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Cirurgia GeralUrologia

O alívio é a parte fácil

Hiperplasia prostática benigna, STUI e retenção urinária aguda

A sonda tira a dor em cinco minutos e devolve três problemas nas seis horas seguintes: hematúria, hipotensão e uma bexiga que pode não voltar. A régua brasileira diz com precisão quando encaminhar e não escreve um número sequer sobre quanto drenar — e o alfabloqueador que as diretrizes nomeiam primeiro não é o que o SUS entrega.

Fontes deste capítulo

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL. Faculdade de Medicina. TelessaúdeRS (TelessaúdeRS-UFRGS); RIO GRANDE DO SUL. Secretaria Estadual da Saúde. Protocolos de Regulação Ambulatorial — Urologia Adulto: versão digital 2023. Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS, 9 jul. 2015 [atual. 23 fev. 2023]. 35 p. Protocolo 1 — Sintomas do Trato Urinário Inferior; Protocolo 2 — Neoplasia de Próstata.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3.

BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Protocolo para a prevenção de infecção do trato urinário relacionada ao uso de cateter vesical de demora (ITU-AC). Versão 1, ano 2025. 36 p.

MEIRA, Aline de Sousa. Técnicas de descompressão da bexiga através do cateterismo na retenção urinária para prevenção de hematúria: revisão integrativa. 83 p. Dissertação (Mestrado em Ciências) — Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, 2023.

INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER JOSÉ ALENCAR GOMES DA SILVA. Detecção precoce do câncer. Rio de Janeiro: INCA, 2021. 72 p. ISBN 978-65-88517-22-2 (versão eletrônica). Unidade II, seção 2.1 — Câncer de Próstata.

01

Responda antes de ler

Homem de 58 anos, assintomático, sem história familiar de câncer de próstata, pergunta na consulta de rotina se deve fazer 'o exame da próstata'. Considerando os documentos brasileiros vigentes, qual é a conduta correta?

02

O paciente que você vai ver

Duas e quarenta de uma quarta-feira. O hospital é geral, de porte médio, atende a microrregião, e o pronto-socorro clínico ocupa o térreo inteiro, com a entrada de ambulância dando numa antessala que ninguém consegue manter vazia. Esta noite o interno é você. O plantonista entrou faz quarenta minutos na sala vermelha com uma pneumonia em ventilação não invasiva, e a técnica da triagem aparece no vão da porta segurando uma ficha: o senhor da cadeira azul não urina desde as sete da noite e está andando de um lado para o outro.

Hermínio Prochnow tem 74 anos, é aposentado da manutenção de uma cooperativa de leite e pesa 78 quilos. Ele não está sentado; ninguém com bexiga cheia fica sentado. Está de pé, encostado na parede, com a mão espalmada logo acima do púbis e o tronco levemente inclinado para a frente. Fala baixo e por frases curtas, porque respirar fundo dói. Diz que tentou umas seis vezes, que sai um pouco e para, que tomou um chá e piorou, e que a última vez que conseguiu de verdade foi de tarde, antes do jogo.

A filha, Nilcéa, veio junto e traz o resto da história, que ele não conta porque não considera história. Faz uns dois anos que ele levanta três, quatro vezes por noite. Faz tempo que demora para começar, que o jato é fraco e falha no meio, que fica pingando depois de fechar a calça. Ele parou de tomar água depois das seis da tarde por conta própria e parou de ir a velório porque não há banheiro perto. Nada disso foi consulta. Foi adaptação — que é como quase toda obstrução crônica chega ao pronto-socorro: invisível, até a noite em que não passa mais nada.

A triagem anotou pulseira amarela e dor 8. A pressão está 178 por 96, a frequência cardíaca em 104, a temperatura axilar em 36,3 e a saturação em 96% em ar ambiente. A pressão alta e a taquicardia aqui não são doença nova: são dor e descarga adrenérgica de uma bexiga distendida. Vale registrar o número agora, porque em quarenta minutos ele vai ter mudado sozinho, e quem não anotou o antes vai discutir o depois no escuro.

O exame que decide a próxima hora leva noventa segundos. Você descobre o abdome e olha de lado, com a luz rasante: há uma abóbada arredondada na linha média, acima do púbis, que não estava ali no ano passado e que ele mesmo aponta. A percussão dá maciço num arco de convexidade superior — e é maciço, não timpânico, o que separa bexiga de alça distendida. A palpação superficial reproduz exatamente a dor que o trouxe. Ele não tem sinal de irritação peritoneal, não tem dor lombar, não tem febre e não tem calafrio.

Você pergunta o que ele toma. Ele toma losartana de manhã. E, faz três dias, um antialérgico que sobrou de uma gripe da filha, para um coriza que não passava. Guarde essa informação: ela vai voltar, e é a diferença entre um episódio que termina hoje e um problema que começa hoje.

A enfermeira já preparou a bandeja e pergunta a coisa mais importante da noite, que não é se pode sondar. É: quanto eu deixo sair? Ela aprendeu na escola a pinçar em torno de setecentos ou mil mililitros, esperar, e soltar de novo. O residente que passou aqui no mês passado mandou drenar tudo de uma vez. Os dois disseram que era para evitar hematúria.

É essa a pergunta que este capítulo persegue, e é justamente a que os documentos brasileiros não respondem. O protocolo de regulação que governa o encaminhamento deste paciente — o de Urologia Adulto do TelessaúdeRS-UFRGS com a Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul, edição de 2023 — descreve com detalhe quando mandar para a emergência, quando mandar para a urologia e o que escrever no encaminhamento, e não contém as palavras drenagem, clampeamento ou esvaziamento gradual. O protocolo da Anvisa sobre cateter vesical de demora, de 2025, lista as indicações do cateter e proíbe fechar o cateter antes de retirar, mas não diz nada sobre fracionar a saída na hora de colocar. E a hiperplasia prostática benigna sequer tem protocolo clínico próprio no Ministério da Saúde: na lista oficial de PCDT, a letra H registra hiperplasia adrenal congênita e para por aí.

O vão não é acadêmico. A conduta de daqui a três minutos — abrir e deixar correr, ou abrir e pinçar — está sendo decidida por hábito de serviço, e os dois hábitos convivem no mesmo corredor. A boa notícia é que existe evidência, ela é razoavelmente consistente, e ela contraria o hábito mais difundido. A má notícia é que a evidência responde à pergunta errada: ela mede hematúria, que é o que se teme, e quase não mede a coisa que de fato derruba a pressão do Hermínio nas próximas seis horas.

Enquanto isso, a sala não parou. No leito 4 da observação está Lindolfo Camarinha, 68 anos, que veio de madrugada por uma queda em casa e cuja creatinina voltou 2,4. Ele urina todo dia, um pouco de cada vez, e não tem dor nenhuma. Vai aparecer de novo neste capítulo, porque a retenção que mata rim não é a que grita — é a que ninguém percebeu.

03

Quem adoece disso

A hiperplasia prostática benigna é uma condição de prevalência crescente com a idade, e a primeira coisa a entender é que prevalência histológica, próstata aumentada ao exame e sintoma clínico são três coisas diferentes, com números diferentes, e que a confusão entre elas explica boa parte do sobretratamento e do subtratamento que se vê na porta.

O protocolo brasileiro de regulação diz o essencial para quem atende: em homens com mais de 45 anos, a principal causa de sintomas do trato urinário inferior é a hiperplasia prostática benigna. Principal não é única, e o mesmo protocolo mantém um quadro de causas alternativas justamente porque tratar tudo como próstata é o erro mais comum da atenção primária brasileira nesse tema.

A revisão brasileira mais recente sobre descompressão vesical, feita na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da USP em 2023, reuniu 11 estudos e 659 pacientes com retenção urinária. O retrato que sai dessa amostra é o do paciente deste capítulo: a retenção ocorreu principalmente em homens, a causa principal foi a hiperplasia prostática benigna, e a idade dos pacientes variou entre 52 e 82 anos. Não é uma amostra brasileira — os estudos primários são internacionais —, mas é a leitura brasileira desse conjunto, e é a que existe.

O volume drenado nesses 659 pacientes variou entre 1.000 mL e 7.000 mL. Guarde a ordem de grandeza do extremo: sete litros são mais de três bolsas coletoras de dois litros, cheias, trocadas em sequência. Não é uma cifra de livro; é um relato de caso publicado, e voltaremos a ele.

A hiperplasia prostática benigna não é a única entrada da bexiga que não esvazia, e o capítulo se ocupa da mais frequente sem esconder as outras. As alternativas que o protocolo brasileiro obriga a considerar antes de fechar o diagnóstico incluem doença neurológica, cirurgia ou radioterapia pélvica ou prostática prévias, litíase vesical e infecção urinária de repetição — e, no pronto-socorro, a lista prática cresce com medicamento, constipação e imobilidade recentes.

O medicamento merece um número próprio porque é a causa mais reversível e a mais esquecida. O protocolo da Anvisa reconhece a categoria ao listar, entre as indicações de cateter, pacientes em cuidados críticos em uso de drogas que causam retenção urinária. Anticolinérgicos, e o anti-histamínico de primeira geração que o Hermínio tomou por conta própria é um deles, entram nessa lista por mecanismo direto: bloqueiam o receptor muscarínico do detrusor e tiram a contração de um músculo que já vinha trabalhando contra resistência.

Do lado do dano, o dado mais duro não é sobre a próstata: é sobre o cateter. A revisão da EERP-USP registra que a infecção do trato urinário responde por 35% a 45% das infecções relacionadas à assistência à saúde em pacientes adultos, com incidência de 3,1 a 7,4 por mil cateteres-dia de internação. Cada dia a mais de sonda é risco acumulado, e essa é a aritmética que transforma a decisão de hoje à noite — sondar, e por quanto tempo — numa decisão epidemiológica, não só numa decisão de conforto.

Sobre câncer de próstata, os números brasileiros são de duas casas e as duas são citadas neste capítulo porque a divergência sobre rastreamento se apoia justamente neles. As sociedades de urologia, oncologia clínica e radioterapia registram estimativa de 71.730 novos casos por ano para o triênio 2023-2025, segunda causa de óbito por câncer na população masculina, e acrescentam um dado de sistema que não aparece nas estimativas de incidência: 27% dos pacientes atendidos no SUS são diagnosticados já com doença metastática. O INCA, do outro lado, publica a prevalência de achado histológico de câncer em autópsias de homens mortos por outras causas — 37% entre 40 e 50 anos, 60% acima dos 79 — para sustentar que boa parte do que se acharia rastreando nunca daria sinal em vida.

Esses dois conjuntos de números não se contradizem. Eles medem coisas diferentes: um mede quem morre da doença, o outro mede quem a carrega sem saber. Um capítulo honesto tem de dizer que a discordância brasileira sobre rastrear ou não rastrear é uma discordância sobre qual dos dois pesa mais, e não sobre qual dos dois é verdade.

04

Por que acontece o que acontece

A próstata cresce a partir da zona de transição, que é o anel de tecido que envolve a uretra prostática. Esse detalhe topográfico explica por que o tamanho da glândula prediz tão mal o sintoma: um crescimento pequeno, mas central, estrangula a uretra; um crescimento grande, mas periférico, pode não obstruir nada. Homem com próstata de 80 gramas urinando bem e homem com próstata de 35 gramas em retenção são as duas situações do mundo real, e nenhuma das duas é exceção.

A obstrução tem dois componentes, e é essa dupla natureza que organiza a farmacologia inteira do tema. O componente estático é o volume de tecido interposto no caminho. O componente dinâmico é o tônus do músculo liso do estroma prostático, do colo vesical e da cápsula, mantido por receptores alfa-1 adrenérgicos. O alfabloqueador desliga o componente dinâmico e age em dias; o inibidor da 5-alfa-redutase reduz o componente estático e leva meses. Não é preferência de escola: é o motivo de as duas drogas terem prazos de avaliação completamente diferentes, e de trocar uma pela outra por impaciência ser um erro previsível.

A bexiga responde à resistência do único jeito que um músculo oco sabe: hipertrofia. O detrusor engrossa, e entre as bandas musculares hipertrofiadas a mucosa se insinua e forma as trabéculas, as células e, com o tempo, os divertículos. Essa bexiga gera pressão maior para vencer a mesma saída, e é uma bexiga irritável — daí o paradoxo que confunde aluno e paciente: a doença é de esvaziamento, e o sintoma que mais incomoda costuma ser de armazenamento, urgência e noctúria.

Há um segundo tempo, e é o que produz o Lindolfo do leito 4. O detrusor hipertrofiado sustenta o esforço por anos e depois descompensa: perde contratilidade, o resíduo pós-miccional sobe, a bexiga passa a viver cronicamente cheia e a sensação de enchimento se embota. O paciente urina todo dia, um pouco de cada vez, e não sente falta de nada. É a retenção crônica, e ela é silenciosa por construção.

Quando a pressão dentro da bexiga cronicamente cheia excede a pressão que os ureteres conseguem vencer, a coluna de urina sobe. Aparecem hidroureter e hidronefrose, e a pressão retrógrada no sistema coletor reduz a filtração glomerular. Essa é a lesão renal pós-renal, e é a razão de a régua brasileira transformar retenção crônica com hidronefrose, hidroureter ou filtração abaixo de 60 mL/min/1,73 m² em encaminhamento de urgência, e não de ambulatório. O que acontece com esse rim depois, e se ele volta, é assunto de dois capítulos vizinhos, 'Injúria renal aguda' e 'O rim que não volta'.

A retenção aguda é outro evento. Sobre uma obstrução que vinha compensada, entra um gatilho: um anticolinérgico, um descongestionante alfa-agonista, um opioide, uma constipação, uma imobilidade, um volume grande de líquido de uma vez, um episódio infeccioso ou inflamatório da próstata. O detrusor, que trabalhava no limite, não consegue mais gerar a pressão necessária, e a bexiga fecha. Dói, e dói de um jeito característico: dor contínua, em peso, suprapúbica, que não alivia em nenhuma posição — o oposto exato da cólica ureteral do capítulo vizinho 'A dor que não deixa ficar parado', em que o paciente não para de se mexer.

Agora o ponto que decide a conduta da madrugada. Enquanto a bexiga está distendida sob pressão, os vasos da submucosa estão comprimidos e o retorno venoso da parede está restringido. Ao drenar, a pressão intravesical cai, a parede se retrai e esses vasos ingurgitados se descomprimem bruscamente — alguns rompem. É a hematúria ex-vacuo, e o raciocínio mecânico dela é impecável. O problema é o que a medida mostra: um estudo clássico encontrou que, drenados os primeiros 100 mL, a pressão intravesical já caiu à metade do valor inicial. Se é a queda de pressão que rompe o vaso, ela aconteceu antes de qualquer decisão de pinçar — e é por isso que fracionar a partir dos 500 ou dos 1.000 mL protege menos do que parece.

A terceira consequência do esvaziamento é a que menos se ensina e a que mais derruba pressão arterial: a diurese pós-obstrutiva. Durante a obstrução, o rim acumula ureia e sódio e o túbulo perde a capacidade de concentrar. Aliviada a saída, o excesso é eliminado — e essa fase fisiológica pode virar patológica, com poliúria prolongada, perda excessiva de sódio, hiponatremia, desidratação, hipotensão e, no extremo, choque hipovolêmico. É por isso que o paciente que chega hipertenso de dor pode estar hipotenso quatro horas depois sem ter sangrado uma gota.

Dois esquemas frontais de bexiga antes e após a drenagem por sonda, com redução da distensão e manutenção do volume prostático; balão dentro da bexiga.
A drenagem alivia a distensão, mas não resolve por si a causa da retenção. Acompanhar diurese, hematúria, função renal e plano de seguimento. Sangramento não é obrigatório após o esvaziamento; a figura não sustenta clampeamento rotineiro nem drenagem parcelada como regra.
05

Como se apresenta de verdade

Sintoma do trato urinário inferior é um guarda-chuva, e o primeiro ato clínico é abrir o guarda-chuva em três grupos. A taxonomia usada pelo protocolo brasileiro separa sintomas de armazenamento, de esvaziamento e pós-miccionais, e essa separação não é enfeite: ela muda o que se investiga, o que se prescreve e o que se promete ao paciente.

O que segue percorre a apresentação da mais barulhenta à mais perigosa, terminando pelas que exigem decisão na mesma noite.

Os três grupos de sintomas, e por que a separação decide a conduta

Os sintomas de armazenamento aparecem enquanto a bexiga enche: aumento da frequência urinária, noctúria, urgência, incontinência de urgência e enurese noturna. Os de esvaziamento aparecem durante a micção: jato fraco, bífido ou intermitente, hesitação, esforço miccional e gotejamento terminal. Os pós-miccionais vêm depois: sensação de esvaziamento incompleto, o tenesmo vesical, e o gotejamento pós-miccional que molha a roupa quando o paciente já está de pé.

A armadilha da beira do leito é que o paciente quase nunca reclama do grupo que explica a doença. Ele reclama de noctúria, porque a noctúria acorda a casa inteira, e noctúria é sintoma de armazenamento. A obstrução, que é o problema mecânico, se manifesta no grupo de esvaziamento — e esse grupo o paciente descreve como normal, porque foi ficando anormal devagar. Perguntar 'o jato é forte?' recebe sim com frequência espantosa de homens que levam três minutos para começar. Perguntas melhores são concretas: o senhor precisa esperar para começar? Precisa fazer força? O jato para no meio e recomeça? Quando termina, ainda pinga depois?

A separação importa porque muda a promessa terapêutica. Alfabloqueador melhora principalmente o esvaziamento, e o paciente que foi convencido de que o remédio resolveria a noctúria volta em trinta dias dizendo que não funcionou. O protocolo brasileiro considera a resposta ao tratamento clínico otimizado como divisor de águas para encaminhar — e resposta se avalia no sintoma que a droga é capaz de mudar, não no que mais incomoda.

Vale ainda um ajuste de expectativa que evita consulta perdida: noctúria em homem idoso tem causas que não passam pela próstata e não respondem a nada que se prescreva para a próstata. Ingestão de líquido à noite, diurético tomado no fim da tarde, insuficiência cardíaca com redistribuição de volume ao deitar e apneia do sono são as óbvias, e o exercício de listá-las antes de aumentar dose de alfabloqueador poupa meses.

Retenção urinária aguda: a que se reconhece do corredor

A retenção aguda tem uma assinatura que raramente engana: incapacidade súbita e completa de urinar, dor suprapúbica contínua e em peso, e agitação. O paciente anda, encosta, tenta sentar e levanta de novo, e não porque a dor seja migratória — é porque ele está tentando qualquer coisa que faça sair. A dor não cede em nenhuma posição, o que a separa da cólica ureteral, tratada no capítulo vizinho 'A dor que não deixa ficar parado', em que a inquietação vem de uma dor que muda de intensidade em ondas.

O exame confirma em três manobras. A inspeção com luz rasante mostra a abóbada suprapúbica na linha média. A percussão dá macicez com convexidade superior — e macicez, não timpanismo, é o que separa bexiga cheia de alça distendida em obstrução intestinal. A palpação superficial reproduz a dor exatamente onde o paciente aponta, sem descompressão dolorosa e sem defesa involuntária.

Bexiga palpável só aparece com volume alto, e a ausência de abóbada visível não exclui retenção. Em obeso, em ascítico e no paciente que já tem distensão abdominal por outro motivo, o exame físico perde e a medida ganha: é para isso que existe a ultrassonografia à beira do leito, e é por isso que o resíduo medido, e não o resíduo estimado pela mão, é o que entra no prontuário.

Um cuidado que muda a conduta imediata: em paciente com história de trauma pélvico, sangue no meato ou hematoma perineal, a retenção pode ser por lesão de uretra, e nesse cenário a passagem de sonda uretral às cegas é decisão de outro capítulo — 'Trauma de pelve e controle de hemorragia'. Aqui fica registrado o gatilho de suspeita, e a regra de não improvisar.

Retenção crônica: o paciente que urina todo dia e está perdendo rim

É o Lindolfo do leito 4, e a razão de ele quase sempre chegar por outro motivo. A retenção crônica não dói, porque a distensão se instalou devagar e a sensibilidade se embotou. O paciente urina várias vezes ao dia, sempre pouco, e descreve a própria bexiga como funcionando.

O protocolo brasileiro define retenção urinária crônica como resíduo pós-miccional maior do que 300 mL, medido em duas ocasiões diferentes e persistente por pelo menos seis meses. É uma definição de ambulatório, e ela tem uma consequência prática que o bloco de critérios discute em detalhe: no plantão de hoje quase nunca se consegue satisfazer os três requisitos ao mesmo tempo.

A pista mais frequente é a incontinência paradoxal, ou por transbordamento: o paciente perde urina em gotas, sem urgência e sem esforço, porque a bexiga cheia transborda. Chamar isso de incontinência e prescrever anticolinérgico é o erro mais grave desta seção — é retirar contração de um detrusor que já não esvazia e precipitar retenção completa. O quadro pode ser noturno, com o paciente acordando molhado e sem ter acordado para urinar.

O segundo achado, e o que dá a urgência, é laboratorial. Creatinina elevada em homem idoso com sintomas urinários é obstrução até prova em contrário, e a prova é a imagem: hidronefrose, hidroureter e bexiga com resíduo alto. Aqui o capítulo cede a caracterização e a recuperação da função renal aos vizinhos 'Injúria renal aguda' e 'O rim que não volta', e fica com a parte que é sua — reconhecer que a causa é pós-renal e desobstruir.

O toque retal: uma pergunta que ele acerta, outra que ele erra

O toque retal responde bem a uma pergunta e mal a outra. Ele descreve a consistência, a simetria e a presença de nódulo, e é assim que o protocolo brasileiro o usa: nódulo, endurecimento ou assimetria bastam, sozinhos, para encaminhar por suspeita de neoplasia, sem depender de PSA. Ele estima mal o volume, e essa estimativa é justamente a que várias condutas pedem.

O protocolo assume esse limite e trabalha com ele. O conteúdo mínimo do encaminhamento por sintomas urinários exige a descrição do toque com tamanho estimado da próstata, consistência, presença de assimetria ou nódulo — ou seja, pede a estimativa mesmo sabendo que é grosseira, porque ela é o que existe na unidade básica, e reserva a medida verdadeira para a ecografia.

Sobre o toque no contexto de rastreamento de câncer, o INCA registra que nenhum estudo examinou o efeito do toque retal isolado sobre a mortalidade, e que ainda assim o rastreamento com toque se difundiu amplamente no Brasil. Essa é matéria da divergência deste capítulo. Já o toque retal feito na avaliação de sangramento e de risco colorretal é do capítulo 'Câncer colorretal'.

Uma nota de execução: o toque é doloroso e constrangedor num homem que está em retenção e com bexiga distendida, e o achado não muda a próxima ação, que é drenar. Adiar o toque para depois do alívio não perde informação — e, nesse paciente, ganha um exame confiável em vez de um exame feito às pressas contra a resistência de quem está com dor.

As bifurcações que mudam tudo: infecção, hematúria e o gatilho medicamentoso

Obstrução com infecção é outra doença. Febre, calafrio, dor em flanco, hipotensão, confusão ou taquicardia que não cede depois do alívio mudam o caso de retenção para trato urinário obstruído e infectado, que é uma coleção sob pressão e exige drenagem imediata, coleta de culturas e antibiótico. A bifurcação é sua; o tratamento da infecção urinária propriamente dita, incluindo escolha e duração do antibiótico, cistite, pielonefrite, a porta da prostatite e o que fazer com bacteriúria assintomática, é do capítulo 'Nem toda bactéria é uma doença', e a prostatite bacteriana aguda depois da porta — internação, sonda na retenção, abscesso prostático, duração e retorno — é do capítulo 'O que o antibiótico não alcança'.

Hematúria macroscópica com coágulos pode ser causa da retenção, e não consequência: o coágulo obstrui o colo vesical. A distinção é temporal e vale a pergunta direta — o sangue veio antes ou depois da parada de urinar? Se veio antes, a retenção é por tamponamento, e o problema é o sangramento. O protocolo da Anvisa reconhece esse cenário ao listar, entre as indicações de cateter de demora, o paciente com hematúria que demanda irrigação vesical contínua para prevenção de obstrução por coágulos, e especifica que a irrigação seja feita com solução fisiológica estéril, por cateter de três vias, em sistema fechado.

O gatilho medicamentoso é a causa mais reversível e a mais fácil de perder, porque o paciente não considera remédio aquilo que não foi receitado. Vale perguntar nominalmente por antialérgico, xarope de gripe, descongestionante nasal, remédio para cólica, relaxante muscular, antidepressivo tricíclico e opioide. Encontrar o gatilho não muda a conduta desta noite — ainda se drena —, mas muda tudo sobre o dia seguinte: retirado o agente, a chance de retirar a sonda com sucesso é outra.

Constipação e imobilidade completam a lista, e as duas são especialmente prováveis em paciente já internado. Ver, para esse contexto, o capítulo 'O repouso que ninguém prescreveu'.

O câncer de próstata que este capítulo assume, e onde ele para

O câncer de próstata tem capítulo próprio nesta apostila, 'Antes da agulha, e depois do laudo', e este fica com a parte que toca à porta de entrada e declara que a assume: os sinais de alarme, as causas benignas que elevam o PSA com o prazo para repetir cada dosagem, a régua de encaminhamento da atenção primária e a leitura do PSA de quem tem sintoma urinário. O que fica de fora é daquele capítulo: o que se faz com o PSA que já voltou alterado até o laudo da biópsia, o estadiamento, a escolha entre vigilância ativa, cirurgia, radioterapia e terapia sistêmica, e o manejo da doença avançada.

Duas fronteiras precisam ser nomeadas aqui, porque o assunto encosta em ambas. A doutrina do rastreamento — o que faz de um teste um teste de rastreio, sensibilidade e especificidade, sobrediagnóstico como categoria, os níveis de prevenção — é dos capítulos 'O nível não está no exame' e 'Prevenção quaternária e multimorbidade'. A decisão de rastrear um homem sem sintoma também é desses dois capítulos, que ensinam a conversa anterior à coleta. Este capítulo não reensina a doutrina e não é dono dessa decisão: o bloco de divergências registra o lado que esta apostila adota sobre o rastreamento da próstata, o mesmo daqueles capítulos.

Os sinais de alarme que o protocolo brasileiro nomeia são alterações do jato urinário, retenção urinária e hematúria; dor óssea, emagrecimento e caquexia aparecem mais na doença avançada. Note o incômodo pedagógico: os dois primeiros sinais de alarme são exatamente o que a hiperplasia benigna faz. Não há como separar pelo sintoma, e é por isso que a régua de encaminhamento combina o sintoma com o toque e com o PSA em vez de confiar em qualquer um deles sozinho.

Há uma emergência oncológica que pertence a esta seção porque chega com queixa urinária: suspeita ou diagnóstico de câncer de próstata com perda progressiva de força e alteração de sensibilidade em membros inferiores, anestesia em sela ou alteração no controle dos esfíncteres. Isso é acometimento da coluna vertebral, o protocolo brasileiro manda para a urgência, e a retenção urinária pode ser o primeiro sinal — retenção com anestesia em sela nunca é hiperplasia prostática.

Por fim, uma armadilha farmacológica que atravessa as duas doenças e que a régua brasileira registra explicitamente: os inibidores da 5-alfa-redutase reduzem o valor do PSA, e o valor de quem usa a droga há pelo menos três a seis meses deve ser multiplicado por dois. Um PSA de 2,0 ng/mL sob finasterida corresponde a 4,0 ng/mL — que atravessa o corte de 3 ng/mL do encaminhamento, enquanto o número cru não atravessa.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação deste capítulo é curta na emergência e longa no ambulatório, e a maior parte dos erros vem de trocar uma pela outra: pedir na madrugada o que só faz sentido depois, e deixar de pedir no ambulatório o que decide encaminhamento.

O que segue está na ordem em que as decisões aparecem.

Na retenção aguda, o exame que decide é a medida do volume vesical

Antes de sondar, a única informação que muda a decisão é se a bexiga está mesmo cheia. Anúria com bexiga vazia é problema pré-renal ou renal e não se resolve com sonda; passar sonda nesse paciente adiciona risco de infecção e não adiciona urina. A ultrassonografia à beira do leito responde em segundos, e onde não há aparelho o exame físico responde com menos precisão e ainda assim responde.

A medida do volume também serve de linha de base para tudo o que vem depois. O volume drenado é a variável que o resto da noite vai usar: é ele que classifica o risco de diurese pós-obstrutiva, é ele que entra no balanço hídrico e é ele que se compara ao resíduo de amanhã. Registre em mililitros, com hora, no prontuário — o protocolo da Anvisa exige o registro de horário, volume em mililitros, aspecto da urina e anormalidades como medida de rotina, e não como zelo pessoal.

O que não se pede na madrugada: PSA. Instrumentação uretral e retenção elevam o PSA, e a régua brasileira determina repetir o exame duas semanas depois quando a elevação for atribuída a retenção ou instrumentação. Um PSA colhido hoje, com bexiga distendida e sonda recém-passada, produzirá um número que não serve para nada e que assustará o paciente por semanas.

O que se pede na madrugada: função renal, e um sedimento urinário. A creatinina responde se há componente pós-renal instalado, e o exame de urina responde se há infecção associada — que é a bifurcação da seção anterior. Hemograma entra se houver hematúria significativa.

Imagem: quando o abdome total responde e quando não responde

A ecografia de vias urinárias e próstata é o exame de imagem do tema, e o protocolo brasileiro a coloca no conteúdo mínimo do encaminhamento: o laudo deve ser anexado, preferencialmente, ou descrito na íntegra com data. Ela responde três perguntas de uma vez — há dilatação do trato urinário acima da bexiga, qual é o volume prostático, e qual é o resíduo pós-miccional.

O volume prostático não é curiosidade anatômica: é critério de prescrição. A régua brasileira acrescenta o inibidor da 5-alfa-redutase ao alfabloqueador nos casos de próstata maior que 40 g ou PSA total maior que 1,4 ng/mL. Sem a ecografia e sem o PSA, o médico da unidade básica não tem como saber se está diante de um caso de monoterapia ou de combinação — e a diferença muda o prazo até poder chamar o tratamento de otimizado.

A dilatação do trato superior é o que transforma um caso ambulatorial em urgência. Hidronefrose ou hidroureter em paciente com retenção crônica está na lista de encaminhamento para urgência ou emergência do protocolo brasileiro, junto com sepse urinária e filtração glomerular abaixo de 60 mL/min/1,73 m².

Tomografia não é exame de primeira linha aqui, e vale dizer por quê: ela não acrescenta nada às três perguntas acima e acrescenta radiação e contraste a um paciente que pode estar com a função renal comprometida. A exceção é a investigação de hematúria macroscópica sem causa evidente, que segue régua própria no protocolo brasileiro.

PSA: para que serve neste capítulo, e o que ele não é

Neste capítulo o PSA tem duas funções que não se confundem com rastreamento. A primeira é operacional: ele é um dos critérios que decidem se o paciente com sintomas leva finasterida junto com o alfabloqueador, no corte de 1,4 ng/mL, porque funciona como marcador indireto de volume prostático. A segunda é de triagem de encaminhamento: com sintomas sugestivos, PSA total acima de 3 ng/mL encaminha; sem sintomas, o encaminhamento depende de faixa etária e de duas medidas com trinta dias de intervalo.

A leitura do número exige saber o que o eleva sem câncer. Infecção urinária e prostatite aguda elevam, e a régua manda repetir seis a oito semanas depois do tratamento. Biópsia prostática recente eleva, e manda repetir em seis semanas. Retenção urinária e instrumentação uretral elevam, e mandam repetir em duas semanas. A hiperplasia benigna, por si, também eleva — e é por isso que o corte isolado tem tão pouco poder de separar.

O sentido inverso também importa. Sob inibidor da 5-alfa-redutase por três a seis meses, o PSA cai, e a régua brasileira manda multiplicar o valor por dois. Ela acrescenta um critério dinâmico que é mais sensível que o corte fixo: em quem usa a droga continuamente, elevação de mais de 0,5 ng/mL em qualquer intervalo de tempo já é suspeita.

O que o PSA não é, neste capítulo, é teste de rastreamento populacional, e essa afirmação é objeto de divergência formal entre documentos brasileiros vigentes. O bloco de divergências expõe as posições com quem as sustenta e o lado que esta apostila adota: o do Ministério da Saúde, que não recomenda oferecer o exame a quem não o pediu.

Índice de sintomas: o que a régua brasileira usa e o que ela não usa

O índice internacional de sintomas prostáticos, o IPSS, é o instrumento que a literatura usa para quantificar sintomas e acompanhar resposta: sete perguntas sobre sintomas, cada uma pontuada de zero a cinco, mais uma pergunta separada de qualidade de vida.

Registre-se um fato verificável sobre a régua brasileira de encaminhamento: o protocolo de Urologia Adulto de 2023 não menciona o IPSS em nenhum ponto, nem no protocolo de sintomas do trato urinário inferior, nem no conteúdo mínimo do encaminhamento. O que ele exige por escrito é outra coisa — sinais e sintomas com tempo de início, histórico de retenção, descrição do toque retal, tratamento em uso com dose, posologia e tempo de uso, PSA total com data, creatinina com data e laudo de ecografia.

A consequência prática é que, no Brasil, a regulação não é acionada por escore, e sim por resposta a tratamento e por eventos duros: retenção, infecção recorrente, litíase vesical, perda de função renal. Um IPSS de 28 pontos não abre porta de urologia se o paciente nunca usou alfabloqueador em dose adequada por trinta dias; e um paciente com escore modesto que já teve um episódio de retenção aguda vai para a emergência.

Isso não torna o escore inútil na consulta. Ele serve para o próprio médico e para o próprio paciente medirem se houve melhora depois de trinta dias, num quadro em que a memória do sintoma é notoriamente ruim. Serve, também, para separar o incômodo real do incômodo suposto — há homens com jato fraco que não se importam, e prescrever a eles é tratar o médico.

O que fica de fora, e para onde vai

Estudo urodinâmico não é exame de porta e não é exame de unidade básica. Ele responde perguntas que só se colocam depois — se a obstrução é mesmo obstrutiva, se o detrusor contrai, se há hipoatividade — e o protocolo brasileiro nem sequer o inclui no conteúdo do encaminhamento, o que diz onde ele mora: depois da porta da urologia.

A técnica da sondagem vesical, a escolha de calibre, a lubrificação, a decisão entre cateter de duas e de três vias e o passo a passo asséptico são do capítulo 'Sondagem vesical'. Aqui ficam a indicação e a decisão: se sonda, quando sonda, e o que se faz com o que sai. Essa divisão é deliberada, e o leitor que precisar do procedimento deve ir ao capítulo vizinho antes de encostar no paciente.

A investigação de litíase e de cólica nefrética vai para 'A dor que não deixa ficar parado'; a de dor e aumento de volume escrotal, para 'Escroto agudo'; a de infecção urinária, incluindo quando não tratar bacteriúria, para 'Nem toda bactéria é uma doença'. Litíase vesical, essa sim, é achado deste capítulo — o cálculo que se forma dentro de uma bexiga que não esvazia é consequência da obstrução, e está na lista brasileira de encaminhamento para urologia.

Uma última ausência que vale nomear: não há, no acervo normativo brasileiro consultado para este capítulo, exame ou escore que diga qual paciente vai conseguir urinar depois de retirar a sonda. Essa previsão, que é a pergunta do terceiro dia, se faz na prática por variáveis clínicas — volume drenado, idade, presença de gatilho reversível, uso prévio de alfabloqueador — e o capítulo trata disso no bloco de reavaliação, dizendo o que é régua e o que é prática.

07

A régua brasileira: para onde vai o paciente, o que o SUS entrega e o que ninguém escreveu

Desobstruir alivia o sintoma, mas o cuidado continua com a avaliação renal, do balanço e da capacidade de voltar a urinar. A retenção pode ter causas prostáticas e não prostáticas.

  1. 1Confirme retenção e avalie infecção, trauma uretral, função renal, sintomas neurológicos e medicamentos precipitantes. Bexiga pequena com anúria requer outra investigação; exame físico isolado pode ser insuficiente.
  2. 2Drene por técnica asséptica com indicação e supervisão, sem insistir contra resistência. Suspeita de lesão uretral muda a abordagem e exige equipe especializada.
  3. 3Drenagem contínua e completa é apropriada na retenção usual; clampeamento fracionado não é rotina protetora. Registre volume e resposta, mantendo o sistema fechado.
  4. 4Observe pressão, urina e débito após a drenagem. Alto volume inicial, obstrução crônica, hidronefrose ou disfunção renal favorecem vigilância, mas nenhum corte de volume autoriza ignorar os demais riscos.
  5. 5Diurese >200 mL/h por duas horas consecutivas ou >3 L/24 h é referência para reconhecer diurese pós-obstrutiva. Avalie volemia, sódio, potássio e função renal, sem repor automaticamente mililitro por mililitro.
  6. 6Escolha alfabloqueador conforme hemodinâmica, formulação e acesso, começando na dose inicial apropriada. Finasterida atua em meses e não resolve o episódio agudo.
  7. 7Planeje tentativa de retirada após corrigir precipitantes e permitir ação do tratamento quando indicado. Não clampear para treino; avaliar sintomas, volume vesical e resíduo no teste de micção.
  8. 8Alta com sonda exige responsável, data de revisão/retirada, técnica de cuidado e sinais de retorno. Insuficiência renal, infecção, poliúria importante ou sangramento podem impedir alta imediata.

O que a régua brasileira não diz — e o que ela diz no lugar

A pergunta prática da retenção aguda é quanto drenar e com que rapidez. Nenhum dos documentos brasileiros consultados responde. O protocolo de Urologia Adulto de 2023 não contém as palavras drenagem, clampeamento, esvaziamento gradual nem hematúria ex-vacuo, e não menciona diurese pós-obstrutiva. O protocolo da Anvisa de 2025 usa a palavra clamp duas vezes, e as duas são sobre outra coisa: manter fechado o clamp distal da bolsa coletora, inclusive em irrigação, e não clampear a extensão durante transporte, mobilização ou deambulação. E o Ministério da Saúde nunca publicou protocolo clínico próprio para a hiperplasia prostática benigna — na lista oficial, a letra H registra hiperplasia adrenal congênita, e o único protocolo nacional do trato urinário inferior do adulto é o da incontinência urinária não neurogênica, aprovado pela Portaria Conjunta nº 1, de 9 de janeiro de 2020, cujo objeto é outro. O que a régua brasileira diz, e diz bem, é o que fazer no dia seguinte: define tratamento clínico otimizado, fixa o corte de próstata maior que 40 g ou PSA acima de 1,4 ng/mL para associar o inibidor da 5-alfa-redutase, e transforma retenção, infecção recorrente, litíase vesical e perda de função renal em critérios duros de encaminhamento. A ausência é sobre a hora, não sobre o mês.

Para onde vai o paciente — protocolo de Urologia Adulto (TelessaúdeRS-UFRGS/SES-RS, 2023)

Situação clínicaDestino que o protocolo determinaDetalhe que muda a leitura
Sintomas urinários e episódio de retenção urinária agudaUrgência ou emergênciaSem condicionantes: o episódio, sozinho, basta
Hiperplasia prostática benigna e retenção crônica com hidronefrose, hidroureter, filtração abaixo de 60 mL/min/1,73 m² ou sepse urináriaUrgência ou emergênciaÉ a retenção que não dói e mata rim; a complicação é que dá a urgência
Retenção urinária aguda ocorrida já sob tratamento clínico otimizadoUrologia, após avaliação na emergênciaExige que o tratamento otimizado já tenha sido cumprido — ver a tabela seguinte
Retenção crônica com filtração abaixo de 60 mL/min/1,73 m²Urologia, após avaliação na emergênciaA mesma situação aparece nas duas listas; a expressão 'após avaliação na emergência' é o que as concilia
Sintomas refratários ao tratamento clínico otimizado; infecção urinária recorrente; litíase vesical; doença neurológica, cirurgia ou radioterapia pélvica ou prostática préviasUrologiaSão os quatro eventos duros que abrem a porta sem depender de escore
Toque retal com nódulo, endurecimento ou assimetriaOncologia, cirurgia ou urologiaNão depende do valor do PSA
PSA total igual ou acima de 10 ng/mL em qualquer idade, na ausência de causas de elevaçãoOncologia, cirurgia ou urologiaUma única medida basta
Suspeita de neoplasia com hematúria, retenção ou sintomas constitucionais e PSA total acima de 3 ng/mLOncologia, cirurgia ou urologiaAqui o sintoma dispensa a segunda medida
Câncer de próstata com perda progressiva de força, alteração de sensibilidade em membros inferiores, anestesia em sela ou alteração de esfíncteresUrgência ou emergênciaAcometimento de coluna: pode chegar como retenção urinária

Da prescrição ao comprimido: o que a Rename 2024 entrega, recalculado para um adulto de 78 kg

FármacoConsta na Rename 2024?Apresentação e componenteDose diária citada pela régua brasileira, convertida
Mesilato de doxazosinaSim2 mg comprimido e 4 mg comprimido — Componente Básico, código ATC C02CA04Na formulação imediata, início usual de 1 mg/dia e titulação gradual; 2–8 mg/dia descreve manutenção. Conferir apresentação e fracionamento com farmácia, sem confundir com liberação modificada.
FinasteridaSim5 mg comprimido — Componente Básico, código ATC G04CB015 mg/dia = 1 comprimido; os 6 meses mínimos de uso equivalem a 180 comprimidos
TansulosinaNãoAusente do texto da Rename 2024 em busca normalizadaÉ o alfabloqueador uroseletivo; não há apresentação a converter no SUS
DutasteridaNãoAusente do texto da Rename 2024 em busca normalizadaSem apresentação a converter
OxibutininaNãoAusente do texto da Rename 2024 em busca normalizadaAntimuscarínico para sintomas de armazenamento; sem apresentação a converter
Solução de cloreto de sódio 0,9%SimConsta; é a solução da irrigação vesical contínua exigida pela Anvisa e da reposição volêmica9 g de cloreto de sódio por litro: bolsa de 500 mL tem 4,5 g e 77 mEq de sódio; bolsa de 1.000 mL tem 9 g e 154 mEq

Volumes descritos na literatura: exemplos de risco, sem limiar automático de conduta

Volume drenadoReferência de volume; esvaziar pela válvula sem desconectar o sistemaO que mudaDe onde vem o número
Primeiros 100 mLA pressão intravesical já caiu à metade do valor inicial: a descompressão que se teme já aconteceu antes de qualquer decisão de pinçarMedido com transdutor de pressão em 10 homens, idade média 74,5 anos, em estudo de 1987 incluído na revisão da EERP-USP; coincide com estudo de 1963 citado pela mesma revisão
1.000 mL1 L, medido sem troca de bolsaÉ o limite tradicionalmente ensinado à enfermagem, e é onde a evidência não encontra benefícioLevantamento de 1990 com 149 enfermeiros, citado pela revisão da EERP-USP
1.050 mL1,05 L; manter sistema fechadoMenor volume com que houve hematúria entre os 659 pacientes revisadosRevisão da EERP-USP (2023)
Acima de 2.000 mLMais de uma capacidade nominal de 2 L; esvaziar pela válvula e somar medidasFaixa em que os casos de hipotensão da revisão se concentraram, com necessidade de reposição volêmicaSete dos onze estudos da revisão da EERP-USP
5.900 mL5,9 L acumulados em medidas seriadas, sem trocar bolsa por estar cheiaRelato de caso com hematúria importante uma hora depois, hipotensão, transfusão, irrigação vesical e instilação de antifibrinolíticoRelato de caso de 2022 incluído na revisão
Mais de 7.000 mLMais de 7 L acumulados; registrar esvaziamentos e perdasRelato com queda de hemoglobina, pressão de 187 por 111 antes e 70 por 52 depois do esvaziamento, transfusão e cistoscopiaRelato de caso de 2022 incluído na revisão

Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência que fecha, e ela é o achado central deste capítulo. O ensaio clínico aleatorizado de maior porte da revisão da EERP-USP comparou descompressão gradual e descompressão rápida em 294 homens com retenção aguda e crônica, idade média de 72,5 anos. No braço gradual, o cateter era pinçado por 5 minutos a cada 200 mL drenados, até o esvaziamento completo; no rápido, a bexiga era esvaziada de forma contínua. Alocação: 142 para o gradual e 152 para o rápido, e 142 + 152 = 294, sem perda. Os percentuais declarados também fecham: 142/294 = 48,30% e 152/294 = 51,70%, exatamente os 48,3% e 51,7% impressos. Hematúria: 16 de 142 no gradual, ou 11,27%, contra 16 de 152 no rápido, ou 10,53% — os 11,3% e 10,5% do texto, com p = 1. Aritmética sem defeito e conclusão desconfortável: fracionar não preveniu hematúria. Note o custo do fracionamento nesse protocolo: 1.260 mL, que foi a média do braço gradual, exigem 7 frações de 200 mL e 6 pausas de 5 minutos, ou seja, 30 minutos de pinça para não prevenir nada.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Erro aritmético na fonte, com a conta. A mesma revisão resume um estudo observacional prospectivo com 22 homens em retenção crônica submetidos a descompressão rápida, e declara quatro percentuais: hematúria em 54,4%, comprometimento de função renal em 59,1%, hiperplasia prostática como causa primária em 45,5% e cateterismo uretral em 72,7%. Com n = 22, todo percentual verdadeiro é um múltiplo de 1/22, isto é, de 4,5454%. Três dos quatro batem exatamente: 13/22 = 59,09% arredonda para 59,1%; 10/22 = 45,45% para 45,5%; 16/22 = 72,73% para 72,7%. O quarto não existe: nenhum inteiro dividido por 22 dá 54,4%. O vizinho é 12/22 = 54,55%, que arredonda para 54,5%. O número publicado é o da complicação principal do estudo, e ele carrega um dígito trocado.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Segundo erro aritmético na mesma fonte, também com a conta. Ao descrever um levantamento de 1990 com 149 enfermeiros, a revisão informa que 42%, ou 63 profissionais, limitavam a drenagem a 1.000 mL, e que 15%, ou 22 profissionais, clampeavam o cateter após 750 a 1.000 mL; em seguida afirma que 57%, ou 84 profissionais, faziam o que os livros de enfermagem recomendam, que é justamente clampear entre 700 e 1.000 mL. Mas 63 + 22 = 85, e não 84. E 85/149 = 57,05%, que arredonda para os 57% impressos, enquanto 84/149 = 56,38%, que arredondaria para 56%. A contagem e o percentual não podem estar os dois certos; o percentual é o que corresponde à soma dos dois subgrupos.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Contradição interna na mesma fonte, a duas frases de distância, e ela importa porque é sobre o limiar que dispara a vigilância. Na discussão, a revisão atribui os casos de hipotensão de sete dos onze estudos à diurese pós-obstrutiva após drenagem de mais de 2.000 mL. No parágrafo seguinte, ao definir a diurese pós-obstrutiva, escreve que ela ocorre quando mais de 1.500 mL de urina é drenada, citando uma referência de 2022. São dois limiares para o mesmo fenômeno, no mesmo documento, com 500 mL de diferença. Este capítulo adota o mais baixo como gatilho de vigilância e o mais alto como gatilho de reposição, e diz que essa escolha é sua, não da fonte.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Erro de unidade na fonte, duplo e na mesma frase. Ao resumir um relato de caso de 2022 em que mais de 7 litros foram drenados, a revisão escreve que a hemoglobina caiu 'de 10,1 mg/dl para 5,7 ml/dl'. Hemoglobina se expressa em gramas por decilitro. A primeira unidade está errada por fator 1.000, trocando grama por miligrama; a segunda não é sequer unidade de concentração de massa — mililitro por decilitro é volume por volume. O valor numérico é plausível como g/dL e o sentido clínico do relato, uma queda que motivou transfusão, se mantém; o que não se pode fazer é copiar as unidades.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Erro de unidade em documento do Ministério da Saúde, com contagem exata. O Caderno de Atenção Primária nº 29, de 2010, discute o PSA como exemplo de teste que não atende ao critério de confiabilidade e escreve, quatro vezes no mesmo parágrafo, 'ng/dL' — para o ponto de corte de 4 e para o de 2. A unidade do PSA é nanograma por mililitro. Busca exata sobre o texto extraído devolve 4 ocorrências de 'ng/dL' e nenhuma de 'ng/mL' no documento inteiro. O erro é de fator 10 na escala e não muda a conclusão do caderno, que é sobre sensibilidade e especificidade, mas é o tipo de deslize que o aluno copia para a prova e para o prontuário.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Duas linhas da mesma tabela indicando a mesma coisa com condições diferentes. O Quadro 1 do protocolo da Anvisa de 2025 lista, na primeira linha, 'pacientes com impossibilidade de micção espontânea', com a observação de que é indicado em casos de retenção urinária sem viabilidade para cateterismo de alívio — isto é, o cateter de demora é a segunda escolha, e o de alívio vem antes. Na última linha do mesmo quadro, sob 'outras situações', o mesmo quadro lista 'obstrução e retenção urinária', sem qualquer condicionante. Lidas em conjunto, a tabela indica retenção urinária duas vezes, uma condicionada e outra incondicionada, e quem ler só a última linha justificará um cateter de demora que a primeira linha desaconselha.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Uma faixa etária que não pertence a nenhuma classe. Para homem assintomático com duas medidas de PSA total entre 3 e 10 ng/mL, o protocolo brasileiro encaminha os menores de 70 anos sem condição adicional, e os de 70 a 75 anos se a expectativa de vida estimada for superior a 10 anos. Acima de 75 anos não há linha. O protocolo não diz encaminhar nem diz não encaminhar: simplesmente não trata do caso, embora a faixa exista e seja grande. Some-se a isso que os valores exatos 3 e 10 aparecem em duas regras ao mesmo tempo — 'PSA total ≥ 10' basta com uma medida, e 'entre 3 e 10' exige duas —, de modo que um PSA de exatamente 10,0 ng/mL cai nas duas.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Uma definição de ambulatório usada como critério de emergência. O protocolo brasileiro define retenção urinária crônica como resíduo pós-miccional maior que 300 mL, medido em duas ocasiões diferentes e persistente por pelo menos seis meses, e usa exatamente esse termo definido na lista de encaminhamento para urgência ou emergência, quando associado a hidronefrose, hidroureter, filtração abaixo de 60 mL/min/1,73 m² ou sepse urinária. Os seis meses são 180 dias. À beira do leito de hoje, diante de um homem com creatinina de 2,4 e hidronefrose bilateral, ninguém tem duas medidas separadas nem seis meses de persistência documentados — e ninguém deve esperar por eles. Na prática, o critério de urgência é acionado pela complicação, e a rotulagem cronológica é preenchida depois. Registre a leitura como leitura: o protocolo não autoriza expressamente esse atalho, e também não oferece outro.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Uma conferência sobre destinos que parece contradição e não é. A mesma situação — retenção crônica com filtração abaixo de 60 mL/min/1,73 m² — aparece na lista de urgência ou emergência e na lista de urologia. As duas linhas se conciliam pela expressão 'após avaliação na emergência', presente só na segunda: o protocolo está descrevendo dois momentos de um mesmo percurso, e não dois destinos concorrentes. Foi conferido e fecha.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Duas idades de início para o mesmo grupo, nas duas peças da mesma sociedade. A Nota Oficial de 2018 da Sociedade Brasileira de Urologia recomenda que homens negros ou com parentes de primeiro grau acometidos comecem aos 45 anos. O posicionamento conjunto de 2023 da mesma sociedade com as de oncologia clínica e de radioterapia descreve o grupo de maior risco como pacientes entre 40 e 50 anos com histórico familiar, etnia negra ou mutação patogênica no gene BRCA, e reserva para homens acima de 50 anos com expectativa de vida maior que 10 anos a discussão individual. As duas peças continuam publicadas, nenhuma revoga a outra, e a idade que abre a conversa muda conforme qual delas se leia.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Um dado da Rename que muda conduta, e por isso vale grifado. O alfabloqueador que consta do Componente Básico é o mesilato de doxazosina, em comprimidos de 2 mg e 4 mg, classificado sob o código ATC C02CA04, que é o dos anti-hipertensivos — não sob o grupo G04, dos urológicos, onde a finasterida aparece como G04CB01. Não é detalhe de catalogação: a doxazosina é um alfabloqueador não seletivo, cujo efeito adverso característico é a hipotensão postural, e ela é o que existe para um homem de 74 anos que acabou de passar por um esvaziamento vesical. A tansulosina, uroseletiva, não consta da Rename 2024.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Três conversões da Rename recalculadas, e as três fecham. A solução injetável de cloreto de sódio a 0,9% é declarada como 9 mg/mL equivalentes a 0,154 mEq/mL: 9 mg divididos pela massa molar de 58,44 mg/mmol dão 0,154 mmol/mL, e como o sódio é monovalente o valor em miliequivalentes é o mesmo — confere. A de 20% é declarada como 200 mg/mL equivalentes a 3,4 mEq/mL: 200 ÷ 58,44 = 3,42 mEq/mL — confere. E o cloreto de potássio a 19,1% é declarado como 191 mg/mL equivalentes a 2,56 mEq/mL: 191 ÷ 74,55 = 2,562 mEq/mL — confere. Vale dizer isto tanto quanto se diz o que falha: as equivalências publicadas nessa parte da Rename foram recalculadas uma a uma e nenhuma tem desvio.

08

A conduta, hora a hora

O que segue é a noite do Hermínio, hora a hora, com as decisões nomeadas e a origem de cada uma declarada: o que vem de norma brasileira, o que vem de estudo e o que é leitura deste capítulo. Onde a origem for leitura, está escrito.

A técnica da sondagem — calibre, lubrificação, antissepsia, cateter de duas ou três vias — é do capítulo 'Sondagem vesical'. Aqui está a indicação, a decisão e o depois.

  1. Minuto 0 a 5 — antes de encostar na sonda

    Três perguntas separam o paciente que a sonda ajuda do paciente que a sonda prejudica, e as três se respondem em cinco minutos. A primeira: a bexiga está cheia? Bexiga vazia é anúria, e sonda não trata anúria — acrescenta risco de infecção e não acrescenta urina. A ultrassonografia à beira do leito responde em segundos; onde não há aparelho, a inspeção com luz rasante e a percussão em busca de macicez de convexidade superior respondem com menos precisão e ainda assim respondem. A segunda: há infecção junto? Febre, calafrio, dor em flanco, hipotensão ou confusão mudam o caso para trato urinário obstruído e infectado, que é coleção sob pressão e exige culturas antes do antibiótico. A terceira: há uretrorragia, sangue no meato ou hematoma perineal depois de trauma? Nesse caso a sonda uretral às cegas está fora, e o caminho é o do capítulo 'Trauma de pelve e controle de hemorragia'. Enquanto isso, procure o gatilho reversível pelo nome, porque o paciente não considera remédio o que não foi receitado — o Hermínio tomou um anti-histamínico de primeira geração há três dias, que bloqueia o receptor muscarínico do detrusor, e essa informação vale mais para o terceiro dia do que para esta hora.

    Prescrição
    • Confirmar bexiga cheia por ultrassonografia à beira do leito, ou por inspeção e percussão onde não houver aparelho — e registrar qual dos dois foi usado
    • Aferir e anotar pressão arterial, frequência cardíaca, temperatura axilar e saturação ANTES da drenagem; esses números vão ser a linha de base das próximas seis horas
    • Creatinina sérica e exame de urina de rotina — a primeira responde se há componente pós-renal instalado, o segundo responde a bifurcação infecciosa
    • Hemograma se houver hematúria macroscópica ou se o volume esperado for alto
    • Não colher PSA: retenção e instrumentação uretral elevam o valor, e a régua brasileira manda repetir duas semanas depois quando a elevação vier dessas causas
    • Perguntar nominalmente por antialérgico, xarope de gripe, descongestionante nasal, antiespasmódico, relaxante muscular, antidepressivo tricíclico e opioide, e registrar a resposta
  2. Minuto 5 a 15 — o esvaziamento, e a pergunta que a norma brasileira não responde

    Aqui está o nervo do capítulo. A enfermeira quer saber se pinça. A resposta honesta tem três camadas. Primeira: nenhuma norma brasileira responde. O protocolo de Urologia Adulto de 2023 não usa as palavras drenagem, clampeamento nem esvaziamento gradual; o protocolo da Anvisa de 2025 só usa clamp para o dispositivo da bolsa e para proibir clampear durante transporte; e não há protocolo clínico do Ministério da Saúde para hiperplasia prostática benigna. Segunda: o que a evidência mede não sustenta o fracionamento. O maior ensaio aleatorizado da revisão brasileira sobre o tema, com 294 homens, pinçou 5 minutos a cada 200 mL num braço e drenou continuamente no outro, e encontrou hematúria em 11,3% contra 10,5%, com p igual a 1 — e um estudo com medida direta de pressão mostrou que a queda pela metade já ocorre nos primeiros 100 mL, o que explica por que fracionar depois disso não protege. Terceira, e é a que muda a conduta: a complicação que de fato importa não é a hematúria. Nos onze estudos revisados, nenhum caso de hipotensão precisou de vasopressor, todos foram tratados com reposição de volume, e a hematúria dos ensaios se resolveu sem tratamento — enquanto os relatos graves, com transfusão e cistoscopia, são de volumes de 5,9 e mais de 7 litros. Por isso este capítulo drena de forma contínua e completa, e transfere a atenção do relógio da pinça para o balanço hídrico das seis horas seguintes. Registre que a preferência por drenar de uma vez é leitura deste capítulo a partir da evidência disponível, e não determinação de norma brasileira.

    Prescrição
    • Drenagem contínua e completa, sem clampeamento fracionado — a decisão é do capítulo, apoiada em ensaio aleatorizado com 294 pacientes e em medida direta de pressão intravesical, e não em norma nacional
    • Sistema de drenagem fechado, bolsa mantida sempre abaixo do nível da bexiga, sem dobras nem alças no tubo — exigência expressa do protocolo da Anvisa de 2025
    • Medir e registrar o volume total drenado em mililitros, com a hora — o protocolo da Anvisa exige o registro de horário, volume em mL, aspecto da urina e anormalidades
    • Esvaziar a bolsa pela válvula própria em recipiente limpo apropriado antes de encher, sem desconectar ou trocar a bolsa apenas pelo volume. Registrar cada medida e manter o sistema fechado, sem contato do bocal com o recipiente.
    • Se o paciente estiver em uso de anticoagulante ou tiver hematúria prévia, prever cateter de três vias e solução de cloreto de sódio 0,9% disponíveis antes de começar; a técnica da irrigação é do capítulo 'Sondagem vesical'
    • Reaferir pressão arterial e frequência cardíaca imediatamente ao fim da drenagem, com o paciente ainda deitado
  3. Minuto 15 a 60 — o que muda quando a dor some

    O volume inicial ajuda a estimar risco, mas não decide sozinho observação ou reposição. Hermínio precisa de reavaliação da perfusão após o alívio. Alto volume, retenção prolongada, hidronefrose, disfunção renal, alterações eletrolíticas e comorbidades orientam vigilância. Reposição responde às perdas e à volemia, não a cruzar 2.000 mL na primeira drenagem.

    Prescrição
    • Definir intensidade de vigilância pelo conjunto: volume drenado, cronicidade, hidronefrose, função renal, eletrólitos e hemodinâmica. Mesmo volume <1.500 mL pode exigir débito horário e internação se houver outros riscos.
    • Débito urinário horário medido na bolsa, anotado hora a hora — não estimado no fim do plantão
    • Pressão arterial deitado e sentado, ou deitado e em pé se o paciente conseguir, na primeira hora e depois a cada duas horas nas primeiras seis
    • Sódio, potássio, ureia e creatinina de controle se o volume drenado passar de 2.000 mL ou se a creatinina de entrada estiver alterada
    • Reavaliar o abdome: a bexiga que era palpável não pode continuar palpável — se continuar, a sonda não está drenando
    • Registrar aspecto da urina e sintomas. Turvação e odor isolados não diagnosticam infecção nem indicam antibiótico; sangue com coágulos e falha de drenagem exigem ação.
  4. Hora 1 a 6 — a diurese pós-obstrutiva, que é a complicação que derruba pressão

    É a complicação menos ensinada e a que mais muda a noite. Durante a obstrução, o rim acumula ureia e sódio e o túbulo perde capacidade de concentrar; aliviada a saída, o excesso sai — e a fase fisiológica, que deveria terminar em 24 horas, pode virar poliúria prolongada com perda excessiva de sódio, hiponatremia, desidratação, hipotensão e, no extremo, choque hipovolêmico. Nos estudos revisados, os casos de hipotensão foram todos tratados com reposição de volume intravenoso e nenhum exigiu vasopressor, o que dá a medida certa do problema: é grave o suficiente para exigir medida e vigilância, e não é motivo para monitorização invasiva. A armadilha de execução é a repor por reflexo. Repor mililitro por mililitro tudo o que sai prolonga a poliúria, porque a carga osmótica volta a ser oferecida ao rim que ainda não retomou a capacidade de concentrar. A conduta é repor parcialmente, guiada por pressão, perfusão e sódio, e não pela coluna da bolsa. Com bolsa de 1.000 mL de cloreto de sódio 0,9%, repor metade de um débito de 300 mL por hora significa 150 mL por hora, ou 3,6 bolsas em 24 horas, e cada bolsa carrega 154 mEq de sódio.

    Prescrição
    • Medir débito horário e balanço. >200 mL/h por duas horas consecutivas ou >3 L/24 h sugere diurese pós-obstrutiva e exige avaliação de duração, volemia e eletrólitos.
    • Reposição parcial com cloreto de sódio 0,9% quando houver poliúria com sinais de hipoperfusão ou queda pressórica — orientada por pressão arterial, perfusão periférica e sódio sérico, e não por reposição integral do débito
    • Cloreto de sódio 0,9% solução injetável, Componente Básico da Rename 2024, 9 mg/mL equivalentes a 0,154 mEq/mL: bolsa de 500 mL contém 4,5 g de cloreto de sódio e 77 mEq de sódio; bolsa de 1.000 mL contém 9 g e 154 mEq
    • Rever sódio, potássio e função renal em intervalos ajustados à gravidade, frequentemente 6–12 horas na poliúria importante; considerar magnésio. Podem ocorrer hipo ou hipernatremia e perdas de potássio, não apenas hiponatremia.
    • Estimular a via oral assim que o paciente tolerar — o estudo observacional da revisão repôs volume por via oral e intravenosa nos pacientes que drenaram mais de 2.000 mL
    • Não prescrever diurético para 'ajudar a eliminar'; a poliúria aqui é perda, não retenção
  5. Hora 1 a 6 — a hematúria ex-vacuo, e o que fazer se ela vier

    A hematúria pós-esvaziamento é frequente e quase sempre benigna: nos ensaios revisados ela apareceu em torno de 11% dos pacientes, independentemente da técnica, e no estudo observacional com 22 homens resolveu-se em 24 horas sem necessidade de tratamento. Uma revisão de literatura mais antiga, também citada pela síntese brasileira, encontrou hematúria entre 2% e 16% após descompressão rápida e completa, sem nenhum relato de hematúria grave. O que muda de patamar é coágulo. Coágulo obstrui a sonda, a bexiga volta a encher com a sonda dentro, e o paciente que estava aliviado volta a ter dor suprapúbica — esse é o sinal de alarme, e ele é fácil de perder porque todo mundo já considerou o caso resolvido. Aí a indicação passa a ser cateter de três vias e irrigação vesical contínua com solução fisiológica estéril em sistema fechado, que é uma das indicações de cateter de demora expressamente listadas pelo protocolo da Anvisa. Os dois relatos de caso graves da revisão, de 5,9 e mais de 7 litros, precisaram de transfusão, irrigação e, num deles, cistoscopia com retirada de coágulo — e os dois são de retenção crônica de altíssimo volume, não de retenção aguda comum. A necessidade de intervenção ou transfusão depende de perfusão, instabilidade, sangramento e tendência da hemoglobina, não do valor laboratorial isolado; retenção por coágulos também exige ação.

    Prescrição
    • Se a urina sair sanguinolenta sem coágulos e a sonda drenar bem: observar, manter hidratação e reavaliar em 24 horas. É o curso esperado
    • Se houver coágulos ou a sonda parar de drenar: reavaliar o abdome procurando bexiga palpável de novo — sonda entupida com bexiga cheia é retenção com sonda dentro
    • Indicação de cateter de três vias e irrigação vesical contínua com solução de cloreto de sódio 0,9% estéril, em sistema fechado, conforme o Quadro 1 do protocolo da Anvisa; a técnica é do capítulo 'Sondagem vesical'
    • Hemograma seriado se a hematúria for volumosa ou se houver instabilidade; a queda de hemoglobina é o que decide transfusão, e não a cor da urina
    • Suspender temporariamente anticoagulante ou antiagregante é decisão que se toma com quem prescreveu, pesando o motivo original — não é decisão automática do plantão
    • Chamar a urologia diante de hematúria com coágulos que não clareia com irrigação, ou de instabilidade hemodinâmica
  6. Ainda na primeira noite — começar o alfabloqueador e desmontar o gatilho

    A sonda alivia a bexiga e não trata a próstata. Começar o alfabloqueador ainda na primeira noite é o que aumenta a chance de o paciente urinar quando a sonda sair, e é também o que a lógica do protocolo brasileiro pressupõe: ele encaminha para a urologia o paciente que teve retenção 'na vigência de tratamento clínico otimizado', o que só faz sentido se o tratamento tiver sido iniciado. O protocolo define tratamento otimizado com precisão: alfabloqueador por pelo menos 30 dias em doses usuais, como doxazosina de 2 a 8 mg por dia, e, nos casos de próstata maior que 40 g ou PSA total maior que 1,4 ng/mL, inibidor da 5-alfa-redutase concomitante — finasterida 5 mg por dia — por pelo menos 6 meses. Traduzido para o que o paciente leva da farmácia: são 30 comprimidos de finasterida por mês e 180 até completar o prazo mínimo. A escolha do alfabloqueador não é livre. A tansulosina, uroseletiva, não consta da Rename 2024; o que consta é o mesilato de doxazosina, comprimidos de 2 mg e 4 mg do Componente Básico, classificado sob o código de anti-hipertensivo — um alfabloqueador não seletivo cujo efeito adverso característico é hipotensão postural, num homem de 74 anos que acabou de esvaziar dois litros. Comece baixo, à noite, e avise.

    Prescrição
    • Se escolhida doxazosina de liberação imediata, iniciar usualmente 1 mg por via oral uma vez ao dia, após avaliar pressão e volemia, e titular gradualmente conforme tolerância. Não confundir dose de início com manutenção de 2–8 mg/dia. Conferir apresentação e possibilidade de fracionamento com a farmácia; formulações de liberação modificada não são intercambiáveis.
    • Orientar explicitamente sobre hipotensão postural: levantar em duas etapas, sentar na beira da cama antes de ficar de pé, e não tomar a primeira dose antes de dirigir ou de subir escada
    • Rever a prescrição inteira e suspender o gatilho: anti-histamínico de primeira geração, descongestionante alfa-agonista, antiespasmódico, tricíclico, opioide desnecessário
    • Tratar constipação, se houver, e mobilizar o paciente — os dois entram na lista de causas contribuintes e os dois são reversíveis
    • Finasterida 5 mg por via oral, 1 comprimido ao dia, quando a ecografia mostrar próstata acima de 40 g ou o PSA total, colhido em momento apropriado, estiver acima de 1,4 ng/mL. Avisar que o efeito leva meses e que o PSA vai cair pela metade sob a droga
    • Não iniciar antimuscarínico para a urgência ou a noctúria neste momento — em bexiga que não esvazia, reduzir a contração do detrusor precipita nova retenção. A oxibutinina, além disso, não consta da Rename 2024
  7. Dia 1 a 3 — a retirada da sonda, que é a decisão de verdade

    Cada dia de sonda é risco acumulado de infecção — a revisão brasileira registra incidência de 3,1 a 7,4 por mil cateteres-dia, e infecção urinária responde por 35% a 45% das infecções relacionadas à assistência à saúde no adulto. O protocolo da Anvisa é direto: a retirada deve ocorrer tão logo seja possível, com base em avaliação clínica da real necessidade, registrada em prontuário. E traz uma instrução determinada que contraria um hábito difundido: não realizar fechamento prévio do cateter, porque não há necessidade de exercício vesical. Vale reparar na assimetria, porque ela é útil: a norma brasileira proíbe pinçar na saída e silencia sobre pinçar na entrada. Quem defende o clampeamento antes de retirar está contrariando o documento; quem defende o clampeamento durante a drenagem inicial está preenchendo um vão. Não existe, nas fontes brasileiras consultadas, escore que preveja quem vai urinar depois da retirada. As variáveis que se usam na prática são o volume drenado, a idade, a existência de gatilho reversível já removido e o tempo de alfabloqueador — e dizer que isso é prática, e não régua, faz parte de ensinar direito.

    Prescrição
    • Retirar a sonda tão logo a indicação deixe de existir, com registro em prontuário do profissional responsável, data, hora e intercorrências — exigência do protocolo da Anvisa
    • Não fechar o cateter antes de retirar: o protocolo da Anvisa determina que não se faça fechamento prévio, e afirma que não há necessidade de exercício vesical
    • Preferir esperar 48 a 72 horas de alfabloqueador antes da retirada quando o quadro permitir — é prática apoiada no mecanismo do componente dinâmico da obstrução, e não determinação de norma brasileira
    • Retirar depois de o gatilho ter sido removido: retirar sonda com o anticolinérgico ainda em uso é agendar a segunda retenção
    • Após retirar, medir tempo, sintomas e volume/resíduo. Dor com bexiga cheia ou incapacidade de esvaziar exige abordagem imediata. Ausência de micção em 4–6 horas pede reavaliação, mas não recolocação automática sem confirmar distensão e contexto hídrico.
    • Medir resíduo pós-miccional por ultrassonografia após a primeira micção espontânea, quando houver aparelho — é o dado que separa micção eficaz de micção por transbordamento
  8. A alta e o encaminhamento — o que a régua brasileira exige por escrito

    O paciente que teve retenção aguda não volta para casa apenas com alívio: ele volta com um encaminhamento, e o protocolo brasileiro define o conteúdo mínimo desse encaminhamento item por item. Isso não é burocracia; é o que determina se a regulação vai aceitar ou devolver, e encaminhamento devolvido é meses perdidos. São seis itens: sinais e sintomas com tempo de início e histórico de retenção, com descrição do toque retal — tamanho estimado, consistência, assimetria, nódulo; tratamento em uso ou já realizado, com medicamento, dose, posologia e tempo de uso; PSA total com data, se realizado; creatinina sérica com data, se realizada; laudo de ecografia abdominal ou de vias urinárias e próstata anexado, ou descrito na íntegra com data; e o número da teleconsultoria, se o caso tiver sido discutido. Quem sai daqui com sonda de demora precisa, além disso, de um plano escrito de quem retira, quando e onde — porque sonda sem dono vira sonda permanente.

    Prescrição
    • Encaminhamento à urologia com os seis itens do conteúdo mínimo do protocolo brasileiro; a ausência de qualquer um é motivo previsível de devolução
    • Registrar o volume drenado no episódio e o resíduo pós-miccional medido, se houver — são os números que a urologia vai usar e que ninguém mais terá
    • Prescrição de alta com o alfabloqueador iniciado, dose e horário, mais a orientação de hipotensão postural por escrito e em letra legível para a família
    • Solicitar ecografia de vias urinárias e próstata e PSA total, este último a ser colhido pelo menos duas semanas após a instrumentação uretral, conforme a régua brasileira
    • Sinais de retorno imediato, escritos: não conseguir urinar de novo, febre, calafrio, dor lombar, urina com coágulos, ou tontura ao levantar
    • Se a alta for com sonda: nome do serviço e data da retirada programada, orientação de manter a bolsa sempre abaixo do nível da bexiga e de nunca desconectar o sistema, e sinal de alarme para sonda que parou de drenar
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Como saber se está funcionando

Sete parâmetros cobrem as primeiras 72 horas. A ordem é a da probabilidade de estragar a noite, e não a da gravidade máxima.

Cada linha diz o que se espera e o que se faz quando o esperado não acontece.

Volume drenado no esvaziamento inicialAo fim da drenagem, medido e anotado em mililitros com a hora

Esperado: Um número registrado, não uma impressão. É ele que classifica o risco das próximas seis horas

Se não melhora: Reavaliar volemia, pressão, sangramento e débito. Alto volume inicial favorece vigilância de diurese pós-obstrutiva, junto com cronicidade, hidronefrose e função renal. Esvaziar a bolsa pela válvula antes de encher, sem trocar ou desconectar apenas por volume.

Dor suprapúbicaMinutos após a drenagem, e depois continuamente

Esperado: Alívio praticamente imediato e quase completo; o paciente que estava de pé senta

Se não melhora: Dor que não alivia depois de drenagem que saiu bem significa que a dor não era da bexiga. Reconsidere abdome agudo, cólica ureteral e retroperitônio. Dor que aliviou e VOLTOU é o sinal mais importante desta lista: sonda obstruída por coágulo, com bexiga enchendo por dentro. Palpe e percuta de novo antes de prescrever analgesia.

Pressão arterial e frequência cardíacaAntes da drenagem, ao fim dela, e a cada duas horas nas primeiras seis

Esperado: Queda dos valores que eram de dor — o paciente hipertenso e taquicárdico da entrada normaliza

Se não melhora: Queda que ultrapassa a normalização, ou hipotensão franca, especialmente com poliúria, é diurese pós-obstrutiva até prova em contrário. Nos estudos revisados nenhum caso precisou de vasopressor e todos responderam a reposição de volume. Meça também deitado e de pé: a hipotensão postural pode ser a droga, e não a diurese, sobretudo depois da primeira dose de doxazosina. Taquicardia que persiste com febre reabre a hipótese infecciosa.

Débito urinário horárioHorária na poliúria e em pacientes de risco, mesmo que o volume inicial tenha sido inferior a 1.500 mL

Esperado: Queda progressiva do débito ao longo das primeiras horas, com normalização em até 24 horas

Se não melhora: Poliúria mantida além de 24 horas é diurese pós-obstrutiva prolongada, e o risco deixa de ser hipotensão isolada e passa a ser desidratação e distúrbio eletrolítico. Meça sódio e potássio, reponha parcialmente com solução de cloreto de sódio 0,9% guiada por perfusão e sódio sérico, e não reponha mililitro por mililitro — repor tudo o que sai realimenta a poliúria.

Aspecto da urina e patência da sondaA cada verificação de sinais vitais nas primeiras 24 horas

Esperado: Urina que clareia progressivamente; sonda drenando de forma contínua

Se não melhora: Hematúria sem coágulos com sonda pérvia é o curso comum e se resolve em torno de 24 horas sem tratamento. Coágulos ou parada de drenagem exigem ação: bexiga palpável de novo é retenção com a sonda dentro. Indicação de cateter de três vias com irrigação contínua de solução fisiológica estéril em sistema fechado. Hemograma seriado decide transfusão; a cor da urina não decide.

Função renalNa entrada e a cada 24 horas enquanto estiver alterada

Esperado: Queda da creatinina nas primeiras 24 a 72 horas quando o componente pós-renal era o principal

Se não melhora: Creatinina que não cai depois de desobstruir significa que o rim tem outro problema além da obstrução, ou que a obstrução já deixou dano estabelecido. A caracterização e o prognóstico dessa recuperação são dos capítulos 'Injúria renal aguda' e 'O rim que não volta'. O que é deste capítulo é garantir que a desobstrução foi de fato completa: sonda pérvia, bexiga vazia, e imagem que mostre resolução da dilatação.

Micção espontânea após a retirada da sondaNas 4 a 6 horas seguintes à retirada

Esperado: Micção espontânea com jato reconhecível e alívio, com resíduo pós-miccional baixo à ultrassonografia

Se não melhora: Ausência de micção em 4 a 6 horas, ou retorno da dor com bexiga palpável, é falha de retirada: a sonda volta, sem drama e sem culpa. Antes de repetir a tentativa, confira o que mudou — o gatilho foi realmente removido? O alfabloqueador foi de fato iniciado e há quantos dias? Micção em pequenos volumes com resíduo alto não é sucesso; é transbordamento, e mantê-la é escolher a retenção crônica. Segunda falha de retirada é conversa com a urologia, e o protocolo brasileiro já encaminha para lá o paciente que teve retenção sob tratamento clínico otimizado.

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Onde o erro machuca

Pinçar a sonda a cada 500 ou 1.000 mL para 'evitar hematúria'

O dano: Prolonga o procedimento, mantém o paciente com dor por mais tempo, multiplica as manipulações do sistema — cada abertura é risco de contaminação — e não entrega o benefício prometido. O ensaio aleatorizado de maior porte da revisão brasileira, com 294 homens, encontrou hematúria em 11,3% com fracionamento e 10,5% sem, com p igual a 1. E a fisiologia explica por quê: a pressão intravesical já cai à metade nos primeiros 100 mL, muito antes do ponto em que qualquer protocolo de pinça começaria a agir.

Como pegar a tempo: Drene de forma contínua e completa, e transfira a vigilância para onde ela rende: volume total registrado, débito horário e pressão arterial seriada nas seis horas seguintes. Se o serviço tiver rotina escrita de fracionamento, não a descumpra sozinho no meio da madrugada — leve a evidência à discussão, sabendo que nenhuma norma brasileira sustenta nenhum dos dois lados, e que a preferência por drenar de uma vez é leitura da evidência, não determinação nacional.

Considerar o caso resolvido quando a dor passa

O dano: O alívio remove a variável que mascarava o estado volêmico. O paciente que chegou com pressão de 178 por 96 por dor pode estar hipotenso quatro horas depois por diurese pós-obstrutiva, e quem registrou apenas 'aliviado, aguardando alta' não terá linha de base para perceber. Nos onze estudos revisados, hipotensão apareceu em sete deles.

Como pegar a tempo: Medir sinais vitais e avaliar perdas, função renal e eletrólitos após a drenagem. Volume inicial alto aumenta preocupação, mas não é o único critério para débito horário, balanço e observação. Não liberar por um número baixo quando existem hidronefrose, lesão renal ou instabilidade.

Prescrever anticolinérgico para a urgência e a noctúria de um homem com jato fraco

O dano: É o erro que transforma sintoma incômodo em retenção completa. Em bexiga que já esvazia mal, reduzir a contração do detrusor retira a única força que ainda vencia a resistência prostática. O paciente melhora da urgência por dois dias e volta ao pronto-socorro sem urinar. O mesmo mecanismo explica o gatilho mais comum da retenção aguda no ambulatório: anti-histamínico de primeira geração comprado sem receita.

Como pegar a tempo: Antes de tratar armazenamento, prove que o esvaziamento está adequado — resíduo pós-miccional medido, e não presumido. Em homem acima de 45 anos com sintomas de esvaziamento, a régua brasileira manda tratar a hiperplasia prostática primeiro. E lembre que a oxibutinina não consta da Rename 2024, de modo que a receita arriscada também é a receita que o paciente não consegue retirar.

Chamar de incontinência a perda em gotas de um homem com bexiga cheia

O dano: A incontinência paradoxal, por transbordamento, é a apresentação clássica da retenção crônica, e ela chega rotulada como incontinência pelo próprio paciente. Aceitar o rótulo leva a duas condutas ruins ao mesmo tempo: prescrever antimuscarínico e deixar de investigar hidronefrose e função renal num paciente que pode estar perdendo rim em silêncio.

Como pegar a tempo: Toda perda urinária em homem idoso pede a pergunta seguinte: quando o senhor urina de propósito, sai muito ou pouco? E pede resíduo pós-miccional e creatinina. O protocolo brasileiro dá a régua: retenção crônica é resíduo maior que 300 mL em duas ocasiões, persistente por seis meses — e retenção crônica com hidronefrose, hidroureter, filtração abaixo de 60 mL/min/1,73 m² ou sepse urinária vai para a urgência, não para o ambulatório.

Colher PSA no pronto-socorro, com a sonda recém-passada

O dano: Retenção urinária e instrumentação uretral elevam o PSA. O número que voltar não distingue nada e assusta muito: o paciente passa semanas achando que tem câncer, e o serviço passa semanas repetindo exame. A régua brasileira determina repetir duas semanas depois quando a elevação vier de retenção ou instrumentação — o que significa que o exame de hoje foi desperdiçado por construção.

Como pegar a tempo: Deixe o PSA para o encaminhamento, colhido pelo menos duas semanas após a instrumentação. Se houver suspeita de infecção urinária ou prostatite, o intervalo é maior — seis a oito semanas após o tratamento. E se o paciente já usa finasterida há três a seis meses, multiplique o valor por dois antes de compará-lo a qualquer corte.

Deixar a sonda 'até a consulta com o urologista'

O dano: É a decisão que converte um episódio agudo em morbidade crônica. Cada dia de cateter acumula risco: a revisão brasileira registra incidência de infecção relacionada ao dispositivo de 3,1 a 7,4 por mil cateteres-dia, e a infecção urinária responde por 35% a 45% das infecções relacionadas à assistência à saúde no adulto. Em fila de regulação medida em meses, isso é uma sonda permanente por omissão.

Como pegar a tempo: O protocolo da Anvisa manda retirar tão logo seja possível, com base em avaliação clínica registrada. Programe a tentativa de retirada em 48 a 72 horas, depois de remover o gatilho e iniciar o alfabloqueador. Se a alta for com sonda, escreva quem retira, quando e onde — sonda sem dono não é retirada por ninguém. E não feche o cateter antes de retirar: o mesmo protocolo determina que não se faça fechamento prévio, porque não há necessidade de exercício vesical.

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O que dizer ao paciente e à família

Sete situações que aparecem sempre, com uma proposta de fala e o que evitar. As falas são modelos para adaptar à sua voz, não roteiro para decorar.

Em todas elas, o paciente está com dor ou acabou de deixar de estar — o que reduz muito a quantidade de informação que ele consegue reter.

Explicar a sondagem a um homem com dor e constrangimento

'O senhor não está conseguindo urinar porque a saída da bexiga está fechada. A bexiga encheu e é isso que dói. Vou passar um tubo fino pela uretra até a bexiga para esvaziar. Incomoda na hora de passar, e o alívio vem em seguida — a maioria dos homens diz que a dor de agora é pior do que o procedimento. Enquanto passo, quero que o senhor respire pela boca, devagar. Posso começar?'

Não diga: Evite 'é rapidinho' e 'não dói nada'. Dói, e prometer o contrário quebra a confiança no momento exato em que você precisa dela. Evite também executar sem pedir permissão porque o paciente está com dor.

Responder à enfermeira que pergunta se pinça

'Vamos drenar de uma vez, contínuo. A evidência que existe comparou as duas técnicas num estudo com quase trezentos homens e não achou diferença de hematúria — e a pressão da bexiga já cai pela metade nos primeiros cem mililitros, então pinçar depois disso não muda o que a gente quer evitar. O que eu preciso de verdade é o volume total anotado e o débito de hora em hora nas próximas seis, porque o risco aqui é a pressão cair, não a urina sair vermelha.'

Não diga: Evite responder 'pode drenar tudo, é assim que se faz'. A prática dela tem uma origem — os livros de enfermagem recomendam clampear entre 700 e 1.000 mL — e descartar sem argumento produz ressentimento e desconfiança. Evite também apresentar a decisão como norma nacional: ela não é.

Explicar ao paciente e à família por que ele vai ficar em observação depois de melhorar

'A dor passou porque a bexiga esvaziou, e saíram dois litros. Isso é muita urina que estava represada, e agora o rim vai eliminar o excesso de uma vez. Nas próximas horas o senhor pode urinar muito, e junto com a urina sai sal e água — algumas pessoas ficam com a pressão baixa e com tontura. Por isso vou medir a urina de hora em hora e a pressão de duas em duas. Não é complicação; é o esperado, e é justamente por ser esperado que a gente acompanha.'

Não diga: Evite 'está tudo bem, é só protocolo'. Isso não explica nada e faz a família achar que a observação é burocracia, o que aumenta a chance de eles pedirem alta. Evite também assustar com choque hipovolêmico.

Avisar sobre a urina avermelhada antes que ela apareça

'Pode ser que a urina saia rosada ou avermelhada nas próximas horas. Isso acontece porque a bexiga estava muito esticada e, quando esvazia, uns vasinhos da parede sangram um pouco. Costuma clarear em um dia e não precisa de tratamento. O que eu quero saber na hora é se aparecer coágulo, tipo pedacinho de sangue coalhado, ou se o tubo parar de sair urina e a dor voltar — aí chame na hora.'

Não diga: Evite deixar para explicar depois que a urina ficar vermelha: a família vê antes de você e entra em pânico. Evite também minimizar a instrução sobre coágulo — é justamente o sinal que precisa chegar rápido.

Explicar por que a sonda vai sair em dois ou três dias e não 'quando o urologista vir'

'O tubo resolve hoje e cria problema amanhã: quanto mais tempo ele fica, maior a chance de infecção urinária. Por isso a gente começa hoje o remédio que relaxa a próstata, tira o antialérgico que o senhor tomou, e daqui a dois ou três dias tenta tirar o tubo. Se não der certo na primeira tentativa, não é fracasso — recoloca e tenta de novo, com mais tempo de remédio. A consulta com o urologista continua marcada, mas ela não é o que decide quando o tubo sai.'

Não diga: Evite prometer que a sonda sai com certeza. A falha na primeira tentativa é comum, e um paciente que foi preparado para ela aceita a recolocação sem se sentir enganado.

Conversar sobre PSA com um homem de 62 anos que pede 'o exame da próstata'

'Existe divergência real entre instituições brasileiras sobre pedir esse exame em quem não tem sintoma. O Ministério da Saúde, pelo INCA, não recomenda o rastreamento, porque muitos cânceres de próstata nunca dariam problema em vida e encontrá-los leva a biópsias e tratamentos com efeitos sobre continência e função sexual. As sociedades de urologia, oncologia e radioterapia recomendam a conversa individual a partir dos 50, e mais cedo em alguns grupos, apontando que 27% dos pacientes do SUS chegam com doença já espalhada. Eu não vou decidir por você: quero que você saiba os dois lados e me diga o que faz mais sentido para a sua vida.'

Não diga: Evite escolher um lado e apresentá-lo como consenso — não é, e o paciente pode ouvir o contrário na semana seguinte. Evite também despejar números e sair: decisão compartilhada exige perguntar o que ele entendeu e o que ele teme.

Falar com o filho que pergunta 'isso é câncer, doutor?'

'Hoje não dá para responder isso, e eu prefiro dizer que não sei a inventar tranquilidade. O que fechou a saída da bexiga do seu pai é, na maioria dos casos nessa idade, o crescimento benigno da próstata. Câncer também pode dar retenção, e é por isso que ele sai daqui com encaminhamento para o urologista e com exames marcados. O exame de sangue da próstata a gente não colhe hoje, porque a retenção e a sonda alteram o resultado e ele daria um número que não serve.'

Não diga: Evite 'com certeza não é nada'. Evite também descrever a probabilidade como se fosse diagnóstico. E não peça o PSA para 'acalmar a família' — o resultado alterado por causa da própria retenção faz exatamente o contrário.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Rastreamento do câncer de próstata com PSA em homens assintomáticos no Brasil

Não oferecer o exame nem convocar; decidir junto com quem o procura — Ministério da Saúde, pelo INCA, desde 2013, reafirmado pelo INCA em julho de 2025. É a posição que esta apostila adota

Conclui que, pelo balanço entre benefícios e riscos, não é recomendado o rastreamento do câncer de próstata; se o homem desejar realizar os exames, a prática deve ser decisão compartilhada após ele conhecer as consequências. Sustenta a posição em sobrediagnóstico expressivo — revisão de autópsias mostrando achado histológico de câncer em 37% dos homens de 40 a 50 anos e 60% acima de 79 —, em falso-positivos de 11,3% com corte de 4,0 ng/mL e 19,8% com corte de 3,0 ng/mL, e em danos da biópsia. Acrescenta que a associação de maior risco na população negra se apoia sobretudo em estudos norte-americanos e não está tão bem estabelecida para outros países, e que as diretrizes que recomendam conduta diferenciada para afrodescendentes o fazem sem evidências conclusivas. Em julho de 2025, a nota técnica do INCA sobre parâmetros de programação do diagnóstico precoce do câncer de próstata repete, como posição do Ministério da Saúde em vigor, que o rastreamento em pessoas assintomáticas não é recomendado.

INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER JOSÉ ALENCAR GOMES DA SILVA. Detecção precoce do câncer. Rio de Janeiro: INCA, 2021, seção 2.1, p. 23-26. ISBN 978-65-88517-22-2. O texto amarra a conclusão ao parecer do próprio INCA de 2013. Reafirmada na nota técnica do INCA Parâmetros de programação para o diagnóstico precoce do câncer de próstata, 2025.

Discutir o PSA com todo homem acima de 50 anos com expectativa de vida maior que 10 anos, e dos 40 aos 50 com fator de risco — SBU, SBOC e SBRT, novembro de 2023. Registrada, e não adotada por esta apostila

Recomendam discussão individual sobre benefícios e riscos do rastreamento com PSA para homens acima de 50 anos com expectativa de vida maior que 10 anos, e para homens entre 40 e 50 anos com histórico familiar, etnia negra ou mutação patogênica no gene BRCA. O argumento central é de aplicabilidade: sustentam que os dados internacionais sobre rastreamento não abrangem a população brasileira, que a proporção de afrodescendentes e as disparidades de acesso são diferentes, e apresentam o dado de sistema de que 27% dos pacientes atendidos no SUS são diagnosticados já com doença metastática — proporção que consideram elevada mesmo em comparação com países que não fazem rastreamento populacional de rotina.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE UROLOGIA; SOCIEDADE BRASILEIRA DE ONCOLOGIA CLÍNICA; SOCIEDADE BRASILEIRA DE RADIOTERAPIA. Posicionamento sobre o rastreamento do câncer de próstata. [2023]. O documento não traz data no corpo nem assinatura nominal; o ano se estabelece pelo caminho de publicação e pelas referências internas mais novas.

Sociedade Brasileira de Urologia isolada — a partir dos 50 anos, e dos 45 no grupo de risco, setembro de 2018. Registrada, e não adotada por esta apostila

A nota oficial da própria SBU, ainda publicada, recomenda que homens a partir dos 50 anos, mesmo sem sintomas, procurem avaliação especializada individualizada com objetivo de diagnóstico precoce, que homens negros ou com parentes de primeiro grau acometidos comecem aos 45 anos, e que acima dos 75 anos a avaliação se restrinja a quem tem expectativa de vida superior a 10 anos — sempre após ampla discussão de riscos e benefícios, em decisão compartilhada. Note que a idade de início para o grupo de maior risco não é a mesma do posicionamento conjunto de 2023, que descreve esse grupo como de 40 a 50 anos.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE UROLOGIA. Nota Oficial 2018 — Rastreamento do Câncer de Próstata. Gestão 2018/2019, publicada em 14 set. 2018. Não há revogação publicada, e o posicionamento conjunto de 2023 não a menciona.

Como decidir

Esta apostila adota a posição federal: não se oferece o PSA ao homem sem sintoma que não o pediu, não se convoca nem se faz campanha, e a quem procura o exame se conduz a decisão compartilhada, com benefícios e danos em números e a decisão registrada no prontuário. O desempate segue a régua de divergência desta apostila. O escopo empata, porque as duas posições falam do mesmo homem sem sintoma. Decide a data: a posição do Ministério da Saúde foi reafirmada como vigente numa nota técnica do INCA de julho de 2025, posterior ao posicionamento conjunto das sociedades de urologia, de oncologia clínica e de radioterapia, de novembro de 2023; e, se as datas fossem tomadas como empatadas, a natureza pesaria para o mesmo lado, porque é a posição do órgão federal, e não a de sociedades de especialistas. O relatório preliminar do PCDT do adenocarcinoma de próstata, submetido à Consulta Pública nº 86/2026 e ainda sem vigência, aponta na mesma direção: registra as recomendações europeia e norte-americanas de detecção precoce individualizada e, ainda assim, não recomenda a oferta nem as campanhas de rastreamento em homens assintomáticos, e manda decidir junto com quem busca o exame. O lado das sociedades fica no texto, com a data, porque é o que o homem vai ouvir no consultório de urologia, e o argumento delas sobre a população negra e o diagnóstico tardio no SUS precisa ser conhecido. Duas coisas não mudam com o lado escolhido: ao homem que pede o exame nenhuma das posições manda recusar, e diante de sintoma, de toque alterado ou de PSA já alterado não há rastreamento em discussão — há investigação, com decisão informada. A nota oficial de 2018 da própria Sociedade Brasileira de Urologia, que começa aos 50 anos e aos 45 no grupo de risco, fica registrada pelo mesmo motivo, e também não é adotada. Para o homem que faz a pergunta na sua sala, a conversa cabe numa consulta de vinte minutos: diga o que o exame pode e o que não pode responder, pergunte o que ele faria com um tumor que talvez nunca o incomodasse, e lembre que o homem de 82 anos com múltiplas comorbidades fica fora da conversa em todas as versões, inclusive na das sociedades, que a condicionam a expectativa de vida maior que 10 anos. Escreva no prontuário o que foi conversado e o que ele decidiu; o registro da decisão compartilhada é o que protege o paciente e você.

Esvaziamento vesical na retenção aguda: drenagem contínua e completa ou fracionada com clampeamento

Ensino e prática de enfermagem consolidados — fracionar entre 700 e 1.000 mL

A recomendação de clampear o cateter depois de 700 a 1.000 mL drenados está nos livros de enfermagem e é praticada. Num levantamento com 149 enfermeiros, 42% limitavam a drenagem a 1.000 mL e outros clampeavam após 750 a 1.000 mL, com tempo de pinça variando de 5 a 60 minutos. Há também recomendação registrada de que o volume eliminado não ultrapasse 750 mL de uma vez, justificada pelo ingurgitamento dos vasos do assoalho pélvico com a queda da pressão vesical e pelo risco de hipotensão. O cuidado de não esvaziar abruptamente é discutido desde a expansão das cirurgias de próstata.

MEIRA, A. S. Técnicas de descompressão da bexiga através do cateterismo na retenção urinária para prevenção de hematúria. Dissertação, EERP-USP, 2023 — introdução, que cita levantamento de 1990 com 149 enfermeiros e revisão de literatura de 1997.

Evidência reunida na revisão brasileira de 2023 — não há diferença; drenar de uma vez

A revisão conclui que não houve diferença significativa entre as duas técnicas quanto à prevenção de hematúria, e que os estudos não encontram relação entre o volume drenado e a ocorrência de hematúria. O maior ensaio aleatorizado incluído, com 294 homens, pinçou 5 minutos a cada 200 mL num braço e obteve hematúria em 11,3%, contra 10,5% na drenagem contínua, com p igual a 1, e seus autores recomendam a descompressão rápida. Um estudo com medida direta de pressão intravesical em 10 homens encontrou queda de 50% da pressão já nos primeiros 100 mL, e concluiu que não há suporte que fundamente a descompressão gradual. Um estudo observacional descreve as complicações da descompressão rápida como mito e explicação teórica.

MEIRA, A. S., 2023 — resumo, quadros de síntese dos estudos incluídos e discussão. Nível de evidência dos ensaios citados: II e III.

Documentos normativos brasileiros — sem posição

Nenhum documento normativo brasileiro consultado toma partido. O protocolo de regulação de Urologia Adulto de 2023 não contém as palavras drenagem, clampeamento nem esvaziamento gradual. O protocolo da Anvisa de 2025 usa a palavra clamp apenas para o dispositivo distal da bolsa coletora e para proibir clampear a extensão durante transporte, mobilização ou deambulação — e determina expressamente que não se faça fechamento prévio do cateter antes de retirá-lo, por não haver necessidade de exercício vesical. A hiperplasia prostática benigna também não tem protocolo clínico próprio no Ministério da Saúde.

TelessaúdeRS-UFRGS/SES-RS, Protocolos de Regulação Ambulatorial — Urologia Adulto, 2023; Anvisa, Protocolo para a prevenção de ITU relacionada ao uso de cateter vesical de demora, versão 1, 2025, itens 7.3.2 e 7.3.3; lista oficial de PCDT do Ministério da Saúde.

Como decidir

A evidência disponível favorece drenagem contínua e completa na retenção habitual, mantendo sistema fechado e vigilância. Um hábito local não é motivo suficiente para impor clampeamento; exceções precisam de indicação clínica explicitada pelo médico responsável.

Quando um resíduo pós-miccional alto vira 'retenção crônica' que exige urgência

Protocolo brasileiro de regulação (2023) — definição cronológica estrita

Define retenção urinária crônica como resíduo pós-miccional maior do que 300 mL, medido em duas ocasiões diferentes e persistente por pelo menos seis meses. Usa esse termo assim definido tanto na lista de encaminhamento para urgência ou emergência — quando associado a hidronefrose, hidroureter, filtração glomerular abaixo de 60 mL/min/1,73 m² ou sepse urinária — quanto na lista de encaminhamento para urologia.

TelessaúdeRS-UFRGS/SES-RS, Protocolos de Regulação Ambulatorial — Urologia Adulto, 2023, Protocolo 1, nota de rodapé 1 e listas de encaminhamento.

Leitura operacional deste capítulo — a complicação aciona a urgência, o rótulo se completa depois

À beira do leito não é possível satisfazer os três requisitos simultaneamente: duas medidas em ocasiões diferentes e seis meses de persistência são 180 dias de documentação que o paciente da madrugada não tem. Diante de homem com resíduo alto medido agora, creatinina elevada e hidronefrose bilateral, este capítulo considera que a complicação aciona a urgência independentemente da documentação cronológica, e que a rotulagem se completa depois. Isso é leitura deste capítulo: o protocolo não autoriza expressamente o atalho, e também não oferece critério alternativo para o cenário agudo.

Leitura do capítulo sobre o Protocolo 1 do TelessaúdeRS-UFRGS/SES-RS, 2023, confrontando a definição de rodapé com as listas de encaminhamento do mesmo protocolo. Não há documento brasileiro consultado que resolva o ponto.

Como decidir

Decida pelo dano, não pelo rótulo. Se há dilatação do trato superior, queda de filtração glomerular ou sinal de infecção sistêmica, o paciente precisa ser desobstruído e avaliado hoje, e nenhuma definição cronológica muda isso. Escreva no prontuário e no encaminhamento os fatos que você tem — resíduo medido em mililitros com hora, creatinina com data, achado de imagem —, e não a etiqueta que você não pode comprovar: 'resíduo pós-miccional de 620 mL medido às 3h10, creatinina 2,4, hidronefrose bilateral' abre a porta da regulação melhor do que 'retenção urinária crônica', que a regulação pode devolver pedindo as duas medidas e os seis meses. Se o paciente for ambulatorial e estável, aí sim vale montar a documentação como o protocolo pede, porque é ela que sustenta o encaminhamento eletivo.

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O raciocínio, em voz alta

Hermínio Prochnow, 74 anos, 78 kg, chega às 2h40 sem urinar desde as 19h, com dor suprapúbica contínua, andando pelo corredor. Pressão 178 por 96, frequência 104, temperatura 36,3, saturação 96%. Abóbada suprapúbica visível, macicez de convexidade superior, sem irritação peritoneal, sem febre. Usa losartana; tomou anti-histamínico de primeira geração nos últimos três dias por conta própria. Noctúria de três a quatro episódios e jato fraco há dois anos, nunca investigados.

  1. Confirmar que a bexiga está cheia antes de sondar

    Ultrassonografia à beira do leito mostra bexiga distendida. Se não houvesse aparelho, a inspeção com luz rasante e a macicez de convexidade superior responderiam. O ponto é excluir anúria: sonda em bexiga vazia adiciona risco de infecção e não adiciona urina.

  2. Percorrer as três bifurcações antes de abrir a bandeja

    Sem febre, calafrio, dor em flanco ou confusão — a bifurcação infecciosa está fechada. Sem hematúria prévia — não é tamponamento por coágulo. Sem trauma, sem uretrorragia e sem hematoma perineal — não é lesão de uretra, e a sonda uretral está liberada. O gatilho está identificado e nomeado: anti-histamínico de primeira geração, anticolinérgico.

  3. Registrar a linha de base e drenar

    Sinais vitais anotados antes. Drenagem contínua e completa, em sistema fechado, com a bolsa abaixo do nível da bexiga. Saem 2.150 mL. O volume é anotado em mililitros, com a hora, junto com o aspecto da urina — exigência expressa do protocolo da Anvisa, e a variável que vai governar as próximas seis horas.

  4. Reclassificar o caso pelo volume, não pelo alívio

    A dor sumiu; a pressão caiu para 138 por 82 e a frequência para 82. Isso é esperado — eram dor e descarga adrenérgica. Mas 2.150 mL colocam o caso acima do gatilho de reposição: débito urinário horário, balanço hídrico, pressão deitado e de pé a cada duas horas, e sódio, potássio, ureia e creatinina de controle.

  5. Antecipar a diurese pós-obstrutiva em vez de reagir a ela

    Na terceira hora o débito está em 320 mL na hora e a pressão em pé cai para 96 por 60, com tontura ao sentar. Reposição parcial com cloreto de sódio 0,9%, guiada por perfusão e sódio sérico — não mililitro por mililitro, que realimentaria a poliúria. Metade de 320 mL é 160 mL na hora; a bolsa de 1.000 mL carrega 9 g de cloreto de sódio e 154 mEq de sódio. Sódio de controle e via oral estimulada assim que ele tolerar.

  6. Tratar a próstata na mesma noite e desmontar o gatilho

    Revejo o anti-histamínico precipitante e a hemodinâmica. Se a equipe escolher doxazosina de liberação imediata, inicio na dose usual de 1 mg/dia, com vigilância de hipotensão e aumento gradual, em vez de copiar 2 mg de uma faixa de manutenção. A escolha entre alfabloqueadores considera risco, interações, formulação e acesso real, não apenas a lista nacional.

  7. Programar a retirada, e não deixá-la para o urologista

    No terceiro dia, com o gatilho removido e 48 horas de alfabloqueador, a sonda é retirada — sem fechamento prévio, porque o protocolo da Anvisa determina que não há necessidade de exercício vesical. Cronômetro: se ele não urinar em 4 a 6 horas, ou se voltar a dor com bexiga palpável, a sonda volta sem drama. Ele urina em três horas, com resíduo pós-miccional de 90 mL à ultrassonografia.

  8. Encaminhar com os seis itens, e não com um bilhete

    Encaminhamento à urologia com tempo de início dos sintomas e histórico de retenção; descrição do toque retal, feito depois do alívio e não durante a dor; medicamento em uso com dose, posologia e tempo; solicitação de PSA total a ser colhido pelo menos duas semanas após a instrumentação; creatinina com data; e pedido de ecografia de vias urinárias e próstata, cujo resultado define se entra finasterida — o corte é próstata acima de 40 g ou PSA acima de 1,4 ng/mL.

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Faça você

Lindolfo Camarinha, 68 anos, 71 kg, está no leito 4 da observação desde as 4h por uma queda em casa, sem fratura. Não tem dor abdominal e não tem queixa urinária: diz que urina várias vezes por dia, sempre pouco, e que 'sempre foi assim'. A esposa comenta, de passagem, que ele acorda com a roupa molhada e que ela achava que era da idade. Os exames da queda voltaram com creatinina de 2,4 — não havia creatinina anterior no prontuário. Pressão 152 por 88, frequência 78, sem febre. O abdome é globoso e ele não sente dor quando você palpa acima do púbis. A ultrassonografia à beira do leito mostra bexiga com estimativa de 780 mL e dilatação pielocalicial bilateral.

  1. Primeiro: por que a perda de urina noturna, aqui, não é incontinência

    Descreva o mecanismo em uma frase e diga qual pergunta você faria à esposa e ao paciente para confirmar. Diga também qual prescrição você precisa garantir que ninguém fez, e por que ela seria o erro mais grave possível neste leito.

  2. Segundo: como você classifica esta creatinina de 2,4 sem exame anterior

    Diga qual achado da ultrassonografia sustenta a hipótese pós-renal, o que isso muda na urgência da conduta segundo a régua brasileira de encaminhamento, e a que capítulo vizinho pertence a caracterização e o prognóstico da recuperação renal.

  3. Terceiro: o rótulo, e o que escrever no prontuário

    A definição brasileira de retenção urinária crônica tem três requisitos. Diga quais são, diga quantos deles você consegue documentar às 4h da manhã, e escreva a frase que você colocaria no encaminhamento no lugar do rótulo que não pode comprovar.

  4. Quarto: a drenagem, e o que muda por ser crônica e não aguda

    Diga como você drena e por quê, qual é o limiar de volume que muda a vigilância, e qual das duas complicações do esvaziamento é a mais provável neste paciente específico — o que urina há anos com bexiga cronicamente cheia, e não o que fechou hoje.

  5. Continuidade do caso e prática do internato

    Acompanhe o paciente além do alívio: apresente função renal, perdas, pressão e a estratégia para recuperar micção espontânea.

  6. Questão integrativa 1

    A bolsa de 2 L encheu. Deve desconectar e colocar outra?

  7. Questão integrativa 2

    Drenou 780 mL com hidronefrose e creatinina elevada. O volume baixo dispensa vigilância?

  8. Questão integrativa 3

    Saíram 300 mL/h por duas horas após desobstruir. O que considerar?

  9. Questão integrativa 4

    Pinçar a sonda em etapas previne obrigatoriamente sangramento?

  10. Questão integrativa 5

    Por que doxazosina 2–8 mg/dia não é uma faixa para escolher a primeira dose?

  11. Questão integrativa 6

    O que deve estar definido antes da alta com sonda?

Ver como fecharíamos

Primeiro. É incontinência paradoxal, ou por transbordamento: a bexiga cronicamente cheia transborda, e a perda ocorre sem urgência e sem esforço — o oposto do que o nome sugere. As perguntas que confirmam são concretas: quando o senhor urina de propósito, sai muito ou pouco? Precisa esperar para começar, ou fazer força? A perda vem com vontade forte de urinar, ou vem sem aviso? A prescrição que você precisa garantir que ninguém fez é antimuscarínico para 'incontinência': em bexiga que já não esvazia, reduzir a contração do detrusor precipita retenção completa num paciente que já está perdendo rim. Vale lembrar que a oxibutinina, além de perigosa aqui, não consta da Rename 2024. Segundo. A dilatação pielocalicial bilateral com bexiga de 780 mL sustenta a hipótese pós-renal: a pressão da bexiga cronicamente cheia venceu os ureteres e subiu, e a pressão retrógrada reduz a filtração. Pela régua brasileira isso deixa de ser caso de ambulatório: retenção crônica associada a hidronefrose, hidroureter, filtração abaixo de 60 mL/min/1,73 m² ou sepse urinária está na lista de encaminhamento para urgência ou emergência. A caracterização da injúria renal e o prognóstico da recuperação são dos capítulos 'Injúria renal aguda' e 'O rim que não volta'; o que é deste capítulo é reconhecer a causa pós-renal e desobstruir hoje. Terceiro. Os três requisitos da definição brasileira são resíduo pós-miccional maior que 300 mL, medido em duas ocasiões diferentes, e persistente por pelo menos seis meses. Às 4h você documenta um: o resíduo alto, medido agora. Não tem a segunda medida e não tem os 180 dias. A frase que vai no encaminhamento é a dos fatos, não a do rótulo: 'homem de 68 anos, bexiga com 780 mL à ultrassonografia à beira do leito às 4h20, dilatação pielocalicial bilateral, creatinina 2,4 sem valor prévio para comparação, sem dor abdominal, com perda urinária noturna sem urgência'. Isso abre a porta da regulação; o rótulo não comprovado pode devolvê-la. Quarto. Drenagem contínua e completa, pelas mesmas razões do capítulo: a evidência não mostra que fracionar previna hematúria, e a queda de metade da pressão intravesical ocorre nos primeiros 100 mL. A intensidade da vigilância depende do conjunto de retenção prolongada, hidronefrose, função renal, volume e hemodinâmica; 1.500 ou 2.000 mL não são limiares universais para iniciar medida ou reposição — e note que os 780 mL medidos são estimativa da bexiga agora, e não o total que vai sair, porque o rim segue produzindo e a bexiga crônica pode render bem mais. A complicação mais provável neste paciente específico não é a hematúria: é a diurese pós-obstrutiva com hipotensão. Ele é o perfil dos casos graves da revisão — retenção crônica de longa data, alto volume, função renal comprometida —, e o estudo observacional que acompanhou 22 homens em retenção crônica registrou justamente que os que drenaram mais de 2.000 mL desenvolveram diurese pós-obstrutiva e precisaram de reposição de volume oral e intravenosa. Monte o débito horário, o balanço e os eletrólitos antes de abrir a sonda, e não depois. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não por esse motivo. Esvazie pela válvula apropriada sem quebrar o sistema fechado, registre o volume e evite contato do bocal com o recipiente. 2. Não. A repercussão renal e a provável duração da retenção justificam monitorização, mesmo abaixo de 1.500–2.000 mL. 3. Diurese pós-obstrutiva. Verifique balanço, volemia, pressão e eletrólitos; reposição é individualizada e não necessariamente igual ao débito. 4. Não há benefício que sustente essa rotina na retenção usual. Drenagem contínua e vigilância dos efeitos clínicos são mais úteis. 5. É faixa de manutenção/titulação. A apresentação imediata costuma iniciar em 1 mg/dia para reduzir hipotensão, especialmente no idoso recém-desobstruído. 6. Indicação atual, quem acompanha e retira, data/local de revisão, cuidado do sistema, sinais de obstrução/infecção e plano para nova retenção. Sonda sem plano tende a permanecer desnecessariamente.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Há divergência formal entre documentos brasileiros vigentes, e esta apostila adota a posição federal: não se oferece o PSA ao homem sem sintoma que não o pediu, não se convoca nem se faz campanha, e a quem procura o exame se conduz a decisão compartilhada, com benefícios e danos em números e a decisão registrada no prontuário. O Ministério da Saúde, pelo INCA, conclui que não é recomendado o rastreamento do câncer de próstata, apoiando-se em sobrediagnóstico — achado histológico em 37% dos homens de 40 a 50 anos em séries de autópsia e 60% acima de 79 —, em falso-positivos e em danos da biópsia e do tratamento; acrescenta que a associação de maior risco na população negra não está bem estabelecida fora dos estudos norte-americanos. As sociedades de urologia, oncologia clínica e radioterapia recomendam discussão individual a partir dos 50 anos para quem tem expectativa de vida superior a 10 anos, argumentando que os dados internacionais não representam a população brasileira e que 27% dos pacientes do SUS já são diagnosticados com doença metastática. O desempate segue a régua de divergência desta apostila. O escopo empata, porque as duas posições falam do mesmo homem sem sintoma. Decide a data: a posição do Ministério da Saúde foi reafirmada como vigente numa nota técnica do INCA de julho de 2025, posterior ao posicionamento conjunto dessas sociedades, de novembro de 2023. Duas coisas não mudam com o lado escolhido: ao homem que pede o exame nenhuma das posições manda recusar, e nenhuma delas recomenda solicitar sem conversar. Este homem fez a pergunta, e por isso a conduta é a conversa: benefícios e danos, as duas posições datadas — a que esta apostila adota e a das sociedades, que é o que ele vai ouvir no consultório de urologia — e a decisão registrada no prontuário. Recusar a conversa é tão inadequado quanto solicitar por reflexo, e o toque retal isolado não teve seu efeito sobre a mortalidade examinado por nenhum estudo. Diante de sintoma, toque alterado ou retenção, a divergência desaparece: investiga-se.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sete perguntas para responder de cabeça. Quais são os três grupos de sintomas do trato urinário inferior, e por que o paciente reclama do grupo que não explica a doença? Que achado de percussão separa bexiga distendida de alça distendida? Quanto cai a pressão intravesical nos primeiros 100 mL drenados, e o que isso faz com o argumento do clampeamento? Qual foi a diferença de hematúria entre drenagem fracionada e contínua no maior ensaio da revisão brasileira? Qual alfabloqueador consta da Rename 2024, em que apresentações, e qual o efeito adverso que exige orientação no mesmo momento da prescrição? Qual é a complicação do esvaziamento que derruba a pressão arterial, e o que se faz com ela? E o que o protocolo da Anvisa determina sobre fechar o cateter antes de retirá-lo?

Em 30 dias

Cinco tarefas de trinta dias. Primeira: encontre a rotina do seu serviço sobre esvaziamento vesical na retenção aguda — pergunte à enfermagem, não à chefia médica — e compare com o que este capítulo apresentou; se houver rotina escrita de clampeamento, leve a discussão à comissão, e não ao plantão. Segunda: acompanhe um paciente que drenou mais de dois litros do início ao fim das seis horas seguintes, anotando débito horário e pressão, e veja com os próprios olhos a curva da diurese pós-obstrutiva. Terceira: pegue cinco encaminhamentos de urologia do seu serviço e confira, item por item, se eles têm os seis elementos do conteúdo mínimo do protocolo brasileiro — descubra qual falta mais. Quarta: pergunte na farmácia da sua unidade quais alfabloqueadores e inibidores da 5-alfa-redutase estão de fato disponíveis, e confronte com a Rename. Quinta: quando um homem assintomático pedir o PSA na sua agenda, conduza do começo ao fim a conversa de decisão compartilhada, com os benefícios e os danos em números e as duas posições brasileiras datadas — a do Ministério da Saúde, que esta apostila adota, e a das sociedades —, e registre no prontuário o que ele decidiu.

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Agora atenda

Um homem de 74 anos entra no pronto-socorro às duas e quarenta da manhã sem conseguir urinar desde as sete da noite. Você tem noventa segundos de exame para decidir se a bexiga está cheia, cinco minutos para percorrer as três bifurcações que mudam a conduta, e depois uma decisão que nenhuma norma brasileira responde por você. Atenda o caso: confirme antes de sondar, procure o gatilho pelo nome, meça o que sai, e não considere o caso resolvido quando a dor passar — porque as próximas seis horas são a parte difícil.

Hiperplasia prostática benigna, STUI e retenção urinária aguda – O alívio é a parte fácil — Internato | OsceLabs