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Cirurgia GeralUrologia

Vermelha, e não doeu

Câncer de bexiga e hematúria (investigação)

Reconhecer a hematúria, avaliar sangramento e retenção, distinguir indícios renais e urológicos e garantir investigação proporcional ao risco, mesmo quando a urina volta a ficar clara.

Fontes deste capítulo

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL. Faculdade de Medicina. TelessaúdeRS (TelessaúdeRS-UFRGS); RIO GRANDE DO SUL. Secretaria Estadual da Saúde. Protocolos de Regulação Ambulatorial — Urologia Adulto: versão digital 2023. Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS, 9 jul. 2015 [atual. 23 fev. 2023]. 35 p. Protocolo 8 — Hematúria; Quadro 11 — Achados sugestivos de hematúria por doença glomerular; Figura 1 — Investigação de hematúria.

INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER (Brasil). Estimativa 2026: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2026. 168 p. ISBN 978-65-88517-50-5 (impressa); ISBN 978-65-88517-52-9 (eletrônica).

BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 1.999, de 27 de novembro de 2023. Altera a Portaria de Consolidação GM/MS nº 5, de 28 de setembro de 2017, para atualizar a Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho (LDRT). Anexo LXXX: Lista A (agentes e fatores de risco com as respectivas doenças) e Lista B (doenças com os respectivos agentes), Capítulo II — Neoplasias, entrada C67.

BRASIL. Lei nº 12.732, de 22 de novembro de 2012. Dispõe sobre o primeiro tratamento de paciente com neoplasia maligna comprovada e estabelece prazo para seu início. Art. 2º, caput e § 3º — este último incluído pela Lei nº 13.896, de 30 de outubro de 2019. Arts. 2º-A e 2º-B incluídos pela Lei nº 15.233, de 7 de outubro de 2025 (conversão da Medida Provisória nº 1.301, de 2025).

SOCIEDADE BRASILEIRA DE UROLOGIA; SOCIEDADE BRASILEIRA DE PATOLOGIA. Câncer de bexiga: diagnóstico. Revista da Associação Médica Brasileira, São Paulo, v. 54, n. 2, 2008. DOI: 10.1590/S0104-42302008000200006. E: Câncer de bexiga: estadiamento e tratamento I. Revista da Associação Médica Brasileira, São Paulo, v. 54, n. 3, 2008. DOI: 10.1590/S0104-42302008000300007.

01

Responda antes de ler

Em um exercício hipotético, a citologia urinária tem sensibilidade de 35% e especificidade de 94% para carcinoma urotelial em uma população com prevalência de 25% dessa mesma doença. Considere esses parâmetros aplicáveis à população e uma investigação por cistoscopia já indicada. Qual conclusão está correta?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira, duas e quarenta da tarde, unidade básica encravada num bairro a quarenta minutos de ônibus do hospital de referência. Você é o interno da tarde, dividindo a sala 2 com uma preceptora que atende na sala 3 e passa a cabeça pela porta de vez em quando. A agenda da tarde tem onze nomes. O quarto é o de Abilio Marituba, 63 anos, 79 quilos, e ele deixa claro, antes de sentar, que não queria estar aqui.

A queixa que a técnica anotou na ficha tem cinco palavras: 'urinou sangue, já passou'. É uma anotação honesta e é também o resumo de por que este capítulo existe. Ele conta a história em menos de um minuto, com o corpo virado para a porta. Faz nove dias, num sábado de manhã, urinou vermelho. Vermelho de verdade, disse, cor de vinho, com uns fiapos escuros no fundo do vaso. Assustou. Urinou de novo à tarde, ainda vermelho, mais claro. No domingo já estava normal. E está normal desde então.

Você pergunta se doeu. Ele diz que não. Você insiste, porque a pergunta é a mais importante da consulta e a primeira resposta costuma ser aproximada: doeu para urinar, ardeu, deu vontade de ir toda hora, doeu nas costas, doeu na barriga? Não, não e não. Ele urinou vermelho do mesmo jeito que urina todo dia, sem esforço, sem ardência, sem urgência, sem cólica. A única coisa diferente foi a cor.

A consulta inteira se resolve neste ponto, e se resolve contra o instinto de todo mundo na sala, inclusive o seu. Sangue na urina que dói tem uma explicação barulhenta esperando por ele: cálculo, infecção, trauma. Sangue na urina que não dói não tem explicação nenhuma pronta — e é justamente essa a apresentação da neoplasia do urotélio. A regra que salva vida neste capítulo cabe numa linha, e vale a pena escrevê-la antes de qualquer exame: hematúria macroscópica sem dor, em adulto, é neoplasia urotelial até prova em contrário.

A segunda coisa que se decide aqui é o que fazer com o fato de ter parado. Abilio parou de sangrar no domingo e chegou tranquilo por causa disso; a esposa é que não ficou. E o instinto dele é o instinto de qualquer um: o que passa sozinho não era grave. Só que a hematúria do tumor de bexiga é intermitente por construção. O tumor sangra quando sangra, para quando o coágulo sela a superfície, e volta semanas ou meses depois. Parar é o comportamento esperado. Um paciente que sangra sem parar tem um problema mecânico agudo, e vai para o pronto-socorro por conta própria; o paciente que sangra e para é o que aparece na sua sala, e é o que se perde.

A anamnese que interessa agora tem quatro perguntas, e três delas são as que quase sempre resolvem o caso na direção errada. A primeira: o senhor toma algum remédio para afinar o sangue? Toma. Varfarina, por fibrilação atrial, há quatro anos, com controle mensal na própria unidade — e o último exame de coagulação, que ele carrega dobrado no bolso da camisa, está dentro da faixa. A segunda: já teve infecção urinária? Teve, faz uns quatro meses, aqui mesmo, tratou com comprimido por três dias e melhorou. A terceira: já teve pedra no rim? Teve uma vez, em 2011, com aquela dor que não deixa ficar parado, e passou.

Se a consulta terminasse aqui, ela terminaria com uma dessas três explicações — e é o que acontece na maior parte das vezes. Cada uma parece suficiente sozinha. Um homem anticoagulado sangrou; um homem com histórico de infecção urinária sangrou; um homem que já teve cálculo sangrou. As três são armadilhas, as três são de plantão, e o bloco de erros deste capítulo é quase inteiramente sobre elas. A versão curta é que anticoagulante em faixa terapêutica não fabrica sangramento; ele revela sangramento. E cálculo de 2011 não sangra em 2026.

A quarta pergunta é a que não se faz, e é a que muda o caso. Em que o senhor trabalhou? Abilio foi tintureiro. Dezenove anos numa lavanderia que fazia limpeza a seco, no fundo de uma galeria, trabalhando com solvente em tanque aberto até a empresa fechar, em 2009. Depois disso foi porteiro. Ele não considera isso informação médica e não teria contado se não perguntassem — e a pergunta, do jeito que a maioria de nós a faz, não teria alcançado: perguntar 'o senhor trabalha com quê?' devolve 'sou aposentado'. A anamnese ocupacional que varre a vida inteira de trabalho é do capítulo 'Em que o senhor trabalha', na apostila de Medicina do Trabalho, e este capítulo a usa sem reescrever.

O exame físico leva quatro minutos e é quase todo negativo, o que é o esperado e não tranquiliza ninguém. Pressão 132 por 84, frequência cardíaca 76 irregular, temperatura 36,2. Abdome sem massa, sem dor, sem bexiga palpável. Sem edema, sem sinal de doença sistêmica. Punho-percussão lombar indolor dos dois lados. Toque retal com próstata aumentada, simétrica, fibroelástica, sem nódulo — um achado que este capítulo não vai usar para nada, e vale dizer por quê: próstata aumentada explica jato fraco, e não explica urina cor de vinho sem dor.

Enquanto você escreve, a preceptora passa a cabeça pela porta e diz que o próximo é uma senhora que já veio três vezes este ano pela mesma coisa. É Bernarda Itaguai, 58 anos, com a terceira infecção urinária do ano. As três vezes o exame de urina mostrou sangue. As três vezes ela tratou, melhorou dos sintomas e ninguém repetiu a urina depois. Ela vai reaparecer no bloco de erros e no caso do fim do capítulo, porque a história dela é a versão mais cara do mesmo problema — e porque a diferença entre o que acontece com ela e o que acontece com o Abilio tem tradução em número, na estatística nacional, e o número não favorece as mulheres.

O que este capítulo pede de você nos próximos quarenta minutos é modesto e é difícil. Não é fazer diagnóstico: você não vai fazer o diagnóstico de câncer de bexiga numa unidade básica, e o exame que faz esse diagnóstico não está aqui. É reconhecer que o caso mudou de categoria, escrever um encaminhamento que a regulação aceite na primeira tentativa, e ativar um relógio que a lei brasileira criou e que quase ninguém sabe que existe — porque ele não começa a correr sozinho.

03

Quem adoece disso

O câncer de bexiga é o décimo tumor mais frequente do Brasil, e essa colocação diz duas coisas ao mesmo tempo: ele não é raro, e ele não é lembrado. A Estimativa 2026 do Instituto Nacional de Câncer projeta 13.110 casos novos por ano para cada ano do triênio 2026-2028, com risco estimado de 6,12 casos por 100 mil habitantes. Desses, 9.040 em homens, com risco de 8,65 por 100 mil homens, e 4.070 em mulheres, com risco de 3,71 por 100 mil mulheres.

Vale registrar de saída que a aritmética desse bloco fecha, porque conferir e dizer que fechou vale tanto quanto encontrar defeito. As duas parcelas somam exatamente o total publicado. E as taxas são internamente coerentes: as populações que elas implicam — cerca de 104,5 milhões de homens e 109,7 milhões de mulheres — somam 214,2 milhões, e essa soma devolve os 6,12 por 100 mil da taxa geral com quatro casas de acordo. Os percentuais da tabela masculina também fecham, um a um, contra o total de 255.780 casos: os 3,5% da bexiga são 9.040 dividido por 255.780, que dá 3,534%.

Entre homens, é o sexto câncer mais frequente do país, à frente de esôfago, fígado e laringe. E a geografia importa mais do que a média nacional sugere: no Sudeste ele é o sexto entre os homens, com 11,73 por 100 mil, e no Sul o sétimo, com 11,71 — quase o dobro da taxa nacional masculina. No Norte e no Nordeste ele cai para a décima primeira e a décima segunda posições. Um interno que faz internato em Porto Alegre, Curitiba ou São Paulo vai encontrar esse tumor com frequência muito maior do que um interno que faz internato em Belém, e nenhum dos dois costuma saber disso.

A décima posição geral é, na verdade, um empate técnico. O pâncreas, que vem imediatamente à frente, tem 13.240 casos estimados contra os 13.110 da bexiga: uma diferença de 130 casos, ou 1%. Nós ensinamos, discutimos e tememos o câncer de pâncreas de um jeito que não se aplica ao câncer de bexiga, e a diferença de incidência entre os dois é menor do que a margem de arredondamento das tabelas estaduais, que trabalham em múltiplos de 10.

A mortalidade brasileira em 2023 foi de 5.252 óbitos: 3.423 homens, a 3,32 por 100 mil homens, e 1.829 mulheres, a 1,69 por 100 mil mulheres. As parcelas também somam o total publicado. E aqui aparece o número deste bloco, que é uma leitura deste capítulo e não uma afirmação do documento — o INCA publica as duas séries e não faz esta conta.

A conta é a seguinte. A incidência masculina é 2,33 vezes a feminina, mas a mortalidade masculina é só 1,96 vez a feminina. Quer dizer: os homens adoecem muito mais e morrem proporcionalmente menos. Dividindo mortalidade por incidência dentro de cada sexo, o resultado é 0,384 nos homens e 0,456 nas mulheres — uma razão 18,7% maior nelas. As duas séries têm anos de referência diferentes, a incidência é estimativa para 2026 e a mortalidade é observação de 2023, e por isso a comparação é grosseira e não substitui um estudo de sobrevida. Mas ela aponta na mesma direção do que a clínica prevê, e a previsão da clínica é o resto deste capítulo: a mulher com sangue na urina tem, esperando por ela, uma explicação socialmente aceita que o homem não tem. Ela chama-se infecção urinária, ela é tratada, ela melhora, e ninguém repete a urina depois.

O principal fator de risco é o tabagismo, e a Estimativa do INCA o nomeia como o principal. A diretriz brasileira de 2008 quantifica: tabagistas têm incidência de câncer de bexiga até quatro vezes maior. A explicação de por que o cigarro atinge a bexiga, e não só o pulmão, está no bloco de mecanismo, e é uma das poucas histórias de carcinogênese que se conta inteira em três frases — o que a torna especialmente útil para conversar com o paciente.

O segundo fator de risco é ocupacional, e a mesma diretriz de 2008 lhe atribui cerca de 20% dos casos. Um em cada cinco. Se essa proporção estiver aproximadamente certa, então das 13.110 pessoas que vão adoecer no Brasil este ano, algo perto de 2.600 adoeceram por causa do trabalho — e a pergunta que identificaria essas pessoas leva quinze segundos e quase nunca é feita. O bloco de critério deste capítulo mostra que os dois documentos brasileiros que listam essa exposição não listam a mesma coisa, e que a diferença entre eles decide o encaminhamento de pacientes reais.

A distribuição por estádio é o que torna o atraso caro de um jeito específico. Segundo a diretriz brasileira de 2008, aproximadamente 70% a 80% dos tumores de bexiga são superficiais ao diagnóstico, isto é, não invadem a camada muscular. Essa é uma proporção invejável, e é a razão de o câncer de bexiga ser, na maioria das vezes, uma doença que se controla por muitos anos com ressecção endoscópica e vigilância. O problema é o outro lado da mesma estatística: a fração que já invadiu o músculo ao diagnóstico muda de doença, muda de tratamento e muda de prognóstico, e o que separa um grupo do outro, num paciente concreto, é tempo.

Duas observações de calibragem fecham este bloco. A primeira: sangue na urina é muito mais comum do que câncer de bexiga, e a maior parte das hematúrias tem causa benigna — a própria régua brasileira de encaminhamento abre o protocolo mandando descartar infecção, febre, trauma e sangramento menstrual antes de qualquer coisa. Investigar hematúria não é suspeitar de câncer em todo mundo; é recusar-se a fechar o caso sem ter olhado. A segunda: a prevalência de neoplasia geniturinária muda muito conforme a hematúria é visível ou não. A diretriz brasileira de 2008 estima cerca de 10% na hematúria microscópica e 25% na macroscópica. Um quarto. É esse número, e não a impressão de gravidade do episódio, que justifica tratar urina vermelha indolor como achado de alarme.

Guarde os dois números do parágrafo anterior, porque eles voltam no bloco de critério fazendo um trabalho que a diretriz que os publicou não fez com eles: servir de prevalência numa conta de valor preditivo. Quando essa conta é feita, um dos exames mais pedidos na investigação de hematúria no Brasil muda de estatura.

04

Por que acontece o que acontece

O trato urinário é forrado, do cálice renal até a uretra proximal, por um mesmo epitélio: o urotélio, ou epitélio de transição. É um tecido especializado numa tarefa incomum — ficar impermeável enquanto banhado, por horas, num líquido que o corpo fabricou justamente para se livrar do que não quer dentro de si. Essa é a frase que explica o capítulo inteiro. Tudo o que o rim filtra e concentra fica em contato prolongado com essa camada de células, e o tempo de contato é maior exatamente onde a urina fica parada mais tempo, que é a bexiga.

Daí a resposta para a pergunta que o paciente faz e o aluno raramente sabe responder: por que fumar dá câncer de bexiga, se a fumaça vai para o pulmão? Porque os carcinógenos do cigarro são absorvidos, circulam, são metabolizados no fígado e são eliminados pelo rim — e então ficam armazenados, concentrados, encostados na parede da bexiga até a próxima micção. O pulmão recebe a fumaça; a bexiga recebe o resíduo, mais concentrado e por mais tempo. A diretriz brasileira de 2008 registra que as aminas aromáticas, que são a família química que dá nome à exposição ocupacional deste capítulo, também estão presentes na fumaça do cigarro. É a mesma classe de agente chegando por duas portas.

As aminas aromáticas industriais fazem o mesmo caminho e por isso interessam tanto. A Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho do Ministério da Saúde, de 2023, nomeia as que reconhece como causa de neoplasia maligna da bexiga: 4-aminobifenil, 2-naftilamina, 4-cloro-orto-toluidina, orto-toluidina, benzidina e toluidina. São compostos de corante, de borracha, de couro, de tinta de impressão. Um trabalhador exposto a elas absorve pela pele e pela via respiratória, e o órgão que paga a conta é o que armazena o metabólito. A latência é longa — décadas —, e é por isso que o paciente que adoece hoje trabalhou com aquilo num emprego que acabou em outro século. A construção do nexo, o documento que se emite e o que se faz com ele são do capítulo 'Em que o senhor trabalha'; o que este capítulo faz é uma coisa só, que é fazer a pergunta e nomear o achado.

Como o agente banha o urotélio inteiro, e não um ponto dele, a doença que resulta é multicêntrica por natureza. A Estimativa do INCA descreve exatamente isso: uma neoplasia que pode surgir em diferentes locais do sistema urinário, com a bexiga como sítio mais frequente, e cujo tipo histológico mais comum é o carcinoma urotelial. Essa é a razão prática de a investigação nunca se contentar com a bexiga: quem tem um tumor de urotélio tem um urotélio doente, e o urotélio segue subindo pelos ureteres até as pelves renais. É também a razão de o paciente tratado precisar de vigilância pelo resto da vida, e não de alta.

Agora o sangramento, que é o que traz o paciente. O tumor urotelial típico cresce como uma vegetação papilífera: frondes finas presas por um pedículo estreito, projetadas para dentro da cavidade, cobertas por uma rede de vasos superficiais e imaturos. Essa arquitetura é frágil de um jeito mecânico. A parede da bexiga se contrai e relaxa várias vezes por dia; as frondes se dobram, se atritam contra a parede e contra si mesmas; um vaso de superfície rompe. O sangue cai direto num reservatório de urina, e a diluição faz o resto — basta muito pouco sangue para tingir muita urina, e é por isso que a intensidade da cor não mede a gravidade do sangramento nem o tamanho do tumor.

E por que para? Porque nada obriga o vaso a continuar aberto. O sangue coagula sobre a superfície da lesão, o coágulo sela o ponto de ruptura, o sangramento cessa em horas e a urina clareia em um ou dois dias. Nesse intervalo o tumor não mudou de tamanho, não regrediu e não foi tratado — só parou de sangrar. Essa é a diferença entre a hematúria do tumor e a hematúria de um cálculo em movimento, que sangra enquanto o cálculo raspa e para quando ele impacta ou sai, ou a de uma cistite, que sangra enquanto a mucosa está inflamada e para quando a inflamação cede. As três param. Só uma delas continua sendo a mesma doença depois de parar.

A intermitência tem uma consequência que o interno precisa antecipar, porque ela é a origem de metade dos atrasos: o intervalo entre um episódio e o seguinte é de semanas a meses, e cabe inteiro dentro do tempo que a fila leva para chamar o paciente. Quando ele finalmente é atendido no serviço especializado, está sem sangramento — e a urina limpa daquele dia é lida como resolução. Não é. Por isso o encaminhamento deste capítulo precisa registrar o episódio com data e descrição, e não o estado da urina no dia da consulta.

A anatomia organiza o estadiamento: urotélio, tecido conjuntivo subepitelial e músculo detrusor. Tumores limitados ao urotélio ou à lâmina própria são não músculo-invasivos; invasão do detrusor muda a categoria e o risco. Porém ambos os grupos têm heterogeneidade: alguns não músculo-invasivos de alto risco precisam de cistectomia, e pacientes selecionados com invasão muscular podem receber preservação trimodal. Potencial de progressão/metástase não nasce de uma linha isolada; grau, CIS, padrão histológico, extensão e resposta importam. Investigar hematúria prontamente evita atraso, mas a biologia também determina o estágio, e não se deve atribuir ao paciente a culpa por doença já avançada.

Dois exemplos independentes de tumor na parede vesical, com urotélio, lâmina própria e músculo detrusor: lesão papilífera sem invasão muscular e lesão que alcança o detrusor.
A profundidade de invasão importa para o estadiamento. Os desenhos são exemplos, não uma sequência inevitável ou uma previsão de evolução em meses. Arquitetura papilífera e base larga, isoladamente, não determinam o estágio; a avaliação anatomopatológica de amostra adequada é essencial.
05

Como se apresenta de verdade

Sangue na urina se apresenta de seis maneiras que exigem condutas diferentes, e a primeira tarefa clínica é dizer em qual delas o paciente está. A ordem a seguir vai do que se confunde com hematúria e não é, até o que é hematúria e é emergência.

Duas fronteiras ficam declaradas de saída, e as duas valem para o capítulo inteiro. A hematúria da criança e do adolescente não é deste capítulo: ela é do capítulo 'O que mata aqui não é a creatinina', na apostila de Nefrologia Pediátrica, e a diferença não é de tamanho do paciente — é de probabilidade pré-teste. Neoplasia urotelial em criança é raridade, glomerulopatia é o que se procura, e o corte de pressão arterial que decide internação é outro. A hematúria que aparece depois de uma sondagem vesical, essa também não é daqui: a hematúria ex-vacuo, a retenção por coágulo com sonda dentro e a irrigação vesical contínua são do capítulo 'O alívio é a parte fácil', que ensina a conduta delas.

1. A urina que é vermelha e a urina que só parece

Antes de investigar hematúria, é preciso ter certeza de que há hematúria. Urina vermelha, rosada, alaranjada ou cor de chá pode não ter uma hemácia dentro, e a distinção se faz com o exame mais barato que existe.

Pigmento alimentar é a causa mais inocente e a mais frequente: beterraba, amora, ruibarbo, corante artificial em pó de refresco. A urina fica rosada, o paciente não tem sintoma nenhum, e a história aparece com uma pergunta direta sobre o que comeu nas últimas vinte e quatro horas. Medicamento é a segunda: rifampicina, que consta da Rename 2024 no componente estratégico e é entregue a todo paciente em tratamento de tuberculose, tinge urina, lágrima e suor de laranja-avermelhado — e a orientação sobre isso faz parte da primeira consulta de tuberculose justamente porque, sem ela, o paciente abandona o esquema. Nitrofurantoína e metronidazol, ambas do componente básico, escurecem a urina. Levodopa, também do básico, pode escurecê-la ao ficar em repouso. A fenazopiridina, que é o analgésico urinário vendido sem receita e o campeão brasileiro de urina cor de laranja fluorescente, não consta da Rename 2024 — o paciente comprou na farmácia e frequentemente não a considera remédio, então pergunte pelo nome comercial e pela cor do comprimido.

Há duas causas de urina escura que não são pigmento de fora e sim heme de dentro, e essas são doença: hemoglobinúria e mioglobinúria. Nas duas, a fita reagente dá positiva para sangue e a microscopia não encontra hemácias, porque o que está ali é o pigmento livre, sem célula. Urina cor de coca-cola com fita positiva e sedimento sem hemácias, num paciente que ficou caído no chão, treinou em excesso ou usou uma droga nova, é rabdomiólise até prova em contrário, e quem confirma isso é a dosagem de creatinoquinase. Essa apresentação e o que ela faz com o rim são do capítulo 'Injúria renal aguda'.

A regra operacional, então, tem dois degraus e é sempre a mesma. Primeiro degrau: a fita reagente detecta a atividade peroxidásica do heme, e por isso é positiva em três situações diferentes — hemácia, hemoglobina livre e mioglobina. Fita positiva não é diagnóstico de hematúria. Segundo degrau: a microscopia do sedimento conta hemácias. Só a contagem de hemácias define hematúria. Fita positiva com microscopia sem hemácias tem três respostas possíveis, e nenhuma delas é 'sangue na urina'. Fita negativa com urina vermelha aponta para pigmento externo. É por isso que este capítulo nunca pede 'fita' e sempre pede exame de urina com sedimentoscopia.

2. Macroscópica e microscópica: não são graus, são apresentações

Hematúria macroscópica é a que o paciente vê. Não tem definição laboratorial porque não precisa: se a urina está visivelmente vermelha ou cor de chá e há hemácias no sedimento, está feito. O que importa é que ela chega pela queixa, e por isso chega uma vez só — no episódio.

Hematúria microscópica é a que o laboratório vê. O protocolo brasileiro de encaminhamento a define com precisão: três ou mais hemácias por campo na microscopia ou na sedimentoscopia, ou valor acima do limite de referência quando o método for quantitativo, como a citometria de fluxo. Ela quase nunca chega pela queixa. Chega por exame pedido para outra coisa — pré-operatório, rotina de hipertensão, avaliação de proteinúria —, e é por isso que o médico que a encontra costuma não ser o médico que a pediu.

Hematúria macroscópica convincente pode justificar investigação a partir de um episódio. Na microscópica, confirmar amostra adequada e quantidade de hemácias e estratificar risco; uma amostra com ≥3 hemácias/campo pode estabelecer a definição. Repetição após causa transitória ou em baixo risco é diferente de impor dois exames e seis semanas a todos.

Um alerta de leitura de exame que vale a consulta inteira: 'hemácias' e 'hematúria' na mesma folha podem estar medindo coisas diferentes conforme o laboratório. Alguns relatam por campo, outros por mililitro, outros por citometria com faixa de referência própria. O protocolo brasileiro previu isso ao escrever a definição em duas mãos — por campo e por limite de referência do método. Na prática, isso significa uma coisa só: leia a unidade e a faixa impressas no laudo antes de decidir se aquele número é ou não é hematúria. Um valor de 15 hemácias por mililitro e um valor de 15 hemácias por campo não são o mesmo achado, e a diferença entre eles passa de três ordens de grandeza: pela conta do capítulo Urina tipo I e urocultura, da apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, uma hemácia por campo, no sedimento padronizado, equivale a 3.200 a 4.800 por mililitro, e 15 por campo são 48.000 a 72.000 por mililitro — de 3.200 a 4.800 vezes os 15 por mililitro.

3. Glomerular ou urológica: a bifurcação que decide para quem se liga

Toda hematúria confirmada se divide em duas, e a divisão não é acadêmica: ela decide se o paciente vai para o nefrologista ou para o urologista, e o protocolo brasileiro escreve as duas listas separadamente. Hematúria glomerular é sangue que atravessou a membrana de filtração; hematúria urológica é sangue que entrou no trato urinário depois do glomérulo, em qualquer ponto do caminho.

O achado que mais separa é a hemácia dismórfica. A hemácia que passou pela fenda de filtração e depois percorreu o túbulo sob gradiente osmótico chega deformada, com protrusões e perda de contorno; a hemácia que entrou por uma lesão de mucosa chega inteira, com a forma de sempre. O protocolo brasileiro registra o que fazer com o percentual quando o laboratório o informa: acima de 70% de dismorfismo é tipicamente glomerular, abaixo de 30% é tipicamente não glomerular, e a faixa de 30% a 70% é de origem indeterminada — e a conduta que ele indica para essa faixa do meio é a que o aluno não espera: avaliação urológica E nefrológica, as duas.

O quadro brasileiro de achados sugestivos de doença glomerular tem seis entradas, e vale conhecer as seis porque nenhuma delas sozinha é obrigatória: pesquisa de hemácias dismórficas positiva, especialmente com acantócitos; presença de acantócitos no exame de urina; proteinúria; cilindros hemáticos; insuficiência renal, com elevação de creatinina e/ou ureia; e história familiar de nefrite hereditária ou de doença renal policística. A leitura do sedimento dentro do contexto de injúria renal — cilindro granuloso, cilindro leucocitário, o que cada padrão significa para a categoria da lesão — é do capítulo 'Injúria renal aguda', que é dono dela; aqui interessa apenas o que separa glomerular de urológica num paciente cuja creatinina pode estar perfeitamente normal.

E há um achado que faz o trabalho contrário, decidindo pelo lado urológico com força que nenhum outro tem: o coágulo. Sangue que se coagula precisa de volume e de espaço livre para se organizar, e o néfron não oferece nem um nem outro — o sangue glomerular sai diluído, célula a célula, misturado ao filtrado, e não forma coágulo. Coágulo na urina, ou o relato do paciente de que saíram 'fiapos' ou 'pedaços escuros', é sangramento de superfície num reservatório: bexiga, ureter, pelve renal ou próstata. Um paciente com coágulos não é do nefrologista. E, no protocolo brasileiro, hematúria macroscópica com coágulos na ausência de infecção é, por si só, critério de encaminhamento à urologia, sem exigir confirmação em segundo exame nem pesquisa de dismorfismo.

Uma advertência sobre o que o protocolo brasileiro não resolve, e que vale registrar como limite: a linha entre os dois mundos não é limpa. Nefropatia por imunoglobulina A pode dar hematúria macroscópica franca, sincrônica com infecção de vias aéreas, e é doença glomerular. E um paciente com doença glomerular conhecida pode, evidentemente, desenvolver um tumor. A régua brasileira lida com isso mandando a faixa indeterminada de dismorfismo para os dois especialistas — e a leitura deste capítulo é que a mesma prudência se aplica quando um paciente com doença glomerular tem fatores de risco para neoplasia urotelial. Isso é leitura deste capítulo e não determinação do documento.

4. As três histórias concorrentes, e o que cada uma exigiria para ser verdadeira

A hematúria macroscópica indolor quase nunca chega sem uma explicação já montada. Três se repetem tanto que vale examinar cada uma pelo avesso: em vez de perguntar se ela é plausível, perguntar o que precisaria ser verdade para ela ser a causa.

Primeira, o anticoagulante. Para que a varfarina ou um anticoagulante direto seja a causa do sangramento, seria preciso que ele criasse a lesão que sangra — e ele não cria. Anticoagulação em faixa terapêutica não rompe urotélio saudável; ela permite que uma lesão que já existia sangre mais, sangre mais cedo e sangre visivelmente. Um paciente anticoagulado com hematúria macroscópica indolor tem exatamente a mesma indicação de investigação que um paciente sem anticoagulante, e há uma leitura a mais a fazer: o anticoagulante pode ter antecipado o diagnóstico de um tumor que, sem ele, apareceria meses depois. O paciente que sangra com coagulação fora de faixa merece que se corrija a faixa; ele não merece que se pare de investigar. E vale saber o que o SUS entrega, porque isso define quem é o paciente que você vai encontrar: a varfarina consta da Rename 2024, em comprimidos de 1 mg e de 5 mg do componente básico; a rivaroxabana não consta.

Segunda, a infecção urinária. Para que a cistite explique a hematúria, ela precisa de duas coisas: sintomas de cistite acompanhando o sangramento, e resolução do sangramento junto com os sintomas. Hematúria é, de fato, sintoma aceitável de cistite — o capítulo 'Nem toda bactéria é uma doença' é dono dessa decisão, incluindo quando pedir urocultura e quando não tratar bacteriúria, e ele já escreve a fronteira que este capítulo recebe: hematúria que persiste depois do tratamento, em especial em homem, em fumante ou em pessoa acima de 50 anos, deixa de ser detalhe da cistite e vira uma investigação própria, que sai daquele capítulo. Este é o capítulo em que ela entra. O que transforma a explicação em armadilha é o passo que ninguém dá: repetir o exame de urina depois de terminado o tratamento. Sem essa repetição, a infecção não foi confirmada como causa — ela foi apenas tratada, o que é outra coisa.

Terceira, a litíase. Para que um cálculo explique a hematúria, ele precisa estar lá agora e estar se movendo. O capítulo 'A dor que não deixa ficar parado' é dono do cálculo e mede o comportamento dele: o sangue vem da abrasão do urotélio pelo cálculo em movimento, está presente em cerca de 95% dos pacientes no primeiro dia e cai para 65% a 68% no terceiro e no quarto. Quer dizer: cálculo sangra enquanto anda. Um episódio de cólica em 2011 não sangra em 2026, e uma imagem antiga mostrando cálculo não isenta ninguém — inclusive porque cálculo e tumor coexistem, e a irritação crônica é ela própria um fator de risco reconhecido.

O denominador comum das três é o mesmo, e é o que as torna perigosas: todas as três explicam a cor, e nenhuma das três explica a ausência de dor. Sangramento por anticoagulante, por infecção e por cálculo tem, em geral, contexto — coagulação alterada, disúria, cólica. O paciente deste capítulo não tem nenhum dos três contextos. Ele tem só a cor.

5. O paciente que não está sangrando na sua frente

A apresentação mais comum na atenção primária não é urina vermelha na consulta; é urina normal na consulta e um episódio de urina vermelha contado de memória. Isso muda a estrutura do atendimento inteiro, porque o achado que decide já não existe mais e não vai ser reproduzido para você.

Consequência prática número um: a anamnese vira o exame. Registre o episódio com data, número de micções acometidas, cor descrita com as palavras do paciente, presença ou não de coágulos, e a relação com o jato — se o vermelho aparece no início da micção, no fim, ou o tempo todo. Essa última pergunta tem valor topográfico grosseiro e é gratuita: sangue no início do jato sugere origem uretral; no fim do jato, colo vesical e trígono; ao longo de toda a micção, bexiga ou trato urinário superior. É uma pista, não um diagnóstico, e ela não substitui a cistoscopia — mas ela é a única informação anatômica que a consulta de atenção primária produz.

Consequência número dois: um exame de urina normal hoje não fecha nada. O tumor parou de sangrar, e é isso que ele faz. Colher urina hoje é útil para outras perguntas — infecção concomitante, proteinúria, dismorfismo se houver sangue — e é inútil como teste de exclusão do episódio passado. Um sedimento limpo depois de uma hematúria macroscópica indolor não desfaz a indicação de investigar; ele apenas confirma que o intervalo entre episódios começou.

Consequência número três: a microhematúria assintomática, achada por acaso, é o outro paciente deste capítulo, e ele é mais difícil porque não tem susto para sustentar a investigação. Ele não viu nada, não sentiu nada, e vai receber a notícia de que um exame que ele fez para o pré-operatório de uma hérnia obriga a olhar dentro da bexiga dele. É esse paciente que abandona a investigação no meio, e é por ele que o bloco de conversa deste capítulo tem uma fala pronta.

6. Quando a hematúria é emergência, e não pauta de ambulatório

Quase toda hematúria deste capítulo é problema de ambulatório com relógio. Uma minoria é emergência hoje, e o protocolo brasileiro nomeia essa minoria em uma linha: hematúria macroscópica com obstrução do trato urinário, instabilidade hemodinâmica, sepse urinária e/ou dor de difícil manejo.

A obstrução por coágulo é a mais frequente das quatro e a que o interno reconhece mais tarde do que devia, porque ela se disfarça de retenção urinária comum. O paciente sangrou, os coágulos se acumularam, o colo vesical entupiu e a bexiga não esvazia. A dor é suprapúbica, contínua, em peso; a bexiga é palpável e percute maciça; a urina que sai é pouca ou nenhuma, e vem escura. A distinção que resolve o caso é temporal e cabe numa pergunta: o sangue veio antes ou depois de parar de urinar? Se veio antes, isso é tamponamento vesical, o problema é o sangramento, e a conduta — cateter de três vias, irrigação vesical contínua com solução fisiológica estéril em sistema fechado — é do capítulo 'O alívio é a parte fácil', que a ensina inteira. Este capítulo cede a conduta e fica com o que vem depois dela, que é a pergunta de onde vinha o sangue.

Instabilidade hemodinâmica por hematúria é rara e vale ser dita para calibrar expectativa: a quantidade de sangue que assusta o paciente e a que derruba a pressão dele são grandezas muito diferentes, e o que decide transfusão é a queda de hemoglobina, não a cor da urina. Sepse urinária com hematúria é primariamente sepse, e a decisão de tratar, com qual antibiótico e por quanto tempo, é do capítulo 'Nem toda bactéria é uma doença'; o que este capítulo acrescenta é uma obrigação de agenda — a hematúria daquele episódio precisa ser reavaliada depois, com o paciente curado, e não pode ser arquivada junto com a infecção.

Dor de difícil manejo com hematúria pede que se reabra o diagnóstico em vez de escalar o analgésico. Cólica com hematúria é do capítulo da litíase; dor lombar contínua com hematúria e massa é outra história; e dor pélvica crônica em mulher, com urina estéril e sintoma vesical, tem dono próprio no capítulo 'A pelve não é uma especialidade', que ensina a conduta da síndrome dolorosa vesical e reserva a cistoscopia para a bexiga refratária, para a hematúria e para a suspeita de neoplasia — quer dizer, ele já manda para cá quem tem sangue.

06

Como fechar o diagnóstico

Há uma assimetria na investigação da hematúria, e ela precede qualquer lista de exames: o exame que fecha o diagnóstico não é feito onde o paciente é atendido. A cistoscopia mora na urologia. Tudo o que a atenção primária e a enfermaria fazem é preparar a chegada — confirmar que há sangue, classificar de que lado da bifurcação glomerular o paciente está, procurar o que muda a urgência e escrever um encaminhamento que a regulação aceite de primeira.

Vale dizer também o que este capítulo encontrou sobre a régua brasileira da investigação, porque isso delimita o que é lícito afirmar e o que não é. O protocolo brasileiro de encaminhamento traz, sim, um algoritmo de investigação de hematúria — mas ele está numa figura, sem texto extraível, declaradamente adaptada de uma diretriz norte-americana de 2020. As listas de critérios de encaminhamento são texto; o passo a passo do que pedir é imagem. Este capítulo, portanto, cita como determinação brasileira apenas o que está escrito por extenso, e trata o restante como o que é: prática clínica corrente, ancorada na diretriz brasileira de 2008 quando ela cobre o ponto e declarada como leitura própria quando não cobre.

1. A cistoscopia é o exame que decide, e a razão é anatômica

Nenhum exame de imagem enxerga bem a superfície interna da bexiga cheia de urina, e a razão é simples: o tumor superficial é uma vegetação de milímetros a poucos centímetros, com a mesma densidade do tecido ao redor, projetada para dentro de uma cavidade líquida cuja parede colaba e distende conforme o enchimento. O que resolve isso não é resolução de imagem, é olhar por dentro. A cistoscopia é a conduta padrão no diagnóstico e no acompanhamento do câncer de bexiga, e é assim que a diretriz brasileira de 2008 a nomeia.

Ela é também o exame que colhe o material: a lesão vista é ressecada por via endoscópica, e é a peça da ressecção que dá o diagnóstico histológico, o grau e — o dado que decide o prognóstico — se há músculo detrusor invadido. Por isso, no câncer de bexiga, o exame diagnóstico e o primeiro tratamento tendem a ser o mesmo ato. Guarde isso: o bloco de critério mostra o que essa coincidência faz com o prazo legal de 60 dias.

Dois números da diretriz brasileira de 2008 precisam ser lidos com cuidado, porque estão lado a lado no mesmo parágrafo e medem coisas diferentes. O primeiro: uma lesão compatível com câncer vista à cistoscopia se correlaciona com câncer no exame anatomopatológico em mais de 90% dos casos. O segundo: a cistoscopia convencional não detecta cerca de 25% dos tumores pequenos. O primeiro é uma medida de acerto do que ela vê; o segundo é uma medida do que ela deixa de ver. Não são contraditórios, mas o documento não distingue um do outro, e a leitura apressada transforma os 'mais de 90%' em sensibilidade. Não são. A leitura correta é: quando a cistoscopia acusa, ela quase sempre está certa; quando ela não acusa, ela não garante ausência de tumor pequeno.

A consequência prática dessa distinção é a vigilância. Uma cistoscopia negativa num paciente com hematúria macroscópica indolor e fatores de risco não encerra o caso — encerra aquele exame. A diretriz brasileira de 2026 mantém a cistoscopia como padrão-ouro para a confirmação diagnóstica e dá a medida de quanto o seguimento dura: no tumor não músculo-invasivo de baixo risco, cistoscopia aos 3 meses, depois aos 9 e então anual por 5 anos; no de alto risco, cistoscopia com citologia urinária aos 3 meses, depois a cada 3 meses por 2 anos, a cada 6 meses até 5 anos e anual em seguida. Quem decide a periodicidade no caso concreto é o urologista, mas a informação que o interno precisa levar para a conversa é essa: o seguimento existe, é longo e é o que sustenta o bom prognóstico — não é alta.

2. Imagem: o trato superior é o que ela existe para responder

Se a cistoscopia vê a bexiga, a imagem existe para ver o que a cistoscopia não alcança: rins, pelves renais e ureteres. Como o urotélio é contínuo e a doença é multicêntrica, investigar hematúria sem imagem do trato superior é investigar metade do órgão doente.

No Brasil, quem abre a investigação por imagem é a ultrassonografia de rins e vias urinárias, e o protocolo brasileiro a trata assim: ele pede que o laudo seja anexado ao encaminhamento, preferencialmente, ou descrito na íntegra com data, se realizada. Repare no 'se realizada' — a régua brasileira não a torna obrigatória para encaminhar. Ela responde bem três perguntas: há dilatação do sistema coletor, há massa renal sólida, há cálculo. E responde mal uma quarta: há tumor pequeno de bexiga. A diretriz brasileira de 2008 registra alta sensibilidade da ultrassonografia abdominal para tumores vesicais acima de 0,5 cm — o que é o mesmo que dizer que abaixo disso ela não é confiável, e é abaixo disso que está o tumor que ainda não invadiu músculo.

A tomografia com contraste, com fase excretora, é o exame que responde o trato superior com precisão, e a diretriz brasileira de 2008 já a preferia à urografia excretora para esse fim. Ela não substitui a cistoscopia e não deve ser pedida com essa expectativa. Duas ressalvas que o interno precisa antecipar: contraste iodado exige função renal conhecida antes do pedido, e a escolha da equação de estimativa da filtração e o risco de nefropatia por contraste são do capítulo 'Injúria renal aguda'; e o exame não está disponível na maior parte das unidades básicas, o que significa que pedi-lo pela unidade costuma atrasar, e não acelerar, o caminho do paciente.

A regra de bolso deste capítulo, e ela é leitura própria e não determinação de norma: pela atenção primária, peça a ultrassonografia, porque ela é acessível, é rápida e o laudo dela melhora o encaminhamento. Não segure o encaminhamento esperando a tomografia. A imagem que decide o trato superior é responsabilidade do serviço que vai fazer a cistoscopia, e transferi-la para a unidade básica é uma forma elegante de perder três meses.

3. Citologia urinária: a conta que a diretriz publicou os números e não fez

A citologia oncótica de urina é pedida com generosidade na investigação de hematúria, e é o exame deste capítulo que mais engana. A diretriz brasileira de 2008 publica os dois números que a descrevem: sensibilidade baixa, ao redor de 35%, especialmente para tumores de baixo grau; e especificidade que ela chama de extremamente elevada, em torno de 94%.

O que o documento não faz é a conta seguinte — e ela é obrigatória, porque valor preditivo não é propriedade do exame, é propriedade do exame dentro de uma prevalência. A prevalência está no próprio documento: 25% de neoplasia geniturinária entre pessoas com hematúria macroscópica. Com sensibilidade de 35%, especificidade de 94% e prevalência de 25%, o valor preditivo positivo da citologia é 66,0% e o valor preditivo negativo é 81,3%.

Traduzido para mil pacientes com hematúria macroscópica investigados com citologia: 250 têm neoplasia e 750 não têm. Dos 250 doentes, a citologia acusa 87,5 e deixa passar 162,5. Dos 750 sadios, ela acusa 45 falsamente. Ou seja, das 132,5 citologias positivas, 45 estão erradas — uma em cada três. E das 867,5 citologias negativas, 162,5 pertencem a pacientes com neoplasia: um paciente com citologia negativa ainda tem 18,7% de chance de ter a doença.

Na hematúria microscópica, cuja prevalência declarada pelo mesmo documento é de 10%, a conta piora e inverte o sinal do exame: o valor preditivo positivo cai para 39,3%. Uma citologia positiva, nesse cenário, está errada com mais frequência do que está certa. A especificidade de 94% continua sendo 94%; o que muda é que 6% de 900 pessoas sadias são 54 falsos positivos, contra apenas 35 verdadeiros positivos entre as 100 doentes.

Há um argumento a favor da citologia que a conta não derruba, e ele é o oposto do uso que se faz dela aqui: valor preditivo cresce com a prevalência, e num paciente que já tem câncer de bexiga de alto risco confirmado a prevalência de recidiva é alta. É exatamente assim que a diretriz brasileira de 2026 a usa — no seguimento do tumor não músculo-invasivo de alto risco, associada à cistoscopia, e não como triagem. O exame não é ruim; ele está sendo pedido no lugar errado da história.

Nada disso é erro de aritmética da diretriz de 2008 — os números que ela publica estão coerentes entre si. O defeito é de leitura induzida: chamar 94% de especificidade 'extremamente elevada', num documento que na mesma seção declara a prevalência, convida o leitor a tratar um resultado positivo como confirmação e um negativo como alívio, quando as próprias contas do documento não sustentam nem uma coisa nem outra. A conduta que este capítulo tira daí é curta. Citologia positiva não substitui a cistoscopia — ela reforça a urgência dela. Citologia negativa não cancela a cistoscopia — ela não move a conduta um milímetro. E, se a citologia não muda a conduta em nenhum dos dois resultados, ela não é o exame que a atenção primária deve pedir para decidir se encaminha. O protocolo brasileiro de encaminhamento, aliás, não a inclui no conteúdo mínimo do encaminhamento, e essa ausência é coerente com a conta.

4. O que se pede na atenção primária, e o que cada pedido decide

A lista útil é curta, e o critério para entrar nela é um só: o exame precisa mudar o encaminhamento, o destino ou a urgência. O que não muda nenhum dos três pode ser pedido pelo serviço que vai investigar.

Exame de urina com sedimentoscopia, sempre. Ele faz três trabalhos numa coleta: confirma que há hemácias, e não pigmento; conta as hemácias, definindo se é micro ou macroscópica pelo critério do protocolo brasileiro; e procura os achados do quadro glomerular — cilindros hemáticos, proteinúria, e o dismorfismo quando o laboratório o pesquisa. É este exame que decide se o encaminhamento vai para a urologia ou para a nefrologia.

Pesquisa de hemácias dismórficas, quando o serviço a oferece. O protocolo brasileiro a exige nominalmente no conteúdo do encaminhamento, e ela é o único item da lista que a maioria dos laboratórios municipais não faz de rotina. Quando ela não estiver disponível, escreva isso no encaminhamento, com essas palavras — 'pesquisa de hemácias dismórficas não disponível neste serviço' —, porque a ausência do dado é diferente do dado negativo, e a regulação precisa saber qual das duas está diante dela.

Creatinina sérica com data. É item obrigatório do conteúdo do encaminhamento em todos os protocolos urológicos brasileiros, e aqui ela faz dois trabalhos: entra no quadro glomerular como marcador de doença renal, e libera ou não o contraste da tomografia que o serviço de destino vai pedir.

Relação albuminúria/creatininúria ou proteinúria/creatininúria em amostra, ou proteinúria de 24 horas com o tipo de exame especificado. O protocolo brasileiro pede exatamente isso quando a hematúria é sem coágulos, e a razão é a bifurcação: proteinúria significativa acompanhando hematúria empurra o caso para o lado glomerular.

Ultrassonografia de rins e vias urinárias, quando acessível sem atraso. Anexe o laudo; se não houver laudo, descreva o resultado na íntegra com data, que é o que a régua brasileira aceita como alternativa.

E o que não se pede: citologia urinária, pela conta da seção anterior; PSA, porque hematúria não é indicação de PSA e a próstata aumentada não explica urina vermelha indolor — o PSA, quando indicado, e o rastreamento do câncer de próstata são do capítulo 'O alívio é a parte fácil', que é dono deles; e urocultura de rotina em paciente sem sintoma urinário, porque uma bacteriúria assintomática encontrada por acaso não explica a hematúria e produz um dilema de tratar ou não tratar que pertence a outro capítulo — 'Nem toda bactéria é uma doença' — e que atrasa este.

5. Micro-hematúria: confirmar a amostra e estratificar o risco

A investigação da hematúria microscópica assintomática é onde a régua brasileira é mais detalhada e, ao mesmo tempo, mais frustrante — e é onde o interno mais erra, porque a tentação de arquivar é enorme.

O protocolo local histórico descrito exige duas amostras separadas por seis semanas e dismorfismo para a regulação. Esse requisito administrativo não é uma definição universal nem justifica atraso em apresentação de alto risco. O percurso clínico atual começa com amostra adequada, exclusão de causas transitórias e risco individual. Indícios glomerulares justificam nefrologia, sem excluir investigação urológica concomitante quando indicada. O intervalo de repetição e a necessidade de cistoscopia/imagem dependem desse conjunto.

O texto do protocolo diz, com estas palavras, 'persistente após 6 ou 12 meses', e repete a mesma indefinição na lista do conteúdo do encaminhamento, pedindo que se descrevam 'também exames após 6 ou 12 meses'. Não há, no documento, regra para escolher entre os dois prazos, nem critério que diferencie quem espera seis de quem espera doze. Para o médico que precisa marcar um retorno hoje, a diferença entre seis e doze meses é a diferença entre duas condutas, e o documento não a decide. Este capítulo trata a ambiguidade como ela é, e a leitura que propõe — declarada como leitura própria, não como determinação — é usar o prazo menor: marcar o retorno em seis meses, porque a assimetria de dano é grosseira. Antecipar meia consulta custa uma consulta; atrasar seis meses num tumor que não invadiu músculo pode custar a bexiga.

Atrasos relevantes podem prejudicar o diagnóstico, enquanto investigação excessiva expõe a procedimentos sem benefício. A escolha proporcional usa risco e seguimento garantido; não se deve afirmar que todo tumor que invade músculo trocará obrigatoriamente ressecção endoscópica por cistectomia, pois a estratégia depende de avaliação oncológica completa.

Um detalhe da definição que muda quem entra na conta: o corte é de três ou mais hemácias por campo. Três. É um número baixo o suficiente para aparecer em laudos que o médico bate o olho e considera normal, sobretudo quando o laboratório imprime uma faixa de referência própria mais generosa. Leia o número, não a impressão do laudo.

6. O que fica de fora, e para onde vai

O estadiamento do tumor confirmado, a escolha entre ressecção endoscópica isolada, terapia intravesical, cistectomia radical, radioterapia e tratamento sistêmico, e o manejo da doença metastática ficam fora deste capítulo e fora do nível: não há, no acervo, capítulo de tratamento de câncer de bexiga, e este capítulo declara que não o cobre em vez de fingir que cobre. O que ele entrega ao aluno é a medida do interno — o que significa não músculo-invasor contra músculo-invasor, e o que muda para o paciente —, e isso está no bloco de conduta.

A biópsia renal, as indicações dela e o manejo das glomerulopatias do adulto também ficam de fora, e têm destino: o capítulo de síndrome nefrótica e síndrome nefrítica, na apostila de Nefrologia, é dono das glomerulopatias do adulto, da proteinúria à indicação de biópsia. O capítulo 'Injúria renal aguda' é dono da leitura do sedimento dentro da injúria, e este capítulo o cita para isso em vez de reensinar. Mas a hematúria glomerular de creatinina normal — o paciente que não tem injúria renal nenhuma e tem hemácias dismórficas — não é dele. Este capítulo, por isso, assume a triagem dela: reconhecer os achados do quadro glomerular, separar do lado urológico e encaminhar à nefrologia com o que o protocolo brasileiro exige. Do encaminhamento em diante, o raciocínio está no capítulo de síndrome nefrótica e síndrome nefrítica, na apostila de Nefrologia.

A técnica da sondagem vesical, a irrigação vesical contínua e a conduta da retenção por coágulo são do capítulo 'O alívio é a parte fácil' e do capítulo 'Sondagem vesical'. A hematúria na criança é do capítulo 'O que mata aqui não é a creatinina'. A decisão de tratar ou não tratar bacteriúria, incluindo a exceção que se aplica antes de procedimento urológico com violação de mucosa, é do capítulo 'Nem toda bactéria é uma doença', que é dono dela. A doutrina do rastreamento — o que faz de um teste um teste de rastreio, sobrediagnóstico como categoria, níveis de prevenção — é do capítulo 'O nível não está no exame', e este capítulo não a reensina; ele apenas registra, no bloco de critério, que não existe rastreamento populacional de câncer de bexiga no Brasil, e que investigar hematúria não é rastrear.

Uma última ausência que vale nomear pelo nome, porque ela explica muita coisa: não existe, no Brasil, Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas nem Diretriz Diagnóstica e Terapêutica do Ministério da Saúde para câncer de bexiga. Há para adenocarcinoma de próstata, para carcinoma de células renais, para estômago, esôfago, pulmão, fígado, ovário, melanoma e vários tumores hematológicos. Para a bexiga, não. Existe, sim, diretriz brasileira vigente de sociedade: a da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, de 2026, cujo capítulo de bexiga traz o estadiamento do AJCC, o tratamento por grupo de risco e o seguimento cistoscópico. Ela declara na apresentação que seu objeto é o tratamento — e a leitura confirma o recorte de um jeito que vale registrar: em todo o capítulo, a palavra hematúria aparece uma única vez, entre as contraindicações absolutas ao BCG intravesical. Para o médico que recebe o paciente com urina vermelha, o documento brasileiro mais específico continua sendo a diretriz de sociedade de 2008.

07

A régua brasileira: quem vai para onde, que relógio corre, e o que dois documentos do mesmo ano não combinam

Hematúria é um sinal a explicar. A investigação tem dois tempos: reconhecer urgências agora e esclarecer a origem sem perder o seguimento.

  1. 1Instabilidade, sangramento relevante, coágulos com retenção ou redução da diurese exigem atendimento imediato. Avalie perfusão, hemograma, função renal e necessidade de drenagem/irrigação pela equipe.
  2. 2Confirme sangue no sedimento quando apropriado e afaste contaminação ou pigmentúria. Um episódio macroscópico convincente não é apagado por urina normal no dia seguinte.
  3. 3Caracterize dor, infecção, trauma, tabagismo, exposições e anticoagulantes. Anticoagulação pode revelar sangramento, mas não dispensa investigação etiológica.
  4. 4Dismorfismo, cilindros, proteinúria e disfunção renal podem justificar nefrologia. Isso não elimina avaliação urológica quando o risco ou a apresentação também a indicam.
  5. 5Hematúria macroscópica indolor pede avaliação urológica célere, com investigação do trato inferior e superior conforme risco e contraindicações. Não exigir repetição após seis semanas para encaminhar.
  6. 6Na micro-hematúria, considere qualidade da amostra, causas transitórias e risco. Uma amostra adequadamente coletada com ≥3 hemácias/campo pode estabelecer a definição; repetição e extensão da investigação dependem do contexto, não de espera fixa para todos.
  7. 7Cistoscopia e imagem têm papéis diferentes. Citologia não substitui cistoscopia nem serve como filtro universal de encaminhamento, mas pode ser indicada pelo urologista em cenários selecionados, como suspeita de alto grau/CIS.
  8. 8Explique incerteza sem rotular câncer confirmado. Agende retorno e acompanhe a execução dos exames. Prazos administrativos não substituem urgência clínica e documentação deve refletir a hipótese real.

O que a régua brasileira não tem — e é preciso dizer, em vez de fingir que tem

Quatro ausências governam este capítulo. Primeira: não existe Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas nem Diretriz Diagnóstica e Terapêutica do Ministério da Saúde para câncer de bexiga. A relação de diretrizes de neoplasia da comissão nacional inclui adenocarcinoma de próstata e carcinoma de células renais — os dois vizinhos urológicos —, e a bexiga não está entre elas. Segunda: existe diretriz brasileira vigente sobre a doença, a da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica de 2026, mas ela declara na apresentação que seu objeto é o tratamento, e o texto confirma: em todo o capítulo de bexiga, a palavra hematúria aparece uma única vez, e é para listá-la entre as contraindicações absolutas ao BCG intravesical. Nenhuma linha sobre quem investigar, com o quê, ou quando. Terceira: o único documento brasileiro localizado que descreve como investigar a hematúria passo a passo é uma figura, sem texto, dentro do protocolo estadual de encaminhamento, declaradamente adaptada de uma diretriz norte-americana de 2020; as listas de critérios de encaminhamento são texto e são operáveis, mas o algoritmo do que pedir é imagem. Quarta: não existe rastreamento populacional de câncer de bexiga no Brasil, e nenhum documento brasileiro o recomenda. As quatro ausências têm a mesma consequência prática: a decisão que o interno toma diante de urina vermelha indolor é sustentada por um protocolo estadual de regulação de fila e por uma diretriz de sociedade de 2008, e não por norma federal de conduta. Saber disso não muda a conduta — muda o tamanho da certeza com que ela é dita ao paciente.

Sangue na urina: para onde vai o paciente — Protocolo 8, Urologia Adulto (TelessaúdeRS-UFRGS/SES-RS, versão digital 2023) — exigências históricas do protocolo local; não substituem a estratificação clínica atual

Situação clínicaDestinoO que precisa estar confirmado antes
Hematúria macroscópica com obstrução do trato urinário, instabilidade hemodinâmica, sepse urinária ou dor de difícil manejoUrgência/emergência hojeNada — o quadro é a indicação; a investigação da origem vem depois
Hematúria macroscópica com coágulos, sem infecçãoUrologiaAusência de infecção; não exige segundo exame nem pesquisa de dismorfismo
Hematúria macroscópica sem coágulos, sem sinal de doença glomerularUrologiaUm exame de urina; ausência dos achados do quadro glomerular
Hematúria macroscópica sem coágulos, com sinal de doença glomerularNefrologiaUm exame de urina; presença de achado do quadro glomerular
Hematúria microscópica assintomática, não glomerular, em pessoa com fator de risco para neoplasia urotelialUrologiaDois exames de urina com pelo menos 6 semanas de intervalo e dismorfismo negativo
Hematúria microscópica assintomática, não glomerular, sem fator de risco para neoplasia urotelialUrologia, se persistirOs mesmos dois exames, mais reavaliação após 6 ou 12 meses — o documento não escolhe entre os dois prazos
Hematúria microscópica assintomática persistente com achado de doença glomerularNefrologiaDois exames com 6 semanas de intervalo e dismorfismo positivo ou outro achado do quadro glomerular
Qualquer hematúria com infecção urinária, febre, trauma ou sangramento menstrual em cursoNenhum encaminhamento aindaO protocolo abre mandando descartar essas causas primeiro — descartar não é tratar e seguir em frente

Os relógios do câncer no Brasil, em dias, e quando cada um começa a andar

ObrigaçãoPrazoA partir de quando contaNorma
Realizar os exames necessários à elucidação diagnóstica30 diasDa solicitação fundamentada do médico responsável — não da suspeita, não da consultaLei nº 12.732/2012, art. 2º, § 3º, incluído pela Lei nº 13.896/2019
Iniciar o primeiro tratamento no SUS60 diasDo dia em que o diagnóstico for firmado em laudo patológicoLei nº 12.732/2012, art. 2º, caput
Iniciar o primeiro tratamento em prazo menor que 60 diasO que a necessidade exigirDa mesma data, quando a necessidade terapêutica estiver registrada em prontuárioLei nº 12.732/2012, art. 2º, caput, parte final
Confirmar hematúria microscópica em segundo exame de urina42 dias (6 semanas), no mínimoDo primeiro exame de urina alteradoProtocolo 8, Urologia Adulto (TelessaúdeRS-UFRGS/SES-RS, 2023)
Reavaliar hematúria microscópica persistente em pessoa sem fator de risco180 ou 365 diasDa confirmação — o documento escreve os dois prazos e não fixa critério para escolherProtocolo 8, Urologia Adulto (TelessaúdeRS-UFRGS/SES-RS, 2023)

Exposição ocupacional que causa câncer de bexiga: duas listas brasileiras de 2023, lado a lado

ExposiçãoPortaria GM/MS nº 1.999/2023 (agentes de C67)Protocolo 8, fatores de risco para neoplasia urotelial
Aminas aromáticas nomeadas: 4-aminobifenil, 2-naftilamina, 4-cloro-orto-toluidina, orto-toluidina, benzidina, toluidinaSim, com nome químico de cada umaImplícito — a lista é de ocupações (corantes, borracha, têxteis, impressão), sem nomear o agente
Produção de borracha, incluindo vulcanizaçãoSimSim (fábrica de borracha)
Corantes industriais; produção de magenta e de auraminaSimSim (fábrica de corantes) para a primeira; as duas específicas, não
Pigmentos e solventes de processos de impressãoSimSim (empresas de impressão, tipógrafos)
Emissões da exaustão de motores a dieselSimSim, por equivalência (mecânicos, motoristas de caminhão)
Formaldeído e substâncias de cosméticos para cabelosSimSim (cabeleireiros)
CouroNão aparece na lista de agentes de C67Sim (fábrica de couro)
Percloroetileno e demais agentes da limpeza a secoSimNão aparece
Arsênio e seus compostosSimNão aparece
Alcatrão de carvão; fuligem; produção de alumínioSimNão aparece
CiclofosfamidaSimNão aparece (não é ocupação, mas é fator de risco individual)
Radiações ionizantes (raios X e/ou gama)SimSim, por equivalência (radioterapia pélvica)
Schistosoma haematobiumSimNão aparece
Sondagem vesical de demora e cateterismo intermitenteNão apareceSim
TabagismoNão é entrada ocupacional de C67 nesta listaSim

Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência que fecha, e vale registrar porque é a base numérica do capítulo. A Estimativa 2026 do INCA declara 13.110 casos novos de câncer de bexiga por ano no triênio 2026-2028, com 9.040 em homens e 4.070 em mulheres: 9.040 + 4.070 = 13.110, sem sobra. As taxas também são internamente coerentes. De 9.040 casos a 8,65 por 100 mil homens decorre uma população masculina de 104.508.671; de 4.070 a 3,71 por 100 mil mulheres, uma população feminina de 109.703.504. A soma, 214.212.175, devolve 13.110 por 214.212.175 vezes 100 mil, ou 6,1201 por 100 mil — exatamente os 6,12 impressos. A mortalidade de 2023 fecha do mesmo jeito: 3.423 óbitos em homens mais 1.829 em mulheres somam os 5.252 declarados.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Segunda conferência que fecha, feita porque percentuais de tabela são onde o erro costuma morar. Os dez tipos mais frequentes em homens, na Estimativa 2026, trazem casos e percentuais impressos lado a lado, contra um total masculino de 255.780 casos exceto pele não melanoma. Recalculados um a um: próstata 30,464% para 30,5% declarados; cólon e reto 10,271% para 10,3%; traqueia, brônquio e pulmão 7,323% para 7,3%; estômago 5,407% para 5,4%; cavidade oral 4,793% para 4,8%; bexiga 3,534% para 3,5%; esôfago 3,421% para 3,4%; fígado 2,870% para 2,9%; laringe 2,858% para 2,9%; linfoma não Hodgkin 2,573% para 2,6%. Os dez fecham no arredondamento. Registre-se, sem chamar de erro, que fígado e laringe imprimem o mesmo 2,9% com 30 casos de diferença entre eles.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Leitura deste capítulo a partir de números do INCA, e não afirmação do INCA — o documento publica as duas séries e não faz esta conta. A incidência masculina de câncer de bexiga é 2,33 vezes a feminina (8,65 contra 3,71 por 100 mil), mas a mortalidade masculina é só 1,96 vez a feminina (3,32 contra 1,69 por 100 mil). Dividindo mortalidade por incidência dentro de cada sexo: 3,32/8,65 = 0,384 nos homens e 1,69/3,71 = 0,456 nas mulheres, uma razão 18,7% maior nelas. As séries têm anos de referência diferentes — incidência estimada para 2026, mortalidade observada em 2023 —, o que torna a comparação grosseira e não substitui estudo de sobrevida. Ela é registrada aqui porque aponta na mesma direção do mecanismo clínico que este capítulo descreve: a mulher com sangue na urina tem uma explicação socialmente disponível que o homem não tem.

Aprofundamento documental — leitura complementar. O achado de conferência mais consequente do capítulo, e ele é uma conta que a fonte publicou os ingredientes e não fez. A diretriz brasileira de 2008 declara, para a citologia urinária, sensibilidade ao redor de 35% e especificidade 'extremamente elevada, em torno de 94%'; e declara, na mesma peça, que cerca de 25% das pessoas com hematúria macroscópica e 10% das com microscópica têm neoplasia geniturinária. Com esses três números, o valor preditivo positivo na hematúria macroscópica é 66,0% e o negativo é 81,3%. Em mil pacientes: 250 doentes, dos quais a citologia acusa 87,5 e perde 162,5; e 750 sadios, dos quais ela acusa 45 falsamente. Das 132,5 citologias positivas, 45 estão erradas — uma em três. Das 867,5 negativas, 162,5 são de doentes — 18,7% de risco residual. Na hematúria microscópica, com prevalência de 10%, o valor preditivo positivo cai para 39,3%: um resultado positivo erra mais vezes do que acerta. Nada disso é erro aritmético da diretriz; é uma leitura induzida, porque chamar 94% de 'extremamente elevada' num documento que declara a prevalência convida a tratar o positivo como confirmação. A conduta que decorre: citologia positiva não substitui a cistoscopia, citologia negativa não a cancela, e um exame que não muda a conduta em nenhum dos dois resultados não é exame de triagem.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Uma janela de critério que o documento abre e não fecha, e ela decide uma consulta. O Protocolo 8 manda encaminhar à urologia a hematúria microscópica assintomática não glomerular de pessoa sem fator de risco quando 'persistente após 6 ou 12 meses', e repete a mesma redação no item 3 do conteúdo do encaminhamento, pedindo exames 'após 6 ou 12 meses'. Não há, em nenhum ponto do documento, regra que diferencie quem espera seis de quem espera doze, nem critério que permita escolher. Para quem precisa marcar um retorno hoje, seis e doze meses são duas condutas distintas, e o documento não decide entre elas. Este capítulo usa o prazo menor por assimetria de dano, e declara que essa escolha é leitura própria, não determinação da régua.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Duas listas brasileiras do mesmo ano, sobre a mesma pergunta, que não coincidem — e a divergência muda encaminhamento. O Protocolo 8 exige que o encaminhamento declare, em campo próprio, se há fator de risco para neoplasia urotelial, sim ou não; e define esses fatores por uma lista de ocupações: fábrica de corantes, borracha, couro, têxteis, produtos de pintura, empresas de impressão, pintores, mecânicos, tipógrafos, cabeleireiros e motoristas de caminhão. A Portaria GM/MS nº 1.999/2023 define os mesmos riscos por agente, na entrada C67, e inclui coisas que a lista de ocupações não alcança: percloroetileno e demais agentes da limpeza a seco, arsênio e seus compostos, alcatrão de carvão, fuligem, agentes da produção de alumínio, ciclofosfamida e Schistosoma haematobium. Na direção contrária, a lista de ocupações traz couro, que não aparece entre os agentes de C67 da portaria, além de cateterismo e sondagem de demora, que não são exposição química. O efeito prático é literal: o médico que responde ao campo do encaminhamento usando apenas a lista do protocolo escreve 'não' para um ex-tintureiro de lavanderia a seco e para um paciente que recebeu ciclofosfamida — duas pessoas que a lista do próprio Ministério da Saúde reconhece como expostas a carcinógeno de bexiga. E 'não' nesse campo, na hematúria microscópica, é a diferença entre encaminhar hoje e esperar seis ou doze meses.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Dois números da mesma fonte, na mesma seção, medindo coisas diferentes sem que o documento diga que são diferentes. A diretriz brasileira de 2008 escreve que uma lesão compatível com câncer vista à cistoscopia se correlaciona com câncer ao exame anatomopatológico em mais de 90% dos casos, e escreve, adiante, que a cistoscopia convencional não detecta cerca de 25% dos tumores pequenos. O primeiro número é sobre o que ela vê; o segundo, sobre o que ela não vê. Não há contradição aritmética entre eles — há ausência de rótulo, e a leitura corrente transforma os 'mais de 90%' em sensibilidade do exame, o que ele não é. A conduta que a distinção protege é a vigilância: cistoscopia negativa em paciente de risco encerra aquele exame, e não o caso.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Uma assimetria que parece erro e não é, e vale a explicação porque o aluno tropeça nela. Entre os fatores de risco para neoplasia urotelial, o Protocolo 8 usa cortes etários diferentes por sexo: mulheres com 50 anos ou mais, homens com 40 anos ou mais. Não é engano de digitação nem descuido — a incidência masculina é 2,33 vezes a feminina na estimativa nacional, e um limiar mais baixo nos homens produz o mesmo risco absoluto que um limiar mais alto nas mulheres. A consequência prática é que uma mulher de 45 anos com microhematúria isolada, sem nenhum outro fator, não é classificada como de risco por este protocolo, e um homem da mesma idade é. Vale conhecer o corte antes de preencher o campo, porque a idade é o fator que mais frequentemente decide a resposta.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Uma armadilha de consulta à Rename que este capítulo caiu de propósito para poder avisar. Procurar 'BCG' na Rename 2024 devolve resultado: a vacina BCG, pó para suspensão injetável, do Componente Estratégico, código J07AN01. É a vacina da tuberculose. O BCG intravesical — a imunoterapia instilada na bexiga, que é o tratamento adjuvante padrão do tumor não músculo-invasor de risco intermediário e alto, e que a diretriz brasileira de 2008 registra ter tido menor taxa de recorrência que a mitomicina C — não consta da Rename 2024 sob nenhuma forma. Conferido à mão sobre o texto bruto, e não por impressão de índice. Mitomicina, gencitabina e cisplatina também não constam: zero ocorrência no índice e zero no texto bruto. Isso não é falha da Rename; medicamento antineoplásico no SUS não é dispensado pelo elenco da Rename. Mas quem faz a busca sozinho e encontra 'vacina BCG' conclui o oposto do que os dados dizem, e é exatamente esse o erro que esta nota existe para impedir.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Um encaixe entre a lei e esta doença específica que precisa ser dito, e é leitura deste capítulo, não afirmação da norma. A Lei nº 12.732/2012 conta os 60 dias do primeiro tratamento 'a partir do dia em que for firmado o diagnóstico em laudo patológico'. No câncer de bexiga, o laudo patológico vem da ressecção transuretral — que é, ela própria, o primeiro tratamento do tumor não músculo-invasor. Quer dizer: no tumor superficial, o ato que produz o laudo e o ato que inicia o tratamento são o mesmo, e o prazo de 60 dias nasce cumprido. Toda a demora que importa clinicamente neste tumor acontece antes do laudo — entre o episódio de urina vermelha e a cistoscopia —, e é justamente o trecho que o prazo de 60 dias não cobre. O único dispositivo que alcança esse trecho é o § 3º, dos 30 dias para os exames de elucidação, e ele exige solicitação fundamentada do médico responsável para começar a correr.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Uma entrada da lista brasileira de doenças do trabalho que é correta e quase inaplicável no Brasil, e a nuance vale para não induzir erro. A Portaria GM/MS nº 1.999/2023 arrola Schistosoma haematobium entre as exposições que causam neoplasia maligna da bexiga, o que é epidemiologicamente correto no mundo. Só que a esquistossomose sob vigilância no Brasil é a mansônica: as diretrizes técnicas de vigilância publicadas pelo Ministério da Saúde em 2024 tratam da esquistossomose mansoni, e é o Schistosoma mansoni que o programa nacional monitora. A leitura deste capítulo, e ela é leitura própria, é que a entrada importa para exposição adquirida fora do país e não deve ser usada para atribuir causa ocupacional a um trabalhador brasileiro sem história de exposição no exterior.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência de uma ausência, porque “não existe” precisa ser medido antes de ser dito. A relação de Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas de neoplasia da comissão nacional de incorporação de tecnologias arrola adenocarcinoma de estômago, adenocarcinoma de próstata, câncer de cabeça e pescoço, câncer de pulmão, carcinoma de células renais, carcinoma de esôfago, carcinoma hepatocelular no adulto, leucemia mieloide aguda em adultos, leucemia mieloide aguda em crianças e adolescentes, linfoma folicular, melanoma cutâneo, leucemia linfoblástica aguda cromossoma Philadelphia positivo, mieloma múltiplo, neoplasia maligna epitelial de ovário e tumor cerebral no adulto. O número exato de entradas depende de contar as duas portarias do mesmo fármaco como uma ou como duas, e por isso não é reportado aqui; o que a contagem sustenta é a ausência. Nenhuma delas é de bexiga ou de carcinoma urotelial. Os dois vizinhos urológicos — próstata e rim — têm a sua; a bexiga não tem.

Aprofundamento documental — leitura complementar. O achado que substituiu uma afirmação errada deste capítulo, e vale contar como foi. A primeira versão do texto dizia que a única diretriz brasileira sobre câncer de bexiga era a de 2008. Está errado: a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica publicou, em 2026, o capítulo “Bexiga” das suas Diretrizes de tratamentos oncológicos, com estadiamento do AJCC, tratamento por grupo de risco e seguimento cistoscópico. O que a conferência mostrou, porém, foi mais interessante do que a correção. A apresentação da diretriz declara o próprio recorte: apoiar as decisões clínicas no tratamento, e não fazer recomendações fisiopatológicas. E o texto cumpre o recorte com uma literalidade desconcertante — em todo o capítulo, a palavra hematúria aparece exatamente uma vez, na lista de contraindicações absolutas ao BCG intravesical, ao lado das duas primeiras semanas após a ressecção, do cateterismo uretral traumático e da infecção urinária sintomática. As palavras rastreamento, atenção primária e tabagismo não aparecem nenhuma vez. Quer dizer: o Brasil tem diretriz de câncer de bexiga de 2026, e ela começa depois do diagnóstico. O trecho em que o interno atua — da urina vermelha até a cistoscopia — continua governado por um protocolo estadual de fila e por uma diretriz de sociedade de 2008.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Um número da diretriz de 2026 que muda a conversa com o paciente, e que quase nunca é dito. Entre as indicações de cistectomia radical precoce no tumor não músculo-invasivo, o documento registra que de 27% a 51% dos pacientes são reclassificados como doença muscular invasiva quando se compara o estadiamento da ressecção transuretral com o da peça de cistectomia radical. Entre um quarto e metade. Isso não é erro do documento — é a medida de quanto a ressecção subestima —, e tem duas consequências para quem trabalha antes dela: primeiro, “não invadiu o músculo” na peça da ressecção é uma estimativa e não uma sentença, o que sustenta a insistência no seguimento; segundo, quanto mais tarde o paciente chega, maior é a lesão que a ressecção precisa estadiar, e menor a chance de ela representar o tumor inteiro.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência do que o SUS entrega no ponto em que este capítulo encosta em prescrição, que é pouco e é justamente por isso que precisa ser dito. Este capítulo não prescreve fármaco: a conduta dele é pedir exame, escrever encaminhamento e marcar retorno. O único medicamento que ele discute é o anticoagulante que o paciente já usa, e aí a Rename 2024 decide quem é esse paciente no SUS: varfarina sódica consta, em comprimidos de 1 mg e de 5 mg do Componente Básico; rivaroxabana não consta, com zero ocorrência no índice e no texto bruto. Entre os fármacos que tingem urina e simulam hematúria, constam rifampicina, do Componente Estratégico, e nitrofurantoína, metronidazol e levodopa, do Componente Básico; a fenazopiridina, que é o analgésico urinário de venda livre e a causa mais comum de urina alaranjada no Brasil, não consta — o paciente a comprou por conta e não a considera remédio.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Última conferência, e ela é sobre a régua e não sobre um número. O Protocolo 8 diz, em sua primeira linha, que 'a investigação da hematúria pode ser consultada na figura 1'. A Figura 1 do documento é uma imagem, sem texto extraível, com a legenda 'Investigação de hematúria' e a fonte declarada como TelessaúdeRS-UFRGS (2023), adaptado de Barocas et al. (2020) — quer dizer, adaptada da diretriz de micro-hematúria de uma sociedade norte-americana. Os critérios de encaminhamento, esses são texto, são detalhados e são operáveis. O algoritmo do que pedir, não. Este capítulo, por isso, cita como determinação brasileira apenas o que está escrito por extenso, e não atribui à diretriz norte-americana — que não foi consultada no original — nenhuma recomendação.

08

A conduta, hora a hora

O que segue é a consulta do Abilio, passo a passo, e depois o que acontece com ele nas semanas seguintes. A conduta deste capítulo é quase toda de escritório, e é por isso que ela se perde: não há nada para fazer com as mãos, nenhum procedimento para executar, nenhuma droga para prescrever. Há uma reclassificação, um pedido de exame, um texto de encaminhamento e uma data de retorno — e cada um desses quatro tem um jeito certo e um jeito que custa meses.

Cada marco traz, ao lado do raciocínio, o que fica escrito. A origem de cada exigência está nomeada: o que vem do Protocolo 8 do documento de Urologia Adulto de 2023, o que vem da Lei nº 12.732 e o que é leitura deste capítulo.

  1. Minuto 0 a 10 — reconhecer que o caso mudou de categoria

    Três perguntas decidem tudo o que vem depois, e as três se respondem antes de qualquer exame. A primeira: doeu? Sangue na urina com dor tem uma explicação candidata e um dono — cólica é do capítulo da litíase, disúria é do capítulo da infecção urinária. Sangue na urina sem dor não tem candidato pronto, e é essa ausência que constitui o alarme. A segunda: o paciente viu, ou o laboratório viu? Macroscópica pode justificar encaminhamento com o próprio relato e avaliação inicial; micro-hematúria requer amostra adequada e estratificação, sem impor dois exames e seis semanas de espera a todo paciente. A terceira: a urina normalizou? Se sim, e é isso que costuma acontecer, o achado que decide já não existe — e a decisão passa a se apoiar inteiramente na história, que precisa ser escrita agora, com data e descrição, porque ninguém vai reproduzi-la. Feitas as três, o caso do Abilio está classificado: hematúria macroscópica indolor, com coágulos relatados, em homem de 63 anos. Pelo Protocolo 8, isso é encaminhamento à urologia com um único exame de urina, sem espera e sem confirmação em segundo exame.

    Prescrição
    • Registrar o episódio com data, número de micções acometidas, cor descrita nas palavras do paciente, presença de coágulos e a relação com o jato
    • Registrar explicitamente a ausência de dor, de disúria, de febre e de trauma — a ausência é o achado, e ela precisa estar escrita
    • Não usar o exame de urina de hoje como teste de exclusão do episódio de nove dias atrás
  2. Minuto 10 a 20 — separar o lado glomerular do lado urológico, que é o que decide o destino

    A régua brasileira divide os encaminhamentos em duas listas, e o que separa uma da outra é o quadro de achados de doença glomerular: dismorfismo positivo, acantócitos, proteinúria, cilindros hemáticos, creatinina ou ureia elevadas, história familiar de nefrite hereditária ou de rim policístico. Nenhum é obrigatório, e a presença de achados consistentes justifica avaliação renal, que pode ocorrer junto com a investigação urológica. Do lado oposto, um achado empurra para a urologia com força que os outros não têm: o coágulo. Coágulos favorecem fortemente origem não glomerular, mas não dispensam integrar os demais achados nem excluem coexistência de doenças. Abilio relatou fiapos escuros no fundo do vaso, o que é como o paciente descreve coágulo — e coágulo, sem infecção, já é critério de urologia por si só, sem depender de segundo exame nem de pesquisa de dismorfismo. A leitura da sedimentoscopia dentro de uma injúria renal, com cilindro granuloso e cilindro leucocitário, é do capítulo 'Injúria renal aguda' e não se refaz aqui; aqui a pergunta é só uma, e é de destino.

    Prescrição
    • Exame de urina com sedimentoscopia, com pesquisa de hemácias dismórficas quando o serviço a oferecer
    • Se a pesquisa de dismorfismo não estiver disponível, escrever no encaminhamento 'pesquisa de hemácias dismórficas não disponível neste serviço' — dado ausente não é dado negativo
    • Creatinina e filtração estimada, com data e comparação ao basal. O resultado ajuda a avaliar doença renal e escolha de imagem; não é uma liberação automática e isolada para contraste.
    • Relação albuminúria/creatininúria ou proteinúria/creatininúria em amostra, com o tipo de exame especificado (exigência expressa do Protocolo 8 na hematúria sem coágulos)
    • Perguntar diretamente por história familiar de nefrite hereditária e de doença renal policística — é item do quadro glomerular e ninguém pergunta
  3. Ainda na consulta — a pergunta ocupacional, que aqui não é história, é decisão

    O campo 4 do conteúdo mínimo do encaminhamento pede que se declare, sim ou não, se há fator de risco para neoplasia urotelial, e que se descreva qual. Essa resposta muda a fila: na hematúria microscópica, ela é a diferença entre encaminhar hoje e esperar seis ou doze meses. E é a pergunta que a consulta comum não alcança, porque 'o senhor trabalha com quê' devolve 'sou aposentado'. A pergunta que funciona varre a vida inteira de trabalho, emprego por emprego, e pergunta pelo que a pessoa fazia com as mãos, não pelo cargo. A técnica dessa anamnese, o nexo causal, a comunicação e o que se faz com o achado são do capítulo 'Em que o senhor trabalha', que é dono deles; este capítulo faz a pergunta, nomeia o agente e escreve. Abilio foi tintureiro de lavanderia a seco por dezenove anos — exposição a percloroetileno, que a Portaria GM/MS nº 1.999/2023 arrola entre os agentes de neoplasia maligna da bexiga e que a lista de ocupações do Protocolo 8 não menciona. Marque 'sim' e descreva o agente pelo nome: a régua estadual não o previu, mas a lista federal o reconhece, e o campo pede descrição justamente para isso.

    Prescrição
    • Perguntar por todos os empregos, do primeiro ao último, com o período em anos e o que a pessoa fazia com as mãos
    • Perguntar nominalmente por tabagismo atual e pregresso, com maço-ano, porque é o principal fator de risco e é o único modificável
    • Perguntar por radioterapia pélvica prévia, sondagem vesical de demora, cateterismo intermitente e quimioterapia prévia com ciclofosfamida
    • Escrever no encaminhamento 'fator de risco para neoplasia urotelial: sim', seguido do agente e do tempo de exposição — não deixar o campo em branco nem responder por impressão
  4. Ainda na consulta — o encaminhamento que a regulação aceita na primeira tentativa

    Encaminhamento devolvido custa entre trinta e noventa dias, e ele é devolvido por falta de item, não por erro de mérito. O Protocolo 8 lista seis itens de conteúdo mínimo, e escrever os seis é a única parte deste capítulo cujo resultado depende inteiramente de você. São eles: sinais e sintomas; resultado de creatinina sérica com data; se a hematúria for sem coágulos, os resultados dos exames com data — dois exames de urina com intervalo mínimo de seis semanas quando for microscópica, mais relação albuminúria/creatininúria ou proteinúria/creatininúria ou proteinúria de 24 horas com o tipo especificado, mais pesquisa de hemácias dismórficas; presença de fator de risco para neoplasia urotelial, sim ou não, descrito se houver; laudo de ecografia de vias urinárias anexado, preferencialmente, ou descrito na íntegra com data, se realizada; e o número da teleconsultoria, se o caso tiver sido discutido. Repare no que a régua não exige: nem citologia urinária, nem tomografia, nem PSA. Pedir o que ela não pede atrasa sem melhorar.

    Prescrição
    • Escrever os seis itens do conteúdo mínimo, na ordem, e conferir item por item antes de assinar
    • Anexar o laudo da ecografia se ela existir; se não existir e não estiver acessível rapidamente, encaminhar sem ela — o protocolo diz 'se realizada'
    • Não segurar o encaminhamento esperando tomografia: a imagem do trato superior é responsabilidade do serviço que fará a cistoscopia
    • Não usar citologia como teste que autoriza ou impede encaminhamento. Ela tem indicações selecionadas, sobretudo na suspeita de alto grau/CIS, e não substitui cistoscopia.
    • Não pedir PSA por causa de hematúria — próstata aumentada não explica urina vermelha indolor, e o PSA é do capítulo 'O alívio é a parte fácil'
  5. Ainda na consulta — a frase que faz o relógio dos 30 dias começar a andar

    Aqui está o dispositivo que quase ninguém usa, e ele é o mais barato deste capítulo. A Lei nº 12.732, de 2012, no § 3º do artigo 2º acrescentado pela Lei nº 13.896, de 2019, determina que, nos casos em que a principal hipótese diagnóstica seja a de neoplasia maligna, os exames necessários à elucidação sejam realizados no prazo máximo de 30 dias — e acrescenta a condição, no mesmo dispositivo: 'mediante solicitação fundamentada do médico responsável'. Quer dizer: o prazo não começa a correr com a suspeita, nem com a consulta, nem com o pedido. Começa com o pedido justificado por escrito. Um encaminhamento que diz 'hematúria, avaliar' não aciona nada. Um encaminhamento que diz que a principal hipótese diagnóstica é neoplasia urotelial, e escreve por quê — hematúria macroscópica indolor com coágulos, homem, 63 anos, ex-tintureiro de lavanderia a seco, fumante —, aciona um prazo legal. É a mesma consulta, é o mesmo paciente, e a diferença é um parágrafo. Que a lei está vigente é verificável: uma lei de outubro de 2025 alterou a Lei nº 12.732 acrescentando-lhe outros artigos e não tocou neste parágrafo, que segue na redação de 2019.

    Prescrição
    • Escrever, com estas palavras, que a principal hipótese diagnóstica é neoplasia urotelial, quando ela for
    • Fundamentar em uma frase: o achado, os fatores de risco e a razão de a hipótese ser a principal
    • Registrar no prontuário, com data, que a solicitação foi fundamentada nos termos do § 3º do art. 2º da Lei nº 12.732/2012
    • Entregar cópia ao paciente e explicar para que serve o papel — é ele que o paciente vai mostrar quando a fila não andar
  6. Ainda na consulta — o que se diz, e o retorno que se marca antes de o paciente sair da sala

    O paciente deste capítulo chega tranquilo e sai preocupado, e é essa inversão que precisa ser conduzida bem, porque ela é o que sustenta a adesão nos meses seguintes. Duas coisas não podem ser ditas. Não se pode dizer 'é câncer', porque ainda não é: um quarto das hematúrias macroscópicas tem neoplasia, e três quartos não têm. E não se pode dizer 'provavelmente não é nada', porque foi exatamente isso que ele já concluiu sozinho, e é o que o faria não voltar. A formulação honesta está no bloco de conversa, e o miolo dela cabe em quatro afirmações: sangue na urina sem dor é um sinal que obriga a olhar dentro da bexiga, o exame que faz isso não existe aqui, a maioria das pessoas que faz esse exame não tem câncer, e o que decide o resultado é o tempo. O retorno se marca agora, com data, e se diz a razão: quando ele voltar, a urina vai estar limpa, e isso não muda nada.

    Prescrição
    • Marcar o retorno com data antes de o paciente sair, e anotar a data no papel que ele leva
    • Explicar que a urina PODE normalizar e que isso não cancela a investigação; não prometer que o sangramento necessariamente cessará.
    • Orientar retorno imediato se houver dificuldade ou incapacidade de urinar com dor suprapúbica — retenção por coágulo é emergência e é do capítulo 'O alívio é a parte fácil'
    • Oferecer a intervenção breve para cessação do tabagismo na mesma consulta, se for o caso — é a única conduta deste capítulo que reduz risco, e a técnica é do capítulo 'Pare de fumar não é conduta'
    • Não prescrever antibiótico empírico 'por precaução' num paciente sem sintoma urinário: trata nada e apaga o achado que motivaria a reavaliação
  7. Semanas 1 a 8 — o que acontece na urologia, e por que o interno precisa saber

    O serviço de destino faz duas coisas: olha dentro da bexiga e olha o trato urinário superior. A cistoscopia é feita em regime ambulatorial, com anestésico tópico na uretra, e dura poucos minutos; o paciente costuma imaginar algo muito pior do que é, e saber descrevê-la reduz o número de faltas. A imagem do trato superior é tomografia com contraste e fase excretora, e é ela que responde a pergunta que a cistoscopia não responde: como o urotélio é contínuo do cálice até a uretra e a doença é multicêntrica, existe tumor de pelve renal e de ureter, e ele não aparece na bexiga. Se a cistoscopia encontrar lesão, o passo seguinte é a ressecção transuretral, que é ao mesmo tempo o exame que dá o diagnóstico e o primeiro tratamento do tumor superficial — a peça precisa conter músculo detrusor, porque é a presença ou ausência de invasão do músculo que classifica a doença. E há um número da diretriz brasileira de 2026 que o interno deve levar para a conversa: de 27% a 51% dos pacientes considerados não músculo-invasivos na ressecção são reclassificados como doença muscular invasiva quando se examina a peça da cistectomia radical. Entre um quarto e metade. É por isso que “não invadiu” na primeira peça é estimativa, e não sentença, e é por isso que o seguimento não é opcional. A taxa de reclassificação citada se refere a pacientes selecionados submetidos à cistectomia, não a todos com tumor não músculo-invasivo recém-diagnosticado. A qualidade da ressecção e da amostragem e a indicação de nova ressecção devem ser interpretadas pelo risco; não transmitir esse intervalo como probabilidade pessoal de todo paciente.

    Prescrição
    • Explicar a cistoscopia ao paciente antes de ele sair da sua consulta: ambulatorial, anestésico tópico, poucos minutos, desconforto ao passar
    • Explicar que uma cistoscopia normal não encerra o assunto em quem tem fator de risco — o urologista decide a vigilância
    • Não repetir exame de urina como forma de 'acompanhar' enquanto a fila anda: urina limpa é o esperado e vira argumento para desmarcar
    • Se o paciente perder a consulta, refazer o encaminhamento com a mesma fundamentação e a nova data — o relógio conta da solicitação fundamentada
  8. Depois do diagnóstico — a linha que separa duas doenças com o mesmo nome

    O laudo muda a conversa ao informar tipo, grau e invasão, mas não autoriza uma previsão binária sobre retirar ou preservar a bexiga. No não músculo-invasivo, qualidade da ressecção, nova ressecção quando indicada e estratificação orientam terapia intravesical e vigilância. Baixo risco pode receber instilação única pós-operatória quando segura; risco intermediário admite estratégias diferentes, e alto risco pode exigir BCG ou discussão de cistectomia. Hematúria macroscópica, infecção sintomática, cateterização traumática e período inadequado após ressecção podem impedir instilação de BCG naquele momento. Na doença músculo-invasiva, avaliar estadiamento e condições para terapia sistêmica/local, incluindo cistectomia ou preservação trimodal selecionada. O acesso aos medicamentos e procedimentos deve ser verificado no serviço oncológico; constar ou não de uma lista nacional não prova disponibilidade nem ausência universal. Ao interno cabe compreender a sequência, acompanhar resultados e explicar a incerteza com a equipe.

    Prescrição
    • Explicar que invasão muscular muda estadiamento e estratégia, mas não equivale automaticamente a perder a bexiga: há preservação trimodal em pacientes selecionados, enquanto alguns tumores não músculo-invasivos de alto risco também podem exigir cistectomia.
    • Não prometer ao paciente qual dos dois será o caso dele antes da peça de ressecção — a cistoscopia sugere, o patologista decide
    • Registrar no prontuário a data do laudo patológico quando ela chegar: é dela que correm os 60 dias do art. 2º da Lei nº 12.732/2012
    • Manter a pergunta ocupacional viva depois do diagnóstico: o reconhecimento do nexo tem consequências previdenciárias e é do capítulo 'Em que o senhor trabalha'
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Como saber se está funcionando

A reavaliação deste capítulo não acontece em horas, acontece em semanas e meses, e é justamente por isso que ela falha: não há monitor apitando, não há sinal vital piorando, e o paciente melhorou espontaneamente antes mesmo da primeira consulta. O que substitui o monitor é uma agenda, e a agenda é sua.

Sete parâmetros cobrem o intervalo entre o encaminhamento e a cistoscopia. A ordem é a da probabilidade de o caso se perder, e não a da gravidade — porque neste capítulo o caso se perde muito mais do que o paciente piora.

O comparecimento à consulta de urologiaNa data marcada, e ativamente procurado depois dela

Esperado: O paciente comparece e a cistoscopia é agendada. É o desfecho de processo mais importante deste capítulo, e é o único que depende de alguém olhar para uma lista.

Se não melhora: Falta ou vaga não liberada é o modo de falha número um, e ele é silencioso: ninguém é avisado. Refaça o encaminhamento com a mesma fundamentação escrita e a nova data, e registre no prontuário a tentativa anterior com data — a fundamentação renovada faz o prazo de 30 dias do § 3º do art. 2º da Lei nº 12.732/2012 correr de novo. Se a fila do município for longa, discuta o caso com o serviço de regulação e registre o número da teleconsultoria, que é item do conteúdo mínimo do encaminhamento e costuma acelerar a triagem.

Novo episódio de hematúria macroscópicaA cada contato, perguntando pela cor e não pela sensação

Esperado: Pode não haver nenhum, e a ausência é o esperado — o intervalo entre episódios é de semanas a meses. Se houver, registre com data: um segundo episódio documentado fortalece o encaminhamento e é argumento concreto de priorização.

Se não melhora: Novo episódio com coágulos, sem infecção, em paciente que ainda não foi visto pela urologia, é motivo para reencaminhar destacando o segundo evento — não para recomeçar a investigação do zero. E se o novo episódio vier com dificuldade de urinar e dor suprapúbica, deixou de ser ambulatório: é retenção por coágulo, e a conduta é do capítulo 'O alívio é a parte fácil'.

O segundo exame de urina, na hematúria microscópicaCom pelo menos 6 semanas de intervalo do primeiro, marcado no dia em que o primeiro resultou alterado

Esperado: Confirmação ou não da hematúria, com pesquisa de hemácias dismórficas. É este par de exames que o Protocolo 8 exige para encaminhar, e não um exame só.

Se não melhora: Se o segundo exame vier normal, a hematúria não está confirmada e o protocolo não indica encaminhamento — mas o paciente com fator de risco e episódio macroscópico prévio nunca esteve nessa via, e não deve ser realocado para ela. Se o segundo exame não foi colhido, ele não é um dado ausente inofensivo: sem ele, o encaminhamento volta. Marque a coleta, não a peça 'quando puder'.

Sintomas de obstrução do trato urinárioA qualquer momento, orientado ao paciente como sinal de retorno imediato

Esperado: Ausência. O paciente urina normalmente, sem dor suprapúbica e sem esforço.

Se não melhora: Incapacidade de urinar com dor suprapúbica contínua e bexiga palpável, depois de um episódio de hematúria com coágulos, é tamponamento vesical — uma das quatro situações que o Protocolo 8 manda para a urgência. Não espere a fila. A conduta do esvaziamento, do cateter de três vias e da irrigação vesical contínua é do capítulo 'O alívio é a parte fácil'; o que este capítulo acrescenta é que a origem do sangramento continua sem investigação depois de resolvida a obstrução, e precisa ser reagendada.

Hemoglobina e hematócritoSomente se houver hematúria macroscópica repetida, volumosa ou com coágulos — não de rotina

Esperado: Estabilidade. A hematúria do tumor superficial raramente causa anemia significativa, e a intensidade da cor não mede a perda: pouco sangue tinge muita urina.

Se não melhora: Queda progressiva de hemoglobina em paciente com hematúria recorrente muda a urgência do encaminhamento e pode indicar sangramento contínuo ou tumor volumoso. O que decide transfusão é a queda de hemoglobina, e nunca a cor da urina. Anemia sem relação temporal com os episódios de sangramento é outro problema e pede investigação própria.

Creatinina, proteinúria e pressão arterial, no paciente encaminhado à nefrologiaEnquanto a vaga não sai, na periodicidade que o quadro pedir

Esperado: Estabilidade dos três. O paciente do lado glomerular deste capítulo é, por definição, aquele em que o encaminhamento é para a nefrologia — e enquanto ele espera, é a função renal que se acompanha, não a cor da urina.

Se não melhora: Creatinina em elevação, proteinúria crescente ou hipertensão nova mudam a urgência e podem tirar o caso da fila ambulatorial. A partir daí, a categorização e a conduta são do capítulo 'Injúria renal aguda', e o encaminhamento passa a ser urgente. Registre que a hematúria motivou a avaliação: ela some do relato quando a creatinina entra em cena, e reaparece meses depois como pergunta não respondida.

Situação tabágica e exposição ocupacional ainda ativaEm cada retorno, e não só na primeira consulta

Esperado: Redução ou cessação do tabagismo, e afastamento da exposição quando ela persistir. É a única conduta deste capítulo que muda risco em vez de apenas medir.

Se não melhora: Manutenção do tabagismo não altera o encaminhamento nem a investigação — não condicione uma coisa à outra, e não use a fila como argumento de barganha. Se a exposição ocupacional continua acontecendo, o problema deixa de ser só deste paciente: há colegas expostos, e o encaminhamento disso é para a vigilância em saúde do trabalhador, pelo caminho que o capítulo 'A lesão que só vira acidente se alguém escrever' descreve.

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Onde o erro machuca

Atribuir a hematúria ao anticoagulante e encerrar o caso

O dano: É o erro mais frequente e o mais confortável, porque a explicação chega pronta e o paciente a aceita de imediato. Anticoagulação em faixa terapêutica não rompe urotélio saudável: ela permite que uma lesão preexistente sangre mais cedo e de forma visível. Encerrar aí converte um alerta antecipado em atraso — e a ironia é dura, porque o anticoagulante pode ter adiantado o diagnóstico de um tumor que apareceria meses depois. Quando a coagulação está fora de faixa, o erro se agrava: corrige-se a faixa, o sangramento cessa, e a resolução aparente vira prova de que a hipótese estava certa.

Como pegar a tempo: Trate o anticoagulante como um amplificador, nunca como uma causa. A conduta de investigação de hematúria macroscópica indolor é idêntica com e sem anticoagulante. Corrija a faixa se ela estiver alterada, e escreva no encaminhamento que o paciente é anticoagulado, com a droga e o último controle — informação, e não justificativa. Vale conhecer o paciente que o SUS produz: varfarina consta da Rename 2024 em comprimidos de 1 mg e 5 mg do Componente Básico; rivaroxabana não consta.

Tratar a infecção urinária e não repetir o exame de urina depois de terminado o tratamento

O dano: Este é o erro que a estatística nacional deixa ver, e ele tem sexo. Hematúria é sintoma aceitável de cistite, o antibiótico resolve os sintomas, o paciente melhora e o episódio é arquivado como infecção — sem que ninguém tenha verificado se o sangue saiu junto. Cada repetição do ciclo consome meses e reforça a explicação, e o tumor que sangrava continua sangrando entre as 'infecções'. É por isso que a paciente que volta pela terceira 'infecção urinária' do ano, sempre com sangue na urina, é o caso mais caro deste capítulo.

Como pegar a tempo: Marque, no mesmo momento em que prescreve o antibiótico, a coleta de controle depois do tratamento — e escreva no prontuário que ela existe para verificar a hematúria, não para verificar a bactéria. O capítulo 'Nem toda bactéria é uma doença' já entrega a fronteira: hematúria que persiste depois do tratamento, em especial em homem, em fumante ou em pessoa acima de 50 anos, deixa de ser detalhe da cistite e vira uma investigação própria. É esta. E o protocolo brasileiro exige descartar infecção antes de investigar hematúria — descartar significa confirmar que a urina normalizou, não tratar e seguir adiante.

Explicar a hematúria por uma litíase antiga, ou por um cálculo visto numa imagem sem relação temporal com o episódio

O dano: Cálculo sangra enquanto se move: o sangue vem da abrasão do urotélio pelo cálculo em movimento, está presente em cerca de 95% dos pacientes no primeiro dia e cai para 65% a 68% no terceiro e no quarto, segundo os números que o capítulo 'A dor que não deixa ficar parado' reúne. Um episódio de cólica de anos atrás não sangra hoje. Pior: cálculo e tumor coexistem com frequência, a irritação crônica do urotélio é ela própria fator de risco, e uma imagem que mostra cálculo é lida como diagnóstico fechado justamente porque mostra alguma coisa.

Como pegar a tempo: Exija coincidência temporal e sintoma. Para o cálculo explicar a hematúria, ele tem de estar lá agora e o paciente tem de estar com a dor que não deixa ficar parado. Hematúria indolor não é apresentação de cólica. E imagem que encontra cálculo em paciente com hematúria indolor não encerra a investigação — ela acrescenta um achado a um caso que continua aberto.

Considerar que a urina clareou significa que o problema passou

O dano: É o erro do paciente, e o problema é que o médico costuma concordar com ele. A hematúria do tumor urotelial é intermitente por construção: o coágulo sela a superfície, o sangramento cessa em horas, a urina clareia em um ou dois dias, e o tumor não mudou de tamanho. O intervalo entre episódios é de semanas a meses e cabe inteiro dentro do tempo de fila — de modo que o paciente chega ao especialista com urina limpa, e a urina limpa daquele dia é lida como resolução por todo mundo, inclusive por quem o atende lá.

Como pegar a tempo: Diga ao paciente, na primeira consulta e com estas palavras, que a urina vai normalizar e que isso não cancela nada — antecipar a normalização é o que impede que ela seja lida como cura. E escreva o encaminhamento sobre o episódio, com data e descrição, e não sobre o estado da urina de hoje. Um exame de urina normal hoje não é teste de exclusão de um episódio de nove dias atrás; é apenas a confirmação de que o intervalo começou.

Pedir citologia urinária para decidir se encaminha, e usar o resultado negativo como tranquilizador

O dano: Com os números da própria diretriz brasileira de 2008 — sensibilidade de 35%, especificidade de 94% e prevalência de 25% na hematúria macroscópica —, o valor preditivo positivo é 66,0% e o negativo é 81,3%. Em mil pacientes, das 132,5 citologias positivas 45 estão erradas, e das 867,5 negativas 162,5 são de pacientes com neoplasia. Na hematúria microscópica, com prevalência de 10%, o valor preditivo positivo cai para 39,3%: o positivo erra mais do que acerta. Uma citologia negativa usada como alta transforma um exame de baixa sensibilidade em critério de exclusão, e o preço é o tempo até a próxima consulta.

Como pegar a tempo: Não peça citologia na atenção primária para essa decisão. O Protocolo 8 não a inclui no conteúdo mínimo do encaminhamento, e a razão é aritmética: um exame que não muda a conduta em nenhum dos dois resultados não decide nada. Quem investiga é a cistoscopia. Se a citologia já tiver sido pedida por outro serviço e vier positiva, use-a para reforçar a urgência; se vier negativa, não a mencione como argumento de tranquilidade.

Encaminhar com 'hematúria a esclarecer' e deixar em branco o campo do fator de risco

O dano: Encaminhamento incompleto é devolvido, e a devolução custa entre trinta e noventa dias sem que ninguém seja avisado — o paciente descobre quando a vaga não sai. Além disso, dois campos em branco fazem trabalho ativo contra o paciente: sem a declaração de fator de risco, a hematúria microscópica cai na via de espera de seis ou doze meses em vez da via de encaminhamento imediato; e sem a frase que declara a neoplasia como principal hipótese diagnóstica, o prazo legal de 30 dias para os exames de elucidação simplesmente não começa a correr, porque o § 3º do art. 2º da Lei nº 12.732/2012 o condiciona a solicitação fundamentada do médico responsável.

Como pegar a tempo: Preencha os seis itens do conteúdo mínimo do Protocolo 8 e confira um a um antes de assinar. Responda o campo do fator de risco por interrogatório, e não por impressão: varra a vida inteira de trabalho, pergunte por tabagismo com maço-ano, por radioterapia pélvica, por sondagem de demora e por ciclofosfamida prévia. E escreva, quando for verdade, que a principal hipótese diagnóstica é neoplasia urotelial, com a justificativa em uma frase. É o parágrafo mais barato e mais poderoso deste capítulo.

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O que dizer ao paciente e à família

Sete situações que aparecem sempre neste capítulo, com uma proposta de fala e o que evitar. As falas são modelos para adaptar à sua voz, e não texto para decorar.

Todas elas têm o mesmo problema de fundo, e ele é incomum na medicina de urgência: o paciente está bem, sem sintoma nenhum, e você precisa que ele aceite um exame invasivo por causa de uma coisa que parou de acontecer. A moeda aqui não é alívio, é confiança — e ela se ganha dizendo com precisão o que já se sabe e o que ainda não se sabe.

Explicar por que uma urina que já normalizou obriga a investigar

“O senhor urinou vermelho por dois dias e parou. Eu entendo que isso pareça ter passado, mas eu preciso te explicar por que não me tranquiliza. Quando alguma coisa dentro da bexiga sangra, o sangue coagula por cima e o sangramento para sozinho — em um ou dois dias. O que causou o sangramento continua lá, do mesmo tamanho, só parou de sangrar. É assim que essas coisas se comportam: elas sangram, param, e voltam a sangrar semanas ou meses depois. Por isso a urina limpa de hoje não me responde nada sobre o que aconteceu no sábado passado. O que responde é olhar dentro da bexiga.”

Não diga: Evite “vamos observar” e “se voltar o senhor procura”. As duas frases entregam ao paciente uma decisão que é sua, e as duas contam com um segundo episódio que pode levar meses. Evite também repetir o exame de urina como se ele fosse acompanhar alguma coisa: ele vai voltar normal, e o resultado normal será usado — por ele, por você ou por quem o atender depois — como motivo para desmarcar.

Responder à pergunta direta: “é câncer, doutor?”

“Eu não sei, e não vou fingir que sei. O que eu sei é o seguinte: de cada quatro pessoas que urinam sangue visível sem dor, uma tem um tumor no trato urinário e três não têm. Então o mais provável, olhando só o número, é que o senhor esteja entre as três. O que eu não posso fazer é decidir isso pela probabilidade, porque o exame que responde existe, é rápido, e a diferença entre fazer agora e fazer daqui a seis meses pode ser a diferença entre tirar uma coisa pequena por dentro e fazer uma cirurgia grande. Por isso eu não estou te dizendo que é grave; estou te dizendo que não dá para deixar em aberto.”

Não diga: Evite os dois extremos, e eles são igualmente comuns. “Provavelmente não é nada” é a frase que faz o paciente não voltar, e é exatamente a conclusão a que ele já tinha chegado sozinho. “Isso pode ser câncer” dito sem o denominador transforma a fila de espera em três meses de terror e às vezes produz o oposto do que se quer, que é a fuga. Diga o número: um em quatro.

Fazer a pergunta ocupacional de um jeito que funcione

“Antes de terminar, eu preciso fazer uma pergunta que parece fora de lugar e não é. Eu não quero saber o que o senhor faz hoje — quero saber tudo o que o senhor já fez na vida para ganhar dinheiro, desde o primeiro serviço. Pode ser bico, pode ser sem carteira, pode ser coisa de quarenta anos atrás. E não me diga o cargo; me diga o que o senhor fazia com as mãos, e com o quê. Tinta, solvente, borracha, couro, corante, produto de limpeza, fumaça de caminhão. Eu pergunto porque algumas dessas coisas ficam décadas caladas e depois aparecem exatamente assim, do jeito que apareceu com o senhor.”

Não diga: Evite “o senhor trabalha com quê?”, que devolve “sou aposentado” e encerra o assunto. Evite perguntar só pelo último emprego: a latência dessas exposições é de décadas, e a empresa que expôs o paciente frequentemente já fechou. E evite tratar a resposta como curiosidade: se ela vier positiva, ela muda o campo do encaminhamento e tem consequências previdenciárias — o caminho disso é do capítulo “Em que o senhor trabalha”.

Descrever a cistoscopia a quem já está imaginando o pior

“O exame que vai responder isso se chama cistoscopia. É uma câmera fina que entra pelo mesmo canal por onde sai a urina e olha a bexiga por dentro. Passa um gel anestésico no canal antes, o senhor fica acordado, é feito no ambulatório e leva poucos minutos — não é cirurgia e o senhor volta para casa no mesmo dia. Incomoda na hora de passar, principalmente no começo, e a maioria das pessoas diz depois que imaginava muito pior. É o único exame que vê a parede da bexiga por dentro; nenhuma tomografia e nenhum ultrassom substituem isso.”

Não diga: Evite “não dói nada”. Incomoda, e prometer o contrário custa a confiança de todas as conversas seguintes — inclusive as sobre vigilância, que vão durar anos. Evite também prometer o resultado (“vai dar tudo certo”) e prometer prazo que não depende de você: diga o prazo que a lei prevê e diga que ele depende da regulação.

Falar com a paciente que tratou três “infecções urinárias” com sangue na urina

“A senhora fez o que foi orientado nas três vezes, e o tratamento funcionou nos sintomas — a ardência passou. O que ficou faltando foi um passo depois: repetir o exame de urina com a infecção já tratada, para ver se o sangue tinha saído junto. Isso não é culpa da senhora e não é culpa de quem atendeu; é um passo que escapa muito, e é por isso que eu estou insistindo nele agora. Sangue na urina que continua depois de tratada a infecção é outra investigação, e é essa que eu vou pedir hoje.”

Não diga: Evite atribuir erro nominalmente a colegas: além de injusto na maioria dos casos, quebra a confiança da paciente no serviço inteiro e produz abandono. Evite também minimizar o tempo perdido com “não faz mal, ainda dá tempo” — você não sabe. Diga o que será feito a partir de hoje, com a razão, e marque a data.

Explicar uma hematúria microscópica achada num exame pedido para outra coisa

“O exame mostrou sangue em quantidade que precisamos entender. Vou conferir a coleta, causas passageiras e seus fatores de risco. Conforme isso, podemos repetir a urina ou seguir diretamente para outros exames. O plano vai ficar escrito e terá retorno, mesmo que você não veja sangue.”

Não diga: Evite dizer que “não é nada” antes de confirmar, porque isso queima a segunda coleta — o paciente não volta. Evite também pedir o segundo exame “para quando puder”: sem data marcada, ele não acontece, e é ele que o protocolo exige para encaminhar. E evite antecipar cistoscopia nesta conversa: ela pode não ser necessária, e mencioná-la agora produz medo desproporcional.

Falar do cigarro sem transformar a consulta em cobrança

“Tem uma coisa que eu preciso te dizer, e não é para cobrar. O cigarro é o principal fator de risco para esse tipo de problema, e a razão é que aquilo que o senhor inala é filtrado pelo rim e fica horas armazenado dentro da bexiga, encostado na parede dela. É por isso que o cigarro chega até aqui. Isso não muda nada do que a gente vai fazer agora — o senhor vai fazer o exame do mesmo jeito, fumando ou não. Mas se o senhor quiser parar, eu tenho como ajudar, e este é um bom momento para conversar sobre isso.”

Não diga: Evite condicionar: “primeiro pare de fumar, depois a gente investiga” é errado clinicamente e é abandono. Evite culpa retrospectiva (“se o senhor não fumasse...”), que não muda desfecho e destrói a conversa. E não improvise a técnica de cessação: a intervenção breve tem método próprio, e ele é do capítulo “Pare de fumar não é conduta”.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Qual lista brasileira responde ao campo “fator de risco para neoplasia urotelial” do encaminhamento

Define os fatores de risco por uma lista de ocupações — trabalhadores em fábrica de corantes, borracha, couro, têxteis, produtos de pintura e empresas de impressão, pintores, mecânicos, tipógrafos, cabeleireiros e motoristas de caminhão —, somada a idade (mulheres com 50 anos ou mais, homens com 40 ou mais), tabagismo, sintomas irritativos ou cistite crônica não justificados por infecção, radioterapia pélvica e cateterismo intermitente ou sondagem de demora. É a lista que o formulário do encaminhamento pressupõe e a régua com que a regulação estadual tria.

Protocolo 8 — Hematúria, em Protocolos de Regulação Ambulatorial: Urologia Adulto (TelessaúdeRS-UFRGS e Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul, versão digital de 2023, última revisão em 23 de fevereiro de 2023)

Define os mesmos riscos por agente e reconhece como causadores de neoplasia maligna da bexiga o arsênio, os agentes da produção de alumínio, os da produção de magenta e de auramina, solventes orgânicos, os agentes da produção de borracha, as aminas aromáticas nomeadas uma a uma, o alcatrão de carvão, o percloroetileno e demais agentes da limpeza a seco, as emissões de motores a diesel, o formaldeído e substâncias de cosméticos capilares, o 2-mercaptobenzotiazol, pigmentos e solventes de impressão, a fuligem, o tetracloroetileno, a ciclofosfamida, os agentes da produção e beneficiamento de tecido, as radiações ionizantes e o Schistosoma haematobium. É norma federal e é a referência que o próprio Ministério da Saúde adota para as doenças oriundas do processo de trabalho.

Portaria GM/MS nº 1.999, de 27 de novembro de 2023 (Ministério da Saúde), que altera a Portaria de Consolidação GM/MS nº 5, de 2017, e dá nova redação ao Anexo LXXX — Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho, entrada C67

As duas listas não se contêm. A do protocolo estadual traz couro, cateterismo e sondagem de demora, que não aparecem entre os agentes de C67 da portaria federal; a da portaria federal traz limpeza a seco, arsênio, alcatrão de carvão, produção de alumínio e ciclofosfamida, que não aparecem na lista de ocupações do protocolo. Um ex-tintureiro de lavanderia a seco e um paciente que recebeu ciclofosfamida são “não” por uma régua e “sim” pela outra — e o campo do encaminhamento aceita uma resposta só.

Leitura deste capítulo, declarada como leitura e não como documento

Como decidir

Para o paciente à sua frente, a pergunta não é qual documento tem razão; é qual resposta descreve o risco dele. Responda o campo por interrogatório completo, e quando as duas listas discordarem, marque “sim” e descreva o agente pelo nome químico e pelo tempo de exposição — o campo pede descrição justamente porque a lista de ocupações não é exaustiva, e um regulador que lê “percloroetileno, dezenove anos em lavanderia a seco” decide melhor do que um que lê “não”. Se a exposição não constar de nenhuma das duas listas, escreva-a assim mesmo, dizendo que não consta: a informação segue disponível para quem vai avaliar e o dado não se perde. E não deixe o campo em branco — em branco não é neutro: na hematúria microscópica, ele empurra o paciente para a via de espera.

Hematúria macroscópica em paciente anticoagulado com coagulação fora da faixa terapêutica: investigar igual, ou corrigir a faixa e reavaliar antes

Manda encaminhar à urologia toda hematúria macroscópica com coágulos na ausência de infecção, e toda hematúria macroscópica sem coágulos confirmada em um exame de urina e sem evidência de doença glomerular. Não abre exceção para anticoagulação e não a menciona entre as causas benignas a descartar — a lista que ele manda descartar antes é outra: infecção urinária, febre, trauma e sangramento menstrual. Também não condiciona o encaminhamento a nenhum controle de coagulação.

Protocolo 8 — Hematúria (TelessaúdeRS-UFRGS/SES-RS, versão digital de 2023)

Corrigir a anticoagulação supraterapêutica, observar a resolução do sangramento e só investigar se ele recorrer. O argumento é de proporcionalidade: evitar exame invasivo e ocupar vaga de fila num paciente cujo sangramento tem causa iatrogênica identificada e corrigível.

Prática corrente em boa parte dos serviços brasileiros, e este capítulo não localizou documento brasileiro que a sustente por escrito

Anticoagulação, em qualquer faixa, não cria lesão de mucosa: ela reduz a capacidade de conter um sangramento que já tinha por onde começar. Nessa leitura, a coagulação fora de faixa explica a magnitude e o momento do episódio e não explica a existência dele — de modo que a resolução após a correção é esperada e não informa nada sobre a causa.

Argumento fisiopatológico, declarado como leitura deste capítulo

Como decidir

Decida pelo custo do erro em cada direção, e reconheça que os dois erros não são simétricos. Corrija a faixa sempre, porque isso é conduta própria e independente. Depois faça uma pergunta só: se este paciente não estivesse anticoagulado, você o encaminharia? Se a resposta for sim — hematúria macroscópica indolor, homem acima de 40 anos, fumante, com exposição ocupacional, com coágulos —, encaminhe, porque nenhum desses fatores foi criado pelo anticoagulante. Se a resposta for não — pessoa jovem, sem fator de risco, com sangramento leve em vigência de coagulação francamente supraterapêutica e resolução completa após a correção —, então corrigir e reavaliar é defensável, e o que a torna segura é o retorno marcado com data e um exame de urina de controle, não a suposição de que o assunto acabou. Escreva no prontuário qual das duas vias você escolheu e por quê.

Hematúria microscópica assintomática persistente em pessoa sem fator de risco: reavaliar em 6 ou em 12 meses

Manda encaminhar à urologia quando a hematúria for “persistente após 6 ou 12 meses”, e repete a mesma redação no item 3 do conteúdo mínimo do encaminhamento. O documento oferece os dois prazos e não fixa critério nenhum para escolher entre eles — não é uma posição defendida, é uma indefinição, e ela precisa ser tratada como tal em vez de ser resolvida em silêncio por hábito de serviço.

Texto literal do Protocolo 8 (TelessaúdeRS-UFRGS/SES-RS, versão digital de 2023)

Empurra para o prazo mais longo: o protocolo não impõe espera nenhuma a quem tem fator de risco e impõe espera a quem não tem, o que sinaliza que a espera é concessão deliberada ao risco baixo. Soma-se o custo de fila — cada microhematúria de baixo risco encaminhada cedo ocupa uma vaga de cistoscopia que poderia atender uma hematúria macroscópica indolor — e o encargo de exame invasivo em quem provavelmente não tem doença.

Lógica interna do mesmo Protocolo 8, de 2023, somada à doutrina de rastreamento do capítulo “O nível não está no exame”

Empurra para o prazo mais curto: antecipar meia consulta custa uma consulta e um exame de urina; atrasar seis meses num tumor que ainda não invadiu o músculo pode custar a bexiga, porque a linha entre não músculo-invasor e músculo-invasor se atravessa com o tempo. O paciente sem fator de risco tem probabilidade menor, e não probabilidade zero — a lista de fatores de risco do próprio protocolo não inclui, por exemplo, a exposição a limpeza a seco que a lista federal reconhece.

Assimetria de dano, declarada como leitura deste capítulo e não como determinação de norma

Como decidir

Escolha o prazo pelo paciente concreto e escreva a escolha no prontuário com a razão, que é o que o documento não faz por você. Três perguntas resolvem a maioria dos casos. A idade dele está perto do corte do protocolo — 40 anos para homens, 50 para mulheres? Se estiver logo abaixo, ele cruzará o corte dentro do intervalo, e o prazo curto evita reclassificá-lo tarde. A ocupação dele consta da lista federal de agentes de C67, mesmo não constando da lista de ocupações do protocolo? Se constar, ele não é um paciente sem fator de risco, e a via de espera não é a dele. A fila de cistoscopia do seu município é de semanas ou de meses? Onde a fila é longa, o prazo curto compensa parte do atraso do sistema; onde a vaga sai rápido, o prazo longo custa pouco. E, qualquer que seja o prazo, marque a data agora: a diferença entre seis e doze meses é irrelevante diante da diferença entre marcar e não marcar.

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O raciocínio, em voz alta

Abilio Marituba, 63 anos, 79 kg, chega à unidade básica numa terça-feira à tarde porque a esposa insistiu. Faz nove dias urinou vermelho, cor de vinho, com fiapos escuros no fundo do vaso, em duas micções de um mesmo sábado; no domingo já estava normal, e segue normal desde então. Não doeu, não ardeu, não deu urgência, não teve febre. Usa varfarina por fibrilação atrial há quatro anos, com controle mensal em faixa. Teve uma infecção urinária tratada há quatro meses e um episódio de cólica renal em 2011. Fumou meio maço por dia dos 18 aos 60 anos. Trabalhou dezenove anos como tintureiro numa lavanderia de limpeza a seco, com solvente em tanque aberto, até 2009. Exame físico sem alterações; abdome livre, sem bexiga palpável, punho-percussão indolor, próstata aumentada, simétrica e sem nódulo ao toque.

  1. Classificar o episódio antes de qualquer exame

    Hematúria macroscópica — ele viu —, indolor, com coágulos relatados, em homem de 63 anos, já resolvida. A ausência de dor não é uma informação neutra: ela retira do caso as três explicações que teriam dono em outro capítulo (cólica, cistite, trauma) e deixa a neoplasia urotelial como hipótese sem concorrente. Pelo Protocolo 8 do documento brasileiro de Urologia Adulto de 2023, hematúria macroscópica com coágulos, na ausência de infecção, é encaminhamento à urologia por si só — sem exigir segundo exame, sem esperar seis semanas, sem pesquisa de dismorfismo.

  2. Recusar as três explicações prontas, uma a uma, por escrito

    A varfarina está em faixa e, mesmo se não estivesse, não cria lesão de mucosa: ela permite que uma lesão preexistente sangre visivelmente. A infecção urinária de quatro meses atrás não tem relação temporal com este episódio e, além disso, nunca teve controle de urina após o tratamento — de modo que ela própria continua sendo um episódio de hematúria não esclarecido. A cólica de 2011 é irrelevante: cálculo sangra enquanto se move, e o de 2011 não está se movendo em 2026. Escreva as três exclusões no prontuário, porque elas vão ser reofertadas por outra pessoa daqui a três semanas.

  3. Separar o lado glomerular do urológico

    Aplique o quadro de achados sugestivos de doença glomerular: dismorfismo, acantócitos, proteinúria, cilindros hemáticos, creatinina ou ureia elevadas, história familiar de nefrite hereditária ou rim policístico. Abilio não tem nenhum, e tem o achado que empurra na direção contrária com mais força que qualquer outro: coágulo. Sangue glomerular sai diluído e não coagula. O destino é a urologia.

  4. Pedir só o que muda o destino, a urgência ou o encaminhamento

    Exame de urina com sedimentoscopia e pesquisa de hemácias dismórficas — o laboratório do município não faz a pesquisa, e isso vai ser escrito no encaminhamento com essas palavras. Creatinina sérica com data. Relação proteinúria/creatininúria em amostra, com o tipo especificado. Ecografia de rins e vias urinárias, que sai em dez dias. Não se pede citologia urinária: com a sensibilidade de 35% e a especificidade de 94% da diretriz brasileira, na prevalência de 25% da hematúria macroscópica, um resultado positivo acerta em dois terços das vezes e um negativo deixa 18,7% de risco — em nenhum dos dois casos a conduta muda. Não se pede PSA: próstata aumentada não explica urina vermelha indolor.

  5. Fazer a pergunta ocupacional do jeito que funciona, e usar a resposta

    A pergunta não é o que ele faz, é tudo o que já fez, com o quê, e por quantos anos. A resposta — dezenove anos de tintureiro em lavanderia a seco — é exposição a percloroetileno, que a Portaria GM/MS nº 1.999/2023 arrola entre os agentes de neoplasia maligna da bexiga. A lista de ocupações do Protocolo 8 não menciona limpeza a seco, e é por isso que este passo importa: quem responder ao campo do encaminhamento apenas conferindo a lista do protocolo escreve “não”. Escreva “sim”, e descreva: percloroetileno, dezenove anos, tanque aberto, até 2009. O nexo, a comunicação e o que se faz com ele são do capítulo “Em que o senhor trabalha”.

  6. Escrever o encaminhamento com os seis itens, e mais uma frase

    Os seis itens do conteúdo mínimo: sinais e sintomas; creatinina com data; resultados dos exames com data, incluindo a nota de que a pesquisa de hemácias dismórficas não está disponível no serviço; fator de risco presente, descrito; laudo da ecografia anexado; e número da teleconsultoria, se houver. A frase a mais é a que aciona a lei: “principal hipótese diagnóstica: neoplasia urotelial”, seguida da justificativa em uma linha — hematúria macroscópica indolor com coágulos, homem de 63 anos, tabagista de 21 maços-ano, exposição ocupacional a percloroetileno por dezenove anos. É essa fundamentação escrita que faz correr o prazo de 30 dias do § 3º do art. 2º da Lei nº 12.732/2012, que exige, com essas palavras, solicitação fundamentada do médico responsável.

  7. Conduzir a conversa e marcar o retorno antes de ele sair

    Nem “é câncer” nem “provavelmente não é nada”. O número que se diz é um em quatro: de cada quatro pessoas com sangue visível na urina sem dor, uma tem neoplasia do trato urinário. Explique que a urina vai continuar normal e que isso não cancela nada, porque o sangramento parou quando o coágulo selou a superfície e não porque a causa desapareceu. Descreva a cistoscopia — ambulatorial, anestésico tópico, poucos minutos, incomoda ao passar. Ofereça a intervenção breve para cessação do tabagismo, sem condicionar nada a ela. Marque o retorno com data, no papel que ele leva.

  8. O que acontece depois, e o que continua sendo seu

    A cistoscopia encontra uma lesão papilífera de cerca de 2 cm na parede lateral direita. A ressecção transuretral é feita três semanas depois e a peça contém músculo detrusor não invadido: carcinoma urotelial não músculo-invasor. Abilio mantém a bexiga e entra em vigilância cistoscópica de longo prazo. Duas coisas continuam sendo da unidade básica. A primeira é a data do laudo patológico registrada no prontuário, porque é dela que correm os 60 dias do art. 2º da Lei nº 12.732/2012 — e, neste tumor, o ato que produziu o laudo foi também o primeiro tratamento, de modo que o prazo nasce cumprido e não protege o trecho que de fato importava, que era o anterior. A segunda é a exposição ocupacional: ela não sai de cena com o tratamento, tem consequências previdenciárias, e o caminho dela é o do capítulo “Em que o senhor trabalha”.

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Faça você

Bernarda Itaguai, 58 anos, 68 kg, chega à mesma unidade na terça-feira seguinte, encaminhada pela enfermeira, com a queixa de “infecção urinária de novo”. É a terceira do ano. Em fevereiro teve disúria, urgência e urina turva; tratou com sulfametoxazol-trimetoprima por três dias e melhorou. Em junho, o mesmo, tratado com nitrofurantoína. Agora, em setembro, o mesmo outra vez. Os três exames de urina do ano estão no prontuário eletrônico e os três mostram hemácias: 22, 18 e 30 por campo, sem cilindros, sem proteinúria. As três uroculturas: a de fevereiro com Escherichia coli acima de cem mil unidades formadoras de colônia, as de junho e setembro negativas. Nunca foi repetido exame de urina depois de nenhum dos tratamentos. Ela nunca viu sangue na urina. Fuma quinze cigarros por dia desde os 22 anos. Trabalha há trinta e um anos como cabeleireira em salão próprio, com alisamento e coloração. Creatinina de agosto: 0,8 mg/dL. Pressão 128 por 78. Exame ginecológico e abdominal sem alterações.

  1. Primeiro: classifique a hematúria dela e diga por que a classificação muda a via

    Diga se é macroscópica ou microscópica, qual é o critério numérico que o protocolo brasileiro usa, e quantos exames com que intervalo essa categoria exige antes do encaminhamento. Diga também se os exames que ela já tem, no prontuário, cumprem ou não esse requisito.

  2. Segundo: decida se a infecção urinária explica os três episódios

    Nomeie o passo que faltou nas três vezes e diga por que a ausência dele impede que a infecção seja aceita como causa. Diga também o que as duas uroculturas negativas de junho e setembro acrescentam ao raciocínio.

  3. Terceiro: responda ao campo do fator de risco, sim ou não, e justifique

    Percorra os fatores de risco para neoplasia urotelial e diga quantos ela tem e quais, incluindo a idade, o tabagismo e a ocupação. Diga se a ocupação dela aparece na lista do protocolo de encaminhamento, e se aparece na lista federal de agentes — e o que acontece com a via dela conforme a resposta.

  4. Quarto: escreva o destino e os exames que faltam

    Diga para qual serviço ela vai, com que urgência, e liste os itens que o encaminhamento precisa conter e que ainda não existem no prontuário. Diga também qual exame frequentemente pedido nessa situação você não vai pedir, e a razão numérica.

  5. Quinto: escreva a frase que aciona o prazo legal, e diga qual prazo é

    Reproduza, em uma linha, a fundamentação que você escreveria; diga qual dispositivo legal ela aciona, qual é o prazo, e a partir de que momento ele passa a correr.

  6. Continuidade do caso e prática do internato

    Explique ao paciente por que é necessário investigar sem afirmar diagnóstico ainda não confirmado, e confirme quem acompanhará a conclusão dos exames.

  7. Questão integrativa 1

    A urina de Abilio normalizou. A investigação pode ser cancelada?

  8. Questão integrativa 2

    Um anticoagulante explica a hematúria e encerra o caso?

  9. Questão integrativa 3

    Hematúria com coágulos e dor suprapúbica muda a prioridade?

  10. Questão integrativa 4

    Proteinúria e hemácias dismórficas dispensam urologia em paciente de alto risco?

  11. Questão integrativa 5

    Citologia negativa exclui tumor de bexiga?

  12. Questão integrativa 6

    Invadiu o músculo significa obrigatoriamente retirar a bexiga?

Ver como fecharíamos

Primeiro. É hematúria microscópica: ela nunca viu sangue, e a contagem vem do laboratório. O critério do Protocolo 8 é de três ou mais hemácias por campo na microscopia, e os três exames dela — 22, 18 e 30 por campo — estão muito acima disso. A categoria exige confirmação em dois exames com intervalo mínimo de seis semanas e pesquisa de hemácias dismórficas. Ela tem três exames alterados espaçados por meses, o que cumpre com folga o requisito de número e de intervalo; o que falta é a pesquisa de dismorfismo, que não foi feita em nenhum deles. Aqui há uma armadilha de leitura que vale nomear: como os três exames foram colhidos em vigência de sintomas, eles não são, tecnicamente, hematúria microscópica assintomática — e é justamente por isso que o passo seguinte é obrigatório antes de qualquer classificação. Segundo. Não explica. O passo que faltou nas três vezes é o mesmo: repetir o exame de urina depois de terminado o tratamento, para verificar se a hematúria saiu junto com os sintomas. Sem essa repetição, a infecção foi tratada, e não confirmada como causa. O protocolo brasileiro abre o capítulo de hematúria mandando descartar causas benignas, e infecção urinária é a primeira delas — mas descartar significa demonstrar que a urina normalizou, não prescrever antibiótico e arquivar. As uroculturas negativas de junho e setembro pesam ainda mais contra a hipótese: nesses dois episódios não havia bactéria em quantidade significativa, e mesmo assim havia sangue. Isso é hematúria persistente com sintomas irritativos e cultura negativa — que, além de não ser explicada por infecção, é ela própria um dos fatores de risco listados pelo protocolo. E vale dizer o que este capítulo não decide: se ela deve ou não receber antibiótico agora, e o que fazer com bacteriúria sem sintoma, é do capítulo “Nem toda bactéria é uma doença”, que é dono dessa decisão. Terceiro. Sim, e com pelo menos quatro fatores. Idade: 58 anos, acima do corte de 50 anos que o protocolo usa para mulheres. Tabagismo: quinze cigarros por dia desde os 22 anos, o principal fator de risco, com cerca de 27 maços-ano. Sintomas miccionais irritativos não justificados por infecção urinária: é exatamente a redação do protocolo, e é o retrato dos episódios de junho e setembro, com cultura negativa. Ocupação: cabeleireira, que consta nominalmente da lista de ocupações do Protocolo 8 — e, do lado federal, a Portaria GM/MS nº 1.999/2023 arrola, entre os agentes de neoplasia maligna da bexiga, o formaldeído e outras substâncias químicas usadas em produtos cosméticos para cabelos. Este é o caso raro em que as duas listas brasileiras concordam, e vale registrar isso: elas não divergem sempre, divergem em pontos específicos. Com fator de risco presente, ela não entra na via de espera de seis ou doze meses — ela é encaminhamento agora. Quarto. Urologia, sem espera. O encaminhamento precisa dos seis itens do conteúdo mínimo, e o prontuário dela hoje tem dois: os exames de urina e a creatinina de agosto, ambos com data. Faltam: pesquisa de hemácias dismórficas — que precisa ser solicitada e, se o serviço não a fizer, registrada como indisponível com essas palavras, porque dado ausente não é dado negativo; relação albuminúria/creatininúria ou proteinúria/creatininúria em amostra, com o tipo de exame especificado; ecografia de rins e vias urinárias, com laudo anexado ou descrito na íntegra com data; a declaração do fator de risco, descrito; e o número da teleconsultoria, se o caso for discutido. O exame que não se pede é a citologia urinária. A razão é numérica: com sensibilidade de 35% e especificidade de 94%, na prevalência de 10% que a diretriz brasileira de 2008 atribui à hematúria microscópica, o valor preditivo positivo é 39,3% — um resultado positivo erra mais vezes do que acerta —, e o negativo não move a conduta. Um exame que não muda a decisão em nenhum dos dois resultados não é exame de triagem. Quinto. A frase é algo como: “Principal hipótese diagnóstica: neoplasia urotelial. Hematúria microscópica persistente em três exames ao longo de sete meses, com sintomas irritativos e uroculturas negativas em dois deles, em mulher de 58 anos, tabagista de 27 maços-ano, cabeleireira há 31 anos com exposição a produtos de alisamento e coloração. Solicito, de forma fundamentada, os exames necessários à elucidação diagnóstica.” O dispositivo é o § 3º do art. 2º da Lei nº 12.732/2012, acrescentado pela Lei nº 13.896/2019: nos casos em que a principal hipótese diagnóstica seja a de neoplasia maligna, os exames necessários à elucidação devem ser realizados no prazo máximo de 30 dias, mediante solicitação fundamentada do médico responsável. O prazo não corre da suspeita nem da consulta — corre da solicitação fundamentada. E é por isso que a frase importa: ela não é retórica, é o que faz o relógio começar a andar. No caso, a investigação urológica não deve aguardar todos os itens do encaminhamento quando isso produzir atraso. A citologia pode ser discutida pelo especialista diante de sintomas irritativos persistentes e suspeita de CIS; sua baixa sensibilidade global não a torna inútil em toda indicação. Anticoagulante ou indícios de doença renal concomitante tampouco eliminariam o percurso urológico. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. Sangramento urológico pode ser intermitente. O relato bem caracterizado e os riscos continuam relevantes. 2. Não. Ele pode precipitar ou intensificar sangramento de uma lesão subjacente. Avalie gravidade e necessidade de ajuste, mantendo investigação etiológica. 3. Sim. Suspeite de retenção por coágulos, com necessidade de avaliação imediata e drenagem/irrigação apropriada pela equipe. 4. Não necessariamente. Indicam avaliação renal, mas doenças podem coexistir; a apresentação e o risco definem se ambos os percursos são necessários. 5. Não. Ela tem sensibilidade limitada, sobretudo em baixo grau, e não substitui cistoscopia. Seu papel é complementar e selecionado. 6. Não como regra para todo paciente. A equipe define estratégia pelo estadiamento e condições; preservação trimodal é possível em selecionados, e alguns não músculo-invasivos de alto risco também exigem cistectomia.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Pelo teorema de Bayes, a probabilidade da doença após resultado negativo é [0,65×0,25]/[(0,65×0,25)+(0,94×0,75)] = 18,7%; portanto, o valor preditivo negativo é 81,3%. O valor preditivo positivo é [0,35×0,25]/[(0,35×0,25)+(0,06×0,75)] = 66,0%. Especificidade não é valor preditivo positivo. Se a prevalência diminuir e os demais parâmetros forem mantidos, o valor preditivo positivo cai e o negativo sobe; não dizer que todos os aspectos do desempenho pioram. São números hipotéticos para a mesma doença-alvo, não uma estimativa clínica obtida misturando prevalência de todas as neoplasias geniturinárias com desempenho para câncer de bexiga. Citologia negativa não exclui carcinoma urotelial nem substitui cistoscopia indicada; a citologia pode ter papel complementar, sobretudo em doença de alto grau.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sete perguntas para responder de cabeça, sem consultar. Por que o fato de a hematúria ter parado sozinha não tranquiliza — o que exatamente aconteceu para ela parar? Qual achado da urina exclui origem glomerular com mais força que qualquer outro, e por quê? Quais são os seis itens do quadro brasileiro de achados sugestivos de doença glomerular? Quantos exames de urina, com que intervalo, o protocolo brasileiro exige antes de encaminhar uma hematúria microscópica, e quantos exige numa macroscópica? Com sensibilidade de 35% e especificidade de 94%, numa prevalência de 25%, qual é o valor preditivo positivo da citologia urinária — e o que isso faz com a decisão de pedi-la? Qual é a condição escrita no § 3º do art. 2º da Lei nº 12.732/2012 para que o prazo de 30 dias comece a correr? E o que muda para o paciente entre um tumor não músculo-invasor e um músculo-invasor?

Em 30 dias

Cinco tarefas de trinta dias, e a primeira é a que mais rende. Primeira: abra os últimos vinte exames de urina do seu serviço com hemácias acima de três por campo e conte em quantos alguém registrou uma conduta — qualquer conduta. É a contagem que mede o efeito deste capítulo na sua prática — a sua impressão, não. Segunda: pegue os três últimos encaminhamentos de hematúria do seu serviço e confira, item por item, contra os seis do conteúdo mínimo do Protocolo 8; conte quantos passariam na regulação sem devolução. Terceira: descubra, no seu município, quanto tempo leva entre o encaminhamento e a cistoscopia, perguntando a quem regula e não a quem chuta — o número muda a sua decisão entre reavaliar em seis ou em doze meses. Quarta: escreva, e guarde, um modelo de duas linhas com a frase de fundamentação que aciona o prazo legal, para não improvisá-la no meio da consulta. Quinta: leia a entrada C67 da Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho e compare-a com a lista de ocupações do Protocolo 8; anote as três exposições que aparecem numa e não na outra, porque são elas que você vai deixar passar.

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Agora atenda

Um homem de 63 anos senta na sua cadeira já tranquilo: urinou vermelho há nove dias, com uns fiapos escuros, e passou sozinho no domingo. Não doeu nada. Ele toma anticoagulante, teve uma infecção urinária há quatro meses e uma pedra em 2011 — três explicações prontas, e é você que precisa recusar as três. Atenda o caso: descubra o que a ausência de dor significa, faça a pergunta sobre trabalho que a consulta comum não alcança, decida entre nefrologia e urologia com o que a urina mostra, e escreva o encaminhamento com a frase que faz o relógio de trinta dias começar a andar. Ele vai sair da sala achando que está bem. A parte difícil é fazer com que ele volte.

Câncer de bexiga e hematúria – Vermelha, e não doeu — Internato | OsceLabs