Cirurgia Geral › Urgência e Emergência Cirúrgica
Bile sob pressão
Colangite aguda e coledocolitíase
Reconhecer infecção da via biliar, identificar disfunção orgânica e organizar antibiótico, suporte e drenagem no tempo exigido pelo paciente.
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Paciente com colangite aguda por coledocolitíase submetido a drenagem endoscópica bem-sucedida, afebril desde o procedimento e com marcadores em queda. A hemocultura colhida na admissão cresceu Enterococcus faecalis. Segundo a recomendação específica das Tokyo Guidelines de 2018 para esse agente na hemocultura, qual é a duração proposta e seu motivo?
O paciente que você vai ver
Vinte e duas e quarenta de uma terça-feira. O hospital tem noventa leitos, atende cinco municípios e fica a cento e sessenta quilômetros do hospital estadual. Tem tomógrafo, e o técnico mora a dez minutos. Tem laboratório com plantão. Não tem endoscopia, não tem radiologia intervencionista e não tem quem faça uma drenagem de via biliar, hoje nem amanhã. Você é o interno da escala noturna, com um clínico plantonista que está na sala de emergência desde as nove com uma descompensação de insuficiência cardíaca.
Dorvalino Camurçá tem 68 anos, 74 quilos, foi tratorista de usina até se aposentar por causa do joelho, e chega andando, apoiado na filha. No campo da queixa, a classificação de risco escreveu duas palavras: dor abdominal. A pulseira é amarela. Ele está sentado na cadeira do corredor havia quarenta minutos quando você o chama, e a primeira coisa que se vê, antes de qualquer pergunta, é que ele está amarelo — não o amarelo discreto que se procura na esclera com uma lanterna, mas o amarelo que se enxerga do outro lado do corredor, na pele do rosto e no branco dos olhos.
A segunda coisa é que ele está tremendo. Não é o tremor fino de quem tem frio: é uma tremedeira de corpo inteiro, com os dentes batendo, que dura dois ou três minutos e passa. A filha conta que isso começou ontem à noite, e que aconteceu de novo hoje de manhã e outra vez na sala de espera. Ela usa a palavra que quase toda família usa e que vale a pena escutar até o fim: ele deu uma tremedeira. Enquanto ela fala, ele diz que a barriga dói do lado direito, em cima, e que doeu forte anteontem, melhorou, e voltou.
A dor não é a informação mais importante desta ficha. A tremedeira é. E o amarelo é. Porque quando febre, icterícia e dor no quadrante superior direito aparecem juntas, existe um diagnóstico que se comporta de um jeito diferente de todos os outros do abdome agudo: ele não piora ao longo de dias, ele piora ao longo de horas, e o que o resolve não está neste hospital.
A pergunta que organiza a noite inteira não é qual é o diagnóstico. A resposta a essa você vai ter em uma hora, com um hemograma, um hepatograma e uma ultrassonografia. A pergunta é outra, e ela é de logística tanto quanto de medicina: se este senhor tiver colangite aguda, o tratamento que muda o desfecho é a desobstrução da via biliar, e a desobstrução não acontece aqui. O relógio que importa não é o do diagnóstico — é o do telefonema.
Isso é o que separa a colangite de tudo o que veio antes nesta apostila. Na apendicite, no abdome que obstruiu, na diverticulite, você é parte da solução: examina, decide, e alguém opera, muitas vezes na mesma casa. Na colangite de um serviço sem endoscopia, a sua contribuição decisiva cabe em três atos que custam minutos — reconhecer, tratar o que dá para tratar, e acionar cedo quem drena, com o paciente ainda compensado. O erro caro deste capítulo não é errar o diagnóstico. É acertar o diagnóstico às onze da noite e telefonar às seis da manhã.
Duas fronteiras precisam ficar de pé antes da primeira frase técnica. A vesícula inflamada, a dor biliar que já cedeu, a colelitíase e o prazo da colecistectomia depois de um episódio de colecistite pertencem ao capítulo A mesma pedra, três destinos, o quinto desta apostila, e é para lá que este texto manda o leitor toda vez que a doença for da vesícula e não do ducto. A pancreatite biliar, as indicações do procedimento endoscópico dentro da pancreatite e a colecistectomia na internação-índice do paciente com pancreatite pertencem ao capítulo Pancreatite aguda, o segundo. Aqui o recorte é a via biliar principal: o que acontece quando ela entope, e o que muda quando o que está atrás da obstrução infecta.
O capítulo assume, e declara que assume, o que ninguém mais tem: a colangite aguda inteira — reconhecer, graduar, decidir quem drena e em quantas horas —, a coledocolitíase com e sem colangite, a escolha da via de drenagem, o antimicrobiano da colangite e o destino da vesícula depois que a via biliar foi desobstruída. Assume também o tumor de via biliar e de papila enquanto causa de obstrução e de colangite; o que o nível ensina desses tumores além disso está no capítulo de icterícia obstrutiva, para o colangiocarcinoma peri-hilar e o intra-hepático, e no de câncer de pâncreas e tumores periampulares, para a papila e o colangiocarcinoma distal — os dois na apostila de Cirurgia do Aparelho Digestivo.
O atendimento começa pela identificação da infecção, da obstrução e de sua repercussão. Os critérios ajudam a organizar o diagnóstico e a gravidade; o passo decisivo é articular suporte, antimicrobiano e controle do foco. Acompanhe esse percurso nas seções seguintes e observe como a reavaliação modifica a prioridade.
Quem adoece disso
A doença começa com uma pedra, e pedra na vesícula é comum a ponto de ser quase um dado demográfico. O protocolo brasileiro de regulação registra que estudos de necropsia no Brasil apontam colelitíase em 9,1 a 19,4 por cento da população com mais de 20 anos. O manual brasileiro de cuidados intensivos em hepatologia dá a faixa mundial em 10 a 35 por cento. As duas medidas são de coisas diferentes — necropsia contra estimativa de prevalência — e nenhuma delas é a que interessa aqui, porque a esmagadora maioria dessas pedras nunca sai da vesícula.
O funil que leva da pedra à colangite é estreito, e conhecer a largura dele é o que evita duas atitudes erradas ao mesmo tempo: tratar toda colelitíase como ameaça e tratar toda febre com icterícia como coisa que pode esperar. O manual brasileiro registra que 10 a 20 por cento dos cálculos vistos na ultrassonografia podem ser encontrados no ducto biliar comum em pacientes com doença biliar sintomática, e que o risco de esses pacientes apresentarem colangite aguda sintomática é de 0,2 por cento. Do outro lado do funil, estima-se que 0,3 a 1,6 por cento dos portadores de cálculo assintomáticos ou com sintomas leves possam desenvolver colangite aguda.
São números pequenos, e é justamente por serem pequenos que a colangite chega de surpresa. Um pronto-socorro geral vê dezenas de dores em hipocôndrio direito por mês e talvez uma colangite. A doença não treina o serviço por repetição, e o reconhecimento tem de vir de regra escrita, não de faro clínico acumulado.
A mortalidade caiu muito e continua incômoda. O manual brasileiro registra a taxa atual em 2,7 a 10 por cento. A maior série já reunida para validar a régua japonesa — 6.063 pacientes de serviços do Japão e de Taiwan, internados entre 2011 e 2013 — mostrou mortalidade em 30 dias de 2,6 a 3,0 por cento no conjunto, conforme o corte de tempo usado para dividir os grupos. A diferença entre uma faixa e outra não é contradição: a série japonesa mede uma população tratada em serviços com endoscopia disponível, e a faixa que vai até 10 por cento inclui realidades em que a drenagem demora.
A mesma série é a fonte da distribuição por gravidade, e essa distribuição é a informação de planejamento mais útil do capítulo. Aplicados os critérios de gravidade aos 6.063 pacientes, 2.523 ficaram no grau leve, 2.019 no moderado e 1.521 no grave — 41,6 por cento, 33,3 por cento e 25,1 por cento. Vale ler isso como uma frase de plantão: de cada quatro pacientes com colangite aguda, um chega já com disfunção de órgão, e outro está no grau em que a drenagem precoce demonstrou reduzir mortalidade. Metade dos pacientes, portanto, precisa de decisão sobre drenagem na primeira noite.
Um dado desmonta o método diagnóstico que a maioria dos internos aprendeu primeiro. A tríade de Charcot — febre, dor no hipocôndrio direito e icterícia — tem especificidade alta e sensibilidade baixa, e a sensibilidade despencou conforme as séries foram ficando maiores e mais recentes. Estudos antigos relatavam algo entre 50 e 70 por cento; séries multicêntricas recentes mediram 26,4 por cento e 21,2 por cento. O manual brasileiro, com literatura da mesma época, dá a faixa larga de 15 a 70 por cento. Em qualquer leitura dessas, esperar a tríade completa significa deixar de diagnosticar a maioria dos pacientes.
Foi exatamente esse o problema que a revisão de 2013 resolveu, e vale saber como. Quando os itens da versão de 2007 foram reorganizados em três manifestações clínicas baseadas na tríade, a sensibilidade subiu para 95,1 por cento, mas a especificidade caiu para 66,3 por cento, com 38,8 por cento de falsos positivos por colecistite aguda. Retirar a dor abdominal do conjunto deu 91,8 por cento de sensibilidade, 77,7 por cento de especificidade e 5,9 por cento de falsos positivos por colecistite. É por isso que a dor não é item da régua: ela é o que confundia a colangite com a vesícula.
O ganho prático dessa mudança está medido. Na série de 6.063 pacientes, a régua de 2013 fechou diagnóstico definitivo ou suspeito em 5.454 pacientes, 90,0 por cento, contra 4.815 pacientes, 79,4 por cento, pela régua de 2007. O ganho se concentra onde importa menos e falta onde importa mais: entre os 2.523 pacientes de grau leve, a taxa de diagnóstico foi de apenas 83,6 por cento, e dos 609 pacientes que não fecharam critério, 511 — 83,9 por cento — não tinham sinal de inflamação sistêmica. A régua é boa para não perder o paciente grave e mediana para o paciente leve.
Quem infecta a bile também tem um perfil que orienta a escolha empírica. Os agentes principais são bacilos Gram-negativos entéricos, com atenção especial para enterococo e para anaeróbios em idosos, em infecções graves e em quem tem anastomose entre via biliar e alça intestinal. A bile colhida na drenagem é positiva em 28 a 93 por cento dos casos de colangite, conforme a série. A hemocultura é positiva em 15,2 por cento dos pacientes de grau leve, 21 por cento dos de grau moderado e 25,7 por cento dos de grau grave — o rendimento cresce com a gravidade, e é essa a justificativa de colher no paciente grave e de não colher por reflexo no paciente leve.
Um número pequeno tem consequência grande na alta. Entre 6.147 pacientes com colangite aguda, houve 17 casos de endocardite infecciosa, 0,3 por cento. É pouco, e é o motivo pelo qual a bacteremia por coco Gram-positivo — enterococo, estreptococo — muda a duração do antimicrobiano de dias para semanas. A conferência da conta fecha: 17 divididos por 6.147 dão 0,28 por cento, que arredonda para os 0,3 por cento declarados.
Por fim, a epidemiologia da causa. Coledocolitíase é a principal causa de colangite aguda, e é a que este capítulo trata em primeiro plano. Mas a lista de causas é maior e precisa estar na cabeça do interno que atende um ictérico febril: cálculo no colédoco e litíase intra-hepática; tumores de papila, de cabeça de pâncreas, colangiocarcinoma e compressão extrínseca no hilo hepático; manipulação prévia da via biliar por via endoscópica, percutânea ou cirúrgica; estenoses fibróticas, pós-cirúrgicas, pós-trauma e isquêmicas; pancreatite crônica; e parasitas, com o Ascaris lumbricoides à frente no cenário brasileiro. A causa muda a via de drenagem e muda o prognóstico — a graduação, aliás, deixa de se correlacionar com a mortalidade em 30 dias quando a colangite é de causa tumoral.
Por que acontece o que acontece
A via biliar é um cano com pressão própria. O fígado secreta bile contra uma resistência baixa, e o sistema inteiro funciona enquanto a saída na papila estiver livre. Quando um cálculo desce da vesícula pelo cístico, entra no colédoco e encrava perto da desembocadura, a bile deixa de sair e a pressão dentro da árvore biliar começa a subir. Nas primeiras horas isso produz um paciente ictérico, com colúria e às vezes acolia, e mais nada. É a coledocolitíase pura, e ela dói, incomoda e amarela — mas não mata na mesma noite.
O que transforma esse quadro em outra doença é a chegada de bactéria. A bile normal é praticamente estéril, e a estase é o que permite a colonização: bactéria entérica sobe da papila, ou já estava ali depois de uma manipulação prévia da via biliar, e encontra um meio parado, rico e quente. Até aqui ainda não há doença sistêmica. Há bile infectada dentro de um cano fechado.
O passo que define a colangite aguda é hidráulico, e é onde o capítulo inteiro se apoia. Quando a pressão dentro da árvore biliar ultrapassa a pressão de secreção do hepatócito, o fluxo se inverte. A bile não sai mais pela papila e passa a atravessar a parede dos canalículos em direção aos sinusoides hepáticos e aos linfáticos. Bactéria e endotoxina que estavam confinadas ao cano caem direto na circulação sistêmica. É por isso que a colangite adoece o corpo inteiro desde o primeiro dia, e não apenas o quadrante em que dói: o que alimenta o quadro é uma descarga repetida de germe e de toxina a partir de um compartimento que ninguém esvaziou.
Dessa mecânica sai a consequência terapêutica que governa tudo o que vem depois. O antimicrobiano age no compartimento em que ele consegue chegar em concentração suficiente, que é o sangue. A fonte, porém, continua sob pressão e continua injetando bactéria no sangue a cada minuto. Tratar colangite só com antibiótico é esvaziar uma banheira com a torneira aberta: melhora enquanto a vazão do dreno for maior que a da torneira, e piora no instante em que a pressão sobe. A régua japonesa diz isso em três palavras — diagnóstico precoce, drenagem biliar ou tratamento da causa, e antimicrobiano — e a ordem dessas três não é alfabética.
A mesma mecânica explica por que o calafrio é o sintoma mais fiel e por que ele vem em ondas. Cada episódio de tremedeira com dentes batendo corresponde a uma descarga de bactéria e endotoxina no sangue, e essas descargas são intermitentes porque a pressão dentro do cano oscila com a secreção biliar e com o deslocamento do cálculo. Um paciente que teve três tremedeiras em vinte e quatro horas teve três bacteremias documentáveis. É informação clínica de altíssimo valor, e ela vem de graça, da boca da família, antes de qualquer exame.
Vale entender por que a vesícula é outro problema, porque é a confusão mais frequente à beira do leito. Na colecistite, a obstrução é do ducto cístico, e o que fica retido e inflama é o conteúdo de uma bolsa que tem parede própria e território próprio. A doença é local antes de ser sistêmica: dói num ponto, tem defesa naquele ponto, e o achado obrigatório da régua é local. Na colangite, a obstrução é da via biliar principal, e o compartimento que fica sob pressão se comunica com o fígado inteiro. A doença é sistêmica antes de ser local: pode não ter defesa, pode não ter ponto doloroso definido, e o achado obrigatório da régua é sistêmico. Um paciente pode ter as duas ao mesmo tempo, e aí as duas réguas se aplicam em paralelo — a decisão sobre a vesícula e a decisão sobre o ducto são independentes.
A causa do entupimento muda o que se pode fazer com ele. Cálculo encravado é o cenário em que a desobstrução endoscópica resolve a obstrução e a causa no mesmo ato, porque a papilotomia abre a saída e a pedra pode ser retirada. Estenose tumoral do terço médio ou distal do colédoco é o cenário em que se drena com prótese e não se retira a causa. Obstrução alta, no hilo hepático ou intra-hepática, é o cenário em que a via endoscópica pode não alcançar o setor obstruído e a drenagem percutânea trans-hepática ou cirúrgica entra. Anastomose entre via biliar e alça intestinal muda o espectro bacteriano, acrescentando anaeróbio de forma consistente. Nada disso é detalhe de especialista: é o que determina para qual serviço o paciente é transferido.
Há um último ponto de mecanismo que evita um erro de nome com consequência real. Existe uma doença crônica, autoimune, de destruição progressiva dos ductos biliares intra-hepáticos, que se chama colangite biliar primária. Ela tem tratamento medicamentoso de uso contínuo, evolução em anos e nenhuma relação com o quadro deste capítulo. O nome é quase o mesmo e a doença é o oposto: uma é obstrução aguda infectada de via biliar extra-hepática, com relógio de horas; a outra é colestase crônica intra-hepática, com relógio de décadas. O capítulo volta a esse ponto no bloco de erros, porque a confusão entre as duas tem endereço concreto na lista brasileira de medicamentos.

Como se apresenta de verdade
A colangite se apresenta mal. Ela não tem um sinal semiológico próprio, não tem um ponto doloroso com nome, e o conjunto clássico que os livros ensinaram por um século aparece numa minoria dos pacientes. O que ela tem é um padrão: um paciente que fica sistemicamente doente rápido demais para o que se vê no abdome, com sinal de colestase. Este bloco descreve as formas em que esse padrão chega, e a forma em que ele engana.
As fronteiras valem aqui de forma explícita. A vesícula inflamada, com dor contínua há mais de seis horas e interrupção da inspiração à palpação sob a borda costal, é do capítulo A mesma pedra, três destinos, o quinto desta apostila. A dor em faixa no andar superior com irradiação dorsal e enzima pancreática elevada é do capítulo Pancreatite aguda, o segundo. O mapa geral de quem opera, quem investiga e quem vai para casa com dor abdominal é do capítulo Dor abdominal no pronto-socorro. E a leitura do padrão de lesão no hepatograma — o que separa lesão hepatocelular de colestase, e o que cada enzima mede — é do capítulo Provas hepáticas, o quinto da apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito. Aqui as enzimas entram só como item de uma régua.
A tríade quase nunca vem completa — e esperar por ela custa a vida
Febre, dor em hipocôndrio direito e icterícia juntas apontam colangite com força enorme. O problema nunca foi a força do achado quando ele está presente: é a frequência com que ele está ausente. Séries multicêntricas recentes mediram taxas de diagnóstico pela tríade de 26,4 por cento e 21,2 por cento. Traduzido para o plantão: em quatro pacientes com colangite aguda, três não têm os três sinais ao mesmo tempo no momento em que você examina.
Isso tem uma implicação de método que vale mais que qualquer mnemônico. A tríade não é critério diagnóstico e não deve ser usada como filtro de entrada. A régua japonesa a abandonou explicitamente como critério e a substituiu por três eixos que se preenchem com o que qualquer serviço tem: sinal sistêmico, sinal de colestase, e imagem. E fez mais do que substituir: retirou de propósito a dor abdominal do conjunto de itens, porque foi a dor que gerou 38,8 por cento de falsos positivos por colecistite aguda quando os itens da versão anterior foram testados. A dor continua sendo informação útil, e o próprio documento a lista entre os fatores que ajudam no diagnóstico — mas ela não pontua.
Há um passo adiante que a literatura clínica chama de pêntade de Reynolds, somando à tríade a hipotensão e a alteração do nível de consciência. Convém saber o nome porque ele circula, e convém saber o que ele significa hoje: os dois itens acrescentados não são achados diagnósticos, são critérios de disfunção de órgão. Um paciente com pêntade completa não está tendo o diagnóstico confirmado por ela — está sendo classificado no grau mais alto de gravidade, com indicação de drenagem urgente. A pêntade não é um estágio avançado de reconhecimento: é um paciente que já perdeu tempo.
O jeito prático de guardar isso é inverter a pergunta. Em vez de perguntar se o paciente tem os três sinais clássicos, pergunte se ele tem sinal de inflamação sistêmica — e, tendo, se há qualquer evidência de que a bile não está saindo. Febre ou calafrio, mais bilirrubina ou enzima de canalículo alterada, mais imagem que mostre via dilatada ou a causa, fecham diagnóstico definitivo. Febre ou calafrio mais um dos outros dois já fecham suspeita, e suspeita de colangite se trata como colangite até que se prove o contrário.
O calafrio: o sintoma que a família descreve melhor que o paciente
A régua lista, no eixo de inflamação sistêmica, febre e ou calafrio com tremedeira, com corte de temperatura acima de 38 graus. A conjunção importa: o calafrio conta mesmo quando a temperatura medida naquele instante está normal, e é comum que esteja, porque a tremedeira precede o pico febril e porque o paciente costuma chegar ao serviço depois dele.
Perguntar bem sobre isso é técnica, não gentileza. Febre é uma palavra que o paciente usa para muitas coisas e que ele frequentemente nega quando não mediu a temperatura. Tremedeira, arrepio de corpo inteiro, dentes batendo, precisar de cobertor no calor — essas descrições a família dá sem hesitar, e são elas que caracterizam o calafrio com rigor. Pergunte quantas vezes aconteceu e a que horas. Cada episódio corresponde a uma descarga bacteriana, e a contagem dá a velocidade da doença: três episódios em vinte e quatro horas é uma doença que está acelerando.
O paciente idoso pode não fazer febre nenhuma, e isso não afasta o diagnóstico. A régua prevê essa situação de forma expressa: nos casos leves a temperatura pode subir pouco, e o eixo sistêmico pode então ser preenchido pelo laboratório — leucometria fora da faixa, abaixo de 4.000 ou acima de 10.000 por microlitro, ou proteína C reativa igual ou maior que 1 miligrama por decilitro. É a razão pela qual o hemograma e a proteína C reativa entram nesse paciente mesmo quando o termômetro não ajuda.
Fica um alerta que o próprio documento levanta. Entre os pacientes que não fecharam critério na maior série de validação, a esmagadora maioria — 83,9 por cento — não tinha sinal de inflamação sistêmica, e o eixo sistêmico é obrigatório. Existe, portanto, uma colangite inicial que a régua não captura, e ela é justamente a do paciente que ainda não descarregou bactéria no sangue. Nesse paciente, o que sustenta a conduta é o quadro obstrutivo mais a vigilância: a régua manda reavaliar o diagnóstico de 6 em 6 ou de 12 em 12 horas até fechar, e essa reavaliação é uma ordem, não uma sugestão.
O amarelo que aparece e o que não aparece
Icterícia visível é o achado que faz o diagnóstico saltar do outro lado do corredor, e ela está presente em 60 a 70 por cento dos pacientes com colangite aguda. O corte da régua é bilirrubina total igual ou maior que 2 miligramas por decilitro, e é bom saber que a icterícia se torna perceptível na esclera perto desse valor e na pele um pouco acima — o exame e o laboratório concordam por construção, não por coincidência.
O terço restante é o que importa aprender. O eixo de colestase pode ser preenchido sem nenhum amarelo, pelo laboratório: fosfatase alcalina, gama-glutamiltransferase, aspartato aminotransferase ou alanina aminotransferase acima de uma vez e meia o limite superior da normalidade do laboratório que fez o exame. Basta uma delas. Um paciente febril com tremedeira, anictérico, com fosfatase alcalina duas vezes o limite, tem o eixo B preenchido e pode fechar diagnóstico definitivo se a imagem colaborar.
Vale registrar o que a alteração de transaminase significa nesse contexto, sem invadir o capítulo que é dono do assunto. A obstrução aguda da via biliar pode elevar aspartato e alanina aminotransferase a valores altos nas primeiras horas, às vezes acima do que se espera de uma colestase pura, e depois deixá-los cair enquanto a fosfatase alcalina e a gama-glutamiltransferase sobem. A leitura sistemática desse padrão, com as razões entre as enzimas, é do capítulo Provas hepáticas. O que este capítulo precisa é menos que isso: qualquer uma das quatro acima de uma vez e meia o limite preenche o item.
Colúria e acolia são achados de história e de inspeção que custam uma pergunta e não pontuam na régua. Valem mesmo assim, por dois motivos. Datam o início da obstrução com mais precisão que a icterícia, porque a urina escurece antes de a pele amarelar. E são a linguagem em que o paciente entende o que está acontecendo, o que faz diferença na conversa sobre transferência.
O paciente que engana: idoso, imunossuprimido e pós-procedimento
Três apresentações roubam tempo com frequência suficiente para merecer aviso. A primeira é o idoso que chega confuso. Alteração do nível de consciência é, na régua, critério de disfunção neurológica, ou seja, grau grave — e é o preditor isolado que a análise de fatores prognósticos apontou como o mais importante. Um idoso trazido por confusão aguda, com febre baixa e sem queixa abdominal clara, precisa de hepatograma antes que alguém escreva delirium na evolução. A confusão pode ser a única manifestação exteriorizada de uma bacteremia biliar.
Prótese biliar, anastomose e manipulação prévia modificam causas e risco microbiológico. Não presumir que colangite pós-operatória dispensa drenagem: investigar obstrução, oclusão de prótese e falha de escoamento. A anatomia e a resposta ao suporte orientam a via e a urgência com a equipe especializada.
A terceira é a colangite sem dilatação de via biliar na imagem. Ela existe, e o fluxograma brasileiro a nomeia: paciente com cirrose e paciente em pós-operatório de transplante de fígado podem ter colangite com árvore biliar não dilatada. Nesse cenário, a ausência de dilatação não afasta nada, e o caminho é investigar migração de cálculo, causas intra-hepáticas de colestase aguda e hepatite colestática medicamentosa, avaliando individualmente entre conduta expectante, colangiorressonância e biópsia hepática.
Some a essas a apresentação parasitária, que no Brasil não é curiosidade. Ascaris lumbricoides migrando para a via biliar é causa reconhecida de colangite, e ela muda a imagem que se procura e o tratamento da causa. Vale a pergunta epidemiológica no paciente que vem de área de baixo saneamento, principalmente o jovem sem cálculo.
Coledocolitíase sem colangite: o mesmo cálculo, outro relógio
Valdivino Riffel tem 46 anos, é motorista de caminhão-pipa, e chega ao mesmo pronto-socorro numa quinta-feira de manhã. Está amarelo, tem colúria há três dias, teve dor forte em hipocôndrio direito na semana passada que passou sozinha, e hoje não dói. Não teve febre em momento nenhum, e a família, perguntada de forma direta, nega qualquer tremedeira. Temperatura 36,4 graus, pressão e frequência normais, abdome sem defesa. Bilirrubina total 4,8 com direta 3,6, fosfatase alcalina e gama-glutamiltransferase elevadas, leucometria 8.100, proteína C reativa normal. A ultrassonografia mostra cálculos na vesícula, parede fina, e colédoco de 11 milímetros com imagem de cálculo no interior.
Valdivino tem coledocolitíase e não tem colangite. A distinção não é acadêmica: ela troca o relógio inteiro. Falta-lhe o eixo obrigatório da régua, que é o de inflamação sistêmica — sem febre, sem calafrio, sem leucometria fora da faixa, sem proteína C reativa elevada. Os eixos de colestase e de imagem estão preenchidos com folga, e isso, sozinho, não fecha nem diagnóstico suspeito, porque a suspeita exige um item do eixo sistêmico mais um dos outros dois.
O que Valdivino tem é uma obstrução mecânica que precisa ser desfeita, porque enquanto a pedra estiver lá ele tem risco de fazer exatamente o que Dorvalino fez. Mas ele não tem uma bacteremia em curso, e a diferença entre desobstruir hoje à noite e desobstruir na semana que vem não é a diferença entre viver e morrer. É diferença de conforto, de função hepática e de risco acumulado — coisas que se decidem em dias, e não em horas.
Este é o ponto em que os documentos brasileiros discordam entre si de forma aberta, e o capítulo trata isso no bloco de divergências, sem escolher vencedor. Vale adiantar o essencial: o protocolo de regulação em uso classifica o paciente com colelitíase, icterícia e sem febre como encaminhamento a serviço de cirurgia de hospital terciário com prioridade alta, e escreve o prazo como cerca de duas semanas. O manual brasileiro de cuidados intensivos, no fluxograma da colangite, marca o procedimento endoscópico terapêutico em 72 horas quando não há colangite moderada ou grave. E o protocolo estadual de encaminhamento manda a coledocolitíase sintomática para urgência e emergência, reservando o ambulatório de gastroenterologia em hospital com endoscopia para a coledocolitíase sem critério de emergência ou já avaliada e estável.
O que não muda em nenhuma das três leituras: Valdivino precisa ser reavaliado se aparecer febre ou tremedeira, e a família precisa sair sabendo disso com essas palavras. A coledocolitíase que ganha febre deixa de ser o problema de Valdivino e passa a ser o de Dorvalino, e a passagem entre os dois estados pode levar horas.
O que não é colangite, e por que confundir custa caro
Hepatite aguda é a confusão que a própria régua antecipa. Ela pode dar icterícia intensa e transaminases muito altas, e a diferença que o documento aponta é que resposta inflamatória sistêmica marcada é infrequente na hepatite aguda. Quando a distinção for difícil, a orientação é explícita: pedir sorologias e testes virais. O erro custa caro nas duas direções — tratar hepatite como colangite expõe o paciente a um procedimento invasivo desnecessário, e tratar colangite como hepatite deixa a fonte pressurizada onde está.
Colecistite aguda é a confusão de vizinhança, e ela tem endereço numérico: 5,9 por cento de falsos positivos com a régua atual, contra 38,8 por cento com a versão que incluía dor abdominal. O que separa as duas é o achado obrigatório de cada régua. A da colecistite exige achado local — interrupção da inspiração à palpação, massa ou dor em quadrante superior direito. A da colangite exige achado sistêmico e achado de colestase. Um paciente com parede vesicular espessada, Murphy positivo e hepatograma normal tem colecistite. Um paciente com colédoco dilatado, bilirrubina de 6 e parede vesicular fina tem colangite. E há quem tenha os dois, caso em que se aplicam as duas réguas e se decide considerando a gravidade de cada uma.
Colestase aguda intra-hepática é a categoria que o fluxograma brasileiro manda investigar quando a via biliar não está dilatada. Entram aí a colestase da gravidez, a colestase intra-hepática benigna recorrente, as hepatites colestáticas, a sepse de outro foco, o pós-operatório, a nutrição parenteral total e a congestão passiva crônica. A colangite deste capítulo é obstrução extra-hepática infectada, e essas outras são coisas diferentes com tratamentos diferentes.
A lesão colestática por medicamento fecha a lista, e é a que mais escapa porque exige perguntar. O manual brasileiro traz uma lista longa de fármacos associados a lesão aguda colestática, com amoxicilina com ácido clavulânico, eritromicina, ampicilina, cotrimoxazol, carbamazepina, azatioprina, contraceptivos orais e anabolizantes entre eles, e propõe uma janela de associação: o evento ocorrendo de 5 a 90 dias após o início do primeiro tratamento, ou de 1 a 90 dias após tratamentos subsequentes, com redução de pelo menos metade das alterações em menos de 180 dias depois da suspensão. Perguntar o que o paciente começou a tomar no último mês é barato e às vezes decide o caso.
Por fim, a confusão de nome. Colangite biliar primária não é colangite aguda. A primeira é doença crônica autoimune de ductos intra-hepáticos, com tratamento de uso contínuo e seguimento em anos; a segunda é a emergência deste capítulo. O bloco de erros mostra por que essa confusão tem consequência prática no Brasil, e não é só semântica.
Como fechar o diagnóstico
A investigação da colangite tem uma característica que a distingue das outras deste livro: ela serve a três perguntas ao mesmo tempo, e é preciso saber qual exame responde a qual. A primeira é se existe colangite. A segunda é qual o grau, porque o grau decide o prazo da drenagem. A terceira é qual a causa e onde está a obstrução, porque isso decide a via de drenagem e o serviço de destino. Um exame pedido sem saber a qual das três ele serve costuma atrasar as outras duas.
A ordem também importa. A régua manda começar a medir sinais vitais antes de qualquer diagnóstico e, se a situação for julgada urgente, iniciar tratamento imediatamente, incluindo suporte respiratório e circulatório, sem esperar diagnóstico definitivo. Isso significa que a investigação e o tratamento correm em paralelo, e que nenhum exame deste bloco tem precedência sobre o acesso venoso, o volume e o antimicrobiano.
O painel de sangue: quem entra e por quê
A lista que a régua exige não é longa e cada item tem função declarada. Para o diagnóstico e para a graduação, o documento pede leucometria, contagem de plaquetas, proteína C reativa, albumina, fosfatase alcalina, gama-glutamiltransferase, aspartato e alanina aminotransferase, bilirrubinas, ureia, creatinina, tempo de protrombina com razão normalizada internacional, e gasometria arterial. Se houver febre alta, hemocultura preferencialmente já nesse momento.
Vale ver a lista de novo separando o que faz o quê, porque isso muda o que se cobra do laboratório com urgência. Diagnosticam: leucometria, proteína C reativa, bilirrubina total, e as quatro enzimas. Graduam: leucometria de novo, bilirrubina total de novo, albumina, creatinina, razão normalizada internacional, plaquetas, e a relação entre pressão parcial de oxigênio e fração inspirada, que só existe se alguém colher gasometria arterial.
Esse último item costuma ser esquecido e é o motivo pelo qual pacientes de grau grave são classificados como moderados. A disfunção respiratória do grau grave se define por relação entre pressão parcial de oxigênio e fração inspirada de oxigênio abaixo de 300, e essa relação não sai de oximetria de pulso. Num paciente que não está em oxigênio suplementar, a fração inspirada é 0,21, e uma pressão parcial de oxigênio de 60 milímetros de mercúrio já dá uma relação de 286 — grau grave, num paciente que a oximetria mostrava com saturação aceitável. Gasometria arterial na colangite é exame de graduação, e não de curiosidade.
A albumina merece nota porque o corte dela não é um número fixo. O item de graduação é hipoalbuminemia definida como valor abaixo de 0,7 vez o limite inferior da normalidade do laboratório. Se o limite inferior local for 3,5 gramas por decilitro, o corte é 2,45. Se for 3,4, o corte é 2,38. Um capítulo que imprimisse um corte fixo estaria errado para metade dos laboratórios do país, e é por isso que a régua escreve a operação em vez do resultado.
Uma advertência de leitura sobre esse mesmo item aparece no bloco de critérios: a sigla que designa o limite de normalidade significa limite superior nos itens de enzima e limite inferior no item de albumina, e o manual brasileiro que traduziu a tabela glosou a sigla do mesmo modo nas duas — com consequência aritmética grande.
Hemocultura: quantas, quando, e por que antes da primeira dose
A regra operacional é simples e quase sempre desobedecida: se a hemocultura não foi colhida na resposta inicial, ela deve ser colhida antes do antimicrobiano. E, quando houver drenagem, a bile colhida no procedimento vai obrigatoriamente para cultura — a régua diz que bile de ducto comum deve ser enviada em todos os casos de suspeita de colangite.
O rendimento justifica o incômodo. A hemocultura é positiva em 15,2 por cento dos pacientes de grau leve, 21 por cento dos de grau moderado e 25,7 por cento dos de grau grave. A cultura de bile é positiva em faixa muito mais larga, de 28 a 93 por cento conforme a série, o que faz dela o exame microbiológico de maior rendimento nesta doença — e ela só existe se alguém drenar.
O pacote de manejo é explícito sobre quando colher sangue: hemocultura ou cultura de bile, ou as duas, nos pacientes de grau moderado e grave. Para o grau leve de origem comunitária, a orientação da série de 2018 é não colher por rotina, e a justificativa é honesta — os agentes que aparecem nessas bacteremias em geral não mudam a duração do tratamento nem obrigam a regime múltiplo. Um estudo citado sobre impacto de hemoculturas colhidas em pronto-socorro dá a dimensão: de 1.062 hemoculturas, 92 foram positivas, 52 foram verdadeiro-positivas e apenas 18 mudaram o manejo.
Há uma exceção que inverte a regra do grau leve e vale decorar: se a bacteremia for por coco Gram-positivo, enterococo ou estreptococo, a duração do antimicrobiano passa a ser de no mínimo duas semanas, pelo risco de endocardite infecciosa. Nesse cenário específico, a hemocultura muda a conduta de forma drástica — e é uma decisão que só existe se o sangue tiver sido colhido. O capítulo trata isso como argumento a favor de colher também no grau leve quando houver qualquer dúvida, e registra que a orientação escrita é a de não colher por rotina.
O manual brasileiro dá a operacionalização mais prática que encontramos: dois pares de sítios diferentes, sem intervalo entre eles, e sem necessidade de o paciente estar febril no momento da coleta. Essa última cláusula resolve o impasse mais comum do plantão, que é esperar o pico febril para colher — na colangite a bacteremia é intermitente e alta, e esperar significa atrasar o antimicrobiano.
Ultrassonografia primeiro: um exame que fecha quando mostra e não afasta quando não mostra
A ultrassonografia abdominal é o primeiro exame de imagem na suspeita de colangite, e a razão é logística antes de ser diagnóstica: é pouco invasiva, amplamente disponível, simples e barata. A régua a recomenda como primeira escolha apesar de reconhecer suas desvantagens, que são a dependência de quem opera e a interferência das condições do paciente.
O que ela responde bem: se a via biliar está dilatada, e onde. O que ela responde mal: se há cálculo dentro do colédoco. A meta-análise citada pela régua mede isso com clareza — para colédoco dilatado, sensibilidade de 42 por cento e especificidade de 96 por cento; para cálculo em via biliar, sensibilidade de 38 por cento e especificidade de 100 por cento. O manual brasileiro dá faixa parecida, de 25 a 63 por cento de sensibilidade e 95 a 100 por cento de especificidade para obstrução biliar por cálculo.
Essa assimetria entre sensibilidade e especificidade define como usar o exame. Ultrassonografia que mostra cálculo no colédoco fecha o item de imagem e a causa de uma vez — com especificidade de 100 por cento, praticamente não há falso positivo. Ultrassonografia que não mostra cálculo não afasta nada: com sensibilidade de 38 por cento, o exame deixa passar a maioria. É um erro grave de raciocínio escrever na evolução que a coledocolitíase foi afastada pela ultrassonografia.
Vale saber por que o exame falha justamente onde mais dói. O terço distal do colédoco, que é onde o cálculo encrava, é a porção pior visualizada pela ultrassonografia, por causa do gás intestinal sobreposto. O paciente com colangite frequentemente tem íleo, o que piora ainda mais a janela. A dilatação da via, por ser um achado de calibre e não de conteúdo, sobrevive melhor a essa limitação — e é por isso que o item C da régua aceita a dilatação isoladamente, sem exigir que se veja a pedra.
Um ponto de calibração para não superinterpretar o número do laudo: o item da régua é dilatação biliar, e não um calibre específico em milímetros. O documento não fixa um corte, e há razão para isso — o calibre normal muda com a idade e sobe em quem já foi colecistectomizado. O laudo que diz colédoco dilatado, com a medida ao lado, preenche o item; a discussão sobre onde exatamente fica o limite pertence ao radiologista e ao paciente concreto.
Tomografia: quando ela entra e o que acrescenta
A tomografia computadorizada tem uma vantagem estrutural sobre a ultrassonografia — não é afetada por gás intestinal — e por isso enxerga melhor o terço distal do colédoco e os cálculos intra-hepáticos. A régua registra, no entanto, que sua sensibilidade para cálculo em via biliar é de apenas 25 a 90 por cento, e explica o motivo: a densidade do cálculo depende da quantidade de fosfato e de carbonato de cálcio na sua composição, e há cálculo que simplesmente não aparece.
O que a tomografia acrescenta de verdade em relação à ultrassonografia é outra coisa. Ela identifica bem a dilatação, contribui muito mais para o diagnóstico da causa da estenose — carcinoma de via biliar, câncer de pâncreas, colangite esclerosante — e, sobretudo, mostra complicações locais: abscesso hepático e trombose de veia porta. Num paciente que não melhora como deveria depois de drenado, é a tomografia que responde por quê.
Na prática do pronto-socorro, a régua reconhece que a tomografia é frequentemente feita antes da ultrassonografia, porque cobre área ampla e é útil para excluir outros diagnósticos abdominais. Isso não é erro. O que é erro é a tomografia atrasar o antimicrobiano ou o telefonema para o serviço de referência, e esse é um risco real em serviços onde o técnico precisa ser chamado de casa.
Vale conhecer um achado tomográfico que a régua discute como pergunta de pesquisa, porque ele aparece em laudo e confunde. Diferenças transitórias de atenuação no parênquima hepático na fase precoce da tomografia dinâmica são vistas em 67,9 a 85 por cento dos pacientes com colangite e em apenas 1,78 a 5 por cento de indivíduos saudáveis. O documento é cauteloso: o achado aparece também em pancreatite, pielonefrite e pneumonia, portanto não é específico, e os estudos sobre seu valor para graduar gravidade se contradizem. Não é critério, e não deve ser usado como se fosse.
Colangiorressonância e ecoendoscopia: os exames do paciente estável
A colangiorressonância delineia a via biliar sem contraste iodado e sem invasão, e é o melhor exame não invasivo para identificar a causa de uma obstrução. Na comparação citada pela régua em pacientes com icterícia obstrutiva, a colangiorressonância identificou doença benigna em 98 por cento e maligna em 98 por cento dos casos, contra 82,86 e 91,43 por cento da tomografia e 88 e 88 por cento da ultrassonografia.
A ecoendoscopia é o exame de maior acurácia para coledocolitíase — o manual brasileiro dá sensibilidade de 93 a 98 por cento e especificidade de 97 a 100 por cento —, com as limitações de custo, de dependência do operador e de baixa sensibilidade para lesões proximais ou intra-hepáticas. A colangiorressonância, no mesmo quadro brasileiro, aparece com sensibilidade de 85 por cento e especificidade de 93 por cento, e o texto registra suas fraquezas específicas: cálculo menor que 6 milímetros, cálculo impactado na ampola e cálculo associado a colédoco muito dilatado.
A pergunta que resolve o uso desses dois exames não é qual é melhor. É se o paciente pode esperar por eles. Nenhum dos dois existe no hospital de Dorvalino, os dois exigem agendamento, e os dois são exames para quem está estável e cuja causa permanece indefinida. A régua os posiciona assim de forma explícita: por acessibilidade limitada, ressonância e colangiorressonância são usadas quando o diagnóstico é difícil ou incerto com a ultrassonografia ou com a tomografia.
Isso tem uma consequência que vale escrever com todas as letras: num paciente com colangite moderada ou grave e cálculo provável, a ausência de colangiorressonância não atrasa a drenagem. A drenagem também é diagnóstica. Esperar um exame de imagem melhor para depois drenar inverte a ordem que a régua estabelece.
O procedimento endoscópico não é exame diagnóstico
A colangiopancreatografia retrógrada endoscópica ocupa um lugar particular e a régua é direta sobre ele: o procedimento é realizado com finalidade terapêutica, ou seja, de drenagem, e não é adequado como primeira escolha para fins diagnósticos. Isso não é uma questão de preferência — é porque o exame tem complicações próprias, entre elas a pancreatite pós-procedimento, e porque existem exames não invasivos com acurácia comparável para responder à pergunta diagnóstica.
O corolário é que a indicação do procedimento na colangite nasce da gravidade e da presença de obstrução, e não da vontade de ver melhor. No fluxograma brasileiro, o caminho é explícito: havendo coledocolitíase, ou dilatação de colédoco com suspeita de coledocolitíase, a pergunta seguinte é se a colangite é moderada ou grave. Se for, procedimento endoscópico urgente, avaliando a colocação inicial de prótese ou de dreno nasobiliar. Se não for, procedimento endoscópico em 72 horas com finalidade terapêutica — e antecipando se o paciente piorar clinicamente ou ficar hemodinamicamente instável.
Quando a obstrução não é por cálculo, a decisão muda de mãos. Diante de tumor de pâncreas ou de papila, ou de estenose benigna ou neoplásica em terço médio ou distal do colédoco, o mesmo fluxograma manda avaliar a drenagem endoscópica individualmente. Diante de estenose de hilo hepático ou intra-hepática, benigna ou tumoral, ele manda considerar drenagem cirúrgica ou percutânea. A regra prática que sobra para o interno é geográfica: quanto mais alta a obstrução, menor a chance de a endoscopia resolver sozinha, e mais cedo o radiologista intervencionista precisa entrar na conversa.
Um detalhe de encaminhamento que economiza um dia inteiro: o protocolo estadual de encaminhamento exige que o encaminhamento por coledocolitíase seja dirigido a serviço que realize o procedimento endoscópico, e lista o conteúdo mínimo — quadro clínico com sinais, sintomas, exame físico, história de colecistite, colangite ou pancreatite prévias e comorbidades; história de colecistectomia ou de outros procedimentos biliares, com data e serviço; e o laudo do exame de imagem anexado, ou descrito na íntegra, com data. Encaminhamento sem essas informações volta, e voltar custa semanas.
Fechar o diagnóstico, graduar, e ler o relógio que o grau manda
O diagnóstico combina inflamação sistêmica, colestase e imagem; não depende da tríade completa de Charcot. A prioridade é reconhecer disfunção orgânica e organizar controle do foco. Paciente grave necessita drenagem urgente depois de suporte inicial, em paralelo ao preparo; no moderado, organizar precocemente. A recomendação geral de descompressão em até 48 horas não autoriza aguardar esse prazo no paciente que piora.
- 1Meça sinais vitais antes de qualquer coisa. Se o quadro for urgente, comece tratamento imediatamente, com suporte respiratório e circulatório se necessário, sem esperar diagnóstico definitivo.
- 2Preencha o eixo A, que é obrigatório: febre acima de 38 graus e ou calafrio com tremedeira, ou leucometria abaixo de 4.000 ou acima de 10.000 por microlitro, ou proteína C reativa igual ou maior que 1 miligrama por decilitro.
- 3Preencha o eixo B: bilirrubina total igual ou maior que 2 miligramas por decilitro, ou icterícia visível, ou qualquer uma das quatro enzimas acima de uma vez e meia o limite superior do laboratório.
- 4Preencha o eixo C: via biliar dilatada na imagem, ou evidência da causa na imagem, seja cálculo, estenose ou prótese.
- 5Conclua: um item de A mais um item de B ou de C é diagnóstico suspeito; um item de A mais um de B mais um de C é diagnóstico definitivo. Suspeito se trata como colangite.
- 6Se não fechar nem suspeito, reavalie o diagnóstico de 6 em 6 ou de 12 em 12 horas até fechar ou até ter outro diagnóstico.
- 7Gradue. Um item qualquer de disfunção de órgão põe o paciente no grau grave. Dois itens da lista de cinco põem no moderado. O que não é nem um nem outro é leve.
- 8Reavaliar desde as primeiras horas. O grau deve ser atualizado com novos dados; horários de 24 e 48 horas são pontos de registro, não intervalos mínimos para agir.
- 9Leia o relógio que o grau manda, e comece por ele o telefonema, não o contrário.
Os três eixos do diagnóstico, com o que preenche cada um
| Eixo | O que preenche | Corte numérico | Observação de plantão |
|---|---|---|---|
| A — inflamação sistêmica (obrigatório) | Febre e ou calafrio com tremedeira; ou alteração da leucometria; ou proteína C reativa elevada | Temperatura acima de 38 graus; leucometria abaixo de 4.000 ou acima de 10.000 por microlitro; proteína C reativa igual ou maior que 1 miligrama por decilitro | O calafrio conta mesmo sem febre medida no momento. Sem nenhum item deste eixo não há diagnóstico, nem suspeito |
| B — colestase | Icterícia; ou provas hepáticas alteradas | Bilirrubina total igual ou maior que 2 miligramas por decilitro; fosfatase alcalina, gama-glutamiltransferase, aspartato ou alanina aminotransferase acima de uma vez e meia o limite superior do laboratório | Basta uma enzima. O paciente anictérico pode preencher este eixo só pelo laboratório — e 30 a 40 por cento dos pacientes não têm icterícia |
| C — imagem | Dilatação da via biliar; ou evidência da causa | Sem corte de milímetros na régua; cálculo, estenose ou prótese vistos preenchem o item | Ultrassonografia que não mostra cálculo não afasta nada: sensibilidade de 38 por cento. Ultrassonografia que mostra fecha: especificidade de 100 por cento |
| Dor abdominal | Não pontua | Sem corte | Foi retirada de propósito: com ela o método dava 38,8 por cento de falsos positivos por colecistite; sem ela, 5,9 por cento |
Os três graus, e o prazo que cada um manda
| Grau | O que define | O que o relógio manda | Onde o paciente deve estar |
|---|---|---|---|
| Grave (III) | Qualquer um destes: hipotensão que exija dopamina em 5 microgramas por quilo por minuto ou mais, ou noradrenalina em qualquer dose; alteração do nível de consciência; relação entre pressão parcial de oxigênio e fração inspirada abaixo de 300; oligúria ou creatinina acima de 2,0 miligramas por decilitro; razão normalizada internacional acima de 1,5; plaquetas abaixo de 100.000 por milímetro cúbico | Drenagem urgente, junto com o tratamento inicial e o suporte de órgão. A drenagem se faz assim que a condição do paciente tiver sido melhorada pelo suporte — não depois de o paciente estar bem | Serviço com drenagem e com terapia intensiva. Se não houver, transferência imediata |
| Moderado (II) | Dois ou mais destes cinco: leucometria acima de 12.000 ou abaixo de 4.000 por milímetro cúbico; febre igual ou maior que 39 graus; idade igual ou maior que 75 anos; bilirrubina total igual ou maior que 5 miligramas por decilitro; albumina abaixo de 0,7 vez o limite inferior do laboratório | Drenagem precoce, endoscópica ou percutânea trans-hepática, junto com o tratamento inicial. O tratamento da causa vem depois da melhora — e pode ser feito no mesmo ato quando a causa é cálculo | Serviço com drenagem e manejo sistêmico. Se não houver drenagem, transferência |
| Leve (I) | Não preenche os critérios de grave nem de moderado no momento do diagnóstico | Tratamento inicial com antimicrobiano resolve na maioria. Se não houver resposta em 24 horas, drenagem imediatamente | Pode ficar, com uma condição: havendo cálculo no colédoco ou ausência de resposta em 24 horas, trata-se como moderado |
| Qualquer grau | Colangite é colangite | Diagnóstico precoce, drenagem ou tratamento da causa, e antimicrobiano são o tratamento fundamental em todos os graus — inclusive no leve | Culturas de sangue ou de bile, ou as duas, nos graus moderado e grave |
Mortalidade em 30 dias por grau e por momento da drenagem — série de 6.063 pacientes do Japão e de Taiwan
| Grau (n) | Drenagem em até 24 h | Depois de 24 h ou ausente | Drenagem em até 48 h | Depois de 48 h ou ausente | O que isso significa |
|---|---|---|---|---|---|
| Grave — 1.521 | 5,4 por cento (42 de 781) | 4,9 por cento (36 de 740), p igual a 0,727 | 4,9 por cento (50 de 1.017) | 5,6 por cento (28 de 504), p igual a 0,622 | Nenhuma diferença medida. É a divergência central do capítulo, e não autoriza atrasar |
| Moderado — 2.019 | 1,7 por cento (16 de 939) | 3,4 por cento (37 de 1.080), p menor que 0,05 | 2,0 por cento (25 de 1.272) | 3,7 por cento (28 de 747), p menor que 0,05 | Nesta coorte, houve associação entre drenagem precoce e menor mortalidade no grau moderado. Isso não demonstra ausência de benefício no grave nem autoriza atrasar seu controle do foco. |
| Leve — 2.523 | 1,3 por cento (13 de 989) | 1,2 por cento (18 de 1.534), p igual a 0,853 | 1,1 por cento (16 de 1.441) | 1,4 por cento (15 de 1.082), p igual a 0,586 | Nenhuma diferença. Sustenta tratar primeiro e drenar só quem não responde |
| Conjunto — 6.063 | 2,6 por cento (71 de 2.709) | 2,7 por cento (91 de 3.354), p igual a 0,873 | 2,4 por cento (91 de 3.730) | 3,0 por cento (71 de 2.333), p igual a 0,164 | O efeito do grau moderado se dilui no conjunto — motivo pelo qual a decisão é por grau, e não por média |
Conversão para a prescrição, num adulto de 74 quilos, contra a apresentação real e contra o elenco do SUS
| Fármaco e apresentação | Dose do capítulo | Conta em mililitros ou unidades | Situação na Rename 2024 |
|---|---|---|---|
| Ceftriaxona, pó para solução injetável de 250 mg, 500 mg e 1 g | 1 g por via venosa, uma a duas vezes ao dia | 1 g é um frasco de 1 g, ou dois frascos de 500 mg. Diluído em 10 mL de água, dá 100 mg por mL. Dois gramas por dia são dois frascos de 1 g | Consta, componente Básico, classificação de alerta. É o único antimicrobiano prescrito pelo protocolo brasileiro de regulação |
| Cefotaxima sódica, pó para solução injetável de 500 mg | 1 g a cada 8 horas | Cada dose são dois frascos de 500 mg; o dia inteiro são seis frascos. A 2 g a cada 8 horas seriam doze frascos por dia | Consta, componente Básico, classificação de alerta — mas só na apresentação de 500 mg, o que multiplica frascos e tempo de preparo |
| Metronidazol, o parceiro anaeróbio de todo regime com cefalosporina | 500 mg por via venosa a cada 6 horas | Seriam 2 g por dia; na apresentação usual de 5 mg por mL, 100 mL por dose e 400 mL por dia | Não consta em forma injetável. O elenco tem 250 mg e 400 mg comprimido, componente Básico, e gel vaginal. Os 2 g diários equivaleriam a cinco comprimidos de 400 mg |
| Dipirona, solução injetável de 500 mg por mL | 1 g por via venosa a cada 6 horas | 1 g são 2 mL, uma ampola de 2 mL; o dia são 4 g, ou 8 mL | Consta, componente Básico, nas três formas: comprimido, solução oral e solução injetável |
| Sulfato de morfina, solução injetável de 10 mg por mL | 0,05 mg por quilo, titulada | Em 74 kg são 3,7 mg. Sem diluir seriam 0,37 mL, volume que não se mede com segurança; a ampola de 1 mL diluída em 9 mL de água dá 1 mg por mL, e a dose vira 3,7 mL | Consta, componente Especializado, com documento norteador do protocolo de dor crônica — e não de dor aguda |
| Solução de Ringer com lactato | 30 mL por quilo na hipotensão ou hiperlactatemia | Em 74 kg são 2.220 mL, ou 2,22 litros, ou 4,4 frascos de 500 mL | Consta, componente Básico. É a solução que o protocolo brasileiro de regulação prefere |
| Hemitartarato de norepinefrina, solução injetável de 2 mg por mL | Titulada pela pressão; qualquer dose já classifica o paciente no grau grave | A ampola de 4 mL tem 8 mg. Quatro ampolas em 250 mL dão 128 microgramas por mL: 0,1 micrograma por quilo por minuto em 74 kg são 7,4 microgramas por minuto, ou 3,5 mL por hora | Consta, componente Básico. Atenção ao nome: a busca por noradrenalina devolve zero, porque o elenco usa a denominação norepinefrina |
| Cloridrato de dopamina, solução injetável de 5 mg por mL | O critério de grau grave é 5 microgramas por quilo por minuto ou mais | Em 74 kg, 5 microgramas por quilo por minuto são 370 microgramas por minuto, ou 22,2 mg por hora. A ampola de 10 mL tem 50 mg, o que dá pouco mais de duas horas por ampola | Consta, componente Básico |
Critérios escritos com unidade. No grau grave, o corte de plaquetas adotado no capítulo é inferior a 100.000/mm³. Um mm³ equivale a um µL: mudar entre essas unidades não justifica transformar 100.000 em 10.000. Registre o valor do exame junto da classificação.
Valores de fronteira. Os sinais “maior que” e “maior ou igual a” não são intercambiáveis. Use os operadores apresentados na tabela do capítulo para leucócitos, temperatura, idade e bilirrubina, especialmente quando o resultado coincide com o limite.
Limites de referência. Nos itens de enzimas, a comparação usa o limite superior da normalidade; na albumina, usa o limite inferior. Para fosfatase alcalina com limite superior de 130 U/L, 1,5 vez esse limite corresponde a 195 U/L. Usar o limite inferior responde a outra pergunta e altera a classificação. Exemplo de referência laboratorial. Para uma fosfatase alcalina com faixa de 40 a 130 unidades, uma vez e meia o limite superior corresponde a 195. Multiplicar o limite inferior por 1,5 daria 60, ainda dentro da normalidade. No item de enzimas da colestase, use o limite superior; no item de albumina da gravidade, o inferior. Identifique qual limite está sendo utilizado antes de fazer a conta.
Albumina. O item descrito usa valor inferior a 0,7 vez o limite inferior da normalidade. Se esse limite for 3,5 g/dL, o corte é 2,45 g/dL. A unidade e o multiplicador precisam permanecer explícitos ao calcular o item.
Exemplo de graduação. No caso de um paciente de 75 anos com bilirrubina total de 5,0 mg/dL, os valores de fronteira podem preencher os itens correspondentes. Não transforme um critério inclusivo em estrito ao copiar a tabela para o prontuário. Exemplo de fronteira. Um paciente de exatamente 75 anos, com bilirrubina total de 5,0 mg/dL, leucometria de 9.800, temperatura de 38,4 °C e albumina de 3,2 g/dL, num laboratório cujo limite inferior é 3,5, preenche dois itens de grau moderado: idade e bilirrubina. Os sinais de inclusão do limite importam para reconhecer a indicação de drenagem precoce. Se fossem lidos apenas como “maior que”, os dois itens desapareceriam da classificação, embora o paciente fosse o mesmo.
Lactato. Dois mmol/L correspondem a aproximadamente 18 mg/dL; 36 mg/dL correspondem a aproximadamente 4 mmol/L. Confira a unidade do laboratório antes de interpretar a repercussão clínica. A equivalência numérica não substitui a avaliação de perfusão e a reavaliação do suporte.
Estudos de drenagem. As tabelas citadas dividem a mesma população por grau e por momento do procedimento. A comparação entre grupos não responde sozinha a quanto tempo um paciente em deterioração pode esperar. Relacione o resultado ao mecanismo de obstrução e à prioridade descrita no fluxo.
Hemoculturas. Diferencie a proporção de exames positivos sobre todas as coletas da proporção de verdadeiros positivos entre os resultados positivos. São denominadores diferentes. Na prática, registre o resultado, sua interpretação e o que ele modifica no tratamento.
Duração do antimicrobiano. Enquetes de especialistas e séries observacionais ajudam a contextualizar recomendações, mas não substituem a avaliação do controle de foco e dos resultados microbiológicos. Registre a data da desobstrução e a previsão de revisão ou suspensão apresentada no plano.
Acesso aos medicamentos. A Rename e a aquisição hospitalar têm funções diferentes. A presença de ceftriaxona ou cefotaxima na lista e a ausência de outras apresentações não descrevem, por si só, todo o estoque do hospital. Confira a disponibilidade institucional do regime prescrito, incluindo a forma e a via de administração.
Doenças com nomes semelhantes. O ácido ursodesoxicólico listado para colangite biliar primária pertence ao cuidado de outra doença, crônica e autoimune. Essa indicação não corresponde ao tratamento da colangite aguda obstrutiva discutida aqui.
Regulação e cuidado hospitalar. O protocolo que orienta jejum, acesso, suporte e transferência responde ao atendimento inicial. A equipe receptora precisa receber também a suspeita, a graduação e a necessidade de controle do foco. Um documento sobre fila de transplante ou encaminhamento não substitui esse planejamento.
A conduta, hora a hora
O que segue é a noite de Dorvalino Camurçá, hora a hora, num hospital que não tem drenagem biliar. Escolhemos esse cenário de propósito, porque é o cenário da maioria dos internos brasileiros e porque é aquele em que a contribuição do interno é maior. Onde há endoscopia no prédio, a conduta do interno é reconhecer e chamar; onde não há, ele reconhece, trata, gradua, calcula o tempo de transporte e negocia a vaga — e é essa a sequência que muda o desfecho.
Duas regras estruturam a linha do tempo inteira e vale enunciá-las antes. A primeira: tratamento e diagnóstico correm juntos, e nenhum exame tem precedência sobre volume e antimicrobiano. A segunda: só existe uma ordem obrigatória entre dois atos nesta doença, e é a hemocultura antes da primeira dose. Todo o resto se faz em paralelo, e é assim que se ganha tempo.
Hora 0 — sinais vitais antes do diagnóstico
A régua começa por medir sinais vitais para decidir se a situação é urgente, e autoriza iniciar tratamento imediatamente, com manejo respiratório e circulatório, sem esperar diagnóstico definitivo. Meça pressão, frequência cardíaca, frequência respiratória, temperatura, saturação, nível de consciência e diurese. Dorvalino chega com pressão de 112 por 68, frequência de 104, respiratória de 22, temperatura de 38,6, saturação de 95 por cento em ar ambiente, orientado, e sem saber dizer quando urinou pela última vez. Ainda não é um paciente instável — e é exatamente nesse paciente que a janela existe.
Prescrição- Acesso venoso periférico calibroso, monitorização e oxigênio se a saturação exigir
- Jejum, por princípio, para não impedir uma drenagem de emergência
- Glicemia capilar e eletrocardiograma no idoso febril, que custam minutos e afastam concorrentes
- Registro escrito do horário de início da tremedeira e do número de episódios — é o dado que data a doença
Hora 0 a 1 — hemocultura, e depois o antimicrobiano
Dois pares de hemocultura, de sítios diferentes, sem intervalo entre eles e sem esperar pico febril: a bacteremia da colangite é intermitente e esperar febre só atrasa. Colhidas as culturas, o antimicrobiano entra por via venosa, em dose plena, na primeira hora. A régua manda administrar analgésico e antimicrobiano em dose plena assim que o diagnóstico é feito, e manda começar antes dele se o paciente estiver em choque. A escolha empírica cobre bacilo Gram-negativo entérico; anaeróbio entra obrigatoriamente se houver anastomose entre via biliar e alça intestinal, e enterococo entra na cobertura do grau grave de origem comunitária. Na farmácia que o SUS garante, a ceftriaxona é o que existe — e o capítulo registra, no bloco de critérios, que a maior parte do que a régua internacional recomenda não está no elenco nacional.
Prescrição- Colher hemoculturas antes da primeira dose se possível, sem atrasar antimicrobiano em instabilidade ou suspeita de sepse.
- Exemplo comunitário no adulto sem choque e sem risco relevante de resistência: ceftriaxona 2 g IV a cada 24 horas. Ajustar ao protocolo, alergias e contexto; quadro grave ou relacionado à assistência pode exigir espectro mais amplo. Definir cobertura anaeróbia quando indicada, em vez de deixar o intervalo em aberto.
- Anaeróbio associado se houver anastomose biliodigestiva ou manipulação prévia da via biliar
- Se houver drenagem depois, bile do ducto comum obrigatoriamente para cultura
- Anotar na prescrição o horário exato da primeira dose — é o marco a partir do qual se conta a resposta
Hora 0 a 1 — volume, analgesia, e o que a analgesia pode
Reposição volêmica suficiente, com monitorização de pressão, frequência e diurese, e correção de eletrólitos. Havendo hipotensão ou hiperlactatemia, a expansão inicial é de 30 mililitros por quilo de cristaloide, o que em Dorvalino são 2.220 mililitros. Sobre a analgesia, a régua é enfática e desmonta um mito: apesar do receio de que o analgésico mascare sinais e leve a erro diagnóstico, um ensaio randomizado comparando morfina venosa com placebo em pacientes com dor abdominal no pronto-socorro não encontrou diferença na taxa de diagnóstico, e por isso o analgésico deve ser administrado proativamente e cedo. A ressalva que o documento faz é outra e é farmacológica: opioides e análogos contraem o esfíncter da via biliar e podem elevar a pressão biliar, e por isso devem ser administrados com cautela. Cautela é titular, e não deixar o paciente com dor.
Prescrição- Cristaloide isotônico com taxa escrita em mililitros por hora e reavaliação horária; solução de Ringer com lactato é a preferida pelo protocolo brasileiro
- Diurese medida e anotada de hora em hora — ela é item de graduação, e não apenas de conforto
- Dipirona 1 g por via venosa, que são 2 mL da solução de 500 mg por mL, a cada 6 horas
- Morfina como resgate: 0,05 mg por quilo, que em 74 kg são 3,7 mg; a ampola de 10 mg diluída em 9 mL de água dá 1 mg por mL, e a dose vira 3,7 mL, titulada
- Correção de eletrólitos conforme o painel, sem esperar a segunda coleta
Hora 1 a 3 — a ultrassonografia, e o fechamento do diagnóstico
O painel de Dorvalino volta às 23h40: leucometria 17.400, proteína C reativa muito elevada, bilirrubina total 7,2 com direta 5,4, fosfatase alcalina e gama-glutamiltransferase acima de três vezes o limite, alanina aminotransferase duas vezes e meia o limite, creatinina 1,4, razão normalizada internacional 1,2, plaquetas 168.000, albumina 3,1 num laboratório cujo limite inferior é 3,5, gasometria com relação entre pressão parcial de oxigênio e fração inspirada de 340. A ultrassonografia, feita à 0h20, mostra cálculos na vesícula, parede de 3 milímetros, e colédoco de 12 milímetros com imagem sugestiva de cálculo no interior. Os três eixos estão preenchidos: sistêmico pela febre e pela leucocitose; colestase pela bilirrubina e pelas enzimas; imagem pela dilatação e pela causa. Diagnóstico definitivo de colangite aguda.
Prescrição- Ultrassonografia de abdome superior como primeiro exame de imagem, mesmo sabendo da sensibilidade baixa para cálculo no colédoco
- Tomografia apenas se houver dúvida de outro diagnóstico abdominal ou suspeita de complicação local — e nunca atrasando o antimicrobiano por causa dela
- Escrever na evolução os três itens que fecharam o diagnóstico, com os números que os preencheram
- Não escrever que a coledocolitíase foi afastada quando a ultrassonografia não mostra o cálculo
Hora 1 a 3 — graduar, e graduar sabendo o que cada item decide
Comece pelo grau grave, porque um item basta. Cardiovascular: sem vasopressor, negativo. Neurológico: orientado, negativo. Respiratório: relação de 340, acima de 300, negativo. Renal: creatinina 1,4, abaixo de 2,0; a diurese precisa ser vigiada. Hepático: razão de 1,2, abaixo de 1,5, negativo. Hematológico: 168.000 plaquetas, negativo. Não é grau grave. Vá ao moderado, em que dois de cinco bastam. Leucometria 17.400, acima de 12.000: preenche. Febre 38,6, abaixo de 39: não preenche. Idade 68, abaixo de 75: não preenche. Bilirrubina 7,2, acima de 5: preenche. Albumina 3,1 contra um corte de 0,7 vez 3,5, que é 2,45: não preenche. Dois itens de cinco. Dorvalino é colangite aguda de grau moderado — e é justamente o grau em que a drenagem precoce reduziu a mortalidade pela metade na maior série existente.
Prescrição- Fazer a conta dos dois graus por escrito, mesmo quando o grave é obviamente negativo — é o que impede pular um item
- Colher gasometria arterial: sem ela o item respiratório fica em branco e o paciente pode ser subgraduado
- Calcular o corte de albumina com o limite inferior do laboratório que fez o exame, e não com um número decorado
- Registrar o grau e reavaliar clinicamente em intervalos curtos, antecipando diante de piora. Reclassificar formalmente em 24 e 48 horas não substitui monitorização e resposta imediata a disfunção.
Hora 3 a 6 — o telefonema: quem drena, por qual via, e com qual informação
Este é o ato que muda o desfecho num hospital sem endoscopia, e ele não espera mais nada. A régua é explícita: se o hospital não é equipado para drenagem endoscópica ou percutânea trans-hepática, ou para terapia intensiva, o paciente de grau moderado ou grave deve preferencialmente ser transferido para um hospital capaz de fazê-lo, independentemente de a drenagem vir a ser necessária ou não. O pacote de manejo repete a instrução por grau: no moderado, se a drenagem precoce não puder ser feita por falta de estrutura ou de pessoal treinado, considere transferir. A via depende de onde está a obstrução — obstrução baixa por cálculo é território da endoscopia, que resolve obstrução e causa no mesmo ato pela papilotomia; obstrução alta, no hilo ou intra-hepática, tende à drenagem percutânea trans-hepática ou cirúrgica. Essa distinção não é acadêmica: ela determina se o destino precisa ter endoscopista, radiologista intervencionista, ou os dois.
Prescrição- Ligar para a regulação com o diagnóstico já fechado e o grau já calculado, e dizer os dois na primeira frase
- Informar o que já foi feito e a que horas: culturas colhidas, primeira dose do antimicrobiano, volume infundido, diurese
- Informar o que o serviço tem e o que não tem, para que o destino saiba o que precisa fazer na chegada
- Anotar no prontuário o horário do contato, o nome de quem atendeu e a resposta — este registro é a prova do relógio
- Não esperar a tomografia, a colangiorressonância ou a melhora clínica para telefonar
Hora 6 a 24 — a drenagem, e o que se faz enquanto ela não vem
Dorvalino é aceito no hospital estadual e sai de ambulância às 4h10, com a segunda dose do antimicrobiano feita. No destino, o procedimento endoscópico com papilotomia e retirada do cálculo acontece às 11h30, dentro das 24 horas da admissão. Quando a vaga não sai, o trabalho não acaba: reavalie a gravidade, porque o grau muda, e um paciente que passa a preencher qualquer item de disfunção de órgão vira grau grave e sobe na prioridade de regulação. Mantenha o antimicrobiano, o volume e a analgesia, e refaça o painel que gradua. E registre, em cada turno, que a drenagem foi solicitada e não foi obtida — esse registro é o que constrói o argumento para a próxima ligação e o que documenta a assistência prestada.
Prescrição- Reavaliar perfusão, consciência, diurese, dor e temperatura durante a espera; qualquer deterioração exige acionamento imediato e revisão da urgência da drenagem, sem esperar o próximo dia.
- Repetir função renal, plaquetas, razão normalizada internacional e bilirrubina — são itens de graduação, não de rotina
- No grau grave, suporte de órgão imediato: ventilação, vasopressor, e drenagem assim que a condição melhorar com o suporte inicial
- No grau leve sem resposta em 24 horas, ou com cálculo no colédoco, tratar como moderado e buscar drenagem
- Registrar a cada turno a solicitação de vaga, o horário e a resposta obtida
Depois da drenagem — a vesícula, a duração do antimicrobiano e o relatório
Desobstruir a via biliar não retira a vesícula, e a vesícula continua fabricando a pedra que desceu. O pacote de manejo é explícito: a colecistectomia deve ser realizada para a colecistolitíase depois que a colangite aguda estiver resolvida, e o tratamento da causa por via endoscópica, percutânea ou operatória se considera uma vez resolvido o episódio agudo. O prazo e a técnica dessa colecistectomia pertencem ao capítulo A mesma pedra, três destinos. Sobre a duração do antimicrobiano, a régua é objetiva: uma vez controlada a fonte, 4 a 7 dias; havendo bacteremia por enterococo ou estreptococo, no mínimo duas semanas, pelo risco de endocardite; e se restaram cálculos ou a obstrução persiste, o tratamento continua até que o problema anatômico seja resolvido. Havendo abscesso hepático, continua até a resolução completa comprovada por seguimento clínico, laboratorial e radiológico.
Prescrição- Antimicrobiano por 4 a 7 dias depois do controle da fonte; duas semanas no mínimo se houver bacteremia por coco Gram-positivo
- Manter o antimicrobiano enquanto houver cálculo residual ou obstrução não resolvida
- Programar a colecistectomia com data e serviço escritos, e não com a palavra oportunamente
- No relatório de alta ou de transferência: o que foi feito, a que horas, o resultado das culturas, o antimicrobiano usado com a duração, a função renal, e o que ainda falta
- Lista escrita para a família, com os sinais que obrigam a voltar de imediato: tremedeira nova, calor medido, urina escura, olho ou pele amarelando outra vez, ou sonolência fora do comum
Como saber se está funcionando
Reavaliar colangite não é olhar o paciente de novo: é refazer a graduação com os exames que graduam. A ordem é escrita e tem periodicidade — gradue no diagnóstico, gradue dentro de 24 horas, e gradue outra vez entre 24 e 48 horas. Enquanto o diagnóstico não fecha, a régua manda reavaliar o diagnóstico de 6 em 6 ou de 12 em 12 horas até chegar a uma conclusão.
A lógica dessa insistência é a mecânica do capítulo. A fonte continua sob pressão até que alguém a desobstrua, e o paciente que estava compensado às onze da noite pode ter disfunção de órgão às cinco da manhã sem que nada de novo tenha acontecido além da passagem do tempo. Cada reavaliação que sobe o grau sobe também a prioridade de regulação, e essa é a alavanca prática que o interno tem quando a vaga não sai.
Esperado: Redução da frequência dos calafrios nas primeiras 24 horas depois da primeira dose, com a temperatura caindo em degraus e não de uma vez
Se não melhora: Calafrio novo depois de 24 horas de antimicrobiano adequado é sinal de fonte não controlada, e não de antibiótico errado. A resposta é reforçar o pedido de drenagem, não trocar de droga por reflexo
Esperado: Pressão estável sem droga vasoativa, com a frequência caindo à medida que o volume é reposto e a febre cede
Se não melhora: Hipotensão que passa a exigir noradrenalina em qualquer dose, ou dopamina em 5 microgramas por quilo por minuto ou mais, muda o grau para grave — e muda o prazo da drenagem de precoce para urgente
Esperado: Paciente orientado e mantendo o mesmo nível ao longo do turno
Se não melhora: Qualquer alteração do nível de consciência é item isolado de grau grave, e foi o preditor que a análise de fatores prognósticos apontou como o mais importante. Num idoso, não atribua a confusão à internação antes de refazer a graduação
Esperado: Diurese que responde ao volume e creatinina estável ou em queda depois da expansão
Se não melhora: Oligúria persistente apesar da reposição, ou creatinina acima de 2,0 miligramas por decilitro, é item de grau grave. É também o item que mais frequentemente aparece primeiro no idoso
Esperado: Estabilidade ou queda depois de desobstruída a via; antes disso, a tendência é de subida
Se não melhora: Bilirrubina em ascensão continuada é obstrução que não cedeu. Ela também é item de graduação a partir de 5 miligramas por decilitro, e pode ser o segundo item que leva o paciente ao grau moderado
Esperado: Plaquetas acima de 100.000 por milímetro cúbico e razão abaixo de 1,5
Se não melhora: Qualquer um dos dois cruzando o corte põe o paciente no grau grave. Atenção ao valor certo das plaquetas: é 100.000 por milímetro cúbico, e não 10.000 — o próprio documento internacional traz as duas cifras em lugares diferentes, e a conferência está no bloco de critérios
Esperado: Registro nominal de com quem se falou, a que horas e qual foi a resposta, com nova tentativa a cada turno
Se não melhora: Se a vaga não sai e o grau sobe, informe a mudança de grau à regulação de forma expressa — o grau é a linguagem em que a prioridade é negociada, e um paciente que virou grave não é o mesmo pedido de ontem
Onde o erro machuca
O dano: Séries multicêntricas recentes mediram a tríade em 26,4 e 21,2 por cento dos pacientes com colangite aguda. Usá-la como filtro de entrada significa não diagnosticar cerca de três em cada quatro pacientes, e o atraso não é de dias — é de horas, numa doença cujo tratamento definitivo mora em outro hospital.
Como pegar a tempo: Troque a pergunta. Em vez de procurar os três sinais clássicos, verifique se há qualquer sinal de inflamação sistêmica e, havendo, se existe qualquer evidência de que a bile não está saindo. Febre ou calafrio mais bilirrubina ou enzima alterada já fecham suspeita, e suspeita de colangite se trata como colangite.
O dano: O antimicrobiano age no sangue; a fonte continua sob pressão e continua lançando bactéria na circulação. O paciente melhora de forma transitória, o serviço interpreta a melhora como resposta, e o pedido de drenagem é adiado. Foi no grau moderado que a drenagem precoce reduziu a mortalidade de 3,4 para 1,7 por cento — o antibiótico sozinho não produz esse número.
Como pegar a tempo: Escreva na evolução a frase que organiza a conduta: o tratamento fundamental é diagnóstico precoce, drenagem ou tratamento da causa, e antimicrobiano. Se o seu serviço não faz drenagem, o antimicrobiano é ponte, e ponte tem outra margem — o telefonema.
O dano: Nas duas direções o erro custa. Tratar coledocolitíase sem colangite como emergência ocupa uma vaga de drenagem que outro paciente precisava naquela noite. Tratar colangite como se fosse coledocolitíase manda para casa, ou para a fila de duas semanas, um paciente com bacteremia por fonte pressurizada.
Como pegar a tempo: O que separa as duas é o eixo obrigatório: inflamação sistêmica. Sem febre, sem calafrio, com leucometria dentro da faixa e proteína C reativa normal, é coledocolitíase — e a decisão é de dias. Pergunte à família, com essas palavras, se houve tremedeira, e registre a resposta.
O dano: O grau é o que define o prazo da drenagem e é a linguagem em que a prioridade se negocia com a regulação. Um paciente graduado como leve à meia-noite e nunca mais reavaliado pode estar grave às cinco da manhã sem que ninguém tenha percebido, porque a passagem do tempo é o próprio mecanismo da deterioração.
Como pegar a tempo: Gradue no diagnóstico, dentro de 24 horas e outra vez entre 24 e 48 horas, sempre com os exames que graduam — e colha gasometria arterial, porque sem ela o item respiratório fica em branco e o paciente é subgraduado. Comunique à regulação toda mudança de grau.
O dano: Num serviço em que o técnico do tomógrafo mora fora, a tomografia consome de uma a três horas. A régua posiciona a ultrassonografia como primeiro exame e reserva a tomografia para a suspeita de outro diagnóstico abdominal ou de complicação local. Nenhuma das duas indicações justifica adiar a única coisa que já está disponível.
Como pegar a tempo: Colha as culturas, dê a primeira dose, ligue para a regulação, e só então discuta imagem adicional. Se a tomografia for feita, ela corre em paralelo — não na frente. A drenagem, aliás, também é diagnóstica: num paciente moderado ou grave com cálculo provável, a falta de exame de imagem melhor não atrasa a indicação.
O dano: São duas doenças diferentes com nomes quase iguais, e a confusão tem endereço concreto na lista oficial brasileira: o ácido ursodesoxicólico consta da relação nacional de medicamentos essenciais, no componente Especializado, com documento norteador do protocolo da colangite biliar primária — doença crônica, autoimune, de ductos intra-hepáticos. Prescrevê-lo a um paciente com colangite aguda é oferecer um medicamento de uso contínuo para uma emergência de horas.
Como pegar a tempo: Guarde a distinção pelo relógio, que é o que o capítulo inteiro ensina: colangite aguda é obstrução extra-hepática infectada, com relógio de horas e tratamento de drenagem; colangite biliar primária é colestase crônica intra-hepática, com relógio de anos e tratamento medicamentoso contínuo. Se o plano terapêutico que você escreveu cabe num ambulatório, você está tratando a outra doença.
O que dizer ao paciente e à família
Três conversas acontecem nesta noite, e as três são técnicas. A primeira é com o paciente e a família, que precisam entender por que um senhor que anda e conversa vai de ambulância para outra cidade. A segunda é com a regulação, e é a conversa em que o grau vale mais que o adjetivo. A terceira é a mais difícil e a menos ensaiada: o que se diz quando não há para onde mandar.
Um princípio atravessa as três. Na colangite, a informação que convence é o tempo — desde quando, quantas vezes, e a que horas. Frases sobre gravidade sem números não movem vaga e não tranquilizam família.
Explicar ao paciente e à família por que é grave, quando ele está andando e falando
“Seu Dorvalino, o senhor tem uma pedra entupindo o canal que leva a bile do fígado para o intestino. Como a bile não está saindo, ela infeccionou dentro do canal, e essa infecção está passando para o sangue. É por isso que o senhor tremeu três vezes e ficou amarelo. O antibiótico que eu já comecei trata o que está no sangue, mas não tira a pedra — e enquanto a pedra estiver lá, a infecção volta. Quem tira a pedra é um exame por dentro, com um aparelho que entra pela boca, e esse aparelho não existe neste hospital. Por isso eu já liguei pedindo vaga em Xxxxx, e é para lá que o senhor vai ainda esta madrugada.”
Não diga: Evite dizer que é só uma infecção e que o antibiótico resolve. Evite também o oposto, que é anunciar risco de morte sem dizer o que já está sendo feito. A família precisa entender que a transferência é o tratamento, e não uma falta do hospital.
Perguntar sobre o calafrio de modo que a resposta seja útil
“A senhora falou que ele deu uma tremedeira. Eu preciso entender exatamente isso: foi um arrepio de frio, ou o corpo inteiro tremeu, com os dentes batendo, a ponto de precisar de cobertor? Quantas vezes isso aconteceu desde ontem? Que horas foi a primeira e que horas foi a última? E, entre uma e outra, ele ficou bem ou continuou mal?”
Não diga: Evite perguntar apenas se teve febre. Febre é uma palavra que o paciente nega quando não mediu a temperatura, e o calafrio conta na régua mesmo sem termômetro.
Ligar para a regulação com o pedido de vaga
“É um homem de 68 anos com colangite aguda de grau moderado pelos critérios de Tóquio, com dois itens preenchidos: leucometria de 17.400 e bilirrubina total de 7,2. Colédoco de 12 milímetros com cálculo no interior à ultrassonografia. Já colhi duas hemoculturas e fiz a primeira dose de ceftriaxona à 0h05, com 2.200 mililitros de Ringer. Está compensado, sem vasopressor, com diurese preservada e gasometria com relação de 340. Meu serviço não tem endoscopia nem drenagem percutânea. Preciso de vaga em serviço que faça drenagem biliar, com previsão de procedimento dentro de 24 horas.”
Não diga: Evite descrever o paciente como grave sem dizer o grau e sem dizer por quê, e evite pedir vaga de terapia intensiva quando o que se precisa é de um serviço com endoscopia. São pedidos diferentes e vão para filas diferentes.
Reforçar o pedido quando a vaga não sai e o grau subiu
“Eu liguei às 0h40 pedindo vaga para uma colangite de grau moderado. Refiz a graduação agora, às 5h20: a creatinina subiu de 1,4 para 2,3 e a diurese caiu para 15 mililitros por hora apesar de 2.800 mililitros de cristaloide. Ele passou a preencher critério de disfunção renal, e por isso agora é grau grave. Não é um pedido novo, é o mesmo paciente com outro grau, e a indicação passou de drenagem precoce para drenagem urgente.”
Não diga: Evite repetir o pedido com as mesmas palavras de horas atrás. O que muda a prioridade é o dado novo, dito como mudança de classificação — e ele só existe se alguém refez a graduação.
Orientar a família que vai acompanhar a transferência
“A senhora vai junto na ambulância. Estou mandando por escrito o que foi feito aqui: os horários das hemoculturas e do antibiótico, o soro que ele recebeu, os exames e a ultrassonografia. Entregue esse papel para o médico que receber. Se, no caminho ou lá, ele voltar a tremer, ficar confuso, parar de responder direito ou ficar muito mole, avise imediatamente quem estiver com ele — não espere chegar.”
Não diga: Evite mandar o paciente sem relatório escrito e sem horários. O serviço de destino precisa saber a que horas a primeira dose foi feita para contar a resposta, e essa informação se perde na transferência mais do que qualquer outra.
Dizer a verdade quando não há para onde mandar
“Eu preciso ser honesto com a senhora sobre onde nós estamos. O tratamento que resolve o problema do seu pai é desentupir o canal da bile, e isso não se faz aqui. Eu solicitei vaga às 0h40, tornei a solicitar às 5h20 quando ele piorou, e até agora não consegui. Enquanto não consigo, estou fazendo tudo o que é possível fazer aqui: antibiótico, soro, controle de pressão e de urina, e reavaliação a cada turno. Vou continuar pedindo a cada plantão e vou anotar cada tentativa no prontuário. Assim que houver vaga, ele sai.”
Não diga: Evite prometer prazo que não depende de você e evite deixar a família com a impressão de que nada está sendo feito. Evite também omitir que existe um tratamento indisponível — o registro dessa indisponibilidade é obrigação assistencial e documental.
Orientar a alta do paciente com coledocolitíase sem colangite
“O senhor tem uma pedra parada no canal da bile, e por isso está amarelo. Não há infecção agora: o senhor não teve febre nem tremedeira, e os exames de infecção estão normais. A pedra precisa sair, e eu já encaminhei o senhor para o serviço que faz esse procedimento. Enquanto espera, existe uma coisa que muda tudo, e eu quero que o senhor e a sua família guardem: se aparecer febre, ou se o corpo tremer com os dentes batendo, o senhor volta na hora, de madrugada se for. Isso quer dizer que a pedra infeccionou, e aí não dá para esperar.”
Não diga: Evite mandar embora com a orientação genérica de procurar o serviço se piorar. Nomeie o sinal — febre e tremedeira — porque é ele que separa um problema de semanas de um problema de horas.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
O que a régua manda fazer (Tóquio 2018, pacote de manejo e fluxograma)
No grau grave, drenagem biliar urgente junto com o tratamento inicial e o suporte de órgão, feita assim que a condição do paciente for melhorada pelo tratamento inicial e pelo manejo respiratório e circulatório. Se a drenagem urgente não puder ser feita por falta de estrutura ou de pessoal, considere transferir. O item aparece com a mesma força no fluxograma e no pacote de onze itens.
Miura F, et al. TG18: initial management and flowchart for acute cholangitis, 2018; Mayumi T, et al. TG18: management bundles, 2018
O que os dados de validação da própria régua mostraram (série de 6.063 pacientes)
Entre os 1.521 pacientes de grau grave, a mortalidade em 30 dias foi de 5,4 por cento com drenagem em até 24 horas contra 4,9 por cento depois disso ou sem drenagem, com p de 0,727; e de 4,9 por cento com drenagem em até 48 horas contra 5,6 por cento depois, com p de 0,622. Nenhuma diferença. O benefício apareceu apenas no grau moderado, com 1,7 contra 3,4 por cento. Os próprios autores registram três ressalvas: a comparação é observacional e os grupos não são equivalentes; o estudo definiu urgente como dentro de 24 horas da admissão, enquanto outros estudos usam 12 horas; e levantam a hipótese de que o grau grave possa precisar de drenagem ainda mais precoce do que a medida.
Kiriyama S, et al. TG18: diagnostic criteria and severity grading of acute cholangitis, 2018, tabela de mortalidade em 30 dias
A ausência de diferença estatística entre drenagem em 24 ou 48 horas numa coorte não autoriza atrasar o controle de foco no paciente grave. A obstrução mantém o compartimento infectado sob pressão. Fundamente a prioridade na disfunção orgânica, no foco ainda não controlado e na evolução; registre esses dados ao solicitar o procedimento.
Protocolo estadual de encaminhamento (TelessaúdeRS-UFRGS, 2020) — mesmo dia
Coledocolitíase sintomática consta entre as condições que indicam encaminhamento para urgência e emergência, ao lado de suspeita de colecistite aguda, pancreatite aguda e colangite. A coledocolitíase sem critérios para emergência, ou já avaliada em caráter emergencial e estável, é encaminhada para gastroenterologia em hospital que realize o procedimento endoscópico.
TelessaúdeRS-UFRGS. Protocolos de encaminhamento para Cirurgia Geral Adulto, 2020, Protocolo 1
Manual de sociedades médicas (SBH e AMIB, 2014) — 72 horas
No fluxograma de abordagem da colangite aguda, diante de coledocolitíase ou de dilatação de colédoco com suspeita de coledocolitíase, a pergunta seguinte é se há colangite moderada ou grave. Não havendo, a conduta é procedimento endoscópico em 72 horas com finalidade terapêutica, antecipado se o paciente evoluir com piora clínica ou instabilidade hemodinâmica.
Cunha SF, Viana L, Assunção MSC. Colangite aguda grave. In: Manual de cuidados intensivos em hepatologia, 2014, cap. 41, figura 1
Protocolo brasileiro de regulação (2012) — cerca de duas semanas
No cenário de colelitíase com icterícia sem febre, o paciente sem vômitos de repetição deve ser encaminhado ao serviço de cirurgia de hospital terciário de forma mais rápida, com observação na referência médica de que existe necessidade de prioridade alta — e o documento escreve o prazo entre parênteses como cerca de duas semanas. A orientação clínica que acompanha é hidratação oral rigorosa.
Salgado Jr W, Santos JS. Protocolo clínico e de regulação para litíase biliar e suas complicações, 2012, cenário IV
Para o paciente à sua frente, ausência de febre e calafrios não exclui colangite nem autoriza adiar a drenagem por si só. Avalie perfusão, consciência, função renal, sinais laboratoriais de inflamação e obstrução, além da evolução clínica. Suspeita de infecção ou disfunção orgânica exige suporte, antimicrobiano quando indicado e avaliação urgente da necessidade e do momento da drenagem. Só depois de caracterizar coledocolitíase sem colangite ou outra complicação que imponha urgência cabe comparar os prazos dos documentos citados. Nesse paciente estável, considere a tendência da bilirrubina, a disponibilidade real do procedimento e a possibilidade de retorno rápido se houver piora. Bilirrubina em ascensão ou retorno inseguro favorecem antecipar a avaliação, mas não substituem a avaliação de gravidade. Registre no encaminhamento o prazo solicitado, a justificativa clínica e os sinais de alarme explicados ao paciente.
Régua internacional (Tóquio 2018) — 4 a 7 dias
Uma vez controlada a fonte da infecção, recomenda-se antimicrobiano por 4 a 7 dias, com recomendação de grau 1 e nível de evidência C. Havendo bacteremia por coco Gram-positivo como enterococo ou estreptococo, o mínimo passa a ser duas semanas pelo risco de endocardite. Persistindo cálculo residual ou obstrução, o tratamento continua até que o problema anatômico seja resolvido.
Gomi H, et al. TG18: antimicrobial therapy for acute cholangitis and cholecystitis, 2018, tabela de duração
Manual brasileiro (SBH e AMIB, 2014) — 7 a 10 dias
No fluxograma da colangite aguda, o antimicrobiano é iniciado em até 1 hora do diagnóstico, após a coleta de hemocultura, e mantido por 7 a 10 dias, de acordo com a gravidade e a resposta do paciente. O manual não condiciona a contagem ao controle da fonte.
Cunha SF, Viana L, Assunção MSC. Colangite aguda grave. In: Manual de cuidados intensivos em hepatologia, 2014, cap. 41, figura 1
O que os próprios especialistas responderam quando perguntados
Numa enquete feita com o painel de especialistas em conferência de 2017 sobre quanto tempo tratariam uma colangite bacterêmica por coco Gram-positivo com drenagem bem-sucedida, as respostas se espalharam: 9 por cento escolheram 14 dias, 3,8 por cento escolheram 10 dias, 26,9 por cento escolheram 7 dias, 32,1 por cento escolheram 4 a 5 dias e 26,9 por cento escolheram 3 dias ou menos. A recomendação publicada de duas semanas para esse cenário é, portanto, mais longa do que a de nove em cada dez especialistas consultados.
Gomi H, et al. TG18: antimicrobial therapy, 2018, resultado da enquete do 6th Asian Pacific Hepatobiliary Pancreatic Surgery Conference
Para o paciente à sua frente, a pergunta que resolve não é quantos dias, e sim se a fonte foi controlada e o que cresceu na cultura. Se a via biliar foi desobstruída, o paciente está afebril, os marcadores estão caindo e a cultura mostrou Gram-negativo entérico, a faixa curta é a que se sustenta, e a contagem começa no dia do controle da fonte, não no dia da admissão. Se sobrou cálculo, se a prótese não drenou bem, ou se a obstrução é tumoral e não foi resolvida, nenhuma das duas faixas se aplica — o tratamento segue enquanto o problema anatômico existir. E se a hemocultura mostrou enterococo ou estreptococo, a decisão sai das duas faixas e vai para duas semanas, por causa da endocardite. Escreva no prontuário a data do controle da fonte e o dia previsto de suspensão: é essa linha que impede que o antibiótico atravesse a internação sem que ninguém decida.
O raciocínio, em voz alta
Dorvalino Camurçá, 68 anos, 74 quilos, chega às 22h40 de uma terça-feira ao pronto-socorro de um hospital de noventa leitos no interior, a cento e sessenta quilômetros do hospital estadual. Tem tomógrafo e laboratório com plantão; não tem endoscopia, radiologia intervencionista nem quem faça drenagem de via biliar. Chega andando, apoiado na filha, ictérico de longe, com três episódios de tremedeira nas últimas vinte e quatro horas e dor em hipocôndrio direito que foi forte anteontem, melhorou e voltou. Sinais vitais: pressão 112 por 68, frequência cardíaca 104, frequência respiratória 22, temperatura 38,6 graus, saturação 95 por cento em ar ambiente, orientado.
22h45 — o que se faz antes de saber o diagnóstico
Sinais vitais medidos e registrados; acesso venoso; jejum; glicemia capilar; eletrocardiograma. O paciente não está instável, e é por isso que a janela existe. A informação que vale mais nesta ficha não é a dor: são as três tremedeiras, com horário, e o amarelo visível. Anotam-se os dois na primeira linha da evolução, porque datam a doença. Coletado o painel completo: hemograma, proteína C reativa, bilirrubinas, fosfatase alcalina, gama-glutamiltransferase, transaminases, ureia, creatinina, coagulograma, albumina — e gasometria arterial, que não é curiosidade, é item de graduação.
23h00 — hemocultura, depois antibiótico, nesta ordem e só nesta
Colho hemoculturas sem retardar o tratamento e inicio ceftriaxona 2 g IV às 23h05, com intervalo de 24 horas registrado para este exemplo comunitário sem choque, após verificar alergias e risco de resistência. Ajusto Ringer à perfusão e às perdas, ofereço analgesia titulada e acompanho consciência, respiração e diurese. Cobertura e doses são revistas se novos dados indicarem infecção grave ou relacionada à assistência.
23h40 — o laboratório fecha dois dos três eixos
Leucometria 17.400; proteína C reativa muito elevada; bilirrubina total 7,2 com direta 5,4; fosfatase alcalina e gama-glutamiltransferase acima de três vezes o limite; alanina aminotransferase duas vezes e meia; creatinina 1,4; razão normalizada internacional 1,2; plaquetas 168.000; albumina 3,1 num laboratório cujo limite inferior é 3,5; gasometria com relação entre pressão parcial de oxigênio e fração inspirada de 340. Eixo A preenchido pela febre e pela leucocitose. Eixo B preenchido pela bilirrubina e por três enzimas. Falta o eixo C, que é de imagem.
0h20 — a ultrassonografia fecha o terceiro, e diz a causa
Cálculos na vesícula, parede de 3 milímetros, colédoco de 12 milímetros com imagem sugestiva de cálculo no interior. O item C é preenchido duas vezes: pela dilatação e pela evidência da causa. Diagnóstico definitivo de colangite aguda. Vale notar o que a mesma ultrassonografia diz sobre a vesícula: parede fina, sem sinal local. Pela régua da colecistite, este paciente não fecharia — falta o achado local obrigatório. É doença do ducto, e não da bolsa, e essa distinção é a que manda o caso para este capítulo em vez do quinto.
0h30 — graduar, item por item, e escrever a conta
Grau grave primeiro, porque um item basta: sem vasopressor; orientado; relação de 340, acima de 300; creatinina 1,4, abaixo de 2,0; razão de 1,2, abaixo de 1,5; plaquetas 168.000, acima de 100.000. Seis negativos. Grau moderado, em que dois de cinco bastam: leucometria 17.400, acima de 12.000, preenche; febre 38,6, abaixo de 39, não preenche; idade 68, abaixo de 75, não preenche; bilirrubina 7,2, acima de 5, preenche; albumina 3,1 contra o corte de 0,7 vez 3,5, que é 2,45, não preenche. Dois de cinco: colangite aguda de grau moderado. A série citada encontrou benefício nesse subgrupo; isso não autoriza negar urgência de drenagem no grau grave. A classificação orienta prioridade junto com a resposta e a necessidade de controle do foco.
0h40 — o telefonema, que é o ato que muda o desfecho
Ligação para a regulação com diagnóstico fechado e grau calculado ditos na primeira frase, seguidos dos dois itens que preencheram o grau, do achado da ultrassonografia, do horário da primeira dose e do volume infundido, e da informação de que o serviço não faz drenagem endoscópica nem percutânea. Pedido explícito: vaga em serviço com drenagem biliar, com previsão de procedimento dentro de 24 horas. Anotados no prontuário o horário, o nome de quem atendeu e a resposta. Não se esperou tomografia, colangiorressonância nem melhora clínica para telefonar — e é essa a diferença entre este plantão e aquele em que se liga às seis da manhã.
4h10 — a transferência, com o relatório na mão da filha
A vaga é confirmada e Dorvalino segue com transporte e equipe adequados à gravidade, acompanhado de relatório sobre culturas, primeira dose às 23h05, próxima dose prevista, suporte, diurese e exames. Não se antecipa uma segunda dose de ceftriaxona sem indicação apenas por ocorrer transferência. No destino, a drenagem às 11h30 trata a obstrução e permite cultura da bile; a terapêutica é reavaliada pela resposta e pelos resultados.
Depois — o que ainda falta quando a via biliar já está aberta
Desobstruir não retirou a vesícula, e a vesícula continua fabricando a pedra que desceu: a colecistectomia fica indicada depois de resolvido o episódio agudo, com data e serviço escritos, e o prazo e a técnica pertencem ao capítulo A mesma pedra, três destinos. O antimicrobiano segue por 4 a 7 dias contados do controle da fonte — e passaria a duas semanas se a hemocultura mostrasse enterococo ou estreptococo. O relatório de alta traz o que foi feito e o que falta: data da cirurgia, resultado das culturas, antibiótico e duração, função renal na alta, e os sinais que obrigam a voltar de imediato.
Faça você
Nazarete Sanfins tem exatamente 75 anos, 62 quilos, e chega às 19h20 ao mesmo hospital, trazida pela nora. Está amarela e diz que sentiu calor e frio ontem à noite. Refere dor no alto da barriga há dois dias, sem posição de melhora. Já foi operada da vesícula há onze anos. Sinais vitais: pressão 118 por 72, frequência cardíaca 96, frequência respiratória 20, temperatura 38,4 graus, saturação 96 por cento em ar ambiente, orientada e colaborativa. Exames: leucometria 9.800; proteína C reativa 8,4 miligramas por decilitro; bilirrubina total exatamente 5,0 com direta 3,7; fosfatase alcalina 2,8 vezes o limite superior; gama-glutamiltransferase 4,1 vezes; alanina aminotransferase 1,9 vez; creatinina 1,1; razão normalizada internacional 1,1; plaquetas 194.000; albumina 3,2 num laboratório cujo limite inferior é 3,5; gasometria com relação entre pressão parcial de oxigênio e fração inspirada de 355. Ultrassonografia: ausência de vesícula, via biliar intra e extra-hepática dilatada, colédoco de 13 milímetros, conteúdo não caracterizado.
Passo 1
Feche ou afaste o diagnóstico pelos três eixos, dizendo qual item preencheu cada um e se o diagnóstico é suspeito ou definitivo. Diga também por que a ausência de vesícula não muda nada nesse raciocínio.
Passo 2
Gradue, item por item, primeiro o grau grave e depois o moderado, com os números na mão. Faça a conta do corte de albumina com o limite inferior deste laboratório.
Passo 3
Refaça a mesma graduação usando as fronteiras exatamente como estão impressas no manual brasileiro de cuidados intensivos — febre acima de 39, idade acima de 75, bilirrubina acima de 5 — e diga a que grau ela chega. Compare com o resultado do passo 2 e explique o que a diferença faz com a conduta.
Passo 4
Escreva a conduta das primeiras duas horas neste hospital sem endoscopia, na ordem em que os atos acontecem, dizendo qual é a única ordem obrigatória entre dois deles.
Passo 5
Diga qual é o dado da história que mais muda a investigação da causa nesta paciente, e como ele altera o que você pede e para onde você encaminha.
Continuidade do caso e prática do internato
Acompanhe Dorvalino desde a suspeita até a drenagem, explicando qual informação precisa chegar à equipe seguinte para que o cuidado prossiga.
Questão integrativa 1
Dorvalino precisa ter dor, febre e icterícia juntas para iniciar tratamento?
Questão integrativa 2
Qual dado isolado pode mudar o grau para grave?
Questão integrativa 3
Por que o intervalo do antibiótico precisa estar escrito?
Questão integrativa 4
Antibiótico substitui drenagem diante de obstrução infectada persistente?
Questão integrativa 5
Um estudo sem benefício estatístico no subgrupo grave permite esperar?
Questão integrativa 6
O que levar ao serviço que receberá Dorvalino?
Ver como fecharíamos
Passo 1: o diagnóstico é definitivo. Eixo A, inflamação sistêmica, preenchido por dois itens: temperatura de 38,4 graus, acima do corte de 38, e proteína C reativa de 8,4, acima de 1 — repare que a leucometria de 9.800 está dentro da faixa e não preenche nada, o que mostra por que o eixo tem três portas de entrada. O calafrio que ela descreve como calor e frio conta, e vale perguntar melhor. Eixo B, colestase, preenchido pela bilirrubina total de 5,0, acima do corte de 2, e por três enzimas acima de uma vez e meia o limite. Eixo C, imagem, preenchido pela dilatação da via biliar intra e extra-hepática, com colédoco de 13 milímetros; note que o item C se preenche pela dilatação isolada, sem que seja preciso ver o cálculo — o que é bom, porque a ultrassonografia tem sensibilidade de apenas 38 por cento para cálculo em via biliar e não afasta nada quando é negativa. Um item de A, um de B e um de C: diagnóstico definitivo. A ausência de vesícula não muda o raciocínio porque a colangite é doença da via biliar principal, e não da vesícula; a régua da colecistite é que ficaria inaplicável, e ela não é a régua deste caso. Passo 2: pelo grau grave, seis itens e seis negativos — sem vasopressor; orientada; relação de 355, acima de 300; creatinina 1,1, abaixo de 2,0; razão de 1,1, abaixo de 1,5; plaquetas 194.000, acima de 100.000. Pelo grau moderado, dois de cinco bastam. Leucometria 9.800: não preenche, porque não está acima de 12.000 nem abaixo de 4.000. Febre 38,4: não preenche, porque o corte é igual ou maior que 39. Idade exatamente 75 anos: preenche, porque o critério é igual ou maior que 75. Bilirrubina exatamente 5,0: preenche, porque o critério é igual ou maior que 5. Albumina 3,2 contra o corte de 0,7 vez 3,5, que dá 2,45: não preenche. São dois itens de cinco, que é exatamente o mínimo — colangite aguda de grau moderado, com indicação de drenagem biliar precoce, endoscópica ou percutânea trans-hepática. Passo 3: usando as fronteiras impressas no manual brasileiro, os dois itens que preencheram desaparecem. Idade acima de 75 anos: ela tem exatamente 75, não preenche. Bilirrubina acima de 5: ela tem exatamente 5,0, não preenche. Febre acima de 39: 38,4, não preenche. Leucometria e albumina continuam negativas. Zero de cinco, e a paciente sai como grau leve. Uma leitura manda buscar drenagem precoce ainda esta noite; a outra manda observar com antimicrobiano — e ela nasce inteiramente de três sinais de maior que a transcrição brasileira trocou por maior ou igual. O original usa igual ou maior nos três itens, e é ele que este capítulo segue; a conferência está registrada nas notas do bloco de critérios. Passo 4: sinais vitais e acesso venoso primeiro, com jejum, porque a drenagem de emergência não pode ser impedida por estômago cheio; painel completo incluindo gasometria arterial, sem a qual o item respiratório da graduação fica em branco; dois pares de hemocultura de sítios diferentes, sem intervalo e sem esperar pico febril; primeira dose de antimicrobiano por via venosa em dose plena, com horário anotado; reposição volêmica com taxa escrita e diurese medida de hora em hora; analgesia sem receio de mascarar o exame; ultrassonografia; graduação por escrito; e o telefonema para a regulação pedindo vaga em serviço com drenagem, dito com o grau na primeira frase. A única ordem obrigatória entre dois atos é a hemocultura antes da primeira dose de antimicrobiano — todo o resto corre em paralelo, e é assim que se ganha tempo. Passo 5: o dado que mais muda a investigação é a colecistectomia há onze anos. Ele altera a probabilidade das causas e, com ela, a via de drenagem: num paciente já operado, o colédoco pode estar fisiologicamente mais calibroso, de modo que o número de 13 milímetros pesa menos como achado isolado; e a lista de causas se desloca para cálculo residual ou de novo formado no colédoco, estenose pós-cirúrgica da via biliar, e — pela idade e pela ausência de cálculo caracterizado na imagem — causa tumoral, seja de papila, de cabeça de pâncreas ou colangiocarcinoma. Isso muda o que se pede depois da fase aguda, com colangiorressonância ou ecoendoscopia no paciente estável, e muda o destino: se a suspeita for de obstrução alta, no hilo ou intra-hepática, a via endoscópica pode não alcançar o setor obstruído e o serviço de referência precisa ter também radiologia intervencionista. Vale registrar que, sendo tumoral a causa, a graduação deixa de se correlacionar com a mortalidade em 30 dias — o que não retira a indicação de drenar, apenas retira da graduação o valor prognóstico que ela tem nas causas benignas. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. A tríade tem sensibilidade limitada; integrar inflamação, colestase e imagem, agindo na suspeita consistente. 2. Disfunção de órgão conforme os critérios utilizados. Hipotensão, confusão ou oligúria exigem avaliação imediata mesmo antes de completar a classificação. 3. Para garantir exposição adequada, evitar duplicação e permitir continuidade na transferência. Dose e horário isolados não constituem prescrição completa. 4. Não. O suporte controla parte do processo, mas a fonte pode continuar sob pressão. Organizar descompressão com a equipe. 5. Não. Ausência de significância não comprova ausência de efeito; a urgência decorre da disfunção e do foco obstruído. 6. Grau e critérios, evolução, imagens, culturas, horário e intervalo dos fármacos, balanço e suporte. Confirmar destino capaz de drenar e acompanhar durante a transferência.
As Tokyo Guidelines de 2018 recomendam pelo menos duas semanas na colangite com bacteremia por enterococo ou estreptococo, considerando risco de endocardite. A faixa geral após controle adequado do foco é quatro a sete dias. A aplicação clínica exige avaliar persistência da bacteremia, susceptibilidade, foco e suspeita de endocardite, que requer tratamento próprio. Obstrução persistente demanda novo controle do foco, e não apenas prolongar antibiótico. Abscesso hepático exige acompanhamento individualizado; embora as TG18 mencionem resolução clínica, bioquímica e radiológica, uma imagem residual pode persistir após a cura e não significa, isoladamente, necessidade de antibiótico até desaparecer.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
A colangite é a doença biliar que mata rápido, e o que a resolve não é antibiótico: é tirar a pressão de dentro do cano. Três eixos fecham o diagnóstico, e o sistêmico é obrigatório — febre ou calafrio, mais colestase, mais imagem. A tríade clássica aparece em cerca de um quarto dos pacientes e não serve de filtro. Gradue sempre, porque o grau é o prazo: grave manda drenar com urgência, moderado manda drenar cedo, leve manda tratar e drenar se não responder em 24 horas. Num serviço sem drenagem, o ato que muda o desfecho é o telefonema precoce, com o grau dito na primeira frase. E a coledocolitíase sem febre é outro problema, com relógio de dias.
Em 30 dias
Recupere os números que sustentam a conduta: a drenagem precoce reduziu a mortalidade de 3,4 para 1,7 por cento no grau moderado, e não mostrou diferença no grave nem no leve, numa série de 6.063 pacientes em que um quarto chegou já com disfunção de órgão. Recupere os cortes que decidem: bilirrubina de 2 para o diagnóstico e de 5 para o grau moderado; leucometria fora de 4.000 a 10.000 para o diagnóstico e acima de 12.000 para o grau; idade de 75 anos; albumina abaixo de 0,7 vez o limite inferior do seu laboratório; e os seis itens de disfunção de órgão, entre eles as plaquetas abaixo de 100.000, e não de 10.000. Recupere também o que este capítulo apurou sobre o Brasil: nenhum documento federal adota a régua japonesa, o protocolo de regulação em uso não usa a palavra colangite, o único texto nacional que gradua tem três fronteiras invertidas na tabela, e quase nada do que a régua internacional recomenda como antimicrobiano existe na relação nacional de medicamentos essenciais. Por fim, guarde a distinção de nome: colangite aguda não é colangite biliar primária.
Agora atenda
Atenda um paciente ictérico e febril no pronto-socorro de um serviço que não faz drenagem biliar: pergunte pela tremedeira do jeito que faz a família responder, feche os três eixos, gradue com o que já está na folha, decida em quantas horas este paciente precisa ser drenado e ligue para a regulação dizendo o grau na primeira frase.
