Cirurgia GeralUrgência e Emergência Cirúrgica

A pergunta não é se obstruiu

Obstrução intestinal (delgado x cólon, brida, volvo)

Reconhecer a causa da obstrução e os sinais de sofrimento intestinal, iniciar suporte e definir com a equipe quem pode ser observado e quem precisa de intervenção urgente.

Fontes deste capítulo

ten Broek RPG, Krielen P, Di Saverio S, et al. Bologna guidelines for diagnosis and management of adhesive small bowel obstruction (ASBO): 2017 update of the evidence-based guidelines from the World Society of Emergency Surgery ASBO working group. World J Emerg Surg. 2018;13:24. doi:10.1186/s13017-018-0185-2

Tian BWCA, Vigutto G, Tan E, et al. WSES consensus guidelines on sigmoid volvulus management. World J Emerg Surg. 2023;18:34. doi:10.1186/s13017-023-00502-x

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024

Bayer S.A. Urografina® 292 (diatrizoato de sódio + diatrizoato de meglumina), solução injetável. Bula do profissional de saúde. Registro MS 1.7056.0038

Farmarin Indústria e Comércio Ltda. Cloreto de Potássio 19,1% solução injetável, ampola de 10 mL. Bula do profissional de saúde, versão P01 de 13 de janeiro de 2021

01

Responda antes de ler

Mulher de 82 anos, magra, sem cicatriz abdominal e sem antecedente cirúrgico, apresenta obstrução de intestino delgado confirmada por radiografia. Está taquicárdica e taquipneica. O plantonista anotou a hipótese de brida e solicitou tomografia para dali a duas horas, quando o técnico chega. Qual é a falha mais importante dessa condução?

02

O paciente que você vai ver

Quinta-feira, 23h20, hospital regional de noventa leitos no interior, referência para cinco municípios. O tomógrafo funciona e o técnico está na escala até as sete. O centro cirúrgico tem uma sala, e o cirurgião de sobreaviso, o Dr. Quintiliano Estrela, mora a vinte minutos. O que não existe entre as sete da noite e as sete da manhã é endoscopista: a torre de vídeo está na sala do segundo andar, trancada, e a Dra. Filomena Marcolino faz exames três manhãs por semana. Você é o interno da escala noturna.

Dois pacientes chegaram com quarenta minutos de diferença e a triagem escreveu quase a mesma frase nas duas fichas: dor na barriga, barriga inchada, não faz cocô nem solta pum. As duas fichas receberam pulseira amarela. As duas pessoas estão na sala de observação, uma na maca 3 e outra na maca 5, separadas por um biombo, e as duas vão fazer a mesma radiografia no mesmo aparelho.

Na maca 3 está Eufrásia Melgaço, 71 anos, 58 quilos, aposentada da lavoura. A dor começou ontem de manhã, em cólica, em ondas que sobem e cedem, e ela mostra com a mão espalmada em volta do umbigo, não com o dedo. Vomitou quatro vezes desde a tarde, primeiro o que comeu e depois um líquido amarelo-esverdeado. Não elimina gases desde ontem à noite. A barriga está distendida, mas ainda mole, e dói difusamente quando você comprime, sem que nenhum ponto a faça travar a respiração. No meio dela, do umbigo ao púbis, há uma cicatriz branca e larga: cesárea de setenta e nove, e histerectomia por mioma quando ela tinha quarenta e quatro.

Na maca 5 está Tertuliano Bacelar, 78 anos, 61 quilos, morador de uma instituição de longa permanência a doze quarteirões daqui. Quem o trouxe foi a cuidadora, que não é da família e sabe o que está escrito no caderno: ele não evacua há cinco dias, o que para ele é quase normal, e desde ontem à tarde a barriga cresceu de um jeito que ela nunca tinha visto. Ele não vomitou nenhuma vez. A dor, quando ele responde, é surda e constante, e ele responde pouco. A barriga está enorme, timpânica de flanco a flanco, e o toque retal encontra ampola vazia e colabada, como se alguém tivesse esvaziado o reto por dentro.

As duas radiografias chegam juntas, na mesma pasta. A de dona Eufrásia mostra alças empilhadas no centro do abdome, com pregas finas atravessando toda a largura da alça e vários níveis hidroaéreos em degrau, e quase nada de gás no cólon. A do seu Tertuliano mostra uma coisa só, gigante, uma alça em U invertido que sobe do lado esquerdo da pelve até acima do fígado, com uma linha densa descendo pelo meio dela — e o resto do abdome praticamente sem gás.

Você vai fazer nos dois exatamente as mesmas quatro coisas na primeira meia hora, e elas não dependem de diagnóstico: veia, volume, sonda e nada por boca. O que muda depois disso depende de uma pergunta que nenhuma das duas radiografias respondeu.

Os dois têm obstrução intestinal. Essa parte é fácil, e é a parte que menos decide. A pergunta que muda a noite não é se obstruiu: é se a alça de algum dos dois já está morrendo, quem precisa de sala nas próximas horas e quem pode ganhar tempo com sonda, veia e nada por boca. Este capítulo é sobre como responder isso com o que existe às onze e vinte da noite num hospital do interior.

03

Quem adoece disso

Obstrução de delgado e obstrução de cólon são duas doenças diferentes que compartilham quatro sintomas. No delgado, a causa dominante é a aderência: 60% das obstruções de intestino delgado vêm de aderências deixadas por uma operação anterior, e é por isso que a cicatriz na barriga é dado de anamnese e não de exame estético. Nos serviços que medem, a obstrução de delgado responde pela maioria das laparotomias de urgência — no registro nacional inglês de laparotomia de emergência, foi a indicação de 51% delas.

O peso do episódio não é pequeno. A internação média por obstrução aderencial é de 8 dias e a mortalidade hospitalar declarada é de 3% por episódio. Entre 20 e 30% dos pacientes acabam operados; os demais resolvem com sonda, jejum e volume. A diferença entre os dois caminhos aparece no tempo de cama — 16 dias em média depois de operar, 5 dias sem operar — e num estudo holandês de custo de 2016 aparecia também em euros, 16.305 contra 2.227.

No cólon, a aderência quase não conta. Quem obstrui o intestino grosso, na estatística mundial, é o câncer colorretal em primeiro lugar, a doença diverticular complicada em segundo e o volvo em terceiro — os dois primeiros são de capítulos vizinhos desta apostila, o terceiro é deste. E aqui a estatística importada engana o interno brasileiro: o Brasil é nomeado, dentro da própria diretriz internacional, como parte do cinturão do volvo, junto com África, Rússia, Leste Europeu, Oriente Médio e Índia. Nessa faixa o volvo de cólon responde por 13% a 42% de todas as obstruções intestinais; nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, por menos de 5% a 15% das obstruções de intestino grosso.

Dentro do cólon, o segmento que torce quase sempre é o sigmoide, em 60% a 75% dos volvos, seguido do ceco, em 25% a 40%; transverso e flexura esplênica são raridades. O paciente típico do volvo de sigmoide tem idade média entre 56 e 77 anos, é mais frequentemente homem, e quase um terço de todas as emergências colônicas do idoso é volvo. Entre 30% e 41% relatam episódios anteriores de distensão que passaram sozinhos — o que significa que a história de "já inchou assim antes e desinchou" não tranquiliza: é fator de risco.

Há ainda um recorte que não aparece em nenhuma estatística e governa o plantão brasileiro: o que o serviço tem quando o paciente chega. Tomógrafo em horário comercial, endoscopista três manhãs por semana, cirurgião de sobreaviso a vinte minutos e centro cirúrgico com uma sala descrevem a maioria dos hospitais que recebem obstrução intestinal no interior do país. Isso não muda o diagnóstico nem a fisiologia; muda a ordem em que os passos são possíveis, e muda quem precisa ser avisado primeiro. Um capítulo escrito para o hospital que tem tudo ensina uma sequência que o interno não conseguirá executar, e o custo dessa lacuna não é teórico: aparece como paciente que passou a noite esperando um exame para confirmar o que a radiografia das onze da noite já tinha mostrado.

Vale, por fim, a estatística que o interno usa sem perceber. Entre todos os pacientes que chegam com dor abdominal e distensão, a maioria não tem obstrução mecânica; e entre os que têm, a maioria não vai à sala naquele plantão. A doença é frequente, o desfecho grave é minoritário, e é exatamente essa combinação que produz o viés de rotina — a sensação, construída por dezenas de casos que resolveram sozinhos, de que este também vai resolver. A mortalidade hospitalar de 3% por episódio significa que, a cada trinta pacientes obstruídos que passam por você, é razoável que um morra. Não é um número que autorize alarme permanente; é um número que explica por que a vigilância precisa ser um procedimento escrito, e não um estado de espírito.

04

Por que acontece o que acontece

Obstruir é interromper o trânsito. O que está acima do ponto de bloqueio continua recebendo o que o corpo produz — cerca de sete a oito litros de saliva, suco gástrico, bile, suco pancreático e secreção intestinal por dia — mais o ar que a pessoa engole a cada deglutição. O que está abaixo se esvazia e colaba. Toda a semiologia da obstrução sai dessa assimetria: a alça de cima distende, a de baixo some, e a radiografia fotografa exatamente essa fronteira.

A alça distendida não é só um tubo cheio. A parede estirada perde a capacidade de absorver e passa a secretar, e o líquido que era do corpo passa a ser do lume. Esse é o terceiro espaço: o paciente desidrata sem sangrar e sem suar, perde potássio, cloreto e hidrogênio pelo vômito, e chega ao pronto-socorro com creatinina subindo e potássio baixo. É por isso que a primeira prescrição de uma obstrução não é analgesia nem antibiótico: é volume. O tamanho da perda surpreende quem nunca mediu: uma alça de delgado obstruída pode sequestrar vários litros em 24 horas, e nada disso aparece na balança nem no chão. É por isso que a creatinina sobe num paciente que jura estar bebendo água, e é por isso que a pressão que parecia aceitável na maca despenca na indução anestésica, quando o tônus simpático que sustentava aquele número desaparece.

A altura do bloqueio decide a apresentação, e decide antes de qualquer exame. Quanto mais alta a obstrução, mais cedo e mais volumoso o vômito, e menos distensão — porque há pouco intestino acima para distender. Quanto mais baixa, mais distensão e mais tarde o vômito, que vai ficando escuro e fétido à medida que a estase permite a bactéria colonizar o delgado. Vômito fecaloide não é sinal de que o paciente evacuou pela boca: é sinal de que a obstrução é distal e antiga.

Entre delgado e cólon existe uma comporta, e ela muda tudo. A válvula ileocecal é competente em cerca de dois terços das pessoas. Quando é competente e o cólon obstrui distalmente, o gás que entra no ceco não volta: forma-se uma alça fechada entre a válvula e o ponto de obstrução, e a pressão sobe sem escape. Pela lei de Laplace, a tensão na parede cresce com o raio, e o ceco é o segmento de maior raio do intestino grosso — por isso o ceco perfura primeiro, mesmo estando longe da doença que causou a obstrução.

Quando a válvula é incompetente, o cólon obstruído descomprime para o delgado. O paciente sofre menos e demora mais a perfurar, mas paga com um quadro que parece obstrução de delgado na radiografia e atrasa o diagnóstico da doença que está no cólon. Nenhuma das duas situações é melhor: uma tem pressa, a outra tem disfarce. Há um terceiro cenário, e ele é o mais comum de todos no idoso: a obstrução colônica parcial, que descomprime devagar e permite ao paciente conviver semanas com distensão intermitente, constipação progressiva e fezes afiladas — até o dia em que fecha. Quando esse paciente chega à emergência, a doença tem meses e o episódio tem horas, e as duas linhas do tempo precisam constar da história.

O que faz a alça morrer não é a pressão de dentro, é a interrupção do fluxo de fora. No estrangulamento, o mesentério é torcido ou a alça é presa por uma trave — a brida clássica, o anel de uma hérnia, o pedículo torcido de um volvo. Primeiro cede o retorno venoso, e a alça fica congesta, roxa, edemaciada; depois falha a perfusão arterial, e a parede infarta. Entre o começo da congestão venosa e a necrose transmural há horas, não dias, e nada nesse intervalo obriga o paciente a parecer grave.

Aqui mora a armadilha que este capítulo existe para desmontar. A alça que está morrendo pode doer menos, não mais: quando a peristalse cessa naquele segmento, a cólica desaparece e a dor vira contínua, surda, de fundo. O paciente que "melhorou da cólica" pode ter melhorado porque resolveu ou porque a alça parou de se contrair por estar morta. Só três coisas distinguem: a dor virou contínua sem que a distensão cedesse, o pulso e a frequência respiratória subiram, e o abdome ficou doloroso a ponto de o paciente travar a respiração à palpação. Existe ainda um agravante que o exame não mostra e a idade impõe. O idoso responde menos à dor, tem menos febre, faz menos leucocitose e frequentemente usa fármacos que aplainam a resposta cardiovascular — betabloqueador à frente de todos. Nele, a alça pode estar morrendo com frequência cardíaca de 78 e temperatura de 36,4 °C. Quando a pergunta é viabilidade, a normalidade dos sinais vitais no idoso vale menos que no adulto jovem, e a tendência entre duas medidas vale mais que qualquer valor isolado.

Falta o impostor. No íleo adinâmico não há trave nenhuma: o intestino inteiro para de se contrair, por operação recente, hipopotassemia, opioide, sepse, hipotireoidismo ou dor. O abdome distende e o paciente não elimina gases, mas o gás está distribuído em tudo, do estômago ao reto, e não existe ponto onde a alça cheia encontre a alça vazia. A pseudo-obstrução colônica aguda, que é a versão colônica desse fenômeno, é assunto de um capítulo vizinho: quem quiser a régua de quando ela vira emergência e o que se faz com ela deve procurar "O repouso que ninguém prescreveu", na apostila de síndromes do paciente internado. A distinção não é acadêmica. Íleo tratado como obstrução mecânica vai para a mesa e volta com aderências novas; obstrução mecânica tratada como íleo passa a noite recebendo correção de potássio enquanto a alça infarta. As duas trocas acontecem no mesmo pronto-socorro, e o dado que as separa está na mesma radiografia que já foi feita: a existência, ou não, de um ponto onde a alça cheia encontra a alça vazia.

Três esquemas: obstrução mecânica do delgado com mudança de calibre, volvo do sigmoide com base torcida e dilatação difusa no íleo.
À esquerda, obstrução mecânica com distensão proximal e redução distal do calibre; ao centro, torção do sigmoide; à direita, dilatação difusa compatível com íleo. Não identificar um ponto de transição, isoladamente, não exclui obstrução mecânica.
05

Como se apresenta de verdade

A obstrução tem quatro sintomas cardinais, e a ordem em que eles aparecem informa mais que a presença de cada um. Dor em cólica, vômito, distensão e parada de eliminação de gases e fezes: quando você registra a hora de cada um, está registrando a altura do bloqueio e o tempo de doença — os dois dados que a conduta vai usar.

O que nenhum desses quatro faz é responder se a alça está viva. Essa resposta vem de outro conjunto de achados, e vem mal: a sensibilidade do exame físico para detectar estrangulamento é de 48%, e isso em mãos experientes. Metade dos intestinos que estão morrendo não avisa pelo abdome. Todo o resto deste capítulo é construído em cima dessa frase.

A ordem dos quatro sinais, e o que ela diz sobre a altura

Na obstrução alta de delgado — jejuno, duodeno — o vômito abre o quadro, é abundante, e a distensão é discreta ou ausente. O paciente pode vomitar dez vezes com a barriga plana, e isso confunde quem espera barriga grande. A desidratação e a alcalose vêm rápido, porque o que ele perde é secreção gástrica rica em cloreto e hidrogênio.

Na obstrução baixa de delgado — íleo distal —, que é a de dona Eufrásia, a cólica vem primeiro, a distensão vem em segundo e o vômito vem depois, biliar no começo e escurecendo com as horas. É a apresentação mais comum e a mais reconhecível.

Na obstrução de cólon, a distensão domina e pode ser a única queixa por muitas horas. O vômito é tardio e às vezes nunca aparece, sobretudo quando a válvula ileocecal é competente e a pressão fica presa no cólon. Seu Tertuliano não vomitou nenhuma vez em mais de vinte e quatro horas de barriga crescendo, e isso não afasta obstrução: é a assinatura da obstrução colônica com válvula competente.

A parada de eliminação merece uma pergunta específica, porque a resposta espontânea engana. Muitos pacientes obstruídos evacuam nas primeiras horas — o que sai é o conteúdo que já estava abaixo do ponto de bloqueio, e evacuar não afasta obstrução. O dado que importa é a eliminação de gases, e ela precisa ser perguntada com essas palavras, porque "funcionou o intestino" significa coisas diferentes para pessoas diferentes. Pergunte quando foi o último gás, não quando foi a última vez que foi ao banheiro.

Registre a hora de cada um dos quatro no prontuário, não o adjetivo. "Dor há um dia" é imprestável; "cólica desde 8h de ontem, primeiro vômito às 15h, parou de eliminar gases às 22h, distensão percebida pela família hoje de manhã" é uma linha do tempo que o cirurgião consegue usar e que a sua própria reavaliação daqui a quatro horas vai comparar.

Toda cicatriz e todo orifício, no mesmo exame

Quem obstrui delgado, na maioria das vezes, já foi operado. A pergunta "a senhora já fez alguma cirurgia?" é frequentemente respondida com um não que se desfaz quando você levanta a camisola: cesárea antiga, apendicectomia da adolescência, histerectomia. Pergunte pela cicatriz e depois procure a cicatriz, nessa ordem, porque a memória cirúrgica do paciente é pior que a pele dele.

Cicatriz de laparoscopia é o descuido moderno. Três incisões de um centímetro em quem operou vesícula há oito anos desaparecem no exame apressado, e a paciente responde que "não abriu a barriga" porque foi por vídeo. A técnica minimamente invasiva reduz a formação de aderências e pode reduzir a incidência de obstrução, mas não a zera — e a cicatriz pequena conta como cirurgia prévia com o mesmo peso que a mediana.

Se não houver cicatriz nenhuma, a probabilidade de aderência cai e a de outras causas sobe — e a primeira delas se procura com a mão, não com a tomografia. Palpe as duas regiões inguinais, as duas femorais, a cicatriz umbilical e toda cicatriz prévia, com o paciente deitado e depois, se ele conseguir, de pé e tossindo. A hérnia femoral encarcerada da idosa magra é pequena, fica abaixo do ligamento inguinal e lateral ao tubérculo púbico, e passa despercebida em quem examina só o abdome. O exame completo da virilha, a separação entre hérnia inguinal e femoral e a conduta eletiva são do capítulo A virilha se examina de pé, na apostila Cirurgia do Aparelho Digestivo; deste capítulo é o mínimo que muda a conduta aqui: a hérnia que obstrui se procura no exame de todo abdome distendido, e uma hérnia irredutível e dolorosa num paciente que não elimina gases é indicação cirúrgica, não pedido de exame.

O terceiro grupo é a doença do próprio intestino: tumor, doença inflamatória, estenose por isquemia antiga, corpo estranho. Em paciente idoso sem cicatriz e com obstrução de cólon, a hipótese que lidera é neoplasia — e o que se faz com ela, do estadiamento à cirurgia, é do capítulo "Câncer colorretal", na apostila de coloproctologia. O que este capítulo recebe é a obstrução já instalada, e ela se resolve pela mesma régua, seja qual for a causa que fechou a luz.

Cesárea merece menção separada por ser, no Brasil, a operação abdominal mais realizada. Uma mulher de setenta anos com duas cesáreas dos anos oitenta é, do ponto de vista do peritônio, uma paciente com duas laparotomias — e a pergunta "a senhora já operou?" quase nunca traz essa informação, porque parto não é lembrado como cirurgia.

Delgado ou cólon, à beira do leito

Antes de qualquer imagem, quatro dados separam os dois com razoável segurança. O primeiro é a cicatriz: presença forte de cicatriz favorece delgado por aderência; ausência total favorece cólon. O segundo é o vômito precoce e biliar, que favorece delgado, contra a distensão desproporcional e isolada, que favorece cólon.

O terceiro é o toque retal, e ele é obrigatório em todo abdome distendido. Ampola vazia e colabada, como a do seu Tertuliano, indica que nada está descendo — compatível com obstrução em qualquer altura, e típico do volvo. Ampola cheia de fezes endurecidas muda o diagnóstico para impactação fecal, que tem manejo próprio e é assunto do capítulo "O repouso que ninguém prescreveu". Sangue na luva num idoso sem cicatriz obriga a pensar em tumor e em isquemia.

O quarto é a percussão. Timpanismo que ocupa flanco a flanco, com o fígado empurrado para cima e a área de macicez hepática reduzida, é padrão de cólon muito distendido. Timpanismo central, com macicez nos flancos, é mais compatível com alças de delgado empilhadas no meio do abdome.

Um quinto dado, quando existe, vale mais que os quatro: a distensão que já aconteceu antes. Entre 30% e 41% dos pacientes com volvo de sigmoide relatam episódios anteriores de distensão que passaram sozinhos, o que significa que o "já inchou assim e desinchou" não é história tranquilizadora. Pergunte quantas vezes, há quanto tempo, e se alguma delas precisou de hospital — a resposta reorganiza a probabilidade antes de qualquer imagem.

Nenhum desses quatro é decisivo sozinho, e nenhum responde a pergunta da viabilidade. Eles servem para você escolher o exame certo e antecipar o telefonema certo — porque quem tem obstrução de cólon vai precisar de endoscopista ou de cirurgião esta noite com muito mais frequência que quem tem obstrução de delgado.

Os sinais que fazem a conduta virar, e o valor real de cada um

Peritonite é a única entrada que dispensa discussão: dor à descompressão em todo o abdome, rigidez involuntária, paciente que não deixa a mão encostar. Não existe conduta conservadora com peritonite, não existe tomografia antes de chamar o cirurgião, e não existe tempo para completar exame nenhum.

Abaixo dela vêm os sinais que sugerem estrangulamento sem provar: taquicardia que não corrige com volume, febre, dor que mudou de cólica para contínua, dor localizada e fixa dentro de um abdome que antes doía difusamente, e distensão que continua crescendo apesar da sonda aberta. Cada um desses achados aumenta a chance de alça inviável, e nenhum a exclui quando ausente.

O sinal mais traiçoeiro é a ausência de ruídos. Silêncio abdominal em obstrução mecânica antiga pode significar exaustão da musculatura ou alça morta, e ruídos metálicos e hiperativos podem existir numa alça já em sofrimento acima da trave. Ausculte, registre, e não decida por ela.

A frequência respiratória é o dado mais barato e o mais esquecido. Conte por sessenta segundos, com relógio. Um paciente com obstrução que respira 26 vezes por minuto sem doença pulmonar está compensando acidose metabólica até prova em contrário, e essa é uma informação de gravidade que chega antes do lactato do laboratório.

Vale também dizer o que não é sinal de gravidade, porque essas confusões consomem tempo. Vômito abundante não indica alça sofrendo, indica obstrução alta. Distensão maciça não indica estrangulamento, indica obstrução baixa ou colônica. Dor intensa em cólica não indica necrose — pelo contrário, cólica preservada é sinal de que ainda há alça se contraindo acima da trave. A gravidade deste diagnóstico é quieta, e por isso ela precisa ser procurada em parâmetros medidos, e não na intensidade do que o paciente demonstra.

O paciente que não conta a história

Uma parte grande dos volvos de sigmoide acontece em idoso institucionalizado, com demência, sequela de acidente vascular cerebral ou constipação crônica de anos. Esse paciente não descreve cólica, não datou o último gás e às vezes não reage à palpação como reagiria alguém com o abdome íntegro.

Nesses casos, o dado clínico se busca fora do paciente: o caderno da instituição, a cuidadora que veio junto, a folha de medicamentos. Opioide, anticolinérgico, antipsicótico e antidepressivo tricíclico entram no raciocínio duas vezes — porque causam íleo e porque mascaram dor. Pergunte quando foi a última evacuação registrada, não quando foi a última que alguém lembra.

Vale a mesma cautela para o paciente que fala e não é ouvido. O idoso lúcido que chega sozinho, sem acompanhante, costuma ser examinado mais rápido e ter a história menos detalhada, porque ninguém corrige nem complementa o que ele diz. Nele, o dado que mais falta é a lista de medicamentos: peça que mostre a receita ou a caixa, e desconfie de qualquer história de obstrução em que a folha de fármacos não foi lida.

E vale a regra que salva mais idoso que qualquer escore: no paciente que não conta a história, o exame que decide passa a ser a repetição do exame. Dois abdomes examinados pela mesma pessoa com três horas de intervalo, escritos lado a lado, dizem mais que um exame perfeito feito uma vez só.

O que a obstrução tira do laboratório antes de qualquer complicação

O paciente obstruído chega desidratado por definição, mesmo bebendo água, porque o líquido está preso no lume e na parede. Ureia e creatinina sobem juntas com predomínio da ureia, o sódio pode estar em qualquer direção conforme o que ele bebeu, e o potássio costuma estar baixo — perdido pelo vômito e pela urina, sob efeito da alcalose e da aldosterona.

O padrão clássico da obstrução alta com vômito volumoso é a alcalose metabólica hipoclorêmica e hipocalêmica: perde-se ácido clorídrico pelo vômito, o rim retém bicarbonato, e a tentativa de reter sódio custa potássio. Quando esse mesmo paciente evolui para acidose metabólica com ânion gap alargado, alguma coisa mudou — hipoperfusão, isquemia de alça, sepse — e essa virada bioquímica costuma preceder a virada clínica. Uma gasometria isolada na admissão informa pouco; duas, separadas por horas, informam a direção.

Essa hipopotassemia tem duas consequências práticas. A primeira é que ela agrava o íleo, fechando um círculo em que a obstrução gera o distúrbio e o distúrbio piora a parada do intestino. A segunda é que ela precisa ser corrigida antes de qualquer anestesia, e a correção tem regras próprias de velocidade e concentração que são do capítulo "Potássio na enfermaria" — este capítulo usa a dose e não a discute.

O leucograma e a proteína C reativa são marcadores de resposta, não de tempo nem de viabilidade. A diretriz de Bolonha os cita como valores que podem indicar peritonite, mas registra ela própria que a sensibilidade e a especificidade dos dois são relativamente baixas. Um hemograma normal em obstrução de doze horas não diz que a alça está viva; diz que ainda não deu tempo.

O lactato é o exame que mais promete e mais decepciona. Ele sobe tarde na isquemia intestinal, e a diretriz de volvo escreve com todas as letras que a isquemia pode existir com lactato normal. Colha, use quando estiver alto e não se acalme quando estiver normal.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação da obstrução responde três perguntas em ordem, e a ordem importa porque cada uma tem um exame diferente e uma pressa diferente. Primeira: é obstrução mecânica ou é íleo? Segunda: é delgado ou é cólon, e onde está o ponto de transição? Terceira, a que governa a noite: a alça está viva?

Nenhum exame responde as três. A radiografia responde bem a segunda em uma situação específica e mal em todas as outras; a tomografia responde as três com boa acurácia; o teste do contraste responde uma quarta pergunta, que é se o tratamento conservador vai funcionar. Saber qual pergunta você está fazendo é o que evita pedir o exame errado e, pior, tranquilizar-se com o exame certo mal lido.

A radiografia simples: para que ela serve, e o que ela não vê

A radiografia de abdome tem sensibilidade em torno de 70% para obstrução de delgado, e a diretriz de Bolonha classifica seu papel como limitado e não a recomenda na investigação. A tríade que ela acerta — múltiplos níveis hidroaéreos, alças de delgado distendidas e ausência de gás no cólon — é praticamente patognomônica quando presente, mas ela está ausente em uma boa parte dos casos, e sobretudo nas obstruções parciais e precoces.

Vale saber ler o que ela mostra, porque o interno costuma ser o primeiro a olhar. Alça de delgado se reconhece pelas válvulas coniventes, que são pregas finas atravessando toda a largura da alça, dispostas de forma regular e próxima; alça de cólon se reconhece pelas haustrações, que são incisuras mais grosseiras e que não cruzam a alça inteira. Delgado distendido ocupa o centro do abdome; cólon distendido ocupa a periferia e desenha o enquadramento. Calibre acima de 3 cm no delgado, de 6 cm no cólon e de 9 cm no ceco são as referências usuais de dilatação — números de leitura, não de decisão.

O que ela definitivamente não vê são as duas coisas que decidem: a causa da obstrução e o sofrimento da alça. Uma alça em estrangulamento pode ter radiografia idêntica à de uma alça apenas distendida. Ler uma radiografia sem pneumoperitônio como "sem sinais de gravidade" é o erro de leitura mais comum deste diagnóstico.

O volvo de sigmoide é a exceção, e é uma exceção grande no Brasil. Para ele, a mesma sociedade que desaconselha a radiografia na obstrução aderencial recomenda a radiografia simples como primeira linha, porque o achado é característico: uma alça única, enorme, em grão de café ou em U invertido, que sobe do quadrante inferior esquerdo e projeta seu ápice acima do cólon transverso, às vezes acima do fígado. Esse último detalhe tem nome próprio na literatura de imagem, o sinal da exposição ao norte, e é o sinal do grão de café com o ápice fora do lugar esperado.

Peça sempre a radiografia de tórax em ortostase junto, e não a de abdome em pé isolada. O pneumoperitônio se vê melhor sob as cúpulas diafragmáticas numa radiografia de tórax, e a única coisa que a radiografia simples faz bem em todos os cenários é encontrar ar livre — que é indicação cirúrgica imediata em qualquer altura de obstrução.

A tomografia, e o que se pede quando se pede

A tomografia helicoidal tem cerca de 90% de acurácia para predizer estrangulamento e necessidade de cirurgia urgente, e é o exame de escolha na avaliação inicial segundo a diretriz de Bolonha. Ela responde as três perguntas: confirma a obstrução mecânica pelo achado da fronteira entre alça cheia e alça vazia, localiza o ponto de transição e mostra a causa quando ela é visível, e avalia o sofrimento da parede.

O pedido deve ser de tomografia de abdome e pelve com contraste intravenoso, salvo contraindicação. O contraste venoso é o que permite dizer se a parede da alça realça — a alça que não realça é a alça que não recebe sangue. Não peça sem contraste venoso por rotina para "poupar o rim" num paciente cuja creatinina subiu por desidratação: a conduta certa nesse caso é hidratar e então contrastar.

Os achados que o laudo precisa endereçar, e que você deve procurar no laudo se ele não os menciona: espessamento e edema da parede da alça, ausência ou redução do realce parietal, líquido livre entre as alças, edema e borramento do mesentério, pneumatose da parede, gás no sistema porta e configuração em alça fechada com dois pontos de transição próximos. A soma desses achados é o que muda a probabilidade de encontrar intestino inviável na mesa.

Três sinais radiológicos e clínicos foram validados como preditores da necessidade de exploração cirúrgica na obstrução aderencial: edema do mesentério, ausência do sinal de fezes no intestino delgado e obstipação completa. O modelo que os combina foi validado em 100 casos com índice de concordância de 0,77 — útil como linguagem comum com o radiologista, insuficiente como veredicto isolado.

Uma advertência sobre o laudo. Radiologista de plantão em hospital pequeno frequentemente laudará "sinais de obstrução intestinal, sem pneumoperitônio", o que responde a pergunta errada. Se o laudo não menciona realce parietal, líquido livre, edema mesentérico e configuração das alças, ligue e pergunte — essas quatro palavras são o conteúdo clínico do exame, e pedi-las por telefone é mais rápido e mais seguro do que decidir sem elas. Um laudo que descreve o ponto de transição e não descreve o realce é um laudo pela metade.

O teste do contraste hidrossolúvel, e o que dele existe no Brasil

Há uma manobra que é ao mesmo tempo teste diagnóstico e tratamento, e ela é a espinha do manejo conservador da obstrução por brida. Administra-se contraste iodado hidrossolúvel por via oral ou pela sonda nasogástrica e faz-se uma radiografia simples de abdome 24 horas depois. Se o contraste alcançou o cólon, a obstrução vai resolver sem cirurgia com altíssima probabilidade. Se não alcançou, isso é fortemente indicativo de falha do tratamento conservador — e a decisão de operar deixa de ser um palpite sobre o relógio.

O efeito terapêutico vem da física. O contraste é hiperosmolar: a bula do produto registrado no Brasil declara osmolalidade de 1,50 osm por quilo de água a 37 °C, ou seja, cerca de 1.500 mOsm/kg contra os aproximadamente 290 mOsm/kg do plasma — algo em torno de cinco vezes. A água é arrastada para dentro da luz por essa diferença; o conteúdo espesso se dilui, a parede desincha e a coluna líquida ganha força contra o estreitamento. Revisões sistemáticas atribuem a esse mecanismo tanto a redução do tempo de internação quanto uma redução da necessidade de operar.

O que o teste não faz também precisa estar claro. Ele não avalia viabilidade: um paciente cujo contraste chegou ao cólon tem obstrução em resolução, e isso é excelente notícia sobre a passagem, não um atestado retrospectivo de que a alça esteve viva a noite inteira. E ele não é ferramenta de triagem na chegada — a diretriz o coloca depois de excluída a necessidade de cirurgia imediata, dentro do tratamento não operatório já iniciado. Usá-lo antes dessa exclusão troca uma decisão que precisava ser tomada agora por uma espera de vinte e quatro horas.

E aqui está a régua que o Brasil não tem. O contraste registrado no país sob o nome de diatrizoato é uma solução injetável indicada para urografia, angiografia, colangiografia, fistulografia, histerossalpingografia e sialografia; a bula profissional não traz indicação para o trato gastrintestinal alto nem posologia por via oral. O diatrizoato tampouco aparece no elenco da Rename de 2024, em busca por termo normalizado sobre as 254 páginas. Quem faz o teste no Brasil faz fora de bula, com produto comprado pelo hospital, e essa informação pertence ao prontuário e à conversa com o paciente tanto quanto pertence à prescrição.

Duas contraindicações são absolutas e valem qualquer que seja o produto: suspeita de perfuração e paciente com rebaixamento de consciência ou vômitos incoercíveis sem via aérea protegida — a broncoaspiração de contraste hiperosmolar produz pneumonite química grave. E uma regra de ordem: o teste é para quem já foi liberado do risco de estrangulamento, nunca para ganhar tempo em quem tem sinais de alça sofrendo.

Quando não há tomógrafo ligado

Boa parte dos hospitais brasileiros que recebem esse paciente tem tomógrafo em horário comercial e nada além de radiografia durante a noite. Isso não paralisa a conduta, e a diretriz de Bolonha reconhece explicitamente o cenário: ultrassonografia e ressonância podem substituir a tomografia em situações específicas, como a gestante, e em locais onde a tomografia não está disponível.

Existe uma escolha intermediária que muitos serviços esquecem: repetir a radiografia. Duas radiografias simples de abdome separadas por seis a oito horas, no mesmo paciente e com a mesma técnica, mostram se a distensão progride, se o padrão mudou e se apareceu gás onde não havia. É um exame barato, disponível em qualquer hospital com pronto-socorro, e o que ele fornece — a variação — nenhuma tomografia isolada fornece.

Sem tomografia, o exame que decide passa a ser o seriado. Escreva o exame físico completo com hora, incluindo frequência cardíaca, frequência respiratória, temperatura, perímetro abdominal medido com fita no mesmo ponto marcado a caneta, e o débito da sonda desde a passagem. Repita em duas a quatro horas, pela mesma pessoa quando possível, e compare por escrito. A variação entre dois exames é um dado, e é um dado que a tomografia isolada não fornece.

A ultrassonografia à beira do leito, quando existe alguém treinado, responde mais do que se imagina numa obstrução: alças dilatadas com conteúdo líquido, peristalse ausente ou em vaivém, espessamento da parede e líquido livre entre alças. Ela não localiza bem o ponto de transição num abdome cheio de gás, mas líquido livre interalças num paciente obstruído é achado que antecipa telefonema.

E existe a decisão que só aparece no interior: transferir. Um paciente com obstrução e qualquer sinal de estrangulamento não deve esperar o tomógrafo da manhã se o serviço não tem cirurgia disponível. A transferência se pede com o paciente já com acesso, sonda, volume correndo e a hora dos sinais registrada — e com a informação de que o relógio começou na primeira dor, não na chegada.

A endoscopia que é diagnóstico e tratamento no mesmo ato

No volvo de sigmoide sem sinais de isquemia ou perfuração, a endoscopia flexível é o primeiro tratamento, não o segundo exame. A desvolvulação endoscópica é eficaz em 60% a 95% dos pacientes, com morbidade em torno de 4% e mortalidade de 3% em algumas séries.

O que caracteriza sucesso não é a saída de gás e fezes, embora ela seja espetacular e alivie o paciente na hora. O endoscopista precisa visualizar e ultrapassar os pontos de transição — em geral dois — e, ao fim, inspecionar a mucosa para julgar a viabilidade do segmento. Mucosa necrótica encontrada no exame converte o procedimento em indicação cirúrgica imediata, e não em nova tentativa.

Na série turca que a diretriz reproduz, os três métodos históricos de descompressão tiveram desempenhos diferentes: enema baritado com 69% de sucesso, 23% de morbidade, 8% de mortalidade e 11% de recidiva precoce; retossigmoidoscopia rígida com 78%, 3%, 1% e 3%; endoscopia flexível com 76%, 2%, 0,3% e 6%. O ganho da endoscopia flexível sobre o aparelho rígido, nessa série, está na segurança, não na taxa bruta de sucesso.

Depois da descompressão bem-sucedida, costuma-se deixar uma sonda retal posicionada além do ponto de torção, para manter o cólon descomprimido e reduzir a recidiva imediata. Isso compra horas ou dias, não resolve: a recidiva após desvolvulação seguida apenas de manejo conservador é de 45% a 71%, e a diretriz recomenda oferecer a colectomia sigmoide o mais cedo possível, inclusive na mesma internação. Procedimentos sem ressecção — desvolvulação cirúrgica isolada, sigmoidopexia, mesossigmoidoplastia — são descritos como inferiores à colectomia para prevenir recidiva.

O detalhe que muda o plantão do interior: descompressão endoscópica exige endoscopista, e endoscopista de sobreaviso é raro. Quando não há, o paciente com volvo sem sinais de isquemia não vira "observação até a manhã" por decisão silenciosa. Ou se consegue a descompressão em outro serviço, com transferência, ou o caso passa a ser cirúrgico — e essa escolha é do cirurgião, feita agora e registrada.

Excluir o impostor antes de tratar como mecânica

Antes de fixar o rótulo de obstrução mecânica, três diagnósticos precisam ser conscientemente afastados, porque os três mudam completamente o que se faz.

O primeiro é o íleo adinâmico. A pista é a distribuição do gás: no íleo há gás em tudo, inclusive no reto, e não existe fronteira entre alça cheia e alça vazia. A causa quase sempre está na folha de prescrição ou no exame de sangue — opioide, potássio baixo, pós-operatório recente, sepse. Corrigir a causa é o tratamento; laparotomia em íleo é dano puro.

O segundo é a pseudo-obstrução colônica aguda, o cólon que dilata maciçamente sem trave nenhuma. Ela imita o volvo na barriga e se separa dele na imagem, porque não há ponto de torção. Este capítulo reconhece a entidade e para aqui: quem trata dela, com os limites de diâmetro cecal e a droga que se usa, é o capítulo "O repouso que ninguém prescreveu".

O terceiro é a isquemia mesentérica aguda primária, aquela em que o problema começa no vaso e não na luz. Nenhum capítulo do Internato a tem como assunto, de modo que ela é assumida aqui apenas no que o interno de plantão precisa saber: dor desproporcional ao exame físico num paciente com fibrilação atrial, doença aterosclerótica ou hipotensão prolongada, com abdome relativamente inocente e acidose que piora, é isquemia mesentérica até prova em contrário — e a prova se faz com angiotomografia, não com observação. A obstrução mecânica e a isquemia primária convergem no mesmo desfecho, alça morta, mas divergem em tudo antes disso.

Um quarto diagnóstico merece menção pela frequência com que é confundido com obstrução: a gastroparesia e a retenção gástrica pura, em que o paciente vomita muito, tem estômago distendido e nenhuma alça de delgado dilatada. A radiografia mostra uma bolha gástrica grande com o resto do abdome de padrão normal, e a sonda drena volumes altos que caem rapidamente. Não é obstrução mecânica de delgado, e o tratamento é a causa da estase, não a laparotomia.

Por fim, a fronteira que este capítulo cede por inteiro: a dor abdominal ainda sem nome, aquela em que obstrução é apenas uma das hipóteses da porta, é do capítulo "Dor abdominal no pronto-socorro". Aqui já se entra com a barriga distendida e o gás parado.

07

As duas perguntas que abrem portas diferentes

Um paciente obstruído passa por duas bifurcações, e elas não estão na mesma altura. A primeira separa quem vai para a sala agora de quem pode ser tratado sem operar — e quem decide isso é a viabilidade da alça, não a causa da obstrução. A segunda separa delgado de cólon, porque cada um tem causa, imagem e destino próprios. Quem inverte a ordem das duas acaba pedindo tomografia em paciente com peritonite.

  1. 1Peritonite, instabilidade hemodinâmica ou pneumoperitônio na radiografia de tórax: chame o cirurgião agora, sem completar exame nenhum. Volume, sonda, analgesia e antibiótico correm enquanto ele vem.
  2. 2Sem esses três: acesso venoso calibroso, sinais vitais completos com frequência respiratória contada, sonda nasogástrica aberta, nada por boca, hemograma, eletrólitos, ureia, creatinina, lactato e gasometria.
  3. 3No paciente estável, selecione imagem pela hipótese: TC com contraste IV para causa e viabilidade do delgado; radiografia pode mostrar volvo típico, com TC quando houver dúvida ou suspeita de complicação.
  4. 4Se a imagem mostrar volvo de sigmoide sem sinal de isquemia: acione o endoscopista para descompressão, e o cirurgião em paralelo. Se não houver endoscopista, a decisão de operar ou transferir se toma agora.
  5. 5Se não for volvo: tomografia de abdome e pelve com contraste intravenoso, para localizar o ponto de transição, achar a causa e avaliar o realce da parede.
  6. 6Ausência de realce, alça fechada e sinais concordantes de isquemia exigem avaliação cirúrgica urgente. Pneumatose ou líquido livre precisam de interpretação clínica e radiológica, não são isoladamente sinônimos de necrose. Observação cabe na obstrução adesiva selecionada sem sinais de sofrimento.
  7. 7Na obstrução adesiva selecionada, registrar hora zero, reexaminar e acompanhar perdas e função orgânica. Contraste hidrossolúvel e controle em 24 horas podem apoiar a decisão segundo protocolo. Cerca de 72 horas é um limite de tentativa usual, nunca autorização para esperar se houver piora ou ausência de perspectiva de resolução.

As portas que fecham a via conservadora

Peritonite, estrangulamento e isquemia intestinal são as três contraindicações formais ao tratamento não operatório na diretriz de Bolonha, e a lista é curta de propósito. A elas somam-se, na prática, o pneumoperitônio, a hérnia irredutível e dolorosa e a instabilidade hemodinâmica que não responde a volume. Fora dessas situações, o manejo não operatório deve sempre ser tentado — e a diretriz é explícita ao dizer que o risco discretamente menor de recidiva após operar não justifica escolher a cirurgia de saída, porque a morbidade da exploração de urgência é alta, há risco considerável de lesão de alça e a operação pode reduzir de forma significativa a qualidade de vida depois.

O relógio de 72 horas, e o que ele mede

A janela citada em toda parte é esta: um teste de tratamento não operatório pode ser conduzido com segurança por 72 horas. O grau declarado é B, nível II, e o texto que a sustenta diz algo que raramente é reproduzido junto — a evidência sobre a duração ótima do tratamento conservador é ausente, e as 72 horas são o que a maioria dos autores e do painel considera seguro e apropriado. O relógio não conta a partir da internação: conta a partir do início do tratamento não operatório, e nada nele autoriza esperar diante de sinal novo de sofrimento. Estender além das 72 horas em paciente com débito alto pela sonda, mas sem qualquer outro sinal de deterioração, continua sendo assunto em debate na própria diretriz.

Delgado e cólon: duas doenças com a mesma queixa

O que se comparaObstrução de delgadoObstrução de cólon
Causa que lideraAderência de cirurgia anterior, responsável por 60% dos casos; depois hérnia e doença da própria alçaCâncer colorretal, doença diverticular complicada e volvo — nessa ordem na estatística mundial
O que a história trazCicatriz abdominal, muitas vezes esquecida pelo paciente até que se levante a camisolaConstipação de anos, idade avançada, institucionalização; episódios anteriores de distensão que passaram
VômitoPrecoce e volumoso na obstrução alta; biliar e depois escuro na baixaTardio, e pode nunca ocorrer quando a válvula ileocecal é competente
DistensãoCentral, proporcional à altura do bloqueioMaciça, de flanco a flanco, às vezes a única queixa por muitas horas
Toque retalAmpola habitualmente vazia; sem achado que localizeAmpola vazia e colabada no volvo; massa ou sangue apontam para tumor
Imagem que resolveTomografia com contraste venoso; radiografia tem papel limitadoRadiografia simples fecha o volvo de sigmoide; tomografia para o resto e para a dúvida
Tratamento inicialNão operatório na ausência de peritonite, estrangulamento ou isquemiaDescompressão endoscópica no volvo sem isquemia; cirurgia na maior parte das outras causas
O que ameaça primeiroA alça presa na trave, que estrangulaO ceco em alça fechada, que perfura por ser o segmento de maior raio

"Estrangulou?" — o que cada achado acrescenta e o que ele não exclui

AchadoO que ele sugere quando presenteO que a ausência dele não permite dizer
Peritonite ao exameAlça inviável ou perfurada; indicação cirúrgica sem exame adicionalNada. A sensibilidade do exame físico para estrangulamento é de 48% em mãos experientes
Dor que virou contínuaPeristalse cessou naquele segmento; pode ser resolução ou morte da alçaCólica mantida não garante alça viva; garante apenas que ainda há contração acima da trave
Taquicardia que não corrige com volumeResposta sistêmica em curso; aumenta a suspeitaIdoso em uso de betabloqueador pode ter alça morta com frequência cardíaca normal
Febre e leucocitosePodem indicar peritonite, segundo a própria diretrizA mesma diretriz registra que sensibilidade e especificidade dos dois são relativamente baixas
Lactato elevadoHipoperfusão estabelecida; urgência maiorA diretriz de volvo escreve que a isquemia pode existir com lactato normal
Parede sem realce na tomografiaAlça sem perfusão; achado cirúrgicoTomografia acerta cerca de 90% na predição de estrangulamento, e portanto erra parte dos casos
Alça fechada com dois pontos de transiçãoRisco alto e precoce de necrose, mesmo com paciente confortávelA ausência da configuração não afasta trave única com sofrimento
Contraste que não chegou ao cólon em 24 horasFortemente indicativo de falha do tratamento não operatórioContraste que chegou prediz resolução da obstrução, não viabilidade retrospectiva da alça

Leitura das apresentações. Dipirona a 500 mg/mL contém 1 g em 2 mL; ceftriaxona de 1 g contém essa dose em um frasco. Diferencie apresentação, dose e indicação: reconhecer a conversão não equivale a indicar o medicamento para toda obstrução.

Morfina no exemplo de 58 kg. A dose de 0,05 mg/kg corresponde a 2,9 mg. Na concentração de 10 mg/mL, são 0,29 mL; na diluição descrita de 1 mg/mL, são 2,9 mL. Identifique a concentração final para não confundir o volume da ampola com o volume a administrar.

Reposição e balanço. KCl a 19,1% contém aproximadamente 2,56 mEq/mL: 20 mEq correspondem a 7,8 mL; em 500 mL, a concentração final é de 40 mEq/L. Um litro de NaCl a 0,9% fornece 154 mEq de sódio. A tabela de prescrição deve ser lida junto da avaliação e das condições de administração descritas no capítulo.

Sal, base e concentração. Bulas podem expressar um medicamento pelo sal ou pela quantidade equivalente da base. Não transporte o valor de uma apresentação oral para uma injetável sem conferir a convenção usada. O mesmo cuidado vale para o grau de hidratação dos sais ao interpretar a composição de uma solução.

Contraste do exemplo. A apresentação de Urografina 292 descrita contém 50 mL por frasco; um volume de 100 mL utiliza dois frascos. Separe volume, concentração de iodo e quantidade total de composto ao ler o pedido.

Exames com perguntas diferentes. A radiografia simples para investigação inicial e a radiografia de controle do desafio com contraste têm finalidades distintas. O valor limitado da primeira não elimina a função da segunda. Da mesma forma, confira a unidade da PCR: mg/L e mg/dL diferem por um fator de dez.

Resultados do tratamento não operatório. As faixas de sucesso, necessidade de cirurgia e duração de internação citadas vêm de grupos e contextos diferentes. Elas descrevem a experiência dos estudos; a decisão sobre continuar a observação depende da evolução do paciente e dos critérios apresentados no fluxo.

Recidiva do volvo. Interprete cada taxa com seu grupo e período de seguimento. A série citada de 31 pacientes teve 19 recidivas, aproximadamente 61%. Outra série destacou a diferença entre doença limitada ao sigmoide e megacólon associado. O dado útil para a discussão é o risco de recorrência e sua relação com a extensão da doença, não a soma de percentuais provenientes de populações diferentes.

08

A conduta, hora a hora

As prescrições desta seção estão calculadas para dona Eufrásia Melgaço, 58 quilos, e empregam somente formas farmacêuticas presentes no elenco da Rename de 2024, com o volume de cada ampola conferido na bula profissional correspondente. Onde a conversão de miligramas para mililitros e para ampolas importa, ela vem escrita na própria linha.

A ordem dos marcos é a ordem do relógio, não a da importância teórica. O que decide o desfecho de uma obstrução não é a escolha do antibiótico: é a rapidez com que o volume entra, a honestidade com que o exame é repetido e a hora em que o telefone toca na casa do cirurgião.

  1. Minuto 0 a 10 — antes de qualquer hipótese

    Afira tudo: pressão, pulso, saturação, temperatura de verdade no termômetro e a frequência respiratória contada no relógio por sessenta segundos. Dois acessos venosos periféricos calibrosos. Marque a caneta o ponto onde você mediu o perímetro abdominal com a fita, para que a próxima medida seja no mesmo lugar. Palpe as duas regiões inguinais e femorais e faça o toque retal ainda nesta janela: os dois achados que mudam conduta na primeira dezena de minutos são a hérnia irredutível e a ampola vazia e colabada. Nada por boca a partir de agora. Uma advertência sobre o acesso: dois cateteres periféricos curtos e calibrosos infundem mais rápido que um cateter central longo, e são obtidos em minutos. Não adie a expansão para conseguir acesso central em paciente com veia periférica disponível.

    Prescrição
    • Dieta zero, inclusive água.
    • Cristaloide isotônico IV ajustado à perfusão, às perdas e às comorbidades; se houver hipovolemia, administrar em alíquotas com reavaliação após cada uma, em vez de fixar 1.000 mL para todos.
    • Cabeceira elevada a 30 graus, pelo risco de broncoaspiração.
    • Sinais vitais de 2/2 horas, com frequência respiratória contada, e registro do perímetro abdominal a cada aferição.
  2. Minuto 10 a 30 — descomprimir e repor

    A sonda nasogástrica é a pedra angular do tratamento não operatório, junto com o jejum. Ela não trata a obstrução: retira o volume que continua chegando de cima, reduz o vômito, previne a broncoaspiração e dá um número que a reavaliação vai usar, que é o débito. Passe aberta em drenagem, não fechada nem em aspiração intermitente por rotina, e meça o que sai a cada turno. Sonda longa nasointestinal é mais eficaz que a nasogástrica na diretriz, mas exige colocação endoscópica e não é realidade da maioria dos serviços. Ainda sobre a sonda: passe com o paciente sentado quando ele conseguir, meça a distância do lóbulo da orelha ao apêndice xifoide passando pela ponta do nariz antes de introduzir, e confirme a posição antes de usar. Sonda mal posicionada não drena, e a leitura de "débito baixo" numa sonda que está no esôfago produz a conclusão exatamente inversa da verdadeira. Reavalie a permeabilidade sempre que o débito cair de forma abrupta, antes de comemorar.

    Prescrição
    • Sonda nasogástrica calibrosa, aberta em drenagem, com medida do débito a cada 6 horas.
    • Cloreto de sódio 0,9% em manutenção após a expansão inicial, ajustado ao débito da sonda e à diurese.
    • Sonda vesical de demora apenas se houver necessidade de balanço rigoroso ou instabilidade; caso contrário, diurese medida em coletor.
    • Balanço hídrico de 6/6 horas, somando débito de sonda como perda.
  3. Minuto 20 a 40 — analgesia, sem apagar o abdome

    Ofereça analgesia titulada e monitore dor, consciência, respiração e perfusão. O exame continua necessário antes e depois do alívio; não se deve presumir que um sinal físico permanecerá invariável após medicação. Metoclopramida é contraindicada na obstrução mecânica pelo efeito pró-cinético, e não apenas quando repetida. Evite anti-inflamatórios na depleção volêmica ou lesão renal. Dor persistente ou crescente exige reavaliação da causa e avaliação cirúrgica enquanto o alívio seguro continua.

    Prescrição
    • Dipirona 1 g intravenoso a cada 6 horas (2 mL da apresentação de 500 mg/mL; a ampola de 2 mL contém 1.000 mg).
    • Sulfato de morfina 3 mg intravenoso, se dor moderada ou intensa, repetível conforme resposta — equivale a 0,05 mg/kg neste peso de 58 kg. Diluir 1 ampola de 1 mL a 10 mg/mL em 9 mL de água para injetáveis, resultando 1 mg/mL, e administrar 3 mL.
    • Não usar metoclopramida na obstrução mecânica. Se necessário, escolher antiemético sem efeito pró-cinético com o supervisor; considerar QT e distúrbios eletrolíticos. A descompressão e o tratamento da causa permanecem essenciais.
    • Não prescrever anti-inflamatório não hormonal enquanto houver depleção de volume ou creatinina em elevação.
  4. Minuto 30 a 60 — o que o laboratório e a imagem precisam responder

    Laboratório avalia perdas, função renal, distúrbios metabólicos e hipóperfusão. Na suspeita de obstrução de delgado, a TC com contraste IV esclarece causa, transição e sinais de isquemia quando o paciente está estável. Radiografia pode apoiar o diagnóstico de volvo de sigmoide e é alternativa inicial quando TC não está disponível, mas não precisa preceder uma TC prontamente acessível. Dúvida de viabilidade ou diagnóstico pede complementação; peritonite ou instabilidade exige acionamento cirúrgico sem atrasos por exames. Lactato normal não exclui isquemia inicial.

    Prescrição
    • Hemograma, sódio, potássio, cloreto, ureia, creatinina, lactato e gasometria arterial ou venosa.
    • Radiografia de abdome ou tórax quando responder à hipótese e aos recursos disponíveis; não pedir ambas rotineiramente antes de uma TC indicada e acessível.
    • Tomografia de abdome e pelve com contraste intravenoso quando a radiografia não fechar o volvo e não houver indicação cirúrgica imediata.
    • Registrar no prontuário a hora do início da dor, do primeiro vômito e da última eliminação de gases.
  5. Hora 1 a 2 — corrigir o potássio antes de qualquer anestesia

    Hipopotassemia em obstrução é regra, não exceção, e ela fecha um círculo: a obstrução gera a perda, e a perda agrava o íleo. A reposição intravenosa tem limite de concentração em veia periférica e limite de velocidade, e as duas regras são do capítulo "Potássio na enfermaria", que este aqui usa sem rediscutir. O que importa nesta linha do tempo é que a correção comece cedo, porque ela é pré-requisito para operar com segurança e leva horas. Corrija também o que a hipopotassemia costuma esconder: magnésio baixo impede a correção do potássio, e um potássio que não sobe apesar de reposição adequada é indicação para dosar magnésio antes de aumentar a dose de cloreto de potássio.

    Prescrição
    • Cloreto de potássio 19,1%, 20 mEq diluídos em 500 mL de cloreto de sódio 0,9%, intravenoso — equivale a 7,8 mL da ampola de 10 mL, isto é, 0,78 ampola, e resulta em concentração de 40 mEq/L.
    • Repetir o potássio sérico após a reposição, antes de liberar para o centro cirúrgico.
    • Magnésio sérico quando a hipopotassemia for refratária à reposição.
  6. Hora 1 a 3 — a decisão que separa as duas vias

    Neste ponto o paciente tem sinais vitais, laboratório e imagem, e a decisão se toma. Peritonite, instabilidade, pneumoperitônio, hérnia encarcerada dolorosa, alça sem realce, alça fechada, pneumatose ou gás portal levam ao centro cirúrgico. Volvo de sigmoide sem sinal de isquemia leva à descompressão endoscópica. Tudo o mais estável entra em tratamento não operatório com hora zero anotada. O antibiótico entra quando há indicação cirúrgica, suspeita de translocação ou sinais sistêmicos — e não como rotina de toda obstrução. Duas frases devem estar no prontuário ao fim desta janela, quaisquer que sejam as decisões: qual via foi escolhida e com base em quê, e a hora em que o cirurgião foi comunicado. A segunda protege o paciente e protege você — não por formalidade, mas porque a reconstrução do que aconteceu naquela noite depende inteiramente dela.

    Prescrição
    • Comunicar o cirurgião de sobreaviso com a hipótese, o horário do início dos sintomas e os achados de imagem, e registrar a hora do contato.
    • Se houver indicação cirúrgica ou sinais sistêmicos: ceftriaxona 1 g intravenoso a cada 12 horas (1 frasco-ampola de 1 g por dose).
    • A cobertura anaeróbia por via intravenosa não tem apresentação correspondente na Rename 2024 e depende do que o hospital adquire: prescreva conforme a padronização do serviço e registre no prontuário qual esquema foi usado.
    • Reservar hemoderivados e comunicar o centro cirúrgico quando a decisão for operar.
  7. Hora 3 a 24 — o teste que substitui o palpite

    Em quem entrou na via conservadora e não tem contraindicação, o contraste hidrossolúvel transforma uma espera em um teste com resposta em 24 horas. Administre pela sonda nasogástrica, feche a sonda pelo tempo determinado pelo serviço, e faça a radiografia simples de abdome 24 horas depois. Contraste no cólon significa obstrução em resolução; contraste que não chegou significa falha provável do tratamento não operatório. Onde o produto não estiver disponível, o lugar dele é ocupado pela reavaliação clínica seriada e escrita — e isso deve constar do prontuário, para que quem assume o plantão seguinte saiba que o teste não foi feito. Quando o produto não existir no serviço, diga isso na evolução com essas palavras, e escreva o que ocupa o lugar dele: reavaliação clínica seriada a cada quatro horas e radiografia simples de controle em 24 horas para comparar o padrão de distensão. Um plantão que herda "paciente em tratamento conservador" sem saber que o teste não foi feito tende a confiar num prazo que ninguém está medindo.

    Prescrição
    • Contraste iodado hidrossolúvel pela sonda nasogástrica, com sonda fechada pelo período definido pelo serviço, quando disponível e na ausência de suspeita de perfuração ou de risco de broncoaspiração.
    • Radiografia simples de abdome 24 horas após a administração do contraste.
    • Manter dieta zero e sonda aberta em drenagem entre a administração e a radiografia de controle, exceto no período em que a sonda deve permanecer fechada.
    • Registrar na evolução se o teste foi ou não realizado e por qual motivo.
  8. Hora 24 a 72 — o prazo, e o que o encurta

    A janela de 72 horas de tratamento não operatório é o teto, não a meta. Ela se encerra antes, e sem discussão, diante de qualquer sinal novo: dor que virou contínua, taquicardia que não corrige, febre, distensão que cresce com sonda aberta, lactato subindo, ou contraste que não alcançou o cólon em 24 horas. Nesse intervalo o paciente deve estar sendo reavaliado clinicamente pelo menos a cada quatro horas, e cada reavaliação deve estar escrita com hora e com os mesmos parâmetros da anterior, para que a comparação seja possível. Preste atenção especial à passagem de plantão dentro dessa janela, porque a obstrução atravessa dois a três plantões e a decisão de operar quase nunca é tomada por quem internou. A informação que se perde primeiro é justamente a hora zero, e com ela some a própria noção de prazo. Passe o caso dizendo em que hora do relógio de 72 horas ele está, não há quantos dias ele está internado.

    Prescrição
    • Reavaliação clínica escrita a cada 4 horas, com frequência cardíaca, frequência respiratória, temperatura, perímetro abdominal, caráter da dor, débito da sonda e eliminação de gases.
    • Avaliação nutricional e início de suporte quando o jejum se prolongar além de 72 horas.
    • Profilaxia de tromboembolismo venoso conforme o protocolo do serviço — o detalhamento é do capítulo "As três profilaxias", desta mesma coleção.
    • Documentar a hora zero do tratamento não operatório e a hora limite correspondente na primeira evolução.
09

Como saber se está funcionando

Em obstrução, reavaliar não é perguntar se melhorou. É medir sete coisas nas mesmas condições e comparar com a medida anterior, porque o que decide é a direção da mudança e não o valor absoluto de nenhum parâmetro.

Escreva os sete na mesma ordem toda vez. Uma evolução que repete a ordem permite que outra pessoa leia duas evoluções lado a lado em dez segundos; uma evolução em prosa livre obriga a reconstruir tudo.

Caráter da dorA cada 4 horas, e imediatamente diante de qualquer queixa nova

Esperado: Cólica que espaça e perde intensidade, com intervalos livres cada vez maiores entre as ondas

Se não melhora: Dor que deixou de ser em ondas e virou contínua, ou que passou de difusa a localizada e fixa, sem que a distensão tenha cedido junto, é sinal de que a alça pode ter parado de se contrair por sofrimento. Reexamine na hora, colha lactato e comunique o cirurgião — não espere a reavaliação programada. E registre a hora exata da mudança de caráter: é esse horário, e não o da internação, que o cirurgião vai usar para estimar há quanto tempo a alça pode estar sofrendo.

Perímetro abdominalA cada 4 horas, com fita, no mesmo ponto marcado a caneta

Esperado: Estável ou em queda progressiva depois que a sonda começou a drenar

Se não melhora: Perímetro que cresce com sonda aberta e funcionante significa que o volume continua se acumulando abaixo do alcance da sonda. Em obstrução de cólon, isso aponta para alça fechada, e o risco é perfuração cecal. É indicação de reavaliar imagem e de acionar o cirurgião, não de trocar a sonda. A medida só serve se for reprodutível: mesma fita, mesmo ponto marcado a caneta, paciente na mesma posição e ao fim da expiração. Perímetro medido em lugares diferentes por pessoas diferentes produz variação de vários centímetros e transforma um bom parâmetro em ruído.

Débito da sonda nasogástricaA cada 6 horas, anotado em mililitros e com o aspecto descrito

Esperado: Queda progressiva do volume e clareamento do aspecto, de fecaloide ou escuro para bilioso e depois claro

Se não melhora: Débito que se mantém alto além de 48 a 72 horas é o cenário que a própria diretriz reconhece como ainda em debate: sem outro sinal de deterioração, prolongar o tratamento conservador é discutível, e a decisão deve ser tomada com o cirurgião e registrada. Débito que volta a escurecer depois de ter clareado é piora, não estabilidade. Antes de interpretar qualquer queda abrupta do débito, confirme que a sonda está pérvia e bem posicionada: sonda obstruída produz exatamente o mesmo número que a sonda de um paciente que melhorou.

Eliminação de gases e fezesA cada turno, perguntando de forma específica e confirmando com a equipe de enfermagem

Esperado: Retorno da eliminação de gases, que precede a de fezes e é o primeiro sinal confiável de resolução

Se não melhora: Ausência mantida de gases após 24 horas de sonda e jejum, num paciente que não piora, ainda cabe dentro da janela — desde que o teste do contraste esteja em curso ou já respondido. Ausência mantida somada a qualquer outro parâmetro em piora encerra a via conservadora. Registre também o que foi eliminado e quando, com as palavras do paciente entre aspas quando houver dúvida. "Saiu um pouco de gás às cinco da manhã" é um dado clínico; "melhorou o trânsito" não é.

Frequência cardíaca e frequência respiratóriaA cada 2 horas nas primeiras 12 horas, depois a cada 4

Esperado: Frequência cardíaca que cai à medida que o volume entra; frequência respiratória entre 12 e 20 por minuto

Se não melhora: Taquicardia que não corrige depois de reposição adequada é sinal sistêmico até prova em contrário. Frequência respiratória acima de 22 sem doença pulmonar sugere compensação de acidose metabólica e antecede o lactato do laboratório. Os dois juntos, num abdome que ainda parece tolerável, é a combinação que mais mata neste diagnóstico. Nos dois casos, a comparação vale mais que o valor: uma frequência cardíaca de 96 que era 78 há quatro horas informa mais que uma de 104 que está estável desde a admissão.

Potássio, creatinina e lactatoPotássio e creatinina a cada 12 a 24 horas; lactato quando houver qualquer parâmetro clínico em piora

Esperado: Potássio normalizando com a reposição, creatinina caindo com a hidratação, lactato normal e estável

Se não melhora: Creatinina que não cai com volume adequado sugere que a reposição está subdimensionada em relação ao terceiro espaço. Lactato em elevação, mesmo dentro da faixa de referência, é tendência e vale mais que um valor isolado. Lactato normal, porém, não libera ninguém: a diretriz de volvo declara que a isquemia pode existir sem hiperlactatemia. E o hemograma tem a mesma limitação: leucócitos normais em obstrução de doze horas dizem que não houve tempo, não que a alça está bem.

Radiografia de controle do teste de contrasteExatamente 24 horas após a administração do contraste hidrossolúvel

Esperado: Contraste visível no cólon, o que prediz resolução da obstrução sem cirurgia

Se não melhora: Contraste que não alcançou o cólon em 24 horas é fortemente indicativo de falha do tratamento não operatório e deve disparar a conversa sobre indicação cirúrgica no mesmo dia. Um contraste que chegou ao cólon prediz que a obstrução vai resolver; não é atestado retrospectivo de que a alça esteve viva o tempo todo, e não substitui a vigilância clínica. Se o exame não pôde ser feito por indisponibilidade do contraste, isso precisa constar da evolução — a ausência do teste muda a vigilância exigida nas horas seguintes.

10

Onde o erro machuca

Tratar a melhora da cólica como melhora do paciente

O dano: É o erro que produz as mortes evitáveis deste diagnóstico. Quando a alça estrangula e a peristalse cessa naquele segmento, a dor em ondas desaparece e vira uma dor de fundo, contínua e mais tolerável. O paciente diz que está melhor, a equipe relaxa a vigilância, e o intervalo entre a congestão venosa e a necrose transmural passa despercebido em horas.

Como pegar a tempo: Nunca registre "melhora da dor" sozinho. Registre sempre o par: caráter da dor e perímetro abdominal. Cólica que cede acompanhada de distensão que cede é melhora; cólica que cede com distensão mantida ou crescente é sinal de alerta e obriga reexame imediato, com frequência cardíaca, frequência respiratória e lactato. Uma frase padronizada resolve boa parte do problema: "dor em cólica de intensidade X, perímetro abdominal Y cm, débito da sonda Z mL desde a última medida, gases ausentes ou presentes". Escrita sempre na mesma ordem, ela permite ler duas evoluções lado a lado e ver a direção em segundos.

Ler a radiografia sem pneumoperitônio como radiografia tranquilizadora

O dano: A radiografia simples tem sensibilidade em torno de 70% para obstrução de delgado e não enxerga nem a causa nem o sofrimento da alça. Uma alça em estrangulamento produz imagem indistinguível de uma alça apenas distendida. Registrar "radiografia sem sinais de gravidade" cria no prontuário uma segurança que o exame não fornece, e essa frase costuma ser copiada pelo plantão seguinte.

Como pegar a tempo: Escreva o que a radiografia mostrou e o que ela não pode responder, nesta ordem. Para obstrução de delgado, a decisão sobre viabilidade vem de tomografia com contraste venoso ou do exame seriado — e a radiografia serve, além do ar livre, para o controle de 24 horas do teste de contraste. E se a radiografia for tudo o que existe naquele turno, repita-a em seis a oito horas com a mesma técnica. A comparação entre duas radiografias fornece a variação que uma radiografia isolada não fornece, e é uma informação que cabe em qualquer serviço.

Pular o exame das regiões inguinais e femorais e o toque retal

O dano: Uma hérnia femoral encarcerada em idosa magra é pequena, indolor à distância e invisível em quem só palpa o abdome; ela é causa de obstrução com indicação cirúrgica imediata e não precisa de tomografia para ser diagnosticada. E a impactação fecal, que se descobre com o dedo, tem manejo inteiramente diferente e não deve entrar na via da obstrução mecânica.

Como pegar a tempo: Faça dos dois um passo fixo dos primeiros dez minutos, antes de qualquer pedido de exame. Escreva o resultado no prontuário mesmo quando negativo: "regiões inguinais e femorais livres, toque retal com ampola vazia e colabada, sem sangue na luva" é uma linha que muda o valor de tudo o que vem depois. Vale ainda a regra de nunca reduzir à força uma hérnia irredutível e dolorosa: empurrar para dentro do abdome uma alça possivelmente inviável troca um diagnóstico visível por uma peritonite que ninguém está procurando nas horas seguintes.

Deixar o paciente esperando com veia salinizada e sem sonda

O dano: A obstrução desidrata sem sangramento visível: o líquido some para dentro da luz e da parede. Um paciente que espera quatro horas por vaga com acesso apenas salinizado chega ao centro cirúrgico com creatinina alta, potássio baixo e pressão que despenca na indução anestésica. E sem sonda ele vomita — e o vômito com consciência rebaixada ou em decúbito produz broncoaspiração, que é uma das complicações clínicas comuns deste quadro.

Como pegar a tempo: Volume e sonda entram na primeira meia hora, independentemente de o diagnóstico estar fechado ou de a vaga estar resolvida. Cabeceira a 30 graus, dieta zero inclusive água, e balanço hídrico contando o débito da sonda como perda. Se a expansão inicial não corrigir a taquicardia, isso é informação e não motivo para repetir a mesma prescrição indefinidamente: reavalie a perfusão, reveja o diagnóstico e comunique o cirurgião.

Prolongar o tratamento conservador sem hora zero registrada

O dano: Sem uma hora zero escrita, a janela de 72 horas vira uma sensação. Cada plantão herda a impressão de que "faz pouco tempo", e a série retrospectiva mostra o contrário: atraso cirúrgico aumenta morbidade e mortalidade. Esse erro não aparece no prontuário porque nada de errado foi escrito — o que faltou foi um número.

Como pegar a tempo: Na primeira evolução, escreva a hora zero do tratamento não operatório e a hora limite correspondente, com data. Escreva também qual teste está em curso e quando ele responde. Quem assume o plantão precisa encontrar as duas informações na primeira linha, não deduzi-las. E na passagem de plantão, diga em que hora do prazo o paciente está, com o horário limite explícito. "Internado desde ontem" não é a mesma informação que "está na 41ª hora de tratamento não operatório, prazo até as 00h50 de segunda".

Tratar todo abdome distendido como obstrução mecânica

O dano: Laparotomia em íleo adinâmico é dano puro: a operação não encontra trave nenhuma, acrescenta aderências novas ao paciente que já tinha, e adia a correção do que de fato parou o intestino, que costuma ser potássio baixo, opioide ou sepse. E tratar pseudo-obstrução colônica como volvo leva à tentativa de desvolvular um cólon que não está torcido.

Como pegar a tempo: Antes de fixar o diagnóstico, procure a fronteira. Obstrução mecânica tem alça cheia encontrando alça vazia; íleo tem gás distribuído em tudo, inclusive no reto. Reveja a folha de prescrição e o potássio antes da imagem — a causa do íleo costuma estar escrita ali. E lembre de olhar o reto na imagem: gás na ampola retal num abdome distendido é forte argumento contra obstrução mecânica completa, e é um achado que ninguém procura porque a atenção fica nas alças do centro do filme.

11

O que dizer ao paciente e à família

Obstrução intestinal é um diagnóstico em que a conversa acontece três vezes com a mesma família: quando ainda não se sabe se vai operar, quando se decide esperar, e quando a espera acaba. As três precisam ser ditas de modo que a terceira não pareça uma reviravolta.

Evite a palavra que a família mais quer ouvir e que você não pode garantir: desobstruiu. Enquanto o gás não sai, ninguém desobstruiu.

Explicar por que ainda não se sabe se vai operar

A senhora tem uma parada no intestino. Isso a gente já sabe pela barriga e pelo raio-X. O que a gente ainda não sabe é uma coisa diferente e mais importante: se o pedaço de intestino que está preso continua recebendo sangue. Enquanto ele estiver bem, dá para tentar resolver sem cirurgia, com a sonda, com soro e sem comer nada. Se ele começar a sofrer, aí a cirurgia deixa de ser uma opção e passa a ser urgente. Por isso eu vou voltar aqui de quatro em quatro horas para examinar a senhora de novo e medir a barriga no mesmo lugar. Não é excesso de zelo: é assim que a gente enxerga essa mudança.

Não diga: É uma obstruçãozinha, vamos esperar passar. Se piorar a gente opera. Fica tranquila que isso quase sempre resolve sozinho.

Explicar a sonda para quem acha que ela é um castigo

Essa sonda incomoda, eu sei, e ela não vai desentupir nada. O que ela faz é tirar o que continua chegando de cima, para a barriga não crescer mais e para o senhor não vomitar. Vomitar deitado, do jeito que o senhor está, pode fazer o vômito ir para o pulmão, e isso é uma complicação séria e evitável. E ela me dá um número que eu preciso: quanto sai por dia. Se esse número começar a cair e mudar de cor, é o primeiro sinal de que o intestino está voltando.

Não diga: É protocolo. Todo mundo com barriga inchada usa. Não tem jeito, tem que aguentar.

Dizer que a espera tem prazo

A gente vai tentar sem cirurgia, e essa tentativa tem hora de começar e hora de acabar. Começou às onze e meia da noite de hoje. Se em até três dias a barriga não voltar ao normal e os gases não começarem a sair, a gente para de esperar e opera, mesmo que ele esteja se sentindo bem. E se em qualquer momento antes disso aparecer sinal de que o intestino está sofrendo, a gente opera na mesma hora, sem esperar o prazo. Eu vou anotar essas duas horas no prontuário para que qualquer médico que entrar depois de mim saiba exatamente onde estamos.

Não diga: Vamos observando. A gente vê como ele passa a noite e decide amanhã com o cirurgião.

Explicar a descompressão pelo endoscópio no volvo

O intestino grosso do seu pai torceu sobre si mesmo, como uma mangueira que dá uma volta e fecha. O primeiro passo não é cirurgia: é passar um aparelho por baixo, desfazer a torção e deixar sair o gás preso. Isso costuma dar muito alívio em minutos. Mas eu preciso ser honesto com a senhora sobre o que vem depois: desfazer a torção não impede que ela volte, e ela volta na maioria das pessoas. Por isso, se ele aguentar, a cirurgia para retirar o pedaço que torce costuma ser feita ainda nesta internação, e não depois.

Não diga: É só passar o aparelhinho e resolve. Depois ele vai para casa e faz o resto com calma no ambulatório.

Quando a espera acaba e vira cirurgia

Mudou uma coisa desde a última vez que conversamos, e por isso eu voltei. A dor dela deixou de vir em ondas e ficou o tempo todo, a barriga não diminuiu e o coração está mais rápido do que estava. Cada uma dessas coisas sozinha não decidiria; as três juntas dizem que não é seguro continuar esperando. Não foi a espera que causou isso — foi a doença que mostrou o que ela era. O cirurgião já está avisado e vem para cá.

Não diga: Infelizmente ela não respondeu ao tratamento clínico e agora vamos ter que operar de emergência.

Quando é preciso transferir para outro serviço

Aqui a gente conseguiu fazer o diagnóstico e começar o tratamento, e ele já está com soro, com a sonda e sem dor. O que este hospital não tem esta noite é o exame que desfaz a torção sem operar. Eu já falei com o hospital de referência e eles têm vaga. Ele vai transferido com tudo isso mantido no caminho, e vai com um resumo escrito da hora em que cada coisa começou — isso importa lá, porque quem receber vai precisar saber há quanto tempo isso está acontecendo, não há quanto tempo ele está aqui.

Não diga: Aqui não tem como. Vou transferir e lá eles resolvem.

Responder a família que pergunta por que não operam logo

Eu entendo a pergunta, e ela é justa. Operar não é a escolha mais segura por padrão. A operação de urgência numa barriga que já foi operada antes tem risco próprio: há chance de lesar alça durante a liberação das aderências, e a operação em si deixa aderências novas, que é a mesma coisa que trouxe ela aqui. Por isso, quando não há sinal de que o intestino esteja sofrendo, a melhor decisão é tentar sem cirurgia — e cerca de dois terços a três quartos das pessoas nessa situação resolvem assim. O que a gente não faz é esperar sem vigiar. A cada quatro horas eu examino de novo, e existe uma hora marcada para parar de esperar.

Não diga: Cirurgia é sempre o último recurso. A gente evita ao máximo operar idoso.

12

Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

A radiografia simples de abdome vale a pena na suspeita de obstrução?

Valor limitado, não recomendada na investigação

A tabela de conclusões classifica o papel da radiografia simples como limitado na investigação de pacientes com obstrução de intestino delgado e afirma que ela não é recomendada. O argumento é a sensibilidade em torno de 70%, a incapacidade de diferenciar as causas da obstrução e a cegueira para os sinais precoces de peritonite e estrangulamento. A investigação ótima, nesse documento, começa na tomografia com contraste hidrossolúvel oral.

World Society of Emergency Surgery, diretrizes de Bolonha para obstrução aderencial de intestino delgado, atualização de 2017 publicada em 2018, nível II C, grau B

Primeira linha, e frequentemente diagnóstica

A recomendação de número dois afirma que o diagnóstico por imagem do volvo de sigmoide se baseia inicialmente na radiografia simples de abdome, com o clássico sinal do grão de café, e acrescenta que as radiografias simples são frequentemente diagnósticas e que a radiografia de tórax basta para detectar ar livre em caso de perfuração. A tomografia fica reservada para os casos em que o diagnóstico está em dúvida ou em que há suspeita de isquemia ou perfuração.

World Society of Emergency Surgery, diretrizes de consenso sobre manejo do volvo de sigmoide, 2023, recomendação forte baseada em evidência de qualidade baixa ou muito baixa, 1 C

Como decidir

A hipótese define o exame. Na obstrução adesiva, TC com contraste IV avalia transição, causa e viabilidade; radiografia não fornece as mesmas respostas. No volvo de sigmoide típico, radiografia pode permitir organização rápida da descompressão. Se houver dúvida, sinais de complicação ou exame discordante, complementar. Não acrescentar radiografia de tórax por rotina quando a TC já responde à presença de ar livre, nem atrasar intervenção urgente por uma sequência fixa.

Quanto tempo se pode esperar por uma obstrução aderencial antes de operar?

Até 72 horas, por consenso de painel

A conclusão de nível II B, grau B, é que um teste de tratamento não operatório pode ser conduzido com segurança por 72 horas. O próprio texto que a sustenta declara que a evidência sobre a duração ótima do tratamento conservador é ausente, e que a maioria dos autores e o painel consideram o período de 72 horas seguro e apropriado. Manter o tratamento além disso, em paciente com débito alto pela sonda mas sem outro sinal de deterioração, é descrito como assunto ainda em debate.

World Society of Emergency Surgery, diretrizes de Bolonha, atualização de 2017 publicada em 2018, com as referências de apoio datando de 2007 a 2014

Mais cedo, porque o atraso cobra caro

A mesma seção reconhece que várias séries retrospectivas e bases de dados mostram que atrasos na cirurgia aumentam morbidade e mortalidade, e lista as complicações clínicas comuns da espera: desidratação com injúria renal, distúrbios eletrolíticos, desnutrição e broncoaspiração. Nessa leitura, o prazo de 72 horas é um teto administrativo e não um alvo, e o paciente cujo teste de contraste já respondeu de forma desfavorável não deveria consumir o restante da janela.

World Society of Emergency Surgery, diretrizes de Bolonha, atualização de 2017 publicada em 2018, seção de manejo não operatório, apoiada em séries retrospectivas e registros

Como decidir

Reavalie três pontos: surgiram sinais de sofrimento da alça, o teste com contraste já respondeu e existem dados objetivos de melhora? Sinal novo de sofrimento encerra a observação independentemente do tempo transcorrido. Se o contraste não alcançou o cólon em 24 horas, discuta a operação nesse momento. Registre a hora inicial, o débito da sonda, a distensão e a justificativa para manter o tratamento não operatório. “Aguardando evolução” não informa o que foi avaliado nem o próximo passo.

Depois de desvolvular o sigmoide por endoscopia, opera-se na mesma internação?

Colectomia o mais cedo possível, ainda nesta internação

A recomendação de número seis afirma que, em pacientes com descompressão endoscópica bem-sucedida, a colectomia sigmoide deve ser oferecida para prevenir recidiva e realizada o mais precocemente possível, inclusive durante a internação índice. O fundamento numérico é a taxa de recidiva de 45% a 71% após desvolvulação seguida de manejo conservador, reproduzida em séries da França, da Turquia e da Nova Zelândia; a mesma diretriz classifica os procedimentos sem ressecção como inferiores à colectomia para prevenir recidiva.

World Society of Emergency Surgery, diretrizes de consenso sobre volvo de sigmoide, 2023, recomendações 6 e 7, recomendação forte baseada em evidência de qualidade baixa, 1 C

Nem todo paciente suporta a colectomia, e há alternativas de menor porte

A recomendação de número oito, na mesma diretriz, admite que o volvo de sigmoide acomete frequentemente pacientes idosos, alguns dos quais inaptos para operações abdominais, e que técnicas endoscópicas avançadas de fixação podem ser consideradas em pacientes selecionados nos quais a intervenção operatória representa risco proibitivo. O grau declarado dessa recomendação é fraco, baseado em evidência de qualidade baixa, e a base são pequenas séries de casos.

World Society of Emergency Surgery, diretrizes de consenso sobre volvo de sigmoide, 2023, recomendação 8, recomendação fraca baseada em evidência de qualidade baixa, 2 C

Como decidir

A decisão não é entre operar e não operar: é entre assumir o risco cirúrgico agora ou assumir um risco de recidiva que a própria diretriz coloca entre 45% e 71%. Para o paciente à sua frente, três dados organizam a conversa. O primeiro é a reserva fisiológica, avaliada de forma estruturada — e a estratificação de risco cirúrgico é do capítulo "A avaliação pré-operatória", desta apostila. O segundo é o que a endoscopia viu: mucosa de aspecto normal permite planejar; mucosa comprometida encerra a discussão em favor da cirurgia agora. O terceiro é a logística real do paciente, que pesa mais em quem mora longe e volta com dificuldade — mandar para casa um paciente com risco majoritário de recidiva e sem data de cirurgia marcada é uma decisão, e ela precisa ser tomada com o cirurgião e explicada à família com o número na frente. O interno não decide isso sozinho; o que ele deve garantir é que a conversa aconteça antes da alta, e não depois do segundo episódio. Um dado a mais organiza a decisão quando há megacólon associado: a diretriz registra série em que a recidiva foi de 6% quando a doença se limitava ao sigmoide e de 82% quando havia megacólon, e recomenda colectomia subtotal nesses casos, porque a ressecção só do sigmoide deixa segmento remanescente que volta a torcer.

13

O raciocínio, em voz alta

Volte para as duas macas da sala de observação, às 23h20 de quinta-feira. Na maca 3, dona Eufrásia Melgaço, 71 anos, 58 quilos, cólica há trinta e seis horas, quatro vômitos, sem gases desde ontem à noite, cicatriz mediana de cesárea e histerectomia, abdome distendido e mole, radiografia com alças de delgado empilhadas e pouco gás no cólon. Na maca 5, seu Tertuliano Bacelar, 78 anos, 61 quilos, institucionalizado, sem evacuar há cinco dias, sem nenhum vômito, abdome enorme e timpânico, toque retal com ampola vazia e colabada, radiografia com uma alça única em U invertido subindo da pelve esquerda.

  1. o que eu faço nos dois antes de pensar em qualquer diagnóstico

    Os dois têm prioridades semelhantes nos primeiros dez minutos, com volume e descompressão individualizados, porque nenhum dos dois tem peritonite e os dois estão obstruídos. Dieta zero inclusive água, dois acessos periféricos, cristaloide isotônico ajustado à perfusão e às perdas de cada paciente, sonda nasogástrica aberta em drenagem, cabeceira a 30 graus, perímetro abdominal medido com fita e marcado a caneta, e sinais vitais completos com frequência respiratória contada no relógio. Dona Eufrásia respira 18 e tem pulso de 98; seu Tertuliano respira 20 e tem pulso de 88. A imagem é selecionada para responder à causa e à possibilidade de complicação, sem rotina de radiografia de tórax para todos. Duas coisas ficam de fora de propósito nesta primeira meia hora. Antibiótico não entra: não há indicação cirúrgica firmada, não há sinal sistêmico e obstrução por si só não é infecção. E analgesia entra, ao contrário do que a tradição diz — a dose titulada de opioide alivia sem abolir a defesa involuntária, e adiar a analgesia até o cirurgião chegar não protege o diagnóstico de ninguém.

  2. por que o raio-X decide um caso e não decide o outro

    A radiografia do seu Tertuliano fecha um diagnóstico: alça única, enorme, em grão de café, ápice acima do transverso, resto do abdome sem gás, num idoso constipado com ampola vazia. Isso é volvo de sigmoide, e para essa pergunta a radiografia simples é primeira linha. A de dona Eufrásia não fecha nada: mostra obstrução de delgado provável, não mostra a causa e não diz uma palavra sobre a viabilidade da alça. Para ela, a radiografia é ponto de partida; para ele, é ponto de chegada. O detalhe que fecha o volvo não é o tamanho da alça: é a combinação de uma alça única com ausência de gás no resto do abdome e ampola retal vazia. Distensão colônica grande com gás ainda distribuído em todo o cólon e no reto é outra coisa, e nessa outra coisa a tomografia volta a ser necessária.

  3. o que eu procuro no exame que a imagem não vai me dar

    Nos dois, palpo as duas regiões inguinais e femorais e faço o toque retal. Dona Eufrásia tem as regiões livres e ampola vazia sem sangue. Seu Tertuliano também tem as regiões livres, e sua ampola vazia e colabada reforça o volvo. Registro os dois exames por escrito, negativos inclusive, porque é contra essas linhas que a reavaliação das três da manhã vai ser comparada. Nenhum dos dois tem dor à descompressão, rigidez ou defesa involuntária.

  4. o telefonema, e o que eu digo nele

    Ligo para o Dr. Quintiliano Estrela uma vez só, com os dois casos. Digo a hipótese, a hora do começo dos sintomas de cada um, os sinais vitais e o que a radiografia mostrou. Para seu Tertuliano acrescento o que o serviço não tem: endoscopista até as sete da manhã. Essa frase é o conteúdo do telefonema — ela transforma um caso de descompressão endoscópica num caso em que existe uma decisão a tomar agora, entre operar, transferir ou esperar o amanhecer, e essa decisão é dele. Aproveito o mesmo telefonema para transmitir três números por paciente, sempre na mesma ordem: frequência cardíaca, frequência respiratória e perímetro abdominal. São os três que vão ser comparados na próxima ligação, e transmiti-los agora estabelece a linha de base que torna a segunda conversa curta.

  5. o exame que peço para uma e não peço para o outro

    Dona Eufrásia vai para a tomografia de abdome e pelve com contraste intravenoso: preciso do ponto de transição, da causa e, sobretudo, do realce da parede. O laudo descreve transição única no íleo distal, sem alça fechada, sem pneumatose, sem gás portal, com discreto líquido livre interalças e realce parietal preservado. Seu Tertuliano não vai: a radiografia já fechou, ele não tem sinal de isquemia, e tomografia nele só atrasaria a descompressão. Se houvesse dúvida ou suspeita de isquemia, a tomografia entraria também nele.

  6. o que eu prescrevo para dona Eufrásia depois da tomografia

    Sem peritonite, sem sinal de estrangulamento, com realce preservado e paciente estável, ela entra em tratamento não operatório. Escrevo na evolução a hora zero — 00h50 de sexta — e a hora limite correspondente, 00h50 de segunda. Mantenho dieta zero, sonda aberta com débito medido de 6 em 6 horas, hidratação ajustada ao débito, dipirona 1 g intravenoso de 6 em 6 horas, que são 2 mL da apresentação de 500 mg/mL, e morfina 3 mg intravenoso se dor, diluindo a ampola de 10 mg em 9 mL de água para injetáveis e administrando 3 mL. O potássio veio 3,1: prescrevo 20 mEq de cloreto de potássio 19,1% em 500 mL de cloreto de sódio 0,9%, o que corresponde a 7,8 mL da ampola de 10 mL e resulta em 40 mEq por litro. Programo também o teste do contraste para a manhã seguinte, quando o serviço tem o produto, com a radiografia de controle marcada para 24 horas depois da administração. E escrevo, na mesma linha, o que dispara a interrupção antes do prazo: dor que vire contínua, perímetro abdominal que cresça, frequência cardíaca que não caia com volume, febre ou lactato em elevação.

  7. o que acontece com seu Tertuliano

    O cirurgião opta por transferir para o hospital de referência, a cento e vinte quilômetros, que confirma vaga e endoscopista de plantão. Ele segue com o soro correndo, a sonda aberta, sem dor, e com um resumo escrito que traz a hora de cada coisa: última evacuação registrada há cinco dias, distensão percebida ontem à tarde, chegada às 22h40, radiografia às 23h50, contato com a referência às 00h20. Essa folha é o que permite ao serviço que o recebe saber há quanto tempo o cólon está torcido — que é a informação que decide se dá para desvolvular ou se já é caso de sala.

  8. o que eu escrevo antes de passar o plantão

    Duas linhas curtas, uma para cada um. Para dona Eufrásia: hora zero do tratamento não operatório, hora limite, teste do contraste programado com a radiografia de controle marcada, e a instrução explícita de reavaliar de quatro em quatro horas comparando caráter da dor, perímetro abdominal, débito da sonda e eliminação de gases. Para seu Tertuliano: hora do contato, hora da saída, e o que foi transmitido. Quem entra às sete não precisa reconstruir a noite — precisa continuar de onde ela parou.

  9. o que aconteceu com cada um

    Dona Eufrásia eliminou gases às 14h de sexta, na 13ª hora de tratamento não operatório, com o perímetro abdominal 4 cm menor que na admissão e o débito da sonda caindo de 900 para 250 mL. A sonda saiu no fim da tarde, a dieta líquida começou no sábado de manhã, e ela recebeu alta no domingo com orientação escrita sobre os sinais que a fariam voltar. Não foi operada, e isso é o desfecho da maioria: entre 20% e 30% dos pacientes com obstrução aderencial acabam no centro cirúrgico. Seu Tertuliano foi desvolvulado por endoscopia às 4h20 no hospital de referência, com saída volumosa de gás e fezes e mucosa de aspecto preservado, e permaneceu internado para a colectomia sigmoide na mesma internação — porque a recidiva após desvolvulação sem ressecção fica entre 45% e 71%, e mandá-lo de volta para a instituição sem cirurgia seria adiar o mesmo episódio.

  10. o que teria mudado a noite inteira

    Vale registrar as bifurcações que quase existiram. Se dona Eufrásia tivesse chegado com dor contínua em vez de cólica, ou com o abdome que trava a respiração à palpação, a tomografia não seria o próximo passo — o telefonema seria, e ela iria para a sala. Se a tomografia tivesse mostrado alça fechada com dois pontos de transição próximos, o tratamento não operatório estaria contraindicado mesmo com ela confortável, porque nessa configuração a necrose é precoce e o exame físico não acompanha. E se seu Tertuliano tivesse chegado com lactato alto, taquicardia ou dor à descompressão, a descompressão endoscópica deixaria de ser a primeira opção: entre 5% e 25% dos pacientes com volvo de sigmoide chegam já com isquemia, perfuração, peritonite ou choque, e esses vão direto para a colectomia de urgência.

14

Faça você

Sábado, 6h10. Ambrosina Padilha tem 82 anos, 46 quilos, mora sozinha e chegou de ambulância porque a vizinha a encontrou vomitando. Está há dois dias com dor em cólica no baixo-ventre e sem eliminar gases desde ontem de manhã. Nunca operou nada e diz isso com convicção; a barriga não tem cicatriz nenhuma. O abdome está moderadamente distendido, mole, doloroso difusamente. Pulso 104, pressão 104 por 62, respiração 22, temperatura 36,8 °C. A radiografia mostra alças de delgado distendidas com níveis hidroaéreos e pouco gás no cólon. O plantonista anterior anotou "obstrução intestinal, provável brida" e pediu tomografia para as oito da manhã, quando o técnico chega.

  1. o que não fecha nessa história

    Obstrução de delgado por aderência exige aderência, e aderência exige cirurgia ou inflamação prévia. Uma paciente sem cicatriz nenhuma e sem antecedente inflamatório abdominal é justamente aquela em que a probabilidade de brida cai e a de outras causas sobe. Escrever "provável brida" nesse cenário é preencher a lacuna com o diagnóstico mais comum em vez do mais provável neste paciente.

  2. o exame de dez segundos que ninguém fez

    As causas de obstrução de delgado que não pedem tomografia para serem encontradas ficam fora do abdome. Palpe as duas regiões inguinais e as duas femorais, com a paciente deitada, e depois de pé se ela conseguir. A hérnia femoral encarcerada é pequena, fica abaixo do ligamento inguinal e lateral ao tubérculo púbico, é mais frequente em mulher idosa e magra, e estrangula cedo porque o anel é rígido e estreito.

  3. os três números que já estão dizendo algo

    Pulso 104, pressão sistólica 104 e respiração 22 numa senhora de 46 quilos não são "sinais vitais estáveis". São taquicardia, pressão no limite inferior para a idade e taquipneia sem doença pulmonar — o padrão que sugere compensação de acidose metabólica e que, somado a um abdome que ainda parece tolerável, é a combinação que mais engana neste diagnóstico.

  4. o que a espera pela tomografia custa aqui

    Esperar duas horas pelo técnico do tomógrafo é uma decisão razoável em muitos pacientes obstruídos e é uma decisão ruim nesta. Se houver hérnia femoral irredutível e dolorosa, a indicação cirúrgica já existe e não depende de imagem nenhuma; a tomografia só acrescentaria informação sobre uma alça que já se sabe presa num anel rígido. O tempo entre a congestão venosa e a necrose transmural se conta em horas.

  5. o que deve ser reescrito no prontuário

    Duas coisas. A hipótese, que passa de "provável brida" para "obstrução de delgado a esclarecer, sem cicatriz abdominal — investigar hérnia de parede", e o exame, que precisa registrar explicitamente o resultado da palpação das regiões inguinais e femorais e do toque retal, positivo ou negativo. Achado negativo escrito vale muito mais que achado negativo presumido.

  6. o que a taquipneia está pedindo

    Respiração de 22 numa paciente sem doença pulmonar é motivo para gasometria, e a gasometria venosa serve — ela responde se existe acidose metabólica e informa o lactato, sem punção arterial e sem espera. Se vier acidose metabólica com lactato em elevação num abdome que ainda parece tolerável, essa é a combinação que mais engana neste diagnóstico, e ela encurta qualquer prazo.

  7. o que fazer com o exame que já foi pedido

    A tomografia marcada não precisa ser cancelada por princípio: se a palpação for negativa e a paciente permanecer estável, ela continua sendo o exame que responde onde está a trave e se a parede realça. O que muda é a ordem — a palpação vem antes, custa dez segundos e pode tornar o exame desnecessário. Pedir imagem não é erro; o erro é deixar a imagem ocupar o lugar de um exame físico que ainda não foi feito.

  8. Continuidade do caso e prática do internato

    Acompanhe Eufrásia e Tertuliano como trajetórias distintas. O objetivo é justificar por que as mesmas queixas levam a intervenções e prazos diferentes.

  9. Questão integrativa 1

    Eufrásia está estável, mas a TC mostra alça fechada. A estabilidade autoriza 72 horas de observação?

  10. Questão integrativa 2

    Lactato normal exclui isquemia intestinal?

  11. Questão integrativa 3

    Por que retirar metoclopramida da prescrição?

  12. Questão integrativa 4

    Por que o mesmo litro de soro não serve automaticamente aos dois casos?

  13. Questão integrativa 5

    Como separam-se volvo de sigmoide e de ceco no plano inicial?

  14. Questão integrativa 6

    Qual mudança faz interromper a observação?

Ver como fecharíamos

O passo que falta acontece antes das oito da manhã e não envolve o tomógrafo. Examine as regiões inguinais e femorais e faça o toque retal agora — e, no caso de Ambrosina, a palpação encontra abaixo do ligamento inguinal direito, lateral ao tubérculo púbico, um abaulamento de dois centímetros, tenso, doloroso e irredutível, que ela nunca notou porque nunca doeu antes. Isso é hérnia femoral encarcerada com obstrução de delgado, e é indicação cirúrgica agora, sem tomografia. Enquanto o cirurgião vem, corre o que já deveria estar correndo desde a chegada: dieta zero, dois acessos, cristaloide isotônico ajustado à hipovolemia e às perdas, com reavaliação a cada alíquota, sonda nasogástrica aberta, analgesia com dipirona 1 g intravenoso e morfina titulada, eletrólitos e lactato colhidos, cabeceira elevada. E não se deve tentar reduzir a hérnia à força: reduzir uma alça já inviável para dentro do abdome transforma um diagnóstico visível em uma peritonite que ninguém está procurando. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. Alça fechada traz risco de estrangulamento e exige avaliação cirúrgica urgente. O prazo usual se aplica à obstrução adesiva selecionada sem sinais de sofrimento. 2. Não. Pode estar normal no início. Interpretar dor, exame, evolução e imagem em conjunto. 3. Ela estimula motilidade e é contraindicada na obstrução mecânica. Náuseas exigem descompressão e antiemético apropriado, com avaliação de contraindicações. 4. Perdas, perfusão, idade e função cardíaca/renal diferem. Ajustar e reavaliar evita tanto hipoperfusão quanto sobrecarga. 5. Sigmoide viável pode receber descompressão endoscópica seguida de planejamento definitivo. Volvo de ceco costuma exigir cirurgia; não se aplica automaticamente o mesmo caminho endoscópico. 6. Dor contínua ou crescente, peritonismo, instabilidade, disfunção orgânica ou imagem preocupante. Acionar o supervisor e a cirurgia imediatamente, mantendo suporte e analgesia seguros.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Aderência exige cirurgia ou inflamação prévia, e a hipótese de brida numa paciente sem nenhuma cicatriz preenche a lacuna com o diagnóstico mais comum em vez do mais provável neste caso. A causa que se encontra com a mão em dez segundos é a hérnia da parede — a femoral encarcerada é pequena, mais frequente em mulher idosa e magra, fica abaixo do ligamento inguinal e lateral ao tubérculo púbico, e estrangula cedo porque o anel é rígido. Se irredutível e dolorosa, a indicação cirúrgica existe sem imagem alguma, e esperar duas horas pelo tomógrafo custa caro. A ultrassonografia não substitui essa palpação, o antibiótico empírico não é rotina de toda obstrução, e registrar hipótese é correto — o erro está em qual hipótese.

15

Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
16

Plano de revisão

Em 7 dias

Sem consultar o capítulo, escreva de memória: os quatro sintomas cardinais da obstrução na ordem em que aparecem na obstrução baixa de delgado e na obstrução de cólon; as três contraindicações formais ao tratamento não operatório; o que significa contraste que não alcançou o cólon em 24 horas; e a sensibilidade do exame físico para detectar estrangulamento. Depois, desenhe as três imagens da distensão — obstrução mecânica de delgado, volvo de sigmoide e íleo adinâmico — dizendo em uma frase o que distingue cada uma na distribuição do gás.

Em 30 dias

Retome o caso de dona Eufrásia e altere um único dado de cada vez, falando alto qual passo da conduta muda com aquela alteração e qual é a razão fisiológica disso. Ela não tem cicatriz nenhuma. Ela tem uma hérnia inguinal irredutível. A tomografia mostra alça fechada com dois pontos de transição. O contraste não chegou ao cólon em 24 horas. O débito da sonda continua em 1.500 mL por dia na 60ª hora, sem nenhum outro sinal de piora. Ela tem 34 anos e está grávida de 26 semanas. Em seguida faça o mesmo com seu Tertuliano: a endoscopia mostra mucosa necrótica; a endoscopia é bem-sucedida mas ele tem 92 anos e demência avançada; a tomografia mostra megacólon associado.

17

Agora atenda

Agora atenda: homem de 66 anos trazido ao pronto-socorro com dor abdominal em cólica há dois dias, dois episódios de vômito e ausência de eliminação de gases desde ontem. Tem laparotomia por ferimento abdominal há vinte e dois anos. O abdome está distendido e timpânico. Antes de pedir qualquer exame, decida se ele tem alguma das três portas que fecham a via conservadora — e conte, em voz alta, quantas horas fazem desde a primeira dor.

Obstrução intestinal – A pergunta não é se obstruiu — Internato | OsceLabs