Clínica MédicaSíndromes do Paciente na Emergência

Síncope no pronto-socorro

O paciente acorda inteiro, o exame é normal e o eletrocardiograma é quase normal. A pergunta deixa de ser "por que desmaiou" e passa a ser "esse desmaio pode ser a primeira vez de algo que mata na semana que vem". Este capítulo é sobre a decisão de destino.

Fontes deste capítulo

TelessaúdeRS-UFRGS — Protocolos de encaminhamento para Neurologia Adulto (publicados ad referendum conforme resolução CIB/RS 764/2014). Elaborado em 03 de fevereiro de 2016, última atualização em 06 de maio de 2020

Ministério da Saúde — Protocolos de Suporte Avançado de Vida do SAMU 192. Brasília

Ministério da Saúde — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) 2024. Brasília, 2024

Conselho Nacional de Trânsito — Resolução Contran nº 927, de 28 de março de 2022, e seus Anexos V, VII e VIII (Diário Oficial da União de 01/04/2022, edição 63, seção 1, página 113)

Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba — Protocolos de Encaminhamento, volume 15: Problemas Neurológicos (2022)

01

Responda antes de ler

Mulher de 28 anos chega ao pronto atendimento depois de desmaiar em pé, numa fila, com calor. Recuperou-se em segundos, está orientada, sem trauma, sem déficit focal, sem cefaleia e com exame neurológico normal. O preceptor pergunta o que você vai solicitar. Você responde que vai pedir eletrocardiograma de 12 derivações e glicemia capilar, e ele questiona por que não pedir também tomografia de crânio, já que houve perda de consciência. Qual é a justificativa correta para não pedir a tomografia neste caso?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira, 10h20, pronto-socorro de um hospital municipal de porte médio. A ambulância encosta e o socorrista entra empurrando a maca com uma pressa que não combina com o que está em cima dela: um homem sentado, acordado, com os dois pés balançando na lateral, pedindo desculpa pelo transtorno.

Ele se chama Divino Rocha, tem 61 anos, é vigilante noturno aposentado por tempo de contribuição e passou mal na fila da padaria. O socorrista passa o caso em pé, já de saída, porque a próxima ocorrência está no rádio: chamado de desmaio em via pública, encontrado no chão consciente, pressão 132 por 84 no local, glicemia capilar 118, sem trauma aparente, recusou colar cervical, quis ir embora andando.

No exame, você não encontra nada. Ele está corado, orientado, sem dor, sem falta de ar. A ausculta cardíaca tem duas bulhas e nenhum sopro que você consiga ouvir com o barulho do corredor. Pulmões limpos. Pupilas iguais. Força e sensibilidade preservadas nos quatro membros. Não há corte na língua, não há hematoma, não há confusão. A pressão que você mede é 128 por 80, deitado. A frequência é 62. A saturação é 97% em ar ambiente.

Esse é o problema do capítulo inteiro, e ele aparece já no primeiro minuto: o paciente que desmaia chega normal. A doença que o derrubou, se existir, terminou antes da ambulância. O corpo em cima da maca não tem quase nada a dizer, e o exame físico, que em quase todo o resto da medicina de emergência é o que aperta o diagnóstico, aqui apenas confirma que a pessoa acordou.

O que tem a dizer é uma senhora de uns cinquenta anos, parada a três metros da maca, com uma sacola de pão na mão. Ela não é parente. Estava na fila atrás dele. Veio na ambulância porque o socorrista perguntou quem tinha visto e ninguém mais se ofereceu. Ela olha para o relógio duas vezes enquanto você examina, e vai embora assim que você parar de olhar para ela — porque ninguém a chamou, e porque ela já contou o que sabia para o socorrista, que anotou em duas linhas e foi para a próxima ocorrência.

Ela viu Divino de costas, viu ele se virar para pegar a senha, viu ele cair. Sabe se ele levou as mãos à frente ou desabou de cara. Sabe se ficou pálido antes ou depois. Sabe se tremeu, e por quanto tempo, e se aquilo pareceu mais um tremor ou um enrijecimento. Sabe se ele falou coisa com coisa assim que abriu os olhos ou se demorou minutos para saber onde estava. Nenhuma dessas informações está no corpo do paciente, e nenhuma delas você vai conseguir de volta se ela sair pela porta.

Divino, por sua vez, tem certeza de duas coisas. A primeira é que foi fraqueza, porque saiu de casa sem café. A segunda é que quer ir embora, porque a esposa está sozinha e ele nunca deu trabalho a hospital nenhum. Ele conta, quando você pergunta, que isso já aconteceu outra vez, uns quatro meses atrás, dentro do ônibus, e que ninguém deu importância. Toma losartana e hidroclorotiazida há oito anos. O último eletrocardiograma que ele lembra de ter feito foi para uma cirurgia de hérnia, em 2019.

Você tem, portanto, um paciente normal, uma testemunha de saída, um episódio anterior que ninguém investigou e um relógio correndo. A decisão que se pede não é o diagnóstico da causa do desmaio — na maioria das vezes ela não sai hoje, e não precisa sair hoje. A decisão que se pede é onde esse homem vai dormir e o que ele leva escrito na mão. Este capítulo é sobre como se toma essa decisão quando o exame é normal.

03

Quem adoece disso

Síncope é frequente e desproporcionalmente cara. A única coorte brasileira publicada com números abertos que sustentam esse capítulo vem da emergência do Instituto de Cardiologia do Rio Grande do Sul: em 2011, foram 46.476 atendimentos, dos quais 216 casos de síncope foram analisados, o que dá 0,5% da porta. Parece pouco, até que se olhe o que acontece com esses 0,5%: 39% deles foram internados. Nenhuma outra queixa de volume comparável interna dois em cada cinco.

A distribuição de causas naquela série é a informação que mais muda o modo de pensar do interno. A causa mais comum foi a vasovagal, com 35,2%. A segunda mais comum foi nenhuma: 38,9% dos pacientes saíram do atendimento sem etiologia definida. Causa cardíaca apareceu em 18% e hipotensão postural em 2,8%; as demais causas respondem pelo restante. Traduzindo para o plantão: a hipótese mais provável é a benigna, a segunda hipótese mais provável é a incerteza, e a terceira é a que mata. Trabalhar com esse trio, e não com um diagnóstico único, é o que a estratificação de risco faz.

Dentro dos 18% de causa cardíaca, os autores contam 17 bradiarritmias, 13 taquiarritmias, três cardiopatias estruturais, duas disfunções de marca-passo, duas síndromes coronarianas agudas e duas valvulopatias — 39 casos ao todo, e as arritmias respondem por 30 deles, cerca de três quartos. Isso importa porque a arritmia é intermitente por definição: ela não está acontecendo enquanto você examina, e o eletrocardiograma de repouso pode ser a única janela que você terá para vê-la. Entre os pacientes internados, 28,2% acabaram recebendo marca-passo ou desfibrilador definitivo, o que equivale a cerca de 24 pessoas, uma em cada nove da coorte inteira.

Três ressalvas honestas sobre esses números, porque um dado mal enquadrado vira erro de calibração. A primeira é que o serviço estudado é um hospital exclusivamente cardiológico: a proporção de causa cardíaca ali é maior do que seria numa unidade de pronto atendimento de bairro, e a proporção de vasovagal, menor. A segunda é que o registro usou um único código por atendimento, de modo que quem chegou desmaiado e saiu com estenose aórtica anotada não entrou na conta de síncope — a série subestima justamente os casos mais graves. A terceira é que se trata de uma cidade e de um ano; não existe estimativa nacional de atendimentos por síncope no Brasil com a qual comparar.

Há ainda uma causa que só é comum aqui e que quase nunca aparece nos textos importados. A diretriz brasileira de dispositivos implantáveis, ao listar o que provoca bloqueio atrioventricular no nosso meio, coloca a miocardite crônica da doença de Chagas entre as causas infecciosas de destaque. O protocolo do Ministério da Saúde para a doença de Chagas registra a síncope entre as manifestações da forma cardíaca, ao lado de palpitação, tontura, lipotimia e dispneia, e afirma que a morte súbita responde por 55% a 65% dos óbitos entre os portadores de cardiopatia chagásica. Um homem de 50 anos vindo do norte de Minas ou do sertão baiano, com síncope e bloqueio de ramo direito no eletrocardiograma, é um caso brasileiro de livro — e é exatamente o caso que um algoritmo estrangeiro classifica como "síncope inexplicada" sem levantar a hipótese.

04

Por que acontece o que acontece

Síncope tem uma definição estreita, e a estreiteza é útil. É a perda transitória da consciência causada por hipoperfusão cerebral global, de instalação rápida, curta duração e recuperação espontânea e completa. Cada pedaço dessa frase exclui alguma coisa: "hipoperfusão global" tira o acidente vascular cerebral e a crise convulsiva, que são falhas locais ou elétricas, não de fluxo; "transitória e com recuperação completa" tira o coma e a intoxicação; "espontânea" tira a hipoglicemia, que só melhora quando alguém dá glicose.

O cérebro adulto tolera muito pouco tempo sem fluxo. Bastam poucos segundos de interrupção do débito para apagar a consciência, e a recuperação é igualmente rápida quando o fluxo volta — é por isso que a síncope verdadeira dura segundos, não minutos, e é por isso que quem fica dez minutos apagado provavelmente não teve síncope. Toda a fisiopatologia deste capítulo é, no fundo, um jeito de perguntar por onde o débito cardíaco despencou.

As três alavancas que derrubam o débito

O débito cardíaco é o produto da frequência pelo volume ejetado a cada batimento. Só existem três maneiras de fazê-lo cair a ponto de apagar alguém, e as três correspondem a três famílias de causa que se comportam de modo diferente à beira do leito.

A primeira é o retorno venoso: o sangue não volta ao coração. É o que acontece na desidratação, na hemorragia, na vasodilatação por calor ou por medicamento, e no represamento venoso de quem fica muito tempo em pé e parado. O coração está perfeito e bate rápido tentando compensar, mas bombeia pouco porque recebe pouco.

A segunda é a frequência e o ritmo: o coração bate devagar demais ou depressa demais para encher. Abaixo de mais ou menos 40 batimentos por minuto, o volume por batimento não consegue compensar; acima de 180 a 200, o ventrículo não tem tempo diastólico para encher, e o débito cai mesmo com a bomba íntegra. As duas pontas produzem exatamente o mesmo desmaio.

A terceira é a obstrução ao fluxo: o sangue chega e o coração aperta, mas a saída está fechada. Estenose aórtica grave, cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva, mixoma atrial, embolia pulmonar volumosa. A marca dessa família é o gatilho: obstrução fixa não incomoda em repouso e mata no esforço, porque no esforço a musculatura periférica dilata e o coração não consegue aumentar o débito para acompanhar.

O reflexo: por que a síncope mais comum avisa antes

A síncope vasovagal é um erro de regulação, não de estrutura. Um estímulo qualquer — dor, medo, visão de sangue, punção venosa, calor, muito tempo em pé — dispara uma resposta autonômica desproporcional: o tônus vagal aumenta e o simpático se retira. O resultado é bradicardia, vasodilatação, ou os dois, e o débito cai.

O detalhe pedagógico é o tempo. Essa cascata leva dezenas de segundos para se instalar, e enquanto ela se instala o paciente já está mal perfundido, mas ainda consciente. Daí os pródromos: calor subindo pelo corpo, suor frio, náusea, escurecimento da visão de fora para dentro, zumbido, sensação de que "vai apagar". O pródromo não é um detalhe simpático da história — é a assinatura temporal de um mecanismo lento, e é a razão pela qual quem tem pródromo longo quase sempre tem doença benigna.

A síncope situacional é a mesma via com um gatilho mecânico identificável: tosse, espirro, esforço evacuatório, deglutição, e o clássico desmaio pós-miccional do homem mais velho que levanta de madrugada para urinar. O protocolo do TelessaúdeRS trata essas três características — postura ortostática prolongada, gatilho situacional definido e pródromo típico com sudorese, calor e escurecimento visual — como as marcas da síncope vasovagal que, sozinhas, dispensam avaliação especializada.

Uma variante vale por si: a hipersensibilidade do seio carotídeo, em que a compressão do pescoço — girar a cabeça, fazer a barba, gola apertada — dispara pausa ou hipotensão. A diretriz brasileira de dispositivos define o achado diagnóstico como pausa maior que 3 segundos e/ou queda expressiva da pressão à massagem do seio carotídeo, na ausência de fármacos que deprimam a condução.

A arritmia: por que a que mata não avisa

Na arritmia, não há cascata. O ritmo muda de um batimento para o outro, o débito some junto, e o cérebro apaga antes que qualquer sensação chegue à consciência. Por isso a síncope arrítmica é tipicamente sem pródromo e sem aviso: o paciente conta que "estava conversando e acordou no chão", e quem viu conta que ele caiu duro, sem se proteger, muitas vezes machucando o rosto.

O corolário prático é desconfortável: a ausência de sintoma é o sintoma. Numa medicina em que se aprende a valorizar o que o paciente descreve, aqui é o vazio da descrição que carrega o risco. Um relato de dois segundos entre "estava bem" e "acordei no chão" é mais preocupante do que um relato rico de cinco minutos de mal-estar.

Existe uma exceção que ajuda a lembrar do mecanismo: quando a arritmia é uma taquicardia sustentada e não uma pausa, o paciente pode sentir palpitação imediatamente antes de apagar. Palpitação que precede a síncope não é um pródromo tranquilizador — é o oposto, é o registro consciente da arritmia que causou o evento.

Como a arritmia é intermitente, ela quase nunca está presente quando você examina. O que o eletrocardiograma de repouso pode mostrar não é a arritmia, e sim o substrato dela: um sistema de condução doente, um intervalo de repolarização anormal, uma via acessória, uma cicatriz de infarto. Reconhecer substrato num traçado que não tem arritmia é a habilidade central deste capítulo.

A ortostase: quando levantar é o esforço

Ao ficar em pé, cerca de meio litro de sangue se desloca para o território venoso abaixo do diafragma. Em quem regula bem, os barorreceptores percebem a queda de pressão em um ou dois batimentos e respondem com taquicardia e vasoconstrição, e a pressão mal oscila. A hipotensão ortostática é a falha desse arco, e ela tem dois motivos possíveis, com condutas opostas.

O primeiro é o volume: não há sangue suficiente para redistribuir. Desidratação, diarreia, uso de diurético, hemorragia digestiva silenciosa. A pista é a taquicardia que acompanha a queda de pressão — o arco reflexo está funcionando, só não há o que redistribuir.

O segundo é o arco: o sistema nervoso autônomo não responde. Neuropatia diabética, doença de Parkinson, idade avançada, e sobretudo medicamento. A pista é a queda de pressão sem aumento proporcional da frequência. Aqui, dar volume resolve pouco; o que muda é revisar a prescrição.

O limiar operacional é uma queda de pelo menos 20 mmHg na pressão sistólica e/ou de pelo menos 10 mmHg na diastólica ao passar de deitado para em pé. Num paciente que estava 130 por 80 deitado, isso significa cair para 110 por 70 ou menos — um valor que, isolado, muitas equipes leriam como pressão normal. É por isso que a medida vale como diferença, não como número absoluto.

Os abalos que não são convulsão

Quando o córtex fica alguns segundos sem perfusão, ele libera atividade motora involuntária. O resultado são abalos musculares breves, assimétricos, em geral de poucos segundos e começando depois que a pessoa já caiu. Isso é síncope convulsiva, e é comum: a maioria das testemunhas, se perguntada com clareza, descreve algum tipo de tremor.

O quadro do TelessaúdeRS que separa uma coisa da outra é curto e memorizável. Sugerem crise convulsiva: mordedura de língua, desvio persistente da cabeça para um lado durante o evento, posturas não usuais de tronco ou membros, contração muscular prolongada de membros, confusão mental prolongada depois, e não lembrar de comportamentos anormais que outra pessoa testemunhou. O mesmo quadro adverte, entre parênteses, que pacientes com síncope podem apresentar abalos musculares não prolongados.

A diferença que mais decide na prática é o depois. Na síncope, o paciente abre os olhos e sabe quem é, onde está e o que aconteceu, em segundos. Na crise, há um período pós-ictal de confusão, sonolência ou agitação que dura minutos e que a testemunha descreve como "ele demorou para voltar". Perguntar quanto tempo levou até ele falar coisa com coisa vale mais do que perguntar se tremeu.

05

Como se apresenta de verdade

Todo paciente com síncope chega igual: acordado. O espectro que interessa não está no que você vê, está no que aconteceu antes de você ver. As seis apresentações abaixo estão ordenadas do mais comum ao mais raro dentro de cada grupo, mas a ordem em que você deve pensar nelas é outra — primeiro as que matam, depois as que só assustam.

Percurso de aprendizagem

Reconstrua o evento com testemunha: postura, gatilho, pródromo, movimentos, duração e recuperação. Abalos e perda urinária não bastam para diagnosticar epilepsia.

Integre ECG, cardiopatia, história familiar e características de alto risco. Hipotensão ortostática pode coexistir com doença de condução; um achado não encerra as demais hipóteses.

Diferencie estabilização de estratificação. Arritmia com hipoperfusão exige tratamento imediato; alta de baixo risco precisa de orientação, seguimento e avaliação da segurança nas atividades.

O desmaio que avisa

É a apresentação mais comum e a mais fácil de reconhecer quando se pergunta direito. Adulto jovem ou de meia-idade, em pé há algum tempo, em ambiente quente ou apertado, ou diante de um gatilho emocional ou doloroso. Antes de cair, houve trinta segundos a poucos minutos de calor, suor, náusea, escurecimento da visão. Quem viu conta que ele ficou branco antes, que amoleceu em vez de desabar, e que às vezes chegou a sentar ou a se apoiar.

O situacional é o mesmo desmaio com um gatilho mecânico: o acesso de tosse, o espirro, o esforço no vaso sanitário, a deglutição de líquido gelado, a micção noturna. A recuperação é rápida e completa, e não é raro haver náusea e sudorese residuais por alguns minutos depois.

Duas armadilhas, ambas frequentes. A primeira é o gatilho que parece benigno e não é: fazer a barba, virar a cabeça para trás para pegar algo na prateleira, apertar o colarinho — isso aponta para hipersensibilidade do seio carotídeo, que em maior de 40 anos com síncope recorrente é uma hipótese com implicação terapêutica real. A segunda é a punção venosa que dispara desmaio dentro do próprio pronto-socorro; costuma ser vasovagal de manual, mas quando ocorre com o paciente já deitado, deixa de ser explicável pela postura e merece a mesma leitura do eletrocardiograma que qualquer outro caso.

O desmaio de quem levantou, e a caixa de remédios

O paciente conta que estava deitado ou sentado e apagou ao levantar, ou poucos segundos depois de levantar. Frequentemente é idoso, frequentemente acontece de madrugada a caminho do banheiro, e frequentemente já tinha acontecido "uma tontura" nas mesmas circunstâncias.

A anamnese aqui é farmacológica antes de ser fisiológica. Diurético em dose recente, anti-hipertensivo iniciado ou aumentado nas últimas semanas, nitrato, alfabloqueador prescrito para próstata, antidepressivo tricíclico, antipsicótico. O protocolo estadual de encaminhamento pede explicitamente que o médico registre se o paciente usa medicamentos que possam causar síncope, e nomeia antiarrítmicos e anti-hipertensivos.

Duas causas de hipovolemia se disfarçam de ortostase e precisam ser excluídas ativamente, porque a conduta muda por completo. A primeira é o sangramento digestivo sem exteriorização evidente — vale perguntar por fezes escuras e olhar a coloração das conjuntivas, e a hemorragia digestiva alta tem capítulo próprio no Internato. A segunda é a gravidez ectópica em mulher em idade fértil: síncope com dor abdominal e atraso menstrual é um caso cirúrgico até prova em contrário, e também tem capítulo próprio no Internato.

Ainda no terreno do que se disfarça de ortostase: a anafilaxia pode se apresentar com hipotensão e síncope antes de qualquer lesão de pele evidente, e o desmaio dentro de um serviço de saúde minutos depois de uma medicação injetável merece essa pergunta.

O desmaio que não avisa

Esta é a apresentação que organiza o resto do capítulo. Não há pródromo, ou há menos de cinco segundos dele. O paciente desabou. A testemunha usa palavras como "caiu duro", "bateu a cara no chão", "desligou". Muitas vezes há trauma facial ou dentário justamente porque não houve tempo de proteger a queda.

Três circunstâncias tornam essa apresentação ainda mais preocupante, e vale decorá-las porque são as perguntas que quase ninguém faz. Durante o esforço — não depois, durante — aponta para obstrução ao fluxo ou para arritmia deflagrada por catecolamina, e é a apresentação clássica da estenose aórtica grave e da cardiomiopatia hipertrófica. Em decúbito — deitado, sem se levantar — elimina a explicação postural e reflexa, porque nenhuma delas funciona sem gravidade; sobra arritmia. E precedido de palpitação registra a arritmia na consciência do paciente.

A quarta circunstância não é do episódio, é da pessoa: cardiopatia estrutural conhecida. Insuficiência cardíaca, doença coronariana, valvulopatia, miocardiopatia dilatada, cardiopatia congênita. Na coorte brasileira, ter cardiopatia conhecida foi o preditor isolado mais forte de internação, e o protocolo estadual lista cada uma dessas doenças como critério de encaminhamento cardiológico depois da síncope.

E há a história familiar, que custa uma pergunta e é a única que pode mudar o destino de outras pessoas além do paciente: morte súbita em pai, mãe ou irmão antes dos 40 anos. Os dois protocolos brasileiros de encaminhamento usam essa idade de corte, e ambos colocam esse item na lista que manda o paciente para a emergência, não para a fila do ambulatório.

O idoso, onde tudo se mistura

No idoso, as três famílias coexistem. Ele toma diurético, tem barorreflexo lento, tem sistema de condução degenerado pela idade, pela hipertensão e pelo diabetes, e frequentemente tem também uma cardiopatia estrutural que ninguém investigou. A pergunta "qual das causas?" costuma ter mais de uma resposta certa.

O problema maior é de rótulo. O idoso muitas vezes não relata desmaio: relata queda. Ele diz que tropeçou, e às vezes acredita nisso, porque a amnésia do evento é comum e porque "tropecei" é uma explicação socialmente mais confortável do que "apaguei". Queda sem mecanismo claro, queda com trauma de face, queda em que o paciente não sabe descrever o instante do impacto — essas três merecem ser tratadas como perda transitória da consciência até prova em contrário.

A diretriz brasileira de dispositivos torna essa suspeita operacional num ponto específico: ela lista, entre as indicações de marca-passo, a queda recorrente, inexplicada e sem pródromos em maior de 40 anos com resposta cardioinibidora à massagem do seio carotídeo. Ou seja, existe uma linha oficial em que "caiu de novo, não sabe por quê" e "desmaiou" recebem o mesmo tratamento.

Quando a queda produziu trauma craniano, a avaliação passa a ter dois eixos independentes que não devem ser confundidos: o trauma, que segue o próprio caminho e tem capítulo próprio no Internato, e a causa do desmaio, que continua exigindo eletrocardiograma e estratificação. Resolver o primeiro e esquecer o segundo é um dos erros mais comuns do plantão.

O que se parece com síncope e não é

Cinco impostores aparecem quase toda semana, e cada um deles muda inteiramente a investigação.

Crise convulsiva. Separada pelo quadro do TelessaúdeRS já discutido: mordedura de língua, desvio cefálico persistente, postura anormal de tronco ou membros, contração prolongada, confusão pós-evento demorada. A crise que começa com queda e abalos generalizados e termina com dez minutos de confusão não é síncope, e o caminho de investigação é outro.

Hipoglicemia. Não recupera sozinha, e por isso não preenche a definição. O sinal de alerta é a história de fome, tremor e sudorese que não melhorou ao deitar, e o antecedente de insulina ou sulfonilureia. A glicemia capilar de chegada resolve a dúvida em trinta segundos e é obrigatória em todo paciente que chegou com alteração de consciência — o protocolo do SAMU coloca a medida da glicemia capilar como procedimento indicado em toda alteração do nível de consciência.

Acidente isquêmico transitório e acidente vascular cerebral. Perda de consciência isolada praticamente não é apresentação de doença carotídea, e o protocolo estadual chega a dizer, em nota de rodapé, que vertigem, síncope e cefaleia usualmente não caracterizam sintomas de estenose de carótida. O que é doença cerebrovascular vem com déficit focal, e isso tem capítulo próprio nesta apostila.

Queda mecânica e pseudossíncope psicogênica fecham a lista. A primeira tem mecanismo externo identificável e o paciente lembra de tudo. A segunda costuma ter duração longa, olhos fechados com resistência à abertura, episódios muito frequentes e ausência de trauma apesar da queda — mas é um diagnóstico que não se faz na primeira consulta e nunca antes do eletrocardiograma.

A pré-síncope corre o mesmo risco

O capítulo de tontura e vertigem desta apostila separa os pacientes pelo padrão temporal e devolve a este a categoria do quase-desmaio: aquele que diz que "ia apagando", que teve escurecimento visual e teve de sentar, mas não chegou a perder a consciência. Ele chega classificado como verde, é ouvido em pé no corredor e vai embora com diagnóstico de labirintite mais vezes do que se gostaria de admitir.

O mecanismo da pré-síncope é o mesmo da síncope, apenas interrompido: houve queda de perfusão suficiente para produzir o sintoma e insuficiente para apagar. Um bloqueio atrioventricular intermitente pode produzir os dois quadros na mesma semana, e qual dos dois o paciente terá depende de quanto durou a pausa.

Por isso o protocolo estadual trata os dois juntos na mesma linha de encaminhamento: "síncope/pré-síncope de origem indeterminada". A régua prática é curta: pré-síncope com bandeira de alto risco merece o mesmo eletrocardiograma e a mesma estratificação que a síncope. O que ela permite é ser um pouco menos agressivo na decisão de internar quando não há nenhuma bandeira — e apenas isso.

06

Como fechar o diagnóstico

A frase que resume a investigação da síncope é dura de aceitar para quem acabou de aprender a pedir exames: a anamnese, o exame físico e o eletrocardiograma fazem quase todo o trabalho, e o resto quase não acrescenta. O artigo brasileiro que serve de coorte a este capítulo registra, já na introdução, que anamnese detalhada, exame físico minucioso e estudo eletrocardiográfico têm rendimento diagnóstico combinado de 50%, e que em apenas cerca de 5% dos casos a causa é elucidada com base somente no eletrocardiograma.

Isso não é um convite a pedir menos por economia. É a constatação de que, na síncope, a informação está no relato e no traçado, e que ampliar a bateria de exames tipicamente aumenta o tempo de permanência, o custo e o achado incidental, sem mover a decisão de destino.

A anamnese que decide, e a testemunha que vai embora

Organize a história em três tempos, e faça as perguntas na ordem, porque a ordem impede o esquecimento.

Antes. O que ele estava fazendo, exatamente — em pé, sentado, deitado, correndo, urinando, tossindo, na fila, no sol. Havia quanto tempo naquela posição. O que sentiu, e por quanto tempo sentiu: calor, suor, náusea, escurecimento visual, zumbido, palpitação, dor no peito, falta de ar. Se não sentiu nada, registre isso com todas as letras, porque a ausência de pródromo é um dado positivo, não um campo em branco.

Durante. Quanto tempo ficou apagado — e aqui a resposta útil vem da testemunha, não do paciente. Ficou pálido ou ficou roxo. Amoleceu ou enrijeceu. Teve abalos, quantos segundos, começaram antes ou depois da queda. Mordeu a língua, e se mordeu, onde: a lateral aponta para crise convulsiva. Houve perda de urina — isoladamente pouco discrimina, mas entra no conjunto.

Depois. Quanto tempo até falar coisa com coisa. Se soube onde estava assim que abriu os olhos. Se ficou confuso, agitado ou sonolento, e por quantos minutos. Se sentiu dor no peito, falta de ar ou palpitação depois de acordar. E se ficou algum déficit, mesmo transitório.

Some a isso quatro perguntas de contexto que valem mais do que a maioria dos exames: já aconteceu antes e quantas vezes; tem doença do coração conhecida; quais medicamentos usa, incluindo os iniciados no último mês; e há morte súbita na família antes dos 40 anos. Na coorte brasileira, síncope prévia foi um dos preditores independentes de internação, com razão de chances de 2,4.

Agora a parte operacional, e ela é a mais negligenciada do capítulo. A testemunha é um exame com validade de minutos. Ela não fica esperando na recepção, não tem prontuário e não volta. Quando alguém chega de ambulância, pergunte ao socorrista antes de ele sair, e peça o telefone de quem viu antes de essa pessoa ir embora. Anotar "acompanhante refere desmaio" é jogar fora a metade mais informativa do caso.

Vale um roteiro de três perguntas para a testemunha, feitas nessa ordem, porque a memória de leigo responde melhor a comparações do que a categorias: ele ficou branco antes de cair, ou só depois? Ele amoleceu como um saco, ou ficou duro como uma tábua? Quando abriu os olhos, ele já sabia quem era você?

O exame físico curto que ainda muda alguma coisa

O exame do paciente com síncope é dirigido e cabe em poucos minutos, porque quase tudo estará normal e apenas quatro achados mudam decisão.

Pressão arterial deitado e em pé. É a única manobra do exame que reproduz o mecanismo. Meça com o paciente deitado por pelo menos alguns minutos, depois em pé, e repita a medida após três minutos em ortostatismo, anotando também a frequência cardíaca em cada posição. A queda de 20 mmHg na sistólica e/ou de 10 mmHg na diastólica define hipotensão ortostática; a frequência informa se o arco reflexo respondeu. O protocolo municipal de Curitiba pede a aferição nos dois membros superiores, em decúbito e em ortostatismo — a comparação entre os braços não é para a síncope em si, é para não deixar passar uma diferença que aponte outra doença de aorta.

Ausculta cardíaca em busca de sopro. Um sopro sistólico ejetivo em foco aórtico, com irradiação para carótidas e segunda bulha abafada, num paciente que desmaiou fazendo esforço, é o achado que muda o plantão inteiro. O protocolo estadual coloca a presença de sopro entre os sinais de provável origem cardiológica que indicam encaminhamento.

Pulso e ritmo. Bradicardia persistente abaixo de 40 batimentos por minuto e irregularidade nova são achados de encaminhamento imediato pelo próprio protocolo brasileiro. Uma frequência de 44 num paciente que não usa betabloqueador não é "bradicardia de atleta" até que alguém tenha olhado o traçado.

Sinais de perda de volume ou de sangramento. Mucosas descoradas, taquicardia em repouso, abdome doloroso. O toque retal não é rotina na síncope, mas passa a ser exame dirigido quando há anemia, hipotensão, uso de anti-inflamatório ou anticoagulante, ou relato de fezes escuras.

O exame neurológico entra no roteiro com um objetivo estreito: procurar déficit focal. Se houver, o paciente saiu da via da síncope e entrou na via do déficit neurológico agudo, que tem capítulo próprio e um relógio próprio. Se não houver, o exame neurológico normal não exclui nada de cardíaco e não autoriza alta.

O eletrocardiograma: o que se procura, item por item

Todo paciente que teve síncope faz eletrocardiograma de 12 derivações. Não é um exame de rastreio genérico — é a única chance de ver o substrato de uma arritmia que já terminou. O capítulo de leitura sistemática do eletrocardiograma, na apostila de interpretação de exames à beira do leito, ensina a ordem dos oito passos; aqui a pergunta é mais estreita: o que, neste traçado, seria motivo para não mandar este paciente para casa.

O Quadro 4 do protocolo do TelessaúdeRS lista as alterações que, diante de um episódio de síncope, sugerem avaliação em serviço de emergência: taquicardia ventricular; taquicardia supraventricular paroxística rápida; taquicardia ventricular polimórfica não sustentada e intervalos de QT curto e longo; disfunção de marca-passo ou de cardiodesfibrilador implantável; bradicardia sinusal persistente com frequência abaixo de 40 batimentos por minuto; síndrome de Brugada; bloqueio atrioventricular de segundo grau Mobitz II ou de terceiro grau; e bloqueio sinoatrial repetitivo ou pausas maiores que 3 segundos.

Vale saber o que cada um desses itens significa em termos de mecanismo, porque a lista decorada some em uma semana e o mecanismo fica. Bradicardia persistente, pausas e bloqueios avançados são a via da assistolia: o coração para de mandar o comando e o débito some. A diretriz brasileira de dispositivos ajuda a hierarquizar os bloqueios: no de segundo grau tipo I, o intervalo alarga progressivamente até uma onda bloqueada, e a lesão costuma ser nodal, de progressão mais lenta e com escape confiável; no tipo II, a onda é subitamente bloqueada sem alargamento progressivo, o que aponta doença abaixo do nó, com escape lento e pouco confiável. Essa é a razão técnica de o Mobitz II estar na lista e o Mobitz I não estar.

Prolongamento do intervalo de repolarização, síndrome de Brugada e pré-excitação são a via da taquiarritmia maligna: existe um circuito ou uma instabilidade elétrica que pode degenerar. Zona inativa de infarto antigo, sobrecarga ventricular importante e bloqueio de ramo indicam cardiopatia estrutural — não causam a síncope diretamente, mas dizem que existe substrato para taquicardia ventricular. Alternância entre bloqueio de ramo direito e esquerdo, segundo a diretriz brasileira, denota doença do sistema de condução em nível infranodal, com alto risco de bloqueio total.

Uma advertência de calibração que evita tanto o excesso quanto a falta: eletrocardiograma alterado esteve presente em 67,1% dos internados e em 43,8% dos liberados da coorte brasileira. Ele separa os grupos, mas está longe de ser exclusivo do grupo grave — e por isso não se lê o traçado isoladamente, e sim junto da história.

O que mais pedir, e o que cada exame responde

Depois do eletrocardiograma, todo exame precisa responder a uma pergunta específica que já foi formulada. Se não houver pergunta, não há exame.

Glicemia capilar, em todos. Custa nada, leva trinta segundos e retira do jogo o impostor mais barato de excluir.

Hemograma, quando há palidez, taquicardia, hipotensão, uso de anti-inflamatório ou anticoagulante, ou fezes escuras. A pergunta é: houve perda de sangue? Beta-hCG, em toda mulher em idade fértil. A pergunta é: existe uma gravidez que possa estar sangrando?

Eletrólitos e função renal, quando o paciente usa diurético, tem vômitos ou diarreia, ou tem alteração de repolarização no traçado. A pergunta é: existe um distúrbio que prolongue a repolarização e sustente arritmia?

Troponina, apenas quando há dor torácica, alteração isquêmica no traçado ou quadro compatível com síndrome coronariana aguda. Síncope isolada não é indicação de troponina, e o resultado levemente elevado de um exame pedido sem pergunta costuma gerar mais internação e mais cateterismo do que informação. A dor torácica que acompanha a síncope tem capítulo próprio nesta apostila, e ela muda a via.

Ecocardiograma, quando há sopro, cardiopatia conhecida, eletrocardiograma alterado ou síncope durante esforço. A pergunta é: existe obstrução ao fluxo ou disfunção ventricular? É o exame que confirma a estenose aórtica e a cardiomiopatia hipertrófica, e o que fecha o diagnóstico na síncope de esforço.

Monitorização do ritmo — no monitor da observação, no Holter, ou, em casos selecionados, no monitor de eventos implantável. A pergunta é: o sintoma coincide com uma arritmia? A diretriz brasileira de dispositivos é explícita sobre o rendimento por frequência de sintoma: o monitor implantável é ferramenta para sintomas pouco frequentes, da ordem de menos de uma vez por mês, e nos estudos em síncope inexplicada a causa encontrada foi bradiarritmia em até 41% dos casos, sendo 70% delas bloqueio atrioventricular total intermitente. Traduzindo: quanto mais raro o sintoma, menos serve o Holter de 24 horas.

O que não pedir, e o que custa pedir

Tomografia de crânio na síncope sem trauma e sem déficit focal. Não há nada na via da síncope que a tomografia responda. A perda transitória da consciência por hipoperfusão global não deixa marca estrutural, e as lesões que a tomografia enxerga produzem déficit focal, cefaleia ou rebaixamento persistente — nenhum dos quais está presente no paciente que acordou íntegro. Os dois protocolos brasileiros de encaminhamento pedem, como conteúdo descritivo mínimo do caso de síncope, o eletrocardiograma, e reservam a via neurológica para quem tem sinal ou sintoma neurológico ou suspeita de crise convulsiva.

O custo de pedir não é apenas o custo do exame. É o tempo de sala em que o paciente fica esperando o resultado de uma pergunta que ninguém fez, é o achado incidental que gera consulta, ansiedade e novo exame, e é a falsa sensação de que o caso foi investigado — que é a mais cara das três, porque frequentemente substitui o eletrocardiograma que decidiria alguma coisa. Se houve trauma craniano na queda, a tomografia pode estar indicada, mas por causa do trauma, com os critérios do trauma, e sem que isso encerre a investigação da síncope.

Eletroencefalograma de rotina. Só faz sentido se a hipótese for crise convulsiva, e essa hipótese se levanta pela história descrita no Quadro 3, não pelo fato de ter havido abalos. Um eletroencefalograma normal não exclui epilepsia e um traçado com achados inespecíficos num paciente que teve síncope produz um rótulo errado que costuma durar anos e vir acompanhado de medicação desnecessária.

Doppler de carótidas de rotina. O protocolo estadual afirma, em duas passagens distintas, que não se recomenda ecografia de carótidas como rastreamento de rotina e que vertigem, síncope e cefaleia usualmente não caracterizam sintomas de estenose carotídea. A estenose de carótida produz déficit focal por embolia, não apagamento global.

Teste de inclinação no pronto-socorro. É exame de investigação ambulatorial de síncope reflexa, não de triagem de emergência, e a própria diretriz brasileira de dispositivos o descreve como recurso de clínica especializada, próprio ou referenciado. Na coorte brasileira, ele foi realizado em 0,5% dos casos — em 85 internados, isso não chega a um paciente.

O que existe no Sistema Único de Saúde, e o que isso faz com o plano

Exame que não se consegue não é conduta, e o plano de investigação precisa ser escrito com o que a sua unidade tem hoje, não com o que o algoritmo pressupõe.

O que existe em praticamente qualquer porta: eletrocardiograma de 12 derivações, glicemia capilar, monitor cardíaco, e a possibilidade de manter o paciente em observação por algumas horas. Isso já resolve a estratificação de risco, que é a decisão do plantão.

O que existe, mas com fila: ecocardiograma, Holter de 24 horas, consulta com cardiologia. Aqui está o ponto de decisão brasileiro que quase nunca aparece nos fluxogramas importados. Quando o exame que definiria o caso vai demorar semanas, a escolha real não é entre "internar" e "pedir ambulatorialmente" — é entre internar para investigar e liberar sabendo que a investigação pode não acontecer. Quando o risco é alto e a fila é longa, internar é o modo de garantir que o exame ocorra.

O que é escasso: teste de inclinação, estudo eletrofisiológico, monitor de eventos implantável. Todos existem no sistema público e todos passam por centro de referência. Isso não os torna irrelevantes — torna-os destino de encaminhamento, com relatório escrito, e não etapa do plantão.

E o que é escasso na direção oposta, isto é, do lado do tratamento: a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 lista acetato de fludrocortisona 0,1 mg em comprimido no componente Especializado, com documentos norteadores de hiperplasia adrenal congênita e insuficiência adrenal, e não lista midodrina. Na prática, o tratamento farmacológico da síncope reflexa recorrente não é um caminho aberto pela lista essencial, e as medidas não farmacológicas — hidratação, sal, manobras de contrapressão, revisão de anti-hipertensivos — deixam de ser conselho genérico e passam a ser o tratamento disponível.

07

Bandeiras, traçado e destino

Você deve confirmar perda transitória de consciência, investigar o mecanismo provável e reconhecer risco arrítmico sem usar exames ou escores de forma automática.

  1. 1Chegada. Paciente que perdeu a consciência e já acordou. Antes de qualquer pergunta: monitor, glicemia capilar, pressão arterial e frequência. Se ele não acordou inteiro — permanece confuso, sonolento ou com déficit —, saia desta via: isso não é síncope simples e o caminho é o de alteração do nível de consciência ou de déficit neurológico agudo.
  2. 2Instabilidade agora. Hipotensão, sinais de má perfusão, dor torácica em curso, dispneia, bradicardia abaixo de 40 ou taquicardia com repercussão. Se houver qualquer um, a via deixa de ser de estratificação e passa a ser de estabilização: acesso, monitor, eletrocardiograma imediato e tratamento do ritmo. Estratificar vem depois.
  3. 3Eletrocardiograma de 12 derivações em todos, na primeira meia hora. Não é opcional e não depende de o exame físico estar normal — ele está normal por definição.
  4. 4É mesmo síncope? Aplique a definição: perda transitória da consciência, início rápido, curta duração, recuperação espontânea e completa. Se faltou a recuperação completa, pense em crise convulsiva. Se não recuperou sozinho, pense em hipoglicemia. Se sobrou déficit, pense em doença cerebrovascular.
  5. 5Se for crise convulsiva pelos sinais do quadro brasileiro — mordedura lateral de língua, desvio cefálico persistente, postura anormal, contração prolongada, confusão pós-evento demorada, amnésia de comportamentos testemunhados —, o caminho é o da primeira crise, e não este.
  6. 6Há causa imediata e tratável na porta? Hipoglicemia, hipotensão por sangramento, arritmia registrada no monitor, anafilaxia, intoxicação. Trate o que encontrar antes de estratificar.
  7. 7Anamnese em três tempos, com a testemunha ainda presente. Antes, durante e depois. Registre por escrito a ausência de pródromo quando ela existir.
  8. 8Pressão arterial deitado e em pé, com a frequência em cada posição. Se cair 20 mmHg na sistólica ou 10 na diastólica, você tem um mecanismo — mas ele não exclui os outros dois.
  9. 9Some as bandeiras de alto risco. Basta uma para o paciente não ir para casa direto da sala. As bandeiras estão na primeira tabela.
  10. 10Leia o traçado com a pergunta certa: existe aqui algum dos achados da segunda tabela? Se existir, o paciente fica.
  11. 11Sem nenhuma bandeira, com gatilho claro, pródromo típico e traçado normal: alta com orientação escrita e retorno marcado. Este é o caminho da maioria.
  12. 12Com bandeira isolada e traçado normal, sem cardiopatia conhecida: observação com monitor por algumas horas na unidade e reavaliação antes de decidir. É a faixa em que a maior parte dos erros acontece nos dois sentidos.
  13. 13Com achado eletrocardiográfico de risco, cardiopatia estrutural conhecida, síncope de esforço, síncope em decúbito ou história familiar de morte súbita precoce: internação para monitorização e investigação. Aqui a decisão não depende do escore.
  14. 14Antes de qualquer alta, três coisas por escrito: o que fazer se repetir, quando e onde retornar, e a orientação sobre dirigir e sobre atividades de risco.
  15. 15Antes de qualquer transferência ou encaminhamento, anexe o traçado. Os dois protocolos brasileiros pedem o eletrocardiograma, com data, como conteúdo mínimo do encaminhamento — sem ele, a fila recomeça do zero.

O escore de OESIL, e o que ele é de fato

Quatro itens, um ponto cada: idade acima de 65 anos; história de doença cardiovascular; eletrocardiograma alterado; síncope sem pródromos. A mortalidade em um ano da coorte em que foi construído sobe de 0% com zero ponto para 0,8% com um ponto, 19,6% com dois, 34,7% com três e 57,1% com quatro. O degrau entre um e dois pontos é o que dá utilidade ao escore, e é por isso que dois pontos é o limiar habitual. Duas advertências antes de usá-lo: ele foi desenvolvido e validado prospectivamente em emergências de hospitais gerais na região do Lácio, na Itália, e não existe coorte brasileira que tenha medido esses mesmos desfechos aqui. O que existe no Brasil é um estudo transversal em hospital cardiológico de Porto Alegre que comparou o escore com a decisão dos médicos de internar, e não com a mortalidade.

Eixo da perguntaAponta alto riscoAponta baixo risco
O que estava fazendoDurante o esforço físico; deitado; sem nenhuma circunstância que expliqueEm pé e parado há muito tempo; calor; ambiente cheio; jejum prolongado
Gatilho identificávelNenhum; ou compressão do pescoço em maior de 40 anosDor, medo, visão de sangue, punção, tosse, micção, evacuação, deglutição
O que sentiu antesNada, ou menos de cinco segundos; palpitação; dor torácica; dispneiaCalor, suor, náusea, escurecimento visual, zumbido, por trinta segundos ou mais
Como caiuDesabou sem se proteger; trauma de face ou de dentesAmoleceu; conseguiu sentar ou apoiar-se; sem trauma
Como voltouRápido, mas com dor torácica, dispneia ou palpitação depoisRápido e orientado, com náusea e sudorese residuais por poucos minutos
CoraçãoInsuficiência cardíaca, doença coronariana, valvulopatia, miocardiopatia, cardiopatia congênita, marca-passoSem doença cardíaca conhecida e sem sopro
FamíliaMorte súbita em pai, mãe ou irmão antes dos 40 anosSem morte súbita precoce na família
TraçadoQualquer achado da tabela do eletrocardiogramaTraçado sem alteração
Exame na salaSopro sistólico ejetivo; bradicardia abaixo de 40; ritmo irregular novo; palidez com taquicardiaAusculta normal; pulso regular; mucosas coradas
RepetiçãoVários episódios em curto intervalo, cada vez com menos avisoEpisódio único, ou episódios raros e sempre com o mesmo gatilho

Eletrocardiograma: o que impede a alta, e por quê

AchadoPor que preocupaO que fazer na sala
Bradicardia sinusal persistente abaixo de 40 batimentos por minutoVia da assistolia: o comando falha e o débito someMonitor; procurar causa reversível, sobretudo fármaco; avaliar internação
Bloqueio atrioventricular de segundo grau Mobitz II ou de terceiro grauLesão abaixo do nó, com escape lento e pouco confiável, e risco de bloqueio totalMonitor; marca-passo transcutâneo disponível à beira do leito; internar
Bloqueio sinoatrial repetitivo ou pausa maior que 3 segundosPausa documentada é a própria causa da síncopeMonitor; internar; avaliação para dispositivo
Taquicardia ventricular, ou taquicardia ventricular polimórfica não sustentadaArritmia maligna registrada; risco imediato de degeneraçãoEstabilizar conforme o ritmo; internar em leito monitorado
Taquicardia supraventricular paroxística rápidaDébito cai por encurtamento do tempo de enchimentoTratar o ritmo; internar se houve síncope associada
Intervalo de repolarização curto ou prolongadoInstabilidade elétrica que degenera em arritmia polimórficaRever eletrólitos e fármacos que prolongam a repolarização; internar
Padrão de síndrome de BrugadaCanalopatia com risco de morte súbita, inclusive em jovem sem cardiopatiaInternar; encaminhamento a serviço de arritmia
Disfunção de marca-passo ou de cardiodesfibrilador implantávelO dispositivo que deveria proteger é a causaInternar; acionar o serviço que acompanha o dispositivo
Bloqueio de ramo alternante entre direito e esquerdoDoença infranodal com alto risco de bloqueio total, segundo a diretriz brasileiraInternar em leito monitorado
Zona inativa de infarto antigo, sobrecarga importante ou pré-excitaçãoSubstrato estrutural ou via acessória para taquicardia ventricularNão é alta de rotina; discutir internação e ecocardiograma

Destino ao fim da avaliação

PerfilDestinoO que precisa estar pronto antes de decidir
Instabilidade atual, arritmia documentada, ou achado eletrocardiográfico de riscoInternação em leito monitoradoTraçado impresso; acesso venoso; equipe avisada; causa reversível já procurada
Cardiopatia estrutural conhecida, síncope de esforço, síncope em decúbito, ou morte súbita familiar antes dos 40 anosInternação para investigaçãoEcocardiograma solicitado; monitorização contínua; anamnese com testemunha registrada
Trauma importante decorrente da queda, ou anticoagulação com trauma cranianoInternação, pelas duas razões — o trauma e a causaAvaliação do trauma pelos critérios do trauma; investigação da síncope mantida
Uma bandeira isolada, traçado normal, sem cardiopatia conhecidaObservação com monitor por algumas horas e reavaliaçãoPressão deitado e em pé refeita; segunda leitura do traçado; retorno garantido se alta
Idoso com múltiplos medicamentos, hipotensão ortostática e sem outra bandeiraObservação curta, ajuste da prescrição e alta com retorno precoceLista de medicamentos revista item a item; contato do serviço que acompanha
Gatilho claro, pródromo típico, exame e traçado normais, episódio únicoAlta com orientação escrita e retorno marcadoOrientação sobre repetição, sobre dirigir e sobre atividade de risco, por escrito
Sem bandeira, mas mora longe, mora sozinho, ou não tem como retornarObservação mais longa ou internação social justificada no prontuárioRede de apoio verificada; transporte de retorno combinado

A tabela de bandeiras não é para somar pontos. Uma bandeira de alto risco isolada já retira o paciente da via da alta imediata, mesmo com todas as outras linhas apontando para baixo risco. É assim que os dois protocolos brasileiros de encaminhamento operam: eles listam condições que, sozinhas, indicam emergência ou cardiologia.

Escore importado precisa de etiqueta de origem. O OESIL foi desenvolvido e validado prospectivamente na Itália, em emergências de hospitais gerais. Não há coorte brasileira publicada que tenha medido a mortalidade em um ano por faixa de escore no nosso meio, e por isso os percentuais do card descrevem a população italiana em que ele nasceu, não a população da sua porta.

Foi possível, no entanto, medir uma coisa com os dados brasileiros disponíveis: refazendo as contas da coorte de Porto Alegre, um escore de dois ou mais pontos identificou 70 dos 82 pacientes que os médicos internaram (sensibilidade de 85,4%) e classificou corretamente 80 dos 129 que foram liberados (especificidade de 62,0%), com valor preditivo positivo de 58,8% e negativo de 87,0%. O desfecho aqui é a decisão do médico, não o óbito — isso mede concordância com o julgamento clínico, e não capacidade prognóstica.

Atenção ao usar esses números: as duas colunas da tabela de origem somam 129 e 82 pacientes, e não os 131 e 85 declarados na tabela de características do mesmo artigo. Somados, dão 211 dos 216 analisados, e os percentuais publicados batem com os denominadores 129 e 82, o que confirma que cinco pacientes ficaram de fora da distribuição do escore sem que o texto explique. Quem citar essa tabela deve citar os denominadores que ela de fato usou.

Um dado brasileiro que não é clínico e mesmo assim previu internação: possuir plano de saúde, com razão de chances de 2,5 em análise multivariada. Os próprios autores levantam a hipótese de pressão por admissão ou de maior disponibilidade de leito. Vale como espelho: parte da variação de quem interna não vem do risco do paciente.

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A conduta, hora a hora

A linha do tempo da síncope é curta e desigual. Os primeiros trinta minutos são quase todos de coleta, porque não há o que tratar num paciente que já acordou. O que se faz depois disso depende do que a coleta encontrou, e por isso os marcos 5 e 6 abaixo só valem para os poucos casos em que o ritmo é a causa e ainda está acontecendo.

Toda dose citada vem de uma fonte nomeada no próprio marco, e as apresentações foram conferidas contra a bula e contra a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais, porque a dose escrita em miligramas só vira conduta quando alguém sabe quantas ampolas isso é.

  1. Minuto 0 — a chegada, antes de qualquer pergunta

    Monitor cardíaco, oximetria, pressão arterial e frequência. Glicemia capilar em todos: o protocolo do SAMU indica a medida da glicemia capilar em toda alteração do nível de consciência, e ela retira do jogo o impostor mais barato de excluir. Acesso venoso periférico se houver qualquer instabilidade, trauma ou suspeita de sangramento; se o paciente está estável, corado e orientado, o acesso pode esperar a decisão. Olhe o paciente inteiro procurando o que a queda produziu: face, dentes, punhos, quadril, couro cabeludo. E deixe-o deitado ou sentado enquanto a avaliação corre — a segunda síncope acontece no corredor do pronto-socorro com frequência maior do que se imagina.

  2. Minuto 5 — o traçado, e a leitura com uma pergunta só

    Eletrocardiograma de 12 derivações em todos, sem exceção e sem esperar vaga. Leia com a pergunta estreita: há aqui algum dos achados da tabela do bloco anterior? Se o traçado inicial não for diagnóstico e a suspeita for isquêmica, o protocolo do SAMU orienta repetir o eletrocardiograma em 5 a 10 minutos, sem que isso atrase a decisão de encaminhamento — a mesma lógica serve aqui. Imprima e guarde o traçado: ele é o item que os dois protocolos brasileiros de encaminhamento exigem por escrito, com data, e é o que impede a investigação de recomeçar do zero no ambulatório.

  3. Minuto 10 — a testemunha, antes que ela vá embora

    Interrompa o que estiver fazendo e converse com quem viu, seja o familiar, o vizinho, o desconhecido da fila ou o socorrista que está saindo. Três perguntas em ordem: ficou branco antes de cair ou só depois; amoleceu ou ficou duro; e quando abriu os olhos, já sabia quem era você. Anote o nome e um telefone. Se a testemunha já foi embora, ligue — vale mais do que qualquer exame que você fosse pedir naquele intervalo. Registre no prontuário as palavras dela, não a sua interpretação: "a filha diz que ele ficou branco e escorregou pela parede" carrega informação que "síncope de provável origem vasovagal" apaga.

    Três cenas mostram sintomas prodrômicos, perda de tônus amparada por acompanhante e recuperação em decúbito dorsal.
    A reconstrução do episódio inclui pródromos, circunstâncias da perda de consciência e recuperação. A forma da queda ou a presença de movimentos isolados não separa com segurança síncope e crise epiléptica.
  4. Minuto 20 — a pressão em pé, e a caixa de remédios sobre a mesa

    Meça a pressão e a frequência com o paciente deitado por alguns minutos, depois em pé, e repita aos três minutos de ortostatismo. Queda de 20 mmHg na sistólica e/ou de 10 mmHg na diastólica define hipotensão ortostática; a frequência diz se o arco reflexo respondeu. O protocolo municipal de Curitiba pede a aferição nos dois membros superiores, em decúbito e em ortostatismo. Em seguida, peça para ver os medicamentos — os de verdade, na cartela, e não a lista que o paciente decorou. Diurético, anti-hipertensivo iniciado ou aumentado no último mês, nitrato, alfabloqueador para próstata, antidepressivo, antipsicótico e antiarrítmico são os suspeitos de sempre, e o protocolo estadual pede o registro explícito de medicamentos que possam causar síncope.

  5. Se o ritmo é lento e o paciente está mal

    Bradicardia com hipotensão, alteração de consciência, choque, isquemia ou insuficiência cardíaca aguda exige suporte e tratamento imediato. O algoritmo AHA 2025 usa atropina 1 mg IV, repetida a cada 3–5 minutos até 3 mg. Na apresentação de 0,25 mg/mL em ampola de 1 mL, cada dose de 1 mg exige quatro ampolas; 3 mg correspondem a doze. Esta atualização substitui o esquema inicial de 0,5 mg da ficha antiga. Em bloqueio de alto grau, especialmente infranodal com QRS largo, não espere resposta ou dose máxima para preparar marca-passo transcutâneo. Se necessário, usar infusão cronotrópica como ponte conforme protocolo e discutir marca-passo transvenoso. Confirmar captura elétrica e mecânica; oferecer analgesia/sedação quando viável sem atrasar suporte. Investigar isquemia, fármacos, hipóxia e eletrólitos em paralelo.

  6. Se o ritmo é rápido e foi ele que derrubou

    Taquiarritmia que causa instabilidade exige cardioversão sincronizada, com sedação quando viável sem atraso. Confirme que a instabilidade decorre do ritmo: taquicardia sinusal por hemorragia ou sepse exige tratar a causa. No algoritmo AHA 2025, as referências iniciais são 200 J para fibrilação/flutter atrial e 100 J para taquicardia de QRS estreito ou TV monomórfica, respeitando equipamento e protocolo; TV polimórfica exige choque não sincronizado. No estável com taquicardia regular estreita, manobra vagal e adenosina podem ser apropriadas. QRS largo exige avaliação experiente e não autoriza bloqueadores nodais indiscriminados. Torsades requer magnésio e correção de causas; choque imediato se instável, sem esperar infusão. O capítulo de palpitações detalha as decisões e doses.

  7. Hora 1 a hora 6 — a decisão de destino

    Aqui termina o trabalho do plantão, e ele termina numa frase escrita, não numa hipótese. Some as bandeiras, releia o traçado com outra pessoa se puder, refaça a pressão em pé se a primeira medida foi ruim, e escolha entre três destinos: internação em leito monitorado, observação com monitor por algumas horas, ou alta com retorno marcado. Escreva no prontuário a razão da escolha em uma linha — "sem pródromo, em decúbito, com bloqueio de ramo direito novo" é uma justificativa; "paciente estável" não é. Se for internar, o pedido de ecocardiograma sai junto com a admissão, não no dia seguinte. Se a unidade não tiver leito monitorado, a transferência é parte da conduta, e o traçado impresso vai junto.

  8. A alta: a receita que não tem medicamento

    Quem vai para casa leva quatro coisas escritas, e cada uma resolve um risco diferente. Primeira: o que fazer se sentir de novo — deitar imediatamente, elevar as pernas, não tentar chegar até a cadeira, e o motivo, que é ganhar os segundos que faltam. Segunda: o que fazer para reduzir a chance — beber água ao longo do dia, não pular refeições, levantar em duas etapas, e evitar ficar muito tempo em pé e parado, sobretudo no calor. Terceira: quando voltar imediatamente — se repetir, se houver dor no peito, falta de ar, palpitação, ou se alguém disser que ele caiu sem aviso. Quarta: o retorno marcado, com data, e o encaminhamento com o eletrocardiograma anexado, como os protocolos brasileiros exigem. Para a síncope reflexa recorrente, vale saber que o caminho farmacológico é estreito no sistema público: a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 lista fludrocortisona apenas no componente Especializado, com documentos norteadores de hiperplasia adrenal congênita e insuficiência adrenal, e não lista midodrina — as medidas comportamentais e a revisão dos anti-hipertensivos não são um consolo, são o tratamento que se tem.

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Como saber se está funcionando

A síncope tem um problema de avaliação que quase nenhuma outra síndrome tem: o desfecho que interessa não acontece na sua frente. Você não vai ver o paciente melhorar, porque ele já está bem. O que se acompanha, portanto, não é a melhora — é o aparecimento de informação nova dentro de uma janela curta.

Isso muda o significado de cada parâmetro. Em pneumonia, seis horas de observação medem resposta ao tratamento. Aqui, seis horas de monitor medem apenas seis horas de ritmo, e é honesto saber o tamanho do que se comprou.

O que se acompanha durante a observação

Ritmo no monitor, continuamente. É o único parâmetro que pode dar diagnóstico durante a observação, e por isso o monitor precisa estar realmente ligado e alarmado, com traçado impresso a cada evento. Pausa, bloqueio avançado, taquiarritmia sustentada ou bradicardia progressiva mudam o destino na hora.

Pressão arterial deitado e em pé, repetida. A primeira medida pode ter sido feita cedo demais, com o paciente ainda deitado há pouco tempo, ou tarde demais, depois de já ter recebido volume. Refazer antes de decidir a alta é barato e frequentemente muda a conclusão.

Segundo eletrocardiograma, quando o primeiro foi feito nos primeiros minutos ou quando houve qualquer sintoma novo. Alterações intermitentes de condução existem, e o traçado das quatro da manhã pode ser diferente do das dez da noite.

A tentativa de andar, acompanhado, antes de assinar a alta. Deitado, todo mundo passa. Um paciente que fica tonto ou pálido ao caminhar até o corredor não está pronto para ir para casa, e essa é a única prova funcional disponível.

A repetição do episódio. Recorrência dentro da própria observação é dado de alto risco e reabre a decisão inteira, independentemente do que o traçado mostrou.

Em quanto tempo, e o que significa cada resultado

Para o paciente sem bandeira, quatro a seis horas de observação com monitor cobrem o período de maior risco de recorrência imediata e permitem repetir a pressão em pé e o traçado. Se nada aconteceu, o que se ganhou foi tempo sem evento e uma segunda leitura — não a exclusão de arritmia intermitente.

Para o paciente internado por achado de risco, as primeiras 24 a 48 horas de monitorização são a janela em que a maior parte dos eventos arrítmicos relevantes aparece. Se o ritmo se mantém estável, o plano passa a ser estrutural: ecocardiograma, avaliação de isquemia quando pertinente, e a decisão sobre dispositivo.

A conversa mais importante desta seção é sobre o que não significa monitor limpo. Uma bradiarritmia que causa síncope uma vez por mês tem probabilidade baixa de aparecer em 24 horas de monitor. É esse raciocínio que sustenta a orientação da diretriz brasileira de dispositivos sobre monitorização prolongada: o monitor de eventos implantável é ferramenta para sintomas pouco frequentes, e nos estudos de síncope inexplicada encontrou bradiarritmia em até 41% dos casos, sendo 70% delas bloqueio atrioventricular total intermitente. Ou seja, um terço largo dos pacientes rotulados como "sem causa" tinha causa — só não estava sendo olhado no momento certo.

Quando o traçado normal não tranquiliza

Há três situações em que um eletrocardiograma normal não pode ser usado como autorização de alta, e reconhecê-las evita a maior parte dos retornos ruins.

A primeira é a síncope durante o esforço. Obstrução ao fluxo pode ter traçado pouco expressivo, e o exame que decide é o ecocardiograma, não o eletrocardiograma. Esse paciente não vai para casa esperando fila de exame.

A segunda é a cardiopatia estrutural conhecida. Um coração com cicatriz sustenta taquicardia ventricular sem que o traçado de repouso mostre a arritmia. Na coorte brasileira, cardiopatia conhecida foi o preditor mais forte de internação, com razão de chances de 5,5.

A terceira é a história familiar de morte súbita antes dos 40 anos. Canalopatias podem ter padrão intermitente no traçado, e um exame normal num dia não exclui a doença. Os dois protocolos brasileiros colocam esse antecedente na lista de encaminhamento imediato, e não na de investigação eletiva.

O que fazer quando não melhora, isto é, quando repete

Repetição é a forma que a síncope tem de dizer que a primeira conclusão estava errada, e ela merece um procedimento e não um novo palpite.

Revise o diagnóstico antes de revisar o tratamento. Volte à definição: era mesmo síncope? Havia mesmo pródromo, ou o pródromo foi assumido? Refaça a anamnese com uma testemunha diferente, se houver.

Revise a prescrição. Um episódio novo depois do ajuste de anti-hipertensivo aponta para o ajuste, e não para uma doença nova. Este é o achado mais comum e o mais fácil de corrigir.

Escale a monitorização em vez de repetir o mesmo exame. Um segundo Holter de 24 horas em quem desmaia uma vez por mês tem a mesma chance quase nula do primeiro. O que muda o rendimento é monitorização mais longa, e essa decisão pertence ao serviço de arritmia.

Chame ajuda com a pergunta pronta. O encaminhamento útil tem o traçado anexado com data, a descrição do episódio com duração e gatilho, os medicamentos com dose, a presença ou ausência de cardiopatia e a história familiar. Os dois protocolos brasileiros listam exatamente esses itens como conteúdo descritivo mínimo, e é isso que faz a fila andar.

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Onde o erro machuca

Rotular como fraqueza, pressão baixa ou labirintite e liberar sem eletrocardiograma

O dano: É o erro que mata neste capítulo. Cerca de um quinto das síncopes atendidas em emergência tem causa cardíaca, e três quartos dessas causas são arritmias, que não estão acontecendo enquanto você examina. O paciente liberado com esse rótulo volta para casa com a bradiarritmia intacta e, na próxima pausa, pode não haver testemunha, pode haver escada, pode haver volante. O rótulo também produz um dano de segunda ordem: ele fica no prontuário e faz o próximo médico repetir a mesma conclusão.

Como pegar a tempo: Regra sem exceção: todo paciente que perdeu a consciência faz eletrocardiograma de 12 derivações antes de qualquer decisão de destino, mesmo com exame físico normal, mesmo jovem, mesmo com gatilho evidente. Se a unidade não tem eletrocardiógrafo funcionando naquele turno, isso muda a conduta — o paciente é transferido ou observado, não liberado.

Pedir tomografia de crânio e não pedir o eletrocardiograma

O dano: Troca-se o exame que responde pelo exame que não responde. A síncope é hipoperfusão global e não deixa marca estrutural; a tomografia normal devolve uma tranquilidade que não foi ganha, e a alterada devolve um achado incidental que gera consultas e ansiedade. Enquanto isso, o tempo de sala é consumido e o traçado que mostraria a pausa ou o bloqueio não foi feito.

Como pegar a tempo: Amarre a imagem a uma indicação de imagem: trauma craniano com critérios próprios, déficit focal, cefaleia de início súbito, rebaixamento persistente, anticoagulação com trauma. Fora disso, a via da síncope pede traçado. E, quando houver trauma, lembre que a tomografia resolve o trauma e não encerra a investigação da causa da queda.

Chamar de crise convulsiva porque a testemunha viu abalos

O dano: Duplo prejuízo. O paciente sai com diagnóstico de epilepsia, medicação de uso contínuo, restrição de direção e um estigma difícil de desfazer, enquanto a arritmia que o derrubou continua sem investigação. Abalos musculares breves são comuns na síncope justamente porque o córtex mal perfundido libera atividade motora, e a testemunha leiga descreve qualquer movimento involuntário como convulsão.

Como pegar a tempo: Use o quadro brasileiro de sinais sugestivos de crise convulsiva, que exige achados específicos: mordedura lateral de língua, desvio cefálico persistente, postura anormal de tronco ou membros, contração muscular prolongada, confusão pós-evento demorada, amnésia de comportamentos testemunhados. Pergunte quanto tempo levou até o paciente falar coisa com coisa — na síncope, segundos.

Deixar a testemunha ir embora sem falar com ela

O dano: Perde-se a única fonte da informação que decide. Sem testemunha, a distinção entre desmaio com pródromo e desmaio sem aviso vira palpite, o tempo de inconsciência vira estimativa e a diferença entre amolecer e enrijecer desaparece. O erro se agrava porque é irreversível dentro do plantão: a informação some junto com a pessoa, e o prontuário registra uma versão empobrecida que os próximos médicos vão herdar como se fosse a história completa.

Como pegar a tempo: Trate a testemunha como um exame com validade de minutos. Pergunte quem viu logo na chegada, converse com o socorrista antes de a ambulância sair, anote nome e telefone e transcreva as palavras dela entre aspas no prontuário. Se ela já saiu, ligue.

Não medir a pressão em pé, ou medir de um jeito que não mede nada

O dano: Deixa-se de encontrar o mecanismo mais fácil de tratar. Sem a medida em ortostatismo, a hipotensão ortostática por diurético ou por anti-hipertensivo recém-ajustado passa despercebida, o paciente vai para casa com a mesma prescrição e volta na semana seguinte, às vezes com fratura. A medida feita errada é pior do que a não feita, porque produz um resultado normal que encerra a pergunta.

Como pegar a tempo: Quando seguro, aferir pressão e frequência após repouso deitado e em pé, incluindo medidas em 1 e 3 minutos. Queda sustentada de sistólica ≥20 ou diastólica ≥10 mmHg apoia hipotensão ortostática. Frequência ajuda a interpretar, mas não identifica isoladamente o mecanismo: medicamentos, arritmias, marca-passo e disfunção autonômica podem modificar a resposta.

Internar pela aparência e liberar pelo hábito

O dano: O erro anda nos dois sentidos e custa igual. Internar o jovem com síncope vasovagal clássica ocupa leito, expõe a exames em cascata e ensina o paciente a temer um desmaio benigno. Liberar o idoso com bloqueio de ramo novo porque "ele está andando e conversando" devolve à rua a pessoa com maior probabilidade de arritmia. Na coorte brasileira, uma variável não clínica — possuir plano de saúde — previu internação de forma independente, com razão de chances de 2,5, o que sugere que parte da decisão não vinha do risco.

Como pegar a tempo: Decida por bandeira e por traçado, nesta ordem, e escreva a razão da decisão numa linha do prontuário. Uma justificativa que não cite nenhum achado do episódio, do traçado ou do antecedente não é justificativa. E, ao internar, nomeie o que a internação vai fazer que o ambulatório não faria.

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O que dizer ao paciente e à família

A conversa da síncope é difícil por um motivo específico: você vai mandar para casa uma pessoa que desmaiou sem saber por quê, e vai precisar que ela entenda duas coisas ao mesmo tempo — que provavelmente não é nada grave e que ainda assim há regras a seguir. Se você só disser a primeira, ela não volta quando precisar. Se só disser a segunda, ela sai apavorada e a família passa a semana vigiando o sono dela.

Quando a causa é conhecida e benigna

Explique o mecanismo em linguagem de corpo, não de fisiologia: "o senhor ficou muito tempo em pé, no calor, sem comer. O corpo abriu os vasos e o coração desacelerou ao mesmo tempo, e faltou sangue na cabeça por alguns segundos. Assim que o senhor caiu, deitado, o sangue voltou e o senhor acordou. Foi o desmaio se resolvendo sozinho."

Depois dê a instrução que muda o próximo episódio: "se sentir de novo aquele calor, o suor e a vista escurecendo, deite no chão na hora. Não procure cadeira, não vá ao banheiro molhar o rosto. No chão o senhor não cai de altura nenhuma, e é a queda que machuca, não o desmaio."

Diga também o que reduz a chance: água ao longo do dia, não pular refeições, levantar em duas etapas — sentar na cama, esperar, depois levantar —, evitar ficar muito tempo em pé e parado no calor. E, se houver diurético ou anti-hipertensivo na receita, diga que essa conversa continua com quem acompanha, e escreva isso no papel.

Quando não se sabe a causa

Não use "não deu nada". É a frase mais perigosa deste capítulo, porque o paciente ouve "está tudo bem" e a família ouve "o hospital não achou nada", e os dois interpretam a próxima síncope como o mesmo nada.

Diga o que de fato aconteceu: "os exames de hoje não mostraram nada perigoso, e isso é uma boa notícia. Mas eles não explicaram por que o senhor desmaiou. Em boa parte dos casos, a causa é aquela mais comum e benigna. Em uma parte menor, é uma alteração do ritmo do coração que só aparece quando está acontecendo — e hoje não estava."

Em seguida, transforme a incerteza em plano, porque incerteza sem plano vira angústia: "por isso o senhor sai daqui com data de retorno, com o eletrocardiograma de hoje na mão, e com uma lista de sinais que fazem o senhor voltar antes."

E nomeie os sinais em voz alta, um a um: repetir o desmaio; desmaiar sem sentir nada antes; desmaiar fazendo esforço ou deitado; sentir dor no peito, falta de ar ou o coração disparado. Peça para o acompanhante repetir a lista de volta — a lista que o acompanhante consegue repetir é a lista que vai funcionar às três da manhã.

Dirigir: o que a norma brasileira diz, e o que você diz

Comece por onde a maioria erra, que é a moldura. O médico do pronto-socorro não suspende habilitação de ninguém. Quem decide aptidão para dirigir no Brasil é o médico perito examinador de trânsito, no exame de aptidão física e mental, e a Resolução do Conselho Nacional de Trânsito nº 927, de 28 de março de 2022, é a norma que organiza isso. O seu papel é outro e é insubstituível: orientar, registrar a orientação no prontuário e entregá-la por escrito.

A conversa deve resultar em um plano possível: evitar dirigir enquanto o risco de recorrência não foi esclarecido, especialmente no transporte profissional; combinar reavaliação em prazo definido e avaliação ocupacional/de trânsito apropriada. Entregue descrição do evento, ECG e condutas. Explique que a orientação clínica de segurança não é uma decisão administrativa sobre a habilitação.

Note o que a tabela não tem: uma linha para síncope. Ela regula as doenças que causam perda de consciência, e não o evento em si — e a própria norma reconhece essa lacuna ao dizer, no mesmo anexo, que a diretriz médica pertinente passará a ser utilizada quando for elaborada. O contraste com a epilepsia é instrutivo: para ela, o Anexo VIII fixa um ano sem crise, adesão plena e parecer favorável do médico assistente. Para a síncope de causa não esclarecida não há prazo escrito em norma.

O que se diz, então, é isto: "enquanto não se sabe por que o senhor desmaiou, não dirija. Não é uma proibição que eu aplico, é uma orientação médica, e ela vale até a consulta de retorno. Se o senhor desmaiar dirigindo, quem se machuca não é só o senhor." Escreva a frase no papel da alta e no prontuário. Estenda a mesma orientação a subir em escada, operar máquina, trabalhar em altura e nadar sozinho.

Com o motorista profissional a conversa é outra, porque ali está a renda da casa. Reconheça isso em voz alta antes de qualquer recomendação, e explique que a categoria profissional tem exigências mais duras na própria norma — a diretriz brasileira de dispositivos também trata motorista profissional, operador de máquinas, piloto e atleta competitivo como grupo de risco elevado ao decidir conduta na síncope. Aqui, mais do que em qualquer outro caso, a prioridade é fechar o diagnóstico rápido, com encaminhamento nomeado e relatório escrito, porque o custo de deixar a investigação arrastando não é apenas clínico.

A família, a casa e o medo do próximo

A pergunta que a família faz é sempre a mesma, com palavras diferentes: e se acontecer de novo em casa? Responda com o que fazer, não com estatística. "Se ele cair, deitem no chão mesmo, virem de lado, afrouxem a roupa do pescoço e levantem as pernas. Não deem água enquanto ele não estiver falando direito. Contem o tempo até ele abrir os olhos — vocês vão precisar desse número."

Diga também o que não fazer, porque as reações espontâneas são quase todas ruins: não sentar o paciente na cadeira, não sacudir, não colocar álcool para cheirar, não tentar levantá-lo. Sentar desfaz exatamente o que o desmaio conseguiu, que foi colocar a cabeça na altura do coração.

Para quem mora sozinho, a conversa muda de assunto: passa a ser sobre quem olha. Combinar uma ligação diária com alguém, deixar o telefone perto da cama, evitar banho com a porta trancada nos primeiros dias. Morar sozinho não é diagnóstico, mas é uma variável legítima na decisão de observar por mais algumas horas — e vale dizer isso ao paciente, para que a observação não pareça arbitrária.

E há a família que quer que o parente fique internado "para fazer todos os exames". Nomeie o que a internação faria e o que ela não faria: "internar serve para vigiar o ritmo do coração e para adiantar exames que demoram. Não serve para descobrir hoje a causa de um desmaio que não está acontecendo agora. No caso dele, o que muda o resultado é voltar na data marcada com o exame que eu já pedi."

O que não prometer

Não prometa que não vai repetir. Ninguém sabe, e a promessa quebrada destrói a credibilidade das outras orientações, inclusive das que salvariam a próxima queda.

Não prometa que o coração está bom porque o eletrocardiograma está normal. Diga o que o exame de fato disse: que naquele momento o ritmo estava normal e não havia sinal de determinadas doenças. Um traçado normal num paciente que desmaiou em esforço não autoriza a frase "seu coração está ótimo".

Não prometa data de exame que não depende de você, nem diga "vai ser rápido" quando a fila é longa. Diga o caminho verdadeiro, com o nome do serviço e o papel na mão, e diga o que fazer se a data demorar. Uma expectativa honesta faz o paciente voltar; uma otimista faz ele desistir.

E não prometa que a causa vai aparecer. Uma parcela grande das síncopes fica sem etiologia definida mesmo depois da investigação — na coorte brasileira, foram 38,9%. Dizer isso desde o começo, com serenidade, evita que o paciente interprete a incerteza final como incompetência de alguém.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Para onde encaminhar a síncope de origem indeterminada e de baixo risco: cardiologia ou clínica

Para a medicina interna

A versão vigente do protocolo estadual de encaminhamento reserva a cardiologia para quatro situações nomeadas — sinais e sintomas de provável origem cardiológica, alteração compatível no eletrocardiograma, cardiopatia estabelecida e história familiar de morte súbita antes dos 40 anos — e dirige a síncope ou pré-síncope de origem indeterminada à medicina interna. A lógica é de sistema: a fila de cardiologia é curta e cara, e o paciente sem bandeira precisa de uma reavaliação ampla, que reveja medicamentos, volume, anemia e comorbidades, mais do que de um especialista de órgão.

TelessaúdeRS-UFRGS, Protocolos de encaminhamento para Neurologia Adulto, Protocolo 4, atualização de 06/05/2020

Para a cardiologia

A versão anterior do mesmo protocolo estadual listava a síncope ou pré-síncope de origem indeterminada como a quinta condição de encaminhamento à cardiologia, sem qualquer menção à medicina interna, e o protocolo municipal de Curitiba, de 2022, mantém essa formulação. A lógica aqui é de risco residual: o que sobra depois de excluído o benigno é justamente a suspeita de arritmia, e quem consegue estender a monitorização e indicar estudo eletrofisiológico é o cardiologista.

Versão anterior do protocolo do TelessaúdeRS-UFRGS, sem data interna e com bibliografia encerrada em 2018; e Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba, Protocolos de Encaminhamento, volume 15 (2022)

Como decidir

Repare no que a divergência realmente é: a mesma instituição mudou de lado entre duas versões do mesmo documento, e um município adotou a versão antiga. Isso significa que nenhuma das duas condutas é erro, e que a escolha é de arranjo local. Três perguntas resolvem à beira do leito. Primeira: o que existe na sua rede? Se a cardiologia da sua região demora oito meses e a clínica atende em três semanas, mandar para a fila mais longa é escolher que o paciente não seja avaliado. Segunda: o que ficou pendente de fato? Se o pendente é revisar seis medicamentos, investigar anemia e medir pressão em pé com calma, isso é clínica. Se o pendente é ver o ritmo por mais tempo, isso é cardiologia. Terceira: qual a reversibilidade do erro? O erro de mandar à clínica um caso arrítmico é caro, porque o tempo perdido é tempo de exposição; o erro de mandar à cardiologia um caso benigno é barato, custa uma consulta. Quando as bandeiras estão todas ausentes mas alguma coisa na história ainda incomoda você, essa assimetria justifica a fila mais especializada. E, nos dois caminhos, o encaminhamento vai com o traçado anexado e com a descrição do episódio, porque é isso que os dois protocolos exigem como conteúdo mínimo.

Sem bandeira de risco e sem leito de observação: observar horas com monitor ou liberar com retorno precoce

Liberar com retorno marcado

Os protocolos brasileiros de encaminhamento operam por exceção: eles nomeiam as condições que exigem emergência e tratam explicitamente a síncope vasovagal como quadro que usualmente não necessita de avaliação em serviço especializado. Quem não tem nenhuma dessas condições não tem indicação normativa de permanecer no serviço, e observar sem pergunta consome uma maca que, na realidade das unidades brasileiras, é o recurso mais escasso da porta.

TelessaúdeRS-UFRGS, Protocolo 4 (2020), e Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba, volume 15 (2022)

Observar com monitor por algumas horas

A única coorte brasileira publicada sobre o assunto mostra um limiar de permanência bem mais baixo do que o que se imagina: 39% dos pacientes atendidos por síncope foram internados, e 28,2% dos internados receberam marca-passo ou desfibrilador definitivo, o que só se descobre com o paciente dentro do serviço. O argumento é de rendimento: monitor ligado é o único exame capaz de dar diagnóstico durante a permanência, e a alta imediata encerra essa chance.

Fischer LM et al. Preditores de internação hospitalar em pacientes com síncope atendidos em hospital cardiológico. Arq Bras Cardiol. 2013;101(6):480-486

Como decidir

Antes de escolher, desconte o contexto da coorte: ela vem de um hospital exclusivamente cardiológico, onde a probabilidade pré-teste de causa cardíaca é maior do que na sua unidade de pronto atendimento, e onde havia leito monitorado disponível. Extrapolar aquele limiar de 39% para uma porta geral superestima o benefício de ficar. Feita essa correção, decida por três variáveis concretas. A primeira é o que a observação vai fazer: se você não vai monitorar de fato, com alarme ligado e traçado impresso a cada evento, ficar não acrescenta nada além de tempo em maca. A segunda é o retorno: alta com retorno marcado só é uma estratégia real se a data existir e o paciente conseguir chegar nela; sem isso, a alta é abandono com nome técnico. A terceira é quem é essa pessoa: mora sozinha, mora longe, tem quem perceba se cair? Nenhuma dessas três é fator de risco cardíaco, e as três mudam legitimamente a decisão. Quando as três apontam para fragilidade e não há bandeira nenhuma, algumas horas de observação com reavaliação da pressão em pé e segunda leitura do traçado costumam ser a escolha mais defensável — e ela precisa estar escrita no prontuário como decisão, não como espera.

Massagem do seio carotídeo no pronto-socorro

Tem lugar diagnóstico definido

A diretriz brasileira de dispositivos trata a resposta à massagem do seio carotídeo como critério formal: em paciente com síncope recorrente e mais de 40 anos, resposta cardioinibidora — pausa maior que 3 segundos, sinusal ou por bloqueio — ou resposta mista sustenta indicação de marca-passo com classe IIa e nível de evidência B, desde que na ausência de fármacos depressores da condução. Sem a manobra, essa população fica sem diagnóstico e sem tratamento, porque a síndrome não aparece em eletrocardiograma de repouso.

Diretriz Brasileira de Dispositivos Cardíacos Eletrônicos Implantáveis, 2023 (Arq Bras Cardiol. 2023;120(1):e20220892), Tabela 5

Não é manobra de plantão

O protocolo do SAMU proíbe a massagem de seio carotídeo em maiores de 60 anos, em quem tem sopro carotídeo à ausculta e em quem tem possibilidade de vasculopatia, o que exclui justamente a faixa etária em que a síndrome é prevalente. A revisão brasileira acrescenta como contraindicação o antecedente de acidente vascular cerebral ou ataque isquêmico transitório nos últimos três meses. O procedimento exige monitorização, ambiente controlado e experiência, e a indicação é diagnóstica eletiva, não de triagem.

Ministério da Saúde, Protocolos de Suporte Avançado de Vida do SAMU 192, protocolo AC14; e Boff CO, Schuch TF, Bodanese LC, Síncope: abordagem diagnóstica

Como decidir

A discordância aparente some quando se separa o cenário. As duas fontes falam de coisas diferentes: uma descreve a manobra como teste diagnóstico programado em quem já foi estratificado, a outra a proíbe como recurso de reversão de taquicardia no atendimento pré-hospitalar e em paciente não selecionado. Para o interno no plantão, a conduta prática é uma só: não faça a massagem de seio carotídeo como parte da avaliação inicial da síncope. O que muda a sua conduta hoje não é o resultado da manobra, é a bandeira e o traçado. O que você deve fazer é reconhecer a história que a torna pertinente — maior de 40 anos, síncope recorrente, episódios ligados a girar a cabeça, fazer a barba ou colarinho apertado — e escrever essa suspeita no encaminhamento, para que o serviço que tem monitor, experiência e tempo faça a manobra em condições seguras. E, mesmo lá, ela só é interpretável se o paciente não estiver em uso de fármacos que deprimem a condução, o que muitas vezes exige rever a prescrição antes do teste.

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O raciocínio, em voz alta

Divino Rocha, 61 anos, vigilante aposentado, trazido pelo SAMU depois de cair na fila da padaria às 10h de uma terça-feira. Chegou acordado, orientado e sem queixa. Pressão 128 por 80 deitado, frequência 62, saturação 97% em ar ambiente, glicemia capilar 118. Exame físico sem alterações, sem trauma visível, sem déficit. Usa losartana e hidroclorotiazida há oito anos. Refere um episódio semelhante dentro de um ônibus há cerca de quatro meses, que ninguém investigou. Quer ir embora. A senhora que estava atrás dele na fila veio na ambulância e está de saída.

  1. O que penso agora

    Tenho uma perda transitória da consciência com recuperação completa: até segunda ordem, é síncope. O exame normal não me tranquiliza, porque na síncope o exame é normal por definição — a doença, se existir, terminou antes da ambulância. Dois dados já pesam antes de qualquer exame: ele tem 61 anos e é a segunda vez. Segunda vez em quatro meses não é coincidência, é padrão.

  2. O que faço primeiro, e por quê

    Antes de conversar com o paciente, vou falar com a testemunha, porque ela é o único exame com prazo de validade. Peço as três perguntas na ordem: ficou branco antes de cair, ou só depois? Amoleceu ou ficou duro? Quando abriu os olhos, já sabia quem era a senhora? Em paralelo, peço o eletrocardiograma de 12 derivações e mantenho o monitor.

  3. O que a testemunha responde

    Ela diz que ele estava de costas, virou-se para pegar a senha e caiu no mesmo instante, sem levar as mãos à frente, e bateu o ombro no balcão. Não ficou branco antes — ela reparou na palidez só depois, já no chão. Não tremeu. Ficou apagado "o tempo de eu gritar duas vezes". Quando abriu os olhos, perguntou o que tinha acontecido e reconheceu a padaria imediatamente.

  4. Como isso muda o que penso

    Muda muito, e para pior. Não houve pródromo: nada de calor, suor ou escurecimento visual, e a palidez veio depois da queda, o que é consequência e não aviso. Ele desabou sem se proteger. Não estava em pé há muito tempo, não havia gatilho situacional, não havia calor nem jejum prolongado que expliquem o quadro. A recuperação foi imediata e sem confusão, o que afasta crise convulsiva. Isto tem a forma de síncope arrítmica, e a explicação de "fraqueza porque não tomou café" acaba de perder força.

  5. O que peço, e o que espero de cada coisa

    Eletrocardiograma de 12 derivações, para procurar substrato de arritmia — é o único exame que pode mudar o destino hoje. Pressão e frequência deitado e em pé, aos três minutos, porque ele usa diurético e anti-hipertensivo e eu preciso saber se há um mecanismo postural somado. Hemograma, porque ele usa medicação e eu quero excluir anemia por sangramento silencioso. Glicemia capilar já foi feita e está normal. Não peço tomografia de crânio: não há trauma craniano nem déficit focal, e a tomografia não responde nenhuma pergunta que eu tenha.

  6. O que volta

    Pressão deitado 128 por 80 com frequência 62; em pé, 122 por 78 com frequência 66 — sem hipotensão ortostática. Hemoglobina 13,8. O eletrocardiograma mostra ritmo sinusal a 58, com intervalo entre átrio e ventrículo alargado e uma onda P bloqueada isolada, precedida de alargamento progressivo dos intervalos anteriores, além de bloqueio completo de ramo direito.

  7. Como a resposta muda o que penso

    A medida não demonstrou hipotensão ortostática, mas uma aferição normal não elimina todas as formas intermitentes ou tardias. O ECG mostra Wenckebach associado a bloqueio de ramo direito. O Wenckebach costuma ser nodal, mas sintomas e QRS largo exigem cautela; essa associação não localiza sozinha todo o bloqueio. Síncope recorrente sem pródromo com doença de condução justifica monitorização e avaliação cardiológica para definir o mecanismo e eventual necessidade de estimulação.

  8. A pergunta que eu ainda não fiz

    Falta a pergunta que muda a hipótese etiológica no Brasil e custa dez segundos: de onde ele é e onde morou na infância. Ele conta que nasceu e morou até os dezoito anos na zona rural do norte de Minas, em casa de pau a pique, e que a mãe morreu "do coração", de repente, aos 62. Isso coloca cardiopatia chagásica no topo da lista de causas de bloqueio, e a diretriz brasileira de dispositivos é explícita ao apontar a miocardite crônica da doença de Chagas entre as causas infecciosas de bloqueio no nosso meio.

  9. A decisão de destino

    Internação em leito monitorado. A justificativa que escrevo no prontuário tem os achados, não adjetivos: síncope recorrente sem pródromo, em paciente de 61 anos, com bloqueio atrioventricular de segundo grau associado a bloqueio completo de ramo direito, e epidemiologia positiva para doença de Chagas. Peço sorologia para doença de Chagas e ecocardiograma junto com a admissão, não no dia seguinte. Deixo registrado que o marca-passo transcutâneo deve estar disponível à beira do leito, e que atropina não é confiável se o bloqueio evoluir para tipo II ou total com complexo largo.

  10. O que digo a ele

    "O senhor não desmaiou de fraqueza. O exame do coração mostrou que o comando elétrico dele está falhando de vez em quando, e é isso que derruba o senhor sem aviso. Por isso o senhor vai ficar internado com um monitor ligado: não é gravidade agora, é para ver essa falha acontecer e saber o tamanho dela. E, a partir de hoje, o senhor não dirige e não sobe em escada até a gente resolver isso." Anoto a orientação sobre dirigir no prontuário e no papel.

  11. O que teria acontecido se eu tivesse ido pelo caminho fácil

    Se eu tivesse aceitado "fraqueza, saiu sem café", com exame normal e paciente com pressa, teria liberado um homem com doença de condução em dois níveis e uma síncope sem pródromo. A segunda pergunta que eu não teria feito — a da testemunha — era a que transformava o caso. A terceira, a da epidemiologia, era a que dava nome a ele. Nenhuma das duas custava exame.

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Faça você

Sexta-feira, 15h40, unidade de pronto atendimento de um município de 90 mil habitantes. Chega Marivaldo Peçanha Filho, 34 anos, motorista de ônibus urbano, trazido por dois colegas da garagem. Ele estava no ponto final, fora do veículo, esperando a troca de turno, quando disse aos colegas que ia sentar porque estava "esquisito", e caiu antes de chegar ao banco. Um dos colegas viu tudo: diz que ele ficou pálido e suado antes, que amoleceu devagar, que ficou no chão "uns dez, quinze segundos" e que acordou perguntando o que tinha acontecido, mas reconhecendo os dois na hora. Não houve abalos, não houve mordedura de língua, não houve perda de urina. Está calor, e ele almoçou às onze. Marivaldo conta que já desmaiou duas vezes na vida, aos 19 anos ao doar sangue e aos 26 numa fila de banco, sempre com o mesmo aviso de calor e vista escura. Nunca teve problema de coração, não usa medicamento nenhum, não fuma. O pai está vivo, tem 63 anos e é hipertenso; não há morte súbita na família. Ao exame: corado, hidratado, orientado, sem trauma. Pressão 118 por 74 deitado com frequência 74; em pé, aos três minutos, 112 por 72 com frequência 84. Ausculta cardíaca com duas bulhas normofonéticas, sem sopros. Pulmões limpos. Exame neurológico sem alterações. Glicemia capilar 96. O eletrocardiograma de 12 derivações mostra ritmo sinusal a 72, com intervalos, eixo, duração do complexo e repolarização dentro dos limites da normalidade. A unidade tem duas macas de observação, ambas ocupadas, e a próxima consulta de cardiologia da região está marcando para daqui a sete meses.

  1. Passo 1

    Classifique o episódio pela definição: houve perda transitória da consciência, de instalação rápida, curta duração e recuperação espontânea e completa? Nomeie qual parte da definição cada dado do caso preenche.

  2. Passo 2

    Percorra a tabela de bandeiras, eixo por eixo — o que estava fazendo, gatilho, o que sentiu antes, como caiu, como voltou, coração, família, traçado, exame na sala, repetição — e diga, para cada eixo, se este caso aponta alto ou baixo risco.

  3. Passo 3

    Interprete a medida de pressão em pé. A queda encontrada preenche o critério de hipotensão ortostática? E o comportamento da frequência cardíaca, o que informa sobre o arco reflexo?

  4. Passo 4

    Decida quais exames complementares além do eletrocardiograma são necessários neste caso, e escreva a pergunta que cada um responderia. Se a sua resposta for nenhum, justifique.

  5. Passo 5

    Escolha o destino entre internação em leito monitorado, observação com monitor por algumas horas e alta com retorno marcado — considerando que as duas macas de observação estão ocupadas.

  6. Passo 6

    Escreva, em uma linha, a justificativa da decisão de destino, do jeito que ela iria para o prontuário.

  7. Passo 7 — o passo em branco

    Escreva, com as palavras que você usaria, a orientação sobre dirigir que este paciente leva por escrito, e diga a quem ela é entregue além dele. Depois responda: o que muda no encaminhamento pelo fato de ele ser motorista profissional?

Ver como fecharíamos

Passo 1. Preenche a definição inteira: perda transitória da consciência (os colegas confirmam que ele não respondia), instalação rápida (segundos entre o aviso e a queda), curta duração (dez a quinze segundos, contados por testemunha), e recuperação espontânea e completa — ele reconheceu os colegas imediatamente, sem confusão pós-evento. É síncope. A ausência de abalos, de mordedura de língua e de período confusional afasta crise convulsiva pelos critérios do quadro brasileiro. A glicemia normal e a recuperação sem intervenção afastam hipoglicemia. O exame neurológico normal afasta a via do déficit focal. Passo 2. Todos os dez eixos apontam baixo risco, e vale nomeá-los um a um porque é essa lista que sustenta a decisão. O que estava fazendo: em pé e parado, esperando, em dia quente — circunstância clássica de represamento venoso. Gatilho: calor e ortostatismo prolongado, e ele tem histórico de gatilhos reflexos típicos, doação de sangue e fila. O que sentiu antes: pródromo presente, com palidez e sudorese vistas pela testemunha, e sensação prévia suficiente para ele decidir sentar. Como caiu: amoleceu devagar, sem trauma. Como voltou: rápido e orientado, sem dor torácica, dispneia ou palpitação. Coração: sem cardiopatia conhecida, sem sopro, sem medicamento. Família: sem morte súbita antes dos 40 anos. Traçado: normal. Exame na sala: normal. Repetição: três episódios em quinze anos, todos com o mesmo gatilho e o mesmo aviso — padrão estereotipado e benigno, muito diferente de episódios que se aproximam e perdem o aviso. Nenhuma bandeira de alto risco. Passo 3. A queda foi de 6 mmHg na sistólica e de 2 mmHg na diastólica, muito abaixo do critério de 20 e 10 mmHg: não há hipotensão ortostática. A frequência subiu de 74 para 84, resposta compatível com adaptação ao ortostatismo, sem demonstrar que todo o arco reflexo seja normal. Os dados não demonstram hipotensão ortostática nesta avaliação, sem excluir formas intermitentes ou tardias e são compatíveis com um evento reflexo agudo, deflagrado por calor e ortostatismo prolongado, que já se resolveu. Passo 4. Nenhum exame adicional é necessário. A glicemia capilar já foi feita e é normal. Não há palidez, taquicardia, sangramento, uso de anti-inflamatório ou anticoagulante que justifiquem hemograma, e não se aplica o teste de gravidez. Não há dor torácica nem alteração isquêmica no traçado, de modo que troponina não tem pergunta a responder e, pedida sem pergunta, tende a gerar internação e cateterismo por elevações discretas. Não há sopro, cardiopatia conhecida, traçado alterado nem síncope de esforço, então o ecocardiograma não está indicado agora. Não houve trauma craniano nem déficit focal: tomografia de crânio não responde nada. Não há hipótese de crise convulsiva: eletroencefalograma seria pedido para uma pergunta que não existe. Passo 5. Alta com orientação escrita e retorno marcado. É o caminho da maioria dos casos e é o correto aqui, e não porque as macas estão ocupadas — a lotação não deve entrar na decisão clínica, embora a decisão felizmente coincida com ela. Não há bandeira alguma; o gatilho é claro; o pródromo é típico; exame e traçado são normais; o padrão se repete estereotipado há quinze anos. Observar com monitor não acrescentaria informação, porque não há suspeita de arritmia a documentar. Internar seria expor a exames em cascata e ensinar o paciente a temer um desmaio benigno. Passo 6. Justificativa em uma linha para o prontuário: "Síncope reflexa em ortostatismo prolongado com calor, com pródromo típico e testemunhado, terceiro episódio estereotipado desde os 19 anos, sem cardiopatia conhecida, sem história familiar de morte súbita precoce, exame físico e eletrocardiograma de 12 derivações normais, sem hipotensão ortostática — sem bandeira de alto risco; alta com orientação escrita e retorno em sete dias." Passo 7. A orientação por escrito, na folha de alta e repetida no prontuário: "O senhor teve um desmaio comum, do tipo que acontece por ficar muito tempo em pé no calor. Se sentir de novo aquele calor, o suor e a vista escurecendo, deite no chão na hora e levante as pernas — não procure banco nem banheiro. Beba água ao longo do dia, não pule refeições e não fique parado em pé no sol. Enquanto isso, não dirija até a consulta de retorno, e avise a empresa de que você está em avaliação médica." A orientação é entregue a ele e explicada na frente de um dos colegas ou de um familiar, porque quem repete a instrução em voz alta é quem vai lembrar dela. E ela é registrada no prontuário com a data — o médico do pronto atendimento não suspende habilitação de ninguém, mas a orientação médica escrita é o instrumento que ele tem, e a decisão formal de aptidão pertence ao médico perito examinador de trânsito, nos termos da Resolução Contran nº 927/2022. O fato de ele ser motorista profissional muda três coisas, e nenhuma delas é o diagnóstico. Primeira: muda a consequência de errar. Um desmaio benigno ao volante de um ônibus urbano deixa de ser um evento pessoal, e por isso a barra para "tenho certeza de que é reflexo" sobe, mesmo que a conclusão continue a mesma. Segunda: muda a urgência do encaminhamento e o que se escreve nele. O caso vai com relatório, com o traçado anexado e com a descrição do gatilho, para que a avaliação ocupacional e a próxima aptidão física e mental sejam feitas com informação, e não com a palavra "desmaio" solta num atestado. A própria diretriz brasileira de dispositivos trata motorista profissional, operador de máquinas, piloto e atleta competitivo como grupo em que a conduta na síncope reflexa se torna mais cautelosa. Terceira: muda a conversa sobre renda. Dizer "não dirija" a quem dirige para viver exige reconhecer o custo em voz alta, dar prazo definido e marcar o retorno — orientação sem data, para esse paciente, é orientação que não será cumprida.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A pergunta certa é sempre o que o exame responderia. A síncope é uma queda global e transitória de perfusão: o cérebro fica alguns segundos sem fluxo suficiente, apaga, e volta ao normal quando o fluxo retorna, sem deixar marca estrutural. As lesões que a neuroimagem enxerga produzem outra coisa — déficit focal, cefaleia de início súbito, rebaixamento persistente —, e nada disso está presente numa paciente que acordou íntegra e tem exame neurológico normal. Os protocolos brasileiros de encaminhamento pedem o eletrocardiograma como conteúdo mínimo do caso de síncope e reservam a via neurológica para quem tem sinal ou sintoma neurológico ou suspeita de crise convulsiva. A janela de 24 horas descreve a evolução da imagem no acidente vascular cerebral isquêmico, e não se aplica a quem não tem déficit. Idade e história familiar de epilepsia não são o critério que abre ou fecha a indicação de neuroimagem aqui. E trocar por ressonância não resolve nada, porque o problema não é a resolução do método: é a ausência de uma pergunta que a imagem possa responder.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Compare a síncope reflexa com a queda súbita sem aviso e ECG alterado. Depois calcule a atropina de 1 mg na apresentação de 0,25 mg/mL e explique por que não esperar o teto antes do marca-passo.

Em 30 dias

Conduza uma síncope com ortostatismo positivo e bloqueio no ECG. Explique quais hipóteses coexistem, quais exames podem mudar a conduta e como decidir o destino.

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Agora atenda

Agora atenda. O paciente que chega depois de um desmaio parece o mais fácil da fila: está acordado, conversa, quer ir embora. É por isso que ele é um dos melhores casos para treinar o que este capítulo ensina — porque tudo o que decide está no que você pergunta, e nada está no que você vê. Conduza a anamnese nos três tempos, insista na testemunha antes que ela vá embora, meça a pressão deitado e em pé, peça o eletrocardiograma sem negociar, e termine escolhendo um destino com uma justificativa que cite achados. Se você chegar ao fim do atendimento sem saber dizer se houve pródromo, se houve gatilho e quanto tempo ele ficou apagado, o caso ainda não foi feito — mesmo que o exame esteja todo normal.

Síncope no pronto-socorro — Internato | OsceLabs