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Cirurgia GeralUrologia

Do testículo, ou do lado dele

Câncer de testículo e massas testiculares

Distinguir uma massa testicular de uma lesão adjacente, organizar diagnóstico e encaminhamento sem demora e cuidar também da fertilidade, da informação e do seguimento.

Fontes deste capítulo

Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica. Diretrizes de tratamentos oncológicos 2026 — Tumores geniturinários: Testículo. Coordenação do Comitê de Tumores Geniturinários da SBOC. Data de publicação impressa no documento: 17/05/2026. 32 páginas.

Instituto Nacional de Câncer (Brasil). Câncer de testículo — versão para profissionais de saúde e versão para a população. Portal do INCA, gov.br. Publicado em 05/06/2022; atualizado em 12/12/2025 (profissionais) e em 15/12/2025 (população).

TelessaúdeRS-UFRGS; Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul. Protocolos de Regulação Ambulatorial: Urologia Adulto. Versão Digital 2023. Elaborado em 9 de julho de 2015; última revisão em 23 de fevereiro de 2023. 35 páginas.

Brasil. Lei nº 12.732, de 22 de novembro de 2012, que dispõe sobre o primeiro tratamento de paciente com neoplasia maligna comprovada e estabelece prazo para seu início, com o § 3º do art. 2º incluído pela Lei nº 13.896, de 30 de outubro de 2019.

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — RENAME 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024.

01

Responda antes de ler

Por que a abordagem cirúrgica do tumor de testículo é feita por inguinotomia, com clampeamento precoce do cordão espermático, e nunca por via escrotal?

02

O paciente que você vai ver

São dez e vinte de uma terça-feira, numa unidade básica de bairro. Você é o interno da equipe e está na segunda consulta da agenda. Cleuber Brejinho, 24 anos, entregador de aplicativo, vem por retorno. Na tela do prontuário há duas consultas anteriores. A de cinco semanas atrás registra dor no testículo esquerdo, hipótese de epididimite, prescrição de antimicrobiano por dez dias e a frase que interessa a este capítulo: retorno em trinta dias se não melhorar. A de duas semanas atrás é um atestado de dois dias por lombalgia.

Ele senta e diz que a dor passou. Passou mesmo, na primeira semana, e não voltou. Você pergunta então por que ele veio, e ele demora para responder. Diz que o caroço continua. Que estava lá antes da dor, que a dor foi embora e o caroço não, e que ele acha que aumentou. Você pergunta desde quando existe o caroço e ele responde que percebeu no banho, mais ou menos em janeiro. Estamos em setembro.

Vale registrar como ele conta isso, porque a demora tem explicação e ela não é descuido. Ele percebeu, achou que passaria, ficou com medo do que poderia ser, teve vergonha de dizer, ficou com mais medo quanto mais o tempo passava, e só procurou atendimento quando doeu — porque dor é uma razão socialmente aceitável para ir ao médico, e caroço no testículo não é. Quando finalmente foi, doía; e o que foi examinado, e tratado, foi a dor. O caroço ninguém examinou.

Você pede que ele deite na maca, fecha a porta, acende a luz do consultório e expõe os dois lados. À inspeção, a bolsa esquerda está discretamente maior, sem vermelhidão e sem edema de pele. Você palpa primeiro o lado direito, para calibrar a mão: testículo liso, elástico, de superfície uniforme, com o epidídimo identificável como uma estrutura mole e separada, correndo pela face posterior. Depois o lado esquerdo. E aqui o caso se decide.

No testículo esquerdo há um nódulo de cerca de dois centímetros e meio, de consistência muito mais dura que o resto da glândula, indolor à pressão, que não se separa do parênquima: você não consegue passar o dedo entre ele e o testículo, porque ele é o testículo. O epidídimo esquerdo é palpável à parte, mole, indolor, normal. A transiluminação, com a lanterna do celular encostada por trás da bolsa numa sala escurecida, não atravessa: o nódulo é opaco. Não há adenomegalia inguinal. O abdome é flácido, mas na palpação profunda do andar superior você acha que sente uma resistência que não deveria estar ali.

Até aqui não entrou nenhum equipamento, nenhum exame e nenhum parecer: entraram luz, privacidade e quatro gestos de palpação nos dois lados, que somam dois minutos. E a soma deles já é um diagnóstico de trabalho: nódulo intratesticular endurecido, indolor, que não transilumina, num homem de 24 anos, é tumor de testículo até prova em contrário — e essa prova se procura hoje, não daqui a trinta dias.

A partir daqui este capítulo é sobre duas coisas, e nenhuma delas é quimioterapia. A primeira é a mão: o que separa massa do testículo de massa ao lado dele, que é a única distinção que o interno precisa fazer com segurança e é a que decide tudo o que vem depois. A segunda é a ordem: o que se pede, e em que sequência, para que nada de irrecuperável se perca. Porque o câncer de testículo é a doença sólida mais curável da medicina — cura-se com metástase, cura-se com doença volumosa, cura-se em quase todo mundo —, e por isso o dano quase inteiro que ele causa no Brasil não está na biologia do tumor. Está nas semanas.

Guarde também o que este caso ensina sobre a consulta anterior. Ninguém foi negligente na primeira: havia dor, havia um homem jovem sexualmente ativo, e epididimite é de longe o diagnóstico mais provável nessa combinação. O erro não foi tratar; foi marcar o retorno para trinta dias e não examinar a massa que ele já tinha. Cerca de um em cada dez tumores de testículo chega doendo, porque sangra ou infarta dentro da própria cápsula, e essa é justamente a apresentação que compra o antimicrobiano. O capítulo 'Escroto agudo', desta mesma apostila, é o dono da dor escrotal aguda e ensina a separar torção de epididimite; este capítulo é o dono da massa indolor, e a regra que os liga é uma só: massa que sobra depois que a dor passou não é resíduo de inflamação, é a doença que estava lá antes.

03

Quem adoece disso

A primeira coisa que se descobre ao procurar o tamanho deste problema no Brasil é que ele não foi medido. A Estimativa 2023 de incidência de câncer no Brasil, do Instituto Nacional de Câncer, que é o documento oficial de onde saem os números de casos novos por ano, por sexo, por região e por capital, não estima câncer de testículo: o termo não aparece uma única vez em todo o documento, enquanto próstata aparece 143 vezes e bexiga, 132. Não é omissão de leitura — é recorte de método. A publicação estima as localizações de maior magnitude e agrega o resto. O câncer de testículo cai nesse resto. Quer dizer: um médico brasileiro que queira saber quantos homens adoecem disso por ano no seu país não tem onde ler a resposta na fonte oficial de incidência.

O que existe é o outro lado da conta. O INCA registra, na sua página sobre a doença, a mortalidade extraída do Sistema de Informações sobre Mortalidade: 527 mortes por câncer de testículo no Brasil em 2024. Guarde esse número pelo que ele significa, e não pelo que ele mede. Quinhentas e vinte e sete mortes por ano, numa doença cujo tratamento cura a grande maioria dos pacientes inclusive quando já há metástase, não é a medida da agressividade do tumor. É, em boa parte, a medida do atraso.

Duas afirmações da fonte oficial montam a aritmética que sustenta o capítulo inteiro. A primeira: tumores de células germinativas representam cerca de 95% dos tumores malignos de testículo, e é deles que se fala aqui. A segunda: no estádio I, com doença restrita ao testículo e ao cordão espermático, o risco de metástase durante o acompanhamento é de cerca de 20% — de modo que aproximadamente 80% dos pacientes são curados apenas com a retirada do testículo. Oitenta por cento curados por uma cirurgia de porte médio, sem quimioterapia, sem radioterapia e sem perder um dia de vida produtiva depois da convalescença. O preço de chegar a esse estádio é chegar cedo.

Do outro lado da linha, a doença avançada continua curável, e é isso que faz este tumor diferente de todos os outros deste nível. A diretriz brasileira de 2026 organiza o tratamento da doença metastática em três categorias de risco e trata a maioria com três ou quatro ciclos de poliquimioterapia baseada em cisplatina, e a página do INCA para profissionais escreve a frase que resume o assunto: ao contrário da vasta maioria dos tumores sólidos, a taxa de cura de pacientes com tumor testicular e doença metastática de grande volume pode chegar a 90%, dependendo da classificação de risco. Isto é: mesmo o paciente que chega com massa retroperitoneal e metástase pulmonar ainda tem, na maioria das vezes, um desfecho de cura. O que ele perde ao chegar tarde não é tanto a vida — é a simplicidade do tratamento, e com ela a fertilidade, a função renal, a audição, os pulmões e os anos de risco de uma segunda neoplasia.

Essa é a inversão que o interno precisa fazer na cabeça antes de continuar. Nos cânceres em que este nível costuma pensar, chegar tarde é a diferença entre viver e morrer, e a urgência se justifica pela mortalidade. Aqui, chegar tarde é sobretudo a diferença entre uma cirurgia e um ano de quimioterapia com sequelas permanentes num homem de vinte e poucos anos que vai conviver com elas por cinquenta. A pressa continua sendo obrigatória; o que muda é o argumento com que ela se explica ao paciente e a si mesmo.

Quem adoece disso tem endereço etário estreito e incomum. O INCA registra que a neoplasia é mais comum em faixas etárias jovens, e chama atenção para a coincidência com a idade produtiva ao discutir exposição ocupacional. Isso torna o câncer de testículo uma anomalia dentro da oncologia: quase todo tumor sólido é doença da segunda metade da vida, e este concentra-se justamente onde o médico não pensa em câncer — no homem de 20 a 40 anos que aparece na unidade básica por uma dor lombar, um atestado ou uma queixa urinária, e que ninguém examina.

Os fatores de risco que a mesma fonte lista têm todos a mesma característica prática: são conhecidos, são poucos e não sustentam nenhum programa de rastreamento. São eles antecedente familiar da doença, história prévia de câncer no testículo contralateral, infertilidade, criptorquidia — a não descida de um ou dos dois testículos para a bolsa escrotal — e exposição ocupacional a agrotóxicos. A versão para profissionais acrescenta a lista ocupacional detalhada: N,N-dimetilformamida na indústria, agrotóxicos organoclorados na agricultura, com destaque para o DDT, e ácido perfluorooctanóico entre bombeiros, presente em espumas de combate a incêndio. Vale reparar em quem são essas pessoas: trabalhador de indústria química, trabalhador rural e bombeiro são exatamente as populações que menos frequentam consultório para conversar sobre o corpo.

A demora, no Brasil como em toda parte, se compõe de três parcelas, e vale separá-las porque só uma delas está sob o seu controle. A primeira é a do paciente, que percebe e não conta; ela é feita de vergonha e de medo, e não de descuido, e é a que este capítulo pede que ninguém repreenda. A segunda é a da primeira consulta, quando a massa é encontrada e chamada de outra coisa, ou nem é encontrada porque ninguém examinou; ela é feita de quinze dias de antimicrobiano e de um retorno marcado para trinta. A terceira é a da fila, entre o encaminhamento e a cirurgia. A primeira parcela você não desfaz — mas pode encurtar a segunda a zero, e é sobre isso que este capítulo trata do começo ao fim.

04

Por que acontece o que acontece

Cinco fatos de anatomia e de biologia explicam praticamente tudo o que este capítulo manda fazer: por que a massa é dura, por que ela não dói, por que ela não transilumina, por que o sangue responde antes da imagem e por que a cirurgia é feita pela virilha e não pelo escroto. Vale entendê-los uma vez, porque depois disso nenhuma das regras precisa ser decorada.

O testículo é uma glândula envolvida por uma cápsula fibrosa densa e praticamente inextensível, a túnica albugínea, e é dentro dela que o tumor cresce. Daí vêm as três características do achado ao exame. A consistência é dura porque o tecido tumoral é sólido e celular, e cresce comprimindo o parênquima contra uma cápsula que não cede. A superfície é contínua com o testículo porque o tumor é o testículo: não há plano de clivagem entre a massa e a glândula, e é exatamente isso que os dedos procuram. E a massa não transilumina porque tecido sólido não deixa passar luz — ao contrário de uma coleção líquida, que acende.

A ausência de dor tem a mesma origem. Dor escrotal aguda é, quase sempre, distensão rápida de estrutura inervada — isquemia na torção, edema inflamatório na epididimite. O tumor cresce ao longo de meses, devagar o bastante para a cápsula acomodar sem dor. A exceção é justamente o que engana: quando o tumor sangra ou infarta dentro de si mesmo, a distensão passa a ser rápida e o quadro chega com dor, aumento de volume e às vezes febre baixa — um retrato de orquiepididimite construído sobre um câncer. A versão para profissionais de saúde do INCA registra esse cenário e é categórica quanto à conduta: um curso de antibióticos nunca deve ser implementado em quadros clínicos suspeitos de tumor germinativo. Essa frase é a trava clínica mais importante deste capítulo, e ela existe porque o erro é comum o bastante para merecer uma norma escrita.

A biologia dos marcadores vem do que a célula germinativa consegue virar. A lesão de partida é a neoplasia germinativa intratubular, que o quadro de estadiamento brasileiro registra como a categoria in situ, e dela saem dois grandes caminhos: o seminoma, que reproduz a célula germinativa primitiva, e os não seminomatosos, que reproduzem tecidos embrionários e extraembrionários — carcinoma embrionário, coriocarcinoma, tumor do seio endodérmico e teratoma. O saco vitelino produz alfafetoproteína. O sinciciotrofoblasto produz gonadotrofina coriônica humana. A massa celular em alta renovação libera desidrogenase láctica. Por isso os três marcadores não são um painel genérico de câncer: cada um deles nomeia um tecido.

Dessa origem tecidual sai a consequência clínica que muda tratamento e que se perde se a coleta for feita fora de hora. Seminoma puro não produz alfafetoproteína. Se o exame anatomopatológico disser seminoma e a alfafetoproteína pré-operatória estiver elevada, a leitura vigente é que existe componente não seminomatoso não amostrado, e o paciente é tratado como não seminomatoso — outro esquema, outra decisão sobre linfadenectomia, outro seguimento. Essa reclassificação depende inteiramente de um tubo de sangue colhido antes da cirurgia. Colhido depois, o valor já começou a cair e não responde mais a pergunta.

A drenagem linfática do testículo é o quinto fato, e é o que explica a via cirúrgica e o desenho do estadiamento. O testículo se forma no retroperitônio, junto ao rim, e desce para a bolsa no fim da vida intrauterina levando consigo o seu pedículo vascular e linfático. Ele continua drenando para onde nasceu: os linfonodos para-aórticos e interaortocavais, no retroperitônio, e não os linfonodos inguinais, que drenam a pele do escroto. Três consequências práticas: a primeira estação de doença é uma massa abdominal que ninguém vê e que só a tomografia mostra; virilha livre à palpação não diz nada sobre estadiamento; e violar o escroto — com uma incisão, uma punção ou uma biópsia — abre um segundo território linfático que o tumor não tinha, o inguinal, alterando o mapa da doença e o campo de tratamento. É por isso que a orquiectomia é feita por inguinotomia, com isolamento e clampeamento precoce do cordão espermático antes de qualquer manipulação da glândula, e a peça sai contendo testículo, epidídimo e cordão até o nível do orifício inguinal interno. Não é preferência de escola: é a topografia mandando.

A ginecomastia, a dor lombar e os sintomas respiratórios que abrem alguns casos são o mesmo mecanismo visto de longe. A gonadotrofina coriônica tem semelhança estrutural com o hormônio luteinizante e estimula a célula de Leydig, que aumenta a produção de estrogênio: o resultado é aumento e sensibilidade dos mamilos num homem jovem, achado que o INCA lista entre os sinais a que se deve ficar atento. A dor lombar surda e persistente é a massa retroperitoneal comprimindo estruturas junto à coluna e aos vasos. A tosse ou a falta de ar é a metástase pulmonar, que é o sítio à distância mais comum e que o próprio estadiamento separa dos demais, tratando metástase pulmonar como categoria menos grave que a visceral não pulmonar. Um homem jovem com massa retroperitoneal ou com múltiplos nódulos pulmonares tem tumor germinativo até prova em contrário, e a prova se busca no escroto dele.

Falta o mecanismo do risco, e ele é o que decide o que fazer com a informação de criptorquidia. O testículo que não desceu amadurece num ambiente térmico e hormonal errado, e essa é uma das leituras do risco aumentado; a outra é que a falha de descida e a predisposição ao tumor podem ser duas expressões do mesmo defeito de desenvolvimento gonadal. As duas leituras convergem numa consequência prática que o interno precisa carregar: a orquidopexia corrige a posição, mas não desfaz inteiramente o risco, e o risco não é só do testículo operado — o contralateral, que desceu normalmente, também está acima da média. Antecedente de criptorquidia, mesmo corrigida na infância, é motivo para examinar os dois testículos em toda consulta de adulto jovem e para ensinar esse paciente, especificamente, a procurar ajuda diante de qualquer alteração — não porque exista programa de rastreamento para ele, mas porque a probabilidade a priori dele é outra.

05

Como se apresenta de verdade

A doença chega de seis maneiras, e só a primeira delas é a que os livros desenham. As outras cinco existem porque o tumor dói quando sangra, porque o escroto tem muitas coisas dentro além do testículo, porque a primeira estação de doença fica no abdome e porque um dos marcadores é um hormônio. Quem só reconhece a primeira perde as outras cinco.

Uma regra atravessa as seis e vale escrever antes de tudo: em homem entre a adolescência e os 45 anos, qualquer alteração do testículo que não se resolva por completo em poucos dias merece ultrassonografia da bolsa escrotal, e nenhuma delas merece retorno em trinta dias.

A apresentação-padrão: o nódulo que não dói

É como se apresenta a grande maioria dos casos, e o INCA o descreve em duas linhas que valem ser lidas com atenção: na grande maioria das vezes o tumor de testículo se apresenta como uma massa indolor na bolsa testicular, e o achado mais comum é um nódulo duro, geralmente indolor, aproximadamente do tamanho de uma ervilha. Repare no tamanho. Ervilha é o começo — e é o momento em que o paciente percebe, no banho, e em que a conduta é mais simples e mais barata.

O quadro típico tem uma forma de contar que se repete. O homem percebe sozinho, e não durante um exame médico. Percebe no banho, ao se secar ou durante relação sexual. Não dói, e é justamente isso que faz com que ele espere, porque a experiência corporal de todos nós é que o que precisa de médico dói. Ele volta a apalpar nos dias seguintes, conclui que está igual, e o assunto sai da cabeça até o mês seguinte, quando ele nota que está maior.

Ao exame, o achado é um nódulo endurecido dentro do testículo, indolor ou pouco doloroso à pressão, que não se separa do parênquima, com o epidídimo palpável à parte e normal. O testículo pode estar globalmente aumentado e mais pesado, e a pele do escroto é normal — sem vermelhidão, sem calor, sem edema. Pode haver aumento de volume por hidrocele reacional, que acompanha uma parcela dos tumores e que é uma armadilha: a coleção líquida transilumina e impede a palpação da glândula, e o achado 'hidrocele' encerra a consulta sem que ninguém tenha tocado o testículo. Hidrocele nova em adulto jovem, especialmente se não for possível palpar bem a glândula por trás dela, é indicação de ultrassonografia — não de tranquilização.

Uma pergunta ativa muda a conversa e quase ninguém a faz: há quanto tempo você percebeu isso? A resposta costuma vir em meses e costuma vir com desconforto. Receba-a sem comentário de reprovação. O paciente que ouve 'e você esperou todo esse tempo?' na primeira consulta é o que não volta na segunda, e ainda tem de carregar culpa por uma demora que é feita de medo e de vergonha, não de descuido.

A que dói e engana: o tumor vestido de epididimite

Uma minoria relevante chega doendo, e essa minoria é responsável por uma parte desproporcional dos atrasos. O mecanismo já foi descrito: hemorragia ou infarto dentro do tumor produz dor de instalação rápida, aumento de volume e, às vezes, febre baixa e leucocitose. O resultado é um paciente jovem, sexualmente ativo, com dor e aumento do testículo, que preenche todos os campos do diagnóstico de orquiepididimite — que é, de fato, o diagnóstico mais provável naquela combinação.

O que separa um do outro não é a probabilidade a priori, é o exame e o tempo. Na epididimite, a estrutura dolorosa e espessada é o epidídimo, palpável na face posterior, e o testículo em si é relativamente poupado e de consistência preservada; a elevação da bolsa costuma aliviar; há com frequência sintomas urinários ou corrimento; e o quadro melhora de maneira franca em três a cinco dias de antimicrobiano. No tumor com hemorragia, a estrutura dolorosa é o próprio testículo, a consistência dele está alterada e o quadro não desaparece — a dor cede e a massa fica.

Daí a regra de segurança que este capítulo pede que se leve para o plantão e para a unidade básica: toda epididimite tratada tem reavaliação com o testículo na mão, e não por telefone nem por relato. Se em duas semanas a dor cedeu mas há massa palpável, ou se em três dias não houve nenhuma melhora, o diagnóstico está errado até prova em contrário e a conduta é ultrassonografia agora. O capítulo 'Escroto agudo', desta apostila, já registra esse ponto no seguimento da epididimite: dor sem melhora em 72 horas obriga a repensar a hipótese, e tumor testicular está na lista. Este capítulo acrescenta o outro lado, que é o que fecha o vão: a melhora da dor não encerra o caso enquanto houver nódulo.

A frase do INCA já citada é a régua para o caso duvidoso, e ela é assimétrica de propósito: antibiótico nunca deve ser implementado em quadro clinicamente suspeito de tumor germinativo; pode ser considerado em paciente com dor que não apresente processo expansivo depois de propedêutica adequada — e a propedêutica adequada, no mesmo texto, inclui a ultrassonografia com Doppler. A ordem, portanto, não é tratar e ver: é ver e então tratar.

Massa do testículo e massa ao lado dele

Esta é a distinção que o interno precisa fazer com segurança, e é a única deste capítulo que depende exclusivamente da mão. O escroto contém o testículo, o epidídimo colado à sua face posterior, o cordão espermático subindo em direção ao canal inguinal, e o espaço virtual entre as camadas da túnica vaginal, que pode se encher de líquido. Massa em qualquer dessas estruturas produz 'caroço no saco' para o paciente, e o significado de cada uma é completamente diferente.

Dentro do testículo, a regra é rígida e não admite gradação: em adulto jovem, nódulo sólido dentro do testículo é tumor até prova em contrário. Não existe nódulo intratesticular sólido benigno frequente o bastante para justificar espera. Fora do testículo, quase tudo é benigno, e o problema deixa de ser oncológico.

A hidrocele é coleção de líquido entre as camadas da vaginal: aumento de volume mole, indolor, que envolve o testículo e o torna difícil de palpar, e que transilumina com facilidade. A varicocele é a dilatação do plexo venoso do cordão, palpável acima e ao redor do testículo, que aumenta em pé e com a manobra de Valsalva e reduz em decúbito, com a textura clássica descrita como saco de vermes; é muito mais comum à esquerda. O cisto de epidídimo e a espermatocele são nódulos arredondados, lisos, indolores e claramente separados do testículo, no polo superior ou na cauda do epidídimo, e também transiluminam. A hérnia inguinoescrotal se prolonga pelo canal inguinal, tem impulso à tosse e costuma reduzir.

Duas ressalvas impedem que essa lista vire falsa segurança. A primeira: varicocele de aparecimento recente, que não reduz em decúbito, ou do lado direito isolada, obriga a pensar em massa retroperitoneal comprimindo a veia gonadal ou a veia renal — o que, num homem jovem, aponta de volta para o testículo. A segunda: hidrocele reacional acompanha tumores e pode ser a única coisa que se palpa. Nas duas situações a conduta é a mesma, e é a ultrassonografia.

O protocolo brasileiro de regulação que trata do assunto se chama, por extenso, Patologias Escrotais Benignas — hidrocele, varicocele, cistos de cordão e epidídimo —, e é útil registrar o que isso significa: a régua nacional de encaminhamento existente para queixa escrotal é a das lesões benignas, e o tumor não tem protocolo próprio nela. Quem entra por aquela porta é o paciente cuja massa está ao lado do testículo. O paciente cuja massa está dentro dele entra por outra, descrita no bloco de conduta.

A doença que não chega pelo escroto

Uma parcela dos pacientes procura atendimento por causa da metástase, e não do tumor primário, e essa é a apresentação em que o diagnóstico costuma demorar mais — porque a queixa aponta para outro aparelho e ninguém desce até o escroto.

A dor lombar é a mais comum das três. Homem jovem com dor lombar surda, contínua, que não muda com o movimento e que não cede a analgésico simples, com exame de coluna pobre, tem no diferencial a massa retroperitoneal. A pista está no exame que quase ninguém faz nesse contexto: a palpação profunda do abdome, procurando massa, e o exame do escroto. A tomografia de abdome pedida por dor lombar é o que costuma dar o diagnóstico — tarde.

Os sintomas respiratórios são o segundo grupo. Tosse persistente, dispneia ou hemoptise num homem de vinte e poucos anos, não fumante, com radiografia de tórax mostrando nódulos, obriga a pensar em tumor germinativo antes de pensar em qualquer coisa mais rara. É uma das poucas situações em oncologia em que a metástase pulmonar precede o diagnóstico do primário com frequência apreciável, e é um erro caro tratar isso como pneumonia arrastada.

O terceiro grupo é o de achados que o INCA lista como sinais de doença mais avançada: adenomegalias cervicais e supraclaviculares, que representam a progressão da cadeia retroperitoneal para cima, tromboembolismo e massa retroperitoneal palpável. Um homem jovem com trombose venosa profunda sem fator de risco identificável merece, entre as investigações de neoplasia oculta, o exame do escroto — que custa dois minutos e não precisa de pedido.

A regra operacional que fecha esta seção é curta. Diante de massa retroperitoneal, de múltiplos nódulos pulmonares ou de adenomegalia supraclavicular em homem entre 15 e 45 anos, examine o escroto e peça os marcadores antes de programar qualquer biópsia da metástase. Marcador muito elevado nesse cenário pode dar o diagnóstico sem que se puncione nada, e mudar completamente o desenho da investigação.

Ginecomastia e as manifestações hormonais

O aumento e a sensibilidade dos mamilos aparecem na lista de sinais de alerta da própria página do INCA sobre a doença, junto com o nódulo e a dor abdominal baixa, e é uma apresentação que chega ao clínico e ao endocrinologista antes de chegar ao urologista. O mecanismo é a estimulação da célula de Leydig pela gonadotrofina coriônica produzida pelo tumor, com aumento da produção de estrogênio.

O que isso muda na prática: ginecomastia de aparecimento recente em homem entre a adolescência e os 40 anos, especialmente se dolorosa e unilateral ou assimétrica, tem exame testicular obrigatório na mesma consulta. É um exame gratuito, imediato e que ninguém faz porque a queixa é de mama. Se houver qualquer alteração testicular, os marcadores entram junto com a investigação hormonal.

Vale separar o que é e o que não é deste capítulo. A investigação geral da ginecomastia do adolescente e do adulto — puberal fisiológica, medicamentosa, hepática, tireoidiana, por hipogonadismo — não é aqui; o que este capítulo assume é apenas a obrigação do exame testicular dentro dessa investigação, e a lembrança de que a gonadotrofina coriônica é dosável e barata.

Ainda no campo hormonal, guarde uma pergunta para o seguimento e não para o diagnóstico: o homem que perdeu um testículo mantém, na grande maioria das vezes, produção hormonal normal com o testículo restante, e a diretriz brasileira de 2026 só pede dosagem de testosterona total, hormônio luteinizante e folículo-estimulante em caso de suspeita clínica de hipogonadismo. Não é exame de rotina, e prometer ou negar consequências hormonais antes de medir é conversa que não se sustenta.

Quem tem risco aumentado, e o que isso muda

Os fatores de risco listados pelo INCA são cinco: antecedente familiar da doença, história prévia de câncer no testículo contralateral, infertilidade, criptorquidia e exposição ocupacional a agrotóxicos. Nenhum deles autoriza rastreamento, e é importante dizer isso com clareza para não criar uma prática paralela sem evidência. Todos eles mudam duas outras coisas, que são o que este capítulo pede.

A primeira coisa que mudam é a probabilidade a priori na hora de interpretar um achado. Um nódulo duvidoso num homem com criptorquidia corrigida aos três anos, ou com irmão tratado de tumor de testículo, ou que investigou infertilidade e tem testículo atrófico, não é um nódulo duvidoso: é uma ultrassonografia hoje. A segunda coisa que mudam é a conversa. Esses pacientes precisam saber que têm risco acima da média, saber o que procurar e saber que a porta está aberta — o que não é rastreamento, é informação a quem tem motivo para tê-la.

A criptorquidia merece um parágrafo próprio porque é a mais frequente e a mais mal compreendida. Corrigir a posição do testículo na infância reduz o risco e, sobretudo, torna o testículo palpável e examinável, o que é benefício diagnóstico por si só. Mas a orquidopexia não devolve esse homem à população de risco médio, e o testículo contralateral, que desceu normalmente, também carrega risco acima do habitual. A declaração estrangeira de rastreamento que a própria página do INCA cita traz uma nota que raramente se lê: ela se aplica a homens assintomáticos e não avaliou a evidência sobre rastrear homens com história de criptorquidia. Quer dizer: a recomendação de não rastrear, que este capítulo respeita, sequer se pronuncia sobre esse grupo.

A criptorquidia da criança — quando operar, como conduzir o testículo não palpável, o que fazer com a retração fisiológica — é assunto de cirurgia pediátrica e não está escrito em nenhum capítulo deste nível. Este capítulo não manda o leitor para uma porta que ainda não abriu: assume aqui a parte que decide no adulto, que é reconhecer o antecedente, examinar os dois lados e explicar o risco; e declara que a conduta na infância será do capítulo de criptorquidia da apostila de Cirurgia Pediátrica quando ele existir.

Falta um fator que não é de risco e sim de dano, e ele é o mais acionável de todos: o antecedente de tumor no testículo contralateral. Esse paciente já foi tratado, já está em seguimento oncológico, e o segundo tumor é uma das razões pelas quais aquele seguimento existe. Se ele aparecer na sua unidade por qualquer motivo, examine o testículo remanescente e pergunte quando foi a última consulta do seguimento — a taxa de abandono de seguimento oncológico em homem jovem curado é alta, e a consulta que ele marcou foi com você.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação deste capítulo tem uma característica que a diferencia de quase todas as outras deste nível: o exame mais decisivo é gratuito, imediato e feito pelo interno, e os dois exames complementares que importam — uma ultrassonografia e três dosagens no sangue — são baratos, disponíveis em qualquer município e respondem em dias. Não há dificuldade técnica aqui. Há uma sequência, e trocar a ordem dela custa informação que não volta.

Mapa anatômico com testículo e epidídimo contíguos; à esquerda, massa dentro do parênquima e, à direita, massa junto à cabeça do epidídimo.
Apoiar a glândula e reconhecer seu contorno e a região epididimária ajuda a localizar uma massa, sem tracionar as estruturas. A ultrassonografia caracteriza sua relação anatômica. A localização isolada não define benignidade ou malignidade; nódulo intratesticular sólido exige avaliação urológica prioritária.

As seis seções abaixo seguem essa ordem — o exame, a transiluminação, a imagem, os marcadores, o estadiamento e a lista do que não se faz — e cada uma diz o que se perde se ela for pulada ou trocada de lugar.

O exame que o interno faz agora

Comece pelas condições, porque é nelas que o exame costuma falhar. Privacidade real, com porta fechada e acompanhante conforme a preferência do paciente e oferta de acompanhante profissional segundo o protocolo. Boa iluminação. Paciente em decúbito dorsal para a palpação e depois em pé, porque varicocele só aparece em ortostatismo. Exposição dos dois lados ao mesmo tempo: examinar por baixo do lençol para poupar o paciente é a forma mais comum de não fazer o exame. Mãos aquecidas e aviso do que vai acontecer, porque o reflexo cremastérico e a contração do dartos num paciente tenso e com frio dificultam muito a palpação.

Sete gestos, nesta ordem. Primeiro, inspecione: assimetria de volume, coloração da pele, edema, dilatações venosas visíveis. Segundo, palpe o lado sadio, para calibrar a mão na consistência normal daquele paciente — não existe consistência normal absoluta, existe a dele. Terceiro, faça a palpação bimanual do testículo suspeito: estabilize a glândula entre o polegar e os dedos de uma das mãos e percorra toda a superfície com a outra, do polo superior ao inferior, procurando irregularidade, endurecimento localizado e aumento global de peso.

Quarto gesto, e é o que dá o diagnóstico: identifique o epidídimo. Ele corre pela face posterior do testículo, é mais mole que a glândula, e em condições normais pode ser pinçado entre o polegar e o indicador e afastado do corpo do órgão. Se você consegue passar os dedos entre a massa e o testículo, a massa é paratesticular. Se não consegue — se a massa é contínua com o parênquima e move-se com ele como uma peça só —, ela é intratesticular, e isso já é motivo suficiente para tudo o que vem depois.

Quinto, palpe o cordão espermático desde o polo superior do testículo até o anel inguinal externo, com o paciente em pé e depois com manobra de Valsalva: é assim que se encontra a varicocele e é assim que se percebe uma hérnia se prolongando pelo canal. Sexto, faça a transiluminação, tratada na seção seguinte. Sétimo, e é o gesto mais esquecido de todos, saia do escroto: palpe o abdome procurando massa, palpe as fossas supraclaviculares procurando adenomegalia, e olhe as mamas procurando ginecomastia. O exame do escroto sem o exame do abdome e do pescoço é meio exame.

Registre no prontuário o que você achou com os adjetivos que decidem: em que lado, tamanho aproximado em centímetros, consistência, se é doloroso, se é separável do testículo, se transilumina, se há hidrocele, se o epidídimo está livre, se há adenomegalia e se o abdome tem massa. Essa descrição é a que vai justificar a prioridade no encaminhamento, e sem ela quem recebe o paciente só sabe que ele tem um caroço.

A transiluminação: o que ela responde e o que não responde

A transiluminação é um dos poucos exames de consultório que sobrevivem intactos à era da imagem, porque custa nada, leva quinze segundos e responde uma pergunta binária. Escureça a sala, encoste uma lanterna — a do celular serve — na face posterior da bolsa, do lado da lesão, e observe pela frente. Coleção líquida acende: a bolsa se ilumina com um brilho alaranjado e homogêneo. Tecido sólido não acende: fica um bloco opaco.

O que ela responde é 'líquido ou sólido', e responde bem. Hidrocele, cisto de epidídimo e espermatocele transiluminam; tumor, testículo normal, hérnia com conteúdo intestinal e hematoma não transiluminam. Num paciente com aumento de volume mole e indolor, uma transiluminação franca torna a hipótese de hidrocele muito provável e a de tumor, pouco.

O que ela não responde é o que mata. Primeiro: ela não vê o que está atrás do líquido. A hidrocele reacional que acompanha uma parcela dos tumores transilumina perfeitamente, e o tumor está lá dentro, escondido por ela. Segundo: ela não exclui doença em testículo palpavelmente anormal — se você palpou um nódulo duro e a bolsa transiluminou por causa de líquido ao redor, o achado que manda é o nódulo. Terceiro: ela não substitui a ultrassonografia em nenhuma circunstância, e não deve entrar no encaminhamento como se fosse resultado de exame.

A regra que resolve as três limitações de uma vez: transiluminação positiva só encerra o caso se, e somente se, você conseguiu palpar o testículo inteiro por trás da coleção e ele está normal. Se você não conseguiu palpar bem a glândula, a transiluminação não vale nada e a conduta é ultrassonografia. Essa é uma leitura deste capítulo, montada a partir do mecanismo e do fato registrado nas fontes de que a hidrocele acompanha tumores, e não a citação de uma norma.

A ultrassonografia: o exame que confirma

A ultrassonografia da bolsa escrotal com Doppler é o exame que transforma a suspeita clínica em indicação cirúrgica, e o INCA a coloca dentro da propedêutica inicial dos casos suspeitos. Ela é operador-dependente como toda ultrassonografia, mas a pergunta que ela responde aqui é grosseira e robusta: a lesão está dentro ou fora do testículo, e ela é sólida ou cística. O achado típico do tumor germinativo, na descrição da mesma fonte, é o de lesões nodulares hipoecóicas, geralmente com hiperfluxo ao Doppler.

Duas coisas precisam ser ditas ao pedir. A primeira é o que escrever no pedido: escreva a hipótese. Um pedido que diz apenas 'ultrassonografia de bolsa escrotal' recebe um laudo descritivo; um pedido que diz 'nódulo intratesticular endurecido indolor à esquerda em homem de 24 anos, suspeita de neoplasia testicular' recebe um laudo que responde a sua pergunta, e às vezes recebe encaixe na agenda. A segunda é o que não fazer: não segure o encaminhamento à espera do laudo se a fila do exame for longa. O achado de palpação já basta para encaminhar, e a ultrassonografia pode ser feita em paralelo ou no serviço de destino.

O laudo de ultrassonografia não é biópsia e não distingue seminoma de não seminomatoso — essa distinção sai do exame anatomopatológico da peça cirúrgica. E, sobretudo, laudo de ultrassonografia normal em paciente com nódulo intratesticular claramente palpável não encerra o caso: o achado clínico permanece e a conduta é discutir com a urologia, exatamente como no capítulo 'Escroto agudo' o fluxo preservado ao Doppler não cancela a exploração cirúrgica quando a história e o exame são típicos.

Um lembrete que vale por si: a ultrassonografia é o exame do escroto, não do estadiamento. Ela não vê o retroperitônio com utilidade e não substitui a tomografia. Pedir uma coisa esperando a outra é a maneira mais comum de perder um mês.

Os marcadores, e por que a ordem não se inverte

São três, e a diretriz brasileira de 2026 os lista entre os exames laboratoriais de estadiamento: desidrogenase láctica, alfafetoproteína e gonadotrofina coriônica humana. Cada um nomeia um tecido, como já se viu no mecanismo. Eles não são exames de rastreamento, não confirmam nem excluem tumor isoladamente e podem estar completamente normais numa doença presente — mas quando estão alterados, dizem muita coisa de uma vez.

A regra operacional é curta e é a razão de ser desta seção: os três marcadores são colhidos antes de qualquer tratamento, e tratamento aqui inclui a orquiectomia. A diretriz brasileira registra explicitamente que os valores séricos usados para classificar risco devem ser considerados após a orquiectomia, respeitando as meias-vidas — alfafetoproteína de 5 a 7 dias, gonadotrofina coriônica de 24 a 36 horas. As duas coisas não se contradizem: colhe-se antes e colhe-se de novo depois, e é a comparação entre os dois que carrega a informação.

Faça a conta e a necessidade da coleta pré-operatória fica evidente. Uma alfafetoproteína pré-operatória de 1.000 ng/mL, com meia-vida de 7 dias, ainda estará em torno de 500 ng/mL sete dias após a cirurgia; com meia-vida de 5 dias, em torno de 379 ng/mL. Levará de 33 a 47 dias para chegar abaixo de 10 ng/mL. Quer dizer: o primeiro marcador pós-operatório de um paciente que está indo bem é alto, e é alto porque tinha de ser. Sem o valor de partida não há como distinguir queda esperada de doença residual — e as duas leituras levam a condutas opostas: vigilância em um contexto e investigação/tratamento de doença persistente no outro, com categoria prognóstica definida pelo conjunto.

A gonadotrofina coriônica tem a conta simétrica e mais rápida: partindo de 5.000 mUI/mL, com meia-vida de 24 horas, restam cerca de 39 mUI/mL em sete dias, e com meia-vida de 36 horas, cerca de 197. Ela normaliza em torno de dez a quinze dias. É por isso que a dosagem pós-operatória tem hora marcada: colhida cedo demais, ela é alta em todo mundo e não informa nada; colhida no tempo certo, ela separa quem está curado de quem tem doença oculta.

Há ainda o efeito diagnóstico da coleta pré-operatória, que é irrecuperável de outro modo. Alfafetoproteína elevada antes da cirurgia num tumor cujo exame anatomopatológico venha a ser de seminoma puro reclassifica o caso como não seminomatoso e muda todo o tratamento. Se o sangue nunca foi colhido antes, essa informação não existe mais: não há como reconstruí-la, porque o órgão que a produzia já foi retirado. Um tubo de sangue custa alguns reais e uma agulha; o custo de não tê-lo colhido é um esquema de tratamento errado.

Duas armadilhas de interpretação, para não se assustar nem se tranquilizar por engano. Marcadores normais não excluem tumor — parte considerável dos tumores germinativos não os produz, e a conduta continua sendo a mesma diante de nódulo sólido intratesticular. E marcadores podem subir por outras causas: a desidrogenase láctica é inespecífica e sobe em hemólise, exercício e doença hepática; a alfafetoproteína sobe em hepatopatia; a gonadotrofina pode subir de forma discreta no hipogonadismo. A diretriz brasileira de 2026 acrescenta a ressalva prática de que valores elevados de desidrogenase láctica isoladamente não devem guiar o tratamento, assim como valores baixos de alfafetoproteína, abaixo de 20, ou elevações sem confirmação em coletas consecutivas. A regra de aplicação é confirmar tendência e causas alternativas: não tratar AFP <20 como corte universal de irrelevância nem classificar risco apenas por um marcador persistente.

O uso dos marcadores tumorais fora deste contexto — quando pedir, o que significa um valor isolado, por que não servem para rastrear — está no capítulo 'A massa que o ultrassom achou', da apostila de Ginecologia, que é o dono do trio no contexto de massa anexial e que o usa pela mesma razão biológica: tumor de células germinativas. Este capítulo não repete aquela doutrina; assume a aplicação testicular dela, que é a ordem de coleta e a leitura da cinética.

O estadiamento, e o que o interno precisa saber dele

O estadiamento não é feito pelo interno, mas ele precisa entendê-lo para escrever o encaminhamento, para conversar com o paciente e para não pedir o que não serve. A diretriz brasileira de 2026 lista os exames de imagem do estadiamento: tomografia de tórax; tomografia ou ressonância de abdome e pelve; ressonância de crânio apenas se houver suspeita clínica de metástase cerebral, entendida como sintoma neurológico, níveis muito elevados de gonadotrofina ou metástases viscerais extensas; e cintilografia óssea apenas se houver sintomas. Nos exames laboratoriais, além dos marcadores: hemograma, função renal, função hepática, eletrólitos com sódio, potássio e magnésio, e níveis hormonais só em caso de suspeita de hipogonadismo.

O sistema de estadiamento tem uma particularidade que vale conhecer, porque explica a lógica da cirurgia. Na classificação que a diretriz brasileira reproduz, o tumor primário praticamente não tem categorias clínicas: só existem o não avaliável, o sem evidência de tumor, o in situ e a invasão do escroto. Todas as demais categorias são patológicas, isto é, dependem do exame da peça retirada. Traduzindo: não existe estadiamento do primário sem orquiectomia. A cirurgia não é apenas o tratamento — é o exame que classifica a doença, e é por isso que ela vem antes de quase tudo.

A esse sistema soma-se uma letra que é rara em oncologia: a categoria S, que classifica o paciente pelo nível dos marcadores após a orquiectomia, em quatro faixas. É a única situação de rotina em que um exame de sangue entra diretamente no estádio do paciente, ao lado do tamanho do tumor e da localização das metástases. Foi conferido que as três faixas de cada marcador não se sobrepõem e não deixam buraco: os valores de corte pertencem à faixa intermediária, e nenhum resultado fica sem classe.

A doença avançada tem uma segunda classificação, de risco, com três categorias, e ela é o que decide quantos ciclos de quimioterapia o paciente vai receber. Duas coisas dessa classificação interessam a quem trabalha antes dela. A primeira é que o sítio primário conta: tumor germinativo que nasce no mediastino é automaticamente de alto risco, o que reforça a obrigação de examinar o escroto de todo homem jovem com massa torácica. A segunda é que, para o seminoma, não existe categoria de alto risco — o pior cenário possível de um seminoma é o risco intermediário.

Do lado prático, o que o interno escreve no encaminhamento é o que faz o estadiamento começar cedo: a hipótese por extenso, o achado de exame com os adjetivos, o resultado da ultrassonografia se já houver, os três marcadores com data, e a informação de que a coleta foi feita antes de qualquer tratamento. Esses cinco itens fazem o serviço de destino ganhar de uma a duas consultas.

O que não se faz, e por quê

Esta seção existe porque cada item dela já foi feito, tem uma lógica aparente e produz dano que não se desfaz. São seis.

Não puncione e não biopsie pelo escroto. Punção aspirativa por agulha fina, biópsia percutânea ou incisão escrotal para 'ver o que é' violam um território linfático que o tumor não tinha, o inguinal, mudam o mapa de disseminação e podem alterar o campo de tratamento. O diagnóstico histológico deste tumor se faz pela peça da orquiectomia radical por via inguinal, e não antes dela. Este é um dos poucos cânceres em que a regra é operar sem biópsia prévia, e a razão é anatômica.

Não prescreva antimicrobiano de prova em quadro suspeito de tumor. É a frase do INCA, e ela é assimétrica: o antibiótico é aceitável no paciente com dor que não tem processo expansivo depois de propedêutica adequada, e nunca no que tem. Prescrever primeiro e ver depois transforma quinze dias de tratamento em quarenta e cinco de espera, porque o retorno é marcado para trinta.

Não marque retorno em trinta dias diante de massa testicular. Se a suspeita é de tumor, o intervalo relevante é de dias, e o paciente sai da consulta com pedido de ultrassonografia, pedido de marcadores e encaminhamento escrito. Se a suspeita é de epididimite com massa, o retorno é em três a cinco dias, com o testículo na mão.

Não peça tomografia pela unidade básica para 'confirmar' antes de encaminhar. O estadiamento é responsabilidade do serviço que vai tratar, a tomografia raramente está disponível na atenção primária e a espera por ela é atraso puro. O que a unidade faz e o serviço de destino não pode fazer por você é o exame físico, os marcadores colhidos antes e o encaminhamento escrito.

Não peça o marcador só depois da cirurgia, e não deixe de anotar a data e a hora da coleta. Já foi feita a conta acima; o valor pós-operatório sem o pré-operatório é um número sem denominador.

E não conclua nada a partir de uma virilha normal. Os linfonodos inguinais drenam a pele do escroto, não o testículo; ausência de adenomegalia inguinal não diz absolutamente nada sobre estadiamento, e a estação que importa é retroperitoneal e invisível ao exame físico até ficar grande.

07

O que decide, e o que foi conferido

Uma massa sólida intratesticular exige investigação e avaliação urológica célere. A localização orienta o raciocínio; o diagnóstico, o estadiamento e o tratamento precisam ser integrados.

  1. 1Examine ambos os testículos e as estruturas adjacentes com explicação, consentimento e privacidade. Dor não exclui tumor; massa abdominal ou ginecomastia podem exigir exame genital dirigido.
  2. 2Solicite ultrassom escrotal bilateral com Doppler e AFP, beta-hCG e LDH antes da orquiectomia. Marcadores normais não excluem tumor, e sua coleta não deve atrasar encaminhamento.
  3. 3Não faça teste terapêutico com antibiótico para uma massa sólida sem evidência de infecção. Infecção verdadeira pode coexistir e deve ser tratada, mantendo investigação.
  4. 4Ofereça discussão de preservação de sêmen antes do tratamento quando possível. Avalie acesso com a equipe, sem prometer fertilidade nem criar atraso oncológico evitável.
  5. 5A abordagem padrão da massa suspeita é inguinal; não realizar biópsia transescrotal na porta de entrada. Preservação de testículo é decisão especializada em situações selecionadas.
  6. 6Após a cirurgia, integrar anatomopatológico, marcadores seriados e imagem. Interpretar queda pelas meias-vidas; valor isolado discretamente alterado não basta para declarar doença persistente.
  7. 7No estádio I, discutir vigilância e alternativas considerando histologia, risco, preferência e capacidade de seguimento. Adesão é essencial, mas não é o único critério.
  8. 8Na transição para seguimento, registrar tratamento recebido, calendário oncológico individual e cuidados com fertilidade, função hormonal e efeitos tardios. Garantir retorno de quem perdeu acompanhamento.

A pergunta que decide: massa do testículo ou massa ao lado dele

AchadoTumor testicularHidroceleVaricoceleCisto de epidídimo ou espermatocele
Onde estáDentro do testículo, contínuo com o parênquimaEntre as camadas da vaginal, envolvendo o testículoNo cordão, acima e ao redor do testículoNo epidídimo, polo superior ou cauda
Separável do testículo pelos dedosNão — move-se com a glândula como peça únicaO líquido envolve; o testículo pode não ser palpávelSim, é estrutura do cordãoSim, claramente separado
ConsistênciaEndurecida, muito diferente do lado sadioMole, flutuanteDescrita como saco de vermesArredondada, lisa, elástica
DorAusente na maioria; presente quando sangra ou infartaAusenteAusente ou desconforto de pesoAusente
TransiluminaçãoNão atravessaAtravessa com facilidadeNão se aplicaAtravessa
Muda com a postura ou a ValsalvaNãoNãoSim — aumenta em pé e à Valsalva, reduz deitadoNão
Conduta na mesma consultaMarcadores antes de tudo, ultrassonografia e encaminhamento com preferência oncológicaUltrassonografia se a glândula não for palpável ou se for de aparecimento recente no adulto jovemUltrassonografia; se recente, à direita isolada ou sem reduzir deitado, investigar retroperitônioUltrassonografia; encaminhamento eletivo se sintomático

Os três marcadores: o que cada um nomeia e o que a coleta pré-operatória decide

MarcadorTecido que o produzMeia-vida (diretriz brasileira de 2026)O que se perde se for colhido só depois da cirurgia
AlfafetoproteínaSaco vitelino — nunca seminoma puro5 a 7 diasA reclassificação: elevada antes da cirurgia num tumor que a patologia chamar de seminoma puro, ela faz o caso ser tratado como não seminomatoso
Gonadotrofina coriônica humanaSinciciotrofoblasto — pode ocorrer em seminoma e em não seminomatoso24 a 36 horasO ponto de partida da curva de queda, e a explicação de ginecomastia quando ela é a queixa de entrada
Desidrogenase lácticaMassa celular em alta renovação — inespecíficaNão fixada pelo documentoA referência do volume de doença; elevação isolada não guia tratamento, mas a variação em relação ao valor inicial informa

A queda esperada — a conta que separa decaimento normal de doença residual

Valor colhido antes da cirurgiaMeia-vida usadaValor esperado 7 dias depoisTempo até ficar abaixo do corte de normalidade
Alfafetoproteína 1.000 ng/mL5 diascerca de 379 ng/mLcerca de 33 dias para ficar abaixo de 10 ng/mL
Alfafetoproteína 1.000 ng/mL7 diascerca de 500 ng/mLcerca de 47 dias para ficar abaixo de 10 ng/mL
Alfafetoproteína 10.000 ng/mL7 diascerca de 5.000 ng/mLcerca de 70 dias para ficar abaixo de 10 ng/mL
Gonadotrofina coriônica 5.000 mUI/mL24 horascerca de 39 mUI/mLcerca de 10 dias para ficar abaixo de 5 mUI/mL
Gonadotrofina coriônica 5.000 mUI/mL36 horascerca de 197 mUI/mLcerca de 15 dias para ficar abaixo de 5 mUI/mL
Gonadotrofina coriônica 50.000 mUI/mL36 horascerca de 1.970 mUI/mLcerca de 20 dias para ficar abaixo de 5 mUI/mL

O que a régua brasileira responde, o que ela não responde e onde está escrito

PerguntaO que a régua brasileira respondeDocumento e data
Existe rastreamento populacional de câncer de testículo no Brasil?Não, e a posição é explícita: não há evidência de que o rastreamento traga mais benefícios do que riscos, e por isso ele não é recomendadoINCA, página sobre a doença, atualizada em 12 e em 15 de dezembro de 2025
O autoexame testicular deve ser estimulado?Sim, mas classificado como diagnóstico precoce e não como rastreamento, e sem protocolo determinado de frequênciaINCA, versão para a população, 15 de dezembro de 2025
Qual é a incidência estimada no Brasil?Não há estimativa oficial: a publicação de estimativa de incidência não inclui esta localização. O único número oficial é o de mortalidade — 527 mortes em 2024INCA, Estimativa 2023; INCA, página sobre a doença, com dado do Sistema de Informações sobre Mortalidade
Existe protocolo brasileiro de encaminhamento para massa testicular suspeita?Não como protocolo próprio. O paciente é coberto pela regra geral de preferência para lesão sólida do trato geniturinário, com direcionamento a oncologia cirúrgica de urologiaTelessaúdeRS-UFRGS e SES-RS, Urologia Adulto, versão digital 2023
Existe régua brasileira de preservação da fertilidade neste tumor?Uma linha de diretriz de sociedade: discutir criopreservação de sêmen antes da orquiectomia e dos tratamentos locais e sistêmicos. Não há norma federal de oferta, custeio ou prazoSBOC, Diretrizes de tratamentos oncológicos 2026, capítulo de testículo, 17 de maio de 2026
O SUS fornece a quimioterapia pelo elenco de medicamentos?Não. Nenhum dos antineoplásicos do tratamento consta da lista nacional; eles chegam pelo procedimento oncológico autorizado ao serviço habilitadoRENAME 2024, consulta por busca exata sobre o texto normalizado
Há prazo legal para o tratamento?Sim: 60 dias a partir do laudo patológico para o primeiro tratamento, e 30 dias para os exames de elucidação quando a principal hipótese é neoplasia, mediante solicitação fundamentadaLei nº 12.732/2012, art. 2º, caput e § 3º, este incluído pela Lei nº 13.896/2019

Aprofundamento documental — leitura complementar. Contradição interna na diretriz brasileira de 2026, no eixo em que a massa residual é medida, e ela decide quem vai à cirurgia. Na seção de recomendação sobre massa residual pós-quimioterapia do tumor não seminomatoso, o corte de 1 cm é dado duas vezes no eixo transaxial LONGO: massa residual menor que 1 cm no eixo transaxial longo vai para seguimento, massa maior ou igual a 1 cm no eixo transaxial longo vai para linfadenectomia retroperitoneal. Na justificativa científica do mesmo tópico, poucas linhas abaixo, o mesmo corte de 1 cm é dado no eixo CURTO: a linfadenectomia é recomendada em todos os pacientes com massa residual maior que 1 cm no eixo curto da imagem de tomografia transversal. Não é detalhe de redação. Num linfonodo ovalado o eixo longo é sistematicamente maior que o curto, de modo que a régua do texto de recomendação leva mais pacientes à cirurgia do que a régua da sua própria justificativa. Uma das duas frases tem de estar errada, e o documento não indica qual delas.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Segunda contradição interna no mesmo documento e sobre o mesmo ato, agora de prazo. Na recomendação para o seminoma com massa residual maior que 3 cm e tomografia por emissão de pósitrons positiva, uma das opções preferenciais é seguimento com novo exame em 6 semanas. Na justificativa científica do mesmo tópico, a frase é que um segundo exame deve ser realizado 8 semanas após. Seis semanas e oito semanas para a mesma repetição do mesmo exame, no mesmo tópico, com duas páginas de distância. Como o primeiro exame já é feito 8 ou mais semanas após o fim da quimioterapia, a diferença entre as duas leituras é de duas semanas na decisão de operar ou não um paciente.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Terceira contradição no mesmo documento, agora entre a recomendação e a tabela de estadiamento que ela usa, com a conta explícita. No estádio patológico II após linfadenectomia primária, o documento recomenda para os estádios IIB ou IIC dois ciclos de poliquimioterapia, e na linha seguinte recomenda três ou quatro ciclos em caso de pN3. Mas a própria tabela de agrupamento do documento define o estádio IIC como N3. Quer dizer: o paciente pN3 é, por definição, IIC, e recebe duas recomendações diferentes nas duas linhas seguidas — dois ciclos pela primeira, três ou quatro pela segunda. O fluxograma da mesma página resolve o conflito de um terceiro jeito, separando por pN2 e pN3 e não mencionando IIB nem IIC. A leitura que reconcilia as três é que a primeira linha deveria dizer apenas estádio IIB, mas o documento não a escreve assim.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Faixa que não pertence a nenhuma classe, no mesmo documento. Na conduta da massa residual do tumor não seminomatoso após a linfadenectomia, o achado de teratoma, necrose ou tumor viável em menos de 10% com risco inicial baixo vai para seguimento, e o achado de tumor viável acima de 10% ou risco inicial intermediário ou alto vai para dois ciclos de quimioterapia. O valor exato de 10% não pertence a nenhuma das duas classes. É pequeno, mas é o tipo de vão que gera conduta divergente entre dois serviços diante do mesmo laudo.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Omissão de um critério na classificação prognóstica da doença avançada, ainda na diretriz brasileira de 2026. Na categoria de baixo risco do seminoma, o documento lista dois critérios: qualquer sítio primário e ausência de metástase visceral não pulmonar. A classificação internacional que ele cita como fonte, e cuja referência está na própria lista de referências do documento, tem um terceiro critério nessa categoria: alfafetoproteína normal. O critério não é decorativo — é ele que impede que um tumor rotulado como seminoma, mas produtor de alfafetoproteína, seja classificado e tratado como seminoma de baixo risco. A ausência dele na tabela brasileira é coerente com a lógica de que seminoma não produz alfafetoproteína, mas quem lê a tabela isolada não recebe a informação que faz essa lógica funcionar.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Esta conferência fechou, e ela merece registro por ser a única dose do capítulo com teto acumulado. A diretriz brasileira de 2026 prescreve bleomicina 30 unidades internacionais nos dias 1, 8 e 15 de cada ciclo de três semanas, com dose máxima cumulativa de 400 unidades declarada na mesma linha. Fazendo a conta: cada ciclo entrega 3 × 30 = 90 unidades; três ciclos entregam 270; quatro ciclos, que é o esquema máximo recomendado para risco intermediário e alto, entregam 12 × 30 = 360 unidades. Cabe dentro do teto, com folga de 40 unidades. Um quinto ciclo entregaria 450 e estouraria — e é justamente por isso que nenhum esquema do documento prevê cinco ciclos com bleomicina.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência que FECHOU, sobre as faixas de marcador que definem a categoria S. As três faixas de cada marcador foram testadas contra os dois defeitos clássicos, valor pertencendo a duas classes e faixa que não pertence a nenhuma. Alfafetoproteína: abaixo de 1.000, de 1.000 a 10.000, acima de 10.000. Gonadotrofina: abaixo de 5.000, de 5.000 a 50.000, acima de 50.000. Desidrogenase láctica: abaixo de 1,5 vez o limite superior, de 1,5 a 10 vezes, acima de 10 vezes. Em todas, os valores de corte pertencem à faixa intermediária e nenhum resultado fica sem classe. A tabela está correta.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência que FECHOU, e que parecia erro à primeira vista. No quadro de estadiamento, a coluna de tumor primário CLÍNICO tem apenas quatro categorias — não avaliável, sem evidência de tumor, in situ e invasão do escroto — enquanto a coluna patológica tem sete. Faltam os equivalentes clínicos das categorias intermediárias, o que se parece com tabela truncada. Não é: o estadiamento do primário deste tumor depende do exame da peça de orquiectomia, e por isso as categorias intermediárias existem apenas na coluna patológica. A tabela está certa, e o buraco aparente é uma informação clínica importante — não há como estadiar o primário sem operar.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Erro de numeração no protocolo estadual de encaminhamento, e ele atinge sete entradas seguidas. A lista de mudanças da versão digital de 2023 anuncia a inclusão de dois protocolos novos e passa a comentar as alterações protocolo por protocolo. A partir da disfunção sexual masculina, todos os números da lista de mudanças estão uma unidade acima dos números do sumário e do corpo do mesmo documento: a lista chama de Protocolo 5 a disfunção sexual masculina, que é o 4; de Protocolo 6 a litíase renal, que é o 5; de Protocolo 7 as massas e cistos renais, que é o 6; de Protocolo 8 a doença renal crônica, que é o 7; de Protocolo 9 a hematúria, que é o 8; de Protocolo 10 a infecção urinária recorrente, que é o 9; e de Protocolo 11 o condiloma acuminado, que é o 10. A causa é visível no próprio texto: um dos protocolos novos fundiu dois protocolos antigos num só, o que deslocou a numeração de todos os seguintes, e a lista de mudanças ficou com a numeração antiga. A consequência prática: quem procurar o que mudou seguindo o número da lista abre o protocolo errado — quem for ao Protocolo 8 procurando doença renal crônica encontra hematúria. Registre-se que o capítulo 'Vermelha, e não doeu', desta apostila, cita corretamente o Protocolo 8 como o de hematúria, que é a numeração do sumário e do corpo.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Discrepância entre o protocolo estadual de encaminhamento e a diretriz nacional do quadro agudo, sobre um adjetivo que este capítulo inteiro persegue. O único critério de urgência do protocolo escrotal do documento de 2023 é a suspeita de torção de testículo, descrita entre parênteses como dor testicular aguda, edema e nódulo de consistência macia. Macia. A diretriz nacional de escroto agudo e o capítulo 'Escroto agudo', desta apostila, descrevem o testículo torcido como endurecido, e é a consistência endurecida que compõe o escore clínico de torção. Para este capítulo o ponto é outro e é mais grave: o adjetivo endurecido não aparece em nenhum critério do único protocolo brasileiro de encaminhamento por queixa escrotal — o protocolo é de patologias benignas, e o achado que define o tumor não está nele.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Ausência medida, e ela muda o que se pode afirmar sobre este tumor no Brasil. A publicação oficial de estimativa de incidência de câncer no Brasil do INCA, que fornece casos novos por ano por sexo, região, estado e capital, não estima câncer de testículo: em 334.072 caracteres de texto, o termo não aparece nenhuma vez, enquanto próstata aparece 143 vezes e bexiga, 132. Não é falha de leitura, é recorte de método — a publicação estima as localizações de maior magnitude. A consequência é que nenhum número oficial brasileiro de incidência desta doença pode ser citado, e a única cifra nacional disponível é a de mortalidade.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Ausência medida, na referência que sustenta a posição brasileira sobre rastreamento. A página do INCA para profissionais de saúde afirma que não há evidência de que o rastreamento traga mais benefícios do que riscos e lista como referências, para essa seção, o Caderno de Atenção Primária número 29, sobre rastreamento, do Ministério da Saúde, de 2010, além de duas fontes estrangeiras. O Caderno 29 não menciona testículo nenhuma vez em todo o documento. Quer dizer: a posição brasileira de não rastrear este câncer não se apoia em documento brasileiro que a tenha examinado — apoia-se nas duas referências estrangeiras que a mesma página cita, uma delas de 2011.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Tensão de taxonomia dentro da mesma página oficial, e ela é a razão de a questão do autoexame estar no bloco de divergências. A página do INCA define rastreamento como o uso de exames periódicos em pessoas sem sinais ou sintomas, e diz que ele não é recomendado neste câncer. Na seção seguinte, afirma que o autoexame dos testículos é hábito importante para o diagnóstico precoce, que a autoavaliação deve ser estimulada e que não há protocolo determinado. Um autoexame feito com regularidade por um homem assintomático encaixa-se na definição de rastreamento do próprio documento; o que o mantém do lado do diagnóstico precoce é a ausência de periodicidade prescrita e o fato de o achado ser levado ao serviço pelo próprio paciente. A posição é defensável, mas ela depende de uma distinção fina que o documento não explicita.

Aprofundamento documental — leitura complementar. O que o SUS entrega, e por qual porta, e a verificação foi feita com busca exata sobre o texto do elenco nacional, já normalizado. Bleomicina, etoposídeo, cisplatina, carboplatina, ifosfamida e paclitaxel não constam da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 em nenhum componente de financiamento. Metotrexato e ciclofosfamida constam, mas nas apresentações e nos códigos anatômico-terapêuticos de imunossupressor — metotrexato 2,5 mg comprimido e 25 mg/mL injetável, ciclofosfamida 50 mg comprimido —, que não são as do uso antineoplásico. Dipirona, morfina e ondansetrona constam. A leitura correta desse conjunto não é que falte quimioterapia no SUS: é que o antineoplásico não é dispensado pelo elenco da assistência farmacêutica e sim custeado dentro do procedimento oncológico, no serviço habilitado. Consultar a lista para responder se o SUS trata este câncer devolve a resposta errada.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Encaixe entre a lei de prazos e este tumor específico, e é leitura deste capítulo, não afirmação da norma. A Lei nº 12.732/2012 conta os 60 dias do primeiro tratamento a partir do dia em que o diagnóstico é firmado em laudo patológico. No câncer de testículo, o laudo patológico vem da orquiectomia radical — que é, ela própria, o primeiro tratamento, e que cura sozinha cerca de 80% dos pacientes em estádio I. Isto é: o ato que produz o laudo e o ato que inicia o tratamento são o mesmo, e o prazo de 60 dias nasce cumprido, exatamente como o capítulo 'Vermelha, e não doeu' registrou para a ressecção transuretral no câncer de bexiga. Toda a demora que importa clinicamente acontece antes do laudo, entre o caroço no banho e a cirurgia, e é justamente o trecho que os 60 dias não cobrem. O único dispositivo que alcança esse trecho é o dos 30 dias para os exames de elucidação, e ele exige solicitação fundamentada do médico responsável para começar a correr.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo abaixo começa no minuto em que a mão encontra o nódulo e termina no consultório da atenção primária, anos depois, com um homem curado. Os três primeiros marcos são inteiramente do interno e cabem numa única consulta; os três seguintes acontecem no serviço especializado e estão aqui para que ele saiba do que está falando; o último volta para a unidade básica e é o que quase sempre se perde.

Uma advertência sobre o que este capítulo não prescreve. O tratamento sistêmico deste tumor é de quimioterapia baseada em cisplatina, e nenhum dos fármacos que o compõem é prescrito pelo interno nem dispensado pelo elenco nacional: bleomicina, etoposídeo, cisplatina, carboplatina, ifosfamida e paclitaxel não constam da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais em nenhum componente de financiamento. Isso não é falta — é desenho. Medicamento antineoplásico no SUS não vem pelo elenco da assistência farmacêutica: vem pelo procedimento oncológico, autorizado e pago ao serviço habilitado como unidade ou centro de assistência de alta complexidade em oncologia, que compra e administra o esquema. Consultar a lista nacional para saber se o SUS oferece quimioterapia dá a resposta errada pela porta errada; as doses que aparecem abaixo são as da diretriz brasileira de 2026 e estão aqui para leitura, não para prescrição.

  1. Minuto zero — a consulta em que a massa aparece

    O paciente não sai desta consulta sem os três pedidos e o encaminhamento escrito. Não há exame a fazer antes, não há tratamento de prova a tentar e não há retorno a marcar em trinta dias. Se a suspeita for de tumor, a única decisão desta consulta é acionar o caminho; se for de patologia escrotal benigna, a ultrassonografia resolve em poucos dias. O tempo desta consulta é curto: expor, palpar os dois lados, transiluminar, palpar abdome e supraclaviculares, escrever a descrição e imprimir três pedidos. Não prescreva antimicrobiano se houver massa. Se houver dor associada, analgesia simples entra sem prejuízo nenhum ao diagnóstico — o exame já foi feito.

    Prescrição
    • Ultrassonografia de bolsa escrotal com Doppler, com a hipótese escrita por extenso no pedido: nódulo intratesticular sólido, suspeita de neoplasia testicular
    • Alfafetoproteína, gonadotrofina coriônica humana fração beta e desidrogenase láctica — os três, na mesma requisição, marcados como coleta pré-tratamento
    • Encaminhamento à urologia com prioridade oncológica, escrito na mesma consulta (conteúdo no marco seguinte)
    • Analgesia, se houver dor: dipirona 500 a 1.000 mg por via oral até a cada 6 horas OU paracetamol 500 a 1.000 mg por via oral até a cada 6 horas — dipirona consta da RENAME 2024 nas apresentações de 500 mg comprimido e 500 mg/mL solução oral, do componente básico
    • Não prescrever antibiótico como teste diante de massa sólida sem sinais de infecção, nem adiar a investigação por 30 dias. Se houver infecção verdadeira concomitante, tratá-la sem abandonar a suspeita oncológica.
  2. Ainda na mesma consulta — os marcadores, antes de tudo

    Este marco existe separado do anterior porque é o que mais se perde. Os três marcadores precisam ser colhidos antes de qualquer tratamento, e tratamento inclui a cirurgia. O motivo já foi demonstrado com a conta: com meia-vida de 5 a 7 dias, uma alfafetoproteína pré-operatória de 1.000 ng/mL ainda está entre 379 e 500 ng/mL uma semana depois da orquiectomia, e leva de 33 a 47 dias para ficar abaixo de 10. Sem o valor de partida, ninguém sabe se aquele número alto é queda em curso ou doença residual — e as duas leituras mandam o paciente para tratamentos diferentes. Some-se a isso a reclassificação: alfafetoproteína elevada antes da cirurgia num tumor que o exame anatomopatológico chamar de seminoma puro faz o caso ser tratado como não seminomatoso. Se o sangue não foi colhido antes, essa informação deixou de existir.

    Prescrição
    • Colher os três marcadores ANTES da orquiectomia e registrar no prontuário a data e a hora da coleta, com a frase 'coleta pré-tratamento'
    • Anexar o resultado ao encaminhamento assim que sair; não segurar o encaminhamento esperando por ele
    • Programar marcadores após a cirurgia, interpretando tendências e meias-vidas: AFP aproximadamente 5–7 dias; beta-hCG aproximadamente 1–3 dias. Marcadores normais não excluem neoplasia nem dispensam estadiamento.
    • Se o paciente já chegar operado sem coleta prévia, registre isso explicitamente no encaminhamento — é informação que muda a interpretação de tudo o que vier depois
  3. Antes de o paciente sair da sala — o encaminhamento que aciona o prazo

    A régua brasileira de encaminhamento para queixa escrotal é o protocolo de regulação ambulatorial de urologia adulto do TelessaúdeRS-UFRGS com a Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul, na versão digital de 2023. O protocolo específico de escroto chama-se, por extenso, Patologias Escrotais Benignas, e a única condição de urgência que ele lista é a suspeita de torção — não há protocolo de tumor testicular nele. Quem cobre o seu paciente é a apresentação do documento, que vale para todos os protocolos: pacientes com diagnóstico ou suspeita de neoplasia em trato geniturinário, incluindo expressamente lesões sólidas do trato geniturinário, devem ter preferência no encaminhamento e ser direcionados a serviços de oncologia cirúrgica de urologia. Essa frase é curta, é geral e é a que garante a fila do seu paciente. Escreva-a de volta no encaminhamento com as suas palavras, porque quem regula precisa reconhecer o critério que está aplicando.

    Prescrição
    • Escrever no encaminhamento, por extenso, que a principal hipótese diagnóstica é neoplasia testicular, com o motivo: nódulo intratesticular sólido, endurecido, indolor, que não transilumina, em homem de tal idade, com tal tempo de evolução
    • Acrescentar a descrição do exame com os adjetivos que decidem, o laudo da ultrassonografia se houver, e os três marcadores com data
    • Pedir direcionamento a serviço de oncologia cirúrgica de urologia, com preferência de encaminhamento por lesão sólida do trato geniturinário
    • Registrar no prontuário que a solicitação foi fundamentada — é a condição que faz correr o prazo de 30 dias para os exames de elucidação do § 3º do art. 2º da Lei nº 12.732/2012, cuja mecânica está no capítulo 'Vermelha, e não doeu', desta apostila
    • Telefonar para a regulação quando houver dúvida sobre a fila: telefonema corre mais que guia por sistema
  4. Antes da cirurgia — a conversa sobre fertilidade, que não volta atrás

    Este é o marco que este capítulo insiste em tratar como conduta, e não como observação. A diretriz brasileira de 2026 escreve, dentro dos exames de estadiamento, uma linha inteira: discutir criopreservação de sêmen antes da orquiectomia e de tratamentos locais e sistêmicos. Ela manda discutir. Não diz onde, não diz quem paga e não fixa prazo. Não foi localizada norma federal que inclua a criopreservação de sêmen do paciente oncológico entre os procedimentos oferecidos pelo SUS, e as duas versões da página do INCA sobre a doença não mencionam fertilidade nem criopreservação uma única vez. A régua brasileira, portanto, é uma frase de sociedade de especialidade — e este capítulo prefere dizê-lo por extenso a sugerir que exista mais do que isso. O que muda com essa ausência não é a conduta, é a franqueza. A janela existe e é estreita: depois da orquiectomia, e sobretudo depois do primeiro ciclo de quimioterapia baseada em cisplatina, a coleta pode não ser mais possível ou não ser mais representativa. A conversa é do médico que tem o paciente na frente antes da cirurgia — e o interno pode identificar essa necessidade na enfermaria e participar da conversa com o médico supervisor. Ela leva três minutos e o paciente de 24 anos não vai levantar o assunto sozinho. A orientação clínica é oferecer preservação antes do tratamento quando possível e revisar alternativas depois, se necessário. Não se deve ensinar que a primeira dose de quimioterapia encerra definitivamente toda possibilidade reprodutiva; efeitos e recuperação variam.

    Prescrição
    • Perguntar, antes da cirurgia, se ele tem filhos e se pretende ter — e perguntar mesmo a quem diz que não pensa nisso, registrando a resposta no prontuário
    • Oferecer a coleta de sêmen para criopreservação antes da orquiectomia, informando com honestidade que a oferta depende do serviço e que não há garantia nacional de custeio
    • Acionar reprodução assistida no mesmo dia quando disponível; barreiras podem incluir acesso, condição clínica e produção de sêmen. Discutir opções sem atribuir impossibilidade apenas ao calendário.
    • Se não houve coleta antes da orquiectomia, discutir preservação antes da quimioterapia. Tratamento gonadotóxico pode comprometer a fertilidade, mas não define uma perda definitiva e universal após o primeiro ciclo; avaliação reprodutiva continua indicada conforme o caso.
    • Não prometer nem negar fertilidade: um testículo sadio remanescente sustenta produção hormonal e, na maioria dos casos, fertilidade — mas isso não é garantia e não é motivo para dispensar a coleta
  5. No centro cirúrgico — a orquiectomia radical inguinal

    A operação é ao mesmo tempo o tratamento e o exame que classifica a doença: no sistema de estadiamento, o tumor primário praticamente só tem categorias patológicas, o que significa que não há estadiamento sem a peça. A abordagem recomendada pelo INCA é por inguinotomia, com isolamento e clampeamento precoce do cordão espermático antes da manipulação da glândula, e a ressecção engloba testículo, epidídimo e cordão espermático até o nível do orifício inguinal interno. Nada disso passa pelo escroto, e a razão é a drenagem linfática. A prótese testicular pode ser implantada no mesmo tempo cirúrgico, desde que também por via inguinal e com os cuidados de assepsia do implante — vale saber que existe, e não vale oferecê-la no minuto da notícia. Os critérios de cirurgia poupadora foram ampliados em diretrizes especializadas para algumas massas indeterminadas com provável benignidade; a descrição restrita do documento brasileiro não deve ser transformada em proibição universal de avaliação dessa opção.

    Prescrição
    • Orquiectomia radical por via inguinal com clampeamento precoce do cordão; peça contendo testículo, epidídimo e cordão até o orifício inguinal interno
    • Nada de incisão, punção ou biópsia por via escrotal em nenhum momento do caminho
    • Consentimento informado que mencione a retirada do testículo, a possibilidade de prótese e a conversa sobre fertilidade já realizada
    • Registrar na descrição cirúrgica a data, para que dela se conte o prazo do laudo patológico
    • Cirurgia poupadora é decisão especializada, com seleção e exame intraoperatório apropriados. Pode ser considerada em testículo único/bilateralidade e em algumas massas pequenas indeterminadas, com marcadores negativos e probabilidade de benignidade, mesmo havendo testículo contralateral normal; não é alternativa automática para todo nódulo pequeno.
  6. Depois da cirurgia — o estadiamento e a segunda coleta

    Duas coisas acontecem em paralelo. A primeira é a imagem: tomografia de tórax e tomografia ou ressonância de abdome e pelve, com ressonância de crânio apenas se houver sintoma neurológico, gonadotrofina muito elevada ou metástases viscerais extensas, e cintilografia óssea apenas se houver sintomas ósseos. A segunda é a redosagem dos marcadores no tempo certo, que é o que define a categoria S e, com ela, o estádio. É aqui que a coleta pré-operatória paga o que valeu: com os dois pontos na mão, a curva de queda é interpretável; com um só, não é.

    Prescrição
    • Tomografia de tórax e tomografia ou ressonância de abdome e pelve
    • Redosar AFP, beta-hCG e LDH respeitando as meias-vidas. Elevação discreta estável requer confirmar tendência e causas não tumorais; LDH isolada é inespecífica. Não usar AFP <20 como regra universal de irrelevância.
    • Hemograma, função renal, função hepática e eletrólitos com sódio, potássio e magnésio
    • Testosterona total, hormônio luteinizante e folículo-estimulante apenas se houver suspeita clínica de hipogonadismo
    • Marcadores que não caem como esperado ou aumentam exigem avaliação de doença persistente, após excluir causas alternativas e respeitar a cinética. Estádio IS não é sinônimo automático de doença de baixo risco; tratamento depende de estadiamento e classificação prognóstica apropriados.
  7. O tratamento por estádio — o que o interno precisa entender para conversar

    A pergunta “e agora?” exige integrar histologia, estágio, marcadores e preferências. No estádio I, vigilância após orquiectomia é opção central, especialmente no seminoma e no não seminoma sem fatores adversos, mas risco de recaída e possibilidade concreta de seguimento entram na escolha. Tratamento adjuvante pode ser discutido em situações selecionadas; mesmo quem o recebe continua precisando de acompanhamento. Na doença além do testículo, quimioterapia baseada em cisplatina é importante, mas não é a única estratégia de todos os estádios II/III: subtipo, volume, categoria prognóstica e localização podem indicar radioterapia ou cirurgia em seleção especializada. O interno precisa compreender finalidade e efeitos, sem transformar esse resumo em protocolo oncológico completo.

    Prescrição
    • Discutir vigilância no estádio I com histologia, fatores de recaída, preferência e viabilidade de seguimento. O calendário e as alternativas diferem entre seminoma e não seminoma; não reduzir a decisão à adesão.
    • Carboplatina em ciclo único como opção preferencial no seminoma estádio I de paciente inapto ao seguimento; radioterapia para-aórtica de 20 Gy como alternativa (diretriz brasileira de 2026)
    • Poliquimioterapia com bleomicina, etoposídeo e cisplatina, ou etoposídeo e cisplatina, na doença avançada, com o número de ciclos definido pela categoria de risco (diretriz brasileira de 2026)
    • Nenhum desses fármacos consta da RENAME 2024 — eles vêm pelo procedimento oncológico do serviço habilitado, e não pela farmácia da unidade
    • Não atrasar ciclos nem reduzir doses sem indicação: é um tumor em que a intensidade do esquema tem relação direta com a chance de cura
  8. Depois de tudo — o que volta para a atenção primária

    Este marco é o mais negligenciado e é o que a unidade básica pode fazer sozinha. O paciente curado é um homem de vinte e poucos anos que vai viver mais cinquenta, com um esquema de seguimento oncológico exigente nos primeiros anos e com risco de sequelas tardias do tratamento. A diretriz brasileira de 2026 fixa o calendário: no primeiro e no segundo ano, consulta e marcadores a cada 2 meses, com tomografia de abdome e radiografia ou tomografia de tórax a cada 4 meses; no terceiro ano, consulta e marcadores a cada 3 meses e imagem a cada 6; no quarto e quinto anos, consulta e marcadores a cada 6 meses e imagem anual. E acrescenta, com todas as letras, orientações que não são oncológicas: controle de peso, atividade física regular, monitoramento de pressão arterial, glicemia e perfil lipídico, e evitar tabagismo. Não é conselho genérico — é o reconhecimento de que quem sobrevive a este tumor morre, décadas depois, de doença cardiovascular e de segunda neoplasia.

    Prescrição
    • Conferir, em toda consulta por qualquer motivo, se o seguimento oncológico está em dia — e reagendar ativamente quem faltou
    • Examinar o testículo remanescente conforme seguimento, sintomas e contexto, com consentimento e privacidade; orientar reconhecimento de nova massa. Não impor exame genital em toda consulta por qualquer motivo.
    • Monitorar pressão arterial, glicemia e perfil lipídico e trabalhar peso, atividade física e tabagismo, conforme as orientações gerais da diretriz brasileira de 2026
    • Reavaliar fertilidade quando o casal quiser engravidar, encaminhando pela via de infertilidade conjugal — a investigação básica do casal é do capítulo 'São dois, e a pasta é de um só', da apostila de Ginecologia
    • Perguntar por sintomas de hipogonadismo e dosar testosterona apenas se houver suspeita clínica
09

Como saber se está funcionando

Reavaliar aqui tem três horizontes, e o interno atua nos dois primeiros. Nos primeiros dias, o parâmetro é se o paciente atravessou a porta certa — o exame saiu, a consulta saiu, o encaminhamento não voltou. Nos primeiros meses, o parâmetro é a queda dos marcadores e o resultado do estadiamento. E por anos, o parâmetro é a assiduidade ao seguimento e a saúde de longo prazo de um homem jovem curado. Nenhum dos três se acompanha por exame de rotina pedido às cegas: acompanham-se por consulta marcada, por conferência ativa do que foi feito, e por um paciente que sabe o que observar.

A ultrassonografia saiu, e o resultado chegou a alguémEm 7 dias da consulta em que a massa apareceu

Esperado: Exame realizado e laudo lido por um médico, não apenas arquivado no prontuário

Se não melhora: Não espere o paciente voltar para saber. Ligue, ou peça à equipe que ligue. Se a fila do exame for longa, isso não segura nada: o encaminhamento já foi feito na base do achado de palpação, e a ultrassonografia pode ser realizada no serviço de destino. O que não pode acontecer é o encaminhamento estar parado à espera de um exame que também está parado.

Os três marcadores foram colhidos antes de qualquer tratamentoAntes da orquiectomia — e a conferência se faz na véspera, não depois

Esperado: Resultado no prontuário, com data e hora de coleta, anterior à data da cirurgia

Se não melhora: Se o paciente chegar ao centro cirúrgico sem a coleta, colha antes de o bisturi entrar; leva minutos e não atrasa nada. Se a cirurgia já tiver sido feita sem a coleta, registre isso explicitamente na evolução e no encaminhamento ao oncologista, porque a interpretação de toda a curva subsequente muda: sem o ponto de partida, não é possível distinguir queda em curso de doença residual, e a decisão passa a depender de coletas seriadas para estabelecer a tendência.

O encaminhamento foi aceito e a consulta foi marcadaEm 15 a 30 dias

Esperado: Vaga liberada em serviço de oncologia cirúrgica de urologia, com data conhecida pelo paciente

Se não melhora: Encaminhamento devolvido ou vaga não liberada é modo de falha silencioso: ninguém é avisado, e o paciente descobre quando a data não sai. Refaça o encaminhamento com a mesma fundamentação escrita e a nova data, registrando a tentativa anterior — a fundamentação renovada faz correr de novo o prazo de 30 dias dos exames de elucidação. Discuta o caso com a regulação, invoque a preferência prevista para lesão sólida do trato geniturinário e registre o número da teleconsultoria, que é item do conteúdo descritivo mínimo e costuma acelerar a triagem.

A conversa sobre fertilidade aconteceu, e a decisão está registradaAntes da orquiectomia; se perdida, antes do primeiro ciclo de quimioterapia

Esperado: Registro no prontuário de que a criopreservação foi oferecida e do que o paciente decidiu

Se não melhora: Se não houve preservação, discutir prontamente reprodução assistida antes do próximo tratamento gonadotóxico quando possível. Não anunciar a primeira dose como limite definitivo para toda fertilidade futura; opções e momento dependem da situação. Registrar preferência, oferta e barreiras.

A queda dos marcadores segue a cinética esperadaColeta pós-operatória respeitando as meias-vidas: gonadotrofina em dias, alfafetoproteína em semanas

Esperado: Queda compatível com a meia-vida a partir do valor pré-operatório, até a normalização

Se não melhora: Rever meias-vidas, tendência, laboratório e causas não tumorais. Marcadores persistentes/crescentes podem indicar doença residual, mas não classificam automaticamente todo paciente como baixo risco. AFP discreta não é irrelevante apenas por estar abaixo de 20; interpretar em contexto.

O paciente está comparecendo ao seguimento oncológicoA cada 2 meses no 1º e 2º anos; a cada 3 meses no 3º; a cada 6 meses no 4º e 5º

Esperado: Consulta e marcadores na periodicidade prevista, com imagem a cada 4, 6 e 12 meses conforme o ano

Se não melhora: Abandono de seguimento em homem jovem que se sente curado é a regra, não a exceção — ele voltou a trabalhar, não tem sintoma nenhum e a doença ficou no ano passado. A vigilância ativa do estádio I só é uma escolha segura porque o seguimento acontece; sem ele, ela vira outra coisa. A unidade básica é quem vê esse paciente por outros motivos: confira a agenda oncológica em toda consulta e reagende ativamente quem faltou. Se a falta for por transporte, trabalho ou distância, isso é informação clínica e precisa constar do prontuário, porque pode ser o argumento que muda a decisão entre vigiar e tratar.

O testículo remanescente e a saúde de longo prazoEm toda consulta, por qualquer motivo, pelo resto da vida

Esperado: Testículo restante examinado e normal; peso, pressão arterial, glicemia e perfil lipídico acompanhados; tabagismo abordado

Se não melhora: Nódulo no testículo remanescente é segundo tumor primário até prova em contrário, e recomeça este capítulo do primeiro marco. Do outro lado, a diretriz brasileira de 2026 inclui explicitamente, entre as orientações do seguimento, controle de peso, atividade física regular, monitoramento de pressão, glicemia e perfil lipídico e evitar tabagismo — porque quem sobrevive a este tumor morre, décadas depois, de doença cardiovascular e de segunda neoplasia. Se aparecerem sintomas de hipogonadismo, dose testosterona total com hormônio luteinizante e folículo-estimulante; sem suspeita clínica, não são exames de rotina.

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Onde o erro machuca

Tratar como epididimite e marcar retorno em trinta dias

O dano: É o erro central deste capítulo e o mais caro. O paciente jovem com dor testicular preenche o quadro de epididimite, recebe antimicrobiano por dez a quatorze dias, melhora da dor — porque a hemorragia intratumoral se resolve sozinha — e volta trinta dias depois, se voltar, com a massa maior. A conta é simples: quinze dias de tratamento mais trinta de intervalo somam quarenta e cinco dias de crescimento em que ninguém está olhando, e a chance é de que esse paciente já tivesse a massa por meses antes de procurar atendimento. O laudo do antibiótico não existe, então não há nada no prontuário que denuncie o erro: só uma prescrição razoável e um retorno cortês.

Como pegar a tempo: Duas regras fixas. Primeira: massa palpável no testículo contraindica o antimicrobiano de prova — é a posição escrita do INCA, que diz que um curso de antibióticos nunca deve ser implementado em quadro clinicamente suspeito de tumor germinativo. Segunda: toda epididimite tratada é reavaliada com o testículo na mão em três a cinco dias, e não em trinta. Se a dor cedeu e a massa ficou, o diagnóstico está errado e a conduta é ultrassonografia agora.

Colher os marcadores só depois da orquiectomia

O dano: Perde-se informação que não se recupera de nenhum outro modo. O primeiro dano é a leitura da curva: com meia-vida de 5 a 7 dias, uma alfafetoproteína pré-operatória de 1.000 ng/mL ainda está entre 379 e 500 ng/mL sete dias depois da cirurgia, e leva de 33 a 47 dias para ficar abaixo de 10; sem o valor de partida, esse número alto tanto pode ser queda normal quanto doença residual, e as duas leituras mandam o paciente para tratamentos opostos — vigilância ativa numa, quimioterapia de doença avançada na outra. O segundo dano é a reclassificação perdida: alfafetoproteína elevada antes da cirurgia num tumor que a patologia chamar de seminoma puro faz o caso ser tratado como não seminomatoso, e o órgão que produzia o marcador já não existe para se colher de novo.

Como pegar a tempo: Escreva os três marcadores na mesma requisição da ultrassonografia, na primeira consulta, e registre data e hora com a frase 'coleta pré-tratamento'. Se o paciente chegar à véspera da cirurgia sem tê-los colhido, colha ali — leva minutos. Se a cirurgia já foi feita sem a coleta, registre explicitamente essa falta no encaminhamento ao oncologista, porque é a informação que muda a interpretação de tudo o que vier depois.

Puncionar, biopsiar ou operar por via escrotal para 'ver o que é'

O dano: Parece prudência e é dano anatômico. O testículo nasce no retroperitônio e continua drenando para lá; a pele do escroto drena para a virilha. Violar o escroto com agulha ou bisturi abre ao tumor um território linfático que ele não tinha, altera o mapa de disseminação da doença e pode alterar o campo de tratamento e o desenho do seguimento. Some-se a isso que a punção não dá o diagnóstico que se procura: a distinção entre seminoma e não seminomatoso, que decide o tratamento, sai do exame da peça inteira.

Como pegar a tempo: Este é um dos poucos cânceres em que a regra é operar sem biópsia prévia. O diagnóstico se faz pela peça da orquiectomia radical por via inguinal, com isolamento e clampeamento precoce do cordão espermático, conforme a técnica que o INCA descreve. Nenhuma agulha, nenhuma incisão e nenhuma manipulação diagnóstica passam pelo escroto — e isso vale também para o serviço que recebe o paciente, de modo que a frase merece estar escrita no encaminhamento.

Não ter a conversa sobre fertilidade antes do tratamento

O dano: O atraso pode reduzir opções de preservação reprodutiva. A conversa deve anteceder o tratamento sempre que possível, mas não há perda definitiva universal após uma orquiectomia ou o primeiro ciclo. Efeito gonadal, recuperação e alternativas variam; revisar com reprodução assistida sem criar atraso oncológico evitável.

Como pegar a tempo: Trate como conduta, e não como observação: a diretriz brasileira de 2026 escreve que se deve discutir criopreservação de sêmen antes da orquiectomia e dos tratamentos locais e sistêmicos. Pergunte se ele tem filhos e se pretende ter, ofereça a coleta, seja honesto sobre a incerteza da oferta pelo serviço público, e registre a resposta. Se a coleta não couber antes da cirurgia, acione antes da quimioterapia. E registre também a recusa, com a razão.

Parar o exame no escroto

O dano: A primeira estação de doença deste tumor é retroperitoneal e invisível; a segunda é pulmonar. Um exame que se limita à bolsa deixa passar a massa abdominal palpável, a adenomegalia supraclavicular e a ginecomastia — os três achados que mudam a urgência e o desenho do encaminhamento. Do outro lado do mesmo erro está a virilha: quem palpa linfonodos inguinais normais e conclui que a doença é local está lendo o território errado, porque a virilha drena a pele do escroto e não o testículo.

Como pegar a tempo: Feche sempre com quatro gestos fora da bolsa: palpação profunda do abdome procurando massa, palpação das fossas supraclaviculares, inspeção das mamas e ausculta pulmonar. E escreva no encaminhamento o que encontrou, inclusive quando for tudo normal — a ausência descrita vale para quem recebe o paciente.

Concluir que, sem rastreamento recomendado, não há o que fazer

O dano: É a inversão mais comum entre alunos que aprenderam corretamente a doutrina de rastreamento. Da ausência de programa populacional deduz-se que não há intervenção possível, e o exame testicular sai do exame físico de rotina do homem jovem. O resultado é que o diagnóstico depende inteiramente de o paciente contar espontaneamente — justo neste tumor, em que ele não conta por vergonha e por medo. Não rastrear não significa não examinar quem tem queixa, nem deixar de examinar quem tem fator de risco conhecido, nem deixar de informar.

Como pegar a tempo: Separe as duas coisas com as palavras que o próprio INCA usa: rastreamento é a aplicação de exames periódicos a pessoas assintomáticas, e não é recomendado neste câncer; diagnóstico precoce é a investigação de quem tem sinal ou sintoma, e é ele que este capítulo persegue. Na prática: examine o escroto de todo homem jovem com queixa escrotal, abdominal baixa, lombar, mamária ou torácica sem explicação; examine os dois testículos de quem tem antecedente de criptorquidia, tumor contralateral, infertilidade ou história familiar; e diga a esses homens o que procurar e onde voltar.

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O que dizer ao paciente e à família

As falas abaixo são o conteúdo do que se diz — o que precisa entrar, o que precisa ficar de fora e a ordem em que as informações doem menos. A técnica de dar má notícia, com o protocolo de etapas, o cuidado com o ambiente e o manejo da reação, pertence ao capítulo 'Comunicação de más notícias', na apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática — parte que este capítulo lhe entrega inteira, sem repetir nada dela. O que fica aqui é o que é específico deste diagnóstico: um homem jovem, uma doença que quase sempre cura, um órgão que tem carga simbólica desproporcional ao seu tamanho, e uma discussão reprodutiva que deve acontecer antes do tratamento quando possível.

Um princípio governa todas elas. A palavra câncer vai ser dita, e não deve ser adiada nem embrulhada — mas neste tumor ela vem acompanhada, na mesma respiração, de uma informação verdadeira que muda a escuta: é o câncer que mais cura. Dizer 'câncer' sem dizer 'curável' produz um sofrimento que a doença não justifica; dizer 'curável' sem dizer 'câncer' produz um paciente que não entende por que precisa voltar.

Na consulta em que a massa apareceu, antes de qualquer exame, quando ele pergunta o que é

Eu encontrei um nódulo dentro do testículo esquerdo. Não sei ainda o que é, e não vou chutar — mas preciso ser direto com você sobre uma coisa: um caroço dentro do testículo, nessa idade, pode ser um tumor, e por isso a gente investiga já, hoje, e não daqui a um mês. Vou pedir três exames de sangue e um ultrassom, e já vou escrever seu encaminhamento para o urologista. Isso não é para assustar: é porque, se for tumor, ele é o tipo de câncer que mais tem cura, inclusive quando já se espalhou — e o que mais atrapalha é o tempo. Então a gente ganha tempo agora.

Não diga: Dizer 'não deve ser nada' para acalmar: se não fosse nada você não estaria pedindo três exames, e o paciente percebe a contradição. Também não faça o inverso — não anuncie o diagnóstico antes de tê-lo. E não repreenda a demora: 'e você esperou desde janeiro?' é a frase que faz esse paciente não voltar.

Quando ele diz que percebeu há meses e não contou

Isso é muito mais comum do que você imagina, e eu não vou te cobrar por isso. A maioria dos homens faz igual: percebe, acha que vai sumir, tem medo do que pode ser e não sabe como falar do assunto. Você veio, e é o que importa agora. O que eu preciso de você daqui pra frente é o contrário: qualquer coisa que mudar, você me conta na hora, mesmo que pareça bobagem, mesmo que não doa.

Não diga: Sermão, olhar de reprovação e a frase 'se tivesse vindo antes'. Ela não muda nada do que já aconteceu e piora tudo o que vem depois. Evite também transformar a culpa em lição de moral sobre autoexame nessa consulta — não é hora, e a informação se dá no seguimento.

Antes da cirurgia, oferecendo a criopreservação de sêmen

Preciso falar de uma coisa agora, antes da cirurgia, porque depois não dá mais para voltar atrás. O tratamento pode afetar sua capacidade de ter filhos — a cirurgia sozinha geralmente não, porque um testículo saudável costuma dar conta, mas se precisar de quimioterapia depois, aí sim pode afetar, e às vezes de forma definitiva. Existe uma coisa simples que se faz antes: coletar e congelar sêmen, para guardar. É rápido e não dói. Não posso te garantir que o serviço tenha isso disponível de graça, e vou verificar hoje mesmo — mas a decisão de tentar é sua, e ela precisa ser tomada agora, não depois. Você tem filhos? Pensa em ter?

Não diga: Pular o assunto porque 'ele é muito novo para pensar nisso' ou porque 'ele não perguntou'. Também não prometa acesso ao serviço antes de confirmar, nem descreva a coleta com constrangimento ou com humor — trate como o exame que é. E não aceite o primeiro 'não pretendo ter filhos' sem oferecer uma segunda vez: aos vinte e quatro anos essa resposta muda.

Dando o diagnóstico depois do laudo patológico

O exame do material confirmou: é um tumor de testículo. Vou dizer a palavra para não deixar dúvida — é um câncer. E vou dizer a segunda parte na mesma frase, porque ela é tão verdadeira quanto a primeira: é o câncer com maior chance de cura que existe. Mesmo quando já se espalhou para outros lugares, a maioria das pessoas se cura. O que a gente vai fazer agora é descobrir exatamente em que ponto ele está, com uma tomografia e com a repetição daqueles exames de sangue, e é isso que vai dizer se você vai precisar de mais alguma coisa além da cirurgia que já foi feita — muita gente não precisa.

Não diga: Enrolar. 'Uma alteração celular', 'uma lesão de comportamento indeterminado' e outras fugas deixam o paciente sem entender o que tem e sem entender por que precisa voltar. No extremo oposto, evite despejar estádios, siglas e esquemas antes de saber qual é o dele. E não prometa que não vai precisar de quimioterapia antes da tomografia.

Quando ele pergunta sobre virilidade, sexo e aparência

Vou responder direto, porque é o que quase todo mundo quer saber e quase ninguém pergunta. Um testículo saudável sustenta a produção de hormônio masculino, então ereção, desejo, barba, voz e massa muscular seguem normalmente na grande maioria dos casos. Sobre ter filhos, a gente já falou e vai acompanhar. E, sobre aparência, existe prótese testicular, colocada em cirurgia, que se discute com calma mais para a frente — não precisa decidir isso agora e não é uma decisão urgente.

Não diga: Falar de prótese no mesmo minuto da notícia, antes de o paciente absorver a perda. Prometer fertilidade preservada — ou, no extremo oposto, anunciar infertilidade, que não é verdade. E não trate a pergunta como vaidade: para um homem de vinte anos, essa é uma das partes mais pesadas do diagnóstico, e responder com naturalidade é parte do cuidado.

Explicando a vigilância ativa a quem não entende por que 'não vai fazer nada'

Eu sei que soa estranho ouvir que o tratamento agora é acompanhar. Mas a conta é esta: em cerca de oito de cada dez pessoas na sua situação, a cirurgia que já foi feita curou a doença, e fazer quimioterapia em todo mundo significaria tratar oito pessoas curadas para alcançar duas. A quimioterapia tem efeitos que duram a vida inteira, e você tem vinte e quatro anos. Então o que a gente faz é vigiar de perto: consulta e exame de sangue a cada dois meses, imagem a cada quatro, nos dois primeiros anos. Se aparecer alguma coisa, a gente trata — e mesmo aí a chance de cura continua alta. Só que isso só funciona se você vier a todas. Faltar não é adiar uma consulta: é abrir mão da parte do tratamento que te coube.

Não diga: Chamar de 'só observar' ou 'não fazer nada' — a adesão desaba quando o paciente entende a vigilância como ausência de cuidado. E não decida sozinho: se o paciente disser que não vai conseguir vir a cada dois meses por transporte, trabalho ou distância, isso é informação clínica que muda a escolha, e precisa ser dita ao oncologista, não escondida.

Ao paciente que já foi tratado e reapareceu na unidade anos depois, por outro motivo

Antes de a gente resolver o que você veio resolver hoje, duas perguntas rápidas: quando foi sua última consulta do acompanhamento do testículo, e você tem exame marcado? E, se não se incomodar, eu queria examinar o outro testículo — leva um minuto. Não é porque eu esteja desconfiando de alguma coisa: é que a chance de aparecer um segundo tumor no lado que sobrou é maior que a da população em geral, e esse exame é a coisa mais barata que eu tenho para te oferecer.

Não diga: Deixar passar porque a queixa de hoje é outra e a agenda está cheia. E não transmita alarme ao explicar o risco do segundo tumor: a frase é 'maior que a da população em geral', não 'você tem grande chance de ter de novo'.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

O autoexame testicular deve ser ensinado e estimulado, ou desestimulado?

Estimular, como diagnóstico precoce e sem protocolo de frequência

A página do Instituto Nacional de Câncer sobre a doença, na versão para a população atualizada em 15 de dezembro de 2025, escreve que o autoexame dos testículos é hábito importante para o diagnóstico precoce desse tipo de câncer e que, apesar de não haver protocolo determinado, a autoavaliação deve ser estimulada, com assistência médica recomendada em caso de alterações ou dúvidas. O argumento é o da estratégia de diagnóstico precoce, definida no mesmo documento: reduzir o estágio de apresentação da doença depende de a população e os profissionais estarem aptos a reconhecer sinais suspeitos. Num tumor cuja lesão inicial é palpável, indolor, do tamanho de uma ervilha e acessível ao próprio paciente, quem primeiro pode percebê-la é ele.

Instituto Nacional de Câncer, Câncer de testículo — versão para a população, atualizada em 15 de dezembro de 2025

Não rastrear, e o rastreamento inclui o autoexame do paciente

A mesma página do INCA, na seção de rastreamento, afirma que não há evidência científica de que o rastreamento do câncer de testículo traga mais benefícios do que riscos e que, até o momento, ele não é recomendado — e cita como base duas fontes estrangeiras, uma delas a declaração de reafirmação da força-tarefa de serviços preventivos dos Estados Unidos, de 2011, que se posiciona contra rastrear adolescentes e adultos assintomáticos por exame clínico ou por autoexame do paciente. O argumento é o da relação entre benefício e dano num tumor raro e de altíssima curabilidade mesmo quando avançado: o ganho marginal de antecipar o diagnóstico é pequeno, e o custo em falsos positivos, exames desnecessários e ansiedade não é.

Instituto Nacional de Câncer, versão para profissionais de saúde, atualizada em 12 de dezembro de 2025, citando a reafirmação da U.S. Preventive Services Task Force, 2011

Como decidir

As duas posições convivem dentro do mesmo documento oficial e a distinção que as separa é fina: exame periódico em pessoa assintomática é rastreamento e não é recomendado; percepção de uma alteração pelo próprio paciente, que então procura o serviço, é diagnóstico precoce e é estimulada. Decida pelo paciente à sua frente e pelo que você vai fazer com a informação. A quem tem risco acima da média — criptorquidia mesmo corrigida, tumor contralateral prévio, história familiar, infertilidade — ensinar o que procurar é informação devida a quem tem motivo para tê-la, e vale notar que a própria declaração estrangeira registra não ter avaliado a evidência sobre homens com história de criptorquidia. A quem não tem fator de risco, não transforme a consulta numa prescrição de autoexame mensal com data marcada: diga o que é anormal, diga que não dói, e diga que a porta está aberta. E, seja qual for a sua escolha sobre o autoexame, ela não altera em nada a sua obrigação de examinar — a doutrina de rastreamento e os níveis de prevenção estão no capítulo 'O nível não está no exame', da apostila de Medicina Preventiva e Saúde Coletiva, e ausência de rastreamento nunca foi licença para não examinar quem tem queixa.

No estádio I, o padrão é vigilância ativa para todos, ou a quimioterapia adjuvante tem lugar próprio?

Vigilância ativa é a terapia padrão; a adjuvância é sobretratamento em quem já está curado

A página do INCA para profissionais de saúde é enfática: no estádio I o risco de metástases durante o acompanhamento é de cerca de 20%, de modo que cerca de 80% dos pacientes são curados apenas com a orquiectomia radical; considerando os elevados índices de cura de quem tem metástase e é tratado com quimioterapia, hoje se adota como terapia padrão a vigilância ativa desse grupo. E qualifica a alternativa com dureza: a quimioterapia adjuvante, carboplatina para os seminomas e poliquimioterapia para os não seminomas, tem elevado índice de cura, mas carrega um elevadíssimo índice de sobretratamento, ficando como opção para quem tem fatores de risco em tumor inicial ou não deseja a vigilância.

Instituto Nacional de Câncer, versão para profissionais de saúde, atualizada em 12 de dezembro de 2025

As duas condutas têm a mesma força de recomendação; o que decide é a aptidão ao seguimento

A diretriz de tratamentos oncológicos da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, capítulo de testículo de 17 de maio de 2026, organiza a decisão por outro eixo. No seminoma estádio I, a vigilância ativa é recomendada para o paciente apto a aderir ao seguimento clínico; para o inapto, a opção preferencial é um ciclo de carboplatina, com radioterapia para-aórtica de 20 Gy como alternativa — todas com nível de evidência alto, e a carboplatina com força de recomendação forte. No não seminomatoso com invasão linfovascular, a opção preferencial passa a ser um ciclo de poliquimioterapia, com a vigilância ativa como alternativa de mesma força. Nessa leitura, a escolha não é entre certo e sobretratamento: é entre duas condutas igualmente sustentadas, e o fator que as separa é a probabilidade real de aquele paciente comparecer a consulta a cada dois meses e a imagem a cada quatro, durante anos.

Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, Diretrizes de tratamentos oncológicos 2026, capítulo Testículo, 17 de maio de 2026

Como decidir

As duas concordam em quase tudo e discordam sobre quem carrega o ônus da adesão. Decida pesando o que é reversível. Sobretratar um homem de vinte e quatro anos custa toxicidade permanente num paciente que provavelmente já estava curado; subtratar custa uma recidiva que, neste tumor, continua curável com resgate — desde que ela seja encontrada, o que depende inteiramente do seguimento acontecer. Logo, a pergunta operacional não é qual documento tem razão: é se este paciente vai vir. Investigue isso com perguntas concretas antes de aconselhar — distância até o serviço, trabalho com registro em carteira ou por aplicativo, transporte, se alguém pode acompanhá-lo, se ele já faltou a consultas antes — e leve a resposta ao oncologista por escrito. A informação de que o paciente mora a duzentos quilômetros e trabalha por diária não é dado social a ser omitido: é o dado que decide o tratamento dele.

Todo nódulo intratesticular sólido vai para orquiectomia radical, ou existe lugar para preservar o testículo?

Existe lugar, restrito e definido, para a orquiectomia parcial

A página do INCA para profissionais de saúde descreve a orquiectomia parcial como a ressecção do tumor preservando o parênquima testicular, e fixa a indicação: tumores menores que 2 cm, na ausência de testículo contralateral ou com déficit funcional acentuado, com a ressalva de que a técnica apresenta elevada taxa de recorrência local quando usada isoladamente, recomendando avaliar radioterapia local adjuvante. A versão para a população vai além e descreve, na entrada do tratamento, um cenário de nódulo pequeno com marcadores tumorais normais em que se pode optar por biópsia com resultado dado ainda durante a cirurgia, retirando o testículo em parte ou totalmente conforme o resultado. O argumento é o do órgão: num homem jovem com testículo único ou com função comprometida, a diferença entre retirar e preservar é a diferença entre depender e não depender de reposição hormonal pelo resto da vida.

Instituto Nacional de Câncer, versões para profissionais de saúde e para a população, atualizadas em 12 e 15 de dezembro de 2025

O tratamento brasileiro mais recente começa, em todos os cenários, pela orquiectomia

A diretriz da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica de 2026 não menciona orquiectomia parcial em nenhum ponto do capítulo. Todos os seus fluxogramas de tratamento — estádio I, estádio II clínico, estádio II patológico e estádio III — partem da orquiectomia como ato realizado, e toda a classificação patológica do tumor primário que ela reproduz pressupõe a peça inteira, com testículo, epidídimo e cordão. Nessa leitura, a preservação parcial não é conduta a considerar na porta de entrada: é exceção técnica de centro especializado, cuja recorrência local exige tratamento complementar e cujo estadiamento patológico fica menos completo.

Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, Diretrizes de tratamentos oncológicos 2026, capítulo Testículo, 17 de maio de 2026

Como decidir

Para o interno, a decisão prática é anterior à divergência e não muda com ela: nenhuma das duas posições autoriza puncionar, biopsiar ou abordar o testículo pelo escroto, e nenhuma das duas autoriza esperar. O que muda é o que se diz ao paciente e o que se escreve no encaminhamento. Diante de nódulo pequeno em paciente com testículo único, testículo contralateral atrófico ou antecedente de tumor contralateral, escreva esses achados por extenso e sinalize a pergunta ao serviço de destino — é lá que a decisão entre preservar e retirar se toma, com exame de congelação intraoperatório e cirurgião experiente. E não prometa preservação ao paciente antes dessa avaliação: a taxa de recorrência local que a própria fonte registra é a razão pela qual a promessa não se sustenta.

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O raciocínio, em voz alta

Cleuber Brejinho, 24 anos, entregador de aplicativo, vem por retorno à unidade básica. Há cinco semanas foi atendido por dor no testículo esquerdo, recebeu diagnóstico de epididimite, tomou antimicrobiano por dez dias e saiu com retorno marcado para trinta dias. A dor passou na primeira semana e não voltou. Ele diz que veio porque o caroço continua, que estava lá antes da dor e que acha que aumentou; percebeu no banho, em janeiro. Ao exame, com os dois lados expostos e boa luz, há no testículo esquerdo um nódulo de cerca de 2,5 cm, endurecido, indolor, que não se separa do parênquima; o epidídimo esquerdo é palpável à parte e normal; a transiluminação não atravessa; não há adenomegalia inguinal; a palpação profunda do andar superior do abdome sugere resistência.

  1. 1. A pergunta que já foi respondida pela mão

    O achado não é 'caroço no saco': é nódulo intratesticular. O que o define é a impossibilidade de passar os dedos entre a massa e a glândula, com o epidídimo identificável à parte e normal. Nódulo sólido dentro do testículo, em homem de 24 anos, é tumor até prova em contrário — e a transiluminação negativa confirma que se trata de tecido, e não de coleção. Nenhuma dessas informações precisou de exame complementar.

  2. 2. Por que a consulta anterior não foi absurda, e onde ela errou

    Dor testicular em homem jovem sexualmente ativo tem a epididimite como diagnóstico mais provável, e tratá-la empiricamente não é erro. O erro foi outro, e teve duas partes: não registrar a massa que já existia antes da dor, e marcar o retorno para trinta dias. Cerca de um em cada dez tumores de testículo chega doendo, porque sangra ou infarta dentro da cápsula — e o antimicrobiano, nesse caso, coincide com a melhora espontânea da dor e produz a impressão de que funcionou. A régua que teria evitado tudo está escrita na fonte oficial: antibiótico nunca deve ser implementado em quadro suspeito de tumor germinativo.

  3. 3. O que sai desta consulta, e em que ordem

    Três pedidos e um encaminhamento, todos hoje. Os três marcadores — alfafetoproteína, gonadotrofina coriônica fração beta e desidrogenase láctica — colhidos antes de qualquer tratamento, com data e hora registradas e a frase 'coleta pré-tratamento'. A ultrassonografia de bolsa escrotal com Doppler, com a hipótese escrita por extenso no pedido. E o encaminhamento à urologia, escrito na mesma consulta e não segurado à espera de nenhum dos dois.

  4. 4. O que o encaminhamento precisa dizer para não voltar

    A hipótese por extenso — neoplasia testicular — e o motivo: nódulo intratesticular sólido, endurecido, indolor, que não transilumina, à esquerda, de cerca de 2,5 cm, em homem de 24 anos, com oito meses de evolução relatada. A descrição do abdome, inclusive a suspeita de resistência à palpação profunda. Os marcadores com data, assim que saírem. E o pedido explícito de direcionamento a serviço de oncologia cirúrgica de urologia, com preferência de encaminhamento por lesão sólida do trato geniturinário — que é a regra da apresentação do protocolo estadual de regulação de urologia adulto, e é o que cobre este paciente, já que o protocolo escrotal daquele documento é o das patologias benignas.

  5. 5. A resistência abdominal muda alguma coisa?

    Muda o tom, não a conduta imediata. O testículo drena para os linfonodos para-aórticos e interaortocavais, no retroperitônio, e não para a virilha — de modo que uma massa abdominal palpável em homem jovem com nódulo testicular é, muito provavelmente, a primeira estação da doença. Isso não faz o interno pedir tomografia pela unidade básica, porque o estadiamento é responsabilidade do serviço que vai tratar e a espera pelo exame na atenção primária costuma atrasar em vez de acelerar. O que muda é que o achado entra escrito no encaminhamento e no telefonema para a regulação, porque ele justifica a pressa.

  6. 6. A conversa da mesma consulta, e a que vem antes da cirurgia

    Hoje, ele precisa ouvir que há um caroço dentro do testículo, que isso pode ser um tumor, que por isso se investiga já, e que — se for — é o câncer que mais tem cura, inclusive quando já se espalhou. Não se diz 'não deve ser nada' e não se repreende a demora desde janeiro, que é feita de medo e de vergonha e não de descuido. E fica agendada a segunda conversa, que é obrigatória e tem hora: antes da orquiectomia, a oferta de coletar e congelar sêmen, porque discutir cedo amplia opções, embora a fertilidade futura não seja perdida obrigatoriamente após essas etapas.

  7. 7. O que acontece depois, e por que os marcadores de hoje importam lá

    No serviço de destino, a orquiectomia radical será feita por inguinotomia, com clampeamento precoce do cordão, e a peça — testículo, epidídimo e cordão até o orifício inguinal interno — dará o diagnóstico histológico e o estadiamento patológico do primário, que não existe sem ela. Depois, tomografia de tórax e de abdome e pelve, e a redosagem dos marcadores respeitando as meias-vidas. É aqui que a coleta de hoje paga o que valeu: se a alfafetoproteína dele estiver, digamos, em 1.000 ng/mL agora, ela ainda estará entre 379 e 500 uma semana após a cirurgia e levará de 33 a 47 dias para ficar abaixo de 10 — e sem o valor de hoje ninguém saberia se aquele número alto é queda esperada ou doença residual. Se ela estiver elevada hoje e o exame anatomopatológico disser seminoma puro, o caso será tratado como não seminomatoso. Nenhuma dessas duas informações pode ser reconstruída depois.

  8. 8. O que fica com você, meses depois

    Se o estádio for I, o tratamento dele terá sido a cirurgia, e o resto é vigilância ativa: consulta e marcadores a cada dois meses nos dois primeiros anos, com imagem a cada quatro. Cerca de oito em cada dez pacientes nessa situação já estão curados, e a vigilância só é uma escolha segura porque o seguimento acontece. Cleuber tem 24 anos, trabalha por aplicativo e não terá sintoma nenhum. Quando ele aparecer na sua unidade por uma dor de garganta, pergunte pela última consulta do seguimento, examine o testículo que sobrou e reagende o que ele perdeu — é a parte deste capítulo que a atenção primária faz sozinha, e é a que mais se perde.

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Faça você

Demóstenes Pindobal, 33 anos, operador de máquina numa indústria química, procura a unidade básica pela terceira vez em dois meses por dor lombar. Diz que dói de dia e de noite, que não melhora deitado e que já tomou anti-inflamatório de dois tipos. Trouxe uma radiografia de coluna lombar de outro serviço, laudada como sem alterações. Não fuma. No fim da consulta, meio sem jeito, comenta que os mamilos estão doloridos e que ele acha que a camiseta está marcando — atribui ao suplemento que começou na academia. Ao exame, há aumento e sensibilidade da região mamária bilateral, mais evidente à esquerda; a coluna não tem dor à percussão nem sinais de irritação radicular; e a palpação profunda do andar superior do abdome, à esquerda, encontra uma massa firme e mal delimitada.

  1. 1. Junte as três queixas em vez de tratá-las separadamente

    Dor lombar que não muda com a posição e não cede a anti-inflamatório, com exame de coluna pobre; ginecomastia recente em homem de 33 anos; e massa abdominal palpável. Cada uma isolada tem uma lista de diferenciais. Que raciocínio único explica as três ao mesmo tempo, e o que ele obriga você a fazer ainda nesta consulta?

  2. 2. O exame que falta, e que ninguém pediu nas duas consultas anteriores

    Há um exame físico que responde grande parte da pergunta, custa nada e leva dois minutos. Qual é, e por que ele não foi feito nas duas consultas anteriores? Descreva a técnica: posição, iluminação, exposição, qual lado se palpa primeiro e qual é a manobra que separa massa do testículo de massa ao lado dele.

  3. 3. A ginecomastia não é coincidência

    Que mecanismo liga um tumor testicular ao aumento e à dor dos mamilos? Nomeie o marcador envolvido, diga por que ele produz esse efeito, e diga se isso muda a lista de exames que você vai pedir hoje.

  4. 4. A ocupação dele entrou no raciocínio?

    Operador de máquina em indústria química. Consulte a lista de exposições ocupacionais associadas a este tumor na fonte oficial brasileira e diga qual delas é a mais pertinente aqui. Diga também, com honestidade, o que essa informação muda na conduta de hoje — e o que ela não muda.

  5. 5. O que sai desta consulta, e em que ordem

    Liste os exames que você pede hoje, na ordem em que eles são colhidos ou solicitados, e diga qual deles não pode em hipótese alguma ser colhido depois de um tratamento — e por quê, com a conta. Diga também o que você NÃO pede pela unidade básica, e por quê.

  6. 6. A conversa que tem hora marcada

    Demóstenes é casado e tem uma filha de 2 anos. Há uma conversa neste caminho que precisa acontecer antes de um ato específico e que não volta atrás depois dele. Qual é a conversa, qual é o ato, qual é a outra oportunidade importante a discutir se a primeira for perdida, e o que a régua brasileira diz — e não diz — sobre a oferta disso no serviço público?

  7. Continuidade do caso e prática do internato

    Reapresente Demóstenes distinguindo hipótese, confirmação, estadiamento e preservação reprodutiva; explique qual ação pode acontecer hoje em cada etapa.

  8. Questão integrativa 1

    AFP, beta-hCG e LDH normais permitem observar uma massa sólida sem encaminhar?

  9. Questão integrativa 2

    Por que coletar marcadores antes da cirurgia e repeti-los depois?

  10. Questão integrativa 3

    A massa parece ficar no epidídimo. O exame encerra a investigação?

  11. Questão integrativa 4

    Por que evitar uma biópsia transescrotal de rotina?

  12. Questão integrativa 5

    Já ter uma filha dispensa a conversa sobre preservação de sêmen?

  13. Questão integrativa 6

    Vigilância no estádio I depende apenas de o paciente prometer voltar?

Ver como fecharíamos

As três queixas se explicam por um único diagnóstico: tumor germinativo de testículo com doença retroperitoneal. A dor lombar contínua, que não muda com a posição e não responde a anti-inflamatório, com exame de coluna pobre e radiografia normal, é a massa retroperitoneal — o testículo se forma junto ao rim e desce para a bolsa mantendo a drenagem linfática para os linfonodos para-aórticos e interaortocavais, de modo que a primeira estação da doença é abdominal e invisível ao exame de coluna. A massa firme palpável no andar superior do abdome é essa mesma cadeia. E a ginecomastia é hormonal: a gonadotrofina coriônica produzida pelo tumor tem semelhança estrutural com o hormônio luteinizante, estimula a célula de Leydig e aumenta a produção de estrogênio — o INCA lista aumento e sensibilidade dos mamilos entre os sinais a que se deve ficar atento, e adenomegalias, tromboembolismo e massa retroperitoneal entre os sinais de doença mais avançada. O exame que faltou é o do escroto, e ele não foi feito nas duas consultas anteriores pela razão de sempre: a queixa era lombar, e ninguém desce até o escroto quando a queixa aponta para outro aparelho. A técnica: paciente em decúbito dorsal, porta fechada, acompanhante conforme a preferência do paciente e oferta de acompanhante profissional segundo o protocolo, boa luz, os dois lados expostos ao mesmo tempo. Palpe primeiro o lado sadio, para calibrar a mão na consistência normal daquele paciente. Depois faça a palpação bimanual do lado suspeito, do polo superior ao inferior. A manobra que decide é a identificação do epidídimo na face posterior: se você consegue pinçá-lo e afastá-lo do corpo do órgão, e a massa fica com o testículo, a massa é intratesticular; se a massa se separa junto com o epidídimo, ela é paratesticular. Complete com a transiluminação — tecido sólido não acende — e depois saia do escroto: abdome, fossas supraclaviculares e mamas. A ocupação pertinente é a exposição a N,N-dimetilformamida na indústria, que a versão para profissionais do INCA lista entre as exposições ocupacionais associadas ao desenvolvimento deste tumor, ao lado dos agrotóxicos organoclorados na agricultura e do ácido perfluorooctanóico entre bombeiros. Ela reforça a probabilidade a priori e entra escrita no encaminhamento e no prontuário, com valor para eventual nexo ocupacional. O que ela não muda é a conduta: o achado de palpação já basta, e nenhuma exposição confirmada ou afastada altera o que se faz hoje. O que sai da consulta: primeiro, e antes de tudo, os três marcadores — alfafetoproteína, gonadotrofina coriônica fração beta e desidrogenase láctica —, colhidos antes de qualquer tratamento, com data e hora registradas. Nenhum deles pode ser colhido depois da orquiectomia sem perda irreversível: com meia-vida de 5 a 7 dias, uma alfafetoproteína de 1.000 ng/mL ainda estará entre 379 e 500 ng/mL sete dias após a cirurgia e levará de 33 a 47 dias para ficar abaixo de 10, de modo que, sem o valor de partida, não há como distinguir queda esperada de doença residual; e alfafetoproteína elevada antes da cirurgia num tumor que a patologia chamar de seminoma puro reclassifica o caso como não seminomatoso, informação que deixa de existir quando o órgão sai. Depois, a ultrassonografia de bolsa escrotal com Doppler, com a hipótese escrita por extenso. E, na mesma consulta, o encaminhamento a serviço de oncologia cirúrgica de urologia, com a hipótese de neoplasia testicular por extenso, o motivo, a massa abdominal descrita e o pedido de preferência por lesão sólida do trato geniturinário. O que não se pede pela unidade básica é a tomografia: o estadiamento é responsabilidade do serviço que vai tratar, o exame raramente está disponível na atenção primária e a espera por ele atrasa o caminho em vez de acelerá-lo. Também não se pede biópsia da massa abdominal antes dos marcadores — num homem jovem, marcadores muito elevados podem dar o diagnóstico sem que se puncione nada. A conversa que tem hora marcada é a da preservação da fertilidade, e o ato depois do qual ela não volta atrás é a orquiectomia; a outra oportunidade importante a discutir é antes do primeiro ciclo de quimioterapia baseada em cisplatina. Demóstenes tem 33 anos e uma filha, e é exatamente o paciente que responde 'já tenho a minha' na primeira vez que se pergunta — pergunte duas vezes, e registre. A régua brasileira é uma única linha da diretriz de tratamentos oncológicos de 2026: discutir criopreservação de sêmen antes da orquiectomia e dos tratamentos locais e sistêmicos. Ela manda discutir; não diz onde, não diz quem paga e não fixa prazo. Não há norma federal que inclua a criopreservação de sêmen do paciente oncológico entre os procedimentos ofertados pelo SUS, e as duas versões da página do INCA sobre a doença não mencionam fertilidade nem criopreservação nenhuma vez. Diga isso ao paciente com franqueza — que a oferta depende do serviço e que você vai verificar hoje — em vez de prometer o que não se sabe se existe. A hipótese de tumor com acometimento retroperitoneal é forte, mas ainda precisa de confirmação e estadiamento pela equipe. A referência aos marcadores pré-operatórios significa perda do valor basal se não colhidos; não significa que marcadores posteriores sejam inúteis. AFP elevada requer excluir outras causas antes de reclassificar um seminoma. Não é necessário proibir TC na atenção primária quando existe acesso rápido e coordenação: o essencial é que o exame não atrase o serviço responsável. Fertilidade deve ser discutida cedo e novamente quando necessário, sem decretar uma última janela universal. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. Marcadores normais não excluem tumor. Ultrassom, exame e avaliação urológica continuam necessários. 2. O valor basal e a tendência ajudam a interpretar diagnóstico, estadiamento e resposta. Após retirar o tumor, a queda depende da meia-vida, e um valor isolado pode ser enganoso. 3. Não. A localização clínica orienta, mas o ultrassom confirma a relação com o testículo e caracteriza a lesão. Nem toda massa paratesticular é banal. 4. Ela altera o percurso oncológico e pode contaminar planos. A abordagem da massa suspeita é planejada pela urologia, habitualmente pela via inguinal. 5. Não. Preferências futuras e risco reprodutivo precisam ser discutidos sem pressupostos. A oferta deve ocorrer cedo, com avaliação real de acesso e urgência. 6. Não. Histologia, risco de recaída, preferências e capacidade concreta de acompanhamento entram juntos. O plano deve ter exames, prazos e responsáveis claros.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

O testículo se forma no retroperitônio e desce para a bolsa levando consigo o pedículo vascular e linfático, continuando a drenar para os linfonodos para-aórticos e interaortocavais. A pele do escroto, ao contrário, drena para os linfonodos inguinais. Uma incisão, punção ou biópsia pelo escroto abre ao tumor um segundo território de drenagem, altera o mapa de disseminação e pode alterar o campo de tratamento e o desenho do seguimento. Daí decorrem duas regras do capítulo: a orquiectomia é radical, por via inguinal, com isolamento e clampeamento precoce do cordão antes da manipulação da glândula, e o diagnóstico histológico se faz pela peça, sem biópsia prévia. A mesma anatomia explica por que virilha sem adenomegalia não diz nada sobre estadiamento.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sem consultar o capítulo: (1) descreva os sete gestos do exame do escroto na ordem, e diga qual deles responde a pergunta que decide tudo — massa DO testículo ou massa AO LADO dele; (2) diga o que a transiluminação responde, e cite as três situações em que ela não responde nada; (3) nomeie os três marcadores, o tecido que produz cada um, as meias-vidas de dois deles, e diga com a conta o que se perde ao colhê-los só depois da orquiectomia; (4) no seu próximo plantão ou ambulatório, examine o escroto de todo homem entre 15 e 45 anos que chegar com queixa escrotal, dor lombar sem explicação, ginecomastia ou massa abdominal — e conte quantos deles nunca tinham sido examinados.

Em 30 dias

Retenção de longo prazo, tudo de cabeça: (1) reconstrua a tabela do diferencial entre tumor testicular, hidrocele, varicocele e cisto de epidídimo, com localização, separabilidade, consistência, dor, transiluminação e mudança com a postura; (2) explique por que a orquiectomia é feita por via inguinal e por que nenhuma agulha passa pelo escroto, começando pela embriologia; (3) escreva por extenso o que precisa constar do encaminhamento para que ele não volte e para que a preferência de fila seja aplicada, e diga qual frase do protocolo estadual cobre este paciente já que não existe protocolo escrotal de tumor; (4) diga o que a régua brasileira responde e o que ela não responde sobre rastreamento, autoexame, incidência e criopreservação de sêmen — e diga, para cada uma, qual é o documento e a data; (5) explique por que, neste tumor, o prazo legal de 60 dias para o primeiro tratamento nasce cumprido, e qual é o único dispositivo que alcança o trecho em que a demora realmente acontece.

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Agora atenda

Você é o interno da unidade básica numa terça-feira de manhã. Homem de 24 anos, entregador de aplicativo, vem por retorno: há cinco semanas foi atendido por dor no testículo esquerdo, recebeu diagnóstico de epididimite, tomou antimicrobiano por dez dias e saiu com retorno marcado para trinta dias. Diz que a dor passou logo e que veio porque o caroço continua — e que acha que aumentou. Colha a história, incluindo há quanto tempo ele percebeu e por que demorou a contar, examine o escroto com a exposição e a iluminação adequadas, decida se a massa está dentro ou ao lado do testículo, defina o que pede e em que ordem, escreva o encaminhamento e conduza a conversa — inclusive a que tem hora marcada e não volta atrás.

Câncer de testículo e massas testiculares – Do testículo, ou do lado dele — Internato | OsceLabs