Clínica Médica › Síndromes do Paciente na Emergência
Dispneia aguda no pronto-socorro
Dispneia aguda indiferenciada
Um homem de 64 anos senta na maca, apoia as mãos nos joelhos e fala três palavras por vez. Cinco doenças diferentes produzem essa cena, e o tratamento de uma delas piora quem tem a outra. Este capítulo é sobre separar antes de tratar.
Ministério da Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida. 2ª ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2016
Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Diretrizes da SBPT para o Manejo da Asma — 2012 (J Bras Pneumol. 2012;38(supl.1):S1-S46)
Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Recomendações para o manejo da asma da SBPT — 2020 (J Bras Pneumol. 2020;46(1):e20190307)
Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, Associação de Medicina Intensiva Brasileira, Associação Médica Brasileira — Projeto Diretrizes: Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica: Exacerbação. Elaboração final 20 de dezembro de 2012
Associação de Medicina Intensiva Brasileira e Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Diretrizes Brasileiras de Ventilação Mecânica — 2013 (versão eletrônica oficial AMIB/SBPT)
Associação de Medicina Intensiva Brasileira; Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Orientações Práticas em Ventilação Mecânica, coordenação de Alexandre Marini Ísola — volume divulgado pelas duas sociedades em setembro de 2024, com o texto fechado em plenária de 20 e 21 de novembro de 2023, em Florianópolis. Artigo que relata o método e os destaques do volume: Ferreira JC, Vianna AOA, Pinheiro BV, Maia IS, Baldisserotto SV, Isola AM, em nome da AMIB e da SBPT. Orientações práticas de ventilação mecânica baseadas em evidências: sugestões de duas sociedades médicas brasileiras. J Bras Pneumol. 2025;51(1):e20240255, co-publicado em Crit Care Sci. 2025;37:e20250242pt.
Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Crônica e Aguda (Arq Bras Cardiol. 2018;111(3):436-539)
Corrêa RA, Costa AN, Lundgren F, et al. Recomendações para o manejo da pneumonia adquirida na comunidade — 2018 (J Bras Pneumol. 2018;44(5):405-424)
Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, Comissão de DPOC. Manual de DPOC: Diagnóstico e Tratamento. 2024
Konstantinides SV, Meyer G, Becattini C, et al. 2019 ESC Guidelines for the diagnosis and management of acute pulmonary embolism, developed in collaboration with the European Respiratory Society (Eur Heart J. 2020;41(4):543-603)
Volpicelli G, Elbarbary M, Blaivas M, et al. International evidence-based recommendations for point-of-care lung ultrasound (Intensive Care Med. 2012;38(4):577-591)
GINA. Summary Guide for Asthma Management and Prevention, 2026. https://ginasthma.org/wp-content/uploads/2026/07/GINA-Summary-Guide-2026-WEB-WMS.pdf
GOLD. Executive summary, 2023. https://publications.ersnet.org/content/erj/61/4/2300239 ; relatório 2026: https://goldcopd.org/2026-gold-report-and-pocket-guide/
ERS/ATS. Noninvasive ventilation for acute respiratory failure. https://www.thoracic.org/statements/resources/cc/niv-guidelines.pdf
Responda antes de ler
Homem de 68 anos com exacerbação de DPOC, em ventilação não invasiva há 100 minutos por acidose respiratória. Parâmetros iniciais: pH 7,24, PaCO2 68 mmHg, frequência respiratória 32. Agora: pH 7,25, PaCO2 66 mmHg, frequência respiratória 30, mais sonolento que na chegada, mantendo uso de musculatura acessória. Qual é a conduta escrita nos documentos brasileiros de ventilação mecânica?
O paciente que você vai ver
Sábado, 21h40. A filha empurra a cadeira de rodas até a sala de emergência e diz uma frase só: ele não está conseguindo respirar. O senhor tem 64 anos, está sentado na beira da maca antes que alguém peça, tronco inclinado para a frente, as duas mãos travadas nos joelhos. Não é postura de conforto — é alavanca. Com os braços fixos, os músculos que ligam o ombro à caixa torácica passam a puxar as costelas para cima, e ele está usando isso para respirar.
Você pergunta o nome dele e recebe a resposta em três tempos: Jo... sé... Carlos. Cada palavra custa um ciclo respiratório inteiro. Isso já é um dado clínico com nome: fala entrecortada por palavras é o marcador de crise muito grave nas duas tabelas brasileiras que classificam gravidade respiratória, a da asma e a da DPOC. Você ainda não sabe o que ele tem, mas já sabe em que faixa ele está.
Monitor: frequência respiratória 34, saturação 86% em ar ambiente, frequência cardíaca 122, pressão 178 por 104, temperatura 36,4 °C, glicemia 138. Pele fria e suada. A fúrcula afunda a cada inspiração e o esternocleidomastóideo salta. A filha conta que ele piorou desde a manhã, que dormiu sentado na poltrona nas duas últimas noites e que hoje não conseguiu andar do quarto ao banheiro. Fumou quarenta anos, parou há dois. Toma losartana e usa uma bombinha que ela não sabe nomear.
Você ausculta e a resposta não resolve nada: sibilos difusos nos dois campos e crepitações finas nas bases. Esse é exatamente o ponto em que a dispneia aguda cobra o preço. Sibilo empurra para broncoespasmo e pede beta-2 agonista, corticoide e paciência. Crepitação com ortopneia, hipertensão e sudorese empurra para edema agudo de pulmão e pede nitrato, diurético e pressão positiva. As duas condutas são defensáveis pela metade dos achados e uma delas gasta trinta minutos que a outra não tem. Pior: o paciente com DPOC de quarenta anos-maço é justamente quem também tem coração doente, e as duas coisas podem estar acontecendo ao mesmo tempo.
Existe, porém, uma parte da conduta que não espera essa decisão. Manter ele sentado, oferecer oxigênio com um alvo escrito, monitorizar, puncionar acesso, pedir eletrocardiograma e pôr o transdutor do ultrassom no tórax são atos que valem para qualquer das hipóteses e não pioram nenhuma delas. É por isso que o capítulo tem esta ordem: primeiro o que independe do diagnóstico, depois a separação, e só então a droga. A sequência dos cinco minutos iniciais está no primeiro capítulo desta apostila e continua valendo aqui — o que muda é que agora a queixa é falta de ar, e a falta de ar tem uma lista curta de causas que exigem condutas opostas.
Quem adoece disso
A doença pulmonar obstrutiva crônica tem prevalência de 15,8% entre adultos acima de 40 anos no Brasil, segundo o estudo platino conduzido em São Paulo, contra cerca de 10% na média mundial, e figura como a quarta causa de internação no Sistema Único de Saúde. Traduzindo para o corredor: diante de um adulto acima de 40 anos, com história de tabagismo ou de exposição à fumaça de biomassa, que chega dispneico e sibilante, DPOC não é hipótese exótica que se levanta no fim da lista — é a hipótese basal, e cabe a você excluir o que está por cima dela, não o contrário.
A asma mantém no país um perfil que já foi pior e ainda é grave: em 2013 houve 129.728 internações e 2.047 mortes por asma no Brasil, e a prevalência de sintomas entre adolescentes chega a 23%. Dois mil óbitos por ano significam que a crise asmática que entra falando por palavras não é figura de retórica de aula: é um paciente que morre de asfixia, quase sempre com doença crônica mal controlada e gravidade subestimada pelo médico e pelo próprio paciente. A consequência prática é que a crise grave não admite a conduta lenta do ambulatório.
A pneumonia adquirida na comunidade é a terceira causa de mortalidade no país, e a mortalidade estimada sobe de 1,5% com CURB-65 de 0 a 1 para 22% com CURB-65 de 3 ou mais. Cinco perguntas de beira de leito — confusão, ureia, frequência respiratória, pressão e idade — separam quem vai para casa de quem precisa de leito e de quem precisa de terapia intensiva. Não é escore para citar em prova: é a diferença entre mandar embora um paciente com 1,5% de risco e mandar embora um com 22%.
Na insuficiência cardíaca aguda, a congestão está presente em cerca de 85% dos pacientes, e o edema agudo de pulmão é a apresentação inicial de 13,2% dos internados por insuficiência cardíaca segundo registro europeu citado pela diretriz brasileira. Dois números desse mesmo documento mudam a forma de pensar o paciente da sua frente: cerca de metade tem um fator desencadeante identificável — fibrilação atrial de alta resposta, isquemia, infecção, má adesão — e cerca de três em cada quatro têm ao menos uma comorbidade descompensada, sendo DPOC e asma brônquica das mais frequentes. Ou seja, o paciente dispneico do pronto-socorro brasileiro costuma ter duas doenças ao mesmo tempo, e a que você trata pode não ser a que descompensou.
Por que acontece o que acontece
Dispneia não é um sinal, é uma percepção — a consciência de que o esforço respiratório não está entregando o que o corpo pediu. Isso explica um fato que confunde o interno: o paciente com cetoacidose e o paciente com síndrome do pânico descrevem a mesma sensação, porque em ambos existe um comando ventilatório aumentado. E explica o inverso, mais perigoso: o idoso com pneumonia extensa pode referir pouca falta de ar porque a percepção envelhece junto com o resto. Por isso a gravidade se mede pelo trabalho respiratório observado, não pela nota que o paciente dá ao próprio desconforto.
Organize o diferencial por onde o sistema falhou, e a lista de causas deixa de ser decoreba. São quatro falhas possíveis, e cada uma tem uma assinatura de exame físico e de gasometria.
Falha de bomba é falha da ventilação: o ar não entra e não sai na quantidade necessária. Pode ser obstrução ao fluxo — asma, exacerbação de DPOC, corpo estranho, edema de glote —, restrição da parede, ou fraqueza muscular. A assinatura é o tempo expiratório prolongado, o sibilo, o esforço visível e, se a falha for grande o bastante, a retenção de gás carbônico. Aqui mora a diferença entre o retentor crônico e o agudo: quem retém CO2 há anos compensa com bicarbonato e chega com pH quase normal; quem retém agora tem pH baixo com bicarbonato ainda normal. O passo a passo dessa leitura está no capítulo de gasometria arterial desta apostila — aqui interessa a decisão que ela dispara, que é indicar ou não ventilação com pressão positiva.
Falha de troca é falha do alvéolo e do capilar. Quando o alvéolo se enche de líquido, de pus ou de sangue, o sangue passa por uma unidade que não ventila: isso é shunt, e shunt não responde bem a oxigênio suplementar. É a marca do edema agudo, da pneumonia extensa e da síndrome do desconforto respiratório agudo — o paciente exige FiO2 cada vez maior para saturações cada vez piores. Quando, ao contrário, o alvéolo ventila mas não recebe sangue, temos espaço morto: é o tromboembolismo pulmonar, em que o pulmão está limpo à ausculta e à radiografia, a hipoxemia é modesta, a taquipneia é grande e o CO2 costuma estar baixo, porque o paciente hiperventila as unidades que ainda perfundem.
Falha de transporte é falha do carregador. O pulmão troca bem, mas o oxigênio não chega ao tecido: anemia aguda, intoxicação por monóxido de carbono, baixo débito. A pegadinha é que o oxímetro de pulso mede a proporção de hemoglobina saturada, não a quantidade de hemoglobina nem qual gás a ocupa — por isso o paciente pode ter saturação de 98% com hematócrito de 15% ou com carboxi-hemoglobina alta, e ainda assim estar em fome de ar. Saturação normal em paciente dispneico não é alívio: é um dado que precisa de explicação.
Falha por demanda é o pulmão sadio trabalhando para compensar outra coisa. A acidose metabólica é o exemplo clássico: cetoacidose diabética, sepse, uremia, intoxicação por salicilato ou por metanol. O corpo elimina ácido pela via respiratória, e o resultado é respiração profunda e regular, sem esforço acessório, com pulmão limpo — o padrão de Kussmaul. Broncodilatador, diurético e oxigênio não corrigem nada disso; o que corrige é tratar a causa metabólica. É também aqui que entra a hiperventilação da ansiedade, que produz alcalose respiratória, parestesia perioral e espasmo carpopedal.
O motivo de tudo isso importar é que as condutas se contradizem. Volume salva o paciente em choque hipovolêmico ou com tromboembolismo e ventrículo direito seco, e afoga o paciente em edema agudo. Broncodilatador reverte a crise asmática e não faz absolutamente nada no espaço morto do tromboembolismo. Diurético alivia a congestão e desidrata quem tinha pneumonia com sepse. Oxigênio em alto fluxo corrige a hipoxemia e derruba o drive de quem retém CO2. Não existe conduta neutra na dispneia aguda — existe conduta certa para o mecanismo certo.

Como se apresenta de verdade
O que segue é o espectro real de como cada grande causa entra pela porta — com o detalhe que o livro costuma omitir, que é o achado ausente. Boa parte do raciocínio da dispneia aguda se faz pela negativa: pulmão limpo com hipoxemia, sibilo sem história de asma, crepitação sem febre. Guarde também uma regra que atravessa todas as seções: mais de um quadro pode estar ativo no mesmo paciente, e o mais comum é justamente a combinação de obstrução crônica com congestão aguda.
Percurso de aprendizagem
Relacione fala, esforço, consciência e perfusão com a urgência do suporte. Os graus didáticos organizam os achados; não substituem avaliação clínica nem constituem um escore universal.
Compare obstrução, congestão, alteração vascular e compensação metabólica. Explique por que a mesma taquipneia pode exigir broncodilatador, pressão positiva, anticoagulação ou correção de acidose.
Para cada intervenção, determine alvo, resposta esperada e gatilho de escalonamento. VNI exige vigilância contínua; deterioração não aguarda o término de uma janela de observação.
Obstrução ao fluxo: asma e exacerbação de DPOC
A crise asmática se instala em geral de forma gradual, com piora progressiva ao longo de cinco a sete dias, quase sempre desencadeada por infecção viral ou por exposição a alérgeno, e às vezes por anti-inflamatório não esteroidal. O paciente tem tempo expiratório prolongado, sibilos difusos, tosse seca e sensação de aperto. A gravidade se lê pela fala, pela musculatura acessória e pela sibilância: frases completas com retração leve é crise leve a moderada; frases incompletas, retrações acentuadas e frequência cardíaca acima de 110 é crise grave; palavras isoladas, agitação ou sonolência, cianose e sudorese é crise muito grave.
O achado que engana é o silêncio. Sibilo exige fluxo; quando a obstrução é extrema, o murmúrio vesicular fica diminuído e o sibilo desaparece. Tórax silencioso em paciente que respira 40 vezes por minuto e usa toda a musculatura acessória não é melhora, é o degrau anterior à parada respiratória — e vem acompanhado de frequência acima de 140 ou de bradicardia, pico de fluxo abaixo de 30% do previsto e PaCO2 que sobe para 45 mmHg ou mais quando deveria estar baixa.
A exacerbação de DPOC se define por sintomas novos ou piora dos habituais — tosse com expectoração, dispneia e chiado — nos últimos 14 dias. Escarro persistentemente purulento, amarelado, esverdeado ou amarronzado, sugere causa bacteriana; espirros, obstrução nasal e dor de garganta com contato recente sugerem vírus. O dado que mais orienta a conduta é o basal: quantas exacerbações no último ano, se já usou ventilação mecânica, qual o grau habitual de dispneia. E vale a advertência do próprio manual brasileiro de DPOC: exacerbação precisa ser diferenciada de pneumonia, de insuficiência cardíaca descompensada e de embolia pulmonar, porque as três se apresentam com piora da dispneia em quem já tem DPOC.
Sibilo não é sinônimo de asma. Congestão pulmonar produz sibilo por edema da mucosa brônquica — é a chamada asma cardíaca —, e o mesmo faz o tromboembolismo, a anafilaxia e a obstrução mecânica de via aérea central, esta última com sibilo monofônico e fixo. Tratar sibilo como broncoespasmo por reflexo é o erro mais barato de cometer e mais caro de pagar neste capítulo.
Congestão: o edema agudo de pulmão
O edema agudo cardiogênico tem instalação rápida, muitas vezes em minutos a poucas horas, com ortopneia franca, dispneia paroxística noturna nos dias anteriores, tosse com expectoração clara ou rósea e crepitações que começam nas bases e sobem. O paciente sua, fica pálido, com extremidades frias, e frequentemente está hipertenso — crise hipertensiva, insuficiência mitral aguda e síndrome coronariana aguda são os fatores causais mais comuns. Pressão alta no edema agudo não é tranquilizadora: é o mecanismo, e é o que o nitrato vai tratar.
Separe dois padrões, porque o tratamento difere. O primeiro é o edema agudo que aparece em quem não tinha insuficiência cardíaca conhecida ou em quem não está globalmente hipervolêmico: aqui o problema é redistribuição de volume para a circulação pulmonar, e o eixo do tratamento é vasodilatador com uso judicioso de diurético. O segundo é a insuficiência cardíaca crônica agudizada, com hipervolemia global, edema de membros, turgência jugular e ganho de peso: aqui o eixo é diurético em dose alta.
A leitura de perfusão fecha a conta. Congestão sem sinais de baixo débito é o perfil quente-congesto, o mais frequente e de melhor prognóstico, manejado com diurético e vasodilatador. Congestão com pressão sistólica abaixo de 90 mmHg, ou abaixo de 110 mmHg em previamente hipertenso, com extremidades frias, sudorese fria, largura de pulso estreita, desorientação e lactato elevado, é o perfil frio-congesto, presente em cerca de 20% dos casos, e nele vasodilatador em dose plena derruba o paciente.
Um alerta sobre o marcador: no edema agudo de instalação súbita, na insuficiência mitral aguda e no cor pulmonale agudo os peptídeos natriuréticos podem não estar elevados, porque não houve tempo de estiramento sustentado da parede. BNP normal em quadro fulminante não exclui congestão.
Infecção: pneumonia adquirida na comunidade
O quadro típico junta febre, tosse produtiva, dor pleurítica e dispneia, com crepitações localizadas, redução do murmúrio e, quando há consolidação, aumento do frêmito e broncofonia. A localização do achado é o que separa pneumonia de congestão: crepitação de um lobo só aponta para foco infeccioso; crepitação bilateral simétrica de bases aponta para congestão.
No idoso o quadro se desmonta. Confusão mental de início recente, queda, prostração, descompensação de diabetes ou taquipneia isolada podem ser a única manifestação, com febre ausente em parte relevante dos casos. Taquipneia acima de 30 e confusão são, não por acaso, dois dos cinco itens do CURB-65 — o escore reconhece o que a apresentação atípica esconde.
Dois fatores mudam o agente e portanto o antibiótico: contato recente com serviços de saúde, diálise, internação nos últimos 90 dias, uso de antibiótico nos últimos 90 dias e imunossupressão empurram para germes multirresistentes; pneumonia necrosante de evolução rápida em jovem hígido, às vezes com lesão cutânea, sugere estafilococo resistente à meticilina adquirido na comunidade. E há a régua simples que vale para todos: saturação abaixo de 92% indica internação, independentemente do escore.
Vascular: tromboembolismo pulmonar
O tromboembolismo é a causa que se apresenta pelo que falta. Dispneia de início súbito, taquicardia, taquipneia — e ausculta limpa, sem sibilo e sem crepitação, com radiografia de tórax que não mostra nada. A hipoxemia costuma ser desproporcional à pobreza do exame físico, e o gás carbônico está baixo. É o padrão de espaço morto descrito no bloco de mecanismo: unidade que ventila e não perfunde.
A embolia periférica dói e a central não. O êmbolo distal irrita a pleura e produz dor pleurítica com hemoptise ocasional; o êmbolo central maciço pode doer pouco e se apresentar como dispneia súbita, síncope ou choque, porque o problema ali é sobrecarga pressórica aguda do ventrículo direito. Essa dissociação é a razão de o tromboembolismo entrar em dois capítulos desta apostila: pela porta da dor, no capítulo de dor torácica, onde estão o escore de Wells, a regra PERC e o fluxograma completo; e pela porta da falta de ar, aqui.
O que interessa nesta porta é a régua negativa. Radiografia normal não exclui tromboembolismo — a radiografia serve para achar a outra doença, não para afastar esta. Eletrocardiograma normal também não exclui: os sinais de sobrecarga direita, como inversão de T de V1 a V4 e o padrão S1Q3T3, aparecem nos casos graves, enquanto nos leves o único achado é taquicardia sinusal. E gasometria com hipoxemia e hipocapnia não é diagnóstico, é apenas coerente com a hipótese.
Mecânico: pneumotórax e derrame pleural
O pneumotórax espontâneo primário aparece em jovem alto e magro, muitas vezes fumante, com dor súbita em pontada e dispneia; o secundário aparece no portador de DPOC com bolhas, e nesse é muito mais grave, porque a reserva já era pequena. O achado é assimétrico por definição: murmúrio abolido de um lado, hipertimpanismo, frêmito reduzido.
A forma hipertensiva é diagnóstico clínico e não comporta espera. Hipotensão com turgência jugular, murmúrio abolido de um lado, hipertimpanismo e desvio de traqueia exigem descompressão imediata — a conduta e a técnica estão no capítulo de dor torácica. Vale reter o mecanismo, porque ele explica a pressa: o que mata não é o pulmão colabado, é o retorno venoso interrompido pelo desvio do mediastino.
O derrame pleural tem instalação mais lenta e produz dispneia que piora ao deitar sobre o lado sadio. O exame mostra macicez à percussão, murmúrio abolido e frêmito toracovocal diminuído — a combinação que o distingue da consolidação, em que o frêmito aumenta. Derrame volumoso em paciente febril levanta empiema; derrame em paciente com insuficiência cardíaca costuma ser bilateral e ceder com descongestão.
Sem doença pulmonar: acidose, anemia, via aérea alta e o rótulo de ansiedade
A acidose metabólica compensada se apresenta com respiração profunda, ampla e regular, sem sibilo, sem crepitação e sem uso importante de musculatura acessória, num paciente que costuma estar desidratado. Cetoacidose diabética, sepse, uremia, intoxicação exógena. O detalhe que fecha o raciocínio é a ausência de esforço obstrutivo: o paciente não luta contra o ar, ele o move de propósito. Broncodilatador e diurético não têm papel nenhum aqui.
A anemia aguda produz dispneia com saturação normal, taquicardia, palidez de mucosas e sopro sistólico ejetivo funcional. A intoxicação por monóxido de carbono, em incêndio, aquecedor ou motor em ambiente fechado, produz cefaleia, náusea, confusão e saturação de pulso enganosamente normal — o oxímetro não distingue oxi-hemoglobina de carboxi-hemoglobina. Nos dois casos, oxigênio é tratamento e o oxímetro é um instrumento cego.
Obstrução de via aérea alta é a causa que muda de especialidade. Estridor inspiratório, voz abafada, sialorreia, dificuldade de deglutir e posição de tripé com pescoço estendido apontam para epiglotite, angioedema, corpo estranho ou abscesso. Isso não é problema de pulmão: é emergência de via aérea, e a decisão é sobre quem vai garantir essa via aérea e onde, não sobre qual broncodilatador prescrever. Manipular a orofaringe às cegas nesse cenário pode precipitar obstrução completa.
A dispneia sem doença orgânica existe e é frequente: hiperventilação com alcalose respiratória, parestesia perioral e de extremidades, espasmo carpopedal, sensação de aperto torácico. O problema é que ela é diagnóstico de exclusão e o custo do erro é alto: o tromboembolismo em mulher jovem em uso de anticoncepcional se apresenta exatamente com taquipneia, ansiedade, ausculta limpa e radiografia normal. Duas travas ajudam. Primeira: saturação. Alcalose respiratória por ansiedade não derruba a saturação; se ela está abaixo de 95% em ar ambiente num adulto jovem, o rótulo não se sustenta sozinho. Segunda: o rótulo só pode ser aplicado depois de a hipótese vascular ter sido endereçada, não antes.
O que muda em quem não é o paciente do livro
No idoso, a percepção de dispneia é menor e a apresentação é frequentemente confusão e taquipneia; a única maneira de não subestimar é medir frequência respiratória em vez de perguntar como ele está. No imunossuprimido, a ausência de febre e de leucocitose não afasta infecção, e o espectro de agentes é maior. No obeso, a dessaturação ocorre mais rápido, a ausculta é mais pobre e a posição deitada piora tudo — mantê-lo sentado é intervenção terapêutica.
Na gestante, taquipneia e dispneia de esforço são fisiológicas no terceiro trimestre, o que atrasa o diagnóstico das causas graves; ao mesmo tempo o risco de tromboembolismo é maior, e a hipoxemia materna compromete o feto antes de comprometer a mãe. No paciente com DPOC e insuficiência cardíaca simultâneas — a combinação mais comum do pronto-socorro brasileiro — nenhuma das duas hipóteses exclui a outra, e é justamente aí que o ultrassom à beira do leito e os peptídeos natriuréticos deixam de ser luxo e viram método.
Como fechar o diagnóstico
A pergunta que organiza a investigação da dispneia aguda não é qual exame pedir, é qual pergunta cada exame responde. Quatro exames de beira de leito — oximetria, gasometria, eletrocardiograma e radiografia — respondem a perguntas diferentes e nenhum deles responde à pergunta do outro. Dois marcadores — peptídeo natriurético e D-dímero — só têm valor se você já tiver uma probabilidade pré-teste na cabeça. E um instrumento, o ultrassom à beira do leito, resolve em minutos a separação que os demais levam uma hora para fazer.
A ordem também importa e é ditada pela gravidade, não pela curiosidade. Em paciente instável, os exames que saem do quarto competem com o tratamento: tomografia em paciente que não sustenta a própria ventilação é decisão de transportar um paciente crítico para um corredor sem equipe. Estabilize, separe com o que existe à beira do leito, e só então mande para o exame que vai confirmar.
Oximetria e gasometria: o que uma esconde e a outra revela
A oximetria de pulso responde a uma pergunta só: que proporção da hemoglobina disponível está saturada. Ela não mede quanta hemoglobina existe, não distingue oxigênio de monóxido de carbono, não informa nada sobre gás carbônico e perde acurácia com má perfusão, hipotermia, vasoconstrição e movimento. Saturação normal em paciente dispneico obriga a explicar por que — anemia, intoxicação, acidose metabólica, dispneia funcional — e nunca encerra a avaliação.
A gasometria arterial responde à pergunta da ventilação: o paciente está retendo gás carbônico e o pH aguentou? Ela tem indicação escrita nos documentos brasileiros. Na asma, quando há sinais de crise grave, pico de fluxo abaixo de 30% do previsto ou saturação abaixo de 93%. Na DPOC, quando a saturação é igual ou menor que 92%, para confirmar hipoxemia e detectar hipercapnia. E na exacerbação em uso de oxigênio, no início da administração e cerca de 20 minutos depois, e novamente sempre que a FiO2 mudar ou o paciente piorar.
Aqui a gasometria é usada, não interpretada do zero: o passo a passo acidobásico está no capítulo de gasometria arterial desta apostila. O que se extrai dela na dispneia aguda são três leituras. PaCO2 alta com pH baixo e bicarbonato ainda normal significa retenção aguda, e é indicação de suporte ventilatório. PaCO2 alta com pH quase normal e bicarbonato alto significa retenção crônica compensada, e o alvo de oxigênio muda. PaCO2 baixa com hipoxemia e pulmão limpo aponta para espaço morto — pense em tromboembolismo. E há uma leitura que assusta com razão: PaCO2 normal ou alta em crise asmática grave, quando ela deveria estar baixa pela hiperventilação, indica fadiga muscular iminente.
Eletrocardiograma e radiografia: o que confirmam e o que não excluem
O eletrocardiograma custa dois minutos e responde a três perguntas que mudam a conduta no mesmo turno. Existe uma arritmia que é a causa da descompensação — fibrilação atrial de alta resposta, taquicardia supraventricular? Existe isquemia aguda por trás do edema agudo? Existe sobrecarga aguda de ventrículo direito, que num paciente com dispneia súbita e pulmão limpo reforça tromboembolismo? Vale lembrar que eletrocardiograma inteiramente normal ocorre em cerca de 13% dos pacientes com insuficiência cardíaca e praticamente exclui doença miocárdica crônica.
A radiografia de tórax mostra congestão, consolidação, pneumotórax, derrame e alargamento de mediastino, e ajuda a diferenciar causas torácicas de pulmonares da dispneia. O que ela não faz é excluir. A própria diretriz brasileira de insuficiência cardíaca registra que radiografia normal não afasta congestão pulmonar, principalmente na insuficiência cardíaca crônica agudizada. E radiografia normal não afasta tromboembolismo — nesse caso, a normalidade é até esperada. Some-se a isso o tempo: no paciente instável, a radiografia não pode ser o motivo pelo qual a pressão positiva atrasou.
Peptídeos natriuréticos: os cortes que decidem
BNP e NT-proBNP servem para uma pergunta específica: este paciente com dispneia tem insuficiência cardíaca aguda? A diretriz brasileira recomenda seu uso de rotina na avaliação admissional da sala de emergência quando há dúvida diagnóstica, com classe I e nível de evidência A, e define três faixas.
BNP <100 ou NT-proBNP <300 pg/mL tornam IC aguda menos provável, mas obesidade e outros contextos limitam a exclusão. Valores altos não provam congestão. Para NT-proBNP, limiares de apoio variam com idade, frequentemente 450 (<50 anos), 900 (50–75) e 1.800 (>75), integrados à clínica, rim, FA e imagem. Não usar 900 como confirmação universal.
Duas ressalvas práticas. No edema agudo de instalação súbita, na insuficiência mitral aguda e no cor pulmonale agudo os níveis podem não subir. E no paciente em uso de sacubitril-valsartana o BNP fica artificialmente elevado pela inibição da neprilisina, de modo que nesse caso o marcador a usar é o NT-proBNP.
D-dímero e troponina: dois exames que só funcionam com pergunta feita
D-dímero não é exame de triagem de dispneia. Ele só tem valor depois de aplicada uma regra de probabilidade pré-teste — Wells ou Genebra revisado —, cujas faixas correspondem a cerca de 10% de confirmação na probabilidade baixa, 30% na intermediária e 65% na alta. Na leitura em dois níveis, a do capítulo de dor torácica desta apostila, dose-o quando o tromboembolismo pulmonar é improvável (TEP improvável, Wells até 4): abaixo do corte, exclui e manda procurar outro diagnóstico. O corte padrão é 500 microgramas por litro, e a partir dos 50 anos considera-se o corte ajustado pela idade, obtido multiplicando a idade por 10.
No TEP provável (Wells acima de 4), não dose: vá direto para a angiotomografia de tórax. Um resultado abaixo do corte nesse contexto é exatamente o falso alívio que manda o paciente embora, e um resultado acima não acrescenta nada, porque a tomografia seria feita de qualquer forma. No paciente instável demais para ir ao tomógrafo, o ecocardiograma não fecha o diagnóstico, mas a ausência de sinais de sobrecarga ou disfunção do ventrículo direito essencialmente afasta a embolia como causa da instabilidade hemodinâmica. O escore de Wells, a regra PERC e o fluxograma completo estão no capítulo de dor torácica desta apostila.
Troponina tem o mesmo problema de contexto. Ela sobe na síndrome coronariana aguda, mas também no tromboembolismo com sobrecarga de ventrículo direito, na sepse, na insuficiência renal e na taquiarritmia sustentada. No dispneico, troponina elevada não significa infarto: significa injúria miocárdica, e a pergunta seguinte é se o padrão de variação entre coletas e o quadro clínico sustentam isquemia aguda.
Ultrassom à beira do leito: o que resolve em minutos
A diretriz brasileira de insuficiência cardíaca coloca o ultrassom de tórax dentro do fluxograma de avaliação admissional da dispneia aguda, ao lado do exame clínico e da radiografia, e descreve por que ele muda o turno: pode ser manuseado por não especialista em ecocardiografia, tem alta acurácia na detecção de congestão pulmonar e sistêmica, é portátil e permite reavaliações repetidas, funcionando como monitorização da resposta ao tratamento. Ele complementa e não substitui o ecocardiograma transtorácico, que deve ser feito o mais brevemente possível. A técnica e o reconhecimento de cada janela estão no capítulo Ultrassom à beira do leito: o que o interno precisa reconhecer, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito; aqui fica o que cada achado desloca na dispneia.
Quatro leituras resolvem a separação da cena de abertura. Deslizamento pleural presente afasta pneumotórax naquele ponto; sua ausência, num paciente com dispneia súbita e assimetria de ausculta, sustenta o diagnóstico. Linhas B difusas e bilaterais indicam síndrome intersticial e apontam para congestão. Linhas B focais junto de área de consolidação apontam para foco infeccioso. Derrame pleural aparece de imediato e quantifica-se de imediato. Somando a isso a avaliação da veia cava inferior e a impressão global da função ventricular, você separa em minutos o paciente que precisa de nitrato do que precisa de broncodilatador.
O limite é honesto: o método é operador-dependente e não substitui a imagem definitiva quando ela está indicada. Angiotomografia continua sendo o exame que confirma tromboembolismo, e ecocardiograma formal continua sendo o exame que define a função ventricular.
O que não pedir, o que custa e o que existe no SUS
Quatro pedidos frequentes e o preço de cada um. D-dímero em quem já tem probabilidade alta de tromboembolismo: não muda conduta e cria falso alívio. Espirometria durante a crise: o pico de fluxo é útil e possível, a espirometria completa não é exame de crise e consome tempo do paciente que está em falência. Tomografia em paciente que ainda não estabilizou: transporta-se um paciente crítico para fora da sala de emergência sem ganho imediato. Antibiótico em toda exacerbação de DPOC: a indicação é clínica e existe critério — agravamento da tosse e da dispneia com aumento da secreção purulenta —, e prescrever sem isso é selecionar resistência sem benefício.
Sobre disponibilidade, a régua clínica precisa funcionar com o que existe. Oximetria, eletrocardiograma, radiografia de tórax e gasometria arterial estão em praticamente qualquer pronto-socorro do Sistema Único de Saúde. Ultrassom à beira do leito depende do serviço e do treinamento da equipe, e as próprias sociedades brasileiras reconhecem que muitas unidades não têm acesso fácil a tecnologias como a cânula nasal de alto fluxo. Peptídeo natriurético e angiotomografia nem sempre estão disponíveis em plantão de fim de semana. Por isso os blocos seguintes montam a decisão sobre exame físico, monitor e gasometria — e tratam o ultrassom e os marcadores como aceleradores, não como pré-requisitos.
A ordem da separação
Você deve reconhecer falência respiratória, distinguir os mecanismos prováveis e iniciar suporte e tratamento com reavaliação desde os primeiros minutos.
- 1Passo 1 — Posição e oxigênio com alvo escrito. Sente o paciente. Ofereça oxigênio apenas se houver hipoxemia, com um alvo definido antes de abrir o fluxo, e registre esse alvo na prescrição. Monitor, oximetria contínua, acesso venoso.
- 2Passo 2 — Classifique o trabalho respiratório, não o desconforto relatado. Fala, musculatura acessória, frequência respiratória e nível de consciência definem se você tem minutos ou uma hora. Palavras isoladas, exaustão, sonolência ou tórax silencioso colocam o paciente na faixa que não espera exame.
- 3Passo 3 — Descarte o que é diagnóstico clínico e não comporta espera: pneumotórax hipertensivo, obstrução de via aérea alta com estridor, anafilaxia. Nenhum deles exige imagem para ser tratado.
- 4Passo 4 — Separe o mecanismo com o que está à beira do leito. Ausculta simétrica ou assimétrica, sibilo ou crepitação, pulmão limpo com hipoxemia, respiração de Kussmaul. Se houver ultrassom, é aqui que ele entra e encurta o caminho.
- 5Passo 5 — Trate o mecanismo mais provável e peça, em paralelo, o exame que confirma ou derruba a hipótese: eletrocardiograma e radiografia em todos; gasometria conforme indicação; peptídeo natriurético se a dúvida for congestão; D-dímero ou angiotomografia se a hipótese for vascular.
- 6Passo 6 — Reavalie com hora marcada. Se o parâmetro escolhido não melhorou no prazo, a pergunta não é qual dose aumentar, é se o diagnóstico está certo.
Grau 1 — Dispneia sem esforço visível
Fala frases completas, sem tiragem, frequência respiratória normal ou pouco elevada. Há tempo para investigar antes de tratar. Se a saturação estiver baixa apesar do pouco esforço, suspeite de falha de troca ou de transporte, não de bomba.
Grau 2 — Esforço compensado
Fala frases incompletas, esternocleidomastóideo visível, frequência respiratória acima de 25, frequência cardíaca acima de 110. O paciente ainda sustenta a ventilação, mas está gastando reserva. Trate agora e reavalie em 15 a 30 minutos.
Grau 3 — Esforço descompensado
Fala por palavras, tiragem de fúrcula e intercostal, posição de tripé, sudorese. Frequência cardíaca acima de 140. É a faixa em que a pressão positiva entra e em que a via aérea definitiva passa a ser possibilidade real. Não saia de perto.
Grau 4 — Falência
Exaustão, cianose, sonolência ou confusão, tórax silencioso, movimento paradoxal do abdome, bradicardia. O esforço diminuiu porque a musculatura acabou, não porque o paciente melhorou. Via aérea definitiva, agora.
| Causa | O que aponta para ela | O exame que resolve | O que não pode faltar na conduta |
|---|---|---|---|
| Asma | Instalação em dias, sibilo difuso, expiração prolongada, gatilho viral ou alérgeno, história prévia de crise | Clínico, com pico de fluxo e oximetria; gasometria se crise grave, PFE abaixo de 30% ou SpO2 abaixo de 93% | Beta-2 de curta ação repetido, corticoide sistêmico na primeira hora, alvo de SpO2 igual ou acima de 92% |
| Exacerbação de DPOC | Piora de tosse, dispneia e escarro em até 14 dias, em fumante ou ex-fumante acima de 40 anos | Clínico; gasometria se SpO2 igual ou menor que 92%; radiografia para excluir pneumonia e pneumotórax | Beta-2 com ipratrópio, corticoide oral, oxigênio titulado, antibiótico só se escarro purulento com piora de tosse e dispneia |
| Edema agudo cardiogênico | Instalação em minutos a horas, ortopneia, dispneia paroxística noturna, crepitações bilaterais, hipertensão, sudorese | Radiografia com congestão, BNP ou NT-proBNP, ultrassom com linhas B difusas, ecocardiograma nas primeiras 48 h | Vasodilatador se pressão permitir, furosemida endovenosa, ventilação não invasiva, tratar o fator desencadeante |
| Pneumonia | Febre, tosse produtiva, dor pleurítica, crepitação localizada; no idoso, confusão e taquipneia isoladas | Radiografia de tórax; CURB-65 para local de tratamento; SpO2 abaixo de 92% indica internação | Antibiótico empírico precoce conforme local de tratamento, oxigênio, avaliação de critérios de terapia intensiva |
| Tromboembolismo pulmonar | Dispneia súbita com ausculta e radiografia limpas, taquicardia, hipoxemia desproporcional, hipocapnia, fator de risco | Probabilidade pré-teste e depois D-dímero ou angiotomografia; ecocardiograma no instável | Anticoagulação plena conforme o capítulo de dor torácica; não perder tempo com broncodilatador |
| Pneumotórax | Dor súbita em pontada com dispneia, ausculta assimétrica, hipertimpanismo, jovem magro ou portador de DPOC | Ultrassom e/ou radiografia no estável; ausência isolada de deslizamento pleural não confirma pneumotórax. Na forma hipertensiva com instabilidade, diagnóstico e tratamento são clínicos. | Descompressão imediata na forma hipertensiva; drenagem conforme tamanho e sintoma |
| Derrame pleural | Dispneia progressiva, macicez, murmúrio abolido com frêmito diminuído, piora ao deitar sobre o lado sadio | Radiografia e ultrassom; toracocentese diagnóstica se etiologia indefinida ou suspeita de empiema | Drenagem ou toracocentese de alívio se houver repercussão ventilatória; tratar a causa de base |
| Acidose metabólica compensando | Respiração profunda e regular sem esforço acessório, pulmão limpo, desidratação, contexto de diabetes, sepse ou uremia | Gasometria com ânion gap, glicemia, cetonemia, função renal, lactato | Tratar a causa metabólica; broncodilatador e diurético não têm papel |
| Anemia aguda ou intoxicação por monóxido | Dispneia com saturação de pulso normal, palidez de mucosas ou contexto de fumaça e ambiente fechado | Hemograma; a oximetria de pulso é cega para carboxi-hemoglobina | Transfusão conforme o quadro; oxigênio em alta fração na suspeita de monóxido |
| Obstrução de via aérea alta | Estridor inspiratório, voz abafada, sialorreia, disfagia, pescoço estendido, evolução rápida | Nenhum antes de garantir a via aérea; avaliação especializada com material de via aérea difícil pronto | Plano de via aérea definido com quem vai executá-lo; evitar manipulação às cegas da orofaringe |
| Dispneia sem doença pulmonar | Hiperventilação com parestesia perioral, espasmo carpopedal, saturação normal, exame e radiografia normais | Diagnóstico de exclusão: só depois de endereçada a hipótese vascular e conferida a saturação em ar ambiente | Reasseguramento estruturado e reavaliação; nunca como primeiro rótulo em quem dessatura |
Alvo de saturação por cenário — e por que os documentos brasileiros não usam o mesmo número
| Cenário | Alvo | Como titular | Documento |
|---|---|---|---|
| Crise de asma no adulto | SpO2 92–95% durante oxigenoterapia, conforme GINA 2026 | Cateter ou máscara conforme o grau de hipoxemia e o conforto do paciente | GINA — Summary Guide, 2026 |
| Crise de asma em gestante, cardiopata ou criança | SpO2 igual ou acima de 94 a 95% | Mesmo raciocínio, com margem maior pela menor tolerância à hipoxemia | SBPT — Manejo da asma, 2012 |
| Exacerbação de DPOC | SpO2 88–92% inicialmente no risco de hipercapnia; ajustar pela gasometria e evolução | Titular dispositivo e FiO2 para o alvo. Não impor um teto de FiO2 nem atrasar suporte ventilatório na hipoxemia grave. | GOLD; conferir protocolo de oxigenoterapia e gasometria |
| Exacerbação de DPOC no atendimento pré-hospitalar | Na DPOC com risco hipercápnico, alvo 88–92%, ajustando oferta e suporte pela resposta. | Fluxo baixo e reavaliação; alto fluxo dobrou a mortalidade em relação ao oxigênio titulado no pré-hospitalar | Ministério da Saúde — SAMU 192, protocolo AC23 |
| Insuficiência cardíaca aguda e edema agudo | SatO2 acima de 90% | Titular dispositivo/fluxo pela saturação, esforço e contexto; DPOC com risco de retenção pede inicialmente 88–92%, sem limite fixo de 1–2 L/min. | SBC — Insuficiência Cardíaca Crônica e Aguda, 2018 |
| Paciente já em ventilação mecânica | SpO2 de 92 a 96% | Ajuste conjunto de PEEP e FiO2, com a menor FiO2 possível | AMIB e SBPT — Orientações práticas de ventilação mecânica, 2025 |
O que cada exame responde — e o que ele não responde
| Exame | Pergunta que ele responde | Pergunta que ele NÃO responde |
|---|---|---|
| Oximetria de pulso | Que proporção da hemoglobina está saturada, em tempo real | Quanta hemoglobina existe, se há monóxido de carbono, e qualquer coisa sobre gás carbônico |
| Gasometria arterial | Há retenção de CO2, o pH aguentou, a retenção é aguda ou crônica | Qual a causa da dispneia; ela confirma o problema ventilatório, não o diagnóstico |
| Eletrocardiograma | Há arritmia desencadeante, isquemia aguda ou sobrecarga aguda de ventrículo direito | Excluir tromboembolismo — traçado normal é comum nos casos leves |
| Radiografia de tórax | Há consolidação, congestão, pneumotórax, derrame, alargamento de mediastino | Excluir congestão em insuficiência cardíaca crônica agudizada, e excluir tromboembolismo |
| BNP e NT-proBNP | A dispneia é de insuficiência cardíaca aguda, quando há dúvida diagnóstica | Distinguir a causa da descompensação; e pode ser normal no edema agudo súbito e na insuficiência mitral aguda |
| D-dímero | Afastar tromboembolismo quando ele é improvável (Wells até 4) | Confirmar tromboembolismo, e afastá-lo quando ele é provável (Wells acima de 4) |
| Ultrassom à beira do leito | Há deslizamento pleural, linhas B, consolidação, derrame, congestão sistêmica | Substituir o ecocardiograma formal ou a angiotomografia quando elas estão indicadas |
Ultrassom à beira do leito: o padrão e a leitura
| Padrão | Leitura | Cuidado |
|---|---|---|
| Deslizamento pleural presente | Afasta pneumotórax naquele ponto de exame | A ausência de deslizamento também ocorre em aderência pleural, bolha e intubação seletiva |
| Deslizamento pleural ausente com assimetria de ausculta | Sustenta pneumotórax no paciente com dispneia súbita | Na forma hipertensiva o diagnóstico é clínico e a descompressão não espera o transdutor |
| Linhas B difusas e bilaterais | Síndrome intersticial; no contexto de dispneia aguda com ortopneia, aponta para congestão | Também aparece em pneumonia intersticial, fibrose e SDRA; a leitura é clínica |
| Linhas B focais com consolidação subpleural | Aponta para foco infeccioso ou infarto pulmonar | Consolidação pequena e periférica não distingue pneumonia de área de infarto |
| Derrame pleural | Confirma e quantifica de imediato, e guia a punção | Derrame não explica sozinho hipoxemia grave; procure a causa que o produziu |
| Veia cava inferior distendida e pouco colapsável | Congestão sistêmica; ajuda a distinguir o congesto do hipovolêmico antes de decidir volume | Sofre influência de ventilação com pressão positiva e de doença de ventrículo direito |
Ventilação não invasiva: quando entra, quando não entra, e o prazo
| Situação | Posição do documento brasileiro | Fonte |
|---|---|---|
| Edema agudo de pulmão cardiogênico | Recomendação de uso: BiPAP com EPAP de 5 a 10 e IPAP até 15 cmH2O, ou CPAP de 5 a 10 cmH2O, para reduzir intubação e mortalidade hospitalar | AMIB e SBPT — Diretrizes Brasileiras de Ventilação Mecânica, 2013 |
| Insuficiência cardíaca aguda com desconforto respiratório | Indicada quando há congestão pulmonar com frequência respiratória acima de 25 e SatO2 abaixo de 90%; cautela no hipotenso e no pós-infarto | SBC — Insuficiência Cardíaca Crônica e Aguda, 2018 |
| Exacerbação de DPOC | VNI bilevel na exacerbação de DPOC com acidose respiratória aguda ou aguda sobre crônica, pH ≤7,35, hipercapnia e esforço persistente, na ausência de necessidade imediata de intubação. | ERS/ATS — guideline de VNI, 2017 |
| Crise asmática moderada a acentuada | Sugestão, em conjunto com a terapia medicamentosa, para reduzir a obstrução ao fluxo e o esforço respiratório | AMIB e SBPT — Diretrizes Brasileiras de Ventilação Mecânica, 2013 |
| Pneumonia grave com insuficiência respiratória hipoxêmica | Sugestão, sobretudo no portador concomitante de DPOC, observando as metas de sucesso de 0,5 a 2 horas e evitando retardar a intubação em caso de insucesso | AMIB e SBPT — Diretrizes Brasileiras de Ventilação Mecânica, 2013 |
| Choque cardiogênico | Não usar de rotina | AMIB e SBPT — Orientações práticas de ventilação mecânica, 2025 |
| SDRA grave | Evitar, pela alta taxa de falência respiratória; não usar com relação PaO2/FiO2 abaixo de 100 | Diretrizes de VM 2013 e Orientações práticas de VM 2025 |
| Contraindicações absolutas | Necessidade de intubação de emergência; parada cardíaca ou respiratória | AMIB e SBPT — Diretrizes Brasileiras de Ventilação Mecânica, 2013 |
| Contraindicações relativas | Incapacidade de cooperar ou de proteger a via aérea, secreções abundantes, rebaixamento de consciência exceto por acidose hipercápnica em DPOC, falência orgânica não respiratória, cirurgia ou trauma de face, alto risco de aspiração, obstrução de via aérea superior | AMIB e SBPT — Diretrizes Brasileiras de Ventilação Mecânica, 2013 |
| Prazo de decisão | Monitorar à beira do leito de 0,5 a 2 horas. Sucesso é queda da frequência respiratória, aumento do volume corrente, melhora da consciência, redução da musculatura acessória, aumento da PaO2 ou SpO2 e queda da PaCO2. Sem sucesso, intubação imediata | AMIB e SBPT — Diretrizes Brasileiras de Ventilação Mecânica, 2013 |
Gatilhos de via aérea definitiva na dispneia aguda
| Gatilho | Cenário em que está escrito | Fonte |
|---|---|---|
| Hipoxemia refratária com SatO2 abaixo de 90% persistente, instabilidade hemodinâmica, rebaixamento de consciência, exaustão e fadiga da musculatura respiratória | Crise asmática | Ministério da Saúde — SAMU 192, protocolo AC22 |
| Dispneia grave com musculatura acessória e movimento abdominal paradoxal, FR acima de 35, instabilidade hemodinâmica, rebaixamento de consciência, falência da ventilação não invasiva | Exacerbação de DPOC | Ministério da Saúde — SAMU 192, protocolo AC23 |
| Falência cardíaca ou respiratória, deterioração do estado mental, hipoxemia grave; exaustão progressiva é indicação relativa | Asma aguda grave — a decisão não depende de valor gasométrico absoluto | SBPT — Manejo da asma, 2012 |
| Paciente que se mantém sintomático ou hipoxêmico apesar do suporte não invasivo, insuficiência respiratória com choque cardiogênico, desorientação, ou contraindicação à pressão positiva não invasiva | Insuficiência cardíaca aguda | SBC — Insuficiência Cardíaca Crônica e Aguda, 2018 |
| Paciente que deteriora ou não melhora sob ventilação não invasiva | Qualquer causa: intubação imediata pelo risco de perda de proteção da via aérea e parada respiratória | AMIB e SBPT — Diretrizes Brasileiras de Ventilação Mecânica, 2013 |
Os quatro graus apresentados são uma organização didática de sinais de esforço, não um escore validado para todas as causas de dispneia. Interprete junto com consciência, perfusão, gasometria e evolução; pouco esforço também pode acompanhar fadiga ou doença vascular grave.
Tórax silencioso não é ausculta normal. Sibilo exige fluxo; sua ausência em paciente com esforço máximo indica obstrução crítica, e vem acompanhada de murmúrio vesicular diminuído.
Expectativa realista de sucesso da ventilação não invasiva, segundo a diretriz brasileira: cerca de 75% nos pacientes hipercápnicos e cerca de 50% nos hipoxêmicos. Metade dos hipoxêmicos vai falhar — planeje a via aérea desde o início.
Em portador de DPOC com rebaixamento de consciência por hipercapnia, a ventilação não invasiva pode ser usada, mas a melhora da consciência deve ser evidente dentro de 1 a 2 horas. Não é permissão para esperar a noite toda.
O oxigênio de alto fluxo indiscriminado no portador de DPOC tem custo medido: no atendimento pré-hospitalar, a mortalidade foi de 4% com oxigênio titulado e de 9% com oxigênio de alto fluxo.
Radiografia de tórax e tomografia não são etapas obrigatórias antes de iniciar pressão positiva no paciente em falência. O exame confirma o diagnóstico; ele não é pré-requisito do suporte.
A conduta, hora a hora
A conduta da dispneia aguda tem duas camadas. A primeira vale para todo mundo e não espera diagnóstico: posição, oxigênio com alvo, monitorização, acesso e eletrocardiograma. A segunda é específica do mecanismo e é onde as prescrições se contradizem — por isso ela só entra depois do passo 4 do fluxo. Entre as duas camadas mora a ventilação não invasiva, que não é conduta específica de nenhuma doença e é a intervenção que mais muda desfecho no paciente certo.
Os esquemas abaixo priorizam condutas aplicáveis à beira do leito. Referências mais antigas foram mantidas quando úteis ao contexto, mas oxigênio, corticoide, duração antimicrobiana e VNI devem seguir as orientações atualizadas destacadas no capítulo, com ajuste à resposta clínica e ao protocolo do serviço.
Minuto 0 a 5 — o que se faz antes de saber
Apoie o paciente na posição mais confortável, habitualmente sentado se houver congestão e pressão tolerável. Monitorize, obtenha acesso e ECG e trate a hipoxemia imediatamente. Na exacerbação de DPOC ou risco de insuficiência hipercápnica, titule inicialmente para SpO2 88–92% e confira a gasometria; hipoxemia grave não pode ser mantida por medo de oferecer oxigênio. Ajuste dispositivo e suporte à resposta. Estridor, anafilaxia e pneumotórax hipertensivo exigem tratamento imediato em paralelo, sem esperar completar esta sequência.
Prescrição- Posição sentada, com pernas pendentes fora da maca na suspeita de congestão (SAMU 192, AC24)
- Oxigênio titulado: na crise asmática, alvo de SpO2 92–95% conforme GINA 2026; na exacerbação de DPOC com risco de hipercapnia, 88–92%, com gasometria e reavaliação. Não estabelecer teto fixo de FiO2 que impeça corrigir hipoxemia.
- Escolher cateter ou máscara de Venturi conforme a necessidade de concentração controlada. Se a hipoxemia for grave, aumentar o suporte e acionar ajuda; ajustar depois pela oximetria, gasometria e evolução.
- Na insuficiência cardíaca aguda, oferecer oxigênio quando houver hipoxemia e considerar pressão positiva cedo no desconforto importante. Se houver DPOC com risco de hipercapnia, usar alvo inicial de 88–92%; um fluxo fixo de 1–2 L/min não garante esse resultado.
- Monitorização contínua de frequência cardíaca, frequência respiratória, pressão arterial, eletrocardiograma e oximetria (SBC, 2018)
Minuto 5 a 15 — separar
Três perguntas e um transdutor resolvem a maior parte dos casos. A ausculta é simétrica ou assimétrica? O pulmão está cheio, obstruído ou limpo? O padrão respiratório é de luta contra o ar ou de respiração profunda deliberada? Some a isso o eletrocardiograma e, se houver, o ultrassom à beira do leito, procurando deslizamento pleural, linhas B, consolidação, derrame e veia cava. Peça em paralelo a radiografia de tórax e, conforme a hipótese, a gasometria arterial, o peptídeo natriurético ou a rota do tromboembolismo. Não espere nenhum desses resultados para iniciar o tratamento do mecanismo mais provável.
Prescrição- Gasometria arterial na crise asmática com sinais de gravidade, pico de fluxo abaixo de 30% do previsto ou SpO2 abaixo de 93% (SBPT, asma 2012)
- Gasometria arterial na DPOC quando a SpO2 for igual ou menor que 92%, e novamente cerca de 20 minutos após iniciar ou alterar o oxigênio (SBPT, Manual de DPOC 2024; AMB/SBPT/AMIB, DPOC 2012)
- BNP ou NT-proBNP na admissão quando houver dúvida diagnóstica sobre insuficiência cardíaca aguda, classe I nível A (SBC, 2018)
- Radiografia de tórax na exacerbação grave ou com suspeita de pneumonia, insuficiência cardíaca ou pneumotórax (SBPT, asma 2012)
Minuto 5 a 15 — se o padrão é obstrução: asma
Beta-2 de curta ação repetido é a medida inicial, por inalador pressurizado com espaçador ou por nebulização — a eficácia é equivalente, inclusive nas exacerbações graves, e a escolha depende do serviço e do paciente. Na crise grave, associe brometo de ipratrópio. O corticoide sistêmico entra ainda na primeira hora, e atrasá-lo é um dos equívocos que a própria diretriz brasileira lista como causa de recaída. Sulfato de magnésio fica reservado à crise muito grave sem resposta ao tratamento inicial. Aminofilina não é tratamento inicial, e água destilada nunca serve de veículo para nebulização.
Prescrição- Salbutamol aerossol dosimetrado 100 mcg por jato: 4 a 8 jatos com espaçador, a cada 20 minutos, por 3 doses (SBPT, 2012; SAMU 192, protocolo AC22)
- Alternativa por nebulização: salbutamol solução 5 mg/mL, 2,5 a 5 mg diluídos em 3 a 4 mL de soro fisiológico, com fluxo de oxigênio de 6 a 8 L/min, a cada 20 minutos, por 3 doses (SBPT, asma 2012)
- Brometo de ipratrópio solução 0,25 mg/mL: 0,5 mg (40 gotas) a cada 20 minutos por 3 doses e, em seguida, a cada 2 a 4 horas — associado ao beta-2 na crise grave (SBPT, 2012; SAMU 192, protocolo AC22)
- Corticoide oral: prednisona ou prednisolona 40 a 50 mg por dia, por 5 a 7 dias, sem necessidade de desmame em cursos inferiores a 2 semanas (SBPT, asma 2020)
- Se a via oral não for viável, utilizar corticosteroide intravenoso em dose equivalente à estratégia sistêmica habitual, conforme protocolo do serviço. Gravidade, por si só, não justifica metilprednisolona de 60–125 mg a cada 6 horas. Não somar esquemas oral e intravenoso como tratamentos independentes.
- Sulfato de magnésio: 2 g IV em cerca de 20 minutos, em dose única selecionada na exacerbação grave com resposta insuficiente ao tratamento inicial. Não programar repetição automática; observar pressão arterial e contexto renal.
- Não usar: aminofilina como tratamento inicial ou principal; água destilada como veículo de nebulização, pelo risco de agravamento (SBPT, asma 2012)
Minuto 5 a 15 — se o padrão é obstrução: exacerbação de DPOC
O esqueleto é o mesmo da asma — broncodilatador de curta ação repetido, com ipratrópio na crise grave —, mas três coisas mudam. O corticoide oral é a via preferencial e não há vantagem em usar a endovenosa quando o paciente engole. O antibiótico tem critério clínico e não é rotina. E o oxigênio é titulado com alvo mais baixo, porque aqui existe risco real de piora da acidose respiratória.
Prescrição- Salbutamol aerossol dosimetrado com espaçador: 4 a 8 jatos a cada 10 a 20 minutos, até 3 repetições (SAMU 192, AC23)
- Alternativa: salbutamol solução para nebulização 2,5 a 5 mg por inalação a cada 2 a 4 horas conforme necessidade; ipratrópio 0,25 a 0,5 mg por inalação a cada 2 horas conforme necessidade (AMB/SBPT/AMIB, DPOC 2012)
- Brometo de ipratrópio 40 gotas em nebulização, ou após o salbutamol aerossol, na crise grave (SAMU 192, AC23)
- Corticosteroide na exacerbação de DPOC: prednisona ou equivalente, 40 mg por via oral ao dia por 5 dias, na situação habitual. Preferir via oral quando possível; individualizar se houver outra indicação ou uso crônico de corticoide.
- Antibiótico na exacerbação de DPOC quando houver critérios de infecção bacteriana, especialmente purulência associada a piora da dispneia ou aumento de escarro, ou necessidade de ventilação invasiva/não invasiva. Selecionar pelo risco microbiológico e resistência local, em geral por 5 dias com reavaliação. Amoxicilina-clavulanato é uma opção; quinolonas ficam para indicações selecionadas pelos efeitos adversos e risco de resistência. Ajustar dose à função renal e pesquisar pneumonia quando indicada.
- Não usar: mucolíticos e expectorantes no tratamento da exacerbação (AMB/SBPT/AMIB, DPOC 2012)
Minuto 5 a 15 — se o padrão é congestão: edema agudo de pulmão
Aqui a ordem é o inverso do reflexo comum: no edema agudo hipertensivo de instalação súbita, o problema é distribuição de volume, e o vasodilatador é o eixo, com o diurético usado de forma judiciosa. Na insuficiência cardíaca crônica agudizada, com hipervolemia global, o diurético em dose alta é o eixo. Antes de decidir, olhe a perfusão: pressão sistólica abaixo de 90 mmHg, extremidades frias e lactato alto configuram perfil frio-congesto, e nele vasodilatador em dose plena derruba o paciente. Pressão positiva entra cedo, junto e não depois.
Prescrição- Furosemida endovenosa 20 a 40 mg em bólus em quem não usava diurético e também em quem já usava, com dose no mínimo equivalente à de uso prévio; intervalo de 4 a 6 horas; dose máxima de 240 mg (SBC, 2018)
- Alternativa do atendimento pré-hospitalar: furosemida 40 a 80 mg (1 mg/kg) endovenosa, dose máxima de 200 mg, com cautela se pressão sistólica abaixo de 90 mmHg (SAMU 192, AC24)
- Nitroglicerina endovenosa: início de 10 a 20 mcg/min, aumento de 10 a 20 mcg/min a cada 15 minutos, máximo de 200 mcg/min — indicada na ausência de hipotensão, classe IIA nível B (SBC, 2018)
- Nitroprussiato de sódio: início de 0,3 mcg/kg/min, aumento de 0,3 a 0,5 mcg/kg/min a cada 15 minutos, máximo de 5 mcg/kg/min — sem evidência de isquemia miocárdica aguda, classe IIA nível B (SBC, 2018)
- Onde não há bomba de infusão: dinitrato de isossorbida 5 mg por via sublingual a cada 5 a 10 minutos, se pressão sistólica acima de 90 mmHg (SAMU 192, AC24)
- Ventilação não invasiva com CPAP de 5 a 10 cmH2O, ou BiPAP com EPAP de 5 a 10 e IPAP até 15 cmH2O (AMIB/SBPT, VM 2013)
- Opioide: o uso rotineiro não é recomendado, por náusea, hipotensão, bradicardia, depressão respiratória e controvérsia sobre mortalidade (SBC, 2018). O protocolo do SAMU prevê morfina 2 mg endovenosos lentos, repetíveis a cada 5 minutos até 20 mg, com pressão sistólica acima de 90 mmHg — ver o bloco de divergências
- Tratar o fator desencadeante: reverter ou controlar a fibrilação atrial de alta resposta, tratar a síndrome coronariana aguda, tratar a crise hipertensiva (SBC, 2018)
Minuto 15 a 60 — se o padrão é infecção: pneumonia
Defina o local de tratamento antes da droga, porque é ele que escolhe o esquema. CURB-65 de 0 a 1 é candidato a tratamento ambulatorial; 2 pede consideração de tratamento hospitalar; 3 ou mais é pneumonia grave, com avaliação de terapia intensiva a partir de 4. Independentemente do escore, saturação abaixo de 92% indica internação, e um critério maior da ATS/IDSA — choque séptico ou necessidade de ventilação mecânica — ou três critérios menores indicam terapia intensiva.
Prescrição- Paciente internado em enfermaria: ceftriaxona 1 g endovenosa a cada 12 horas, ou cefotaxima 1 a 2 g a cada 8 horas, ou ampicilina com sulbactam 1,5 a 3,0 g a cada 6 a 8 horas, associado a macrolídeo — azitromicina 500 mg a cada 24 horas ou claritromicina 500 mg a cada 12 horas — com duração pela estabilidade e gravidade. ATS 2025 admite cursos inferiores a cinco dias (mínimo três) em CAP não grave selecionada e estável; não aplicar a todos os internados nem manter automaticamente 7–10 dias
- Alternativa em monoterapia na enfermaria: levofloxacino 750 mg endovenosos a cada 24 horas, ou moxifloxacino 400 mg a cada 24 horas, por 5 a 7 dias (SBPT, PAC 2018)
- Paciente em terapia intensiva: cefalosporina de terceira geração, ou ampicilina com sulbactam, associada a macrolídeo, ou cefalosporina de terceira geração associada a quinolona respiratória, por pelo menos cinco dias, com individualização por estabilidade, agente e complicações; não fixar 7–14 dias para toda CAP grave
- Paciente ambulatorial sem comorbidade e sem uso recente de antibiótico: amoxicilina, ou amoxicilina com clavulanato 875/125 mg a cada 8 horas por 7 dias, ou macrolídeo — azitromicina por 3 a 5 dias (SBPT, PAC 2018)
Minuto 15 a 60 — se o padrão é vascular ou mecânico
No tromboembolismo, broncodilatador e diurético não têm papel: o que trata é anticoagulação, e em probabilidade média ou alta sem risco de sangramento a primeira dose pode ser dada antes da confirmação por imagem. A droga, a dose e a decisão de anticoagular antes da tomografia estão no capítulo de dor torácica desta apostila, junto com o escore de Wells e a regra PERC. No pneumotórax hipertensivo, nada disso se aplica: é descompressão imediata, também detalhada naquele capítulo. No derrame volumoso com repercussão ventilatória, o alívio é mecânico — toracocentese ou drenagem — e a investigação da causa vem depois.
Prescrição- Tromboembolismo: anticoagulação plena conforme o capítulo de dor torácica desta apostila; oxigênio titulado; suporte hemodinâmico se houver disfunção de ventrículo direito
- Pneumotórax hipertensivo: descompressão imediata, sem aguardar imagem — conduta detalhada no capítulo de dor torácica
- Derrame pleural volumoso com repercussão ventilatória: toracocentese de alívio ou drenagem, conforme volume e etiologia suspeita
- Acidose metabólica compensando: tratar a causa — hidratação e insulina na cetoacidose, antibiótico e ressuscitação na sepse, diálise na uremia. Broncodilatador, diurético e sedação não têm papel
Suporte ventilatório — iniciar cedo e reavaliar continuamente
A ventilação não invasiva não é conduta de uma doença: é conduta de um estado, o de esforço respiratório que o paciente não vai sustentar. Indicação forte no edema agudo cardiogênico e na exacerbação de DPOC, mais fraca na crise asmática moderada a acentuada e na pneumonia grave hipoxêmica, e proscrita de rotina no choque cardiogênico e na SDRA grave. A tabela de indicações, contraindicações e prazo está no bloco anterior; o que muda desfecho é o que vem abaixo. Instale, ajuste e fique — o erro que mata não é indicar VNI, é indicar e sair da sala.
Prescrição- Antes da máscara, confira as contraindicações absolutas: necessidade de intubação de emergência e parada cardíaca ou respiratória (AMIB/SBPT, VM 2013)
- Edema agudo cardiogênico: CPAP de 5 a 10 cmH2O, ou BiPAP com EPAP de 5 a 10 e IPAP até 15 cmH2O (AMIB/SBPT, VM 2013)
- Na exacerbação de DPOC, indicar VNI bilevel para insuficiência respiratória com acidose respiratória aguda ou aguda sobre crônica, pH ≤7,35, hipercapnia e esforço persistente, se não houver necessidade imediata de intubação. Não esperar pH inferior a 7,30 para reconhecer o benefício.
- Monitoração à beira do leito de 0,5 a 2 horas, com critérios objetivos de sucesso; em portador de DPOC com rebaixamento por hipercapnia, a consciência deve melhorar de forma evidente em 1 a 2 horas (AMIB/SBPT, VM 2013)
- Insucesso ou deterioração: intubação orotraqueal imediata, pelo risco de perda de proteção da via aérea e parada respiratória (AMIB/SBPT, VM 2013)
- Cânula nasal de alto fluxo, onde disponível: pode ser a primeira opção na hipoxemia leve a moderada com estabilidade hemodinâmica (AMIB/SBPT, VM 2025)
Minuto 60 — o destino
Ao fim da primeira hora, três decisões precisam estar tomadas e escritas: qual o diagnóstico de trabalho, qual o parâmetro que vai dizer se o tratamento funcionou, e para onde o paciente vai. Alta, observação, enfermaria ou terapia intensiva não são impressões — cada uma tem critério escrito.
Prescrição- Asma: considerar alta após resposta sustentada, função pulmonar em recuperação, ausência de sinais de gravidade e condições de tratamento em casa. Completar prednisona/prednisolona por 5–7 dias quando indicada, garantir tratamento contendo corticoide inalatório, técnica adequada, plano de ação e retorno em 2–7 dias. Conferir os critérios de alta do protocolo atualizado; uma medida isolada de saturação não decide.
- Asma, internação: SpO2 abaixo de 92% após o tratamento inicial com broncodilatador, ou pico de fluxo igual ou abaixo de 50% do previsto após tratamento pleno na emergência (SBPT, asma 2012)
- Asma, terapia intensiva: hipercapnia, acidose com pH abaixo de 7,30 ou hipoxemia; lactato elevado; hipotensão ou arritmia grave; persistência de sonolência, confusão, exaustão, cianose, silêncio respiratório ou pico de fluxo abaixo de 30% do previsto apesar do tratamento adequado (SBPT, asma 2012)
- Pneumonia: CURB-65 de 0 a 1 é candidato a tratamento ambulatorial; 2 pede considerar internação; 3 ou mais é tratamento hospitalar como pneumonia grave, com avaliação de terapia intensiva a partir de 4. SpO2 abaixo de 92% indica internação (SBPT, PAC 2018)
- Insuficiência cardíaca aguda: a estratificação admissional usa ureia e pressão sistólica — a mortalidade intra-hospitalar vai de 2,14% no perfil de baixo risco a 21,9% no de alto risco (escore ADHERE, SBC 2018)
Como saber se está funcionando
O bloco que separa quem prescreve de quem trata é este. Prescrever broncodilatador é fácil; dizer, vinte minutos depois, se aquilo funcionou e o que fazer se não funcionou é o trabalho. Cada parâmetro abaixo tem um prazo, porque parâmetro sem prazo não é reavaliação, é torcida.
Uma regra atravessa a tabela inteira: quando o parâmetro não melhora no prazo, existem apenas três explicações, e você precisa percorrer as três na ordem. A dose ou a técnica falharam. A gravidade exige um degrau a mais de suporte. Ou o diagnóstico está errado. A terceira é a mais frequente e a que menos se considera.
Esperado: Queda consistente, com tendência a ficar abaixo de 25 incursões por minuto; na insuficiência cardíaca, o alvo de descongestão é frequência respiratória abaixo de 22
Se não melhora: Confira antes a técnica: espaçador acoplado, número de jatos, nebulização com fluxo adequado. Se a técnica estava correta, escale o suporte e reabra o diferencial — frequência respiratória que não cai com broncodilatador sugere que o problema não é broncoespasmo
Esperado: Dentro do alvo do cenário, obtida com o menor fluxo possível e com tendência a permitir redução do fluxo
Se não melhora: Necessidade crescente de FiO2 para saturações decrescentes é assinatura de shunt: pense em edema, pneumonia extensa ou SDRA, não em obstrução. Saturação que não sobe com oxigênio em máscara também levanta intoxicação por monóxido e shunt intracardíaco
Esperado: O paciente volta a falar frases, a fúrcula para de afundar, o esternocleidomastóideo relaxa
Se não melhora: Esforço mantido com saturação boa não é sucesso — a saturação está sendo comprada com trabalho que o paciente não sustenta. É indicação de pressão positiva. Se já estiver em ventilação não invasiva, é indicação de via aérea definitiva
Esperado: Na obstrução, o reaparecimento de sibilos em tórax antes silencioso é melhora, porque significa retorno de fluxo. Na congestão, as crepitações regridem das ápices para as bases
Se não melhora: Silêncio persistente com esforço máximo é obstrução crítica: escale imediatamente. Crepitação que sobe apesar de diurético e vasodilatador indica descongestão insuficiente ou outro diagnóstico
Esperado: Melhora evidente da consciência dentro de 1 a 2 horas quando o rebaixamento era por hipercapnia
Se não melhora: Sonolência progressiva em paciente que respira rápido é narcose por gás carbônico ou fadiga — as duas terminam em parada respiratória. Intube. Agitação nova também conta: hipoxemia agita antes de sedar
Esperado: pH em ascensão, PaCO2 em queda, PaO2 dentro do alvo com a menor FiO2 possível
Se não melhora: pH que não sobe e PaCO2 que não cai após até 2 horas de ventilação não invasiva caracterizam falha, e a conduta escrita é intubação imediata. PaCO2 que sobe em crise asmática grave, quando deveria estar baixa, indica fadiga iminente
Esperado: Pico de fluxo ou VEF1 igual ou acima de 70% do previsto autoriza alta, junto com ausência de sinais de gravidade e SpO2 acima de 95%
Se não melhora: Pico de fluxo igual ou abaixo de 50% do previsto após tratamento pleno indica internação; abaixo de 30% com sinais de gravidade persistentes indica terapia intensiva
Esperado: Cerca de 1 litro nas primeiras 6 horas, ou 1,5 a 2,5 mL por quilo por hora
Se não melhora: Procure resistência ao diurético e corrija a causa: hiponatremia, hipotensão, hipoalbuminemia, uso crônico prévio de diurético, baixo débito, hipovolemia relativa ou insuficiência renal. Cada uma tem correção própria, e aumentar a dose sem identificar o motivo é repetir o erro em dose maior
Esperado: Ausência de ortopneia e de esforço respiratório em 24 horas; ausência de dispneia aos mínimos esforços em até 72 horas; SatO2 acima de 90% em ar ambiente; frequência cardíaca abaixo de 100; frequência respiratória abaixo de 22; pressão sistólica de 110 a 130 mmHg
Se não melhora: Necessidade prolongada de ventilação não invasiva obriga a reavaliar a intensidade da descongestão ou procurar fator agravante não identificado — a própria diretriz nomeia infecção respiratória, tromboembolismo pulmonar e broncoespasmo
Esperado: O diagnóstico de trabalho continua explicando todos os achados, inclusive os que não se encaixavam bem no início
Se não melhora: Refaça três perguntas. Existe uma segunda doença ativa — a combinação de DPOC com congestão é a mais comum? Existe causa fora do tórax, como acidose metabólica, anemia ou intoxicação? E existe algo que o exame de imagem inicial não podia mostrar, como tromboembolismo com radiografia normal? Chame ajuda antes de repetir a mesma prescrição
Onde o erro machuca
O dano: O paciente congesto que recebe expansão volêmica sobe a pressão de enchimento do ventrículo esquerdo, transuda mais líquido para o alvéolo e piora o shunt em minutos. A hipotensão do perfil frio-congesto atrai o soro justamente em quem menos o tolera, e a resposta é dessaturação progressiva com necessidade de intubação.
Como pegar a tempo: Antes de prescrever volume no dispneico, olhe congestão e perfusão separadamente. Turgência jugular, refluxo hepatojugular, terceira bulha, crepitações bilaterais e veia cava distendida ao ultrassom indicam congestão. Congestão com hipotensão é frio-congesto e pede inotrópico e vasodilatador com cautela, não soro.
O dano: A congestão pulmonar produz sibilo por edema de mucosa brônquica, e o tempo gasto com três séries de broncodilatador é tempo em que a pressão positiva e o nitrato não foram instalados. O beta-2 em dose alta ainda acrescenta taquicardia e hipocalemia a um coração que já está falhando.
Como pegar a tempo: Sibilo é achado, não diagnóstico. Some ao sibilo a instalação, a posição em que piora, a ausculta cardíaca e o basal do paciente. Na dúvida, o ultrassom com linhas B difusas e o peptídeo natriurético resolvem a separação em minutos — e nada impede iniciar broncodilatador e pressão positiva ao mesmo tempo enquanto a resposta chega.
O dano: FiO2 alta no portador de DPOC piora a relação ventilação-perfusão, desloca CO2 da hemoglobina e reduz o estímulo ventilatório, produzindo acidose respiratória e rebaixamento de consciência. Não é risco teórico: no atendimento pré-hospitalar, a mortalidade foi de 4% com oxigênio titulado e de 9% com oxigênio de alto fluxo.
Como pegar a tempo: Na DPOC com risco de hipercapnia, titule para 88–92% e reavalie gasometria e esforço. Oxigênio em excesso pode piorar CO2 por alterações de ventilação/perfusão e efeito Haldane, além de efeitos ventilatórios. Não aceitar hipoxemia grave nem impor FiO2 máxima de 40%; se necessário, escalar o suporte.
O dano: Cada hora de esforço respiratório máximo consome reserva muscular. O paciente que chegaria à VNI ainda compensado chega exausto, e a exaustão é justamente a condição em que a VNI falha e a intubação vira emergência, com paciente hipoxêmico, acidótico e sem reserva para a apneia da indução.
Como pegar a tempo: Na exacerbação de DPOC com acidose respiratória, considere VNI já com pH ≤7,35 e hipercapnia persistente apesar do tratamento inicial. No edema cardiogênico com desconforto importante, a pressão positiva também pode entrar cedo. Monitorize continuamente e não espere completar duas horas diante de deterioração.
O dano: É o erro simétrico do anterior e mata mais silenciosamente. A máscara mascara: o paciente segue hipoxêmico e hipercápnico sob pressão positiva enquanto a equipe interpreta a ausência de piora abrupta como estabilidade, até que a intubação aconteça em condição pior, com risco de perda de proteção de via aérea e broncoaspiração.
Como pegar a tempo: Marque o relógio. A janela é de 0,5 a 2 horas, com critérios objetivos de sucesso: frequência respiratória caindo, consciência melhorando, musculatura acessória cedendo, PaCO2 caindo. Espere sucesso em cerca de 75% dos hipercápnicos e apenas 50% dos hipoxêmicos — metade destes vai precisar de tubo, e é melhor que seja um tubo planejado.
O dano: O rótulo interrompe a investigação e é registrado no prontuário, de onde contamina todas as reavaliações seguintes. O tromboembolismo em mulher jovem em uso de anticoncepcional se apresenta com taquipneia, agitação, ausculta limpa e radiografia normal — exatamente a cena que o rótulo descreve. O paciente é liberado e retorna em choque, ou não retorna.
Como pegar a tempo: Duas travas. A saturação: alcalose respiratória por hiperventilação não derruba a SpO2, e valor abaixo de 95% em ar ambiente num adulto jovem derruba o rótulo. E a ordem: dispneia funcional é diagnóstico de exclusão, aplicável só depois de a hipótese vascular ter sido endereçada com probabilidade pré-teste e, quando indicado, D-dímero.
O dano: A radiografia normal é o achado esperado no tromboembolismo, não o que o afasta. Quando ela é usada como critério de exclusão, o paciente com hipoxemia inexplicada e pulmão limpo recebe alta ou é tratado como crise de ansiedade, e o êmbolo seguinte é o que produz o choque obstrutivo.
Como pegar a tempo: Use a radiografia para achar a outra doença, não para afastar esta. Hipoxemia desproporcional ao exame físico, com ausculta e radiografia limpas, é indicação de aplicar probabilidade pré-teste. Vale para o eletrocardiograma também: traçado normal é regra nos casos leves.
O dano: A diretriz brasileira de asma lista, entre os equívocos mais comuns dos serviços de urgência, exatamente estes: doses insuficientes de beta-2 de curta ação e de ipratrópio, retardo ou dose insuficiente de corticoide, e demora em iniciar oxigenoterapia nos graves. O resultado medido é recaída nas duas semanas seguintes à alta.
Como pegar a tempo: Corticoide na primeira hora, sempre que o quadro for agudo. Beta-2 em série de três doses a cada 20 minutos, com espaçador acoplado ou nebulização com fluxo adequado, e ipratrópio associado na crise grave. Confira a técnica em vez de presumir que a dose foi entregue.
O dano: A alta precoce sem checar saturação e pico de fluxo, sem prescrever prednisona por 5 a 10 dias, sem revisar a técnica inalatória e sem plano de ação escrito é apontada como uma das causas do excesso de recaídas nas primeiras duas semanas. O paciente volta pior, e parte dos óbitos por asma no país vem dessa alça.
Como pegar a tempo: Use os critérios escritos: sem sinais de gravidade, SpO2 acima de 95% e pico de fluxo ou VEF1 igual ou acima de 70% do previsto. Na saída, corticoide oral por 5 a 10 dias, corticoide inalatório iniciado ou revisado, técnica conferida, plano de ação por escrito e consulta em até 7 dias.
O que dizer ao paciente e à família
Falta de ar é a queixa em que a fala do médico tem efeito fisiológico mensurável: o paciente que entende o que está acontecendo respira mais devagar, e o que respira mais devagar melhora a mecânica. O oposto também é verdade — pressa, tom alarmado e ordens contraditórias aumentam a demanda ventilatória de quem já não dá conta dela.
Três princípios organizam o que dizer. Frases curtas, porque quem está dispneico não processa parágrafo. Nunca peça ao paciente que respire fundo ou que se acalme quando ele está em falência: ele não pode obedecer, e a impossibilidade de obedecer aumenta o pânico. E não prometa conforto imediato quando você vai colocar uma máscara apertada no rosto dele.
Vale ainda uma nota sobre o paciente que já foi rotulado antes. Muita gente chega ao pronto-socorro tendo ouvido, em outra consulta, que a falta de ar era emocional. Essa pessoa vai minimizar sintomas para não ser desacreditada de novo, e minimizar sintomas é exatamente o que atrasa o diagnóstico. Dizer que você vai investigar antes de concluir não é gentileza: é coleta de dados melhor.
Primeiro contato com quem está em fome de ar
“Seu Carlos, eu sou o médico. O senhor está com falta de ar e eu já estou tratando. Não precisa falar, eu pergunto e o senhor responde com a cabeça. Fique sentado assim mesmo, do jeito que está mais fácil. Eu não vou sair de perto.”
Não diga: Respire fundo. Se acalme. Fique tranquilo que não é nada. Pedir ao paciente uma ação que ele não consegue executar aumenta a angústia e não muda a mecânica respiratória.
Explicando a máscara de ventilação não invasiva a quem está em pânico
“Vou colocar uma máscara no seu rosto que empurra ar para dentro. Ela aperta e incomoda, isso é normal e não é sinal de que algo deu errado. Ela faz parte do trabalho de respirar por você, para os seus músculos descansarem. Os primeiros dois minutos são os piores. Eu fico aqui do lado e a gente ajusta junto.”
Não diga: Dizer que a máscara é confortável, ou colocá-la sem avisar. A intolerância que faz a VNI falhar costuma nascer nos primeiros minutos, e nascer de susto.
O paciente pede para tirar a máscara
“Eu entendo, é desconfortável mesmo. Vamos fazer assim: eu solto um pouco a alça e diminuo a pressão, e o senhor tenta mais cinco minutos comigo contando junto. Se em cinco minutos não estiver melhor, eu tiro e a gente pensa em outra coisa. Prometo que não vou deixar o senhor sofrendo sem falar comigo.”
Não diga: Insistir sem negociar, ou retirar de imediato sem plano. Também não se pode prometer que a máscara ficará confortável — combine tempo e ajuste, não conforto.
À família, quando a causa ainda não está definida
“Ainda não sei qual é a causa da falta de ar dele. Existem algumas possibilidades e algumas exigem tratamentos opostos, por isso eu preciso separar antes de tratar tudo de uma vez. Já comecei o que é seguro em qualquer dos casos: oxigênio, monitor e o exame do coração. Em cerca de uma hora eu devo ter uma resposta e volto para conversar com vocês.”
Não diga: Preencher a incerteza com um diagnóstico provisório dito como se fosse certeza. Dizer bronquite para depois dizer infarto destrói a confiança justamente no momento em que ela é necessária.
A ventilação não invasiva falhou e será preciso intubar
“A máscara ajudou, mas não foi suficiente. Os exames mostram que ele está se cansando. Agora vamos dormir ele e colocar um tubo para a máquina assumir a respiração por completo, enquanto o remédio faz efeito. É um procedimento que fazemos todos os dias aqui. Ele vai ficar sedado e não vai sentir dor. Eu volto assim que terminar.”
Não diga: Apresentar a intubação como fracasso, ou como decisão de última hora tomada às pressas. Também não se deve prometer quanto tempo ele ficará no tubo.
Ao paciente que ouviu antes que era ansiedade
“Eu ouvi o que a senhora disse, que já falaram que era emocional. Pode até ser que ansiedade tenha parte nisso, mas eu não vou começar por aí. Primeiro eu vou descartar as causas do pulmão e da circulação, porque são elas que exigem tratamento rápido. Se tudo estiver normal, aí a gente conversa sobre o resto, com calma e com um plano.”
Não diga: Repetir o rótulo antes de investigar, ou fazer o contrário e prometer que certamente há uma doença grave. A frase útil é a que devolve a ordem correta da investigação.
Alta da emergência após crise controlada
“O senhor melhorou e pode ir para casa, mas o tratamento não acabou hoje. Vai levar comprimido de corticoide por cinco dias, e é para tomar todos, mesmo se estiver bem. A bombinha preventiva continua todo dia, não só quando falta o ar. Volte imediatamente se a falta de ar voltar, se precisar da bombinha de alívio mais vezes do que o combinado, ou se não conseguir falar frases inteiras. E marque consulta em até sete dias.”
Não diga: Alta sem plano escrito e sem gatilho de retorno definido. Dizer apenas que volte se piorar não informa o que conta como piora.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Alvo baixo e titulado, com FiO2 explicitamente limitada
Na exacerbação de DPOC, o objetivo é PaO2 igual ou acima de 60 mmHg ou saturação igual ou acima de 90%, sem causar acidose respiratória, com a menor fração inspirada necessária, em geral entre 24 e 31%. Frações acima de 40% podem causar retenção de dióxido de carbono e acidose respiratória por hipoventilação central, e a gasometria deve ser repetida cerca de 20 minutos após iniciar o oxigênio.
AMB, SBPT e AMIB — Projeto Diretrizes: DPOC Exacerbação, 2012
Fluxo baixo e cautela desde o pré-hospitalar
No atendimento pré-hospitalar da exacerbação de DPOC, o oxigênio é oferecido com cautela apenas se a saturação estiver abaixo de 90%, a 1 a 3 litros por minuto, com o registro explícito de que há risco de piora da acidose respiratória e da hipercapnia com oxigênio em altos fluxos em pacientes graves ou muito graves.
Ministério da Saúde — Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, protocolo AC23
Alvo único acima de 90% na insuficiência cardíaca, com ajuste de fluxo no portador de DPOC
Na insuficiência cardíaca aguda, o suporte respiratório tem como alvo saturação acima de 90% e redução do trabalho respiratório; a oxigenoterapia está indicada em todos os pacientes com saturação abaixo de 90%, com 3 a 5 litros por minuto por cateter ou máscara, reduzidos para 1 a 2 litros por minuto nos portadores de DPOC, para evitar a indução de hipercapnia.
SBC — Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Crônica e Aguda, 2018
Faixa fechada de 92 a 96% no paciente sob ventilação mecânica
Nas orientações mais recentes de ventilação mecânica, o ajuste conjunto de PEEP e fração inspirada de oxigênio deve mirar saturação entre 92 e 96%, com a menor fração inspirada possível, incluindo todas as categorias de gravidade da síndrome do desconforto respiratório agudo.
AMIB e SBPT — Orientações práticas de ventilação mecânica baseadas em evidências, J Bras Pneumol 2025
Na DPOC com risco hipercápnico, titular inicialmente para 88–92%, sem negar oxigênio em hipoxemia grave nem estabelecer teto fixo de FiO2. Rever clínica e gasometria em intervalo curto e após ajustes relevantes. Hipercapnia pode deteriorar rapidamente: pH, consciência e esforço orientam suporte, sem esperar um prazo fixo. Na asma adulta, o GINA 2026 usa 92–95%; em outras síndromes, aplicar a meta específica.
Ventilação não invasiva como opção, com janela curta de avaliação
Na pneumonia adquirida na comunidade grave com insuficiência respiratória hipoxêmica, a ventilação não invasiva pode ser utilizada, especialmente nos portadores concomitantes de DPOC, observando as metas de sucesso de 0,5 a 2 horas e evitando retardar a intubação em caso de insucesso. Espera-se sucesso em cerca de 50% dos pacientes hipoxêmicos, contra 75% dos hipercápnicos.
AMIB e SBPT — Diretrizes Brasileiras de Ventilação Mecânica, 2013
Cânula nasal de alto fluxo como primeira opção na hipoxemia leve a moderada
A cânula nasal de alto fluxo pode ser usada como primeira opção de suporte respiratório para hipoxemia leve a moderada com estabilidade hemodinâmica, e após a extubação, isoladamente ou associada à ventilação não invasiva, em pacientes de alto risco. Na insuficiência respiratória associada à COVID-19, entretanto, a ventilação não invasiva, especialmente o CPAP, mostrou-se superior à cânula de alto fluxo para evitar a intubação.
AMIB e SBPT — Orientações práticas de ventilação mecânica baseadas em evidências, J Bras Pneumol 2025
Restrição de ambos na hipoxemia mais grave
Na síndrome do desconforto respiratório agudo, a ventilação não invasiva pode ser realizada nos casos leves a moderados em locais selecionados com monitoramento rigoroso para evitar atraso na intubação, e não deve ser usada nos casos graves com relação PaO2/FiO2 abaixo de 100. A diretriz de 2013 já recomendava evitá-la na forma grave pela alta taxa de falência respiratória.
Orientações práticas de ventilação mecânica, 2025, e Diretrizes Brasileiras de Ventilação Mecânica, 2013
A divergência é de disponibilidade e de gravidade, não de princípio — e o próprio documento de 2025 registra que muitas unidades de terapia intensiva brasileiras não têm acesso fácil à cânula de alto fluxo. Decida assim. Se o componente hipercápnico existe, com pH baixo e PaCO2 alta, a pressão positiva com dois níveis é o que corrige ventilação, e a cânula de alto fluxo não faz esse trabalho. Se a falha é puramente hipoxêmica, leve a moderada, com paciente estável e cooperativo, a cânula de alto fluxo é razoável e costuma ser mais bem tolerada. Se a hipoxemia é grave, com relação PaO2/FiO2 abaixo de 100, nenhuma das duas é a resposta, e insistir nelas é comprar o pior cenário de intubação. E qualquer que seja a escolha, o que decide o desfecho é o mesmo: a janela de reavaliação de 0,5 a 2 horas, com critérios objetivos, e a disposição de intubar quando eles não são cumpridos.
Uso rotineiro não recomendado
Os opioides aliviam ansiedade e dispneia, mas o uso rotineiro não é recomendado devido a riscos de efeitos adversos como náusea, hipotensão, bradicardia e depressão respiratória, além de controvérsias a respeito de maior risco de mortalidade com seu uso.
SBC — Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Crônica e Aguda, 2018
Prevista no protocolo pré-hospitalar, com dose titulada e restrições explícitas
No protocolo de edema agudo de pulmão, com pressão sistólica acima de 90 mmHg, administra-se sulfato de morfina 2 mg endovenosos em infusão lenta em 3 minutos, repetíveis a cada 5 minutos até o máximo de 20 mg, monitorizando frequência cardíaca, pressão e nível de consciência. Deve ser evitada na suspeita de hemorragia intracraniana, na asma, na pneumonia crônica e no paciente inconsciente, e está contraindicada com pressão sistólica abaixo de 90 mmHg.
Ministério da Saúde — Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, protocolo AC24
Repare que os dois documentos falam de cenários diferentes e o mais recente é mais restritivo. O protocolo pré-hospitalar foi escrito para a ambulância, onde nitroglicerina em bomba e ventilação não invasiva podem não existir, e onde a morfina é uma das poucas ferramentas disponíveis para reduzir a demanda ventilatória e a pré-carga. A diretriz de cardiologia foi escrita para a sala de emergência, onde vasodilatador titulado, diurético endovenoso e pressão positiva estão à mão. Decida pela disponibilidade e pela reversibilidade: se você tem nitrato e VNI, use-os primeiro, porque tratam o mecanismo e não deprimem o drive respiratório. Se a única ferramenta é a morfina, ela é usável dentro das restrições escritas — pressão sistólica acima de 90 mmHg, dose fracionada, monitorização contínua e nunca em quem está sonolento ou tem componente obstrutivo. E em qualquer cenário, morfina não é analgésico de rotina para dispneia: quando a dispneia é o sintoma, o que a alivia é corrigir a congestão.
Dose por peso na asma, iniciada na primeira hora
No manejo da exacerbação asmática, prednisona ou prednisolona em 1 mg por quilo em adultos, administrada ainda na primeira hora; por via endovenosa, hidrocortisona 2 a 3 mg por quilo a cada 4 horas ou metilprednisolona 60 a 125 mg a cada 6 horas. A via oral e a endovenosa têm efeito clínico equivalente. Na alta, prednisona ou prednisolona por 5 a 10 dias em adultos.
SBPT — Diretrizes para o Manejo da Asma, 2012
Dose fixa com teto na asma, em curso curto
Uma dose de no máximo 40 a 50 mg por dia por 5 a 7 dias está indicada para pacientes sem melhora do controle com beta-2 de curta ação após 48 horas, com piora da função pulmonar ou com exacerbação mais grave. Não é necessário reduzir a dose quando a duração do tratamento for inferior a 2 semanas.
SBPT — Recomendações para o manejo da asma, 2020
Faixa e teto de duração na DPOC, com preferência pela via oral
Na exacerbação de DPOC, corticoterapia oral com prednisona na dose de 30 a 60 mg por dia, ou doses equivalentes de metilprednisolona, por no máximo 14 dias. A maior parte dos estudos avaliou 30 a 60 mg por dia por até 2 semanas, e não há evidência de que incrementos de dose ou de duração resultem em maior eficácia, mas aumentam o risco de hiperglicemia e fraqueza muscular.
AMB, SBPT e AMIB — Projeto Diretrizes: DPOC Exacerbação, 2012
As três posições concordam em duas coisas que resolvem a maior parte das dúvidas: o corticoide entra cedo e a via oral equivale à endovenosa em quem consegue engolir. A divergência real é sobre o teto de dose e é uma divergência de data — o documento de 2020 é oito anos mais recente que o de 2012 e traz um limite absoluto onde o anterior trazia uma dose por peso, o que em adulto de 80 quilos produz 80 mg contra 40 a 50 mg. Decida pelo tamanho do dano de cada lado: dose maior por poucos dias acrescenta hiperglicemia, insônia e agitação, todos manejáveis; dose insuficiente prolonga a crise e é apontada como causa de recaída. Na prática, o critério que mais muda desfecho não é o número, é a via e o prazo — quem não consegue engolir ou está em crise muito grave recebe endovenoso, e todo mundo recebe na primeira hora. E qualquer que seja a dose escolhida, curso inferior a duas semanas dispensa desmame nas três posições.
O raciocínio, em voz alta
Volte ao seu Carlos, 64 anos, 21h40. Sentado em tripé, falando por palavras, frequência respiratória 34, saturação 86% em ar ambiente, frequência cardíaca 122, pressão 178 por 104, temperatura 36,4 °C. Ex-tabagista de 40 anos-maço, hipertenso, usa uma bombinha não identificada. Ausculta com sibilos difusos e crepitações nas bases. Acompanhe o raciocínio passo a passo.
o que penso agora
Antes de qualquer hipótese, classifico o trabalho respiratório: fala por palavras, tiragem de fúrcula, tripé, frequência 34. Isso é grau 3 na escala do bloco anterior — esforço descompensado. Tenho minutos, não uma hora. Duas hipóteses dominam: exacerbação de DPOC e edema agudo de pulmão. E o mais provável, num ex-fumante hipertenso de 64 anos, é que as duas coisas estejam acontecendo.
o que faço sem decidir
Mantenho posição confortável, monitorização, acesso e ECG, enquanto inicio oxigênio controlado para SpO2 88–92% pela possibilidade de insuficiência hipercápnica. A oferta deve ser suficiente para atingir o alvo; se o cateter não resolver, mudo o dispositivo e o suporte. Avalio precocemente VNI e a possibilidade de intubação, sem aguardar radiografia ou biomarcadores.
o que peço
Gasometria arterial — indicada porque a saturação está bem abaixo de 92%. Radiografia de tórax. Peptídeo natriurético, porque a dúvida é exatamente congestão contra broncoespasmo. E pego o transdutor: em dois minutos consigo deslizamento pleural, linhas B e veia cava.
achado
O ultrassom mostra linhas B difusas e bilaterais, com predomínio nas bases e presentes também nos campos anteriores, veia cava inferior distendida e pouco colapsável, deslizamento pleural presente nos dois lados. O eletrocardiograma mostra ritmo sinusal a 120, sem supradesnivelamento, com sobrecarga de ventrículo esquerdo.
como a resposta muda o que penso
Linhas B difusas com veia cava distendida em paciente hipertenso, ortopneico, que dormiu sentado nas últimas duas noites, deslocam o peso para congestão. O sibilo passa a ser explicado por edema de mucosa brônquica, não por broncoespasmo primário — a chamada asma cardíaca. Não abandono a DPOC: mantenho o alvo baixo de oxigênio e vou associar broncodilatador, porque a exacerbação pode ser o fator que descompensou. Mas o eixo do tratamento muda.
conduta
Perfil quente-congesto: congestão sem sinais de baixo débito, com pressão de 178 por 104 e extremidades frias por vasoconstrição, não por choque. Início nitroglicerina endovenosa a 10 mcg por minuto, com incrementos de 10 a 20 mcg a cada 15 minutos. Furosemida 40 mg endovenosos em bólus. Salbutamol com espaçador, 4 jatos, porque o componente obstrutivo pode existir. E instalo ventilação não invasiva agora, com BiPAP, EPAP 6 e IPAP 12, marcando o relógio.
achado
A gasometria colhida antes da VNI volta com pH 7,29, PaCO2 54 mmHg, PaO2 52 mmHg, bicarbonato 25 mEq/L, lactato 2,1 mmol/L. O peptídeo natriurético volta com NT-proBNP de 4.800 pg/mL.
como a resposta muda o que penso
NT-proBNP de 4.800 pg/mL apoia fortemente a hipótese cardíaca no conjunto clínico, mas não a confirma sozinho nem exclui doença concomitante. pH 7,29 com PaCO2 54 e bicarbonato 25 indica acidose respiratória predominantemente aguda; valores basais e distúrbios mistos ajudam a definir a parcela crônica. A VNI já se justifica pelo quadro clínico e pela acidose. Mantenho titulação do oxigênio e vigilância da consciência e do esforço.
reavaliação com hora marcada
Trinta minutos depois da VNI: frequência respiratória caiu de 34 para 24, o paciente fala frases curtas em vez de palavras, a fúrcula não afunda mais, a saturação está em 91% com FiO2 baixa e a pressão caiu para 142 por 88 com o nitrato. Gasometria de controle: pH 7,35, PaCO2 46 mmHg, PaO2 74 mmHg. Isso preenche todos os critérios escritos de sucesso da ventilação não invasiva.
o que faria se não tivesse melhorado
A deterioração da consciência, a exaustão ou a hipoxemia refratária exigiriam intubação sem esperar duas horas. Se não houver melhora inicial, confira máscara, vazamentos, ajustes, sincronia e diagnóstico enquanto prepara o escalonamento. Investigue pneumonia, embolia, arritmia ou isquemia concomitantes em paralelo; essa investigação não pode atrasar uma via aérea necessária.
destino
Unidade de terapia intensiva ou unidade coronariana, com ureia e pressão sistólica anotadas para a estratificação de risco, ecocardiograma nas primeiras 48 horas, balanço hídrico de 6 em 6 horas e alvos de descongestão definidos: ausência de ortopneia em 24 horas, ausência de dispneia aos mínimos esforços em 72 horas, diurese de cerca de 1 litro nas primeiras 6 horas. E uma pergunta anotada no prontuário: o que descompensou este paciente hoje?
Faça você
Terça-feira, 14h20. Mulher de 33 anos chega andando, ansiosa, dizendo que não consegue respirar direito há cerca de três horas. Conta formigamento nas mãos e ao redor da boca e sensação de aperto no peito. Está falando frases completas. Frequência respiratória 28, frequência cardíaca 118, pressão 124 por 76, temperatura 36,6 °C, saturação 93% em ar ambiente. Ausculta pulmonar limpa e simétrica, sem sibilos e sem crepitações. Bulhas rítmicas, sem sopros. Panturrilhas sem edema e sem assimetria. A enfermeira anota na ficha, de boa-fé, uma suspeita de crise de ansiedade. No histórico: usa anticoncepcional oral combinado; fez cirurgia de reconstrução de ligamento do joelho há 18 dias e ficou com imobilizador por duas semanas. Radiografia de tórax sem alterações. Eletrocardiograma com taquicardia sinusal, sem outras alterações.
classificação do trabalho respiratório
Fala frases completas, sem musculatura acessória, sem tiragem. Grau 1 na escala: dispneia sem esforço visível. Isso significa que existe tempo para investigar antes de tratar — mas não significa que o quadro seja leve, porque a gravidade da causa e o esforço no momento são coisas diferentes.
o dado que não fecha
Saturação de 93% em ar ambiente numa mulher de 33 anos, com pulmão limpo à ausculta e radiografia normal. Hiperventilação por ansiedade produz alcalose respiratória e não derruba a saturação. Existe hipoxemia desproporcional à pobreza do exame físico, que é a assinatura descrita no bloco de mecanismo para falha de perfusão — espaço morto.
os dados de risco
Anticoncepcional oral combinado, cirurgia ortopédica há 18 dias e imobilização de membro inferior por duas semanas. Três fatores de risco para tromboembolismo venoso na mesma paciente. O formigamento perioral e das mãos é real e é explicado pela hipocapnia da hiperventilação — mas hiperventilação é consequência, não diagnóstico.
conduta
— sua vez —
Ver como fecharíamos
Não rotule como ansiedade e não libere. A conduta é aplicar probabilidade pré-teste antes de qualquer outra coisa. Passo 1: oxigênio suplementar titulado para saturação acima de 94%, acesso venoso, monitorização — medidas que não dependem do diagnóstico e não pioram nenhuma hipótese. Passo 2: aplicar o escore de Wells ou o Genebra revisado, cujo detalhamento está no capítulo de dor torácica desta apostila. Com anticoncepcional, cirurgia recente e imobilização de membro, mais taquicardia acima de 100, esta paciente não fica na faixa de probabilidade baixa, e a regra PERC não pode ser usada para liberá-la, porque ela tem itens presentes — frequência acima de 100, saturação abaixo de 95%, cirurgia nas últimas quatro semanas. Passo 3: na leitura em dois níveis, se o tromboembolismo pulmonar for improvável (Wells até 4), dosar D-dímero, com corte de 500 microgramas por litro — sem ajuste por idade, já que ela tem menos de 50 anos: abaixo do corte, a embolia está afastada e se procura outro diagnóstico; acima, vai para a imagem. Se for provável (Wells acima de 4), o exame é angiotomografia de tórax, direto, sem D-dímero. Passo 4: se a angiotomografia confirmar, anticoagulação plena conforme o capítulo de dor torácica; em probabilidade média ou alta sem risco de sangramento, a primeira dose pode preceder a imagem. E o passo que fecha o raciocínio: dispneia funcional continua sendo um diagnóstico possível nesta paciente, mas exige avaliação apropriada das causas orgânicas, incluindo a rota de investigação de embolia indicada pela probabilidade; angiotomografia não é obrigatória quando uma estratégia validada com D-dímero exclui embolia. O rótulo dado cedo demais é o que transforma um tromboembolismo tratável numa alta hospitalar.
A janela de decisão da ventilação não invasiva é de 0,5 a 2 horas, e os critérios de sucesso são objetivos: queda da frequência respiratória, aumento do volume corrente, melhora do nível de consciência, redução do uso de musculatura acessória, aumento da PaO2 ou SpO2 e queda da PaCO2. Nada disso ocorreu — o pH praticamente não subiu, a PaCO2 praticamente não caiu, o esforço se mantém e a consciência piorou. Em portador de DPOC com rebaixamento por hipercapnia, a melhora da consciência deve ser evidente dentro de 1 a 2 horas. A recomendação é explícita: pacientes que deterioram ou não melhoram devem ser imediatamente intubados, pelo risco de perda de proteção da via aérea inferior e parada respiratória. Prolongar a máscara, retirá-la para cateter, acrescentar aminofilina — que não é tratamento inicial — ou sedar para melhorar tolerância apenas atrasam a intubação e a tornam mais perigosa.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Reavalie o caso com DPOC e congestão: escolha alvo de oxigênio, interprete a gasometria e explique o que faria se a consciência piorasse após 15 minutos de VNI.
Em 30 dias
Simule três dispneias com ausculta pouco expressiva: embolia, acidose metabólica e fadiga extrema. Diga qual achado distingue cada uma e como evitar um tratamento inadequado.
Agora atenda
Agora atenda: homem de 71 anos, trazido pela esposa ao pronto-socorro às 3h da manhã por falta de ar que começou de madrugada e piorou deitado. Ex-fumante, portador de DPOC em uso de bombinhas, hipertenso e diabético. Está sentado, fala por palavras, respira 32 vezes por minuto, satura 84% em ar ambiente, frequência cardíaca 128 irregular, pressão 156 por 92. Ausculta com sibilos difusos e crepitações bibasais. A esposa diz que ele parou de tomar os remédios há uma semana porque acabaram. Separe antes de tratar: defina o alvo de saturação, decida o que entra na primeira meia hora, indique ou não a ventilação não invasiva com o prazo de reavaliação, e diga qual parâmetro você vai usar para saber se funcionou.
