Cirurgia Geral › Urgência e Emergência Cirúrgica
A mesma pedra, três destinos
Colecistite aguda e colelitíase (critérios de Tóquio)
Diferenciar cólica biliar, colecistite e colangite pelo mecanismo, pela evolução e pelos exames; organizar tratamento definitivo na oportunidade adequada.
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Responda antes de ler
Homem de 79 anos, com insuficiência cardíaca avançada e doença renal crônica, tem colecistite aguda e sepse. Após estabilização e avaliação multidisciplinar, é considerado operável, apesar do risco elevado. O plantão discute entre colecistectomia laparoscópica imediata e drenagem percutânea da vesícula. O que a diretriz de urgência de 2020 recomenda como primeira escolha no paciente de alto risco?
O paciente que você vai ver
Sábado, dez e vinte da manhã. O hospital é geral, tem cento e dez leitos e é a única porta cirúrgica de uma microrregião de cinco municípios que somam setenta mil pessoas. Tem centro cirúrgico com duas salas, uma delas travada até segunda-feira porque o aparelho de anestesia está esperando peça. Tem ultrassonografista de sobreaviso, que atende chamado e mora a quinze minutos. Não tem endoscopista. O hospital estadual que faz colangiopancreatografia retrógrada endoscópica fica a cento e sessenta quilômetros. Você é o interno da escala do fim de semana, com um cirurgião de plantão que está no centro cirúrgico desde as oito com uma hérnia encarcerada.
Sobre o balcão do posto há duas fichas, e a classificação de risco escreveu quase a mesma coisa nas duas. Numa está dor no lado direito da barriga, começou de madrugada. Na outra, dor no lado direito da barriga há dois dias. As duas pulseiras são amarelas. As duas pessoas estão sentadas na mesma fileira de cadeiras do corredor, a três metros uma da outra, e as duas vão sair deste plantão com um diagnóstico que contém a palavra pedra.
Uma vai para casa hoje, com uma cirurgia marcada e uma folha de sinais de alarme na mão. A outra não vai para casa: fica internada, e a decisão que você tomar sobre ela nas próximas horas define se a vesícula sai nesta internação ou se ela volta daqui a seis semanas, provavelmente pior. As duas têm cálculo na vesícula. As duas vão ter, no laudo da ultrassonografia, a mesma primeira linha. E a diferença entre as duas não está no laudo.
Está no relógio. Nadir Brochado tem 47 anos, é auxiliar de lavanderia de um hotel, e a dor dela começou às três da manhã, depois de uma feijoada de aniversário. Doeu forte por quase duas horas, ela vomitou duas vezes, tomou um comprimido que a vizinha deu e dormiu. Acordou às oito sem dor nenhuma. Veio ao hospital porque foi a terceira vez este ano, e desta vez ela quer saber o que é. Rufino Godinho tem 71 anos, é aposentado da prefeitura, tem hipertensão e diabetes, e a dor dele começou anteontem à noite e não parou mais. Ele não vomitou. Ele parou de comer. Está com 37,9 graus e não sabe que está com febre.
Às quatro da manhã de domingo, dezoito horas depois, a ambulância de um município vizinho vai trazer uma terceira pessoa com dor no mesmo lugar, e essa terceira não é da mesma família de problema. Vai chegar amarela, tremendo de frio debaixo de dois cobertores, com pressão de 88 por 54 e falando coisas que não fazem sentido. A pedra dela também está na mesma árvore biliar, mas desceu mais um pouco, e o que ela tem não se resolve com uma operação marcada para a semana que vem: se resolve esta noite, ao telefone, com o hospital que fica a cento e sessenta quilômetros.
Este capítulo é sobre essas três pessoas e sobre as três decisões diferentes que a mesma pedra obriga a tomar. A primeira decisão é de destino: quem vai para casa e quem fica. A segunda é de prazo: quando a vesícula sai, e por que a resposta moderna é cedo, e não depois que esfriar. A terceira é de reconhecimento: quando o que está na sua frente já não é doença da vesícula, e sim da via biliar, com outro relógio e outra ordem de atos.
Quem adoece disso
Cálculo de vesícula é achado comum e doença incomum, e a distância entre as duas coisas é o que organiza este capítulo. Estudos brasileiros de necropsia citados pelo protocolo de regulação em uso no país encontraram litíase vesicular em 9,1 a 19,4 por cento da população acima de 20 anos. O mesmo documento registra que a maioria dos portadores nunca terá sintoma, que se espera que cerca de 20 por cento apresentem dor biliar típica ao longo da vida, e que 1 a 2 por cento evoluam com alguma complicação da doença a cada ano. Traduzido para o corredor: em cada dez pessoas que passam por você numa manhã de ambulatório, uma ou duas carregam pedra, e a esmagadora maioria delas nunca vai saber disso.
O 1 a 2 por cento ao ano é o número que interessa ao plantão, porque é ele que enche a fila. Ele é pequeno olhado de perto e enorme olhado de longe: aplicado a uma população em que uma em cada oito pessoas adultas tem cálculo, produz um fluxo constante de dor em hipocôndrio direito na porta de qualquer pronto-socorro brasileiro. A colecistectomia é, por isso, uma das operações abdominais mais realizadas do mundo, e no Brasil ela é um procedimento de fila regulada: o protocolo de encaminhamento de cirurgia geral adulto em uso trata a litíase biliar como condição eletiva, com uma exceção explícita de prioridade para quem já teve complicação prévia e ainda não operou.
Quando a inflamação da vesícula se instala, a letalidade é baixa, mas não é zero, e ela não se distribui por igual. A régua de Tóquio registra que a mortalidade da colecistite aguda gira em torno de 1 por cento. Na série que a própria régua usa para se validar, a mortalidade em 30 dias foi de 1,1 por cento no grau leve, 0,8 por cento no moderado e 5,4 por cento no grave. Ou seja: o risco de morrer de colecistite está quase todo concentrado num subgrupo pequeno, e o resto da distribuição é plano. A operação também não é inócua: a diretriz de urgência de 2020 registra mortalidade da colecistectomia entre 0,1 e 1 por cento, lesão de via biliar em 0,2 a 1,5 por cento dos casos e complicações maiores em 6 a 9 por cento.
A colangite é outra doença e tem outros números. Na maior série publicada com a régua de Tóquio, 6.063 pacientes tratados no Japão e em Taiwan, um quarto chegou já com disfunção de órgão, e a mortalidade global em 30 dias foi de 162 óbitos em 6.063 pacientes, ou 2,7 por cento — mais alta que a da colecistite, num quadro que costuma ser confundido com ela na porta. A distribuição por gravidade nessa série foi de 41,6 por cento leves, 33,3 por cento moderados e 25,1 por cento graves. Guarde a proporção: um em cada quatro pacientes com colangite chega ao serviço já com um órgão falhando, e é por isso que o reconhecimento dela é um item de plantão, não de ambulatório.
Por que acontece o que acontece
A vesícula fabrica pedra o tempo todo e não é isso que adoece ninguém. O que adoece é a pedra que sai do lugar. A partir do momento em que um cálculo deixa o fundo da vesícula e entra num ducto, existem três endereços possíveis para ele parar, e cada endereço produz uma doença diferente, com um relógio diferente e uma conduta diferente. É por isso que a frase colelitíase, sozinha, num laudo, não diz o que fazer com o paciente.
Endereço um: o ducto cístico, que é o canal curto por onde a vesícula esvazia. Um cálculo encravado ali fecha a saída de um órgão que continua secretando e continua sendo estimulado a contrair. A vesícula distende. A parede, distendida, tem o próprio fluxo sanguíneo comprometido, e a bile retida agride quimicamente a mucosa antes de qualquer bactéria entrar em cena. Isso é a colecistite aguda: uma obstrução que não se resolveu, com inflamação de parede em cima. A infecção bacteriana, quando vem, vem depois — e essa ordem dos fatos é a razão de o antibiótico não ser o centro do tratamento.
Se o cálculo desencrava em minutos ou em uma ou duas horas, a vesícula esvazia, a parede não inflama e o episódio inteiro termina em dor. Isso é a chamada cólica biliar, e o nome é ruim. O protocolo brasileiro em uso descreve bem por quê: cólica é dor que alterna picos e vales em segundos ou poucos minutos, e a dor biliar não faz isso. Ela é espástica, sobe progressivamente de intensidade, dura vários minutos e na maioria das vezes horas até ceder, espontaneamente ou com analgésico. O mesmo documento localiza a dor no hipocôndrio direito, no epigástrio e no dorso à direita, e registra a associação com alimento gorduroso 20 a 40 minutos antes, que é o tempo que o estímulo leva para fazer a vesícula se contrair contra uma saída bloqueada.
É essa mecânica que dá sentido ao sinal de Murphy. Na inspiração profunda, o diafragma empurra o fígado para baixo, e o fundo da vesícula — que na colecistite está distendido e com a parede inflamada — desce contra a mão do examinador apoiada abaixo da borda costal direita. O paciente interrompe a inspiração no meio. O sinal não testa dor: testa se existe um órgão inflamado exatamente naquele ponto, e é por isso que ele perde sentido quando o examinador aperta o abdome inteiro em vez de apoiar a mão e esperar a respiração fazer o trabalho.
Se a obstrução do cístico persiste, a distensão vira isquemia de parede e a parede necrosa: colecistite gangrenosa. A régua de Tóquio classifica a forma gangrenosa como moderada, e não como grave, porque a graduação dela mede disfunção de órgão à distância, não destruição local — uma escolha de eixo que o próprio documento assume e que o leitor precisa entender para não achar que gangrena é diagnóstico tranquilo. Ao lado dela ficam o abscesso perivesicular, o abscesso hepático, a peritonite biliar e a colecistite enfisematosa, em que bactérias produtoras de gás povoam a parede e a luz do órgão, quadro mais visto em diabéticos.
Existe também a colecistite sem pedra, que aparece no paciente crítico, internado, em jejum prolongado, com má perfusão esplâncnica — aquele em que a vesícula não esvazia há dias por falta de estímulo e sofre por isquemia, não por obstrução. Ela usa a mesma régua diagnóstica e a mesma graduação, mas nasce de outro caminho, e a diretriz de urgência de 2020 se limita explicitamente à forma calculosa. Neste capítulo ela aparece só como diferencial: o paciente que desenvolve colecistite dentro do hospital, e não o que chega com ela pela porta.
Endereço dois: o colédoco. O cálculo que passa do cístico e desce pela via biliar principal pode ficar parado ali. Se ele obstrui sem infectar, o paciente fica ictérico, com colúria e às vezes acolia, sem febre: é a coledocolitíase. Se a bile retida atrás da obstrução infecta, a pressão dentro da árvore biliar sobe acima da pressão de secreção, e bile infectada sob pressão passa para o sangue pelos sinusoides hepáticos. Isso é a colangite aguda, e é por isso que ela é sistêmica desde o primeiro dia: o paciente não tem uma bolsa inflamada no quadrante superior direito, tem bacteremia com fonte fechada. Antibiótico numa fonte sob pressão trata metade do problema — o que resolve é tirar a pressão.
Endereço três é a papila, onde o ducto pancreático e a via biliar se encontram, e o que acontece ali é a pancreatite aguda biliar, que é o capítulo anterior desta apostila e não este. A divisão entre os dois é limpa e vale nos dois sentidos: o que a pancreatite obriga a fazer com a via biliar — quando o procedimento endoscópico de urgência é indicado, quando a colecistectomia entra na mesma internação e quando ela é adiada por coleções — está lá; a inflamação da vesícula em si, a graduação de Tóquio e o reconhecimento da colangite estão aqui.

Como se apresenta de verdade
Abaixo está a anamnese e o exame de quem chega com dor no hipocôndrio direito e tem, ou pode ter, cálculo na vesícula. A ordem das seções é a ordem em que a informação muda a decisão, e não a ordem do formulário de anamnese: primeiro o relógio, depois o exame, depois os sinais sistêmicos, depois a icterícia, depois quem esconde tudo isso.
As fronteiras valem aqui de forma explícita. A dor em fossa ilíaca direita é do capítulo de apendicite aguda, o primeiro desta apostila. A dor epigástrica em faixa com irradiação dorsal e enzima elevada é da pancreatite aguda, o segundo. O abdome que para de eliminar gases, distende e vomita pertence à obstrução intestinal, o terceiro. E o quadrante inferior esquerdo doloroso depois dos cinquenta anos é da diverticulite, o quarto. O mapa geral de quem opera, quem investiga e quem vai para casa com dor abdominal é do capítulo Dor abdominal no pronto-socorro. Aqui o recorte é estreito de propósito: o quadrante superior direito, e a árvore biliar dentro dele.
O relógio é o primeiro dado, e ele quase nunca está na ficha
A pergunta que separa as duas primeiras doenças deste capítulo não é onde dói nem quanto dói: é há quanto tempo dói sem parar. O protocolo brasileiro de regulação em uso descreve a passagem de um quadro para o outro exatamente assim: na colecistite aguda a dor passa a ser mais intensa e mais duradoura, mais que seis horas. Abaixo disso, e com o paciente já sem dor no momento do atendimento, o que houve foi uma obstrução transitória do cístico que se resolveu sozinha.
Anote a hora de início da dor, e não a hora da admissão. As duas costumam estar separadas por meia noite inteira, e é a primeira que conta para tudo o que vem depois — inclusive para o prazo cirúrgico, que a régua de Tóquio conta a partir do início dos sintomas e não da chegada ao hospital. Um prontuário que diz apenas dor há um dia não permite decidir nada; um que diz dor contínua desde as três da manhã de sexta-feira permite decidir tudo.
Pergunte também quantas vezes já aconteceu. A dor biliar que se repete é uma das informações mais baratas e mais decisivas da consulta: ela transforma um episódio isolado em doença com indicação cirúrgica estabelecida, e é ela que o protocolo brasileiro de encaminhamento usa para dar prioridade na fila. Três episódios em um ano, ainda que curtos, não são três sustos: são três avisos de um órgão que vai voltar.
O gatilho alimentar ajuda, mas não decide. A associação clássica com refeição gordurosa 20 a 40 minutos antes está no protocolo brasileiro, e é útil para reconhecer o padrão; a ausência dela não afasta nada. Muita dor biliar acontece de madrugada, sem refeição nenhuma no meio, e o paciente que jura que não comeu nada diferente continua podendo estar com o cístico obstruído.
O sinal de Murphy, e o que ele não é
O sinal de Murphy é o primeiro dos dois achados locais que a régua de Tóquio aceita como item A, e o outro é massa, dor ou sensibilidade no quadrante superior direito. Ou seja: a régua não exige Murphy. Ela exige um sinal local, e Murphy é um deles.
Isso importa porque o sinal é pouco sensível quando usado sozinho. A própria revisão da régua registra que, no estudo de validação da versão de 2007, o sinal de Murphy tinha 20,5 por cento de sensibilidade contra 87,5 por cento de especificidade, e que o conjunto dos critérios era significativamente mais acurado que o sinal isolado. Traduzindo para o plantão: Murphy positivo pesa muito a favor; Murphy negativo não tira colecistite de ninguém.
Faça o sinal do jeito que ele funciona. Mão espalmada sob a borda costal direita, na linha hemiclavicular, pressão constante e suave, e o pedido de uma inspiração profunda. O achado é a interrupção brusca da inspiração, não o paciente dizer que dói. Compare com o lado esquerdo na mesma manobra: quem interrompe a respiração dos dois lados está com abdome difusamente doloroso, e isso é outra conversa.
No exame do abdome, procure também o que muda a graduação: massa palpável e dolorosa no quadrante superior direito é um dos itens que promovem o caso a moderado na régua de Tóquio, e é um achado de mão, não de imagem. Vale a pena examinar antes de pedir a ultrassonografia, porque depois do laudo ninguém volta a examinar.
Febre, leucócitos e proteína C reativa: o item que quase todo mundo já pediu
O item B da régua de Tóquio é o sinal sistêmico de inflamação, e ele se preenche com qualquer um de três achados: febre, proteína C reativa elevada ou leucometria elevada. É o item mais fácil de completar e o mais inespecífico dos três, e é por isso que ele não fecha diagnóstico sozinho.
A diretriz de urgência de 2020 abre a seção de diagnóstico com uma recomendação de qualidade alta e força forte que vale a pena decorar em uma linha: não confie em um único achado clínico ou laboratorial para estabelecer ou excluir colecistite aguda. Na sequência, ela sugere combinar história detalhada, exame completo, exames laboratoriais e imagem — e admite, com honestidade rara em documento de sociedade, que a melhor combinação não é conhecida.
O número que a graduação usa é outro: a leucometria acima de 18.000 por milímetro cúbico é um dos itens que promovem a colecistite a moderada. Note a distância entre os dois usos do mesmo exame. Uma leucometria de 13.000 preenche o item B do diagnóstico e não muda o grau; uma de 19.000 preenche o item B e muda o grau, o prazo e a conversa com o cirurgião. É a mesma linha do hemograma fazendo dois trabalhos diferentes.
Febre alta com calafrio franco, aquele em que o paciente treme e pede cobertor, empurra o raciocínio para fora da vesícula. Ela é o primeiro item do diagnóstico de colangite, e o corte na régua é temperatura acima de 38 graus. Colecistite costuma dar febre baixa; tremedeira com dente batendo, num paciente com pedra, é sinal de que a bile está infectada sob pressão em algum lugar mais abaixo.
Icterícia no paciente com pedra: três causas e uma pergunta
Icterícia num paciente com cálculo de vesícula não é detalhe de exame físico: é uma bifurcação. Ela pode significar cálculo no colédoco sem infecção, cálculo no colédoco com infecção, ou inflamação vizinha comprimindo a via biliar sem cálculo dentro dela. As três têm condutas distintas e prazos distintos.
A pergunta que separa é a febre. O protocolo brasileiro de regulação em uso organiza exatamente assim os dois cenários: colelitíase com icterícia e sem febre é encaminhamento cirúrgico com prioridade alta, cerca de duas semanas, com hidratação oral rigorosa e orientação; colelitíase com icterícia e febre é jejum, acesso venoso, hidratação com Ringer com lactato, analgesia e chamada imediata ao serviço de urgência. É o mesmo paciente com um sintoma a mais, e o destino muda de ambulatório para ambulância.
Procure colúria e acolia, que são mais precoces e mais confiáveis que a cor da esclera sob luz de corredor. E lembre-se de que a icterícia falta em boa parte das colangites: a régua de Tóquio registra que a icterícia, que é um dos três componentes da tríade clássica, aparece em 60 a 70 por cento dos pacientes com colangite, e é justamente por isso que a régua aceita fechar colestase por alteração de enzimas, sem icterícia visível.
Um dado da régua de Tóquio que muda a leitura do exame físico: numa análise de sobrevida dos pacientes com colecistite grave, a icterícia foi o preditor mais forte de morte em 30 dias, com razão de chances de 6,470 e intervalo de confiança de 2,446 a 17,110. Icterícia não faz parte dos critérios que definem o grau grave da colecistite — mas, dentro do grupo já grave, é o que mais separa quem morre de quem sobrevive.
Quem esconde a doença: o idoso, o diabético e o imunossuprimido
A apresentação clássica é de uma mulher de meia-idade com dor forte, Murphy inequívoco e febre. O plantão brasileiro não é feito só disso. O idoso com colecistite pode chegar sem febre, com dor vaga e com leucometria normal, e o primeiro sinal de que algo está errado pode ser confusão, queda ou recusa alimentar. Anorexia de dois dias num idoso com pedra conhecida é história de doença, não de falta de apetite.
O diabético merece atenção dupla. Ele tende a apresentar quadro mais pobre e tem mais formas destrutivas, incluindo a colecistite enfisematosa. Se a dor está desproporcional ao exame, ou se a evolução é rápida demais para o que a mão encontra, o exame que responde é a tomografia com contraste, e não a repetição da ultrassonografia.
No imunossuprimido, a inflamação que produz os sinais do item B pode simplesmente não acontecer. Aqui a régua de Tóquio funciona pior, porque dois dos três itens dela dependem de resposta inflamatória. Não existe atalho: a decisão volta a ser clínica, e a imagem pesa mais do que pesaria em outra pessoa.
Vale o mesmo aviso do outro lado. A régua de Tóquio para colangite registra que sua principal limitação é justamente a dificuldade de diagnosticar casos leves e pacientes sem resposta inflamatória sistêmica. Nas duas doenças, portanto, a régua erra na mesma direção: ela é boa para confirmar quem está doente e insuficiente para excluir quem parece pouco doente.
Quando não é a vesícula
Dor no quadrante superior direito não é sinônimo de vesícula, e a pedra encontrada na ultrassonografia é a armadilha mais frequente do capítulo: uma em cada oito pessoas tem cálculo, então achar cálculo em quem dói não prova que o cálculo é a causa. O protocolo brasileiro de regulação em uso escreve isso com todas as letras, ao advertir que o médico deve ser cauteloso ao atribuir à colelitíase as queixas abdominais.
Os dois diferenciais que mais custam caro por baixo do rebordo costal direito são torácicos. Pneumonia de base direita e síndrome coronariana de parede inferior dão dor alta no abdome, e as duas têm capítulo próprio no Internato: Pneumonia na comunidade e IAM com supradesnível de ST. Um eletrocardiograma e uma ausculta pulmonar custam menos que uma ultrassonografia e resolvem a dúvida antes dela.
Do lado abdominal, além dos quatro vizinhos já cedidos, entram a úlcera péptica perfurada, a hepatite aguda e a pielonefrite direita. A régua de Tóquio pede explicitamente que hepatite aguda, outras doenças abdominais agudas e colecistite crônica sejam excluídas antes de aplicar os critérios. Hepatite B tem capítulo próprio nesta apostila, e é para lá que vai a investigação sorológica quando o padrão do hepatograma for de lesão hepatocelular franca e não de colestase.
Um lembrete que economiza exame: a lipase e a amilase elevadas não pertencem só ao pâncreas. A própria diretriz que o capítulo de pancreatite usa arrola a colecistite aguda entre os quadros extrapancreáticos capazes de elevar a lipase. Uma lipase duas vezes acima do limite num paciente com Murphy positivo e parede vesicular espessada não transforma colecistite em pancreatite.
Como fechar o diagnóstico
Investigar dor em hipocôndrio direito com suspeita de doença biliar tem três objetivos que precisam ficar separados na sua cabeça, porque eles pedem exames diferentes e respondem em tempos diferentes. O primeiro é dizer se a vesícula está inflamada. O segundo é dizer se existe cálculo no colédoco. O terceiro é graduar a gravidade do que já se sabe. Confundir os três é o que faz um plantão pedir tomografia às onze da noite para responder uma pergunta que a ultrassonografia já tinha respondido.
Nenhum exame deste bloco decide sozinho. A frase de abertura da diretriz de urgência de 2020 é uma recomendação formal, com qualidade de evidência alta e força forte, contra confiar em achado isolado — e ela vale tanto para o Murphy quanto para o laudo.
A ultrassonografia é o primeiro exame, e não é por ser boa
A diretriz de urgência de 2020 recomenda a ultrassonografia como técnica inicial de imagem preferida, com qualidade de evidência alta e força forte, e explicita os motivos: custo-efetividade, ampla disponibilidade, invasividade reduzida e boa acurácia para cálculo. Repare no que a justificativa não diz. Ela não diz que a ultrassonografia é o exame mais acurado para colecistite; diz que ela é boa para pedra e que é a que existe em todo lugar.
Os números confirmam a modéstia. A metanálise citada pela régua de Tóquio dá à ultrassonografia 81 por cento de sensibilidade, com intervalo de confiança de 0,75 a 0,87, e 83 por cento de especificidade, com intervalo de 0,74 a 0,89, para o diagnóstico de colecistite aguda. A própria diretriz de 2020 acrescenta um comentário desconfortável: o exame é confiável como método de investigação, mas pode ter utilidade limitada para confirmar ou afastar colecistite, dependendo dos critérios ultrassonográficos adotados por quem laudou.
Traduzido para o plantão: cerca de um em cada cinco pacientes com colecistite terá um laudo que não diz colecistite. Se o quadro clínico é típico e a inflamação está lá na sua mão, um laudo que descreve apenas cálculos não afasta o diagnóstico — ele apenas não contribuiu para fechá-lo. Nada disso desqualifica o método nem justifica substituí-lo pela tomografia.
A régua de Tóquio recomenda a ultrassonografia como escolha de primeira linha para o diagnóstico morfológico com recomendação 1 e nível de evidência C, isto é, força alta apoiada em evidência fraca — e registra, com franqueza, que todos os estudos que compararam a ultrassonografia com a cintilografia hepatobiliar encontraram rendimento diagnóstico maior para a cintilografia. Ela recomenda a ultrassonografia mesmo assim, e explica: é barata, é não invasiva e está em todo lugar. É uma escolha logística assumida como tal.
O laudo responde três perguntas e ignora uma quarta
Ela responde bem se existe cálculo dentro da vesícula. Esse é o achado para o qual o método foi feito, e é ele que muda a vida do paciente a médio prazo: a partir de um laudo que diz cálculos, existe uma doença que se resolve com uma operação. Ela também responde razoavelmente sobre espessamento de parede, distensão do órgão, líquido perivesicular e o sinal de Murphy feito com o transdutor.
Ela responde mal sobre a extensão da inflamação. A régua de Tóquio registra que os sinais de irregularidade ou de rotura da parede vesicular são frequentemente subestimados na ultrassonografia abdominal, e é por isso que a suspeita de forma gangrenosa muda o exame pedido. Para gangrena, a recomendação é tomografia com contraste ou ressonância com contraste, com recomendação 2 e nível C; o sinal de interrupção do realce da parede na tomografia tem 73 por cento de sensibilidade e 95 por cento de valor preditivo negativo.
Ela responde mal sobre o colédoco, e esse é o ponto mais caro. A ultrassonografia enxerga o cálculo dentro do colédoco com sensibilidade baixa: a metanálise citada pela diretriz de 2020 mostra sensibilidade variando de 0,32 a 1,00, com estimativa combinada de 0,73, contra especificidade combinada de 0,91. Isto é: quando ela vê o cálculo no colédoco, ela está quase sempre certa; quando não vê, não afastou nada.
E ela não responde absolutamente nada sobre gravidade. Não existe achado ultrassonográfico na graduação de Tóquio, nem na de colecistite nem na de colangite. Parede de nove milímetros não é grau maior que parede de cinco. Quem gradua é o corpo do paciente: sinais vitais, consciência, diurese, coagulação, plaquetas, leucometria, tempo de queixa e massa palpável. Repetir a ultrassonografia esperando que ela decida o grau é pedir a um exame que responda uma pergunta que ele não faz.
Tomografia, ressonância e cintilografia: cada uma responde uma coisa
A diretriz de urgência de 2020 organiza o segundo escalão de imagem numa recomendação com qualidade moderada e força forte, e o resumo dela é contraintuitivo. A cintilografia hepatobiliar tem a maior sensibilidade e a maior especificidade entre as modalidades para colecistite aguda. A acurácia diagnóstica da tomografia é ruim. A ressonância é tão acurada quanto a ultrassonografia. O comentário do próprio documento fecha a questão prática: na prática clínica, o uso da cintilografia é limitado pelos recursos e pelo tempo que ela consome.
Guarde a consequência: a tomografia, que é o exame mais fácil de conseguir num hospital brasileiro de médio porte à noite, é justamente o que o documento classifica como de acurácia ruim para o diagnóstico de colecistite. Ela é excelente para outra coisa — complicação local, gangrena, gás na parede, abscesso, e para o diferencial de abdome agudo que já não é biliar. Pedir tomografia para confirmar colecistite é usar um bom exame para a pergunta errada.
A ressonância com colangiopancreatografia tem o papel mais definido de todos neste capítulo, e ele não é diagnosticar colecistite: é olhar o colédoco quando o risco de cálculo lá dentro é intermediário. A régua de Tóquio recomenda seu uso quando a ultrassonografia abdominal não fornece diagnóstico definitivo, e adverte que a qualidade da imagem se deteriora no paciente com dor abdominal aguda, que não consegue prender a respiração nem ficar parado.
Nada disso muda a primeira hora. Na primeira hora, o exame que decide destino é a ultrassonografia, e a decisão de internar não espera laudo de nada: ela se toma com a história, a mão no abdome e o hemograma.
O hepatograma não fecha cálculo no colédoco — e essa é uma recomendação formal
A diretriz de urgência de 2020 recomenda, com qualidade moderada e força forte, contra o uso de enzimas hepáticas ou bilirrubina elevadas como método único para identificar cálculo no colédoco em quem tem colecistite aguda, e manda fazer exames adicionais nesse caso. O documento traz os números que sustentam a recomendação, e eles são desconfortáveis: um hepatograma normal tem valor preditivo negativo de 97 por cento, mas qualquer alteração do hepatograma tem valor preditivo positivo de apenas 15 por cento.
A razão fisiológica está no próprio capítulo: na colecistite, as enzimas podem subir pelo processo inflamatório agudo da vesícula e da árvore biliar vizinha, e não por obstrução. O documento cita uma série de 1.178 pacientes com colecistite em que 424 tinham enzimas elevadas acima de duas vezes o valor de referência, e destes apenas 246, ou 58 por cento, tinham de fato cálculo no colédoco. Cita ainda outra série em que cerca de 30 por cento dos pacientes com colecistite e sem cálculo no colédoco tinham fosfatase alcalina ou bilirrubina anormais, e 50 por cento tinham alanina aminotransferase anormal.
A leitura prática é assimétrica e é assim que ela deve entrar no prontuário. Hepatograma inteiramente normal é uma informação forte: torna cálculo no colédoco improvável e permite operar a vesícula sem investigar a via biliar antes. Hepatograma alterado é uma informação fraca: obriga a olhar de novo, e não a concluir. É exatamente o oposto do reflexo de plantão, que trata o exame normal como não informativo e o alterado como diagnóstico.
Peça o painel inteiro, e não uma enzima. A diretriz sugere, com evidência baixa e força fraca, solicitar alanina aminotransferase, aspartato aminotransferase, bilirrubina, fosfatase alcalina, gama-glutamiltransferase e ultrassonografia em todos os pacientes com colecistite aguda. O painel serve para duas perguntas ao mesmo tempo: risco de cálculo no colédoco e, se houver febre alta, o item de colestase do diagnóstico de colangite.
O calibre do colédoco: um número que sugere e não conclui
A diretriz de 2020 sugere considerar a visualização direta de um cálculo dentro do colédoco na ultrassonografia como preditor de coledocolitíase, com evidência muito baixa e força fraca — e recomenda, com qualidade alta e força forte, que o aumento do calibre do colédoco, sinal indireto, não é suficiente para identificar quem tem cálculo lá dentro, obrigando a exames adicionais.
Os números do estudo citado deixam o problema visível. Em pacientes com colecistite, o diâmetro médio do colédoco foi de 5,8 milímetros nos que não tinham cálculo e de 7,1 milímetros nos que tinham, com diferença estatisticamente significativa. Diâmetro maior que 10 milímetros associou-se a 39 por cento de incidência de cálculo; diâmetro menor que 9,9 milímetros, a 14 por cento. Ou seja: mesmo o colédoco largo erra em três de cada cinco pacientes, e mesmo o colédoco fino tem cálculo em um de cada sete.
Uma diferença de 1,3 milímetro entre as médias de dois grupos é menor que a variação entre dois ultrassonografistas medindo o mesmo colédoco. É por isso que a recomendação é forte e negativa: o número serve para levantar a mão, nunca para fechar a porta.
Os escores publicados para prever cálculo no colédoco combinam sempre as mesmas variáveis — idade acima de 55 anos, bilirrubina elevada, colédoco dilatado, cálculo visto na imagem, enzimas alteradas — e a diretriz registra que nenhum deles é específico para o paciente com colecistite e que a implementação deles na prática permanece baixa. Não decore escore aqui: decore que a decisão é de conjunto e que o exame que responde de verdade é a colangiorressonância ou a exploração da via biliar.
O que pedir na primeira hora, e o que não pedir
Peça hemograma, proteína C reativa, o painel hepático completo, ureia, creatinina, eletrólitos, glicemia e coagulograma, e peça a ultrassonografia de abdome. O coagulograma não é formalidade: a razão normalizada internacional acima de 1,5 é um dos itens que definem o grau grave nas duas réguas de Tóquio, e sem ele você não consegue graduar. O mesmo vale para a contagem de plaquetas, que já vem no hemograma, e para a creatinina.
Peça gasometria arterial se houver taquipneia, hipotensão ou rebaixamento — a relação entre pressão parcial de oxigênio e fração inspirada abaixo de 300 é outro item de grau grave, e sem gasometria ele fica em branco. Peça hemoculturas antes do antibiótico quando houver febre alta com calafrio, porque nesse cenário a doença provável é colangite e a bacteremia é a regra.
Não peça tomografia para confirmar colecistite. Peça tomografia quando houver dúvida sobre complicação local, sobre gangrena ou sobre outro diagnóstico abdominal. Não peça amilase e lipase de rotina em quem tem dor típica de vesícula e Murphy positivo: elas sobem na própria colecistite e transformam o pedido num falso positivo caro. Peça-as quando a dor for epigástrica em faixa com irradiação dorsal, que é a apresentação do capítulo vizinho.
E não peça a ultrassonografia duas vezes na mesma internação esperando resposta diferente. Se a primeira mostrou cálculo e parede espessada, o que falta não é imagem: é decisão. Se a primeira não mostrou nada e o quadro é típico, o exame seguinte não é outra ultrassonografia — é a tomografia com contraste, a ressonância ou a conversa com o cirurgião.
Duas réguas com o mesmo nome, e nenhuma delas é brasileira
O interno deve distinguir onde está o problema: obstrução transitória do ducto cístico, inflamação da vesícula ou infecção sob obstrução da via principal. Dor que persiste por mais de seis horas aumenta a suspeita de colecistite, mas o tempo isolado não fecha diagnóstico. Integre achados locais, inflamação sistêmica e imagem; depois avalie disfunção orgânica e oportunidade de tratamento.
- 1Registre tanto o início dos sintomas quanto a admissão. As referências temporais têm marcos diferentes: a WSES 2020 recomenda cirurgia o mais cedo possível, dentro de sete dias da admissão e dez dias do início, quando houver condições e experiência. Não converter 72 ou 96 horas em veto automático à cirurgia precoce.
- 2Feche ou não feche o diagnóstico de colecistite pelos três itens: um achado local, um sinal sistêmico e a imagem. Com os dois primeiros e sem imagem, o diagnóstico é suspeito e o paciente fica; com os três, é definitivo. Registre no prontuário qual item preencheu com qual achado.
- 3Antes de graduar, pergunte se é colangite. Febre acima de 38 graus ou calafrio, com icterícia ou padrão de colestase no painel hepático, muda a doença, o relógio e a ordem dos atos — e essa pergunta não pode esperar o laudo.
- 4Gradue com o que já está na folha: sinais vitais, nível de consciência, diurese, creatinina, razão normalizada internacional, plaquetas, relação entre oxigênio e fração inspirada, leucometria, tempo de queixa e massa palpável. Escreva o grau, por extenso, com o achado que o sustenta.
- 5Se houver qualquer critério de grau grave, a decisão sai da sua mão sozinha: chame o cirurgião e discuta vaga de terapia intensiva na mesma conversa. Grau grave não significa que não se opera — significa que a decisão é individual e compartilhada.
- 6Defina, ainda hoje, quando a vesícula sai. A resposta padrão é nesta internação e o mais cedo possível. Se a resposta for outra, escreva a razão e a data no prontuário, porque é essa frase que o plantão seguinte vai ler.
- 7Antes da alta, confira quatro coisas: o diagnóstico escrito com os itens que o sustentam, o grau registrado, a data da cirurgia ou a razão do adiamento, e os sinais de alarme entregues por escrito ao paciente e a quem o acompanha.
Três destinos para a mesma pedra, e o que decide cada um
| Quadro | O que o define à beira do leito | Para onde o paciente vai |
|---|---|---|
| Dor biliar sem inflamação (a chamada cólica) | Dor que já cedeu ou dura menos de seis horas, sem febre, sem defesa, sem massa; Murphy pode ser negativo no momento do exame | Casa, no mesmo dia, com analgesia, com o pedido de cirurgia eletiva feito e com sinais de alarme por escrito |
| Colecistite aguda | Dor contínua que passou de seis horas, com sinal local (Murphy, massa ou dor no quadrante superior direito) e sinal sistêmico (febre, leucocitose ou proteína C reativa), mais imagem compatível | Internação, jejum, volume, analgesia, graduação e conversa com a cirurgia hoje, não amanhã |
| Coledocolitíase sem infecção | Icterícia e colúria sem febre, padrão de colestase no painel hepático, com ou sem cálculo visível no colédoco | Serviço que faça exploração da via biliar, com prioridade alta; o protocolo brasileiro de regulação fala em cerca de duas semanas quando não há vômito de repetição |
| Colangite aguda | Sinal sistêmico (febre acima de 38 graus ou calafrio, ou provas inflamatórias alteradas) mais colestase (icterícia ou enzimas), com imagem de dilatação ou de causa obstrutiva | Sala de emergência, antibiótico, hemocultura e contato imediato com o serviço que faz drenagem biliar, ainda esta noite |
| Pancreatite aguda biliar | Dor epigástrica em faixa com irradiação dorsal e enzima pancreática três vezes acima do limite | Capítulo Pancreatite aguda, o segundo desta apostila — inclusive para a decisão sobre a via biliar e sobre o momento da colecistectomia |
As duas réguas de Tóquio lado a lado: o que cada uma exige para dizer que é a doença
| Eixo do diagnóstico | Colecistite aguda | Colangite aguda |
|---|---|---|
| Achado local | Obrigatório: sinal de Murphy, ou massa, dor ou sensibilidade no quadrante superior direito | Não é item da régua; dor no quadrante superior direito e história biliar entram apenas como dados auxiliares |
| Resposta inflamatória sistêmica | Obrigatória: febre, ou proteína C reativa elevada, ou leucometria elevada | Obrigatória: febre acima de 38 graus ou calafrio, ou leucometria abaixo de 4.000 ou acima de 10.000 por microlitro, ou proteína C reativa de 1 miligrama por decilitro ou mais |
| Colestase | Não é item da régua | Obrigatória para o diagnóstico definitivo: bilirrubina total de 2 miligramas por decilitro ou mais, ou fosfatase alcalina, gama-glutamiltransferase, aspartato ou alanina aminotransferase acima de uma vez e meia o limite superior |
| Imagem | Necessária para o diagnóstico definitivo: achado característico de inflamação da vesícula | Necessária para o diagnóstico definitivo: dilatação da via biliar ou evidência da causa, como estenose, cálculo ou prótese |
| Diagnóstico suspeito | Um achado local mais um sinal sistêmico | Um sinal sistêmico mais colestase, ou um sinal sistêmico mais imagem |
| Diagnóstico definitivo | Um achado local mais um sinal sistêmico mais a imagem | Um sinal sistêmico mais colestase mais imagem |
Os três graus nas duas doenças, e o que cada grau decide
| Grau | O que põe o paciente aqui na colecistite | O que põe o paciente aqui na colangite | O que o grau decide |
|---|---|---|---|
| Grave | Disfunção de qualquer um de seis sistemas: hipotensão que exige dopamina em 5 microgramas por quilo por minuto ou mais, ou noradrenalina em qualquer dose; rebaixamento de consciência; relação entre pressão parcial de oxigênio e fração inspirada abaixo de 300; oligúria ou creatinina acima de 2,0 miligramas por decilitro; razão normalizada internacional acima de 1,5; plaquetas abaixo de 100.000 por milímetro cúbico | Os mesmos seis sistemas, com os mesmos cortes | Suporte de órgão e vaga de terapia intensiva; na colangite, drenagem biliar urgente; na colecistite, decisão individual entre operar e drenar |
| Moderado | Qualquer um de quatro achados: leucometria acima de 18.000 por milímetro cúbico; massa palpável e dolorosa no quadrante superior direito; queixa com mais de 72 horas; inflamação local marcada, como forma gangrenosa, abscesso perivesicular, abscesso hepático, peritonite biliar ou forma enfisematosa | Dois ou mais de cinco achados: leucometria acima de 12.000 ou abaixo de 4.000 por milímetro cúbico; febre de 39 graus ou mais; idade de 75 anos ou mais; bilirrubina total de 5 miligramas por decilitro ou mais; albumina abaixo de 0,7 vez o limite inferior | Na colecistite, sinaliza operação mais difícil e maior taxa de conversão; na colangite, é o grupo em que a drenagem precoce mostrou reduzir mortalidade |
| Leve | Quem não preenche nenhum critério de grave nem de moderado; a régua define como o paciente hígido, sem disfunção de órgão e com inflamação leve, em que a colecistectomia é operação segura e de baixo risco | Quem não preenche nenhum critério de grave nem de moderado no diagnóstico inicial | Na colecistite, é o paciente da colecistectomia precoce sem discussão; na colangite, ainda assim recebe antimicrobiano e drenagem ou tratamento da causa se não responder ao tratamento inicial |
Do elenco nacional ao frasco: o que existe, o que falta e quantos mililitros dá num adulto de 68 quilos
| Item | Situação na Rename 2024 | A conta |
|---|---|---|
| Ceftriaxona | Consta. Pó para solução injetável de 250 mg, 500 mg e 1 g, componente básico, classificação AWaRe de alerta | 1 g de 12 em 12 horas são 2 g por dia, isto é, 2 frascos de 1 g por dia — ou 4 frascos, se o que houver na farmácia for a apresentação de 500 mg. Um frasco de 1 g diluído em 10 mL fica a 100 mg por mL |
| Metronidazol injetável | Não consta. A relação traz metronidazol em comprimido de 250 mg e de 400 mg, gel vaginal de 100 mg por grama e benzoilmetronidazol em suspensão oral de 40 mg por mL | O par clássico de ceftriaxona com metronidazol por via venosa não é sustentado pela relação nacional: metade dele não está lá. Quem prescreve depende do que o hospital comprou por conta própria |
| Ciprofloxacino | Consta apenas em comprimido de 250 mg e de 500 mg, componente básico | 500 mg de 12 em 12 horas são 2 comprimidos por dia — inúteis para quem está em jejum e vomitando, que é exatamente o paciente deste capítulo |
| Amoxicilina com clavulanato | Consta apenas em suspensão oral de 50 mg por mL com 12,5 mg por mL e comprimido de 500 mg com 125 mg | Serve para a alta, não para a internação: não há apresentação injetável na relação |
| Ampicilina com sulbactam, piperacilina com tazobactam, meropenem, cefazolina e gentamicina sistêmica | Não constam. A gentamicina aparece na relação apenas como pomada oftálmica de 5 mg por grama e solução oftálmica de 5 mg por mL. De cefalosporina injetável a relação traz cefotaxima sódica 500 mg e a ceftriaxona da primeira linha desta tabela | Nenhum dos esquemas de amplo espectro usualmente citados para infecção biliar grave está garantido pela relação nacional. Confira o que existe na sua farmácia antes de escrever o esquema, não depois |
| Dipirona | Consta. Comprimido de 500 mg, solução oral de 500 mg por mL e solução injetável de 500 mg por mL, componente básico | Ampola de 2 mL da solução injetável tem 1.000 mg. Dose de 1 g equivale a 2 mL, ou seja, uma ampola |
| Sulfato de morfina | Consta em solução injetável de 10 mg por mL, mas no componente especializado, cujo documento norteador é o protocolo de dor crônica | Ampola de 1 mL tem 10 mg. Para 68 quilos, 0,05 mg por quilo são 3,4 mg, isto é, 0,34 mL. Diluir 1 mL em 9 mL de água transforma a ampola em 1 mg por mL e a dose em 3,4 mL — a única forma de fracionar isso com seringa comum |
| Metoclopramida | Consta. Comprimido de 10 mg, solução injetável de 5 mg por mL e solução oral de 4 mg por mL, componente básico | Ampola de 2 mL tem 10 mg. Dose de 10 mg equivale a 2 mL, ou seja, uma ampola |
| Ondansetrona | Consta apenas em comprimido de 4 mg e de 8 mg, inclusive orodispersível, componente básico | Não há apresentação injetável na relação. No paciente em jejum com vômito incoercível, o antiemético disponível pela relação nacional por via venosa é a metoclopramida |
| Solução de Ringer com lactato | Consta. Lactato de sódio 3 mg por mL, cloreto de sódio 6 mg por mL, cloreto de potássio 0,3 mg por mL e cloreto de cálcio 0,2 mg por mL, solução injetável, componente básico | 10 mL por quilo em 68 quilos são 680 mL, isto é, um frasco de 500 mL mais 180 mL do seguinte. 20 mL por quilo são 1.360 mL, quase três frascos |
| Ácido ursodesoxicólico | Consta em comprimidos de 50 mg, 150 mg e 300 mg, componente especializado, e o documento norteador declarado é o protocolo de colangite biliar primária | 10 mg por quilo em 68 quilos dariam 680 mg por dia, cerca de dois comprimidos de 300 mg — mas a indicação que a relação sustenta é outra doença, de nome parecido e natureza oposta, e não a dissolução de cálculo nem a colangite aguda deste capítulo |
Dois usos do tempo. Duração dos sintomas como item de gravidade e janela proposta para cirurgia respondem a perguntas diferentes. Ultrapassar o primeiro marco não significa, por si só, perder a possibilidade de operação precoce. O fluxo reúne o objetivo prático e os marcos da recomendação adotada.
Gravidade e risco. Uma classificação organiza a apresentação, mas não transforma cada grau em uma taxa individual de mortalidade. As séries citadas têm populações diferentes; dentro do grupo grave, comorbidades e disfunções também interferem no desfecho.
Icterícia e função hepática. A bilirrubina e o INR não são intercambiáveis. Na régua descrita, o item de disfunção hepática usa INR; a icterícia continua relevante na avaliação clínica e na investigação da via biliar, mesmo sem ocupar esse item.
Seleção dos pacientes. Taxas de conversão cirúrgica e de mortalidade dependem de quem chegou ao procedimento. Um percentual calculado sobre um ou poucos pacientes não oferece a mesma precisão de uma série maior. Diferencie risco do procedimento e risco da população que precisou dele.
Diagnóstico e graduação. Preencher critérios diagnósticos e ser classificado por gravidade são etapas distintas. O desempenho dos critérios em uma coorte não dispensa integrar os sinais clínicos, os exames e a evolução do paciente que está sendo atendido.
Tempo de drenagem. Estudos observacionais de grupos diferentes não devem ser lidos como autorização para atrasar controle de foco no paciente que piora. Use os resultados para compreender a recomendação, mantendo a prioridade clínica apresentada no fluxo.
Leitura de resultados. Ao comparar grupos, confira a ordem da subtração, o intervalo de confiança e o desfecho. Uma diferença numérica pequena não deve ser transformada em benefício certo quando o estudo não demonstra essa conclusão.
Bilirrubina: conferir a unidade. O exame sérico expressa concentração, como mg/dL ou µmol/L. O valor citado de 22,23 µmol/L corresponde a aproximadamente 1,30 mg/dL. Não interprete mg/dia como unidade de concentração nem aplique o limiar antes da conversão.
Encaminhamento e tratamento. Protocolos de regulação descrevem o suporte e o destino inicial. A decisão sobre cirurgia, drenagem e reavaliação hospitalar exige o percurso clínico completo; uma orientação para transporte não descreve toda a internação.
A conduta, hora a hora
Os marcos abaixo valem para quem chega ao pronto-socorro com dor em hipocôndrio direito e cálculo conhecido ou suspeito, num hospital que tem ultrassonografia e centro cirúrgico e não tem endoscopia biliar. O relógio de cada marco corre a partir da chegada; o relógio da doença, a partir do início da dor, e os dois não são o mesmo.
As apresentações e concentrações citadas são as da Rename 2024, com a ressalva registrada na tabela do bloco anterior: parte do que se prescreve por hábito em infecção biliar não consta da relação nacional, porque o que o hospital compra pelo próprio teto de média e alta complexidade não passa por ela. Nenhuma das diretrizes usadas aqui fixa dose de analgésico, e as posologias abaixo são as habituais de adulto, sem respaldo dessas fontes.
Hora 0 a 1 — a mão no abdome antes do pedido de exame
Sinais vitais completos, com temperatura aferida e frequência respiratória contada, e não estimada. Depois, o exame que ninguém repete depois do laudo: mão espalmada sob a borda costal direita, inspiração profunda, e a busca ativa de massa palpável e dolorosa no quadrante superior direito — que é um dos quatro itens que promovem o caso a moderado. Anote a hora exata de início da dor e quantos episódios semelhantes já houve. Jejum, acesso venoso periférico calibroso e analgesia sem esperar diagnóstico: dor biliar não é sinal a ser preservado para o cirurgião ver, e analgesiar não apaga o Murphy nem a defesa.
Prescrição- Jejum absoluto, com o motivo escrito na prescrição
- Acesso venoso periférico calibroso; dois se houver hipotensão ou vômito incoercível
- Solução de Ringer com lactato, 10 mL por quilo em bolus no paciente desidratado ou taquicárdico, reavaliando ao fim de cada frasco
- Dipirona 1 g por via venosa, que são 2 mL da solução de 500 mg por mL, se não houver contraindicação
- Sulfato de morfina, ampola de 10 mg por mL diluída em 9 mL de água, 0,05 mg por quilo, titulada até a dor ceder, quando a dipirona não bastar
- Metoclopramida 10 mg por via venosa, que são 2 mL da solução de 5 mg por mL, se houver vômito
- Hemograma, proteína C reativa, painel hepático completo, ureia, creatinina, eletrólitos, glicemia e coagulograma
Hora 0 a 2 — a pergunta que precede a graduação
Antes de graduar colecistite, decida se o que está na sua frente é colecistite. Febre acima de 38 graus com calafrio, icterícia ou colúria, ou padrão de colestase no painel hepático, mudam a doença para colangite, e a colangite não espera vaga de centro cirúrgico: ela precisa de antibiótico, de hemocultura e de contato com quem drena. Faça essa pergunta explicitamente e registre a resposta no prontuário, com os achados que a sustentam. É a decisão mais barata do plantão e a que muda mais destino.
Prescrição- Hemoculturas antes do antibiótico quando houver suspeita de bacteremia, colangite ou quadro sistêmico, desde que a coleta não atrase tratamento urgente; não exigir febre alta e calafrio simultaneamente.
- Registro no prontuário da pergunta e da resposta: há colestase, há febre alta, há icterícia — sim ou não, com o número que sustenta
- Gasometria arterial se houver taquipneia, hipotensão ou rebaixamento do nível de consciência
- Eletrocardiograma e ausculta pulmonar antes de assumir que a dor alta é biliar, no paciente acima dos cinquenta ou com fator de risco cardiovascular
Hora 1 a 4 — a ultrassonografia e o que ela tem de decidir
A ultrassonografia é o primeiro exame de imagem, com qualidade de evidência alta e força forte na diretriz de urgência de 2020, e o alvo dela é o que ela faz bem: cálculo dentro da vesícula, espessamento de parede, distensão, líquido perivesicular e calibre do colédoco. Combine o laudo com o painel hepático e escreva no prontuário a doença e o achado que a sustenta. Um laudo que descreve só cálculos, num paciente com dor de quarenta horas, Murphy positivo e leucocitose, não afasta colecistite — cerca de um em cada cinco pacientes com a doença tem laudo que não a nomeia. E não peça o exame de novo esperando que ele decida a gravidade: gravidade não é achado de imagem.
Prescrição- Ultrassonografia de abdome superior na admissão, com pedido que declare a pergunta: vesícula, parede, líquido perivesicular e calibre do colédoco
- Tomografia com contraste apenas se houver suspeita de forma gangrenosa, enfisematosa, abscesso, perfuração ou dúvida sobre outro diagnóstico abdominal
- Colangiorressonância quando o risco de cálculo no colédoco for intermediário e a decisão cirúrgica depender disso
- Nada de repetir a ultrassonografia na mesma internação sem que a pergunta clínica tenha mudado
Hora 2 a 6 — graduar, e escrever o grau
A graduação não precisa de exame novo: ela se faz com o que já está na folha. Percorra os seis sistemas do grau grave — pressão que exige vasopressor, consciência, relação entre oxigênio e fração inspirada, diurese e creatinina, razão normalizada internacional, plaquetas. Se nenhum estiver alterado, percorra os quatro itens do moderado — leucometria acima de 18.000, massa palpável, queixa com mais de 72 horas, inflamação local marcada. O que sobra é leve. Escreva o grau por extenso na evolução, com o achado que o sustenta, porque é essa frase que vai governar a conversa com a cirurgia e o plantão seguinte.
Prescrição- Grau escrito por extenso na evolução, com o item que o define: por exemplo, moderado por queixa de 48 horas mais leucometria de 19.400
- Conferência ativa dos seis critérios de grau grave, um a um, mesmo no paciente que parece bem
- Peso aferido, e não estimado, porque toda dose deste capítulo depende dele
- Reavaliação do grau a cada 12 horas enquanto o paciente não for operado — o grau é fotografia, e o paciente se move
Hora 2 a 8 — o antibiótico, e a fronteira dele
Na colecistite, antimicrobiano acompanha o tratamento inicial conforme gravidade e protocolo; na colangite, deve ser iniciado prontamente e associado à desobstrução quando indicada. Na colecistite não complicada com foco adequadamente removido, não manter antibiótico pós-operatório de rotina. Doença complicada, infecção persistente ou sepse exige plano próprio. Gram-negativos entéricos são alvos centrais; cobertura anaeróbia e de enterococo depende do contexto, sobretudo anastomose biliodigestiva, imunossupressão e exposição à assistência.
Prescrição- Colangite: antibiótico de amplo espectro por via venosa na primeira hora, depois das hemoculturas, sem esperar imagem
- Colecistite com foco ainda não removido: antibiótico enquanto o paciente aguarda a operação, revisto a cada 24 horas
- Colecistite não complicada já operada: suspender o antibiótico, e escrever na evolução que o foco foi controlado pela colecistectomia
- A relação nacional traz duas cefalosporinas de terceira geração injetáveis: ceftriaxona, em 250 mg, 500 mg e 1 g, e cefotaxima sódica, em 500 mg
- Cultura de bile ou de material da vesícula sempre que houver reoperação, imunossupressão ou infecção relacionada à assistência
Dia 0 a 2 — quando a vesícula sai, e por que a resposta é cedo
A recomendação da diretriz de urgência de 2020 é operar o mais cedo possível, dentro de 7 dias da admissão hospitalar e dentro de 10 dias do início dos sintomas, com qualidade de evidência moderada e força forte. A alternativa que ela combate tem nome: a colecistectomia intermediária, feita entre 7 dias de internação e 6 semanas, foi a que teve mais eventos adversos graves no único ensaio que a comparou com a precoce. O tempo total de internação somando todas as admissões foi cerca de 4 dias menor com a cirurgia precoce, e o retorno ao trabalho, cerca de 9 dias mais cedo. O hábito de esfriar e chamar depois nasceu de uma época em que a conversão era comum e a laparoscopia, nova; a evidência atual não o sustenta, e o preço de mantê-lo é uma segunda passagem pela porta.
Prescrição- Contato com a equipe cirúrgica no mesmo turno em que o diagnóstico é fechado, e não na visita do dia seguinte
- Colecistectomia laparoscópica programada para esta internação, com a data escrita na evolução
- Se o serviço não opera ou não tem vaga, transferência ou encaminhamento com vaga garantida, com a razão registrada
- Se a operação for adiada além da janela, registrar a razão do adiamento e a data do retorno, e informar o paciente por escrito
- Conversão para cirurgia aberta não é fracasso: é recomendação formal diante de inflamação local grave, aderências, sangramento no triângulo de Calot ou suspeita de lesão de via biliar
Dia 0 a 3 — quem não pode operar, e o que se faz com ele
Existe paciente que não vai para a mesa, e a decisão sobre ele é a mais difícil do capítulo. A diretriz de urgência de 2020 sugere o manejo não operatório, isto é, melhor terapia clínica com antibiótico e observação, para quem recusa a cirurgia ou não tem condições para ela — e recomenda a drenagem da vesícula em quem não é candidato à operação, porque ela converte um paciente séptico num paciente não séptico, com qualidade moderada e força forte. Os preditores de falha do manejo não operatório citados são idade acima de 70 anos, diabetes, taquicardia e vesícula distendida em 24 horas, e leucometria acima de 15.000, febre e idade acima de 70 anos em 48 horas. Depois que o risco perioperatório baixa, a operação volta à mesa: quem drenou e não operou depois voltou muito.
Prescrição- Decisão de não operar registrada com a razão clínica, e não com a frase paciente sem condições cirúrgicas
- Drenagem percutânea transhepática da vesícula quando o paciente séptico não pode ser operado
- Reavaliação da falha do manejo não operatório em 24 e em 48 horas, com os preditores conferidos um a um
- Colecistectomia programada depois da redução do risco perioperatório em quem foi drenado, com data e serviço definidos antes da alta
- Drenagem endoscópica transpapilar ou guiada por ultrassonografia endoscópica só onde houver endoscopista habituado e volume — não é alternativa a improvisar
Qualquer hora — a colangite, que tem outro relógio
Se o diagnóstico virou colangite, a ordem dos atos muda inteira. O tratamento fundamental, na régua de Tóquio, é diagnóstico precoce, drenagem biliar precoce ou tratamento da causa, e antimicrobiano — e isso vale para os três graus, inclusive o leve. O grau grave exige suporte de órgão e drenagem urgente. O grau moderado é o que a série de 6.063 pacientes mostrou beneficiar-se de mortalidade menor com drenagem urgente ou precoce: 1,7 por cento com drenagem nas primeiras 24 horas contra 3,4 por cento depois. O grau leve recebe antimicrobiano e suporte, e vai para drenagem se não responder ao tratamento inicial. Num hospital sem endoscopia, o ato que salva é o telefone: transferir cedo, com o paciente ainda compensado, é diferente de transferir tarde, com o paciente já em vasopressor.
Prescrição- Sala de emergência, monitorização, oxigênio se necessário e reposição volêmica guiada por resposta
- Hemoculturas e antibiótico de amplo espectro por via venosa na primeira hora
- Contato imediato com o serviço de referência que faz drenagem biliar, com o horário do contato anotado no prontuário
- Transferência do paciente compensado, e não do paciente que já precisou de vasopressor
- Colecistectomia depois, na mesma internação ou programada, porque a via biliar desobstruída não retira a vesícula que continua fabricando pedra
Como saber se está funcionando
A colecistite tratada responde, e responde em horas. O que separa quem está melhorando de quem está caminhando para a complicação não é um exame novo: é a mesma coisa medida duas vezes, com intervalo curto, por alguém que anotou a primeira medida. Reavalie no fim do seu turno tudo o que você mediu no começo dele.
Um lembrete de eixo: os parâmetros abaixo dizem se o paciente melhorou, e não se ele deve operar. A indicação cirúrgica não depende de melhora — o paciente que melhora com jejum, volume e antibiótico continua tendo indicação de colecistectomia nesta internação. Melhorar não é ter tratado.
Esperado: Redução progressiva da intensidade e espaçamento entre as doses de resgate, com o paciente aceitando permanecer deitado sem posição antálgica
Se não melhora: Dor que não cede depois de 24 horas de jejum, volume e analgesia adequada é o primeiro sinal de que a obstrução não se resolveu e a parede está progredindo. Reexamine o abdome procurando defesa localizada e massa, e discuta antecipar a operação em vez de aumentar o opioide
Esperado: Queda para menos de 37,8 graus em 24 a 48 horas no paciente com colecistite em tratamento
Se não melhora: Febre persistente ou novo pico com calafrio depois de 48 horas muda a pergunta: já não é a inflamação da parede, e sim complicação local, abscesso ou bile infectada sob pressão. Reavalie o painel hepático e considere colangite ou coleção
Esperado: Frequência caindo à medida que a dor cede e o volume é reposto; pressão estável sem droga
Se não melhora: Taquicardia que se mantém depois de analgesia e volume adequados, ou qualquer necessidade de vasopressor, tira o paciente do grau leve e coloca a discussão sobre vaga de terapia intensiva na mesma conversa em que se discute a operação
Esperado: Recuperação progressiva do volume horário no paciente que chegou desidratado, à medida que o Ringer com lactato repõe o que o jejum e os vômitos tiraram
Se não melhora: Oligúria mantida apesar do volume é um dos critérios de grau grave nas duas réguas, ao lado da creatinina acima de 2,0 miligramas por decilitro, e é o parâmetro mais barato e mais precoce de falência renal. Ele muda o grau, e o grau muda a conversa
Esperado: Queda da leucometria e depois da proteína C reativa, nesta ordem, à medida que a inflamação recua
Se não melhora: Leucometria que sobe acima de 18.000 promove o caso a moderado e é preditor de falha do manejo não operatório em 48 horas. Provas inflamatórias em ascensão num paciente que já deveria estar melhorando são argumento para operar, não para trocar o antibiótico
Esperado: Normalização progressiva quando a alteração era reativa à inflamação da vesícula, que é o caso da maioria
Se não melhora: Bilirrubina que sobe, sobretudo com febre nova, aponta para a via biliar principal e não mais para a vesícula. É o momento de pedir colangiorressonância ou de discutir exploração da via biliar, e de reabrir a pergunta da colangite
Esperado: Defesa que recua, massa que diminui, abdome que volta a ser depressível fora do quadrante superior direito
Se não melhora: Defesa que se espalha para fora do quadrante superior direito, dor à descompressão em outro quadrante ou abdome em tábua mudam o problema de doença da vesícula para peritonite, e a conduta deixa de ser esperar vaga: é comunicação imediata com a cirurgia
Onde o erro machuca
O dano: É a alta que traz o paciente de volta em 24 ou 48 horas, quase sempre pior e às vezes com a parede já gangrenosa. A separação entre dor biliar e colecistite não é de nomenclatura: é de destino. O protocolo brasileiro de regulação em uso descreve a passagem de uma para a outra exatamente pelo tempo, e a régua de Tóquio usa as 72 horas de queixa como item que promove o caso a moderado.
Como pegar a tempo: Antes de escrever a alta, responda por escrito duas perguntas: há quanto tempo a dor é contínua, e ela cedeu agora? Dor contínua há mais de seis horas, ou que persiste no momento do exame, com sinal local e sinal sistêmico, é colecistite até prova em contrário, e não vai para casa.
O dano: Recidiva programada. O paciente melhora em quatro ou cinco dias, sai com orientação de dieta, entra numa fila que ignora a urgência dele e retorna na crise seguinte, eventualmente a que traz disfunção de órgão. O protocolo brasileiro de encaminhamento dá prioridade explícita a quem tem colelitíase com complicação prévia e não foi operado — e essa prioridade só existe se alguém escrever no encaminhamento que houve complicação.
Como pegar a tempo: Deixe registrado, antes de assinar a alta, se este órgão será retirado ainda nesta passagem pelo hospital. Quando a resposta for negativa, o prontuário precisa dizer o motivo, o dia marcado e o serviço responsável — e o encaminhamento precisa trazer a palavra colecistite, porque é ela que move o paciente na fila.
O dano: Consome o ultrassonografista de sobreaviso, atrasa a decisão em horas e produz um segundo laudo que descreve as mesmas estruturas. Nenhuma das duas graduações de Tóquio tem um único item de imagem: elas se preenchem com sinais vitais, consciência, diurese, creatinina, coagulação, plaquetas, leucometria, tempo de queixa e a mão no abdome.
Como pegar a tempo: Peça o exame de novo apenas quando a pergunta clínica tiver mudado — suspeita nova de complicação local, de coleção ou de outro diagnóstico. E quando a pergunta for complicação local, o exame que responde é a tomografia com contraste, porque os sinais de irregularidade e de rotura de parede são frequentemente subestimados na ultrassonografia.
O dano: Condena à drenagem, à observação prolongada ou à transferência um paciente que poderia ser operado, e a evidência atual aponta na direção contrária. A diretriz de urgência de 2020 recomenda, com qualidade alta e força forte, a colecistectomia laparoscópica como primeira escolha inclusive em pacientes de alto risco, com base num ensaio randomizado em que a cirurgia teve 5 por cento de complicações maiores contra 53 por cento da drenagem percutânea.
Como pegar a tempo: Trate o grau grave como aviso de que a decisão precisa ser individual e compartilhada com o cirurgião e com o intensivista, e não como resposta pronta. A régua de Tóquio, na revisão de 2018, passou a admitir que o grau grave, sob critérios estritos, pode ser operado — e a própria régua registra que ela não mede dificuldade cirúrgica.
O dano: Expõe o paciente a evento adverso e a resistência sem benefício demonstrado. A diretriz de urgência de 2020 recomenda contra o uso rotineiro de antibiótico pós-operatório quando o foco foi controlado pela colecistectomia, com qualidade de evidência alta e força forte, e o ensaio que sustenta a recomendação encontrou infecção pós-operatória em 35 de 207 pacientes sem antibiótico contra 31 de 207 com antibiótico.
Como pegar a tempo: Na visita do primeiro dia de pós-operatório, pergunte explicitamente se o foco foi controlado. Se a vesícula saiu e não havia perfuração, abscesso ou peritonite, suspenda o antibiótico e escreva na evolução a frase que justifica: foco controlado pela colecistectomia. Antibiótico que ninguém suspende é antibiótico que ninguém prescreveu de novo.
O dano: Troca uma doença por outra e perde o relógio. Colangite tem letalidade maior que a da colecistite, é sistêmica desde o primeiro dia e não se resolve com colecistectomia: se resolve com desobstrução da via biliar. Num hospital sem endoscopia, tratar colangite como colecistite significa aguardar vaga de centro cirúrgico enquanto o paciente precisa de uma transferência que ainda não foi pedida.
Como pegar a tempo: Faça a pergunta antes de graduar, e faça-a sempre: há febre alta com calafrio, há icterícia ou colúria, há padrão de colestase no painel? Se houver, o diagnóstico a afastar é colangite, e o ato seguinte é hemocultura, antibiótico e telefone — nesta ordem, e sem esperar imagem.
O que dizer ao paciente e à família
As conversas deste capítulo têm um traço em comum: quase todas negociam tempo. O paciente que melhorou quer ir para casa; a família do idoso quer saber se compensa operar; o serviço que não opera quer empurrar para a semana que vem. Em todas elas, o que você tem a oferecer não é otimismo: é o motivo pelo qual a data importa.
As falas abaixo são modelos de conteúdo, não roteiros a decorar. O que precisa sobreviver à sua versão é a informação verificável: o que aconteceu, o que se propõe, o que acontece se não fizer, e quando.
Explicando à paciente que teve dor forte e agora está sem dor por que ela ainda precisa operar
“A dor da senhora passou porque a pedra que estava entupindo a saída da vesícula saiu do lugar sozinha. O problema é que a vesícula continua lá e continua fabricando pedra. Hoje a senhora está bem e vai para casa. Mas isso já aconteceu três vezes este ano, e em algum momento a pedra não vai voltar sozinha — e aí não é dor, é uma inflamação que interna. Por isso eu vou marcar a cirurgia agora, com a senhora ainda sem dor: é o melhor momento possível para operar.”
Não diga: Dizer que foi só uma crise, que passou e que ela procure um cirurgião quando puder. A frase quando puder transfere para o paciente uma decisão de prazo que é sua, e a fila brasileira não anda sozinha.
Dizendo ao paciente internado que a operação é para esta internação, e não para daqui a seis semanas
“O senhor está internado porque a vesícula inflamou, não porque a pedra doeu. Vamos tratar a inflamação com soro, jejum e remédio, e o senhor vai melhorar nos próximos dias. Mas a operação é para esta internação, e não para depois que passar. Quem opera nesta internação fica menos tempo internado no total e volta ao trabalho mais cedo do que quem vai para casa e volta em seis semanas — e uma parte de quem vai para casa volta antes, pela emergência, com o quadro de novo.”
Não diga: Dizer que vai operar depois que esfriar. É a frase mais comum e a que a evidência atual menos sustenta; ela soa prudente e cria uma segunda passagem pela porta.
Ao paciente que melhorou e quer alta para operar perto de casa
“Eu entendo, e a decisão é do senhor. Preciso que o senhor saia daqui sabendo três coisas. A primeira é que a inflamação melhorou, mas a causa não foi tratada. A segunda é que existe um prazo: quanto mais tempo passa, mais difícil fica a operação, e por isso eu vou escrever no seu papel a data que eu recomendo. A terceira é uma lista de quatro coisas que dispensam consulta e mandam voltar imediatamente: dor forte outra vez, tremedeira com febre, vômito sem parada, ou olho e pele amarelando.”
Não diga: Assinar a alta a pedido sem registrar o que foi explicado. Escreva no prontuário o que o paciente ouviu, com as suas palavras e com a data recomendada, porque essa é a única coisa que protege os dois.
À família do idoso com muitas doenças, quando a pergunta é se compensa operar
“Seu pai tem uma inflamação da vesícula e tem outras doenças que aumentam o risco de qualquer operação. Existem dois caminhos, e nenhum dos dois é sem risco. Um é operar agora: é o caminho que os estudos mais recentes mostram ter menos complicações, inclusive em pacientes com o perfil dele. O outro é colocar um dreno na vesícula pela pele, que resolve a infecção sem tirar o órgão, e deixar a operação para quando ele estiver melhor. Quem vai decidir com vocês é o cirurgião, e eu vou trazê-lo aqui para conversarmos os quatro.”
Não diga: Apresentar a drenagem como a opção segura e a cirurgia como a arriscada. Os dados atuais não sustentam essa arrumação, e a família merece a comparação verdadeira, com os dois riscos nomeados.
Explicando o dreno percutâneo a quem vai recebê-lo
“Vamos colocar um tubo fino na vesícula, pela pele, guiado por ultrassom. Ele não tira a vesícula: ele esvazia o que está preso lá dentro, que é o que está deixando a senhora com febre e com pressão baixa. A senhora vai melhorar nas próximas horas e vai para casa com o tubo, que precisa de cuidado e de retorno marcado. E isso não encerra o problema: quando a senhora estiver mais forte, a vesícula ainda vai precisar sair, porque com ela lá dentro o quadro volta.”
Não diga: Dizer que o dreno resolveu. Quem drena e não opera depois volta muito: numa análise citada pela diretriz de urgência, a readmissão em um ano de quem não foi operado depois da drenagem chegou a 49 por cento.
Passando o caso ao cirurgião pelo telefone, às três da manhã
“Mulher de 47 anos, sem comorbidades, dor contínua em hipocôndrio direito há 40 horas com início às três da manhã de sexta. Murphy positivo, sem massa palpável. Temperatura 38,2, leucometria 19.400, proteína C reativa alta, bilirrubinas e enzimas normais. Ultrassonografia com múltiplos cálculos, parede de 5 milímetros, líquido perivesicular, colédoco de 5 milímetros. Sem critério de gravidade em nenhum dos seis sistemas. É colecistite aguda moderada por tempo de queixa e por leucometria, sem sinal de doença de via biliar. Estou pedindo avaliação para colecistectomia nesta internação.”
Não diga: Começar por doutor, tem uma dor abdominal aqui. A passagem que funciona traz, nesta ordem, o tempo de doença, o que sustenta o diagnóstico, o que sustenta o grau, o que afasta a via biliar e o pedido explícito.
Alta depois da colecistectomia, com os sinais que trazem de volta
“A cirurgia deu certo e a vesícula saiu. A senhora vai para casa hoje e eu preciso que a senhora guarde quatro motivos para voltar imediatamente, sem aguardar a consulta marcada: dor forte que o remédio não alivia, tremedeira com febre, vômito sem parada, e o amarelo aparecendo no olho ou na pele. O amarelo é o mais importante dos quatro, porque ele fala de um canal que fica atrás da vesícula e que a operação não abre. E o retorno está marcado para o dia que está escrito aqui — ele faz parte do tratamento.”
Não diga: Entregar a lista de sinais só de boca. Ela vai escrita, com letra legível, e é lida em voz alta na frente de quem vai levar a paciente para casa.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
A classificação de Tóquio, revisão de 2018 sobre a de 2013
A tabela de graduação fixa duas balizas de tempo contadas a partir do início dos sintomas. A queixa com mais de 72 horas passa a ser um dos quatro itens que promovem o caso a moderado, e a nota de rodapé da mesma tabela determina que a cirurgia laparoscópica seja realizada dentro de 96 horas do início da colecistite aguda. As duas balizas convivem na mesma página e estão separadas por 24 horas.
Tokyo Guidelines 2018: diagnostic criteria and severity grading of acute cholecystitis, J Hepatobiliary Pancreat Sci 2018;25(1):41-54, tabela de graduação de gravidade e sua nota de rodapé
A diretriz de urgência da World Society of Emergency Surgery, 2020
A recomendação é operar o mais cedo possível, dentro de 7 dias da admissão hospitalar e dentro de 10 dias do início dos sintomas, com qualidade de evidência moderada e força forte. O documento define assim a colecistectomia precoce e a prefere tanto à intermediária, feita entre 7 dias de internação e 6 semanas, quanto à tardia, feita entre 6 semanas e 3 meses. Dez dias são 240 horas, duas vezes e meia a janela de 96 horas da outra régua.
2020 WSES updated guidelines for the diagnosis and treatment of acute calculus cholecystitis, World J Emerg Surg 2020;15:61, seção de momento da colecistectomia
O objetivo prático é colecistectomia precoce na mesma internação quando o paciente é candidato e há equipe capaz. A WSES 2020 usa dois marcos: até sete dias da admissão e dez dias do início. Apresentação depois de 72–96 horas exige julgamento sobre inflamação, gravidade e recursos, mas não impõe adiamento automático por seis semanas. Se a operação não for a melhor opção imediata, documentar a razão e discutir suporte, drenagem ou encaminhamento conforme o caso.
A diretriz de urgência da World Society of Emergency Surgery, 2020
Na colecistite calculosa não complicada, a recomendação é contra o uso rotineiro de antibiótico no pós-operatório quando o foco infeccioso foi controlado pela colecistectomia, com qualidade de evidência alta e força forte. O ensaio que sustenta a recomendação randomizou 414 pacientes e encontrou infecção pós-operatória em 35 de 207 sem antibiótico contra 31 de 207 com antibiótico. O mesmo documento, porém, descreve o manejo conservador de quem não vai operar de imediato como hidratação, analgesia e antibiótico — de modo que a droga permanece prescrita justamente para quem espera.
2020 WSES updated guidelines for the diagnosis and treatment of acute calculus cholecystitis, World J Emerg Surg 2020;15:61, seções de tratamento antibiótico e de manejo não operatório
O protocolo brasileiro de regulação em uso, 2012
No cenário de colecistite aguda, as medidas prescritas são jejum, acesso venoso periférico para hidratação, hidratação preferencialmente com Ringer com lactato, analgesia e contato com o serviço de urgência para referenciar o paciente ao hospital. Não há antibiótico prescrito nesse cenário. O único antibiótico de todo o capítulo é ceftriaxona 1 grama por via venosa, e ele aparece apenas nos cenários de colelitíase com icterícia e febre e de colelitíase com pancreatite, e ainda assim só quando houver hipotensão arterial ou confusão mental, enquanto se aguarda a ambulância.
Salgado Jr W, Santos JS. Protocolo clínico e de regulação para litíase biliar e suas complicações. In: Protocolos clínicos e de regulação: acesso à rede de saúde. Elsevier, 2012, cap. 66, cenários III, V e VI
Para o paciente à sua frente, desmembre o que a rotina do serviço costuma tratar como uma coisa só. Pergunte primeiro se há infecção estabelecida ou apenas inflamação: febre baixa, leucocitose e proteína C reativa alta nas primeiras 48 horas de uma vesícula obstruída são resposta inflamatória, e não prova de bactéria. A segunda é quando o foco vai ser removido. Se a colecistectomia é hoje ou amanhã e não há complicação local, o antibiótico tem pouco a fazer além de acompanhar a operação, e a recomendação forte é suspendê-lo depois dela. Se o paciente vai esperar dias por vaga, ele é justamente aquele para quem o mesmo documento descreve o antibiótico como parte do manejo, e o silêncio do protocolo brasileiro não responde por ele — porque o protocolo brasileiro foi escrito para uma unidade básica que encaminha, e não para uma enfermaria que espera. Escreva no prontuário qual das duas situações é a sua e reveja a prescrição a cada 24 horas.
A diretriz de urgência da World Society of Emergency Surgery, 2020
A colecistectomia laparoscópica imediata é superior à drenagem percutânea transhepática em pacientes de alto risco, e é recomendada como tratamento de primeira escolha nesse grupo, com qualidade de evidência alta e força forte. No ensaio randomizado citado, com pacientes criticamente enfermos, 5 por cento dos operados tiveram complicações maiores contra 53 por cento dos drenados, com mortalidade baixa e igual nos dois grupos, e menor consumo de recursos com a cirurgia. A mesma diretriz recomenda a drenagem, com qualidade moderada e força forte, para quem não tem condições de operar, porque ela converte um paciente séptico num paciente não séptico.
2020 WSES updated guidelines for the diagnosis and treatment of acute calculus cholecystitis, World J Emerg Surg 2020;15:61, seção de tratamento alternativo para quem não pode ser operado
A tradição da classificação de Tóquio de 2013, como o próprio documento de 2020 a descreve, e as séries de drenagem
A versão de 2013 considerava a drenagem da vesícula obrigatória no grau grave e sugeria seu uso no grau moderado quando o tratamento conservador falhasse; a revisão de 2018 passou a propor que o grau grave, sob critérios estritos, possa ser tratado com colecistectomia laparoscópica. As séries de drenagem citadas pelo mesmo documento mostram alta taxa de sucesso, 85,6 por cento em 53 estudos com 1.918 pacientes, e mortalidade relacionada ao procedimento de 0,36 por cento — mas mortalidade em 30 dias de 15,4 por cento, e ampla heterogeneidade entre estudos, com mortalidade hospitalar relatada entre 4 e 50 por cento.
2020 WSES updated guidelines, World J Emerg Surg 2020;15:61, descrição das recomendações de Tóquio de 2013 e 2018 e das revisões sistemáticas de colecistostomia
Para o paciente à sua frente, a pergunta não é qual documento seguir, e sim se ele é mesmo inoperável ou se essa palavra está sendo usada como sinônimo de idoso com muitas doenças. Faça a lista dos motivos concretos que impedem a anestesia hoje e escreva-a; se a lista não se sustenta em papel, o paciente é candidato à operação, e é ela que a evidência mais recente favorece. Se a lista se sustenta, a drenagem é a ponte correta e o objetivo dela é nomeável: tirar a sepse. Nesse caso, marque desde já a reavaliação para a colecistectomia quando o risco baixar, porque a mortalidade em 30 dias dos drenados é alta e a readmissão de quem não opera depois é a regra. E note que os dois números de mortalidade da drenagem não medem a mesma coisa: 0,36 por cento é o que o procedimento causa, e 15,4 por cento é o que acontece com quem precisou dele.
O raciocínio, em voz alta
Nadir Brochado, 47 anos, 68 quilos, auxiliar de lavanderia. Dor contínua em hipocôndrio direito com irradiação para o dorso à direita, iniciada às três da manhã de sexta-feira, depois de uma feijoada; são agora dez e vinte da manhã de sábado, isto é, 31 horas de dor. Vomitou duas vezes na primeira noite e não come desde então. Já teve três episódios semelhantes no último ano, todos com menos de duas horas de duração, e nunca investigou. Sem comorbidades, sem cirurgia prévia, sem medicação de uso contínuo. Pressão 128 por 78, frequência cardíaca 104, frequência respiratória 18, saturação 97 por cento em ar ambiente, temperatura axilar 38,2 graus. Abdome com defesa localizada em hipocôndrio direito e interrupção brusca da inspiração à palpação sob a borda costal, sem massa palpável, sem descompressão dolorosa em outros quadrantes. Anictérica. Hemograma com 19.400 leucócitos por milímetro cúbico, proteína C reativa elevada, bilirrubina total 0,9 com direta 0,2, fosfatase alcalina, gama-glutamiltransferase e transaminases normais, creatinina 0,8, razão normalizada internacional 1,0, plaquetas 268.000.
10h30 — a decisão de destino, antes de qualquer imagem
A dor é contínua há 31 horas e ainda está presente no momento do exame. Isso já tira o caso da categoria dor biliar que passa: o protocolo brasileiro de regulação em uso marca a passagem para colecistite na dor que se torna mais intensa e mais duradoura, acima de seis horas, com defesa à palpação no hipocôndrio direito. Nadir fica. A prescrição sai antes do laudo: jejum, acesso periférico, Ringer com lactato 680 mL — que são 10 mL por quilo para 68 quilos, um frasco de 500 mL mais 180 mL do seguinte —, dipirona 1 g por via venosa, que são 2 mL da solução de 500 mg por mL, e metoclopramida 10 mg, que são 2 mL da ampola de 5 mg por mL.
10h40 — a pergunta que precede a graduação
Antes de graduar, o interno pergunta se é colangite. Nadir tem febre de 38,2, que passa do corte de 38 graus, mas não teve calafrio com tremedeira, está anictérica, e o painel hepático inteiro é normal: bilirrubina 0,9, fosfatase alcalina, gama-glutamiltransferase e transaminases dentro da faixa. Falta o eixo de colestase, que é obrigatório para o diagnóstico definitivo de colangite. A resposta vai escrita na evolução: sem colestase clínica nem laboratorial, colangite afastada neste momento. Hemocultura não é colhida, porque não há febre alta com calafrio nem suspeita de bacteremia biliar.
11h15 — os três itens do diagnóstico, e a imagem que chega
O achado local é a interrupção da inspiração à palpação sob a borda costal direita. O sinal sistêmico está preenchido três vezes: febre, leucocitose e proteína C reativa elevada. Falta a imagem. O ultrassonografista de sobreaviso chega às 11h05 e lauda às 11h15: múltiplos cálculos móveis na vesícula, o maior de 12 milímetros, parede de 5 milímetros, distensão do órgão, lâmina de líquido perivesicular, colédoco de 5 milímetros, pâncreas sem alterações. Os três itens estão preenchidos: diagnóstico definitivo de colecistite aguda, escrito na evolução com o achado que sustenta cada item.
11h30 — a graduação, feita com o que já estava na folha
Nenhum dos seis sistemas do grau grave está alterado: pressão sem droga, consciência preservada, sem taquipneia nem hipoxemia, creatinina 0,8 e diurese presente, razão normalizada internacional 1,0, plaquetas 268.000. Dos quatro itens do moderado, dois estão presentes: leucometria de 19.400, acima do corte de 18.000, e queixa com 31 horas — que ainda não atinge as 72 horas. Não há massa palpável nem sinal de inflamação local marcada. Um item basta: colecistite aguda moderada, por leucometria. A frase entra na evolução com o número ao lado.
11h45 — o telefonema, e o prazo escrito
O cirurgião ainda está no centro cirúrgico. O interno passa o caso por telefone na ordem que funciona: tempo de doença, o que sustenta o diagnóstico, o que sustenta o grau, o que afasta a via biliar, e o pedido. A resposta é para amanhã de manhã, primeira da lista. O interno escreve na evolução: colecistectomia laparoscópica programada para domingo pela manhã, 31 horas de doença na admissão, dentro da janela das duas réguas. E anota o horário de início da dor de novo, agora na primeira linha do resumo, porque é o número que o plantão da noite vai precisar.
Domingo, 9h20 — a operação, e o que ela encontra
Nadir chega ao centro cirúrgico com 54 horas de doença. A colecistectomia laparoscópica encontra uma vesícula distendida, com parede espessada e aderências frouxas no triângulo de Calot, e é concluída por via laparoscópica em 70 minutos. Não houve conversão. A peça vai para exame anatomopatológico, como toda peça de vesícula, porque neoplasia de vesícula é achado incidental de patologia com mais frequência do que é diagnóstico pré-operatório.
Domingo, 18h — o antibiótico que é suspenso
Na visita da tarde, a pergunta é feita explicitamente: o foco foi controlado? A vesícula saiu inteira, não havia perfuração, abscesso nem peritonite. O antibiótico iniciado na admissão é suspenso, e a evolução registra a frase que justifica: foco controlado pela colecistectomia, sem complicação local, antibiótico suspenso conforme recomendação forte da diretriz de urgência de 2020. Dieta líquida é liberada à noite; Nadir aceita.
Segunda, 10h — a alta, e os três caminhos que não foram tomados
Alta com analgesia oral, retorno ambulatorial em sete dias, resultado do anatomopatológico agendado e a lista de quatro sinais de alarme escrita e lida em voz alta. Os três caminhos plausíveis que não foram tomados são os que este capítulo combate. O primeiro: alta no sábado com o diagnóstico de cólica biliar, porque a dor tinha melhorado com a dipirona. O segundo: internação, melhora clínica e alta na terça com encaminhamento ambulatorial para avaliar a vesícula, sem data — a decisão que já havia sido tomada nas três passagens anteriores dela pelo mesmo serviço. O terceiro: tomografia às onze da noite de sábado para confirmar um diagnóstico que a ultrassonografia e a mão já tinham fechado.
Faça você
Quatro e dez da manhã de domingo, mesmo hospital. A ambulância de um município vizinho traz Silvino Marinho, 68 anos, 74 quilos, feirante, diabético em uso de metformina. Há três dias com dor em hipocôndrio direito, menos intensa que a de ontem segundo a filha, mas ontem à noite começou a tremer de frio, e hoje de madrugada ficou confuso e não reconheceu a casa. A filha percebeu que ele estava amarelo quando o levantou. Está sonolento, responde ao chamado e volta a dormir. Pressão 88 por 54, frequência cardíaca 126, frequência respiratória 24, saturação 94 por cento em ar ambiente, temperatura axilar 38,9 graus. Escleras ictéricas, urina escura no coletor. Abdome doloroso difusamente no andar superior, sem defesa, sem massa. Hemograma com 21.600 leucócitos por milímetro cúbico, proteína C reativa muito elevada, bilirrubina total 6,8 com direta 5,1, fosfatase alcalina três vezes o limite superior, gama-glutamiltransferase quatro vezes, alanina aminotransferase duas vezes, creatinina 2,4 mg/dL, razão normalizada internacional 1,6, plaquetas 88.000, albumina 2,6 g/dL. Ultrassonografia à beira do leito: cálculos na vesícula, parede de 3 milímetros, colédoco de 11 milímetros, imagem hiperecogênica no seu interior. Este hospital não tem endoscopia; o serviço que faz drenagem biliar fica a 160 quilômetros.
Passo 1 — a doença tem nome, e não é o mesmo do caso anterior
Percorra os três eixos da régua de colangite e diga se o diagnóstico é suspeito ou definitivo, apontando qual achado preenche cada eixo. Depois responda por que a mesma lista de achados não fecharia o diagnóstico de colecistite pela outra régua.
Passo 2 — o grau, item por item
Percorra os seis sistemas do grau grave com os números da vinheta e diga quantos estão alterados. Depois, para treinar a diferença entre as duas réguas, verifique quantos itens do grau moderado de colangite ele preencheria e por que isso já não importa.
Passo 3 — a ordem dos atos nas duas primeiras horas
Escreva, em ordem, os cinco primeiros atos, dizendo o que vem antes do quê e por quê. Diga onde entra a hemocultura, onde entra o antibiótico e onde entra o telefonema — e qual deles não pode esperar o outro.
Passo 4 — o que a evidência diz sobre o prazo da drenagem neste grau
A série de 6.063 pacientes mostrou benefício de mortalidade com drenagem urgente em um dos três graus. Diga em qual, com os números, e explique por que isso não autoriza atrasar a drenagem deste paciente.
Passo 5 — a vesícula, depois
Suponha que a transferência aconteça, a drenagem seja bem-sucedida e ele melhore. Diga o que precisa constar do relatório que volta com ele para o município de origem, e por que a via biliar desobstruída não encerra o caso.
Continuidade do caso e prática do internato
Compare as duas fichas da cena, retornando sempre à localização da obstrução e à presença de inflamação e disfunção orgânica.
Questão integrativa 1
Dor com sete horas prova colecistite?
Questão integrativa 2
Qual diferença anatômica explica a mudança de conduta na colangite?
Questão integrativa 3
Como usar os prazos da cirurgia precoce?
Questão integrativa 4
Depois de colecistectomia de foco não complicado e controlado, manter antibiótico por rotina ajuda?
Questão integrativa 5
Um paciente de alto risco nunca pode operar?
Questão integrativa 6
O que deve constar da passagem do caso?
Ver como fecharíamos
Passo 1: o diagnóstico de colangite aguda é definitivo, porque os três eixos estão preenchidos. Inflamação sistêmica: temperatura de 38,9 graus, acima do corte de 38, com calafrio referido, e leucometria de 21.600, acima de 10.000. Colestase: bilirrubina total de 6,8 mg/dL, acima do corte de 2, com predomínio direto, mais fosfatase alcalina, gama-glutamiltransferase e alanina aminotransferase acima de uma vez e meia o limite. Imagem: colédoco de 11 milímetros, dilatado, com imagem sugestiva de cálculo em seu interior, o que preenche tanto a dilatação quanto a evidência da causa. Pela régua de colecistite os mesmos achados não fechariam, porque falta o achado local obrigatório: a parede vesicular tem 3 milímetros, não há massa nem sinal de Murphy, e o abdome dói difusamente no andar superior. É doença da via biliar, e não da vesícula. Passo 2: quatro dos seis sistemas do grau grave estão inequivocamente alterados. Neurológico, pelo rebaixamento e pela confusão. Renal, pela creatinina de 2,4 mg/dL, acima do corte de 2,0. Hepático, pela razão normalizada internacional de 1,6, acima de 1,5. Hematológico, pelas plaquetas de 88.000, abaixo de 100.000. O cardiovascular é discutível ao pé da letra: o critério exige hipotensão que demande vasopressor, e ele ainda não recebeu nenhum — mas 88 por 54 com frequência de 126 é hipotensão que vai demandar. O respiratório fica em branco sem gasometria, e é por isso que a gasometria é exame de graduação e não de curiosidade. Um único item bastaria: é colangite aguda grave. Quanto ao grau moderado, ele preencheria exatamente dois dos cinco itens, que é o mínimo que aquele grau exige: leucometria de 21.600, acima de 12.000, e bilirrubina de 6,8, acima de 5. Os outros três não fecham, e vale conferir a conta: a febre de 38,9 não atinge o corte de 39; a idade de 68 anos não atinge o de 75; e a albumina de 2,6 g/dL não fica abaixo de 0,7 vez o limite inferior habitual de 3,5 g/dL, que é 2,45. Nada disso decide, porque a graduação para no grau mais alto preenchido — mas fazer a conta dos dois graus é o que impede confundir as duas réguas. Passo 3: sala de emergência com monitorização, oxigênio e reposição volêmica guiada por resposta; hemoculturas de dois sítios; antibiótico de amplo espectro por via venosa na primeira hora, logo depois das culturas; contato com o serviço de referência que faz drenagem, com o horário anotado; e acionamento do transporte. O telefonema não espera o antibiótico e o antibiótico não espera a imagem — o único ato que precede outro de forma obrigatória é a hemocultura antes da primeira dose. Passo 4: o benefício de mortalidade com drenagem nas primeiras 24 horas apareceu no grau moderado, com 1,7 por cento contra 3,4 por cento, e não apareceu no grave, que teve 5,4 por cento com drenagem precoce contra 4,9 por cento sem, com p de 0,727. Isso não autoriza atrasar nada, por três motivos que o próprio documento registra: a comparação é observacional e os grupos não são iguais; o estudo definiu urgente como dentro de 24 horas da admissão, enquanto outros estudos usam 12 horas, e os autores levantam a hipótese de que o grave precise de drenagem ainda mais precoce; e a drenagem no grave não está lá para reduzir mortalidade estatística, e sim porque a fonte da bacteremia está sob pressão e não se resolve com antibiótico. Passo 5: o relatório precisa dizer o que foi feito e o que falta. Que a via biliar foi desobstruída não retira a vesícula, que continua fabricando pedra e continua sendo a origem do cálculo que desceu; a colecistectomia continua indicada, na mesma internação ou programada com data. O relatório precisa trazer a data e o serviço da cirurgia, o resultado das hemoculturas e o antibiótico usado com a duração, a função renal na alta, e a lista de sinais que trazem o paciente de volta — dor, febre com tremedeira, vômito que não para e amarelo na pele ou no olho. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. A persistência aumenta suspeita; o diagnóstico integra exame, inflamação sistêmica e imagem. 2. A infecção envolve a via biliar principal obstruída. Além de antibiótico, pode exigir drenagem do ducto, não apenas tratamento da vesícula. 3. Registrar início e admissão separadamente. Operar o mais cedo possível conforme condições; os marcos não autorizam esperar nem criam proibição automática depois de 72 horas. 4. Não. A indicação pós-operatória deve depender de complicação e infecção residual, não do simples fato de ter havido colecistite. 5. Não. Risco, gravidade e possibilidade de tratamento definitivo precisam ser discutidos; drenagem é alternativa em situações selecionadas, não equivalente universal à cirurgia. 6. Diagnóstico sustentado, gravidade, início dos sintomas, suporte realizado e plano definitivo com responsável. Se houver adiamento, explicar razão e próxima avaliação.
A WSES 2020 recomenda colecistectomia laparoscópica precoce no paciente de alto risco que ainda reúne condições para cirurgia, após estabilização e avaliação da equipe. Alto risco não equivale a contraindicação operatória. No CHOCOLATE, complicações maiores ocorreram em 12% no grupo cirúrgico e 65% no grupo de drenagem; mortalidade foi 3% versus 9%, sem diferença estatisticamente significativa, o que não prova igualdade. O ensaio incluiu pacientes selecionados, com APACHE II de 7–14; seus resultados não autorizam operar indiscriminadamente quem está em choque ou sem condições anestésicas. A drenagem é alternativa importante quando a cirurgia não é viável.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Uma semana depois, sem abrir o capítulo, enumere os três itens do diagnóstico de colecistite aguda e o que muda entre diagnóstico suspeito e definitivo; quais são os quatro achados que promovem uma colecistite a moderada; quais são os três eixos do diagnóstico de colangite e por que um deles não existe na régua da colecistite; e qual é o prazo da colecistectomia precoce nas duas fontes que discordam sobre ele. Depois responda a pergunta que não está em nenhuma régua: a partir de que ponto do relógio você conta esse prazo.
Em 30 dias
Trinta dias depois, pegue no seu serviço cinco prontuários de pacientes que passaram pela porta com dor em hipocôndrio direito e cálculo de vesícula, e confira cinco coisas em cada um. Se alguém registrou o momento em que a dor começou, e não apenas o horário em que o paciente entrou. Se o grau de gravidade foi escrito por extenso em algum lugar da evolução. Se houve ultrassonografia repetida na mesma internação sem que a pergunta clínica tivesse mudado. Se o antibiótico foi suspenso depois da colecistectomia não complicada, e em que dia. E se o paciente saiu com a vesícula retirada, com data de cirurgia marcada, ou com nenhuma das duas coisas. Esses cinco itens medem, juntos, quase tudo o que este capítulo ensina, e todos estão no papel, sem depender da memória de ninguém.
Agora atenda
Atenda uma dor em hipocôndrio direito no pronto-socorro: separe a dor biliar que já cedeu da vesícula inflamada, use os três itens para fechar o diagnóstico, gradue com o que já está na folha, faça a pergunta que afasta colangite antes de graduar e decida, ainda no seu turno, quando a vesícula sai.
