Cirurgia Geral › Urgência e Emergência Cirúrgica
Cinco relógios diferentes
Abdome agudo inflamatório x obstrutivo x perfurativo x vascular x hemorrágico
Quando já se sabe que o abdome é cirúrgico, o que sobra é dizer qual das cinco síndromes está na frente — e isso se decide pelo modo como a dor começou, não pela cara do paciente. As três que não esperam quase nunca são as três que mais gritam.
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Responda antes de ler
Paciente de 52 anos com dor epigástrica de início súbito há três horas, imóvel na maca, com abdome em tábua e dor à tosse generalizada. A tomografia de abdome com contraste endovenoso não demonstra pneumoperitônio. Qual é a conduta adequada?
O paciente que você vai ver
Quatro e dez de um sábado, hospital regional de cento e trinta leitos, referência para seis municípios. O cirurgião de plantão, o Dr. Gaspar Siqueira, entrou no centro cirúrgico às três e vinte com uma fratura exposta de tíbia e o ortopedista; a técnica de enfermagem, a Soledade, calcula uma hora e meia até ele descer. O tomógrafo funciona e o técnico mora a doze minutos — ele já foi chamado e chega em vinte.
Você é o interno da noite e tem três abdomes na sala de observação. Os três já passaram pela classificação de risco, os três têm sangue colhido, e nos três a palavra escrita na ficha é a mesma: dor abdominal. A pergunta da Soledade, parada na porta com a prancheta, é a única que interessa nas próximas duas horas: qual deles o senhor quer que eu monitorize primeiro.
Na maca 1 está Marlúcia Viveiros, 39 anos, professora. Dói há dois dias na fossa ilíaca direita e começou em volta do umbigo. Temperatura de 38,1 °C. Ela tem o rosto de quem dói e pede analgésico cada vez que alguém passa. Ao exame, defesa localizada, dor à tosse, ruídos hidroaéreos presentes. Frequência cardíaca 98, pressão 124 por 78.
Na maca 2 está Tobias Goulart, 52 anos, motorista de caminhão. Dor no epigástrio que começou há duas horas e quarenta minutos, e ele sabe o minuto: estava sentado tomando café e a dor veio de uma vez, como se alguma coisa tivesse arrebentado. Está imóvel de propósito, com os joelhos dobrados, e reclama quando a maca esbarra na parede. O abdome está duro e dói em todo lugar. Frequência cardíaca 104, pressão 136 por 84.
Na maca 3 está Sinésio Carvalhais, 74 anos, aposentado, 68 quilos, em uso de varfarina por fibrilação atrial. Dói em volta do umbigo há cinco horas, dor que ele descreve como a pior da vida, e ele não consegue ficar quieto: senta, deita, senta de novo, pede para ir ao banheiro e volta sem ter conseguido nada. O abdome está flácido. Palpa-se fundo e ele diz que ali dói, mas não há defesa, não há descompressão dolorosa e os ruídos estão presentes. Frequência cardíaca 112, pressão 108 por 62, e o leucograma voltou em 19.400.
Se a ordem for pela intensidade da queixa, começa pela maca 1. Se for pela cara do abdome, começa pela maca 2. As duas ordens estão erradas, e a razão de estarem erradas é o assunto deste capítulo: quem tem o relógio mais curto dos três é o senhor da maca 3, cujo exame abdominal é o mais tranquilizador — e é por ser o mais tranquilizador que ele é o mais grave.
Este capítulo começa depois da pergunta que o capítulo de dor abdominal no pronto-socorro, na apostila de Síndromes do Paciente na Emergência, já respondeu. Lá se decide se o abdome é cirúrgico, quem investiga e quem vai para casa; lá também estão a régua da alta segura, as causas que doem no abdome sem vir dele e o que fazer com a mulher em idade fértil. Aqui já se sabe que o abdome é cirúrgico, e o que resta é nomear qual das cinco síndromes está na frente — porque cada uma tem um relógio, uma imagem e um destino diferentes dentro desta apostila.
Quem adoece disso
As cinco síndromes não aparecem na mesma proporção, não matam na mesma proporção, e a distância entre essas duas coisas é o que torna a classificação útil. A inflamatória é a que enche o pronto-socorro; a vascular é a que quase nunca aparece e quase sempre mata quando aparece.
A inflamatória domina o volume. Apendicite, colecistite, diverticulite e pancreatite ocupam, juntas, a maior parte dos abdomes agudos não traumáticos de um serviço geral, e as quatro têm capítulo próprio nesta apostila. É a síndrome em que o interno mais treina — e é por isso que ela vira, indevidamente, a régua com que ele mede as outras quatro. O paciente inflamatório piora ao longo de horas, localiza a dor com o tempo e responde a antibiótico. Nenhuma das outras quatro se comporta assim.
A vascular é o oposto exato em cada um desses eixos. A isquemia mesentérica aguda responde por 0,09% a 0,2% de todas as admissões cirúrgicas agudas — menos de uma em quinhentas. A mortalidade aparece descrita de três maneiras diferentes dentro da mesma diretriz da World Society of Emergency Surgery de 2022: em torno de 50% no resumo, acima de 50% na introdução e entre 30% e 70% na discussão da recomendação de imagem. Qualquer uma das três é uma ordem de grandeza acima da mortalidade da apendicite.
Há um cruzamento de curvas que reorganiza a lista de hipóteses do idoso antes de qualquer exame, e a idade em que ele acontece vale a pena decorar: dos 75 anos em diante, registra a mesma diretriz, o abdome agudo do idoso tem na isquemia mesentérica uma causa mais frequente do que na apendicite. A incidência cresce exponencialmente com a idade, e a de um paciente de 80 anos é cerca de dez vezes a de um de 60. Num serviço em que o abdome agudo do idoso é rotina, a doença mais rara deste capítulo deixa de ser rara justamente na população que mais chega.
A perfurativa tem um perfil próprio: pouco frequente e desproporcionalmente letal. Na diretriz da mesma sociedade sobre úlcera péptica complicada, de 2020, a doença ulcerosa tem prevalência de 5% a 10% ao longo da vida e complica em 10% a 20% dos portadores. A perfuração tem incidência anual de 0,004% a 0,014% da população, contra 0,02% a 0,06% do sangramento, numa razão que o texto arredonda para uma perfuração a cada seis sangramentos. A mortalidade em trinta dias é de 23,5% na perfuração e de 8,6% no sangramento — e, mesmo sendo a complicação mais rara das duas, a perfuração responde por cerca de 40% de todas as mortes por úlcera.
A obstrutiva é a segunda em volume e a primeira em tempo de internação, e é a única das cinco em que boa parte dos pacientes não vai à mesa nesta internação. A hemorrágica não traumática é a menos frequente das cinco no pronto-socorro geral, porque as suas duas causas mais comuns têm porta de entrada própria: o aneurisma de aorta abdominal roto, que é do capítulo de aneurisma na apostila de Cirurgia Vascular, e a gravidez ectópica rota, que é da apostila de Ginecologia e Obstetrícia.
O último número amarra os outros e explica por que um capítulo de classificação existe: o atraso é a variável de desfecho em três das cinco. Na isquemia mesentérica, cada seis horas de atraso no diagnóstico dobram a mortalidade. Na úlcera perfurada, uma coorte dinamarquesa de 2.688 pacientes mostrou que cada hora de espera até a cirurgia, dentro das primeiras vinte e quatro, custava 2,4% de probabilidade de sobrevida em relação à hora anterior. No abdome hemorrágico o relógio se mede em minutos. Nas outras duas o atraso cobra morbidade, não vida — e é exatamente essa diferença que a classificação serve para produzir.
Por que acontece o que acontece
As cinco síndromes não são cinco listas de doenças. São cinco maneiras diferentes de uma víscera abdominal machucar, e cada maneira produz um conjunto previsível de sinais, um ritmo próprio de instalação e um prazo próprio até o dano virar irreversível. Quem decora as listas erra sempre que a doença não estiver na lista; quem entende as cinco mecânicas classifica até o que nunca viu.
Na síndrome inflamatória o processo começa dentro da parede de um órgão e caminha de dentro para fora, camada por camada, até alcançar a serosa e encostar no peritônio parietal. Esse trajeto leva horas, e é ele que produz a assinatura clássica: dor mal localizada primeiro, dor localizada depois, defesa por último. A febre existe porque há resposta inflamatória sistêmica montada, e a leucocitose existe pelo mesmo motivo. O interno reconhece essa síndrome porque ela lhe dá tempo — o exame de agora é diferente do exame de quatro horas atrás, e a diferença aponta para um lado.
Na síndrome obstrutiva não há, no começo, inflamação de parede: há uma víscera oca que continua a se contrair contra um obstáculo. A dor é gerada pela contração, não pela lesão, e por isso vem em ondas, com intervalos de alívio verdadeiro entre elas. A distensão vem do gás e do líquido que se acumulam acima do ponto obstruído, e a parada de eliminação de gases e fezes vem de baixo dele. Nada disso dói ao toque no início, porque o peritônio parietal ainda não foi tocado — e é essa a razão de um abdome muito distendido poder estar quase indolor à palpação. A conduta dessa síndrome e as suas armadilhas estão no capítulo de obstrução intestinal desta apostila.
Na síndrome perfurativa uma víscera oca abre um furo e despeja o próprio conteúdo na cavidade. O que acontece em seguida não é infecção: é queimadura. Suco gástrico com pH de 1 a 2 em contato com o peritônio produz peritonite química imediata, e é ela que explica a única apresentação verdadeiramente instantânea das cinco — o paciente sabe o minuto. A contratura da parede é reflexa, involuntária, protege a região queimada e não depende da vontade do doente: é o abdome em tábua. O ar que escapou junto com o conteúdo sobe e se acumula sob o diafragma, e é ele que a imagem vai procurar. A infecção bacteriana chega depois, em horas, e é a segunda doença do mesmo paciente.
Na síndrome vascular a mecânica é invertida em relação à inflamatória, e essa inversão é a coisa mais importante deste capítulo. A isquemia intestinal começa na mucosa — a camada mais distante do peritônio e a mais sensível à falta de oxigênio — e progride em direção à serosa. Enquanto o processo está confinado às camadas internas, nada encosta no peritônio parietal — e sem esse contato não se produzem defesa, descompressão dolorosa ou rigidez. O que existe é dor visceral intensa, gerada pelo sofrimento da alça, num paciente cujo abdome é mole. A diretriz da World Society of Emergency Surgery de 2022 diz exatamente isso na primeira das suas recomendações: dor abdominal intensa desproporcional aos achados do exame físico deve ser assumida como isquemia mesentérica até que se prove o contrário. Quando o abdome enfim fica rígido, a serosa foi alcançada — e alcançar a serosa significa que a alça infartou.
A isquemia mesentérica não é uma doença, e sim quatro, com quatro histórias diferentes. A embolia da artéria mesentérica superior responde por cerca de metade dos casos e é a de instalação mais brusca: o êmbolo sai do coração — átrio esquerdo em fibrilação atrial, ventrículo com fração de ejeção baixa, valva com endocardite — e tampa uma artéria previamente boa, sem colateral desenvolvida para socorrê-la. Cerca de metade dos pacientes com isquemia embólica tem fibrilação atrial e cerca de um terço já teve embolia arterial antes. A trombose arterial, de 15% a 25% dos casos, acontece sobre placa aterosclerótica antiga e costuma ser precedida de meses de dor pós-prandial com perda de peso e medo de comer. A forma não oclusiva ocorre em cerca de 20% e não tem entupimento nenhum: é vasoconstrição esplâncnica em paciente grave, com baixo débito, choque ou droga vasoativa, e é a que nasce dentro da unidade de terapia intensiva. A trombose venosa mesentérica é a mais lenta e a menos dramática, ligada a trombofilia, neoplasia e hipertensão portal, e é a única das quatro em que o tratamento inicial costuma ser anticoagulação em vez de bisturi.
Na síndrome hemorrágica o que ocupa a cavidade é sangue, e sangue é um irritante peritoneal fraco. Essa é a razão de o abdome hemorrágico enganar por baixo: um paciente pode ter litros no peritônio com dor moderada e sem contratura, porque o sangue não queima como o suco gástrico nem inflama como o pus. Quem denuncia não é o abdome, é a hemodinâmica — taquicardia que não cede à reposição, palidez, sudorese, hipotensão, e a dor no ombro que aparece quando o sangue se acumula sob o diafragma e irrita o nervo frênico. É a síndrome em que examinar demais custa caro, porque tempo gasto em exame é sangue perdido. E ela tem uma variante que o interno encontra na enfermaria antes de encontrar no pronto-socorro: o sangramento espontâneo do paciente anticoagulado. O hematoma da bainha do músculo reto abdominal e o hematoma retroperitoneal espontâneo aparecem depois de um esforço banal — uma tosse, um espirro, levantar-se da cama — e produzem dor de instalação rápida, massa palpável que não cruza a linha média no primeiro caso, e queda de hemoglobina em quem estava bem. É a única entidade deste capítulo em que abrir o abdome costuma piorar o desfecho: o tratamento é reversão da anticoagulação, transfusão e, se o sangramento não parar, embolização por cateter. Os sangramentos por trauma são assunto dos capítulos da apostila de Trauma.
Uma doença pode mudar de síndrome enquanto o paciente espera, e é por isso que a classificação é uma fotografia com hora marcada, não um rótulo. Apendicite e diverticulite são inflamatórias até perfurarem, e então passam a perfurativas. Obstrução é obstrutiva enquanto a alça estiver viva e vira vascular no instante em que a alça estrangula. Pancreatite grave pode virar hemorrágica. O manual do Ministério da Saúde que classifica o abdome agudo em síndromes já previa isso ao acrescentar uma sexta categoria — a mista — com o exemplo escrito ao lado: a diverticulite pode ser perfurativa, inflamatória ou ambas. Escreva no prontuário a hora do seu exame, porque o próximo exame pode encontrar outra síndrome no mesmo paciente.

Como se apresenta de verdade
O que segue não é uma lista de diagnósticos por quadrante. É o inverso: as cinco mecânicas do bloco anterior deixam cinco assinaturas diferentes no exame físico, e reconhecer a assinatura vale mais do que acertar o nome da doença — porque a assinatura já diz o prazo, e o prazo é o que governa a próxima hora.
Duas advertências antes. A primeira é que um exame abdominal isolado mede um instante e não uma trajetória: o segundo exame, feito por você, na mesma posição e anotado com hora, é o que dá sentido ao primeiro. A segunda é que a síndrome mais grave das cinco é a que produz o exame mais pobre, de modo que a pergunta não pode ser qual abdome está pior, e sim qual abdome está errado para a história que veio junto.
O que cada síndrome escreve no abdome
A inflamatória escreve uma dor que se muda de lugar e depois cria raiz. Começa mal localizada, no território embriológico do órgão, e ao longo de horas se fixa sobre o ponto onde a serosa encostou no peritônio parietal. Ao exame, o que aparece primeiro é a dor à palpação num ponto, depois a defesa voluntária, depois a involuntária. O sinal mais barato e mais confiável dessa síndrome é pedir que o paciente tussa: a tosse sacode a parede e reproduz a dor exatamente onde ela está. Febre e leucocitose acompanham, mas chegam depois do exame, não antes — e a ausência delas nas primeiras horas não afasta nada.
A obstrutiva escreve volume. O abdome é distendido, timpânico, e a dor é em ondas, com o paciente conseguindo apontar quando a onda vem e quando ela passa. Os ruídos hidroaéreos são aumentados e metálicos enquanto a alça luta, e desaparecem quando ela desiste. Dois lugares fecham essa síndrome sozinhos e são os dois que somem quando o plantão está cheio: as regiões inguinais e femorais, onde uma hérnia encarcerada se deixa palpar, e o toque retal. Uma cicatriz de laparotomia na parede é história, não exame — mas é a história que mais muda a probabilidade.
A perfurativa escreve rigidez e imobilidade. O paciente escolhe não se mexer, fica de joelhos dobrados, não quer que a maca ande, respira curto porque respirar fundo dói. A parede está contraída de modo involuntário e não relaxa por conversa nem por distração. A percussão pode mostrar timpanismo sobre a área de macicez hepática, quando há ar interposto entre o fígado e a parede. É a única das cinco em que o paciente costuma dizer a hora exata do começo.
A vascular escreve quase nada, e é isso que ela escreve. O abdome está flácido ou pouco doloroso, sem defesa e sem descompressão dolorosa, enquanto o paciente refere dor intensa e se comporta como quem dói: não fica quieto, muda de posição, senta e deita. Diarreia e vômito podem estar presentes, e o sangramento digestivo aparece em cerca de 10% dos casos de trombose venosa. A distensão, quando surge, é tardia. O achado que separa essa síndrome de todas as outras é a discordância entre o que o paciente diz e o que a sua mão encontra.
A hemorrágica escreve pouco abdome e muito paciente. Dor difusa, muitas vezes moderada, sem contratura, num doente pálido, taquicárdico, com extremidades frias e sudorese, e por vezes com dor referida no ombro — o sangue sob o diafragma irritando o frênico. O abdome pode ir aumentando de volume devagar, sem timpanismo. É a síndrome em que a pressão arterial normal engana por mais tempo, porque um adulto jovem sustenta a pressão até perder muito, e quando ela cai, cai de uma vez.
Há uma variante da hemorrágica que se apresenta sem colapso e que o interno precisa reconhecer justamente para não classificá-la como uma das outras quatro: o sangramento espontâneo do paciente anticoagulado. Dor abdominal ou lombar de instalação rápida depois de um esforço banal; abaulamento na parede que respeita a linha média e que se torna mais nítido quando se pede ao paciente para levantar a cabeça contra resistência; equimose tardia em flanco ou ao redor do umbigo; e hemoglobina em queda sem sangramento visível. A imagem que responde é a tomografia, e a conduta é o oposto da das outras quatro: reversão da anticoagulação e suporte transfusional antes de qualquer bisturi.
A leitura prática da mesa: se o abdome está pior do que a história faria supor, pense em perfuração; se a história está pior do que o abdome, pense em isquemia ou em sangramento; se os dois crescem juntos e devagar, pense em inflamação; e se o volume cresce mais que a dor, pense em obstrução.
A dor que dói mais do que o exame explica
Esse é o achado mais importante do capítulo e o mais mal usado. Ele não quer dizer dor forte. Quer dizer desproporção: um paciente que classifica a própria dor no topo da escala, que não consegue se acomodar, que já recebeu analgésico e continua reclamando — e cujo abdome, à sua mão, está mole, sem defesa, sem descompressão dolorosa e com ruídos presentes. Dor máxima com exame máximo é peritonite e não tem desproporção nenhuma. Dor máxima com exame mínimo é a assinatura da síndrome vascular.
A diretriz da World Society of Emergency Surgery de 2022 transforma esse achado em regra e o coloca como a primeira das suas recomendações, com grau 1C: dor abdominal intensa desproporcional aos achados do exame físico deve ser assumida como isquemia mesentérica até que se prove o contrário. Repare no que a frase exige — que se prove o contrário — e no que ela não permite: não permite observar, não permite reavaliar em duas horas, não permite esperar o lactato.
Três quadros imitam a desproporção e precisam ser separados dela na beira da maca. O primeiro é a cólica renoureteral, em que a dor também é atroz e o abdome também é pobre, mas a dor é em cólica, com paroxismos e alívio entre eles, irradia para a região inguinal e vem com hematúria; a isquemia dá dor contínua. O segundo é a crise dolorosa da doença falciforme: o que desempata ali é comparar com o padrão das crises que aquele mesmo paciente já teve. O terceiro é a pancreatite nas primeiras horas, que também dói mais do que mostra — e que se separa pela irradiação em faixa para o dorso, pela amilase e pelo contexto de álcool ou cálculo.
Como registrar, para que o achado sobreviva à passagem de plantão: escreva as duas metades na mesma frase e com hora. Não basta anotar dor 10/10. Anote que o abdome está flácido, sem defesa e sem descompressão dolorosa, e que a dor referida é de intensidade máxima, às tantas horas. É a justaposição que carrega a informação; separadas, as duas linhas viram um abdome normal e um paciente queixoso.
E o corolário que fecha o raciocínio: quando um opioide em dose adequada não derruba a dor, isso é achado, e não motivo para nova dose às cegas. Três coisas resistem à analgesia comum — alça isquêmica, víscera perfurada e víscera distendida sob pressão —, e as três exigem que a hipótese seja reaberta.
As três que não esperam, e a que mais se perde
Das cinco síndromes, três têm relógio curto: a perfurativa, a vascular e a hemorrágica. As outras duas também podem virar emergência, mas por conversão — a inflamatória quando perfura, a obstrutiva quando estrangula —, e nesse momento elas passam a ser uma das três.
A perfurativa cobra em horas. A coorte dinamarquesa de 2.688 pacientes com úlcera perfurada mostrou perda de 2,4% de probabilidade de sobrevida por hora de espera dentro das primeiras vinte e quatro; outra série encontrou mortalidade nula quando a operação aconteceu dentro de vinte e quatro horas do início dos sintomas, contra desfecho muito pior acima de quarenta e oito. O que o interno faz aqui é curto e definido: jejum absoluto, sonda nasogástrica, dois acessos, volume, antibiótico e o telefone do cirurgião. O que ele não faz é esperar o resultado de mais um exame para chamar.
A hemorrágica cobra em minutos, e é a única das cinco em que o exame de imagem pode matar. Paciente instável não vai ao tomógrafo: fica na sala, com ultrassom à beira do leito se houver, dois acessos calibrosos, tipagem e reserva de sangue, e a cirurgia chamada antes de qualquer resultado. Se a suspeita é aneurisma de aorta abdominal roto, o destino é o capítulo de aneurisma da apostila de Cirurgia Vascular e a conduta é a de lá; se é gravidez ectópica rota, o destino é a apostila de Ginecologia e Obstetrícia, onde a decisão de operar é clínica e não espera exame.
A vascular cobra em horas e é a que mais se perde, por quatro razões que se somam e que nenhuma delas é o médico ser desatento. A primeira é o mecanismo: o exame é pobre por construção, porque o peritônio parietal ainda não foi alcançado, e um exame pobre tranquiliza quem o faz. A segunda é a demografia: o paciente é idoso, chega tarde, tem várias doenças e tem farmácia em casa que apaga sinal. A terceira é o laboratório: o lactato demora, e quando sobe já é tarde. A quarta é a raridade: menos de uma admissão cirúrgica aguda em quinhentas, o que significa que um plantonista pode passar anos sem ver uma e décadas sem ver duas.
Contra as quatro razões existem três perguntas de história que custam trinta segundos e que reordenam a lista de hipóteses do idoso antes de a mão tocar o abdome. Tem fibrilação atrial, infarto recente, valvopatia ou embolia arterial prévia? Então a fonte embólica está dada — cerca de metade dos casos de isquemia embólica ocorre em portadores de fibrilação atrial. Sente dor depois de comer, há meses, e passou a comer menos por medo? É a angina mesentérica que precede a trombose arterial. Está internado grave, em choque, com droga vasoativa ou baixo débito? É a forma não oclusiva, que não precisa de coágulo nenhum e nasce dentro da unidade de terapia intensiva.
Uma das quatro formas de isquemia não chega pela porta da rua: nasce dentro do hospital. A isquemia mesentérica não oclusiva aparece em cerca de 20% dos casos e não tem coágulo nenhum — é vasoconstrição esplâncnica num paciente já grave, com insuficiência cardíaca, choque, baixo débito, hipovolemia ou droga vasoativa em curso, com frequência depois de cirurgia cardíaca. A diretriz de 2022 recomenda suspeitar dela no doente crítico com dor ou distensão abdominal que exige vasopressor e tem disfunção de múltiplos órgãos. Duas particularidades a tornam difícil. A tomografia costuma ser equívoca, porque não há um ponto de oclusão para mostrar, e a laparoscopia diagnóstica à beira do leito pode ser a saída para evitar uma laparotomia inútil. E o tratamento inicial não é cirúrgico: é corrigir a causa do baixo fluxo e melhorar a perfusão mesentérica, deixando a ressecção para a alça que já infartou. Para o interno de enfermaria, a lição é curta — dor ou distensão abdominal nova em paciente grave sob vasopressor não é íleo, é hipótese de isquemia até que alguém prove o contrário.
Como não há capítulo próprio para a isquemia mesentérica dentro desta apostila, ela é tratada aqui: o reconhecimento, o relógio e a conduta inicial dela estão neste capítulo, e não em outro lugar do nível. A perfuração tem capítulo próprio nesta mesma apostila — úlcera péptica perfurada e pneumoperitônio —, e o que fica aqui dela é a classificação sindrômica: a história que fecha o diagnóstico, a técnica de busca do ar livre, a conduta da primeira hora e o que se investiga depois da alta são de lá. O detalhe técnico do tratamento definitivo — a escolha entre revascularização endovascular e aberta, a técnica de rafia, a cirurgia de controle de danos com reabordagem programada — pertence à sala de cirurgia e não ao plantão do interno, e por isso aparece aqui apenas no que muda a conversa com a família e a preparação do paciente.
A criança, a gestante e o idoso: onde os sinais clássicos faltam
Nesses três grupos a doença é a mesma; o que muda é a quantidade de sinal que ela produz. O erro característico não é diagnosticar errado, é diagnosticar tarde — e o modo de não errar é lembrar qual das cinco síndromes se esconde em cada um.
Na criança, a síndrome que se esconde é a perfurativa, e ela se esconde por velocidade. A apendicite infantil perfura mais cedo e com mais frequência que a do adulto, porque o omento é curto e bloqueia mal, e porque a história vem por um intermediário. Uma criança que parou de brincar, que anda encurvada, que não deixa ninguém encostar e que prefere ficar imóvel já está dizendo peritonite sem usar a palavra. No recém-nascido e no lactente, a obstrutiva e a vascular vêm juntas em entidades próprias — invaginação, má rotação com volvo, enterocolite necrosante —, e essas são assunto da apostila de Cirurgia Pediátrica, que traz o capítulo de invaginação intestinal do lactente.
Na gestante, a síndrome que se esconde é a inflamatória, e ela se esconde por deslocamento e por ruído de fundo. O útero empurra o apêndice para cima, de modo que a dor sobe de quadrante conforme a idade gestacional; a leucocitose é fisiológica e perde valor discriminatório; náusea e vômito, que em outra paciente seriam sinal, aqui são o esperado; e o útero afasta o omento, o que piora o bloqueio de um processo inflamatório. O primeiro reflexo continua sendo excluir a causa hemorrágica — gravidez ectópica rota é assunto da apostila de Ginecologia e Obstetrícia e ali o diagnóstico da tuba rota é clínico. Feito isso, o atraso na apendicite custa mais ao feto do que a operação, e essa frase é o que autoriza o interno a insistir.
No idoso, a síndrome que se esconde é a vascular, e ela se esconde por três motivos somados. A resposta inflamatória é atenuada, de modo que febre e leucocitose faltam mais vezes. A parede abdominal tem menos massa muscular, e defesa involuntária exige músculo para ser percebida — o abdome em tábua clássico precisa de tábua. E a probabilidade de fundo mudou: acima dos 75 anos a isquemia mesentérica é causa mais prevalente de abdome agudo do que a apendicite. Um abdome flácido aos 80 anos não tranquiliza como tranquilizaria aos 20, e a diferença não é de estilo, é de aritmética.
A consequência operacional é uma só e vale para os três grupos: nesses pacientes a imagem entra mais cedo e a decisão de esperar precisa de hora marcada e de reexame escrito. Observar sem reexaminar não é observar — é adiar.
O corticoide e o imunossuprimido: um abdome que não pode montar defesa
Aqui o mecanismo é farmacológico e imunológico, não anatômico, e por isso a falha de sinal é mais profunda que nos grupos anteriores. Defesa involuntária, febre e leucocitose são produtos da resposta inflamatória. Quem não pode montar a resposta não produz nenhum dos três — e continua podendo ter a víscera perfurada.
Corticoide sistêmico em uso crônico, quimioterapia recente, imunobiológico, transplante, neutropenia e infecção pelo HIV com contagem baixa de linfócitos T CD4 formam a mesma família de risco. Nessa família, três inversões precisam ser decoradas. Ausência de defesa não afasta peritonite. Leucograma que não sobe não afasta infecção — e leucograma que cai é pior sinal do que leucograma alto. Frequência cardíaca que se mantém alta sem explicação vale mais, nesse paciente, do que a mão no abdome: é o parâmetro que a imunossupressão não consegue apagar.
Há um agravante específico do corticoide que vale além do abdome mudo: ele é, ele próprio, fator de risco para úlcera péptica e para perfuração, e o anti-inflamatório não esteroidal que muitos desses pacientes usam junto multiplica o risco. Ou seja, o mesmo remédio que aumenta a chance de o paciente perfurar diminui a chance de você perceber que ele perfurou.
A regra prática, no paciente em uso de corticoide ou imunossuprimido com dor abdominal nova: o limiar de imagem cai, e a observação às cegas deixa de ser uma opção legítima. O exame físico foi retirado de campo pela doença de base, e um exame que não informa não pode ser o instrumento que decide.
A síndrome muda de nome enquanto o paciente espera
Classificar não é rotular de uma vez por todas. As cinco síndromes descrevem o que a víscera está fazendo agora, e a víscera muda. As quatro transições que mais aparecem no plantão são sempre as mesmas, e todas quatro pioram o prognóstico.
Inflamatória que vira perfurativa: apendicite e diverticulite que rompem. O sinal é a dor deixar de ser localizada e passar a doer em todo lugar, com contratura, num paciente que estava piorando devagar e de repente mudou de patamar. Diverticulite tem capítulo próprio nesta apostila, e ali está a classificação de Hinchey, que é justamente a régua dessa transição.
Obstrutiva que vira vascular: a alça que estrangula. O sinal é traiçoeiro porque parece melhora — a cólica em ondas cessa, porque o segmento parou de se contrair, e no lugar dela aparece uma dor contínua, mais surda, num abdome que continua distendido. Cólica que some com a distensão que some é melhora; cólica que some com a distensão mantida é sofrimento de alça. O capítulo de obstrução intestinal desta apostila trata dessa armadilha em detalhe.
Perfurativa que vira infecciosa: a peritonite química das primeiras horas dá lugar à peritonite bacteriana, e o paciente que estava estável entra em resposta inflamatória sistêmica. Quando essa transição se completa, o assunto passa a ser sepse de foco abdominal, e o pacote da primeira hora está no capítulo de sepse e choque séptico, na apostila de Medicina Intensiva e Emergências.
Vascular que vira perfurativa: a alça infartada rompe. É o fim da linha da isquemia não diagnosticada, e é a razão de o abdome em tábua num idoso com dor de muitas horas ser um achado tardio, não um achado inicial.
O que se registra, então, não é um diagnóstico e sim um par: a síndrome e a hora em que ela foi observada. Um prontuário que diz abdome flácido, sem defesa, sem descompressão dolorosa, dor referida 10/10, às 4h15 é um documento clínico. Um prontuário que diz abdome sem alterações não é.
Como fechar o diagnóstico
Cada uma das cinco síndromes faz uma pergunta diferente, e cada pergunta tem um exame que a responde. Pedir o exame certo para a pergunta errada consome as duas coisas que estão em falta às quatro da manhã: tempo e tomógrafo.
Antes de qualquer pedido, a regra que atravessa este bloco inteiro: em três situações a investigação para e a sala começa. Abdome em tábua, instabilidade hemodinâmica e dor intensa desproporcional a um exame pobre num paciente com fator de risco vascular. Nas três, o exame é colhido depois que o paciente já está monitorizado e o cirurgião já foi chamado.
O que a imagem responde em cada uma das cinco
Na inflamatória a pergunta é qual órgão e há complicação. O ultrassom responde bem em vesícula e vias biliares, em rim e via urinária, no útero e nos anexos, na gestante, na criança e no adulto jovem magro com suspeita de apendicite — e tem a vantagem de poder ser repetido quantas vezes o quadro exigir. A tomografia de abdome e pelve com contraste endovenoso responde melhor quando há suspeita de abscesso, de perfuração bloqueada ou de diverticulite complicada, e quando o paciente é obeso ou tem mais de 50 anos sem hipótese definida.
Na obstrutiva a pergunta é onde obstruiu, por quê, e se há sofrimento de alça. A tomografia com contraste endovenoso responde as três; a radiografia simples em ortostase responde apenas a primeira, e só em quadro típico.
Na perfurativa a pergunta é se há ar livre e de onde ele veio. Aqui a tomografia é o exame recomendado, e a radiografia de tórax e abdome fica como avaliação inicial de rotina quando não há tomógrafo prontamente disponível. Um detalhe muda conduta e quase ninguém decora: até 12% dos pacientes com perfuração podem ter tomografia normal. Diante de tomografia sem ar livre e suspeita mantida, a saída indicada é repetir o exame com contraste hidrossolúvel por via oral ou pela sonda nasogástrica.
Na vascular a pergunta é se a artéria ou a veia está ocluída, e o exame é a angiotomografia. É a única recomendação de imagem deste capítulo com grau 1A, e a razão está no relógio: cada seis horas de atraso no diagnóstico dobram a mortalidade.
Na hemorrágica a pergunta é se há líquido livre e se o paciente aguenta sair da sala. Se aguenta, angiotomografia; se não aguenta, ultrassom à beira do leito e centro cirúrgico.
Quando a imagem não deve atrasar a operação
Existe um grupo de pacientes em que o exame de imagem não acrescenta nada à decisão, e nesses o tempo do exame é tempo perdido de duas maneiras: o atraso em si e o transporte para fora da sala.
O primeiro grupo é o da peritonite franca. A diretriz da World Society of Emergency Surgery de 2022 recomenda, com grau 1C, laparoscopia ou laparotomia imediata para todo paciente com peritonite evidente — porque, seja qual for a causa, a decisão já está tomada, e a imagem só escolheria o nome do que vai ser encontrado.
O segundo é o do paciente hemodinamicamente instável. A instabilidade que não responde à reposição inicial já é indicação cirúrgica, e o corredor da tomografia é o lugar mais perigoso do hospital para um doente assim, porque ele fica longe do carrinho, longe da equipe e fora do monitor.
O terceiro é o da perfuração com ar livre já documentado numa radiografia, num serviço sem tomógrafo. A própria diretriz de úlcera perfurada admite que ar livre na radiografia, associado a história compatível e a sinais de peritonite ao exame, é suficiente para justificar a exploração cirúrgica.
Fora desses três, imagem antes de operar é regra, não exceção — e há um quarto grupo em que ela é obrigatória mesmo com o paciente parecendo bem: a suspeita de isquemia mesentérica, em que a angiotomografia deve ser feita sem demora, e não depois do lactato, não depois da reavaliação e não no horário em que o técnico chegar.
A angiotomografia da isquemia, e o que estraga o exame
O pedido errado devolve um exame normal numa doença que está lá. Três erros de solicitação aparecem com frequência e todos três são evitáveis por escrito.
O primeiro é pedir tomografia de abdome sem especificar o estudo vascular. Angiotomografia é um protocolo com fase arterial dedicada e cortes finos; uma tomografia de abdome em fase portal pode não mostrar a falha de enchimento na artéria mesentérica superior. Escreva no pedido a suspeita, com essas palavras, e a fase que interessa.
O segundo é mandar contraste oral. Além de não melhorar a acurácia na dor abdominal indiferenciada, o contraste oral consome as duas horas de preparo que a doença não tem, e o contraste denso na luz atrapalha a leitura da parede da alça e dos vasos.
O terceiro é aceitar um exame negativo como resposta final quando a suspeita é alta. Achado normal na primeira fase, num paciente com dor desproporcional e fonte embólica declarada, é motivo para conversar com o radiologista e com o cirurgião, não para liberar a maca.
Vale dizer o que a angiotomografia decide além do diagnóstico, porque isso muda o telefonema: ela distingue oclusão arterial de trombose venosa e de forma não oclusiva, e essa distinção separa quem se beneficia de revascularização — em que a via endovascular é a opção primária quando há experiência disponível — de quem se trata com heparina em infusão contínua, que é o caminho habitual da trombose venosa mesentérica.
A radiografia simples: o que ela ainda responde
O papel da radiografia de abdome encolheu, mas não desapareceu, e o que sobrou é bem delimitado. Ela responde a duas perguntas: há ar livre sob a cúpula diafragmática, e há níveis hidroaéreos com distensão de alças num quadro obstrutivo típico. Para a primeira pergunta, a incidência que serve é a radiografia de tórax em ortostase, com o paciente de pé por alguns minutos antes do disparo — não a radiografia de abdome deitado.
Para a síndrome vascular a radiografia não serve, e isso está escrito com grau 1B: a radiografia simples não é recomendada na avaliação de isquemia intestinal. O motivo é mecânico. Ela só fica positiva quando já há infarto instalado e perfuração — ou seja, ela acerta quando o diagnóstico deixou de importar.
A leitura sistemática do filme, incluindo o reconhecimento do ar sob a cúpula, é assunto do capítulo de radiografia de tórax na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito. O que interessa aqui é a decisão que o filme autoriza: ar livre com peritonite fecha indicação cirúrgica; ausência de ar livre não fecha nada.
Um manual do Ministério da Saúde de 2002, que ainda circula na coleção institucional e é o documento federal mais antigo em uso sobre o tema, prescreve para todo paciente com dor abdominal aguda uma rotina fixa de hemograma, amilase, sumário de urina, radiografia de tórax em ortostase e radiografia de abdome deitado e de pé. A prática mudou desde então em duas direções — a tomografia assumiu o que o filme não responde, e o exame de rotina para todos deu lugar ao exame dirigido por pergunta —, mas a rotina segue viva em muitos serviços, e é útil saber que o interno que a segue está seguindo um documento, não improvisando.
O laboratório que não decide, e o que custa quando ele decide
Nenhum exame de sangue distingue as cinco síndromes, e nenhum exclui a mais grave delas. Na diretriz de isquemia mesentérica isso é uma recomendação formal: não há parâmetro laboratorial suficientemente acurado para identificar de modo conclusivo a presença ou a ausência de alça isquêmica ou necrótica, embora lactato, leucocitose e D-dímero possam ajudar.
Lactato faz parte da avaliação de perfusão e da evolução, mas não decide sozinho se há isquemia ou necrose intestinal. Pode permanecer normal na isquemia inicial e elevar-se por desidratação, choque e outras causas. Valores acima de 2 mmol/L foram associados a maior risco em séries clínicas, sem confirmar irreversibilidade no indivíduo. A suspeita clínica determina angiotomografia urgente; não se aguarda lactato para autorizar imagem.
O D-dímero tem o comportamento simétrico: nenhum paciente com D-dímero normal apresentou isquemia intestinal na série citada, e um valor acima de 0,9 mg/L teve especificidade de 82%, sensibilidade de 60% e acurácia de 79%. São números que não sustentam decisão isolada, mas que dão peso a uma suspeita — e, sobretudo, um D-dímero normal num paciente de baixa suspeita ajuda a olhar para outro lado.
A leitura que custa vida é a inversa dessa: usar um leucograma normal, uma amilase normal ou um lactato normal para fechar a porta. Cursam com laboratório limpo a perfuração das primeiras horas, a isquemia antes do infarto, a obstrução cuja alça ainda está viva e quase tudo que acontece no idoso e no imunossuprimido. Um resultado normal, nesses casos, não é um argumento — é uma pergunta que ficou sem resposta.
Dois exames continuam obrigatórios e não são discutíveis. Gasometria com lactato em quem tem sinais vitais alterados, para medir perfusão e acompanhar resposta. E tipagem sanguínea com reserva em quem tem qualquer suspeita de síndrome hemorrágica, colhida no mesmo momento em que o acesso é puncionado, porque pedir sangue depois que a pressão caiu é pedir tarde.
Um terceiro exame vira obrigatório num subgrupo grande e crescente: o coagulograma com razão normalizada internacional, em todo paciente anticoagulado. Ele responde a duas perguntas de uma vez. A primeira é cirúrgica — quem pode ser operado nas próximas horas precisa ter a coagulação medida e, se for o caso, revertida; qual agente usar e em quanto tempo é decisão do cirurgião e do hematologista, mas o resultado precisa estar disponível quando eles chegarem. A segunda é diagnóstica: no anticoagulado, a própria anticoagulação entra na lista de hipóteses, porque hematoma de bainha do reto e hematoma retroperitoneal espontâneo imitam abdome agudo e se tratam pelo caminho oposto ao da cirurgia.
Uma observação sobre a amilase, que é pedida quase sempre e interpretada quase nunca. Ela sobe na pancreatite, mas também na perfuração de víscera oca, na isquemia mesentérica e na obstrução com sofrimento de alça — de modo que amilase elevada não fecha pancreatite, e amilase normal não afasta nenhuma das outras. Serve como peça de um conjunto, e a conduta da pancreatite propriamente dita está no capítulo de pancreatite aguda desta apostila.
O que se escreve no pedido e no prontuário
O pedido de imagem e a evolução são as duas peças que sobrevivem à sua saída do plantão, e as duas são escritas por você. Um pedido que diz apenas dor abdominal devolve um laudo genérico; um pedido que diz a suspeita devolve um laudo que responde.
No pedido, três linhas bastam e mudam o exame que volta: a suspeita nomeada, o achado que a sustenta e a hora de início dos sintomas. Suspeita de isquemia mesentérica aguda, dor periumbilical desproporcional ao exame há cinco horas, fibrilação atrial em uso de anticoagulante — com essas palavras, o serviço de imagem sabe qual protocolo rodar e o radiologista sabe onde olhar.
Na evolução, o que precisa constar é o par que o próximo médico não conseguirá reconstruir: o exame abdominal descrito por partes, e a hora. Distensão, ruídos, presença ou ausência de defesa, presença ou ausência de descompressão dolorosa, dor à tosse, palpação das regiões inguinais, resultado do toque retal quando indicado — e a hora em que tudo isso foi feito. Um segundo exame só vale como reavaliação se houver um primeiro escrito com a mesma régua.
Registre também os dois telefonemas: a hora em que o cirurgião foi comunicado e o que ele orientou, e a hora do contato com a regulação quando o exame que responderia à pergunta não existe no seu serviço. Quando a suspeita é de isquemia mesentérica, de aneurisma roto ou de perfuração, a regulação é acionada em paralelo à coleta de exames, e não depois do resultado — o paciente sai com acesso, analgesia e volume, e a transferência não espera laboratório.
No documento que acompanha uma transferência, cinco linhas fazem diferença no serviço que recebe: a hora de início da dor, a síndrome presumida com o achado que a sustenta, os dois exames abdominais com hora, o que já foi administrado e a que horas, e o telefone de quem escreveu. Um relatório que diz apenas dor abdominal a esclarecer faz o serviço de destino refazer tudo desde o começo — e refazer tudo, num paciente cujo relógio se conta em horas, é gastar duas vezes o mesmo tempo.
Uma última frase sobre o que não se escreve. Abdome sem alterações num paciente que tem dor abdominal é uma anotação que induz ao erro, porque descreve como normal um exame que apenas não encontrou achados — e é justamente na síndrome mais grave das cinco que o exame não encontra achados. Escreva o que foi examinado e o que estava ausente, nomeadamente: abdome flácido, sem defesa, sem descompressão dolorosa, ruídos presentes, com dor referida desproporcional ao exame. Duas frases que dizem a mesma coisa em número de palavras parecido — e só uma delas deixa o próximo médico apto a decidir.
Ordenar cinco relógios
As cinco síndromes ajudam a formular hipóteses, mas não estabelecem uma fila fixa. Prioridade depende de perfusão, disfunção, peritonite e evolução. O interno reconhece risco, inicia medidas supervisionadas e comunica a hipótese que não pode esperar.
- 1Avaliar sinais vitais, perfusão e consciência em todos; qualquer instabilidade exige atendimento imediato, independentemente do nome da síndrome.
- 2Suspeita de hemorragia: acionar equipe, obter acesso, tipagem e suporte dirigido à perda, organizando controle do sangramento. Imagem depende de estabilidade e disponibilidade.
- 3Dor desproporcional com risco vascular: suspeitar de isquemia e organizar angio-TC sem demora quando houver condições, sem esperar lactato alto ou peritonite. Acionar cirurgia e equipe vascular.
- 4Rigidez, peritonite ou forte suspeita de perfuração: suporte, antibiótico e controle do foco em paralelo. Exames não devem atrasar a intervenção indicada.
- 5Obstrução: procurar hérnias e sinais de estrangulamento. Alça fechada ou sofrimento intestinal torna o cuidado urgente, mesmo que a síndrome obstrutiva possa ser observada em outros pacientes.
- 6Inflamação localizada: analgesia, exames dirigidos e avaliação cirúrgica na prioridade definida pelo estado clínico. Não presumir que apendicite ou colecistite podem esperar apenas por serem inflamatórias.
- 7Reavaliar de acordo com risco e após intervenções. Deterioração exige ação imediata, sem aguardar uma janela fixa de duas horas.
As cinco síndromes lado a lado
| Síndrome | Como começa | O que o abdome mostra | O relógio | Para onde vai |
|---|---|---|---|---|
| Inflamatória | Gradual, ao longo de horas ou dias; a dor migra e depois se fixa | Dor localizada num ponto, dor à tosse, defesa que cresce; febre e leucocitose chegam depois | Horas a dias; o atraso cobra morbidade e conversão para perfuração | Apendicite, pancreatite, diverticulite, colecistite e colangite, cada uma no seu capítulo desta apostila |
| Obstrutiva | Rápida e progressiva, em uma a duas horas, chegando a um platô | Distensão, timpanismo, dor em ondas com alívio entre elas, ruídos aumentados e metálicos que depois somem; hérnia palpável e toque retal fecham casos | Horas a um dia; encurta para horas se a alça estrangular | Capítulo de obstrução intestinal desta apostila |
| Perfurativa | Explosiva, em segundos; o paciente sabe o minuto | Rigidez involuntária, imobilidade voluntária, dor difusa intensa, respiração curta; timpanismo sobre a área de macicez hepática | Horas: cada hora de espera até a cirurgia, nas primeiras 24, custa 2,4% de probabilidade de sobrevida | Assumida por este capítulo: reconhecimento e conduta inicial aqui |
| Vascular | Súbita na forma embólica; arrastada na trombose arterial, precedida de dor pós-prandial | Abdome flácido, sem defesa e sem descompressão dolorosa, num paciente com dor máxima e inquieto; distensão é tardia | Horas: cada 6 h de atraso no diagnóstico dobra a mortalidade | Assumida por este capítulo: reconhecimento e conduta inicial aqui |
| Hemorrágica | Explosiva, em segundos, com colapso associado | Pouco abdome e muito paciente: dor difusa sem contratura, palidez, taquicardia, sudorese, dor referida no ombro | Minutos | Aneurisma de aorta roto vai para o capítulo de aneurisma da apostila de Cirurgia Vascular; gravidez ectópica rota, para a apostila de Ginecologia e Obstetrícia |
| Mista | Herda o começo da síndrome de origem | Combina achados de duas classes; é a categoria da doença que mudou de estágio | O relógio mais curto entre as duas | Reclassifique e siga o destino da síndrome mais grave das duas |
Qual exame responde a pergunta de cada síndrome
| Síndrome | A pergunta | O exame que responde | O que não fazer |
|---|---|---|---|
| Inflamatória | Qual órgão, e há complicação | Ultrassom em vesícula, via urinária, anexos, gestante, criança e jovem magro; tomografia com contraste endovenoso quando há abscesso, perfuração bloqueada ou dúvida acima dos 50 anos | Tratar apêndice não visualizado no ultrassom como apêndice normal |
| Obstrutiva | Onde obstruiu, por quê, e há sofrimento de alça | Tomografia com contraste endovenoso; radiografia em ortostase só responde à primeira pergunta e só em quadro típico | Pedir contraste oral e perder duas horas de preparo |
| Perfurativa | Há ar livre, e de onde ele veio | Tomografia; radiografia de tórax e abdome como avaliação inicial quando não há tomógrafo prontamente disponível | Aceitar tomografia sem ar livre como exclusão: até 12% das perfurações têm exame normal |
| Vascular | A artéria ou a veia está ocluída | Angiotomografia sem demora, com fase arterial dedicada — única indicação de imagem deste capítulo com grau 1A | Pedir radiografia simples, que não é recomendada nessa avaliação, ou esperar o lactato |
| Hemorrágica | Há líquido livre, e este paciente aguenta sair da sala | Ultrassom à beira do leito se instável; angiotomografia se estável | Levar um instável ao corredor do tomógrafo |
O abdome que engana: qual síndrome se esconde em quem
| Paciente | Síndrome que se esconde | Por que o sinal falta | O que muda na sua conduta |
|---|---|---|---|
| Criança | Perfurativa | Omento curto bloqueia mal e a apendicite perfura mais cedo; a história chega por um intermediário | Criança que parou de brincar, anda encurvada e não deixa encostar está dizendo peritonite; avaliação cirúrgica sem esperar febre |
| Lactente e recém-nascido | Obstrutiva e vascular | Entidades próprias da idade: invaginação, má rotação com volvo, enterocolite necrosante | Vômito bilioso em lactente é cirúrgico até prova em contrário; ver o capítulo de invaginação na apostila de Cirurgia Pediátrica |
| Gestante | Inflamatória | Apêndice deslocado para cima, leucocitose fisiológica, náusea que é ruído, omento afastado pelo útero | Excluir causa hemorrágica primeiro; depois insistir na apendicite, porque o atraso custa mais ao feto que a cirurgia |
| Idoso | Vascular | Resposta inflamatória atenuada, menos massa muscular na parede, e probabilidade de fundo invertida acima dos 75 anos | Limiar de imagem mais baixo; abdome flácido não tranquiliza; observação exige reexame com hora escrita |
| Usuário crônico de corticoide | Perfurativa | O mesmo remédio aumenta o risco de perfurar e apaga a defesa, a febre e a leucocitose | Imagem precoce; abdome mole não afasta víscera perfurada |
| Imunossuprimido e neutropênico | Perfurativa e inflamatória | Sem resposta inflamatória não se monta peritonite exuberante; leucograma pode não subir ou cair | Taquicardia persistente sem causa pesa mais que a palpação; observação às cegas deixa de ser opção |
Da dose ao volume: as drogas da primeira hora, para um adulto de 68 kg
| Fármaco e dose | Concentração | Volume e apresentação | No elenco da Rename 2024 |
|---|---|---|---|
| Dipirona 1 g, intravenosa | 500 mg/mL | 2 mL, uma ampola de 2 mL; a bula limita a velocidade a 1 mL por minuto, o que faz da injeção um ato de 2 minutos, com o paciente deitado | Sim — comprimido de 500 mg, solução oral de 500 mg/mL e solução injetável de 500 mg/mL, Componente Básico |
| Sulfato de morfina 2 a 10 mg, intravenosa, titulada | 10 mg/mL | 0,2 a 1 mL; na apresentação de 1 mg/mL, 2 a 10 mL | Sim, mas no Componente Especializado, vinculado ao protocolo de dor crônica — não no elenco básico do pronto-socorro |
| Antiemético conforme hipótese e supervisão | Conferir apresentação disponível no serviço | Calcular dose e volume somente após escolha segura | Metoclopramida é contraindicada quando estimular motilidade é perigoso, como obstrução mecânica, perfuração ou hemorragia gastrointestinal. |
| Ceftriaxona 1 g, intravenosa | Pó para solução injetável | Um frasco-ampola de 1 g reconstituído | Sim — 250 mg, 500 mg e 1 g, Componente Básico |
| Metronidazol 500 mg, intravenoso | Não se aplica | Prescrição impossível pelo elenco: as formas listadas são orais | Só comprimido de 250 mg e de 400 mg, gel vaginal e suspensão oral de benzoilmetronidazol |
| Cloreto de sódio 0,9%, 1.000 mL | 9 mg/mL | Dois frascos de 500 mL; 9 g de cloreto de sódio, equivalentes a 154 mEq de sódio | Sim, Componente Básico; a equivalência de 0,154 mEq/mL declarada na própria Rename fecha na conta |
| Solução de Ringer com lactato, 1.000 mL | Cloreto de sódio 6 mg/mL e lactato de sódio 3 mg/mL | Dois frascos de 500 mL; somando as duas fontes, cerca de 129 mEq de sódio por litro | Sim, Componente Básico |
| Tramadol 100 mg, intravenoso | 50 mg/mL | 2 mL, conforme o protocolo do SAMU para dor moderada | Não consta |
Classificação sindrômica. As cinco apresentações — inflamatória, perfurativa, obstrutiva, vascular e hemorrágica — organizam as hipóteses. Elas podem coexistir ou mudar ao longo da evolução; a descrição “mista” chama atenção para essa combinação, sem exigir uma sexta sequência de atendimento.
Contexto dos documentos. Protocolos pré-hospitalares orientam reconhecimento e destino; diretrizes de doenças específicas aprofundam investigação e tratamento. O aluno deve relacionar a recomendação ao problema que ela responde, sem precisar reconstruir a cronologia editorial para conduzir o atendimento.
Força e certeza. Um rótulo de evidência resume uma recomendação, mas não substitui seu texto. Quando a codificação e a descrição diferirem, não transforme a sigla isolada em argumento clínico: identifique o que está sendo recomendado e o contexto de aplicação.
Epidemiologia. Faixas de frequência provenientes de estudos distintos não formam necessariamente uma partição que some 100%. Use-as para compreender a importância relativa das hipóteses, sem somar extremos ou calcular uma distribuição individual a partir deles.
O efeito do atraso. Expressões como “a mortalidade dobra a cada seis horas” comunicam urgência; não são uma fórmula para extrapolar indefinidamente o risco de um paciente. O dado útil é reconhecer que o atraso pode comprometer o desfecho e organizar o próximo passo em tempo oportuno.
Soluções e balanço. NaCl a 0,9% fornece aproximadamente 154 mEq de sódio por litro. O Ringer com lactato descrito contém cerca de 130 mEq/L de sódio e 4 mEq/L de potássio. Considere composição e volume juntos ao interpretar o suporte administrado.
Acesso à medicação. A padronização hospitalar e os componentes da assistência farmacêutica não são listas equivalentes. Confirme a apresentação disponível e a via de uso, sobretudo ao transferir o paciente ou planejar a alta.
Leitura da analgesia. Dipirona a 500 mg/mL contém 1 g em 2 mL. Para paracetamol em gotas, confira concentração e número de gotas por mililitro do produto: na apresentação citada, 200 mg/mL e 20 gotas/mL correspondem a 10 mg por gota.
Contraindicações permanecem relevantes. Disponibilidade não equivale a indicação. Em suspeita de obstrução mecânica, perfuração ou hemorragia gastrointestinal, não usar metoclopramida de rotina; o controle de sintomas deve acompanhar a hipótese e o protocolo, sob supervisão.
Velocidade de administração. A bula de dipirona citada limita a injeção intravenosa a 1 mL por minuto. Assim, 2 mL exigem pelo menos dois minutos nessa apresentação. A leitura da prescrição inclui dose, diluição e velocidade, além da vigilância descrita no plano.
A conduta, hora a hora
As prescrições desta seção estão calculadas para Sinésio Carvalhais, 68 quilos, o senhor da maca 3, e usam apenas apresentações que constam do elenco nacional de 2024, com a única exceção apontada na linha do metronidazol. Onde a conversão de miligramas para mililitros importa, ela vem escrita na própria linha.
A sequência abaixo é a do interno que não vai operar e não vai decidir a operação. O trabalho dele é diminuir o tempo entre a chegada do paciente e a decisão de quem opera, e entregar o doente na melhor condição possível para essa decisão — com o diagnóstico sindrômico nomeado, a imagem certa pedida, o volume começado e a hora de tudo escrita.
Na isquemia mesentérica, diferencie mecanismos porque o tratamento definitivo muda. Êmbolo arterial pode ocorrer na fibrilação atrial e produzir início abrupto; trombose arterial pode se instalar sobre aterosclerose e história de angina intestinal. Trombose venosa exige avaliação de trombofilia, inflamação ou outros fatores e pode responder à anticoagulação quando não há necrose. A forma não oclusiva aparece em baixo fluxo e exige corrigir a condição precipitante. A angio-TC e a equipe especializada definem revascularização, anticoagulação e exploração conforme mecanismo e viabilidade; peritonite torna a avaliação operatória urgente.
Minuto 0 a 5 — antes de qualquer hipótese
Sinais vitais completos, medidos e não estimados: pressão, frequência cardíaca, frequência respiratória contada no relógio, temperatura no termômetro e saturação. Dois acessos periféricos de bom calibre, aproveitando a punção para colher o sangue — hemograma, função renal, eletrólitos, gasometria com lactato, coagulograma, amilase e tipagem sanguínea. No paciente de Sinésio, que usa varfarina, o tempo de protrombina com razão normalizada internacional entra no mesmo tubo, e o valor dele limita o que o cirurgião poderá fazer daqui a pouco.
Prescrição- Dieta zero, inclusive água.
- Dois acessos venosos periféricos calibrosos.
- Reposição IV conforme perfusão e causa provável. Se houver hipovolemia, usar cristaloide em alíquotas com reavaliação frequente e cautela na congestão. Suspeita de hemorragia exige controle do sangramento e avaliação precoce de hemocomponentes; não infundir automaticamente 1.000 mL abertos em todo abdome agudo.
- Monitorização contínua de ritmo cardíaco, oximetria e pressão arterial não invasiva.
- Coleta na punção: hemograma, ureia, creatinina, sódio, potássio, gasometria com lactato, coagulograma com razão normalizada internacional, amilase, tipagem sanguínea com reserva.
Minuto 5 a 10 — o exame que nomeia a síndrome
Examine o abdome inteiro, com o paciente despido, e registre por partes: distensão, ruídos, defesa, descompressão dolorosa, dor à tosse, regiões inguinais e femorais palpadas, cicatriz de laparotomia procurada, toque retal quando houver suspeita de sangramento ou de fecaloma. No fim do exame, escreva uma frase que nomeie a síndrome e a hora. Não é diagnóstico; é classificação, e é ela que decide a fila.
Prescrição- Registrar no prontuário, com hora: caracterização da dor, exame abdominal por partes e a síndrome presumida.
- Reexame abdominal programado em 2 horas, com hora anotada na prescrição.
Minuto 10 — a analgesia, que não atrapalha o diagnóstico
Trate a dor com titulação e monitorização, em paralelo à investigação. Persistência apesar de uma dose adequada é sinal para reexaminar e reconsiderar isquemia ou outra complicação; não obriga a suspender o alívio. Registre intensidade, fármaco, dose e resposta, incluindo sedação e respiração. Uma melhora transitória não prova resolução da causa e não substitui a avaliação clínica para alta.
Prescrição- Dipirona 1 g intravenosa, ou seja 2 mL da solução de 500 mg/mL, em no mínimo 2 minutos, com o paciente deitado.
- Sulfato de morfina 2 mg intravenosos, ou seja 0,2 mL da solução de 10 mg/mL, repetindo 2 mg a cada 10 minutos até analgesia, com naloxona disponível.
- Se houver náusea ou vômito, discutir antiemético e via apropriados com o supervisor; evitar metoclopramida quando houver suspeita de obstrução mecânica, perfuração ou hemorragia gastrointestinal, situações em que estimular motilidade pode ser perigoso. Conferir contraindicações e protocolo do serviço.
- Reavaliar a dor 20 minutos após a primeira dose e registrar a resposta.
Minuto 10 a 15 — o telefonema, que vem antes do exame
Ligue para o cirurgião com a classificação, não com o diagnóstico. A frase que funciona tem quatro partes: idade, síndrome presumida, o achado que a sustenta e o tempo de evolução. Para Sinésio: senhor de 74 anos, abdome agudo de padrão vascular, dor desproporcional a exame pobre há cinco horas, fibrilação atrial anticoagulada, lactato colhido, angiotomografia solicitada. Se a suspeita é perfurativa, hemorrágica ou vascular, o telefonema acontece antes do resultado do exame, e não depois.
Prescrição- Comunicar o cirurgião de plantão e registrar hora do contato e orientação recebida.
- Se o exame que responde à pergunta não existir no serviço, acionar a regulação em paralelo à coleta, e não depois do resultado.
Minuto 15 a 30 — a imagem certa, pedida com as palavras certas
Escreva no pedido a suspeita nomeada, o achado que a sustenta e a hora de início dos sintomas. Na suspeita vascular, peça angiotomografia com fase arterial e não aceite contraste oral, que só consome o tempo do preparo. Na suspeita perfurativa sem tomógrafo disponível, a radiografia de tórax em ortostase é a avaliação inicial, e ar livre com peritonite já basta para a exploração. No paciente instável, nenhuma imagem fora da sala.
Prescrição- Angiotomografia de abdome e pelve com contraste endovenoso, fase arterial, sem contraste oral.
- No pedido: suspeita de isquemia mesentérica aguda; dor desproporcional ao exame há 5 horas; fibrilação atrial.
- Manter o paciente monitorizado durante o transporte, acompanhado por profissional.
Minuto 20 a 40 — sonda, volume e antibiótico
Descompressão nasogástrica alivia a distensão, reduz o risco de broncoaspiração e é recomendada tanto na síndrome obstrutiva quanto na vascular e na perfurativa. A reposição volêmica começa assim que a síndrome vascular é levantada, porque o intestino isquêmico precisa de perfusão antes de precisar de bisturi, e a correção de distúrbios eletrolíticos entra junto. O antibiótico de amplo espectro é recomendação formal na isquemia mesentérica e na perfuração — e é aqui que a lista nacional de medicamentos e a diretriz se desencontram.
Prescrição- Sonda nasogástrica aberta em drenagem, com registro do volume drenado.
- Cloreto de sódio 0,9% ou solução de Ringer com lactato, guiados por perfusão, diurese e lactato seriado.
- Ceftriaxona 1 g intravenosa de 12 em 12 horas, um frasco-ampola por dose.
- Cobertura de anaeróbio por via venosa conforme a padronização do hospital; o metronidazol injetável não está no elenco da Rename 2024.
- Sondagem vesical de demora para medir diurese horária no paciente instável.
Hora 1 a 2 — o reexame que muda a fila
Reexamine na mesma ordem em que examinou da primeira vez, registre com hora e compare. O que você procura não é melhora subjetiva: é mudança de síndrome. Cólica que sumiu com distensão mantida, dor que deixou de ser localizada e passou a ser difusa, abdome que enrijeceu, taquicardia que não cedeu ao volume — qualquer um desses achados sobe o paciente na fila imediatamente e refaz o telefonema.
Prescrição- Reexame abdominal e sinais vitais completos a cada 2 horas, ou imediatamente diante de qualquer queixa nova.
- Lactato de controle 2 horas após o primeiro, se o inicial estava alterado ou a suspeita é vascular.
- Novo contato com o cirurgião a cada mudança de síndrome, com registro de hora.
Enquanto o cirurgião vem — o que fica pronto
Um paciente entregue bem é um paciente com jejum cumprido, volume iniciado, dor tratada, exames colhidos e resultados na mão, imagem feita ou agendada, sangue reservado, consentimento conversado com a família e prontuário legível. Nada disso é tarefa menor: o tempo de sala do cirurgião começa quando essas coisas estão prontas, e cada uma que falta empurra a incisão para mais tarde.
Prescrição- Confirmar jejum absoluto e registrar a hora da última ingestão.
- Reserva de concentrado de hemácias tipada, conforme a estimativa do cirurgião.
- Rotina pré-operatória do serviço: eletrocardiograma e radiografia de tórax, se ainda não realizados.
- Conversar com a família sobre a hipótese e sobre a possibilidade de operação, e registrar o que foi dito.
- Manter analgesia prescrita em horário fixo, e não apenas se necessário.
Como saber se está funcionando
Reavaliar um abdome agudo é uma medida, não uma pergunta. São sete parâmetros aferidos nas mesmas condições, com hora anotada, postos ao lado da aferição anterior: o que informa é para onde eles se moveram, e nenhum deles responde sozinho.
Em três das cinco síndromes a piora se anuncia por um sinal que parece melhora, e é por isso que a reavaliação precisa ser feita com uma régua e não com uma impressão. Na obstrutiva, a cólica cessa quando a alça estrangula. Na perfurativa, a peritonite química das primeiras horas dá uma trégua enganosa antes de a bacteriana instalar. Na vascular, a dor pode ceder com a analgesia enquanto a alça continua morrendo, porque o que estava doendo era a víscera e não o peritônio. Quem conhece esses três disfarces reavalia melhor do que quem apenas examina com mais frequência.
Duas condições tornam a comparação possível e as duas são de responsabilidade sua: examinar nas mesmas condições — mesma posição do paciente, mesma sequência, de preferência o mesmo examinador — e escrever o primeiro exame com detalhe suficiente para que ele possa ser comparado. Um segundo exame excelente contra um primeiro que dizia apenas abdome doloroso não produz nenhuma informação de direção.
Esperado: Dor que cede com a analgesia e continua com o mesmo caráter — em ondas se era em ondas, localizada se era localizada
Se não melhora: Cólica que virou dor contínua, com distensão mantida, é alça que parou de se contrair por sofrimento. Dor localizada que virou difusa é perfuração. Dor que não cede a dose adequada de opioide é isquemia, perfuração ou víscera sob pressão — reabra a hipótese, não repita a dose.
Esperado: Sem aparecimento de defesa nova; se havia defesa localizada, que ela permaneça localizada
Se não melhora: Defesa que apareceu onde não havia, ou que deixou de ser localizada e passou a ser generalizada, é mudança de síndrome. Num idoso, num imunossuprimido ou em quem usa corticoide, a ausência de defesa nunca serve como argumento tranquilizador.
Esperado: Queda após analgesia e reposição volêmica adequadas
Se não melhora: Taquicardia que persiste depois de dor tratada e volume reposto é o parâmetro mais confiável que resta no paciente cujo exame abdominal não informa. Vale mais que a palpação no imunossuprimido, e é frequentemente o único sinal precoce da síndrome hemorrágica.
Esperado: Pressão que sobe e se mantém após a reposição, com extremidades aquecendo e enchimento capilar abaixo de 3 segundos
Se não melhora: Pressão que só se sustenta enquanto o soro corre é sangramento até prova em contrário. Nesse cenário, a decisão é centro cirúrgico e não tomógrafo.
Esperado: Queda em resposta à reposição volêmica
Se não melhora: Elevação ou persistência do lactato exige reavaliar perfusão, ressuscitação e possível foco isquêmico com a equipe. Não prova lesão irreversível; lactato normal também não tranquiliza diante de suspeita consistente. Providenciar angiotomografia e avaliação cirúrgica sem demora.
Esperado: Perímetro que diminui e drenagem que reduz ao longo das horas
Se não melhora: Perímetro que cresce com dor que cede é o disfarce mais perigoso da obstrução. Drenagem que muda de aspecto para fecaloide indica obstrução distal e muda a urgência.
Esperado: Acima de 0,5 mL por quilo por hora, ou seja, mais de 34 mL por hora num adulto de 68 quilos
Se não melhora: Oligúria que persiste apesar do volume é sinal de hipoperfusão sistêmica e antecede a queda de pressão. Num abdome agudo, ela raramente é problema renal isolado — é o abdome cobrando.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro encenado na primeira página deste capítulo, e o que mais custa vida num plantão cheio. Quem grita mais alto costuma ser o inflamatório, que tem o relógio mais longo; quem tem o abdome mais impressionante costuma ser o perfurativo, que já se anunciou e já foi para a sala. O vascular fica por último porque não grita e porque o abdome dele é o mais tranquilizador dos três — e é ele que perde alça a cada hora.
Como pegar a tempo: Ordene por relógio, não por ruído. A primeira pergunta da triagem interna é sobre sinais vitais; a segunda é sobre desproporção entre a dor referida e o exame; a terceira é sobre rigidez. Só depois entra quem tem distensão, e por último quem tem dor localizada com febre.
O dano: A defesa involuntária depende de massa muscular na parede, a febre e a leucocitose dependem de resposta inflamatória, e o idoso tem menos das três coisas. Acrescente que, acima dos 75 anos, a isquemia mesentérica passa a ser causa mais prevalente de abdome agudo que a apendicite, e o abdome mole deixa de ser um argumento a favor de esperar: ele é compatível com a doença mais grave da lista.
Como pegar a tempo: No idoso, transforme o exame pobre em pergunta e não em resposta. Cheque as três histórias que reordenam a probabilidade — fibrilação atrial ou fonte embólica, dor pós-prandial com perda de peso, e cirurgia abdominal prévia — e baixe o limiar de imagem. Se a decisão for observar, ela vem com hora marcada e reexame escrito.
O dano: Esperar lactato elevado pode atrasar diagnóstico em uma fase potencialmente reversível. O marcador pode ser normal na isquemia inicial e aumentar por causas não intestinais; nenhum valor isolado confirma necrose. O atraso na isquemia mesentérica associa-se a maior mortalidade e perda intestinal.
Como pegar a tempo: O gatilho da angiotomografia é clínico: dor intensa desproporcional a exame pobre, com fator de risco vascular. Colha o lactato no mesmo momento em que pede o exame, para medir perfusão e acompanhar a resposta ao volume, e não para decidir se investiga.
O dano: Dor que não cede a uma dose adequada de opioide é um dos poucos sinais de alarme que aparecem antes de qualquer alteração de exame físico ou de laboratório. Repetir a dose às cegas apaga o sinal, sedou o paciente, e transforma um dado de reavaliação em um problema de nível de consciência — sem que ninguém tenha revisto a hipótese.
Como pegar a tempo: Titule a analgesia com dose registrada e reavaliação em vinte minutos, e trate a falta de resposta como achado. Diante dela, as três hipóteses que voltam à mesa são isquemia, perfuração e víscera distendida sob pressão — e as três pedem imagem ou cirurgião, não mais morfina.
O dano: Até 12% dos pacientes com perfuração têm tomografia normal. Um laudo negativo num paciente que descreve dor explosiva, sabe o minuto do começo e tem abdome em tábua não desfaz a história nem o exame — desfaz apenas a expectativa de encontrar ar. Descartar a hipótese ali é atrasar a operação de um paciente que perde 2,4% de probabilidade de sobrevida por hora.
Como pegar a tempo: Diante de tomografia sem ar livre com suspeita mantida, a saída indicada é repetir a imagem com contraste hidrossolúvel por via oral ou pela sonda nasogástrica, e conversar com o cirurgião com o exame na mão. Ar livre com peritonite indica operação; ausência de ar livre não indica nada.
O dano: O corredor da tomografia é o lugar do hospital mais distante do carrinho de parada, da equipe e do monitor. Na síndrome hemorrágica, a instabilidade que só se corrige enquanto o volume corre já é indicação cirúrgica, e o exame não vai mudar a decisão — vai apenas mudar o lugar onde o paciente vai piorar.
Como pegar a tempo: Antes de qualquer transporte, duas perguntas em ordem: este exame vai alterar a conduta das próximas horas, e este doente suporta o trajeto até a sala de imagem. Se a resposta à segunda for não, o exame é o ultrassom à beira do leito e o destino é o centro cirúrgico.
O que dizer ao paciente e à família
Neste capítulo a conversa mais difícil não é com o paciente: é com a família de quem vai esperar. Explicar por que o senhor calado da maca 3 passa na frente da professora que está gritando de dor exige dizer, em voz alta, uma coisa que soa injusta — que a gravidade não se mede pelo barulho.
As falas abaixo são de Sinésio Carvalhais e da filha dele, e de você com a equipe. Todas cabem em menos de um minuto, que é o tempo que existe.
Explicar à família da maca 1 por que outro paciente passou na frente
“A dor da sua mãe é forte e ela já recebeu remédio para isso, e eu volto a examiná-la daqui a pouco. O senhor do outro leito tem uma suspeita diferente, de uma doença em que o intestino pode estar perdendo circulação — e nessa doença cada hora conta de um jeito que não conta na dela. Não é que a dor dele seja maior. É que o relógio dele é mais curto.”
Não diga: Ele é mais grave. A senhora vai ter que esperar porque tem gente pior. Aqui é assim mesmo, quem chega primeiro nem sempre é atendido primeiro.
Dizer ao paciente que a dor vai ser tratada
“Eu vou tratar a sua dor agora, e isso não vai atrapalhar o diagnóstico. Pelo contrário: com a barriga menos dolorida eu consigo examinar o senhor de verdade. Uma coisa importante — se a dor não melhorar com o remédio, isso é uma informação e eu preciso saber. Me chame, não espere passar.”
Não diga: Não posso dar analgésico porque mascara o quadro e o cirurgião precisa examinar. O senhor aguenta mais um pouquinho.
Chamar o cirurgião pelo telefone, às quatro da manhã
“Gaspar, é o interno do pronto-socorro. Homem de 74 anos, abdome agudo de padrão vascular: dor periumbilical há cinco horas que ele descreve como a pior da vida, abdome flácido, sem defesa, sem descompressão dolorosa. Fibrilação atrial em uso de varfarina, frequência de 112, pressão 108 por 62, leucograma 19.400. Já tem dois acessos, volume correndo, lactato colhido e angiotomografia com fase arterial solicitada. Precisava que você soubesse agora, antes do exame.”
Não diga: Tem um senhor aqui com dor na barriga, você desce depois pra ver? Não parece grave, o abdome dele está bom.
Explicar à filha a suspeita, sem prometer o que não se sabe
“A suspeita principal é que um coágulo tenha entupido a artéria que leva sangue para o intestino. A fibrilação atrial do seu pai é a fonte mais comum desses coágulos. O exame que vai responder isso é uma tomografia com contraste, e ela precisa ser feita agora e não de manhã — porque, se for isso, o tempo até o tratamento é o que mais muda o resultado.”
Não diga: É uma isquemia mesentérica, provavelmente vai precisar operar e tirar um pedaço do intestino. Vamos ver o que a tomografia diz, mas eu já sei o que é.
Preparar a família para a possibilidade de ressecção intestinal
“Se a tomografia confirmar, há duas coisas que podem acontecer. Uma é tentar desentupir o vaso por dentro, com um cateter. A outra é operar para ver o intestino por dentro da barriga, e nessa operação pode ser preciso retirar a parte que já sofreu demais. Às vezes é preciso uma segunda operação um ou dois dias depois, só para reavaliar o que ficou. Estou dizendo isso agora porque a senhora vai ouvir essas palavras do cirurgião e eu não quero que seja a primeira vez.”
Não diga: Pode ser que precise tirar o intestino todo. Nesses casos a mortalidade é altíssima, mais de cinquenta por cento.
Responder à pergunta que a família sempre faz
“A senhora está perguntando se a gente pegou a tempo, e eu não sei. Sei que ele chegou há uma hora e quarenta, que já está com soro, com remédio para dor e com o cirurgião avisado, e que o exame já foi pedido. Assim que eu souber alguma coisa, eu venho aqui e falo com a senhora — mesmo que a notícia não seja boa.”
Não diga: Fique tranquila, chegou a tempo. Ele está estável, os sinais estão bons.
Passar o plantão às sete da manhã
“Maca 3: Sinésio Carvalhais, 74 anos, 68 quilos. Abdome agudo de padrão vascular desde as 4h10. Dois exames abdominais escritos, às 4h15 e às 6h20, os dois com abdome flácido e dor desproporcional. Angiotomografia realizada às 5h40, laudo pendente. Lactato de 2,8 na chegada e 2,4 após dois litros. Cirurgião ciente desde as 4h25. Varfarina, razão normalizada internacional pendente. O que precisa acontecer nas próximas duas horas é o laudo sair e o cirurgião reavaliar.”
Não diga: O 3 é um senhor com dor abdominal a esclarecer, aguardando tomografia. Passou bem a noite.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Analgesia criteriosa desde o primeiro contato, inclusive opioide
O protocolo AC30, de dor abdominal não traumática, manda instalar acesso venoso e considerar analgesia criteriosa segundo o tipo de dor e a suspeita diagnóstica, remetendo ao protocolo de manejo da dor. Este classifica a dor em leve, moderada e intensa por escala numérica e prescreve opioide forte na faixa intensa, ainda no atendimento pré-hospitalar — ou seja, antes de qualquer cirurgião ver o doente.
Ministério da Saúde, Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, protocolos AC30 e AC37; elaboração de agosto de 2014, com revisão de outubro de 2014 e de março de 2015 respectivamente
Analgesia sim, mas o paciente não sai da unidade sob efeito dela
O manual do Ministério da Saúde para unidades de emergência inclui a sedação da dor entre os quatro primeiros atos do atendimento à dor abdominal, se a dor for forte ou se o paciente assim desejar. Na mesma página, em nota destacada, determina que o paciente com dor abdominal que fez uso de analgésico seja mantido na unidade até passar o efeito do medicamento. A cautela não recai sobre dar o remédio, e sim sobre decidir o destino enquanto ele age.
Ministério da Saúde, Protocolos da Unidade de Emergência, série Normas e Manuais Técnicos, 10ª edição, Brasília, 2002, páginas de dor abdominal aguda
Analgesia e investigação devem ocorrer em paralelo. A resposta informa a evolução, mas não confirma benignidade nem determina sozinha alta. Não é necessário aguardar toda a medicação perder efeito para reexaminar ou decidir o destino. É necessário obter controle clínico sustentado, explicação plausível do quadro e seguimento seguro, sem ignorar sedação, sinais de gravidade ou diagnósticos ainda relevantes.
Peritonite evidente vai para a mesa, sem imagem
A diretriz de isquemia mesentérica recomenda, com grau 1C, laparoscopia ou laparotomia imediata para todo paciente com peritonite evidente. O argumento é que a decisão cirúrgica já está tomada pelo exame físico e que o tempo do exame de imagem é tempo perdido numa doença em que cada seis horas de atraso dobram a mortalidade.
World Society of Emergency Surgery, diretrizes atualizadas de isquemia mesentérica aguda, World Journal of Emergency Surgery, 2022, recomendação 9, grau 1C
Tomografia primeiro, porque ela muda a operação
A diretriz de úlcera péptica complicada recomenda, com grau 1C, tomografia no abdome agudo com suspeita de úlcera perfurada, e reserva a radiografia de tórax e abdome para quando não houver tomógrafo prontamente disponível. O argumento é que a tomografia caracteriza o local e o tamanho da perfuração, exclui outras causas e é mais sensível para ar livre — e que essas informações mudam a via de acesso e a técnica.
World Society of Emergency Surgery, diretrizes de úlcera péptica perfurada e sangrante, World Journal of Emergency Surgery, 2020, seção de diagnóstico, grau 1C
As duas recomendações saíram da mesma sociedade e deixam de brigar assim que se pergunta qual das cinco síndromes está sendo suspeitada. A pergunta que decide é: a imagem vai mudar o que se faz na sala, ou só o nome do que se vai encontrar. Se o paciente está instável, a imagem não muda nada e o destino é o centro cirúrgico. Se está estável e a suspeita é perfuração de víscera oca, a tomografia costuma mudar a via de acesso e vale o tempo. Se está estável e a suspeita é vascular, a angiotomografia não é um atraso: é o próprio diagnóstico, e sem ela não se sabe se o tratamento é cateter ou bisturi.
Lactato alterado é motivo para escalar a investigação
A diretriz reconhece que lactato elevado, leucocitose e D-dímero podem auxiliar, e registra que acidose láctica acompanhada de dor abdominal justifica angiotomografia precoce mesmo num paciente que não parece gravemente enfermo. Nessa leitura, o laboratório funciona como um segundo gatilho, que resgata o caso em que a desproporção clínica não foi percebida.
World Society of Emergency Surgery, isquemia mesentérica aguda, 2022, recomendação 4, grau 2B, e discussão da recomendação 5
O gatilho é clínico; o lactato chega tarde demais para ser gatilho
A mesma diretriz afirma que nenhum parâmetro laboratorial é suficientemente acurado para identificar de modo conclusivo alça isquêmica ou necrótica, que diferenciar isquemia precoce de lesão irreversível pelo nível de lactato isoladamente não é confiável, e que lactato acima de 2 mmol/L se associa a isquemia irreversível. A primeira recomendação do documento, de grau 1C, coloca o gatilho na desproporção clínica, e a quinta, de grau 1A, manda fazer angiotomografia sem demora.
World Society of Emergency Surgery, isquemia mesentérica aguda, 2022, recomendações 1 e 5, graus 1C e 1A, e discussão da recomendação 4
Para o paciente à sua frente, a diferença entre as duas posições aparece só quando elas são usadas na ordem errada. Colha o lactato — ele mede perfusão, acompanha a resposta ao volume e ajuda a graduar a gravidade. Mas não deixe que ele preceda o pedido de imagem em quem já tem a desproporção clínica, porque nesse paciente um lactato normal seria exatamente o esperado numa doença que ainda não infartou. E use a posição do laboratório como rede de segurança no sentido inverso: acidose láctica sem foco explicado, num paciente com dor abdominal e fator de risco vascular, é motivo para pedir a angiotomografia mesmo que a desproporção não tenha sido notada no primeiro exame.
O raciocínio, em voz alta
Volte às três macas da sala de observação, às 4h10 do sábado. Marlúcia Viveiros, 39 anos, dor há dois dias em fossa ilíaca direita, 38,1 °C, defesa localizada, dor à tosse. Tobias Goulart, 52 anos, dor epigástrica explosiva há duas horas e quarenta, abdome em tábua, imóvel na maca. Sinésio Carvalhais, 74 anos, 68 quilos, fibrilação atrial anticoagulada, dor periumbilical há cinco horas descrita como a pior da vida, abdome flácido, frequência de 112, pressão 108 por 62. O cirurgião desce em uma hora e meia; o tomógrafo estará pronto em vinte minutos. A Soledade espera a ordem.
o que os três recebem antes de qualquer ordem
Dieta zero, dois acessos venosos periféricos, sangue colhido na punção e sinais vitais completos medidos, não estimados. Isso leva o mesmo tempo para os três e não depende de saber qual é qual.
quem vai primeiro, e por quê
Sinésio. Ele tem a única combinação que autoriza pular a fila sem instabilidade franca: dor máxima com abdome mínimo, em paciente com fonte embólica declarada. É a apresentação que a primeira recomendação da diretriz de isquemia mesentérica manda assumir como isquemia até prova em contrário, e é a doença com o relógio mais curto dos três.
o que se faz com ele nos primeiros vinte minutos
Volume — cloreto de sódio 0,9% 1.000 mL abertos, com reavaliação de perfusão ao fim. Dipirona 1 g intravenosa, ou seja 2 mL da solução de 500 mg/mL, injetada em no mínimo dois minutos com ele deitado. Morfina 2 mg, isto é 0,2 mL da solução de 10 mg/mL, titulada de dez em dez minutos. Sonda nasogástrica. Ceftriaxona 1 g intravenosa. Angiotomografia de abdome com fase arterial, sem contraste oral, com a suspeita escrita no pedido. E o telefonema para o Gaspar antes do exame, não depois.
quem vai em segundo
Tobias. Ele já se classificou sozinho: dor explosiva com hora conhecida e abdome em tábua é síndrome perfurativa, e o relógio dele é de horas — cada hora de espera até a operação, dentro das primeiras vinte e quatro, custa 2,4% de probabilidade de sobrevida. A ordem é jejum absoluto, sonda nasogástrica, volume, ceftriaxona, analgesia e cirurgião avisado; o exame de imagem confirma e caracteriza, mas não segura o telefonema.
o exame que Tobias faz enquanto espera o tomógrafo
Radiografia de tórax em ortostase, com ele de pé por alguns minutos antes do disparo. Se houver ar sob a cúpula, o quadro está fechado o bastante para justificar exploração num serviço sem tomógrafo. Se não houver, isso não exclui nada — inclusive porque até 12% das perfurações têm tomografia normal, e a radiografia é menos sensível que ela.
quem vai por último, e o que ela ganha por isso
Marlúcia. Síndrome inflamatória com dor migratória, defesa localizada e febre é o quadro com o relógio mais longo dos três, e o que ela precisa nas próximas horas é analgesia adequada, exames dirigidos, ultrassom — ela é jovem e magra, e o ultrassom responde bem — e reexame com hora. Ser a última na fila não significa ser esquecida: significa entrar no ciclo de reavaliação de duas horas, com o exame escrito.
a armadilha do ultrassom dela
Se o laudo disser apêndice não visualizado, isso é exame equívoco e não exame normal. Diante de suspeita mantida, as saídas são tomografia, avaliação cirúrgica ou observação com reexame — nunca alta com o argumento de que o ultrassom não mostrou nada. A conduta detalhada da apendicite é do capítulo de apendicite aguda desta apostila.
o que muda se o lactato de Sinésio voltar normal
O lactato normal não muda a urgência: não exclui isquemia mesentérica e não permite concluir que o intestino esteja viável. Se elevado, também não demonstraria sozinho necrose irreversível. Comunico a suspeita cirúrgica e encaminho angiotomografia sem demora, mantendo suporte, analgesia e avaliações seriadas em paralelo.
o que muda se Tobias ficar hipotenso às cinco da manhã
Ele sai da fila de exame e vai para a sala. Instabilidade que só se sustenta com soro correndo é indicação cirúrgica por si, e o corredor do tomógrafo passa a ser o pior lugar do hospital para ele. Nesse cenário o telefonema muda de tom: não é mais um aviso, é um pedido de descida agora.
o que fica escrito às 6h20
Três exames abdominais com hora, um por paciente, na mesma régua do primeiro — distensão, ruídos, defesa, descompressão, dor à tosse, regiões inguinais, toque retal quando indicado. A hora de cada telefonema e o que o cirurgião orientou. A hora de cada dose de analgésico e a resposta a ela. E a síndrome presumida de cada um, nomeada, porque é o que o plantão seguinte vai usar para saber quem mudou de patamar durante a noite.
Faça você
Terça-feira, 15h40, pronto-socorro de hospital geral. Leopoldina Dornelas tem 68 anos, 61 quilos, e faz uso de prednisona 15 mg por dia há catorze meses por polimialgia reumática, além de anti-inflamatório por conta própria para uma dor no ombro. Chegou com dor abdominal difusa que começou pela manhã, hoje há oito horas. Está afebril, com frequência cardíaca de 106 e pressão de 118 por 70. Ao exame, o abdome é discretamente doloroso à palpação profunda, sem defesa, sem descompressão dolorosa, com ruídos presentes. O leucograma voltou em 6.200, sem desvio. A amilase é normal, o sumário de urina é normal e a creatinina é de 1,1 mg/dL. O plantonista da manhã escreveu na ficha: dor abdominal inespecífica, reavaliar em duas horas, provável alta.
por que a classificação sindrômica ainda não foi feita
A ficha traz um rótulo de exclusão — dor abdominal inespecífica — e não uma síndrome. Nenhum dos cinco padrões foi nomeado, e a razão é que os achados que os nomeiam estão todos ausentes: não há defesa, não há distensão, não há rigidez, não há instabilidade. Ausência de achado, nesta paciente, não é o mesmo que ausência de doença.
o dado da prescrição que muda tudo
Prednisona 15 mg por dia há catorze meses, somada a anti-inflamatório não esteroidal. A dupla faz duas coisas ao mesmo tempo: aumenta o risco de úlcera péptica e de perfuração, e bloqueia a resposta inflamatória que produziria defesa, febre e leucocitose. O leucograma de 6.200 e a ausência de febre, nela, não são argumentos.
qual síndrome se esconde aqui
A perfurativa. É a síndrome que se esconde no usuário crônico de corticoide, e o mecanismo do disfarce é farmacológico: a contratura da parede é reflexo inflamatório, e o corticoide desliga o reflexo. A literatura de úlcera perfurada registra que a peritonite localizada ou generalizada, embora típica, está presente em apenas dois terços dos pacientes — e a fração cai ainda mais quando a inflamação está bloqueada.
o achado que sobreviveu ao corticoide
A frequência cardíaca de 106 numa paciente afebril, com dor discreta e sem hipovolemia declarada. Taquicardia persistente sem causa aparente é o parâmetro que a imunossupressão não apaga, e por isso ela pesa mais que a palpação neste caso.
o que não resolve
Reavaliar em duas horas e repetir o leucograma. O exame físico foi retirado de campo pela própria medicação, de modo que o segundo exame vai ser tão pobre quanto o primeiro, e o segundo leucograma tão normal quanto o primeiro. Observar às cegas, aqui, é adiar sem coletar informação nova.
o que se pede, e com que palavras
Tomografia de abdome e pelve com contraste endovenoso, com a suspeita escrita no pedido: dor abdominal em usuária crônica de corticoide, pesquisa de pneumoperitônio e de perfuração de víscera oca. Se o serviço não tiver tomógrafo naquele turno, a radiografia de tórax em ortostase é a avaliação inicial — e ar livre nela, com essa história, já justifica a exploração.
o que se faz enquanto o exame não sai
Jejum absoluto, acesso venoso, volume, analgesia titulada com reavaliação registrada, e o cirurgião comunicado — não depois do resultado, mas junto com o pedido. Numa perfuração, cada hora de espera dentro das primeiras vinte e quatro custa 2,4% de probabilidade de sobrevida.
Continuidade do caso e prática do internato
Use os três abdomes da cena para praticar prioridade dinâmica: cada nova informação pode alterar quem precisa de intervenção primeiro.
Questão integrativa 1
Qual dos três pacientes da cena deve ser monitorizado primeiro?
Questão integrativa 2
Dor intensa e abdome pouco expressivo podem ser graves?
Questão integrativa 3
O lactato normal encerra essa hipótese?
Questão integrativa 4
Por que a reposição do abdome hemorrágico difere?
Questão integrativa 5
Dor refratária impede nova analgesia?
Questão integrativa 6
Como resumir o caso ao supervisor?
Ver como fecharíamos
O passo que falta não é um exame novo: é a reclassificação. A frase dor abdominal inespecífica só é legítima quando o exame físico ainda funciona como instrumento — e nesta paciente ele não funciona, porque a prednisona apagou os três sinais que produziriam a classificação. Reescreva a hipótese como abdome agudo de padrão perfurativo a esclarecer em paciente imunossuprimida, e a conduta se resolve sozinha: imagem precoce em vez de observação, cirurgião comunicado agora e alta proibida. Se a tomografia mostrar ar livre, ela vai para a mesa; se não mostrar e a taquicardia persistir, o exame se repete com contraste hidrossolúvel, porque até 12% das perfurações têm tomografia normal. O erro que se está desfazendo não é de diagnóstico — é de ter aplicado a régua do abdome que responde a um abdome que foi impedido de responder. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Aquele com maior risco imediato de disfunção ou deterioração. O rótulo da síndrome não estabelece prioridade fixa; repetir avaliação quando o quadro muda. 2. Sim. Isquemia mesentérica inicial pode ter poucos sinais peritoneais; risco vascular e evolução orientam investigação urgente. 3. Não. Sua normalidade não exclui isquemia inicial e não deve atrasar angio-TC indicada. 4. A perda de sangue exige controle da fonte e consideração de hemocomponentes. Cristaloide indiscriminado não repõe capacidade de transporte de oxigênio. 5. Não. Exige reavaliação urgente da causa enquanto a analgesia continua titulada com monitorização. 6. Descrever estado fisiológico, síndrome provável, diagnóstico perigoso a excluir, dados que sustentam a hipótese e próximo passo necessário.
Até 12% dos pacientes com perfuração de úlcera péptica podem ter tomografia normal, e a diretriz da World Society of Emergency Surgery de 2020 orienta, quando não se vê ar livre e a suspeita se mantém, repetir a imagem com contraste hidrossolúvel por via oral ou por sonda nasogástrica. História explosiva com hora conhecida e abdome em tábua não são desfeitos por um laudo negativo. Esperar um dia contraria a perda de 2,4% de probabilidade de sobrevida por hora de atraso cirúrgico observada nas primeiras vinte e quatro horas.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Sem consultar o capítulo, escreva de memória: as cinco síndromes com o modo de instalação de cada uma e o que cada uma faz com o abdome; quais três têm relógio curto e qual é a unidade de tempo de cada uma; a frase exata que define a desproporção entre dor e exame, e por que ela existe na isquemia e não na apendicite; as quatro formas de isquemia mesentérica com o perfil de paciente de cada uma; e as três situações em que a imagem não deve preceder a operação. Depois compare com as tabelas e marque o que faltou.
Em 30 dias
Retome as três macas da sala de observação e mude um dado por vez, explicando em voz alta que passo da conduta se desloca e por qual razão fisiológica isso acontece. Sinésio tem 38 anos em vez de 74 e nenhuma arritmia. Tobias está em uso de prednisona há um ano. Marlúcia está grávida de 26 semanas. O tomógrafo quebrou. O cirurgião não está no hospital e a transferência leva noventa minutos. Sinésio melhorou completamente da dor depois da morfina. Em cada variação, diga qual síndrome subiu e qual desceu na lista, e o que você escreveria no prontuário.
Agora atenda
Agora atenda: homem de 71 anos trazido ao pronto-socorro por dor abdominal difusa de início súbito há quatro horas, muito inquieto, referindo dor de intensidade máxima. Tem fibrilação atrial e parou o anticoagulante há três semanas por conta própria. Ao exame, abdome flácido, doloroso à palpação profunda, sem defesa e sem descompressão dolorosa, com ruídos hidroaéreos presentes. Frequência cardíaca de 118, pressão de 104 por 60, temperatura de 36,4 °C.
