Cirurgia Geral › Urologia
Antes da agulha, e depois do laudo
Câncer de próstata (rastreamento PSA, estadiamento)
Do PSA alterado à decisão compartilhada: interpretar risco, selecionar imagem e biópsia, compreender o laudo e distinguir vigilância ativa, tratamento e cuidado orientado a sintomas.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Portaria nº 498, de 11 de maio de 2016 — Aprova as Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Adenocarcinoma de Próstata. Diário Oficial da União, seção 1, n. 90, p. 140, 12 maio 2016.
Brasil. Ministério da Saúde. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Adenocarcinoma de Próstata — Relatório de Recomendação, versão preliminar submetida à Consulta Pública nº 86/2026. Brasília, agosto de 2026. 141 p.
Instituto Nacional de Câncer (Brasil). Parâmetros de programação para o diagnóstico precoce do câncer de próstata: nota técnica. Rio de Janeiro: INCA, 2025. 11 f. Repositório institucional do INCA, handle 123456789/17543.
Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Detecção precoce do câncer. Rio de Janeiro: INCA, 2021. 72 p. ISBN 978-65-88517-22-2 (versão eletrônica). Unidade II, seção 2.1 — Câncer de próstata.
Sociedade Brasileira de Urologia; Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica; Sociedade Brasileira de Radioterapia. Posicionamento da SBU, SBOC e SBRT sobre o rastreamento do câncer de próstata. [novembro de 2023]. 4 p.
Brasil. Ministério da Saúde. Gabinete do Ministro. Portaria GM/MS nº 8.477, de 20 de outubro de 2025 — Institui o Componente da Assistência Farmacêutica em Oncologia (AF-Onco) no âmbito do SUS. Diário Oficial da União, seção 1, ed. 202, p. 117, 22 out. 2025.
Brasil. Lei nº 12.732, de 22 de novembro de 2012 — Dispõe sobre o primeiro tratamento de paciente com neoplasia maligna comprovada e estabelece prazo para seu início. Texto compilado, com o § 3º do art. 2º incluído pela Lei nº 13.896, de 2019.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Nota Técnica nº 9/2023-COSAH/CGACI/DGCI/SAPS/MS — Recomendação pelo não rastreamento populacional do câncer de próstata. Brasília, 2023.
Brasil. Ministério da Saúde. Portarias SECTICS/MS nº 32/2024 e nº 33/2024 — incorporação da abiraterona ao SUS no câncer de próstata metastático sensível à castração e no resistente à castração virgem de quimioterapia (Relatórios de Recomendação da Conitec nº 911/2024 e nº 912/2024).
EAU 2026 — câncer de próstata, diagnóstico [Acessar fonte](https://uroweb.org/guidelines/prostate-cancer/chapter/diagnostic-evaluation)
EAU 2026 — câncer de próstata, tratamento [Acessar fonte](https://uroweb.org/guidelines/prostate-cancer/chapter/treatment)
Conitec — relatório preliminar PCDT adenocarcinoma de próstata, CP 86/2026 [Acessar fonte](https://www.gov.br/conitec/pt-br/midias/consultas/relatorios/2026/relatorio-preliminar-pcdt-adenocarcinoma-de-prostata-cp-86/@@display-file/file)
Responda antes de ler
Homem de 63 anos com PSA de 7,2 e 7,9 ng/mL em duas dosagens e toque retal sem nódulo realiza ressonância multiparamétrica antes da primeira biópsia, que mostra uma lesão PI-RADS 4 na zona periférica esquerda. Segundo o texto do protocolo federal submetido à consulta pública em 2026, como deve ser feita a biópsia?
O paciente que você vai ver
Quinta-feira, uma e dez da tarde, ambulatório de urologia de um hospital regional habilitado em oncologia, que recebe a demanda de onze municípios. A agenda tem dezoito nomes. O urologista assistente ainda está no centro cirúrgico terminando uma ressecção endoscópica e só desce às três; até lá, você é o interno que abre as pastas. A enfermeira da regulação, Amélia Peixoto, separou três delas numa pilha à parte, com o mesmo motivo escrito a caneta na capa: PSA alterado.
A primeira é de Firmino Mota, 72 anos, motorista de ônibus intermunicipal aposentado. Hipertenso e diabético, com um infarto tratado com stent há cinco anos, caminha quarenta minutos todo dia porque o cardiologista mandou e ele obedece. Dentro da pasta há dois resultados da unidade básica: 5,6 ng/mL em fevereiro e 6,8 ng/mL em abril, oito semanas depois. Há uma ultrassonografia que estima a próstata em 40 gramas e um toque retal descrito numa linha pelo médico de família: próstata aumentada, fibroelástica, lisa, sem nódulo.
E há, no pé da guia de encaminhamento, uma frase que quase ninguém escreve: paciente pediu o exame depois que o irmão mais velho foi operado de próstata; conversamos sobre benefícios e riscos do rastreamento; decisão dele, registrada. O Firmino entra com a mulher, Presciliana Vargas, que traz um caderno de capa azul. Ele não sente nada: urina bem, levanta uma vez à noite, nunca viu sangue. Quer saber uma coisa só, se tem câncer. Ela quer saber outra, se ele vai precisar usar fralda, porque foi o que aconteceu com o cunhado.
A segunda pasta é de Eustáquio Carapeba, 81 anos. O PSA de 11,8 ng/mL foi colhido na última internação, no meio de quarenta exames de um painel de admissão que ninguém lembra de ter pedido por esse motivo. A pasta tem mais papel de cardiologia do que de urologia: insuficiência cardíaca com fração de ejeção de 25%, duas internações por descompensação no último ano, doença pulmonar obstrutiva crônica com oxigênio em casa durante a noite. Não tem queixa urinária. Quem marcou a consulta foi a filha, Constantina Mariz, que já avisou na recepção que quer que façam tudo.
A terceira é de Joaquim Gracindo, 70 anos, pedreiro que ainda pega obra pequena. Tem dor nas costas há dois meses, que piora deitado e o acorda de madrugada, e perdeu seis quilos sem fazer dieta. A unidade básica pediu radiografia da coluna lombar, que voltou com alterações degenerativas, e um PSA, que voltou 146 ng/mL. A fosfatase alcalina está acima do valor de referência e a hemoglobina é de 11,2 g/dL. Ele chegou andando, com uma bengala que não usava em março.
Três homens, o mesmo exame e três perguntas que não se parecem. Para o Firmino, a pergunta é se o número esconde um tumor que vale a pena encontrar e, se esconder, de que tipo. Para o Eustáquio, a pergunta é se vale a pena procurar. Para o Joaquim, o tumor quase certamente já se mostrou, e a pergunta é o que não pode esperar a biópsia voltar.
A tentação é igual nas três pastas: pedir biópsia para todo mundo, porque o número está acima da faixa impressa na folha. Seria o gesto mais rápido e, nos três casos, um erro diferente. No primeiro, porque há decisões anteriores à agulha que mudam como ela deve ser feita e o que se faz com o resultado. No segundo, porque a biópsia pode achar um câncer que não mudaria nada numa vida que a insuficiência cardíaca já está encurtando. No terceiro, porque a biópsia vai levar semanas, e as costas dele não esperam semanas.
Este capítulo acompanha as três pastas pelo caminho que começa depois que o PSA já voltou alterado: confirmar o número, decidir quem biopsia e como, ler o laudo pelo grupo de grau, estadiar só o que muda a conduta e conversar sobre tratar, vigiar ou deixar quieto. Pedir ou não pedir PSA para um homem sem sintoma é outra decisão, anterior a esta, e tem dono em outros capítulos do nível.
Há um detalhe institucional que atravessa as três pastas e que vai reaparecer a cada passo. A norma federal que governa hoje o diagnóstico e o tratamento do câncer de próstata no SUS é de 2016, e o protocolo que vai substituí-la recebeu contribuições em consulta pública até 8 de setembro de 2026. Os dois textos concordam em muita coisa e discordam em duas que caem justamente na pasta do Firmino: qual exame vem antes da agulha, e se um tumor como o que ele talvez tenha pode ser vigiado em vez de tratado.
Quem adoece disso
O câncer de próstata é o tumor mais frequente do homem brasileiro quando se exclui a pele não melanoma. A estimativa do INCA para o triênio de 2026 a 2028, reproduzida pelo texto federal de 2026, é de 77.920 casos novos por ano, um risco de 74,62 casos por 100 mil homens, e o mesmo texto registra 17.258 mortes pela doença em 2023. A norma de 2016 dá a proporção que organiza todas as decisões deste capítulo: o risco de um homem ter câncer de próstata diagnosticado ao longo da vida é de 16%, e o de morrer dele, de 3,4% — quase cinco diagnósticos para cada morte.
A distância entre os dois números tem duas causas, e as duas voltam em cada consulta. A primeira é a biologia: a velocidade de crescimento vai de muito lenta a moderadamente rápida, e alguns homens vivem anos mesmo depois de a doença dar metástase. A segunda é a idade: a mediana ao diagnóstico, pela norma de 2016, é de 68 anos, e muitos homens com doença localizada morrerão de outra causa. Uma revisão de autópsias reproduzida pelo INCA achou câncer ao microscópio em 37% dos que morreram de outra causa entre os 40 e os 50 anos, e em 60% dos que já tinham passado dos 79. O uso desse reservatório como argumento sobre rastrear é assunto dos capítulos de prevenção; aqui ele serve para lembrar que achar câncer não é o mesmo que achar o câncer que vai matar.
O dado que interessa a quem já tem o número alterado na mão é brasileiro e recente. O Centro de Diagnóstico do Câncer de Próstata do INCA, no Rio de Janeiro, recebeu cerca de 11 mil encaminhamentos da atenção primária entre 2021 e 2024 e atendeu 9 mil. Depois da avaliação do urologista, 90,3% tiveram indicação de biópsia; os demais voltaram para a rede sem precisar dela. Entre os biopsiados, 59,2% tiveram câncer confirmado.
Convertido para cem homens encaminhados, isso dá cerca de 90 biópsias, 53 cânceres e 37 biópsias sem câncer. A nota técnica que publicou os números, em 2025, adverte que eles vêm de uma única unidade diagnóstica e são preliminares; ainda assim, são o parâmetro que o Ministério da Saúde oferece aos gestores para programar consulta, biópsia e anatomopatológico. Um em cada dez homens que chegou ao urologista com suspeita não precisou da agulha, e essa decisão aconteceu na consulta, não no laboratório.
A outra face da mesma conta está na ferramenta de apoio à decisão que o INCA publica para homens de 55 a 69 anos que fazem exames de rotina durante 13 anos. Em cada mil: 178 terão resultado alterado e descobrirão, depois da biópsia, que não têm câncer; 100 terão câncer confirmado, metade de crescimento lento, sem ameaça à vida; um terá a morte por câncer de próstata evitada; cinco morrerão da doença mesmo tratados. Entre os 278 com resultado alterado, 64% não tinham câncer: quase dois em cada três.
A biópsia tem custo próprio, e ele precisa entrar na conversa antes dela. Na síntese que o INCA reproduz, 31% dos homens biopsiados têm sangue na urina nos 30 dias seguintes e 0,9% têm infecção, que pode levar a internação e, raramente, à morte. O texto do protocolo de 2026 acrescenta o número que mais pesa na escolha da via: a resistência das enterobactérias às quinolonas, a classe tradicional da profilaxia da biópsia pelo reto, está entre 20% e 45%.
O tratamento também tem números, e são os que o homem quer ouvir. A ferramenta do INCA registra que, a cada cem homens operados, sessenta poderão ter impotência sexual e vinte, incontinência urinária, e que cerca de um em cada duzentos terá complicação grave ou morrerá em decorrência da cirurgia. Esses números não decidem sozinhos, mas precisam estar na mesa antes da decisão, e a portaria de 2016 torna obrigatório informar ao paciente ou ao responsável os riscos e os efeitos colaterais do tratamento preconizado.
O retrato do diagnóstico tardio tem fonte frágil e precisa ser lido assim. As sociedades de urologia, de oncologia clínica e de radioterapia afirmam, com base num resumo de congresso de 2023, que 27% dos pacientes do SUS são diagnosticados com doença metastática. O INCA contou mais de 125 mil casos atendidos na alta complexidade do SUS entre 2018 e 2022, média de 25 mil por ano, 85,3% deles em homens de 60 anos ou mais. É esse o homem das pastas: sessentão ou mais velho, numa doença que se distribui entre quem nunca precisará de tratamento e quem já chega tarde.
Por fim, a geografia. A incidência estimada para 2023 a 2025 ia de 28,40 por 100 mil homens na Região Norte a 77,89 no Sudeste, e o parâmetro de casos suspeitos que o INCA manda programar varia na mesma proporção, de 0,053% a 0,146% da população masculina atendida pelo SUS. A consequência está escrita na própria nota: cerca de 85% dos municípios brasileiros têm menos de 20 mil homens e esperariam menos de 30 suspeitos por ano, o que obriga a pactuar a investigação com um serviço regional. É por isso que a biópsia do Firmino será feita neste hospital, e não na cidade dele — e é por isso que o prazo legal de 30 dias para os exames depende de uma fila que atravessa fronteiras municipais.
Por que acontece o que acontece
O antígeno prostático específico é uma proteína produzida pela próstata, presente no sêmen e, em quantidade muito menor, no sangue. O nome engana: ele é específico do órgão, não da doença. O que aumenta a massa de epitélio que o produz, ou o que rompe a barreira entre a luz das glândulas e os capilares, faz o número subir — a hiperplasia benigna pelo volume, a infecção urinária e a prostatite pela inflamação, a manipulação pelo trauma. O câncer eleva o PSA por um caminho parecido, desorganizando a arquitetura glandular. O valor absoluto, por isso, soma três perguntas numa só: quanto a próstata é grande, quanto ela está inflamada e se há tumor.
Duas consequências práticas saem daí. A primeira é que o número precisa ser lido contra o tamanho da glândula: dividir o PSA pelo volume estimado em ultrassonografia ou ressonância dá a densidade do PSA, que corrige parte do efeito da hiperplasia — os 6,8 ng/mL do Firmino, numa próstata de 40 gramas, dão 0,17 ng/mL por grama; o mesmo número numa próstata de 90 gramas daria 0,08. A segunda é que uma dosagem isolada não sustenta decisão invasiva, porque causas transitórias elevam o valor por semanas; o texto federal de 2026 fala em PSA elevado repetido e confirmado. Quais são essas causas e quanto esperar depois de cada uma é ensinado no capítulo de hiperplasia prostática benigna, que é dono da leitura do PSA de quem tem sintoma urinário.
O que separa o tumor que mata do que não mata, no microscópio, não é a atipia de cada célula: é a arquitetura das glândulas. O patologista gradua o padrão mais extenso e o segundo mais extenso de 3 a 5 — glândulas individualizadas e bem formadas no 3; glândulas fundidas, mal formadas ou cribriformes no 4; ausência de formação glandular ou necrose no 5 — e soma os dois no escore de Gleason, que na prática atual vai de 6 a 10. A soma esconde uma assimetria que muda o prognóstico: 3+4 e 4+3 dão 7, mas no primeiro predomina a glândula bem formada e no segundo, a mal formada.
A classificação de consenso da Sociedade Internacional de Patologia Urológica resolve a assimetria agrupando os escores em cinco grupos de grau: 1 para escore 6 ou menos, 2 para 3+4, 3 para 4+3, 4 para escore 8 e 5 para 9 ou 10. O texto federal de 2026 chama de indolentes os tumores de escore 6, de agressividade intermediária os de escore 7 e de agressivos os de 8 a 10. O volume pesa junto com o grau — quantos fragmentos da biópsia vieram positivos e quanto de cada um estava tomado —, e é por isso que um laudo sem esses números não permite classificar o risco, e que as duas réguas federais, a de 2016 e a de 2026, usam toque, PSA e grau ao mesmo tempo, nunca um só.
O terceiro elemento do mecanismo não está na próstata: está no tempo que o homem tem. Um tumor de crescimento lento leva anos para produzir sintoma, e o benefício de tratá-lo, medido em mortes evitadas, aparece depois de muitos anos, enquanto o dano do tratamento aparece em semanas. Para um homem com expectativa de vida curta, o dano chega e o benefício não. A norma de 2016 traduz essa lógica em limiar: observação para quem tem expectativa de vida de até 10 anos, vigilância ativa para quem tem 10 anos ou mais. O limiar é grosseiro — escrito assim, o homem de exatamente 10 anos cabe nas duas classes —, mas a lógica por trás dele é o centro da conversa com o Eustáquio.
O câncer de próstata depende da sinalização do receptor de androgênio para crescer. Tirar a testosterona — pela retirada cirúrgica do tecido testicular, a orquiectomia bilateral, ou por medicamento que suprime o eixo que a produz — controla a doença enquanto ela é sensível à castração, e por isso a castração é a base do tratamento da doença avançada nas duas normas federais. O controle não é para sempre. Com o tempo, o tumor aprende a crescer mesmo com a testosterona em nível de castração: é o câncer resistente à castração, definido pela progressão do PSA em três medidas consecutivas, ou pela progressão radiológica, com a testosterona abaixo do nível de castração.
Há uma armadilha no começo da castração medicamentosa. Os agonistas do hormônio liberador de gonadotrofina — leuprorrelina, gosserrelina, triptorrelina — suprimem o eixo por dessensibilização, e antes de suprimir eles estimulam: na primeira semana depois da primeira aplicação o hormônio luteinizante sobe, e a testosterona sobe junto. O tumor recebe reforço exatamente quando se esperava o contrário. Esse pico, o flare, pode piorar a dor óssea, a obstrução urinária e, no homem com metástase vertebral, a compressão da medula. Três caminhos o evitam: a orquiectomia, que derruba a testosterona sem subida prévia; o antagonista, que bloqueia o receptor do hormônio liberador sem estimulá-lo; e um antiandrogênio que ocupe o receptor de androgênio antes do pico e durante ele.
Os dois últimos mecanismos explicam as duas grandes mudanças do texto de 2026. A ressonância multiparamétrica enxerga bem o tumor clinicamente significativo de volume maior que 0,5 cm³ — sensibilidade de 95%, pelo texto — e enxerga mal o foco pequeno de grau baixo; a biópsia sistemática, ao contrário, amostra a glândula às cegas e acerta com facilidade os focos pequenos e indolentes espalhados por ela. Pedir a ressonância antes e mirar a agulha na área suspeita desloca o diagnóstico na direção dos tumores que importam. E a via da agulha muda o risco de infecção: pelo reto, ela atravessa mucosa colonizada antes de entrar na glândula; pelo períneo, entra por pele que acabou de ser desinfetada.
Como se apresenta de verdade
O câncer de próstata que o interno encontra quase nunca chega como sintoma. Chega como número, como achado de toque, como dor no osso, como surpresa no laudo de uma cirurgia feita por outro motivo, ou como um PSA que volta a subir anos depois do tratamento. Cada porta tem um relógio diferente, e confundir as portas é o erro que mais custa: tratar o número do Eustáquio com a pressa que as costas do Joaquim exigem, ou tratar as costas do Joaquim com a calma que o número do Firmino permite.
Uma palavra sobre fronteiras, porque vários capítulos vizinhos pisam neste terreno. Este capítulo assume o estadiamento, a escolha entre vigilância ativa, cirurgia, radioterapia e terapia sistêmica, e o manejo da doença avançada — exatamente a parte que o capítulo de hiperplasia prostática benigna, STUI e retenção urinária aguda declara deixar de fora —, e assume também o trecho que liga as duas pontas: o que se faz com o PSA que já voltou alterado até o laudo da biópsia. A esse capítulo ele cede os sinais de alarme na porta de entrada, as causas benignas que elevam o PSA com o prazo para repetir cada dosagem e a régua de encaminhamento da atenção primária. A decisão de rastrear um homem sem sintoma é dos capítulos de prevenção quaternária e manejo da multimorbidade na APS e de níveis de prevenção e rastreamento, que ensinam a conversa anterior à coleta; este capítulo começa quando o resultado já existe.
O número que chega antes do homem
A apresentação mais comum é uma folha de papel. O homem não tem queixa, e o PSA acima da faixa de referência chegou por um de três caminhos: uma decisão compartilhada registrada na unidade básica, como a do Firmino; um painel de exames colhido sem pergunta clínica, como o do Eustáquio; ou uma campanha. O primeiro gesto é reconstruir de onde veio o número, porque o caminho muda o que a consulta precisa fazer. O homem que conversou antes sabe o que pode vir; o que foi rastreado sem saber vai precisar da conversa agora, e ela não pode ser atropelada pelo pedido de biópsia.
Reconstruir quer dizer quatro coisas escritas no prontuário. As datas e os valores de todas as dosagens, com o laboratório de cada uma. O contexto de cada coleta — manipulação, infecção, uso de inibidor da 5-alfa-redutase —, que o capítulo de hiperplasia prostática benigna ensina a conferir. O toque retal, descrito com o que se palpou e não com um adjetivo. E o que o homem espera fazer com a resposta. Um PSA único, sem contexto, não autoriza nada além de uma segunda dosagem.
O texto federal de 2026 escreve a regra que organiza essa porta: a suspeita de câncer é reforçada por alteração da consistência da próstata ao toque ou por PSA acima de 3,0 ng/mL, repetido e confirmado, e as medidas derivadas — cinética, fração livre, valores ajustados por idade — ajudam a melhorar a especificidade quando estão disponíveis. É um texto ainda sem vigência; mas repetir antes de agir não briga com nada da norma de 2016, que não fixa corte nenhum. O Firmino já tem as duas dosagens, oito semanas uma da outra, subindo de 5,6 para 6,8. A pergunta dele, portanto, deixou de ser se o número é real.
O toque que vira estadiamento
O toque retal tem duas funções que não se confundem. Na porta de entrada, nódulo, endurecimento ou assimetria encaminham por suspeita de neoplasia independentemente do PSA, e essa regra é do capítulo de hiperplasia prostática benigna. Na urologia, o mesmo toque vira classificação: é ele que define a categoria T clínica. Tumor que não se palpa e só foi encontrado porque a biópsia foi feita por PSA elevado é T1c; tumor palpável confinado à próstata é T2, subdividido pela extensão em um ou nos dois lobos; tumor que atravessa a cápsula é T3; tumor fixo, ou que invade estruturas vizinhas além das vesículas seminais, é T4.
Daí uma consequência que surpreende o interno. O toque normal do Firmino não diz nada tranquilizador sobre a existência de câncer, mas diz muito sobre o risco do câncer que houver: se a biópsia vier positiva, ele entra como T1c, a categoria clínica mais baixa, e a categoria clínica é um dos três dados que decidem o grupo de risco, ao lado do PSA e do grupo de grau. Escrever “próstata aumentada” sem dizer se há nódulo, de que lado, e se os limites da glândula são nítidos é jogar fora um dos três números da decisão.
Há ainda uma nuance de redação entre as duas réguas federais que convém conhecer para ler laudo antigo. A norma de 2016 define T1c como tumor achado por biópsia de agulha que não é palpável nem visível por exame de imagem; o quadro do texto de 2026 define T1 apenas como tumor não palpável. Com a ressonância entrando antes da biópsia, a diferença deixa de ser acadêmica: pela redação de 2026, o tumor que não se palpa continua T1 mesmo que a imagem o mostre; pela de 2016, o mesmo tumor visível na imagem já não caberia em T1c. Ao registrar a categoria, escreva de qual régua ela saiu.
Quando a queixa é urinária
O homem com jato fraco, noctúria e esforço para urinar tem, na grande maioria das vezes, hiperplasia benigna, e o capítulo dela é o dono dessa porta. Os sinais que o INCA lista para o câncer de próstata — dificuldade para urinar, demora para começar ou terminar o jato, jato fraco, necessidade de urinar mais vezes de dia ou de noite, sangue na urina — são os mesmos da hiperplasia, e o próprio documento adverte que são inespecíficos e exigem diagnóstico diferencial. O que muda a conduta não é o sintoma: é o sintoma somado ao toque e ao PSA.
Duas situações urinárias pertencem a este capítulo. A primeira é a obstrução com toque de próstata pétrea, irregular, com limites que se perdem na palpação: doença localmente avançada até prova em contrário, que pede biópsia e estadiamento, e não alfabloqueador com retorno em três meses. A segunda é a retenção urinária nova num homem que já tem câncer de próstata conhecido. Ela pode ser o primeiro sinal de compressão medular, e a conduta imediata — exame neurológico dirigido, resíduo medido, telefonema — é a do capítulo de compressão medular não traumática.
Sangue na urina abre a investigação do capítulo de câncer de bexiga e hematúria, mesmo quando a próstata também está alterada, e a sonda, quando for necessária, segue o capítulo de sondagem vesical. O que não se faz é colher o PSA no mesmo dia de uma retenção ou de uma sondagem e trazer o número para esta consulta como se ele respondesse alguma coisa.
Quando a doença chega pelo osso
O Joaquim representa a porta que dói. Dor lombar que piora deitado e acorda de madrugada, perda de peso, anemia leve, fosfatase alcalina alta e PSA na casa das centenas formam um quadro que dispensa sutileza: câncer de próstata com metástase óssea até prova em contrário. O texto de 2026 põe dor óssea e fosfatase alcalina elevada entre as indicações de cintilografia óssea, ao lado do PSA acima de 20 ng/mL, do grupo de grau 3 ou mais e da categoria T3 ou maior.
Nessa porta, a primeira pergunta não é urológica, é neurológica: há fraqueza nas pernas, perda de sensibilidade com nível, dormência em sela, perda do controle da urina ou das fezes, dor em faixa? O reconhecimento da compressão medular, o corticoide, a ressonância de urgência e o acionamento da cirurgia de coluna e da radioterapia pertencem ao capítulo de compressão medular não traumática — metástase, abscesso epidural e cauda equina —, que manda o tumor primário para os capítulos que o tratam. Este capítulo fica com esse tumor: com a confirmação histológica que ainda precisa ser feita, com a castração que não pode esperar meses e com o cuidado para que a própria castração não piore as costas do Joaquim nas primeiras semanas.
A dor óssea sem compressão tem outro dono. A analgesia, a escolha do opioide e o manejo da dor oncológica são do capítulo de cuidados paliativos e manejo da dor oncológica, da apostila de Geriatria. Vale lembrar, porque é o interno quem escreve a primeira receita, que a Lei nº 12.732/2012 garante ao paciente com dor consequente de neoplasia maligna tratamento privilegiado e gratuito no acesso às prescrições e à dispensação de analgésicos opiáceos — o homem não precisa esperar a biópsia para ter a dor tratada.
O câncer que ninguém procurou
Uma parte dos diagnósticos chega pelo patologista, sem suspeita nenhuma: o homem foi operado de hiperplasia benigna por ressecção endoscópica, e o laudo do tecido retirado mostra adenocarcinoma. A classificação tem categorias próprias para isso: T1a, quando o tumor ocupa 5% ou menos do tecido ressecado, e T1b, quando ocupa mais de 5%.
O que se faz com esse laudo depende das mesmas três variáveis de sempre — grau, volume e tempo de vida —, com uma particularidade. A ressecção retirou a porção da glândula que obstruía a uretra, e o tumor que ficou, se ficou, está em tecido que não foi amostrado. A norma de 2016 lembra que a observação nasceu exatamente nessa situação, antes da era do PSA, para homens com pequena quantidade de tumor na amostra; num homem mais velho com T1a de grau baixo ela continua sendo resposta legítima. Num homem com expectativa de vida longa, T1b ou grau mais alto, o achado abre o mesmo caminho de estadiamento e de decisão de qualquer tumor localizado.
O PSA que volta a subir depois do tratamento
Depois da prostatectomia radical o PSA deveria ficar indetectável, e depois da radioterapia ele cai até um valor mínimo, o nadir. A recidiva bioquímica é a subida isolada do PSA, sem lesão visível, e ela antecede as metástases — em média oito anos, pela norma de 2016. A definição depende do tratamento feito: depois da cirurgia, a norma de 2016 usa PSA acima de 0,2 ng/mL; depois da radioterapia, uma elevação de 2 ng/mL ou mais acima do nadir.
O texto de 2026 não fixa um valor único para a cirurgia: numa seção fala em PSA maior que 0,1 ng/mL confirmado por segundo exame, noutra repete os 0,2 ng/mL da norma antiga, e a nota correspondente está no bloco de critérios. O papel do interno nessa porta não muda com o valor: reconhecer que PSA subindo em homem tratado é recidiva até prova em contrário, conferir se as dosagens foram feitas no mesmo laboratório, calcular o tempo de duplicação quando houver pelo menos três medidas e devolver o homem a quem o tratou. O texto de 2026 reserva a cintilografia óssea, na recidiva, para PSA acima de 10 ng/mL, tempo de duplicação inferior a 6 meses ou dor óssea — pedir o exame para todo PSA de 0,3 ng/mL não está entre as tarefas dessa consulta.
Como fechar o diagnóstico
A investigação inteira cabe em três perguntas e numa pergunta anterior a elas. A anterior é se vale a pena saber, e ela se responde com a expectativa de vida e com o que o homem faria com a resposta. As três são: há câncer? de que grau e de que volume? onde ele está? Cada exame deste bloco responde a uma delas, e o exame que não responde a nenhuma não se pede.
Dois relógios legais correm em paralelo. A Lei nº 12.732/2012, com o parágrafo incluído em 2019, manda realizar em até 30 dias os exames necessários à elucidação quando a principal hipótese diagnóstica é neoplasia maligna, mediante solicitação fundamentada do médico responsável, e dá ao paciente direito ao primeiro tratamento em até 60 dias contados do dia em que o diagnóstico é firmado em laudo patológico. A nota técnica do INCA de 2025 descreve o caminho que o SUS programa para isso: consulta com urologista, ultrassonografia transretal com biópsia, anatomopatológico, consulta de retorno e, para os confirmados, encaminhamento à unidade de alta complexidade. A solicitação fundamentada não é formalidade: é a frase do pedido que diz qual é a hipótese e por quê, e é a condição que a lei põe para o prazo de 30 dias valer.
Confirmar o número e estimar o homem
Antes de qualquer imagem, duas coisas. A primeira é ter duas dosagens comparáveis, em intervalo que afaste as causas transitórias — o que o Firmino já trouxe. A segunda é estimar quanto tempo de vida o homem tem pela frente, com a honestidade de admitir que a estimativa é grosseira. As réguas brasileiras usam o mesmo limiar de uma década: a norma de 2016 reserva a vigilância ativa a quem tem expectativa de vida de 10 anos ou mais e a observação a quem tem até 10; o texto de 2026 reserva a vigilância a quem tem 10 anos ou mais; e o posicionamento conjunto das sociedades de urologia, de oncologia clínica e de radioterapia só recomenda a conversa sobre o PSA quando a expectativa passa de 10 anos.
O que entra na estimativa é o que está na pasta: idade, insuficiência cardíaca e sua gravidade, internações recentes, doença pulmonar com oxigênio domiciliar, demência, dependência para atividades básicas. O Eustáquio, com fração de ejeção de 25%, duas descompensações em um ano e oxigênio noturno, dificilmente tem uma década pela frente; o Firmino, com diabetes e coronariopatia controladas e caminhando todo dia, pode ter. A estimativa não precisa ser exata para decidir. Precisa ser escrita, com os dados que a sustentam, para que não biopsiar o Eustáquio não pareça esquecimento e biopsiar o Firmino não pareça automatismo.
As medidas derivadas do PSA entram aqui, quando existem. A densidade usa o volume da ultrassonografia que já está na pasta; a fração livre e a velocidade dependem de laboratório e de dosagens seriadas. O texto de 2026 as chama de ferramentas úteis para melhorar a especificidade, sem fixar corte para indicar ou dispensar biópsia; o único corte de densidade que ele escreve, 0,15, aparece na definição do grupo de risco muito baixo, que é posterior ao diagnóstico.
A ressonância: o que ela responde e onde ela está na régua
A ressonância multiparamétrica da próstata combina sequências ponderadas em T1 e T2, perfusão e difusão; o radiologista examina cada área suspeita nas quatro sequências e dá a ela uma nota de 1 a 5 pelo sistema PI-RADS versão 2.1, e a lesão é considerada suspeita a partir do 3. O texto de 2026 atribui ao exame sensibilidade de 95% para câncer clinicamente significativo de volume maior que 0,5 cm³ e valor preditivo negativo de 80% a 98%.
Os números que mudaram a prática vêm de dois ensaios que o mesmo texto resume. No PROMIS, com 576 homens submetidos à ressonância e à biópsia sistemática de 12 fragmentos, a ressonância teve sensibilidade de 93% contra 48% para câncer clinicamente significativo e valor preditivo negativo de 89% contra 74%, com especificidade de 41% contra 96%. No ensaio Precision, com 500 homens nunca biopsiados, a estratégia que começava pela ressonância diagnosticou câncer clinicamente significativo em 38% contra 26% da biópsia padrão, e tumor clinicamente não significativo em 9% contra 22%.
A régua, porém, ainda não mudou. A norma em vigor, de 2016, escreve que a ultrassonografia transretal é o método de escolha para guiar a biópsia e que a ressonância tem indicação em casos bastante selecionados; a nota do INCA de 2025 programa ultrassonografia transretal com biópsia para 90,3% dos suspeitos, sem ressonância no caminho. O texto de 2026 inverte a ordem: antes de qualquer técnica de biópsia, ressonância; havendo área PI-RADS 3, 4 ou 5, biópsia guiada por cognição ou por fusão de imagens, com 3 a 4 fragmentos da área suspeita além dos 12 sistemáticos. O mesmo documento registra, num apêndice, que a pergunta sobre a biópsia por fusão ficou fora da avaliação da Conitec por tratar de técnica não contemplada pelos procedimentos da tabela do SUS.
A RM antes da primeira biópsia é favorecida por diretrizes atuais na suspeita de doença localizada e pode orientar a indicação e os alvos. Agenda demorada exige avaliar risco, buscar antecipação ou alternativa de acesso e discutir com o paciente o que se ganha ou perde ao esperar. Se a RM não for viável em tempo clinicamente adequado, a equipe individualiza a biópsia. Não usar 30 dias como limiar biológico universal nem transformar PSA elevado isolado em indicação automática de procedimento.
A biópsia: via, fragmentos e o que se combina antes
A biópsia sistemática guiada por ultrassonografia retira 12 fragmentos distribuídos pelas zonas da glândula. O ultrassom enxerga mal o tumor e serve para posicionar a agulha. A agulha pode entrar pelo reto, acoplada à sonda de ultrassom, ou pelo períneo, com a sonda no reto apenas guiando e a punção feita na pele entre o escroto e o ânus. O texto de 2026 registra taxa de detecção semelhante entre as duas vias e preferência crescente pela transperineal por causa das complicações infecciosas, que aumentaram na via transretal com a resistência das enterobactérias às quinolonas.

O que se combina antes da agulha são três coisas. O motivo e os riscos, em frases que o homem consiga repetir: sangue na urina acontece em cerca de um terço dos homens no primeiro mês, infecção em menos de 1%, e febre depois da biópsia é motivo para voltar ao serviço no mesmo dia, não para esperar a consulta de retorno. A conduta com anticoagulante ou antiagregante, que se define com quem faz o procedimento e com quem prescreveu a droga, e não por conta própria na véspera. E o laudo: a data em que o diagnóstico é firmado nele é o dia zero do relógio de 60 dias, e vale anotá-la no prontuário assim que o resultado chegar.
Febre depois da biópsia tem outros donos, e convém saber quais. A prostatite bacteriana aguda depois da biópsia — o homem que volta febril nos dias seguintes, até prova em contrário com uma prostatite por germe exposto à profilaxia — é do capítulo O que o antibiótico não alcança, nesta apostila, com a internação, a sonda na retenção, o abscesso prostático, a duração e o retorno; a identificação da sepse e as medidas da primeira hora são do capítulo de sepse e choque séptico. O que é deste capítulo é o dado que muda a escolha empírica: uma agulha acabou de atravessar o reto, e a bactéria provável pode ser resistente à quinolona que o homem talvez tenha tomado como profilaxia — a resistência de 20% a 45% registrada no texto de 2026 é sobre essa bactéria.
O laudo: ler o grupo de grau, e não só o número
O laudo que serve diz, para cada fragmento, se há adenocarcinoma, qual o padrão predominante e o secundário, o escore de Gleason, o grupo de grau e quanto do fragmento está tomado. No fim, resume: quantos fragmentos positivos em quantos retirados, o maior grupo encontrado e a maior porcentagem de comprometimento. Sem esses números o grupo de risco não fecha — o grupo muito baixo do texto de 2026 exige menos de 3 fragmentos positivos, com até 50% de cada um, e densidade do PSA menor que 0,15, e a separação entre intermediário favorável e desfavorável usa a proporção de fragmentos positivos.
Leia o grupo de grau antes do escore. Um laudo que diz Gleason 7 sem dizer se é 3+4 ou 4+3 está incompleto, porque grupo de grau 2 e grupo de grau 3 levam a conversas diferentes; peça o complemento ao patologista antes de classificar. O mesmo vale para o laudo que descreve padrão cribriforme ou ausência de formação glandular sem convertê-los em grupo.
O Firmino volta com adenocarcinoma acinar em 2 de 12 fragmentos, ambos do lobo esquerdo, escore de Gleason 3+4=7, grupo de grau 2, comprometimento máximo de 20% do fragmento; os outros dez fragmentos são benignos. É um tumor de verdade, não um achado de autópsia, e ao mesmo tempo é pequeno e está no degrau mais baixo do intermediário.
O estadiamento que muda a conduta
Estadiar é responder onde a doença está, e cada exame precisa de uma probabilidade prévia que justifique pedi-lo. Para a cintilografia óssea, o texto de 2026 dá os números: positividade de 2,3% com PSA abaixo de 10 ng/mL, de 5,3% entre 10 e 20 e de 16% acima de 20. Por isso a indica quando o PSA passa de 20 ng/mL, o grupo de grau é 3 ou mais, a categoria é T3 ou maior, ou há dor óssea ou fosfatase alcalina elevada. A norma de 2016 limita a busca de metástase óssea aos riscos intermediário e alto, sem torná-la obrigatória neles. As duas regras não brigam — uma é teto, a outra é critério —, e o Firmino, com PSA de 6,8, grupo de grau 2, T1c e fosfatase normal, não tem indicação por nenhuma delas.
Para linfonodos e vísceras, tomografia ou ressonância de abdome e pelve nos riscos intermediário e alto, sabendo o que elas não veem: numa série de 4.264 homens operados, citada pelo texto de 2026, 15% tinham linfonodo positivo e só 2,5% tinham tomografia positiva. Para o estadiamento local, a ressonância é o melhor exame, com sensibilidade de 58% e especificidade de 88% para extensão extraprostática ou invasão de vesículas seminais. O PET com PSMA não chegou à Conitec — a subcomissão entendeu que não havia dados para dimensionar a produção e a distribuição do radiofármaco no país — e está fora das recomendações do texto, que admite seu uso por instituições que já o tenham, sobretudo em alto e muito alto risco.
Os exames de laboratório do estadiamento são poucos: hemograma, função renal e hepática, fosfatase alcalina e testosterona, esta útil como referência se vier castração. No Joaquim, a cintilografia está indicada por três critérios ao mesmo tempo, e a tomografia de abdome e pelve completa o estadiamento; a ressonância da coluna, se aparecer qualquer sinal neurológico, sai do estadiamento e entra na urgência do capítulo de compressão medular não traumática.
Três classificações que não são a mesma coisa
O resultado sai em três linguagens, e o erro frequente é misturá-las. A primeira é o TNM: T pelo toque, N e M pelo exame e pelas imagens. A segunda é o estádio, que agrupa as categorias TNM. A terceira é o grupo de risco, que combina T, PSA e grupo de grau, e é ele que escolhe o tratamento do tumor localizado.
As duas réguas federais usam edições diferentes do agrupamento. A norma de 2016 põe o tumor T4 sem linfonodo e sem metástase no estádio IV; o quadro do texto de 2026 põe o mesmo tumor no estádio III. Para o grupo de risco, a norma de 2016 usa três grupos, pela classificação de D'Amico — baixo, intermediário e alto —, e o texto de 2026 usa seis — muito baixo, baixo, intermediário favorável, intermediário desfavorável, alto e muito alto. O Firmino é intermediário pela primeira e intermediário favorável pela segunda, e a diferença de nome muda o que cada uma permite oferecer a ele.
Escreva as três no prontuário, com a régua de onde saíram: cT1c cN0 cM0; grupo de grau 2 em 2 de 12 fragmentos; PSA de 6,8 ng/mL; risco intermediário pela norma de 2016 e intermediário favorável pelo texto de 2026. Quem ler depois precisa saber de qual classificação você falou, e as duas vão conviver no mesmo hospital até o protocolo novo ser publicado.
Do PSA alterado ao grupo de risco, e do grupo de risco à decisão
O PSA informa probabilidade, não confirma câncer. A indicação de investigar deve ser proporcional ao risco, aos sintomas, à expectativa de benefício e às preferências do paciente.
- 1Distinguir rastreamento de assintomáticos, decisão individual informada e investigação de sintomas/achados suspeitos. Não transformar PSA em exame obrigatório de todo homem.
- 2Confirmar contexto e resultados: infecção, instrumentação e medicamentos interferem. Elevação moderada isolada pode exigir repetição padronizada; não dar antibiótico apenas para baixar PSA.
- 3Estimar benefício de diagnóstico e tratamento com o paciente. Comorbidade grave e vida limitada podem favorecer cuidado orientado a sintomas, mas não justificam ignorar dor ou sinais de doença avançada.
- 4Usar avaliação de risco e, quando acessível e indicada, RM antes da primeira biópsia. RM negativa não exclui câncer clinicamente significativo em todo cenário; densidade de PSA e demais riscos importam.
- 5Discutir acesso e prazo clinicamente adequado sem adotar 30 dias como limiar biológico que cancela a utilidade da RM. A biópsia e seu tipo são decisões da equipe, com riscos e preferências documentados.
- 6Preferir via transperineal quando viável para reduzir infecção. Profilaxia e preparo dependem da via e do protocolo; febre pós-biópsia exige avaliação imediata.
- 7Integrar grupo de grau, extensão dos fragmentos, PSA, estágio e imagem indicada. Classificações de risco servem para decidir, não para duplicar burocracia em cada consulta.
- 8Vigilância ativa procura preservar a possibilidade de cura com reavaliação programada; espera vigilante prioriza sintomas quando tratamento curativo não traz benefício. Não são nomes intercambiáveis.
- 9Na vigilância, mudança de PSA ou RM pede investigação; não é saída automática para tratamento sem confirmar progressão apropriada. Déficit neurológico, retenção nova ou dor suspeita de compressão medular exigem via urgente.
- 10Registrar decisão, responsáveis, retorno e barreiras de acesso. Prazos administrativos exigem gestão, mas não substituem urgência clínica nem criam indicação de tratamento desnecessário.
O que a régua brasileira em vigor não escreve, e o que o capítulo usa no lugar
A norma federal de 2016 não fixa corte de PSA para indicar biópsia, só admite a ressonância em casos selecionados, não traz calendário de vigilância ativa, não usa os grupos de grau da classificação de consenso e é anterior à incorporação da abiraterona. Nenhum dos documentos federais usados aqui fixa esquema de profilaxia antimicrobiana para a biópsia de próstata. No lugar, o capítulo usa: a repetição do PSA e o toque como sustentação da suspeita; a ressonância quando o serviço a entrega dentro do prazo legal; os grupos de grau, que o laudo já traz; o calendário de vigilância do relatório preliminar do PCDT de 2026, ainda sem vigência, declarado como escolha desta apostila; e o protocolo do serviço para a profilaxia da biópsia.
Os relógios deste capítulo: quando começam, quanto duram e de onde vêm
| Relógio | Começa a contar | Prazo ou calendário | Fonte e situação |
|---|---|---|---|
| Exames de elucidação diagnóstica | Solicitação fundamentada com hipótese principal de neoplasia maligna | Até 30 dias | Lei nº 12.732/2012, art. 2º, § 3º, incluído pela Lei nº 13.896/2019 — em vigor |
| Primeiro tratamento | Dia em que o diagnóstico é firmado em laudo patológico | Até 60 dias, ou menos conforme a necessidade registrada em prontuário | Lei nº 12.732/2012, art. 2º — em vigor |
| Cobertura contra o flare | Início do antiandrogênio | Cerca de 15 dias antes da primeira aplicação do agonista, mantido de 7 a 14 dias depois dela | Texto de 2026, seção 8.6.1 — em consulta pública |
| Resposta à castração | Início da terapia antiandrogênica | PSA abaixo de 0,2 ng/mL indica bom prognóstico; nadir que não chega abaixo de 4 ng/mL em 7 meses indica prognóstico reservado | Norma de 2016, seção 6.1, repetida no texto de 2026 — em vigor |
| PSA depois de cirurgia ou radioterapia com intenção curativa | Fim do tratamento | Aos 3, 6 e 12 meses; depois semestral até o terceiro ano; depois anual | Norma de 2016, seção 7 — em vigor |
| Vigilância ativa | Decisão de vigiar | PSA a cada 3 a 6 meses; ressonância a cada 12 meses; biópsia confirmatória em 12 meses | Relatório preliminar do PCDT de 2026, seção 8.1.1 — Consulta Pública nº 86/2026, sem vigência; a norma de 2016 descreve PSA seriado, toque e biópsias anuais como a proposta mais comum, sem fixar calendário |
| Hormonioterapia associada à radioterapia no risco intermediário | Início do análogo | 4 a 6 meses | Norma de 2016 e texto de 2026 — as duas concordam |
| Hormonioterapia associada à radioterapia no risco alto | Início do análogo | 2 a 3 anos pela norma de 2016; 18 a 36 meses pelo texto de 2026 | Norma de 2016 em vigor; texto de 2026 em consulta pública |
O mesmo laudo em duas réguas: grupo de risco pela norma em vigor e pelo texto em consulta
| Toque, PSA e biópsia | Norma de 2016 (D'Amico) | Texto de 2026 (seis grupos) | O que muda para a conversa |
|---|---|---|---|
| cT1c; PSA 5,0 ng/mL; grupo de grau 1 em 2 de 12 fragmentos, até 30% de cada; densidade 0,12 | Baixo | Muito baixo | Vigilância ativa é a alternativa preferencial no texto de 2026; na norma de 2016 é opção para expectativa de vida de 10 anos ou mais, ao lado de cirurgia, radioterapia e braquiterapia |
| cT2a; PSA 8,0 ng/mL; grupo de grau 1 | Baixo | Baixo | As mesmas opções; o que o separa do muito baixo é a categoria T, o volume de fragmentos e a densidade |
| cT1c; PSA 6,8 ng/mL; grupo de grau 2 em 2 de 12 fragmentos | Intermediário | Intermediário favorável | Na norma de 2016, cirurgia com linfadenectomia ou radioterapia com hormonioterapia curta; o texto de 2026 acrescenta vigilância ativa em casos selecionados, sobretudo acima de 70 anos ou com comorbidade grave |
| cT2b; PSA 14 ng/mL; grupo de grau 3 | Intermediário | Intermediário desfavorável — o quadro repete o rótulo favorável (ver notas) | Cirurgia com linfadenectomia ou radioterapia com hormonioterapia curta nas duas réguas; vigilância ativa fora das duas |
| cT1c; PSA exatamente 10,0 ng/mL; grupo de grau 1 | Sem classe na tabela; baixo pelo texto corrido da mesma norma | Intermediário, porque o baixo exige PSA menor que 10 | Escreva o valor e as duas leituras; não arredonde o PSA para ele caber numa classe |
| cT2c; PSA 6,0 ng/mL; grupo de grau 1 | Alto, porque D'Amico põe T2c no alto | Sem classe no quadro, que não menciona T2c; intermediário pelos fatores listados na seção 8.2 | O mesmo tumor sai alto numa régua e sem lugar na outra: a categoria T precisa ser registrada com cuidado |
| cT3a; PSA 25 ng/mL; grupo de grau 4 | Alto | Muito alto, com os três critérios de alto risco presentes | Cintilografia e imagem de abdome e pelve indicadas; cirurgia com linfadenectomia ou radioterapia com hormonioterapia longa |
Contas refeitas: unidades, densidade e o que a Rename 2024 entrega
| O que está escrito | Conta | Resultado | Consequência para a prática |
|---|---|---|---|
| Nível de castração: testosterona abaixo de 50 ng/mL ou 1,7 nmol/L (norma de 2016 e texto de 2026) | 50 ng/dL = 500 ng/L ÷ 288,4 g/mol; 50 ng/mL = 50.000 ng/L ÷ 288,4 g/mol | 50 ng/dL = 1,73 nmol/L = 0,5 ng/mL; 50 ng/mL = 173 nmol/L | Use 50 ng/dL. Um laudo de 3,1 ng/mL são 310 ng/dL: castração não atingida, embora o número esteja abaixo de 50 ng/mL |
| Densidade do PSA do Firmino | 6,8 ng/mL ÷ 40 g | 0,17 ng/mL por grama | Acima de 0,15, o corte que o texto de 2026 usa na definição do grupo muito baixo |
| Carbonato de cálcio 1.000 mg/dia (texto de 2026), sem dizer se é sal ou cálcio elementar | Carbonato de cálcio tem 40% de cálcio; o comprimido da Rename tem 1.250 mg de sal e 500 mg de cálcio | Se sal: 400 mg de cálcio, 0,8 comprimido. Se elemento: 2.500 mg de sal, 2 comprimidos | Fator 2,5 entre as duas leituras; a prescrição precisa dizer qual |
| Vitamina D de 1.000 a 2.000 UI/dia (texto de 2026) | Na Rename 2024 o colecalciferol só vem associado ao cálcio, com no máximo 400 UI e 500 a 600 mg de cálcio por comprimido | 1.000 UI = 2,5 comprimidos, com 1.250 a 1.500 mg de cálcio; 2.000 UI = 5 comprimidos, com 2.500 a 3.000 mg de cálcio | A dose de vitamina D não se entrega com o elenco básico sem somar cálcio demais |
| Ácido zoledrônico 4 mg a cada 3 a 4 semanas na metástase óssea (norma de 2016 e texto de 2026) | Rename 2024: só 5 mg/100 mL, no Componente Especializado, vinculado aos protocolos de doença de Paget e osteoporose | 4 mg corresponderiam a 80 mL do frasco de 100 mL | A apresentação da Rename serve a outra indicação; o esquema oncológico chega pelo serviço de oncologia |
| Abiraterona 1.000 mg/dia com prednisona 5 mg/dia (texto de 2026) | Rename 2024: abiraterona não consta; prednisona 5 mg consta no Básico e no Estratégico | Prednisona: 1 comprimido de 5 mg ao dia | A abiraterona é medicamento oncológico e chega pelo AF-Onco, pelo serviço habilitado, não pela farmácia da unidade básica |
| Mortalidade de 2023: 17.258 óbitos, 16,71 por 100 mil habitantes (texto de 2026) | 17.258 ÷ 16,71 × 100.000 | 103,3 milhões de pessoas no denominador | O denominador é a população masculina; a taxa é por 100 mil homens |
Aprofundamento documental — leitura complementar. Erro de unidade por fator 100, na norma em vigor e repetido no texto que vai substituí-la. A norma de 2016 define o nível de castração como testosterona “abaixo de 50 ng/mL ou 1,7 nmol/L” em cinco passagens, e o texto de 2026 repete a unidade em quatro. As duas metades da frase não são a mesma quantidade. Com massa molar de 288,4 g/mol, 50 ng/dL são 500 ng/L, ou 1,73 nmol/L, que é a equivalência que a própria frase declara. Já 50 ng/mL são 50.000 ng/L, ou 173 nmol/L — cem vezes o nível de castração. Lido ao pé da letra, o critério de castração é satisfeito por testosterona até cem vezes acima do limiar real, e a regra de segunda linha da norma de 2016, que manda acrescentar antiandrogênio “mantendo-se a testosterona sérica em nível acima de 50 ng/mL”, passa a exigir uma testosterona cem vezes acima do limiar para autorizar a troca. O capítulo usa 50 ng/dL, isto é, 0,5 ng/mL ou 1,7 nmol/L. Conferido em duas extrações independentes do PDF: nenhuma ocorrência de ng/dL em nenhum dos dois documentos.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Valores exatos sem classe, e três respostas para o mesmo PSA no mesmo documento. A Tabela 1 da norma de 2016, com a classificação de D'Amico, escreve o PSA como “abaixo de 10” no risco baixo, “acima de 10 e abaixo de 20” no intermediário e “acima de 20” no alto: PSA de exatamente 10,0 ou de exatamente 20,0 ng/mL não pertence a nenhum dos três. O texto corrido da mesma norma define o risco baixo com “PSA até 10 ng/mL”, o que põe 10,0 no baixo. E o quadro de grupos prognósticos do mesmo documento escreve “PSA abaixo de 10” para o grupo I e “PSA igual ou acima de 10 e abaixo de 20” para o grupo IIA, o que tira 10,0 do grupo de menor risco. Um homem com T1c, escore 6 e PSA de 10,0 ng/mL é, portanto, sem classe pela tabela, baixo risco pelo texto e grupo IIA pelo quadro. O capítulo usa a leitura do texto corrido e manda registrar a régua ao lado do grupo.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Um valor exato que pertence a duas classes. A norma de 2016 considera a observação para o paciente “com expectativa de vida de até 10 anos” e reserva a vigilância ativa aos pacientes “com expectativa de vida de 10 ou mais anos”. O homem estimado em exatamente 10 anos cabe nas duas. A falha é pequena no papel e grande na consulta, porque a expectativa de vida é o dado mais impreciso da decisão, e uma fronteira imprecisa precisa pelo menos de um lado só. O texto de 2026 reserva a vigilância a quem tem 10 anos ou mais e não define a observação por esse limiar; na seção do risco intermediário desfavorável ele a admite, excepcionalmente, com expectativa de vida de até 5 anos.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Unidade trocada que inverte a leitura de um ensaio. Ao resumir a comparação entre docetaxel a cada 3 semanas, docetaxel semanal e mitoxantrona, a norma de 2016 escreve sobrevida média de 18,9 meses, “17,4 semanas” e 16,5 meses. Em semanas, 17,4 equivalem a 4,0 meses (17,4 × 7 ÷ 30,4): o docetaxel semanal teria sobrevida quatro vezes menor que a da mitoxantrona. O mesmo parágrafo registra, para o docetaxel semanal contra a mitoxantrona, razão de risco de morte de 0,91, com intervalo de confiança de 0,75 a 1,11 e sem significância — número incompatível com um grupo que vivesse um quarto do outro. A unidade coerente com o parágrafo é meses. A conduta não muda, porque o esquema recomendado é o de 3 semanas.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Código de procedimento com dígito a mais, num documento que manda autorizar por código. O art. 4º da norma de 2016 inclui na tabela do SUS o procedimento 03.04.05.034-2, hormonioterapia adjuvante à radioterapia externa, e a seção de regulação repete o mesmo código; mas o quadro descritivo do procedimento, na mesma portaria, grafa 03.04.05.034-72, com onze dígitos onde todos os outros códigos do documento têm dez. Na lista de procedimentos secundários de radioterapia, o planejamento de braquiterapia de alta taxa de dose aparece como 03.0-4.01.0197, com o hífen fora do lugar. As duas grafias foram conferidas em duas extrações do PDF. Para autorização, vale o código do artigo.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Norma em vigor com trecho superado, sem revogação expressa. A seção de regulação da norma de 2016 afirma que, exceto seis medicamentos nomeados, o Ministério da Saúde e as secretarias não padronizam nem fornecem antineoplásicos, e que os hospitais habilitados os padronizam, adquirem e fornecem livremente, ressarcidos pelo procedimento. A Portaria GM/MS nº 8.477, de 20 de outubro de 2025, instituiu o Componente da Assistência Farmacêutica em Oncologia, financiado integralmente pela União, com aquisição centralizada, negociação nacional ou aquisição descentralizada, e incluiu expressamente as hormonioterapias no conceito de medicamento oncológico. Ler a seção 8 de 2016 como descrição do fornecimento atual é descrever o regime anterior. A mesma norma remete abiraterona e enzalutamida à análise da Conitec; o texto de 2026 registra a incorporação da abiraterona em 2019, depois da quimioterapia, e em 2024, antes dela e na doença sensível à castração, com recomendação desfavorável às demais.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Sete defeitos no quadro de grupos de risco do texto de 2026. (1) O texto anuncia “cinco grupos de riscos” e o quadro tem seis linhas, porque inclui o muito alto. (2) Duas linhas se chamam “intermediário favorável”; a segunda, pelo conteúdo — escore 4+3, mais de um fator intermediário, mais de 50% de fragmentos positivos —, é a do desfavorável, que o texto nomeia e o quadro não. (3) O alto risco escreve “PSA ≥ 20 mg/mL”: miligrama no lugar de nanograma é fator de um milhão. (4) O muito baixo escreve densidade de PSA “< 0,15/mL/g”, sem a massa do antígeno no numerador. (5) PSA de exatamente 20 ng/mL cabe no intermediário, “10-20 ng/mL”, e no alto, “≥ 20”. (6) A categoria T2c não está em classe nenhuma: baixo é “estádio ≤ T2a”, intermediário é “estádio T2b” e alto é “estádio ≥ T3”, embora a seção 8.2 do mesmo texto liste “T2b – T2c” entre os fatores de risco intermediário. (7) Exatamente 50% de fragmentos positivos não é “menos de 50%” nem “mais de 50%”. É texto em consulta pública; a nota fica para que a versão final seja lida contra ela.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Duas portarias diferentes para o documento que está sendo atualizado. O Apêndice 1 do texto de 2026 diz que a reunião de escopo foi conduzida com base nas diretrizes do adenocarcinoma de próstata “publicadas por meio da Portaria SAS/MS nº 1.149, de 11 de novembro de 2015”. O Apêndice 2 e a página 92 do mesmo relatório citam a Portaria SAS/MS nº 498/2016, e a portaria que aprova as diretrizes, lida no original, é a nº 498, de 11 de maio de 2016, precedida da consulta pública SCTIE/MS nº 33, de 28 de outubro de 2015. O mesmo relatório carrega outras marcas de rascunho: duas referências cruzadas quebradas, com a expressão “Erro! Fonte de referência não encontrada” impressa antes do número do quadro, e um parágrafo repetido na íntegra na seção 8.4.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Duas definições de recidiva bioquímica depois da prostatectomia, no mesmo texto de 2026. A seção 8.5 escreve que o valor mais aceito é PSA “maior do que 0,1 ng/mL, confirmado por segundo exame”, e as legendas dos quadros 6, 7 e 8 indicam radioterapia pós-operatória com PSA detectável maior que 0,1 ng/mL em ascensão em duas medidas com 14 dias de intervalo. A seção 9.1, no monitoramento, escreve que o valor “mais utilizado é acima de 0,2 ng/mL”, como a norma de 2016. A diferença é de fator 2 no limiar que leva à radioterapia de resgate. O capítulo registra as duas e ensina o interno a devolver o homem a quem o tratou, sem escolher o corte por ele.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Duração prolongada que o mesmo texto chama de curta. A seção 8.6 do texto de 2026 afirma que a duração estendida do bloqueio é melhor que a curta e ilustra com “pacientes que receberam bloqueio androgênico prolongado (4 meses)”. Nas seções 8.2 e 8.3, o mesmo texto chama de hormonioterapia de curta duração o análogo por 4 a 6 meses, e no Quadro 8 chama de longa duração a de 18 a 36 meses. Quatro meses não podem ser, no mesmo documento, o exemplo de prolongado e o piso do curto.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Razões de risco na ordem inversa da frase. O texto de 2026 escreve que, no ensaio STAMPEDE, o benefício de sobrevida da abiraterona “foi maior em homens com menos de 70 anos de idade do que nos mais velhos (HR, 0,94 vs. HR, 0,51)”. Razão de risco menor é benefício maior: 0,51 é redução de 49% no risco de morte, e 0,94, de 6%. Se o benefício foi maior abaixo dos 70 anos, o 0,51 pertence aos mais novos, e a ordem escrita diz o contrário. A inversão importa na consulta do homem idoso com doença metastática, que é justamente onde o texto usa o dado para falar de benefício heterogêneo e toxicidade maior com a idade.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Dose de cálcio sem dizer se é sal ou elemento, vitamina D sem apresentação que a entregue e o nome do tratamento trocado pelo oposto. O texto de 2026 recomenda, a quem recebe hormonioterapia por mais de um ano, vitamina D de 1.000 a 2.000 unidades ao dia e “carbonato de cálcio 1.000 mg/dia”. O carbonato de cálcio tem 40% de cálcio elementar: se os 1.000 mg forem do sal, são 400 mg de cálcio, ou 0,8 do comprimido de 1.250 mg da Rename; se forem de cálcio, são 2.500 mg do sal, ou 2 comprimidos — fator 2,5. Na Rename 2024 o colecalciferol só existe associado ao cálcio, com no máximo 400 UI e 500 a 600 mg de cálcio por comprimido: 1.000 UI exigiriam 2,5 comprimidos e até 1.500 mg de cálcio, e 2.000 UI, 5 comprimidos e até 3.000 mg. O mesmo parágrafo chama a indicação de “terapia de reposição hormonal”, que é o nome do oposto do que o homem recebe. O capítulo não prescreve o esquema: a proteção óssea de quem inicia privação androgênica é conduzida pelo capítulo de osteoporose pós-menopausa, que já inclui esse grupo entre os casos especiais.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Suspeito chamado de sintomático, num documento que reafirma o não rastreamento. A nota do INCA de 2025 lembra que o Ministério da Saúde não recomenda o rastreamento, que ela define como exame em pessoa assintomática, e dá ao parâmetro que calcula o nome de “população sintomática”. Mas o método define os casos suspeitos como os identificados “após avaliação diagnóstica inicial (quadro clínico, PSA ou toque retal)”, o que inclui, pela própria definição, o homem sem queixa que chegou ao urologista por um PSA alterado — como o Firmino. O número programado, 0,127% da população masculina, conta esses homens; o rótulo esconde da gestão de onde vem parte da demanda que ele já dimensiona.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Dois termos trocados na lista de queixas. A nota do INCA de 2025 escreve que o diagnóstico precoce é fundamental “especialmente em casos com queixas urinárias, como disúria, poliúria e hematúria”, e cita como fonte a publicação do INCA de 2021. A lista de 2021 fala em dificuldade para urinar, demora para começar ou terminar o jato, diminuição do jato, necessidade de urinar mais vezes de dia ou de noite e sangue na urina. Disúria é dor ou ardor ao urinar, e poliúria é aumento do volume urinário; o que a fonte descreve é esforço miccional e aumento da frequência. Poliúria dirige o raciocínio para diabetes, diurético e ingestão hídrica, não para a próstata.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência que fechou. A nota do INCA de 2025 calcula os casos suspeitos dividindo a taxa bruta de incidência pela proporção de biópsias positivas e depois pela proporção de suspeitos biopsiados: 67,86 ÷ 0,592 = 114,63, e 114,63 ÷ 0,903 = 126,94 por 100 mil homens, ou 0,127%. Refeita região por região, a conta reproduz os cinco parâmetros do quadro: Norte 0,053%, Nordeste 0,137%, Sudeste 0,146%, Sul 0,107% e Centro-Oeste 0,115%. O exemplo municipal também fecha, com um detalhe de arredondamento: 117.781 homens × 0,137% = 161,36 suspeitos; 161,36 × 0,903 = 145,7 biópsias, arredondadas para 146, enquanto a partir dos 161 já arredondados daria 145,4; e 146 × 0,592 = 86 encaminhamentos à alta complexidade.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência que fechou, dentro da ferramenta do INCA. Em mil homens de 55 a 69 anos rastreados por 13 anos, a ferramenta registra 178 resultados alterados sem câncer na biópsia e 100 cânceres confirmados, metade de crescimento lento. São 278 resultados alterados, e 178 ÷ 278 = 64% deles sem câncer, quase dois terços. A metade de tumores de crescimento lento é compatível com o sobrediagnóstico de até 50% que o texto da mesma seção registra, a partir do ensaio europeu, na revisão da força-tarefa norte-americana de 2018.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Dado de um recorte estendido ao país inteiro. O posicionamento das sociedades de 2023 afirma que “27% dos pacientes no SUS hoje são diagnosticados com doença metastática”, citando um resumo de congresso sobre uma base de dados do sistema público, e conclui na frase seguinte que mais de um quarto dos homens diagnosticados com câncer de próstata no Brasil inexoravelmente morrerá da doença, caso se mantenha a cobertura atual. São dois sujeitos diferentes — pacientes de uma base do SUS e todos os homens diagnosticados no país, incluída a saúde suplementar —, e doença metastática ao diagnóstico não equivale a morte pela doença, já que a norma de 2016 lembra que há sobrevida prolongada mesmo com metástase. O número serve para dizer que o SUS diagnostica tarde; não serve para estimar quantos brasileiros morrerão de câncer de próstata.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Taxa de mortalidade com o denominador trocado. O texto de 2026 registra 17.258 óbitos por câncer de próstata em 2023, “com risco estimado de 16,71 mortes por 100 mil habitantes”. A conta inversa mostra o denominador de fato usado: 17.258 ÷ 16,71 × 100.000 = 103,3 milhões de pessoas, que é a ordem da população masculina, e não a do país inteiro, cerca do dobro disso. Por 100 mil habitantes, a mesma contagem daria algo como a metade da taxa. Para um câncer exclusivo de homem, a taxa é por 100 mil homens — como o próprio texto escreve, na frase anterior, para a incidência.
Aprofundamento documental — leitura complementar. A evidência citada pela norma é mais larga que a recomendação da própria norma. A norma de 2016 reserva a vigilância ativa aos tumores de baixo risco pela classificação de D'Amico, isto é, escore de Gleason até 6. Para sustentá-la, cita uma coorte de 450 homens acompanhados por 6,8 anos, na qual o tratamento definitivo era oferecido a quem tivesse tempo de duplicação do PSA menor que 3 anos, “progressão do escore de Gleason 7 (4 + 3) ou maior” ou progressão clínica inequívoca. Lido como está escrito, o gatilho mantinha em vigilância o homem que progredisse para 3+4 — o grupo de grau 2 que a recomendação da mesma norma exclui. É leitura do texto da norma, não dos dados da coorte, que não foi aberta; e é essa distância que o texto de 2026 fecha ao admitir a vigilância ativa no intermediário favorável selecionado.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Recomendação de uma técnica que o próprio relatório declara fora da tabela. No corpo do texto de 2026, a biópsia de quem tem área PI-RADS 3 a 5 “deve ser guiada por cognição ou fusão”. No Apêndice 1, a questão de pesquisa sobre biópsia guiada por fusão de imagem ou cognitiva recebeu a resposta de que tratava da técnica de realização da biópsia, “o que não é contemplado pelos procedimentos e, portanto, não é escopo de avaliação da Conitec”. O protocolo passaria a recomendar uma técnica sem avaliação de incorporação e sem procedimento próprio, enquanto a nota do INCA de 2025 segue programando ultrassonografia transretal com biópsia. Quem planeja o serviço lê as duas coisas no mesmo documento.
Aprofundamento documental — leitura complementar. O relógio de 60 dias e duas condutas que a lei não nomeia. O § 1º do art. 2º da Lei nº 12.732/2012 considera iniciado o primeiro tratamento com cirurgia, radioterapia ou quimioterapia. A castração medicamentosa não está na lista, mas a norma de 2016 registra a hormonioterapia do adenocarcinoma de próstata avançado entre os procedimentos de quimioterapia paliativa da tabela do SUS, o que a põe no relógio pela via do procedimento; a orquiectomia bilateral é cirurgia. A vigilância ativa não é nenhuma das três, e a lei não a nomeia. O caput e o § 1º falam, os dois, em necessidade terapêutica do caso: o caput para admitir prazo menor que 60 dias quando ela o exige, registrada em prontuário, e o § 1º para dizer com que tratamento o prazo se cumpre. Leitura desta apostila, e não de parecer jurídico nem de norma que regulamente a lei: a lei obriga a iniciar o tratamento dentro do prazo quando há necessidade terapêutica, e a vigilância ativa registrada com critério não é primeiro tratamento nos termos do § 1º — nem precisa ser. O que a vigilância exige é que o prontuário diga por que não há necessidade terapêutica agora: o grupo de risco com a régua de onde saiu, a expectativa de vida, as opções apresentadas, a escolha informada do homem, o calendário e os gatilhos de saída. Registrar essa decisão dentro dos 60 dias não cumpre o prazo por outro caminho; documenta que não havia tratamento a iniciar nele. Sem essa linha, a vigilância é só um tratamento que não começou.
Aprofundamento documental — leitura complementar. O prazo legal para exames necessários à elucidação de hipótese principal de neoplasia maligna, mediante solicitação fundamentada, deve ser respeitado no planejamento assistencial. Ele não define por si a indicação de biópsia prostática, não equivale a biópsia obrigatória para qualquer PSA elevado e não substitui avaliação de risco e decisão compartilhada. Registrar a hipótese, os exames efetivamente indicados, os pedidos e as medidas para acesso oportuno.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo abaixo é a do Firmino Mota — 72 anos, hipertenso, diabético, com stent coronariano há cinco anos, dois PSA de 5,6 e 6,8 ng/mL com oito semanas de intervalo, toque sem nódulo e próstata de 40 gramas —, com um marco dedicado ao Eustáquio, porque a decisão de não biopsiar é tão conduta quanto a de biopsiar. O Joaquim, que corre em outro relógio, é o caso para completar.
Nenhum marco prescreve castração, radioterapia ou cirurgia: essas decisões são do urologista, do radioterapeuta e do oncologista, e o interno participa delas preparando o caso, contando o prazo e conduzindo a conversa. As prescrições são, por isso, atos de pedido, de registro e de orientação, e cada número citado traz a régua de onde saiu.
Dia 0, 13h20 — a primeira consulta do Firmino: reconstruir o número antes de decidir a agulha
O trabalho desta consulta é transformar três folhas soltas numa suspeita escrita ou numa decisão de não investigar. Comece pelo que a guia não diz: se houve infecção urinária, sonda ou uso de finasterida antes de alguma das coletas — as causas e os intervalos estão no capítulo de hiperplasia prostática benigna. Não houve. As duas dosagens foram feitas no mesmo laboratório, com oito semanas de intervalo, e subiram. Refaça o toque retal e descreva o que palpou: glândula aumentada, simétrica, fibroelástica, sulco mediano presente, sem nódulo, sem endurecimento, limites nítidos. Estime a expectativa de vida com os dados da pasta — diabetes controlado, stent há cinco anos sem angina, caminhada diária, função renal preservada — e escreva que ela é compatível com mais de uma década. Com isso a suspeita está estabelecida em alguém que se beneficia de saber, e é hora de pedir.
Prescrição- Registrar as duas dosagens de PSA com data e laboratório (5,6 ng/mL em fevereiro; 6,8 ng/mL em abril), o contexto de cada coleta e a densidade calculada: 6,8 ÷ 40 = 0,17 ng/mL por grama
- Registrar o toque retal descritivo e a estimativa de expectativa de vida com os dados que a sustentam
- Discutir RM da próstata antes da biópsia, conforme risco e acesso, com PSA, volume, toque e histórico no pedido. Organizar prazo adequado e regulação; não condicionar a utilidade do exame a um corte rígido de 30 dias.
- Encaminhar para avaliação e planejamento da biópsia por suspeita fundamentada. A estratégia pode incluir alvos da RM e amostragem sistemática conforme o risco; não solicitar duas estratégias concorrentes sem coordenação com o serviço executor.
- Solicitar hemograma e creatinina, se não houver dosagem recente
- Registrar avaliação de risco, discussão com o paciente e plano dos exames indicados, com datas e retorno; buscar acesso oportuno e observar os prazos assistenciais aplicáveis à suspeita fundamentada, sem converter PSA isolado em biópsia automática.
Dia 0, 14h05 — o Eustáquio: a conduta é não biopsiar, e ela precisa ficar escrita
A mesma lógica, aplicada ao Eustáquio, dá o resultado oposto. Um PSA de 11,8 ng/mL colhido num painel de internação, sem pergunta clínica, num homem de 81 anos com fração de ejeção de 25%, duas descompensações em um ano e oxigênio noturno, sem sintoma urinário e com toque sem nódulo. Se a biópsia achasse câncer, o tratamento com intenção curativa não mudaria o tempo que a insuficiência cardíaca lhe deixa, e a própria biópsia traria sangramento e infecção a um homem que descompensa com pouco. A norma de 2016 considera a observação para quem tem expectativa de vida de até 10 anos, e a nota do INCA de 2025 registra que um em cada dez homens encaminhados por suspeita voltou à rede sem biópsia depois da avaliação do urologista. A consulta não termina no não: termina com o que o traz de volta e com a filha entendendo por que, aqui, fazer tudo é fazer isto.
Prescrição- Não solicitar biópsia prostática; registrar a razão: expectativa de vida estimada inferior a 10 anos pelas comorbidades descritas, ausência de sintomas e toque sem nódulo, decisão discutida com o paciente e a filha
- Não solicitar cintilografia óssea nem repetição periódica de PSA sem pergunta clínica
- Contrarreferenciar à unidade básica e à cardiologia com orientação escrita dos sinais que antecipam o retorno: dor óssea nova, dificuldade ou impossibilidade de urinar, sangue na urina, perda de peso, fraqueza nas pernas
- Registrar que a decisão será revista se surgirem sintomas ou se o quadro clínico mudar
Dias 1 a 24 — antes da agulha: o que se combina e o que se confere
A agenda inicial de RM é de nove semanas. Discuto com a urologia a possibilidade de antecipação, outro serviço e o risco de esperar, em vez de tratar 30 dias como limite clínico universal. Neste caso, após essa avaliação e decisão informada, a equipe mantém a biópsia no dia 24. Explico que sangramento leve pode ocorrer e que risco de infecção varia com via, profilaxia e contexto; não prometer menos de 1% para qualquer técnica. A via transperineal é favorecida por diretrizes atuais quando viável. Se o serviço realiza via transretal, planeja prevenção específica e avalia resistência. O AAS por stent não é suspenso pelo paciente por conta própria; a conduta é combinada com quem faz o procedimento e com cardiologia quando necessário.
Prescrição- Registrar a decisão da equipe sobre RM, acesso, via e amostragem. Neste caso, biópsia programada no dia 24 após avaliação do risco e das alternativas.
- Discutir com o urologista executor e com a cardiologia a conduta com o ácido acetilsalicílico antes do procedimento e registrar o que foi decidido
- Orientar por escrito: sangue na urina pode aparecer nos dias seguintes; febre, calafrio, dor ao urinar ou impossibilidade de urinar exigem retorno no mesmo dia ao pronto-socorro do hospital
- Profilaxia antimicrobiana conforme o protocolo institucional para a via escolhida
Dias 24 a 27 — as 72 horas depois da biópsia
O Firmino faz a biópsia pela via transretal, com os 12 fragmentos, e vai para casa no mesmo dia. No segundo dia telefona: a urina está rosada e não há febre. É o esperado, e a orientação é beber água e observar. Se ele tivesse ligado com febre de 38,5 °C e calafrio, a conduta não seria marcar retorno: seria o pronto-socorro no mesmo dia, com a suspeita de infecção pós-biópsia escrita na ficha, porque a identificação da sepse e as medidas da primeira hora são do capítulo de sepse e choque séptico, e a prostatite bacteriana aguda depois da biópsia é conduzida no capítulo O que o antibiótico não alcança, nesta apostila. O que este capítulo acrescenta à ficha é uma frase: uma agulha atravessou o reto há dois dias, e o homem pode ter recebido quinolona como profilaxia.
Prescrição- Contato telefônico ou retorno em 48 a 72 horas para perguntar por febre, dor, retenção urinária e sangramento
- Hematúria discreta sem piora, retenção ou sinais sistêmicos: orientação e hidratação habitual conforme condições clínicas. Sangramento crescente, coágulos, tontura ou incapacidade de urinar exigem avaliação, mesmo sem febre.
- Febre, calafrio ou retenção: pronto-socorro no mesmo dia, com a biópsia transretal recente e a profilaxia recebida registradas na ficha
Dia 38 — o laudo chega: ler, classificar e começar o segundo relógio
O laudo foi firmado no dia 36: adenocarcinoma acinar em 2 de 12 fragmentos, ambos do lobo esquerdo, escore de Gleason 3+4=7, grupo de grau 2, comprometimento máximo de 20%; dez fragmentos benignos. A primeira anotação é a data do laudo, porque dela se contam os 60 dias para o primeiro tratamento: o prazo termina no dia 96. A segunda é a classificação completa, pelas duas réguas: cT1c pelo toque, PSA de 6,8 ng/mL, grupo de grau 2 — risco intermediário pela norma de 2016 e intermediário favorável pelo texto de 2026, porque há um único fator intermediário e menos da metade dos fragmentos é positiva. A terceira é o que não precisa ser pedido: cintilografia óssea não tem indicação por nenhum critério, e a imagem para estadiamento local fica para depois da conversa, porque o texto de 2026 indica a ressonância no estadiamento pré-operatório do risco intermediário, e ainda não se sabe se haverá operação.
Prescrição- Registrar a data do laudo patológico (dia 36) e a data-limite para o primeiro tratamento (dia 96)
- Registrar: cT1c; PSA 6,8 ng/mL; grupo de grau 2 em 2 de 12 fragmentos, máximo de 20%; risco intermediário (norma de 2016) e intermediário favorável (texto de 2026)
- Não solicitar cintilografia óssea: PSA abaixo de 20 ng/mL, grupo de grau abaixo de 3, categoria abaixo de T3, sem dor óssea e com fosfatase alcalina normal
- Solicitar hemograma, função renal e hepática, fosfatase alcalina e testosterona total
- Agendar a consulta de decisão com o paciente e quem ele quiser trazer, antes do dia 60
Dia 52 — a conversa de tratamento, com a Presciliana e o caderno azul
A conversa distingue tratamento local com intenção curativa, vigilância ativa em seleção apropriada e espera vigilante para quem não se beneficia de tratamento curativo. Firmino tem grupo de grau 2 de pequeno volume; a equipe precisa avaliar, além da idade, proporção do padrão 4, ausência de padrões cribriforme/intraductal quando aplicável, imagem e outros fatores antes de propor vigilância. Cirurgia, radioterapia e seus complementos dependem do risco: linfadenectomia e hormonioterapia não são obrigatórias para todo risco intermediário favorável, e a duração da radioterapia varia com a técnica. Os números de incontinência e disfunção erétil das ferramentas ajudam a conversa, mas não são a probabilidade individual de qualquer técnica ou centro. A minuta brasileira de 2026 é documento preliminar; a discussão clínica atual também pode se apoiar em diretrizes profissionais publicadas, deixando explícitas as opções disponíveis no serviço.
Prescrição- Apresentar cirurgia ou radioterapia e seus complementos conforme estratificação individual. Distinguir vigilância ativa selecionada de espera vigilante; registrar benefício, efeitos e preferência.
- Discutir vigilância ativa apenas após confirmar seleção oncológica apropriada, inclusive detalhes do padrão 4 e histologia adversa. A minuta de 2026 não é norma vigente; o plano deve ser respaldado pela equipe e por recomendações profissionais atuais.
- Informar os riscos de cada caminho com números: impotência e incontinência após a cirurgia; efeitos da hormonioterapia (queda da libido, disfunção erétil, fogachos, perda óssea, ganho de peso, aumento do risco cardiovascular, fadiga, ginecomastia); a possibilidade de reclassificação durante a vigilância
- Registrar a decisão informada, com data, dentro do prazo de 60 dias contados do laudo
Dia 60 — a decisão do Firmino e o que ela aciona
Firmino prefere vigilância ativa. Antes de formalizá-la, a equipe confirma os critérios de seleção e completa a avaliação inicial necessária; não basta a idade ou o desejo de evitar efeitos. Ele recebe um calendário individual, com PSA em geral semestral, avaliação clínica, RM e biópsias conforme protocolo e risco. Como foi biopsiado sem RM prévia, discutir avaliação por RM e confirmação dirigida apropriada, sem relegar automaticamente toda complementação ao mês 12. Um aumento de PSA ou mudança na RM desencadeia investigação, não tratamento automático. A intenção continua ser tratar com finalidade curativa se houver progressão que o justifique.
Prescrição- Registrar a opção por vigilância ativa, com data (dia 60), dentro do prazo de 60 dias contados do laudo, e o critério que a sustenta: por que não há necessidade terapêutica agora
- PSA total a cada 3 a 6 meses, no mesmo laboratório sempre que possível
- Planejar RM para completar avaliação inicial se ainda não realizada e para seguimento conforme risco/protocolo. Não impor RM anual idêntica a todo paciente.
- Programar biópsia confirmatória e posteriores conforme avaliação inicial, RM e protocolo; antecipar investigação diante de suspeita relevante de progressão.
- Registrar gatilhos para reavaliação: PSA ascendente/cinética desfavorável, mudança clínica ou da RM. A decisão de tratar deve se apoiar sobretudo em progressão confirmada por biópsia e no contexto, não apenas em duplicação do PSA.
Mês 6 em diante — o seguimento, e o que mudaria se ele tivesse escolhido operar
No sexto mês o PSA é de 7,1 ng/mL e o toque não mudou. Uma oscilação dessas não é progressão: o critério é o conjunto, e o tempo de duplicação só se calcula com pelo menos três medidas. A ressonância de doze meses mostra uma área PI-RADS 3 no lobo esquerdo, e a biópsia confirmatória, com fragmentos dirigidos a ela, mantém o grupo de grau 2, agora em três fragmentos. Ele segue vigiado. Se tivesse escolhido a prostatectomia, o calendário seria outro: PSA aos 3, 6 e 12 meses depois da cirurgia, semestral até o terceiro ano e anual a partir daí, com recidiva bioquímica definida pela norma de 2016 como PSA acima de 0,2 ng/mL. A perda urinária dos primeiros meses seria conduzida pelo capítulo de incontinência urinária de esforço e de urgência, que assume a incontinência do homem depois da prostatectomia e começa pelo tratamento conservador no primeiro ano. O achado de grupo 2 em três fragmentos não deve ser interpretado isoladamente como estabilidade ou progressão: importa se os fragmentos são dirigidos à mesma lesão, a proporção de padrão 4 e a extensão. O caso ilustra continuidade após avaliação completa da equipe. Após prostatectomia, PSA detectável/crescente exige revisão especializada; confirmação e contexto definem recidiva e eventual resgate, sem esperar cegamente um corte único.
Prescrição- PSA registrado em tabela com data e laboratório; calcular o tempo de duplicação a partir da terceira medida
- Manter vigilância enquanto critérios oncológicos e condições do paciente permitirem. Mudança de PSA, exame ou RM exige avaliação adicional; não é, sozinha, falha que obriga tratamento.
- Se houver cirurgia: PSA aos 3, 6 e 12 meses, semestral até o terceiro ano e anual depois; PSA acima de 0,2 ng/mL após prostatectomia é recidiva bioquímica pela norma de 2016 e volta ao urologista
- Incontinência após prostatectomia: manejo pelo capítulo de incontinência urinária de esforço e de urgência
Como saber se está funcionando
Reavaliar, neste capítulo, não é ver se o paciente melhorou: o Firmino não tem sintoma nenhum para melhorar. É conferir, a cada etapa, se o caminho andou dentro do prazo, se o exame respondeu à pergunta que motivou o pedido e se a decisão continua certa para o homem que ele é hoje.
Os sete parâmetros valem para os três homens da cena, cada um no ponto do caminho em que está. Os dois últimos são do homem que recebe castração, como o Joaquim vai receber, e são justamente os que as normas federais escrevem com a unidade errada.
Esperado: Duas dosagens alteradas e coerentes, colhidas longe de manipulação, infecção ou retenção, ou toque alterado; o contexto de cada coleta registrado ao lado do valor
Se não melhora: Dosagem única, coleta em contexto que eleva o PSA ou valores discrepantes: repetir no intervalo que o capítulo de hiperplasia prostática benigna define antes de pedir biópsia. Se a segunda dosagem voltar para a faixa de referência, a pergunta mudou, e a conversa também
Esperado: Investigação indicada com agendamento e retorno definidos, adequada ao risco, à decisão compartilhada e aos prazos assistenciais aplicáveis.
Se não melhora: Se houver barreira de acesso, contatar a rede e a equipe, buscar antecipação ou serviço alternativo e reavaliar o risco da espera. Decidir RM e eventual biópsia conforme o contexto, documentando informação e preferência do paciente.
Esperado: Hematúria leve e autolimitada, sem febre, urinando normalmente
Se não melhora: Febre, calafrio, dor intensa, retenção urinária ou sangramento com coágulos: pronto-socorro no mesmo dia, com a biópsia recente e a profilaxia recebida registradas na ficha; a conduta segue o capítulo de sepse e choque séptico e o capítulo O que o antibiótico não alcança, nesta apostila, dono da prostatite depois da biópsia
Esperado: Grupo de grau, fragmentos positivos sobre retirados e maior porcentagem de comprometimento escritos, com a data em que o diagnóstico foi firmado
Se não melhora: Faltou algum dos três números: pedir complemento ao patologista antes de classificar o risco. Laudo que diz Gleason 7 sem separar 3+4 de 4+3 está incompleto
Esperado: Tratamento iniciado, ou decisão informada de vigilância ativa registrada com o critério que mostra por que não há necessidade terapêutica agora, antes de completar 60 dias
Se não melhora: Prazo se aproximando sem decisão: antecipar a consulta de decisão. Havendo fila para cirurgia ou radioterapia, registrar a data da indicação e acionar a regulação da unidade de alta complexidade
Esperado: Testosterona abaixo de 50 ng/dL, que é o mesmo que 0,5 ng/mL ou 1,7 nmol/L
Se não melhora: Valor acima disso — um laudo de 3,1 ng/mL são 310 ng/dL — é castração não atingida, mesmo abaixo dos 50 ng/mL escritos nas normas. Devolver ao oncologista com a conta feita antes de chamar a doença de resistente à castração
Esperado: Queda do PSA para menos de 0,2 ng/mL, que a norma de 2016 associa a bom prognóstico
Se não melhora: PSA que não cai abaixo de 4 ng/mL em 7 meses indica prognóstico reservado. Subida em três medidas consecutivas, com PSA acima de 2 ng/mL e testosterona realmente em nível de castração, define resistência à castração e muda a linha de tratamento, que é decisão da oncologia
Onde o erro machuca
O dano: Uma dosagem isolada pode estar elevada por infecção, manipulação, retenção ou simples variação, e o valor volta ao normal semanas depois. O homem vai para a agulha com risco de sangue na urina em um terço dos casos e de infecção em quase um em cem, e com a possibilidade de encontrar um tumor pequeno de grau baixo que ninguém precisava ter achado.
Como pegar a tempo: Exija duas dosagens coerentes, com o contexto de cada coleta conferido pelo capítulo de hiperplasia prostática benigna, ou toque alterado, antes de escrever a solicitação de biópsia. O texto federal de 2026 fala em PSA elevado repetido e confirmado.
O dano: No homem com expectativa de vida curta, a biópsia acrescenta sangramento, infecção e ansiedade, e o câncer eventualmente achado não tem tratamento com intenção curativa capaz de mudar o que as outras doenças já decidiram. A cascata segue sozinha: estadiamento, conversa de tratamento, hormonioterapia com efeitos adversos num homem frágil.
Como pegar a tempo: Escreva a estimativa de expectativa de vida antes de pedir, com os dados que a sustentam. Quando ela é claramente inferior a dez anos e não há sintoma, a conduta é não biopsiar, registrar o motivo, conversar com a família e contrarreferenciar com os sinais de retorno.
O dano: Na primeira semana, a testosterona sobe antes de cair. No homem com metástase vertebral, dor óssea intensa ou obstrução urinária importante, esse pico pode piorar a dor, precipitar retenção e produzir compressão medular exatamente quando o tratamento deveria aliviar.
Como pegar a tempo: Pergunte, antes da primeira aplicação, se há metástase óssea com risco de compressão, dor de difícil controle ou obstrução grave. Havendo, o texto de 2026 manda bicalutamida cerca de 15 dias antes e de 7 a 14 dias depois; a orquiectomia bilateral dispensa a cobertura, e a norma em vigor já a põe como primeira linha.
O dano: O erro de unidade das duas normas federais faz caber no critério de castração uma testosterona até cem vezes acima do nível real. O homem com castração que não funcionou é chamado de resistente à castração, troca de linha sem necessidade e perde a chance de corrigir a supressão.
Como pegar a tempo: Converta sempre: o nível de castração é 50 ng/dL, que é 0,5 ng/mL ou 1,7 nmol/L. Um laudo de 3,1 ng/mL são 310 ng/dL, e a pergunta passa a ser por que a supressão não aconteceu.
O dano: No homem de baixo risco, a positividade esperada é de 2,3% com PSA abaixo de 10 ng/mL: o exame gera achados duvidosos, novos exames e atraso sem mudar a conduta. No homem com PSA acima de 20, dor óssea ou fosfatase alta, deixar de pedir pode levar a uma cirurgia com intenção curativa em doença que já é metastática.
Como pegar a tempo: Aplique os critérios do texto de 2026 antes de pedir: PSA acima de 20 ng/mL, grupo de grau 3 ou mais, categoria T3 ou maior, dor óssea ou fosfatase alcalina elevada. Nenhum presente, não peça; qualquer um presente, peça.
O dano: Vigilância sem exames marcados vira observação sem que ninguém tenha decidido isso: a doença pode mudar de grupo sem ser vista, enquanto ainda seria curável. E a decisão de vigiar sem data e sem critério no prontuário deixa sem registro por que não havia tratamento a iniciar nos 60 dias da lei — que é o que separa a vigilância de um tratamento que não começou.
Como pegar a tempo: Registre a decisão com data, dentro dos 60 dias contados do laudo, com as opções apresentadas, os riscos informados e o critério que mostra por que não há necessidade terapêutica agora. Saia da consulta com o calendário escrito — PSA a cada 3 a 6 meses, ressonância e biópsia confirmatória em 12 meses — e com os gatilhos de saída anotados.
O que dizer ao paciente e à família
As conversas deste capítulo têm um problema comum. O homem chega com uma pergunta de sim ou não — tenho câncer? vou ter de operar? — e a resposta honesta é quase sempre um caminho, com probabilidades e escolhas. O que funciona é dizer em que ponto do caminho ele está, qual é a próxima decisão e quem vai tomá-la com ele.
A técnica de dar notícia difícil, de sustentar o silêncio e de falar de prognóstico incerto é dos capítulos de comunicação de más notícias e de conversa sobre prognóstico e incerteza. O que está aqui é o conteúdo que só este capítulo tem: os números, as portas e os prazos.
O Firmino pergunta, na primeira consulta, se tem câncer
““Ainda não dá para dizer, e eu vou explicar por quê. Esse exame sobe com muita coisa na próstata, e câncer é só uma delas. O senhor fez duas vezes, e ele subiu; o seu toque está normal. Isso quer dizer que vale a pena investigar, não que o senhor tem câncer. De cada cem homens que chegam ao urologista com um exame assim, uns noventa fazem a biópsia, e pouco mais da metade dos que fazem descobre um câncer, muitas vezes de um tipo que cresce devagar. Quem responde a sua pergunta é a biópsia, e eu vou pedir para ela sair em até trinta dias.””
Não diga: “Não deve ser nada” e “é quase certo que seja câncer”. As duas frases são falsas para ele, e a segunda faz o homem chegar à biópsia já decidido pela cirurgia.
Explicar a biópsia e o que fazer depois dela
““A biópsia tira doze pedacinhos da próstata com uma agulha fina, guiada por ultrassom, e o senhor vai para casa no mesmo dia. Sangue na urina nos dias seguintes é comum, acontece em mais ou menos um em cada três homens, e costuma passar sozinho. Infecção é rara, menos de um em cem, mas é séria: se o senhor tiver febre, tremedeira ou não conseguir urinar, não espere o retorno. Venha ao pronto-socorro no mesmo dia e diga que fez biópsia de próstata. E o seu remédio para o coração, o senhor só mexe se o urologista e o cardiologista combinarem.””
Não diga: “É um procedimento simples, não tem risco.” Tem, e o homem que não foi avisado sobre a febre espera a consulta de retorno com uma infecção em curso.
Dar o resultado ao Firmino e à Presciliana
““A biópsia achou câncer em dois dos doze pedacinhos, e é um câncer de grau baixo entre os que chamamos de intermediários. Isso importa por dois motivos. O primeiro é que, pelo toque e pelos números, ele parece estar dentro da próstata, e o senhor não precisa de exame de osso. O segundo é que o senhor tem escolha: há quem trate agora, com cirurgia ou com radioterapia, e há quem acompanhe de perto e só trate se ele mudar. Não é decisão para hoje. Temos até sessenta dias, e eu quero que o senhor pense com calma e traga as suas perguntas.””
Não diga: “O senhor tem um câncer e precisa operar logo.” A pressa não é da doença dele, e a frase fecha as outras portas antes de ele saber que elas existem.
A Presciliana pergunta se ele vai precisar usar fralda
““É uma pergunta muito justa. Dos homens que operam, cerca de vinte em cem ficam com perda de urina, e cerca de sessenta em cem passam a ter dificuldade de ereção. A perda de urina costuma melhorar com o tempo e tem tratamento, que começa com exercícios no primeiro ano. Esses números são o motivo de nem todo homem com um câncer como o dele precisar operar, e é por isso que eu estou pondo na mesa também a opção de acompanhar de perto.””
Não diga: “Hoje em dia quase ninguém fica incontinente.” Diminuir o risco para facilitar a decisão tira do casal a informação que a norma manda dar.
A filha do Eustáquio pede que se faça tudo
““Eu entendo, e quero dizer o que fazer tudo significa para o seu pai. O número dele subiu, e isso pode ou não ser câncer. Para descobrir, ele teria de fazer uma biópsia, que tem risco de sangramento e de infecção num coração que já descompensa com pouco. E, se achássemos um câncer, o tratamento que cura leva anos para mostrar benefício, e o que está limitando o tempo dele hoje é o coração. Fazer tudo, para ele, é cuidar bem do coração e do pulmão e ficar atento aos sinais que mudariam esta conversa: dor nos ossos, dificuldade para urinar, sangue na urina, perda de peso. Se algum aparecer, a gente reavalia.””
Não diga: “Na idade dele não vale a pena.” A idade não é o argumento, e a frase soa como abandono; o argumento é o tempo que as outras doenças deixam e o dano que a investigação traria.
O Joaquim pergunta por que mexer nos testículos, se o problema é na próstata
““Esse tumor cresce alimentado pelo hormônio masculino, que é produzido quase todo nos testículos. Tirar a parte que produz o hormônio faz o tumor perder o combustível, e o hormônio cai sem subir antes. Existe também a injeção, que faz o mesmo efeito, mas nas primeiras semanas pode aumentar o hormônio antes de baixar — e, com a dor que o senhor tem nas costas, esse aumento pode piorar as coisas. Se for pela injeção, o senhor toma um comprimido antes e depois para proteger. Os dois caminhos costumam diminuir o desejo e a ereção. A decisão é sua, junto com o oncologista.””
Não diga: “É uma castração.” A palavra é tecnicamente certa e, dita sem explicação, encerra a conversa; explique o que o procedimento faz e o que ele muda na vida antes de dizer o nome.
O filho do Firmino telefona perguntando se deve fazer o PSA
““Essa decisão é sua, e ela merece uma conversa com o seu médico da unidade básica antes da coleta, não depois. Ter pai com câncer de próstata aumenta o seu risco, e as sociedades de urologia recomendam discutir o exame mais cedo em quem tem história na família; o Ministério da Saúde não recomenda oferecer o exame a homens sem sintoma e orienta decidir junto com quem pede. O que eu posso contar é o que o seu pai viveu: um número alterado leva a outros exames, a uma biópsia e, às vezes, a decisões difíceis sobre um tumor que talvez nunca incomodasse. Vá para essa conversa com essas informações.””
Não diga: “Faça logo, é só um exame de sangue.” O exame de sangue é a primeira porta de um caminho inteiro, e a decisão de entrar nele pertence à conversa na unidade básica que os capítulos de prevenção ensinam, não a um telefonema.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Não oferecer o exame nem convocar; decidir junto com quem o procura — Ministério da Saúde, pelo INCA, desde 2013, reafirmado pelo INCA em julho de 2025. É a posição que esta apostila adota
Pelo balanço entre benefícios e riscos, o INCA conclui que não é recomendado o rastreamento do câncer de próstata e que, se o homem desejar os exames, a decisão deve ser compartilhada com o profissional depois de ele conhecer as consequências. Os argumentos são o sobrediagnóstico, as biópsias para desfazer falsos positivos e os danos do tratamento de tumores que não ameaçariam a vida. O INCA anota ainda que a ideia de risco maior entre homens negros vem principalmente de dados dos Estados Unidos, e que as diretrizes que tratam afrodescendentes de forma diferente o fazem sem evidência conclusiva. Em julho de 2025, a nota técnica do INCA sobre programação do diagnóstico precoce repete, como posição em vigor, que o Ministério da Saúde não recomenda o rastreamento em pessoas assintomáticas.
Instituto Nacional de Câncer, Detecção precoce do câncer, 2021, seção 2.1; nota técnica do INCA de 2025 sobre parâmetros de programação para o diagnóstico precoce do câncer de próstata
Discutir o PSA com todo homem acima de 50 anos com expectativa de vida maior que 10 anos, e dos 40 aos 50 com fator de risco — SBU, SBOC e SBRT, novembro de 2023. Registrada, e não adotada por esta apostila
As três sociedades recomendam divulgar à população os sinais de alerta e a importância de discutir individualmente o rastreamento, e recomendam discussão individual sobre benefícios e riscos do PSA para homens acima de 50 anos com expectativa de vida maior que 10 anos e para homens de 40 a 50 anos com história familiar, etnia negra ou mutação patogênica em BRCA. Argumentam que os grandes ensaios internacionais não representam a população brasileira, com maior proporção de afrodescendentes e grande disparidade de acesso, e que 27% dos pacientes do SUS são diagnosticados com doença metastática — dado de resumo de congresso, cuja extensão a todos os homens do país está discutida nas notas do bloco de critérios.
Posicionamento da Sociedade Brasileira de Urologia, da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica e da Sociedade Brasileira de Radioterapia sobre o rastreamento do câncer de próstata, novembro de 2023
Para o homem assintomático que não pediu o exame, esta apostila segue a orientação do INCA: não solicitar PSA automaticamente nem convocar para rastreamento. Se ele trouxer a dúvida ou desejar o exame, conduza decisão compartilhada sobre possível benefício, falsos positivos, biópsias, sobrediagnóstico e efeitos do tratamento, considerando história pessoal e familiar, expectativa de vida e preferências. A posição das sociedades registra uma proposta diferente de iniciar essa conversa, mas não torna o PSA obrigatório. Sintomas ou achados suspeitos exigem investigação diagnóstica, que é uma decisão distinta do rastreamento.
Biópsia guiada por ultrassonografia transretal, com ressonância só em casos selecionados — norma federal de 2016, em vigor, e parâmetros do INCA de 2025; é o piso adotado por esta apostila
A norma em vigor escreve que os métodos de imagem têm papel limitado no diagnóstico e no estadiamento, que a ultrassonografia transretal é o método de escolha para orientar a agulha e que a ressonância magnética tem indicação em casos bastante selecionados. A nota do INCA de 2025, construída sobre os dados de um centro diagnóstico federal, programa ultrassonografia de próstata por via transretal com biópsia para 90,3% dos casos suspeitos, e a oferta de cuidados integrados em oncologia que ela cita prevê ultrassonografia com biópsia guiada, anatomopatológico e consulta de retorno, sem ressonância no caminho.
Portaria SAS/MS nº 498/2016, seção 4.2; INCA, Parâmetros de programação para o diagnóstico precoce do câncer de próstata, 2025
Ressonância multiparamétrica antes de qualquer biópsia, com fragmentos dirigidos às áreas PI-RADS 3 a 5 além dos sistemáticos, de preferência por via transperineal — texto do PCDT em consulta pública, agosto de 2026, sem vigência
O texto de 2026 afirma que a ressonância multiparamétrica é o melhor método de imagem para o diagnóstico e o estadiamento local, que deve ser solicitada antes de qualquer técnica de biópsia e que áreas PI-RADS 3, 4 ou 5 pedem biópsia guiada por cognição ou por fusão, com 3 a 4 fragmentos da área e mais os 12 sistemáticos. Apoia-se no PROMIS, em que a ressonância teve sensibilidade de 93% contra 48% para câncer clinicamente significativo, e no Precision, em que a estratégia pela ressonância diagnosticou mais câncer significativo, 38% contra 26%, e menos câncer não significativo, 9% contra 22%. O mesmo relatório registra, em apêndice, que a biópsia por fusão ficou fora da avaliação da Conitec por não ter procedimento próprio na tabela.
Relatório preliminar do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Adenocarcinoma de Próstata, Consulta Pública nº 86/2026, seção 4.2 e Apêndice 1
Na suspeita de doença localizada, a RM multiparamétrica antes da primeira biópsia ajuda a estimar risco e orientar a amostragem; organize seu acesso quando indicada e viável. Interprete PI-RADS junto de PSA, densidade do PSA, toque, história e risco individual: RM negativa não exclui todo câncer significativo nem dispensa automaticamente biópsia. Se o exame não estiver disponível em tempo clinicamente aceitável, discuta com a urologia o risco de esperar e a estratégia de biópsia, sem transformar um prazo administrativo em corte biológico. A escolha da técnica e dos fragmentos cabe à equipe. A norma antiga de acesso e o texto em consulta pública documentam contextos distintos; não substituem essa decisão clínica.
Tratar com cirurgia ou radioterapia; a quem não deseja tratamento radical, espera vigilante com hormonioterapia na progressão — norma federal de 2016, em vigor
A norma em vigor reserva a vigilância ativa aos tumores de baixo risco pela classificação de D'Amico, em homens com expectativa de vida de 10 anos ou mais, e dá ao risco intermediário duas opções: prostatectomia radical com linfadenectomia, ou radioterapia externa em dose elevada ou associada a hormonioterapia de curta duração. Na seção do tumor localmente avançado, afirma que, como os demais casos de risco intermediário a alto, esses tumores não têm indicação de observação ou de vigilância ativa, e abre em seguida uma exceção: o paciente que não é candidato a tratamento por problema clínico, ou que não deseja tratamento radical, pode ficar em espera vigilante, com hormonioterapia quando surgirem sintomas ou progressão.
Portaria SAS/MS nº 498/2016, seções 5.1.2, 5.1.4 e 5.2
Vigilância ativa em casos selecionados, sobretudo acima de 70 anos ou com comorbidade grave, preservando a intenção curativa — texto do PCDT em consulta pública, agosto de 2026, sem vigência; é o conteúdo que esta apostila adota
O texto de 2026 recomenda ao intermediário favorável cirurgia ou radioterapia com hormonioterapia de 4 a 6 meses e acrescenta que, em casos selecionados, pode-se considerar a vigilância ativa, especialmente acima de 70 anos ou com comorbidades graves. Descreve a vigilância como acompanhamento com PSA a cada 3 a 6 meses, ressonância a cada 12 meses e biópsia confirmatória em 12 meses, interrompida para tratamento com intenção curativa se houver mudança do escore de Gleason, do estadiamento ou tempo de duplicação do PSA desfavorável, e a distingue da observação, reservada a expectativa de vida muito limitada.
Relatório preliminar do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Adenocarcinoma de Próstata, Consulta Pública nº 86/2026, seções 8.1.1 e 8.2
Aos 72 anos, idade ou desejo de adiar tratamento não definem sozinhos a estratégia. Vigilância ativa preserva a intenção curativa e pode ser discutida em casos selecionados de risco intermediário favorável, considerando histologia, volume tumoral, RM, PSA, expectativa de vida e possibilidade de acompanhamento. Espera vigilante prioriza controle de sintomas quando o benefício esperado do tratamento curativo é limitado ou ele não integra os objetivos acordados. Explique essa diferença ao paciente e defina o plano com a urologia. Na vigilância ativa, mudança de PSA ou RM pede reavaliação e, quando indicada, confirmação por biópsia; não impõe tratamento radical automaticamente. Um texto preliminar não deve ser apresentado como norma vigente.
O raciocínio, em voz alta
Volte ao Firmino Mota: 72 anos, motorista de ônibus aposentado, hipertenso, diabético controlado, stent coronariano há cinco anos, caminha todo dia. PSA de 5,6 ng/mL em fevereiro e de 6,8 ng/mL em abril, no mesmo laboratório, sem infecção, sonda ou uso de finasterida; toque com próstata aumentada, lisa, sem nódulo; ultrassonografia com próstata de 40 gramas. Pediu o PSA depois de uma conversa registrada na unidade básica. A ressonância do hospital tem agenda em nove semanas. A biópsia guiada por ultrassom, feita no dia 24, mostra adenocarcinoma com escore 3+4=7 em 2 de 12 fragmentos, com até 20% de comprometimento, e o laudo foi firmado no dia 36. Fosfatase alcalina normal, sem dor óssea. Ele e a mulher querem saber o que isso significa e o que fazer.
o que penso antes de pedir qualquer coisa
Dois PSA ascendentes, sem causa transitória, num homem que provavelmente vive mais de uma década: a suspeita está estabelecida, e o diagnóstico mudaria a vida dele. A densidade, 0,17 ng/mL por grama, não dispensa nada, porque nenhum dos textos federais usa corte de densidade para indicar ou dispensar biópsia. O que ainda não se sabe é se há tumor e de que grau, e só a histologia responde.
a ordem dos exames, com a régua de hoje
PSA persistentemente elevado justifica avaliar risco, não biópsia automática. Discuto história, expectativa de vida, toque, exames e preferências; explico o papel da RM pré-biópsia. Como a agenda é de nove semanas, a equipe procura antecipação e pondera alternativas e risco da espera. Neste caso, após avaliação e decisão informada, mantém a biópsia no dia 24, conforme o plano descrito na conduta. O prazo legal organiza acesso aos exames indicados; não é a razão isolada para escolher o procedimento.
o que o laudo diz
Escore 3+4=7 é grupo de grau 2, não 3. Dois de 12 fragmentos são 17% de fragmentos positivos, abaixo de 50%, e o maior comprometimento é de 20%. O laudo traz os três números de que a classificação precisa. A data em que ele foi firmado, o dia 36, é o dia zero dos 60 dias: o primeiro tratamento, ou a decisão registrada de vigiar, precisa acontecer até o dia 96.
o grupo de risco, pelas duas réguas
cT1c, PSA de 6,8 ng/mL e escore 7: risco intermediário pela classificação de D'Amico da norma de 2016. Pelo texto de 2026, com um único fator intermediário — o grupo de grau 2 — e menos da metade dos fragmentos positivos, intermediário favorável. As duas classificações vão para o prontuário, cada uma com a sua origem.
o que não pedir
Cintilografia óssea, não: PSA abaixo de 20, grupo de grau abaixo de 3, categoria abaixo de T3, sem dor óssea e com fosfatase normal; o texto de 2026 registra positividade de 2,3% com PSA abaixo de 10. PET com PSMA, não: está fora das recomendações. Ressonância para estadiamento local, só se a decisão for operar. Laboratório do estadiamento, sim: hemograma, função renal e hepática, fosfatase alcalina e testosterona.
as portas que existem para ele
Pela norma em vigor: prostatectomia radical com linfadenectomia; radioterapia externa com hormonioterapia de 4 a 6 meses; e, se ele não desejar tratamento radical, a espera vigilante que a norma escreve para esse caso, aplicada ao intermediário por leitura desta apostila. Pelo texto de 2026: as mesmas duas opções de tratamento e a vigilância ativa em casos selecionados, sobretudo acima de 70 anos ou com comorbidade grave — a descrição do Firmino. Esta apostila oferece a vigilância ativa com o calendário do relatório preliminar do PCDT de 2026, ainda sem vigência, como o conteúdo da espera que a norma de 2016 já permite, para que ela não abra mão da intenção de cura, e diz a ele que essa combinação é escolha desta apostila.
a conversa, com números
Para a cirurgia, sessenta em cem com impotência e vinte em cem com incontinência, pela ferramenta do INCA, e cerca de um em duzentos com complicação grave ou morte. Para a radioterapia, sete a oito semanas de sessões e meses de hormonioterapia, com queda da libido, disfunção erétil, fogachos, perda óssea, ganho de peso e aumento do risco cardiovascular. Para a vigilância, o compromisso com PSA a cada 3 a 6 meses, ressonância e biópsia em 12 meses, e a chance de ser reclassificado e tratado depois. A portaria de 2016 obriga a informar os riscos, e a conversa não precisa terminar no mesmo dia.
o registro e o calendário
No dia 60, registro a preferência pela vigilância ativa e confirmo com a equipe os critérios que ainda precisam ser completados: proporção de padrão 4, histologia adversa, extensão, RM quando indicada e condições concretas de seguimento. Idade e coronariopatia, por si, não estabelecem elegibilidade. O calendário é individual; como não houve RM pré-biópsia, discute-se a complementação inicial antes de simplesmente esperar doze meses. Mudança de PSA ou RM desencadeia investigação; mudança de tratamento depende sobretudo de progressão confirmada e do contexto. Se optar por cirurgia, o plano de seguimento e o significado de PSA detectável/crescente serão explicados, com avaliação especializada quando necessário.
Faça você
Agora o Joaquim Gracindo, na mesma tarde. Setenta anos, pedreiro, dor lombar há dois meses que piora deitado e o acorda de madrugada, perda de seis quilos, PSA de 146 ng/mL, fosfatase alcalina acima do valor de referência e hemoglobina de 11,2 g/dL. Anda com bengala. No exame, força preservada nos quatro membros, sensibilidade sem nível, reflexos simétricos, sem dormência em sela; urina e evacua normalmente, e o resíduo pós-miccional medido é pequeno. O toque retal mostra próstata endurecida à direita, com o limite lateral impreciso. Nunca fez tratamento para a próstata. O urologista assistente desce do centro cirúrgico e pede que você organize o que precisa sair desta consulta.
a primeira pergunta, antes da urologia
O que o exame neurológico descrito responde hoje, e o que mudaria a conduta se ele tivesse fraqueza nas pernas, nível sensitivo, dormência em sela ou retenção nova? De quem é essa conduta, e o que ele leva escrito para casa sobre esses sinais?
o que pedir para estadiar
Quais exames de imagem estão indicados para ele, e por quais critérios? Que categoria T o toque sugere?
o diagnóstico que ainda falta
Com PSA de 146 ng/mL e osso doente, ainda é preciso biópsia? O que a exige, e em que prazo legal?
castrar sem piorar as costas
Se a castração for medicamentosa, com agonista do hormônio liberador de gonadotrofina, o que precisa ser feito antes e depois da primeira aplicação, e por quê? Qual alternativa dispensa essa cobertura, e o que a norma em vigor diz sobre a ordem entre as duas?
o que o SUS oferece, e por onde chega
A abiraterona está incorporada para a doença dele? Por que ela não aparece na Rename 2024, e por qual caminho chega ao paciente? E o que se faz com a dor enquanto tudo isso anda?
Continuidade do caso e prática do internato
Explique a Firmino a diferença entre os dois tipos de observação e documente o que falta para confirmar que ele é candidato à vigilância ativa.
Questão integrativa 1
PSA moderadamente elevado após infecção deve levar imediatamente à biópsia?
Questão integrativa 2
Uma RM negativa exclui todo câncer clinicamente significativo?
Questão integrativa 3
Por que discutir a via transperineal antes da biópsia?
Questão integrativa 4
Vigilância ativa é o mesmo que esperar sintomas?
Questão integrativa 5
PSA duplicou durante vigilância. Deve sair diretamente para cirurgia?
Questão integrativa 6
Dor vertebral suspeita com exame neurológico ainda normal pode aguardar qualquer fila?
Ver como fecharíamos
Primeiro: o exame descrito — força, nível sensitivo, reflexos, sela, controle esfincteriano e resíduo — não demonstra déficit neurológico neste momento, mas isso não exclui metástase vertebral nem compressão incipiente; dor suspeita deve ser discutida prontamente para definir a necessidade e a urgência de RM. Fraqueza, nível sensitivo, dormência em sela ou retenção nova transformariam o caso em urgência de horas, com corticoide, ressonância de toda a coluna e acionamento da cirurgia de coluna e da radioterapia, conduzida pelo capítulo de compressão medular não traumática; a orientação escrita de voltar no mesmo dia diante desses sinais sai com ele desta consulta. Segundo: cintilografia óssea indicada por três critérios do texto de 2026 ao mesmo tempo — PSA acima de 20 ng/mL, dor óssea e fosfatase alcalina elevada — e tomografia de abdome e pelve para linfonodos e vísceras; o toque endurecido com limite lateral impreciso sugere doença que atravessa a cápsula, T3, a ser confirmada. Terceiro: sim. O protocolo de 2026 inclui apenas pacientes com adenocarcinoma confirmado por histologia, e é o laudo patológico que abre o relógio legal de 60 dias para o primeiro tratamento; PSA muito alto e lesão óssea tornam o câncer quase certo, mas não substituem o diagnóstico que dá acesso ao tratamento. A biópsia entra no prazo de 30 dias dos exames de elucidação, com solicitação fundamentada, e num homem com dor óssea ninguém deveria usar todos esses dias. Quarto: o agonista eleva a testosterona na primeira semana e pode piorar a dor óssea e precipitar compressão medular; o texto de 2026 manda iniciar bicalutamida cerca de 15 dias antes da primeira aplicação e mantê-la de 7 a 14 dias depois nos homens com metástase óssea e risco de compressão, dor de difícil controle ou obstrução grave. A orquiectomia bilateral dispensa a cobertura, porque derruba a testosterona sem subida prévia, e a norma em vigor, na seção de regulação, põe a supressão androgênica cirúrgica como primeira linha e reserva o bloqueio medicamentoso aos casos em que a cirurgia é contraindicada. Quinto: sim. O texto de 2026 registra a incorporação da abiraterona para a doença metastática sensível à castração em 2024, e o quadro de alternativas põe orquiectomia com abiraterona e prednisona como a preferencial, com docetaxel por 6 ciclos associado na doença de alto volume. Ela não aparece na Rename 2024 porque o medicamento oncológico não passa pelos componentes básico, estratégico e especializado: a norma de 2016 descrevia o fornecimento pelo hospital habilitado, ressarcido por procedimento, e a Portaria GM/MS nº 8.477/2025 criou o componente AF-Onco, que inclui expressamente as hormonioterapias, organiza a aquisição centralizada, por negociação nacional ou descentralizada, e manda incluir esses medicamentos na Rename por ato conjunto. O Joaquim chega a ela pela unidade de alta complexidade em oncologia, com o laudo na mão. A dor não espera nada disso: é tratada hoje, pelo capítulo de cuidados paliativos e manejo da dor oncológica, com o acesso privilegiado e gratuito a analgésicos opiáceos que a Lei nº 12.732/2012 garante ao paciente com dor consequente de neoplasia maligna. Complemento clínico: exame neurológico normal hoje não exclui metástase vertebral nem compressão incipiente. Dor progressiva, noturna ou mecânica suspeita em provável câncer avançado deve ser discutida prontamente e pode indicar RM urgente, sem esperar déficit completo. Histologia é desejável antes da terapia sistêmica, mas ameaça imediata à medula/órgãos exige condução especializada sem deixar o alívio ou a preservação de função aguardarem trâmites. Agonistas de GnRH podem causar flare; quando há risco importante, discutir estratégia sem flare, como antagonista ou orquiectomia, e cobertura apropriada se agonista for escolhido. Tratamento metastático atual costuma exigir intensificação além da privação androgênica quando o paciente é apto, com esquema definido pela oncologia e acesso verificado. A minuta e os prazos citados não substituem essas decisões clínicas. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não por esse dado isolado. Trate a infecção quando presente, reveja o contexto e programe avaliação/repetição apropriadas. Antibiótico apenas para reduzir PSA não é estratégia diagnóstica. 2. Não. O risco residual depende de densidade do PSA, história, exame e qualidade da RM. A equipe pode indicar biópsia mesmo sem alvo evidente. 3. Ela reduz o risco infeccioso e permite estratégia de prevenção diferente da transretal. A escolha considera disponibilidade, técnica e perfil do paciente. 4. Não. Vigilância ativa acompanha doença selecionada com intenção de tratar curativamente se necessário. Espera vigilante prioriza controle de sintomas quando a perspectiva de benefício curativo é limitada. 5. Não apenas por esse resultado. Verifique medidas, contexto e cinética e investigue com RM/biópsia conforme indicação; progressão confirmada e condições clínicas orientam mudança. 6. Não. A possibilidade de acometimento vertebral/epidural deve ser discutida prontamente. Déficit, disfunção esfincteriana ou progressão tornam a situação ainda mais urgente, mas sua ausência não garante segurança.
O texto de 2026 manda solicitar ressonância antes de qualquer biópsia e, havendo área PI-RADS 3, 4 ou 5, biópsia guiada por cognição ou por fusão de imagens, com 3 a 4 fragmentos da área suspeita além dos 12 fragmentos randômicos. A nota PI-RADS gradua suspeição, não faz diagnóstico: a confirmação continua histológica. Dispensar os fragmentos sistemáticos perde tumor fora da área vista, e adiar a biópsia de lesão suspeita não tem apoio no texto. A norma em vigor, de 2016, ainda não prevê esse fluxo, que depende de o serviço oferecer a ressonância.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Escreva de memória e só depois confira: (1) as três perguntas da investigação e a pergunta que vem antes delas; (2) quanto tempo a Lei nº 12.732/2012 dá para os exames e para o primeiro tratamento, e de que dia cada prazo conta; (3) os cinco grupos de grau com o escore de cada um, e por que 3+4 e 4+3 não são o mesmo tumor; (4) os critérios de cintilografia óssea do texto de 2026; (5) o nível de castração em ng/dL, em ng/mL e em nmol/L, e o erro de unidade que as duas normas federais repetem; (6) os três jeitos de evitar o flare e o prazo da cobertura com antiandrogênio; (7) as duas posições sobre ressonância antes da primeira biópsia e a posição desta apostila.
Em 30 dias
Separe os três últimos homens com PSA alterado atendidos no seu serviço — no ambulatório, na enfermaria ou no pronto-socorro — e responda para cada um: havia duas dosagens coerentes antes do pedido de biópsia? A expectativa de vida foi escrita no prontuário? Houve solicitação fundamentada, e os exames saíram em 30 dias? O laudo trazia grupo de grau, fragmentos positivos e porcentagem de comprometimento? O risco foi classificado, e por qual régua? A data do laudo foi anotada, e o primeiro tratamento, ou a decisão registrada de vigiar, aconteceu em 60 dias? Se algum desses homens recebeu agonista do hormônio liberador de gonadotrofina com metástase óssea, houve cobertura contra o flare? Leve as respostas ao preceptor e escolha uma falha para corrigir no próximo caso.
Agora atenda
Um homem de 66 anos, eletricista, senta na sua frente com dois resultados de PSA — 8,9 e 9,6 ng/mL, com sete semanas de intervalo — e uma pergunta pronta: se é para operar. Não tem queixa urinária, não usa remédio para a próstata, e o toque que você acabou de fazer encontrou um nódulo endurecido no lobo direito. O pai morreu aos 69 anos de câncer de próstata. Você tem esta consulta para decidir o que pedir e em que ordem, o que dizer sobre a biópsia, a ressonância e os prazos, e o que precisa estar escrito no prontuário antes de ele ir embora.
