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Cirurgia GeralUrologia

O aparelho que ninguém examina

Trauma urogenital (rim, bexiga, uretra)

O trato urinário não tem letra no ABCDE, e é por isso que ele passa. Este capítulo é sobre o que a urina do traumatizado obriga e em quem, sobre por que quase nenhum rim vai para a mesa e o que se vigia enquanto não vai, sobre a diferença entre romper a bexiga por dentro e por fora do peritônio — e sobre a bandeja de sondagem que não se abre. A régua brasileira do assunto é um capítulo de livro de 2010, e não há outra: aqui isso é dito em voz alta, com os pontos em que ela já não bate com a régua em uso no mundo.

Fontes deste capítulo

CURY, José; GUGLIELMETTI, Giuliano B. Trauma geniturinário. In: NARDOZZA JUNIOR, Archimedes; ZERATI FILHO, Miguel; REIS, Rodolfo Borges dos (org.). Urologia fundamental. São Paulo: Planmark, 2010. Cap. 34, p. 297-308. Publicação da Sociedade Brasileira de Urologia — Secção São Paulo. Quadros 1 a 7 (fluxogramas e considerações finais de rim, ureter, bexiga, uretra e genitália).

AMERICAN COLLEGE OF RADIOLOGY. Critérios de adequação do ACR: trauma de bexiga e uretra. Tradução do Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem. Imagem urológica, p. 893-900. Diretriz originalmente desenvolvida em 1996; análise e revisão completas aprovadas em 1999. Inclui as classificações de Sandler (lesão vesical, tipos I a V) e de Colapinto-McCallum expandida (lesão uretral, tipos I a V).

AMERICAN UROLOGICAL ASSOCIATION. Urotrauma: AUA guideline. Publicada em 2014; emendada em 2017 e em 2020. Declarações 1, 4, 5a, 5b (rim), 14a, 15, 16 (bexiga), 19, 20b, 22 (uretra), com nível (Standard, Recommendation, Option, Clinical Principle) e grau de evidência.

BRASIL. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. Consultada por busca exata sobre o texto normalizado (sem espaço e sem hífen) para: meios de contraste iodados, imunobiológicos do tétano, analgésicos e antimicrobianos citados neste capítulo.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Prevenção e tratamento dos agravos resultantes da violência sexual contra mulheres e adolescentes: norma técnica. 3. ed. atual. e ampl. Brasília: Ministério da Saúde, 2010. 124 p. (Série A. Normas e Manuais Técnicos; Série Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos, Caderno n. 6). ISBN 978-85-334-1724-3.

01

Responda antes de ler

Você acompanha a investigação de uma paciente de 39 anos com fratura de bacia e hematúria macroscópica. O radiologista informa que a tomografia de abdome com contraste endovenoso, incluindo fase tardia, não mostrou extravasamento vesical, e considera a bexiga estudada. A paciente permanece estável, com ureia e creatinina em ascensão discreta e distensão abdominal progressiva. Qual é a falha do raciocínio e o que fazer?

02

O paciente que você vai ver

Vinte e três e vinte de uma quinta-feira. Hospital regional de cento e dez leitos no interior, referência para cinco municípios, cento e sessenta quilômetros do hospital estadual que tem urologista de plantão. O tomógrafo funciona e o técnico da noite está na escala, dormindo em casa a quinze minutos daqui. Não tem urologista, não tem urologista de sobreaviso e não tem escala de urologia — tem um cirurgião geral de plantão, o Dr. Aristóbulo Pequizeiro, que neste momento está no centro cirúrgico com uma colecistectomia que começou às vinte e duas. Você é o interno da noite.

O paciente chegou de carro particular, trazido por dois colegas de obra. Adamastor Tacaimbo, 34 anos, pedreiro, 78 quilos. A história que os colegas contam é curta e sem contradição: ele estava descendo do andaime pelo lado de fora, escorregou e sentou de pernas abertas sobre a viga metálica horizontal, uma queda de cerca de meio metro. Levantou sozinho, xingou, sentou no chão e não conseguiu mais levantar por causa da dor. Não bateu a cabeça, não desmaiou, não teve outro trauma. Está andando com dificuldade, apoiado nos dois, e fala frases inteiras.

Sinais vitais na classificação de risco: pressão 128 por 82, pulso 96, respiração 18, oximetria de 97 por cento sem oxigênio suplementar, axilar de 36,4 e glicemia capilar de 104. Nada aqui pede sala vermelha. A pulseira saiu amarela e a queixa registrada foi 'dor no períneo após queda'.

A técnica de enfermagem te chama no corredor com uma pergunta prática: 'ele está apertado para urinar há quase duas horas e não sai. Já separei o material de sondagem, quer que eu monte?'. É uma pergunta razoável, feita por quem quer ajudar, e a resposta certa depende inteiramente de dez segundos de exame que ainda não foram feitos.

Você examina. O períneo tem um hematoma que já mudou de cor nas bordas, com o formato que os livros chamam de asa de borboleta — mais largo atrás, afilando para os dois lados da bolsa escrotal. O escroto está edemaciado e arroxeado. A dor à palpação é intensa e localizada. O abdome inferior é globoso, maciço à percussão, doloroso, e a palpação desperta vontade de urinar: é um globo vesical. E no meato uretral, quando você afasta a glande com a luva, há uma gota de sangue seco e uma segunda, fresca, que se forma enquanto você olha.

Esse conjunto encerra a pergunta da técnica. A bandeja de sondagem não se abre. E aqui começa o assunto deste capítulo, porque a trava — não passar sonda diante de sinal de lesão uretral — você já viu duas vezes nesta coleção: o capítulo Atendimento inicial ao politraumatizado a coloca na linha de prescrição da sondagem no ABCDE, e o capítulo Trauma de pelve e controle de hemorragia pélvica a coloca no minuto 2, com os quatro sinais, a técnica da uretrografia retrógrada e a leitura do exame. Nenhum dos dois é este caso.

A diferença importa e é a razão de ser deste capítulo. Adamastor não tem fratura de bacia. Não caiu de altura, não foi atropelado, não bateu de carro. A energia entrou por baixo, no períneo, e comprimiu a uretra contra o osso púbico — o mecanismo de queda a cavaleiro, que lesa a uretra anterior e que acontece, na maioria das vezes, sem nenhuma fratura. O politraumatizado com anel pélvico quebrado tem dono na coleção. O homem que senta na viga, não tinha.

E o resto do aparelho urinário também não tinha. Se em vez do períneo o impacto tivesse sido no flanco, e a queixa fosse urina vermelha, ninguém nesta coleção diria quem vai para a tomografia, o que muda entre urina vermelha a olho nu e sangue que só a fita encontra, por que quase nenhum rim rompido vai para a mesa cirúrgica e o que se vigia enquanto ele não vai. Se a bexiga cheia tivesse recebido um golpe no baixo ventre, ninguém diria como se prova que ela rompeu, nem por que a resposta muda entre romper acima e abaixo de uma linha que nem aparece no exame físico. Se a bolsa escrotal tivesse levado o impacto, uma única frase em toda a coleção diz que rotura testicular é cirúrgica, e nenhuma diz como se chega a esse diagnóstico nem em quanto tempo.

Este capítulo é sobre isso: o aparelho urogenital do traumatizado, do rim ao meato, na versão que o interno precisa ter na cabeça às onze e vinte da noite num hospital sem urologista. Ele começa pela trava — porque a trava é a única coisa aqui capaz de produzir dano permanente em dez segundos de distração — mas não para nela. A trava diz o que não fazer. O que se faz depois, e em quem, é o corpo do capítulo.

Uma advertência de método, e ela é o segundo achado deste capítulo. A régua brasileira do trauma urogenital é um capítulo de livro publicado em 2010 pela Secção São Paulo da Sociedade Brasileira de Urologia, e a régua brasileira de imagem da bexiga e da uretra é uma tradução do Colégio Brasileiro de Radiologia de um documento norte-americano revisado em 1999. O Ministério da Saúde não tem diretriz, protocolo nem norma sobre trauma urogenital. O Projeto Diretrizes da Associação Médica Brasileira com o Conselho Federal de Medicina tem, de urológico no trauma, apenas a conduta no trauma raquimedular, que é outro assunto. Não há régua nacional recente, e isso precisa ser dito em voz alta em vez de disfarçado. Onde a fonte brasileira de 2010 diverge da diretriz internacional em uso, este capítulo mostra as duas e não declara vencedor — e onde ela erra a própria conta, este capítulo mostra a conta.

03

Quem adoece disso

A primeira coisa a saber sobre o trauma urogenital é que ele é raro o bastante para não estar na sua cabeça e frequente o bastante para aparecer na sua noite. O capítulo brasileiro registra que 3 a 10 por cento das vítimas de trauma terão alguma lesão do trato geniturinário, e que no serviço de emergência do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo o trauma geniturinário responde por 10 por cento de todos os traumas atendidos. O documento traduzido pelo Colégio Brasileiro de Radiologia dá o mesmo número por outro caminho: cerca de 10 por cento de todos os pacientes de trauma manifestarão envolvimento geniturinário. Duas fontes independentes, uma brasileira e uma traduzida, com a mesma ordem de grandeza. Num pronto-socorro que recebe trinta traumas numa noite de fim de semana, isso é uma a três pessoas.

A ordem de acometimento dos órgãos é estável e vale memorizar, porque ela organiza o resto do capítulo: rim primeiro, bexiga depois, uretra em terceiro, ureter por último. O rim é o terceiro órgão mais lesado no trauma abdominal, atrás apenas do baço e do fígado — e essa posição é a razão de o rim ocupar a maior parte deste texto.

Dentro do trauma renal, a proporção entre mecanismos decide quase tudo. Oitenta a noventa e cinco por cento das lesões renais vêm de trauma fechado; o restante, de ferimento penetrante. E, do total, noventa por cento são lesões menores — contusão renal ou laceração de parênquima menor que um centímetro. É daí que sai a frase que governa a conduta e que quase nenhum estudante acredita da primeira vez: a maior parte dos rins rompidos não vai para a mesa cirúrgica, e não vai porque não precisa.

A distribuição dos mecanismos também explica por que penetrante e fechado são doenças diferentes com o mesmo nome. No ferimento penetrante, sobretudo por projétil de alta energia, a maioria das lesões renais é grave e precisa de exploração cirúrgica — não necessariamente por causa do rim, mas porque a cavidade abdominal vai ser aberta de qualquer jeito para procurar as lesões associadas. Quem decide essa abertura são os capítulos Trauma abdominal fechado e Trauma abdominal penetrante, e este capítulo não a reescreve: ele diz o que fazer com o rim depois que a decisão de abrir ou não abrir já foi tomada por outro.

A bexiga é a exceção que confirma a regra de que órgão protegido é órgão pouco lesado. Ela vive dentro do anel pélvico, e por isso escapa do trauma penetrante e do trauma fechado comum: a lesão vesical aparece em 1,6 por cento dos traumas abdominais fechados. Mas quando o próprio anel quebra, a proteção vira arma — 80 a 95 por cento das lesões vesicais traumáticas vêm acompanhadas de fratura de pelve. É a companhia mais fiel do capítulo, e é também a razão de a fronteira com o capítulo Trauma de pelve e controle de hemorragia pélvica ser tão apertada.

A distribuição dos tipos de ruptura vesical é a informação que decide entre operar e drenar, e por isso vale saber de cabeça: as rupturas extraperitoneais são cerca de 55 por cento, as intraperitoneais cerca de 38 por cento e as mistas de 5 a 8 por cento. A maioria, portanto, é do tipo que não vai para a mesa — o que é uma boa notícia num hospital sem urologista, e uma armadilha, porque a minoria intraperitoneal é justamente a que morre de sepse urinária se ninguém a procurar.

A uretra é a lesão de mecanismo mais previsível de todas. As lesões uretrais são quase sempre associadas a fratura do anel pélvico, e ocorrem em 4 a 14 por cento das fraturas de bacia. É a estatística que sustenta a regra do capítulo de pelve: com essa frequência, a pergunta sobre a uretra tem de ser feita em todo doente com anel quebrado, antes de qualquer sonda. Mas o inverso não é verdadeiro, e é aqui que este capítulo entra — a uretra anterior, a do mecanismo de queda a cavaleiro, se lesa na maioria das vezes sem fratura nenhuma, e por isso passa por baixo de todo protocolo que tem a fratura como porta de entrada.

O ureter é o órgão que quase não aparece por trauma externo e aparece muito por nossa própria mão. A lesão ureteral traumática representa menos de 1 por cento das lesões geniturinárias por causa externa, e 80 por cento de todas as lesões ureterais são iatrogênicas, contra 20 por cento por violência externa. Dentro das iatrogênicas, a histerectomia responde por 54 por cento, a cirurgia colorretal por 14, a cirurgia pélvica de ovário e de bexiga por 8, a cirurgia vascular abdominal por 6 e a ureteroscopia por 2 — os números não somam cem porque a lista não é exaustiva, e o próprio documento não a apresenta como tal.

Duas frequências fecham o retrato e as duas são contraintuitivas. A primeira: entre 25 e 45 por cento das lesões penetrantes de ureter não apresentam nem sequer hematúria microscópica, e 25 a 50 por cento dos pacientes com lesão do pedículo renal ou da junção pieloureteral também não têm hematúria. Ou seja, as duas lesões mais graves do trato urinário alto são as que menos sangram na urina. A segunda: a mortalidade da lesão ureteral traumática pode chegar a 33 por cento — não por causa do ureter, que não mata, mas por causa da companhia, já que a lesão ureteral penetrante vem acompanhada de lesão de intestino delgado em 39 a 65 por cento dos casos e de cólon em 28 a 33.

Por último, o dado epidemiológico que muda a organização do serviço e não a conduta individual. Segundo o capítulo brasileiro, apoiado em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o traumatismo externo é a principal causa de morte em jovens no Brasil e a terceira causa de morte na população geral. O trauma urogenital, dentro disso, é uma doença de homem jovem em idade produtiva, com sequelas — estenose de uretra, disfunção erétil, incontinência — que duram décadas e que exigem, com frequência, mais de uma cirurgia. É por isso que a conversa sobre expectativa entra cedo neste capítulo, e não no dia da alta.

04

Por que acontece o que acontece

O rim é um órgão pendurado. Ele fica no retroperitônio, envolto em gordura, preso por cima pelo pedículo vascular e por baixo pelo ureter, e essa suspensão explica as duas famílias de lesão renal. Na primeira, a energia chega de fora — um golpe no flanco, uma costela inferior que cede, um processo transverso lombar que quebra — e o parênquima se rompe onde foi comprimido. Na segunda, a energia é a desaceleração: o corpo para e o rim continua, e o que cede é o ponto de fixação. Avulsão do pedículo, laceração parcial da artéria ou da veia, ou apenas uma ruptura da íntima arterial que trombosa horas depois. A segunda família é a que mata rim, e é a que menos dói e menos sangra na urina — de 25 a 50 por cento das lesões de pedículo ou de junção pieloureteral cursam sem hematúria alguma. Por isso o mecanismo, e não o sintoma, é o que autoriza a imagem em quem desacelerou.

Um rim com lacerações extensas pode conservar parênquima perfundido, mas isso precisa ser demonstrado pela TC com contraste e interpretado com a evolução. A disposição e a profundidade das lacerações variam; não se presume que sejam paralelas às artérias interlobares ou que poupem vasos. Pode haver lesão vascular, extravasamento, desvascularização segmentar ou lesão do pedículo. Grau anatômico alto e estabilidade hemodinâmica podem coexistir, permitindo manejo não operatório selecionado, com monitorização e recursos para intervir.

A terceira peça é o tamponamento. O retroperitônio é um compartimento fechado por fáscia, e sangue que se acumula ali comprime a própria fonte. Um hematoma perirrenal contido para de crescer porque a pressão dentro do compartimento alcança a pressão da arteríola que sangra. Isso é ao mesmo tempo a razão de o tratamento não operatório funcionar e a razão de a exploração cirúrgica ser perigosa quando não é necessária: abrir a fáscia de Gerota descomprime o hematoma, tira o tampão e transforma um sangramento que havia parado em um sangramento que não para — e a nefrectomia que se segue muitas vezes é consequência da abertura, não da lesão. É o mesmo raciocínio que o capítulo Trauma abdominal penetrante usa para proibir cutucar repetidamente uma ferida que parou de sangrar, aplicado a um compartimento diferente.

Sangramento tardio pode ocorrer após trauma renal, inclusive por pseudoaneurisma ou fístula arteriovenosa. Não existe dia fixo em que todo hematoma sofre lise e perde contenção. O risco e o seguimento dependem da lesão e da evolução; orientar retorno imediato por hematúria nova ou crescente, dor, tontura, síncope ou outros sinais de sangramento. Alta exige estabilidade e plano de acompanhamento, sem considerar a primeira semana tranquila uma garantia de segurança futura.

Da bexiga, o que se precisa entender é uma linha invisível. O peritônio cobre a cúpula vesical e para ali, refletindo-se sobre a parede pélvica; a base e as paredes laterais baixas da bexiga ficam fora da cavidade peritoneal. Essa linha não aparece no exame físico, não aparece na radiografia simples, não dói, e mesmo assim é ela que decide entre uma sonda e uma laparotomia. Rompeu acima da linha, a urina cai na cavidade peritoneal e passa a ser um problema abdominal. Rompeu abaixo, a urina fica no espaço extraperitoneal e é um problema local. É a mesma parede, o mesmo órgão, o mesmo trauma — e duas doenças com condutas opostas.

Os dois mecanismos de ruptura vesical seguem essa mesma anatomia e é útil ver como cada um escolhe seu lado. A ruptura extraperitoneal é uma perfuração de fora para dentro: a espícula óssea do anel pélvico fraturado fura a bexiga na região mais próxima do osso, que é a base. A ruptura intraperitoneal é o oposto — é uma explosão de dentro para fora. A bexiga cheia de urina se comporta como um balão sob pressão; um golpe no baixo ventre transmite a pressão igualmente por todo o líquido, e o que cede é o ponto mais fraco da parede, que é a cúpula, e a cúpula é justamente a parte coberta por peritônio. Daí duas consequências práticas: a bexiga vazia quase não rompe por trauma fechado, exceto por esmagamento ou ferimento penetrante; e a bexiga cheia rompe com pressão surpreendentemente pequena. O motociclista que estava com vontade de urinar e não parou é uma história clínica, não uma coincidência.

A uretra masculina se lesa em dois lugares por duas físicas diferentes, e este capítulo é dono de uma delas. Na uretra posterior, a próstata acompanha o osso quando o anel se desloca e a uretra membranosa fica ancorada no diafragma urogenital: o que cede é a junção prostatomembranosa, por cisalhamento. Esse mecanismo, os sinais que o denunciam, o exame que o confirma e a sequência do minuto 2 estão escritos no capítulo Trauma de pelve e controle de hemorragia pélvica, e não se repetem aqui. Na uretra anterior, a física é compressão pura: o períneo bate contra um objeto duro, e a uretra bulbar com o corpo esponjoso que a envolve é esmagada contra a face inferior da sínfise púbica. Não há alavanca, não há cisalhamento e, na maioria dos casos, não há fratura de pelve. É a queda a cavaleiro — e a mesma compressão pode vir de um chute, de um golpe de guidão, de uma queda sobre a quina de um degrau ou da instrumentação da própria uretra.

O destino do sangue depois da lesão anterior é o achado mais bonito do exame físico deste capítulo, e ele é pura anatomia de fáscia. O corpo esponjoso rompido sangra dentro de um envelope: a fáscia de Buck, que envolve os corpos cavernosos e o esponjoso. Se a fáscia de Buck aguenta, o hematoma fica confinado à haste do pênis, e o pênis incha como uma manga sem que o períneo se altere. Se a fáscia de Buck se rompe, o sangue passa para o compartimento seguinte, limitado pela fáscia de Colles — e a fáscia de Colles é contínua com o escroto, com o períneo e com a fáscia de Scarpa da parede abdominal, mas se prende posteriormente ao diafragma urogenital e lateralmente aos ramos ísquio-púbicos. O sangue não pode ir para trás nem para os lados, então se espalha para a frente e para os dois lados da linha média: é literalmente por isso que o hematoma tem forma de asa de borboleta. Ver a borboleta não é apenas suspeitar de lesão uretral; é saber que a fáscia de Buck já cedeu, e que o sangue tem para onde ir — inclusive parede abdominal acima.

05

Como se apresenta de verdade

O trato urogenital não tem letra no ABCDE. Ele não é via aérea, não é ventilação, não entra na circulação como fonte de sangramento exsanguinante — o rim que sangra sangra para dentro do retroperitônio e demora — e não é déficit neurológico. Ele aparece no E, o da exposição, e o E é a letra que mais se abrevia quando a sala está cheia. A consequência prática é que este aparelho quase nunca se apresenta: ele é encontrado por quem procura, ou é encontrado depois, quando já custou.

Duas fronteiras ficam declaradas de saída e valem para o capítulo inteiro. A primeira: a sequência do atendimento inicial, a ordem das letras e a decisão de quem vai para a sala vermelha são do capítulo Atendimento inicial ao politraumatizado, e este capítulo não as reescreve — ele assume que a sequência já rodou e diz o que fazer com o aparelho urinário dentro dela. A segunda: a fratura de bacia, a cinta pélvica, o controle da hemorragia pélvica e a sequência do exame do períneo no politraumatizado com anel quebrado são do capítulo Trauma de pelve e controle de hemorragia pélvica, que também é dono da lesão de uretra posterior na versão da sala vermelha, com a técnica e a leitura da uretrografia retrógrada. Este capítulo cede os dois assuntos por inteiro e fica com o aparelho urinário: o rim, a bexiga, o ureter, a uretra anterior, a genitália externa, e a decisão que vem depois de a lesão uretral estar confirmada.

Fora do politraumatizado grave, quem se apresenta é gente que anda. O trauma urogenital do dia a dia chega pela porta amarela, de carro particular, com uma queixa banal — dor no flanco, urina escura, dor no períneo, bolsa inchada — e com sinais vitais normais. É essa a população deste bloco.

A urina depois do trauma: o que macroscópica e microscópica obrigam, e em quem

A hematúria é o sintoma mais frequente do trauma renal e é o achado mais mal usado do capítulo. O erro típico do interno é tratá-la como um interruptor — tem sangue, investiga; não tem, libera. Ela não é um interruptor: é um sinal que muda de significado conforme quem o apresenta e conforme a pressão arterial de quem o apresenta.

Comece pela distinção física. Hematúria macroscópica é a urina que você vê vermelha ou marrom a olho nu, no coletor ou no frasco. Hematúria microscópica é a que só existe na fita reagente ou na contagem de hemácias por campo do sedimento. Não são graus da mesma coisa: são achados com valores preditivos diferentes, e no trauma essa diferença decide quem vai para a tomografia e quem fica na maca.

A regra brasileira, no capítulo da Sociedade Brasileira de Urologia, tem três portas e vale decorar as três porque juntas elas cobrem o adulto inteiro. Primeira: hematúria macroscópica, sozinha, já obriga investigação específica. Segunda: hematúria microscópica obriga se vier acompanhada de instabilidade hemodinâmica. Terceira, e é a que mais se esquece: mecanismo de desaceleração obriga mesmo sem hematúria nenhuma, porque a lesão de pedículo é justamente a que não sangra na urina. O documento internacional em uso hoje diz a mesma coisa com um número no lugar da palavra instabilidade: tomografia com contraste no traumatizado fechado estável com hematúria macroscópica, ou com hematúria microscópica e pressão sistólica abaixo de 90 milímetros de mercúrio; e tomografia também quando o mecanismo ou o exame preocupam, citando nominalmente desaceleração rápida e golpe significativo no flanco. As duas réguas concordam, e concordam há quinze anos — é uma das poucas coisas neste capítulo em que a fonte brasileira antiga e a diretriz internacional recente não brigam.

O contrapeso que impede o exagero é o outro número: apenas 0,2 por cento dos adultos com hematúria microscópica isolada apresentam lesão renal significativa. Dois em mil. É esse número que autoriza você a não tomografar o adulto estável cuja única alteração é a fita positiva — e é bom saber que ele existe, porque a tentação de pedir a tomografia de todo mundo é grande e o custo dela não é só financeiro, como a próxima seção mostra.

Em crianças, mecanismos e achados preocupantes têm peso mesmo com pouca hematúria e pressão aparentemente preservada. O corte antigo de 50 hemácias/campo não deve ser usado para liberar uma criança cuja história ou exame indica risco. A imagem é escolhida com trauma/cirurgia pediátrica conforme estabilidade e suspeita.

Por fim, o que a hematúria não faz. Ela não localiza. Urina vermelha depois de um trauma pode vir do rim, do ureter, da bexiga, da uretra ou de nenhum deles — uma menstruação em curso continua existindo dentro de uma sala de trauma. Ela também não gradua: não existe correlação confiável entre a intensidade da cor e o grau da lesão, e a lesão mais grave é justamente a que pode vir com urina limpa. E ela não é o único caminho — o sangue no meato, que é uretrorragia e não hematúria, sai fora da micção, aparece antes de qualquer coletor e proíbe justamente o gesto que colheria a urina.

Fronteira, e ela vale nos dois sentidos: a hematúria que não vem de trauma — a macroscópica indolor do adulto, a investigação de neoplasia urotelial, a régua de quem vai para a urologia e quem vai para a nefrologia — é do capítulo Vermelha, e não doeu, nesta mesma apostila, que é dono dela. Aquele capítulo manda descartar trauma antes de entrar na sua investigação e não nomeia para onde o trauma vai; a resposta é este capítulo. E a hematúria que aparece depois de uma sondagem, a hematúria por esvaziamento e o tamponamento vesical por coágulo são do capítulo O alívio é a parte fácil, também desta apostila.

O rim: o que faz suspeitar quando a urina não ajuda

Se a hematúria falha em um quarto a metade das lesões graves, o exame e a história precisam cobrir o buraco. A lista de achados que levantam suspeita de trauma renal é curta e é toda de coisas que você já procura por outro motivo.

Dor ou hematoma em flanco é o mais direto, e o mais frequentemente atribuído a contusão de parede. Fratura de costelas inferiores — da nona à décima segunda — coloca o rim no trajeto da energia por definição anatômica. Fratura de processo transverso de vértebra lombar diz a mesma coisa por outro caminho. Lesão de fígado ou de baço já diagnosticada é companhia estatística: quem lesou uma víscera maciça do andar superior recebeu energia suficiente para o rim.

No penetrante, a geografia manda. Qualquer ferimento em flanco, ou cuja trajetória presumida inclua a região paravertebral abdominal, pode ter lesão renal associada. Isso conversa diretamente com a tabela de zonas do capítulo Trauma abdominal penetrante, que lista rim e ureter como as estruturas em risco na zona do dorso e do flanco — aquela tabela é topografia, e diz onde procurar; este capítulo diz o que fazer com o que se achar.

E há a condição que muda a régua sem mudar o trauma: rim previamente doente se rompe com menos energia. Rim em ferradura, hidronefrose, tumor renal, cisto grande. O capítulo brasileiro ilustra o ponto com um caso de estenose de junção ureteropiélica que evoluiu com lesão renal de grau IV depois de uma queda da própria altura — uma queda que num rim normal não teria produzido nada. Se a história trouxer doença renal estrutural conhecida, o limiar para imagem cai, e cai bastante.

A bexiga: os sinais que não parecem urinários

A lesão vesical raramente se anuncia como problema de bexiga. Ela se anuncia como abdome, e é por isso que passa.

O par que obriga a investigar é curto e não tem exceção prática: fratura de bacia mais hematúria macroscópica. Entre 13 e 50 por cento dos pacientes com essa combinação terão ruptura de bexiga. O inverso também é forte e serve para tranquilizar: com fratura de bacia e apenas hematúria microscópica, a incidência de ruptura vesical cai para algo entre zero e 1 por cento. E, olhando de trás para a frente, entre os pacientes com lesão vesical diagnosticada, 77 a 100 por cento tinham hematúria macroscópica e 85 a 100 por cento tinham fratura de bacia.

Os outros sinais são inespecíficos um a um e eloquentes em conjunto: dor suprapúbica, incapacidade de urinar, coágulos na urina, débito urinário baixo sem explicação hemodinâmica, trauma perineal importante, líquido livre intraperitoneal, distensão abdominal e íleo paralítico.

Dois deles merecem parágrafo próprio porque enganam de forma específica. O primeiro é o líquido livre. Uma ruptura intraperitoneal de bexiga produz líquido livre na cavidade, e o ultrassom de trauma não distingue sangue de urina — é uma armadilha que o capítulo Trauma de pelve e controle de hemorragia pélvica já registra, e este capítulo a devolve com a consequência: líquido livre em traumatizado com fratura de pelve, sem lesão de víscera maciça que o explique, é indicação de estudar a bexiga antes de concluir que a origem é sangramento visceral.

O segundo é a ureia e a creatinina que sobem. Urina na cavidade peritoneal é reabsorvida pelo peritônio, que funciona como uma membrana de diálise ao contrário: a ureia e a creatinina da urina voltam para o sangue. O resultado é um paciente com ureia e creatinina em ascensão que parece insuficiência renal aguda pós-trauma e não é — é uma bexiga rota que ninguém procurou. É um dos poucos exames de rotina que faz o diagnóstico de trás para a frente, e é um erro clássico tratá-lo como injúria renal e pedir mais volume.

A uretra anterior: a apresentação de que este capítulo é dono

Quando a lesão uretral vem com o anel pélvico quebrado, o cenário é o do capítulo de trauma de pelve e a conduta inicial é dele. Quando ela vem sem fratura nenhuma, o cenário é este, e até agora ele não tinha capítulo em lugar nenhum deste nível.

A história é quase sempre reconhecível e é sempre a mesma física: alguém sentou, com força, sobre alguma coisa estreita. Viga de andaime, barra de bicicleta, quina de degrau, muro, banco de praça, guidão de moto. Também entram aqui o chute e o joelhaço no períneo, e a instrumentação da própria uretra — uma sondagem difícil, uma cistoscopia, uma dilatação. O paciente conta a queda sem constrangimento e localiza a dor com precisão no períneo.

O exame tem quatro achados e você procura todos, na ordem, com o paciente exposto e com luz. Primeiro, o meato: sangue no meato uretral, ainda que uma única gota seca, é o sinal isolado mais importante de lesão da uretra. Segundo, o períneo e a bolsa: hematoma perineal, hematoma escrotal, e o padrão em asa de borboleta que a seção de mecanismo explicou. Terceiro, a bexiga: globo vesical palpável e percutível, com o paciente referindo vontade de urinar e incapacidade de fazê-lo — retenção urinária aguda pós-traumática é sinal de lesão uretral até prova em contrário. Quarto, quando o toque retal estiver indicado por outro motivo no politraumatizado, a próstata elevada, deslocada ou não palpável.

Três advertências sobre esses quatro achados, e sem elas a lista é decorada e não é usada. A primeira: os achados são independentes, não sequenciais — pode haver lesão completa da uretra com uma única gota de sangue, e pode haver hematoma volumoso com lesão parcial mínima. A quantidade de sangue não gradua nada. A segunda: o toque retal normal não exclui. A próstata não se desloca se os ligamentos puboprostáticos e o diafragma urogenital continuarem íntegros, e um hematoma pélvico tenso pode ser confundido com a própria próstata ao exame. A terceira, e é uma inversão útil: a ausência simultânea de dor pélvica e suprapúbica, de hematoma peniano, escrotal ou perineal, e de alteração ao toque retal favorece a integridade da uretra. Favorece — não prova.

Duas populações fogem do retrato clássico. As lesões uretrais na mulher são extremamente raras e, quando ocorrem, vêm de trauma de alta energia com fratura de bacia, quase sempre acompanhadas de laceração vaginal e retal: se você está diante de uma mulher com fratura de pelve e sangramento vaginal, o exame que responde inclui o toque vaginal e a avaliação ginecológica, e não apenas o urinário. E o menino pré-púbere tem risco maior de lesão do colo vesical, porque a próstata pequena não oferece a mesma resistência que oferece no adulto — o que muda a lesão esperada, não o gesto inicial.

A genitália externa: o que é emergência de hoje à noite e o que espera

Esta é a parte do capítulo em que não havia nada escrito no nível: a coleção inteira tinha uma única frase sobre trauma escrotal, dentro de uma lista de diferenciais do capítulo Escroto agudo, dizendo que rotura testicular é cirúrgica. É verdade, e é insuficiente para atender alguém. Este capítulo assume o assunto e declara: o escroto agudo não traumático — a torção testicular, a epididimite, o escore clínico, a janela das seis horas — é do capítulo Escroto agudo, que é dono dele; o trauma da genitália externa é deste capítulo.

A fratura peniana é o trauma peniano mais comum e é diagnóstico de história e de olho, sem exame de imagem obrigatório. Ela é a ruptura da túnica albugínea de um ou dos dois corpos cavernosos com o pênis ereto. A física explica por que só acontece em ereção: a albugínea tem cerca de dois milímetros de espessura com o pênis flácido e é uma das estruturas mais resistentes do corpo humano, mas na ereção ela se distende para 0,25 a 0,50 milímetro — quatro a oito vezes mais fina — e passa a romper. A apresentação é característica: dor aguda, perda súbita e imediata da ereção, edema e hematoma volumoso, e com frequência o paciente relata ter ouvido um estalo. A causa mais comum é o trauma durante a relação sexual. É emergência cirúrgica, e a urgência tem número: cerca de 80 por cento evoluem com disfunção erétil se não forem operados, sobretudo com atraso maior que 24 horas, contra potência preservada em 98,6 por cento dos operados.

Dentro da fratura peniana mora uma armadilha que liga esta seção à anterior: em 10 a 15 por cento dos casos há lesão associada da uretra peniana, mais provável quando os dois corpos cavernosos se rompem, e ela se apresenta justamente com uretrorragia. Ou seja, sangue no meato num homem com fratura peniana não é um segundo diagnóstico improvável — é a complicação esperada de um em cada sete a dez casos, e muda o exame que se pede e a cirurgia que se faz.

O trauma fechado de escroto é o que mais gera dúvida, porque o exame físico não resolve. O edema e o hematoma local são volumosos e impedem reconhecer as estruturas internas; a descontinuidade da albugínea testicular raramente é palpável. Não insista no exame: quem responde é a ultrassonografia com Doppler, que mostra a ruptura da albugínea e avalia o fluxo, e é o fluxo que decide entre reparar e retirar. A boa notícia é que a rotura testicular não é comum, porque o testículo é móvel e a albugínea é resistente — o mecanismo descrito é a compressão do testículo contra o púbis.

No trauma genital, controlar hemorragia e dor e acionar prontamente a equipe. Amputação peniana exige preservar o segmento em gaze umedecida com soro, saco estéril fechado e recipiente externo resfriado com água e gelo; não mergulhar diretamente em Ringer, antibiótico ou heparina, nem encostar no gelo. Registrar tempo e condições, mas não descartar tentativa de reimplante apenas por um corte universal de duas horas. Fratura peniana, ruptura testicular e ferimentos extensos também pedem avaliação cirúrgica urgente conforme os achados.

Quando a lesão não combina com a história: pare aqui

Existe uma apresentação que interrompe este capítulo, e ela não é clínica: é a lesão urogenital cuja história não a explica. Lesão genital sem mecanismo compatível, versão que muda entre narradores, demora inexplicada em procurar atendimento, achado genital em criança sem trauma relatado, lesão em quem chega acompanhado por alguém que responde por ela.

A conduta aqui é curta e é uma trava, não uma sugestão: você não investiga por conta própria, não confronta ninguém, não interroga acompanhante, não conclui mecanismo no prontuário e não decide sozinho o que fazer com o achado. Você trata a lesão que está diante de você pelos critérios clínicos deste capítulo — que continuam valendo — e aciona, ao mesmo tempo, o fluxo que é de outro capítulo.

As portas estão nomeadas e cada uma tem dono declarado. Violência sexual, em qualquer idade e em qualquer sexo, é do capítulo Quatro relógios, e nenhum marca a mesma hora, na apostila de Ginecologia — que é dono do acolhimento, das quatro profilaxias com seus prazos distintos, da coleta de vestígios e da notificação, e que tem seção própria para quem não é mulher, com o que muda e o que não muda no homem adulto. Violência e maus-tratos em menores de 18 anos é do capítulo Violência e maus-tratos infantis, na apostila de Emergências Pediátricas, que é dono da suspeita, do exame, do que se escreve e da comunicação ao Conselho Tutelar. A notificação de violência contra mulher adulta e contra pessoa idosa fora do contexto sexual é do capítulo Duas obrigações com o mesmo nome, na apostila de Medicina Legal e Bioética.

Uma fronteira precisa ser dita com precisão porque é fácil errar o endereço. A régua de como descrever a lesão no prontuário — localização, tamanho, número, forma, sentido de leitura, e a proibição de datar equimose pela cor — não é do capítulo de lesões corporais e cadeia de custódia: aquele capítulo declara por escrito que cede a descrição aos dois capítulos de violência citados acima e fica com o que vem depois dela. Então: para descrever a lesão, vá aos capítulos de Ginecologia e de Emergências Pediátricas; para o que se guarda, o que se fotografa, o que não se lava, o que não se descarta e o que se responde a ofício de delegacia, vá ao capítulo A roupa que ninguém guardou, na apostila de Medicina Legal e Bioética, que é dono da cadeia de custódia.

E uma consequência técnica que é deste capítulo e de nenhum outro: em suspeita de violência, a roupa íntima, o curativo encharcado e qualquer material retirado do paciente são vestígio antes de serem lixo. O gesto trivial de cortar a cueca e jogá-la no hamper, que num trauma comum não custa nada, aqui destrói prova. Guarde antes de decidir se importa.

06

Como fechar o diagnóstico

Investigar trauma urogenital exige uma disciplina que poucos assuntos da emergência exigem: cada órgão tem um exame próprio, e o exame de um não responde pelo outro. A tomografia com contraste responde pelo rim e não responde pela bexiga sem manobra adicional; a cistografia responde pela bexiga e não responde pela uretra; a uretrografia responde pela uretra e não responde por nada acima dela. Pedir o exame errado com o nome certo é o erro mais caro deste bloco, porque produz um laudo normal que tranquiliza e não significa nada.

A segunda característica é que a estabilidade hemodinâmica é a chave que abre ou fecha toda a árvore. Paciente instável não vai para o corredor da tomografia — vai para a sala de operação, e a investigação urológica passa a ser feita lá dentro, ou não é feita. Quem decide essa bifurcação são os capítulos Trauma abdominal fechado, Trauma abdominal penetrante e Choque hemorrágico no trauma. Este bloco supõe que a bifurcação já ocorreu.

1. O rim: a tomografia de duas fases, e por que o ultrassom não serve

O padrão-ouro para investigar trauma renal no paciente estável é a tomografia computadorizada helicoidal com contraste endovenoso, com sensibilidade descrita entre 90 e 100 por cento. Mas o detalhe que decide o resultado não é o aparelho: é o número de aquisições.

O exame precisa ter duas captações. A primeira, logo após a injeção do contraste, mostra o parênquima e o vascular: onde o rim está partido, onde há hematoma, e se há extravasamento arterial ativo — o borrão de contraste na fase arterial que denuncia sangramento e que é o achado que leva à embolização. A segunda, tardia, mostra a via excretora contrastada: onde a urina está saindo de onde não devia. Sem a fase tardia, 8,6 por cento das lesões de via excretora passam despercebidas.

Guarde esse 8,6 por cento como argumento de conversa, não como número de prova. Quando o técnico ou o radiologista perguntar se pode fazer só a fase precoce porque a sala está cheia, a resposta não é uma preferência sua: uma em cada doze lesões de via excretora não aparece, e lesão de via excretora não reconhecida vira urinoma, abscesso perirrenal e reinternação. Peça o exame pelo nome completo — tomografia de abdome com contraste, com fase precoce e fase tardia excretora.

O ultrassom não substitui. O capítulo brasileiro é categórico: a ultrassonografia não deve ser usada para investigar lesões traumáticas renais. Isso não contradiz o ultrassom de trauma, que continua indicado pelo que ele foi feito para responder — líquido livre na cavidade —, e o próprio capítulo Trauma abdominal fechado já explica por que ele não enxerga o retroperitônio. A ressonância magnética fornece imagens excelentes do rim e das vias urinárias e é, nas palavras da própria fonte, inútil no trauma agudo, pelo tempo que consome.

Há um exame de exceção, e ele existe para o paciente que não pode esperar. É a pielografia endovenosa em injeção única, feita na própria sala de operação: 2 mililitros por quilograma de contraste iodado por via endovenosa e uma radiografia simples de abdome cerca de dez minutos depois. Ela não gradua lesão e não é diagnóstica no sentido usual — ela responde a uma pergunta só, e é a pergunta que interessa a quem está com o bisturi na mão: existe rim do outro lado, e ele funciona? A fonte brasileira faz questão de dizer que, no paciente com indicação cirúrgica, a exploração renal deve ser preferida à injeção única para diagnosticar a lesão. A injeção única é seguro contra a anefria, não método diagnóstico.

2. A régua do rim: os cinco graus e o que cada um muda

A classificação em uso é a da American Association for the Surgery of Trauma, a mesma escala usada para baço e fígado, e ela é a que aparece no laudo brasileiro. Nomear a régua importa porque sigla sem consequência não vale nada — o que segue é o grau e o que ele muda na sua noite.

Grau I é contusão ou hematoma subcapsular não expansivo, sem laceração do parênquima. Grau II é hematoma perirrenal não expansivo, ou laceração do córtex com menos de 1 centímetro de profundidade, sem extravasamento urinário. Grau III é laceração maior que 1 centímetro, que se estende até a medula, ainda sem ruptura do sistema coletor e sem extravasamento de urina. Grau IV é a laceração que atravessa córtex, medula e sistema coletor — portanto com extravasamento urinário — ou a lesão de artéria ou veia renal segmentar com hemorragia contida. Grau V é o rim completamente fragmentado, com múltiplas lacerações de grau IV, ou a avulsão do pedículo com desvascularização renal.

Traduzindo em conduta: a linha que separa III de IV é a entrada do sistema coletor, e é ela que introduz a urina no problema — dali para cima existe urinoma, existe fístula, existe a necessidade de uma segunda tomografia com fase excretora para saber se o extravasamento parou. A linha que separa IV de V é o pedículo, e é ela que introduz a possibilidade de perder o rim. Abaixo de III, a conduta é vigilância e nada mais.

E a conta que quase ninguém faz: os graus não predizem sangramento tão bem quanto predizem urina. Sangramento renal tardio ocorre em 13 a 25 por cento dos traumas de grau IV ou V — o que significa que três quartos deles não sangram tarde. Extravasamento urinário isolado por laceração de parênquima grau IV, ou por ruptura de fórnice, tem resolução espontânea em 87 por cento dos casos pela mesma fonte, e em 87 a 95 por cento em outra passagem do mesmo capítulo. Grau alto não é sinônimo de mesa cirúrgica; é sinônimo de vigilância mais longa e de uma tomografia de controle marcada.

O protocolo local citado em outro capítulo descreve internação e TC no sétimo dia para grau III ou maior. Nesta revisão, a orientação clínica é repetir imagem em alto grau, lesão penetrante ou piora, enquanto grau I–III fechado com boa evolução pode dispensar TC de rotina. O prazo de internação depende de estabilidade, sintomas, lesões associadas e capacidade de seguimento; não é determinado apenas pelo grau.

Ilustração de rim em corte com laceração parenquimatosa focal, hematoma perirrenal e vasos principais do hilo preservados neste exemplo.
O desenho apresenta um padrão possível de trauma renal. Lacerações podem lesar vasos e sistema coletor; não seguem obrigatoriamente trajetos que os preservem. Hematoma contido não garante cessação do sangramento. A decisão entre observação e intervenção depende principalmente da estabilidade, da caracterização das lesões e da evolução monitorada.

3. A bexiga: a cistografia retrógrada, e a radiografia que quase ninguém faz

A indicação absoluta é uma só e não admite discussão nas duas réguas: vítima de trauma com fratura de bacia e hematúria macroscópica faz cistografia. A diretriz internacional em uso escreve isso com o verbo mais forte da sua escala — os clínicos devem obrigatoriamente realizar cistografia retrógrada, por radiografia simples ou por tomografia, no paciente estável com hematúria macroscópica e fratura pélvica. As indicações relativas, pela fonte brasileira, são fratura isolada de bacia, hematúria macroscópica isolada, e sinais clínicos sugestivos de lesão vesical.

O exame de escolha é a cistografia retrógrada, com acurácia descrita entre 85 e 100 por cento, e a palavra retrógrada é o que faz o exame funcionar. Não adianta esperar que a bexiga se encha sozinha e depois radiografar: o politraumatizado tem diurese baixa por perda volêmica, a bexiga não distende, e a bexiga que não distende não mostra o furo. A distensão é o exame.

A técnica, na descrição da fonte brasileira: radiografia simples de abdome em ântero-posterior primeiro, para ver a fratura pélvica; depois solução salina com contraste diluída a 30 por cento, instilada por gravidade a partir de uma altura de 75 centímetros acima da pelve óssea, através de cateter urinário, na bexiga previamente esvaziada. No adulto, 400 mililitros da solução. Na criança, o volume é calculado como 60 mililitros mais 30 mililitros por ano de idade, até o teto de 400 mililitros.

Vale conferir essa fórmula pediátrica, porque ela é a única conta deste capítulo que dá para verificar sozinho e ela fecha: 60 mais 30 vezes a idade é algebricamente a mesma coisa que a fórmula clássica de capacidade vesical, idade mais dois, vezes 30. Aos 5 anos, as duas dão 210 mililitros; aos 8 anos, 300. E o teto de 400 mililitros é alcançado aos 11 anos e 4 meses, o que é coerente com o volume do adulto — a partir dessa idade a criança recebe o volume do adulto e não mais.

O passo que se pula e que custa o diagnóstico é a radiografia pós-drenagem. Depois de radiografar com a bexiga cheia, drena-se o contraste e radiografa-se de novo com a bexiga vazia. Em até 13 por cento das vezes a lesão só aparece nessa imagem — porque a bexiga cheia comprime o próprio local da ruptura contra os tecidos vizinhos e o veda, e é ao esvaziar que o contraste extravasado, já fora, fica visível contra o fundo escuro. Uma em cada oito. Se você acompanhar o exame, é a imagem pela qual você tem de perguntar.

A cistotomografia é alternativa legítima e, bem feita, dá resultados iguais ou superiores, com a vantagem de estudar o trato superior e a bexiga num exame só. Mas há uma armadilha de execução que anula a vantagem: uma tomografia de abdome com contraste endovenoso e fase tardia não é uma cistotomografia. O contraste que chega à bexiga por filtração renal no politraumatizado hipovolêmico não distende nada; sem instilar contraste ou volume por dentro da bexiga, o exame não responde pela bexiga. Se você pedir cistotomografia, diga explicitamente que a bexiga precisa ser enchida — senão você recebe um laudo de tomografia normal que não examinou o órgão que você queria examinar.

4. A uretra: o que este capítulo não repete, e o que acrescenta

O exame que responde pela uretra é a uretrografia retrógrada, e ela vem antes de qualquer cateter. Este capítulo não reescreve a técnica nem a leitura, porque elas já estão escritas, em detalhe, no capítulo Trauma de pelve e controle de hemorragia pélvica — calibre da sonda, volume do balão na fossa navicular, concentração do contraste, fracionamento da injeção, decúbito e fluoroscopia, e o critério que separa lesão parcial de lesão completa. Vá lá para a técnica. O que segue é o que aquele capítulo não cobre, porque não é o cenário dele.

Primeiro acréscimo: a indicação da uretrografia não depende de haver fratura de bacia. A régua internacional em uso vincula a indicação ao achado e não ao osso — uretrografia retrógrada em quem tem sangue no meato após trauma pélvico. O paciente da cena deste capítulo não tem fratura nenhuma, tem sangue no meato, tem hematoma em asa de borboleta e tem globo vesical, e faz o exame pelos mesmos motivos. Protocolo que usa a fratura como porta de entrada perde a uretra anterior inteira.

Segundo acréscimo, e é o que resolve a noite de quem não tem urologista: o que fazer quando o exame não é possível ali. A resposta não é tentar a sonda com cuidado. A resposta é drenar por outra via — a cistostomia suprapúbica, que a fonte brasileira descreve como a conduta clássica e mais simples nas rupturas completas de uretra posterior, e que resolve o globo vesical sem tocar na uretra lesada. A bexiga cheia é o problema urgente; a uretra é o problema que espera. Separar essas duas urgências é o raciocínio central deste capítulo.

Terceiro acréscimo, e é uma tensão interna da própria fonte brasileira que o estudante precisa ver, porque ela vai encontrá-la: o mesmo capítulo que fecha com a advertência de que a sondagem vesical às cegas pode piorar o trauma uretral e converter lesão parcial em completa também escreve, no texto de tratamento, que em caso de ruptura da uretra peniana se deve tentar cuidadosamente passar uma sonda de Foley 14 French, seguida de estudo radiológico para confirmar o posicionamento. Não é contradição se você ler a segunda frase como o que ela é — a descrição de um ato terapêutico realizado por urologista, depois do diagnóstico feito, e não a autorização de um teste diagnóstico à beira do leito. É exatamente essa segunda leitura que o documento traduzido pelo Colégio Brasileiro de Radiologia chama de procedimento condenável. Para o interno, sem urologista na casa, a leitura operacional é uma só: você não passa sonda, nem cuidadosamente.

Quarto acréscimo: existe uma lesão uretral que não vem de trauma externo nenhum e que ninguém procura, porque a produzimos nós. A instrumentação da uretra — sondagem difícil, balonete insuflado antes da hora, dilatação, cistoscopia — lesa a uretra pelo mesmo mecanismo. A prevenção, a técnica e a régua da uretra hostil não traumática, com o limite de duas tentativas gentis, são do capítulo Sondagem vesical, que é dono delas; o que este capítulo acrescenta é que a uretrorragia que aparece depois de uma tentativa de sondagem é lesão uretral iatrogênica até prova em contrário, e obedece à mesma trava: não se insiste, não se troca de sonda, não se tenta de novo com calibre menor.

5. O ureter, e o exame que a tomografia não faz sozinha

O ureter é o órgão órfão deste capítulo — em toda a coleção do nível havia uma única menção a lesão de ureter, e ela era de passagem. Assumo o assunto aqui na medida em que ele decide algo para o interno, que é pequena mas não é nula.

O que decide é a suspeita, porque o ureter não avisa. Entre 25 e 45 por cento das lesões penetrantes de ureter não têm nem hematúria microscópica, e a lesão por trauma fechado é rara ao ponto de aparecer quase só em criança com anomalia congênita do trato urinário — a hidronefrose por estenose da junção ureteropiélica é o exemplo. A avulsão da junção ureteropiélica ocorre por hiperextensão da coluna e por desaceleração, e nesses pacientes, tipicamente, não há hematúria e o diagnóstico é descrito pela própria fonte como extremamente difícil.

As apresentações tardias valem mais que as agudas, porque são as que você vai ver na enfermaria. Extravasamento para a cavidade peritoneal dá peritonite; extravasamento para o retroperitônio dá massa palpável e dor local; e as duas podem cursar com febre e infecção secundária. Depois de cirurgia pélvica, três quadros denunciam ureter: anúria no pós-operatório imediato, que é obstrução bilateral por ligadura ou angulação; dor lombar e em flanco de um lado só, com íleo, náusea, vômito e febre, que é obstrução unilateral; e fístula urinária que se exterioriza pela cicatriz ou pela vagina, que é transecção. Nesta última, a dosagem de creatinina e de eletrólitos no líquido drenado separa urina de qualquer outra secreção — creatinina muito acima da sérica é urina, e o exame custa quase nada.

O ponto de investigação que interessa é uma regra e ela é curta: pielografia retrógrada é o exame padrão-ouro e é obrigatória sempre que o ureter não se contrastar na fase excretora da tomografia. Ausência de contraste no ureter não é achado normal por variação de tempo — é achado que precisa ser descartado ativamente, e a tomografia sozinha não o descarta. É a mesma lógica da fase tardia do rim, aplicada um andar abaixo: o exame que não contrasta a via não examinou a via.

O tratamento definitivo do ureter é do urologista e varia por topografia — cateter duplo J nas lesões puntiformes e transecções parciais, anastomose término-terminal no terço superior e médio, reimplante ureterovesical abaixo da bifurcação ilíaca. Duas informações desse repertório mudam a conduta de quem não opera e por isso ficam aqui: nos ferimentos por projétil de arma de fogo, o ureter tem aparência normal no intraoperatório e evolui com necrose do coto, e por isso se desbrida antes de anastomosar — quer dizer, uma reoperação por fístula depois de um ferimento por arma de fogo no ureter não é necessariamente erro técnico. E o diagnóstico tardio de lesão ureteral está associado a mais complicações e a tratamento mais difícil, com taxa de complicação de 25 por cento após o reparo mesmo quando tudo corre bem, sendo a fístula urinária prolongada a mais frequente.

6. O que não pedir, o que custa pedir, e o que o SUS não fornece

Não peça ultrassonografia para avaliar lesão renal traumática. Ela não foi feita para isso, o capítulo brasileiro a desaconselha explicitamente, e o laudo normal que você vai receber não exclui nada — mas fica no prontuário parecendo que excluiu. O ultrassom de trauma responde outra pergunta e continua indicado por ela.

Não peça ressonância magnética no trauma agudo. A imagem é excelente e o tempo de aquisição a torna, nas palavras da fonte, inútil nesse contexto.

Não use a passagem da sonda como teste diagnóstico da uretra. Não é uma preferência: o documento traduzido pelo Colégio Brasileiro de Radiologia registra que este é um procedimento condenável, por converter lesão parcial em completa. Custo: uma estenose de uretra para a vida inteira, e às vezes uma cirurgia reconstrutiva a mais.

Não aceite tomografia de abdome com contraste sem fase tardia quando a pergunta é rim, e não aceite tomografia com fase tardia como se fosse cistotomografia quando a pergunta é bexiga. São dois erros simétricos e os dois produzem laudo tranquilizador sobre órgão não examinado.

E há uma restrição que não é clínica e que o interno precisa conhecer antes de traçar plano: os três exames que decidem este capítulo — tomografia com contraste para o rim, cistografia retrógrada para a bexiga, uretrografia retrógrada para a uretra — dependem todos de meio de contraste iodado, e nenhum meio de contraste iodado consta da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024. O grep exato sobre o corpo normalizado da lista devolve zero para iohexol, iodixanol, ioversol, iopamidol, diatrizoato e ioxitalamato, e também para as expressões contraste iodado e meio de contraste. Isso não significa que o SUS não os ofereça — o contraste entra no financiamento como insumo do procedimento de imagem, e não pela via do medicamento, e é assim que ele chega ao hospital. Significa o que segue, e é a parte que muda o plantão: a disponibilidade do contraste depende do serviço de imagem daquele hospital, não de uma lista nacional que garanta o item. Num hospital pequeno, sem contraste na prateleira, a pergunta prática não é mais qual exame pedir, e sim para onde transferir — e isso muda o horário em que se faz o telefonema.

Duas coisas que o SUS fornece e que este capítulo usa: no ferimento penetrante de genitália e no desenluvamento, a profilaxia do tétano tem os dois imunobiológicos na Rename 2024, ambos no componente estratégico — a vacina adsorvida difteria e tétano do adulto, em suspensão injetável, e a imunoglobulina antitetânica, 250 unidades internacionais por mililitro, em solução injetável, que também consta como soro antitetânico. Vale conhecer uma armadilha de busca que leva à conclusão oposta: procurar pela expressão imunoglobulina humana antitetânica devolve ausência, e a substância está na lista, sem a palavra humana no nome. Confira o nome exato antes de afirmar que o SUS não tem.

07

As réguas do trauma urogenital, e o que elas custam a conferir

A avaliação urinária integra a reavaliação do trauma. O dado essencial é reconhecer uma lesão que muda o exame ou a via de drenagem, sem atrasar controle de hemorragia e outras ameaças à vida.

  1. 1Mantenha avaliação e reavaliação do trauma, incluindo controle imediato de hemorragia externa catastrófica quando presente. Hematúria não desvia a prioridade da perfusão e da via aérea.
  2. 2Inspecione meato, períneo e genitais antes de sondagem, quando possível. Sangue no meato e outros sinais de lesão uretral pedem avaliação específica; ausência desses sinais não exclui todas as lesões.
  3. 3Na suspeita uretral, interrompa tentativa cega e acione a equipe para uretrografia/avaliação apropriada e drenagem. Toque retal é seletivo e próstata alta não é teste confiável isolado.
  4. 4No estável, TC contrastada com fases adequadas investiga suspeita renal relevante. Mecanismo de desaceleração e achados preocupantes podem indicar imagem mesmo sem hematúria.
  5. 5Suspeita de ruptura vesical exige cistografia com enchimento retrógrado apropriado; contraste que apenas chega pela urina não exclui ruptura. Tratamento depende de localização e complexidade.
  6. 6O tratamento renal combina estabilidade, sangramento, anatomia e recursos. Embolização é opção em selecionados, sem atrasar controle cirúrgico da hemorragia no instável.
  7. 7Extravasamento urinário isolado pode ser observado. Coleção sintomática/infectada, obstrução e evolução desfavorável mudam a necessidade de cateter ou drenagem.
  8. 8Repetir imagem em lesões de alto grau, penetrantes ou deterioração; grau I–III fechado com boa evolução não exige TC e internação até o sétimo dia por regra. Alta e seguimento são individualizados.
  9. 9No trauma genital, manter analgesia, avaliação cirúrgica e cuidado da ferida. Segmento amputado deve ser envolto em gaze umedecida com soro, em saco estéril fechado resfriado externamente, sem contato direto com gelo ou imersão direta do tecido.

A trava: dez segundos de distração aqui produzem sequela definitiva, e nenhum outro gesto do capítulo faz isso

Diante de sangue no meato uretral, hematoma perineal ou escrotal, próstata elevada, deslocada ou não palpável, ou globo vesical com incapacidade de urinar depois de um trauma: a sonda não entra. Não entra devagar, não entra com calibre menor, não entra com mais lubrificante, não entra para ver se passa. Tentar passar a sonda para saber se a uretra está íntegra é o procedimento que o documento traduzido pelo Colégio Brasileiro de Radiologia chama de condenável, porque converte lesão parcial em completa. O que está em jogo nessa conversão: de um lado, duas semanas de cateter e cicatrização espontânea; de outro, uma uretra reconstruída meses adiante, com estenose, disfunção erétil e incontinência no caminho. O exame que responde antes é a uretrografia retrógrada. Quem decide o que fazer com o resultado é o urologista. E se a bexiga estiver cheia enquanto se espera, a saída é a cistostomia suprapúbica: a bexiga é a urgência de agora, a uretra é o problema que espera. A trava vale mesmo sem fratura de bacia — a uretra anterior se lesa, na maioria das vezes, sem fratura nenhuma.

O achado, o exame que responde, e o que esse exame não responde

Achado que disparaÓrgão sob suspeitaExame que respondeO que este exame NÃO responde
Hematúria macroscópica em traumatizado estávelRim (e bexiga, se houver fratura de bacia)Tomografia de abdome com contraste, fase precoce e fase tardia excretoraNão responde pela bexiga sem enchimento retrógrado; não responde pela uretra
Hematúria microscópica com pressão sistólica abaixo de 90RimMesma tomografia de duas fasesIdem. E não exclui lesão de pedículo se a fase precoce vier isolada
Hematúria microscópica isolada, adulto estávelNenhum, na prática — 0,2% têm lesão significativaNenhum exame de imagem; observação e reavaliação da urinaNão se aplica: aqui a decisão é não pedir
Criança com mecanismo/exame preocupantes, independentemente de corte rígido de hemáciasRimTomografia de duas fases (a criança tem régua própria, mais frouxa)Idem ao adulto
Desaceleração rápida ou golpe importante no flanco, com urina limpaPedículo renal e junção pieloureteralTomografia de duas fases, pelo mecanismo e não pelo sintomaNada supre: é aqui que a hematúria falha em 25 a 50% dos casos
Fratura de bacia + hematúria macroscópicaBexigaCistografia retrógrada com enchimento e radiografia pós-drenagemNão responde pela uretra; e sem a pós-drenagem perde até 13% das lesões
Ureia e creatinina subindo sem causa hemodinâmica, com líquido livreBexiga (ruptura intraperitoneal reabsorvida pelo peritônio)Cistografia retrógradaO ultrassom de trauma vê o líquido e não distingue urina de sangue
Sangue no meato, hematoma perineal ou escrotal, globo pós-trauma, próstata deslocadaUretraUretrografia retrógrada — antes de qualquer cateterNão responde por rim nem por bexiga; e toque retal normal não exclui lesão uretral
Ureter não contrastado na fase excretora da tomografiaUreterPielografia retrógrada, obrigatória nessa situaçãoA tomografia isolada NÃO descarta lesão ureteral quando a via não contrasta
Bolsa escrotal muito edemaciada após trauma fechado, exame impossívelTestículoUltrassonografia com Doppler (albugínea e fluxo)Não responde pela uretra nem pelos corpos cavernosos
Dor aguda com perda súbita da ereção, estalo e hematomaCorpos cavernosos (fratura peniana)Diagnóstico clínico; ultrassom só na dúvidaSe houver uretrorragia junto, exige estudo da uretra além do exame clínico

Bexiga: as duas rupturas, e por que uma vai para a mesa e a outra não

ExtraperitonealIntraperitoneal
Quanto pesa no totalCerca de 55% das lesões vesicaisCerca de 38% (mistas, 5 a 8%)
Onde rompeBase e paredes baixas, fora da cavidade peritonealCúpula, a região coberta por peritônio
MecanismoPerfuração de fora para dentro: espícula do anel pélvico fraturadoExplosão de dentro para fora: bexiga cheia comprimida no baixo ventre
Companhia habitualFratura de bacia, em quase todos os casosPode ocorrer sem fratura de bacia; a bexiga vazia quase não rompe assim
Para onde vai a urinaFica no espaço extraperitoneal, contidaCai na cavidade peritoneal e é reabsorvida pelo peritônio
O que denunciaHematúria macroscópica com fratura pélvicaLíquido livre no ultrassom, íleo, distensão, ureia e creatinina subindo
Conduta padrãoSonda vesical de demora com antibiótico; cerca de 10 diasReparo cirúrgico — a régua internacional usa o verbo obrigatório
Quando a extraperitoneal também operaFragmento ósseo dentro da bexiga, fratura pélvica exposta, perfuração de reto, lesão do colo vesical, coágulos volumosos, ou quando o doente já vai ser operado por outro motivo estando estávelNão se aplica
Como se retira a sondaSó após cistografia de controle sem extravasamento; persistindo, mantém-se e repete-se em três semanasCistografia de controle no décimo dia de pós-operatório; sem extravasamento, retira
Se ninguém diagnosticarFístula, abscesso local, estenose e, no colo vesical, incontinência de difícil tratamentoUroascite, íleo, peritonite, abscesso e sepse

Contraste e fármacos deste capítulo: da prescrição ao que se pega na bandeja, num adulto de 70 kg

ItemApresentação realO que se prescreveA contaO que sai da bandeja
Contraste iodado para cistografia retrógrada, adultoFrasco-ampola de 50 ou 100 mL, tipicamente 300 mg de iodo por mL400 mL de solução salina com contraste diluída a 30%400 x 0,30 = 120 mL de contraste puro + 280 mL de salina; a 300 mgI/mL isso são 36 g de iodoCerca de 1,5 frasco de 100 mL, mais 280 mL de soro fisiológico, num equipo pendurado a 75 cm acima da pelve
O mesmo exame, criança de 8 anosIdem60 mL + 30 mL por ano de idade, teto de 400 mL60 + (30 x 8) = 300 mL de solução a 30% = 90 mL de contraste + 210 mL de salinaMenos de 1 frasco de 100 mL. O teto de 400 mL é atingido aos 11 anos e 4 meses: (400 - 60) / 30
Contraste para uretrografia retrógradaIdemContraste a 30%, injetado em frações de 10 mLCada fração de 10 mL da solução carrega 3 mL de contraste puroPoucos mililitros no total. O gasto do exame é desprezível; o que falta nos hospitais é o exame, não o frasco
Pielografia endovenosa em injeção única, na sala de operaçãoIdem2 mL/kg por via endovenosa, radiografia de abdome 10 minutos depois2 x 70 = 140 mL; a 300 mgI/mL, 42 g de iodo; a 350 mgI/mL, 49 g2 frascos de 100 mL (usa-se 1,4). É a maior carga de contraste do capítulo, e é a única dada por peso
Balonete do cateter usado na uretrografiaSonda de Foley 14 French; 14 French equivalem a cerca de 4,7 mm de diâmetro externoInsuflar 1 a 2 mL na fossa navicular, apenas para vedarNão confundir com o balonete de sondagem de demora, que leva 10 mL e é insuflado dentro da bexigaSeringa de 3 mL com água destilada — não a de 10 mL
Dipirona sódica, analgesia inicial500 mg/mL, ampola de 2 mL = 1.000 mg; consta da Rename 2024, componente básico1 g por via endovenosa1.000 mg / 500 mg por mL = 2 mL = 1 ampola inteira1 ampola de 2 mL, diluída
Sulfato de morfina, dor intensa10 mg/mL, ampola de 1 mL = 10 mg; consta da Rename 2024, componente especializado0,05 a 0,1 mg/kg por via endovenosa, tituladas0,05 x 70 = 3,5 mg e 0,1 x 70 = 7 mg; em mL: 0,35 a 0,70 mLMenos de uma ampola. Diluir 1 ampola em 9 mL de água (1 mg/mL) e administrar 3,5 a 7 mL
Profilaxia do tétano no ferimento penetrante ou desenluvamentoVacina dupla adulto e imunoglobulina antitetânica 250 UI/mL — as duas na Rename 2024, componente estratégicoConforme o estado vacinal e o tipo de ferimentoNão é conta de peso no adulto; é decisão de esquemaBuscar pelo nome correto: procurar por imunoglobulina humana antitetânica devolve ausência, e ela consta como imunoglobulina antitetânica e como soro antitetânico

Aprofundamento documental — leitura complementar. CONFERÊNCIA QUE NÃO FECHOU — o mesmo grau é 'lesão menor' e 'lesão significativa' no mesmo texto. O capítulo brasileiro afirma que 90% das lesões renais são menores, definindo menor como contusão renal ou laceração de parênquima menor que 1 centímetro — o que, pelas definições que o próprio capítulo dá adiante, são exatamente os graus I e II da escala da AAST. Se graus I e II somam 90%, então graus III a V somam 10%. Mas o texto de tratamento afirma que lesões significativas, definidas como graus II a V, são vistas em apenas 5% dos traumas renais. Impossível: o conjunto II a V contém o conjunto III a V, logo tem de ser maior ou igual a 10%, e 5% é menos da metade disso. O grau II está dos dois lados da conta. Consequência prática: não use o número 5% para nada; use as definições de grau, que são consistentes.

Aprofundamento documental — leitura complementar. CONFERÊNCIA QUE NÃO FECHOU — o teto do tratamento conservador. O quadro de considerações finais do trauma renal afirma que o tratamento conservador é viável em 98% dos casos, sem qualificar a população. O mesmo capítulo afirma que 5 a 20% das lesões renais são penetrantes e que as penetrantes quase sempre exigem tratamento cirúrgico. A conta: se 5% forem penetrantes e 80% delas operarem, o teto do conservador é 96%; se 20% forem penetrantes e 80% delas operarem, o teto cai para 84%; no melhor cenário possível, com 5% de penetrantes das quais 80% operam, ainda assim 98% não cabe. Para 98% ser verdade, a fração de penetrantes teria de ser 2% ou menos, e o mesmo capítulo diz que é 5 a 20%. O número de 98% provavelmente se refere apenas às lesões fechadas ou apenas às lesões significativas, mas o quadro-resumo — que é o que o estudante lê — o apresenta como geral.

Aprofundamento documental — leitura complementar. CONFERÊNCIA QUE NÃO FECHOU — percentuais que não somam 100. As rupturas vesicais são dadas como extraperitoneais 55%, intraperitoneais 38% e mistas 5 a 8%. Somando: 55 + 38 + 5 = 98%, e 55 + 38 + 8 = 101%. Nenhum dos extremos da faixa fecha em 100. Pela subtração, a fatia mista coerente seria 7%. A discrepância é pequena e não muda conduta, mas mostra que a faixa das mistas foi importada de outra série que não a das duas primeiras.

Aprofundamento documental — leitura complementar. CONFERÊNCIA QUE NÃO FECHOU — duas faixas diferentes para a mesma associação, no mesmo documento. Na introdução, o capítulo brasileiro afirma que as lesões de uretra estão associadas a lesões vesicais em 10 a 17% dos casos. Na seção de trauma uretral, o mesmo capítulo afirma que existe lesão associada de bexiga em 10 a 20% dos pacientes com lesão de uretra posterior e fratura de bacia. As populações não são idênticas — a segunda é mais restrita —, mas o limite superior sobe de 17 para 20 sem explicação. Use a ordem de grandeza, que é a informação útil: uma em cada cinco a dez lesões uretrais tem bexiga junto, e por isso o exame da uretra não encerra a investigação.

Aprofundamento documental — leitura complementar. CONFERÊNCIA QUE NÃO FECHOU — troca de palavra que torna a frase impossível, e ela está justamente no quadro-resumo. O quadro de considerações finais do trauma vesical afirma, textualmente, que as lesões traumáticas de bexiga estão associadas a fratura de bexiga em até 95% dos casos. Bexiga não frature; o que se lê no corpo do capítulo é fratura de bacia, e o número de 80 a 95% é o da associação com fratura pélvica. O mesmo erro aparece uma segunda vez, no texto corrido, na frase sobre pacientes com fratura de bexiga e hematúria microscópica. São duas ocorrências da mesma troca, e uma delas está no lugar que o leitor apressado consulta.

Aprofundamento documental — leitura complementar. ERRO DE REFERÊNCIA, sem consequência clínica, registrado por completude. A leitura recomendada do capítulo cita Kommu, Illahi e Mumtaz, sobre padrões de lesão uretral, como Current Opinion in Urology, 2009, volume 17, páginas 383 a 389. O volume 17 daquele periódico é de 2007, não de 2009. Ou o ano ou o volume está errado; o artigo existe.

Aprofundamento documental — leitura complementar. DIVERGÊNCIA ENTRE DUAS FONTES EM USO, sem lado vencedor. Sobre quanto a lesão vesical depende da fratura de bacia: o capítulo brasileiro de 2010 registra que, entre os doentes com lesão vesical diagnosticada, 85 a 100% tinham fratura de bacia. O documento traduzido pelo Colégio Brasileiro de Radiologia registra que aproximadamente 25% das rupturas intraperitoneais de bexiga ocorrem em pacientes sem fratura pélvica. Os dois não podem estar simultaneamente certos no limite superior: se 100% das lesões vesicais tivessem fratura, nenhuma ruptura intraperitoneal ocorreria sem ela. A consequência prática é do lado seguro: ausência de fratura de bacia não exclui ruptura de bexiga, sobretudo a intraperitoneal — e a bexiga cheia é o fator de risco que dispensa o osso.

Aprofundamento documental — leitura complementar. CONFERÊNCIA QUE FECHOU — a fórmula pediátrica da cistografia. O capítulo brasileiro manda calcular o volume na criança como 60 mL mais 30 mL por ano de idade, até 400 mL. A fórmula é algebricamente idêntica à fórmula clássica de capacidade vesical, idade mais dois, multiplicado por 30, porque 30 x (idade + 2) = 30 x idade + 60. A verificação bate em todos os pontos testados: aos 5 anos, ambas dão 210 mL; aos 8 anos, 300 mL; aos 11 anos, 390 mL. E o teto de 400 mL passa a valer aos 11 anos e 4 meses, exatamente quando a fórmula alcançaria o volume do adulto — coerente, e não arbitrário.

Aprofundamento documental — leitura complementar. CONFERÊNCIA QUE FECHOU — duas fontes independentes com o mesmo denominador. O capítulo brasileiro afirma que 3 a 10% das vítimas de trauma terão lesão do trato geniturinário e que este responde por 10% dos traumas atendidos no serviço do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. O documento traduzido pelo Colégio Brasileiro de Radiologia, de origem e década diferentes, afirma que cerca de 10% de todos os pacientes de trauma manifestarão envolvimento geniturinário. Convergem.

Aprofundamento documental — leitura complementar. CONFERÊNCIA QUE FECHOU — a régua brasileira de 2010 e a diretriz internacional em uso concordam onde mais importa. Na indicação de imagem renal: a fonte brasileira manda investigar hematúria macroscópica isolada, ou hematúria microscópica com instabilidade hemodinâmica; a diretriz internacional, emendada em 2020, diz tomografia com contraste no traumatizado fechado estável com hematúria macroscópica ou com hematúria microscópica e pressão sistólica abaixo de 90 milímetros de mercúrio, acrescentando o mecanismo de desaceleração — que a fonte brasileira também traz no fluxograma. Na bexiga: as duas mandam reparar cirurgicamente a ruptura intraperitoneal e drenar por sonda a extraperitoneal não complicada. Quinze anos e um oceano de distância, mesma conduta. Isso é relevante justamente porque, na uretra, elas divergem — e essa divergência está no bloco de divergências.

Aprofundamento documental — leitura complementar. RESTRIÇÃO DE ELENCO, apurada com grep exato no corpo já normalizado da Rename 2024, sem espaço e sem hífen. Nenhum meio de contraste iodado consta: iohexol, iodixanol, ioversol, iopamidol, diatrizoato e ioxitalamato devolvem zero ocorrência, e as expressões contraste iodado e meio de contraste também. Os três exames que decidem este capítulo dependem todos dele. O contraste chega ao hospital pelo financiamento do procedimento de imagem, e não pela via do medicamento — mas o efeito prático para quem está de plantão é que a disponibilidade depende do serviço, não de uma garantia nacional. Também não constam cefazolina, cefalotina, tramadol e fentanila; a gentamicina consta apenas em apresentações oftálmicas. Constam dipirona, sulfato de morfina, ceftriaxona, sulfametoxazol com trimetoprima, a vacina dupla adulto e a imunoglobulina antitetânica.

08

A conduta, hora a hora

A conduta do trauma urogenital tem uma forma incomum: quase tudo o que se faz de urgente é não fazer alguma coisa, e quase tudo o que se faz de definitivo é de outra pessoa. O interno não repara uretra, não faz cistostomia, não explora rim e não opera fratura peniana. Isso não reduz o seu papel — ele apenas muda de natureza. O que decide o desfecho, aqui, é a sequência das primeiras duas horas — e a sequência é sua.

A linha do tempo abaixo é a de um hospital sem urologista, porque é o cenário mais comum e o mais difícil. Onde houver urologista na casa, os mesmos marcos acontecem com o telefonema antecipado e a decisão dividida.

  1. Minuto 0 — o que já rodou, e a única pergunta que este capítulo acrescenta

    A sequência primária já foi feita, e ela não é deste capítulo: via aérea, ventilação, circulação, déficit neurológico, exposição. O capítulo Atendimento inicial ao politraumatizado é dono dela e já entrega, na sua linha de prescrição da sondagem, o gatilho que interessa aqui — sonda vesical de demora para monitorar perfusão pela diurese, exceto diante de suspeita de lesão de uretra ou de lesão pélvica. Não reescreva isso e não antecipe nada. A pergunta que este capítulo acrescenta no minuto 0 é uma só, e cabe numa frase que você diz para si mesmo enquanto expõe o doente: onde a energia entrou, e o trato urinário estava no caminho? Flanco, dorso, baixo ventre com bexiga cheia, períneo, genitália, anel pélvico. Se a resposta for sim para qualquer um, o aparelho urinário entra na lista de coisas a examinar deliberadamente — porque ele não vai se anunciar.

    Prescrição
    • Manter e repetir a avaliação do trauma, controlando hemorragias ameaçadoras e perfusão em paralelo à investigação urinária. O fato de uma primeira sequência ter sido feita não garante estabilidade duradoura.
    • Registrar o mecanismo com a topografia do impacto, e não apenas o tipo de acidente — flanco, baixo ventre, períneo, genitália
  2. Minuto 2 — dez segundos de exposição antes de qualquer bandeja

    Antes de qualquer material de sondagem sair do armário, olhe quatro coisas com o doente exposto e com luz: o meato uretral, o períneo, a bolsa escrotal ou a vulva, e o abdome inferior à percussão. Você está procurando sangue no meato, ainda que uma gota seca; hematoma perineal ou escrotal, com atenção ao padrão em asa de borboleta; e globo vesical. No politraumatizado com trauma maior, some o toque retal, que já é indicado por outros motivos, procurando sangue e a posição da próstata. Este marco é compartilhado com dois vizinhos e vale dizer isso em voz alta para você não achar que está inventando: o capítulo Trauma de pelve e controle de hemorragia pélvica coloca exatamente este exame no seu minuto 2, e o capítulo Trauma abdominal penetrante arrola a suspeita de lesão uretral entre as poucas indicações em que o toque retal altera a conduta. A diferença deste capítulo é que ele estende a regra para fora da fratura de pelve: o mecanismo de queda a cavaleiro, o chute no períneo e a instrumentação prévia da uretra pedem o mesmo exame sem osso quebrado nenhum.

    Prescrição
    • Inspeção dirigida do meato uretral, do períneo e da bolsa escrotal ou vulva, com o doente exposto, ANTES de abrir material de sondagem
    • Percussão e palpação suprapúbicas procurando globo vesical
    • Suspender a sondagem vesical diante de qualquer sinal de lesão uretral, e comunicar em voz alta à equipe que a bandeja não será usada
    • Registrar no prontuário, com o horário, os achados do períneo — inclusive os negativos
  3. Minuto 10 — a urina, e como consegui-la quando a sonda está proibida

    A urina é o exame mais barato deste capítulo e o mais frequentemente perdido, porque o gesto que a colheria é justamente o que está interditado. Resolva assim, nesta ordem. Se o doente consegue urinar espontaneamente, colha a micção espontânea — inclusive num frasco à beira do leito, sem assepsia elaborada: o que interessa aqui é a cor e a fita, não a cultura. Se ele não consegue e tem globo, a urina virá depois da drenagem suprapúbica, e não antes. Se ele não consegue e não tem globo, a pergunta muda: bexiga vazia em traumatizado é oligúria até prova em contrário, e a conduta passa a ser hemodinâmica — o capítulo Sondagem vesical é dono dessa bifurcação entre retenção e oligúria e a explica melhor do que caberia aqui. E se não houver sinal uretral nenhum e a sonda estiver liberada, a primeira urina que sai pela sonda é o seu exame; olhe para ela antes de conectar o coletor. Uma advertência de leitura: fita reagente positiva não é hemácia, é o grupo heme — mioglobinúria de esmagamento e hemoglobinúria dão fita positiva com sedimento sem hemácias, e no traumatizado com esmagamento muscular essa distinção muda o diagnóstico inteiro.

    Prescrição
    • Colher urina de micção espontânea para inspeção visual, fita reagente e sedimento — sem sondar quando houver sinal de lesão uretral
    • Não usar a sondagem para obter amostra de urina em doente com sinal uretral, em nenhuma hipótese
    • Fita positiva com sedimento sem hemácias: investigar mioglobinúria ou hemoglobinúria, não trauma urinário
    • Na criança, integrar mecanismo, exame, perfusão e urina. Não usar 50 hemácias/campo como corte que exclui imagem diante de suspeita relevante; hipotensão pode ser tardia.
  4. Hora 1 — bexiga cheia com uretra interditada: separar as duas urgências

    Retenção com suspeita de lesão uretral exige drenagem por via segura e decisão urológica no plantão. Em trauma pélvico, uma punção suprapúbica também requer avaliar distensão, anatomia e lesões associadas, idealmente com orientação apropriada. Reconstrução definitiva de muitas lesões posteriores pode ser tardia, mas isso não torna toda lesão uretral indiferente às primeiras horas: tipo de lesão e condições podem permitir alinhamento precoce ou reparo selecionado. O interno não força sonda nem decide essas técnicas sozinho.

    Prescrição
    • Acionar o cirurgião de plantão para drenagem vesical suprapúbica quando houver globo com via uretral interditada
    • Analgesia enquanto se organiza a drenagem: dipirona 1 g por via endovenosa (500 mg/mL, 1 ampola de 2 mL); dor intensa, sulfato de morfina 0,05 a 0,1 mg/kg por via endovenosa titulada — 3,5 a 7 mg num adulto de 70 kg, o que corresponde a 0,35 a 0,70 mL da ampola de 10 mg/mL
    • Jejum, acesso venoso calibroso e reserva de sala, porque a drenagem pode virar exploração se houver lesão associada
    • Não tentar sondagem uretral 'com cuidado' enquanto se aguarda o cirurgião — a tentativa é o dano
  5. Hora 2 — o rim: quem vai para o tomógrafo, e como se pede o exame

    Com o doente estável, a decisão da imagem renal segue três portas e você já as conhece do bloco de apresentação: hematúria macroscópica isolada; hematúria microscópica com hipotensão; ou mecanismo de desaceleração, mesmo com urina limpa. A criança entra por uma quarta, o corte de 50 hemácias por campo. O que este marco acrescenta é como se pede, porque o pedido mal escrito devolve um exame que não responde. Peça pelo nome inteiro — tomografia de abdome e pelve com contraste endovenoso, com fase precoce e fase tardia excretora — e diga por escrito a hipótese, trauma renal, porque é a hipótese que faz o radiologista fazer a fase tardia. Se a suspeita incluir a bexiga, diga também que quer a bexiga estudada com enchimento retrógrado, senão você recebe uma tomografia normal de um órgão que não foi distendido. E se o contraste não estiver disponível naquele hospital, essa informação muda o plano inteiro: o doente estável com suspeita de lesão renal e sem contraste não fica em observação indefinida — ele é transferido, e o telefonema de regulação é feito agora e não de manhã.

    Prescrição
    • Tomografia de abdome e pelve com contraste endovenoso, com fase precoce e fase tardia excretora, com a hipótese de trauma renal escrita no pedido
    • Acrescentar enchimento vesical retrógrado ao pedido quando a bexiga também estiver sob suspeita
    • Conferir a disponibilidade de contraste no serviço antes de programar observação — nenhum meio de contraste iodado consta da Rename 2024, e a oferta depende do serviço de imagem
    • Sem contraste disponível e com suspeita de lesão renal significativa: acionar regulação para transferência ainda no plantão
  6. Hora 4 — o laudo chegou: as três decisões que ele dispara

    O laudo responde sobre vasos, parênquima e sistema coletor, e a decisão é integrada à fisiologia. Paciente estável ou estabilizado frequentemente permite manejo não operatório, inclusive em lesão de alto grau, desde que haja monitorização e capacidade de intervir. Sangramento arterial pode ser tratado por embolização em seleção apropriada; instabilidade persistente, hematoma expansivo/pulsátil em contexto operatório ou outras lesões que exigem laparotomia pedem controle imediato, sem arteriografia obrigatória antes. Extravasamento urinário isolado pode resolver com observação. Reimagem depende do grau, mecanismo e evolução, e drenagem/cateter são discutidos se houver vazamento persistente relevante, coleção sintomática/infectada ou obstrução. Não usar persistência em 36–48 horas nem porcentagem fixa de parênquima desvitalizado como gatilho universal de intervenção.

    Prescrição
    • Não indicar exploração renal pelo grau isolado — as indicações absolutas são instabilidade, hematoma pulsátil ou em expansão e sangramento persistente
    • Extravasamento arterial no estável ou estabilizado: discutir angioembolização conforme anatomia e recursos. Instabilidade persistente ou outra indicação de laparotomia exige controle imediato da hemorragia; não aguardar arteriografia como etapa obrigatória.
    • Extravasamento urinário isolado pode resolver com observação. Planejar reimagem conforme grau e evolução; cateter/drenagem são considerados para vazamento persistente relevante, coleção sintomática/infectada ou obstrução, não por qualquer persistência às 36–48 horas.
    • Registrar grau e achados da lesão com data. Eles ajudam a planejar vigilância, mas não fixam isoladamente o número de dias de internação.
  7. Dias seguintes — vigilância e imagem conforme gravidade e evolução

    O manejo conservador exige vigilância ativa: sinais vitais, perfusão, dor, diurese, hemoglobina e sinais de complicação, com intensidade proporcional ao risco. Complicações podem ocorrer já nas primeiras horas ou depois; não são produzidas automaticamente pela alta antes de um dia predeterminado. Lesões de alto grau e penetrantes merecem plano de reimagem, assim como febre, dor crescente ou queda inexplicada de hematócrito. No trauma fechado grau I–III com boa evolução, repetição rotineira pode ser dispensada. A alta depende da recuperação, das lesões associadas e do seguimento, sem sete dias obrigatórios para todo grau III.

    Prescrição
    • Leito monitorado com repouso, hematócrito e hemoglobina seriados e controle da diurese e do aspecto da urina
    • Antimicrobiano conforme infecção, contaminação de ferimento ou profilaxia do procedimento indicada. Trauma renal fechado conservador e urinoma estéril isolado não justificam automaticamente antibiótico.
    • Repetir TC nas lesões de alto grau/penetrantes e diante de febre, dor crescente ou queda inexplicada de hematócrito. Lesão fechada grau I–III com boa evolução pode dispensar repetição rotineira; não impor internação até o dia 7 para toda lesão grau III.
    • Não liberar deambulação livre antes que a hematúria macroscópica tenha clareado
  8. Alta — o que o doente leva escrito, e a janela do décimo ao décimo quarto dia

    Este é o único marco em que a orientação de alta é, ela própria, tratamento — e é o que mais se faz mal. O sangramento renal tardio ocorre em 13 a 25% dos traumas de grau IV ou V, tipicamente entre o décimo e o décimo quarto dia depois do trauma, quando o hematoma sofre lise e destampona áreas que estavam contidas. É a mesma janela em que se formam pseudoaneurismas. Ou seja: o paciente que teve alta bem no oitavo dia entra na semana de maior risco em casa, sozinho, achando que já passou. Ele precisa sair com isso escrito, em linguagem que ele use — urina vermelha nova, dor forte no flanco que volta, tontura ao levantar, desmaio — e com o endereço de para onde voltar, que é a emergência e não o ambulatório. Quando houve lesão uretral, some a conversa mais difícil e faça-a antes, não no corredor do dia da alta: estenose de uretra, disfunção erétil e incontinência urinária são as complicações mais comuns dessas lesões, e a própria fonte brasileira orienta que o doente seja avisado da alta probabilidade de ser submetido a múltiplas cirurgias.

    Prescrição
    • Orientar retorno imediato por hematúria nova/intensa, coágulos, dor crescente, febre, tontura ou síncope em qualquer momento. Sangramento tardio pode aparecer na segunda semana, mas não existe uma única janela de risco.
    • Retorno marcado com urologia quando houve lesão uretral, vesical ou renal de grau III ou maior, com a orientação explícita sobre a possibilidade de novas cirurgias
    • Profilaxia do tétano conferida e registrada nos ferimentos penetrantes e nos desenluvamentos — vacina dupla adulto e imunoglobulina antitetânica constam da Rename 2024, componente estratégico
    • Anotar no resumo de alta o grau da lesão, a conduta adotada e a data da última imagem — é o que o próximo plantonista vai ler quando ele voltar sangrando
09

Como saber se está funcionando

O trauma urogenital conduzido sem operação é vigilância pura, e vigilância sem parâmetro escrito vira visita de corredor. A lista abaixo fixa cada parâmetro com o seu intervalo, o desfecho previsto e a saída quando ele não aparece.

Uma observação que atravessa a lista inteira: quase nenhum destes parâmetros piora na primeira noite. Eles pioram no terceiro dia, no quinto e na segunda semana — e é por isso que o erro deste bloco não é olhar mal, é parar de olhar cedo.

Cor e aspecto da urina, comparados com a amostra anteriorA cada micção ou a cada troca de coletor nas primeiras 24 horas; depois, ao menos três vezes ao dia. Guarde um frasco da primeira amostra ao lado do leito para comparar

Esperado: Clareamento progressivo. A urina do trauma renal escurece pouco e clareia devagar, ao longo de dias, e a tendência é o que informa — não a cor de uma amostra isolada

Se não melhora: Urina que escurece de novo depois de ter clareado é sangramento renal tardio até prova em contrário, sobretudo entre o décimo e o décimo quarto dia. Não é 'ele andou demais'. Nova tomografia com contraste e conversa com o cirurgião. Coágulos que aparecem tardiamente levantam também tamponamento vesical, cuja conduta é do capítulo O alívio é a parte fácil

Hemoglobina e hematócrito seriadosA cada 6 horas nas primeiras 24 horas no trauma renal de grau III ou maior; depois, diariamente enquanto durar o repouso

Esperado: Estabilização após a queda inicial de diluição. Uma queda de um a dois pontos nas primeiras horas é redistribuição e reposição, não necessariamente sangramento novo

Se não melhora: Queda continuada, ou necessidade transfusional que se repete, muda a categoria do doente: ele deixou de ser estável, e a estabilidade era a única coisa que autorizava a conduta conservadora. Instabilidade hemodinâmica é indicação absoluta de exploração renal. Antes da faca, porém, pergunte pela arteriografia com embolização, que poupa o órgão

Dor no flanco e no abdome, na mesma escala e pelo mesmo examinador quando possívelA cada 4 horas nas primeiras 48 horas, e sempre que a analgesia for administrada fora do horário

Esperado: Redução lenta e monotônica. Dor que precisa de doses cada vez mais próximas é informação, mesmo com sinais vitais normais

Se não melhora: Dor que aumenta com defesa localizada no flanco sugere hematoma em expansão ou urinoma. Dor que migra para o abdome inteiro com distensão e parada de eliminações, em quem teve lesão vesical ou ureteral, sugere urina livre na cavidade — e essa é cirúrgica, não analgésica

Débito urinário e balanço hídricoHorário nas primeiras 24 horas em quem recebeu volume; depois, por turno

Esperado: Débito que aparece e se mantém após reposição adequada

Se não melhora: Oligúria persistente apesar de reposição adequada tem três explicações e vale percorrer as três: a reposição não foi adequada, o sangramento continua, ou há obstrução das vias. E há uma quarta, específica deste capítulo: débito baixo com abdome distendido e ureia e creatinina subindo pode ser urina na cavidade peritoneal sendo reabsorvida, e não injúria renal — nesse caso, mais volume piora

Ureia e creatinina séricasDiariamente enquanto houver suspeita de extravasamento urinário ou lesão vesical não esclarecida

Esperado: Estáveis, ou em queda após a reposição inicial

Se não melhora: Ascensão desproporcional ao quadro hemodinâmico, especialmente com líquido livre e distensão, é o achado que denuncia ruptura intraperitoneal de bexiga reabsorvida pelo peritônio. Antes de chamar de injúria renal aguda pós-traumática, peça a cistografia. Tratar isso como falência renal e otimizar volume é o erro clássico, e ele adia a cirurgia que resolve

Temperatura e sinais de infecção do sítio urinário profundoPor turno, do terceiro dia em diante — que é quando começa a valer

Esperado: Afebril. Febre nas primeiras 48 horas do trauma raramente é urinária

Se não melhora: Febre a partir do terceiro ao quinto dia com dor em flanco levanta urinoma infectado ou abscesso perirrenal; com dor abdominal difusa, levanta peritonite por urina. Nos dois casos a resposta é imagem, não antibiótico empírico prolongado. A investigação de febre no internado, quando a origem não for esta, é do capítulo de febre no paciente internado

Períneo, bolsa escrotal e pênis — reexame do que já foi examinadoDiariamente nas primeiras 72 horas em quem teve trauma perineal ou genital, e sempre antes da alta

Esperado: Hematoma que para de crescer e começa a mudar de cor nas bordas

Se não melhora: Hematoma que avança para a parede abdominal indica que a fáscia de Buck cedeu e o sangue caminha pelo compartimento de Colles — reavalie a extensão da lesão uretral. Bolsa escrotal que endurece e dói mais, com pele tensa e brilhante, exige ultrassom com Doppler e avaliação cirúrgica: pode ser rotura testicular que passou despercebida no exame inicial, quando o edema já impedia palpar. E dor perineal desproporcional com crepitação, febre e toxemia é gangrena de Fournier, que é emergência de desbridamento imediato e não espera exame

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Onde o erro machuca

Passar a sonda 'com cuidado, e se não passar eu paro' diante de sinal de lesão uretral

O dano: O cateter alcança a laceração e termina de rompê-la. Uma lesão parcial, que cicatrizaria sobre um cateter em uma a duas semanas, passa a ser secção total: cistostomia, reconstrução meses depois, estenose de uretra, e risco de disfunção erétil e incontinência para a vida inteira. Nenhum outro gesto deste capítulo produz sequela definitiva em tão pouco tempo, e ele nunca parece perigoso na hora, porque quem o comete está sendo gentil.

Como pegar a tempo: Trate a frase 'vou tentar devagar' como o próprio erro, e não como uma versão prudente dele. A tentativa É o dano — o documento traduzido pelo Colégio Brasileiro de Radiologia chama isso de procedimento condenável, e e o quadro-resumo da fonte brasileira de urologia adverte que a sondagem às cegas agrava o trauma uretral e transforma lesão parcial em completa. Diga em voz alta para a equipe que a bandeja não vai ser usada, e diga por quê, senão alguém a usa depois que você sai da sala. Se houver globo, a bexiga se drena por cima do púbis, não pela uretra.

Usar a fratura de bacia como porta de entrada da suspeita de lesão uretral

O dano: Perde-se a uretra anterior inteira. O paciente da queda a cavaleiro, do chute no períneo, do golpe de guidão ou da sondagem difícil não tem osso quebrado nenhum — e é justamente ele que chega andando, pela porta amarela, com pulseira de dor perineal, para uma equipe que só liga o alarme quando vê fratura no raio X. O resultado é sonda passada em uretra rota, ou alta com uretrorragia interpretada como escoriação.

Como pegar a tempo: Desacople o gatilho do osso. A pergunta que dispara o exame do períneo não é 'este doente tem fratura de pelve?' — é 'a energia entrou pelo períneo, pela genitália ou pelo baixo ventre?'. A régua internacional em uso vincula a indicação de uretrografia ao achado, sangue no meato, e não à fratura. E a fonte brasileira registra que a lesão de uretra anterior ocorre, na maioria das vezes, sem fratura pélvica.

Tomografar todo mundo que tem fita de urina positiva

O dano: Radiação e contraste sem retorno, sala de tomografia ocupada em hospital que tem uma só, custo, e — o dano menos óbvio e mais real — a normalização do exame como resposta reflexa, que atrasa os doentes que precisam dele. Apenas 0,2% dos adultos com hematúria microscópica isolada têm lesão renal significativa: dois em mil.

Como pegar a tempo: No adulto e na criança, integrar mecanismo, exame, perfusão e hematuria. Suspeita relevante pode exigir imagem mesmo sem sangue na urina; o corte pediátrico histórico de 50 hemácias/campo não serve para excluir lesão significativa.

Aceitar uma tomografia sem fase tardia, ou chamar a tomografia com fase tardia de cistografia

O dano: Dois erros simétricos, com o mesmo produto: um laudo normal de um órgão que não foi examinado, que fica no prontuário parecendo exclusão. Sem a fase tardia, 8,6% das lesões de via excretora passam despercebidas — uma em doze — e viram urinoma, abscesso perirrenal e reinternação. E a bexiga que se enche apenas por filtração renal num politraumatizado hipovolêmico nunca distende o suficiente para mostrar o furo: a distensão é o exame.

Como pegar a tempo: Peça pelo nome inteiro e escreva a hipótese no pedido — é a hipótese que faz o radiologista fazer a fase tardia. Quando a pergunta for bexiga, exija enchimento retrógrado, por cistografia convencional ou por cistotomografia com contraste instilado. E, na cistografia convencional, pergunte pela radiografia pós-drenagem: em até 13% das vezes a lesão só aparece nela, porque a bexiga cheia comprime e veda o próprio furo.

Indicar exploração cirúrgica do rim porque o grau é alto

O dano: Exploração desnecessária pode desfazer a contenção de um hematoma e aumentar a dificuldade de preservar o órgão. Isso não torna a nefrectomia inevitável nem significa que todo rim fragmentado conserve vasos intactos. Avaliar perfusão, sangramento, lesões associadas e resposta hemodinâmica; a anatomia das lacerações é variável.

Como pegar a tempo: As indicações absolutas de exploração renal são três, e nenhuma delas é um número de grau: instabilidade hemodinâmica, hematoma perirrenal pulsátil ou em expansão, e sangramento persistente. A diretriz internacional em uso escreve, no seu nível mais forte, que no doente hemodinamicamente estável com lesão renal se usem estratégias não invasivas. Antes de considerar a faca no doente que está sangrando mas responde, pergunte pela arteriografia com embolização — ela é a opção que poupa o órgão, e a fonte brasileira já a registrava em 2010.

Dar alta no oitavo dia sem avisar da segunda semana

O dano: O sangramento renal tardio ocorre em 13 a 25% dos traumas de grau IV ou V, tipicamente entre o décimo e o décimo quarto dia, quando o hematoma sofre lise e destampona áreas contidas — é a mesma janela em que se formam pseudoaneurismas. O doente que passou bem a primeira semana não está fora de risco: ele está entrando no período de maior risco, em casa, convencido de que já passou. Alguns voltam em choque, e alguns não voltam.

Como pegar a tempo: Escreva a orientação, não a fale. Em linguagem que o doente use: urina vermelha nova, dor forte no flanco que volta, tontura ao levantar, desmaio — e o endereço, que é a emergência e não o ambulatório. Diga a janela com número de dias, porque 'nas próximas semanas' não organiza ninguém. E anote no resumo de alta o grau da lesão e a data da última imagem: é o que o plantonista da segunda semana vai ler quando ele voltar sangrando, e sem isso ele recomeça do zero.

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O que dizer ao paciente e à família

Este capítulo tem uma dificuldade de comunicação que é sua e de mais nenhum: quase todas as suas conversas explicam por que você não vai fazer alguma coisa. Não vou passar a sonda. Não vou operar o rim partido. Não vou tirar o testículo agora. Explicar uma ação é fácil, porque a ação é visível; explicar uma abstenção exige nomear o dano que ela evita, e o dano evitado nunca aparece.

A segunda dificuldade é o pudor. Este é um capítulo de genitália, e o constrangimento — do doente e seu — encurta o exame e a conversa exatamente onde elas decidem. Nomeie as partes do corpo pelo nome, sem eufemismo e sem rodeio, e explique antes de tocar por que você precisa olhar.

O paciente está com a bexiga cheia, com dor, e você acabou de proibir a sonda

Eu sei que o senhor está apertado e que dói, e eu vou resolver isso ainda esta noite — só não pelo caminho que o senhor está esperando. Tem sangue saindo pelo canal da urina, e isso quer dizer que o canal machucou na queda. Se eu passar a sonda por dentro de um canal machucado, eu posso rasgar de vez o que ainda está pela metade, e aí a diferença é grande: uma coisa cicatriza sozinha em duas semanas, a outra vira cirurgia daqui a alguns meses. Então a gente vai esvaziar a bexiga por fora, por um furinho aqui embaixo do umbigo, que é seguro e alivia igual. Eu já chamei o cirurgião. Enquanto ele vem, vou te dar remédio forte para a dor.

Não diga: Não diga 'não posso passar a sonda' e vá embora — para quem está com globo vesical, isso soa como recusa de atendimento e é a deixa para ele pedir a outro plantonista, que talvez passe. Não improvise 'vou tentar bem devagar e, se não passar, eu paro': é exatamente essa frase que converte lesão parcial em completa. E não prometa hora para o cirurgião se você não tem a hora.

A técnica de enfermagem já montou a bandeja de sondagem e é ela quem vai ficar com o paciente a noite toda

Obrigado por ter montado, mas essa bandeja não vai ser usada e eu preciso que você saiba por quê, porque eu vou sair da sala e você fica. Ele tem sangue no meato e hematoma no períneo — isso é sinal de que a uretra rompeu na queda. Sonda em uretra rota completa o rompimento. Então: nenhuma sonda uretral neste leito, por ninguém, até segunda ordem escrita minha, mesmo que ele peça, mesmo que ele piore de dor. Se a dor piorar, me chame que eu aumento a analgesia. Já pedi o cirurgião para drenar por cima do púbis. Vou deixar isso escrito na prescrição também, com essas palavras.

Não diga: Não devolva a bandeja em silêncio nem diga só 'depois eu vejo'. A sondagem no Brasil é executada com frequência pela enfermagem, e uma proibição que existe só na sua cabeça não protege ninguém no meio da madrugada. Deixe por escrito. E não trate a montagem da bandeja como erro dela — ela fez o que a queixa pedia; quem tinha a informação que muda tudo era você, depois de examinar.

O telefonema para o cirurgião geral, às onze da noite, num hospital sem urologista

Doutor, é o interno da emergência. Homem de 34 anos, queda a cavaleiro sobre viga de andaime há três horas, estável, sem outro trauma e sem fratura de bacia no raio X. Sangue no meato, hematoma perineal em asa de borboleta, hematoma escrotal, e globo vesical com retenção de três horas. Suspendi a sondagem uretral. O que eu preciso do senhor é a drenagem suprapúbica, para resolver o globo sem tocar na uretra. A uretrografia retrógrada e o resto da decisão a gente organiza depois, com a urologia. Ele está com dipirona e uma dose de morfina, jejum e acesso.

Não diga: Não comece pelo diagnóstico ('acho que é lesão de uretra') — comece pelo achado e pelo pedido, porque é isso que faz alguém descer. Não peça 'uma avaliação': peça o gesto de que você precisa. E não omita o globo por achar que é detalhe; é o globo que torna o chamado urgente, e sem ele o pedido pode virar 'vejo de manhã'.

Explicar por que um rim partido não vai para a cirurgia

A tomografia mostrou que o rim rasgou, e eu entendo que isso assuste. Mas rim é um órgão que costuma rasgar num sentido que não corta os vasos principais — é por isso que, mesmo partido, ele continua recebendo sangue e continua funcionando. Operar aí é que seria o risco: quando a gente abre, solta o sangue que estava preso e comprimindo, o sangramento recomeça, e muitas vezes acaba em tirar o rim. Então o tratamento aqui é ficar internado, quieto, com exames de sangue e de urina repetidos, e uma tomografia de controle marcada. Se em algum momento ele começar a sangrar de verdade, a gente age — e a primeira opção nem é cirurgia, é uma técnica que entra por dentro do vaso e fecha o ponto que sangra.

Não diga: Não diga 'não tem nada a fazer' nem 'é só observar'. Observar é o tratamento, e precisa soar como tratamento, com conteúdo: exames, prazo, data da imagem de controle. Não use o número do grau com a família como se explicasse alguma coisa — grau quatro num rim não significa o que significa num queimado, e a palavra assusta sem informar.

A conversa sobre função sexual depois de fratura peniana ou de lesão de uretra anterior, com um homem jovem

Vou falar de uma coisa que o senhor provavelmente já está pensando e não perguntou. Sim, essa lesão pode afetar a ereção, e é por isso que a cirurgia é hoje e não amanhã — quanto mais cedo se repara, melhor fica. Na maior parte dos casos operados a tempo a função se mantém. O que eu não posso é prometer, porque isso depende do que a gente encontrar lá dentro. O que eu posso garantir é que isso vai ser acompanhado, que existe tratamento para cada uma das complicações possíveis, e que o senhor pode me perguntar qualquer coisa sobre isso agora ou depois, sem constrangimento nenhum.

Não diga: Não deixe essa conversa para o dia da alta e não a faça no corredor. Não diga 'depois a gente vê' — para um homem de trinta e poucos anos essa é a pergunta principal, mesmo quando ele fala do trabalho e da perna. E não invente número: 'quase todo mundo fica bem' é uma promessa disfarçada.

Você precisa transferir porque falta contraste, e a família ouve isso como abandono

O exame que a gente precisa para saber o tamanho da lesão do rim depende de um contraste que hoje não tem aqui. Sem esse exame, eu não consigo saber se dá para tratar sem operar, e essa é justamente a decisão que muda tudo. Então a gente já acionou a regulação para levar ele para um hospital que tem. Não é que aqui não queiram atender: é que o exame que decide não existe aqui esta noite, e ficar esperando seria pior do que ir. Ele vai monitorado, com acesso e com médico acompanhando.

Não diga: Não culpe o hospital nem o sistema na frente da família — isso não ajuda ninguém e transforma a conversa em outra coisa. Não diga 'estamos transferindo por falta de vaga' se o motivo é outro: quando a família descobre a diferença, você perde a confiança de que vai precisar em decisões piores. E não deixe o telefonema de regulação para o plantão da manhã.

A lesão genital não combina com a história, e você não é quem investiga isso

Eu vou cuidar da lesão agora, e vou pedir para uma colega da equipe conversar com vocês com mais calma, porque a gente tem um jeito de atender essas situações aqui que é feito para proteger a pessoa. Não é nada contra ninguém e não é acusação — é o procedimento normal do serviço. Enquanto isso, eu preciso que a roupa fique aqui com a gente, sem lavar, e que ninguém a leve embora.

Não diga: Não interrogue, não confronte, não pergunte 'tem certeza de que foi assim?' e não escreva no prontuário a sua conclusão sobre o mecanismo — escreva o que você viu, sem interpretar. Não separe a pessoa do acompanhante com brusquidão nem o acuse de nada: quem conduz essa conversa é o fluxo do capítulo de violência que corresponde à idade e à situação, e ele existe justamente para você não improvisar. E não descarte a roupa: no trauma comum ela é lixo, aqui ela é vestígio.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Ruptura completa de uretra posterior: cistostomia isolada com reconstrução tardia, ou realinhamento na fase aguda?

Apresenta a cistostomia suprapúbica isolada, sem manipular a área traumatizada, como a conduta clássica e mais simples, justificando-a com o argumento de que a manipulação imediata da bexiga e da próstata aumenta os riscos de impotência, citada em 56%, e de incontinência, em 21%, e dificulta a reconstrução posterior. No mesmo texto, porém, registra que o realinhamento fechado por cateterismo combinado anterógrado e retrógrado ganhou espaço e se tornou o tratamento padrão inicial em muitos serviços, com incontinência de 5%, disfunção erétil de 36% e estenose de uretra de 56% — contra a estenose que o próprio texto chama de inevitável quando se faz apenas cistostomia. O capítulo não escolhe entre as duas.

Capítulo de trauma geniturinário do Urologia Fundamental, Sociedade Brasileira de Urologia — Secção São Paulo, 2010

Coloca a colocação de tubo suprapúbico, percutâneo ou aberto, como o manejo inicial preferencial para a maioria dos casos de lesão uretral associada a fratura de pelve, no nível de recomendação. O realinhamento primário aparece um degrau abaixo, como opção, no doente hemodinamicamente estável — e a diretriz acrescenta um princípio clínico contra tentativas endoscópicas prolongadas de realinhamento. Ou seja, inverte a ênfase da leitura mais recente da fonte brasileira: prefere drenar e reconstruir depois, e admite o realinhamento sem o recomendar.

Diretriz de urotrauma da American Urological Association, publicada em 2014 e emendada em 2020

Como decidir

Para o interno, a divergência não se resolve — e felizmente ela não precisa ser resolvida por você, porque nenhuma das duas condutas é sua. Quem decide pelo doente à sua frente é a área de sobreposição entre as duas posições, e ela é ampla: as duas mandam drenar a bexiga sem passar pela uretra, e nenhuma das duas admite tentativa de sondagem uretral às cegas por quem não é urologista. Faça a parte comum — suspenda a sonda, drene por cima do púbis, chame quem decide — e não tome partido numa escolha que será feita por outra pessoa, com o exame na mão e conhecendo o serviço onde a reconstrução vai acontecer. Se você for perguntado, o que muda a resposta na prática brasileira é logística: realinhamento fechado exige cistoscopia flexível e urologista disponível na fase aguda, e num hospital sem isso a cistostomia não é a segunda melhor opção — é a única, e é adequada.

Ruptura extraperitoneal de bexiga: sonda para todos, ou operar os casos complexos?

Sustenta o tratamento conservador amplo: sondagem vesical de demora por dez dias com antibiótico, com cerca de 85% das lesões cicatrizadas na retirada da sonda, e afirma textualmente que, na experiência dos autores, o tratamento conservador da ruptura extraperitoneal tem grande índice de sucesso mesmo para casos complexos — reservando a cirurgia a situações especiais como fragmento ósseo intravesical, fratura pélvica exposta, perfuração de reto, ou quando o doente vai a outro procedimento estando estável.

Capítulo de trauma geniturinário do Urologia Fundamental, Sociedade Brasileira de Urologia — Secção São Paulo, 2010, na voz explícita dos autores sobre a própria casuística

A corrente citada pelo próprio capítulo questiona o conservadorismo amplo, aponta índice alto de complicações e restringe a candidatura ao tratamento conservador a ruptura extraperitoneal única e pequena, com urina estéril e diagnóstico precoce, mandando à cirurgia os doentes com múltiplas lesões, hematúria maciça, lesão próxima ao colo vesical, lesão única extensa ou grande quantidade de coágulos intravesicais. A diretriz internacional adota uma formulação intermediária e cuidadosa com a palavra: recomenda drenagem por cateter para as lesões extraperitoneais não complicadas — deixando por definição, e sem detalhar, que as complicadas seguem outro caminho.

Autores citados dentro do mesmo capítulo brasileiro como contraponto, sem nome individualizado no texto, e a régua internacional de 2014 emendada em 2020

Como decidir

Repare que a divergência é menor do que parece: ela está toda dentro da palavra complicada. As três posições concordam que a extraperitoneal simples se trata com sonda, e concordam na lista do que a torna complicada — colo vesical, fragmento ósseo, coágulos volumosos, lesão extensa, fratura exposta, reto perfurado. Para decidir pelo doente à frente, não pergunte qual escola seguir; percorra a lista de complicadores, um a um, e escreva no prontuário quais estão presentes e quais foram procurados e não estão. Se nenhum estiver, você está no território em que todos concordam. Se algum estiver, o caso deixa de ser conservador por consenso e vira decisão do cirurgião — e o que muda o desfecho é você ter procurado o complicador, não ter escolhido a escola. Guarde uma diferença de prazo que não é divergência e sim regra dos dois lados: a sonda não sai por tempo cumprido, sai por cistografia de controle sem extravasamento; persistindo, mantém-se e repete-se em três semanas.

Trauma renal de grau alto com parênquima desvitalizado: vigiar, embolizar ou operar?

Defende a conduta conservadora como regra, inclusive em graus IV e V selecionados, mas abre uma exceção anatômica com número: quando há desvitalização de mais de 20% do parênquima associada a laceração ou a extravasamento urinário, o índice de complicações do tratamento conservador aumenta e a cirurgia pode ser adotada. E vai além no caso vascular: afirma que lesões de artéria segmentar associadas a laceração do parênquima, que costumam desvitalizar mais de 20%, têm resolução mais rápida e melhor desfecho quando tratadas cirurgicamente e com nefrectomia.

Capítulo de trauma geniturinário do Urologia Fundamental, Sociedade Brasileira de Urologia — Secção São Paulo, 2010

Não usa o critério de percentual de parênquima desvitalizado. Escreve, no nível mais forte da sua escala, que no doente hemodinamicamente estável com lesão renal se empreguem estratégias não invasivas — e condiciona a intervenção imediata à instabilidade: ausência de resposta ou resposta transitória à reanimação, ou, no doente instável, achados radiográficos de hematoma perirrenal grande, acima de 4 centímetros, e extravasamento vascular de contraste em laceração profunda ou complexa de graus 3 a 5. A porta de entrada, portanto, é hemodinâmica, e a anatomia entra depois dela, não antes.

Diretriz de urotrauma da American Urological Association, 2014, emendada em 2020

Como decidir

As duas réguas dão a mesma resposta no doente instável — intervir — e a mesma resposta no doente estável com lesão pequena — vigiar. Elas divergem exatamente num doente: o estável com rim muito desvitalizado. Para ele, o que decide não é escolher a régua, é medir a variável que as separa. Registre e reavalie a estabilidade com frequência e com números, não com impressão: pressão, frequência, hemoglobina seriada e necessidade transfusional cumulativa. O doente que precisa de transfusão que se repete não é estável, e nesse ponto as duas réguas voltam a concordar. E, antes de aceitar a nefrectomia como desfecho de uma desvitalização segmentar, pergunte pela arteriografia com embolização: ela é a opção que as duas fontes reconhecem, que não estava disponível quando a maior parte dessa literatura foi escrita e que muda a conta a favor de poupar o órgão. Se o seu hospital não tem hemodinâmica, essa indisponibilidade é um dado da decisão e deve entrar no prontuário e no telefonema de transferência.

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O raciocínio, em voz alta

Voltamos ao Adamastor Tacaimbo, 34 anos, pedreiro, 78 quilos, que caiu a cavaleiro sobre a viga do andaime há três horas. Estável: pressão 128 por 82, frequência 96, saturação 97 em ar ambiente. Sem outro trauma, sem perda de consciência. Ao exame, hematoma perineal em asa de borboleta, hematoma escrotal, globo vesical palpável e percutível, e sangue no meato uretral. A técnica de enfermagem já montou a bandeja de sondagem e espera sua resposta. O cirurgião de plantão, Dr. Aristóbulo Pequizeiro, está no centro cirúrgico com uma colecistectomia. Não há urologista na casa nem de sobreaviso. O hospital estadual de referência fica a 160 quilômetros.

  1. Primeiro: encerro a pergunta da bandeja, e encerro em voz alta

    Antes de qualquer outra coisa, digo à técnica que a bandeja não vai ser usada, e digo por quê — sangue no meato mais hematoma perineal é sinal de lesão de uretra, e sonda em uretra rota completa o rompimento. Não devolvo a bandeja em silêncio, porque eu vou sair da sala e ela fica. Escrevo na prescrição, com essas palavras: nenhuma sondagem uretral neste leito, por ninguém, até segunda ordem escrita. Essa frase é o item mais importante da minha prescrição desta noite.

  2. Segundo: reconheço qual capítulo é este, e qual não é

    Adamastor não tem fratura de bacia. O raio X de bacia não mostra traço, ele não caiu de altura, não foi atropelado e não bateu de carro. Isso importa por dois motivos. Primeiro, porque afasta o cenário do capítulo Trauma de pelve e controle de hemorragia pélvica — não há anel a estabilizar, não há cinta, não há hemorragia pélvica a conter. Segundo, e é o ponto que mais engana: a ausência de fratura não afasta a lesão de uretra. O mecanismo de queda a cavaleiro lesa a uretra anterior por compressão contra o púbis, e ocorre na maioria das vezes sem fratura nenhuma. Quem usa a fratura como gatilho perde exatamente este doente.

  3. Terceiro: leio o hematoma, porque ele diz mais do que parece

    O padrão em asa de borboleta não é um detalhe decorativo. Ele significa que o sangue saiu do envelope da fáscia de Buck e passou para o compartimento da fáscia de Colles, que se prende atrás no diafragma urogenital e nos lados nos ramos ísquio-púbicos — sem saída para trás nem para os lados, o sangue se espalha para a frente e para os dois lados, e desenha a borboleta. Anoto isso porque tem consequência: com Buck rota, o sangue tem caminho para o escroto, o períneo e a parede abdominal, e nos próximos dias o hematoma pode subir. Se eu não registrar hoje o quanto ele já ocupava, amanhã ninguém saberá se cresceu.

  4. Quarto: separo as duas urgências, e é isto que organiza a noite

    Tem duas coisas erradas e elas têm prazos diferentes. A bexiga cheia é urgente agora — dói, sobe pressão para cima e no limite rompe. A uretra rota não é urgente hoje; ela vai ser realinhada ou reconstruída nos próximos dias ou semanas, e nada que eu faça esta noite melhora esse prazo. Portanto o plano é: drenar a bexiga por fora e não tocar na uretra. A via é a cistostomia suprapúbica. Eu não a instalo — quem instala é o cirurgião — mas sou eu quem faz o pedido acontecer, e por isso telefono agora, e não quando ele descer do centro cirúrgico.

  5. Quinto: o telefonema, e o que eu peço nele

    Peço o gesto, não uma avaliação genérica. Homem de 34, queda a cavaleiro há três horas, estável, sem fratura de bacia, sangue no meato, hematoma perineal em asa de borboleta, globo com três horas de retenção, sondagem uretral suspensa — preciso de drenagem suprapúbica para resolver o globo sem tocar na uretra. Digo que o resto se organiza depois com a urologia. Começar pelo achado e pelo pedido, e não pelo diagnóstico, é o que faz alguém descer; e mencionar o globo é o que faz o chamado ser desta noite e não de amanhã.

  6. Sexto: o que eu prescrevo enquanto espero

    Analgesia: dipirona 1 grama por via endovenosa — a apresentação é 500 miligramas por mililitro, então 1 grama são 2 mililitros, uma ampola inteira. A dor é forte e o globo não responde bem a analgésico simples, então associo sulfato de morfina 0,05 a 0,1 miligrama por quilo, tituladas: em 78 quilos isso são 3,9 a 7,8 miligramas, e a ampola tem 10 miligramas por mililitro — diluo uma ampola em 9 mililitros de água e administro 4 a 8 mililitros. Jejum, acesso venoso, e nada por via uretral. Não prescrevo antibiótico: não há ferimento aberto, não há lesão vesical confirmada, e antibiótico profilático aqui é ruído.

  7. Sétimo: a urina, que eu ainda não tenho

    Não tenho amostra de urina, porque ele não urina e eu não vou sondar. Isso é aceitável e é preciso registrar por quê, senão amanhã alguém acha que eu esqueci. A urina virá depois da drenagem suprapúbica, e é dela que eu vou olhar cor e fita. Enquanto isso, a ausência de urina não é uma lacuna do meu raciocínio: o diagnóstico aqui é de exame físico, e o exame já está feito.

  8. Oitavo: o que fica marcado para depois, e o que eu escrevo

    Depois da drenagem, três coisas ficam pendentes e eu as deixo escritas para não se perderem no plantão seguinte: uretrografia retrógrada para definir se a lesão é parcial ou completa — a técnica está no capítulo de trauma de pelve e quem a executa é o urologista; contato com a regulação para avaliação urológica, porque a decisão entre realinhamento e reconstrução tardia não é daqui; e a conversa sobre expectativa, que eu começo hoje e não no dia da alta. No prontuário, descrevo o períneo pelo que vi, com hora — localização, extensão, cor — sem concluir mecanismo e sem classificar a lesão, e registro os achados negativos também: sem sangramento retal ao toque, sem instabilidade do anel à palpação, sem outro ferimento.

  9. O que eu não faço, e é o que mais se faz

    Não passo a sonda devagar para ver se passa. Não peço uma sonda de calibre menor. Não peço à enfermagem que tente porque ela tem mais prática. Não uso mais lubrificante. Não interpreto a gota única de sangue como escoriação do prepúcio e libero. Não peço ultrassonografia de rins e vias urinárias esperando que ela responda pela uretra — ela não responde. E não mando para casa com analgésico e retorno em 48 horas, que é o desfecho mais comum deste caso quando ninguém olhou o meato.

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Faça você

Outro plantão, outro hospital do mesmo porte, este com tomógrafo e com contraste na prateleira. Leandrina Bacaba, 47 anos, 64 quilos, auxiliar de cozinha, era passageira de um carro que rodou na pista molhada e bateu de lado contra uma mureta de concreto — o impacto foi do lado dela. Chegou de ambulância, consciente, orientada, queixando dor no flanco esquerdo. Pressão 118 por 76, frequência 92, frequência respiratória 18, saturação 98 em ar ambiente. Abdome doloroso à palpação no flanco esquerdo, sem defesa, sem sinais de irritação peritoneal. Ultrassom de trauma sem líquido livre. Raio X de tórax mostra fratura da décima e da décima primeira costelas à esquerda. Ela urinou espontaneamente no vaso da emergência e a técnica te chama porque a urina saiu cor de vinho.

  1. Passo 1 — Decida se ela vai ou não para a tomografia, e justifique com a régua, não com a impressão

    Ela está estável e tem hematúria macroscópica. Antes de pedir, responda a si mesmo por qual das portas ela entra, e o que aconteceria se a urina estivesse limpa. Depois responda: existe alguma outra coisa neste caso que, sozinha, já indicaria a imagem mesmo sem a urina vermelha?

  2. Passo 2 — Escreva o pedido do exame com as palavras exatas

    Não vale escrever 'tomografia de abdome'. Escreva o pedido inteiro, como você o entregaria ao radiologista, e diga qual informação do pedido é a que faz o exame ser feito direito. Depois diga o que você perde, em porcentagem, se essa informação faltar.

  3. Passo 3 — O laudo volta: laceração do parênquima renal esquerdo de 2,5 centímetros, atingindo a medula, sem comunicação com o sistema coletor, sem extravasamento urinário, hematoma perirrenal contido, sem borrão de contraste na fase arterial. Classifique e decida

    Qual é o grau pela escala em uso, e como você chegou nele? E, com este grau, qual é a conduta — e qual seria a conduta se o mesmo laudo trouxesse extravasamento de contraste na fase tardia?

  4. Passo 4 — Prescreva a vigilância, com frequências

    Escreva os parâmetros que você vai acompanhar e de quanto em quanto tempo, e diga qual deles muda a categoria dela de 'estável, conservador' para 'exploração cirúrgica'. Decida também: antibiótico, sim ou não? Justifique.

  5. Passo 5 — Quantos dias ela fica, e por quê?

    Defina a data de alta e o que precisa acontecer antes dela. Depois, a parte que mais se erra: diga exatamente o que ela leva escrito para casa, com as palavras que ela vai usar, e por que a semana seguinte à alta é mais perigosa do que a semana da internação.

  6. Passo 6 — A variação que muda tudo

    Suponha agora que a mesma Leandrina chegasse com a urina limpa, fita negativa, e que a história fosse de colisão frontal em rodovia, a 90 quilômetros por hora, com ela de cinto. Mesmos sinais vitais, mesma dor no flanco. Você pede a tomografia? Justifique com a régua e diga qual lesão você está procurando.

  7. Continuidade do caso e prática do internato

    Organize a passagem do plantão distinguindo estabilidade atual, lesão anatômica, vigilância e gatilhos de intervenção; não use o grau como calendário automático de alta.

  8. Questão integrativa 1

    Hematúria intensa permite interromper a abordagem do choque para sondar?

  9. Questão integrativa 2

    Sangue no meato e globo vesical autorizam insistir com uma sonda menor?

  10. Questão integrativa 3

    Urina limpa após desaceleração importante exclui lesão renal grave?

  11. Questão integrativa 4

    Uma TC com contraste venoso que chegou à bexiga exclui ruptura vesical?

  12. Questão integrativa 5

    Grau III renal fechado que evolui bem exige TC no dia 7 para alta?

  13. Questão integrativa 6

    Como transportar um segmento peniano amputado?

Ver como fecharíamos

Passo 1. A paciente está estável, com hematúria macroscópica, dor em flanco e fraturas costais inferiores: a combinação indica investigação renal. Mesmo sem hematúria, mecanismo e exame preocupantes podem justificar imagem. Reavaliar perfusão durante todo o percurso. Passo 2. Pedir TC de abdome/pelve contrastada, informando a suspeita renal e a necessidade de avaliar vasos, parênquima e via excretora. Ajustar fases com radiologia; a fase tardia ajuda a reconhecer lesão do sistema coletor. Não enviar paciente persistentemente instável ao tomógrafo para cumprir este roteiro. Passo 3. A laceração >1 cm sem lesão coletora descrita corresponde ao grau III. O tratamento conservador é apropriado no contexto estável, com capacidade de monitorização e intervenção. Extravasamento urinário levaria a outra classificação, mas não impõe operação nem duplo J automático: muitos vazamentos isolados resolvem, enquanto coleção sintomática, infecção, obstrução e persistência relevante exigem nova decisão. Passo 4. Vigiar sinais vitais, perfusão, dor, temperatura desde o início, hemoglobina conforme risco e débito/aspecto da urina em sistema apropriado. Evitar guardar urina aberta ao lado do leito. Sangramento progressivo exige nova decisão: embolização em selecionados estáveis/estabilizados; controle cirúrgico sem demora se a situação não permite espera. Antibiótico não é rotina do trauma fechado conservador nem de todo urinoma estéril. Passo 5. Grau III fechado com evolução favorável não exige sete dias de internação ou TC no sétimo dia por regra. A alta considera estabilidade, dor controlada, mobilização apropriada, lesões associadas e acesso ao retorno. Reimagem é indicada na deterioração e em lesões de alto grau ou penetrantes conforme o plano. Escrever o grau, exames, conduta, restrições e seguimento. Orientar retorno por nova hematúria, dor forte, febre, tontura ou síncope a qualquer tempo; eventos da segunda semana não tornam o restante do período livre de risco. Passo 6. Sim, desaceleração importante pode exigir TC mesmo com urina limpa. Lesões vasculares e da junção pieloureteral podem produzir pouca ou nenhuma hematúria. O mecanismo e a perfusão não podem ser substituídos pela aparência da urina. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. Controle de hemorragia e perfusão permanecem prioritários, enquanto a equipe identifica a fonte e uma via segura de drenagem. 2. Não. Suspenda tentativas cegas e peça avaliação uretral/urológica. A drenagem deve ser planejada por via segura, considerando lesões associadas. 3. Não. Lesão vascular ou da junção pieloureteral pode ter pouca hematúria. Mecanismo e exame podem indicar TC no estável. 4. Não. A suspeita exige cistografia com enchimento retrógrado apropriado, salvo decisão operatória por outras indicações. 5. Não de rotina. A necessidade de imagem e internação depende da evolução, das lesões associadas e do risco; piora clínica muda a decisão. 6. Gaze umedecida com soro, saco estéril fechado e resfriamento externo em recipiente com água e gelo, sem tecido diretamente imerso ou em contato com gelo. Acione imediatamente equipe capaz de avaliar reimplante.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A distensão é o exame. Uma tomografia com contraste endovenoso e fase tardia opacifica a bexiga por filtração renal, mas não a enche: o politraumatizado tem diurese reduzida por perda volêmica, a bexiga não distende, e bexiga que não distende não mostra o furo. Chamar isso de bexiga estudada é o erro, e ele produz um laudo normal de um órgão que não foi examinado. A correção é o enchimento retrógrado, por cistografia convencional ou por cistotomografia com contraste instilado por cateter. Na cistografia convencional, há um passo que se pula com frequência e que custa o diagnóstico: a radiografia pós-drenagem, feita depois de esvaziar o contraste. Em até 13% das vezes a lesão só aparece nessa imagem, porque a bexiga cheia comprime o próprio local da ruptura contra os tecidos vizinhos e o veda. O quadro clínico descrito reforça a suspeita e explica por que tratar como injúria renal aguda é perigoso. Urina na cavidade peritoneal é reabsorvida pelo peritônio, que devolve ureia e creatinina ao sangue — o resultado é um paciente que parece ter falência renal e tem, na verdade, uma bexiga rota que ninguém procurou. Otimizar volume nesse cenário piora o quadro e adia a cirurgia que resolve. A ressonância não tem papel no trauma agudo, pelo tempo de aquisição. E repetir a mesma tomografia sem enchimento apenas repete a mesma falha, com mais radiação e mais tempo perdido.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sete perguntas para responder de cabeça, sem consultar o texto. Quais são os quatro achados que suspendem a sondagem vesical no traumatizado, e qual deles é descrito como o mais importante? Quais são as três portas que indicam imagem renal no adulto, e qual delas funciona com a urina completamente limpa? Por que a hematúria microscópica isolada, no adulto estável, não indica tomografia — que número justifica isso? Qual é o corte de hemácias por campo que muda a decisão na criança, e por que a régua da criança é mais frouxa? Qual linha anatômica separa a ruptura vesical que vai para a mesa da que se trata com sonda, e qual das duas é mais frequente? Depois de uma cistografia com bexiga cheia, qual é a radiografia que quase ninguém faz, e quanto se perde sem ela? E, no trauma renal, quais são as três indicações absolutas de exploração cirúrgica — nenhuma delas é um número de grau?

Em 30 dias

Cinco exercícios, agora escrevendo. Primeiro: escreva, em cinco linhas, o que você diria à técnica de enfermagem que já montou a bandeja de sondagem num doente com sangue no meato — e escreva também a frase que vai para a prescrição, porque você vai sair da sala e ela fica. Segundo: escreva o pedido completo de uma tomografia para suspeita de trauma renal e o de uma investigação de bexiga, e explique por que o primeiro não responde pelo segundo. Terceiro: um homem de 34 anos caiu a cavaleiro sobre a barra da bicicleta, tem sangue no meato, hematoma perineal e globo vesical, e o raio X de bacia é normal — justifique, em três frases, por que a ausência de fratura não muda nada, e diga o que se faz com a bexiga cheia. Quarto: refaça a conta que não fecha no quadro-resumo do trauma renal da fonte brasileira — se 90% das lesões são menores, o que isso obriga sobre a fração de graus III a V, e por que 5% para os graus II a V é impossível? Quinto: liste, por escrito, o que fica de fora deste capítulo e para qual capítulo vai cada coisa — a fratura de bacia, a técnica da sondagem, a decisão de laparotomia, a hematúria não traumática, a torção testicular, a violência sexual, a descrição da lesão e a cadeia de custódia. Se você não souber nomear o capítulo de destino, é sinal de que ainda não leu a fronteira.

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Agora atenda

São onze e vinte da noite e um pedreiro de 34 anos chega apoiado em dois colegas de obra: escorregou do andaime e sentou de pernas abertas sobre a viga metálica. Anda, fala, e os sinais vitais são todos normais. A técnica de enfermagem já montou a bandeja de sondagem, porque ele está apertado para urinar há duas horas e não consegue, e te pergunta se pode passar a sonda. O raio X de bacia é normal. Você tem dez segundos de exame para tomar a decisão que separa duas semanas de cateter de uma uretra reconstruída meses depois — e o hospital não tem urologista.

Trauma urogenital – O aparelho que ninguém examina — Internato | OsceLabs