede — e o erro que ela carrega em documento oficial
Para a caixa 1, existe uma bateria de três testes oculares conhecida pela sigla HINTS: teste do impulso cefálico, característica do nistagmo e desvio vertical do olhar. Ela é a única ferramenta descrita por nome para essa decisão em documento oficial brasileiro acessível — e quem a registra é o protocolo municipal de Curitiba, não uma norma federal.
HINTS é um conjunto de três componentes, aplicado na síndrome vestibular aguda com nistagmo espontâneo por profissional treinado. Impulso cefálico normal pode ser um sinal central; sacada de correção favorece disfunção vestibular periférica, mas não exclui AVC em todos os territórios. Nistagmo horizontal unidirecional e ausência de skew, isoladamente, também não provam origem periférica. Integre os três resultados e audição: perda auditiva nova pode ocorrer no AVC de AICA. Evite escrever apenas positivo ou negativo; descreva os achados.
O resultado global do HINTS e o resultado do impulso cefálico são conceitos distintos. Impulso anormal com sacada pode apoiar lesão periférica, enquanto HINTS sugestivo de causa central significa pelo menos um componente central. Não há contradição lógica em chamar o conjunto de positivo para central e o impulso isolado de positivo por sacada. Evite rótulo ambíguo: descreva impulso, nistagmo e skew separadamente, usando o teste apenas em síndrome vestibular aguda contínua com nistagmo e por examinador treinado.
Impulso anormal não exclui AVC, especialmente em alguns territórios; impulso normal em AVS é preocupante. HINTS fora da população apropriada ou sem treinamento não autoriza alta. Quando exame central, equívoco ou tecnicamente inadequado, seguir investigação e avaliação neurológica conforme o risco.
A conduta que este capítulo adota diante disso é a mesma que o capítulo de déficit neurológico focal adotou, e por razão idêntica: o interno que não pratica o teste do impulso cefálico não decide com ele. A manobra exige treino — a cabeça tem de ser girada rápido, com amplitude pequena, e a sacada de correção é um movimento de fração de segundo que quem não procurou cinquenta vezes não enxerga. Sem esse treino, o teste gera mais confusão do que informação, e agora você sabe que a confusão pode inverter o sentido da decisão.
Sem treinamento em HINTS, procure sinais de alerta e organize avaliação experiente ou imagem apropriada conforme risco. Incapacidade importante de manter postura, nistagmo central e focalidade aumentam a preocupação, mas a ausência desses três não exclui AVC. Eles são sinais de alarme, não uma regra validada de descarte que substitua HINTS.
4. Os exames baratos que resolvem a caixa que não é vestibular
Três medidas custam quase nada e fecham boa parte da fila.
Glicemia capilar em todo mundo. O protocolo do SAMU descreve hipoglicemia como glicemia capilar abaixo de 60 mg/dL com sintomas, e lista tonturas entre eles, ao lado de tremores, sudorese, palidez, taquicardia, cefaleia, fraqueza, parestesias, distúrbios visuais e rebaixamento da consciência. A norma do AVC também manda colher glicemia capilar diante de qualquer suspeita. É o único diagnóstico deste capítulo que se trata furando o dedo.
Pressão arterial deitado e em pé. Deite o paciente por três minutos, meça; levante-o, meça imediatamente e de novo após três minutos, e pergunte se o sintoma reproduziu. O documento municipal exige aferição de pressão arterial no conteúdo mínimo do encaminhamento por tontura, e o protocolo estadual pede a lista de anti-hipertensivos em uso. Se a queda reproduz o sintoma, você achou a causa de seu Ederaldo e a conduta é rever o remédio, não prescrever outro.
Eletrocardiograma em quem descreve pré-síncope, palpitação ou perda de consciência associada, e em idoso com fator de risco. Os dois protocolos de encaminhamento pedem eletrocardiograma com data e laudo no conteúdo descritivo mínimo da tontura, e a norma do AVC o inclui entre os exames obrigatórios diante da suspeita — ali com outro objetivo, o de achar arritmia que aumente o risco de embolia.
Uma distinção que economiza tempo: hormônio tireoestimulante e glicemia de jejum são exames da atenção primária, não do plantão. Os dois protocolos os pedem como conteúdo do encaminhamento ambulatorial, para a investigação de causas secundárias de vertigem periférica. Colhê-los às três da manhã não muda nenhuma decisão de destino.
5. A imagem: o que a tomografia responde e o que ela não responde
Peça tomografia de crânio quando houver qualquer suspeita de origem central, e saiba exatamente o que está comprando com ela: exclusão de sangramento e de efeito de massa. É para isso que ela é boa, e é o que a norma nacional destaca ao dizer que a tomografia tem boa capacidade para identificar sangramentos associados.
O que ela não compra: exclusão de isquemia aguda de fossa posterior. Os números da norma — 67% nas primeiras 3 horas, 82% nas primeiras 6 — são de detecção de sinais precoces de isquemia, e a lesão que a norma descreve está no território da artéria cerebral média. Some a isso a física do artefato de endurecimento do feixe pelo osso denso da base do crânio e o tamanho pequeno dos infartos de tronco, e você tem o pior cenário possível para esse exame. Uma tomografia normal em paciente com síndrome vestibular aguda e sinal central não muda a conduta.
RM com difusão é mais sensível para isquemia posterior que TC, mas pode ser falsamente negativa no início, sobretudo em lesões pequenas. Persistência de suspeita clínica requer reavaliação especializada e, quando indicada, repetição de imagem ou estudo vascular. A indisponibilidade local exige coordenação com a rede, sem rotular o quadro como periférico por falta do exame.
Regra prática que fecha o item: a decisão de quem fica é clínica, tomada antes da imagem e não revogada por ela. A tomografia entra para excluir sangue e para preparar o caminho do tratamento se ele existir; a internação de um paciente com síndrome vestibular aguda e sinal central se justifica com um exame de beira de leito registrado no prontuário.
6. O que não pedir, e o que custa pedir
Tomografia na vertigem posicional clássica. Paciente com episódios de segundos, desencadeados por deitar e virar, bem entre eles, e Dix-Hallpike positivo com nistagmo típico: o exame não vai mudar nada e custa caro em coisa que não é dinheiro. Custa quatro horas de espera numa maca, custa radiação, custa a vaga do tomógrafo do plantão — e custa, sobretudo, uma falsa segurança que faz o paciente ir embora com um laudo normal e sem o tratamento que ele veio buscar.
Radiografia de coluna cervical por "labirintite". Não existe achado nessa radiografia que confirme ou exclua doença vestibular. O que ela faz é produzir um relatório de artrose que todo adulto acima de cinquenta anos tem, e esse relatório vira o diagnóstico — e o paciente sai com um rótulo de "problema na cervical" que vai acompanhá-lo por anos.
Bateria laboratorial ampla no plantão. A norma do AVC define o que pedir diante da suspeita: hemograma com plaquetas, tempo de protrombina com razão normalizada, tempo de tromboplastina parcial ativada, potássio, sódio, ureia, creatinina, troponina, glicemia capilar e eletrocardiograma. Essa lista tem função: avaliar coagulabilidade e situações que possam mimetizar ou agravar um AVC em curso. Fora dela, exame pedido "para investigar tontura" no pronto-socorro serve para ocupar tempo.
O teste terapêutico como diagnóstico. "Melhorou com a medicação na veia, então era labirintite" é a conclusão mais perigosa deste capítulo, e é a que está escrita no papel que Cleusa trouxe do outro serviço. Antieméticos e anti-histamínicos deprimem o núcleo vestibular, e o núcleo vestibular é o mesmo nos dois diagnósticos: quem tem infarto de tronco também melhora por algumas horas. Resposta ao sintomático não localiza nada. O que a melhora transitória de Cleusa diz é que ela recebeu uma medicação, e nada mais.
7. O diferencial, aqui dentro: o que confirma um é o que exclui o outro
Separar o diferencial em bloco próprio mentiria sobre como se raciocina. Ele é o mesmo exame, lido nas duas direções.
Vertigem posicional paroxística benigna. Confirma: episódios de menos de um minuto, desencadeados por movimentação da cabeça — sair da cama, inclinar-se para frente ou para trás —, com Dix-Hallpike provocando o nistagmo típico. Exclui, no mesmo ato, tudo que é contínuo: quem tem vertigem há dois dias sem interrupção não tem só isto, por definição.
Neurite vestibular aguda. Confirma: sensação rotatória sustentada, não posicional, unidirecional, de início abrupto, com melhora progressiva ao longo de semanas, náusea e vômitos, sem zumbido, sem hipoacusia e sem sinal neurológico focal, com nistagmo inibido pela fixação do olhar. Cada um desses "sem" é o que exclui a alternativa central; a presença de qualquer um deles derruba o diagnóstico.
Doença de Ménière. Confirma: crises recorrentes com sintomas cocleares — hipoacusia, zumbido, plenitude aural — que começam antes da vertigem, com pico rápido, duração de vinte minutos a horas e raramente mais de 24 horas, e perda auditiva neurossensorial unilateral ou assimétrica. A ordem dos sintomas é o dado: coclear primeiro, vertigem depois. Cuidado com a irmã perigosa: surdez súbita unilateral que aparece junto com a primeira crise de vertigem da vida não é Ménière — é sinal de gravidade nos dois protocolos brasileiros.
Infarto de cerebelo ou de tronco. Confirma: qualquer um dos três achados que dispensam técnica, ou qualquer item da lista de gravidade dos protocolos — sinais ou sintomas neurológicos focais como cefaleia, borramento visual, diplopia, disartria, parestesia, fraqueza muscular, dismetria ou ataxia; novo tipo de cefaleia, especialmente occipital; surdez aguda unilateral; nistagmo vertical. Nenhum desses precisa de tomografia para ser encontrado, e nenhum é excluído por ela.
Pré-síncope e hipotensão ortostática. Confirma: gatilho postural de ficar de pé, escurecimento visual, sem rotação, com reprodução do sintoma na medida da pressão em ortostase. Exclui vestibular porque o gatilho é a posição do corpo e não o movimento da cabeça — deitar de lado na cama não provoca.
Vertigem por medicamento. Confirma: início temporalmente ligado à introdução ou ao aumento de dose de algo da lista do protocolo. É o diagnóstico mais subdiagnosticado do capítulo, porque exige perguntar e conferir a caixa, e não fazer nada.
8. O que existe no SUS — e o que fazer quando não existe na sua porta
Exame que não se consegue não é conduta, e remédio que não existe na farmácia também não. Vale saber exatamente o que o país lista.
A Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 não traz nenhum antivertiginoso. Buscando por princípio ativo, não constam dimenidrinato, meclizina, betaistina, cinarizina nem flunarizina. O que a lista nacional oferece para este paciente são antieméticos e sedativos de uso geral: metoclopramida em comprimido, solução oral e injetável; ondansetrona em comprimido de 4 e de 8 mg, inclusive orodispersível; prometazina em comprimido de 25 mg e em solução injetável de 25 mg/mL; diazepam em comprimido e injetável; clonazepam em solução oral.
Esse é um fato com consequência dupla. Primeira: o remédio que o hospital brasileiro mais associa a tontura não é considerado essencial pelo país, ainda que muitos municípios o comprem por lista própria — de modo que contar com ele é contar com a farmácia da sua porta, não com uma garantia nacional. Segunda, e mais importante: a droga não é o tratamento de nenhuma das três caixas. Na caixa 2 o tratamento é mecânico; na caixa 1 central o tratamento é a via do acidente vascular; na caixa 1 periférica o sintomático é uma ponte de três dias, não uma terapia.
A ressonância com difusão, que é o exame que responderia a pergunta da caixa 1, existe no SUS mas quase nunca na porta e quase nunca de madrugada. O caminho previsto pela linha de cuidados nacional é de rede: os centros habilitados para atendimento ao AVC precisam ter cobertura de atendimento neurológico disponível em até trinta minutos da admissão — plantão presencial, sobreaviso à distância ou suporte especializado por telemedicina —, leitos monitorados, laboratório em tempo integral e terapia intensiva. Quando a sua unidade não é esse centro, o instrumento é a regulação: o paciente com síndrome vestibular aguda e sinal central é caso de transferência, e a sala de estabilização existe para segurá-lo enquanto isso.
E há o caminho de baixo, que é o mais usado e o menos lembrado: os dois protocolos de encaminhamento dizem, com todas as letras, que vertigem com suspeita de origem central e sinal de gravidade é encaminhamento para urgência ou emergência, e não para a fila do especialista. Só depois de avaliada em serviço de emergência é que a vertigem central vira encaminhamento ambulatorial à neurologia — e, nessa condição, ela entra com preferência sobre as outras condições do protocolo. A fila do otorrinolaringologista fica reservada para a suspeita de Ménière, para a vertigem posicional que recorre apesar do tratamento, para a labirintite ou neuronite que não melhora com o manejo conservador, e para a vertigem periférica com dúvida diagnóstica depois de investigadas as causas secundárias na atenção primária.
Fluxo, réguas e tabelas do plantão
Você deve classificar tontura por tempo e gatilhos, selecionar o exame à beira do leito correto e reconhecer quando a investigação central precisa continuar.
- 1Chegada. Tontura em ficha verde é comum e quase sempre benigna. Três coisas fazem essa ficha subir de cor na hora: o paciente chegou sem conseguir andar, tem vômitos incoercíveis, ou tem qualquer sinal neurológico associado.
- 2Glicemia capilar em todos. Abaixo de 60 mg/dL com sintomas, trate e reexamine depois de corrigir — o quadro pode desaparecer inteiro.
- 3Pressão arterial deitado e em pé, com reprodução do sintoma. Sinais vitais completos, incluindo frequência cardíaca e ritmo.
- 4As três perguntas, nesta ordem: quando começou; o que desencadeia; quanto dura cada episódio. Depois, a quarta: quais medicamentos, com as caixas na mão.
- 5Classifique a caixa. Contínua desde que começou é caixa 1. Só ao mudar de posição, com segundos de duração e bem entre os episódios, é caixa 2. Crises de minutos a horas sem gatilho é caixa 3. Escurecimento visual ao ficar de pé, sem rotação, é a caixa que não é vestibular.
- 6Antes de qualquer manobra, três achados que dispensam técnica: peça para ficar de pé e andar sem apoio; olhe o nistagmo espontâneo com o paciente parado; procure sinal focal — fala, olhos, face, força, prova índice-nariz, calcanhar-joelho.
- 7Caixa 1 com qualquer um dos três achados presentes: abra a via do acidente vascular cerebral. Monitor, acesso, exames da norma, tomografia para excluir sangramento e efeito de massa, contato com a regulação. O paciente fica.
- 8Caixa 1 sem nenhum dos três: reexamine em uma a duas horas antes de decidir qualquer coisa, com o paciente de pé de novo. Deterioração ou surgimento de sinal muda a via.
- 9Caixa 2 com gatilho de virar a cabeça ou deitar: faça o Dix-Hallpike do lado que o paciente indica, com descida rápida e a cabeça pendente, olhando os olhos dele.
- 10Dix-Hallpike positivo com nistagmo típico: faça o Epley na mesma maca, na mesma consulta. Repita o Dix-Hallpike ao final para conferir.
- 11Caixa 2 com gatilho de ficar de pé: é ortostase. Reveja anti-hipertensivo, diurético e psicotrópico, oriente levantar em dois tempos, e não prescreva antivertiginoso.
- 12Caixa 3: procure a ordem dos sintomas — coclear antes da vertigem sugere Ménière. Fator de risco vascular com crises repetidas sem gatilho é conversa de ataque isquêmico transitório, não de labirinto.
- 13Antes de qualquer receita, decida o destino. Prescrever é a última coisa, não a primeira.
- 14Alta: escreva no papel o padrão temporal, os achados do exame de marcha e de nistagmo, o que foi feito e os critérios de retorno imediato.
- 15Registro: a frase que protege o paciente e você é a que diz o que a imagem não respondeu — tomografia sem sangramento e sem efeito de massa não exclui isquemia de fossa posterior.
O eixo que decide não é a sensação, é o tempo
Segundos, com gatilho de posição, é pedra no canal. Minutos a horas, sem gatilho, é crise episódica espontânea. Horas a dias, contínuo, é síndrome vestibular aguda — e é a única faixa em que a decisão do plantão é sobre internar. A altura das barras é o risco de o quadro ser central, não a frequência: a caixa mais rara é a mais perigosa.
Os três achados que dispensam técnica
Não conseguir ficar de pé sem apoio. Nistagmo vertical espontâneo. Qualquer outro sinal neurológico focal. Nenhum dos três exige manobra fina, os três constam dos critérios de gravidade dos protocolos brasileiros, e qualquer um deles sozinho desqualifica o rótulo de labirintite e muda o destino do paciente.
O que a tomografia entrega, por faixa de tempo
Sinais precoces de isquemia em até 67% dos casos nas primeiras 3 horas, até 82% nas primeiras 6, cerca de 90% depois de uma semana — números da norma nacional, medidos sobre lesão descrita no território da artéria cerebral média. Nenhuma dessas barras é sobre fossa posterior, e nenhuma delas é exclusão de infarto.
A pergunta do plantão não é o diagnóstico, é quem fica
O diagnóstico se apoia no padrão temporal e no exame dirigido. HINTS completo por profissional treinado pode orientar a síndrome vestibular aguda; achados centrais ou equívocos exigem investigação. TC normal e melhora com sintomático não encerram o caso. Defina um destino compatível com o risco e a capacidade de caminhar, hidratar-se e retornar.
| Achado | Sugere periférico | Sugere central | Fonte da linha |
|---|---|---|---|
| Nistagmo — direção | Horizontal ou horizonto-rotatório, unidirecional | Vertical (altamente sugestivo), ou multidirecional | Protocolo estadual e municipal |
| Nistagmo — latência ao teste provocativo | Em torno de 20 segundos | Não costuma ter; se tiver, dura no máximo 5 segundos | Protocolo estadual e municipal |
| Nistagmo — fatigabilidade | Fatigável | Não fatigável, podendo durar semanas a meses | Protocolo estadual e municipal |
| Nistagmo — fixação do olhar | Inibido pela fixação | Não é inibido pela fixação | Protocolo estadual e municipal |
| Marcha e equilíbrio | Desequilíbrio leve a moderado, para o lado do labirinto acometido; consegue caminhar | Grave desequilíbrio, com dificuldade para caminhar ou mesmo ficar em pé | Protocolo estadual e municipal |
| Sintomas auditivos | Zumbido, hipoacusia, plenitude aural são comuns | Raros; mas surdez súbita unilateral é sinal de gravidade | Protocolo estadual e municipal |
| Sinais neurológicos associados | Ausentes | Cefaleia, diplopia, disartria, parestesia, fraqueza, dismetria, ataxia | Protocolo estadual e municipal |
| Intensidade de vertigem e nistagmo | Pronunciados, com náusea e vômito | Menor intensidade | Protocolo estadual — tendência, não critério |
| Teste do impulso cefálico | Anormal: sacada de correção para refixar o alvo | Normal: o olhar se mantém no alvo | Protocolo estadual (lado periférico) e teleconsultoria universitária |
| Desalinhamento vertical do olhar | Ausente | Presente | Componente do HINTS, registrado por nome no protocolo municipal |
| Idade de início | Sem critério etário | Acima de 50 anos favorece avaliação neurológica | Protocolo municipal apenas |
| Duração ininterrupta | Sem critério | Acima de 10 minutos ininterruptos favorece avaliação neurológica | Protocolo municipal apenas |
| Fatores ateroscleróticos | Sem peso | Associados favorecem origem central | Protocolo municipal apenas |
As três caixas, pela resposta a três perguntas
| Caixa | Quando começou | Gatilho | Duração de cada episódio | Quem mora aqui | A pergunta do plantão |
|---|---|---|---|---|---|
| 1 — aguda contínua | Horas a dias, de uma vez | Piora com movimento, mas existe em repouso | Contínua, sem intervalo | Neurite vestibular; infarto de cerebelo ou de tronco | O paciente fica? |
| 2 — episódica desencadeada | Dias, em crises | Deitar, virar na cama, olhar para cima, levantar | Segundos a menos de um minuto | Vertigem posicional paroxística benigna; hipotensão ortostática | Qual manobra fazer? |
| 3 — episódica espontânea | Semanas a anos, em crises | Nenhum | Minutos a horas | Doença de Ménière; migrânea vestibular; ataque isquêmico transitório | Houve sintoma neurológico junto? |
| Não vestibular | Variável | Ficar de pé; medicamento novo | Segundos | Pré-síncope, ortostase, efeito de droga, desequilíbrio multissensorial do idoso | Qual remédio suspender? |
As três causas periféricas mais comuns, pelo quadro do protocolo estadual
| Entidade | Padrão temporal | Sintoma auditivo | Nistagmo | O que fecha |
|---|---|---|---|---|
| Vertigem posicional paroxística benigna | Rotatória, geralmente menos de 1 minuto, desencadeada por movimentação da cabeça | Ausente | Horizontal ou rotatório provocado por Dix-Hallpike, com latência de 5 a 20 segundos, fatigável e inibido pela fixação | Manobra de posicionamento positiva |
| Neurite vestibular aguda (neuronite ou labirintite) | Rotatória sustentada, não posicional, início abrupto, melhora progressiva ao longo de semanas | Ausente — sem zumbido e sem hipoacusia | Horizontal ou rotatório, unidirecional, inibido pela fixação | Teste do impulso cefálico positivo, com sacada, do lado afetado |
| Doença de Ménière | Crises recorrentes; pico rápido; 20 minutos a horas, raramente mais de 24 horas | Presente e primeiro: hipoacusia, zumbido, plenitude aural | Presente na crise | Perda auditiva neurossensorial unilateral ou assimétrica |
Vertigem que vai para a emergência agora, pelos dois protocolos brasileiros
| Critério | Protocolo estadual | Protocolo municipal |
|---|---|---|
| Sinais ou sintomas neurológicos focais | Sim — cefaleia, borramento visual, diplopia, disartria, parestesia, fraqueza muscular, dismetria, ataxia | Sim — ataxia, lateropulsão, diplopia, disartria |
| Novo tipo de cefaleia | Sim, especialmente occipital | Sim, dentro de sinais de gravidade |
| Surdez aguda unilateral | Sim | Sim |
| Nistagmo vertical | Sim | Sim |
| Déficit focal progressivo associado à vertigem | Coberto pelos sinais focais | Sim, item próprio |
| Idade acima de 50 anos ao início | Não usa | Sim, como critério de avaliação neurológica |
| Duração acima de 10 minutos ininterruptos | Não usa | Sim, como critério de avaliação neurológica |
| Fatores ateroscleróticos associados | Não usa | Sim, como critério de avaliação neurológica |
Sintomático da fase aguda: dose, teto diário e prazo
| Fármaco | Posologia do protocolo estadual | Total em 24 horas | Teto ou observação | Está na lista nacional de essenciais? |
|---|---|---|---|---|
| Dimenidrinato | 50 mg por via oral, de 6 em 6 horas | 200 mg | Bula do profissional: máximo 400 mg por dia acima de 12 anos — a posologia cabe | Não |
| Meclizina (meclozina) | 25 a 50 mg por via oral, de 6 em 6 horas | 100 a 200 mg | Bula do fabricante: 25 a 100 mg por dia em doses divididas — o extremo superior é o dobro do teto | Não |
| Cinarizina | 25 mg por via oral, de 8 em 8 horas | 75 mg | Uso prolongado associa-se a parkinsonismo induzido por droga | Não |
| Prometazina | 25 mg por via oral, de 8 em 8 horas | 75 mg | Sedação intensa; cautela no idoso | Sim — comprimido de 25 mg e injetável |
| Metoclopramida | 5 a 10 mg por via oral, de 6 em 6 horas | 20 a 40 mg | Risco de sintomas extrapiramidais, sobretudo em jovens | Sim — comprimido, solução oral e injetável |
| Ondansetrona | 4 a 8 mg por via oral, de 12 em 12 horas | 8 a 16 mg | Antiemético; não é anti-histamínico nem benzodiazepínico — boa opção para o vômito | Sim — comprimidos de 4 e 8 mg, inclusive orodispersível |
| Domperidona | 10 a 20 mg por via oral, de 8 em 8 horas | 30 a 60 mg | Antiemético | Não |
| Clonazepam | 0,25 a 0,5 mg por via oral, de 8 em 8 horas | 0,75 a 1,5 mg | Reserva; sedação e risco de queda | Sim — solução oral |
| Diazepam | 5 a 10 mg por via oral, de 12 em 12 horas | 10 a 20 mg | Reserva; sedação e risco de queda | Sim — comprimido e injetável |
| Prazo de todos eles | Primeiros 3 dias da fase aguda | — | Não ultrapassar 3 dias: pode atrasar a compensação pelo sistema nervoso central | — |
Medicamentos e substâncias que causam vertigem
| Grupo | Exemplos citados no protocolo estadual |
|---|---|
| Substâncias de abuso | Álcool, cocaína |
| Antimicrobianos | Aminoglicosídeos |
| Cardiovasculares | Antiarrítmicos, anti-hipertensivos, nitratos, furosemida |
| Neuropsiquiátricos | Fenitoína, fenobarbital, antidepressivos, benzodiazepínicos, lítio |
| Outros | Anti-histamínicos sedativos, relaxantes musculares |
O que pedir e o que não pedir no plantão
| Exame | Pedir quando | Não pedir quando | O que responde |
|---|---|---|---|
| Glicemia capilar | Sempre | — | Hipoglicemia, que é o único diagnóstico daqui tratado furando o dedo |
| Pressão deitado e em pé | Sempre que houver gatilho de ficar de pé | — | Ortostase, com reprodução do sintoma |
| Eletrocardiograma | Pré-síncope, palpitação, idoso com risco vascular | Vertigem posicional clássica em jovem | Arritmia; risco embólico |
| Tomografia de crânio | Qualquer suspeita de origem central | Caixa 2 com Dix-Hallpike positivo típico | Sangramento e efeito de massa — não exclui isquemia de fossa posterior |
| Hemograma, coagulograma, eletrólitos, ureia, creatinina, troponina | Quando a via do acidente vascular é aberta | Como triagem de tontura | Coagulabilidade e condições que mimetizam ou agravam o AVC |
| Hormônio tireoestimulante, glicemia de jejum ou hemoglobina glicada | Na atenção primária, como investigação de causa secundária | No plantão | Nada que mude o destino desta madrugada |
| Radiografia de coluna cervical | Nunca, por esta indicação | Sempre | Um laudo de artrose que vira diagnóstico errado |
| Ressonância com difusão | Quando disponível e a suspeita central persiste | Quando a espera por ela atrasa a decisão de destino | A isquemia que a tomografia não vê |
A conta da meclizina, para você poder refazê-la. O protocolo estadual prescreve 25 a 50 mg de 6 em 6 horas. Vinte e quatro horas divididas por seis dão quatro tomadas por dia; 25 mg vezes 4 são 100 mg por dia, e 50 mg vezes 4 são 200 mg por dia. A bula aprovada do fabricante brasileiro estabelece, para vertigem, 25 a 100 mg por dia em doses divididas. O extremo inferior da prescrição do protocolo bate exatamente no teto da bula, e o extremo superior é o dobro dele. Prescreva no máximo 25 mg de 6 em 6 horas, e prefira 25 mg de 8 em 8 horas, que são 75 mg por dia.
O nome do fármaco também sai trocado nesse mesmo quadro, escrito como se fosse uma forma verbal. A denominação comum brasileira é meclozina, e o produto de referência registra dicloridrato de meclozina. Vale a atenção porque nome errado em prescrição eletrônica é fonte de dispensação errada.
A linha do impulso cefálico na tabela principal está escrita na leitura que o mecanismo impõe e que o protocolo estadual sustenta pelo lado periférico. Ela é o inverso do que se lê ao aplicar literalmente a expressão "HINTS positivo" do protocolo municipal. Antes de usar essa linha, leia o item 3 do bloco de investigação: a régua que este capítulo entrega ao interno não depende dessa manobra.
As três últimas linhas da tabela principal — idade, duração e fatores ateroscleróticos — existem em um protocolo e não no outro. Elas não são critérios de exame e não devem ser usadas para excluir origem central: paciente jovem com crise de dois minutos e sinal focal continua sendo emergência pelos dois documentos.
A tabela de sintomático não é uma sugestão de escolher um. Na vertigem posicional paroxística benigna, nenhum deles tem indicação: o tratamento é a manobra de reposicionamento. Na síndrome vestibular aguda com suspeita central, sedar antes de registrar o exame neurológico apaga o dado que sustenta a decisão de transferência.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo deste capítulo é curta e cabe numa consulta. O que ela tem de diferente das outras é que a prescrição entra tarde, e em duas das quatro caixas não entra nunca. Isso não é economia: é que o tratamento certo, nos casos mais comuns, não é um remédio.
Todas as doses abaixo vêm do quadro de tratamento do protocolo estadual, recalculadas contra a bula do fabricante quando existe bula aberta. Onde a conta não fechou, a dose escrita aqui é a corrigida, e a conta está na nota do bloco anterior.
O manejo do acidente vascular cerebral em si — trombólise, janela, escala, trombectomia — não está aqui. Ele é o assunto dos capítulos de déficit neurológico focal agudo e de AVC isquêmico agudo, e este capítulo remete a eles no ponto exato em que a via se abre. O que se decide aqui é quem entra nessa via.
Minuto 0 — a classificação de risco, que você vai refazer
Tontura entra quase sempre como ficha verde, e na maioria das vezes está certo. Três situações fazem a ficha subir de cor antes de qualquer consulta: o paciente chegou sem conseguir andar sozinho, tem vômitos que não param, ou tem qualquer alteração neurológica visível. Se a triagem não pegou, pegue você — a primeira coisa que se olha no corredor é como a pessoa chegou até a cadeira. Quem veio de cadeira de rodas por causa da tontura já respondeu à pergunta mais importante do capítulo, e respondeu antes de falar.
Minuto 5 — o que custa nada e resolve muito
Avalie glicemia e sinais vitais e corrija hipoglicemia prontamente. Meça pressão em ortostatismo quando a história indicar e o paciente conseguir ficar de pé com segurança; não force a manobra em quem tem instabilidade ou ataxia importante. Queda pressórica que reproduz sintomas apoia componente ortostático, mas não exclui uma segunda causa. Evite transformar um teste positivo em encerramento automático da investigação.
Prescrição- Glicemia capilar à beira do leito, em todos — sintomas de hipoglicemia incluem tontura segundo o protocolo do SAMU, com corte de 60 mg/dL.
- Quando seguro: repouso deitado por cerca de 5 minutos, pressão e pulso basais e medidas após ficar em pé, incluindo 1 e 3 minutos. Registrar sintomas; interromper com apoio se houver pré-síncope ou risco de queda.
- Se hipoglicemia sintomática: trate conforme o protocolo próprio e reexamine o paciente depois da correção antes de concluir qualquer coisa sobre a tontura.
Minuto 10 — as três perguntas, e a caixa sai delas
Quando começou. O que desencadeia. Quanto dura cada episódio. E, logo depois, a lista de medicamentos com as caixas na mão — o quadro do protocolo estadual tem doze grupos, e no idoso polimedicado essa pergunta resolve mais consultas do que qualquer manobra. Escreva a resposta das três no prontuário com as palavras do paciente e com um número: "contínua há 40 horas", "segundos, ao virar na cama, umas sete vezes desde ontem". A frase "paciente refere tontura" não é registro; é a ausência de registro.
Minuto 15 — o exame que se faz de pé
Examine marcha e estabilidade com assistência e sem provocar queda. Se o paciente não sustenta postura, esse achado já é suficiente para não insistir em três passos sem apoio. Observe nistagmo espontâneo e com o olhar, movimentos oculares, fala, coordenação, força e sensibilidade; avalie audição e otoscopia. História, exame dirigido e técnica adequada determinam a necessidade de avaliação central.
Minuto 20 — caixa 2 com gatilho cefálico: a manobra que cura na maca
Na síndrome episódica desencadeada compatível, avalie limitações cervicais e faça Dix-Hallpike corretamente, observando os olhos. Nistagmo torsional e vertical para cima, com padrão temporal típico, apoia VPPB de canal posterior e indica reposicionamento como Epley. Adapte a técnica se houver restrição de mobilidade. Reavalie sintomas e marcha e organize retorno se persistirem; uma repetição imediata negativa pode refletir fatigabilidade e não garante cura. Supressores vestibulares não são rotina para VPPB.

Sequência orientadora para VPPB do canal posterior direito: posição inicial com rotação à direita e extensão, giro da cabeça para a esquerda, rotação do corpo para o lado esquerdo com nariz para baixo e retorno assistido. Confirmar lado e canal e avaliar limitações cervicais antes da execução. Prescrição- Manobra de Epley, passo a passo do protocolo estadual: explique que pode induzir vertigem; faça o Dix-Hallpike com a cabeça a 45 graus para o lado afetado; gire a cabeça 90 graus para o lado não afetado; gire mais 90 graus, ficando o paciente com a face voltada ao chão e o tronco virado; sente o paciente. Mínimo de 30 segundos em cada posição.
- Reavaliar a resposta e repetir manobra quando necessário e tolerado; não usar apenas um Dix-Hallpike imediatamente negativo como prova de resolução definitiva.
- Sem prescrição medicamentosa. Orientação verbal e por escrito de que a vertigem pode reaparecer em dias e que a manobra pode ser repetida.
- Encaminhar se diagnóstico incerto, sinais atípicos, limitação para manobras ou persistência/recorrência; não esperar obrigatoriamente três recorrências quando já houver motivo clínico.
Minuto 20 — caixa 1 com sinal central: a via do acidente vascular
Um dos três achados presente — não fica de pé, nistagmo vertical espontâneo, ou qualquer sinal focal — e a conversa muda de assunto. Este paciente entra na via do acidente vascular cerebral, e a partir daqui o roteiro é o dos capítulos de déficit neurológico focal agudo e de AVC isquêmico agudo desta coleção: o relógio do início dos sintomas, a escala, a janela, a decisão de trombólise. O que cabe a este capítulo é a parte que aqueles não cobrem, porque o paciente deles chega com hemiparesia e o seu chega andando de cadeira de rodas com vômito. Primeiro: registre o exame neurológico antes de qualquer sedativo. Antieméticos e anti-histamínicos deprimem o núcleo vestibular e apagam o nistagmo — que é o dado que sustenta a transferência. Segundo: a tomografia é para excluir sangramento e efeito de massa, e o laudo normal não fecha a porta. Terceiro: acione a regulação cedo, porque o tempo de transporte é o que você não controla.
Prescrição- Monitorização, acesso venoso periférico, oxigênio se saturação indicar, decúbito elevado no paciente consciente.
- Exames que a norma nacional determina diante da suspeita: eletrocardiograma de repouso, glicemia capilar, hemograma completo com plaquetas, tempo de protrombina com razão normalizada, tempo de tromboplastina parcial ativada, potássio, sódio, ureia, creatinina e troponina.
- Tomografia de crânio sem contraste, com a finalidade explícita de excluir sangramento e efeito de massa.
- Nada por via oral até definir deglutição e destino.
- Controlar vômitos quando necessário, preferindo opção pouco sedativa e via compatível com deglutição e tolerância. Na suspeita de AVC com deglutição não avaliada, não administrar comprimidos por rotina. Ondansetrona IV, por exemplo 4 mg lentamente, pode ser considerada conforme protocolo e risco de QT; metoclopramida exige atenção a distonia, acatisia e ajuste renal.
- Contato com a regulação para centro habilitado ao atendimento do AVC, que por norma deve ter cobertura neurológica disponível em até trinta minutos da admissão.
Minuto 30 — caixa 1 sem sinal central: observar, e a ponte de três dias
Na síndrome vestibular aguda, ausência de nistagmo vertical, fraqueza ou sintoma auditivo não basta para confirmar neurite. HINTS deve ser aplicado por examinador treinado no paciente apropriado, com sintomas contínuos e nistagmo espontâneo. Se não houver competência disponível ou o resultado for central/equívoco, mantenha investigação conforme risco. Controle vômitos e desidratação e reavalie, mas melhora em uma ou duas horas não exclui infarto e neurite não tem obrigação de melhorar nesse prazo.
Prescrição- Hidratação venosa conforme o grau de desidratação e as perdas por vômito.
- Ondansetrona 4 a 8 mg por via oral de 12 em 12 horas, ou metoclopramida 5 a 10 mg por via oral de 6 em 6 horas, para o vômito — ambos na lista nacional de essenciais; a metoclopramida com atenção a sintomas extrapiramidais, sobretudo em jovens.
- Dimenidrinato 50 mg por via oral de 6 em 6 horas, se a farmácia da unidade o tiver — 200 mg por dia, dentro do teto de 400 mg por dia da bula do profissional. Não consta da lista nacional de essenciais.
- Alternativa quando não houver dimenidrinato: prometazina 25 mg por via oral de 8 em 8 horas — 75 mg por dia; consta da lista nacional, com cautela pela sedação, especialmente no idoso.
- Se optar por meclozina: 25 mg por via oral de 8 em 8 horas, que são 75 mg por dia, ou no máximo 25 mg de 6 em 6 horas, que são 100 mg por dia — o teto da bula do fabricante. Não prescrever 50 mg de 6 em 6 horas.
- Benzodiazepínico só como reserva e só no primeiro dia: clonazepam 0,25 a 0,5 mg por via oral de 8 em 8 horas, ou diazepam 5 a 10 mg por via oral de 12 em 12 horas — pesando sedação e risco de queda contra o benefício.
- Prazo escrito na receita: até 3 dias, sem renovação. A justificativa do protocolo é o atraso da compensação central.
- Nada de cinarizina ou flunarizina para uso continuado: o mesmo protocolo municipal que trata da vertigem lista os dois como antivertiginosos potencialmente indutores de parkinsonismo.
Minuto 30 — a caixa que não é vestibular
Escurecimento visual ao ficar de pé, sem rotação, com queda de pressão que reproduz o sintoma: a conduta é subtrativa. Reveja anti-hipertensivo, diurético, nitrato, antidepressivo e benzodiazepínico contra o quadro de medicamentos do protocolo. Oriente levantar em dois tempos — sentar na beira da cama, esperar, depois ficar de pé —, hidratação e cuidado com calor. Eletrocardiograma para quem tem palpitação, perda de consciência associada ou risco vascular. E não prescreva antivertiginoso. Este é o paciente em que o dimenidrinato é ativamente nocivo: o protocolo do SAMU lista, na mesma linha de fatores de risco de queda, pacientes com tontura e pacientes em uso de anti-histamínicos e medicamentos depressores. Seu Ederaldo dirige van escolar; o remédio que alguém quer dar a ele aumenta a chance de ele cair — e de ele cochilar ao volante.
Prescrição- Revisão da prescrição em uso, item por item, contra a lista de medicamentos que causam vertigem do protocolo estadual.
- Contato ou contrarreferência escrita para quem prescreveu o anti-hipertensivo novo, com a medida de pressão deitado e em pé anotada.
- Orientação de levantar em dois tempos e de hidratação; meias elásticas quando houver indicação.
- Sem antivertiginoso e sem benzodiazepínico.
Hora 2 — o reexame que decide o destino
Reavalie consciência, nistagmo, sinais neurológicos, equilíbrio, hidratação e tolerância oral. Melhora sintomática não demonstra origem periférica e caminhar apenas com apoio pode ainda ser insuficiente para alta. O destino depende de uma avaliação etiológica adequada, risco residual e segurança funcional. Nova cefaleia, diplopia, disartria, sonolência ou piora de marcha exigem escalonamento imediato.
Alta — o papel que o paciente leva na mão
O documento de alta deste capítulo tem cinco linhas obrigatórias, e nenhuma delas é o nome de um remédio. O padrão temporal em números. O que foi examinado e encontrado, incluindo marcha e nistagmo. O que foi feito, incluindo a manobra, se houve. O que a imagem respondeu e o que ela não respondeu. E os critérios de retorno imediato, escritos em português de leigo. Os dois protocolos de encaminhamento exigem, para a fila do especialista, um conteúdo descritivo mínimo que é praticamente esse mesmo texto: duração, tempo de evolução, frequência, fatores desencadeantes, sintomas associados, exame neurológico e otoscopia, medicamentos com dose e resposta, e os exames já feitos com data e laudo. Escrever isso na alta não é burocracia — é o que faz o paciente ser marcado no lugar certo em vez de voltar à mesma fila daqui a um mês.
Prescrição- Critérios de retorno imediato, escritos para o paciente e para quem mora com ele: piora da tontura em vez de melhora; dificuldade nova de andar ou de ficar em pé; fala arrastada; visão dupla; fraqueza ou dormência em qualquer parte do corpo; dor de cabeça forte e nova, principalmente na nuca; perda de audição de um ouvido; sonolência.
- Retorno programado em 7 dias na unidade básica para reavaliar, e antes disso se qualquer critério acima aparecer.
- Encaminhamento a otorrinolaringologia quando houver suspeita de Ménière, recorrência de vertigem posicional após três manobras, labirintite ou neuronite sem melhora após 15 dias de tratamento conservador, ou vertigem periférica com dúvida diagnóstica.
- Encaminhamento a neurologia, com prioridade, apenas para a vertigem de suspeita central já avaliada em serviço de emergência — nunca como substituto da avaliação de emergência.
Dia 7 a dia 30 — o que se espera de cada caixa
A vertigem posicional tratada com manobra costuma resolver de imediato, mas recorre: a revisão brasileira registra recorrência de 30% a 45% mesmo em pacientes tratados corretamente. Isso é orientação de alta, não fracasso — o paciente precisa saber que pode voltar e que a manobra pode ser repetida. A neurite melhora progressivamente ao longo de semanas, e o protocolo estadual usa 15 dias como marco: sintomas que não melhoram após 15 dias de tratamento conservador viram encaminhamento ao otorrinolaringologista. Antes disso, o que se faz é sair do sintomático em três dias e estimular o movimento, porque a compensação central depende de o cérebro receber estímulo vestibular para recalibrar — repouso prolongado e sedação contínua trabalham contra ela. E a caixa não vestibular do idoso raramente se resolve numa consulta: o que muda o desfecho ao longo de um mês é a revisão da prescrição, não a introdução de mais um remédio.
Como saber se está funcionando
Em quase todo capítulo de emergência, reavaliar é conferir se o tratamento funcionou. Aqui é mais do que isso: reavaliar é o exame diagnóstico. Você não vai ter ressonância, e o que separa neurite de infarto de cerebelo na prática brasileira, na maioria das portas, é a comparação entre dois exames do mesmo paciente separados por algumas horas.
Por isso o parâmetro precisa ser escolhido com cuidado e anotado por escrito. "Melhorou" não é parâmetro. "Anda três passos com apoio de uma pessoa, contra não conseguir sair da maca às 9h" é.
Depois do Epley: o parâmetro é o nistagmo, e a conferência é agora
Terminada a manobra, sente o paciente, espere um minuto e refaça o Dix-Hallpike do mesmo lado. Esse é o teste de cura, e ele se faz na mesma consulta, não no retorno. O parâmetro é objetivo: abolição do nistagmo de posicionamento.
Ainda positivo? Repita o Epley na mesma sessão. A literatura brasileira registra índices de cura de 87% a 100% para o Epley, e mostra o efeito da repetição na manobra alternativa: cerca de 50% com uma aplicação única, subindo para 97% quando realizada várias vezes. Repetir é a regra, não o resgate.
Depois de duas ou três tentativas sem abolir o nistagmo, pare. Insistir além disso rende pouco e cansa uma paciente idosa que já vomitou duas vezes. Oriente retorno em uma semana para nova sessão, e reserve o encaminhamento ao otorrinolaringologista para o critério do protocolo: mais de três episódios de recorrência apesar das manobras de reposicionamento.
Uma armadilha do parâmetro: o paciente costuma dizer que melhorou logo após a manobra mesmo quando o nistagmo persiste, porque o que ele sente é o alívio de estar sentado e parado. Confie no exame, não no relato.
Na síndrome vestibular aguda observada: o que comparar, e em quanto tempo
Reexame em 1 a 2 horas, e de novo antes de qualquer decisão de alta. São quatro parâmetros, e os quatro se medem em segundos:
Marcha. Consegue ficar de pé sem apoio? Anda quantos passos, com apoio de quantas pessoas? É o parâmetro mais sensível a piora, porque a ataxia de tronco progride antes de qualquer coisa aparecer na fala.
Nistagmo. Ainda é espontâneo? Ainda é unidirecional? Ainda é inibido pela fixação do olhar? Um nistagmo que passou a mudar de direção conforme a direção do olhar entre um exame e outro é achado novo e muda a via.
Nível de consciência. Sonolência que não existia. O relato brasileiro de infarto cerebelar é categórico sobre esse ponto: o dado clínico mais importante para indicar a descompressão cirúrgica é o comprometimento progressivo da consciência — progressivo, isto é, só visível para quem compara. O paciente que "está dormindo, coitado, passou a noite vomitando" é o paciente que precisa ser acordado e examinado.
Sinais focais novos. Fala, olhos, face, força, coordenação. Qualquer coisa que não estava lá às 9h.
O que significa melhora: consegue mais do que conseguia, vomita menos, nistagmo menos intenso, consciência igual. O que significa piora: qualquer um dos quatro pior, ou qualquer sinal novo — e piora nesta caixa não pede outra dose de sintomático, pede outra via.
O remédio que apaga o parâmetro
Existe um jeito de perder a reavaliação inteira sem perceber, e é o mais comum: sedar o paciente antes de estabelecer o basal. Anti-histamínicos e benzodiazepínicos deprimem o núcleo vestibular — é assim que funcionam — e o núcleo vestibular deprimido produz menos nistagmo. Some sonolência de efeito colateral e você não consegue mais distinguir a sonolência da droga da sonolência do edema.
A regra prática tem duas metades. Antes de qualquer sedativo, registre marcha, nistagmo, consciência e sinais focais. E, ao reavaliar um paciente medicado, leia o resultado com desconto: melhora sob anti-histamínico não é informação diagnóstica, porque a resposta ao sintomático não localiza a lesão. Foi exatamente essa a armadilha do outro serviço com Cleusa — ela melhorou três horas com medicação venosa, e a alta saiu escrita como "crise labiríntica".
A segunda metade da regra é o prazo. O protocolo estadual limita o sintomático aos três primeiros dias da fase aguda com uma justificativa explícita: prolongar atrasa o período de compensação pelo sistema nervoso central. O paciente que sai da emergência com receita de anti-histamínico por trinta dias volta em um mês pior do que sairia sem receita nenhuma, e a explicação está no mecanismo — o cérebro não recalibra o que está anestesiado.
Quando não melhora: o roteiro
Revise a caixa antes de revisar o diagnóstico. A pergunta é se o padrão temporal foi classificado certo. Muita "neurite que não melhora" é vertigem posicional em que ninguém fez o Dix-Hallpike, porque o paciente descreveu tudo junto e o interno ouviu "tonto o dia inteiro".
Revise a lista de medicamentos. No idoso, a vertigem que não cede em 72 horas com frequência é iatrogênica, e o quadro do protocolo tem doze grupos de fármacos.
Revise a hipótese central. Aos três dias, o paciente que ainda não fica de pé não tem neurite até prova em contrário — a neurite melhora progressivamente ao longo de semanas, o que quer dizer que aos três dias já há alguma melhora. Ausência de qualquer melhora é sinal de que a caixa está errada.
Escalone a imagem. É neste ponto que a ressonância com difusão deixa de ser luxo e passa a ser a resposta que falta. A norma nacional reconhece que ela é bem mais sensível e precisa; se sua unidade não tem, a regulação existe para isso.
Chame ajuda, e chame cedo. Não é sinal de fraqueza pedir avaliação neurológica: é o que a linha de cuidados nacional pressupõe ao exigir cobertura de atendimento neurológico disponível em até trinta minutos da admissão nos centros habilitados, seja plantão presencial, sobreaviso ou telemedicina. Quando a dúvida é genuína e a janela ainda é curta, o caminho não é decidir sozinho pelo não — é acionar quem decide e deixar a dúvida registrada por escrito para quem vai decidir.
E reveja o próprio prontuário. A pergunta mais produtiva na terceira hora é: o que eu não examinei? Na maioria das vezes a resposta é a marcha, porque o paciente nunca saiu da maca.
O paciente que foi para casa: quem reavalia e quando
Alta com manobra feita: reavaliação clínica na unidade básica em 7 dias, e imediata se qualquer critério de retorno aparecer. O que se pergunta no retorno é se voltou a girar ao deitar — se voltou, refaz-se a manobra, e só a terceira recorrência é que abre a fila do especialista.
Alta na caixa 1 sem sinal central: retorno em 24 a 48 horas, e não em uma semana. O motivo é o edema, que não é máximo na primeira hora — o paciente que você viu no melhor momento do quadro dele precisa ser olhado de novo enquanto a curva ainda pode subir. Se a unidade não consegue esse retorno, a decisão de alta precisa ser revista: alta é um plano, não um ato.
Alta na caixa não vestibular: retorno com quem prescreveu o medicamento suspeito, levando anotada a pressão deitado e em pé. É a informação que muda a prescrição, e o paciente é quem a transporta.
Onde o erro machuca
O dano: A descrição da sensação não localiza a lesão e não é estável entre duas perguntas. Quem para na descrição fica com um dado inútil e, pior, com a sensação de já ter colhido a história. O registro sai como "paciente refere tontura", que é indistinguível de não ter perguntado nada — e o próximo médico a ver esse paciente começa do zero, várias horas depois.
Como pegar a tempo: Troque por três perguntas com resposta numérica: quando começou, o que desencadeia, quanto dura cada episódio. Escreva as três respostas com números no prontuário. É o mesmo conteúdo que os dois protocolos brasileiros exigem por escrito no encaminhamento — o formulário oficial já pergunta o tempo.
O dano: É a porta de entrada do infarto de cerebelo no rótulo de labirintite. A norma nacional lista vertigem e ataxia entre os sinais comuns do AVC de circulação posterior, e o protocolo pré-hospitalar do SAMU lista vertigem com perda de equilíbrio entre os sinais que fazem suspeitar de AVC. Quem usa a qualidade da sensação como critério está contrariando dois documentos do próprio Ministério.
Como pegar a tempo: Use intensidade e qualidade como tendência, nunca como critério. O que decide são as linhas de exame da mesma tabela: direção do nistagmo, inibição pela fixação, capacidade de ficar de pé, sinal focal associado.
O dano: É o achado de maior peso do capítulo, e é o mais desprezado, porque o paciente é examinado deitado, sai de cadeira de rodas e ninguém descobre que ele não anda. O quadro do protocolo estadual separa desequilíbrio leve a moderado com marcha possível — periférico — de grave desequilíbrio com dificuldade de caminhar ou ficar em pé — central. O dano é uma alta com receita para quem tem edema de cerebelo em formação.
Como pegar a tempo: Levante todo paciente com tontura e peça três passos sem apoio, com você ao lado. Anote quantos passos e com quanto apoio. Se ele não sai da maca, o capítulo mudou de assunto.
O dano: É a inversão mais perigosa deste capítulo, e ela nasce de uma ambiguidade em documento oficial. O protocolo municipal lista "HINTS positivo" entre os critérios de suspeita central e, páginas depois, define o teste do impulso cefálico positivo como a sacada de correção — que é o achado periférico, como o protocolo estadual explicita ao colocá-lo como característica da neurite vestibular aguda. Quem lê ao pé da letra manda neurite para a via do AVC (transtorno) e, na direção inversa, libera com "HINTS negativo" justamente o impulso cefálico normal, que é o padrão que sugere infarto (desastre).
Como pegar a tempo: Se você não pratica a manobra, não decida com ela. Decida com os três achados que dispensam técnica. E, se for usá-la, guarde a frase que o mecanismo impõe: impulso cefálico normal em paciente com síndrome vestibular aguda é o resultado que assusta.
O dano: A norma nacional mede o desempenho da tomografia em sinais precoces de isquemia — 67% nas primeiras 3 horas — sobre lesão descrita no território da artéria cerebral média. A fossa posterior soma osso denso, que degrada a imagem por endurecimento do feixe, e infartos pequenos. O laudo normal vira, no corredor, a autorização para a alta que não deveria existir.
Como pegar a tempo: Escreva no prontuário a frase completa: tomografia sem sangramento e sem efeito de massa, o que não exclui isquemia de fossa posterior. A frase protege o paciente do próximo leitor do prontuário — inclusive de você mesmo, daqui a três horas.
O dano: Não separa nada, porque o nistagmo espontâneo dele estava lá antes da manobra e continuará depois; e um resultado interpretado como positivo num paciente da caixa 1 fabrica um diagnóstico falsamente tranquilizador. Além disso, faz vomitar quem já está desidratado.
Como pegar a tempo: A manobra de posicionamento é para a caixa 2: episódios de segundos, com gatilho de posição, e paciente bem entre eles. Antes de deitar alguém, confirme que ele está sem sintoma naquele momento.
O dano: Movimento lento desloca o otólito sem gerar corrente suficiente para defletir a cúpula, e o teste sai negativo num paciente que tem a doença. O resultado é a causa mais comum de vertigem sendo declarada ausente — e o paciente segue para tomografia, para receita de anti-histamínico e para casa, ainda tonto.
Como pegar a tempo: Avise o paciente que vai ser rápido e que pode dar vertigem, segure a cabeça com as duas mãos e deite-o rapidamente, mantendo a cabeça pendente cerca de 20 graus. Espere ali cerca de vinte segundos olhando os olhos dele, e olhe de novo ao sentá-lo.
O dano: É desperdiçar o único tratamento curativo do capítulo. O paciente recebe o diagnóstico, uma receita de sintomático e um encaminhamento — e volta semanas depois com o mesmo problema, tendo passado esse tempo com medo de deitar e sob risco de queda. A revisão brasileira registra cura de 87% a 100% com o Epley.
Como pegar a tempo: Trate diagnóstico e tratamento como um ato só: assim que o nistagmo típico aparecer, siga direto para as posições do Epley, sem levantar o paciente. Depois confira refazendo o Dix-Hallpike.
O dano: Trata sintoma de um problema mecânico que você poderia ter resolvido em dois minutos, e acrescenta sedação e risco de queda a uma população majoritariamente idosa — a mesma revisão brasileira registra que aos 70 anos 30% dos idosos já tiveram pelo menos um episódio. O protocolo do SAMU lista, na mesma linha de fatores de risco de queda, pacientes com tontura e pacientes em uso de anti-histamínicos.
Como pegar a tempo: Na caixa 2 com gatilho cefálico, a conduta é a manobra e a orientação. Receita só se houver vômito que impeça a manobra — e, nesse caso, antiemético antes, manobra depois, na mesma consulta.
O dano: São 200 mg por dia, contra o máximo de 100 mg por dia que a bula aprovada do fabricante brasileiro estabelece para vertigem. O dobro do teto, num anti-histamínico sedativo, num paciente que provavelmente é idoso e que vai andar até em casa. A posologia está publicada assim no quadro de tratamento de um protocolo oficial de encaminhamento, o que torna o erro fácil de cometer de boa-fé.
Como pegar a tempo: Refaça a conta antes de copiar qualquer posologia de tabela: dose vezes número de tomadas em 24 horas, comparado ao teto da bula. Aqui, prescreva no máximo 25 mg de 6 em 6 horas, e prefira 25 mg de 8 em 8 horas.
O dano: O anti-histamínico e o benzodiazepínico deprimem o núcleo vestibular e apagam o nistagmo, e a sonolência da droga se confunde com a sonolência do edema. Você perde os dois parâmetros de que precisará na reavaliação de duas horas — que, sem ressonância, é o seu exame diagnóstico.
Como pegar a tempo: Ordem fixa: examinar, escrever, depois medicar. Se o vômito impedir o exame, use antiemético sem ação vestibular e reexamine em seguida.
O dano: "Melhorou com a medicação na veia, então era labirintite" não se sustenta: antieméticos e anti-histamínicos agem sobre o núcleo vestibular, e o núcleo vestibular é o mesmo nos dois diagnósticos. Quem tem infarto de tronco também melhora por algumas horas — e volta pior, agora com um diagnóstico escrito no papel anterior que contamina a avaliação seguinte.
Como pegar a tempo: Trate resposta a sintomático como ausência de informação diagnóstica. E desconfie ativamente de alta anterior recente pela mesma queixa: paciente que volta em 24 horas com o mesmo quadro é paciente que precisa ser examinado como se fosse a primeira vez.
O dano: São os dois diagnósticos deste capítulo que se fecham em dois minutos e se tratam sem especialista. A hipoglicemia produz tontura e está listada assim no protocolo do SAMU, com corte de 60 mg/dL. A hipotensão ortostática explica boa parte da tontura do idoso polimedicado. Não medir os dois é gastar a consulta inteira na caixa errada.
Como pegar a tempo: Coloque os dois no automatismo da chegada, antes da anamnese: glicemia capilar em todos; pressão deitado e em pé em todo mundo cujo gatilho seja ficar de pé, com a pergunta se o sintoma reproduziu.
O dano: A causa mais tratável de tontura crônica no idoso é iatrogênica, e o quadro do protocolo estadual tem doze grupos — de aminoglicosídeo a furosemida, de nitrato a lítio. Sem essa pergunta, o desfecho típico é acrescentar mais um remédio sedativo à lista que já está causando o problema.
Como pegar a tempo: Peça as caixas, não a memória. Confira contra a lista do protocolo item por item, e escreva na contrarreferência qual você suspeita e por quê, com a pressão deitado e em pé anotada.
O dano: O protocolo estadual limita o sintomático aos três primeiros dias da fase aguda com a justificativa escrita: prolongar atrasa o período de compensação pelo sistema nervoso central. Receita de trinta dias produz um paciente que continua tonto no fim do mês porque o cérebro dele não pôde recalibrar — e que atribui a persistência à gravidade da doença, não ao remédio.
Como pegar a tempo: Escreva o prazo na receita, com data de término, e explique ao paciente o motivo: o remédio ajuda nos primeiros dias e atrapalha depois. Substitua a renovação por estímulo ao movimento.
O que dizer ao paciente e à família
Este capítulo tem uma dificuldade de comunicação própria: o paciente chega com um diagnóstico na boca. "Labirintite" é uma das poucas palavras médicas que a população brasileira usa sozinha, e ela vem acompanhada de uma expectativa específica — a de sair com um remédio. Boa parte do trabalho de conversa aqui é desfazer essa expectativa sem que ela pareça um descaso.
Explicar a pedra, e pedir licença para piorar de propósito
A imagem da pedra funciona porque é literalmente verdadeira, e porque explica a cura sem remédio. Uma versão que costuma pegar:
"Dentro do ouvido a senhora tem uns canais com líquido, que são o equilíbrio. Existem uns cristaizinhos que deviam ficar num lugar e, com o tempo, alguns se soltam e caem dentro de um desses canais. Aí, quando a senhora vira a cabeça, eles rolam lá dentro e mexem o líquido, e o seu cérebro entende que a senhora está girando — mesmo depois que a senhora já parou. Não é pressão, não é derrame, não é problema de circulação. É mecânico. E por ser mecânico tem uma solução mecânica: eu vou mexer a sua cabeça numa sequência que leva esses cristais de volta para o lugar certo."
O consentimento vem em seguida, e ele precisa ser honesto sobre o desconforto: "Vou deitar a senhora rápido, e é bem provável que a tontura venha forte por uns vinte, trinta segundos. Isso é esperado e é o que me diz que achei o lado certo. Preciso que a senhora fique com os olhos abertos, porque o que eu vou olhar são os seus olhos. Se a senhora quiser que eu pare, é só falar. Pode dar enjoo. Passa."
Avisar antes do desconforto muda tudo: a paciente que não foi avisada acha que o médico errou; a que foi avisada entende que o médico acertou.
Explicar por que não há receita
O momento mais delicado da consulta de dona Marinalva é o fim, quando ela pergunta o que vai tomar. Não diga que não precisa de nada — para ela isso soa como "você não tinha nada", depois de vinte e quatro horas de medo.
"A senhora tinha, sim, um problema de verdade, e ele já está tratado. O tratamento foi o que eu acabei de fazer aqui. Remédio para tontura serve para segurar o enjoo em quem está vomitando sem parar — não é o caso da senhora, e ele dá sono e aumenta a chance de queda, que é justamente o que eu quero evitar. O que a senhora leva daqui é isto: se voltar a girar ao deitar, pode voltar que a gente refaz a manobra."
E a expectativa honesta, que não é boa notícia inteira: "Isso costuma voltar. Em cada dez pessoas tratadas, três ou quatro têm de novo em algum momento. Não quer dizer que deu errado hoje nem que a senhora tem alguma coisa grave — quer dizer que é assim mesmo, e que tem solução toda vez."
Dizer que ainda não se sabe, sem assustar e sem enganar
Cleusa e o marido vão perguntar o que ela tem, e a resposta verdadeira é que você ainda não sabe. Dizer isso é possível sem produzir pânico, desde que a incerteza venha com um plano.
"O que a senhora tem é uma tontura que começou de uma vez e não passou. Isso pode ser inflamação do nervo do equilíbrio, que melhora sozinha em semanas, ou pode ser um problema de circulação numa parte do cérebro que cuida do equilíbrio. Os dois começam parecidos, e nenhum exame que eu tenho aqui agora separa os dois com segurança. Por isso eu não vou mandar a senhora para casa neste momento. Vou examinar a senhora de novo daqui a duas horas, olhando as mesmas coisas, e é a comparação entre os dois exames que vai me dizer o caminho."
Repare no que essa fala faz. Nomeia as duas possibilidades, explica por que não dá para decidir agora, transforma a espera em conduta — a espera é o exame — e dá um horário. Incerteza com prazo é tolerável; incerteza sem prazo vira desconfiança.
Se a decisão for transferir, a frase precisa carregar a razão sem prometer diagnóstico: "Encontrei uma coisa no exame que eu não posso deixar passar — a senhora não está conseguindo ficar em pé, e isso não combina com o problema simples de labirinto. Não quer dizer que seja o pior; quer dizer que precisa ser olhado num serviço que tem o exame que falta aqui."
Desfazer o diagnóstico que veio de fora
O marido de Cleusa vai mostrar o papel do outro serviço com "crise labiríntica" escrito à mão. Contradizer um colega na frente do paciente corrói a confiança na medicina inteira, e não é necessário.
"Ontem, com o que se tinha na frente, essa foi uma hipótese razoável — e a medicação ajudou, tanto que ela melhorou por algumas horas. O que mudou é que já se passaram mais de vinte e quatro horas e ela não está andando. O tempo é uma informação que ontem não existia."
É verdade, é gentil, e ensina ao paciente uma coisa útil: que diagnóstico não é um objeto fixo, e que reavaliar não é sinal de que alguém errou.
A conversa que ninguém tem: dirigir, subir escada, morar sozinho
Seu Ederaldo dirige van escolar, e a pergunta que ele não fez é se pode trabalhar amanhã. Ela precisa ser respondida mesmo assim, e sem hesitação: "Enquanto o senhor estiver tendo esses escurecimentos ao levantar, dirigir com crianças no carro é um risco que não dá para correr. Não é para sempre: é até ajustarmos o remédio da pressão e o senhor passar uma semana sem episódio." Prazo e condição, não proibição vaga.
Com o idoso, a conversa é sobre queda, e ela vale mais que qualquer receita: tapete solto, chinelo sem tira atrás, luz no corredor à noite, levantar da cama em dois tempos. E a frase que é preciso ter coragem de dizer à família: "O remédio de tontura que talvez peçam ao senhor receitar é um dos que mais derrubam idoso. Prefiro tratar a causa e arrumar a casa."
Com o acompanhante de quem vai para casa na caixa 1, a orientação de retorno tem de ser dita a uma pessoa, não a um papel: "Se ela piorar em vez de melhorar, se começar a arrastar a fala, ver dobrado, ficar sonolenta, ou não conseguir mais ficar em pé, tragam de volta na hora, sem esperar a consulta marcada."
O que não prometer
Não prometa que não volta: a vertigem posicional recorre em 30% a 45% mesmo bem tratada. Não prometa que a tontura acaba com o remédio: na neurite, quem resolve é a compensação central, ao longo de semanas, e o remédio prolongado atrasa isso. Não prometa que a tomografia normal significa que está tudo bem — porque, neste capítulo, não significa. E não prometa um diagnóstico que você não tem: "provavelmente é o nervo do equilíbrio" é honesto; "é labirintite" dito com convicção que você não tem é a frase que fecha portas na cabeça de quem atender esse paciente depois de você.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Quem diagnostica, trata — e só encaminha quem recorre
O protocolo estadual reserva a fila do otorrinolaringologista para a vertigem posicional "com mais de 3 episódios de recorrência após manobras de reposicionamento otolítico". A condição está na própria frase: para chegar ao critério de encaminhamento, é preciso que as manobras já tenham sido feitas por quem atendeu. E o documento entrega o passo a passo do Dix-Hallpike e do Epley em figuras próprias, endereçadas a médicos e enfermeiros da atenção primária — não a especialistas.
TelessaúdeRS-UFRGS, Protocolos de Encaminhamento para Neurologia Adulto, última atualização em 06/05/2020
Manobra positiva já é motivo de encaminhamento
O protocolo municipal lista, entre os critérios de avaliação otorrinolaringológica por suspeita de vertigem periférica, o item "manobras posicionais positivas", ao lado de sintoma auditivo associado e de vertigem periférica que persiste por mais de 15 dias apesar do tratamento conservador. Lido literalmente, o diagnóstico feito na porta é, por si só, motivo para mandar ao especialista — e o documento descreve o Dix-Hallpike sem descrever o Epley.
Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba, Protocolo de Encaminhamento da Atenção Primária para a Atenção Especializada, Volume 15: Problemas Neurológicos
Os dois documentos protegem coisas diferentes. O estadual protege o acesso: fila de especialista é escassa, e mandar para ela quem tem doença curável na maca desloca a vaga de quem precisa. O municipal protege a competência técnica: manobra mal feita não cura e ainda produz falso negativo, e nem toda unidade tem quem a saiba fazer. Para o paciente à sua frente, três coisas decidem. Reversibilidade do erro: a manobra de reposicionamento é de risco muito baixo, e o custo de errá-la é não curar hoje — o mesmo resultado de não fazê-la. Custo da espera: fila de otorrinolaringologia no SUS costuma correr em meses, e nesse tempo o paciente idoso está sob risco de queda. Sua competência real: se você já viu a manobra ser feita, tem quem supervisione e leu o passo a passo, faça. Se é a sua primeira vez sozinho, às três da manhã, com uma paciente que já vomitou duas vezes, é razoável descrever o achado, orientar e encaminhar — desde que você escreva no papel qual manobra foi positiva e de que lado, para que quem receber não comece do zero. O que não se sustenta em nenhuma das duas posições é o meio-termo mais comum na prática: fazer o Dix-Hallpike, achar positivo, prescrever anti-histamínico e mandar para casa sem manobra nem encaminhamento.
Servem, e ampliam a rede de segurança
O protocolo municipal inclui, entre os critérios de avaliação neurológica por suspeita de vertigem de origem central, três itens que não são de exame: paciente acima de 50 anos com início dos sintomas, duração dos sintomas de vertigem acima de 10 minutos ininterruptamente, e fatores ateroscleróticos associados. São critérios de probabilidade pré-teste, e transformam idade e tempo em gatilho administrativo de avaliação.
Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba, Protocolo de Encaminhamento da Atenção Primária para a Atenção Especializada, Volume 15: Problemas Neurológicos
Não servem: a gravidade se lê no exame
O protocolo estadual define a suspeita central por achados: nistagmo vertical ou multidirecional, sem latência e não inibido pela fixação; grave desequilíbrio com dificuldade de caminhar ou ficar em pé; sinais neurológicos focais; surdez súbita unilateral. E define o encaminhamento imediato à emergência por sinais de gravidade da mesma natureza. Nenhuma linha de idade, nenhuma linha de duração.
TelessaúdeRS-UFRGS, Protocolos de Encaminhamento para Neurologia Adulto, última atualização em 06/05/2020
A divergência é sobre o que fazer com a probabilidade pré-teste quando ela conflita com o exame, e ela tem duas direções com custos muito diferentes. Na direção de aumentar a suspeita, os critérios do documento municipal são úteis e baratos: um homem de 68 anos, diabético e tabagista, com vertigem contínua há seis horas, merece o olhar mais atento mesmo com exame pobre — e a norma federal ampara essa leitura ao dizer que o AVC ocorre predominantemente em adultos de meia-idade e idosos. Na direção de diminuir a suspeita, eles são perigosos e não devem ser usados. Nenhum dos dois documentos autoriza excluir origem central por juventude ou por episódio curto, e a lista de sinais de gravidade do protocolo estadual não tem porta de saída etária. Uma mulher de 33 anos que não fica de pé está na mesma via que o homem de 68 com o mesmo achado. A regra operacional que atravessa as duas posições: fator de risco sobe a suspeita, exame decide o destino. Quando os dois discordam, o exame manda — e a discordância é para ser registrada, não resolvida em silêncio.
Tem lugar, curto e definido
O protocolo estadual traz um quadro de tratamento farmacológico da neuronite ou labirintite aguda com sete opções — dimenidrinato, meclozina, cinarizina, prometazina, domperidona, metoclopramida e ondansetrona — mais benzodiazepínicos, e admite corticosteroide ou antiviral na suspeita de causa viral. O quadro é explícito quanto ao papel: sintomáticos oferecidos durante os três primeiros dias da fase aguda, sem ultrapassar esse prazo.
TelessaúdeRS-UFRGS, Protocolos de Encaminhamento para Neurologia Adulto, última atualização em 06/05/2020
A lista nacional de essenciais não reconhece a classe
A Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024, buscada por princípio ativo, não traz dimenidrinato, meclozina, betaistina, cinarizina nem flunarizina. O que ela oferece são antieméticos e sedativos de uso geral — metoclopramida, ondansetrona, prometazina, diazepam e clonazepam. A classe dos antivertiginosos, como classe, está fora do que o país define como essencial.
Ministério da Saúde, Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) 2024
Não é uma disputa sobre se a droga alivia — ela alivia, e o mecanismo explica por quê. É uma disputa sobre o que ela vale contra o que custa. O argumento do quadro estadual é o do conforto na fase aguda: um paciente que vomita há dois dias precisa parar de vomitar para beber água, e o sintomático é a ponte. O argumento implícito da lista nacional é o do balanço: sedação, risco de queda no idoso, parkinsonismo induzido com uso prolongado de cinarizina e flunarizina — que o próprio protocolo municipal lista entre os indutores —, e nenhum efeito sobre a história natural da doença. Para o paciente à sua frente: o vômito é o que decide. Se ele impede hidratação ou exame, use um antiemético, de preferência um que exista na farmácia da sua unidade e na lista nacional. Se não impede, o sintomático não acrescenta nada que a compensação central não faça sozinha — e atrapalha, porque o núcleo deprimido não recalibra. E na vertigem posicional as duas posições convergem sem ruído: nenhuma delas indica sintomático para uma doença que se trata com manobra. O que decide o prazo, em qualquer das posições, é a mesma linha: três dias, com a justificativa escrita.
A lógica de rede: quem pode ter AVC vai para onde há estrutura
A linha de cuidados nacional organiza o atendimento em centros habilitados com exigências duras: cobertura de atendimento neurológico disponível em até trinta minutos da admissão — plantão presencial, sobreaviso à distância ou telemedicina —, leitos monitorados com equipe treinada, terapia intensiva e laboratório em tempo integral. A sala de estabilização existe justamente para segurar o paciente crítico até o encaminhamento a outro ponto da rede. Quem não tem essa estrutura não tem como observar com segurança.
Ministério da Saúde, Linha de Cuidados em Acidente Vascular Cerebral na Rede de Atenção às Urgências e Emergências
A lógica dos protocolos de acesso: a emergência avalia e resolve
Os dois protocolos de encaminhamento tratam a avaliação em serviço de emergência como uma etapa que acontece e termina ali: a vertigem de suspeita central só vira encaminhamento ambulatorial à neurologia depois de "já avaliada em serviço de emergência", e nessa condição entra com preferência sobre as demais. O desenho pressupõe que o serviço de emergência comum avalia, observa e decide — e não que ele transfira todo paciente com vertigem contínua.
TelessaúdeRS-UFRGS, Protocolos de Encaminhamento para Neurologia Adulto, última atualização em 06/05/2020; Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba, Protocolo de Encaminhamento da Atenção Primária para a Atenção Especializada, Volume 15: Problemas Neurológicos
Quatro perguntas resolvem a maior parte dos casos, e nenhuma delas é sobre a tomografia. O paciente anda? Se não fica de pé sem apoio, a conversa acabou: ele fica, e se a sua unidade não pode segurá-lo com monitorização e reexame, ele é transferido. Esse é o achado que os dois documentos tratam como gravidade. Existe janela? Se o início foi há poucas horas e há qualquer chance de tratamento de reperfusão, o tempo de transporte é parte do relógio, e o assunto passa a ser dos capítulos de déficit focal e de AVC isquêmico desta coleção. Transferir tarde é o mesmo que não transferir. Sua unidade consegue reexaminar de verdade? Observar não é deixar numa maca do corredor: é reexaminar marcha, nistagmo, consciência e sinais focais em uma a duas horas, com registro. Se a escala da noite não permite isso, observar é uma ficção e transferir é a conduta honesta. Quanto tempo custa o transporte, e o que se perde nele? Em cidade pequena, distante do centro habilitado, transferir um paciente estável para excluir uma hipótese pode significar horas de ambulância sem médico e um leito de sala vermelha ocupado. Aqui o custo da transferência é real e entra na conta. O que não é aceitável em nenhuma das leituras é a terceira via, que é a mais praticada: nem transferir nem observar — medicar, esperar o efeito passar e liberar. A alta desse paciente precisa ser uma decisão registrada, com um reexame de marcha documentado e um retorno em 24 a 48 horas combinado com alguém.
Nistagmo vertical é altamente sugestivo de origem central
Os dois protocolos brasileiros de encaminhamento colocam o nistagmo vertical como achado altamente sugestivo de vertigem central, e o estadual o lista entre os sinais de gravidade que indicam encaminhamento imediato a urgência ou emergência, ao lado de sinais focais, novo tipo de cefaleia e surdez aguda unilateral. Nenhum dos dois qualifica se está falando de nistagmo espontâneo ou de nistagmo provocado por manobra.
TelessaúdeRS-UFRGS, Protocolos de Encaminhamento para Neurologia Adulto, última atualização em 06/05/2020; Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba, Protocolo de Encaminhamento da Atenção Primária para a Atenção Especializada, Volume 15: Problemas Neurológicos
O nistagmo típico da vertigem posicional tem componente vertical
A revisão brasileira de vertigem de posicionamento descreve o nistagmo do canal posterior como tendo "componente vertical para cima e outro componente rotatório batendo no sentido do ouvido de baixo", com latência de poucos segundos, duração de até cerca de 40 segundos, inversão da direção ao sentar o paciente e fatigabilidade com repetições. O quadro de causas periféricas do protocolo estadual, por sua vez, descreve esse mesmo nistagmo como "horizontal ou rotatório", sem mencionar o componente vertical.
Pereira CB, Scaff M. Vertigem de posicionamento paroxística benigna. Arquivos de Neuro-Psiquiatria. 2001;59(2-B):466-70; TelessaúdeRS-UFRGS, Protocolos de Encaminhamento para Neurologia Adulto, última atualização em 06/05/2020
Aplicada ao pé da letra e sem qualificação, a régua do nistagmo vertical manda à emergência toda vertigem posicional clássica do canal posterior — o diagnóstico mais comum e mais benigno do capítulo. Aplicada com desprezo, ela deixa passar o infarto de tronco. As duas leituras extremas erram, e a diferença entre elas cabe numa palavra. Para o paciente à sua frente, separe espontâneo de provocado. Nistagmo vertical espontâneo, presente com o paciente sentado e parado, olhando para a frente, sustentado, que não cede à fixação do olhar: é o achado de gravidade dos dois protocolos, e o destino é a emergência. Componente vertical que só aparece dentro de uma manobra de posicionamento, com latência de segundos, dura menos de um minuto, inverte quando o paciente senta e fatiga com a repetição: é a pedra no canal, e o destino é o Epley na mesma maca. Quando você não conseguir separar as duas coisas com segurança — e isso acontece, sobretudo em paciente que vomita e não colabora —, use os outros dois achados que dispensam técnica como desempate: ele fica de pé? tem algum outro sinal focal? Nenhum caso de vertigem posicional deixa o paciente sem conseguir andar entre as crises. E registre por escrito o que você viu, com a qualificação: "nistagmo com componente vertical, apenas provocado, com latência, fatigável" é um dado que sobrevive à passagem de plantão. "Nistagmo vertical" sozinho, não.
O raciocínio, em voz alta
Cleusa Amaral, 44 anos, cozinheira de escola. Chega numa manhã de sábado em cadeira de rodas, empurrada pelo marido, com um saco plástico no colo. Começou anteontem à noite, de uma vez, e não parou. O mundo gira sem interrupção; piora se ela mexe a cabeça, mas não some quando ela fica parada. Vomitou muito. Esteve num pronto-socorro na madrugada de ontem, recebeu medicação venosa, melhorou por três horas e voltou ao mesmo. O papel que traz de lá diz, à mão: crise labiríntica. Acompanhe o raciocínio.
O que penso antes de falar com ela
Duas coisas já estão decididas e nenhuma delas veio de pergunta. A primeira: ela chegou em cadeira de rodas por causa da tontura, e isso sozinho tira o caso da fila verde. A segunda: existe uma alta anterior recente com diagnóstico escrito, e diagnóstico escrito por outro serviço é a coisa que mais contamina avaliação — vou examinar como se fosse a primeira vez e só depois ler o papel inteiro. Minha hipótese neste momento é ampla: síndrome vestibular aguda, e as duas moradoras dessa caixa são a neurite e o infarto de fossa posterior.
O que peço primeiro
Glicemia capilar e sinais vitais, antes de qualquer anamnese. Glicemia 104 mg/dL, pressão 128 por 78 deitada e 124 por 76 em pé, frequência cardíaca 92, temperatura 36,4. Nada aqui explica o quadro, e é exatamente isso que eu queria saber: as duas causas mais baratas de tontura estão fora.
As três perguntas
Quando começou: anteontem às 22h, de uma vez, enquanto assistia televisão. O que desencadeia: nada — piora ao mexer a cabeça, mas existe parada. Quanto dura: não tem episódio, é contínuo há cerca de 36 horas. O que isso muda: fecha a caixa 1. E fecha, com a mesma resposta, a exclusão da caixa 2 — vertigem posicional não é contínua, por definição do mecanismo. Não vou fazer Dix-Hallpike nesta paciente; ele não separaria nada e ela vomitaria em mim.
A quarta pergunta, e a história dirigida
Medicamentos: nenhum de uso contínuo. Sem zumbido, sem sensação de ouvido cheio, sem perda de audição de nenhum lado — o que afasta o padrão de Ménière e tira o principal sinal de gravidade auditiva. Sem dor de cabeça, nenhuma, muito menos na nuca. Sem visão dupla, sem dificuldade de falar, sem dormência. Nunca teve nada parecido, e não tem enxaqueca. O que isso muda: a história inteira é compatível com neurite vestibular aguda, e nenhuma das perguntas de gravidade veio positiva. Só que história compatível não é o exame, e a hipótese cara continua aberta.
O exame de beira de leito, e a hora em que o caso vira
Nistagmo espontâneo horizontal, batendo sempre para a direita, independentemente de para onde ela olha; diminui claramente quando ela fixa o dedo à minha frente. Isso é um bom sinal: unidirecional e inibido pela fixação são características periféricas. Fala normal, movimentos oculares completos sem diplopia, face simétrica, força preservada nos quatro membros, índice-nariz sem dismetria dos dois lados. Aí eu a levanto. Ela fica de pé com apoio do marido e meu, oscila e não consegue dar um passo sozinha; cai sentada de volta na maca quando solto. Não anda.
O que mudou, e por quê
Um achado, e a probabilidade toda se move. O quadro do protocolo estadual separa desequilíbrio leve a moderado, com marcha possível — periférico —, de grave desequilíbrio, com dificuldade de caminhar ou mesmo de ficar em pé — central. É um dos três achados que dispensam técnica, e ele está presente. Repare no que ele fez com os outros dados. O nistagmo unidirecional e inibido pela fixação continua sendo periférico; a história sem sintoma auditivo e sem cefaleia continua compatível com neurite. Mas a régua de composição não é de maioria: qualquer achado central basta para suspeitar, e para chamar de periférico é preciso que tudo aponte para periférico. Não aponta.
O que eu não vou usar para decidir
Não vou usar o teste do impulso cefálico. Eu o conheço no papel e sei ler a inversão — impulso normal aponta central —, mas não pratico a manobra em volume suficiente para confiar no que vou ver numa paciente que não colabora e está enjoada. Um resultado que eu não sei produzir não pode revogar um achado que eu vi com clareza. E não vou usar a melhora de três horas com a medicação de ontem como argumento de benignidade: antieméticos e anti-histamínicos deprimem o núcleo vestibular, e quem tem infarto de tronco também melhora por algumas horas.
A conduta imediata, e a ordem dela
Registro o exame por escrito antes de qualquer medicação: nistagmo espontâneo horizontal unidirecional inibido pela fixação, sem sinal focal ao exame de nervos cranianos e de força, incapaz de deambular sem apoio. Depois monitorização, acesso venoso, e os exames que a norma nacional manda colher diante de suspeita de acidente vascular. Tomografia de crânio com finalidade declarada: excluir sangramento e efeito de massa.
A tomografia volta normal. O que isso muda
Nada na decisão. O laudo diz que não há sangramento nem efeito de massa, e isso era o que eu perguntei. A norma nacional mede a detecção de sinais precoces de isquemia em 67% nas primeiras 3 horas sobre lesão descrita no território da artéria cerebral média; a fossa posterior soma osso denso, que degrada a imagem, e infartos pequenos. Escrevo a frase completa no prontuário: tomografia sem sangramento e sem efeito de massa, o que não exclui isquemia de fossa posterior.
Duas horas depois: o exame que é o diagnóstico
A paciente continua sem deambular de modo seguro. Esse achado e a avaliação central ainda incompleta impedem alta, mesmo sem piora em duas horas. Neurite pode permanecer intensa por dias, e AVC pode melhorar parcialmente; evolução curta não diferencia com certeza. Aciono a referência e explico a suspeita, o exame e a limitação da TC.
O que eu digo a ela e ao marido
"O que a senhora tem é uma tontura que começou de uma vez e não passou. Pode ser inflamação do nervo do equilíbrio, que melhora sozinha em semanas, ou pode ser um problema de circulação numa parte do cérebro que cuida do equilíbrio. Achei uma coisa no exame que eu não posso deixar passar: a senhora não está conseguindo ficar em pé, e isso não combina com o problema simples de labirinto. Não quer dizer que seja o pior. Quer dizer que precisa ser olhado num serviço que tem o exame que falta aqui." Sobre o papel de ontem, sem desautorizar ninguém: "Ontem, com o que se tinha na frente, aquela hipótese era razoável. O que mudou é que já se passaram mais de trinta e seis horas e ela não está andando. O tempo é uma informação que ontem não existia."
O que este caso ensina, em uma frase
Nenhum dado que mudou a conduta veio de máquina. A caixa veio de três perguntas; a virada veio de levantar a paciente da maca; a confirmação de que a via estava certa veio de repetir o mesmo exame duas horas depois. A tomografia serviu para excluir uma coisa e não podia excluir a outra — e saber disso é o que impediu que o laudo normal fosse lido como alta.
Faça você
Quarta-feira, 2h10 da manhã, pronto-socorro de hospital municipal de porte médio. Não há tomógrafo funcionando à noite; o mais próximo fica a 40 minutos de ambulância, num hospital regional que é o centro de referência da região. Vitória Sampaio Lemos tem 33 anos, é auxiliar de laboratório, não fuma, não usa medicamento contínuo e nunca teve nada parecido. Acordou às 8h de ontem com tontura, e ela não passou mais: são cerca de 18 horas de sensação rotatória contínua, que piora quando ela vira a cabeça mas está presente com a cabeça parada. Vomitou seis ou sete vezes ao longo do dia. Veio de carro com a irmã, andou do estacionamento até a recepção segurando na parede e no braço dela, e sentou-se sozinha na cadeira. Na anamnese dirigida: sem zumbido, sem perda de audição, sem sensação de ouvido cheio. Sem visão dupla, sem alteração da fala, sem fraqueza ou dormência. Ela menciona, quando você pergunta especificamente sobre dor, que desde ontem de manhã tem uma dor na nuca que ela nunca teve antes — "uma dor diferente, aqui atrás" —, que ela atribuiu ao esforço dos vômitos. Ao exame: glicemia capilar 96 mg/dL. Pressão 118 por 74 deitada e 116 por 72 em pé, sem reprodução do sintoma. Nistagmo espontâneo horizontal, unidirecional, que diminui quando ela fixa o olhar. Fala, face, força, sensibilidade e provas de coordenação sem alteração. Você a levanta: ela fica de pé sem apoio e caminha quatro passos com apoio leve de uma pessoa, cambaleando para um lado.
Passo 1
Classifique a caixa pelas três perguntas. Início súbito há 18 horas, sem gatilho posicional, contínua desde então: caixa 1, síndrome vestibular aguda. Vertigem posicional está excluída pelo padrão temporal, e manobra de posicionamento não tem indicação aqui.
Passo 2
Descarte as causas baratas. Glicemia normal, sem ortostase, sem medicamento da lista. Nenhuma delas explica o quadro.
Passo 3
Rode os três achados que dispensam técnica. Ela fica de pé e anda com apoio leve — negativo. Nistagmo espontâneo horizontal, unidirecional e inibido pela fixação — negativo, e com características periféricas. Sinal neurológico focal ao exame — negativo.
Passo 4
Some o que a idade e a ausência de fator de risco dizem. Ela tem 33 anos, não fuma, não tem hipertensão nem diabetes. A probabilidade pré-teste de origem central é baixa, e a norma nacional registra que o AVC ocorre predominantemente em adultos de meia-idade e idosos.
Passo 5
Releia a anamnese procurando o que você quase não anotou, porque a paciente o atribuiu a outra coisa. Confronte esse item com as listas de sinais de gravidade dos dois protocolos brasileiros de encaminhamento.
Passo 6 — faça você
Decida o destino desta paciente nesta madrugada, sem tomógrafo na unidade e com o centro de referência a 40 minutos. Diga o que faz agora, o que prescreve — se prescrever —, e o que escreve no papel.
Ver como fecharíamos
O item que decide é a cefaleia occipital nova, e ele é decisivo apesar de os três achados que dispensam técnica terem vindo negativos. O protocolo estadual lista, entre as condições que indicam encaminhamento a urgência ou emergência na vertigem com suspeita de origem central, quatro itens: sinais ou sintomas neurológicos focais; novo tipo de cefaleia, especialmente occipital; surdez aguda unilateral; e nistagmo vertical. O protocolo municipal repete o mesmo conjunto entre os sinais de gravidade. Dor de nuca que a paciente nunca teve, surgida junto com uma síndrome vestibular aguda, é exatamente esse item — e o fato de ela própria atribuí-la ao esforço dos vômitos é o que faz o achado quase não ser anotado. Os três achados que dispensam técnica são uma rede de segurança grossa, não uma peneira fina: eles pegam o paciente que já não anda, o nistagmo que já é vertical e o déficit que já apareceu. Vitória está no começo do quadro — 18 horas — e ainda anda. Se você usar a rede grossa como se fosse a lista completa, perde este caso. A lista completa é a dos protocolos, e a cefaleia occipital está nela. O segundo item que pesa é a idade, e ele pesa na direção errada se for usado para tranquilizar. Nenhum dos dois documentos autoriza excluir origem central por juventude; o único critério etário existente, no protocolo municipal, corre no sentido oposto, favorecendo avaliação neurológica acima de 50 anos. Juventude reduz a probabilidade pré-teste e não anula um sinal de gravidade. O que fazer agora. Monitorização e acesso venoso. Registrar o exame neurológico por escrito — incluindo, com todas as letras, que ela anda com apoio e o que exatamente o nistagmo faz — antes de qualquer sedativo, porque é o dado que sustenta a transferência e porque é o basal da comparação seguinte. Colher os exames que a norma nacional determina diante da suspeita: eletrocardiograma, glicemia capilar, hemograma com plaquetas, tempo de protrombina com razão normalizada, tempo de tromboplastina parcial ativada, potássio, sódio, ureia, creatinina e troponina. Acionar a regulação imediatamente para o centro de referência, porque os 40 minutos de ambulância fazem parte do relógio e não do intervalo de espera. O que prescrever. Hidratação venosa pelas perdas. Para o vômito, se ele impedir o transporte, antiemético por via parenteral em dose apropriada ao paciente e ao protocolo, considerando QT, função renal e risco de sedação, pois deglutição ainda não foi avaliada — os dois constam da lista nacional de essenciais —, e depois do registro do exame. Nada de anti-histamínico sedativo antes da avaliação no destino: ele apaga o nistagmo e confunde a sonolência da droga com a do edema em formação. Nada por via oral até avaliar a deglutição; usar via parenteral quando necessária para controle dos vômitos. O que escrever no papel de transferência. O padrão temporal em números — início súbito há 18 horas, contínuo. Os achados do exame, com o que está presente e o que está ausente. O item que motiva a transferência, nomeado: cefaleia occipital nova concomitante à síndrome vestibular aguda, critério de encaminhamento imediato a emergência nos dois protocolos brasileiros. O que foi administrado e a que horas. E a frase que evita que o próximo leitor recomece do zero: hipótese de neurite vestibular não afastada, mas mantida a suspeita de origem central pelo achado acima; unidade sem tomógrafo disponível no período. O que não fazer. Não medicar, esperar melhorar e liberar às 5h porque "ela está andando". Não usar a juventude como alta. E não escrever "labirintite" num papel que vai acompanhar essa paciente pelas próximas 48 horas — porque, se ela voltar pior, esse papel vai atrasar quem a receber.
A conta é direta e vale refazer sempre que se copia posologia de tabela. Vinte e quatro horas divididas por oito dão três tomadas; 25 mg vezes 3 são 75 mg por dia, dentro da faixa de 25 a 100 mg da bula. De 6 em 6 horas são quatro tomadas: 50 mg vezes 4 são 200 mg por dia, o dobro do teto, e 25 mg vezes 4 são 100 mg, exatamente no teto. De 8 em 8 horas com 50 mg dão 150 mg por dia, também acima do limite. O primeiro dia de um esquema em desmame com 200 mg extrapola o teto do mesmo jeito, e um dia de dose dobrada de anti-histamínico sedativo em idoso é o dia em que ele cai. Vale notar que a posologia de 50 mg de 6 em 6 horas está publicada em quadro de protocolo oficial de encaminhamento — o erro é fácil de cometer de boa-fé, e é por isso que a aritmética precede a cópia. O prazo escrito na receita atende à regra do próprio protocolo: sintomático por no máximo três dias, porque prolongar atrasa a compensação pelo sistema nervoso central.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Explique por que HINTS e Dix-Hallpike não são intercambiáveis. Interprete nistagmo torsional breve provocado e nistagmo vertical espontâneo em dois pacientes diferentes.
Em 30 dias
Reavalie uma síndrome vestibular aguda com TC normal e melhora dos vômitos, mas marcha insegura. Defina o próximo passo e explique por que a resposta ao sintomático não encerra o diagnóstico.
Agora atenda
Agora atenda. A ficha da triagem vai trazer uma palavra só, e ela não vai localizar nada — o paciente do simulador foi construído para responder "tontura" e esperar que você decida o que isso significa. Resista à vontade de perguntar o que ele sente e comece pelas três perguntas do capítulo: quando começou, o que desencadeia, quanto dura cada episódio. Pergunte a lista de medicamentos com as caixas na mão. Peça glicemia capilar e pressão deitado e em pé antes de pensar em imagem. E, antes de decidir qualquer coisa, faça o que o plantão brasileiro mais esquece: levante o paciente da maca e peça três passos sem apoio. É esse pedido, e não um exame, que costuma virar o caso.
