Cirurgia GeralUrgência e Emergência Cirúrgica

O minuto que ele sabe de cor

Úlcera péptica perfurada e pneumoperitônio

Reconhecer perfuração mesmo quando a dor melhora ou a imagem não mostra ar livre; organizar suporte e avaliação cirúrgica sem atrasos evitáveis.

Fontes deste capítulo

Tarasconi A, Coccolini F, Biffl WL, et al. Perforated and bleeding peptic ulcer: WSES guidelines. World J Emerg Surg. 2020;15:3. doi:10.1186/s13017-019-0283-9

Coelho LGV, Sanches BSF, Maguilnik I, et al. Vth Brazilian Consensus Conference on Helicobacter pylori infection. Arq Gastroenterol. 2026;63:e26043. doi:10.1590/S0004-2803.24612026-043

Coelho LGV, Marinho JR, Genta R, et al. IVth Brazilian Consensus Conference on Helicobacter pylori infection. Arq Gastroenterol. 2018;55(2):97-121

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024

Ceftriaxona sódica, pó para solução injetável 1 g — bula do medicamento genérico. Momenta Farmacêutica / Eurofarma Laboratórios, registro 1.0043.0706

01

Responda antes de ler

Homem de 58 anos chega ao pronto-socorro com dor epigástrica que, segundo ele, começou às 14h10, de uma vez, enquanto trabalhava. No exame das 15h25 o abdome não acompanha a respiração e a parede está rígida, sem ceder à distração. Às 16h20 ele refere melhora espontânea da dor, de 9 para 5, sem ter recebido analgésico, e a esposa pergunta se pode levá-lo para casa. O leucograma voltou 9.800 e a radiografia ainda não foi realizada. Qual é a interpretação correta da melhora das 16h20?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira, quinze e vinte da tarde. O hospital é regional, de cento e vinte leitos, porta de entrada de oito municípios, e a referência estadual mais próxima está a duas horas de ambulância. O tomógrafo funciona e o técnico sai às sete da noite. Tem aparelho de raio-X fixo na radiologia e um portátil que vive na sala vermelha. O centro cirúrgico tem duas salas; a segunda está com o ar-condicionado quebrado desde sexta. Você é o interno escalado para o pronto-socorro clínico, e a cirurgiã de plantão, a Dra. Hedwiges Cachoeiro, está no ambulatório do outro prédio até as cinco.

Na maca 4 está Gualberto Paraibuna, 58 anos, mecânico de ônibus, 74 quilos. Entrou andando às quinze e cinco, sozinho, pálido, e a classificação de risco deu pulseira amarela: dor abdominal, 9 em 10, sem instabilidade. A ficha diz dor epigástrica. Quando você pergunta há quanto tempo, ele não responde em horas. Responde: quatorze e dez. Estava apertando um parafuso embaixo de um ônibus, sentiu como se tivesse levado uma facada no estômago, largou a chave inglesa e ficou uns minutos de quatro no chão da oficina até conseguir levantar.

Você examina às quinze e vinte e cinco. O abdome não se move com a respiração. A parede está dura, e não é a dureza de quem está com medo da sua mão: você conversa, distrai, pede que ele dobre os joelhos, e a parede continua igual. Ele não quer que a maca ande. Respira curto. A percussão sobre a região onde deveria haver macicez hepática dá um som mais claro do que deveria. Frequência cardíaca de 104, pressão de 132 por 84, temperatura axilar de 36,8 °C, saturação de 97%.

Você anota, pede exames, pede uma radiografia e vai atender os outros. Às dezesseis e vinte Gualberto chama e diz que melhorou. E melhorou mesmo: consegue mudar de posição na maca, a cara está menos fechada, a dor caiu para 5. A esposa, Apolinária Óbidos, pergunta se dá para ir embora e voltar amanhã, porque o filho está sozinho em casa. A radiografia ainda não foi feita — o técnico está fazendo uma bacia na emergência. O leucograma voltou 9.800.

É por causa das dezesseis e vinte que este capítulo existe. Não é o abdome em tábua das quinze e vinte e cinco, que qualquer um reconhece. É a hora em que um paciente com peritonite química de duas horas atravessa a fase em que o peritônio já reagiu a tudo o que tinha para reagir e a infecção bacteriana ainda não chegou — e fica melhor. A melhora é verdadeira: ele não está exagerando e você não examinou errado. Ela também não diz nada sobre o buraco, que continua do mesmo tamanho.

Na cama 7 da unidade de terapia intensiva, no andar de cima, está Orminda Redenção, 81 anos, 52 quilos, sexto dia de pós-operatório de fratura de fêmur, sedada, em ventilação mecânica e com noradrenalina desde ontem. Ela nunca vai dizer a hora de começo de coisa nenhuma. O que ela tem é uma dose de noradrenalina que subiu de 0,08 para 0,22 microgramas por quilo por minuto ao longo da madrugada, um débito de sonda nasogástrica que passou de 200 para 700 mL em doze horas e um abdome que a enfermeira do plantão anotou como distendido. Ela aparece neste capítulo pelo motivo oposto ao de Gualberto: nele, tudo o que o corpo tinha para dizer foi dito; nela, nada será.

Este capítulo começa depois da pergunta que o capítulo de dor abdominal no pronto-socorro, na apostila de Síndromes do Paciente na Emergência, ensina a fazer, e depois da classificação que o capítulo de abdome agudo em cinco síndromes, nesta mesma apostila, ensina a montar. Ele assume que a síndrome já foi nomeada como perfurativa, e se ocupa do que vem depois: por que este paciente perfurou, como se prova o ar, o que fazer nas primeiras horas quando não se prova, e o que se faz com a úlcera depois que o paciente sobreviveu a ela.

03

Quem adoece disso

A doença ulcerosa péptica é comum e a perfuração é rara — e essa distância entre as duas é o primeiro número que organiza o capítulo. A prevalência ao longo da vida na população geral fica entre 5% e 10%, com incidência anual de 0,1% a 0,3%, e as complicações aparecem em 10% a 20% dos portadores. Dentro dessas complicações, o sangramento domina o volume: incidência anual de 0,02% a 0,06% da população, contra 0,004% a 0,014% da perfuração. São todos números da diretriz da World Society of Emergency Surgery de 2020, que é o documento que governa este capítulo.

A raridade é enganosa, porque a letalidade inverte a ordem. A mortalidade em trinta dias, ponderada pelo tamanho das amostras, é de 8,6% no sangramento e de 23,5% na perfuração — quase três vezes maior. E o mesmo documento registra que a perfuração, sendo a complicação mais rara das duas, responde por cerca de 40% de todas as mortes por doença ulcerosa. Essa é a frase que explica por que existe um capítulo sobre uma doença que o interno vai ver poucas vezes: ele vai vê-la poucas vezes, e uma proporção alta dessas vezes vai morrer.

O relógio é a variável que mais muda o desfecho, e ele tem número. Uma coorte dinamarquesa de 2.688 pacientes com úlcera perfurada mostrou que, dentro das primeiras vinte e quatro horas depois da admissão, cada hora adicional entre admissão e cirurgia se associou, na análise ajustada, a redução relativa estimada de 2,4% na probabilidade de sobrevida; isso não é perda absoluta fixa nem previsão individual. Uma série independente encontrou mortalidade nula quando a operação aconteceu dentro de vinte e quatro horas do início dos sintomas, contra desfecho muito pior acima de quarenta e oito. Um estudo prospectivo de 101 pacientes operados por rafia com epíplon encontrou aumento de mortalidade pós-operatória quando o intervalo entre a perfuração e a cirurgia passou de trinta e seis horas, e um estudo de centro único encontrou aumento de fístula da sutura quando o atraso na apresentação passou de nove horas. O dado de 2,4% refere-se à associação ajustada observada em uma coorte para atraso entre admissão e cirurgia; não é perda absoluta fixa nem previsão individual e não conta desde o início da dor.

Quem morre não é aleatório. Uma revisão sistemática de 2010 reuniu cinquenta estudos, trinta e sete fatores prognósticos e 29.782 pacientes, e encontrou evidência forte de associação entre mortalidade e três coisas de história: idade avançada, comorbidade e uso de anti-inflamatório não esteroidal ou de corticoide. Somaram-se a essas, com associação a mau prognóstico, o choque na admissão, a acidose metabólica pré-operatória, a taquicardia, a insuficiência renal aguda, a albumina baixa, a classificação de estado físico alta e o atraso pré-operatório acima de vinte e quatro horas. Nenhum desses itens depende de tecnologia: os três primeiros se colhem na anamnese e os quatro seguintes, na primeira hora.

A morbidade dos que sobrevivem também é alta e mal lembrada: a mesma diretriz a situa entre 17% e 63%, e as complicações mais frequentes são pulmonares e de ferida operatória. Não é um detalhe de estatística. É a razão pela qual o preparo que o interno faz — descompressão gástrica, analgesia que permita respirar fundo, antibiótico no horário — muda alguma coisa mesmo quando não muda a decisão cirúrgica.

Por que as pessoas perfuram mudou de perfil nas últimas décadas, e a fotografia atual tem três causas. Um estudo multicêntrico coreano que acompanhou a doença ulcerosa de 2010 a 2019, citado pelo V Consenso Brasileiro de Helicobacter pylori, encontrou como principais fatores de risco a infecção por H. pylori em 41,8% dos casos, o uso de ácido acetilsalicílico ou de anti-inflamatório não esteroidal em 36,1%, e causa indeterminada em 22,1%. A bactéria continua sendo a principal causa isolada de úlcera gástrica e duodenal, e uma coorte prospectiva dinamarquesa de 2.416 adultos encontrou razão de chances de 4,3, com intervalo de confiança de 95% entre 2,2 e 8,3, para a associação entre a infecção e a úlcera.

Há um número que muda a conduta depois da operação e quase ninguém carrega: a perfuração espontânea de câncer gástrico ocorre em cerca de 1% dos portadores de câncer gástrico, mas entre 10% e 16% de todas as perfurações gástricas são causadas por carcinoma. Um em cada seis a dez furos no estômago não é uma úlcera péptica: é um tumor que se apresentou pela primeira vez como abdome agudo. É por isso que a úlcera gástrica perfurada tem uma pendência que a duodenal não tem, e ela se chama biópsia.

Por fim, a estatística que fecha a diferença entre este capítulo e o de hemorragia digestiva alta, na apostila de Cirurgia do Aparelho Digestivo. As duas complicações saem da mesma doença, do mesmo fator de risco e muitas vezes do mesmo paciente — e produzem dois quadros que não se parecem em nada, com dois relógios diferentes e duas mortalidades separadas por um fator de quase três. A parede em que a úlcera cava decide qual das duas o paciente vai ter, e isso é matéria do bloco seguinte.

04

Por que acontece o que acontece

Uma úlcera é uma perda de substância que atravessa a muscular da mucosa. Enquanto ela cava dentro da parede, é doença crônica. Quando alcança a serosa e a rompe, deixa de ser uma doença de mucosa e passa a ser um problema de cavidade: existe agora um canal aberto entre a luz do tubo digestivo e o peritônio, e tudo o que estava dentro passa a sair. É essa mudança de compartimento, e não a inflamação da úlcera, que produz o quadro clínico das próximas horas.

A direção em que a úlcera cava decide qual complicação o paciente vai ter, e essa é uma das poucas correlações anatômicas que resolvem uma dúvida clínica inteira. A parede anterior do bulbo duodenal não tem nada atrás de si a não ser a cavidade livre: uma úlcera que aprofunda ali sai para o peritônio e perfura. A parede posterior do mesmo bulbo tem a artéria gastroduodenal encostada nela: uma úlcera que aprofunda ali encontra vaso antes de encontrar cavidade, e sangra. A mesma doença, no mesmo paciente, com o mesmo fator de risco, produz o capítulo de hemorragia digestiva alta ou este, conforme a face em que o buraco se abriu.

O que acontece na cavidade não é infecção, e confundir as duas coisas é o erro conceitual que atrasa o diagnóstico. O que cai na cavidade tem pH de 1 a 2, e o peritônio não tem defesa contra isso: instala-se de imediato uma peritonite química, com a superfície inteira reagindo de uma só vez. Daí a dor ser instantânea e o paciente saber o minuto. A contratura da parede abdominal que vem em seguida é reflexa e involuntária — é o mesmo arco que protege qualquer superfície queimada, e não obedece à vontade do doente nem cede à distração. A contaminação bacteriana chega depois, em horas, alimentada pelo mesmo furo, e é uma segunda doença sobreposta à primeira.

A trégua é consequência direta dessa sequência de duas doenças e é o achado mais perigoso do capítulo. A peritonite química é um evento com começo e fim: o ácido que caiu na cavidade é diluído, tamponado e em parte reabsorvido, e as terminações peritoneais que dispararam de uma vez param de disparar com a mesma intensidade. Nas horas seguintes, antes de a população bacteriana crescer o bastante para produzir peritonite purulenta, existe uma janela em que a dor diminui de verdade. O paciente melhora, a família relaxa e a equipe reclassifica o caso para baixo — e nada no abdome mudou, exceto que o relógio andou.

O ar que sai pelo furo é a segunda coisa que a cavidade recebe, e ele obedece à física e não à doença. Gás é a substância menos densa dentro do abdome e sobe até encontrar teto. Com o paciente em pé ou sentado há alguns minutos, o teto da cavidade é a face inferior do diafragma, e é ali que o ar se acumula, numa faixa fina entre a cúpula e a superfície do fígado à direita ou a bolha gástrica à esquerda — é essa coleção de gás livre na cavidade que se chama pneumoperitônio. Com o paciente deitado de costas, o ponto mais alto passa a ser a parede abdominal anterior, e o ar se espalha por baixo dela em vez de formar faixa — a mesma quantidade de gás deixa de produzir a imagem que se procura. Em decúbito lateral esquerdo, o teto passa a ser o flanco direito, e o ar se junta entre o fígado e a parede lateral, que é uma interface tão boa quanto a diafragmática e muito mais tolerável para quem tem peritonite.

Nem toda perfuração produz ar visível, e as razões são quatro, todas mecânicas. O furo pode ser pequeno demais para deixar passar volume de gás relevante. O estômago pode estar vazio no momento da perfuração, com pouco ar para ceder. O omento maior, o fígado ou uma alça vizinha podem colar sobre o orifício e fechá-lo em poucos minutos — é a perfuração bloqueada, que sela o vazamento e retém tanto o conteúdo quanto o gás. E o paciente pode ter passado as últimas horas deitado, o que redistribui o pouco ar que saiu para uma posição em que a imagem não o mostra. Por isso a diretriz registra que o ar livre aparece na radiografia em uma faixa que vai de 30% a 85% das perfurações, conforme a série, e por isso uma radiografia limpa não desfaz uma história de dor explosiva.

Falta explicar por que este paciente perfurou, e são três mecanismos que se somam em vez de competir. O anti-inflamatório não esteroidal inibe a cicloxigenase-1 e com ela a produção de prostaglandinas da mucosa, que são o que mantém o muco, o bicarbonato e o fluxo sanguíneo da parede — a agressão ácida continua igual e a defesa cai. O corticoide não cria a úlcera sozinho, mas potencia o anti-inflamatório quando os dois andam juntos, e ainda apaga a defesa, a febre e a leucocitose que denunciariam a perfuração; esse duplo efeito é assunto do capítulo de abdome agudo em cinco síndromes, que o desenvolve. O H. pylori age por um caminho diferente e depende de onde ele coloniza: gastrite predominante de antro interfere na regulação do ácido e produz hipersecreção, entregando carga ácida maior ao duodeno e favorecendo a úlcera duodenal; pangastrite conduz à metaplasia que converte mucosa secretora em não secretora, e é sobre mucosa não secretora que a úlcera gástrica se instala. No paciente crítico soma-se um quarto mecanismo, que é o de Orminda: hipoperfusão esplâncnica prolongada, ventilação mecânica e vasopressor produzem lesão de mucosa por isquemia, e o furo aparece sem que ninguém tenha tido dor para relatar.

Tronco em corte sagital deitado e em pé, com gás livre junto à parede anterior ou sob o diafragma, respectivamente.
O gás livre tende a ocupar regiões não dependentes: junto à parede anterior no decúbito dorsal e sob o diafragma em ortostase. Posição, técnica e volume de gás influenciam sua detecção; exame sem pneumoperitônio visível não exclui perfuração. Ilustração anatômica, não radiografia.
05

Como se apresenta de verdade

A úlcera perfurada tem uma apresentação clássica que é verdadeira e uma frequência de exceções que quase ninguém carrega. A diretriz da World Society of Emergency Surgery registra que a peritonite localizada ou generalizada, embora típica, está presente em apenas dois terços dos pacientes. Ou seja: um em cada três chega sem o achado que o livro usa para definir a doença, e nesse terço o diagnóstico vai depender inteiramente da história e da decisão de pedir imagem sem ter o exame físico do lado.

As seis seções abaixo separam o que a doença escreve no paciente que responde e o que sobra no paciente que não pode responder. A triagem da dor abdominal indiferenciada — quem entra, quem espera, quem vai para a sala vermelha — pertence ao capítulo de dor abdominal no pronto-socorro, na apostila de Síndromes do Paciente na Emergência, e a comparação entre as cinco síndromes do abdome agudo pertence ao capítulo de abdome agudo desta apostila. O que segue começa depois dos dois.

O minuto exato, e como se pergunta por ele

A instalação em segundos é o achado de maior valor deste capítulo, e ele se perde por causa da pergunta errada. Quem pergunta há quanto tempo dói recebe uma estimativa, e estimativa é o que o paciente calcula depois — quatro horas, uma tarde, desde o almoço. A pergunta que devolve o dado é outra: o que o senhor estava fazendo quando começou. Quem tem perfuração responde com uma cena, e a cena carrega o horário. Gualberto respondeu quatorze e dez porque estava com uma chave inglesa na mão e teve de largá-la.

O valor do achado vem do mecanismo. Dor que cresce ao longo de horas é inflamação de parede de órgão, que precisa de tempo para alcançar o peritônio parietal. Dor que chega inteira em segundos é uma superfície extensa agredida de uma só vez, e no abdome só três coisas fazem isso: conteúdo que se derramou, sangue que se derramou ou um vaso que fechou. Dentro desse grupo pequeno, a úlcera perfurada é a que mais aparece na porta de um pronto-socorro geral.

Vale registrar também a topografia inicial e a migração. A dor começa no epigástrio, porque o estômago e o duodeno são intestino anterior e é ali que a dor visceral deles se projeta. Nas horas seguintes, o conteúdo derramado escorre pela goteira parietocólica direita e a dor se espalha para o quadrante inferior direito — e é assim que se produz uma das confusões mais caras do plantão, com a úlcera perfurada entrando pela porta como suspeita de apendicite. O detalhe que separa as duas está no começo: a apendicite migra de dor periumbilical mal localizada para dor localizada em algumas horas, e a úlcera perfurada começou forte, em cima, num minuto conhecido.

Dor referida ao ombro merece menção porque aparece cedo e é mal interpretada. Ar e conteúdo sob a face inferior do diafragma irritam a pleura e o peritônio diafragmáticos, que compartilham inervação com o ombro; o paciente reclama do ombro sem ter nada no ombro. O mecanismo geral da dor referida é assunto do capítulo de dor abdominal no pronto-socorro, e este capítulo usa o achado sem reescrever a explicação.

A trégua, e por que ela manda gente para casa

Entre a queimadura química e a infecção bacteriana existe um intervalo em que o paciente melhora, e ele é a razão principal de uma perfuração ser liberada do pronto-socorro. A melhora não é parcial nem duvidosa: a dor cai vários pontos, o paciente muda de posição sozinho, volta a conversar, pede água. Quem examinou às três da tarde e reexamina às cinco encontra um doente diferente, e a conclusão natural — melhorou, então não era grave — está errada por um motivo que nada no exame revela.

O que mudou foi o estímulo, não a lesão. A superfície peritoneal disparou de uma vez, adaptou-se e diluiu o que caiu; o orifício continua aberto e a contaminação continua entrando. A fase seguinte não é de melhora e sim de peritonite bacteriana, e ela chega com febre, taquicardia sustentada, distensão e piora franca — só que algumas horas depois, e muitas vezes já em casa.

A proteção contra esse erro não é examinar melhor: é registrar. Anote a hora do seu exame, o achado e a intensidade da dor, e anote de novo na reavaliação, na mesma posição e com a mesma mão. Uma melhora que acontece dentro de uma trajetória documentada é um dado; uma melhora avulsa, sem o exame anterior escrito, é uma impressão. E a regra que decide, no fim, é anterior a tudo isso: quem teve dor abdominal de instalação em segundos com abdome em tábua já tem indicação de avaliação cirúrgica, e a melhora subsequente não retira a indicação.

Há um segundo motivo de alta indevida que anda junto com a trégua, e é a analgesia bem-feita. Um opioide em dose adequada derruba a dor da peritonite química, e o paciente analgesiado parece melhor pelas mesmas duas horas. A conduta correta é analgesiar mesmo assim — o motivo está no bloco de conduta — e não usar a resposta à analgesia como argumento diagnóstico em nenhuma direção.

O abdome em tábua: o que é, e o que não é

A contratura da parede na perfuração é involuntária, sustentada e generalizada, e é a soma das três características que produz o abdome em tábua. Involuntária quer dizer que não cede quando o paciente relaxa, quando conversa, quando dobra os joelhos ou quando você distrai a atenção dele — e essa é justamente a manobra que separa a contratura verdadeira da defesa voluntária de quem está com medo ou com a mão gelada do examinador na barriga. Sustentada quer dizer que está lá em cada nova palpação, e não só na primeira. Generalizada quer dizer que a parede inteira participa, e não apenas o quadrante da lesão.

Junto com ela vêm sinais que o paciente produz sem ser perguntado e que valem tanto quanto a palpação: ele fica imóvel, com os joelhos dobrados, não quer que a maca ande, não quer tossir e respira curto, porque a excursão do diafragma dói. Um abdome que não acompanha a respiração num paciente acordado é peritonite até prova em contrário.

A percussão acrescenta um dado próprio quando há gás interposto: o som sobre a região onde deveria existir macicez hepática fica mais claro do que o esperado, porque há ar entre o fígado e a parede. É um achado de baixa sensibilidade — depende de volume suficiente de gás e da posição do paciente — e de especificidade razoável quando presente num abdome doloroso. Ele não substitui a imagem e não deve atrasá-la; serve para reforçar a suspeita em quem já a tem.

O que o abdome em tábua não é: não é sinal de gravidade proporcional, não é sinal de tamanho da perfuração e, sobretudo, não é sinal cuja ausência exclua a doença. A seção seguinte trata exatamente disso.

Os abdomes que não vão ficar em tábua

A rigidez de parede depende de três coisas: massa muscular para contrair, resposta inflamatória capaz de disparar o reflexo e um paciente acordado para senti-lo. Falta qualquer uma das três e a perfuração deixa de escrever no abdome. Por isso a lista de quem não faz abdome em tábua é uma lista de mecanismos, e não uma lista de doenças.

O idoso perde massa muscular de parede e tem resposta inflamatória atenuada, de modo que a contratura fica discreta e a febre e a leucocitose podem faltar. A diretriz é explícita quanto ao que isso implica na conduta: acima dos setenta anos a operação deve acontecer o mais cedo possível, com grau de recomendação forte, e é também nessa faixa que a conduta não operatória falha mais. O imunossuprimido não consegue montar peritonite exuberante por falta dos elementos celulares que a produzem, e pode manter o abdome flácido com a víscera já aberta. O usuário crônico de corticoide combina risco aumentado de perfurar com incapacidade de mostrar que perfurou, e essa dupla é desenvolvida no capítulo de abdome agudo desta apostila.

O paciente sedado é a versão extrema do problema, e é o caso de Orminda. Sob sedação e bloqueio, não há contratura possível e não há queixa possível; o que sobra são variáveis de máquina e de balanço. Piora hemodinâmica sem foco novo, necessidade crescente de vasopressor, aumento do débito da sonda nasogástrica, distensão abdominal nova, acidose metabólica que não se explica e queda do débito urinário formam o quadro que, no acordado, teria sido uma frase. Nesse paciente a imagem substitui o exame físico em vez de complementá-lo — e a decisão de pedi-la nasce da tendência dos números, não do abdome.

Dois grupos se somam por razões mecânicas. No obeso, a espessura da parede dificulta perceber a contratura à palpação. Na gestante de segundo e terceiro trimestres, o útero afasta as vísceras do peritônio parietal anterior e desloca a topografia, de modo que a dor muda de lugar e a defesa fica atenuada. Nos dois casos vale a mesma regra: exame pobre não é abdome normal, e o que decide passa a ser a história.

A frase que resume a seção e que vale escrever no prontuário: neste paciente, a ausência de defesa não afasta perfuração, e a decisão está sendo tomada pela história e pela imagem.

O que chega parecendo outra coisa

Dor epigástrica súbita e intensa com sudorese e mal-estar tem um diferencial que não é abdominal e que precisa ser resolvido antes de qualquer outra coisa: o infarto agudo do miocárdio de parede inferior, que compartilha aferentes com o epigástrio e entra pela porta como dor de estômago. Em qualquer paciente acima de quarenta anos com essa apresentação, o eletrocardiograma vem primeiro — não porque a hipótese cardíaca seja a mais provável, mas porque é a que muda a conduta imediata na direção oposta e a que causa dano se for perdida.

A pancreatite aguda divide com a úlcera perfurada a dor epigástrica intensa e a amilase elevada, e a semelhança é maior do que o esperado porque a perfuração de víscera oca também eleva amilase. Amilase alta, portanto, não fecha pancreatite; e a conduta da pancreatite propriamente dita está no capítulo de pancreatite aguda desta apostila. A cólica biliar e a colecistite aguda vêm com dor de instalação mais lenta e fixação em hipocôndrio direito, e têm capítulo próprio aqui. A dissecção de aorta entra pela mesma porta em quem tem dor migratória e assimetria de pulsos.

Há ainda o inverso, que é a perfuração chegando com o nome de outra doença. Dor em fossa ilíaca direita algumas horas depois de uma dor epigástrica súbita é úlcera perfurada com escorrimento pela goteira, e não apendicite; quem só ouve a queixa atual perde o começo. E dor abdominal difusa com abdome pouco impressionante em idoso com fibrilação atrial é isquemia mesentérica, que corre em outro relógio e cuja abordagem inicial está no capítulo de abdome agudo desta apostila.

Quando a perfuração se bloqueia

Uma parte das perfurações fecha sozinha em minutos, quando o omento maior, o fígado ou uma alça vizinha colam sobre o orifício. O quadro que resulta é intermediário e enganoso: houve o começo em segundos, houve dor forte, mas a peritonite fica localizada em vez de generalizada, o abdome não vai a tábua e o paciente estabiliza. É a perfuração bloqueada, e ela é a única situação em que a diretriz admite discutir tratamento sem operação.

Admitir não é recomendar. O texto é explícito ao sugerir contra o uso rotineiro da conduta não operatória, reservando-a a casos extremamente selecionados em que o bloqueio esteja confirmado por estudo com contraste hidrossolúvel — se há extravasamento livre de contraste, a operação é necessária. Os pré-requisitos que o próprio documento lista são vazamento não detectável na imagem, exame clínico repetido, exames laboratoriais repetidos, suporte respiratório e renal, recursos de monitorização e prontidão para operar. A conduta não operatória, quando escolhida, inclui jejum, hidratação venosa, descompressão por sonda nasogástrica, antissecretor e inibidor de bomba de prótons, antibiótico venoso e endoscopia de seguimento em quatro a seis semanas.

Duas advertências fecham a seção, e as duas mudam o que o interno faz. A primeira: a decisão de não operar não é do interno e não é da enfermaria — é do cirurgião, num serviço com condição de reoperar imediatamente, e num paciente que se comprometeu a ficar sob vigilância. A segunda: acima dos setenta anos a falha da conduta conservadora cobra caro, e o próprio documento recomenda cautela nessa faixa, porque quem falha depois de ter esperado chega à sala em condição pior do que teria chegado no começo.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação da úlcera perfurada responde a uma única pergunta — há ar livre, e de onde ele veio — e o erro mais comum não é pedir o exame errado, e sim interpretar o exame normal como resposta negativa. As seis seções abaixo separam o que cada exame responde, o que ele não responde, e o que se faz quando ele vem limpo e a história continua a mesma.

A leitura sistemática da radiografia de tórax, com o método completo de avaliar penetração, inspiração, rotação e cada campo, é assunto do capítulo de radiografia de tórax na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito. Este capítulo não reescreve o método: usa-o e trata só do que é próprio da procura por ar livre.

A radiografia: qual incidência, com o paciente em que posição

A diretriz recomenda radiografia de tórax e abdome como avaliação diagnóstica inicial de rotina quando a tomografia não está prontamente disponível, com recomendação forte. E registra um dado técnico que muda a prática: a radiografia em ortostase e a radiografia em decúbito lateral esquerdo têm acurácia diagnóstica semelhante, sendo a segunda mais bem tolerada por quem chega com peritonite.

A equivalência entre as duas resolve um problema real de plantão. O paciente com abdome em tábua muitas vezes não fica de pé, e forçá-lo a ficar produz um exame ruim e um sofrimento inútil. Em decúbito lateral esquerdo, com o lado esquerdo para baixo, o teto da cavidade passa a ser o flanco direito e o gás se junta entre o fígado e a parede lateral — interface tão nítida quanto a diafragmática, sem bolha gástrica por perto para confundir. É por isso que essa é a incidência do paciente que não levanta, e é ela que se pede quando a alternativa seria uma radiografia deitado de costas.

A radiografia feita em decúbito dorsal, que é a que sai do aparelho portátil na maca, é a menos capaz de mostrar ar livre, porque nessa posição o gás se espalha sob a parede anterior em vez de se acumular numa faixa. Pedir portátil deitado num paciente que poderia ficar sentado ou em decúbito lateral é trocar o exame por um exame pior sem ganhar tempo.

Quanto tempo o paciente deve permanecer na posição antes do disparo é uma pergunta que a diretriz não responde: ela nomeia as duas incidências e compara a acurácia delas, e não fixa intervalo. O que se pode dizer com segurança é o que decorre do mecanismo descrito no bloco anterior — o gás precisa de algum tempo para subir até o ponto mais alto da cavidade, e um filme disparado no instante em que o paciente muda de posição mede a distribuição anterior, não a nova. Deixar o paciente alguns minutos na posição escolhida antes do disparo é leitura deste capítulo a partir da física do gás, e não recomendação copiada de documento.

Radiografia limpa, história igual: o que se faz

Esta é a seção que o capítulo existe para escrever. Ar livre aparece na radiografia numa faixa que vai de 30% a 85% das perfurações, conforme a série — variação enorme, e é a própria diretriz que registra que essa alta variabilidade, somada ao fato de que a radiografia negativa não afasta perfuração, levou vários autores a sustentar que, diante de sinais claros de peritonite, a tomografia deveria ser o primeiro exame.

Portanto: uma radiografia sem ar livre num paciente que descreve dor explosiva com hora conhecida e tem abdome em tábua não muda nada. Não muda a hipótese, não muda a urgência e não muda o telefonema. O que ela muda é apenas a expectativa de encontrar gás naquele filme.

O caminho seguinte tem duas bifurcações. Se há tomógrafo, o próximo exame é a tomografia, e é ela que a diretriz recomenda como exame de escolha na suspeita de úlcera perfurada. Se não há, o paciente com história compatível e sinais de peritonite ao exame já tem indicação de avaliação cirúrgica com o que se tem — e a decisão passa a ser sobre operar ali ou transferir, não sobre repetir imagem.

Existe ainda o recurso do contraste hidrossolúvel administrado por via oral ou pela sonda nasogástrica, que a diretriz sugere quando a imagem não mostra ar e a suspeita persiste. Ele serve para duas coisas: mostrar extravasamento onde não havia gás visível, e — no sentido inverso — documentar que a perfuração se bloqueou, que é o pré-requisito da única conduta não operatória admitida. É contraste hidrossolúvel, nunca bário: bário derramado na cavidade peritoneal produz peritonite química própria e persistente.

A tomografia, e os doze por cento que ela não mostra

A tomografia é o exame recomendado na suspeita de úlcera perfurada, com recomendação forte, porque é mais sensível para gás livre do que a radiografia e porque responde a três perguntas de uma vez: onde é a perfuração, que tamanho ela tem, e o que mais poderia explicar o quadro. As duas primeiras respostas mudam a via de acesso e a técnica na sala, e é isso que justifica o tempo do exame no paciente estável.

Os achados que se procuram vão além do pneumoperitônio: líquido intraperitoneal sem explicação, espessamento de parede de alça, borramento da gordura mesentérica e contraste hidrossolúvel fora da luz. É comum o laudo nomear apenas o gás, e vale ler o exame junto com o radiologista quando a suspeita é forte e o gás não apareceu.

O número que muda conduta e quase ninguém decora está aqui: até 12% dos pacientes com perfuração têm tomografia normal. Diante de tomografia sem ar livre e suspeita mantida, a saída indicada pela própria diretriz é repetir o exame com contraste hidrossolúvel oral ou pela sonda, o que melhora sensibilidade e especificidade. Aceitar o laudo negativo como exclusão é o erro que custa horas num relógio que mostra associação entre atraso e pior desfecho.

Duas situações dispensam a tomografia. A primeira é o paciente instável: quem tem hipotensão que não responde e peritonite generalizada vai para a sala, e a imagem que se faz é a que cabe dentro da sala de emergência. A segunda é a perfuração com ar livre já documentado na radiografia num serviço sem tomógrafo — a diretriz admite explicitamente que ar livre associado a história compatível e sinais de peritonite ao exame é suficiente para justificar a exploração cirúrgica. O ultrassom à beira do leito pode detectar gás livre nas mãos de operador treinado, mas o papel dele nessa investigação, diz o mesmo documento, ainda precisa ser definido.

O laboratório que não fecha e não afasta

A diretriz recomenda exames laboratoriais de rotina e gasometria arterial em todo paciente com suspeita de perfuração gastroduodenal, e ao mesmo tempo registra que os testes laboratoriais são inespecíficos — leucocitose, acidose metabólica e amilase elevada costumam acompanhar a perfuração, sem que nenhum dos três a defina. Os exames servem para medir o paciente, não para fazer o diagnóstico.

O que eles medem tem consequência. A acidose metabólica pré-operatória, a insuficiência renal aguda e a albumina baixa aparecem na revisão sistemática de fatores prognósticos como associadas a mau desfecho — e a albumina baixa foi apontada como o preditor isolado mais forte de mortalidade entre os índices avaliados. Um resultado desses não muda a indicação cirúrgica; muda quem você chama, com que urgência, e o que você diz à família.

O caminho contrário é o que custa vida: usar leucograma normal para fechar a porta. O leucograma de Gualberto voltou 9.800 às dezesseis horas, e isso é esperado numa perfuração de duas horas — a leucocitose é resposta à infecção bacteriana, que ainda não instalou. Laboratório limpo nas primeiras horas de uma perfuração é a regra, não a exceção.

Vale colher lactato e hemoculturas em quem tem sinais de sepse, e coletar cultura de líquido peritoneal na sala. A diretriz recomenda a coleta de amostras para análise microbiológica de bactérias e de fungos em todos os pacientes operados, com ajuste posterior do antibiótico — e a razão de incluir fungo é forte: infecção fúngica após perfuração é comum, e cultura peritoneal positiva para fungo associou-se a internação mais longa, mais infecção de sítio cirúrgico e mais mortalidade.

Os escores, e o que a própria diretriz diz sobre eles

A diretriz sugere adotar sistemas de escore para estratificar risco e prever desfecho na úlcera perfurada, citando nominalmente o Boey, o PULP e a classificação de estado físico da sociedade americana de anestesiologia. A recomendação é fraca, com base em evidência de baixa qualidade.

Vale ler o parágrafo que sustenta a recomendação, porque ele diz outra coisa. O texto registra que o Boey é o mais usado, mas mostrou variabilidade elevada de acurácia entre os estudos em que foi testado; que o PULP é difícil de aplicar e ainda não foi validado fora do centro que o criou; e que o PULP novo e a classificação de estado físico previram mortalidade igualmente bem e melhor do que o Boey. A recomendação, porém, lista o Boey primeiro. É um caso em que a ordem da frase e o conteúdo do argumento não coincidem, e a nota de auditoria do bloco de critérios trata disso.

Para o interno, a consequência prática é curta. Nenhum desses escores decide se opera: quem tem pneumoperitônio significativo, extravasamento de contraste ou sinais de peritonite tem indicação operatória por recomendação forte, independentemente de escore. O que os escores fazem é dizer o tamanho do risco — e o preditor isolado mais forte, segundo o próprio texto, continua sendo a hipoalbuminemia. Escore serve para a conversa com a família e para a preparação, não para a indicação.

O que se escreve no pedido e no prontuário

O pedido de imagem que funciona tem quatro elementos e cabe em duas linhas: a hipótese nomeada, o achado que a sustenta, a hora de início dos sintomas e a pergunta. Escrever pesquisa de pneumoperitônio e de perfuração de víscera oca em paciente com dor epigástrica de início súbito às 14h10, com abdome em tábua, faz o radiologista procurar gás em vez de descrever alças. Escrever dor abdominal a esclarecer devolve um laudo genérico.

No prontuário, quatro horários valem mais do que qualquer descrição: a hora de início dos sintomas relatada pelo paciente, a hora do seu exame, a hora em que o cirurgião foi comunicado e a hora do contato com a regulação, quando ela existe. Esses quatro horários são o que permite alguém depois reconstruir se o relógio foi respeitado — e são a mesma coisa que a coorte dinamarquesa mediu para chegar aos 2,4% por hora. O dado de 2,4% refere-se à associação ajustada observada em uma coorte para atraso entre admissão e cirurgia; não é perda absoluta fixa nem previsão individual e não conta desde o início da dor.

Registre também, com essas palavras, o que a ausência de um achado significa neste paciente. Uma linha do tipo abdome sem defesa em paciente sedada, exame físico não avaliável, decisão apoiada na história e na imagem faz mais pelo próximo plantonista do que meia página de descrição de sistemas — porque diz não só o que se encontrou, mas o valor que o achado tem naquele corpo.

07

De quem é a régua aqui, e onde ela se contradiz

O cuidado tem duas etapas: controlar a urgência da perfuração e tratar a doença ulcerosa após a recuperação. As tabelas organizam as decisões, os esquemas e a leitura das apresentações. O plano de alta precisa incluir as pendências de investigação e o seguimento, para que o atendimento não termine na operação.

  1. 11. Investigue início, localização e evolução da dor. Início súbito com horário preciso é pista importante de perfuração, mas também ocorre em outros eventos agudos; não é característica exclusiva.
  2. 22. Exame do abdome com a hora anotada: contratura involuntária que não cede à distração define peritonite. Ausência dela não afasta nada em idoso, imunossuprimido, usuário de corticoide, sedado, obeso ou gestante.
  3. 33. Eletrocardiograma primeiro se a dor é epigástrica e o paciente tem mais de 40 anos ou fatores de risco — o infarto de parede inferior entra por esta porta.
  4. 44. Jejum absoluto, dois acessos, sonda nasogástrica, volume com alvo escrito e analgesia titulada. Nada disso espera confirmação de ar livre.
  5. 55. Telefonema ao cirurgião com idade, hipótese, achado, hora de início e o que já foi feito — antes do resultado de qualquer exame.
  6. 66. Antibiótico de amplo espectro o mais cedo possível, cobrindo gram-negativo, gram-positivo e anaeróbio. Culturas de líquido peritoneal para bactéria e fungo colhidas na sala.
  7. 77. Imagem: tomografia com contraste endovenoso no estável, quando disponível; radiografia em ortostase ou em decúbito lateral esquerdo quando não houver tomógrafo. Nenhuma imagem fora da sala no instável.
  8. 88. Imagem sem ar livre e história igual: contraste hidrossolúvel por via oral ou pela sonda, nunca bário. Até 12% das perfurações têm tomografia normal, e o ar aparece na radiografia em 30% a 85% delas.
  9. 99. Ar livre com história compatível e peritonite ao exame já basta para justificar exploração cirúrgica, inclusive em serviço sem tomógrafo.
  10. 1010. Depois da operação: planejar avaliação histológica de úlcera gástrica conforme achado e estratégia cirúrgica/endoscópica, retirar fatores de risco e pesquisar H. pylori. Confirmar erradicação e programar endoscopia de controle quando indicada; obter biópsia não deve comprometer a segurança do reparo.

Da dose ao frasco: as drogas deste capítulo num homem de 74 kg

Fármaco e para quêDose da fonteO que a Rename 2024 ofereceA conta em unidades por diaO que trava
Ceftriaxona — infecção intra-abdominal comunitária2 g a cada 24 h (diretriz de úlcera complicada, esquema para não gravemente enfermo)Pó para solução injetável de 250 mg, 500 mg e 1 g, Componente Básico2 frascos-ampola de 1 g por dia; cada frasco reconstituído com 10 mL de água para injetáveis dá 10,72 mL a cerca de 93,3 mg/mLA bula manda administrar por via endovenosa lenta, em 2 a 4 minutos, ou em infusão de pelo menos 30 minutos, e proíbe diluir no mesmo frasco com aminoglicosídeo, vancomicina ou fluconazol
Metronidazol — cobertura de anaeróbio no mesmo esquema500 mg a cada 6 h por via endovenosaComprimido de 250 mg e de 400 mg; gel vaginal; suspensão oral de benzoilmetronidazolPela via oral seriam 2 comprimidos de 250 mg por tomada, 8 por diaA forma injetável está fora do elenco nacional, e o paciente em jejum absoluto com sonda em drenagem não tem por onde receber a via que existe
Omeprazol — antissecretorDose padrão de 32 a 40 mg de equivalente de omeprazol, duas vezes ao dia (V Consenso Brasileiro)Cápsula de 10 mg e de 20 mg, Componente Básico2 cápsulas de 20 mg por tomada, duas tomadas: 4 cápsulas e 80 mg por diaNão há apresentação injetável de nenhum inibidor de bomba no elenco; e 80 mg por dia é quatro vezes a dose que a bula do omeprazol autoriza ao adulto para úlcera gástrica
Amoxicilina — erradicação de H. pylori1.000 mg duas vezes ao dia, por 14 diasCápsula e comprimido de 500 mg, Componente Básico2 unidades por tomada, 4 por dia, 56 em 14 diasCerca de 10% da população se declara alérgica a penicilina e menos de 5% desses têm alergia verdadeira, segundo o próprio consenso — o rótulo mal conferido tira do paciente o antibiótico mais eficaz do esquema
Claritromicina — erradicação de H. pylori500 mg duas vezes ao dia, por 14 diasComprimido de 250 mg e de 500 mg, cápsula de 500 mg, Componente Básico1 comprimido de 500 mg por tomada, 2 por dia, 28 em 14 diasConsta com classificação AWaRe de Alerta; e é justamente a resistência crescente a ela que motivou a mudança de régua em 2026
Metronidazol — erradicação, esquema concomitante500 mg quatro vezes ao dia, por 14 diasComprimido de 250 mg e de 400 mg2 comprimidos de 250 mg por tomada, 8 por dia, 112 em 14 diasSomando os quatro fármacos do esquema concomitante nas apresentações do elenco, o paciente engole 18 unidades por dia e 252 no tratamento inteiro — a adesão é o problema clínico, não a disponibilidade
Subcitrato de bismuto — primeira linha preferida240 mg duas vezes ao dia, por 10 a 14 diasFora do elenco nacionalSem conta possível pela via do SUSO próprio consenso registra que no Brasil os sais de bismuto ainda só se obtêm por farmácia de manipulação — o que retira do SUS exatamente o esquema que ele elege como preferencial
Tetraciclina — quádruplo com bismuto500 mg quatro vezes ao diaCloridrato de tetraciclina, cápsula de 500 mg, Componente Básico4 cápsulas por dia, 56 em 14 diasO consenso registra em nota de rodapé que a doxiciclina não é substituição recomendada para a tetraciclina, e a doxiciclina é a que o elenco tem em forma injetável

Operar agora, operar depois, não operar: o que decide e com que grau

SituaçãoO que a diretriz recomendaGrau declaradoO que o interno faz
Pneumoperitônio significativo, extravasamento de contraste ou sinais de peritoniteTratamento operatórioRecomendação forte, evidência de baixa qualidade (1C)Comunica o cirurgião, prepara o paciente e não pede mais nenhum exame para confirmar o que já está confirmado
Paciente com apresentação tardia, ou com mais de 70 anosOperar o mais cedo possívelRecomendação forte, evidência de qualidade moderada (1B)Trata o horário do telefonema como parte da conduta e registra o intervalo entre o início dos sintomas e o contato
Paciente instável, com peritonite e choqueRessuscitação rápida, idealmente em 1 hora, simultânea à consulta cirúrgica, às culturas e ao antibiótico; cirurgia abertaRecomendação forte, evidência de baixa (1C) e de muito baixa qualidade (1D) para a via abertaFaz volume, antibiótico, culturas e telefonema ao mesmo tempo, não em sequência, e retira o paciente da fila da imagem
Paciente estável, com habilidade e equipamento disponíveisAbordagem laparoscópica; via aberta quando faltarem habilidade ou equipamentoRecomendação fraca, evidência de qualidade moderada (2B)Não decide a via, mas sabe que ela existe e que a diferença medida foi menos dor nas primeiras 24 h e menos infecção de ferida, sem diferença de mortalidade nem de fístula
Perfuração menor que 2 cmRafia primária; sem recomendação sobre acrescentar o retalho de epíplonRecomendação fraca, evidência de baixa qualidade (2C)Reconhece que o retalho é opção e não obrigação, e que o assunto está aberto — é uma das divergências deste capítulo
Perfuração de 2 cm ou maisAbordagem individualizada pela topografia; na úlcera gástrica grande com suspeita de malignidade, ressecção com exame anatomopatológico de congelação sempre que possível; duodenostomia apenas em circunstância extremaRecomendação fraca, evidência de muito baixa qualidade (2D)Sabe por que a úlcera gástrica grande muda a operação: de 10% a 16% das perfurações gástricas são causadas por carcinoma
Choque séptico com desarranjo fisiológico graveEstratégia de controle de danos, com anastomose evitada na vigência de hipotensão ou de vasopressorRecomendação fraca, evidência de muito baixa qualidade (2D)Antecipa que o paciente pode voltar da sala com abdome aberto e prepara a conversa com a família para essa possibilidade
Perfuração bloqueada, confirmada por estudo com contraste hidrossolúvel, em paciente estável e sem peritoniteSugestão contra o uso rotineiro da conduta não operatória; ela cabe em casos extremamente selecionadosRecomendação fraca, evidência de baixa qualidade (2C)Não é decisão do interno. O que cabe a ele é garantir os pré-requisitos: exame repetido, laboratório repetido, monitorização e prontidão para operar

Os esquemas de primeira linha do V Consenso Brasileiro e o que o SUS entrega de cada um

EsquemaComposição e duraçãoQualidade da evidência declaradaO que o elenco nacional entrega
Quádruplo com bismuto clássicoSubcitrato de bismuto 240 mg duas vezes ao dia, tetraciclina 500 mg quatro vezes ao dia, metronidazol de 400 a 500 mg quatro vezes ao dia e inibidor de bomba em dose padrão duas vezes ao dia, por 10 a 14 diasForte, evidência de qualidade moderadaTrês dos quatro componentes constam. Falta o bismuto, que é justamente o que dá nome ao esquema e o que o consenso credita por superar a resistência
Quádruplo com bismuto, claritromicina e amoxicilinaSubcitrato de bismuto 240 mg duas vezes ao dia, claritromicina 500 mg duas vezes ao dia, amoxicilina 1.000 mg duas vezes ao dia e inibidor de bomba em dose padrão duas vezes ao dia, por 14 diasFraca, evidência de baixa qualidadeTrês dos quatro componentes constam; falta o mesmo bismuto
Tríplice com claritromicina e amoxicilina, com bloqueador competitivo de potássioClaritromicina 500 mg e amoxicilina 1.000 mg, ambas duas vezes ao dia, com vonoprazana 20 mg duas vezes ao dia, por 14 diasFraca, evidência de baixa qualidadeOs dois antibióticos constam; o bloqueador competitivo de potássio não faz parte do elenco nacional
Dual com amoxicilina em dose altaAmoxicilina de 750 a 1.000 mg três ou quatro vezes ao dia, com inibidor de bomba em dose alta três ou quatro vezes ao dia ou com bloqueador competitivo de potássio, por 14 diasFraca, evidência de baixa qualidadeA amoxicilina consta; o inibidor de bomba consta apenas em cápsula de 10 e 20 mg, e a dose alta que o consenso define fica muito acima do que a bula do omeprazol autoriza ao adulto
Concomitante com claritromicina, amoxicilina e metronidazolClaritromicina 500 mg duas vezes ao dia, amoxicilina 1.000 mg duas vezes ao dia, metronidazol 500 mg quatro vezes ao dia e inibidor de bomba em dose padrão duas vezes ao dia, por 14 diasFraca, evidência de baixa qualidadeÉ o único dos cinco inteiramente montável com o elenco nacional. O consenso o indica onde o bismuto e o teste de sensibilidade não estão disponíveis e onde a resistência à claritromicina é alta — que é a descrição do Brasil

Incidência e letalidade. São medidas diferentes: uma descreve novos episódios, a outra, mortes entre os acometidos. Faixas de populações distintas não devem ser multiplicadas ou somadas como se pertencessem à mesma coorte. O objetivo aqui é compreender a gravidade da perfuração, sem transformar médias em prognóstico individual.

Dose por peso. A unidade “mg/kg/dia” não pode ser reduzida a “mg/dia”. No exemplo da anfotericina B lipossomal a 3–5 mg/kg/dia em um paciente de 74 kg, o total corresponde a 222–370 mg/dia. A formulação também precisa permanecer explícita; a conta não constitui indicação de antifúngico para todo paciente.

Escores de risco. Boey, PULP e classificação de estado físico descrevem aspectos do risco, com limitações diferentes. A ordem em que aparecem num documento não estabelece superioridade. Relacione o resultado ao estado clínico e aos dados disponíveis, incluindo o estado nutricional.

Depois da urgência. O cuidado com a úlcera continua após o controle da perfuração. Registre o plano de investigação de H. pylori, o momento do teste e o responsável pelo seguimento. O capítulo de doença ulcerosa e H. pylori aprofunda os esquemas e a confirmação de cura.

Disponibilidade e via. O paciente em jejum pode precisar de uma apresentação que não aparece na mesma lista dos medicamentos orais. Confira a padronização hospitalar do antissecretor e dos antimicrobianos; presença do nome na Rename não garante todas as formas farmacêuticas.

Dose por tomada e dose diária. Expressões como “dose alta” precisam ser acompanhadas do fármaco, da quantidade por tomada e da frequência. Não multiplique uma definição de dose de uma tabela pela frequência de outro regime sem conferir se descrevem o mesmo esquema.

Bismuto e apresentações combinadas. Miligramas de sais diferentes não correspondem automaticamente à mesma quantidade de bismuto elementar. A cápsula combinada também contém doses próprias dos outros antimicrobianos. Não converta apresentações apenas pelo número de miligramas impresso ao lado do sal.

Reconstituição. O pó contribui para o volume final. No exemplo citado da ceftriaxona, 10 mL de diluente resultam em aproximadamente 10,72 mL, com concentração em torno de 93,3 mg/mL. Diferencie volume adicionado, volume final e quantidade de base indicada no rótulo.

Esquema completo. Nomear três fármacos não basta para prescrever: registre quantidade, frequência, duração e condição de eventual substituição. A comparação entre consensos serve para identificar o esquema adotado, não para combinar partes de recomendações diferentes.

Plano de alta. Explique como obter os medicamentos, como tomá-los e quando conferir o resultado. A disponibilidade de uma formulação, incluindo a necessidade de manipulação descrita para o bismuto, integra a viabilidade do plano e deve ser discutida antes da saída.

Teste de controle. O preparo do exame precisa considerar a interferência dos medicamentos e respeitar os intervalos de suspensão já descritos no percurso. Oriente o paciente sobre o momento de realizar o teste.

08

A conduta, hora a hora

As prescrições exemplificam o cuidado de Gualberto, 74 kg, e precisam ser conferidas conforme função renal, alergias e resposta. O interno participa da avaliação, comunica a suspeita e organiza medidas sob supervisão. Dados de coorte associam atraso entre admissão e cirurgia a pior sobrevida; não permitem calcular a chance individual a cada hora nem transformar início da dor e admissão no mesmo marco.

Duas regras atravessam todos os marcos. A primeira é que o telefonema ao cirurgião não espera resultado de exame nenhum. A segunda é que nada do que está aqui — jejum, sonda, volume, analgesia, antibiótico — depende da confirmação do ar livre; tudo isso se faz na suspeita, e se desfaz depois se a suspeita cair.

  1. Minuto 0 a 5 — a decisão que precede o diagnóstico

    Antes de qualquer prescrição, uma decisão administrativa: este paciente não sai. Dor abdominal de instalação em segundos com hora conhecida, em paciente com abdome rígido, já é indicação de avaliação cirúrgica, e a melhora nas horas seguintes não a retira. Escreva no prontuário, com essa palavra, que a alta está contraindicada até avaliação do cirurgião — porque a trégua vai chegar e alguém vai perguntar se pode ir embora. Ao mesmo tempo, faça a triagem de gravidade: procure hipotensão, taquipneia, alteração do nível de consciência e má perfusão. A diretriz recomenda, com grau forte e evidência de qualidade moderada, o reconhecimento precoce da sepse associada à úlcera perfurada para evitar disfunção orgânica e reduzir mortalidade, e sugere usar os escores de disfunção orgânica para medir a gravidade.

    Prescrição
    • Monitorização: cardioscopia, oximetria contínua e pressão não invasiva a cada 15 minutos enquanto a gravidade não estiver definida
    • Registro explícito no prontuário: hora de início dos sintomas relatada pelo paciente, hora do exame físico e contraindicação de alta até avaliação cirúrgica
    • Eletrocardiograma em até 10 minutos se a dor é epigástrica e o paciente tem mais de 40 anos ou fatores de risco cardiovascular
  2. Minuto 5 a 10 — jejum, acessos e descompressão

    Jejum absoluto, incluindo água e medicação por via oral: o paciente pode ir para anestesia nas próximas horas e cada gole aumenta o conteúdo que vai continuar saindo pelo furo. Dois acessos venosos periféricos calibrosos, porque um deles vai carregar volume e o outro, antibiótico e analgesia. A sonda nasogástrica em aspiração ou drenagem aberta trabalha em três frentes: esvazia o estômago que continua alimentando o vazamento, alivia a distensão e reduz o risco de broncoaspiração na indução anestésica — e ela é também o caminho por onde o contraste hidrossolúvel será administrado, se a imagem inicial vier limpa. Colha os exames pelo mesmo acesso que puncionou, para não puncionar duas vezes.

    Prescrição
    • Dieta zero absoluta, incluindo água e medicação oral, com a indicação escrita
    • Dois acessos venosos periféricos calibrosos, um em cada membro superior
    • Sonda nasogástrica em drenagem aberta ou aspiração intermitente, com anotação do volume e do aspecto a cada 4 horas
    • Coleta no ato da punção: hemograma, ureia, creatinina, sódio, potássio, glicemia, transaminases, bilirrubinas, amilase, coagulograma, tipagem sanguínea com prova cruzada, gasometria arterial e lactato
    • Hemoculturas de dois sítios se houver febre, hipotensão ou outro critério de sepse
  3. Minuto 10 a 20 — volume, com alvo escrito

    A reposição começa na suspeita e não na confirmação. O paciente com peritonite perde volume para o terceiro espaço desde a primeira hora, e chega desidratado mesmo quando a pressão ainda está normal — Gualberto está com frequência de 104 e pressão de 132 por 84, o que é um coração compensando, não um paciente estável. A diretriz é explícita sobre os alvos no paciente instável, com recomendação forte: pressão arterial média igual ou maior que 65 mmHg, diurese igual ou maior que 0,5 mL por quilo por hora e normalização do lactato. Para Gualberto, o alvo de diurese é de pelo menos 37 mL por hora. A ressuscitação do paciente instável deve acontecer idealmente dentro de uma hora e ao mesmo tempo que a consulta cirúrgica, a coleta de culturas e a administração do antibiótico — não em sequência.

    Prescrição
    • Cristaloide isotônico em infusão rápida guiada por resposta, com reavaliação de perfusão, frequência e pressão a cada bolus
    • Alvos escritos na prescrição: pressão arterial média igual ou maior que 65 mmHg, diurese igual ou maior que 37 mL/h (0,5 mL/kg/h para 74 kg) e lactato em queda
    • Sondagem vesical de demora se houver instabilidade, sepse ou necessidade de medir diurese hora a hora
    • Corrigir distúrbio hidroeletrolítico e glicêmico conforme a coleta inicial
  4. Minuto 20 — a analgesia, que se faz e se registra

    Analgesia deve ser oferecida e titulada com vigilância de respiração, consciência e perfusão. Reexamine antes e depois: os sinais podem mudar, e não é necessário manter dor para preservar o diagnóstico. Persistência ou piora exige procurar a causa e discutir intervenção enquanto o alívio seguro continua. Melhora da dor, isoladamente, não permite alta nem demonstra que a perfuração esteja selada.

    Prescrição
    • Opioide forte por via endovenosa, titulado, com dose e horário anotados
    • Reavaliação da dor 20 minutos após cada dose, na mesma escala numérica e pela mesma pessoa
    • Antiemético endovenoso se houver vômito, com a cautela que o protocolo federal registra para o abdome agudo cirúrgico
    • Dor que não cede a dose adequada de opioide é achado: reabrir a hipótese e chamar de novo, não repetir a dose às cegas
  5. Minuto 20 a 25 — o telefonema, que vem antes do exame

    Ligue com a hipótese e o relógio, não com o laudo. A frase que funciona tem cinco partes: idade, hipótese nomeada, o achado que a sustenta, a hora de início dos sintomas e o que já foi feito. Para Gualberto: homem de 58 anos, suspeita de úlcera perfurada, dor epigástrica de instalação súbita às 14h10 com abdome em tábua ao exame das 15h25, jejum, sonda e volume iniciados, tomografia solicitada. O telefonema acontece agora porque a decisão que ele dispara — preparar sala, chamar anestesia, avisar o banco de sangue — leva tempo próprio, que corre em paralelo ao da imagem. Se o serviço não tem cirurgia, o contato com a regulação acontece no mesmo minuto e pelo mesmo motivo.

    Prescrição
    • Comunicação ao cirurgião de plantão com idade, hipótese, achado, hora de início e condutas já iniciadas
    • Registro no prontuário da hora do contato e da orientação recebida
    • Contato com a regulação em paralelo, e não depois do exame, quando o serviço não dispõe de centro cirúrgico ou de cirurgião
    • Reserva de concentrado de hemácias com prova cruzada e comunicação ao banco de sangue
  6. Minuto 25 a 40 — antibiótico e culturas

    A diretriz recomenda, com grau forte, iniciar o mais cedo possível um esquema empírico de amplo espectro cobrindo gram-negativos, gram-positivos e anaeróbios, de preferência depois da coleta do líquido peritoneal — o que na prática significa que a coleta acontece na sala e o antibiótico não espera por ela no pronto-socorro. Para infecção comunitária em paciente não gravemente enfermo com função renal normal, os regimes que ela reproduz são amoxicilina com clavulanato de 1,2 a 2,2 g de 6 em 6 horas, ou ceftriaxona 2 g a cada 24 horas somada a metronidazol 500 mg de 6 em 6 horas, ou cefotaxima 2 g de 8 em 8 horas com o mesmo metronidazol; no alérgico a betalactâmico, ciprofloxacino com metronidazol. No paciente gravemente enfermo, piperacilina com tazobactam ou cefepima com metronidazol. Antifúngico não entra como empírico de rotina: fica reservado a quem tem risco alto, como o imunossuprimido, o idoso, o de internação prolongada em terapia intensiva e o de infecção não resolvida. A duração recomendada é curta — de 3 a 5 dias, ou até a normalização dos marcadores inflamatórios — desde que o controle do foco tenha sido adequado.

    Prescrição
    • Ceftriaxona 2 g por via endovenosa a cada 24 horas, o que corresponde a 2 frascos-ampola de 1 g reconstituídos com 10 mL de água para injetáveis cada
    • Cobertura de anaeróbio associada, conforme a padronização do serviço — o elenco nacional não oferece parceiro injetável, e a nota de auditoria do bloco de critérios detalha o problema
    • Coleta de líquido peritoneal para cultura de bactérias e de fungos no ato operatório, com ajuste posterior do esquema
    • Antifúngico apenas se houver fator de risco declarado; não como empírico de rotina
    • Reavaliar a duração no terceiro dia: curso curto de 3 a 5 dias quando o controle do foco foi adequado
  7. Minuto 40 a 60 — a imagem, e o que fazer se vier limpa

    Com tomógrafo disponível e paciente estável, a tomografia de abdome e pelve com contraste endovenoso é o exame recomendado, e ela caracteriza o local e o tamanho da perfuração — informação que muda a via de acesso na sala. Sem tomógrafo, a radiografia de tórax e abdome é a avaliação inicial de rotina, e a incidência se escolhe pelo que o paciente tolera: ortostase e decúbito lateral esquerdo têm acurácia semelhante. Se a imagem vier sem ar livre e a história continuar a mesma, o caminho é o contraste hidrossolúvel por via oral ou pela sonda, e não a revisão da hipótese. E se o paciente ficar instável a qualquer momento, a imagem sai do caminho: o destino é o centro cirúrgico.

    Prescrição
    • Pedido escrito com hipótese nomeada, achado que a sustenta, hora de início dos sintomas e a pergunta: pesquisa de pneumoperitônio e de perfuração de víscera oca
    • Tomografia de abdome e pelve com contraste endovenoso no paciente estável, quando disponível
    • Radiografia em ortostase ou em decúbito lateral esquerdo quando não há tomógrafo, escolhendo a incidência que o paciente tolera
    • Contraste hidrossolúvel oral ou pela sonda nasogástrica se a imagem não mostrar ar e a suspeita persistir — nunca bário
    • Nenhuma imagem fora da sala de emergência no paciente instável
  8. Enquanto a sala é preparada — o que fica pronto

    O intervalo entre a indicação e a incisão é onde o interno ainda produz efeito. Deixe pronto o que a equipe da sala vai pedir: consentimento conversado e assinado, jejum documentado com o horário da última ingesta, exames impressos, reserva de sangue confirmada, acesso funcionando, sonda drenando e a família localizada. Se houver profilaxia de tromboembolismo indicada e não contraindicada pelo tempo cirúrgico, ela é decisão do cirurgião e do anestesista — a avaliação de risco pré-operatório e a antibioticoprofilaxia têm capítulos próprios na apostila de Pré e Pós-operatório, e aqui só se registra que a antibioticoterapia terapêutica já iniciada não é profilaxia e não se repete como tal. E anote, para a passagem de plantão, os quatro horários: início dos sintomas, seu exame, comunicação ao cirurgião e chegada à sala.

    Prescrição
    • Consentimento informado conversado com o paciente e com o acompanhante, e assinado
    • Horário da última ingesta registrado, junto com o horário do início do jejum
    • Exames laboratoriais e de imagem impressos ou disponíveis no sistema para a equipe cirúrgica
    • Reserva de hemocomponentes confirmada com o banco de sangue
    • Passagem de plantão escrita com os quatro horários e com a hipótese nomeada
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Como saber se está funcionando

Reavaliar uma suspeita de perfuração é medir de novo as mesmas coisas, nas mesmas condições, e comparar. O que torna a comparação possível é responsabilidade de quem examinou primeiro: a mesma posição do paciente, a mesma mão, a mesma escala de dor, o mesmo lugar de medida — e a hora anotada em cada uma.

Nesta doença a piora se anuncia por um sinal que parece melhora, e é por isso que a régua importa mais aqui do que na maioria dos quadros. A dor cai quando a peritonite química se esgota, e volta a subir quando a bacteriana instala; entre as duas há uma janela em que tudo parece estar melhorando. Quem reavalia contra um registro anterior enxerga a trajetória; quem reavalia contra a memória enxerga a fotografia da hora.

Os sete parâmetros abaixo valem para o paciente que está esperando a sala e para o que está em conduta não operatória — que, quando escolhida, exige exatamente isto: exame clínico repetido, exames laboratoriais repetidos e prontidão para operar.

Intensidade e caráter da dor, na mesma escalaA cada 2 horas e 20 minutos após cada dose de analgésico

Esperado: Queda proporcional à analgesia administrada, sem mudança de caráter nem de distribuição

Se não melhora: Dor que não cede a dose adequada de opioide é achado e não pedido de nova dose — reabra a hipótese e chame de novo. Dor que caiu sozinha, sem analgesia, num paciente que tinha abdome em tábua, é a trégua da peritonite química e não melhora da doença: mantenha a indicação e a vigilância. Dor que voltou a subir depois de ter caído é a bacteriana instalando.

Exame do abdome, na mesma posição e com a mesma mãoA cada 2 horas, com a hora anotada em cada exame

Esperado: Sem progressão da área de defesa e sem aparecimento de distensão nova

Se não melhora: Defesa que passou de localizada a generalizada é peritonite que se espalhou. Distensão nova com timpanismo e parada de eliminação é íleo por peritonite instalada. Num paciente sem defesa por idade, imunossupressão ou sedação, a ausência de progressão não tranquiliza: nesse caso quem manda são os parâmetros hemodinâmicos e a imagem.

Frequência cardíaca e pressão arterial médiaA cada 15 minutos enquanto instável; a cada hora depois de estabilizado

Esperado: Pressão arterial média igual ou maior que 65 mmHg com frequência em queda após o volume

Se não melhora: Taquicardia que persiste depois da analgesia e do volume é hipovolemia mantida ou sepse instalando, e nenhuma das duas espera exame. Pressão arterial média abaixo de 65 mmHg que não responde ao volume tira o paciente da fila da tomografia e o põe na fila do centro cirúrgico.

Diurese horáriaHorária no paciente sondado ou instável; por período nos demais

Esperado: Igual ou maior que 0,5 mL por quilo por hora, o que para 74 kg significa pelo menos 37 mL por hora

Se não melhora: Diurese abaixo do alvo depois de reposição adequada é hipoperfusão persistente, e a insuficiência renal aguda pré-operatória está entre os fatores associados a mau prognóstico nesta doença. Confira antes se a sonda não está obstruída — é a causa banal e frequente.

Lactato arterialNa chegada e 2 horas depois, se alterado ou se houver instabilidade

Esperado: Normalização é alvo declarado de ressuscitação pela diretriz

Se não melhora: Lactato que não cai apesar de volume adequado indica hipoperfusão mantida ou foco não controlado, e nenhuma das duas se resolve na sala de observação. Um lactato normal na primeira hora não afasta nada: nas primeiras horas de uma perfuração o laboratório inteiro costuma estar limpo.

Débito e aspecto da sonda nasogástricaA cada 4 horas, com volume e aspecto anotados

Esperado: Débito que se mantém ou reduz, de aspecto claro ou bilioso

Se não melhora: Aumento progressivo do débito indica íleo ou obstrução funcional por peritonite. Débito hemático muda a conversa: é sangramento associado, e a abordagem passa a envolver o capítulo de hemorragia digestiva alta, na apostila de Cirurgia do Aparelho Digestivo. No paciente sedado, o aumento do débito é um dos poucos sinais disponíveis e deve ser tratado como tal.

Temperatura, frequência respiratória e nível de consciênciaA cada 2 horas, e a qualquer mudança relatada pela enfermagem

Esperado: Ausência de febre nas primeiras horas é esperada e não tranquiliza

Se não melhora: Febre que aparece depois de algumas horas marca a transição da peritonite química para a bacteriana. Taquipneia com queda do nível de consciência em paciente com foco abdominal é disfunção orgânica, e o pacote de sepse passa a correr em paralelo — está no capítulo de sepse e choque séptico, na apostila de Medicina Intensiva e Emergências. Respiração superficial sustentada é dor mal tratada, e cobra complicação pulmonar depois.

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Onde o erro machuca

Reclassificar o caso para baixo quando a dor melhora sozinha

O dano: É o erro encenado na primeira página deste capítulo e o mais específico dele. A queda da dor entre a segunda e a quinta hora é o comportamento esperado de uma peritonite química que se esgota antes de a bacteriana instalar, e não é sinal de nada ter melhorado. O paciente que recebe alta às dezesseis e vinte volta de madrugada com peritonite purulenta, e a diferença entre as duas entradas, medida na coorte dinamarquesa, é de 2,4% de probabilidade de sobrevida por hora dentro das primeiras vinte e quatro. O dado de 2,4% refere-se à associação ajustada observada em uma coorte para atraso entre admissão e cirurgia; não é perda absoluta fixa nem previsão individual e não conta desde o início da dor.

Como pegar a tempo: Escreva a contraindicação de alta no prontuário no primeiro exame, antes de a trégua chegar, e trate a melhora subsequente como um dado da trajetória e não como uma nova avaliação. Reavalie na mesma posição e com a mesma mão, com a hora anotada, para que a comparação seja possível. E lembre que a indicação de avaliação cirúrgica nasceu do modo de instalação somado ao exame inicial — nenhuma das duas coisas foi desfeita por o paciente estar mais confortável.

Pedir a radiografia com o paciente deitado na maca por comodidade

O dano: Em decúbito dorsal o ponto mais alto da cavidade é a parede abdominal anterior, e o gás se espalha por baixo dela em camada fina, sem formar a faixa que se procura. A mesma perfuração, no mesmo paciente, no mesmo aparelho, deixa de aparecer. Como o ar livre só aparece em 30% a 85% das perfurações mesmo nas incidências corretas, o exame malfeito não devolve um resultado ruim: devolve um resultado normal, que é pior, porque parece resposta.

Como pegar a tempo: Escolha entre ortostase e decúbito lateral esquerdo, que a diretriz declara ter acurácia semelhante, e prefira o decúbito lateral esquerdo em quem tem peritonite, porque tolera melhor. Deixe o paciente alguns minutos na posição antes do disparo, pela mesma física que faz o gás subir. E anote no pedido a posição em que o exame foi feito, para quem ler o laudo saber o que aquele resultado significa. A leitura sistemática do filme está nos capítulos de radiografia de tórax e de radiografia de abdome, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito.

Usar leucograma normal das primeiras horas como argumento

O dano: A leucocitose da perfuração é resposta à contaminação bacteriana, que leva horas para se instalar. Um leucograma de 9.800 numa perfuração de duas horas é o resultado esperado, não um achado tranquilizador — e a própria diretriz registra que os testes laboratoriais são inespecíficos nesta doença. Quando esse número entra na decisão de alta, o médico troca uma história que estava dizendo alguma coisa por um exame que ainda não teve tempo de responder.

Como pegar a tempo: Peça o laboratório para medir o paciente, não para fazer o diagnóstico: o que ele responde bem é gravidade e risco operatório — acidose metabólica, função renal, albumina, lactato. Diante de resultado normal na primeira hora, registre no prontuário que ele não afasta a hipótese, com essa frase, para que o próximo plantonista não o leia como exclusão.

Esperar o resultado do exame para acionar o cirurgião

O dano: O telefonema dispara processos que correm no tempo deles: preparar sala, chamar anestesia, avisar o banco de sangue, deslocar o cirurgião de outro prédio. Segurar o telefonema até o laudo transforma dois relógios paralelos num relógio em série, e o preço já está medido: atraso pré-operatório acima de vinte e quatro horas está entre os fatores associados a mau prognóstico, e acima dos setenta anos a diretriz recomenda operar o mais cedo possível com grau forte.

Como pegar a tempo: Ligue com a classificação e não com o diagnóstico, dizendo idade, hipótese nomeada, o achado que a sustenta, a hora de início dos sintomas e o que já foi feito. Registre a hora do contato e a orientação recebida. Onde não há cirurgia no serviço, o contato com a regulação acontece no mesmo minuto e pelo mesmo motivo — e o paciente sai com acesso, volume, analgesia e sonda, sem esperar laboratório.

Tratar a úlcera gástrica perfurada como se fosse igual à duodenal

O dano: De 10% a 16% de todas as perfurações gástricas são causadas por carcinoma, e a perfuração pode ser a primeira manifestação do tumor. Uma úlcera gástrica fechada sem material para exame anatomopatológico deixa passar um câncer que já se apresentou, e o paciente vai para casa com o diagnóstico de doença péptica e uma neoplasia não tratada. A diretriz é explícita quanto à conduta na úlcera gástrica grande com suspeita de malignidade: ressecção com exame de congelação intraoperatório sempre que possível.

Como pegar a tempo: Saiba que a topografia muda a operação e diga isso na passagem de plantão e na conversa com a família. Depois da alta, garanta que a endoscopia de controle da úlcera gástrica esteja agendada antes de o paciente sair — o seguimento endoscópico da úlcera gástrica existe justamente porque a cicatrização confirmada é parte da exclusão de malignidade.

Dar alta sem retirar o fator precipitante e sem programar a erradicação

O dano: O paciente sobreviveu à operação e vai voltar. Numa casuística multicêntrica citada pelo V Consenso Brasileiro, os principais fatores de risco da doença ulcerosa foram a infecção por Helicobacter pylori em 41,8% dos casos e o uso de ácido acetilsalicílico ou de anti-inflamatório não esteroidal em 36,1% — e nenhum dos dois se resolve com a rafia. Manter o anti-inflamatório que causou a perfuração é garantir a próxima, e não erradicar a bactéria é deixar em pé a causa mais frequente da doença.

Como pegar a tempo: Na alta, três linhas: suspensão do anti-inflamatório com substituição por analgésico que não seja da classe, e revisão da indicação do ácido acetilsalicílico com quem o prescreveu; pesquisa de H. pylori; e erradicação com esquema e duração escritos, com o teste de confirmação já agendado. O V Consenso recomenda suspender inibidor de bomba e bloqueador competitivo de potássio 14 dias antes do teste, antibióticos e bismuto 4 semanas antes, e antagonista de receptor H2 duas horas antes — sem isso o teste vem falso-negativo e o paciente sai com a bactéria e com um exame dizendo que não tem.

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O que dizer ao paciente e à família

Neste capítulo a conversa difícil não é a do diagnóstico grave: é a do paciente que está se sentindo melhor e a da família que quer ir embora. Explicar por que alguém que melhorou precisa de uma operação é a habilidade específica deste quadro, e ela se apoia numa imagem simples — o buraco não fecha porque a dor passou.

As falas abaixo são de Gualberto Paraibuna e de Apolinária Óbidos, da equipe, e da família de Orminda Redenção. Todas cabem em menos de um minuto e nenhuma promete desfecho.

Gualberto diz que melhorou e pergunta se já pode comer

O senhor melhorou mesmo, e eu acredito no que está sentindo. O que aconteceu é que o líquido que vazou lá dentro já queimou o que tinha para queimar, e por algumas horas dói menos. O furo continua lá do mesmo tamanho, e daqui a pouco começa a infecção, que dói de novo e é a parte perigosa. Por isso o senhor não come nem bebe nada, e por isso a cirurgiã já está sendo chamada agora, e não depois que piorar.

Não diga: Dizer que a melhora é enganosa sem explicar o mecanismo, ou dizer que ele está pior do que sente. O paciente sabe o que está sentindo, e negar isso custa a confiança que a próxima frase vai precisar.

Apolinária pergunta se dá para ir para casa e voltar amanhã

Eu entendo que o filho de vocês está sozinho, e a gente vai dar um jeito de alguém ir buscá-lo. O que eu não posso é deixar o seu marido ir embora. A dor dele começou às duas e dez da tarde de uma vez, como uma facada, e o exame que eu fiz mostra que a barriga está dura — isso quer dizer que provavelmente furou alguma coisa dentro do estômago ou do intestino dele. Nesse tipo de problema, cada hora de espera até a cirurgia diminui a chance de dar tudo certo. Não é uma coisa que dê para ver amanhã.

Não diga: Aceitar a alta a pedido sem explicar o risco em número e sem registrar a conversa, ou resolver a questão do filho como se fosse problema da família. O obstáculo real à internação, muitas vezes, é logístico e resolvível.

Explicando por que vai dar analgésico antes de o cirurgião chegar

Eu vou tratar a sua dor agora, com remédio forte na veia. Isso não vai esconder nada nem atrapalhar o diagnóstico: a barriga dura continua dura depois do remédio, e é ela que a cirurgiã vai examinar. O que a dor forte atrapalha é o senhor respirar fundo, e respirar fundo é o que evita problema no pulmão depois da cirurgia. Vinte minutos depois eu volto para ver quanto melhorou.

Não diga: Deixar o paciente com dor esperando o cirurgião examinar, que é uma prática antiga e sem respaldo nas fontes deste capítulo, ou usar a resposta à analgesia como argumento diagnóstico em qualquer direção.

O telefonema para a cirurgiã de plantão

Dra. Hedwiges, é o interno do pronto-socorro. Homem de 58 anos, 74 quilos, suspeita de úlcera perfurada: dor epigástrica que começou de uma vez às quatorze e dez, com abdome em tábua no meu exame das quinze e vinte e cinco. Frequência 104, pressão 132 por 84, sem febre, leucograma 9.800. Já está em jejum, com dois acessos, sonda nasogástrica, volume e analgesia, e a tomografia foi solicitada. Estou ligando antes do resultado porque ele tem quatro horas de evolução e queria que a senhora soubesse agora.

Não diga: Começar pelo exame que ainda não voltou, ou pedir opinião em vez de comunicar um caso. A frase que funciona informa idade, hipótese, achado, relógio e o que já foi feito, nessa ordem.

Explicando a Gualberto o que vai acontecer na sala

A cirurgia vai fechar o furo e lavar a barriga por dentro. Pode ser por vídeo, com furinhos, ou por um corte, e quem decide isso é a cirurgiã na hora, conforme o que ela encontrar. Existe a possibilidade de o senhor acordar com um dreno, e existe a possibilidade, se estiver muito inflamado, de a barriga ficar temporariamente aberta e coberta, para uma segunda cirurgia depois. Não é o mais provável, mas eu prefiro que o senhor saiba antes.

Não diga: Prometer a via de acesso, prometer que não haverá dreno, ou omitir a possibilidade de abdome aberto e deixar a família descobrir na sala de espera.

Com a filha de Orminda, sedada na terapia intensiva

A sua mãe está sedada e não sente nem conta o que dói, então a gente está seguindo por outros sinais: a pressão está precisando de mais medicação, a sonda está drenando muito mais que ontem e a barriga está distendida. Isso levanta a suspeita de que alguma coisa dentro da barriga tenha furado. Vamos fazer uma tomografia agora e o cirurgião já foi avisado. Eu não tenho o diagnóstico ainda, e não vou ter antes do exame.

Não diga: Dizer que ela não tem dor porque está sedada como se isso fosse tranquilizador, ou dar a impressão de que a ausência de queixa torna o quadro menos grave. É o contrário: nesse paciente o exame físico deixou de funcionar como instrumento.

Na alta, sobre o anti-inflamatório e sobre a bactéria

Duas coisas causaram isso e as duas continuam aqui se a gente não mexer. A primeira é o anti-inflamatório que o senhor tomava para a coluna: ele não pode voltar, e eu vou trocar por outro remédio para a dor. A segunda é uma bactéria do estômago que a gente vai pesquisar; se der positivo, o senhor toma um tratamento com antibiótico por catorze dias e depois faz um exame para confirmar que ela sumiu. Se a gente não fizer as duas coisas, a chance de isso acontecer de novo é alta.

Não diga: Entregar a receita da erradicação sem explicar que existe um teste de confirmação depois, ou sem avisar que o remédio do estômago precisa ser suspenso antes do teste — o paciente que não sabe disso faz o exame tomando omeprazol e recebe um resultado falso-negativo.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Tratar sem operar a perfuração que se bloqueou

Contra o uso rotineiro, admitindo exceção estreita

A diretriz sugere contra o uso rotineiro da conduta não operatória e a admite apenas em casos extremamente selecionados em que a perfuração esteja bloqueada, confirmada por estudo com contraste hidrossolúvel. Os pré-requisitos que ela exige são vazamento não detectável na imagem, exame clínico repetido, exames laboratoriais repetidos, suporte respiratório e renal, recursos de monitorização e prontidão para operar. Ela acrescenta que a mortalidade aumenta a cada hora de atraso até a cirurgia, e que por isso a seleção precisa ser cuidadosa, com cautela explícita acima dos 70 anos, faixa em que a falha do tratamento conservador cobra mortalidade paradoxalmente maior.

World Society of Emergency Surgery, diretriz de úlcera péptica perfurada e sangrante, World Journal of Emergency Surgery, 2020, seção de manejo não operatório, recomendação fraca com evidência de baixa qualidade (2C)

A evidência randomizada que a própria diretriz cita não separou os desfechos

O ensaio randomizado comparou cirurgia de urgência com conduta não operatória em 83 pacientes: no grupo conservador, 11 pacientes, ou 28%, não melhoraram em 12 horas e precisaram de operação; a mortalidade foi de dois óbitos em cada grupo, 5%, e as taxas de morbidade não diferiram significativamente, com 40% no grupo cirúrgico e 50% no não cirúrgico. A internação foi 35% mais longa no grupo conservador, e pacientes acima de 70 anos responderam pior. A série prospectiva de 82 pacientes obteve melhora clínica em 54% dos submetidos a conduta não operatória, e identificou como preditores independentes de falha o tamanho do pneumoperitônio, a frequência cardíaca acima de 94 batimentos por minuto e o meteorismo abdominal.

Ensaio randomizado de Croft e colaboradores, de 1989, e série prospectiva de Songne e colaboradores, de 2004, ambos reproduzidos na mesma diretriz de 2020

Como decidir

A decisão não é do interno e não se toma na sala de observação — mas saber onde ela mora muda o que ele prepara. Faça três perguntas na ordem. A primeira: há sinais de peritonite ou de sepse? Se há, a discussão acabou e o paciente é operatório. A segunda: existe documentação de que o vazamento parou, feita com contraste hidrossolúvel? Sem esse exame, a conduta não operatória não tem base, porque foi ele que definiu a única população em que ela foi admitida. A terceira: este serviço tem como reoperar imediatamente se o paciente piorar às três da manhã? Se a resposta for não, a conduta não operatória deixa de ser uma escolha e passa a ser uma aposta — e a coorte dinamarquesa mostra o preço de cada hora perdida quando ela falha. Em paciente acima de 70 anos, as três perguntas se somam a uma quarta, que a diretriz responde sozinha: nessa faixa o texto recomenda operar o mais cedo possível.

Acrescentar o retalho de epíplon sobre a rafia da perfuração pequena

Sem recomendação a favor do uso rotineiro

Para perfuração menor que 2 cm, a diretriz sugere rafia primária e declara explicitamente que nenhuma recomendação pode ser feita quanto a o retalho de epíplon oferecer proteção adicional ao reparo. O argumento é que múltiplos estudos mostraram que acrescentar o retalho não traz benefício sobre a sutura simples e aumenta significativamente o tempo operatório: séries pareadas encontraram taxas de fístula comparáveis entre fechamento simples e omentopexia, e um estudo multicêntrico com 297 pacientes não achou associação entre o tipo de reparo e a taxa de complicações. O texto conclui que não pode sugerir a aplicação rotineira do retalho, embora ele continue sendo opção viável em casos selecionados.

World Society of Emergency Surgery, diretriz de 2020, seção de cirurgia, recomendação fraca com evidência de baixa qualidade (2C)

A favor do retalho na úlcera de bordas friáveis, dentro do mesmo texto

O mesmo documento registra que múltiplos estudos retrospectivos mostram baixas taxas de fístula pós-operatória com a técnica do retalho de epíplon, inclusive em perfurações de até 2 cm de diâmetro, e que múltiplos autores sugerem acrescentar o retalho quando a úlcera é grande e as bordas são friáveis, para reduzir o risco de a sutura cortar as bordas. Acrescenta ainda, no trecho sobre perfurações maiores, que taxas de fístula de até 12% foram relatadas em tentativas de fechamento com retalho de epíplon nessas úlceras grandes — o que situa o mesmo procedimento em dois lugares diferentes conforme o tamanho e a qualidade do tecido.

Séries retrospectivas e opinião de múltiplos autores, reproduzidas na mesma diretriz de 2020, seções de perfuração menor e maior que 2 cm

Como decidir

Esta é uma decisão de sala e não de plantão, e o interno não a toma. O que ele leva do impasse é a variável que o separa: não é a preferência do cirurgião, é o tecido. Perfuração pequena com bordas de boa qualidade é rafia simples, e acrescentar o retalho só custa tempo operatório num paciente séptico, em que tempo é dado clínico. Perfuração grande, ou com bordas friáveis que a agulha corta, é onde o retalho passa a ser argumento — e onde a diretriz muda de tom, indicando abordagem individualizada pela topografia. Para o paciente à frente, a pergunta útil é anterior às duas: quanto tempo de evolução ele tem? Porque o achado que produz borda friável é o mesmo que o relógio produz, e reduzir o intervalo entre a perfuração e a sala é a única parte deste impasse que o interno pode influenciar.

Testar e erradicar Helicobacter pylori em quem perfurou

A diretriz de urgência responde isso só para a úlcera que sangra

O documento anuncia entre seus seis tópicos a pergunta sobre o teste para Helicobacter pylori, e a responde apenas para a úlcera sangrante: recomenda testar todos esses pacientes, com grau forte; recomenda a erradicação nos positivos para evitar ressangramento, também com grau forte; elege a tríplice padrão como primeira linha onde a resistência à claritromicina é baixa, com evidência de qualidade moderada; e orienta iniciá-la depois de 72 a 96 horas de inibidor de bomba endovenoso, mantendo-a por 14 dias. A metade dedicada à úlcera perfurada não menciona o assunto em nenhuma de suas seções — nem no diagnóstico, nem na cirurgia, nem na antibioticoterapia.

World Society of Emergency Surgery, diretriz de 2020: as recomendações de teste e de erradicação estão inteiramente na seção de úlcera péptica sangrante, com graus 1C e 1B

A régua brasileira indica o tratamento pela doença, sem distinguir complicação

O consenso brasileiro lista a doença ulcerosa péptica entre as indicações de tratamento da infecção, sem qualificar se a úlcera sangrou, perfurou ou nunca se complicou, e afirma que a remoção da bactéria é recomendada para todos os infectados. Acrescenta, com recomendação forte e evidência de alta qualidade, que pacientes em uso de ácido acetilsalicílico, anti-inflamatórios não esteroidais e antiagregantes devem ser testados e ter a infecção erradicada, se possível antes de iniciar o tratamento — o que descreve exatamente o perfil de quem perfura. Registra ainda que a infecção continua sendo a principal causa de úlcera gástrica e duodenal.

V Consenso Brasileiro sobre a infecção por Helicobacter pylori, Arquivos de Gastroenterologia, publicado em 10 de agosto de 2026, tabela de indicações de tratamento e recomendação sobre anti-inflamatórios com grau 1A

Como decidir

A investigação de H. pylori faz parte do cuidado da doença ulcerosa após a perfuração. Planeje momento e método considerando os tratamentos recebidos: antissecretor, antibiótico e bismuto podem interferir nos testes. Registre na alta a pendência, o prazo e a orientação sobre suspensão dos medicamentos conforme o plano descrito. Explique ao paciente a finalidade do exame e combine quem avaliará o resultado. Se houve endoscopia e coleta de material, confira o que já foi investigado antes de duplicar pedidos.

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O raciocínio, em voz alta

Gualberto Paraibuna, 58 anos, mecânico de ônibus, 74 quilos. Dor epigástrica que começou às 14h10, de uma vez, enquanto ele apertava um parafuso. Chegou andando às 15h05. No seu exame, às 15h25, o abdome não acompanhava a respiração e a parede estava rígida, sem ceder à distração; frequência 104, pressão 132 por 84, sem febre. Às 16h20 ele diz que melhorou, a dor caiu de 9 para 5, e a esposa pergunta se pode ir para casa. O leucograma voltou 9.800 e a radiografia ainda não foi feita. Na anamnese, ele toma diclofenaco há três semanas por dor lombar, comprado na farmácia, e fuma há trinta anos.

  1. O dado que fecha a hipótese não veio de exame nenhum

    Ele respondeu a hora, não a duração. Quem consegue nomear o minuto está descrevendo um evento e não um processo, e no abdome os eventos são poucos: alguma coisa rompeu ou algum vaso fechou. Num homem de 58 anos, com a dor no andar de cima e três semanas de anti-inflamatório na história, a primeira dessas duas famílias tem um nome provável, e é úlcera perfurada. Some-se a isso a rigidez involuntária que não cedeu à distração, e o quadro está montado antes de qualquer resultado. O diclofenaco de três semanas não é um detalhe da história social: é a causa mais provável, junto com o tabagismo, e está entre os fatores que a revisão sistemática de fatores prognósticos associou a mortalidade.

  2. O que a melhora das 16h20 significa, e o que ela não desfaz

    Significa que a peritonite química de duas horas se esgotou antes de a bacteriana instalar. Não desfaz a instalação em segundos, não desfaz o exame das 15h25 e não fecha o furo. A conduta correta às 16h20 é exatamente a mesma das 15h25, mais um registro escrito: dor caiu de 9 para 5 sem analgesia, abdome mantém rigidez à palpação na mesma posição, alta contraindicada. Quem não escreveu o exame das 15h25 não tem como saber, às 16h20, se está diante de melhora ou de trégua.

  3. O eletrocardiograma antes de tudo

    Dor epigástrica súbita com sudorese em homem de 58 anos e tabagista pede eletrocardiograma em até dez minutos. Não porque o infarto de parede inferior seja mais provável que a perfuração neste caso — não é —, mas porque é a hipótese que puxa a conduta na direção oposta e a que causa dano imediato se for perdida. Feito o traçado e afastado o supradesnivelamento, a lista volta a ser abdominal.

  4. As seis coisas que se faz antes de saber

    Jejum absoluto com a hora da última ingesta registrada; dois acessos periféricos calibrosos; sonda nasogástrica em drenagem; cristaloide com alvos escritos, que para 74 quilos significa diurese de pelo menos 37 mL por hora e pressão arterial média igual ou maior que 65; opioide titulado com reavaliação em vinte minutos; e coleta, no ato da punção, de hemograma, função renal, eletrólitos, amilase, coagulograma, tipagem com prova cruzada, gasometria arterial e lactato. Nada disso espera o ar livre aparecer.

  5. O telefonema às 16h25, antes de qualquer laudo

    Comunico imediatamente: Gualberto, 58 anos, 74 kg, dor súbita às 14h10, admissão às 15h05 e abdome em tábua às 15h25, com cerca de uma hora e quinze minutos desde o início até esse exame. Suporte foi iniciado e a imagem está sendo organizada conforme estabilidade. O telefonema dispara avaliação e preparo da sala em paralelo; não espera a TC. Registro separadamente todos os horários para evitar erro de cronologia.

  6. A imagem, e a incidência que se escolhe

    Com tomógrafo disponível e paciente estável, a tomografia de abdome e pelve com contraste endovenoso é o exame recomendado, e ela vai dizer onde é o furo e que tamanho tem — o que muda a via de acesso na sala. Se o tomógrafo estivesse indisponível, a radiografia entra como avaliação inicial, e a incidência se escolhe pelo que Gualberto tolera: ortostase e decúbito lateral esquerdo têm acurácia semelhante, e o decúbito lateral esquerdo é mais bem tolerado por quem tem peritonite. O que não se faz é pedir um filme deitado na maca por comodidade.

  7. Se a imagem vier limpa

    Não muda nada. Até 12% das perfurações têm tomografia normal, e na radiografia o ar livre aparece em 30% a 85% delas, conforme a série. Diante de imagem sem ar e história igual, o passo seguinte é contraste hidrossolúvel por via oral ou pela sonda nasogástrica — nunca bário —, que aumenta a sensibilidade e, no sentido inverso, documenta se a perfuração se bloqueou. O que não se faz é reclassificar o caso para dor abdominal a esclarecer e mandar para observação sem cirurgião avisado.

  8. O antibiótico e o que o elenco nacional não entrega

    Amplo espectro o mais cedo possível, cobrindo gram-negativo, gram-positivo e anaeróbio, com coleta de líquido peritoneal para bactéria e fungo na sala. Pelo esquema comunitário do não gravemente enfermo, ceftriaxona 2 g a cada 24 horas — dois frascos-ampola de 1 g, cada um reconstituído com 10 mL de água para injetáveis, resultando em 10,72 mL a cerca de 93,3 mg por mililitro, administrados em infusão de pelo menos 30 minutos — somada à cobertura de anaeróbio conforme a padronização do hospital, porque o metronidazol injetável está fora do elenco nacional. Antifúngico empírico não entra: Gualberto não tem fator de risco para infecção fúngica. A duração prevista é curta, de 3 a 5 dias, se o controle do foco for adequado.

  9. O que fica pendente para depois da cirurgia

    Três linhas escritas antes da alta. Suspensão definitiva do diclofenaco, com troca por analgésico de outra classe e revisão de quem prescreveu a dor lombar. Pesquisa de Helicobacter pylori, agendada respeitando os prazos de suspensão que o V Consenso Brasileiro exige — 14 dias sem inibidor de bomba, 4 semanas sem antibiótico —, sob pena de resultado falso-negativo; se houver endoscopia por outro motivo, a biópsia resolve na hora. E, se a úlcera for gástrica, biópsia intraoperatória e endoscopia de controle, porque de 10% a 16% das perfurações gástricas são causadas por carcinoma. Orientação de cessação do tabagismo entra na mesma conversa.

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Faça você

Orminda Redenção, 81 anos, 52 quilos, sexto dia de pós-operatório de fratura de fêmur, sedada em ventilação mecânica. Nas últimas doze horas a noradrenalina subiu de 0,08 para 0,22 microgramas por quilo por minuto sem foco novo identificado, o débito da sonda nasogástrica passou de 200 para 700 mL, o abdome foi anotado como distendido e a diurese caiu para 15 mL por hora. Gasometria com pH 7,28, bicarbonato 16 e lactato 3,8. Leucócitos 21.400, temperatura 36,1 °C. A prescrição inclui cetoprofeno de 12 em 12 horas para dor pós-operatória desde o segundo dia. O plantonista anotou na evolução: abdome distendido, sem sinais de irritação peritoneal, sem defesa. Mantida conduta.

  1. O que a frase da evolução tem de errado

    Sem sinais de irritação peritoneal só é uma informação quando o exame físico funciona como instrumento. Numa paciente sedada, sob ventilação mecânica, a contratura de parede é um reflexo que não pode ocorrer e a queixa é um relato que não pode ser feito — de modo que a ausência dos dois não mede a cavidade, mede a sedação. A frase deveria ser: exame abdominal não avaliável por sedação; ausência de defesa sem valor diagnóstico nesta paciente.

  2. Os cinco sinais que substituem o exame nesta paciente

    Necessidade crescente de vasopressor sem foco novo; aumento do débito da sonda nasogástrica, quase quadruplicado em doze horas; distensão abdominal nova; queda do débito urinário abaixo do alvo de 0,5 mL por quilo por hora, que para 52 quilos significa 26 mL por hora e ela está fazendo 15; e acidose metabólica com lactato de 3,8 sem outra explicação. Nenhum deles isolado fecha diagnóstico. Os cinco juntos, em doze horas, descrevem um foco intra-abdominal até prova em contrário.

  3. Por que ela perfuraria

    Dois mecanismos somados. O cetoprofeno em uso desde o segundo dia é anti-inflamatório não esteroidal, e o uso de anti-inflamatório está entre os fatores que a revisão sistemática de fatores prognósticos associou a mortalidade na úlcera perfurada; ele inibe a produção de prostaglandinas da mucosa e derruba a defesa da parede. Somado a ele, o quadro de paciente crítica com hipoperfusão esplâncnica, ventilação mecânica e vasopressor produz lesão de mucosa por isquemia. Ela é, além disso, idosa — faixa em que a diretriz recomenda operar o mais cedo possível, com grau forte.

  4. O exame que responde, e como pedi-lo

    Tomografia de abdome e pelve com contraste endovenoso, com a pergunta escrita: pesquisa de pneumoperitônio e de perfuração de víscera oca em paciente crítica sedada, com piora hemodinâmica e aumento de débito gástrico. Se o serviço não puder transportá-la com segurança, a radiografia em decúbito lateral esquerdo é a incidência viável no leito e tem acurácia semelhante à ortostase. Radiografia deitada de costas, que é a que sairia do portátil sem posicionar, é a menos capaz de mostrar ar livre e não deve ser tratada como resposta.

  5. O que se faz enquanto o exame não sai

    Cultura de sangue e de outros sítios, antibiótico de amplo espectro iniciado o mais cedo possível, revisão do balanço e da perfusão com os alvos de pressão arterial média e de lactato, e comunicação ao cirurgião agora — não depois do laudo. E uma suspensão que vale por si: o cetoprofeno sai da prescrição.

  6. Se a tomografia não mostrar ar livre

    Até 12% das perfurações têm tomografia normal, e a saída indicada pela própria diretriz é repetir o exame com contraste hidrossolúvel pela sonda nasogástrica, que nesta paciente já está passada. Um laudo negativo, com esses cinco sinais em curso, não devolve a conduta ao ponto de partida.

  7. Continuidade do caso e prática do internato

    Acompanhe Gualberto sem transformar uma mudança de intensidade da dor em prova de melhora anatômica.

  8. Questão integrativa 1

    A dor de Gualberto ter hora precisa confirma perfuração?

  9. Questão integrativa 2

    Se a dor melhora, o vazamento necessariamente parou?

  10. Questão integrativa 3

    Radiografia sem ar livre exclui perfuração?

  11. Questão integrativa 4

    Qual o intervalo entre 14h10 e 15h25?

  12. Questão integrativa 5

    Como explicar o dado de 2,4% sem prometer um prognóstico?

  13. Questão integrativa 6

    Quando considerar tratamento não operatório?

Ver como fecharíamos

O passo que falta não é um exame novo: é reescrever a hipótese. A frase sem sinais de irritação peritoneal foi usada como argumento num corpo que foi impedido de produzir esses sinais, e a partir dela a conduta ficou parada. Reescreva a evolução como suspeita de perfuração de víscera oca em paciente crítica, exame abdominal não avaliável por sedação, e as decisões se organizam sozinhas: tomografia agora com a pergunta escrita, cirurgião comunicado antes do laudo, culturas colhidas, antibiótico de amplo espectro iniciado, cetoprofeno suspenso e alvos de ressuscitação escritos na prescrição — pressão arterial média igual ou maior que 65 mmHg, diurese igual ou maior que 26 mL por hora para os 52 quilos dela, e lactato em queda. Se a tomografia mostrar ar livre ou extravasamento, ela é operatória, e a idade não a exclui: é justamente acima dos 70 anos que a diretriz recomenda operar o mais cedo possível e adverte contra a conduta conservadora. Se não mostrar, o exame se repete com contraste hidrossolúvel pela sonda. O erro que se está desfazendo não é de diagnóstico e nem de exame: é o de ter aplicado a régua do abdome que responde a um abdome que não podia responder. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. É pista compatível, mas eventos vasculares e outras urgências também podem começar abruptamente. Integrar história, exame e imagem. 2. Não. A evolução pode ser enganosa. Reavaliar e buscar evidência; alívio não autoriza alta isolada. 3. Não. Perfuração pequena ou contida pode não mostrar o sinal. Suspeita persistente pede avaliação cirúrgica e imagem apropriada. 4. Uma hora e quinze minutos. A cronologia precisa ser coerente, separando início dos sintomas, admissão, avaliação e intervenção. 5. É associação de coorte entre atraso da admissão à cirurgia e sobrevida, não redução absoluta aplicada a cada paciente. Sustenta evitar atrasos, não calcular chance individual. 6. Em pacientes rigorosamente selecionados, estáveis, sem peritonite/sepse e com perfuração selada documentada, sob equipe experiente e com capacidade imediata de operar se falhar.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Dor súbita com rigidez involuntária e redução da excursão abdominal exige investigar perfuração e peritonite com urgência. Uma melhora transitória não demonstra fechamento da perfuração nem autoriza alta. O leucograma é inespecífico: pode estar normal em doença grave, e leucocitose também pode decorrer de inflamação estéril e resposta de estresse. Não se pode datar a contaminação bacteriana pelo número de leucócitos nem pela redução da dor. Manter estabilização, jejum, avaliação cirúrgica e imagem apropriada sem atrasar o controle do foco quando indicado. Tratamento não operatório de perfuração péptica é excepcional, em pacientes selecionados e sob vigilância hospitalar, não observação domiciliar.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sem consultar o capítulo, escreva de memória: a pergunta que se faz ao paciente para obter o minuto exato, e por que ela funciona melhor do que perguntar há quanto tempo dói; o que produz a trégua entre a segunda e a quinta hora e por que ela não muda a conduta; as duas incidências radiográficas de acurácia semelhante e qual delas o paciente com peritonite tolera melhor; a faixa em que o ar livre aparece na radiografia e a fração de perfurações com tomografia normal; o que se faz quando a imagem vem limpa e a história continua a mesma; e as seis medidas que se toma antes de qualquer confirmação. Depois compare com as tabelas e marque o que faltou.

Em 30 dias

Retome Gualberto e mude um dado por vez, respondendo em voz alta o que muda na conduta. Ele tem 81 anos em vez de 58. Ele está em uso de prednisona há um ano e o abdome está flácido. A dor começou há trinta e seis horas e não há quatro. A tomografia mostra que a perfuração se bloqueou e não há extravasamento de contraste. A úlcera é gástrica de 3 cm e não duodenal de 5 mm. Ele chega hipotenso, com pressão arterial média de 52 mmHg que não sobe com volume. Depois faça o mesmo com Orminda: ela não está sedada, está acordada e lúcida; ou ela tem 45 anos e não 81. Em cada versão, diga qual é o próximo ato, quem decide e em quanto tempo.

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Agora atenda

Agora atenda: homem de 62 anos trazido ao pronto-socorro por dor abdominal alta que começou de uma vez há cerca de cinco horas, enquanto ele assistia televisão, e que segundo ele melhorou um pouco na última hora. Toma ibuprofeno por conta própria para dor no joelho há dois meses. Ao exame, está imóvel na maca, com os joelhos dobrados, respiração superficial, abdome que não acompanha a respiração e parede rígida que não cede à distração. Frequência cardíaca de 110, pressão de 128 por 80, temperatura de 36,6 °C, saturação de 96%.

Úlcera péptica perfurada e pneumoperitônio – O minuto que ele sabe de cor — Internato | OsceLabs